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FACULDADE DE ARQUITETURA DA UNIVERSIDADE DO PORTO SOBRE A SINGULARIDADE DO LUGAR BEATRIZ DA SILVA TEIXEIRA DISSERTAÇÃO DE MESTRADO APRESENTADA À FACULDADE DE ARQUITETURA DA UNIVERSIDADE DO PORTO EM ARQUITETURA ORIENTADOR ANA SOFIA PEREIRA DA SILVA PORTO 2015
Para a concretização desta tese, devo sublinhar o trabalho dedicado e atento da orientadora deste estudo, a professora Ana Sofia Pereira da Silva, cuja exigência e disponibilidade marcaram a realização deste projeto. Aqui deixo também o meu agradecimento a todos aqueles que direta ou indiretamente influenciaram positivamente o meu percurso académico, e cuja exigência, incentivo e motivação me ajudaram a alcançar os meus objetivos.
03 RESUMO/ ABSTRACT INTRODUÇÃO | DILEMA DAS CIRCUNSTÂNCIAS IMPASSE DO “ORGANIZADOR DE ESPAÇOS” DESAFIO À IMAGINAÇÃO CASOS DE ESTUDO | #01 CASA DE CHÁ DA BOA NOVA . ÁLVARO SIZA #02 CASA MALAPARTE . ADALBERTO LIBERA #03 CASA FARNSWORTH . MIES VAN DER ROHE #04 CASA DE CANOAS . ÓSCAR NIEMEYER #05 COMPLEXO DE TALIESIN WEST . F.L.WRIGHT #06 CASA AZUMA . TADAO ANDO CONCLUSÕES | SOBRE A SINGULARIDADE DO LUGAR BIBLIOGRAFIA ANEXOS INDICE 11 - 17 05 - 09 19 - 25 27 - 35 37 - 51 53 - 65 75 - 97 89 -103 113-125 127-139 149-163 165-169 171-177
04 SOBRE A SINGULARIDADE DO LUGAR
05 Sobre A Singularidade Do Lugar é um estudo que se debruça sobre a questão do LUGAR, tema frequentemente estudado e essencial para a arquitetura. Contudo, nesta tese o foco está em lugares com características excecionais - incontornáveis, incontroláveis, extraordinários, impossíveis, imprevisíveis -, que promovem e propulsionam a produção de arquiteturas inteiramente ligadas e dependentes da envolvente em que se inserem. Lugares que pelas suas características tenham uma influência direta sobre a arquitetura, sobre o Homem, sobre a sua forma de habitar. O estudo pretende realizar uma análise não só formal e construtiva, como também experiencial. Ambiciona-se demonstrar que as circunstâncias que envolvem a arquitetura – as restrições, condicionantes e qualidades - permitem e proporcionam oportunidades de superação para os arquitetos. O foco deste trabalho está sobre o processo de criação arquitetónica, procurando compreender as questões com que os arquitetos se debatem no encontro entre o lugar e arquitetura. Os casos selecionados sublinham a interação entre a arquitetura e o lugar e reforçam a questão da influência do carácter do lugar no resultado final da arquitetura. Poderiam ter sido selecionados muitos outros casos de contextos, ambientes e autores distintos. No entanto, este estudo foi direcionado para lugares singulares, assim denominados pelo seu carácter excecional que afetam de forma muito expressiva as opções dos arquitetos deixando marcas facilmente reconhecíveis nas soluções arquitetónicas pelo seu diálogo intenso com a envolvente. Os contextos excecionais em estudo promoveram soluções arquitetónicas inovadoras, exclusivas e surpreendentes, que permitiram elaborar conclusões distintas que densificam a dimensão do processo de trabalho em que se envolve a produção da arquitetura. Nesta tese, há um aproximar da lente, um cingir da observação a obras dependentes da sua relação com a envolvente. Ou seja, há uma limitação ao estudo de projetos em que todos os elementos, decisões e soluções estão envolvidos íntima e indissociavelmente ao contexto em que se encontram. Estas arquiteturas são um reflexo das circunstâncias, mas não um espelho. Imergem nas condições singulares em que se encontram, dialogando intensamente com elas; mas sem se esconder ou abandonar a sua identidade arquitetónica. Os projetos selecionados para o estudo sublinham a vontade da arquitetura em se afirmar como mais uma camada da envolvente, marcando e definindo o seu espaço no contexto, vinculando-se ao lugar de forma permanente. RESUMO / ABSTRACT
06 SOBRE A SINGULARIDADE DO LUGAR
07 Esta tese revela a intenção de estudar o processo de criação, de observação e de integração que é feito pelos arquitetos em cada projeto. Para que pudesse haver a compreensão destes momentos definiram-se linhas gerais de estudo e questões que permitiram a interpretação dos projetos. E, limitou-se o estudo a seis casos de arquitetura com características singulares que nos aproximaram de forma mais evidente de questões de interação entre o processo de criação da arquitetura e a influência que o lugar tem nas decisões de projeto. * Sobre a Singularidade Do Lugar it´s a study that has the landscape and the surroundings as the primary interest. This subject is frequently study in architecture and is considered an essential matter. However, in this thesis, the focus will be only in places where the landscape is so exceptional – incontrollable, extraordinary, impossible, and unpredictable -, that promotes the production of architectural projects completely linked and dependent to the surroundings. Environments, places and landscapes whose characteristics have a direct influence on architecture, on Men, and in his way of living. This study is not only formal and a constructive analysis, but also an experiential one. The ambition is to show how the circumstances surrounding architecture – the restrictions, limitations and qualities of places – promote opportunities for architects to achieve higher and search for exceptional solutions. In this work the interest is on the process of architectural creation, searching to understand questions raised in the encounter between landscape and architecture. This thesis sinks to comprehend what are the matters and conditions imposed by the surroundings to architecture, and how architects respond to the circumstances around them. The study cases that were selected for this work underline the interaction between architecture and landscape, and also empathized the influence on the final project solution that the character of the landscape has. There could be other projects selected, in different environments and made by different authors. However, this thesis was directed to the analysis of singular and exceptional landscapes that determine and affect clearly the options of architects. The intense dialog that is created between this kind of excisional places and architecture leaves marks on this projects that are easily spotted. And also provides the right environment to produce new, exclusive and surprising architecture solutions. This solutions promote many distinctive conclusions that amplify the real dimension of the process that involves architecture creation. RESUMO / ABSTRACT
14 SOBRE A SINGULARIDADE DO LUGAR
INTRODUÇÃO | DILEMA DAS CIRCUNSTÂNCIAS 15 particulares do sítio e as suas pesquisas pessoais em relação à arquitetura.6 Sublinhando, mais uma vez, com estas afirmações uma necessidade dupla e antagónica de um diálogo com o lugar e, em simultâneo, um distanciamento das circunstâncias que o caracterizam. Este afastamento permite uma atitude crítica que objetiva a intervenção do arquiteto no processo de transformação da realidade, e possibilita uma ação com influências ponderadas sobre as dinâmicas existentes. Para Siza o lugar “nunca é um papel branco”,7 têm características que impõem a sua presença única que o definem como um momento singular e esta consciência resulta da interpretação crítica da envolvente. Interpretação que não deve ignorar a estrutura primária do lugar, se o fizer o arquiteto “participa na desordem, na desregulação das lógicas de transformação em curso”.8 A arquitetura deve, antes de mais, criar uma ligação entre vários problemas e encontrar o lugar, um espaço próprio e uma forma que se concretiza a partir da síntese das circunstâncias que a envolvem.9 Os projetos são assim o espelho da interpretação que os arquitetos fazem do contexto e definem-se pela margem de influência que os projetistas concedem às circunstâncias. Contudo, o lugar pode ditar as características do tabuleiro em que o jogo se pratica, mas o homem organiza as peças dentro dos limites traçados como entende e de acordo com a sua vontade. A arquitetura é o reflexo da relação espacial do homem com a envolvente. Mais, ela é a expressão clara da sua capacidade para se afirmar e dominar o lugar. Estas são afirmações de Mies em 1928, durante uma conferência em Berlim. O arquiteto constata, ainda nesta mesma conferência, que a arquitetura é sempre uma ação espacial, física e palpável, de uma decisão intelectual.10 Esta decisão intelectual ocorre da leitura que é feita dos elementos que integram a realidade física em que a arquitetura se enquadra. No entanto, capacidade de interpretar a realidade, de observar, de sentir e de absorver a sua pureza e a sua força para a recriar e produzir algo novo, é algo que só os artistas conseguem consumar.11 É a interpretação de George Simmel, que com esta conclusão introduz uma distinção entre aqueles que são capazes de atuar em consonância com o que o lugar precisa e exige, e aqueles que 6 MACHABERT, Dominique / BEAUDOUIN, Laurent – Uma Questão de Medida; Trad. por CABRITA, Vera; Casal de Cambra: Caleidoscópio, 2009. P.:153 7 Id. Ibid., P.:164 8 Id. Ibid., P.:167 9 Id. Ibid.,P.:171 10 GUIRAO, Cristina Gastón - Mies : el proyecto como revelación del lugar. Barcelona: Fundación caja de arquitectos, 2005. P.: 15 11 SIMMEL, Georg – Filosofia del Paisaje. In El Individuo y la Libertad. Ensayos Críticos de la Cultura. Barcelona: Península, 1986,. P.:282
16 SOBRE A SINGULARIDADE DO LUGAR
INTRODUÇÃO | DILEMA DAS CIRCUNSTÂNCIAS 17 negligenciam a realidade e agem sem rede, criando formas que refletem a sua ansiedade individual de existir a qualquer preço.12 O que entendemos ser frutífero para este estudo, são os primeiros casos em que a arquitetura atua sobre uma base concreta, promovendo o aparecimento de edifícios que são o reflexo da consciência que o homem tem da dimensão das suas ações e decisões, num mundo que ele próprio vai criando. Wright assim o afirma, sublinhado que é esta consciência que torna a arquitetura num triunfo do Homem, 13 colocando-o numa posição em que ele está encarregue de controlar as circunstâncias em que vive. Os arquitetos têm a oportunidade exclusiva de criar espaço, participar na produção de novos contextos, por isso não podem, com afirma Távora, colocar-se numa posição de vítimas, alheando-se do processo de transformação em que participam, devem agir com vista na melhoria do lugar, na melhoria da circunstância pré existente.14 A responsabilidade deste cargo assume contornos de dilema para aqueles que, tal como Távora, sentem que a sua ação sobre o lugar tem a consequência de determinar uma nova circunstância, uma alteração na realidade. Este dilema infere na questão de como deve agir o arquiteto perante as características do lugar, tendo consciência tanto da importância do caráter deste como da ação da arquitetura. Os arquitetos não estão cingidos apenas às circunstâncias que os evolvem, têm uma oportunidade de transformar a realidade, e podem transformá-la, tal como diz Simmel captando a sua essência e propondo algo de novo, acrescentando algo,15 dando um passo mais; ou transformá-la pervertendo a sua essência, e assim transformando-a num mau sentido. Resta ao arquiteto a difícil tarefa, que introduz este impasse, de compreender e pesar “a porção da circunstância que haverá que seguir e que porção haverá que esquecer ou até mesmo contrariar.”16 * 12 MACHABERT, Dominique / BEAUDOUIN, Laurent – Uma Questão de Medida; Trad. por CABRITA, Vera; Casal de Cambra: Caleidoscópio, 2009. P.:234 13 LONG, David G. de - Frank Lloyd Wright: Designs for an American landscape: 1922-1932. 1º ed. New York: Harry N. Abrahams, 1996. P.:16 14 TÁVORA, Fernando - Da Organização do Espaço. 8ª ed. Porto : FAUP Publicações, 2008. P.: 55 15 SIMMEL, Georg – Filosofia del Paisaje. In El Individuo y la Libertad. Ensayos Críticos de la Cultura. Barcelona: Península, 1986,. P.:282 16 TÁVORA, Fernando - Da Organização do Espaço. 8ª ed. Porto : FAUP Publicações, 2008. P.: 24
18 SOBRE A SINGULARIDADE DO LUGAR
INTRODUÇÃO | IMPASSE DO “ORGANIZADOR DE ESPAÇOS 19 Talvez só alguns sintam a pressão deste impasse que caracteriza a ação daqueles que pretendem uma arquitetura em consonância com a envolvente. Os que intendem desenvolver obras que procuraram o anonimato, o silêncio. Laurent Beaudouin utiliza a metáfora de um retrato de uma mulher vista de costas que olha um jardim, para descrever a obra de Siza e compara-o ao pintor que “mostra a silhueta da qual não nos permite ver o rosto, e eis-nos fascinados pela ausência, imaginando o seu sorriso e a beleza dos seus traços. Enfim, temos que nos contentar com esse primeiro plano, e damos conta de que a arquitetura está ali mesmo nesse primeiro plano que não salta à vista.”17 A metáfora ilustra uma arquitetura sem excessos que se integra e se mostra sem se revelar por completo, criando um momento de fascínio produzido por esse equilíbrio entre a ação e a sua ausência. Para Souto Moura é exatamente através deste equilíbrio que se atinge o patamar mais elevado da arte ou o silêncio das coisas.18 Para Távora, ele é “o jogo exato de consciência e de sensibilidade, integração hierarquizada e correta de fatores”,19 definição que diz corresponder inteiramente ao conceito de harmonia, que acredita ser sempre a finalidade da relação entre arquitetura e o lugar. Peter Zumthor também encontra a resposta para ação da arquitetura na harmonia. Na harmonia entre o lugar, a utilização e a forma20 que só é possível quando criteriosamente observamos a envolvente e produzimos uma leitura com base na realidade que depois se reflete nas decisões de projetos, permitindo encontrar soluções completas e adequadas. Isto porque “as coisas encontram-se, estão em si”,21 estão nas circunstâncias, estão no caráter do lugar. Pois o projeto começa no sítio, como afirma Siza. É a partir dele que surge o primeiro esquisso e a primeira ideia. “Um sítio vale pelo que é, e pelo que pode ou deseja ser – coisas talvez opostas, mas nunca sem relação.”22 Os dois arquitetos confirmam a importância de encontrar nas circunstâncias que os envolvem o mote para sua ação. Procuram atingir o objetivo que Souto Moura define como principal ambição do arquiteto – tornar-se anónimo. 23 Fundir-se 17 BEAUDOUIN, Laurent – O Agrimensor. In MACHABERT, Dominique / BEAUDOUIN, Laurent – Uma Questão de Medida; Trad. por CABRITA, Vera; Casal de Cambra: Caleidoscópio, 2009. P.:13 18 2 G – Souto Moura. 2G : Revista Internacional de Arquitectura. Barcelona: Editorial Gustavo Gili, nº 5 (1998). 19 TÁVORA, Fernando - Da Organização do Espaço. 8ª ed. Porto : FAUP Publicações, 2008. P.: 14 20 ZUMTHOR, Peter - Atmosferas: Entornos Arquitectónicos: as coisas que me rodeiam; trad. Astrid Grabow. Barcelona: Gustavo Gili, 2006. P.:69 21 ZUMTHOR, Peter - Atmosferas: Entornos Arquitectónicos: as coisas que me rodeiam; trad. Astrid Grabow. Barcelona: Gustavo Gili, 2006. P.:69 22 SIZA VIEIRA, Álvaro – Oito Pontos. In SIZA VIEIRA, Álvaro / CASTANHEIRA, Carlos – As Cidades de Álvaro Siza. 1º ed. Lisboa: Figueirinhas, 2001. 23 2 G – Souto Moura. 2G : Revista Internacional de Arquitectura. Barcelona: Editorial Gustavo Gili, nº 5 (1998).
