Físicos e Cirurgiões Medievais Portugueses. Contextos Socioculturais, Práticas e Transmissão de Conhecimentos (1192-1340)
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André Filipe Oliveira da Silva Físicos e cirurgiões medievais portugueses. Contextos socioculturais, práticas e transmissão de conhecimentos (1192-1340) Dissertação realizada no âmbito do Mestrado em Estudos Medievais, orientada pelo Professor Doutor Luís Miguel Ribeiro de Oliveira Duarte Faculdade de Letras da Universidade do Porto Junho de 2015
2 Físicos e cirurgiões medievais portugueses. Contextos socioculturais, práticas e transmissão de conhecimentos (1192-1340) André Filipe Oliveira da Silva Dissertação realizada no âmbito do Mestrado em Estudos Medievais orientada pelo Professor Doutor Luís Miguel Duarte Membros do Júri Professora Doutora Maria Cristina Almeida e Cunha Alegre Faculdade de Letras da Universidade do Porto Professor Doutor José Francisco Preto Meirinhos Faculdade de Letras da Universidade do Porto Professor Doutor Luís Miguel Ribeiro de Oliveira Duarte Faculdade de Letras da Universidade do Porto Classificação obtida: 19 valores.
Sumário Sumário ............................................................................................................................. 3 Agradecimentos ................................................................................................................ 6 Resumo ............................................................................................................................. 7 Abstract ............................................................................................................................. 7 Introdução ......................................................................................................................... 8 Apreciação crítica da bibliografia existente sobre o tema .............................................. 13 1 - Da Antiguidade à Idade Média – O longo caminho das profissões médicas ............ 18 1.1 – De Hipócrates ao crepúsculo de Roma .............................................................. 18 1.1.1 – A medicina romana no atual território português ........................................ 22 1.2 – O Oriente, de novo: Medicina (em) Árabe, da Pérsia ao al-Andalus ................ 23 1.3 – Salerno, ou o renascer do ensino e da profissão médica no Ocidente latino ..... 25 2 – O meio: Introdução da medicina no Portugal Medieval (ca. 1150-1225) ................ 27 2.1 – Médicos e físicos – Uma questão semântica? .................................................... 27 2.1.1 – A realidade em Portugal e os paralelismos ibéricos .................................... 29 2.2 – Monges-enfermeiros e enfermarias monásticas ................................................. 35 2.2.1 – A domus infirmorum ................................................................................... 37 2.2.2 – O infirmarius ............................................................................................... 40 2.2.3 – Hábitos de saúde: As sangrias ..................................................................... 41 2.2.4 – Enfermarias monásticas e monges-enfermeiros vs. físicos e cirurgiões ..... 44 3 – Os indivíduos ............................................................................................................ 46 3.1 – Os primeiros físicos e cirurgiões documentados em território português ......... 46 3.2 – Origem e enquadramento social da atividade .................................................... 49 3.2.1 – Origem social .............................................................................................. 49
4 3.2.2 – Enquadramento sociocultural da atividade – da corte ao burgo.................. 50 3.2.3 – Porquê a medicina? ..................................................................................... 54 3.3 – Indivíduos excecionais ....................................................................................... 57 3.3.1 – Frei Gil de Santarém ................................................................................... 57 3.3.2 – Pedro Julião ................................................................................................. 62 3.3.3 – João Rol ....................................................................................................... 63 3.3.4 – Gil de Leiria ................................................................................................ 64 3.3.5 – Afonso Dinis ............................................................................................... 65 3.4 – Na margem ......................................................................................................... 67 3.4.1 – Os Judeus..................................................................................................... 67 3.4.2 – Os Muçulmanos........................................................................................... 68 3.4.3 – As mulheres ................................................................................................. 69 4 – O saber ...................................................................................................................... 72 4.1 – Aprendizagem e formação dos praticantes ........................................................ 72 4.1.1 - Haveria ensino médico em Portugal antes da fundação da Universidade? .. 72 4.1.2 – Portugueses em escolas médicas estrangeiras ............................................. 75 4.1.3 – A medicina na Universidade de Lisboa-Coimbra ....................................... 83 4.1.4 – A transmissão de conhecimento médico em meios não universitários ou parauniversitários ................................................................................................... 90 4.2 – As obras: Manuscritos e circulação ................................................................... 94 4.2.1 – Antes dos físicos.......................................................................................... 94 4.2.2 – Circulação de manuscritos desde além-Pirenéus ........................................ 95 4.2.3 – As obras e os seus proprietários .................................................................. 97 4.2.4 – As bibliotecas monásticas e catedralícias.................................................. 105 4.2.5 – Circulação de manuscritos em meios não-eruditos ................................... 107 5 – A prática ................................................................................................................. 110 5.1 – Meios ............................................................................................................... 110
5 5.1.1 – Uma prática hospitalar? ............................................................................ 110 5.1.2 – Uma prática itinerante? ............................................................................. 112 5.2 – A prática e as práticas ...................................................................................... 115 5.2.1 – Instrumentos .............................................................................................. 115 5.2.2 – Licenciamento de atividade ....................................................................... 118 5.2.3 – Outras atividades ....................................................................................... 120 Conclusão ..................................................................................................................... 122 Anexos .......................................................................................................................... 125 Anexo I – Levantamento de físicos, cirurgiões e indivíduos relacionados com Medicina, portugueses ou em Portugal (1192-1340) ................................................ 125 Índice alfabético de indivíduos identificados ............................................................... 147 Fontes e Bibliografia .................................................................................................... 148 1 - Fontes Manuscritas .............................................................................................. 148 2 - Fontes Impressas ................................................................................................. 148 3 – Estudos ................................................................................................................ 151
6 Agradecimentos As primeiras palavras a ser lidas por outrem neste trabalho foram as últimas a ser escritas por mim. E nada as marcará mais do que o alívio do fim de um percurso e a incerteza do que se segue. É tempo de agradecer. Aos meus pais, João e Emília, e à minha irmã, Andreia. A compreensão e apoio na minha busca por uma carreira que a contemporaneidade parece censurar não tem preço – apesar dos cinco anos de quase nomadismo e frequente ausência da minha parte. Aos meus colegas de Elite, companheiros de cadeira e de rua, de mil dias e mil e uma noites, verdadeiros amigos para a vida. Um brinde a nós, à extraordinária colheita de 2010. Nascemos para coisas maiores. Aos meus camaradas da AEFLUP, pelos anos de luta e experiências, pelo apoio e compreensão nos dias de ausência forçada, enclausurado em casa ou na biblioteca em busca da concretização de um projeto que raras vezes se mostrou fácil. Aos meus amigos e colegas do Grupo Informal de História Medieval, a maior prova de que a colaboração será infinitamente mais produtiva do que a competição, seja qual for a circunstância. À Biblioteca Central da FLUP, cuja incansável equipa não mede esforços para ajudar. Um agradecimento especial às funcionárias, tantas vezes transformadas em fadas-madrinhas, Laura Gil e Marlene Borges. A todos os Medievalistas da FLUP. Ao Doutor Mário Farelo, pelas críticas e sugestões preciosas feitas ao meu projeto aquando do Workshop de Estudos Medievais de 2015. Ao meu orientador, Professor Doutor Luís Miguel Duarte, pela confiança refletida na liberdade que me deu, pelo exemplo perfeito de que uma atividade científica e intelectual extraordinária pode combinar com a generosidade, amizade e usufruto do melhor que a vida tem para oferecer. À Silvana, a minha âncora e porto seguro, pela paciência infinita demonstrada sempre que precisava de competir pela minha atenção com 78 médicos mortos, pela generosidade infinita e pelo Amor de todos os dias.
7 Resumo O trabalho apresentado tem como objetivo o estudo dos primeiros indivíduos a exercer medicina no Portugal medieval, analisando também o meio sociocultural que favoreceu o seu aparecimento, a transmissão de conhecimentos e os aspetos possíveis da sua prática. Como complemento, é apresentada uma listagem dos físicos e cirurgiões portugueses ou que exerceram em Portugal, servindo como breve catálogo prosopográfico dos indivíduos em estudo. Palavras-chave: Medicina medieval; físicos; cirurgiões; ensino médico; universidade medieval. Abstract The presented work has, as main objective, the study of the first individuals practising medicine in medieval Portugal, analysing also the sociocultural environment that favoured their emergence, knowledge transmission and the noticeable aspects of their practice. As complement, it’s presented a list of physicians and surgeons, Portuguese or who worked in Portugal, serving as a brief prosopographical catalogue of the studied individuals. Keywords: Medieval medicine; physicians; surgeons; medical teaching; medieval university.
8 Introdução Esta dissertação tem como objeto de estudo os primeiros físicos e cirurgiões atuantes no território medieval português e, em segundo plano, a atividade, médica e não só, de físicos portugueses fora do reino de Portugal. O interesse por este tema iniciou-se ainda no final da minha licenciatura, através da realização de um trabalho intitulado “Transmissão do conhecimento médico no Portugal de Trezentos”, no âmbito do Seminário em História Medieval. Após o meu ingresso no Mestrado em Estudos Medievais, decidi explorar com maior profundidade o período de (re)introdução da medicina de matriz científica 1 no Portugal Medieval. Os limites cronológicos da análise representam opções lógicas. O limite inicial, 1192, coincide com o primeiro testemunho documental de um médico por mim encontrado em território português 2 . O limite final, 1340, justifica-se com o pioneiro estabelecimento, feito em 1338 por D. Afonso IV, de um exame obrigatório, conduzido pelo físico-mor, para exercício dos ofícios de físico, cirurgião e boticário. 1340 marca o fim da primeira fase de licenciamento, depois de dois anos de atividade avaliativa, conduzida por físicos régios, e à qual se submeteriam os aspirantes à prática médica. Esta ação régia reflete alterações significativas no conjunto dos praticantes da ‘primeira idade da medicina’ em Portugal. Os físicos, sobretudo cónegos, para quem a prática médica parecia ser secundária e apenas uma forma de oficialato régio ou eclesiástico, passam a ser maioritariamente leigos, exteriores aos círculos eruditos e com origem e intervenção sobretudo urbana. A medicina passa de oficialato a ofício. Assim, esta data torna-se o limite natural para o estudo da fase introdutória da medicina racional medieval em Portugal, espaço privilegiado desta análise. Havendo uma grande concentração de indivíduos ligados à medicina em poucos centros urbanos, juntando-se a eles vários casos isolados, dispersos um pouco por todo o território, evitei atomizar o espaço em estudo. Desta forma, assumi como opção mais correta estudar a realidade do reino como um todo. 1 Entenda-se por medicina científica o conjunto de práticas médicas baseadas numa transmissão estruturada de conhecimentos, com propósito de criar e aplicar princípios universais, desenvolvidos ou descobertos através de processos lógicos e racionais. 2 Documentos de D. Sancho I (1174-1211). Volume I. eds. Rui de Azevedo, Avelino de Jesus da Costa e Marcelino Rodrigues Pereira. Coimbra: Centro de História da Universidade de Coimbra, 1979, p. 95-95, nº 61; p. 96-98, nº 62.
15 décadas de 60, 70 e 80 do século passado, encabeçada pelos três nomes citados, fechase um ciclo com a comemoração do sétimo centenário da fundação do Estudo Geral em Lisboa (1288-1290). A história da universidade em Portugal entra numa letargia de onde só sairá nos anos recentes. Resgatada por um centenário, o primeiro centenário da Universidade de Lisboa (1910-2010), a história do ensino, da universidade, dos homens de letras e da cultura, ganhou um novo fôlego. Procurando também resgatar a memória da universidade medieval em Lisboa, um conjunto assinalável de publicações, onde se incluem indiretamente várias dissertações e teses, surgiu nos últimos anos; investigadores como Armando Norte, André de Oliveira Leitão e Mário Farelo 15 , têm explorado estes temas, abordando direta ou indiretamente percursos de médicos, livro médico ou ensino. Poucos foram os historiadores que abordaram diretamente temas de história médica medieval em Portugal. Também essas exceções foram orientadas principalmente para o domínio da história social. Um breve artigo merecedor do epíteto de pioneiro é o que Pedro d’Azevedo publicou nos Arquivos de História da Medicina Portuguesa 16 . Sendo uma das raras colaborações de não-médicos neste periódico, é um dos primeiros a realizar um artigo dedicado exclusivamente a um tema de medicina. Nas décadas seguintes poucos lhe seguiram o exemplo, mesmo com a institucionalização da formação histórica e multiplicação dos especialistas formados no meio universitário. Refira-se, por constituir exceção, o célebre artigo de Iria Gonçalves intitulado “Físicos e Cirurgiões Quatrocentistas: As Cartas de Exame”, que conta já com mais de quatro décadas 17 . No que à medicina popular, às conceções e representações da doença e outros temas paralelos diz respeito, também pouco está feito para o período medieval. Tal como noutros casos, os trabalhos que incidem sobre estes temas são, com frequência, investigações pontuais de historiadores habitualmente voltados para campos relativamente distintos 18 . Nota ainda para a investigação que tem sido feita para o caso 15 Tendo, de resto, os três participado numa excelente obra coletiva lançada em 2013 e por mim consultada em diversos momentos desta investigação. cf. FERNANDES, Hermenegildo (coord.)- A Universidade Medieval em Lisboa. Séculos XIII-XVI. Lisboa: Tinta-da-China, 2013. 16 AZEVEDO, Pedro de - Físicos e Cirurgiões do Tempo de D. Afonso IV. Arquivos de História da Medicina, nova série, ano 3 (1912). Porto: Lemos & Cª, 1912, p. 3-11. 17 GONÇALVES, Iria - Físicos e Cirurgiões Quatrocentistas: As Cartas de Exame. Do Tempo e Da História, I (1972), p. 69-112. 18 A título de exemplo, e apesar do grande trabalho feito no domínio da história das mentalidades, o facto de estar a escrever sobre um domínio diferente do habitual é constatado pelo próprio José Mattoso em – Saúde corporal e saúde mental na Idade Média portuguesa. In Fragmentos de uma Composição Medieval. 2ª edição. Lisboa: Editorial Estampa, 1990, p. 233-252.
16 português em todos estes domínios pela historiadora escocesa Iona McCleery. A sua abordagem cruza a análise de elementos filosóficos e os aspetos sociais, culturais e mentais 19 . Estudando as conceções de doença, as suas representações na cronística, aborda também aspetos técnicos de formação e prática médica, que permitem formar um quadro transversal ao tema da saúde. Para encerrar este estado da arte, há que referir uma corrente menos sensível em Portugal, mas igualmente representada. Nas últimas décadas, a história da medicina medieval europeia teve como principais temas a evolução do pensamento médico, do ensino médico universitário e da produção de obras médicas e/ou comentários às autoridades clássicas feitos por mestres medievais. A abordagem desta corrente caracteriza-se pelo peso que a análise filosófica, filológica e textual possui. Destacamse, numa primeira fase, nomes como o do franco-croata Mirko D. Grmek, logo seguido por uma segunda geração onde se incluem nomes como Danielle Jacquart (França), Luis García-Ballester e Pedro Gil-Sotres (Espanha), Cornelius O’Boyle (Reino Unido), Michael R. McVaugh (EUA), Jole Agrimi e Chiara Crisciani (Itália). Esta corrente caracteriza-se pela transversalidade e complementaridade do trabalho dos seus especialistas, abordando a história da medicina e pensamento médico medieval numa perspetiva comparativa em termos cronológicos, ao longo de todo o período entre a Antiguidade Tardia e o período Moderno Inicial, e em termos espaciais, entre toda a Europa, Norte de África e Médio Oriente, com resultados notáveis. Em Portugal, o investigador que mais se tem aproximado desta abordagem é José Francisco Meirinhos, cujo estudo da obra e da problemática em redor de (ou dos) Pedro(s) Hispano(s) reflete algumas práticas metodológicas do grupo mencionado. Terminámos este estado da arte com uma questão: Que história para a medicina medieval portuguesa? Grande parte dos trabalhos que se assumem como estudando aspetos do tema, fazem-no estudando textos de supostos autores portugueses. Poder-seá, assim sendo, falar de uma medicina medieval de portugueses? Esta questão deverá ser respondida em dois tempos. O primeiro respeita à portugalidade das obras. Assumindo acriticamente neste ponto que todas as obras médicas atribuídas a Pedro Julião, o papa João XXI, foram, de facto, por ele escritas, refletirão uma influência notória da sua origem geográfica? No que ao saber teórico diz respeito, apesar de algumas diferenças 19 “Faculty of Arts – Institute for Medieval Studies: Dr Iona McCleerly”, consultada a 31-03-2015. http://www.leeds.ac.uk/arts/profile/20046/307/iona_mccleery.
17 desenvolvidas nos principais centros culturais da Plena Idade Média europeia, esta influência afigura-se-nos praticamente nula. Nos escritos relativos à prática, caso esta fosse desenvolvida no nosso território, é possível que alguma influência fosse sentida. Contudo, e falando do caso concreto de Pedro Hispano, não há um único indício da sua eventual prática médica em território português. O segundo tempo de resposta terá de ir um pouco mais longe: nada nos garante, sequer, que os textos alegadamente escritos por portugueses o tenham sido, como adiante veremos. As dúvidas sobre Pedro Julião e S. Frei Gil de Santarém são abundantes e de difícil análise. Poderemos, portanto, nem sequer chegar a ter uma medicina medieval de portugueses, produzida dentro ou fora dos limites do reino português. Ironicamente, esses erros poderão ter servido grandemente a história da ciência médica. Quem poderia esperar um tão empenhado patrocínio público e institucional como aquele que foi dado à edição das obras médicas de Pedro Hispano em Portugal, se não se assumisse que se tratava de um português 20 ? Porém, falamos de um tempo que passou – não será na História que os patriotismos e sentimentos afins deverão encontrar refúgio. 20 Obras Médicas de Pedro Hispano. ed. crítica, prefácio, tradução e notas de Maria Helena da Rocha Pereira. Coimbra: Universidade de Coimbra, 1973.
18 1 - Da Antiguidade à Idade Média – O longo caminho das profissões médicas 1.1 – De Hipócrates ao crepúsculo de Roma A Idade Média não inventou a figura do médico ou curandeiro. Estas, tal como a própria Medicina 21 , são tão antigas como a civilização e desde sempre existiram homens dedicados à cura dos que os rodeavam 22 . Porém, e apesar do refinamento que civilizações como a do Antigo Egito ou da Mesopotâmia terão atingido, a ascendência da medicina medieval europeia começa na Grécia Antiga, altura em que se deram os primeiros passos para desenvolver uma medicina científica 23 . Associados a este desenvolvimento, os praticantes da medicina especializaram-se, definiram uma maior preparação e estabeleceram correntes de conhecimento e pensamento 24 , percorrendo um longo caminho desde a medicina mágica e de fundo religioso omnipresente, até ao aparecimento de Hipócrates e da sua medicina, na segunda metade do século V a.C.. O ambiente de discussão e a evolução do pensamento e da filosofia, permitiram uma evolução paralela da medicina para uma techne (τέχνη), que, tal como a História, a Arquitetura, a Filosofia Natural e outras áreas, se transformou numa arte e ciência racional, cujo objeto de estudo, reflexão e ação é o Homem 25 . Não entrando na discussão sobre o Hipócrates histórico 26 , o aparecimento de uma medicina que procura prevenir ou curar a doença através de procedimentos naturais, reconhecendo causas naturais a todas as enfermidades, conhecidas ou não, revolucionou a ciência da cura. A visão da doença como um desequilíbrio, materializada na teoria humoral, desequilíbrio que pode ser prevenido através de uma dieta definida segundo princípios racionais, que pode ser curado fazendo com que a natureza, por si, retome o equilíbrio e recupere a saúde, ou que pode ‘fazer pela própria natureza’ o que ela não consegue, como reduzir fraturas ou ligar uma ferida, é a base desta medicina 21 KING, Helen – Greek and Roman Medicine. Bristol: Bristol Classical Press, 2001, p. VIII-IX e 1. 22 SOURNIA, Jean-Charles – História da Medicina. tradução de Jorge Domingues Nogueira. Lisboa: Instituto Piaget, 1995, p. 9-39. 23 SOUSA, Armando Tavares de – Curso de História da Medicina. Das Origens aos fins do século XVI. 2ª edição. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1996, p. 36-38. 24 SOUSA – Curso de História da Medicina…, p. 38-50. 25 JOUANNA, Jacques – La naissance de l’art médical occidental. In Histoire de la pensée médicale…, p. 25-27. 26 Para um resumo da evolução do tema, v. KING – Greek and Roman Medicine…, p. 9-11; JOUANNA – La naissance de l’art médical occidental…, p. 27-39.
19 ‘científica’ 27 . O impacto da literatura médica hipocrática é inegável e prolongou-se como leitura básica obrigatória para todos os aspirantes à prática da medicina, até há bem poucos séculos 28 . No que à profissão médica diz respeito, a escola hipocrática é responsável por uma primeira ética e identidade, assim como por um conhecimento nãosupersticioso e consciente tanto das suas limitações como do seu potencial 29 . No mundo helenístico, a profissão médica continuou a ter um estatuto ambíguo. As ‘escolas’ que os autores contemporâneos diferenciam são escolas de pensamento e grupos de autores-médicos que partilham afinidades de práticas e interpretações, e não verdadeiras escolas com professores e estudantes, planos de estudos ou licenciamento de atividade 30 . A aprendizagem na forma de mestre-discípulo mantinha-se como a mais sólida e os laços familiares eram preponderantes 31 : a transmissão do conhecimento de pais para filhos era comum e manteve-se como uma realidade na formação médica um pouco por toda a Europa até muito tarde. No caso português, como veremos, terá subsistido como uma das formas mais comuns de aprendizagem e iniciação à prática médica. O mundo romano soube acolher de braços abertos os ensinamentos médicos dos gregos. Contudo, também no Império foi longa a evolução dos profissionais da cura. Segundo Plínio, o Velho, a introdução do médico como profissional no mundo romano terá sido feita por gregos estabelecidos em Roma, no final do século III a. C., facto que outras fontes parecem corroborar 32 . Até este período, a medicina romana era “familiar”, transmitindo conhecimentos práticos através das gerações, dispensando totalmente a existência de profissionais de saúde 33 . O estabelecimento da profissão e a respetiva aceitação não parecem ter sido fáceis. Como Enrique Montero Cartelle aponta, o mesmo 27 MOSSÉ, Claude – As lições de Hipócrates. In As Doenças têm história. tradução de Laurinda Bom. Lisboa: Terramar, 1997, p. 39-55. 28 Para o caso português, a leitura de Hipócrates mantém-se como essencial na formação médica universitária até ao início do período contemporâneo. Em 1777, a cadeira de Aforismos ocupava todo o quarto ano do curso médico de Coimbra, o último antes do ano de prática médica que antecedia a graduação. cf. BRAGA, Teophilo – A Faculdade de Medicina em 1772 a 1777. Archivos de Historia da Medicina Portugueza, vol. 4 (1894). Porto: Lemos & Cª Editores, 1894, p. 163; ainda mais tarde, em 1822, os Aforismos de Hipócrates estavam entre o conjunto de dez livros adotados pela Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, juntamente com uma Distributio Methodica Aphorismi Hipocratis de apoio. cf. Compendios, in Archivos de Historia da Medicina Portugueza, vol. 2 (1887-1888). Porto: Lemos & Cª Editores, 1888, p. 158. 29 KING – Greek and Roman Medicine…, p. 14-17; SOUSA – Curso de História da Medicina…, p. 56-59 30 KING – Greek and Roman Medicine…, p. 16; SOURNIA – História da Medicina…, p. 54. 31 JOUANNA – La naissance de l’art médical occidental…, p. 30-33. 32 KING – Greek and Roman Medicine…, p. 32-33; SOURNIA – História da Medicina…, p. 58-59. 33 KING – Greek and Roman Medicine…, p. 34-37; SOUSA – Curso de História da Medicina…, p. 8891; SOURNIA – História da Medicina…, p. 57.
20 Plínio considerava a medicina como uma arte técnica manual, praticada sobretudo por escravos e libertos, segundo escreve, em meados do século I, na sua Historia Natural 34 ; contudo, esta condição evoluirá bastante ao longo dos séculos seguintes. A medicina romana foi, até bem tarde, uma ‘medicina grega em Roma’, praticada sobretudo por indivíduos de origem grega, de condição servil na maioria dos casos, ou como profissionais liberais, e devedores de várias correntes médico-filosóficas do mundo helenístico, tornadas verdadeiras seitas, segundo conceitos da época, durante muito tempo olhadas com desconfiança e algum desprezo e convivendo mal entre si 35 . Os romanos introduzem-se no mundo da medicina pela erudição. Logo no tempo do imperador Tibério (r. 14 d.C.-37 d.C.), Aurélio Cornélio Celso dá destaque à divisão hipocrática da medicina entre a dietética, farmacopeia e cirurgia 36 - e vê na história da medicina uma evolução progressista 37 . Em conjunto com Plínio, o Jovem, que viveu na viragem do século I d. C. para o II d. C., estes dois autores foram os mais destacados entre os que dedicaram à medicina livros ou partes de obras de caráter enciclopédico, reunindo muito do conhecimento médico grego, mas não só, em obras latinas escritas com grande refinamento literário, destinadas mais ao cultivo intelectual do comum cidadão romano do que a constituir manuais de aprendizagem profissional 38 . Esses pequenos manuais acabarão por surgir também, num estilo bem mais pragmático e menos cuidado, mas com um público distinto das grandes obras enciclopédicas 39 . A romanização da profissão médica é, simultaneamente, causa e consequência da intelectualização das artes da cura e da inclusão que começa a ser feita da medicina, assim como da arquitetura ou da agricultura, entre as artes que merecem ser tratadas em obras de vasta erudição, como o são as enciclopédias de Celso e Plínio, o Jovem 40 . Também o mais notável médico da história do Império Romano, o influente Galeno de Pérgamo (c.129-216), era proveniente do mundo helenístico, tendo realizado a sua aprendizagem entre a sua Pérgamo natal e Alexandria, coração de toda a cultura 34 MONTERO CARTELLE, Enrique – Tipología de la Literatura Médica Medieval. Antigüedad, Edad Media, Renacimiento. Porto: Fédération Internationale des Instituts d’Études Médiévales, 2010, p. 45-53 35 GOUREVITCH, Danielle – Les voies de la connaissance: la médecine dans le monde romain. In Histoire de la pensée médicale…, p. 95-110; KING – Greek and Roman Medicine…, p. 40; SOUSA – Curso de História da Medicina…, p. 95-104; SOURNIA – História da Medicina…, p. 58-59 36 SOUSA – Curso de História da Medicina…, p. 106; SOURNIA – História da Medicina…, p. 59-60 37 GRMEK – Introduction..., p. 8-9. 38 SOUSA – Curso de História da Medicina…, p. 104-105; MONTERO CARTELLE – Tipología de la Literatura Médica…, p. 13-21, 45-53. 39 MONTERO CARTELLE – Tipología de la Literatura Médica…, p. 13-21. 40 MONTERO CARTELLE – Tipología de la Literatura Médica…, p. 45-53.
21 erudita no Mediterrâneo desse tempo 41 . Original e acutilante, é transversal a todas as correntes de pensamento médico-filosófico sem prestar vassalagem a nenhuma, ainda que a reverência a Hipócrates e à teoria humoral esteja constantemente presente. Ganhou notoriedade ao estabelecer-se em Roma, realizando dissecações de animais em público e chegando a médico pessoal dos imperadores Marco Aurélio (r. 161-180), Cómodo (r. 180-192) e Septímio Severo (r. 193-211). Imortalizou a sua prática e pensamento através das mais de oito dezenas de obras que sobreviveram à passagem do tempo, de um conjunto original que poderá ter atingido as quatro centenas 42 . O médico começa a integrar o oficialato e a fazer parte do quotidiano das instituições romanas. Os municípios nomeiam médicos para as suas cidades, um corpo especializado segue as legiões do exército e muitos dedicam-se ao cuidado de veteranos militares retirados 43 . Esta evolução conduziu, por fim, a um corpo médico de elite de origem latina. Clínicos notáveis como o galo-romano Júlio Ausónio, pai do poeta Ausónio, e Vindiciano, médico pessoal do imperador Valentiniano (r. 364-375) e procônsul de África por volta de 380, além do grupo de médicos ‘africanos’ onde, além de Vindiciano, se incluíam Cássio Félix, Teodoro Prisciano e Célio Aureliano, são exemplos da prática médica entre os mais elevados estratos sociais e políticos nas derradeiras décadas do Império Romano do Ocidente 44 . Esta evolução acabou por permitir a preservação de parte do conhecimento médico no período da Alta Idade Média. Aquando do crepúsculo de Roma, a medicina começava a ocupar uma posição nobre entre as artes liberais. Isidoro de Sevilha (570636) cristaliza-a nesse grupo, ao considerá-la transversal a todas as artes liberais, como uma filosofia do corpo; a filosofia, por sua vez, seria a medicina da alma 45 . Todo o livro 41 GOUREVITCH – Les voies de la connaissance…, p. 110-121; SOUSA – Curso de História da Medicina…, p. 110-111; KING – Greek and Roman Medicine…, p. 39-41. 42 SOUSA – Curso de História da Medicina…, p. 112-113. 43 SOURNIA – História da Medicina…, p. 62-63. 44 MONTERO CARTELLE – Tipología de la Literatura Médica…, p. 45-53. 45 JACQUART, Danielle – La scolastique médicale. In Histoire de la pensée médicale…, p. 176-179. Esta visão aproxima-se da de outros pensadores paleocristãos, cuja obra seria, por certo, conhecida por Isidoro de Sevilha. Autores como Orígenes de Alexandria (c. 185-254) e Basílio de Cesareia (c. 329-379), defenderam a medicina como uma dádiva de Deus e valorizaram a saúde física como garante da saúde mental. Ligada a estas conceções, a sangria em contexto monástico, que será abordada com mais atenção no capítulo seguinte, ultrapassou o contexto meramente clínico. Cf. YEARL, Mary K. K. – Bloodletting as recreation in the monasteries of medieval Europe. In Between Text and Patient. The Medical Enterprise in Medieval & Early Modern Europe. eds. Florence Eliza Glaze and Brian K. Nance. Firenze: SISMEL/Edizioni del Galluzzo, 2011, p. 220-223.
22 IV das suas Etimologias é dedicado à medicina 46 , sem qualquer um dos preconceitos ou desconfianças dos enciclopedistas romanos conservadores que viveram meio milénio antes do prelado hispano-romano 47 . Na mesma linha do bispo hispalense, encontram-se os tardo-romanos Boécio (480-524) e Cassiodoro (468-523) e o monge inglês Beda, o Venerável (674-735) 48 . Grande parte das obras e autores, por serem de expressão grega, são esquecidos pelo ocidente latino. O pouco que sobrevive é preservado quase intocado, sem originalidade ou inovação. Também o exercício da medicina durante a Alta Idade Média ocidental parece quase desaparecer. Boa parte dos escassos textos produzidos neste período e conservados até hoje são, sobretudo, pequenos receituários e descrições vagas e breves de doenças, com ou sem indicações terapêuticas, baseadas em observações empíricas 49 . Noutras paragens, contudo, o conhecimento e a prática mantêm-se bem vivas. É esta a “idade de ouro da medicina árabe”. 1.1.1 – A medicina romana no atual território português É na arqueologia que reside a melhor fonte para o estudo desta matéria. Coleções como a do Museu Nacional de Arqueologia 50 fornecem informações sobre os instrumentos e a prática diária dos profissionais da época romana, A cronologia é um dos principais obstáculos ao estudo desses objetos. A generalidade datará de entre os séculos I e III d.C., mas a antiguidade das escavações de onde provieram, a maioria do século XIX, impede o estudo da estratigrafia de origem 51 . Contudo, revela que haveria profissionais da medicina a trabalhar no território que hoje é Portugal, com destaque para as regiões a sul do Tejo, onde se localizam 14 dos 16 locais arqueológicos de onde provêm estes objetos 52 . Além de ser possível que esta diferença seja causada pelos diferentes graus de romanização, Joana Farinha Gomes sugere que poderá refletir a 46 ISIDORO DE SEVILHA, Santo – Etimologías. 2 vols. Edicion bilingüe. Introduccion general por Manuel C. Diaz y Diaz, texto latino, versión española y notas por Jose Orez Reta y Manuel-A. Marcos Casquero. Madrid: La Editorial Catolica, S.A., 1982. Vol. I, p. 482-507 47 MONTERO CARTELLE – Tipología de la Literatura Médica…, p. 45-53. 48 SOURNIA – História da Medicina…, p. 97-98. 49 BIRABEN, Jean-Noël – Les maladies en Europe: équilibres et ruptures de la pathocénese. In Histoire de la pensée médicale…, p. 301-306. 50 Para um exemplo de estudo de cerca de 120 instrumentos cirúrgicos do período romano, preservados no Museu Nacional de Arqueologia, v. GOMES, Joana Farinha – Os Materiais Médico-Cirúrgicos de Época Romana do Museu Nacional de Arqueologia. 2 vols. Lisboa: Edição de Autor, 2010. Dissertação de mestrado em Arqueologia apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. 51 GOMES – Os Materiais Médico-Cirúrgicos…, I, p. 13. 52 GOMES – Os Materiais Médico-Cirúrgicos…, II, Anexo 1.
23 exploração arqueológica mais intensa que foi feita nas jazidas arqueológicas do Alentejo e do Algarve, desde o século XIX 53 . 1.2 – O Oriente, de novo: Medicina (em) Árabe, da Pérsia ao alAndalus Se a prática e o conhecimento médicos quase desaparecem com o eclipse do Império Romano do Ocidente, a Oriente mantêm-se pujantes. A cultura helenística permanece viva e evolui entre os bizantinos. Surgiram vários autores notáveis neste período, com destaque para um médico do século VII, Paulo de Egina, autor de um compêndio em sete livros, transversal a todo o conhecimento médico da época, cuja influência se prolongou por mais de um milénio após a sua morte 54 . Os centros tradicionais de conhecimento do Mediterrâneo oriental permaneceram ativos, e nem com o advento do Islamismo e a conquista fulminante de quase todo o Médio Oriente, Norte de África e Península Ibérica no primeiro século após a Hégira (622 d. C.) esmoreceram. Pelo contrário, a transformação dessas regiões num imenso espaço panarábico permitiu o início de uma época dourada. Diferentes realidades religiosas, étnicas e linguísticas esbatem-se pelo uso transversal do árabe, língua sagrada e língua franca, potenciando a difusão do conhecimento e dos autores notáveis, a circulação de pessoas, manuscritos e ideias, de Samarcanda a Córdoba 55 . As literaturas científica e filosófica gregas, em geral, e a médica, em particular, foram alvo do interesse por parte dos primeiros grandes eruditos árabes. As obras de Hipócrates, Aristóteles, Erasístrato, Herófilo, Galeno, entre uma multidão de outros autores, foram traduzidas do grego para o árabe, diretamente ou através de manuscritos em siríaco, provenientes da grande escola médica de cristãos nestorianos persas da cidade de Gondishapur 56 . 53 GOMES – Os Materiais Médico-Cirúrgicos…, I, p. 68. 54 STROHMAIER, Gotthard – Réception et tradition: la médecine dans le monde byzantin et arabe. In Histoire de la pensée médicale…, p. 125-128, 130-135; SOUSA – Curso de História da Medicina…, p. 147-152; GARRISON, Fielding Hudson – An Introduction to the History of Medicine: with medical chronology, suggestions for study and bibliographical data. 2nd edition reviewed. Philadelphia: W. B. Saunders, 1917, p. 107. 55 SOUSA – Curso de História da Medicina…, p. 153-154; SOURNIA – História da Medicina…, p. 83. 56 SOUSA – Curso de História da Medicina…, p. 154-158; SOURNIA – História da Medicina…, p. 8687.
24 A prática médica é protegida e desenvolve-se em todo o mundo árabe. Associada a uma profunda erudição por parte dos grandes especialistas, a medicina grega é reinterpretada e acrescentada. Diversos autores influenciam de forma decisiva a medicina do seu tempo e dos séculos seguintes. Exemplo disso são, entre outros, o persa Razes (c. 850-923), autor prolífico na linha dos enciclopedistas clássicos, e que tem o seu magnum opus no Kitab al-hawi, o Liber Continens, onde trata de todo o tipo de assunto relacionado com a medicina ao longo de 23 livros 57 ; o também persa Haly Abbas, (?-994), autor de um extenso tratado em vinte livros, teóricos e práticos, sobre cirurgia 58 ; o cordovês Albucasis (c. 936-1009), autor do Kitab al-Tasrif, tratado de medicina e cirurgia em 30 livros, cujas secções de cirurgia se tornaram basilares no ocidente durante séculos, ainda que com maior influência na Itália do Norte 59 , devido aos abundantes e cuidados desenhos de inúmeros instrumentos cirúrgicos 60 ; o célebre Avicena (c. 980-1037), erudito persa que compila o conhecimento médico da época no seu extenso Cânon, dividido ao longo de cinco livros, e que influenciou o pensamento e o conhecimento médicos de forma decisiva 61 , superado em importância apenas por Hipócrates, Aristóteles e Galeno, os quais, de resto, segue de perto e arabiza. A influência do seu ‘Galeno arabizado’ na medicina universitária e escolástica é comparada por Montero-Cartelle à influência do ‘novo’ Aristóteles na filosofia do mesmo período 62 . Avicena harmoniza as contradições entre Galeno e Aristóteles, esforço que facilitará a introdução da medicina no meio universitário do Ocidente medieval 63 . Manter-se-á como leitura fundamental nas faculdades de medicina europeias até bem tarde, a par de Hipócrates e Galeno. Também na Universidade portuguesa tal se verificava durante a primeira metade do século XVI, por exemplo 64 . Outros autores de língua árabe notáveis, como o sevilhano Avenzoar 65 (c. 1091-1162) e 57 SOUSA – Curso de História da Medicina…, p. 162-163; SOURNIA – História da Medicina…, p. 8889; GARRISON – An Introduction to the History… p. 113; MICHEAU, François – A idade de ouro da medicina árabe. In As Doenças têm história. tradução de Laurinda Bom. Lisboa: Terramar, 1997, p. 6667. 58 SOUSA – Curso de História da Medicina…, p. 163-164; GARRISON – An Introduction to the History…, p. 113. 59 GREEN, Monica H. – Moving from Philology to Social History: The Circulation and uses of Albucasis’s Latin Surgery in the Middle Ages. In Between Text and Patient…, p. 336-345. 60 SOUSA – Curso de História da Medicina…, p. 168-170; SOURNIA – História da Medicina…, p. 94. 61 SOUSA – Curso de História da Medicina…, p. 168-170; SOURNIA – História da Medicina…, p. 8991. 62 MONTERO CARTELLE – Tipología de la Literatura Médica…, p. 42-44. 63 STROHMAIER – Réception et tradition…, p. 146-149. 64 ARNAUT, Salvador Dias – A Medicina. In História da Universidade em Portugal, vol. I, tomo I (1290-1536). Coimbra: Universidade de Coimbra, Fundação Calouste Gulbenkian, 1997, p. 290-292. 65 SOUSA – Curso de História da Medicina…, p. 170; SOURNIA – História da Medicina…, p. 94.
31 1162. O zelo colocado por São Teotónio no cuidado aos doentes da enfermaria do mosteiro de Santa Cruz, assim como a sua habilidade e conhecimento farmacológico, são elogiados pelo escriba, que afirma que o prior crúzio agia “imitando o que faria um médico muito sabedor” 92 . O conceito que o autor do texto emprega parece remeter para a definição clássica da palavra, ou seja, um conceito apreendido através dos escritos e do estudo, mais recurso literário do que realidade quotidiana 93 . O segundo caso é o que diz respeito ao primeiro clínico documentado em Portugal no período medieval. Tratase de Mestre Mendo, medicus regis de D. Sancho I. A curiosidade desta denominação aumenta quando é utilizada quer em documentação produzida localmente - os dois forais que testemunha no final de 1192 94 -, quer numa bula papal, datada criticamente de 1203, que reúne os depoimentos de 42 testemunhas sobre a contenda entre a Sé de Coimbra e o mosteiro de Santa Cruz 95 . Depois deste primeiro clínico, praticamente todos os que se lhe seguem são denominados como físicos, a começar pelos seis que assistem D. Afonso II em 1218 96 e pelo físico do arcebispo de Braga, o (talvez cónego) Mestre Fernando 97 , sendo que em nenhum dos casos parece existir grande ambiguidade quanto à função médica que estes indivíduos tinham. Em Portugal, até ao final da Idade Média, quando um indivíduo era identificado como um clínico, seria, por norma, denominado físico ou cirurgião. São raríssimas as exceções: entre os poucos indivíduos por nós encontrados na documentação posterior a 1203 que surgem com essa denominação, estão o cisterciense magistri Bartholamei, a quem D. Afonso III chama, numa doação feita ao mosteiro de Alcobaça em 1267, monachi capellani et medici 92 Hagiografia de Santa Cruz de Coimbra. Vida de D. Telo, Vida de S. Teotónio, Vida de Martinho de Soure. Ed. crítica, tradução e comentários de Aires Augusto Nascimento. Lisboa: Edições Colibri, 1998, p. 184 (texto latino), p. 185 (tradução contemporânea de Aires Nascimento) e p. 308 (tradução quatrocentista). 93 A fonte mais provável é o capítulo 28 da Regra de São Bento, onde o abade é incitado a agir como faria um “muito sábio médico” – tunc abbas faciat quod sapiens medicus. Tal como refere Mary K. K. Yearl, este capítulo, sobre “os irmãos que muitas vezes castigados não se emendam”, há várias metáforas médicas de grande interesse para o estudo da cultura médica e do seu reflexo na cultura monástica ocidental primitiva. Cf. YEARL – Bloodletting as recreation..., p. 227-228. 94 Documentos de D. Sancho I (1174-1211). Volume I…, p. 95-95, nº 61; p. 96-98, nº 62. 95 O depoimento do Mestre Mendo, identificado também como subdiácono e arcediago de Santarém é o mais extenso de todos. Bulário Português: Inocêncio III (1198-1216). eds. Avelino de Jesus da Costa, Maria Alegria Fernandes Marques e Luís Ferrand de Almeida. Coimbra: Instituto Nacional de Investigação Científica, 1989, p. 176, nº 87. 96 COSTA, António Domingues de Sousa – Mestre Silvestre e Mestre Vicente, juristas da contenda entre D. Afonso II e suas irmãs. Braga: Editorial Franciscana, 1963. p 67-68, nota 146; p. 70-71, nota 149; p. 71, nota 150; p. 73-74, nota 153. 97 CUNHA, Maria Cristina Almeida e – A Chancelaria Arquiepiscopal de Braga (1071-1244). Noia: Editorial Toxosoutos, 2005, p. 123, 126.
32 nostri 98 , e o frater Dominico medico, franciscano que testemunha uma doação de D. Constança Sanches, bastarda de D. Sancho I, à sua sobrinha D. Sancha, filha de D. Afonso III, em 1270 99 . Os dois são clérigos regulares e é possível que este fator tenha algum relevo. Apenas dois médicos não são clérigos regulares: Mestre Martinho, médico, que surge documentado entre 1283 e 1286, não havendo qualquer sinal de que seja, sequer, um clérigo 100 , e o clérigo secular Mestre Fernando, documentado em 1313 101 . Um texto igualmente referente a clérigos regulares, a Vitae Fratum, célebre e pioneira crónica oficial da Ordem dos Pregadores, escrita por Fr. Gerard Frachet c. de 1255 102 , chama medicus a dois pregadores portugueses, Frei Gil e Frei Pedro 103 . Apesar de ter sido escrita num contexto transpirenaico, as narrativas passadas em Portugal são baseadas em relatos escritos do próprio Frei Gil de Santarém, que ainda viveria à data da redação da Vitae Fratum. Ambos são assim denominados quando se refere o seu papel no tratamento esmerado dos doentes conventuais. Frei Pedro, medicus mire mansuetudinis, é elogiado pela dedicação e conforto dado aos enfermos. A construção da imagem de Frei Gil é complexa, e sobre ela me demorarei no terceiro capítulo desta dissertação. Para o caso de Frei Pedro, não será muito mais simples: existe uma probabilidade considerável de se tratar do mesmo Frei Pedro, físico dominicano que está presente numa audiência régia a um núncio papal, em 1277 104 . Quereria isto dizer que seriam formados em medicina? Tomemos como comparação um outro indivíduo referido na mesma crónica, Mestre Gualter da Saxónia. Este universitário foi um dos treze mestres trazidos para a Ordem dos Pregadores por ação da pregação de Frei Jordão da Saxónia - segundo geral da ordem, primeiro após S. Domingos – na cidade norte-italiana de Vercelli. Mestre Gualter é descrito como regens 98 Chancelaria de D. Afonso III. Ed. Leontina Ventura e António Resende de Oliveira. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2006. Livro I, tomo 1, doc. 371. 99 Chancelaria de D. Afonso III…, Livro I, vol. 2, p. 16-17, doc. 421. 100 ANTT, Colegiada de Santa Maria de Outeiro de Lisboa, m. 8, nº 313, 314; ANTT, Mosteiro de Alcobaça, 1ª inc., Docs. Régios, m. 2, nº 2; ANTT, Mosteiro de S. Vicente de Fora, 1ª inc., m. 4, nº 12 e Liv. 60, fl. 6v-7. 101 ANTT, Cabido da Sé de Coimbra, 2ª inc., m. 55, nº 2110. 102 FRACHET, Gerardo de O.P. – Vitae Fratum Ordinis Praedicatorum necnon Cronica Ordinis ab anno MCCIII usque ad MCCLIV. ED. Fr. Benedictus aria Reichart, O.P. Lovaina: E. Charpentier & J. Schoonjans, 1896. 103 FRACHET – Vitae Fratum…, p. 155, 200, 259. 104 MARQUES, Maria Alegria Fernandes – O Papado e Portugal no tempo de D. Afonso III: 1245-1279. Coimbra: Edição de autor, 1990. Dissertação de Doutoramento em História da Idade Média apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, p. 560.
33 in artibus et in medicina valde peritus, qui conductus erat magno salario ad legendum, deixando clara a natureza universitária do seu conhecimento e prática, algo que está longe de ser evidente para os dois portugueses 105 . Frei Gil e Frei Pedro são referidos como médicos, mas significaria isso uma ligação intelectual à medicina ou uma responsabilidade atribuída e uma dedicação reconhecida aos doentes que acorriam às casas conventuais? Poderia ser esta denominação utilizada a par do infirmarius, cargo que será analisado de seguida? Ou refletiria, de facto, uma ligação intelectual ao estudo das ciências médicas? A Ordem dos Pregadores parece ter, desde o seu princípio, uma figura intrigante, o frater medicus. Angela Montford explora as suas funções, estudando simultaneamente o seu declínio, com o aproximar do crepúsculo da Idade Média 106 . Apesar de a documentação distinguir entre estres fraters medici e os infirmari, é difícil perceber quão distintos foram os dois cargos. Montford dá como exemplo Frei Gil de Santarém, que seria um medicus conventual, assistindo os seus companheiros, mas também todos aqueles que procurassem o apoio dos seus conhecimentos, mesmo sendo leigos ou até mulheres, segundo relato de Gerard Frachet nas Vitae Fratum 107 . A utilização do vocábulo medicus deverá ser, neste caso, interpretada no contexto dominicano, e não como reprodutor fiel da realidade de uma prática formal de medicina por um físico. A interpretação abusiva desta palavra poderá muito bem ser parcialmente responsável pela construção da lenda egidiana: o declínio do frater medicus dominicano até ao final do período medieval tornou obsoleta a expressão, parecendo natural aos olhos dos cronistas-hagiógrafos seiscentistas - mas não só – que a expressão fosse sinónimo de físico/médico, que nesse período era já, na esmagadora maioria dos casos, um indivíduo com formação universitária. Como verificámos, a expressão medicus sobrevive ao século XII. Porém, fora do contexto monástico, são raríssimas as vezes em que não é utilizada apenas como adjetivo ou referindo-se a figura do médico de forma impessoal. Um exemplo da utilização da palavra é o testamento de D. Afonso IV, redigido em Leiria, em 1345, e que previa a fundação de um hospital onde se recolheriam 24 pobres. O rei determina que quando alguns desses pobres forem doentes demlhes medico que pense 108 delles, e caza apartada em q’ se acolhaõ esses doentes athe q’ guareçaõ [uma enfermaria dentro 105 FRACHET – Vitae Fratum…, p. 174. 106 MONTFORD, Angela – Dangers and Disorders: The Decline of the Dominican Frater Medicus. Social History of Medicine, vol. 16, nº 2 (2003), p. 169-191. 107 MONTFORD – Dangers and Disorders…, p. 172-175 108 Isto é, ‘que faça pensos’, que os trate.
34 do hospital?] e outro sy lhes dem aquello q’ cumprir aguizadamente em quanto assim forem doentes. 109 Para outro exemplo, pertencente à centúria seguinte, bastará regressar à Vita Sancti Theotonii. A tradução quatrocentista mantém a palavra medico na já referida comparação que o autor faz entre um “médico muito sabedor” e o primeiro dos priores crúzios 110 . Porém, na documentação portuguesa por nós estudada, não encontramos mais nenhum caso em que um clínico, em particular, é identificado ou se identifica como medicus, depois de 1300 e até ao final do século XV. Refletindo, talvez, um primeiro grupo de praticantes, em parte conhecedores dos novos textos introduzidos por via árabe, estes médicos portugueses teriam antecedido os físicos de origem universitária ou equiparável, que os assimilariam rapidamente; por outro lado, poderiam ser indivíduos ligados a um contexto de prática limitada ou particular, paralela ao mundo universitário. Alguns casos similares ao português são detetáveis noutros reinos ibéricos. Em Navarra, um documento da igreja de Santa Maria la Real de Nájera, datado criticamente de 1162-1163, tem como testemunha um Wilielmus, medicus 111 , parecendo tratar-se, pelo nome, de um indivíduo de origem transpirenaica. Também em Navarra, o rei Sancho VI doa e concede a Salomom, que trata por meo medicus, bens e privilégios, em 1179 112 . Este clínico, talvez o mesmo Salomom, alfaqui, que surge em documentos de Sancho VI de 1187 e 1193, seria judeu e, como tal, alheio aos meios proto universitários ocidentais 113 . Surgindo mais cedo do que em Portugal, os termos medicus e physicus parecem conviver durante mais tempo nos restantes reinos ibéricos. A 10 de novembro de 1272, Fernando Eanes de Portocarreiro, deão da catedral bracarense e prior da colegiada de Santa Maria de Guimarães, faz o seu testamento em Burgos na presença de Alfonso Martini et magistro 109 MOTA, António Brochado da – Testamentos Régios – Primeira Dinastia (1109-1383). Lisboa: Edição de Autor, 2011. Dissertação de Mestrado em História Medieval apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, p. 210. 110 Hagiografia de Santa Cruz…, p. 184 (texto latino), 185 (tradução contemporânea de Aires Nascimento) e 308 (tradução quatrocentista). 111 Colección Documental de Santa Maria la Real de Nájera. Tomo I (siglos X-XIV). ed. Margarita Cantera Montenegro. Donostia: Eusko Ikaskuntza, 1991. Doc. nº 68. 112 Archivo General de Navarra (1134-1194). eds. Guadalupe Lopetegui Semperana y Aítor Pescador Medrano. Donostia – San Sebástian: Eusko Ikaskuntza, 1997. Doc. nº 69. 113 Archivo General…, docs. nº 99 e 138. Apesar do nome tipicamente judeu, algumas dúvidas levantamse quanto ao título de alfaqui. Por norma, este termo aplicava-se ao chefe de uma comunidade muçulmana em algum reino peninsular cristão, sobretudo na região oriental. Fica a questão em aberto, dependendo do desfecho a identificação dos dois homens como indivíduos distintos ou como um só. cf. GARCÍABALLESTER, Luis – A marginal learned medical world: Jewish, Muslim and Christian medical practitioners, and the use of Arabic medical sources in late medieval Spain. In Practical Medicine from Salerno to the Black Death. Eds. Luis Garcia-Ballester, Roger French, Jon Arrizabalaga and Andrew Cunningham, p. 364.
35 Stephano fisicis domini regis Castelle, entre outros 114 . Por outro lado, em 1254, Teobaldo II de Navarra nomeia uma série de alcaides do seu reino, para que estes averiguem se houve e que tipo de abusos foram cometidos pelos seus antecessores. Entre eles está dominus Petrus Guillermj, medicus 115 . Tal como no território português, medicus mantém-se em uso como adjetivo ou como referência abstrata. Exemplo disso são as ordenações da igreja de Santa María la Mayor de Calatayud, no reino aragonês. Datadas de 17 de setembro de 1281, definem as residências e ausências de clérigos na dita igreja. Aos doentes é permitida ausência apenas sob apropriado conselho de um médico - infirmitate decenti quesierint consilium medici circunspecti 116 . A realidade parece variar de reino para reino, mesmo num contexto mais restrito como o ibérico, e as generalizações são imprudentes. O caso português revela uma reintrodução mais tardia dos profissionais da medicina, mas também uma rutura mais acentuada com o conceito de medicus, talvez fruto do curto espaço de tempo que houve até à chegada dos novos physici e da demora no estabelecimento de uma classe médica ‘autóctone’ e capaz de formar internamente os seus próprios efetivos. Quando a maioria dos documentos passa a ser redigida em vernáculo, a hegemonia do físico sobre o médico é ainda maior. A consolidação social da figura e do indivíduo que, após preparação, pratica a medicina profissionalmente ou com frequência, parece ter cristalizado o uso da palavra físico como a preferida das comunidades, dos autores e dos próprios praticantes. 2.2 – Monges-enfermeiros e enfermarias monásticas Sendo o objetivo desta dissertação estudar e conhecer os homens que fizeram da cura o seu ofício, bem como perceber a origem e evolução desse mesmo ofício, lancemos um breve olhar aos homens que, não sendo físicos ou cirurgiões, e não possuindo formação particularmente relevante em medicina, mais se aproximaram destas figuras antes do seu surgimento no território português. Sendo residuais os registos de atividade de cura em Portugal fora dos círculos monásticos até final do 114 Testamenta…, p. 145-147, doc. 1.32. 115 Documentación Medieval del Archivo Municipal de Pamplona (1129-1356). Ed. Ricardo Cierbide e Emiliana Ramos. Donostia: Eusko Ikaskuntza, 1998, p. LIX, doc. 30; p. LXXXII, doc. 52. 116 Colección diplomática de Santa María la Mayor de Calatayud. ed. Herminio Lafoz Rabaza. Zaragoza: Institución “Fernando el Católico”, 2000, p. 67-70, doc. 39.
36 século XII, a estes me limitarei. Assumida esta barreira, não nos debruçaremos sobre toda e qualquer atividade assistencial ou registo de doença. Interessam mais as particularidades do tratamento dos enfermos do que, por exemplo, atitudes populares perante a doença. Do conjunto de interesse estarão excluídos, em grande parte, as albergarias e hospitais, que bem cedo se espalharam por todo o território. Criação da Antiguidade 117 , e existindo em Portugal pelo menos desde o reinado de D. Afonso Henriques 118 , constituíam obras de assistência e caridade por excelência, mas o tratamento de doentes seria uma parte menor da sua missão: a receção de viajantes e peregrinos, de pobres e velhos, acabaria por ocupar bem mais estes espaços 119 . Gozaram de um grande sucesso ao longo da Idade Média e surgiram em realidades muito diversas, sendo fundados e geridos por privados, confrarias, municípios ou religiosos 120 . A “recuperação urbana e demográfica” que acontece na Europa até às vésperas da Peste Negra, foi o principal fermento deste sucesso 121 . Apenas com o final do século XV, à semelhança do que acontece noutros pontos da Europa 122 , o hospital começa a ser local de tratamento de doentes e local de exercício de medicina por parte de especialistas, aproximando-se do modelo dos já referidos hospitais do mundo árabe. O hospital estava intimamente ligado, sobretudo no contexto monástico, à hospitalidade e à caridade, parte fundamental da doutrina cristã 123 e pedra basilar na conduta das primeiras ordens monásticas introduzidas em Portugal, os beneditinos de influência cluniacense 124 e os cónegos regrantes de Santo Agostinho 125 . O nosso foco de interesse recai no facto de estes mosteiros terem possuído o primeiro espaço exclusivamente dedicado aos doentes, distinto dos seus hospitais, assim como um monge dedicado ao cuidado dos enfermos: a domus infirmorum e o infirmarius, 117 AGRIMI, Jole ; CRISCIANI, Chiara – Charité et assistance dans la civilisation chrétienne médiévale. In Histoire de la pensée médicale…, p. 163-164; SOUSA – Curso de História da Medicina…, p. 141142. 118 PINA, Luís de - Vimaranes: Materiais para a História da Medicina Portuguesa. Arqueologia. Antropologia. História. Porto: Araújo & Sobrinho, 1929. Dissertação de Doutoramento apresentada à Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, p. 123-124. 119 AGRIMI, CRISCIANI – Charité et assistance…, p. 161-162. 120 Para uma amostra desta diversidade, veja-se o caso do Porto quatrocentista em PINA, Luís de - A medicina portuense no século XV. Studium Generale, vol. 7. Porto: Instituto de Alta Cultura, 1960, p. 483-530. 121 AGRIMI, CRISCIANI – Charité et assistance…, p. 167-168. 122 SAUNIER, Annie – A vida quotidiana nos hospitais da Idade Média. In As Doenças têm história…, p. 205-220. 123 AGRIMI, CRISCIANI – Charité et assistance…, p. 151-156. 124 MATTOSO, José – O Monaquismo Ibérico e Cluny. Rio de Mouro: Círculo de Leitores, 2002, p. 284285. 125 MARTINS, Armando – O Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra na Idade Média. Lisboa: Centro de História da Universidade de Lisboa, 2003, p. 86, 102, 263-265, 570-573.