20 SOBRE A SINGULARIDADE DO LUGAR
INTRODUÇÃO | IMPASSE DO “ORGANIZADOR DE ESPAÇOS 21 com o contexto integrando-o no processo de criação das suas obras. Pois como declara Ellen Frank em Literary Architecture o edifício que se relaciona e que se integra é também aquele que produz significado, que establece uma lógica.24 Por isso regressa o dilema: Quanto do lugar devemos permitir que “invada” o nosso projeto? Que influencie o processo de produção da arquitetura? E quanto do resultado final se deve à qualidade da relação que é criada entre a arquitetura e o lugar? Estas questões surgem da batalha que Fernando Távora afirma ser travada em permanência nos nossos dias, que é a batalha por uma relação harmónica com o espaço que a natureza nos prodigalizou. A conquista desta integração equilibrada e harmoniosa entre a arquitetura e o lugar é condição fundamental para a felicidade do homem.25 “(…) És el momento de elección: quando se ofrece la posibilidad de hacerlo todo, de todos os modos posibles y, sin embargo, hay que llegar a hacer algo de una manera especial, concreta, determinada” Itálo Calvino 26 Itálo Calvino enfatiza a imensidão de opções, de escolhas diferentes que o arquiteto pode tomar, inúmeras possibilidades com resultados distantes e incontáveis. Cabe ao arquiteto encontrar essa maneira especial concreta e determinada de fazer arquitetura. A inquietação desta decisão apenas se intensifica quando observamos arquiteturas que nos tocam, que nos provocam um interesse e levantam questões. “Porque diabo me tocam estas obras? (…) Como se podem projetar coisas assim, que têm uma presença tão bela e tão natural que me toca sempre de novo?”27 Zumthor interroga-se e, em seguida, argumenta que estas obras têm uma atmosfera, e é ela que nos envolve invadindo a nossa perceção emocional. Esta perceção funciona de forma instintiva, primitiva e é algo que surge na primeira impressão que temos da obra: “Compreensão imediata, ligação emocional imediata, recusa imediata.”28 . Lina Bo Bardi assim como Le Corbusier sublinham esta ideia de que o arquiteto deveria ter como objetivo criar com a sua arquitetura uma “atmosfera”, deveria “fabricar estados de ânimo”, utilizando todos os recursos em seu entorno para criar o que o Le Corbusier denominou de “comoção ar24 FRANK, Ellen Eve - Literary Architecture: Essays Toward a Tradition: Walter Pater, Gerard Manley Hopkins, Marcel Proust, Henry James; Berkeley: University of California Press, 1979. P.: 146 25 TÁVORA, Fernando - Da Organização do Espaço. 8ª ed. Porto : FAUP Publicações, 2008. P.: 9 26 CALVINO, Ítalo – El Arte de Empezar y el Arte de Acabar. In Seis Propuestas para el Próximo Milenio; trad. César Palma. Madrid: Ediciones Siruela, 1998, P.:125-142. 27 ZUMTHOR, Peter - Atmosferas: Entornos Arquitectónicos: as coisas que me rodeiam; trad. Astrid Grabow. Barcelona: Gustavo Gili, 2006. P.:11 28 Id. Ibid., P.:13
22 SOBRE A SINGULARIDADE DO LUGAR
INTRODUÇÃO | IMPASSE DO “ORGANIZADOR DE ESPAÇOS 23 quitetónica”.29 O trabalho do arquiteto torna-se numa procura, através das ferramentas que têm disponíveis, para criar um momento sublime, transcendente. Um momento de beleza, e beleza é o espanto, é criar surpresa, como afirma o arquiteto brasileiro suportando-se nas reflexões de Baudelaire sobre o conceito de beleza. 30 Para Niemeyer “esta é a obrigação do arquiteto”, que indica que para produzir beleza, para criar surpresa e espanto, o arquiteto tem de se aproximar do ideal de harmonia.31 Desta forma fomentando o dilema de que maneira é que o arquiteto deve operar perante o lugar para obter o resultado arquitetónico que corresponda ao conceito de beleza definido por Niemeyer? Seguindo-se ainda a questão, qual é o contributo do lugar para que a arquitetura alcance o seu objetivo de harmonia e beleza? Para ajudar a solucionar esta questão Niemeyer observa as pirâmides do Egipto e conclui “talvez não fossem tão belas e monumentais sem os espaços horizontais sem fim que as realçam e até as modificam, conforme a luz de cada dia”. 32 De súbito se compreende esta afirmação. Temos a imagem das pirâmides de Gizeh a invadirem a nossa mente e percebemos de imediato que o enquadramento faz parte da obra. Sem ele a extraordinária beleza da sua arquitetura não tem suporte, não tem base, nem proporção. “Existe uma magia no real.”33 Neste trabalho perseguimos essa magia e, empreendemos uma campanha para compreender de que forma a realidade singular do lugar determina e influencia a arquitetura. Para salientar de forma evidente os contributos do lugar para a arquitetura debruçamo-nos sobre projetos que se encontram em especiais circunstâncias34, como fez Maria Tereza Muños no seu trabalho “La casa sobre la Naturaleza”, procurando encontrar na exceção a capacidade dos arquitetos em se superarem. Circunstâncias especiais que se acham em lugares singulares pelas suas características únicas de beleza, de fronteira, de confronto com o natural. Ou então de interioridade, de isolamento, de privacidade. Lugares com restrições de espaço, confinados e estreitos, ou de imensidão incalculável, sem regra ou limite. Pois como afirma a autora, são estas características excecionais que exigem aos arquitetos que se libertem da carga de convenções da his29 OLIVEIRA, Olivia de - Lina Bo Bardi: sutis Substâncias da Arquitectura. São Paulo: Romano Guerra Ed., 2006. P.:57 30 CORONA, Eduardo - Óscar Niemeyer: Uma lição de Arquitectura. São Paulo: FUPAM, 2001. P.:25 31 Id. Ibid.,. P.:25 32 Id. Ibid., 2001. P.:37 33 ZUMTHOR, Peter - Atmosferas: Entornos Arquitectónicos: as coisas que me rodeiam; trad. Astrid Grabow. Barcelona: Gustavo Gili, 2006. P.:19 34 MUÑOZ JIMENEZ, Maria Teresa - La Casa Sobre La Naturaleza. La Villa Malaparte Y La Kaufmann House. Revista Arquitectura [Barcelona]. (1987) P.: 207
30 SOBRE A SINGULARIDADE DO LUGAR
INTRODUÇÃO | DESAFIO À IMAGINAÇÃO 31 jeto recolhidos, para que fosse possível determinar quais as obras que correspondiam de forma mais completa à questão colocada. Impunha-se, para a leitura clara do problema em foco, estudar lugares como os caracterizados acima, ou seja, cujas circunstâncias fossem excecionais e pressionassem os arquitetos a desenvolver a sua arquitetura atendendo às suas caraterísticas singulares. O objetivo da análise física e teórica realizada ao longo deste trabalho é compreender a influência determinante do lugar para a arquitetura. Para isso foram utilizados os materiais de projeto, como plantas, cortes, perfis e esquissos, como meio de percecionar o processo pelo qual os arquitetos passaram ao longo da obra. Com este estudo assente nestes materiais ambicionava-se determinar quais as interrogações, dúvidas e posições afirmadas que os projetistas foram assumindo durante o processo de criação e que, no fundo, caracterizam o resultado final da obra. A informação permitiu observar a integração do projeto na envolvente através da leitura das diferentes abordagens à topografia, à geografia, à hidrografia, à orientação solar, entre outros elementos caracterizadores. Em suma, foi através deste estudo que foi possível entender as várias respostas às circunstâncias do lugar. A intenção, definida desde o princípio, é a de canalizar as informações retiradas da leitura analítica destes seis casos, para concluir o argumento inicial que incide sobre a temática da relação entre a arquitetura e o lugar. O dilema sublinhado por diversos autores encaixa na problemática das decisões e escolhas do «organizador de espaços». Escolhas essas que determinam a qualidade final da obra. É também vincado que muitas das interrogações são criadas pelas circunstâncias em que o projeto se insere. O debate entre aquilo que deve permanecer e ser integrado no processo de criação da obra e aquilo que deve ser ignorado ou até transformado pela arquitetura é a base das escolhas que são feitas durante um projeto. Esta tese debruça-se particularmente na abordagem prática aos casos de estudo, como referido acima, no entanto, reconhece a existências de muitas observações de autores de relevo que se dedicaram a debater as questões do lugar e da relação que o homem estabelece com ele. Autores como Norberg Schulz, arquiteto norueguês nascido em 1926 que indica como ato fundamental para a arquitetura a capacidade dos arquitetos compreenderem a vocação do lugar e a sua essência.38 Também Kenneth Frampton arquiteto nascido em Inglaterra na década de ’30 explora o tema do lugar quando desenvolve o conceito de “regionalismo crítico” no seu ensaio “Towards a Critical Regionalism: Six points for an architecture of resistance”, no qual fundamenta que a relação entre a arquitetura e o lugar se cria através da integração física da obra no terreno, ou seja, na construção do lugar com a matéria existente e a 38 NORBERG-SCHULZ, Christian - Genius Loci: Towards a Phenomenology of Architecture. [Londres]: Academy Editions, 1980
32 SOBRE A SINGULARIDADE DO LUGAR
INTRODUÇÃO | DESAFIO À IMAGINAÇÃO 33 ação do homem.39 Ou mesmo os filósofos Martin Heidegger e Merlean-Ponty, nascidos em 1884 e 1908 respetivamente, que abordaram questões de espaço e lugar. Sendo que o primeiro refletiu sobre o habitar, indicando como essencial para criação autêntica do conceito de lar, a construção de um lugar onde participassem em harmonia o homem, a natureza e o divino.40 Ponty debate-se antes com a nossa compreensão do espaço, encontrando no corpo a resposta para a perceção consciente do lugar, explora esta teoria no seu livro “Fenomenologia da Perceção”. 41 Todos estes autores abordam a importância do lugar de forma teórica e historicista, estruturando o seu pensamento através do entendimento racional e psicológico do espaço. Sublinhando as implicações e reflexos que a envolvente tem no Homem. Devido à sua importância no panorama da arquitetura, estas abordagens são base de inúmeros trabalhos que destacam as questões do lugar, o que resulta num desgaste das suas afirmações. Para além deste facto, a intenção deste estudo encontra-se no processo de criação arquitetónica e na interpretação física que arquiteto faz do lugar. Porque o lugar neste trabalho não adquire importância isolado, mas sim a partir da resposta do arquiteto às suas condicionantes. Por estes dois motivos, o estudo adota como premissa a reflexão feita por estes autores, mas não assume como uma referência direta, absorvendo as suas afirmações e pensamentos de forma indireta, consciente da sua existência e preponderância para o tema. Por este motivo, a tese contemplou sobretudo o estudo de autores que colocavam o foco da questão na situação prática, no objeto, na ação. A maioria são arquitetos que se confrontaram com o lugares, circunstâncias e problemas, e formularam interrogações com base nesta sua experiência pessoal. Como os arquitetos portugueses Fernando Távora, Álvaro Siza, ou Eduardo Souto Moura que sublinham a relação consciente e fundamental entre os seus projetos e as circunstâncias, assim como os conceitos anonimato e silêncio na arquitetura. Outros, ainda, como Lina Bo Bardi, Óscar Niemeyer, Le Corbusier ou Mies Van der Rohe, que refletem sobre o processo de trabalho do arquiteto e sobre os elementos que integram a arquitetura. Também Peter Zumthor é um autor essencial para este trabalho pela forma como questiona a arquitetura e reflete sobre a perceção emocional. Destaque ainda para o trabalho de Maria Teresa Muñoz que em La casa sobre la Naturaleza desenvolve uma análise à arquitetura de duas obras, a Casa Malaparte de Libera e a Casa Kaufman de Wright que serve de referência para o estudo prático 39 FRAMPTHON, Kenneth - Towards a Critical Regionalism: Six Points for an Architecture of Resistance. In The Anti-Aesthetic: Essays on Postmodern Culture. [Londres]: The New Press, 2001, p. 16-29 40 HEIDEGGER, Martin - The Basic Problems Of Phenomenology; compilação de textos por HOFSTADTER, Albert. Bloomington: Indiana University Press, 1988. 41 MERLEAU-PONTY, Maurice - Phénoménologie De La Perception; Trad. Carlos Alberto Ribeiro de Moura. 2ª ed. São Paulo: Livraria Martins Fontes Editora, 1999.