37 respetivamente. Nas palavras de Jole Agrimi, “estas condições permitiram o desenvolvimento de uma atividade terapêutica que, durante muito tempo, e pelo menos até ao século XI, seria a única forma de exercício da medicina num contexto coletivo” 126 . 2.2.1 – A domus infirmorum O aparecimento deste espaço estará ligado à introdução do monaquismo de influência transpirenaica, intimamente associado à adoção da liturgia romana. Também aqui a filologia poderá ter algum peso. A recusa que, em meados do século XVI, o humanista André de Resende faz do uso da palavra infirmaria, “de uso monástico”, preferindo “compostos gregos de antiga tradição ou o latim clássico ualetudinarium” 127 , demonstra a sua ‘medievalidade’. Apesar de haver registos da receção de doentes por parte de mosteiros hispânicos pré-beneditinos/agostinianos 128 – ainda que alguns desses testemunhos tenham sido feitos para denunciar a aparente incúria dos monges-, nenhum cargo ou espaço é exclusivamente dedicado aos enfermos. Não será por omissão nas regras monásticas hispânicas que esta ausência se justifica. Além das disposições gerais sobre doentes contidas nas quatro grandes regras hispânicas – regras de S. Leandro, Sto. Isidoro, S. Frutuoso e Regra Comum ou Regra dos Abades -, esta última regulamenta a existência de uma casa à parte para tratamento dos doentes, ficando estes ao cuidado de um monge preparado para essa tarefa 129 . Vigorando o sistema de regula mixta 130 , estas disposições não seriam estranhas ao monaquismo pré-beneditino do noroeste peninsular. Não restam, contudo, registos de que instalações com esta função tenham existido em algum dos mosteiros altimedievais do território atualmente pertencente a Portugal. 126 Como foi dito anteriormente, há casos pontuais de profissionais da cura, noutras regiões da Europa, entre os séculos V e XII, mas seriam escassos e detentores de uma influência incomensuravelmente menor do que os meios monásticos. A tradução do francês para português é nossa. AGRIMI, CRISCIANI – Charité et assistance…, p. 165. 127 PEREIRA, Virgínia Soares – Aegidivs Scallabitanvs – Um diálogo sobre Fr. Gil de Santarém. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, Fundação para a Ciência e Tecnologia, 2000, p. 176, 368-369. 128 MATTOSO – O Monaquismo Ibérico…, p. 284-285. 129 Reglas Monásticas de la España Visigoda: Los Tres Libros de “Sentencias”. Introducciones, versiones y notas de Julio Campos Ruiz e Ismael Roca Melia. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 1971, cap. VII. 130 LENCART, Joana – O Quotidiano Monástico Beneditino nos Séculos XII e XIII. In 2º Congresso Histórico de Guimarães, 2, 1996 – D. Afonso Henriques e a sua época. Guimarães: Câmara Municipal de Guimarães, Universidade do Minho, 1996, p. 5.
38 É com a adoção das regras de São Bento e de Santo Agostinho por parte de praticamente todos os mosteiros que sobreviveram ao final da Alta Idade Média, ou foram fundados entre os últimos anos do século XI e o século XII, que surgirão as primeiras enfermarias monásticas documentadas em território nacional. Ambas as regras consagram um cuidado especial aos doentes. Na Regra de São Bento, o capítulo 36 é dedicado aos “irmãos enfermos”, garantindo que são tratados com brandura, especial atenção à alimentação e higiene, e que haja uma cela própria para a sua recuperação. No texto regular agostiniano, por sua vez, há várias referências ao cuidado a ter com os enfermos e as exceções à austeridade da norma que lhes são permitidas 131 . Não havendo uma rutura com a normativa monástica hispânica, que, de resto, havia sido influenciada pela regra beneditina desde o tempo de Gregório Magno, parece ser a determinação feita pela Regra de São Bento a origem das enfermarias monásticas, as domos infirmorum, em território português. A uma escala bem maior e como termo de comparação transpirenaico, o famoso plano arquitetónico da abadia de Saint Gall previa, já no século IX, uma enfermaria de grandes dimensões, complementada com um refeitório e dormitório para monges doentes, tendo em anexo uma domus medicorum para os casos mais graves 132 . Contudo, as enfermarias portuguesas seriam bem mais modestas. Estas encontrar-se-ão também em mosteiros de cónegos regulares de Santo Agostinho, com destaque para o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, pela importância e pioneirismo que parece ter tido 133 . A domus infirmorum é relevante para o estudo das práticas de tratamento de doentes levadas a cabo antes do surgimento de indivíduos que exercessem medicina em território português, precisamente pela sua vocação inequívoca de curar. Ao contrário dos hospitais medievais, estas enfermarias tinham como principal missão receber doentes, procurando-se que fossem curados e não apenas que encontrassem na domus infirmorum um leito de morte menos pobre ou solitário. Nota para a referência à domus infirmorum no Costumeiro de Pombeiro, códice normativo do mosteiro beneditino de Pombeiro (c. Felgueiras). Datado de meados do século XIII, é exemplo quase único para o território português, onde a sobrevivência de textos desta natureza 131 Regra de Santo Agostinho, cap. III (Comunidade e Cuidado do Corpo), pontos 14 e 18; cap. V (Serviço Mútuo), pontos 34, 35 e 37. 132 AGRIMI, CRISCIANI – Charité et assistance…, p. 165. 133 MARTINS – O Mosteiro de Santa Cruz…, p. 263-265. GOMES, Saul António – In Limine Conscriptionis. Documentos, chancelaria e cultura no Mosteiro de Santa Cruz (séculos XII a XV). 2 vols. Coimbra: Edição de Autor, 2000. Tese de Doutoramento em História apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, I, p. 235-236.
39 foi rara, abrindo uma janela única para o conhecimento de uma comunidade beneditina portuguesa nos séculos XII-XIII 134 . 2.2.1.1 – A domus infirmorum do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra Um breve olhar àquela que será a enfermaria monástica portuguesa mais importante do século XII, a do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, poderá levantar novas questões e trazer algumas respostas. Trata-se de um caso privilegiado por ser um cenóbio de importância indiscutível na cultura, sociedade e política das primeiras décadas da nacionalidade, cuja produção escrita, estudada por Saul Gomes na sua dissertação de doutoramento 135 , conservou dados de grande interesse para o estudo do funcionamento quotidiano do mosteiro. Quer Saul Gomes, quer Armando Martins, referem-se ao hospital e à enfermaria do mosteiro crúzio como a um único espaço 136 . Contudo, parece ter havido uma real distinção entre os dois espaços nas suas atribuições, oficiais e propósitos. Aquela que será a primeira notícia da existência da enfermaria crúzia está guardada na Vita Sancti Theotonii. No capítulo dezasseis, é referida a recusa de S. Teotónio em se recolher na domus infirmorum sempre que a sua saúde fraquejava, negando o abrandamento da austeridade regular a que se poderia permitir pela necessidade de convalescença 137 . Por outro lado, o vigésimo capítulo refere o recolhimento de um monge inglês, Samuel, que acompanhava o exército cruzado que iria conquistar Lisboa 138 . O autor da hagiografia é explícito ao dizer que o monge tinha sido atacado por uma “doença corporal” - corporali molestia -, o que parece indiciar uma procura consciente de Santa Cruz como local ideal para a cura. Não é referido se o forasteiro é recebido na domus infirmorum, mas a busca por uma cura de um mal físico – ainda que a peça central da narração seja a 134 Preservado como ms. 578 na Biblioteca Pública Municipal do Porto, este códice foi estudado nos mais diversos aspetos por Joana Lencart na sua dissertação de mestrado, publicada como LENCART, Joana – O costumeiro de Pombeiro: uma comunidade beneditina no século XIII. Lisboa: Editorial Estampa, 1997. 135 GOMES – In Limine Conscriptionis… 136 Saul Gomes considera, em GOMES – In Limine Conscriptionis…, p. 235-236, o infirmarius como um oficial do mosteiro responsável pela gestão do hospital, em conjunto com o hospitalarius e outro officiales hospitalis. Armando Martins, em MARTINS – O Mosteiro de Santa Cruz…, p. 263-265, traduz domus infirmorum como hospital. 137 Hagiografia de Santa Cruz…, p. 174 (texto latino), 175 (tradução contemporânea de Aires Nascimento) e 304 (tradução quatrocentista). 138 Hagiografia de Santa Cruz…, p. 178-180 (texto latino), 179-181 (tradução contemporânea) e 306 (tradução quatrocentista).
40 conclusão de que um espírito impuro que surgia aos olhos do doente temia a presença de S. Teotónio – poderá sugerir alguma relação e conter uma indicação de que a enfermaria de Santa Cruz de Coimbra se tornou um centro de cura com alguma importância logo nas primeiras décadas de existência do mosteiro; porém, o cargo de infirmarius parece surgir no mosteiro crúzio bem mais tarde, como adiante veremos. 2.2.2 – O infirmarius Intimamente ligado à domus infirmorum, está o monge encarregado do seu funcionamento, o infirmarius. A relevância dos monges-enfermeiros é inegável. Tratarse-á dos primeiros indivíduos sobre os quais recai uma responsabilidade de cuidar de doentes, antes do surgimento dos primeiros físicos/médicos e cirurgiões. A sua função acabaria por juntar um pouco de físico, cirurgião, boticário e barbeiro. Contudo, para ocupar esta função, interessaria mais uma profunda caridade e dedicação piedosa do que propriamente uma preparação ‘especializada’. Não se deverá, portanto, confundir um infirmarius com um ‘protomédico’. O seu papel seria mais zelar para que os doentes se curassem nas melhores condições possíveis do que contribuir ativamente para essa cura através da aplicação conhecimentos teóricos transmitidos por um ensino minimamente formal. Também a figura do monge-enfermeiro surge nas regras monásticas hispânicas. A Regra de Sto. Isidoro prevê que um monge se dedique ao cuidado dos irmãos doentes 139 , enquanto a Regra Comum refere mesmo um enfermeiro 140 e a de S. Frutuoso estabelece que se nomeie algum ou alguns monges para tratar dos hóspedes enfermos quando necessário 141 . Mas, à semelhança do que se verifica com as domos infirmorum, não se conhece registo deste cargo antes da introdução da liturgia romana e das regras monásticas transpirenaicas. A documentação daquele que pode ser considerado como o mais importante mosteiro do Entre-Douro-e-Minho no período pré-beneditino, o 139 Reglas Monásticas…, cap. XXII. 140 Reglas Monásticas…, cap. XVII. 141 Reglas Monásticas…, cap. IX.
47 juízes feita por parte do concelho local 172 . Após esta data, os cirurgiões surgem amiúde, acompanhando e ultrapassando, até, o também crescente número de físicos documentados. Apesar de a análise se deter em 1340, vários são os cirurgiões documentados entre 1326 e aquela data. Não considero o longo intervalo entre D. Silvestre e João Esteves como um sinal de inexistência de cirurgiões em território português. Muitos, pelo contrário, poderão ter exercido o ofício da cirurgia nesse período, ou mesmo antes. A grande dificuldade prende-se com o caráter forçosamente laico destes homens. Apesar de a condição laica dos cirurgiões não ser uma realidade absoluta um pouco por toda a Europa, essa relação parece ser efetiva para o caso português. Tal como nestes dois primeiros testemunhos, é a documentação local, de cariz municipal ou ligada ao quotidiano urbano, que poderá revelar mais dados e nomes, esclarecendo também a data de introdução da cirurgia em território português, assim como a evolução realista do número de praticantes, anterior ao segundo quartel do século XIV. Não devemos descartar, simultaneamente, uma prática ‘disfarçada’ sob outra denominação. Atente-se na evolução do número de físicos, cirurgiões e outros indivíduos ligados à medicina no Gráfico 1: 172 Corpus Codicum Latinorum et Portugalensium eorum qui in Archivo Municipali Portucalensi asservantur antiquissimorum. vol. II. Porto: Câmara Municipal do Porto, 1917, p. 153-160. 0 2 4 6 8 10 12 14 1192-1220 1221-1240 1241-1260 1261-1280 1281-1300 1301-1320 1321-1340 Gráfico 1: Evolução do número de físicos, cirurgiões e indivíduos com possível relação à medicina em Portugal 1192-1340 Físicos/Médicos Cirurgiões Outros indivíduos com possível ligação à medicina
48 Analisando o gráfico, será necessário, em primeiro lugar, explicar a distribuição. O primeiro intervalo, com 28 anos, é superior aos restantes, de 20 anos 173 . Esta opção explica-se pelos 26 anos que separam a primeira referência a Mestre Mendo, medicus regis, e as referências seguintes, feitas em 1218, aos seis físicos régios de D. Afonso II. Por indivíduos possivelmente ligados à medicina, devemos entender os homens apontados como cultos em medicina, mas que nunca surgem referidos como físicos, médicos ou cirurgiões 174 ; acrescente-se a este grupo Pedro Julião, pelas dúvidas cada vez mais justificadas que a sua ligação à prática, ensino e conhecimento médicos levantam, assim como D. João, bispo lamecense de final de Duzentos. Uma última nota para a distribuição: cada indivíduo foi colocado no intervalo em que surge a primeira referência à sua atividade médica, ainda que o fossem apenas no final de uma longa vida pública 175 . A leitura das oscilações do número de físicos não é evidente. O primeiro intervalo apresenta sete físicos. Ao primeiro e solitário físico undecentista, Mestre Mendo, juntam-se, em 1218, seis físicos de D. Afonso II. A permanente fragilidade do estado de saúde do monarca terá ditado um número assinalável de físicos régios. Para os dois períodos seguintes há uma quebra no número de físicos. Os sete presentes no primeiro intervalo descem para seis, no segundo, e cinco, no terceiro. A instabilidade vivida por Portugal durante o reinado de D. Sancho II e primeiros anos da governação de D. Afonso III poderá explicar, em parte, esta diminuição. Há um decréscimo no número de físicos ao serviço da coroa, e a falta desses praticantes poderá ter 173 Apesar de ser cientificamente questionável, esta opção será a mais segura; dividir os anos em análise pelo número de intervalos, igualando-os em duração, daria um resultado pouco prático (21,14286). Tendo em conta as condicionantes do primeiro período, não nos parece que a opção coloque em causa a fidedignidade da análise. 174 Exemplos de indivíduos incluídos são o Mestre Gil a quem o Mosteiro de Santa Cruz empresta livros de medicina em 1218 (CRUZ – Santa Cruz de Coimbra…, p. 192-193; NORTE, Armando José Gomes do – Letrados e Cultura Letrada em Portugal (sécs. XII e XIII). Lisboa: Edição de autor, 2013. Tese de Doutoramento em História Medieval, apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. vol. II, p. 99-100), e Mestre Pedro Peres, referido em 1228 num capítulo dos cónegos regrantes portugueses como “bom pregador e ‘magno’ em gramática, medicina, lógica e teologia”. Cf. CRUZ, António – Santa Cruz de Coimbra na Cultura Portuguesa da Idade Média. Volume I – Observações sobre o scriptorium e os estudos claustrais. Porto: Edição do Autor, 1964. Dissertação de Doutoramento em História apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto, p. 215-219. 175 Contabilizei os físicos judeus, Mestre Soleima e Mestre Jacob, residentes e atuantes no Porto, no intervalo de 1301 a 1320. Tendo em conta a ausência de datação, tomei como data aproximada a viragem do século, por se encontrar a meio do reinado de D. Dinis, a única referência temporal que lhes é feita. Assim sendo, e tendo-os colocado no Anexo I com a data aproximada de 1300, o facto de terem sido referidos num documento da vereação de 1347, enviado ao rei, revela uma memória muito viva da sua permanência na cidade, o que reforça a ideia de que é já no período trecentista do reinado de D. Dinis que os ditos físicos terão residido e trabalhado no Porto.
49 influenciado o número de clínicos recenseados. Os físicos, quase todos clérigos nesse período, não parecem ter exercido grande atividade prática. Recuperando em meados da centúria de Duzentos, o número cresce progressivamente até aos primeiros anos do século XIV. Decresce ligeiramente após 1320, ficando abaixo do número de cirurgiões, recenseados em número considerável após 1326 176 , evolução cuja continuação se afigura provável no período ulterior. O surgimento do grupo dos cirurgiões estará ligado às mudanças socioculturais que adiante abordaremos com maior atenção: um aumento de literacia fora dos meios eclesiásticos, uma maior atenção das autoridades públicas face às questões sanitárias e de saúde 177 , assim como a vulgarização dos clínicos entre as camadas populares, sobretudo urbanas, principalmente aquele que lhes prestaria um auxílio mais imediato, sensível e acessível – o cirurgião. 3.2 – Origem e enquadramento social da atividade Parte essencial na compreensão dos fatores que favoreceram a reintrodução da medicina científica no território medieval português é conhecer a origem e o enquadramento sociais dos indivíduos que a protagonizaram. 3.2.1 – Origem social O primeiro elemento a explorar para conhecer a origem social destes indivíduos é a sua origem familiar. Porém, a sua ascendência é, na maioria das vezes, um aspeto de difícil acesso. À semelhança do que constata Armando Norte para os letrados portugueses dos séculos XII e XIII 178 , também no caso dos físicos, em particular, não se conhecem ligações familiares da maioria, detetando-se várias, por outro lado, para um número restrito de indivíduos. Entre os letrados estudados por Armando Norte, os físicos não serão aqueles sobre cujas redes de parentesco possuímos mais dados 179 . Será muito difícil estabelecer uma tipologia de origem. Mestres como Pedro Martins, 176 Cf. Anexo 1. 177 Apesar de reunir sobretudo posturas régios e municipais sobre prevenção da peste, assim como medidas puramente higiénico-sanitárias, consulte-se para o tema em causa TAVARES, Maria José Pimenta Ferro – A Política Municipal de Saúde Pública (séculos XIV-XV). Revista de História Económica e Social, nº 19 (1987), pp. 17-32. 178 NORTE – Letrados e Cultura Letrada…, vol. 1, p. 86-88. 179 NORTE – Letrados e Cultura Letrada…, vol. 1, p. 88-93.
50 sucessivamente chanceler e físico régio, bispo de Évora e de Coimbra, originário da “oligarquia mercantil de Coimbra” 180 , João Domingues 181 ou, com algumas reservas, os próprios Frei Gil de Santarém 182 e Pedro Julião 183 , poderão dar algumas indicações sobre uma eventual origem maioritariamente urbana, mais burguesa que aristocrática, dos homens que, numa primeira fase, têm na medicina parte da sua carreira. Numa fase um pouco mais tardia, homens como Afonso Dinis frequentam universidades estrangeiras, estando ligados simultaneamente a redes de influência no Estudo português e a escolares, mestres e oficiais do dito Estudo, recolhendo o favor do rei 184 . A partir de então, é a oligarquia mercantil de Lisboa que se torna preponderante, refletindo a preferência dos sucessivos reis, após D. Afonso III, pela instalação quase permanente da corte na cidade do Tejo. Contudo, a definição de eventuais padrões é imprudente e, como afirma Norte, há sinais de uma “certa porosidade no tecido socioeconómico português” que permitiria alguma mobilidade social entre futuros letrados de origem modesta 185 . 3.2.2 – Enquadramento sociocultural da atividade – da corte ao burgo No quase século e meio em análise, a Europa assistiu a uma mudança fundamental entre os praticantes de medicina, seguida por uma considerável expansão desse grupo. A mudança de que falamos é a alteração do meio privilegiado de prática médica. Tal como afirma Luke Demaitre, a renovada pujança da urbanidade na Europa Ocidental ducentista fez com que os médicos deslocassem o seu universo privilegiado de ação das cortes régias, eclesiásticas e nobres, para os meios urbanos 186 . Interessa perceber se tal aconteceu em Portugal, de que forma e quando. Sabendo que todos os cirurgiões documentados para este período não revelam nenhum tipo de filiação senhorial, agindo sobretudo por conta própria e em centros urbanos, vejamos o meio de atividade dos físicos documentados em Portugal neste período: 180 NORTE – Letrados e Cultura Letrada…, vol. 1, p. 88-93. 181 NORTE – Letrados e Cultura Letrada…, vol. 1, p. 95-96, 114; vol. 2, p. 151-153. 182 NORTE – Letrados e Cultura Letrada…, vol. 2, p. 103. 183 NORTE – Letrados e Cultura Letrada…, vol. 2, p. 267. 184 FARELO, Mário – A universitas no labirinto: poderes e redes sociais. In A Universidade Medieval em Lisboa. Séculos XIII-XVI, coord. Hermenegildo Fernandes. Lisboa: Tinta-da-China, 2013, p. 208-210. 185 NORTE – Letrados e Cultura Letrada…, vol. 1, p. 93-94. 186 DEMAITRE, Luke – Skin and the city: Cosmetic medicine as an urban concern. In Between Text and Patient…, p. 99-104
51 Neste gráfico, a distribuição dos físicos documentados foi feita de acordo com o meio preferencial da sua atividade: cortes régias, episcopais 187 ou independentes, sobretudo em centros urbanos 188 . Contudo, há que ter em atenção que é provável que boa parte destes físicos independentes pudessem ter entre os seus pacientes indivíduos notáveis, assim como que os clínicos senhoriais poderiam não estar obrigados a qualquer tipo de exclusividade. Por outro lado, boa parte destes físicos independentes são cónegos, pelo que a falta de patrono não significaria necessariamente uma atividade profissional médica apenas centrada na assistência aos habitantes do meio urbano em que se inseriam. Naturalmente, é possível que a disparidade entre os números de físicos e cirurgiões cortesãos e não-cortesãos seja influenciado pela documentação mais abundante e conservada referente aos primeiros. Apesar de prevalecerem os físicos régios na maioria dos intervalos temporais, é preciso relativizar os dados: muitos físicos atuantes em meios urbanos poderão não ter tido um registo documental sobrevivente que os revele. Porém, é inegável que, mesmo que em termos absolutos os números sejam imprecisos, deverão espelhar uma realidade social. A Corte régia, seguida de 187 Inserimos neste grupo João Rol, que serviu como físico pontifício. Apesar das diferenças óbvias, João Rol serviu um bispo – o mais importante -, pelo que preferimos não o colocar como não-filiado ou numa categoria própria. 188 Optámos por não incluir Frei Gil de Santarém nem no rol de físicos régios. As hagiografias falam de uma cura miraculosa de um ataque de gota de D. Afonso III, mas não pela ação médica do dominicano taumaturgo. Fala-se, amiúde, das curas milagrosas levadas a cabo em inúmeros homens e mulheres que acorreriam ao convento de Santarém, mas também que seriam curados durante as deslocações de Frei Gil. Tendo em conta as incertezas que o seu caso levanta, tratei-o como um frater medicus atuando dentro e fora do convento escalabitano. 0 1 2 3 4 5 6 7 8 1192-1220 1221-1240 1241-1260 1261-1280 1281-1300 1301-1320 1321-1340 Gráfico 2 - Distribuição dos físicos por meio de atividade 1192-1340 Físicos do rei, rainha e infantes Físicos papais e episcopais Físicos independentes
52 perto pelas cortes senhoriais e episcopais, foi um meio pioneiro de promoção da prática médica, não só em Portugal, como em muitos outros reinos 189 . A exceção ter-se-á dado nas regiões cuja rede urbana permaneceu relevante no final da Alta Idade Média, com correspondente pujança cultural e circulação de conhecimentos, mesmo sem a intervenção ou patrocínio de uma corte régia. De resto, é a partir dessas regiões, como a que se estende de Salerno à Provença, que o movimento de renovação científicocultural, aproveitador das novas tradução do grego e do árabe, prepara a difusão desse novo conhecimento pelo resto da Europa. Analisando apenas os dados contidos no Gráfico 2, é possível perceber um aumento de físicos a atuar fora da Corte régia e das casas episcopais. Apesar de os físicos independentes se tornarem predominantes no período entre 1281 e 1320, podemos notar um retrocesso após essa data, e até 1340. Porém, os clínicos cortesãos não voltarão a ser os mais numerosos: bastará juntar ao número dos físicos sem filiação senhorial o conjunto de cirurgiões que surgem documentados no mesmo período – todos eles servindo as populações, e não reis e bispos -, e o número de praticantes dispara para quinze, mais do dobro dos físicos régios recenseados no mesmo intervalo. Estes dados revelam, sem dúvida, alterações significativas no meio médico português. O número de clínicos régios mantém-se, de acordo com as suas próprias necessidades: não seria expectável contar com dezenas de físicos servindo o rei e o seu círculo familiar mais restrito. Porém, o número de físicos a atuar em outros meios sobe, passando a ser acompanhados, a partir do início do século XIV, por cirurgiões que complementavam e concorriam, simultaneamente, com a sua prática. No que diz respeito à evolução entre o número de físicos clérigos e de físicos leigos, a análise exige uma prudência considerável. A possível omissão do estatuto clerical de alguns dos clínicos não nos garante a sua condição laica. Por outro lado, o próprio estatuto clerical pode ser ambíguo 190 . A título de exemplo, veja-se o estatuto clerical estendido a todos os escolares e mestres da Universidade de Paris, sem querer dizer que tenham recebido ordens maiores e, no caso dos escolares de Artes, nem sequer 189 A procura por parte das cortes régias poderá ter estimulado o desenvolvimento do ensino médico. Relembre-se a dedicatória feita Regimen Sanitatis Salernitanum ao ‘Rei dos Ingleses’. Por outro lado, refira-se Henrik Harpestræng (1164-1244), cónego dinamarquês que terá sido o primeiro a escrever sobre medicina no seu país, seguindo cânones salernitanos. Foi médico do rei dinamarquês Eric IV, por sua vez filho do rei Valdemar II e da rainha Berengária, quinta filha de D. Sancho I de Portugal. cf. SOUSA – Curso de História da Medicina…, p. 184-189. 190 SCHWINGES, Rainer Cristoph – Formação dos Estudantes e Vida Estudantil. In Uma História da Universidade Europeia…, p. 201.
53 ordens menores 191 . Expostos estes condicionalismos, partamos para a análise do Gráfico 3. Entre os 3 gráficos apresentados, este será o que tem uma leitura mais clara e direta. Até aos primeiros anos do último quartel do século XIII, os físicos ligados ao clero mantêm-se como os mais numerosos, equilibrando-se até à viragem para o século XIV. A partir de então, esta tendência inverte-se. Uma vez mais, se acrescentarmos os cirurgiões, todos eles leigos, a disparidade aumenta muitíssimo. A assimilação do conhecimento médico por parte das oligarquias laicas entre as populações urbanas, cada vez mais vulgarizada, aliada à crescente procura e à cada vez mais comum figura do clínico urbano, terão sido os principais fatores desta alteração. Um aumento sensível na literacia entre os grandes mesteirais e mercadores e a circulação de manuscritos de várias matérias - medicina incluída-, em meios exteriores aos circuitos tradicionais, são alguns dos possíveis fatores que analisaremos com maior cuidado no próximo capítulo, relativo ao saber. A preocupação das autoridades públicas em garantir a existência de médicos e a qualidade desses praticantes será igualmente crescente no final do período em estudo. É a qualidade dos físicos judeus que faz a câmara do Porto protestar veementemente contra o corregedor, junto de D. Afonso IV, em 1347, por aquele haver 191 O’BOYLE, Cornelius – The Art of Medicine – Medical Teaching at the University of Paris, 12501400. Leiden-Boston-Köln: Brill, 1998, p. 45-52. 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 Gráfico 3 - Evolução no número de físicos clérigos, leigos e nãocristãos Clérigos Leigos Judeus Muçulmanos
54 proibido o exercício da física pelos judeus entre cristãos, na cidade 192 . Quando a política régia se torna mais restritiva, no final do século XIV, e a busca por físicos cristãos se intensifica, é a câmara que, no Porto, procura suprimir essa falta crónica de físicos cristãos 193 . As autoridades públicas e as populações estavam cada vez mais envolvidas na manutenção da saúde, do bem-estar geral, fazendo desses tópicos preocupações coletivas. Os clérigos, cada vez mais lateralizados neste processo, abandonam progressivamente a prática médica, que se move na direção do laicado e, já no século XV português, se aloja preferencialmente em meio judeu 194 . 3.2.3 – Porquê a medicina? As motivações e percursos que levaram cada um destes homens à prática médica terão sido diversas e, não raras vezes, quase acidentais. Dos perto de oitenta indivíduos estudados, o registo que nos chega da atividade médica de muitos é escasso. Apesar de vários surgirem num conjunto assinalável de documentos, por vezes apenas um ou dois deles referem uma ligação à medicina. É disso exemplo Mestre João Domingues, cónego e presbítero da Sé de Coimbra. Surgindo numa dezena de documentos, entre 1206 e 1242 195 , apenas é referido como físico no seu assento de óbito no Livro das Kalendas 196 . Outro exemplo semelhante é o de Mestre Garcia, cónego de Viseu. Surgindo igualmente em vários documentos, apenas a sua entrada no Livro das Kalendas o identifica como físico 197 . Que papel terá tido a medicina na vida destes homens? Tendo em conta que, ao longo do século XIII, a esmagadora maioria dos físicos foram eclesiásticos, sobretudo ligados ao clero capitular, é necessário analisar a sua atividade nesse contexto. A medicina era vista com desconfiança pela Igreja. Entre 1130 e 1212, foram sete os concílios a colocar restrições ao estudo e prática da medicina e direito civil por parte de monges e clérigos regulares, porque isso acicataria a sua 192 BASTO, Artur Carlos de Barros – Os Judeus no velho Porto. Separata da Revista de Estudos Hebraicos, vol. I-II. Lisboa: [s.n.], 1929, p. 38-39. 193 Vereaçoens: anos de 1390-1395: o mais antigo dos Livros de Vereações do Município do Pôrto existentes no seu Arquivo. comentário e notas de Artur de Magalhães Basto. Porto: Câmara Municipal, [1937]. Docs. XXXVII e LVIII. 194 GONÇALVES – Físicos e cirurgiões…, p. 97-112. 195 NORTE – Letrados e Cultura Letrada…, vol. 2, p. 151-153. 196 Livro das Kalendas, tomo 2, p. 114-115. 197 Livro das Kalendas…, tomo 2, p. 200.