34 SOBRE A SINGULARIDADE DO LUGAR
INTRODUÇÃO | DESAFIO À IMAGINAÇÃO 35 das obras desta tese. Poderá ser limitador, o facto da análise dos casos de estudo ter por base somente a análise de materiais de projeto, fotografias e descrições de outros. A compreensão total das obras e da sua relação com o lugar, assim com da sua capacidade de integração é só possível em plenitude através da perceção emocional que surge de um contacto direto e pessoal com a arquitetura. Como conclui Távora, “ a explicação das formas em função de determinada circunstância é em verdade difícil, sobretudo a sua compreensão total, e assim como um bom vinho só poderá apreciar-se bebendo-o e não raciocinando sobre a sua fórmula química, assim uma forma só poderá compreender-se vivendo-a, bem como a sua circunstância e não apenas ouvindo descrições a seu respeito ou consultando reproduções.”42 Contudo, foi assumido desde de logo a necessidade de não colocar fronteiras espaciais e temporais na seleção das obras para que fosse assegurada a escolha de casos que no seu âmago explorassem e reproduzissem o tema em causa. Estas dificuldades impostas pela dimensão do tema e da investigação realizada, não impediram a produção de um estudo que segue as linhas gerais com que se formou e gera conclusões que são fruto de um trabalho teórico concreto e de um esforço de análise de projetos. Assenta, a matéria teórica pela qual se orienta, em vários autores de interesse e de elevada influência na instituição de ensino a que se associa este trabalho. Para além de que o tema em debate converge para um impasse permanente da criação arquitetónica, que é a relação entre a obra e o local. Questão que tem acompanhado a arquitetura e deverá continuar a ser parte do seu processo de desenvolvimento, pelo menos enquanto ela for concebida como é na atualidade. Assim foi realizado este estudo Sobre a Singularidade do Lugar cuja ambição de olhar arquitetura através das circunstâncias que a envolvem e influenciam, foi alcançada seguindo os passos daqueles que procuraram construir através da razão, do significado e da harmonia. E, com isso, redescobriram a mágica estranheza, a singularidade das coisas evidentes, criando arquiteturas que sobre gestos e decisões que hoje nos parecem óbvias concretizam a integração sublime entre a arquitetura e o lugar.43 42 TÁVORA, Fernando - Da Organização do Espaço. 8ª ed. Porto : FAUP Publicações, 2008. P.: 23 43 SIZA VIEIRA, Álvaro – Oito Pontos. In SIZA VIEIRA, Álvaro / CASTANHEIRA, Carlos – As Cidades de Álvaro Siza. 1º ed. Lisboa: Figueirinhas, 2001.
36 SOBRE A SINGULARIDADE DO LUGAR
CASOS DE ESTUD0 # 01 CASA DE CHÁ DA BOA NOVA . ÁLVARO SIZA 37 CASA DE CHÁ DA BOA NOVA Álvaro Siza 1958-1963 #01 O projeto para a Casa de Chá e Restaurante da Boa Nova foi concebido para um concurso de anteprojetos no âmbito de um programa de valorização turística da zona costeira de Matosinhos, na década de ’50. (fig 1.) Concurso em que participou a equipa de arquitetos que trabalhava no atelier de Fernando Távora, onde se incluíam os nomes de Alberto Neves, António Menéres, Botelho Dias e Joaquim Sampaio, que encabeçados por Álvaro Siza obtiveram o primeiro lugar.
38 SOBRE A SINGULARIDADE DO LUGAR (fig. 1) SIZA VIEIRA, Álvaro - Casa de chá da Boa Nova : 1958-1963. (fig. 3) FOTOGRAFIA DE JOÃO MORGADO (fig. 2) PLANTA FUNCIONAL SIZA VIEIRA, Álvaro - Casa de chá da Boa Nova : 1958-1963.
CASOS DE ESTUD0 # 01 CASA DE CHÁ DA BOA NOVA . ÁLVARO SIZA 39 O programa consiste, em traços largos, numa sala de jantar e num salão de chá. Aos dois grandes espaços conjugam-se a entrada – escadas, hall e bar. No projeto define-se ainda uma cozinha “extremamente funcional” 1 e outros serviços como as casas de banho. As exigências do programa foram solucionadas no projeto de forma eficiente. Dividiu-se claramente as áreas de serviço das áreas de estar. Sendo que as primeiras ficaram voltadas para o lado nascente, e outras usufruem da fachada poente com vista sob o oceano atlântico e o pôr-do-sol.A planta é esclarecedora, apesar das várias direções das paredes, é surpreendentemente simples e hierarquizada a organização do espaço interior. Mas o que realmente nos motiva em primeiro lugar para o estudo deste projeto é a forma como explora a situação invulgar em que se insere, “é uma obra excecional quer pelo rigor e inspiração do desenho, quer pelo diálogo que estabelece entre os materiais que utiliza e o espaço natural envolvente.”2 (fig.2) A relação estreita da obra com as rochas e o mar é visível no instante em que a observamos a partir da Avenida da Liberdade, marginal de Leça da Palmeira.Intensa e próxima do limite possível de construção ergue-se o edifício, confrontando o mar e acomodando-se entre os penedos. Este projeto de Siza para a casa de Chá encontra-se, atualmente, na sequência de várias pequenas construções na costa entre as quais uma outra obra sua, a Piscina das Marés. Do outro lado da avenida marginal, foram sendo erguidos edifícios de habitação com uma média de cércea que deve rondar os 16 metros de altura, cuja dimensão e programa não têm comparação ao do caso em estudo. Assim como existe perto do local de implantação o programa excecional da refinaria de Leça, cuja estrutura não é padrão, nem referência para o projeto de Siza. Mas, na realidade grande parte destes edifícios não existia no período de construção do Restaurante da Boa Nova. O arquiteto português tinha apenas como base de trabalho o terreno de implantação, os acessos, o farol da Boa Nova e a pequena capela. Elementos que estudou e geriu com a envolvente natural para que sua obra se integrasse nas circunstâncias que a caracterizavam. (fig.3) 1 SIZA VIEIRA, Álvaro – Matosinhos o lugar e a Imagem. In FONSECA, José Manuel Salgado – Álvaro Siza em Matosinhos. 1º ed. Matosinhos: Afrontamento, 2005. P.: 68 2 Id. Ibid.
46 SOBRE A SINGULARIDADE DO LUGAR (fig. 18) ALÇADO NORTE . CHAMINÉ FOTOGRAFIA DE PEDROKOK (fig. 19) ALÇADO POENTE . TOPOGRAFIA FOTOGRAFIA DE JOÃO MORGADO (fig. 22) SIZA VIEIRA, Álvaro - Álvaro Siza:obras y proyetos,1954-1992 (fig. 20) ESQUEMA . TOPOGRAFIA (fig. 21) ESQUEMA . TOPOGRAFIA ESTUDO DOS ALÇADOS NORTE, POENTE E NASCENTE . LINHA CINZENTA MARCA A LINHA DE CORTE DO TERRENO . LINHA VEMELHA SEGUE O PERFIL DO ALÇADO . O MOVIMENTO DAS DUAS LINHAS ESCLARECE A RELAÇAO PROXIMA ENTRE O EDIFICIO E A TOPOGRAFIA .
CASOS DE ESTUD0 # 01 CASA DE CHÁ DA BOA NOVA . ÁLVARO SIZA 47 direção ao porto de Leixões, a praia e o mar. Enquanto na fachada norte, o vão mantêm-se horizontal e estreito, é essencialmente uma entrada de luz. Contudo, é possível a partir do interior ver- -se encaixilhado nesta janela alta voltada a norte, a capela da Boa Nova nos rochedos mais acima e mais adiante. É uma abertura pontual, estratégica. (fig.16) Os dois alçados mais estreitos da obra têm resultados distintos. Desde logo, a fachada sul têm um balanço do telhado que destaca-se muito do corpo principal chamando atenção para a janela abaixo e para as rochas que interagem diretamente com o betão da fachada. (fig.17) A norte, o mesmo não acontece. Ambas as fachadas são compostas por vários elementos diferentes, para além dos vãos, que marcam a diversidade na definição dos dois extremos do edifício. Na fachada norte existe a chaminé da cozinha e quatro alinhamentos diferentes das paredes. Na fachada sul, para além do prolongamento da cobertura, é ainda mais clara a fragmentação do edifício devido aos quatro planos de profundidade que surgem quase paralelos a diferenciar partes ou funções do edifício – entrada, hall, casas de banho e sala de chá. (fig.18) Tanto o edifício como os muros que se estendem a partir dele, desenvolvem-se ”de un modo fragmentado, haciendo de la fractura y de la discontinuidad la substancia de la forma”12 refletindo características da envolvente e a adaptação que o arquiteto produziu no projeto para que o resultado da relação entre a arquitetura e o lugar seja uma adição positiva ao existente. (fig.19) Siza esclarece que para ele é na “preocupação com as pré-existências e com o sítio que começa o desenho. Mesmo quando se utilizam com brutalidade máquinas de destruição, sítio e pré-existências orientam o desenho.” Sublinha ainda que esta atenção ao local e as suas características é essencial para que o projeto seja bem conseguido, tenha sucesso. “Obra que apague o passado está condenada ao apagamento. Quebra-se uma cadeia. Uma obra só é pouco para a próxima, e o que vem de fora, e deve vir, rapidamente e até à simultaneidade, vem para vivificar, não para ocupar. Violência sobre o sítio é sempre violência sobre as pessoas. E é a violência que traduz timidez, insegurança – a timidez interior”.13 Por isso, em todos as fachadas compreende-se a ambição do arquiteto de cimentar esta relação entre a obra e o lugar, utilizando estratégias que o aproximem das qualidades e 12 MONEO, Rafael - Inquietud teórica y estrategia proyectual: en la obra de ocho arquitectos contemporáneos. Barcelona: Actar, 2004. P.: 209 13 SIZA VIEIRA, Álvaro – Matosinhos o lugar e a Imagem. In FONSECA, José Manuel Salgado – Álvaro Siza em Matosinhos. 1º ed. Matosinhos: Afrontamento, 2005. P.: 132
48 SOBRE A SINGULARIDADE DO LUGAR (fig. 23) PERCURSO DE ACESSO SIZA VIEIRA, Álvaro - Álvaro Siza : obras y proyetos, 1954-1992 (fig. 24)RELAÇÃO ENTRE A OBRA E OS MATERIAIS DA ENVOLVNETE FOTOGRAFIA DE JOÃO MORGADO (fig. 26) CORTE . ESQUEMA DE ENTRADA DE LUZ (fig. 25) ENTRADAS DE LUZ FOTOGRAFIA DE JOÃO MORGADO
CASOS DE ESTUD0 # 01 CASA DE CHÁ DA BOA NOVA . ÁLVARO SIZA 49 das questões que ele, o lugar, levanta. Sem mimetizar a topografia, os edifícios existentes, ou os materiais da paisagem, a Casa de Chá encontra naquele local a sua essência e referências, não é possível dissociar o projeto de Siza da envolvente que o rodeia. Os perfis traçados afirmam a vontade de aproximar o construído, o artificial à natureza do terreno. (fig.20 e 21) “El suelo,” afirma Moneo, “se convierte en elemento clave, confirmando esta obra a la importancia que para Siza tendrá, desde el comienzo de su carrera, el lugar.”14.Por isso o arquiteto ‘permite’ que as rochas envolvam o edifício, que o influenciem, fazendo alterar alinhamentos de paredes e posições de janelas. (fig.22) Percebe-se através dos alçados e perfis como o arquiteto trabalhou com topografia e a geografia intrincada da costa atlântica, no entanto compreende-se também que houve outros elementos do lugar que tomaram parte nas decisões do projeto. Siza teve em atenção os acessos, a posição da avenida face ao edifício e o que era visível a partir desta. A posição da porta de entrada e todo o percurso em escadas e muros de betão branco são projetados para as características do lugar. O arquiteto aborda a materialidade dos pavimentos existentes, qualifica-os e traça os limites do percurso desenhando-o pelos limites dos materiais. (fig.23) As escadas e os muros brancos orientam o nosso olhar enquanto nos encaminham por patamares até ao vão de entrada, já descrito acima como um nicho com um interior iluminado, convidativo e seguro - qualidades relacionadas com o conceito de lar. Este momento de percurso parece marcar a obra, assim, reflete Moneo, que o mais relevante na obra da Casa Chá talvez seja o sistema de muros que “se disuelve hasta el extremo de hacernos olvidar su existência”, 15 produzindo a noção de que o projeto está intrincadamente ligado ao terreno. (fig.24) Siza parece buscar as qualidades indissociáveis da habitação para a sua obra da Casa de Chá. Procura com a escolha de materiais como a madeira, com os detalhes cuidados dos seus remates, e ainda com a luz controlada e constante produzir um ambiente privado, de conforto e estabilidade. (fig.25 e fig.26) Ao explorar “el valor de los materiales” cria, como afirma Rafael Moneo, “una cierta atmosfera, a la que podría calificarse de doméstica y pri14 MONEO, Rafael - Inquietud teórica y estrategia proyectual: en la obra de ocho arquitectos contemporáneos. Barcelona: Actar, 2004. P.: 209 15 Id. Ibid., P.: 211