55 avareza e cupidez – a renovação das proibições revela a permanência do problema 198 . Se estas proibições pretendiam disciplinar o clero regular, também o secular foi proibido de exercer cirurgia em 1215, no IV Concílio de Latrão, devido ao risco de incorrer em pecado mortal que tal atividade representava; em 1219 foi a vez dos clérigos seculares com responsabilidades capitulares serem proibidos de estudar medicina. Ainda assim, a aplicação destes impedimentos e a interpretação que deles foi feita frequentemente, permitiu a muitos clérigos, incluindo regulares, continuar a praticar livremente as artes médicas, cirurgia incluída 199 . Terão sido de facto a cupidez e a avareza a conduzir os indivíduos aqui estudados para a prática da medicina? Para o caso português, grande parte dos praticantes recenseados para o século XIII, estando ligados ao clero capitular ou usufruindo de um benefício eclesiástico, teriam fontes seguras de rendimento que dispensariam qualquer eventual ganho com a prática médica. Alguns deles, como o bispo de Évora e Coimbra, Pedro Martins, acumularam verdadeiras fortunas, quer em dinheiro, quer em bens móveis e imóveis 200 . Não parece ser a ambição mundana a impelir este primeiro grupo de clérigos-médicos a estudar artes da cura; não parece, igualmente, que tenha sido a medicina a contribuir para o enriquecimento destes indivíduos. Que outras motivações poderemos considerar? O espírito de caridade cristã não é totalmente descartável, mas afigura-se improvável que tenha sido o principal fator de decisão em algum dos indivíduos que frequentou estudos médicos. Por volta de 1260, um escolar francês, clérigo, A. de Gullais, critica todos quantos aspiravam a estudar nas faculdades superiores dos direitos e de teologia, sem estudar primeiro medicina. Este escolar considerava o estudo da medicina como um mecanismo fundamental 201 . Não é de descartar que, para muitos clérigos portugueses, o estudo da medicina, mesmo sem a obtenção de um grau, tenha sido feito de forma parcial, complementando ou antecedendo o estudo de outras matérias, cuja carreira consequente se afigurava bem mais promissora. O exemplo acabado desse tipo de conduta seria o de Afonso Dinis, bispo da Guarda e de Évora, mestre em medicina pela Universidade de Paris, tendo provavelmente abandonado já a prática médica e a assistência que dava na 198 O’BOYLE – The Art of Medicine…, p. 45-52, nota 55. 199 MONTFORD – Dangers and Disorders…, p. 170-171. 200 Armando Norte contabiliza cerca de 14500 libras, mais de 100 marcos de prata e outro tanto de ouro, além de todos os bens móveis e imóveis que o bispo possuía à sua morte. cf. NORTE – Letrados e Cultura Letrada…, vol. II, p. 273. 201 O’BOYLE – The Art of Medicine…, p. 141-145.
56 corte régia quando ingressa como leitor na Faculdade de Teologia da Universidade de Paris 202 . No geral, para este grande grupo de praticantes clérigos, a medicina não parece destacar-se como uma primeira escolha, como uma prioridade ou como vocação. A necessidade de servir o rei, os diversos percursos académicos, os conhecimentos e capacidade de aprendizagem, estarão entre os vários fatores que terão levado boa parte destes homens a dedicar uma parte, pequena ou grande, das suas carreiras à medicina, ainda que esta nunca pareça surgir como uma prioridade. O caso de Afonso Dinis não é único. Outros clérigos que serviram o rei como físicos ascenderam à dignidade episcopal. Falamos, por exemplo, de Mestre Martinho (Guarda), Mestre Pedro Martins (Évora e Coimbra) e Mestre Bartolomeu (Silves) 203 . Todos, sem exceção, cessaram a sua atividade médica aquando dessa promoção, o que nos informará sobre uma eventual colisão de estatutos. Essa incompatibilidade fê-los descartar a prática, documentada por longos anos em vários casos e nunca voltando a ser retomada. Lançando um olhar aos físicos leigos e aos cirurgiões, as motivações poderão ter sido ligeiramente diferentes. A entrada gradual de indivíduos sem ligação ao clero na prática médica teria uma ambição de promoção social. O saber médico era uma garantia de estatuto e de remunerações razoáveis: “Uma das razões por que as faculdades de Medicina eram as mais pequenas de entre as faculdades superiores a norte dos Alpes e gozavam de menor estima do que as outras devia-se ao facto de, de todos os graduados, serem os doutores de Medicina os que, frequentemente, recebiam a menor consideração na sociedade medieval. Os doctores medicinae, ou physici, como também eram chamados, eram poucos e originários das classes média ou operária (eram, muitas vezes, filhos de cirurgiões). Os estudos médicos e a profissão médica estavam frequentemente ligados a certas famílias.” 204 Esta realidade poder-se-á estender a Portugal. Ainda que os médicos universitários não tenham obtido preponderância na Idade Média portuguesa, a crescente classe médica ganhou destaque entre o povo. Esta evolução proporcionou, provavelmente, a formação de pequenas oligarquias médicas familiares nos centros 202 COSTA, António Domingues de Sousa – Mestre Afonso Dinis, médico e secretário de D. Afonso IV, professor na Universidade de Paris. Itinerarium, nº 15 (1957), p. 379-380. 203 Conferir as respetivas biografias no Anexo 1. 204 MORAW, Peter – Carreiras Profissionais dos Diplomados pelas Universidades. In Uma História da Universidade Europeia…, p. 260.
63 e não Pedro Julião 232 . A confusão terá surgido no seiscentista Agiológio Lusitano, de Jorge Cardoso 233 . O autor terá assumido que o mestre Pedro documentado era Pedro Julião, tendo então incluído na sua carreira eclesiástica o priorado da igreja de Santo André de Mafra, assunção apenas desmentida três séculos mais tarde. Permanecerá em aberto, por agora, a nacionalidade do Pedro Hispano que terá realmente sido mestre de medicina na incipiente Universidade de Siena, em meados do século XIII, e que terá sido autor de parte ou de todas as obras médicas assinadas com esse nome. Contudo, parece cada vez mais improvável que este tenha sido Pedro Julião, o papa João XXI. 3.3.3 – João Rol João Rol foi um dos eclesiásticos portugueses mais importantes da primeira metade do século XIII. A sua inclusão neste estudo, tal como a de tantos outros físicos eclesiásticos, é quase acidental: ao longo da abundante documentação em que surge, entre 1218 e 1241 234 , ano da sua morte, apenas é referido como físico em alguns documentos pontifícios da década de 30, figurando então como físico pontifício de Gregório IX 235 . Proveniente de uma família da elite urbana de Lisboa, com origem franca, estabelecida logo aquando da conquista da cidade 236 , João Rol viverá mais de 232 FERREIRA, João - O Papa João XXI e o Priorado de Santo André de Mafra. Studium Generale, vol. I, nº 3-4. Porto: Instituto de Alta Cultura, 1955. p. 359-364; por sua vez, este cónego Pedro é confundido com Pedro Martins por Leontina Ventura, como notou Rosário Morujão. O físico régio que Ventura considera atuante de 1268 a 1301 são, na realidade, dois indivíduos distintos. O primeiro, cónego de Évora e prior de Santo André de Mafra, serve D. Afonso III entre 1268 e 1275, ano em que está documentalmente provada a sua morte. O segundo, Pedro Martins, entrando ao serviço do rei como físico, será também físico régio e chanceler-mor no início do reinado do seu filho, D. Dinis, chega a bispo de Évora e de Coimbra, morrendo apenas em 1301. cf. MORUJÃO, Maria do Rosário Barbosa – A Sé de Coimbra. A Instituição e a Chancelaria (1080-1318). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, Fundação para a Ciência e Tecnologia, 2010, p. 161, nota 379. 233 CARDOSO, Jorge – Agiológio Lusitano. tomo III. Estudo e índices de Maria de Lurdes Correia Fernandes. Porto: Universidade do Porto, 2002, p. 239-245, 249-252. 234 Armando Norte compila a documentação para o Mestre João Rol, à semelhança dos outros letrados que estuda, no catálogo prosopográfico anexo à sua tese de doutoramento. NORTE – Letrados e Cultura Letrada…, vol. 2, p. 173-175. 235 COSTA – Mestre Silvestre e Mestre Vicente…, p 253-254, nota 378; no que diz respeito à suposta atuação de João Rol como físico régio, esta interpretação parece ter sido originada pela tradução ‘livre’ que é feita do primeiro documento em que João Rol surge, a doação feita por D. Afonso II ao bispo e Sé de Lisboa, onde também surge um físico régio. Cf. o documento original em COSTA – Mestre Silvestre e Mestre Vicente…, p. 73-74, nota 153, e a tradução em Documentos para a História da Cidade de Lisboa: Cabido da Sé, Sumários de Lousada, Apontamentos dos Brandões, Livro dos Bens Próprios dos Reis e Rainhas. Lisboa: Câmara Municipal, 1954, p. 299. 236 FERNANDES, Hermenegildo – D. Sancho II. Lisboa: Círculo de Leitores, 2006, p. 61.
64 vinte anos na cúria papal, segundo informação do próprio pontífice 237 . Foi um dos protagonistas em parte das disputas que degradaram sucessivamente a relação entre D. Sancho II e o Papado. Chegou a bispo de Lisboa, por escolha do pontífice, em 1239, gerindo a diocese à distância até à sua morte, em 1241, sempre com a resistência do rei e dos seus homens, que atacavam os seus familiares e bens com frequência, apesar das repreensões do papa 238 . A sua atividade médica é, para lá destas duas referências, desconhecida. Contudo, estas demonstram que, a determinada altura da sua carreira eclesiástica, João Rol foi, além de capelão pontifício, médico papal. Joaquim Veríssimo Serrão coloca a hipótese de João Rol ter estudado em Montpellier, juntamente com Gil de Leiria e Pedro Julião 239 . Porém, tendo em conta as escassas referências à sua atividade médica, esta hipótese carecerá de fundamentação. Todavia, fica a certeza de uma formação erudita sólida, que permitiu a João Rol, entre outros responsabilidades, cuidar da saúde de um dos homens mais poderosos do seu tempo, além de ter tido um papel de destaque nas relações entre a coroa portuguesa e o Papado no segundo quartel de Duzentos. 3.3.4 – Gil de Leiria Mestre Gil de Leiria, cónego e diácono da Sé de Coimbra, além de físico régio, é autor do testemunho mais extraordinário de literacia médica conhecido no Portugal ducentista: o seu próprio testamento. Publicado por Artur Moreira de Sá 240 , data de 1257 e, num texto relativamente curto, lista a sua extraordinária coleção de manuscritos médicos. Além da constatação óbvia da quantidade, uma análise qualitativa revela dados relativos à sua formação e eventual exercício profissional e docente 241 . Pouco se sabe sobre a sua vida. Identificado como cónego e diácono da Sé de Coimbra, sabemos, através do seu testamento, o nome da mãe: Maria Gonçalves. Porém, mais nenhuma ligação familiar é conhecida, sendo os únicos beneficiários do seu testamento a própria Sé conimbricense e os frades menores de Leiria. Possuía algum património imobiliário, 237 COSTA – Mestre Silvestre e Mestre Vicente…, p. 240-242, nota 358. 238 COSTA – Mestre Silvestre e Mestre Vicente…, p 213-277. 239 SERRÃO, Joaquim Veríssimo – Les Portugais à l’Université de Montpellier (XIIe—XVIIe siècles). Paris: Fundação Calouste Gulbenkian, 1971, p. 26-32. 240 SÁ, Artur Moreira de – Primórdios da Cultura Portuguesa. Arquivos de História da Cultura Portuguesa, vol. I, nº 1. Lisboa: Instituto de Alta Cultura, 1966. Doc. 48, p. 69-70. 241 Análise feita no ponto 2.3 do IV capítulo desta dissertação.
65 mas era na sua extraordinária biblioteca que residiria a sua fortuna, provavelmente reflexo de uma vida de intenso estudo e prática médica 242 . Tendo sido físico régio de D. Sancho II 243 , não se acha provas de que servisse a coroa após a deposição deste. Fica o destaque para a sua aparente ligação afetiva ao então incipiente convento franciscano de Leiria, ao qual legou a sua biblioteca médica com o intuito de que lá fosse preservada; no que diz respeito aos seus livros relacionados com o Direito, a atitude é bem diferente: Mestre Gil ordena que sejam vendidos 244 . 3.3.5 – Afonso Dinis Afonso Dinis, que, na fase final da sua vida, ascendeu às cátedras episcopais da Guarda (1346-1347) e de Évora (1347-1352), morrendo no exercício da última, é um personagem complexo e a passagem pela faculdade médica de Paris, assim como o exercício da carreira médica, são apenas alguns dos muitos aspetos que completam o quadro da sua vida. Originário de Lisboa, estaria inserido numa rede familiar com alguma ligação ao Estudo Geral português, sendo primo de Afonso Pais, mercador e conservador do dito Estudo, por sua vez sobrinho de Mestre Pedro, físico régio e primo de mestre João das Leis 245 . Estudando por largos anos em Paris, terá iniciado os estudos de medicina por volta de 1327, lendo Avicena, já como bacharel, em 1330. Por intercessão de D. Afonso IV, obtém a licenciatura em janeiro de 1331, iniciando-se um longo processo entre alguns mestres da faculdade, que consideravam inválida e ilegal tal atribuição pelo chanceler da Universidade de Paris, e o dito oficial. Por autoridade apostólica, Hugo, bispo de Paris, reconhece-lhe a licenciatura em março de 1332, tendo mesmo o escolar português recebido, por graça papal, o doutoramento em medicina meses antes, em novembro de 1331 246 . Exercendo como médico e secretário de D. Afonso IV e da sua filha, D. Maria, rainha consorte de Castela, teria já abandonado a prática médica em 1342, altura em que estava já em fase avançada dos seus estudos teológicos em Paris 247 . Um elemento de grande relevância para conhecer um pouco melhor a carreira médica de Afonso Dinis passaria por perceber se se trata do mesmo 242 NORTE – Letrados e Cultura Letrada…, vol. II, p. 100-102. 243 Chancelaria de D. Afonso III, doc. 98, p. 107-108. 244 SÁ – Primórdios da Cultura Portuguesa…, doc. 48, p. 69-70. 245 FARELO, Mário – A universitas no labirinto…, p. 208-210. 246 COSTA, António Domingues de Sousa – Mestre Afonso Dinis…, nº 15, p. 379-390. 247 COSTA – Mestre Afonso Dinis…, nº 15, p. 379-380.
66 Mestre Afonso a quem Afonso IV nomeia examinador de físicos em 1338 248 . Na documentação publicada por Sousa Costa, há um longo hiato entre o grande fluxo de documentos de 1331-1332, altura da crise provocada pela sua licenciatura na Faculdade de Medicina de Paris, e 1342-1352, período em que, já avançado nos estudos teológicos, volta a receber uma série de benefícios que culminariam na sua escolha para bispo da Guarda, em 1346, e de Évora, no ano seguinte 249 . O facto de Mestre Afonso apenas ter realizado três exames, todos em 1338, poderá apoiar esta suposição 250 . Tendo D. Afonso IV aproveitado uma breve passagem do seu físico pelo reino, entre as suas estadias em Paris e na Corte pontifícia de Avinhão, poderia tê-lo nomeado para esta nova função, criada, talvez, a conselho do próprio Afonso Dinis. Ocupando-a apenas brevemente, sucedem-lhe rapidamente outros físicos régios, como Mestre Martinho e Mestre André 251 . Isto poderá coincidir com o abandono total da prática médica por Afonso Dinis, como levam a crer dois documentos datados de 1342 onde refere ‘ter sido’ médico de D. Afonso IV e da sua filha, D. Maria 252 . Apesar de não ter deixado obra médica, Afonso Dinis deixou obra escrita, desconhecida dos investigadores portugueses ainda no tempo de Sousa Costa 253 . Revelou-se um notável averroísta, ainda que os especialistas notem alguma independência de pensamento 254 . Por se tratar sobretudo de matéria puramente filosófica, limitar-nos-emos a deixar a referência aos trabalhos sobre o assunto 255 . Notese, porém, o assinalável nível intelectual e a figura excecional – ainda que possa não ter sido única – deste clérigo e mestre português 248 Chancelarias Portuguesas: D. Afonso IV. org. A. H. de Oliveira Marques. Lisboa: Instituto Nacional de Investigação Científica, Centro de Estudos Históricos da Universidade de Lisboa, 1990-1992. Vol. II, doc. 91. 249 COSTA – Mestre Afonso Dinis…, nº 16/17, p. 523-607. 250 Chancelarias Portuguesas: D. Afonso IV, vol. II, docs. 91, 92 e 113. 251 Chancelarias Portuguesas: D. Afonso IV, vol. II, docs. 121, 147, 223. 252 COSTA – Mestre Afonso Dinis…, nº 16/17, p. 555-557, docs. XVIII e XIX. 253 COSTA – Mestre Afonso Dinis…, nº 16/17, p. 522. 254 CARVALHO, Mário Santiago de – Dois casos de translação da filosofia de expressão árabe no Portugal medieval: João de Sevilha e de Lima e Afonso Dinis de Lisboa (No oitavo centenário da morte de Averróis). Humanística e Teologia, vol. 20 (1999), p. 270. 255 CARVALHO – Dois casos de translação…, p. 259-271; MEIRINHOS, José Francisco – Alfonso Dinis de Lisboa: percurso de um filósofo, médico, teólogo, tradutor e eclesiástico do século XIV. Península, Revista de Estudos Ibéricos, nº 4 (2007), p. 47-64.
67 3.4 – Na margem 3.4.1 – Os Judeus Conhecem-se núcleos de judeus residentes no território que hoje é Portugal desde a Antiguidade tardia, permanecendo durante o período visigótico e islâmico, até ao advento da nacionalidade 256 . Também no que respeita à prática médica por judeus, o território ibérico revela, desde cedo, testemunhos. Hasdai ibn Saprut, médico, ministro e diplomata da corte do califa cordovês Abd al-Rhaman III (r. 912-961), terá sido responsável pela célebre cura da obesidade de Sancho I de Leão (r. 956-958 e 960-966), que, apoiado pelo califa, recuperaria o trono leonês, perdido em 958 para Ordonho IV 257 . Já na viragem para o século XII, Moisés Sefaradi (1062-1110), convertido ao Cristianismo e batizado com o nome de Pedro Afonso, serve Afonso I de Aragão como físico, dedicando-se igualmente à escrita de tratados antijudaicos 258 . Outro reino do nordeste peninsular, Navarra, também possui registos de médicos régios judeus logo no último quartel do século XII, como o já referido Salomom, medicus de Sancho VI (r. 1150-1194) 259 . Porém, e ao contrário daquilo que se verificará notoriamente nos últimos decénios do século XIV e no século XV 260 , entre finais do século XII e 1340 a medicina não parece ter sido uma atividade exercida por um grande número de judeus em Portugal. Poder-se-á assumir que, apesar da sua possível existência, estes físicos judeus não exercessem fora das suas comunidades ou que deles não se tenha deixado qualquer testemunho documental. Por outro lado, a contínua movimentação de judeus, entre períodos de acalmia e perseguição, desde França e da Provença a Portugal, poderá ter provocado a entrada de algumas famílias em território português que acabariam por perseverar na prática médica. As fronteiras devem ser matizadas no caso dos judeus. 256 TAVARES, Maria José Ferro – Os Judeus em Portugal no Século XIV. Segunda edição. Lisboa: Guimarães Editores, 2000, p. 11-18. 257 GOMÉZ-ARANDA, Mariano – Sefarad Científica: la visión judia de la ciencia en la Edad Media. Tres Cantos: Nivola Libros y Ediciones, 2003, p. 19-21. 258 NORTE – Letrados e Cultura Letrada…, vol. 2, p. 616; o Mosteiro de Santa Cruz possuía uma obra de Pedro Afonso, preservada ainda hoje no manuscrito 34 do fundo crúzio, à guarda da BPMP. cf. GOMES – In Limine…, vol. I, p. 275. 259 Archivo General de Navarra…, docs. nº 69, 99 e 138. 260 Confirmam esta afirmação estudos como o já referido artigo de Iria Gonçalves e o levantamento populacional dos judeus quatrocentistas portugueses, feito por Maria José Pimenta Ferro Tavares no segundo volume da sua tese de doutoramento. Cf. TAVARES, Maria José Pimenta Ferro – Os Judeus em Portugal no Século XV. Vol. II. Lisboa: Instituto Nacional de Investigação Científica, 1984.
68 Não possuindo um reino seu, seriam recebidos e acolhidos em qualquer comunidade judaica. O desenvolvimento científico e filosófico dos judeus mediterrânicos, pontes entre o mundo cristão e muçulmano, e a transformação do hebraico numa língua de cultura e ciência, abriram inúmeras portas aos judeus, mesmo nos meios que lhes seriam tradicionalmente hostis. O grande pioneiro desse movimento terá sido o judeu tudelano Ibn Ezra (1089-1167), que deu nova vida ao hebraico, adaptando uma língua litúrgica, praticamente morta, ao conhecimento do seu tempo e às exigências de uma ciência abstrata e complexa. Originário do reino de Navarra, viveu e ensinou no Norte de África, em várias cidades italianas, na Provença e em Inglaterra, onde provavelmente terá morrido 261 . Para Portugal, entre 1192 e 1340, resta-nos o registo de dois clínicos judeus, Mestre Jacob e Mestre Soleima. Ambos residiram no Porto durante o reinado de D. Dinis, onde seriam estimados pela população que, de resto, serviam com o seu ofício 262 . Não terão sido caso único. No reinado de D. Afonso IV, em 1347, o concelho queixa-se ao rei devido à proibição do exercício da física por praticantes judeus, feita pelo corregedor. A qualidade dos clínicos judeus, superior à dos cristãos, assume-se como um fator determinante na reclamação 263 . O seu número e importância não seriam, portanto, apenas residuais ou desprezíveis. No que diz respeito ao exercício da física ou cirurgia por parte de mestres judeus junto da corte, o primeiro testemunho data de 1357, quando Mestre Vivas Judeu é identificado como físico do infante D. João, filho de D. Pedro I e D. Inês de Castro 264 . A este junta-se Mestre José, identificado como cirurgião da rainha D. Leonor Teles, em 1377 265 ; o primeiro físico ou cirurgião judeu explicitamente referido como servidor de um rei português é Mestre Moisés, que em 1391 é mencionado como físico do rei D. João I 266 . 3.4.2 – Os Muçulmanos A minoria muçulmana residente em Portugal tinha um estatuto necessariamente diferente da judaica. O empobrecimento cultural das comunidades residentes nos reinos 261 GOMÉZ-ARANDA – Sefarad Científica…, p. 39-77. 262 TAVARES – Os Judeus em Portugal no Século XIV…, p. 157. 263 BASTO – Os Judeus no velho Porto…, pp. 38-39. 264 TAVARES – Os Judeus em Portugal no Século XIV…, p. 157. 265 TAVARES – Os Judeus em Portugal no Século XIV…, p. 158. 266 TAVARES – Os Judeus em Portugal no Século. XV, II, p. 174, 395, 692.
69 cristãos, após a fuga das elites para os territórios ainda por conquistar no sul da Península, ou na África do Norte, foi acentuado em Castela 267 , pelo que será prudente adivinhar um cenário similar, se não mais precoce, para o caso português. Seria também expectável uma maior hostilidade face à minoria islâmica, acicatada pelo histórico de antagonismo entre as duas religiões no território peninsular. Este deverá ser o fator mais significativo na ausência quase total de físicos muçulmanos na documentação medieval portuguesa, não só no período em estudo, mas até à expulsão dos judeus e muçulmanos, em 1496: para todo o período medieval português, entre centenas de praticantes judeus e cristãos, encontrámos apenas três físicos muçulmanos: Mestre Ali, físico de D. Afonso IV, documentado em 1340; Mestre Mafamede, documentado entre 1381 e 1393, e Mestre Brafam, documentado em 1441 268 . Todos são mouros de Lisboa. Uma vez mais, não deveremos assumir que os clínicos muçulmanos simplesmente não existiam. A explicação deverá radicar num isolamento intracomunitário ainda mais forte do que o dos judeus. É possível que, à exceção das maiores comunas do reino, a figura do físico fosse de parca importância e voltasse a estar mais relacionada com os costumes tradicionais, fazendo dos praticantes ocasionais mais curandeiros do que médicos. Certo é que, apesar da influência da ciência e filosofia árabe no desenvolvimento do modelo universitário e na cultura da Europa ocidental, os próprios muçulmanos terão permanecido praticamente arredados do desenvolvimento cultural e científico. 3.4.3 – As mulheres No mundo das práticas médicas, o grupo que compreende as mulheres, sobretudo, mas também os praticantes do mundo rural, homens ou mulheres, será o mais marginal ao desenvolvimento da medicina científica e racional no Portugal medievo. As fontes medievais revelam pouco daquilo que deveria ser uma participação considerável das mulheres na prática da cura, ainda que, não raras vezes, o problema resida na busca restrita por determinados vocábulos identificativos ou por provas diretas 267 GARCÍA-BALLESTER, Luis – A marginal learned medical world…, p. 362. 268 BARROS, Maria Filomena Lopes de – Tempos e Espaços de Mouros. A Minoria Muçulmana no Reino Português (séculos XII a XV). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, Fundação para Ciência e Tecnologia, 2007, p. 528-530.
70 dessa atividade 269 . Algumas figuras notáveis como a lendária Trótula de Salerno e Santa Hildegarda de Bingen, representam diversos aspetos interventivos, entre a ciência prática, laica, e a cura mística 270 . Os domínios tradicionais reservados de forma quase exclusiva às mulheres serão sempre aqueles que dizem respeito ao nascimento. Quer nos territórios cristãos, quer nos muçulmanos, onde as imposições corânicas impediam um homem de se aproximar de uma mulher que não fosse sua esposa ou parente direta, remetiam o parto e assistência de grávidas e recém-nascidos para mulheres. Conhece-se, para o período entre 1150 e 1500, em França, 126 mulheres ligadas à prática médica regular 271 . A transmissão deste conhecimento seria sobretudo empírica, de anciãs para mulheres mais jovens, que passariam a fazer este tipo de assistência na sua comunidade, de forma ‘amadora’. Uma grande dose de superstição estaria envolvida, sendo esta forma de medicina informal uma das manifestações mais puras da cultura popular. Para o caso português, é bastante difícil perceber o peso que a prática feminina teria nos vários tipos de medicina, da puramente supersticiosa à minimamente erudita e treinada. Nos meios rurais, a assistência prestada por mulheres poderia ser tão ou mais relevante do que aquela que o era por homens. Duas tipologias documentais deverão receber a maior atenção num eventual estudo futuro sobre estas mulheres: fontes judiciais e legislativas/normativas, que recolham procedimentos legais contra práticas de cura possivelmente interpretadas como feitiçaria ou procedimentos heterodoxos, podendo revelar também alguns casos particulares 272 ; fontes hagiográficas e de espiritualidade popular, como os livros de milagres onde, paralelamente à ação taumatúrgica dos santos protagonistas dos mesmos, se relatam práticas populares, de outro modo dificilmente acessíveis. Sabe-se, de facto, muito pouco sobre a atividade médica exercida por mulheres, sobretudo no meio que lhes seria privilegiado, o popular. Mas muita desta ignorância radicará ainda na escassez de trabalhos que lhe possa ter sido dedicada. Alargando o campo de análise a toda a Europa, observe-se o caso inglês: Um compêndio coletivo de medicina quatrocentista, o já referido Tabula Medicine, começado e completado maioritariamente por frades mendicantes, tem inúmeras receitas, na sua maioria atribuídas a frades e físicos conhecidos. Porém, restam também 269 GREEN – Documenting medieval women’s…, p. 322-342. 270 RÚBER, Maria Olívia Pires Firmino: Duas figuras femininas da medicina medieval. Porto: [s.n.], 1956. Dissertação de Licenciatura apresentada à Faculdade de Medicina da Universidade do Porto; esta dissertação faz uma análise comparativa dos escritos médicos atribuídos a estas autoras. 271 JACQUART – Le Milieu Médical…, p. 47. 272 As cartas de perdão constituem uma tipologia de fonte privilegiada e com enorme potencial, por exemplo. Porém, para o reino português, apenas as temos a partir do período quatrocentista.
71 algumas atribuídas a “velhas mulheres” e “rústicos”. À possível surpresa inicial, as palavras de Peter Murray Jones respondem com uma constatação ainda hoje válida: “Não parece existir uma distinção operativa, na prática, entre remédios originários de reputadas autoridades académicas e aqueles que têm origem de outros setores da sociedade. Sendo os remédios apropriadamente testados ou comprovados, não há motivo para os excluir com base na falta de qualificações do informante” 273 . No que diz respeito a uma eventual inserção das mulheres nas artes médicas mais ‘formais’, as fontes levam-nos a crer que seria possível. Por toda a Cristandade, a progressiva laicização do ofício foi permitindo essa profissionalização. Em Paris, aquando da instituição da obrigatoriedade de exame para exercer cirurgia, em 1311, estava prevista a possibilidade de mulheres serem examinadas e admitidas 274 . Em vários pontos da Europa, as mulheres associavam-se com frequência à atividade médica dos pais ou maridos, herdando-lhes o ofício não raras vezes. Apesar de existirem dados que nos revelem uma realidade similar para o caso português, não me parece verosímil que Portugal constituísse uma exceção total 275 . D. João I, em 1392, ao detalhar que nenhum homem ou mulher poderia exercer física, cirurgia ou boticária sem exame pelo físicomor, deixa implícita a obrigação – mas também a possibilidade – de as mulheres serem igualmente examinadas. Ainda que não reste nenhum caso para o século XIV, no século seguinte surge um caso, vulgarizando-se depois com o advento da Modernidade 276 . No que diz respeito ao mundo universitário, a inserção das mulheres demorará até à admissão de estudantes do sexo feminino no ensino superior nacional, algo que só acontecerá já com a I República. Ainda que a enfermagem fosse opção desde o século XIX, a formação estaria longe de ser equiparável. 273 JONES, Peter Murray – Mediating collective experience…, p. 295; a tradução é minha. 274 DIEPGEN, Paul – Historia de la Medicina. Vol. 1. Barcelona: Editorial Labor, 1925, p. 216. 275 GREEN – Documenting medieval women’s…, p. 329-342. 276 GONÇALVES – Físicos e cirurgiões…, p. 86.