50 SOBRE A SINGULARIDADE DO LUGAR vada, y que, sin duda, Siza perseguía en esta ocasión”16. Conseguimos estar dentro do salão de chá e olhar o oceano próximo e agitado com a tranquilidade ‘transpirada’ pelo calor da madeira. Os vãos mostram-nos o que Siza quer que o nosso olhar veja. Somos constantemente atraídos pelo exterior, mas o interior está sempre presente. Não podemos deixar de notar a relação entre o betão e a madeira, entre a vista sobre o horizonte e o teto de madeira da cobertura em balanço. As escolhas feitas para o interior refletem a noção, que Siza parece nunca ter perdido, do que o envolvia, da posição do sol, da topografia acidentada, da capela, da marginal e da força do oceano. Ele permite que o lugar entre na sua obra, sem se deixar encobrir pela sua presença, sem se esconder ou camuflar, apenas serenamente acolhendo-o e continuando-o. “Ideia de continuidade” entre a arquitetura e a envolvente defendida pelo arquiteto, que admite que a relação entre elas possa ser repleta de diversidade, de elementos e linguagens opostas e “rica em dissonâncias sem nunca deixar de existir”.17 O lugar era belo quando Álvaro Siza o viu intocado no início da década de ‘50. O temor pela possibilidade de ruína da ordem natural que prevalecia ainda na Boa Nova poderia ter tido uma influência triste na obra do arquiteto, mas este não se deixou intimidar pelo lugar e criou uma arquitetura presente, que veio acrescentar algo ao sítio, uma nova camada. Assim reflete Peter Testa, em The Architecture Of Alvaro Siza, é esta a forma de Siza trabalhar o lugar, ele acrescenta mais uma “layer to what already existes in na operation in whitch”, o próprio arquiteto da Boa Nova explica, “the new results from the old but the old also changes in the light of the new” 18. Siza afirma ainda ter compreendido através de “uma sensação irreprimível e determinada”, nestes seus primeiros trabalhos – onde se inclui este projeto – que a arquitetura não termina em ponto algum, vai do objeto ao espaço, e por consequência, à relação entre os espaços, até ao encontro da natureza.” 19A casa de Chá da Boa Nova permanece prolongando subtilmente a envolvente através do seu carácter invulgar de obra que se imerge e acrescenta. Tal16 MONEO, Rafael - Inquietud teórica y estrategia proyectual: en la obra de ocho arquitectos contemporáneos. Barcelona: Actar, 2004. P.: 211 17 SIZA VIERA, Álvaro – Imaginar a Evidência. Lisboa: Edições 70, 2000. P.:34 18 TESTA, Peter –The architecture of Álvaro Siza. Massachusetts : The MIT Press, 1984. P.:153 19 SIZA VIERA, Álvaro – Imaginar a Evidência. Lisboa: Edições 70, 2000. P.:31
CASOS DE ESTUD0 # 01 CASA DE CHÁ DA BOA NOVA . ÁLVARO SIZA 51 vez este caráter surja de pensar arquitetura como uma “realidade fluida”, descrita por Moneo, como uma consciência da sucessão do tempo e das mutações do lugar, e a capacidade do arquiteto de, com esta consciência, capturar instantes específicos e “congelarlos en un preciso momento, en una obra concreta”20. Uma obra ou um projeto deve estar repleto de influências da cidade, das suas tradições, do contexto atual, da topografia e da materialidade do lugar, entre muitas outras coisas… deve ser recheado de tudo isso, reflete o arquiteto português, dessa riqueza de relações de ordem física, arquitetónica, geográfica, afetiva, psíquica, que se multiplicam e cruzam em todas as direções. Se um projeto não tem em conta tudo isso, então não resiste.21 Provavelmente, por isso a Casa de Chá da Boa Nova permanece ali, Siza tornou-a indispensável àquela paisagem, àquele lugar. 20 MONEO, Rafael - Inquietud teórica y estrategia proyectual: en la obra de ocho arquitectos contemporáneos. Barcelona: Actar, 2004. P.: 203 21 MACHABERT, Dominique / BEAUDOUIN, Laurent – Uma Questão de Medida; Trad. por CABRITA, Vera; Casal de Cambra: Caleidoscópio, 2009. P.: 157
52 SOBRE A SINGULARIDADE DO LUGAR
CASOS DE ESTUD0 # 02 CASA MALAPARTE . ADALBERTO LIBERA 53 CASA MALAPARTE Adalberto Libera 1937 #02 A obra localizada em Punta de Massulo, na Ilha italiana de Capri, foi construída em 1937 para ser a residência do escritor Curzio Malaparte. A autoria desta casa é entregue, com alguma contestação a Adalberto Libera, importante e reconhecido arquiteto italiano. Iremos, para efeito deste estudo, reconhecer e utilizar Libera como o projetista deste edifício, pois o debate não se impõe no tema da tese. A casa não pode, contudo, ficar apenas registada como uma criação exclusiva de Libera, porque Malaparte teve uma intervenção constante no projeto; o escritor chega até a afirmar que a casa é apenas obra do seu trabalho, “Today I live on an island, in harsh, melancholy, and severe house which
54 SOBRE A SINGULARIDADE DO LUGAR (fig. 1)PERSPECTIVA GERAL DA OBRA GARAFOLO, Francesco e VERESANI, Luca - Adalberto Libera. Di Architettura nº26 (fig. 2)PERSPECTIVA GERAL DA OBRA. DESENHO DE LIBERA SOBRE FOTOGRAFIA TALAMONA, Marida - Casa Malaparte. (fig. 3)PERSPECTIVA GERAL DA OBRA . TOPOGRAFIA TALAMONA, Marida - Casa Malaparte. (fig. 4)PERSPECTIVA GERAL DA OBRA FOTOGRAFIA DE A. SILVA PEREIRA (fig. 5)PERSPECTIVA GERAL DA OBRA FOTOGRAFIA DE A. SILVA PEREIRA
CASOS DE ESTUD0 # 02 CASA MALAPARTE . ADALBERTO LIBERA 55 I have built alone, lonesome on a cliff hanging over the sea (…)” 1. (fig.1) Essa presença nas decisões da obra é possível compreender-se nas inúmeras cartas do escritor durante a construção da sua habitação, cuja análise detalhada é feita por Talamona em Casa Malaparte. Cartas dirigidas não só ao arquiteto, ilustram as ideias de Malaparte que queria algo único e excecional, como descrevem também o desenvolvimento da obra. 2 O escritor acompanhou de perto a edificação da sua vila e é indiscutível a perceção de que muita da sua ilusão alimentou as escolhas para a Casa de Capri, e isso compreende-se logo, segundo Talamona, desde a escolha do local em que fica expressa a vontade e intenção do escritor “the house must be the image of himself, the memory of his own past and personality, the concrete testimony of his own poetics - his own architectural portrait.”3 Esta escolha do lugar, feita pelo autor, demonstra a sua ambição de tocar o limite, de se confrontar com a natureza na sua verdadeira força, a maneira como Malaparte descreve o local é reveladora desta sua aspiração “ (…) a place, in truth, only fit for strong men, for free spirts “where” nature expresses itself with incomparable and cruel strength” 4. (fig.2 e fig.3)) O terreno da casa é uma pequena península, um braço de terra que se destaca da linha de costa vertiginosa da ilha de Capri. Os limites da península são igualmente íngremes, produzindo um efeito de precipício arrebatador sobre o mar. (fig.4 e 5) A encosta voltada para o horizonte que recebe o sol nascente, é então o local em que Malaparte decidiu que a sua morada ia ser edificada. O escritor fala dessa decisão como se a qualidade final do projeto se devesse, somente, à excecionalidade do local selecionado: “I replied - and it was not true - that I had bought the house as it stood. And pointing with a sweeping gesture to the sheer cliff of Matromania, the three gigantic rocks of Farglioni, the Sorrento peninsula, the islands of the Sirens, the distant blue of Amalfi coast line, and the remote golden glimmer of Paestum shores, I said: “I design the scenery” 5 1 TALAMONA, Marida - Casa Malaparte. Trad. Vittoria di Palma. New York : Princeton Architectural Press, 1992. P.: 62 2 Id. Ibid.,P.: 40 3 Id. Ibid.,P.: 61 4 Id. Ibid.,P.: 55 5 Id. Ibid.,P.: 40
62 SOBRE A SINGULARIDADE DO LUGAR (fig. 23) ESCADARIA DE ACESSO À COBERTURA GARAFOLO, Francesco e VERESANI, Luca - Adalberto Libera. Di Architettura (fig. 24) COBERTURA . VISTA PARA HORIZONTE FOTOGRAFIA RETIRADA DO FILME DE GODARD, J.L. - LE MÉPRIS. (1963) (fig. 25) COBERTURA FOTOGRAFIA RETIRADA DO FILME DE GODARD, J.L. - LE MÉPRIS. (1963)
CASOS DE ESTUD0 # 02 CASA MALAPARTE . ADALBERTO LIBERA 63 Outro espaço que também desperta interesse pela aproximação ao confronto entre homem e o espaço imenso do mar e do céu, é o da cobertura; interpretado em La Intimidad de la Casa como um momento de profunda ambiguidade que permite a perceção da dimensão finita do homem, em simultâneo com a sensação de possuir o mundo, de ser único a dominar o enorme espaço apreendido pelo olhar19. Uma grande escadaria precede o terraço cujo limite se estende em direção ao horizonte levando o habitante a “confrontarse con el escenario presentando por la inmensidad del mar y cielo”.20 (fig.23)Na cobertura, tal como nas escadas que lhe dão acesso, não existem barreiras ou corrimãos, apenas um vasto espaço amplamente aberto sobre envolvente cujo limite é o horizonte. (fig.24) Neste espaço foi colocada uma peça em betão branco que se destaca, pela sua cor e curvatura, ao traçar uma semelhança estreita com a vela de um barco. O terraço afirma-se como um dilema, denso de interpretações e descrições. Um “verdadeiro espectáculo”21 possibilitado por este contacto exclusivo entre o homem e os “limites” do mar e do céu. (fig.25) Para o escritor foi desde logo evidente a necessidade de conceber a casa para aquele local específico, que correspondesse às exigências daquela circunstância – “I could make no concessions to nature (…) no concessions to the false idea that architecture of one place lends itself well to each part of the place”22. Para Malaparte, era preciso que a arquitetura tirasse partido das qualidades extraordinárias do sítio e se deixasse envolver por elas, absorvendo até a materialidade do lugar - “it became clear to me from the very beginning that not only the outline of the house, its architecture, but also the building materials, had to fit that wild and delicate landscape. No bricks, no concrete, but stone, only stone, of the local kind, from which the cliff, the mountain is made.” 23 O volume resulta num sólido com um carácter compacto perfurado 19 SILVA, Ana Sofia Pereira da - La intimidad de la casa : el espacio individual en la arquitectura doméstica en el siglo XX. Madrid : UPM, 2013. Dissertação de Doutoramento. P.: 225 20 Id. Ibid., P.: 223 21 Id. Ibid. 22 TALAMONA, Marida - Casa Malaparte. Trad. Vittoria di Palma. New York : Princeton Architectural Press, 1992. P.: 55 23 Id. Ibid.,. P.: 44
64 SOBRE A SINGULARIDADE DO LUGAR por vãos profundos que se funde com a envolvente através de um redesenho da encosta natural. Pode afirmar-se que Libera lima o perfil da encosta, seguindo as regras que a estruturam, compreendendo-as através da abstração geométrica. “El edificio redibuja la topografía de la roca, como si con la construcción de la casa intentase corregir geométricamente la roca, limar sus aristas, como si la introducción de la casa sirviese para domesticar la masa inerte del promontorio.” 24 Não se opõe e não se esconde – intervêm. Age sobre o lugar impondo a sua presença, mas não ignora o seu carácter, “no se quiso contraria al lugar, no lo evitó, no tuvo una voluntad de excesiva transformación; por el contrario, lo alteró significativamente a través de una intervención que denota una espécie de espejismo” 25. As fachadas de um vermelho escuro, sobressaem do castanho arenoso das rochas da encosta e do verde da vegetação, no entanto, o destaque da cor não é excessivo. A casa torna-se um elemento que compõe aquela envolvente, e com a sua postura afirmativa não pode ser desconhecida a sua existência, utilizando a metáfora de La Intimidade de la Casa para descrever a presença do edifício: “La Villa Malaparte parece surgir casi de una erupción terrestre, como si la casa resultase de una conmoción entre el suelo sólido y el mar líquido, o la naturaleza transformadora del hombre y la naturaleza original” 26 desta forma torna-se hoje, compreensivelmente por isto, um elemento indispensável na descrição daquela paisagem. 24 SILVA, Ana Sofia Pereira da - La intimidad de la casa : el espacio individual en la arquitectura doméstica en el siglo XX. Madrid : UPM, 2013. Dissertação de Doutoramento. P.: 225 25 Id. Ibid., P.: 226 26 Id. Ibid.
CASOS DE ESTUD0 # 02 CASA MALAPARTE . ADALBERTO LIBERA 65
66 SOBRE A SINGULARIDADE DO LUGAR
CASOS DE ESTUD0 # 01 CASA DE CHÁ DA BOA NOVA . # 02 CASA MALAPARTE 67 Neste capítulo o estudo incidiu sobre dois projetos em que os locais de implantação são de uma beleza extraordinária1 como afirma Siza, dos cenários mais excecionais do mundo2, como refere Malaparte. Ambos são dotados de um carácter único, irrepetível e, tanto Libera como Siza, encontraram-nos intocados. 1 SIZA VIERA, Álvaro – Imaginar a Evidência. Lisboa: Edições 70, 2000. P.:23 2 TALAMONA, Marida - Casa Malaparte; Trad. Vittoria di Palma. New York : Princeton Architectural Press, 1992. P.: 40 #02 #01 CASA DE CHÁ DA BOA NOVA CASA MALAPARTE
68 SOBRE A SINGULARIDADE DO LUGAR “That part of Matromania, covered beyond the cliffs by typical Mediterranean underbrush, was considered “naturally uncultivated and unproductive” terrain, and above all, one where not even a small one-room farm building could be built.” C. Malaparte 3 “Um muro, suporte da zona urbana, delimita a praia, as rochas e o oceano, com toda aquela força que o Atlântico possui. A natureza ali quase não era perturbada (…) ” Álvaro Siza 4 Este momento de exploração de um terreno indomado foi realizado na edificação destas duas obras de uma forma distinta, mas com um denominador comum que foi possível compreender ao longo do estudo, que é a vontade de fazer a sua arquitetura pertencer ao lugar. Este desejo expressa-se com evidência nas decisões de ambos durante o processo de criação, assim como nas suas palavras e textos. “ (…) A relação entre a natureza e a construção é decisiva na arquitetura (...) esta relação, fonte permanente de qualquer projeto, representa para mim como que uma obsessão; sempre foi determinante no curso da história e apesar disso tende hoje a uma extinção progressiva.” A. Siza 5 “The meaning is intimately tied to the dialogue between architecture and nature and the peculiar identity of the place: “ a place, in truth, only fit for strong men, for free spirts “where” nature expresses itself with incomparable and cruel strength” (…) “I could make no concessions to nature (...) no concessions to the false idea some have that the architecture of one place lends itself well to each part of the place (…)”. C. Malaparte 6 3 TALAMONA, Marida - Casa Malaparte; Trad. Vittoria di Palma. New York : Princeton Architectural Press, 1992. P.: 35 4 SIZA VIERA, Álvaro – Imaginar a Evidência. Lisboa: Edições 70, 2000. P.:21 5 Id. Ibid., P.:17 6 TALAMONA, Marida - Casa Malaparte; Trad. Vittoria di Palma. New York : Princeton Architectural Press, 1992. P.: 55
CASOS DE ESTUD0 # 01 CASA DE CHÁ DA BOA NOVA . # 02 CASA MALAPARTE 69 A arquitetura das obras esclarece o estudo e a análise que ambos fizeram do lugar e dos desafios que este impunha. Os dois terrenos caracterizam-se por se encontrarem numa situação limite de confronto com a severidade do mar, e em contacto com uma topografia rochosa acidentada. O desafio que ambos enfrentavam implicava encontrar uma solução para os dados impostos pelas características naturais que as circunstâncias ofereciam, tanto em Capri como em Matosinhos. Não havia, em nenhum dos locais, referências edificadas na área que suportassem qualquer um dos projetos, tendo em conta os programas em causa. O arquiteto português e o italiano executaram, por isso, o mesmo esforço de analisar e descodificar os locais de implantação no seu estado mais primário, sem antecedentes construídos que oferecessem indicações de como agir. A arquitetura de ambos apoia-se, então, exclusivamente nas informações que o lugar coloca à disposição do projetista. Em estudo, durante este capítulo, esteve a forma como os dois as interpretaram e o resultado arquitetónico prático que surgiu da síntese que realizaram do carácter de cada lugar. As situações limite em que dispuseram as suas obras promoveram excecionalidade nas escolhas que tiveram que realizar ao logo do processo projetual, como foi possível verificar no decurso do estudo destes casos. A integração das duas obras nos locais em que se encontram é completa, devido, primeiramente, à escolha do lugar de implantação. No caso do projeto italiano, o arquiteto Adalberto Libera esboça a decisão de colocar um paralelepípedo no limite da ribanceira, enquanto em Matosinhos, Álvaro Siza escreve que foi o arquiteto Távora a indicar a posição em que deveria ser edificada a obra. Em qualquer um dos casos, a escolha do local de implantação foi um momento crucial para a definição do projeto, e foi, nas duas obras, uma das primeiras decisões a ser tomada. O esboço inicial de Libera e a decisão de Fernando Távora foram escolhas mantidas do início ao final da construção, e tiveram uma influência clara na forma como os projetos evoluíram. A perceção de questões como a orientação solar, o clima, a estrutura do solo, a materialidade do lugar, foram também temas com que os arquitetos se debateram e encontraram forma de adaptar a sua arquitetura às situações colocadas. Tanto num caso como no outro, a topografia tem uma presença muito relevante para a solução arquitetónica. A estrutura rochosa do solo e os materiais da envolvente tiveram influência palpável em ambos os casos, e os dois arquitetos encontraram no tema da integração com o lugar matéria para desenvolverem a sua obra. Nas suas decisões de projeto revelaram um estudo profundo da paisagem, daquilo que rodeia o projeto, e das consequências físicas e visuais da implantação. Os arquitetos imergem os seus projetos na topografia, selecionando criteriosamente os momentos em que destacam o projeto da envolvente. A casa Malaparte parece surguir do solo. E, a casa de Chá da Boa Nova parece encaixar-se entre os penedos.
70 SOBRE A SINGULARIDADE DO LUGAR (fig. 1) CASA DE CHÁ DA BOA NOVA JODIDIO, Philip - Álvaro Siza . (fig. 2) CASA DE CHÁ DA BOA NOVA SIZA VIEIRA, Álvaro - Álvaro Siza : obras y proyetos, 1954-1992 (fig. 3) CASA MALAPARTE FOTOGRAFIA DE ALISTER TAYLOR YOUNG (fig. 4) CASA MALAPARTE FOTOGRAFIA DE A. SILVA PEREIRA
CASOS DE ESTUD0 # 01 CASA DE CHÁ DA BOA NOVA . # 02 CASA MALAPARTE 71 “El suelo se convierte en elemento clave, confirmando esta obra a la importancia que para Siza tendrá, desde el comienzo de su carrera, el lugar.” Rafael Moneo 7 “De este modo la intención del proyecto será quizás fundir la casa en la roca. Sin embargo, la arquitectura no se súbete a la naturaleza ya que es claro que través del proyecto la roca donde se inserta la casa es redibujada.” A. Pereira Silva 8 Os dois projetos agarram-se ao solo através da geometria que foi a ferramenta de eleição tanto de Siza como de Libera para sintetizar e relacionar-se com a envolvente. Na realidade, a abordagem geométrica à topografia e ao caracter do lugar é a mesma, mas a ação que resulta desta interpretação é distinta. Esta diferença deve-se, em grande parte, às características que distinguem e separam os dois lugares e programas; e também, devido às diferenças individuais de cada arquiteto. Em Matosinhos, o arquiteto português procura com a geometria alinhamentos, altimetrias e pontos de vista para encaixilhar o seu projeto entre os rochedos. Já em Capri, Libera encontra no perfil da encosta um mote para o seu redesenho através da continuação das suas linhas. As questões de orientação solar foram mais abordadas pelo arquiteto português, que faz variar a localização e a dimensão dos vãos de acordo com a exposição à luz. Assim como o seu trabalho na cobertura, com diferentes alturas, claraboias e aberturas de luz zenital, ressaltam o planeamento da influência do sol nos espaços interiores. Libera não distingue da mesma forma a abertura das janelas na casa Malaparte, porque para o arquiteto italiano a variação entre os vão têm mais relação com a necessidade de luz de cada função que servem do que com a incidência solar. No entanto, em ambos os casos, os vãos têm um papel preponderante na ligação com a envolvente, pois o seu posicionamento revela, em várias situações nestes projetos, a vontade de criar pontos de vista específicos a partir do interior para a paisagem. Esta ação premeditada e consequente no resultado final da obra é facilmente observada no estudo destes casos. Na Casa Malaparte pode ser dado como exemplo desta procura de uma relação visual específica com paisagem, o vão do escritório do escritor que se abre solitário para a linha de horizonte que divide o mar e o céu. Outra janela que também é fruto desta intenção, é a enigmática abertura da lareira da sala que coloca paradoxalmente a água do mar e o fogo do braseiro no mesmo plano. Na obra de Siza, o vão que foca a ermida da Boa Nova pode ser também exemplo desta vontade de destacar visualmente um instante, assim como 7 MONEO, Rafael - Inquietud teórica y estrategia proyectual: en la obra de ocho arquitectos contemporáneos. Barcelona : Actar, 2004. ISBN 84-95951-68-1. P.: 209 8 SILVA, Ana Sofia Pereira da - La intimidad de la casa : el espacio individual en la arquitectura doméstica en el siglo XX. Madrid : UPM, 2013. Dissertação de Doutoramento. P.: 225
78 SOBRE A SINGULARIDADE DO LUGAR (fig. 7 - fig.12) RELAÇAO INTERIOR E EXTERIOR 2 G – Mies van der Rohe. 2G : Revista Internacional de Arquitectura. (fig. 6) PLANTA E CORTES . ESQUEMA (fig. 10) (fig. 11) (fig. 1) (fig. 13) (fig. 9) (fig. 8)
CASOS DE ESTUD0 # 03 CASA FARNSWORTH . MIES VAN DER ROHE 79 “En la arquitectura de Mies el espacio habitable solo adquiere forma en relación con la mirada del hombre sobre el entorno que le rodea, respecto al cual se ordena; como en ningún otro caso, el arquitecto necesita del roce con la realidad para desenrollar el proyecto.” 6 Mies cria um paralelepípedo, com paredes de vidro e uma estrutura metálica pintada de branco, que eleva esta caixa a 1,20 do solo. Guirao reflete, no seu trabalho El Proyecto como Revelacion del Lugar, que a geometria e os materiais escolhidos pelo arquiteto afastam a obra de qualquer semelhança 7ou paralelo evidente com a natureza. (fig.6) Numa leitura displicente poderíamos interpretar a ação como uma separação de todas as influências da envolvente, um ignorar do carácter e das questões que o terreno pudesse trazer, como se o projeto fosse o resultado de uma abstração sobranceira de Mies em relação ao local e as suas características, desprendendo-se de qualquer ligação - “the house stands like a crystal in an unaltered nature, entirely foreign, an artifact. There is no suggestion, no hint that would point to the environment, which, after all, forms the grand scenery”.8 (fig.7 - fig.12) No entanto, as palavras de Mies sobre a atitude do arquiteto em relação ao lugar não corroboram esta ideia de total desprendimento da natureza e da realidade em seu redor, pois o próprio defende em afirmações à revista Architecture D’Aujourd’ui que “De toda as maneras deberíamos esforzarnos por conseguir establecer una mayor armonía entre la naturaleza, vivienda y el hombre.9 Também outros autores, refletem sobre este tema ao entrarem em contacto com a Casa Farnsworth e ao estudá-la, compreendem os detalhes que realçam a ligação que o arquiteto alimentou entre a habitação e a envolvente. Peter Palumbo chega a afirmar que ao viver nesta casa foi percebendo gradualmente que a obra produz 6 GUIRAO, Cristina Gastón - Mies : el proyecto como revelación del lugar. Barcelona : Fundación caja de arquitectos, 2005. P.: 19 7 Id. Ibid., P.: 15 8 BLASER, Werner - Mies van der Rohe, Farnsworth House : weekend house / wochenendhaus; trad. Katja Steiner, Bruce Almberg. Basileia: Birkhäuser, 1999. P.: 10 9 NORBERG-SCHULZ, Christian – Rencontre Avec Mies van der Rohe. L’Architecture d’Aujourd’hui. Paris, nº9 (Setembro , 1958), p. 40-41.