72 4 – O saber 4.1 – Aprendizagem e formação dos praticantes 4.1.1 - Haveria ensino médico em Portugal antes da fundação da Universidade? Determinar se existiu um ensino de medicina com algum grau de formalidade em Portugal, no período que antecede a fundação da universidade portuguesa, em 1290, é uma questão relevante nesta investigação. Os meios de educação organizada, anteriores à fundação da Universidade em Portugal, foram estudados por Francisco da Gama Caeiro 277 . Contudo, e tendo em conta as quase cinco décadas com que já conta esse estudo, várias das suas sugestões deverão ser revistas. Estudando três listas de obras emprestadas pelo mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, em 1207, 1218 e 1226, assim como um inventário coevo do mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa, Caeiro sugere que o número assinalável de obras médicas presentes seria um sinal de possíveis escolas de medicina a funcionar em ambos os mosteiros de cónegos regrantes 278 . Também António Cruz, poucos anos antes, havia estudado, na sua tese de doutoramento, os mesmos documentos relativos a Santa Cruz. Este último historiador foi um pouco mais cauteloso. Utilizando criticamente a crónica seiscentista dos Cónegos Regrantes, da autoria de Frei Nicolau de Santa Maria, António Cruz recusa que o primeiro leitor de medicina no mosteiro e no reino tenha sido Mendo Dias, enviado para Paris por D. Sancho I no final do século XII com uma ‘bolsa’, tal como conta o cronista 279 . Contudo, e aproveitando uma referência a um cónego, Pedro Peres, identificado no registo do capítulo provincial dos regrantes de 1228, realizado no Porto, como magno em Gramática, Medicina, Lógica e Teologia, além de bom pregador, 277 CAEIRO, Francisco da Gama – As Escolas Capitulares no primeiro século da Nacionalidade Portuguesa. Arquivos de História da Cultura Portuguesa, vol. I, nº 2. Lisboa: Instituto de Alta Cultura, 1966; CAEIRO, Francisco da Gama – A Organização do Ensino em Portugal no Período Anterior à Fundação da Universidade. Arquivos de História da Cultura Portuguesa, vol. II, nº 3. Lisboa: Instituto de Alta Cultura, 1968. 278 CAEIRO – A Organização do Ensino..., p. 9-11. 279 CRUZ – Santa Cruz de Coimbra…. p. 210-213, 220-221; é possível que Frei Nicolau tenha feito uma leitura abusiva de documentação da época. Seria possível que este Mendo Dias a que se refere o cronista fosse o Mestre Mendo, médico régio de D. Sancho I, coevo a este alegado primeiro lente de medicina do reino. Tal como Jorge Cardoso confundiu o físico e cónego eborense Mestre Pedro com Pedro Julião e Mestre Gil de Leiria com Frei Gil de Santarém, a origem do problema não estaria numa invenção pura, mas na leitura simplista de documentos autênticos que, no caso dos erros de Jorge Cardoso, como vimos no terceiro capítulo, chegaram até nós.
79 identificados, assunto que já discutido noutro capítulo, o aspeto mais importante que emerge destas datas precoces é o facto de ser anterior à efetiva integração da Medicina como faculdade por direito próprio na Universidade de Paris. Como refere Cornelius O’Boyle, não estão presentes mestres-médicos na elaboração dos primeiros estatutos internos parisienses, redigidos em 1208. As referências feitas à physica são maioritariamente referentes à filosofia natural, nesse período. A faculdade ter-se-á consolidado perto de meados do século XIII e a primeira referência segura à existência de uma Faculdade de Medicina, independente da Faculdade de Artes, é feita num documento datado de 1251 311 . No que toca aos primeiros estatutos da faculdade, apenas surgem em 1270-74, sendo revistos em 1331 e 1350 312 . Confrontando esta cronologia, é possível perceber um certo atraso na formalização da entrada da medicina na Universidade de Paris, algo análogo ao caso bolonhês, como adiante veremos. Esta evolução tem implicações, por exemplo, na atribuição de graus. Apesar da existência de um ensino médico organizado e com alguma reputação, a ‘equivalência’ universitária demorou a chegar e não o teria feito de forma completa ainda no tempo de Pedro Hispano, por exemplo. A frequência de escolas médicas por escolares portugueses, excluindo desta análise os casos excecionais de Gil de Santarém e Pedro Hispano, não deixou abundante documentação para grande parte do período analisado. A origem das relações entre escolares portugueses e as escolas superiores de Paris, igualmente semi-lendária, coloca um crúzio, Mendo Dias, a estudar medicina em Paris no final do século XII, aproveitando a concessão de uma bolsa por D. Sancho I. Regressando ao reino, teria sido o primeiro leitor de medicina em Portugal, lendo no claustro crúzio 313 . Também aqui parece ter havido uma leitura abusiva, condizente com a liberdade interpretativa com que Frei Nicolau de Santa Maria, ainda mais do que outros cronistas e hagiógrafos modernos, lidava com as fontes documentais que efetivamente consultou. Poderia estar a falar de Mestre Mendo, medicus regis, ‘dando o seu toque’ depois, tornando-o crúzio, escolar no estrangeiro e lente de medicina, trazendo a Santa Cruz mais uma primazia gloriosa, desta feita científica. Factual será a ligação do cónego conimbricense Mestre Martinho, que faleceu em Paris, em 1175, aparentemente estudando Artes Liberais. O 311 O’BOYLE – The Art Of Medicine…, p. 16-20. 312 O’BOYLE – The Art Of Medicine…, p. 20-32. 313 CRUZ – Santa Cruz de Coimbra…, p. 210-213.
80 seu acervo foi doado à Sé de Coimbra, nele pontuando, entre obras do trivium e quadrivium, livros de medicina e de prática médica 314 . O primeiro português do qual temos provas inequívocas da frequência da faculdade médica parisiense é Afonso Dinis, cuja figura já analisámos no terceiro capítulo. Personagem excecional, tem, por isso mesmo, um percurso conhecido da posteridade. Não terá sido o primeiro português a frequentar as escolas médicas parisienses. Mas, de acordo com os dados disponíveis atualmente, é o primeiro a quem se pode atribuir uma inequívoca ligação à faculdade de medicina parisiense. 4.1.2.4 – Bolonha A escola médica de Bolonha teve um desenvolvimento mais tardio do que as celebradas universidades conterrâneas de ambos os direitos. Terá iniciado a sua adaptação ao modelo universitário apenas por volta de 1260, tendo sido o primeiro grau atribuído em 1268 315 . O seu aparecimento estará ligado à atividade do físico, cirurgião e autor bolonhês Taddeo Alderotti 316 , desenvolvendo-se consideravelmente, sobretudo devido à grande tradição local de praticantes eruditos nas áreas da física e da cirurgia, assim como à valorização do papel desses profissionais: a comuna bolonhesa tinha um cirurgião assalariado desde o início do século XIII. O desenvolvimento de uma verdadeira oligarquia médica local condicionou a abertura da universidade médica bolonhesa a áreas de captação para lá dos Alpes; a atividade docente estaria restrita aos cidadãos bolonheses, geralmente filhos ou familiares próximos de outros mestres 317 . Vários poderão ser os fatores para a inexistência de estudantes portugueses de medicina em Bolonha. A captação regional/local, um corpo docente totalmente virado para a prática e maioritariamente laico e uma maior proximidade de outros centros de ensino médico igualmente ou ainda mais conceituados, são apenas alguns fatores que poderão ter influenciado a preferência dos escolares de medicina portugueses por outras escolas. Bolonha manter-se-á durante todo o período medieval como o grande centro de 314 SÁ – Primórdios da Cultura Portuguesa..., doc. 7, p. 19. 315 SIRAISI – A Faculdade de Medicina…, p. 368-369. 316 MCVAUGH, Michael R. – The Rational Surgery of the Middle Ages. Firenze: SISMEL/Edizzioni del Galluzzo, 2006, p. 201-205. 317 SIRAISI – A Faculdade de Medicina…, p. 369-374.
81 ensino jurídico, e a atração dos portugueses por esse ensino jamais cessará, mesmo com a regularidade do ensino de ambos os direitos no Estudo Geral português 318 . 4.1.2.5 – Outros Estudos Gerais Além das grandes escolas médicas, não sobraram muitos dados sobre a eventual frequência de escolas médicas por escolares portugueses no período em estudo. Olhando para Salamanca, cuja primeira carta de privilégios – e o verdadeiro arranque da universidade local, também no domínio da medicina – foi concedida por Afonso X, o Sábio, em 1254, é natural que a proximidade geográfica e o maior dinamismo cultural atraíssem um número assinalável de portugueses, principalmente das dioceses da Guarda e de Lamego 319 . A medicina foi ensinada em Salamanca desde a sua fundação. Apesar da quantidade de escolares portugueses que lá leram e ouviram ler, nenhum o fez inequivocamente na Medicina. Veríssimo Serrão aponta uma hipótese, já bastante tardia: o bacharel Gonçalo Fernandes que, em 1468, lê brevemente a cadeira de Astrologia, em substituição do regente. Serrão sugere que a relação simbiótica entre a astrologia e a medicina possa verificar-se aqui também, mas a identificação é meramente conjetural, e até forçada. Para o período em estudo neste trabalho, nenhuma identificação é feita, apesar de ser altamente improvável que nenhum português se tenha graduado ou, pelo menos, frequentando as lições médicas do estudo castelhano. Quanto aos studia generalia situados em França, o panorama não é mais revelador. Falando de Toulouse, a faculdade médica local parece ter tido um percurso semelhante à portuguesa, com um longo período de irregularidade de funcionamento que levou vários autores a questionarem-se sobre a sua real existência antes de meados do século XIV 320 . Como em quase todos os studia generalia, há registo de portugueses. Contudo, e uma vez mais, não é na medicina, mas sim no direito que eles se destacam. Nota para o pico de frequência de portugueses – ou, pelo menos, do registo dessa frequência – evidenciado num rotulus enviado pela universidade tolosana à recémdividida corte papal de Avinhão, em 1378 321 . Para os restantes studia franceses 318 NORTE, Armando – Lentes, escolares e letrados: das origens do Estudo Geral ao final do século XIV. In A Universidade Medieval em Lisboa…, p. 110-111. 319 SERRÃO – Portugueses no Estudo de Salamanca…, p. 46. 320 SERRÃO – Portugueses no Estudo de Toulouse…, p. 6-7, nota 17. 321 SERRÃO – Portugueses no Estudo de Toulouse…, p. 25.
82 fundados antes de 1340 – Orleães, em 1235, Angers, c. 1250, Avinhão, em 1303, Cahors, em 1332 e Grenoble, em 1339 322 -, não foram feitos estudos tão aprofundados, mas as hipóteses de encontrarmos estudantes portugueses em medicina são quase nulas. A Universidade de Orleães funcionava “como a faculdade de Direito Civil” do studium de Paris, após a proibição que Honório III decretou ao estudo dessa matéria na universidade Parisiense e consequente mudança dos mestres da área para Orleães. Descartam-se, assim, estudos médicos nesta cidade. Avinhão atrairia bastantes escolares de toda a Europa pela instalação da corte papal na cidade, mas aqueles que pretendessem obter uma formação médica por certo a fariam em Montpellier. A grande proximidade geográfica e o número considerável de físicos apostólicos formados na cidade provençal assim o parecem indicar 323 . Quanto às restantes cidades, a pequena dimensão dos seus studia, a área de captação regional e os estudos médicos praticamente inexistentes tornariam altamente improvável, e certamente acidental, a frequência de um escolar português que buscasse formação superior nas artes da cura. Os studia generalia italianos são os mais numerosos neste período. Porém, e como Jacques Verger demonstra, boa parte são criações frágeis do século XIII que acabam por desaparecer, ainda que uma boa parte delas venha a ter segunda fundação, mais afortunada, sobretudo no período quatrocentista. De 1188 a 1340, além de Bolonha e Salerno, dá-se a fundação de nove studia – Reggio (1188), Vicenza (1204), Arezzo (1215), Pádua (1222), Nápoles (1224), Vercelli (1228), o Studium Curiae romano (1245), Siena (1246), Perugia (1308), Treviso (1318) -, aos quais se deverá acrescentar duas fundações que levantam dúvidas quanto ao seu caráter universitário, Piacenza (1248) e Verona (1339) 324 . Até meados do século XIV, nenhum destes studia poderia ombrear com as escolas médicas de Salerno, numa primeira fase, e de Bolonha, mais tarde. Se nem o studium bolonhês atrairia escolares portugueses de medicina, parece altamente improvável encontrá-los em alguma das restantes. Nota para o caso especial de Siena, onde a tradição coloca Pedro Hispano a lecionar: o Estudo terá sido fundado em 1246, mas a sua primeira existência terá sido efémera, cessando atividade logo em 1252 325 . Apenas após a refundação em 1357 se torna um centro académico importante na região. Um último apontamento para o studium paduano. As comunidades e escolas 322 VERGER – Modelos…, p. 59. 323 JACQUART – Milieu Medical…, p. 377. 324 VERGER – Modelos…, p. 59. 325 VERGER – Modelos…, p. 59.
83 médicas da Universidade de Pádua são, provavelmente, as mais importantes da Idade Média europeia 326 . Porém, antes do século XV, Pádua é um centro modesto de ensino médico, vivendo na sombra de Bolonha. Igual cenário para as universidades inglesas de Cambridge e Oxford. Os poucos portugueses que se sabe terem lá rumado são frades mendicantes buscando os grandes mestre de Teologia que as suas ordens lá tinham 327 . Aliando estes dados à aparente insignificância dos estudos médicos nas duas universidades em causa, torna-se altamente improvável que algum escolar de medicina português tenha procurado além do Canal da Mancha a fonte para o seu conhecimento. Em jeito de conclusão, destaca-se a incerteza. Sabemos que uma parte nada desprezível dos físicos recenseados neste estudo terá frequentado pelo menos um Estudo Geral. É evidente para o caso do Mestre Gil de Leiria, por exemplo. Porém, a falta de referências nos registos dos studia ou nos documentos em que surgem estes indivíduos, quer no exercício da sua carreira, quer em documentação mais indireta, leva-me a considerar como incerta qualquer hipótese. Houve, inequivocamente, vários portugueses que buscaram além-fronteiras a fonte do conhecimento para exercer as artes da cura. Com os dados atuais, permanece extremamente difícil associar com certeza cada físico a um Estudo Geral. Casos como o de Afonso Dinis mostram-se excecionais, mas funcionam como guias e termos de comparação. 4.1.3 – A medicina na Universidade de Lisboa-Coimbra A medicina acompanha a universidade nacional desde os seus primeiros momentos. Autorizando o papa Nicolau IV que se ensinasse e concedesse licenças em todas as “faculdades lícitas”, com exceção da Teologia – então monopólio das ordens mendicantes, em Portugal e em quase toda a Europa, com exceção de Paris, Oxford e Cambridge 328 –, abre caminho ao ensino e formação na área da medicina 329 . As informações que as fontes dão neste domínio para as décadas seguintes são, contudo, 326 SIRAISI – A Faculdade de Medicina…, p. 374. 327 NORTE – Lentes, escolares e letrados…, p. 114-115. 328 ASZTALOS, Monika – A Faculdade de Teologia. In Uma História da Universidade Europeia…, p. 416, 434-439 329 Chartularium Universitatis Portugalensis (1288-1537),vol. 1. comp. e editado por Artur Moreira de Sá. Lisboa: Instituto de Alta Cultura, 1966. Docs. 6 e 7.
84 bastante escassas. Tal como afirma Armando Martins, não sobrevive, para o final do século XIII e para século XIV, “documentação específica produzida pela própria Universidade”, seja de origem pedagógico-curricular seja de cariz mais institucional 330 . Dessa forma, toda e qualquer informação, ainda que indireta, revela nomes, atribuições e cargos que fazem toda a diferença na compreensão das primeiras décadas da instituição. De igual forma, nenhum programa ou calendário letivo sobreviveu à passagem do tempo. Resta-nos resgatar algumas indicações, de forma indireta. Para ter uma visão mais realista sobre a evolução do Estudo Geral português, foram diversas as vezes em que estendemos um pouco o limite do período em estudo, procurando dados sobre todo o século XIV. 4.1.3.1 - A Faculdade de Medicina no século XIV – Tentativa de caracterização De que ensino falamos? É difícil fazer uma lista das matérias lecionadas, calendário letivo, ou até o número de anos necessários para obter a sua licentia docendi - a licença para ensinar em toda a Cristandade -, para o caso português. Apesar de não conhecermos uma ‘bibliografia obrigatória’ para os escolares de medicina do Estudo Geral português, é visível, pelo acervo de instituições como Santa Cruz de Coimbra, a forma como, muito antes da sua fundação, as traduções e novas obras médicas chegavam ao ocidente da Península Ibérica sem que se verificasse uma grande disparidade temporal quanto à restante realidade ibérica ou transpirenaica. Não existem verdadeiros estatutos para a Universidade de Lisboa/Coimbra até 1431, quando o rei D. João I – provavelmente por intercessão do Infante D. Henrique -, concede um documento normativo mais completo 331 ; porém, esses estatutos não têm grandes preocupações ‘curriculares’ nem referências a leituras que os escolares deveriam fazer na preparação para a obtenção do grau que almejavam, ao contrário dos estatutos de 330 MARTINS, Armando – Lisboa, a cidade e o Estudo: a Universidade de Lisboa no primeiro século da sua existência. In A Universidade Medieval em Lisboa…, p. 41 331 Os primeiros ‘estatutos’ da Universidade são, na verdade, um breve documento de D. Dinis, concedido em 1309; trata-se, na realidade, de uma carta de privilégios do Estudo. Contudo, pouco ou nada refere sobre o ensino, e assume-se como uma verdadeira carta de fundação de um novo Estudo em Coimbra, alterando o modelo primitivo que o papa havia estabelecido em Lisboa em 1290 e procurando corrigir alguns pontos que teriam provocado uma instabilidade permanente no Estudo nas duas décadas incompletas que permaneceu em Lisboa. cf. MARTINS – Lisboa, a cidade e o Estudo…, p. 52-57. A Magna Carta de 1309, os estatutos de 1431 e os estatutos manuelinos de 1502, estão publicados. cf. Os primeiros estatutos da Universidade de Coimbra. Intro. Manuel Augusto Rodrigues. Coimbra: Arquivo da Universidade de Coimbra, 1991.
85 outras universidades e faculdades europeias, como as próprias faculdades médicas de Paris, Nápoles e Salerno, só para citar algumas das mais antigas 332 . Ainda assim, parece natural afirmar que a influência de outras universidades seria sentida. É provável que, se acreditarmos nos cronistas, a precoce relação com a Universidade de Paris, à qual ligam os escolares portugueses desde o final do século XII, tornasse a influência francesa a mais sentida, tanto no modelo e organização, como no ensino. Porém, a partir de 1309, a universidade tornou-se uma ‘universidade de escolares’ (universitas scholarium) de modelo bolonhês, e não uma universidade de mestres e escolares (universitas magistrorum et scholarium), de modelo parisiense, como, de resto, o papa Nicolau IV tinha definido na sua bula de confirmação de 1290 333 . Mesmo havendo uma probabilidade considerável de esta influência parisiense existir, os dados não permitem formular hipóteses seguras. Talvez a aparente inatividade da Faculdade de Medicina radicasse na desadequação do ‘programa’ à realidade nacional, ou mesmo à inexistência de algo a que se possa sequer chamar de programa. De qualquer forma, com os elementos conhecidos de momento, esta sugestão é meramente especulativa. A duração do ano letivo e o número de anos para obter a licenciatura são dados igualmente desconhecidos para este período. Apenas em 1431 seriam estabelecidos nos já referidos estatutos entregues à Universidade por D. João I. Até essa data, o grau deveria ser concedido quando o lente entendesse que o aluno estaria preparado para ser apresentado ao bispo de Lisboa, responsável pela concessão. Além disso, a exiguidade das faculdades de medicina, mesmo em algumas das grandes cidades universitárias, é um facto em toda a Europa 334 . Isto torna-se ainda mais verdade quando falamos das universidades de regiões periféricas: o Sacro Império Romano-Germânico, os países escandinavos e a Escócia eram territórios onde as universidades possuíam faculdade médica, mas esta existiria só no papel. Com exceção das grandes escolas médicas de Paris, Montpellier, Bolonha e Pádua, as restantes “nem sempre chegavam a ter sequer 1% de toda a população estudantil” 335 . Tendo em conta esta análise, a realidade portuguesa não parece particularmente diferente. Os exemplos provenientes de universidades fundadas 332 As leituras a fazer pelos escolares estão presentes nos primeiros estatutos da Faculdade de Medicina da Universidade de Paris (1270-74), de Nápoles (1278), de Salerno (1280). cf. O’BOYLE – The Art of Medicine…, p. 124-127. 333 MARTINS – Lisboa, a cidade e o Estudo…, p. 53. 334 SIRAISI – A Faculdade de Medicina…, p. 365-369. 335 VERGER – Modelos,… p. 39-42; GIEYSZTOR – Gestão e Recursos…, p. 108-112.
86 em zonas mais periféricas fornecem, uma vez mais, termos de comparação relevantes para o caso português: as universidades escocesas ofereciam apenas currículos completos nas faculdades de Artes, ainda no século XV, apesar de os estatutos preverem o funcionamento das quatros faculdades lícitas 336 ; no caso dos estudantes provenientes do Sacro Império, a inatividade ou desinteresse pelas faculdades médicas locais levava os estudantes germânicos a completar o grau de mestre em Artes, fazendo ou terminando os estudos em medicina numa escola conceituada, em Itália ou França 337 . Esta possibilidade reveste-se de uma validade extra quando recordamos o caso do português Velasco de Taranta, que no final do século XIV rumou a Montpellier para estudar medicina, após completar o estudo das Artes liberais em Lisboa 338 . Uma universidade modesta, com um fluxo pequeno de matrículas, com poucos mestres, teria necessariamente de se refletir numa faculdade médica frágil e com atividade irregular. Fazendo uma comparação interna, veja-se o caso dos direitos: em 1384, o Mestre de Avis permitiu que os doutores, licenciados e bacharéis do Estudo pudessem advogar sem outra licença régia 339 . Os graduados portugueses em medicina não terão este reconhecimento durante o período medieval. Sejam ou não formados pela universidade portuguesa – ou qualquer outra -, teriam sempre de se submeter ao exame do físico régio, obrigação renovada por D. João I, já rei, em 1392, e que se verificará ao longo de todo o século XV. Apesar de as universidades se organizarem sobretudo segundo os já referidos modelos de Paris e Bolonha, existia, na prática, um terceiro tipo de universidade: universidades muito pequenas, sem nações e sem complexidade na sua estrutura, além dos “estabelecimentos partidários da autoridade e [que] não se ajustavam ao modelo geral” 340 . Entre as primeiras encontram-se Fermo e Pisa; as segundas eram universidades fundadas por iniciativa de algum rei, imperador ou papa. Entre elas incluem-se a Universidade de Nápoles, o Studium Curiae romano e com características de ambas, a Universidade de Lisboa-Coimbra. Esta origem terá tido naturais implicações no seu funcionamento. 336 GIEYSZTOR – Gestão e Recursos…, p. 111. 337 RIDDER-SYMOENS – A Mobilidade..., p. 288. 338 SERRÃO – Les Portugais…, p. 62-64. 339 MARTINS – Lisboa, a cidade e o Estudo…, p. 74-75, 84-85. 340 GIEYSZTOR – Gestão e Recursos…, p. 109-110.
87 4.1.3.2 – Os Lentes Assumindo que houve efetivamente ensino médico universitário no primeiro século da universidade portuguesa, ainda que irregular e longamente frágil, teria de haver quem ensinasse. É de referências indiretas que nos chegam as duas únicas menções a lentes de física, ou seja, professores de medicina, do Estudo Geral, para o século XIV, sendo que apenas uma se situa no período em análise. A primeira data de 10 de Outubro de 1314. Numa carta de venda de casas sitas na Almedina, em Coimbra, o comprador é Mestre Estevão, lente de física do Estudo Geral 341 . A segunda referência encontrada diz respeito à certidão de um documento de D. João I destinado à Universidade, passada pelo tabelião Pero Esteves. Datada de 9 de Janeiro de 1387, tem no lente de física do Estudo Geral, Mestre Mendo, uma das testemunhas presentes 342 . Temos assim conhecimento de apenas dois lentes de medicina ao longo dos primeiros cem anos de estudos universitários em Portugal. Nada se sabe das suas habilitações, proveniência e atividade. Se apenas se conhecem dois nomes, há outros dados que nos fazem crer numa existência contínua de uma ‘faculdade’ de Medicina. Com a transferência do Estudo de Lisboa para Coimbra, D. Dinis, na carta de privilégios de 1309, refere a obrigatoriedade da existência de um lente de física 343 . Cinco anos após esta carta, temos conhecimento do sobredito Mestre Estevão. Em 1323, D. Dinis estabelece os salários anuais dos lentes do Estudo, estando o de Medicina num nível “intermédio”, com 200 libras, o mesmo que o de Gramática 344 . Se aos lentes de Leis e Decretos, ou seja, Direitos Civil e Canónico, correspondiam respetivamente 600 e 500 libras, os honorários dos responsáveis pela cadeira de Lógica, com 100 libras, e Música, com 65, mostram já uma certa valorização do mestre médico. Introduzindo um elemento externo de comparação, o mestre-escola do cabido lisboeta recebia, em 1321, 600 libras anuais de renda 345 . Em 1350 temos uma nova referência aos lentes de Medicina. Numa bula em que o papa Clemente VI dispensa todos os lentes e escolares do Estudo Geral de Lisboa de residirem nas igrejas onde tinham benefícios por um período de cinco anos, a Medicina é referida no lote das scientiae, juntamente com a Teologia e os 341 Chartularium, I, doc. 43. 342 Chartularium., II, doc. 397. A data do documento está errada. O documento que dá origem à certidão data de 11 de Dezembro de 1389, pelo que a certidão que o confirma não poderá ser dois anos anterior. Assim sendo, a certidão deverá ser, pelo menos, de 9 de Janeiro de 1390. 343 Chartularium., I, doc. 25. 344 Chartularium., I, doc. 59. 345 MARTINS – Lisboa, a cidade e o Estudo…, p. 66.
88 Direitos Canónico e Civil 346 . Por fim, uma última referência para este período: após uma transferência do Estudo Geral de Coimbra para Lisboa, em 1377, D. Fernando confirma, numa carta de 1 de Janeiro de 1378, todos os privilégios recebidos até então pela Universidade. São referidos os leedores de física 347 . Cerca de uma década depois temos conhecimento do já referido Mestre Mendo. Apesar dos intervalos, por vezes longos, sem qualquer menção de mestres de medicina/física no Estudo, é pouco provável que a cadeira/faculdade tenha deixado de funcionar ao longo deste período. Tendo em conta a tipologia ‘híbrida’ de LisboaCoimbra como uma universidade “partidária da autoridade”, a remuneração dos lentes era também ‘híbrida’. Quero com isto dizer que, apesar de os salários dos lentes terem origem em benefícios eclesiásticos, a beneficiária era a Universidade que, após o recebimento, redistribuiria segundo os valores estipulados previamente pelo rei. Esta opção era comum nos studia generalia ibéricos e garantia-lhes uma flexibilidade considerável 348 . Não seriam, portanto, os escolares a assumir grande parte da responsabilidade de pagamento aos mestres através de collectae (propinas), como acontecia no modelo bolonhês, nem era este pagamento proveniente de um benefício eclesiástico pessoal, como era típico das universidades de modelo parisiense. Esta condição permitiria à universidade admitir, por exemplo, lentes leigos, ter bastante flexibilidade na substituição de docentes e garantir a viabilidade do Estudo, mesmo que o número de escolares fosse bastante reduzido. Se estas vantagens se verificaram na prática, é algo que, de momento e com os dados disponíveis, não poderemos verificar. A naturalidade dos mestres médicos é também desconhecida. O recrutamento dos mestres para ler medicina é uma incógnita para o século XIV. Porém, se estabelecermos novamente um paralelismo com as restantes faculdades, é possível que esse recrutamento fosse externo 349 . 346 Chartularium, I, doc. 176. 347 Chartularium, II, doc. 360. 348 VERGER, Jacques – Os Professores. In Uma História da Universidade Europeia…, p. 150-153. 349 FARELO – A universitas no labirinto…, p. 208.
95 provenientes dessa aprendizagem. Existem alguns fragmentos de obras médicas incluídas em manuscritos escritos antes do início do século XII. Contudo, como será abordado adiante, terão sido produzidos fora da Península e apenas terão chegado ao território nacional numa fase posterior, durante o período de formação e consolidação dos primeiros grandes mosteiros portugueses, com Santa Cruz de Coimbra em destaque. Faça-se um apontamento para um erudito que poderá ter residido em território portucalense durante o último período condal, provável tradutor do árabe para o latim de um tratado pseudo-aristotélico com interesse para a medicina, o De differentia spiritus et animae. Falamos do misterioso João de Sevilha e Lima. Entre os manuscritos contendo o tratado que sobrevivem, os mais antigos mostram o tradutor a referir uma conversa com a “rainha Teresa”, onde falam da utilitas corporis – algo como fisiologia humana -, ainda que o tradutor esclareça que não é um médico 370 . Apesar de todas as dúvidas que o trecho suscita, Charles Burnett coloca a hipótese de se tratar de um erudito natural ou radicado na região de Lima, conhecedor da cultura árabe, frequentador da corte condal de D. Teresa na sua fase final, provavelmente coevo à crise provocada pela aceitação do antipapado pelo arcebispo bracarense, Maurício Burdino, como Gregório VIII. Porém, permanecemos no campo das hipóteses, ainda que a confirmação desta possibilidade se revele como uma entusiasmante adição ao que conhecemos do panorama cultural do noroeste peninsular no início do século XII. 4.2.2 – Circulação de manuscritos desde além-Pirenéus Existem, em território português, fragmentos de manuscritos médicos anteriores ao século XII. Estes fragmentos, já referidos neste trabalho, foram identificados por Saul Gomes, estando a servir como encadernação de códices posteriores. O facto de estarem escritos em letra beneventana, e de datarem do século XI, levanta uma série de questões: onde foram produzidos? Qual o caminho que terão percorrido? Em que altura terão chegado? Quem os possuiu? O tipo de letra não parece deixar muitas dúvidas. Os manuscritos terão origem no sul de Itália, onde, de resto, sobrevivem manuscritos em 370 BURNETT, Charles – «Magister Iohannes Hispalensis et Limiensis» and Qusta ibn Luqa’s De differentia spiritus et animae: a Portuguese Contribution to the Arts Curriculum? Mediӕvalia. Textos e Estudos, 7-8 (1995), p. 232-233.