80 SOBRE A SINGULARIDADE DO LUGAR um fenómeno invulgar e excecional: “the man-made environment and the natural environment are here permitted to respond to, and to interact with each other.” 10 declaração que veementemente contradiz a apreciação crítica da obra como objeto estranho, distante da realidade que ocupa. Ao observar a implantação da obra compreende-se que esta se encontra no interior de uma das grandes clareiras do terreno junto ao rio Fox. A casa aproxima-se do limite sul desta clareira perto de uma árvore cuja copa que se destaca pela sua dimensão. Consegue-se perceber também a partir de uma vista aérea a relação distante com a rua que dá acesso ao terreno. Este afastamento permite privacidade à habitação. A proximidade ao rio fica clara quando estudada em planta, tal como, a noção habitação poderia ter sido localizada noutra parte do extenso terreno disponível, como foi sugerido por Mies, para que a questão da subida das águas não fosse colocada. Nesta envolvente podem ser destacadas várias características que marcam as decisões do arquiteto e têm reflexos nítidos na obra. A topografia é um aspeto determinante no local, pois o terreno plano permitiu a liberdade necessária para o arquiteto definir aquela solução construtiva. Solução que remete para a questão hidrográfica, também fundamental no caracter do local, pois as subida das aguas do rio marca a imagem final da obra pela forma como o arquiteto é obrigado a contorná-la. Assim como a vegetação que abriga e envolve a casa de Mies. As distâncias entre a obra e as árvores da clareira são definidas pelo arquiteto que com esta gestão vincula a solução arquitetónica ao local. (fig.13) A chave para a compreensão da obra parece encontrar-se nesta relação orgânica interdependente que o arquiteto criou entre as diversas circunstâncias do lugar e a habitação, estabelecendo a ligação entre a arquitetura e a envolvente que Mies, segundo Guirao, vê apenas ter sentido quando “la necesidad y dependencia de las partes que lo componen y el mundo.” 11 Mies coloca a obra no extremo sul da clareira, mais próximo do rio, e ao lado do ácer. O afastamento entre os diversos limites da clareira é gerido e projetado pelo arquiteto cuidadosamente, pois ele coloca a casa distanciada de forma simétrica do extremo nascente e poente, afasta-a mais amplamente do extremo norte e 10 BLASER, Werner - Mies van der Rohe, Farnsworth House : weekend house / wochenendhaus; trad. Katja Steiner, Bruce Almberg. Basileia: Birkhäuser, 1999. P.: 14 11 GUIRAO, Cristina Gastón - Mies : el proyecto como revelación del lugar. Barcelona : Fundación caja de arquitectos, 2005. P.: 19
CASOS DE ESTUD0 # 03 CASA FARNSWORTH . MIES VAN DER ROHE 81 aproxima-se muito da vegetação a sul. (fig.14) Em relação ao lado sul, a existência da grande árvore promove uma relação mais próxima e mais presente entre a vegetação e o edifício. Segundo Werner Blaser, à árvore foi atribuída a função de proteção da habitação, 12e o debruçar dos seus largos ramos sobre a cobertura do edifício parece, metaforicamente, “a gesture of caress, a never-ending love affair” 13 entre a arquitetura e a natureza.Para além de que este elemento cria uma barreira próxima, e determina um limite palpável ao interior que se prolonga visualmente através das paredes de vidro, pois como sublinha Palumbo “this house, and living in it, involves trust in the environment. The free view in all sides enlarges the space and leaves the park and meadow almost without any caesura with the living space. The basic idea was thus realized – fusing the interior with the exterior.” 14 Na realidade, é essa a função da vegetação neste projeto “sem paredes” de Mies, ela traça o limite, garante a privacidade, que o homem necessita para se sentir abrigado, protegido. (fig.15) O interior da habitação participa abertamente nesta envolvente cuja “belleza del paisaje justifica la visión sin obstáculos de la naturaleza”; 15 sem pátios, nem muros ou paredes que interfiram e controlem a fusão dos dois espaços – o dentro e o fora. O arquiteto utiliza a orla da clareira gerindo-a e projetando-a a distâncias diferentes que parecem influenciar as funções que se distribuem no interior da habitação. A norte, a clareira é mais extensa, e o limite das árvores define-se a cerca de 20 metros de distância. Para este lado da casa foi relegada a função da cozinha. A iluminação fria de norte entra sem obstáculos, e a cozinha não é um espaço que exige muita privacidade, por isso Mies permite que a “parede de vegetação” seja distante. A sul, como já foi referida, existe uma grande árvore e o rio Fox, esta é a paisagem que se perceciona da zona de estar da casa, em que a luz e a noção de interioridade são geridas pela vegetação próxima. A árvore referida é um Bordo Negundo, ou cientificamente 12 BLASER, Werner - Mies van der Rohe, Farnsworth House : weekend house / wochenendhaus; trad. Katja Steiner, Bruce Almberg. Basileia: Birkhäuser, 1999. P.: 22 13 Id. Ibid., P.: 14 14 Id. Ibid., P.: 11 15 GUIRAO, Cristina Gastón - Mies : el proyecto como revelación del lugar. Barcelona : Fundación caja de arquitectos, 2005. P.: 145
82 SOBRE A SINGULARIDADE DO LUGAR (fig. 13) IMPLANTAÇAO . ESTUDOS DE MIES GUIRAO, Cristina Gastón - Mies : el proyecto como revelación del lugar (fig. 14) PERFIS . ESTUDOS RELAÇAO COM A VEGETAÇÃO (fig. 15) PLANTA . ESTUDOS RELAÇAO COM A VEGETAÇÃO (fig. 16) VISTA AÉREA . RELAÇÃO COM A VEGETAÇÃO FOTOGRAFIA ENCONTRADA EM www.farnsworthhouse.org
CASOS DE ESTUD0 # 03 CASA FARNSWORTH . MIES VAN DER ROHE 83 é um Acer Negundo, e é de folha caduca. Esta característica permite que Mies resguarde a casa da incidência dos raios de sol de sul no verão e no inverno, com a queda das folhas, possibilite a entrada de luz e calor para casa. Desta forma a árvore adquire mais do que um significado metafórico de abrigo, tornando-se verdadeiramente um elemento de proteção e controlo da qualidade do espaço interior. (fig.16) Nos lados este e oeste, a vegetação afasta-se cerca de 14 metros para ambas as direções. No lado ocidental, foi criada a entrada para a habitação, com um patamar de ascensão intermédio e um balanço da cobertura sobre o alpendre. Este espaço intermédio, permite um filtro da luz do sol poente, para além de um destaque ao vão de acesso a casa. No lado nascente está o quarto, cuja relação com o exterior, como em toda a casa, é mediada por panos de vidro que vão da laje de piso à laje de cobertura, no entanto é de sublinhar que todos os vãos da casa têm a possibilidade de serem fechados, pois Mies projetou uma cortina que permite o seu encerramento. (fig.17) Este detalhe é importante, porque apenas o núcleo central de casas de banho se encontra entre quatro paredes, tudo o resto parece compreender os seus limites na natureza que está entorno da casa, no entanto, o arquiteto permite que esta ligação seja pontualmente intercedida pela cortina branca. Esta decisão advém da gestão da qualidade do espaço de habitar, ponderada pelo arquiteto, no entanto, é motivo de interrogação para muitos que questionam a funcionalidade da obra de Mies, pondo em causa o seu carácter e qualidade de lar. (fig.18) Mas Palumbo, que foi proprietário da habitação entre 1972 e 2003, deixa claro que a Casa Farnsworth cumpre a função para a qual foi construída – “People ask me how practical is the Farnsworth House is to live in. As a home for a single person, it performs extremely well. It was never intended for anything else.” 16 (fig.19) Assim está organizado o espaço de interior, que por traços simples caracteriza a vontade de Mies de encontrar a funcionalidade e a beleza com o gesto mínimo e, esta obra é um espelho dessa ambição porque, como garante Blaser, o que lhe falta são os “nonessentials” – os elementos desnecessários - The essentials for living are floor and roof. Everything else is proportion and nature”. 17 A hidrografia é afirmativamente uma influência visível na definição 16 BLASER, Werner - Mies van der Rohe, Farnsworth House : weekend house / wochenendhaus; trad. Katja Steiner, Bruce Almberg. Basileia: Birkhäuser, 1999. P.: 14 17 Id. Ibid., P.: 8
84 SOBRE A SINGULARIDADE DO LUGAR (fig. 17) CORTINA BRANCA BLASER, Werner - Mies van der Rohe, Farnsworth house. (fig. 18) DISTRIBUIÇÃO FUNCIONAL . ESTUDOS DE MIES GUIRAO, Cristina Gastón - Mies : el proyecto como revelación del lugar (fig. 20) SUBIDA DO RIO FOX 2 G – Mies van der Rohe. 2G : Revista Internacional de Arquitectura. (fig. 21) SUBIDA DO RIO FOX LAMBERT, Phylis - Mies in America. (fig. 19) INTERIOR 2 G – Mies van der Rohe. 2G : Revista Internacional de Arquitectura.
CASOS DE ESTUD0 # 03 CASA FARNSWORTH . MIES VAN DER ROHE 85 do projeto, porque a elevação do edifício é um elemento marcante e caracterizador desta projeto de Mies. (fig.20) Compreende-se nitidamente nos perfis como esta relação com o solo se torna fundamental para a sua excecionalidade. Foi uma adversidade transformada em virtude pela forma exímia como foi detalhadamente trabalhada por Mies, que coloca a estrutura metálica em destaque pela forma como esta se estende da cobertura ao terreno suportando a casa, encaixilhando as paredes de vidro e todo o programa de habitar no seu interior. A solução construtiva é discreta e foi pintada de branco estimulando o efeito de transparência, que torna a casa “almost invisible”, 18 esta atitude mostra como arquiteto entende a relação entre a arquitetura e a envolvente. Promovendo com a esta solução construtiva o que ele considera respeito pela natureza, 19 porque não interrompe os seus processos naturais, não interfere na sua estrutura. Esta estrutura metálica toca no solo por intermédio de apenas 8 pilares no corpo principal, de um total de 11 que completam toda a obra – casa e alpendre – criando a sensação de leveza, de suspensão. No entanto, esta elevação do piso da casa não foi totalmente bem-sucedida na função que pretendia cumprir, pois a água do rio Fox quando sobe as margens de forma mais veemente, invade o interior da casa; assim o relata Schulz, “Desde que finalizaran las obras el rio se ha desbordado en varias ocasiones, superando ampliamente las previsiones del proyectó respecto al nivel máximo de las aguas, lo que ha provocado la inundación del interior de la casa y ha motivado su remodelación completa”.20 (fig.21) Muitas vezes, talvez até na maioria, a solução encontrada é suficiente para contornar a questão imposta pela hidrografia, e é interessante perceber como a Casa Farnsworth se adapta e transforma numa espécie de “casa-barco”, oferecendo a ilusão de flutuar sem dificuldade na água do rio - “When in the melting of the snows in the spring, the Fox River becomes a roaring torrent that bursts its banks, the house assumes the character of a house-boat, the water level sometimes rising perilously close to the front door”. Nestas ocasiões a acesso à habitação faz-se de canoa, que depois se ancora nas escadas do piso mais elevado permitindo a entrada na casa; estas descrições são feitas por Peter Palumbo, mas podem também ser comprovadas por fotografias de Schulz que capturam estes momentos sublimes de interação entre o projeto de 18 BLASER, Werner - Mies van der Rohe, Farnsworth House : weekend house / wochenendhaus; trad. Katja Steiner, Bruce Almberg. Basileia: Birkhäuser, 1999. P.: 11 19 Id. Ibid. 20 GUIRAO, Cristina Gastón - Mies : el proyecto como revelación del lugar. Barcelona : Fundación caja de arquitectos, 2005.. P.: 141
86 SOBRE A SINGULARIDADE DO LUGAR Mies e força da água do Rio Fox. 21 A elevação da casa têm ainda a vantagem de possibilitar a perturbação mínima da natureza daquele espaço, que é um dos motes da arquitetura de Mies. Sobre este tema, o arquiteto sublinha, em entrevista, que (…) la naturaleza debería vivir su propia vida. Deberíamos evitar pertúrbala con el colorido de nuestras casas u del mobiliario”22 revelando mais uma vez a sua forma de pensar relação entre a arquitetura e a envolvente. O lugar onde está a Casa Farnsworth permanece estático, sem adição ou remoção de terra, contudo, não se pode afirmar que seja igual ter ou não ter o pequeno edifício em vidro e metal junto as árvores da clareira. A natureza permaneceria a mesma se a obra de Mies desaparecesse, mas não podemos ignorar, depois do estudo dos perfis e planta do terreno, que a habitação fixa-se aos elementos da envolvente, utilizando-os como parte integrante do projeto. Não seria provável que o arquiteto pudesse transportar aquele projeto para outro local, pois os panos de vidro da casa transferem para o seu interior uma qualidade específica que é o reflexo direto do sítio e da forma como Mies geriu a relação entre a construção e o cenário que a envolve. “I believe that Farnsworth House has never really been understood”, 23 reflete o autor, pois na sua opinião é fundamental para o projeto as características e qualidades intrínsecas do lugar, e estas apenas podem ser compreendidas quando se permanece na casa - from morning to nightfall - só assim se consegue capturar a variedade de cores assumidas pela natureza. Mies desenhou até o mobiliário em atenção à luz e às cores que invadem a casa, sentiu que deveria usar cautelosamente tons neutros no interior atendendo a que “ all colours exist on the outside”.24 Na casa compreende-se que a mutação da natureza - ou como afirma Bresser “The ever-changing play of nature” - têm um papel fundamental na vivência e qualidade dos espaços interiores – “guides the inner life of the inhabitants through sensual space towards self-realization”. 25 Para o arquiteto a perceção das 21 BLASER, Werner - Mies van der Rohe, Farnsworth House : weekend house / wochenendhaus; trad. Katja Steiner, Bruce Almberg. Basileia: Birkhäuser, 1999. P.: 14 22 GUIRAO, Cristina Gastón - Mies : el proyecto como revelación del lugar. Barcelona : Fundación caja de arquitectos, 2005.. P.: 142 23 BLASER, Werner - Mies van der Rohe, Farnsworth House : weekend house / wochenendhaus; trad. Katja Steiner, Bruce Almberg. Basileia : Birkhäuser, 1999. P.: 8 24 Id. Ibid. 25 Id. Ibid.