96 letra visigótica, o que prova que a circulação não teria apenas um sentido 371 . Não tendo ainda havido oportunidade para estudar esses fragmentos, não podemos ainda identificar a que obras pertencerão ou a que autores são devedores, mas a probabilidade de pertencerem a obras de mestres salernitanos ou a traduções feitas a partir do grego e do árabe no eixo Salerno-Monte Cassino é considerável. Tendo em conta as ligações entre o mosteiro de Santa Cruz de Coimbra e o de São Rufo de Avinhão, afigura-se como altamente provável a posição de ‘intermediário’ que o mosteiro provençal pode ter ocupado 372 . As ligações entre as escolas salernitanas e o sul de França são conhecidas, como o demonstra o caso de Gil de Corbeil. O facto de as escolas de Montpellier terem tido um aparecimento espontâneo, próximo do que ocorreu em Salerno, ainda que tenham evoluído de forma distinta, transformando-se numa universidade – um pouco à semelhança de Bolonha-, demonstra a concentração privilegiada na região de homens, obras e conhecimentos médicos. Conhecendo-se a relação privilegiada entre os cenóbios de cónegos regrantes, estes manuscritos de medicina poderão ter sido cedidos pelo mosteiro provençal ao cenóbio português no contexto do apoio cultural recebido pela instituição portuguesa nos primeiros anos de funcionamento, como relata a Vita Tellonis, a “Vida de D. Telo”, o fundador do mosteiro crúzio. Recordam-se nesta hagiografia as passagens de cónegos regrantes crúzios pelo mosteiro de Avinhão e da adoção, pelos crúzios, do costumeiro do cenóbio provençal 373 . Respondendo brevemente a todas as questões com os cenários que se revelam mais prováveis, estes fragmentos teriam sido produzidos no sul da Península Itálica, chegando de alguma forma, provavelmente por doação, a S. Rufo de Avinhão, mosteiro situado na concorrida região provençal, muito próximo de Montpellier, tendo depois tomado o caminho de Portugal por oferta ou empréstimo do dito mosteiro a Santa Cruz de Coimbra, onde foram desmembrados no final da Idade Média, tendo os seus fragmentos sobrevivido até hoje. Boa parte das obras médicas cuja posse por portugueses está documentada para o período medieval teria uma origem estrangeira. Muitas das obras que detetamos em 371 NEWTON – Arabic Medicina…, p. 33; os manuscritos visigóticos datariam c. 800, mas a matéria tratada não estava relacionada com medicina. 372 De resto, Avelino de Jesus da Costa havia já confirmado o efetivo envio de códices do cenóbio provençal para Santa Cruz de Coimbra, ainda que os registos destaquem os manuscritos de teor religioso e normativo. cf. COSTA, Avelino de Jesus da – Coimbra: Centro de atracção e de irradiação de códices e de documentos, dentro da Península nos sécs. XI e XII. In Actas das II Jornadas Luso-Espanholas de História Medieval. Vol. IV. Porto: Instituto Nacional de Investigação Científica, 1990; p. 1322-1323 373 Hagiografia de Santa Cruz…, p. 68, 70, 76 (texto latino), 69, 71, 77 (tradução contemporânea de Aires Nascimento) e 281, 284-285 (tradução quatrocentista).
97 testamentos assim o parece indicar, quer pela permanência dos proprietários em escolas ou cidades estrangeiras, quer pela exiguidade que o mercado de cópias teria em Portugal. Um exemplo precoce é o do Mestre Martinho, falecido em Paris, que lega vários livros de medicina ao cabido conimbricense em 1175 374 . Com exceção dos scriptoria monásticos nacionais – e, mesmo nesses, com importância secundária – a cópia de manuscritos científicos seria residual ou quase inexistente até à vernacularização da literatura médica, já durante a centúria de Trezentos. Muitos dos manuscritos adquiridos, por compra, doação ou herança, poderiam voltar ao mercado como obras usadas, sendo mais fácil vendê-los além-fonteiras, onde a procura seria maior, sobretudo nas cidades universitárias com ensino médico 375 . 4.2.3 – As obras e os seus proprietários Apesar de termos referido em vários momentos diversas obras, parece-nos fundamental determo-nos para ver quais eram e qual o seu propósito, relacionando-as simultaneamente com os seus proprietários. Entre os 416 letrados portugueses dos séculos XII e XIII – entrando alguns pelos primeiros anos do século XIV -, estudados por Armando Norte, apenas se sabe da posse de manuscritos médicos por seis 376 . Porém, desses, apenas três foram seguramente físicos: Mestre Gil de Leiria, Mestre Gonçalo Lever e Mestre Pedro Martins. Os restantes três, Mestre Martinho, que falece em Paris em 1175, Mestre Gil a quem o Mosteiro de Santa Cruz empresta livros de artes liberais e medicina em 1218 e João Martins de Soalhães, que chegou a ocupar a cátedra episcopal de Lisboa e a arquiepiscopal de Braga, morrendo no cargo em 1325, não possuem qualquer relação conhecida com a prática médica. Uma dimensão une cinco destes homens, apesar do intervalo de 150 anos que vai da morte de Mestre Martinho à de João Martins de Soalhães: todos foram cónegos de Coimbra, sendo a exceção o incógnito Mestre Gil que, de resto, poderá ser Mestre Gil de Leiria 377 , ou até Frei Gil de 374 SÁ – Primórdios da Cultura Portuguesa..., doc. 7, p. 19. 375 Exemplo dessa prática é o seguinte excerto do testamento de João Martins de Soalhães, futuro bispo de Lisboa, redigido em Coimbra a 15 de fevereiro de 1293: Item lego Dominico […] mei vendantur pro meis necessariis scilicet Apparatus Hostiensis et Speculum Judiciale et Sumam Hostiensem que dicitur Copiosa et libri medicine quos dimisit Stephanus Dominici apud Monte Persulanum venales. Cf. Testamenta…, doc. 2.45, p. 343; para ver o caso das várias formas de aquisição do conjunto de textos base do ensino universitário médico medieval, v. O’BOYLE – The Art Of Medicine…, p. 158-188. 376 NORTE – Letrados e Cultura Letrada…, p. 421-422. 377 NORTE – Letrados e Cultura Letrada…, p. 99-100.
98 Santarém, num período inicial de estudos, ambos igualmente cónegos em Coimbra. Este dado vem reforçar ainda mais o papel primordial do clero capitular conimbricense na cultura medieval portuguesa, em geral, e também na difusão do conhecimento médico científico, em particular. De facto, Coimbra destacou-se cedo como centro de cultura no noroeste cristão peninsular 378 . Nem sempre é possível identificar as obras possuídas pelos letrados portugueses. Por vezes, apenas são referidos ‘livros de medicina’, como é o caso de João Martins de Soalhães 379 . Mestre Martinho, além de um “livro de medicina” e de livros de prática da medicina, ainda refere um “livro de Constantino”, certamente tradução d’O Africano, um livro de dietas particulares e um outro de “outras dietas” 380 . O conjunto de livros que lega, assim como o local onde o faz, são de importância capital. Os livros de medicina vêm num lote diversificado, onde se incluem obras de artes liberais, livros bíblicos, entre outros. Destaque para a “Filosofia”, que Armando Norte identifica como sendo a obra da autoria de Guilherme de Conches 381 . Assumindo como correta a identificação, Mestre Martinho seria um estudante de artes liberais e filosofia natural na mesma linha de Conches, que, de resto, poderia ter convivido ou sido mestre do cónego conimbricense, visto aquele ter morrido apenas duas décadas antes. Acrescente-se ainda que desde meados do século XII que se liam e comentavam os trabalhos de filosofia natural de Aristóteles e as traduções de Constantino, o Africano, na escola catedralícia de Chartres 382 . Esta ligação individual de um cónego de Coimbra às escolas parisienses num importantíssimo momento de desenvolvimento que, na viragem do século, culminará na institucionalização oficial da Universidade de Paris, reflete o interesse precoce dos clérigos de Coimbra no prosseguimento dos estudos além-fronteiras, antes mesmo da cristalização da Universidade. No início do século seguinte, em 1218, o enigmático Mestre Gil recebe do Mosteiro de Santa Cruz um considerável rol de manuscritos relacionados com as artes liberais, onde se incluiu pelo menos um tratado médico, o nono livro de Almançor, da 378 COSTA – Coimbra: Centro de atracção e de irradiação…, p. 1309-1334 379 Testamenta…, doc. 2.45, p. 343. 380 SÁ – Primórdios da Cultura Portuguesa..., doc. 7, p. 19 381 NORTE – Letrados e Cultura Letrada…, p. 188-189 382 O’BOYLE - The Art of Medicine…, p. 95-102
99 autoria do enciclopedista persa Razes 383 . Sendo o nono de dez livros, é dedicado ao tratamento de doenças, ou seja à vertente prática e terapêutica da medicina 384 . As preocupações com a aplicação prática dos conhecimentos médicos poderão estar por detrás da posse isolada deste livro. Outro cónego possuidor de uma impressionante biblioteca médica pessoal é Mestre Gil de Leiria. O seu testamento elenca os manuscritos que possui, deixando todos os que dizem respeito à medicina aos franciscanos de Leiria 385 . A sua extensão e qualidade merecem uma análise pormenorizada: quase três dezenas de tratados, distribuídos por quatro volumes. Vejamos por partes: Gil de Leiria possuía, no primeiro volume, a Ars tota completa videlicet Iohanicius et Anphorismj et Pronotisce Urine Liber pulsus Tegnj Galienj, acrescentando depois que omnes isti libri dicuntur Ars Physice. No mesmo volume estaria ainda a Arte Regimentum Sanitatis Galieni. Apenas por este primeiro conjunto de tratados, Mestre Gil revela-se possuidor da mais importante e elementar coleção de textos médicos de uso universitário do período medieval, a Ars Medicine, conhecida na sua forma comentada e revista como Ars Commentata ou Articella. Entre as várias denominações estudadas por Cornelius O’Boyle no seu estudo de referência sobre este conjunto de textos 386 , nunca surge a denominação de Ars Physice, utilizada por Mestre Gil de Leiria. Porém, trata-se, inequivocamente, do mesmo conjunto de textos. A Ars do Mestre Gil de Leiria possui outra particularidade: está numa fase intermédia da evolução deste conjunto de textos. Os primeiros testemunhos deste conjunto organizado de textos apontam para a sua reunião pouco depois de 1100. Porém, eram originalmente compostos por apenas cinco textos, não comentados: o Isagoge, de Joanício - um texto introdutório à Tegni de Galeno - os Aforismos e os Prognósticos hipocráticos, seguidos dos tratados sobre urina, de Teófilo e sobre pulsos, de Filareto, ambos de origem bizantina. Em meados do século XII, é acrescentado a este cânone a própria Tegni de Galeno. Surgindo inicialmente em último lugar, a Tegni passa rapidamente para segundo lugar, uma mudança natural, visto o Isagoge, primeiro texto do conjunto, ser uma introdução ao texto galénico 387 . Porém, no caso do exemplar de Mestre Gil, a Tegnj 383 CRUZ – Santa Cruz de Coimbra…, p. 198-209 384 PRIORESCHI, Plínio – A History of Medicine. Vol. IV – Byzantine and Islamic Medicine. 2nd edition. Omaha: Horatius Press, 2004. p. 239 385 SÁ – Primórdios da Cultura Portuguesa..., doc. 48, p. 69-70. 386 O’BOYLE - The Art of Medicine… 387 O’BOYLE - The Art of Medicine…, p. 82-95.
100 permanece em último. Isto poderá indicar a posse de um manuscrito usado, produzido em meados do século XII, no breve intervalo em que essa organização foi adotada, o que aumenta consideravelmente o seu interesse e poderá explicar a denominação, numa altura em que ainda seria relativamente flutuante. Ainda no mesmo volume, encontra-se o Arte Regimentum Sanitatis Galieni, provavelmente uma versão do Regimen Sanitatis Salernitanum, erradamente atribuída a Galeno neste exemplar. O segundo volume inclui também vários tratados: Diete Universales et Diete Particulares Ysaac et Urine eiusdem et Urine Egidij in versibus et Urine magistri Mauri. Também estes têm relação com a Ars Medicine. A evolução do conjunto de textos foi afetada sobretudo por quatro tipos de alterações: Alterações no núcleo duro da Ars - que estabilizará num conjunto de sete textos -; o acrescento de um anexo com textos sobre prática médica, da autoria de mestres salernitanos undecentistas, resultando num conjunto flutuável que não se tornará ‘canónico’; o terceiro tipo de alterações adiciona um conjunto definido de tratados, reunido com propósito de complementar o conjunto inicial; por fim, o último caracteriza-se pelo acrescento de tratados individuais, ao longo do século XIII, que se tornaram parte do conjunto geral padronizado 388 . Os tratados reunidos no segundo volume do Mestre Gil de Leiria pertencem, na maioria, ao terceiro conjunto de alterações: possuía os tratados atribuídos a Isaac Judeu, as “Dietas Universais”, “Dietas Particulares” e o seu tratado sobre urina. Tendo três de um conjunto padrão de seis tratados complementares, mais uma vez se afigura como um conjunto obtido numa fase intermédia de evolução. Também presentes no mesmo volume estão um tratado do quarto grupo de alterações, o poema mnemónico sobre urina da autoria de Gil de Corbeil, assim como um tratado salernitano sobre urina da autoria de Mauro de Salerno, mestre salernitano do final do século XII, que terá sido mestre de Gil de Corbeil. Apesar de encaixar no segundo conjunto de alterações, este tratado salernitano não está entre aqueles que surgem comummente. O terceiro volume que Mestre Gil de Leiria deixa aos franciscanos de Leiria contém uma diversidade ainda maior de obras, algumas de difícil identificação, por isso me permito fazer uma longa citação do testamento: Item aliud uolumen in quo est liber qui dicitur Amicum induit et Cirurgia bene grosata. Et Anathomia et Cura equorum siue cirurgia ipsorum. Item Cura 388 O’BOYLE - The Art of Medicine…, p. 158-175
101 canum siue cirurgia ipsorum. Et alia Cirurgia hominum per combustiones facienda ad occulum per ymagines hominum ipsorum facienda. Et alia Cura mulierum que non possunt parire filios et de ipsis pueris quomodo exeunt de matricibus. Et Liber Magistri Petri de Musando de clisteribus et subpositoriia et siringis et pessaris et sirupis et oleis et de aquis. Et Regimen acutarum Ypocratis et sunt ibi quedam capitula que tractant de aere et qualiter V zone sunt in aere et non in ethere et quaere superior ignis non sit feruens. Unde sunt pluuie quando uideatur quod sanguis pluat de arcu celi. Unde grando et nix et quaere nunquam niues contingant in estate cum in ea contingat grande de tonitruis et fulminibus de eo quod stelle uidentur aliquando cadere et de comota et de situ aque et reflusionibus oceani ei unde fluctus maris de ortum uentorum. Unde quedam aquam sit dulcis quedam amara. Unde sit fontes et unde putei. Unde putei aqua et fontis sit frigida in estate et in yeme calide. Unde exaustio et quaere diluuium. Unde sit quod in lunaribus modo crescunt modo decrescunt humores. Analisando cada título, comecemos pela identificação do livro qui dicitur Amicum induit: Trata-se da Practica 389 , de João Platearius, o Jovem, filho do mestre salernitano do mesmo nome, que terá escrito este tratado cerca de 1100, em Salerno. Um texto típico do segundo conjunto de alterações, portanto. Os tratados seguintes, onde se inclui uma “Cirurgia” bem glosada, uma “Anatomia”, um tratado sobre tratamento e cirurgia de cavalos, outro semelhante dedicado ao cão, uma obra ilustrada de cirurgia ocular e uma sobre tratamento de mulheres estéreis e das crianças que desse tratamento resultassem, são claramente de matriz salernitana. A diversidade é assombrosa. Mestre Gil tem, num mesmo volume, tratados cirúrgicos, de veterinária, um obstétrico-ginecológico e um oftalmológico ilustrado. Ainda no mesmo volume, encontrava-se o tratado do mestre salernitano Pedro de Musando sobre práticas e instrumentos, descrito como de clisteribus et subpositoriia et siringis et pessaris et sirupis et oleis et de aquis, assim como o Regimen acutarum Ypocratis, cuja localização revela mais dados sobre a construção da livraria pessoal de Mestre Gil de Leiria. Esta obra hipocrática, normalmente denominada por De Regimine Acutorum ou Dieta Acutorum, é o sétimo e último tratado incluído na Ars Medicine 390 . A sua adição 389 O’BOYLE - The Art of Medicine…, p. 107. 390 O’BOYLE - The Art of Medicine…, p. 103-116.
102 consolidar-se-á rapidamente ao longo do século XIII. Acredito que o facto de estar separado da restante Ars Physice do Mestre Gil de Leiria traduza a antiguidade considerável do terceiro volume por ele possuído, que, à semelhança dos restantes, poderia remontar ao século XII. Acompanhariam ainda este tratado alguns capítulos sobre a medicina ‘climatológica’, típica do hipocratismo e da sua interpretação salernitana. O quarto e último volume apresenta nova diversidade de títulos: Item alii libri sunt ibi in alio uolumine uidelicet Antidotarius minor per quod moderni modo operantur. Item alius liber qui uocatur Liber Iste. Item est ibi Geraldina. Item alius liber qui dicitur Circa instans et loquitur per alfabetum de sinplicibus speciebus. Item alius liber de ornamento mulierum. Item alius liber qui dicitur Modus medendi. Item quaedam pars libri Macri. Item alis liber de sinplicibus qui incipitur Cogitanti mihi. Item liber de stomacho quem fecit Galienus. Item liber de criticis diebus Galeni. Item Spera Mundi. Item sunt ibi experimenta multa et bona et contra diuersas egritudines. Começava com um “Antidotário Menor”, provavelmente relacionado com o Antidotarium Nicholai, receituário farmacológico composto por Mestre Nicolau de Salerno na primeira metade do século XII, através do qual, segundo Mestre Gil, “os modernos praticavam”. Este comentário é interessantíssimo, mostrando uma distinção entre velhos e novos praticantes por Mestre Gil. Também este antidotário, se se confirmasse a relação com o “Antidotário” de Mestre Nicolau, se inseriria no conjunto de tratados práticos salernitanos que acompanharia frequentemente a Ars até finais do século XIII. O livro que se segue, liber qui uocatur Liber Iste, poderá ser o comentário feito por Mateus Platearius aos Antidotarium Nicholai, também conhecido como Glossae Platearii ou Glossae in Antidotarium Nicolai 391 . Ou seja, mais um produto dos mestres de Salerno. Segue-se a Geraldina, cuja identificação ainda não foi possível. O Circa Instans, também conhecido como Liber Simplicibus, era mais um tratado farmacológico salernitano que organizava alfabeticamente os simples, descrevendo-os. Escrito no século XII por Mateus Platearius, pertencia igualmente ao conjunto de tratados salernitanos que, numa primeira fase, costumava acompanhar a Ars Medicine. Surge depois um tratado de cosmética feminina, liber de ornamento mulierum, tradicionalmente atribuído à lendária médica salernitana, Trótula, mas que na realidade 391 O título deste trabalho académico alemão é esclarecedor quanto à identificação: MÜLLER, Erwin – Der Traktat Liber iste, (die sogenannten Glossae Platearii) aus dem Breslauer Codex Salernitanus. Inaugural-Dissertation. Würzburg: [s.n.], 1942.
103 reunia três obras de três mestres salernitanos distintos 392 . O facto de Mestre Gil de Leiria possuir este tratado em particular aproxima-o cada vez mais da efervescente medicina e cirurgia erudita, extrauniversitária, da Itália de meados de Duzentos. As preocupações estéticas passam a ocupar um lugar de algum relevo entre a prática dos grandes mestres italianos, apesar das reticências morais e filosóficas às grandes intervenções que podem pôr em causa a natureza do indivíduo: o médico deveria conduzir o paciente ao seu equilíbrio original, não modificá-lo com propósitos de vaidade 393 . Sobre o tratado intitulado Modus medendi, provavelmente dedicado à terapêutica, é possível que seja da autoria de Cofo de Salerno, mais conhecido pela autoria de um breve tratado de anatomia com base na dissecação de suínos 394 . A pars libri Macri será uma parte do livro de Macer, ou seja, o De Viribus Herbarium, herbário atribuído a Macer Floridus e que era igualmente incluído entre os tratados salernitanos que acompanhavam a Ars Medicine até finais do século XIII. Segue-se mais um livro de simples, ou seja, mais um tratado farmacológico que não fui ainda capaz de identificar. Para finalizar, encontram-se quatro elementos: o primeiro é um tratado intitulado De stomacho, que Mestre Gil de Leiria identifica como sendo de Galeno. Na realidade, tratar-se-á do pequeno tratado homónimo composto a partir de textos anteriores por Constantino, o Africano. Se assim fosse, encontraríamos entre as obras possuídas por Mestre Gil mais um dos tratados salernitanos do segundo conjunto identificado por Cornelius O’Boyle 395 . Estava também presente um tratado galénico autêntico, o liber de criticis diebus. Ao contrário de todas as restantes obras, estamos perante uma verdadeira novidade para o tempo de Mestre Gil de Leiria. Esta obra incidia sobre os dias críticos na evolução da doença e a influência, mesmo que limitada, que nela teriam os ciclos lunares 396 . Esta obra de Galeno faz parte do corpus do ‘Novo Galeno’, que apenas no final do século XIII ganha importância capital nos currículos das principais escolas 392 O’BOYLE - The Art of Medicine…, p. 103-116. 393 MCVAUGH – Rational Surgery…, p. 215-228; DEMAITRE – Skin and the city…, p. 97-120. 394 PRIORESCHI – A History of Medicine…, p. 214-215; além desta referência, baseamo-nos na descrição de conteúdo do ms. Harley MS 5228, preservado na British Library, que refere a existência, entre os vários tratados presentes, de um Modus medendi, deixando a sugestão de ser da autoria de Cofo de Salerno. “British Library. Harley MS 5228”. Página consultada a 02-06-2015. http://www.bl.uk/manuscripts/Viewer.aspx?ref=harley_ms_5228_f037r. 395 O’BOYLE - The Art of Medicine…, p. 103-116. 396 LANGERMANN, Y. Tzvi – The Astral Connections of Critical Days. Some Late Antique Sources Preserved in Hebrew and Arabic. In Astro-Medicine – Astrology and Medicine, East and West. eds. Anna Akaroy, Charles Burnett and Ronit Yoeli-Tlalim. Firenze: SISMEL/Edizioni del Galluzzo, 2008, p. 99118.
104 médicas francesas, por exemplo, a par do Cânon de Avicena 397 . Finalizando, temos um tratado de astronomia, o De sphaera mundi, também ele uma novidade, pois não teria sido concluído mais do que três décadas antes, pelo mestre parisiense João de Sacro Bosco 398 , e aquilo que parece ser uma verdadeira recolha das receitas e conselhos médicos do próprio Mestre Gil de Leiria: Item sunt ibi experimenta multa et bona et contra diuersas egritudines. Falamos de uma biblioteca verdadeiramente extraordinária e que levanta infindáveis questões. Tratar-se-á de um português que praticou medicina entre Itália e França, fora de um contexto universitário, mas movendo-se numa efervescente rede de intelectuais? As possibilidades são muito numerosas e as respostas incertas. Destacamse, na biblioteca de Mestre Gil, os textos de base universitária, complementados por uma abundante coleção de textos práticos de intervenção médica em quase todos os domínios a que a medicina medieval prestou atenção: maleitas do olho, da mulher, problemas gástricos e até alveitaria para o cavalo e o cão. Seria essencial perceber se estes manuscritos chegaram a ser alojados no convento franciscano de Leiria, como era vontade de Mestre Gil, e qual teria sido o seu destino, caso tivessem sido realmente entregues. Não nos resta muito mais do que este extraordinário testamento, deixandonos, contudo, a certeza de um uma biblioteca pessoal invulgarmente rica para o Portugal do seu tempo 399 . Terminando este ponto com os breves testemunhos de João Martins de Soalhães e de Pedro Martins, voltamos à comum pobreza informativa. Aos “livros de medicina” do primeiro 400 , juntam-se os “livros de medicina” e um “livro sobre a natureza dos animais” do segundo 401 . Quanto a Gonçalo Lever, apenas se revela possuidor de um livro da Arte da Medicina, provavelmente tradução da Tegni ou Ars Medica de Galeno 402 . 397 O’BOYLE - The Art of Medicine…, p. 4-8. 398 GRMEK, Mirko D. – La Science chez les Slaves du Moyen Age. In Histoire Générale des Sciences. Tome I – La Science Antique et Médiévale (des origines à 1450). dir. René Taton. 2e édition révisée. Paris: Presses Universitaires de France, 1966, p. 561. 399 Podemos mesmo ir mais além: a própria faculdade médica de Paris não possuía mais do que 12 volumes ainda em 1395, nenhum deles contendo a Ars. cf. O’BOYLE – The Art of Medicine…, p. 158165. 400 Testamenta…, doc. 2.35, p. 342-348. 401 Testamenta…, doc. 2.41, p. 372-379. 402 O’BOYLE - The Art of Medicine…, p. 90-95.
111 ‘morte’ social, eram mantidos fora das vilas e cidades – ainda que relativamente perto -, para evitar o contágio 426 . Nada numa gafaria diria respeito a um físico ou cirurgião. Veja-se o regimento da Gafaria de Coimbra, dado por D. Afonso IV, em 1329 427 . Em cinco páginas de cariz sobretudo administrativo, económico e normativo, não é feita qualquer referência a assistência médica. A morte dos leprosos era previsível, mais tarde ou mais cedo. Algumas práticas, como banhos termais, poderiam aliviar um pouco do seu sofrimento, mas não evitariam um desfecho que, contudo, poderia levar anos a chegar 428 . Juntava-se ainda a crença generalizada de que a lepra era uma doença impura e que, provavelmente, resultava de um castigo divino. A única coisa que se poderia fazer por estes doentes era garantir o seu sustento, tarefa que muitos poderosos, a partir do exemplo do próprio D. Sancho I, cumpriram zelosamente para obter graças divinas e perdão para as suas almas. Algumas gafarias tornaram-se poderosos senhorios, com propriedades extensas e autênticos tesouros acumulados a partir dessas doações. Foram, por esse motivo, alvo da atenção de muitos ao longo de todo período medieval da nacionalidade. Atenção de muitos, onde não se incluiriam, por certo, físicos e cirurgiões com aspirações a curar nos lazaretos. O papel de um médico na vida de um leproso terminaria no momento do seu diagnóstico, e é neste ponto que vários autores notáveis de medicina e cirurgia medieval se demoram quando tratam de lepra 429 . A partir da sua entrada na gafaria, a probabilidade de ver de novo um clínico seria praticamente nula 430 . 426 DUARTE, Luís Miguel – Marginalidade e Marginais. In História da Vida Privada em Portugal. A Idade Média. Bernardo Vasconcelos e Sousa (coord.). Lisboa: Temas e Debates, Círculo de Leitores, 2010; p. 181-184. 427 BRITO, A. Rocha: História da Gafaria de Coimbra. Arquivos de Dermatologia e Sifiligrafia, ano I, nº 1. Coimbra: Universidade de Coimbra, 1931, p. 14-19. 428 LEMOS, Maximiano: A Medicina em Portugal: A hydrologia médica – Banhos e aguas minaraes. Archivos de Historia da Medicina, vol. IV (1894). Porto: Lemos & Cª, 1894, p. 129-146. 429 Danielle Jacquart refere a avaliação feita por um médico em Siena, c. 1250, para diagnosticar ou descartar a hipótese de lepra, como a primeira avaliação clínica do género documentada ou, pelo menos, a mais antiga que nos chegou até hoje. Autores posteriores, como Bernardo Gordon e Gui de Chaulliac, dedicarão as suas reflexões sobre a lepra ao aperfeiçoamento do diagnóstico. A possível falibilidade de um diagnóstico do género, irreversível, quase como uma declaração ou condenação à morte, é fonte de compreensíveis reservas por parte destes autores. cf. JACQUART, Danielle – De la faillibilité de l’art médical aux erreurs du praticien au début du XIVe siècle: Une imperceptible morge. In Errors and Mistakes. A Cultural History of Fallibility. eds. Mariacarla Gadebusch Bondio and Agostino Paravicini Bagliani. Firenze: SISMEL/Edizioni del Galluzzo, 2012, p. 140-143. 430 Refira-se, porém, a relativização que é feita por alguns autores da Itália do Norte aquando do recuo da lepra, nos últimos séculos da Idade Média. Vários trataram a lepra mais como um problema de fealdade, com solução cosmética, do que como uma verdadeira doença e, ainda menos, uma maldição ou castigo divino. Ficando a ressalva, não consideramos que tal realidade se tenha estendido a Portugal no período medieval, onde as conceções mais tradicionais permanecerão até ao período contemporâneo. Cf. DEMAITRE – Skin and the city…, p. 117-120.