CASOS DE ESTUD0 # 03 CASA FARNSWORTH . MIES VAN DER ROHE 87 qualidades da envolvente como cenário em constante movimento de cor e luminosidade é extraordinário – “simply glorious”.26 Esta busca por uma relação íntima e permanente com a natureza fica expressa nesta obra em todas as decisões do arquiteto e permite que esta se envolva integralmente, contendo e transcendendo as circunstâncias do lugar.27 De uma forma subtil o projeto desenrola-se em paralelo com sítio, sem excessos ou camuflagem da arquitetura. “Nothing is pretentious – the house doesn’t need to be decorated through landscaping. The coming and going of nature is the work of art.”28 Hoje a Casa Farnsworth, na margem do rio Fox, faz parte daquela clareira e torna-a num espaço especial. Não era um lugar muito diferente de outros – vegetação densa, terreno plano na margem de um rio – mas com a intervenção de Mies transformou-se num cenário para o interior da obra, em que através dos panos de vidro se vê enquadrada a envolvente, que desta forma suplanta a sua realidade para se tornar em algo único, mais profundo de significado como reflete Mies em Architecture D’Ajourdourd’hui - “cuando se mira la naturaleza atreves de las ventanas de la casa Farnsworth, adquiere un significado más profundo del que se tiene cuando se está afuera, al aire libre. La naturaleza pasa a formar parte de un gran conjunto”. 29 26 BLASER, Werner - Mies van der Rohe, Farnsworth House : weekend house / wochenendhaus; trad. Katja Steiner, Bruce Almberg. Basileia : Birkhäuser, 1999. P.: 23 27 GUIRAO, Cristina Gastón - Mies : el proyecto como revelación del lugar. Barcelona : Fundación caja de arquitectos, 2005. P.: 15 28 BLASER, Werner - Mies van der Rohe, Farnsworth House : weekend house / wochenendhaus; trad. Katja Steiner, Bruce Almberg. Basileia : Birkhäuser, 1999. P.: 22 29 NORBERG-SCHULZ, Christian – Rencontre Avec Mies van der Rohe. L’Architecture d’Aujourd’hui. Paris, nº9 (Setembro , 1958), p. 40-41.
94 SOBRE A SINGULARIDADE DO LUGAR (fig. 3) COBERTURA FOTOGRAFIA DE LEONARDO FINOTII (fig. 4) COBERTURA . VISTA INFERIOR FOTOGRAFIA DE LEONARDO FINOTII (fig. 5) CASA ENTRE AS ÁRVORES FOTOGRAFIA DE ALAN WEITRAUB (fig. 6) COBERTURA . RELAÇÃO INTERIOR EXTERIOR FOTOGRAFIA DE FRANK VAN LEERSUM (fig. 7) PISO SUPERIOR FOTOGRAFIA DE FRANK VAN LEERSUM (fig. 8) PISO INFERIOR FOTOGRAFIA DE LEONARDO FINOTII
CASOS DE ESTUD0 # 04 CASA DE CANOAS . ÓSCAR NIEMEYER 95 tidos é precisamente a beleza, o inesperado e a harmonia”15 que o arquiteto consegue encontrar na relação com as circunstâncias. (fig.6fig.8) Esta plasticidade tem como consequência uma distribuição funcional que apesar de incluir os elementos comuns de habitar ganha, não uma possível flexibilidade de funções, mas antes uma continuidade fluida com o lugar. A casa compreende, como foi descrito acima, dois níveis com funções distintas que permitem separar a área comum, de acesso geral, da área privada com espaços íntimos e pessoais. (fig.9) No piso que se encontra à cota de entrada deparamo-nos com um primeiro espaço que acolhe a sala de jantar e a sala de estar que, apesar de se encontrarem na mesma divisão, têm um caracter totalmente distinto. Os vãos da sala de jantar são panos de vidro com finos caixilhos pretos que se prolongam desde a laje de betão da cobertura até ao pavimento, projetando os limites da sala na direção da vegetação envolvente, possibilitando a perceção do lado nascente e poente da clareira. O espaço da sala de estar é o oposto deste, pois é inteiramente fechado ao exterior, vive da relação com a sala de jantar que lhe permite a entrada de luz e a vista para a fora. (fig.10) Esta ação de encerramento cria um espaço de estar reservado, protegido, em contraste com o desafogo sem barreiras da área adjacente, desenvolvendo uma dinâmica de intensa de contraste entre estes dois espaços motivada pela dicotomia que os caracteriza. (fig.11) Existe ainda neste piso uma cozinha e o acesso ao piso inferior. A cozinha, que esta aberta para sul, é um espaço envidraçado cujos vãos começam na cobertura e terminam a média altura permitindo a vista para os limites da clareira. No piso inferior distribuem-se os quatro quartos da casa, três casas de banho e um espaço de leitura que recebe as escadas de acesso e distribui para as outras áreas. Todas as principais divisões deste piso têm ligação para fora, e disfrutam, por isso, da iluminação natural e do contacto com exterior. Os espaços criados por Niemeyer são o resultado, usando as suas palavras, da “arquitetura e da própria natureza, que também envolve e limita”.16 15 CORONA, Eduardo - Óscar Niemeyer: Uma lição de Arquitectura. São Paulo: FUPAM, 2001. P.:49 16 Id. Ibid., P.:36
96 SOBRE A SINGULARIDADE DO LUGAR (fig. 12) INTERIOR . ACESSO E PEDRA FOTOGRAFIA RETIRADA DE www.archdaily.com (fig. 9) DISTRIBUIÇÃO FUNCIONAL . ESTUDO ISCTE - Oscar Niemeyer 2001 (fig. 10) ÁREAS DE ESTAR . INTERIOR FOTOGRAFIA DE FRANK VAN LEERSUM (fig. 11) ESTUDO DE MOVIMENTO (fig. 13) INTERIOR . SALA E PEDRA FOTOGRAFIA DE LEONARDO FINOTII
CASOS DE ESTUD0 # 04 CASA DE CANOAS . ÓSCAR NIEMEYER 97 O acesso que relaciona os dois pisos é feito através de uma escada interior que surge na zona social da casa – sala de estar e sala de jantar. (fig.12) Esta escada têm um dos elementos mais marcantes e enigmáticos da obra do arquiteto brasileiro em Canoas, um “enorme e surrealista bloco de granito”17 , como descreve David Underwood, que surge entre o exterior e o interior invadindo o espaço da habitação. (fig.13) A noção mais forte que se depreende desta intromissão é a de que a obra de Niemeyer foi criada em função e em torno deste objeto inerte. Este projeto do arquiteto brasileiro é prova, para Le Corbusier, de que a “paixão pode criar o drama a partir da pedra inerte”.18 A sua dimensão compreende o espaço entre a cobertura e o solo, e acompanha a descida das escadas para baixo da terra incentivando a ideia de enraizamento, de ponto central difusor de toda a construção. No exterior a pedra faz a ligação entre o interior e a piscina, que aparece desenhada como um lago natural entre a vegetação densa que a abraça. Niemeyer cinge intimamente a sua obra à natureza do lugar, refletindo o seu desejo de permanente integração através da “descoberta sensual de uma rocha e de uma casa que dela emana, em um microcosmo poético da paisagem brasileira”. 19 O trabalho de Niemeyer parece procurar as qualidades de uma substância líquida, pois para além da perceção que o estudo do projeto em planta nos dá da forma como o volume permite a intromissão e a confluência entre o espaço exterior e o interior, também o corte nos fornece informação sobre o carater dinâmico e fluido que o arquiteto encontra na fusão entre a topografia, a construção e a vegetação. No perfil longitudinal da casa compreende-se a intervenção de Niemeyer sobre o terreno que com a simplicidade de uma linha curva mostra a sua capacidade de perceber e “transformar a topografia em poesia lírica”. 20 Niemeyer afirma até nem ter tocado no terreno - “I did not touch the terrain” 21. Compreende-se esta 17 UNDERWOOD, David - Óscar Niemeyer e o modernismo de formas livres no Brasil; trad. Betina Bischof. São Paulo: Cosac & Naify, 2002. P.: 75 18 LE CORBUSIER. In UNDERWOOD, David - Óscar Niemeyer e o modernismo de formas livres no Brasil; trad. Betina Bischof. São Paulo: Cosac & Naify, 2002. P.: 75 19 UNDERWOOD, David - Óscar Niemeyer e o modernismo de formas livres no Brasil; trad. Betina Bischof. São Paulo: Cosac & Naify, 2002. P.: 77 20 Id. Ibid., P.: 17 21 PHILIPPOU, Styliane - The Dancing Curves of Oscar Niemeyer’s House at Canoa. [web] Werk, Bauen + Wohnen nº3 (2013) [consult. 11 Agosto 2015]. Disponível em: http://www.wbw.ch/ en/magazine/reports/original-texts/2013-3-the-dancing-curves-of-oscar-niemeyers-house-at-canoa.html. P.:2
98 SOBRE A SINGULARIDADE DO LUGAR (fig. 14) ESQUEMA DE CORTE . LONGITUDINAL AÇÃO SOBRE A TOPOGRAFIA (fig. 16) RELAÇAO COM A ENVOLVENTE ISCTE - Oscar Niemeyer 2001 (fig. 15) ESQUEMA DE PLANTA. CURVAS DE NIVEL AÇÃO SOBRE A TOPOGRAFIA
CASOS DE ESTUD0 # 04 CASA DE CANOAS . ÓSCAR NIEMEYER 99 afirmação porque, na realidade, o arquiteto nunca tentou domar a natureza indomesticada 22 que envolvia a casa, nunca se sobrepôs às circunstâncias. Permitiu que elas o rodeassem e abrigassem a sua casa, pois o arquiteto brasileiro não vê a natureza como inimiga do Homem. 23 Mas apesar de se integrar e de aceitar a envolvência natural, Niemeyer revela com o projeto de Canoas que não submete a sua arquitetura inteiramente às características do lugar. O perfil longitudinal em estudo denota precisamente a ação preponderante do arquiteto sobre a topografia. Há uma intervenção no solo, há uma alteração no terreno. (fig.14) Contudo, é com esta decisão de projeto, que transforma o terreno, que Niemeyer produz a noção de uma subtil e simples integração da arquitetura no lugar. (fig.15) O arquiteto cria uma plataforma à cota de entrada que uniformiza o terreno, sem contudo desligar-se da geografia em seu redor. Esta plataforma, em que sustenta o piso superior, encontra-se abaixo do nível da rua, de tal forma que da Estrada das Canoas apenas podemos ver a fachada da cobertura, branca e icónica. O afastamento permitiu a Niemeyer posicionar a sua casa de forma a controlar o desnível do vale e, no local de implantação, o arquiteto teve de gerir uma diferença de cotas inferior a 10 metros. O desnível foi, então, subtilmente suavizado com uma plataforma e um movimento contínuo de descida que segue a construção dos dois níveis da habitação. O nível inferior permanece enterrado, até ao limite da plataforma do piso superior que se estende em direção ao Atlântico para terminar na orla da clareira, o que nos impede de sentir a presença do patamar inferior. A atitude possibilita não só o isolamento da área mais reservada da casa, como também a noção de continuidade, sem barreiras ou muros com a envolvente natural. A vontade de extensão de limites, e de relacionamento próximo com o lugar são particularmente evidentes no piso superior da habitação, por isso é o mais fotografado, descrito e registado. Os vãos da zona social da casa trabalham em conjunto com os espaços interiores livres para produzirem um sentimento de extensão ao exterior exótico e espesso, encontrando fronteira nos extremos da clareira. (fig.16) A luz entra na casa sob um filtro protetor da sobra proporcionada pela envolvente natural e a cobertura que se prolonga, num movimento curvilíneo, para lá do 22 PHILIPPOU, Styliane - The Dancing Curves of Oscar Niemeyer’s House at Canoa. [web] Werk, Bauen + Wohnen nº3 (2013) [consult. 11 Agosto 2015]. Disponível em: http://www.wbw.ch/ en/magazine/reports/original-texts/2013-3-the-dancing-curves-of-oscar-niemeyers-house-at-canoa.html P.: 2 23 PAPADAKI, Stamo – Óscar Niemeyer. Nova Iorque: George Braziller, 1960. P.:9
100 SOBRE A SINGULARIDADE DO LUGAR (fig. 17) VISTA AEREA FOTOGRAFIA DE LIFE MAGAZINE