112 Feita esta breve reflexão, julgo ser seguro afirmar que o quotidiano de médicos/físicos e cirurgiões portugueses anteriores aos meados do século XIV passaria muito pouco pela assistência e prática em espaços hospitalares, gerais ou ‘especializados’, como as gafarias. 5.1.2 – Uma prática itinerante? Não parecendo ter havido verdadeiros estabelecimentos médicos no período em causa, poder-se-á julgar como itinerante a prática diária dos físicos e cirurgiões? A imagem que a literatura e o cinema passam dos físicos e cirurgiões medievais não universitários é a de curiosos cirurgiões-barbeiros que vagueiam de terra em terra, como qualquer outro comerciante, praticando a sua arte e partindo antes que algum desfecho menos positivo os retivesse no local, obrigando a uma estadia mais longa e desagradável do que estaria inicialmente previsto. Seria esta a realidade portuguesa? Apesar de o ter sido noutras regiões da Europa 431 , as fontes portuguesas contrariam essa ideia. Tudo parece indicar que, após terminarem a sua aprendizagem inicial, os físicos e cirurgiões tenderiam a permanecer nos seus locais de origem ou a fixar-se onde fossem mais necessários. O exame obrigatório estabelecido por D. Afonso IV teria de ser realizado em Lisboa 432 . A escassez de cartas de físico ou cirurgião pode-se explicar de duas formas: a destruição da maioria dos documentos – de resto, a chancelaria de D. Afonso IV só sobrevive para metade do reinado -, sendo também possível que muitos dos praticantes tivessem abdicado de se fazer examinar, devido à distância, aos custos e transtorno que a viagem implicaria. A prática não parece sobreviver, e será necessário aguardar até 1392, ano em que D. João I volta a tornar obrigatório o exame pelo físicomor a todos quantos queiram exercer as artes da física, cirurgia ou boticária, independentemente de credo ou sexo 433 . Contudo, quer seja por destruição documental ou por demora de implementação, apenas a partir do reinado de D. Duarte a chancelaria 431 VOIGTS, Linda Ehrsam – Fifteenth-Century English Banns Advertising The Services of an Itinerant Doctor. In Between Text and Patient…, p. 245-277; Linda Voigts estuda neste curiosíssimo artigo uma fonte extraordinária: Os pregões ‘publicitários’ de físicos itinerantes ingleses quatrocentistas, explorando a linguagem e a forma como transmitiam às camadas populares as suas capacidades e os seus talentos particulares. Sendo uma fonte extraordinária, reflete uma prática que não parece ter tido paralelo no território português, ou, pelo menos, não terá deixado qualquer vestígio, quer para o período em estudo, quer para o restante período medieval. 432 Chancelarias Portuguesas: D. Afonso IV…, vol. II, nº 91. 433 Vereaçoens..., doc. CVIII. A carta régia de 28 de Agosto de 1392 é transcrita na sessão na ata da sessão da Câmara de 4 de Fevereiro de 1394.
113 régia voltará a acolher cartas de físico e cirurgião, quase um século depois dos primeiros documentos do género 434 . Apesar de não haver abundantes informações explícitas, grande parte dos físicos e cirurgiões parece ter-se estabelecido em regiões circunscritas, comummente áreas urbanas. Seriam os físicos e cirurgiões das terras onde habitavam, onde as pessoas das comunidades próximas os procurariam para resolver os seus males. Contudo, um grupo muito considerável de físicos deste período deverá ser visto de uma outra forma: os físicos régios e, em menor escala, os físicos episcopais. É aceitável e compreensível a existência de um grupo de clínicos que se desloque com o séquito régio. Mesmo quando as movimentações do rei se tornam mais esparsas, há registos do acompanhamento feito por físicos e cirurgiões com a Corte 435 . Numa fase inicial, por outro lado, seria igualmente aceitável que este acompanhamento apenas se fizesse em caso de maior fragilidade da saúde do monarca ou do seu círculo familiar mais restrito. É possível que uma realidade paralela se verificasse: a existência de um grupo de físicos, estabelecidos permanentemente em vários pontos do país, que fariam as vezes de físicos do rei quando este se encontrasse na sua área de residência e prática, principalmente na fase mais incipiente do estabelecimento de uma classe médica em Portugal. A título de exemplo, veja-se o conjunto dos seis físicos de D. Afonso II, “por amor” a quem, entre outros indivíduos, o rei faz doações simultâneas a várias catedrais na Sexta-feira Santa de 1218. Todos parecem ter uma ligação a alguma diocese: Mestre Rodrigo (ou Roberto 436 ), que surge na doação feita ao bispo e à catedral do Porto 437 ; 434 Chancelarias Portuguesas: D. Duarte. org. João José Alves Dias. Lisboa: Universidade Nova de Lisboa, Centro de Estudos Históricos, 1998-2002. liv. 3, doc. 502, p. 356-357. Para conhecer todos os examinados cujo registo sobreviveu à passagem do tempo, cf. GONÇALVES – Físicos e cirurgiões…, p. 97-112. 435 Olhando para um exemplo mais de século e meio posterior ao nosso limite de estudo, refira-se o 5º capítulo dos Capítulos Gerais do Povo nas Cortes de 1498. Nele o Povo pede que não seja obrigado a conceder pousada a mulheres de oficiais cortesãos, exceto escrivães e vedores da fazenda, físicos e “algum” cirurgião ou cozinheiro. O rei diferiu, acrescentando a esta lista de oficiais o mordomo-mor, o camareiro-mor, o escrivão da puridade, escrivães e meirinhos, desembargadores e procuradores. cf. Cortes Portuguesas. Reinado de D. Manuel I: (Cortes de 1498). org. João José Alves Dias. Lisboa: Universidade Nova de Lisboa, Centro de Estudos Históricos, p. 68-69, 183. 436 Como refere Armando Norte, “variantes do mesmo documento grafam de forma diferente o nome deste indivíduo”. cf. NORTE – Letrados e Cultura Letrada…, vol. 2, p. 295, nota 3482. Concordando com Norte, assumimos que uma das formas terá origem no erro de um escriba. Consideramos que seria mais provável tratar-se de um físico chamado Roberto. Sendo esse um nome relativamente incomum em território português e, talvez, indicador de uma origem franca, seria mais aceitável que tenha induzido em erro um escriba ulterior, que, em dúvida, terá optado por um nome próprio muito mais comum e que lhe seria bem mais familiar: Rodrigo. Essa eventual origem franca seria, por si, extremamente interessante, e poder-se-ia relacionar com um dos outros físicos deste grupo, D. Amberto, também ele de provável origem franca. Todavia, esta hipótese continua a ser meramente conjetural.
114 Mestre Salvador e D. Amberto, que surgem na doação feita ao bispo e catedral de Évora 438 ; Mestre Mendo Fernandes e um segundo Mestre Mendo, respetivamente chantre e cónego da Sé de Lamego, que surgem na doação ao bispo e catedral da mesma cidade 439 ; enfim, Mestre Martinho, que surge na doação ao bispo e catedral de Lisboa 440 . Nas doações às dioceses de Braga 441 , Coimbra 442 , Tui 443 e Viseu 444 , não houve referência a físicos. Parece haver, portanto, uma relação geográfica. Qual das duas realidades, a existência de um ‘corpo’ permanente que circulava com a Corte ou o recurso a conhecidos físicos locais, seria preponderante? Os dados não nos permitem dizer, mas por certo coexistiriam. O primeiro físico documentado, o medicus de D. Sancho I, Mestre Mendo, foi arcediago de Santarém e, consequentemente, membro do cabido lisboeta. Porém, a extensão e a profundidade do depoimento que dá aos delegados apostólicos sobre a contenda entre Santa Cruz de Coimbra e a Sé da mesma cidade, demonstram bem o conhecimento da realidade diária da cidade e dos meandros da Corte, à data instalada por longos períodos em Coimbra, então cidade régia e o mais próximo que haveria de capital do reino 445 . No que toca aos físicos episcopais, para dois dos exemplos que conhecemos para este período - o de Mestre Fernando, físico do arcebispo bracarense D. Estevão Soares da Silva, e o de Mestre Durão, físico do bispo conimbricense D. Egas Fafes -, há vários sinais de que acompanhariam os prelados a quem assistiam. Se, por um lado, não se deverá descartar que os acompanhassem com um propósito de assistência médica em caso de necessidade, por outro há que lembrar que eram clérigos e, por norma, detinham mais cargos ou responsabilidades do que apenas a manutenção ou recuperação da saúde dos bispos. Mestre Fernando está documentado acompanhando o arcebispo na sagração de uma igreja, em 1224. Cristina Cunha admite que este clínico é o mesmo que o cónego bracarense homónimo que surge na documentação capitular em 1228, ainda que o documento de 1224 apenas o mencione como Phisicus archiepiscopi 446 . Mestre 437 COSTA – Mestre Silvestre e Mestre Vicente…, p 67-68, nota 146. 438 COSTA – Mestre Silvestre e Mestre Vicente…, p. 70-71, nota 149. 439 COSTA – Mestre Silvestre e Mestre Vicente…, p. 71, nota 150. 440 COSTA – Mestre Silvestre e Mestre Vicente…, p. 73-74, nota 153. Nesta doação, outro dos indivíduos “por amor a quem” é feita é João Rol, futuro bispo de Lisboa e físico papal. 441 COSTA – Mestre Silvestre e Mestre Vicente…, p. 48-49, nota 107. 442 COSTA – Mestre Silvestre e Mestre Vicente…, p. 68-69, nota 147. 443 COSTA – Mestre Silvestre e Mestre Vicente…, p. 69-70, nota 148. 444 COSTA – Mestre Silvestre e Mestre Vicente…, p. 72, nota 151. 445 Bulário Português..., p. 176, nº 87. 446 CUNHA – A Chancelaria Arquiepiscopal…, p. 123, 126.
115 Durão, que é identificado como físico do bispo em 1265, foi também clérigo e comensal do mesmo, além de reitor da igreja de Abiul e procurador das freiras do mosteiro de Lorvão 447 . É difícil determinar se, quando o bispo Egas Fafes faz testamento e acaba por morrer em Montpellier, em 1268, Mestre Durão, que estava presente, o acompanhava mais como físico do que como membro eclesiástico do séquito do prelado, então regressando de Roma como recém-eleito arcebispo de Compostela 448 . Fica a certeza, pelo menos, de que, em caso de necessidade, estes prelados teriam ao pé de si indivíduos a quem reconheciam preparação e capacidade para os tratar. Expostas estas diferentes realidades, julgo não ser prudente pensar a atividade médica portuguesa como itinerante neste período. Os clínicos servidores de grandes aristocratas e/ou eclesiásticos poderiam acompanhar os seus senhores nas suas deambulações. Contudo, com o progressivo aumento do grupo de físicos e cirurgiões praticantes numa região concreta e, sobretudo, em meios urbanos, estes homens estariam estabelecidos numa região. Como atenderiam, então, os seus pacientes? O cenário mais provável é o da deslocação do físico ou do cirurgião a casa ou ao local onde o enfermo se encontrasse. Ainda que não nos sobrem relatos sobre essa realidade, afigura-se como a mais provável. Um elemento, ainda que posterior ao período em estudo, poderá oferecer algum apoio a este entendimento: em 1380, uma postura do concelho de Évora autoriza a um recolhimento mais tardio, e sem ser presente a um juiz, a algum “judeu ou mouro, físico ou boticário, ou de outro mester, que tenha sido chamado por algum cristão” 449 5.2 – A prática e as práticas 5.2.1 – Instrumentos Para o período em análise, as fontes que esclareçam algum tipo de práticas são escassíssimas. Tentar perceber como os físicos e cirurgiões atuavam, como pensavam, decidiam e aplicavam o seu conhecimento é quase impossível para o território português até meados do século XIV. As representações iconográficas de atividades médicas são 447 NORTE – Letrados e Cultura Letrada…, vol. 2, p. 64-65; MORUJÃO – A Sé de Coimbra…, p. 256. 448 Testamenta…, doc. 2.28, p. 299-316. 449 TAVARES – Os Judeus em Portugal no século XIV…, p. 76.
116 inexistentes para o nosso país, nesta época 450 . Além das representações, os instrumentos cirúrgicos, por exemplo, são raríssimos por toda a Europa, não sendo Portugal uma exceção 451 . Há provas documentais da existência destas representações: se, de facto, o convento franciscano de Leiria recebeu os manuscritos médicos de Mestre Gil de Leiria, entre eles viria um tratado oftalmológico ilustrado, onde, por certo, seriam desenhados e descritos instrumentos úteis às intervenções que a obra referia 452 . Acrescente-se ainda outra obra do acervo do mestre leiriense, que parece tratar especificamente de instrumentos e aplicações médico-farmacológicas, nomeadamente “clisteres, supositórios, seringas, pensos (?), xaropes, óleos e águas”, da autoria do mestre salernitano undecentista Pedro de Musandino 453 . Porém, nada disso chegou até nós. Exploremos o que outros documentos revelam: os testamentos de dois bispos de Coimbra, Egas Fafes – prelado da cidade do Mondego de 1248 a 1267-, e Pedro Martins, que exerceu igual função entre 1296 e a sua morte, em 1301, guardam informações curiosas sobre objetos ligados à cura. O testamento do primeiro, já referido no subcapítulo anterior, foi feito no seu leito de morte em Montpellier e data de 1268, quando regressava de Roma para tomar posse como novo arcebispo de Santiago de Compostela 454 . Entre os itens que lega, destaca-se um anel de safira, capaz de estancar hemorragias, que deveria permanecer perpetuamente no tesouro da catedral conimbricense 455 . Este bispo não terá tido qualquer tipo de ligação à medicina nem se lhe conhecem livros médicos. Contudo, é interessante perceber o entusiasmo com que um eclesiástico, leigo em matérias médicas, fala de um objeto cujas propriedades curativas são descritas como quase mágicas. A breve descrição do anel levanta uma 450 Mesmo a iconografia de santos ligados à medicina, como São Cosme e São Damião, tradicionalmente representados como médico e cirurgião, respetivamente, e segurando o primeiro um frasco de vidro para exame uroscópico e o segundo uma mala com medicamentos, são inexistentes no nosso território no período medieval. O culto destes santos só se populariza no nosso país no período moderno, altura em que as representações se tornam abundantes, assim como a evocação dos mesmos sanos pelos diversos grupos profissionais da cura. cf. CARVALHO, Augusto da Silva – O culto de S. Cosme e S. Damião em Portugal e no Brasil. História das Sociedades Médicas Portuguesas. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1928, p. 9-18. 451 GREEN – Moving from Philology…, p. 349. 452 Cirurgia hominum per combustiones facienda ad occulum per ymagines hominum ipsorum facienda. cf. SÁ – Primórdios da Cultura Portuguesa..., doc. 48, p. 69-70. 453 Liber Magistri Petri de Musando de clisteribus et subpositoriia et siringis et pessaris et sirupis et oleis et de aquis. cf. SÁ – Primórdios da Cultura Portuguesa..., doc. 48, p. 69-70. 454 Testamenta…, doc. 2.28, p. 299-316. 455 Item anulum nostrum magnum de zafiro qui est valde virtuosus cum alio anulo qui vali mirabiliter ad sanginem restringendum dimittimus ecclesie Colimbriensi itaquod sint se[m]per in tesauro ipsius ecclesie et nullo modo alienentur nec aliquis habeat potestatem apropriandi sibi nec alienandi ipsos sed dentur per aliquam personam ab ipso capitulo deputatam pauperibus et aliis infirmitates pacientibus cum sufficienti et idonea captione
117 série de questões: a cor da pedra teria alguma relação com as propriedades? Qual seria a proveniência? Terá permanecido por muito tempo no tesouro da Sé de Coimbra? A primeira questão é complexa. O senso comum diz que a safira é uma pedra preciosa azul. O étimo, de origem greco-latina, significa ‘pedra azul’, ainda que não se limitasse, na época, a referir-se à variedade azul do corindo 456 . Considerando, ainda assim, que se trata de facto de uma safira, há que ter em conta que estas gemas não são apenas azuis, mas sim de todos as cores em que o corindo, mineral que a compõe, surge. Excetua-se uma variedade gemológica de corindo: o rubi, precisamente a gema inequivocamente vermelha que poderia surgir como primeira hipótese, devido à cor sanguínea que o caracteriza 457 . A resposta à questão passaria pela consulta de lapidários gregos, árabes e latinos, procurando perceber quais as gemas e outros materiais aos quais eram atribuídos propriedades anti-hemorrágicas, para tentar encontrar uma correspondência. Caso fosse encontrada, provar-se-ia a difusão de determinada obra entre os meios eruditos nacionais. Por outro lado, poderá ser uma crença relacionada com um objeto particular. Contudo, nada no texto do testamento leva a crer que se trate de algum objeto de cariz religioso ou relacionado, por exemplo, com o culto de algum santo. A proveniência será também uma incógnita. Contudo, é possível que tenha permanecido pelo menos algumas décadas no tesouro da catedral conimbricense, como parece indicar o testamento de Pedro Martins. O testamento do bispo Pedro Martins, anteriormente chanceler e físico do rei D. Dinis, volta a referir um anel capaz de curar hemorragias 458 . Descrevendo-o com menos detalhe, apenas refere a sua propriedade anti-hemorrágica quando o pretende distinguir dos seus outros anéis, que manda vender. O anel com propriedades curativas seria entregue à sua irmã, Maria Martins, segundo a sua última vontade 459 . Tratar-se-á do mesmo anel que Egas Fafes ordenou que permanecesse no tesouro catedralício mais de três décadas antes? Uma vez mais, as hipóteses são várias. Poderia tratar-se do mesmo anel, ainda que isso significasse uma apropriação de um objeto do tesouro catedralício por parte do bispo; poder-se-ia tratar igualmente de um outro anel, com propriedades 456 KLEIN, Cornelis; HURLBUT, Cornelius S. – Manual of Mineralogy: After James D. Dana. 21st edition. New York, Chichester, Brisbane, Toronto, Singapore: John Wiley & Sons, Inc., 1993, p. 595596. 457 KLEIN; HURLBUT – Manual of Mineralogy…, p. 595-596. 458 Testamenta…, doc. 2.41, p. 372-379. 459 Item mando quod ad persolvendum testamentum meum vendantur scutelle argentee de capella mea et argentum meum et anuli mei ex[c]epto anulo qui habet virtutem ad sedandum sanguinem quem mando Marie Martini sorori mee.
118 semelhantes, ainda que tal duplicidade revelasse uma notável coincidência. Não se poderá, por agora, afirmar qual das respostas estará correta. É esclarecedor que seja apenas com objetos como anéis que curam hemorragias que se possa falar dos instrumentos na prática médica diária no Portugal medieval, até meados do século XIV. Objetos mais previsíveis como agulhas e lâminas, no caso dos cirurgiões, ou balões de vidro para exame visual à urina, no caso dos físicos, seriam bem mais expectáveis. Porém, destes não restam vestígios ou representações para o período em análise, pelo que, para este tema, nos detemos aqui. 5.2.2 – Licenciamento de atividade A introdução, feita por D. Afonso IV, do licenciamento de atividade por parte de autoridades públicas extrauniversitárias, marca uma mudança de ciclo e expõe a evolução que desde há algumas décadas estava em curso. Um número cada vez maior de praticantes sem formação universitária faria da física, da cirurgia e da boticária os seus ofícios, colocando em risco o bem-estar e a saúde de muitos. Não se trata de uma medida original, pelo contrário. Conhecemos vários precedentes noutras regiões, um pouco por toda a Europa. Um dos mais célebres será o édito real de Filipe IV, o Belo, que em 1311 obriga todos os cirurgiões de Paris a serem examinados perante um júri composto por seis cirurgiões e presidido pelo cirurgião régio, à época o célebre Jean Pitard 460 . Práticas semelhantes são comuns na Valência trecentista, onde os cirurgiões são igualmente examinados 461 , assim como os praticantes das artes médicas na Sicília 462 . O documento em causa, datado de 22 de fevereiro de 1338, é bastante vago 463 . Não prevê sanções para quem não se fizer examinar, não estabelece modelos de exame, não separa as diversas artes médicas. Apesar de não desobrigar os possuidores de graus 460 JACQUART – Le Milieu Medical…, p. 80. 461 MCVAUGH – The Rational Surgery…, p. 264-265 462 Tal como foi referido no ponto sobre a aprendizagem extrauniversitária, o caso siciliano apresenta alguma proximidade com o português. No que diz respeito à examinação de aspirantes à prática médica, as Constitutiones regales, promulgadas por Frederico III da Sicília (r. 1295-1337), não preveem que o candidato necessite de qualquer tipo de estudos em particular, e ainda menos de um grau académico. Bastará que seja considerado preparado, capaz e idóneo por um comissário régio que o examine; no caso de ser habitante de Palermo, o candidato apenas precisará de obter semelhante aprovação por parte das autoridades públicas da cidade. Cf. SANTORO – Medici del re…, p. 96 463 Chancelarias Portuguesas: D. Afonso IV, vol. II, doc. 92
119 académicos do exame, não encontrei sinais de que eventuais titulares de um tivessem sido submetidos a exame. Contudo, não seria inédito: desejando contratar um físico, a comuna de Bordéus apenas admite Jacques Ram, licenciado em medicina por Montpellier, após rigoroso inquérito das autoridades públicas locais, comprovando a sua competência e idoneidade 464 . Regressando ao exame português, este estendia-se também às três principais artes médicas – a física, a cirurgia e a boticária -, o que nos dirá que o número de praticantes empíricos e/ou extrauniversitários seria significativo nas três. Porém, neste efémero período de avaliação, apenas são cirurgiões os examinados, sendo todos os examinadores físicos. Não se tratariam de físicos quaisquer. Como afirmámos anteriormente, o primeiro dos examinadores, Mestre Afonso, poderá muito bem ser Afonso Dinis, mestre em medicina pela Universidade de Paris. Seria bastante lógico que o estabelecimento da prática surgisse por conselho deste mestre. Após viver longos anos em Paris e ser membro da faculdade médica da sua universidade, estaria familiarizado com a hegemonia dos mestres médicos universitários sobre os restantes praticantes da cidade, em particular os cirurgiões. Face a um aumento considerável dos praticantes, não correspondido pela frágil Universidade de Lisboa/Coimbra, e o seu insignificante ensino médico, o influente físico régio introduziria assim uma forma de controlo de ‘qualidade’, reproduzindo modestamente os modelos de examinação por autoridades públicas com que teria contactado nas suas estadias além-fronteiras. É possível que o seu posterior afastamento da prática médica, com o prosseguimento dos estudos em Teologia em Paris e a ascensão à cátedra episcopal da Guarda e de Évora, tenham ditado o desinteresse e abandono da prática pelas autoridades régias. Será necessário esperar até 1392 para ver renovada a obrigatoriedade de exame pelo físico régio 465 , já com D. João I no trono, ainda que só se conheçam cartas de ofício para físicos e cirurgiões a partir do reinado de D. Duarte, como já referi anteriormente. Apesar das lacunas do documento e da curta duração desta primeira experiência, considero-a fundamental na evolução das práticas médicas em Portugal, sendo um marco pioneiro no envolvimento das autoridades públicas nacionais no controlo de 464 JACQUART – Le Milieu Medical…, p. 135 465 Vereaçoens: anos de 1390-1395…, doc. CVIII; mesmo com esta renovação, o método permanece vago. Os candidatos, homens ou mulheres, judeus, cristãos ou muçulmanos, deveriam apresentar-se perante o físico régio, Mestre Martinho, que lhes concederia carta de ofício em física ou cirurgia se os considerasse capazes. Neste documento já estão previstas sanções: quem desrespeitasse esta lei, deveria ser preso até ordem régio para libertar, sendo cassados todos os seus bens em benefício da coroa.
120 qualidade dos serviços médicos oferecidos à população. Ainda que demore um século até se tornar prática quotidiana, a examinação demonstra preocupações práticas na manutenção do bem comum, missão cada vez mais importante com o aproximar do crepúsculo da Idade Média. 5.2.3 – Outras atividades Entre as várias atividades paralelas ou subsidiárias da medicina, a alveitaria, forma medieval da medicina veterinária, mereceu alguma atenção por parte de vários letrados portugueses, quer durante o período em estudo, quer naquele que se lhe seguiu. O cavalo, animal nobre e do nobre, era símbolo de estatuto e merecedor de todos os cuidados que com ele se pudesse ter. Um dos primeiros testemunhos de posse de manuscritos sobre alveitaria é o impressionante testamento de Mestre Gil de Leiria. Entre as numerosas obras que possuiu e legou aos frades menores de Leiria, encontravam-se vários tratados sobre tratamento e cirurgia de cavalos, mas também sobre cirurgia de cães 466 . Os cães, peças fundamentais nos divertimentos venatórios dos grandes senhores, são mais um elemento de um serviço fornecido às elites por estes homens. Adivinha-se, portanto, um padrão de atividade voltado sobretudo para o serviço das elites. O já mencionado Livro de Alveitaria, traduzido e organizado pelo físico régio Mestre Geraldo, a mando do próprio rei, é demonstrativo do interesse crescente no meio cortesão por este tipo de tratados 467 . Só bem mais tarde começarão a surgir sinais de uma alveitaria mais transversal, com preocupações de tratamento e cura de animais de carga e trabalho, como bovinos e asininos. Tal como a física e a cirurgia, a alveitaria parece ter-se tornado, lentamente, uma arte assimilada pelas camadas populares. A prática da dita arte por parte de muitos indivíduos impreparados levará o concelho de Santarém a pedir a D. Duarte, em capítulos especiais de cortes, que, à semelhança de físicos e cirurgiões, também os alveitares sejam examinados, evitando-se assim que muitas bestas morressem por serem tratadas por praticantes incapazes 468 . Não encontrei confirmação de que essa examinação tenha sido realmente instituída. Mas é evidente a confiança que a sociedade quatrocentista coloca nos meios de licenciamento 466 Anathomia et Cura equorum siue Cirurgia ipsorum. Item Cura canum siue Cirurgia ipsorum. Cf. SÁ – Primórdios da Cultura Portuguesa…, doc. 48, p. 69. 467 FRANCO – O Livro de Alveitaria…, p. 209-217. 468 Cortes Portuguesas: Reinado de D. Duarte: (Cortes de 1436-1438). org. João José Alves Dias. Lisboa: Universidade Nova de Lisboa, Centro de Estudos Históricos, 2004, p. 107.
127 2 – Mestre Mendo Fernandes (1218), [1211-1222] - Físico Um dos seis físicos de D. Afonso II, sendo um dos dois físicos homónimos “por amor a quem”, entre outras pessoas, D. Afonso II faz uma doação ao bispo e Sé de Lamego na Sexta-feira Santa de 1218. Físico régio, ocupava então a dignidade de chantre na catedral lamecense e terá igualmente cumprido funções de executor apostólico de Honório III. Referências documentais à sua atividade médica: COSTA – Mestre Silvestre e Mestre Vicente…, p. 71, nota 150. Principais referências bibliográficas: NORTE – Letrados e Cultura Letrada…, vol. II, p. 220-221 (prosopografia); VELOSO, Maria Teresa Nobre, – D. Afonso II: Relações de Portugal com a Santa Sé durante o seu reinado. Coimbra: Arquivo da Universidade de Coimbra, 2000, p. 48-49, 205, 220. 3 – D. Amberto (1218), [1217-1218] - Físico Outro dos físicos de D. Afonso II, está incluído no grupo de pessoas “por amor a quem” o mesmo faz uma doação ao bispo e Sé de Évora na Sexta-feira Santa de 1218. O seu nome parece sugerir uma origem estrangeira. A ausência de título magistral é praticamente única para o conjunto de praticantes do século XIII. Não há provas do seu estatuto clerical, pelo que o incluímos entre os físicos leigos. Recebeu, provavelmente, uma herdade no termo de Besteiros (atual concelho de Tondela) por doação régia, em 1217. Referências documentais à sua atividade médica: COSTA – Mestre Silvestre e Mestre Vicente…, p. 70-71, nota 149. Principais referências bibliográficas: NORTE – Letrados e Cultura Letrada…, vol. II, p. 22 (prosopografia); VELOSO – D. Afonso II…, p. 48-49, 205, 220. 4 – Mestre Martinho (1218) [1217-1218] - Físico Outro dos físicos de D. Afonso II, é um dos que propiciaram a doação do rei ao bispo e Sé de Lisboa na Sexta-feira Santa de 1218. Além de físico régio, foi tesoureiro da catedral lisboeta. Referências documentais à sua atividade médica: COSTA – Mestre Silvestre e Mestre Vicente…, p. 73-74, nota 153.
128 Principais referências bibliográficas: NORTE – Letrados e Cultura Letrada…, vol. II, p. 190-191 (prosopografia); VELOSO – D. Afonso II…, p. 48-49, 205, 220. 5 – Mestre Salvador (1218) [1218-1219] - Físico Físico de D. Afonso II, está igualmente incluído no grupo de pessoas “por amor a quem” o dito rei faz uma doação ao bispo e Sé de Évora na Sexta-feira Santa de 1218. Tal como D. Amberto, não temos provas do seu estatuto clerical. Referências documentais à sua atividade médica: COSTA – Mestre Silvestre e Mestre Vicente…, p. 70-71, nota 149. Principais referências bibliográficas: NORTE – Letrados e Cultura Letrada…, vol. II, p. 299-300 (prosopografia); VELOSO – D. Afonso II…, p. 48-49, 205, 220. 6 – Mestre Rodrigo/Roberto (1218) - Físico Outro dos físicos de D. Afonso II, está incluído entre as pessoas “por amor a quem” D. Afonso II faz uma doação ao bispo e Sé do Porto, na Sexta-feira Santa de 1218. A indefinição do seu nome poderá revelar a sua origem estrangeira: Um dos copistas posteriores terá lido Rodrigo, nome peninsular mais comum, em vez de Roberto, explicando a grafia dupla com que aparece em cópias do mesmo documento. Referências documentais à sua atividade médica: COSTA – Mestre Silvestre e Mestre Vicente…, p. 67-68, nota 146. Principais referências bibliográficas: NORTE – Letrados e Cultura Letrada…, vol. II, p. 295 (prosopografia); VELOSO – D. Afonso II…, p. 48-49, 205, 220. 7 – Mestre Mendo (1218) [1218-1224] - Físico Último dos físicos de D. Afonso II, é o segundo mestre Mendo “por amor a quem” o rei faz uma doação ao bispo e Sé de Lamego na Sexta-feira Santa de 1218. Foi cónego da Sé de Lamego e executor apostólico de Honório III. Referências documentais à sua atividade médica: COSTA – Mestre Silvestre e Mestre Vicente…, p. 71, nota 150. Principais referências bibliográficas: NORTE – Letrados e Cultura Letrada…, vol. II, p. 217 (prosopografia); VELOSO – D. Afonso II…, p. 48-49, 205, 220.
129 8 – Mestre Gil [1218] - Ligação hipotética à medicina Entre todos os indivíduos que recebem livros de Santa Cruz de Coimbra por empréstimo, Mestre Gil é o único que o faz não sendo identificado com uma instituição eclesiástica. Coloca-se, pois, a hipótese de se tratar de um escolar ou alguém com interesse pelo assunto, ainda que não consigamos desenvolver esta possibilidade. Armando Norte sugere que se possa tratar de Mestre Gil de Leiria. Referências documentais à sua atividade médica: SÁ – Primórdios da Cultura Portuguesa..., doc. 17, p. 27. Principais referências bibliográficas: CRUZ, António - Santa Cruz de Coimbra…, v. 1, p. 192-193; NORTE – Letrados e Cultura Letrada…, vol. II, p. 99-100 (prosopografia). 9 – Mestre Fernando (1224), [1224-1228] - Físico Físico do arcebispo bracarense, desloca-se na companhia do seu senhor quando este vai sagrar uma igreja a Murça. Cristina Cunha sugere que seja a mesma pessoa que o cónego bracarense homónimo que surge em 1228. Principais referências bibliográficas: CUNHA – A Chancelaria Arquiepiscopal…, p. 123, 126; NORTE – Letrados e Cultura Letrada…, vol. II, p. 87 (prosopografia). 10 – Frei Gil de Santarém (c. 1225-1265) - Físico/Médico Frei Gil de Santarém terá estudado em Paris, na primeira metade da década de 1220, sendo um eventual frequentador das escolas médicas que se organizariam poucos anos mais tarde como Faculdade de Medicina da Universidade de Paris. Adere por volta de 1225 à então recente Ordem dos Pregadores, fazendo o noviciado em Paris e voltando por volta de 1230 para Portugal. Rapidamente radicado no convento da Ordem em Santarém, terá continuado a exercer como frater medicus, assistindo frades e forasteiros. Morreu em 1265. Referências documentais à sua atividade médica: SÃO JOÃO, Frei Baltazar de – Vida de São Frei Gil..., p. 20-111; O’BOYLE – The Art of Medicine…, p. 10-16; PEREIRA – Aegidivs Scallabitanvs…, p. 281-607; FRACHET – Vitae Fratum, parte. 4, cap. 3, ponto 1; parte 5, cap. 3, ponto 6. Principais referências bibliográficas: ABRANCHES; SILVA – Frei Gil de Santarém…, p. 181-183; NORTE – Letrados e Cultura Letrada…, vol. II, p. 102-105
130 (prosopografia); PEREIRA – Aegidivs Scallabitanvs…, p. 109-158 SÃO JOÃO, Frei Baltazar de – Vida de São Frei Gil..., p. 5-18. 11 – Mestre João Rol (1233-1234) [1218-1241] - Físico Documentado pela primeira vez em 1218, insere-se no conjunto das pessoas “por amor a quem” D. Afonso II faz uma doação ao bispo e Sé de Lisboa na Sexta-feira Santa de 1218. Não é mencionado como físico do rei, ao contrário do que dizem traduções tardias do documento em causa. Estanciando longamente na Corte pontifícia, é tratado por Gregório IX como seu capelão e físico, tendo sido também reitor das igrejas de Santa Maria de Torres Vedras, S. Pedro de Torres Vedras e Santa Maria da Lourinhã, cónego da Sé de Viseu, deão e bispo de Lisboa. Foi parte ativa na fase inicial do recrudescimento do conflito entre a Santa Sé e D. Sancho II, exercendo o cargo de bispo de Lisboa a partir de Roma (1239-1241). Referências documentais à sua atividade médica: COSTA – Mestre Silvestre e Mestre Vicente, p. 254-255, nt. 379; p. 257-258, nt. 383. Principais referências bibliográficas: COSTA – Mestre Silvestre e Mestre Vicente, p. 213-277; FERNANDES, Hermenegildo – D. Sancho II…, p. 57, 61, 160-161, 163, 201202, 226, 228, 235, 251, 258; NORTE – Letrados e Cultura Letrada…, vol. II, p. 173175 (prosopografia). 12 – Mestre Pedro Peres [1228] - Ligação hipotética à medicina Mestre Pedro Peres é um dos cónegos regrantes presentes no capítulo provincial dos mosteiros da Ordem, que reuniu no Porto em 1228. Identificado como magno em gramática, medicina, lógica e teologia, levou António Cruz a procurar identificá-lo como possível lente de todas as mencionadas artes entre os crúzios. Apesar da fragilidade dos argumentos, e de ser cónego de S. Vicente de Fora e não de Santa Cruz, fica referida a ligação hipotética. Principais referências bibliográficas: CRUZ, António - Santa Cruz de Coimbra…, v. 1, p. 215-219; NORTE – Letrados e Cultura Letrada…, vol. II, p. 279-280 (prosopografia).
131 13 – Mestre Gil de Leiria (1236-1257) - Físico Cónego e diácono de Coimbra, foi físico régio de D. Sancho II. Possuiu uma coleção de obras médica de dimensão incomparável para o período em estudo, em Portugal. Deixou-a ao convento franciscano de Leiria, cidade de onde seria natural. Frequentou, com certeza, escolas superiores de medicina, ainda que não seja possível averiguar qual ou quais, sendo certa também a sua atividade médica prolongada, plasmada num volume de receitas e terapêutica preparado pelo próprio. Referências documentais à sua atividade médica: Chancelaria de D. Afonso III, liv. 1, doc. 98, p. 107-108; SÁ – “Primórdios da Cultura Portuguesa”..., doc. 48, p. 69-70. Principais referências bibliográficas: GOMES – “Livros de ciência…”, pp. 173-26; NORTE – Letrados e Cultura Letrada…, vol. II, p. 100-102 (prosopografia). 14 – Mestre Domingos (1237-1255) - Físico Físico dos reis D. Sancho II e D. Afonso III. Não se conhece informação sobre a sua condição – leigo ou clérigo -, nem sobre a sua vida e percurso. Referências documentais à sua atividade médica: Chancelaria de D. Afonso III, liv. 1, doc. 193, pp. 215-218; Portugaliae monumenta historica: Leges et consuetudines, vol. 1. Lisboa: Academia das Ciências de Lisboa, 1856. p. 651-652. Principais referências bibliográficas: NORTE – Letrados e Cultura Letrada…, vol. II, p. 37 (prosopografia). 15 – Mestre Vicente de Santarém (1240) - Físico Físico de D. Sancho II, dele se conhece apenas uma referência, num documento do mosteiro de Chelas, de 1240. Principais referências bibliográficas: NORTE – Letrados e Cultura Letrada…, vol. II, p. 330 (prosopografia). 16 – Mestre João Domingues (1242) [1206-1242] - Físico Cónego da Sé de Coimbra, terá sido membro de uma rede familiar influente da cidade do Mondego. Apesar do longo percurso documental, apenas é referido como físico no seu obituário, em 1242.
132 Referências documentais à sua atividade médica: Livro das Kalendas, v. 1, p. 172; v. 2, p. 114-115. Principais referências bibliográficas: NORTE – Letrados e Cultura Letrada…, vol. II, p. 152-153 (prosopografia). 17 – Mestre Pedro Julião [c.1250-1277] - Ligação hipotética à Medicina Sendo um dos mais importantes eclesiásticos portugueses da Idade Média, pensou-se por longo tempo que Pedro Julião seria o Pedro Hispano autor de diversas obras de lógica, medicina e filosofia. Porém, nos últimos anos têm sido feitos progressos para distinguir vários indivíduos conhecidos como Pedro Hispano. Pedro Julião, o papa João XXI, não será o mesmo Petrus mestre de medicina em Siena e autor de várias obras, entre as quais o célebre Thesaurus Pauperum. Por outro lado, nenhum documento coevo refere a sua eventual prática médica, seja em Portugal ou na Corte romana. A tradição de séculos e a investigação em curso leva-nos, contudo, a não o excluir deste levantamento, mantendo a sua ligação como conjetural. Principais referências bibliográficas: MEIRINHOS – Bibliotheca Manuscripta…, p. XV-XXVIII; MEIRINHOS – O Papa João XXI e a Ciência…, p. 151-166; NORTE – Letrados e Cultura Letrada…, vol. II, p. 267-271 (prosopografia). 18 – Mestre Garcia (1255) [1231-1255] - Físico Cónego da Sé de Viseu, é, à semelhança de Mestre João Domingues, referido como físico apenas no seu obituário. Referências documentais à sua atividade médica: Livro das Kalendas, v. 2, p. 200. Principais referências bibliográficas: NORTE – Letrados e Cultura Letrada…, vol. II, p. 96-97 (prosopografia). 19 – Mestre Pedro, O.P. (c. 1255-1277) – Médico/Físico Frade pregador, está presente numa audiência que o rei concede a um núncio apostólico em 1277. Há uma probabilidade considerável de se tratar do mesmo medicus mire mansuetudinis mencionado por Frei Gil no relato enviado para composição das Vitae Fratum, com quem teria presenciado um milagre no convento escalabitano. Frater medicus convertido em físico, ou vice-versa, demonstra o papel que os dominicanos parecem assumir na assistência médica às populações ducentistas, em Portugal.
133 Referências documentais à sua atividade médica: FRACHET – Vitae Fratum, parte 5, cap. 3, ponto 6; MARQUES, O Papado e Portugal…, p. 560. 20 – Frei Domingos Peres (1256) - Médico Tendo como única referência a este frade um documento do Mosteiro de Chelas, não podemos determinar a que ordem pertence este frade e, caso seja dominicano, se seria um frater medicus. Referências documentais à sua atividade médica: ANTT, Mosteiro de Chelas, m. 12, nº 228. 21 – Mestre Domingos de Ferragial (1260-1262) - Físico Monge alcobacense que serviu D. Afonso III como físico. Principais referências bibliográficas: NORTE – Letrados e Cultura Letrada…, vol. II, p. 46-47 (prosopografia). 22 – Mestre Martinho (1261) [1257-1261] - Físico Cónego de Coimbra e subdiácono apostólico de Alexandre IV, é identificado como físico apenas no seu obituário, em 1261. Referências documentais à sua atividade médica: Livro das Kalendas, v. 1, p. 314. Principais referências bibliográficas: NORTE – Letrados e Cultura Letrada…, vol. II, p. 194-195 (prosopografia). 23 – Mestre Bartolomeu (1261-1267) [1259-1292] - Médico Monge alcobacense, é identificado como físico régio entre 1261 e 1267. Na Corte, além de físico, serviu como conselheiro, capelão e clérigo do rei. Deixou a prática médica após alcançar a dignidade episcopal, na diocese de Silves. Principais referências bibliográficas: NORTE – Letrados e Cultura Letrada…, vol. II, p. 24-25 (prosopografia). 24 – Mestre Pedro (1262-1275) - Físico Cónego eborense, reitor de Santo André de Mafra e físico régio, é por vezes confundido com Pedro Julião e com Pedro Martins. Morreu em 1275.
134 Referências documentais à sua atividade médica: Chancelaria de D. Afonso III, liv. 1, vol. 1, doc. 389, p. 446-447; doc. 395, p. 451-455; doc. 410, p. 469-470; vol. 2, doc. 433, p. 29-30; doc. 434, p. 30-35; doc. 456, p. 55-56; doc. 523; p. 113-114; doc. 526, p. 115-116; doc. 533; p. 121; doc. 535, p. 121-123; doc. 563, p. 147-148; doc. 590, p. 171173; doc. 612, p. 188-189. Principais referências bibliográficas: FERREIRA - O Papa João XXI…, p. 359-364; MORUJÃO – A Sé de Coimbra..., p.161, nota 379; VILAR, Hermínia Vasconcelos – As Dimensões de um Poder. A Diocese de Évora na Idade Média. Lisboa: Editorial Estampa, 1999, p. 388 (prosopografia). 25 – Mestre Estevão Moniz (1265) [1258-1285] – Físico Terá sido juiz apostólico, diácono, porcionário, cónego, tesoureiro e deão da sé de Coimbra, assim como reitor da igreja de Sta. Maria do Foro. Armando Norte identificao com o mestre Estevão que, em 1265, surge como físico num documento régio. Referências documentais à sua atividade médica: Chancelaria de D. Afonso III, liv. 1, vol. 1, doc. 334, p. 388-390. Principais referências bibliográficas: NORTE – Letrados e Cultura Letrada…, vol. II, p. 82-85 (prosopografia). 26 – Mestre Durão (1265) [1265-1268] - Físico Clérigo, comensal e físico do bispo de Coimbra D. Egas Fafes, acompanha-o no seu leito de morte em Montpellier. Foi também reitor da igreja de Abiul, assim como procurador das freiras de Lorvão. Principais referências bibliográficas: MORUJÃO – A Sé de Coimbra…, p. 256; NORTE – Letrados e Cultura Letrada…; vol. II, p. 64-65 (prosopografia). 27 – Frei Domingos, O.F.M. (1270) – Médico Identificado como “Frei Domingos médico” num documento de D. Afonso III, restam dúvidas quanto à sua condição de físico ou eventual medicus franciscano, na mesma linha dos frati medici dominicanos. Não parece tratar-se apenas de uma alcunha. Referências documentais à sua atividade médica: Chancelaria de D. Afonso III, liv. 1, vol. 2, doc. 433, p. 16-17.
135 28 – Mestre João (1272-1286) - Físico Físico dos reis D. Afonso III e D. Dinis, poderá, segundo Armando Norte, ser o deão e bispo de Lamego homónimo. Principais referências bibliográficas: NORTE – Letrados e Cultura Letrada…; vol. II, p. 138 (prosopografia). 29 – D. Silvestre (1274) - Cirurgião Primeiro cirurgião documentado em Portugal, caso único no século XIII. Documentado como cirurgião de Braga, pertenceu à confraria de São João do Souto, da cidade. Terá morrido antes de 1317, altura em que é referido como já falecido. Referências documentais à sua atividade médica: MARQUES – Braga Medieval…, p. 159-160, doc. 9. 30 – Mestre Pedro Martins (1275-1301) - Físico Pedro Martins foi cónego das sés de Évora e de Coimbra e bispo das mesmas dioceses. Foi reitor de diversas igrejas, com destaque para Santa Maria da Alcáçova de Santarém. Na Corte cumpriu igualmente várias funções, sendo as principais o serviço como físico régio de D. Afonso III e D. Dinis, e o exercício como chanceler-mor deste último. Pedro Martins terá entrado ao serviço régio após a morte do cónego eborense e físico régio homónimo. Referências documentais à sua atividade médica: Chancelaria de D. Afonso III, liv. 1, vol. 2, p. 319, nº 739; Testamenta…, p. 299-305, nº 2.41. Principais referências bibliográficas: MORUJÃO – A Sé de Coimbra…, p. 61, 144-157, 178-180; NORTE – Letrados e Cultura Letrada…; vol. II, p. 272-275 (prosopografia). 31 – Mestre Domingos das Antas (1279) – Físico Físico de D. Afonso III, não se encontram provas do eventual estatuto clerical. Referências documentais à sua atividade médica: Chancelaria de D. Afonso III, Liv. 1, vol. 2, p. 319, nº 739. Principais referências bibliográficas: NORTE, Armando – Letrados e cultura letrada…, vol. II, p. 45-46 (prosopografia).
136 32 – Mestre João (1282) – Físico Físico régio que testemunha em Estremoz um acordo entre D. Dinis e Afonso Dinis, seu meio-irmão. Referências documentais à sua atividade médica: ANTT, Chancelaria de D. Dinis, Liv. 1, fl. 47-48v. 33 – Mestre Martinho (1283-1286) – Médico Médico de Lisboa que surge em vários documentos entre 1283 e 1286. Referências documentais à sua atividade médica: ANTT, Colegiada de Santa Maria de Outeiro de Lisboa, m. 8, nº 313, 314; ANTT, Mosteiro de Alcobaça, 1ª inc., Docs. Régios, m. 2, nº 2; ANTT, Mosteiro de S. Vicente de Fora, 1ª inc., m. 4, nº 12 e Liv. 60, fl. 6v-7. 34 – Mestre João [1286-1296] - Ligação hipotética à medicina Bispo de Lamego. Armando Norte sugere que um dos físicos associados ao serviço régio chamado João seja o mesmo clérigo que ascendeu ao bispado de Lamego entre os anos de 1286 e 1296. Sendo uma identificação conjetural, fica a referência. Principais referências bibliográficas: NORTE, Armando – Letrados e cultura letrada…, vol. II, pp. 139-140 (prosopografia). 35 – Mestre João (1288) – Físico Físico de Coimbra, casado com Constança Bartolomeu. Empraza umas casas junto ao adro de Santiago de Coimbra, em 1288. Principais referências bibliográficas: NORTE, Armando – Letrados e cultura letrada…, vol. II, p. 140 (prosopografia). 36 – Mestre Domingos (1289-1309) – Físico Armando Norte põe a hipótese dos mestres Domingos, porcionário da Sé de Braga, e Domingos, chanceler do conde G. Mendes, serem a mesma pessoa. A coincidência cronológica e a notícia isolada do segundo dão força à sugestão, pelo que os incluí apenas numa entrada.
143 Referências documentais à sua atividade médica: Censual do Cabido da Sé do Porto. Porto: Imprensa Portuguesa, 1924, p. 447-462. 61 – Mestre Martinho do Rogido (1332) - Mestre em Medicina (Físico/Médico) Sendo referido pelo papa como mestre em medicina, a sua formação é inequivocamente universitária. Poderá tratar-se do físico régio homónimo que examinou vários cirurgiões, o que reforçaria o contraste entre os examinadores com formação superior e os examinados alheios ao meio universitário. Foi prior de Arraiolos e cónego da Sé de Évora. Referências documentais à sua atividade médica: Chartularium…, vol. I, docs. 96, 97. 62 – Mestre João Cirurgião (1332) – Cirurgião O primeiro documento em que surge é uma carta de foro de dois casais no Julgado de Gaia, nos quais se mostrou interessado; no segundo documento, a licitação do Mestre João foi a mais alta, sendo-lhe concedida carta de foro de dois casais em Mafamude, no Julgado de Gaia, por três vidas. Referências documentais à sua atividade médica: Chancelarias Portuguesas: D. Afonso IV, vol. I, docs. 311, 317. 63 – Mestre Gonçalo (1335) – Físico Raçoeiro de Braga e físico arquiepiscopal. Principais referências bibliográficas: RODRIGUES, Ana Maria S. A.; RIBEIRO, João Carlos Taveira; COSTA, Maria Antonieta Moreira da; MACIEL, Maria Justiniana Pinheiro – Os capitulares bracarenses (1245-1374): Notícias biográficas. Lisboa: Universidade Católica Portuguesa, Centro de Estudos de História Religiosa, 2005, p. 289 e nota 1648. 64 – João de Montemor-o-Novo [1335] - Ligação hipotética à Medicina Referido num documento papal como perito em filosofia e em medicina, poderá colocar-se a hipótese de possuir formação universitária em medicina. Contudo, o facto de ser uma expressão vaga e de não se identificar com nenhum físico coevo, leva-me a considerar esta ligação como conjetural. Referências documentais à sua atividade médica: Chartularium…, vol. I, doc. 106.
144 65 – Aires Vicente (1338) - Cirurgião Cirurgião examinado oralmente sobre a sua arte, com testemunho de pacientes e de outros cirurgiões, obtendo a primeira carta de ofício médico conhecida em Portugal. Referências documentais à sua atividade médica: Chancelarias Portuguesas: D. Afonso IV, vol. II, doc. 91. 66 – Mestre Gil Cirurgião (1338) – Cirurgião Mestre cirurgião de quem Aires Vicente se diz “criado”. Referências documentais à sua atividade médica: Chancelarias Portuguesas: D. Afonso IV, vol. II, doc. 91. 67 – Mestre Domingos das Tosses (1338) – Cirurgião e “Mestre na Arte das Tosses” Cirurgião natural de Viseu que assiste ao exame de Aires Vicente e é ele próprio examinado onze dias depois, aquando da instituição do exame obrigatório para o exercício dos ofícios de físico, cirurgião e boticário. É referido como “mestre na arte das tosses”. Referências documentais à sua atividade médica: Chancelarias Portuguesas: D. Afonso IV, vol. II, docs. 91, 92. 68– Mestre Gil (1338) - Cirurgião e Boticário Outro dos mestres inquiridos sobre a competência de Aires Vicente e a qualidade dos seus tratamentos. Poderá ser o mestre de Aires Vicente, mas a ambiguidade dos documentos levou-me a manter duas entradas distintas. Referências documentais à sua atividade médica: Chancelarias Portuguesas: D. Afonso IV, vol. II, doc. 91. 69 – Mestre Pedro (1338) - Cirurgião e Boticário Terceiro mestre inquirido sobre a competência de Aires Vicente e a qualidade dos seus tratamentos. Referências documentais à sua atividade médica: Chancelarias Portuguesas: D. Afonso IV, vol. II, doc. 91.
145 70 – Mestre Gonçalo (1338) – Físico Segundo físico régio nomeado por D. Afonso IV para examinar aspirantes à prática da física, cirurgia e boticária. Referências documentais à sua atividade médica: Chancelarias Portuguesas: D. Afonso IV, vol. II, doc. 92. 71 – Mestre Martinho (1338-1349) - Físico Físico régio examinador de físicos e cirurgiões. Conhecem-se três exames feitos por si, um sozinho e dois em conjunto com Mestre André. Num dos exames assina como Martinho de Évora Monte. Sendo cónego de Évora, é possível que se trate de Mestre Martinho de Rogido, mas, à falta de mais dados, optei por apresentar duas entradas distintas. Terá servido também como físico do infante D. Pedro, futuro D. Pedro I. Referências documentais à sua atividade médica: Chancelarias Portuguesas: D. Afonso IV, vol. II, docs. 121, 147, 223. Principais referências bibliográficas: VILAR – As Dimensões de um Poder..., p. 384385 (prosopografia). 72 – Mestre André (1338-1340) - Físico Físico régio examinador de físicos e cirurgiões. Conhecem-se dois exames feitos por si, ambos em conjunto com Mestre Martinho. Referências documentais à sua atividade médica: Chancelarias Portuguesas: D. Afonso IV, vol. II, docs. 121-223. 73 – Mestre Julião (1338) – Cirurgião Cirurgião de Alenquer examinado por Mestre Martinho e Mestre André. Referências documentais à sua atividade médica: Chancelarias Portuguesas: D. Afonso IV, vol. II, doc. 113. 74 – Mestre Martinho (1338) – Cirurgião Cirurgião setubalense examinado por Mestre Martinho e Mestre André. Referências documentais à sua atividade médica: Chancelarias Portuguesas: D. Afonso IV, vol. II, doc. 121.
146 75 – Mestre Estevão (1338) - Físico Físico algarvio a quem D. Afonso IV doa uma quintã em Pousafoles “com os foros e dereitos e jurisdições que perteeçem aa dicta quintãa”. Referências documentais à sua atividade médica: Chancelarias Portuguesas: D. Afonso IV, vol. II, doc. 135. 76 – Mestre Afonso (1339) - Cirurgião Cirurgião de Viana (do Alentejo?) examinado por Mestre Martinho Referências documentais à sua atividade médica: Chancelarias Portuguesas: D. Afonso IV, vol. II, doc. 147. 77 – Mestre Estevão (1340) - Cirurgião Cirurgião de Santarém examinado pelos Mestres André e Martinho. Referências documentais à sua atividade médica: Chancelarias Portuguesas: D. Afonso IV, vol. II, doc. 258. 78 – Mestre Ali (1340) - Físico Clínico muçulmano identificado como físico de D. Afonso IV num documento preservado nas Ordenações Afonsinas. Principais referências bibliográficas: BARROS – Tempos e Espaços de Mouros…, p. 528-530
147 Índice alfabético de indivíduos identificados Afonso, Mestre – 76 Afonso Dinis, Mestre – 58 Aires Vicente – 65 Ali, Mestre – 78 Amberto – 3 André, Mestre – 72 Barnabé, Mestre – 53 Bartolomeu, Mestre – 23 Domingos, Mestre – 14 Domingos, Mestre – 36 Domingos das Antas, Mestre – 31 Domingos das Tosses, Mestre – 67 Domingos do Ferragial, Mestre – 21 Domingos Médico, Frei – 27 Domingos Peres, Frei – 20 Durão, Mestre – 26 Estevão, Mestre – 52 Estevão, Mestre – 60 Estevão, Mestre – 75 Estevão, Mestre – 77 Estevão Moniz, Mestre – 25 Fernando, Mestre – 9 Fernando, Mestre – 51 Garcia, Mestre – 18 Geraldo, Mestre – 54 Gil, Mestre – 8 Gil, Mestre – 68 Gil Cirurgião, Mestre – 66 Gil de Leiria, Mestre – 13 Gil de Santarém, Frei – 10 Gonçalo, Mestre – 65 Gonçalo, Mestre – 70 Gonçalo das Leis, Mestre – 40 Gonçalo Lever, Mestre – 48 Guilherme, Mestre – 56 Henrique Alemão, Mestre – 55 Jacob, Mestre – 44 João, Mestre – 28 João, Mestre – 32 João, Mestre – 34 João, Mestre – 35 João, Mestre – 37 João, Mestre – 38 João, Mestre – 49 João Cirurgião, Mestre – 62 João de Montemor-o-Novo – 64 João Domingues – 16 João Domingues – 59 João Esteves – 57 João Francês, Mestre – 39 João Rol, Mestre – 11 Julião, Mestre – 73 Martim Gonçalves – 50 Martinho, Mestre – 4 Martinho, Mestre – 22 Martinho, Mestre – 33 Martinho, Mestre – 42 Martinho, Mestre – 46 Martinho, Mestre – 71 Martinho, Mestre – 74 Martinho de Rogido, Mestre – 61 Mendo, Mestre – 1 Mendo, Mestre – 7 Mendo Fernandes, Mestre – 2 Pedro, Mestre – 19 Pedro, Mestre – 24 Pedro, Mestre – 41 Pedro, Mestre – 69 Pedro de Adaúfe, Mestre – 47 Pedro Julião, Mestre – 17 Pedro Martins, Mestre – 30 Pedro Peres, Mestre – 12 Rodrigo/Roberto, Mestre – 6 Salvador, Mestre – 5 Silvestre – 29 Soleima, Mestre – 43 Tomé, Mestre – 45 Vicente de Santarém, Mestre – 15
148 Fontes e Bibliografia 1 - Fontes Manuscritas ANTT, Bulas, m. 4, nº 4. ANTT, Cabido da Sé de Coimbra, m. 55, nº 2110. ANTT, Chancelaria de D. Dinis, Liv. 1, fl. 47-48v. ANTT, Colegiada de Santa Maria da Alcáçova de Santarém, m. 2, nº 31. ANTT, Colegiada de Santa Maria de Outeiro de Lisboa, m. 8, nº 313, 314. ANTT, Convento da Trindade de Lisboa, m. 2, nº 90. ANTT, Gavetas, Gav. 2, mç. 1, n º 4. ANTT, Gavetas, Gav. 11, m. 10, nº 2. ANTT, Mosteiro de Alcobaça, 1ª inc., Docs. Régios, m. 2, nº 2. ANTT, Mosteiro de Chelas, m. 12, nº 228. ANTT, Mosteiro de Santos-o-Novo, nº 536. ANTT, Mosteiro de S. Vicente de Fora de Lisboa, 1ª inc., m. 4, nº 12; m. 6, nº 32; Liv. 60, fl. 6v-7. BPE, Códices de Manizola, 500. 2 - Fontes Impressas Archivo General de Navarra (1134-1194). Eds. Guadalupe Lopetegui Semperana y Aítor Pescador Medrano. Donostia – San Sebástian: Eusko Ikaskuntza, 1997. Bulário Português: Inocêncio III (1198-1216). Eds. Avelino de Jesus da Costa, Maria Alegria Fernandes Marques e Luís Ferrand de Almeida. Coimbra: Instituto Nacional de Investigação Científica, 1989.
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