CASOS DE ESTUD0 # 04 CASA DE CANOAS . ÓSCAR NIEMEYER 101 limite dos caixilhos. A presença do enorme rochedo que pertence aos dois mundos – interior e exterior – incentiva à aceção deste piso como o mais marcante da casa. Contudo, a transferência que o arquiteto brasileiro consegue de um piso para outro e a relação distinta que ambos tem com o lugar, espelha-se em corte e, de forma surpreendente, revela-se, quase como um segredo, a densidade da intervenção no terreno. Estas ações e escolhas de Niemeyer provêm da perseguição de “uma força alimentadora”, de uma inspiração, para os seus projetos na “natureza”, e de criar uma “arquitetura natural” que se suporta nas qualidades do lugar. 24 (fig.17) “Duvido que alguma vez possa esquecer aquela cena: o sol tinha apenas mergulhado por trás do horizonte, deixando-nos num escuro mar de laranja, violeta, verde e anil. A casa repetia os temas da orgiástica paisagem (fragância, zumbido dos insetos); uma vasta rapsódia, começando na cobertura, descia vibrando as paredes e os seus nichos para acabar na piscina, onde a água, em vez de ordenadamente murada, espalhava-se com liberdade ao longo das rochas de um tipo de piscina florestal”. Ernesto Rogers 25 A magia está na pedra, na fluidez orgânica na cobertura, o movimento está na divisão dos espaços, mas a relação com o lugar aparece omnipresente em todas as decisões do projeto como um reflexo de um princípio básico 26 do arquiteto. É isso que se compreende no estudo da obra e nas palavras de Niemeyer, uma ambição e um respeito pela ordem natural, porque a casa não imita a natureza, não prescinde de se envolver no espaço que a rodeia. O arquiteto “corta os espaços livres e neles integra a sua arquitetura” 27 preservando o carácter informe e livre da envolvente, dotando o ambiente de qualidades fluidas e generosas com o lugar. Desta forma a arquitetura assume a sua “condição natural e eterna”, que Niemeyer prefere, “de elemento criador de vida, beleza e emoção”. 28 24 UNDERWOOD, David - Óscar Niemeyer e o modernismo de formas livres no Brasil; trad. Betina Bischof. São Paulo: Cosac & Naify, 2002. P.: 74 25 ROGERS, Ernesto - Report on Brazil. In Architectural Review, (Outubro,1954) p. 240 26 CORONA, Eduardo - Óscar Niemeyer: Uma lição de Arquitectura. São Paulo: FUPAM, 2001. P.: 48 27 Id. Ibid., P.: 37 28 Id. Ibid., P.: 49
102 SOBRE A SINGULARIDADE DO LUGAR Por isso se destaca o projeto da Casa das Canoas, que em cada centímetro de construção se infiltra profundamente com o lugar, tornando-se indissociável daquela clareira, daquela pedra, do vale e dos montes que rodeiam o Rio. Niemeyer cria aqui “uma arquitetura sujeita aos sentimentos humanos, mais fortes que a linha da teoria e da razão”, e com isso alcança aquilo que viu noutros marcos da arquitetura – “harmonia e beleza” – que lhe permitirão prevalecer ao lado deles “através dos séculos”.29 29 CORONA, Eduardo - Óscar Niemeyer: Uma lição de Arquitectura. São Paulo: FUPAM, 2001. P.: 49
CASOS DE ESTUD0 # 04 CASA DE CANOAS . ÓSCAR NIEMEYER 103
110 SOBRE A SINGULARIDADE DO LUGAR “ (…) [a arquitetura] é uma busca por permanência e o sentimento de pertencer a algo num universo em constate transformação e até mesmo hostil, uma tentativa de encontrar harmonia num ambiente muitas vezes caótico, uma experiência que se dá por diversos meios e que agrega os sentidos e o espírito humanos em uma celebração de livre imaginação e da fantasia.” Óscar Niemeyer 7 “También la naturaleza debería vivir su propia vida. Deberíamos evitar pertúrbala con el colorido de nuestras casas y del mobiliario (…) De todas as maneras deberíamos esforzarnos por conseguir establecer una mayor armonía entre la naturaleza, vivienda y el hombre.” Mies van der Rohe 8 Estas situações mostram a maneira como os dois arquitetos se aproximaram do lugar e das suas questões. Apesar de se terem confrontado com problemas distintos e a sua abordagem individual ter permitido resultados inteiramente diferentes, a vontade expressa por ambos é em tudo semelhante. Porque a ambição destas duas casas é pertencer, em harmonia e em continuidade às clareiras em que foram implantadas. O desejo parece ter sido concretizado e as duas obras tornaram-se muito dependentes da sua relação com o lugar - com a sua luz e com a sua vegetação – e, fora dele ficariam esvaziadas de sentido as opções de projeto. Seriam, então, vistas como simples objetos arquitetónicos cuidadosamente detalhados, mas desprovidos da magia que a sua dependência ao lugar lhes proporciona. “A arquitetura é a primeira manifestação do homem, criando-o à imagem da natureza, submetendo-se às leis da natureza, às leis que governam a nossa própria natureza, nosso universo.” Le Corbusier 9 7 UNDERWOOD, David - Óscar Niemeyer e o modernismo de formas livres no Brasil; trad. Betina Bischof. São Paulo: Cosac & Naify, 2002. P.: 50 8 NORBERG-SCHULZ, Christian – Rencontre Avec Mies van der Rohe. L’Architecture d’Aujourd’hui. Paris, nº9 (Setembro , 1958), p. 40-41. 9 LE CORBUSIER. In UNDERWOOD, David - Óscar Niemeyer e o modernismo de formas livres no Brasil; trad. Betina Bischof. São Paulo: Cosac & Naify, 2002. P.: 49
CASOS DE ESTUD0 # 03 CASA FARNSWORTH . # 04 CASA DE CANOAS 111 As duas obras vivem da orla das clareiras, do contacto com o solo, e do convívio com a luz. Estas são características irrepetíveis da natureza destes lugares, que permaneceriam os mesmos se lhes fosse retirada a presença da arquitetura, pois o seu carácter permanece independente desta. Contudo, a forma como a natureza é vista e enquadrada pelos arquitetos nas suas obras faz com que esta transcenda as suas qualidades naturais e se torne num estrato único destacado e realçado pelos projetos. Tornam-se, com a arquitetura, em momentos sublimes e singulares, no fundo irrepetíveis pela excecional qualidade das obras que foram integradas no seu seio natural.
112 SOBRE A SINGULARIDADE DO LUGAR
CASOS DE ESTUD0 # 05 COMPLEXO DE TALIESIN WEST . FRANK LLOYD WRIGHT 113 COMPLEXO DE TALIESIN WEST Frank Lloyd Wright 1937-1959 #05 O projeto de Taliesin West começou no ano de 1937 e foi sofrendo muitas alterações, acrescentos e remodelações até ao ano de 1959, em que se pode afirmar que o complexo atingiu a dimensão final. Esta distância temporal de mais de duas décadas entre o início e a conclusão do projeto é um fator determinante, porque, como afirma De Long, Taliesin West é um dos lugares em o arquiteto trabalhou mais tempo, e por isso exerceu mais controlo sobre a obra, o que resultou numa fusão gradual entre os edifícios e o terreno.1 A obra desenvolve-se assim como uma paisagem natural, 1 WHISTON, Anne – Architect of Landscape. In LONG, David G. de - Frank Lloyd Wright: Designs for an American landscape: 1922-1932. 1º ed. New York: Harry N. Abrahams, 1996. P.: 158
114 SOBRE A SINGULARIDADE DO LUGAR (fig. 1) VISTA DE TALIESIN WEST . INTEGRAÇÃO DE LONG, David G. - Frank Lloyd Wright : designs for an american landscape : 1922-1932
CASOS DE ESTUD0 # 05 COMPLEXO DE TALIESIN WEST . FRANK LLOYD WRIGHT 115 construindo-se e alterando-se contínua e suavemente sobre a ação do tempo, por isso têm na sua essência a mudança, a sua forma é o resultado direto da adição e da subtração, do acrescento e da erosão, do crescimento e da decadência. 2 A obra foi implantada no deserto do Arizona. (fig.1) Construir no deserto representava uma descoberta, um desafio para Wright. O arquiteto sentia-se seduzido por estes lugares que encerravam com muita clareza e simplicidade a estrutura primária da paisagem, e nenhum outro lugar revelava de forma tão expressiva o seu carácter como o deserto. 3 Era um estímulo muito forte para o arquiteto, que se interessava profundamente pelo lugar, pelas qualidades intrínsecas e orgânicas que o formavam -“(…) the desert is shocking: bright crystalline light, but above all the clarity and stark simplicity of landscape structure revealed. 4 O projeto surgiu desta atração pelo sítio – “we found Paradise” –,a vontade de construir uma vida no deserto. 5 A construção baseia-se num conjunto de edifícios destinados a receber estudantes e estagiários do arquiteto, para trabalharem naquele local à margem do mundo com que se relacionavam habitualmente. (fig.2 e fig.3) Num local com as características certas para que pudessem observar, compreender e experienciar de forma prática os conhecimentos de Wright sobre as questões do terreno e do lugar; em Taliesin West, “philosophy and experiences were central part of the live he designed for and shared with Taliesin’s apprentices from 1932 until his death in 1959”.6 O programa é composto por três grandes núcleos que se ligam entre si: um de estudo e de trabalho, outro com as áreas comuns e convívio e um último com os espaços de dormitório. (fig.4) Nesta obra Wright conseguiu produzir uma arquitetura que, segundo Anne Whiston, “is simultaneously functional, pleasurable, and ideological, where landscape is embellished to express ideas of na2 WHISTON, Anne – Architect of Landscape. In LONG, David G. de - Frank Lloyd Wright: Designs for an American landscape: 1922-1932. 1º ed. New York: Harry N. Abrahams, 1996. P.: 159 3 Id. Ibid., P.: 157 4 Id. Ibid., P.: 150 5 Id. Ibid. 6 Id. Ibid., P.: 136
116 SOBRE A SINGULARIDADE DO LUGAR (fig. 2) VISTA AEREA . LOCALIZAÇÃO IMAGEM RETIRADA DE GOOGLE MAPS (fig. 5)ESPAÇO EXTERIOR EM RELAÇAO COM O DESERTO THOMSON, Iain - Frank Lloyd Wright : a visual encyclopedia. (fig. 4) PLANTA . ESTUDO DE DISTRIBUIÇÃO FUNCIONAL IMAGEM RETIRADA DE www.taliesinwest.wordpress.com (fig. 1) VISTA AEREA APROXIMADA. LOCALIZAÇÃO IMAGEM RETIRADA DE GOOGLE MAPS
CASOS DE ESTUD0 # 05 COMPLEXO DE TALIESIN WEST . FRANK LLOYD WRIGHT 117 ture and humanity”. 7 Ou seja, para além do projeto interior do complexo, também as áreas exteriores foram cuidadosamente elaboradas, e esse trabalho compreende-se nas características distintas que o arquiteto dotou cada um destes espaços, e na forma como os relacionou com o interior, criando um entrosamento com a envolvente que eleva a qualidade da arquitetura. (fig.5) “Taliesin West is an integrated complex of buildings, courtyards, and gardens aligned, notched, and knit into this landscape: walls, roofs, pergolas, and paths catch sunlight and cast shadows; sight lines point to distant landforms; walls cut into, extend above, reach out to the immediate terrain.” Anne Whiston 8 Em 1938, o arquiteto tinha um estudo pormenorizado do lugar, com a topografia marcada detalhadamente e descrito todo o trabalho de movimento de terra que era necessário para construir a obra, descrito. Esta análise mostra que ele tinha não só um plano de construção de um conjunto edifícios, mas também, em paralelo, um projeto alargado para o local, porque para Wright a arquitetura tinha como dever intensificar, ou até completar, as estruturas naturais existentes no terreno.9 Portanto, desde a escolha do lugar de implantação, junto ao ponto de referência topográfica mais proeminente do local - a South Mountain, uma cordilheira a nascente -, que as decisões do arquiteto mostram um claro envolvimento com o carácter e a natureza do terreno - Taliesin West was built into the land and out of it, the geometry of its plan inspired by angles of the surrounding terrain (…) ”. 10 Taliesin West remete-nos precisamente para a forma como Wright pensa e elabora os espaços, indistintamente internos ou externos, refletindo sempre um conhecimento profundo do lugar nas suas opções de projeto. Por isso enquadra-se neste estudo como mais uma obra que resulta da interpretação de um lugar excecional, distinto e surpreendente. 7 WHISTON, Anne – Architect of Landscape. In LONG, David G. de - Frank Lloyd Wright: Designs for an American landscape: 1922-1932. 1º ed. New York: Harry N. Abrahams, 1996. P.: 155 8 Id. Ibid., P.: 150-151 9 LONG, David G. de - Frank Lloyd Wright: Designs for an American landscape: 1922-1932. 1º ed. New York: Harry N. Abrahams, 1996. P.: 11 10 WHISTON, Anne – Architect of Landscape. In LONG, David G. de - Frank Lloyd Wright: Designs for an American landscape: 1922-1932. 1º ed. New York: Harry N. Abrahams, 1996. P.: 157
118 SOBRE A SINGULARIDADE DO LUGAR Em redor não há referências de edificados pré-existentes, porque tanto a estrada como a zona habitacional mais próxima encontravam-se a alguns quilómetros de distância do terreno de Taliesin West - “Wright was a ‘pioneer’ (…) settling in a landscape that seemed remote, the nearest road a dirt track, the nearest settlement a few miles away” 11 Por isso, Wright “prendeu” a sua obra ao solo, utilizando as linhas e materiais do deserto como principal objeto de trabalho. Esta perceção levou-o a desenvolver uma relação intensa com a geografia do lugar, que se entende a partir de uma vista aérea sobre a obra, na qual depreendemos uma ambição de continuidade intendida na extensão dos muros do projeto sobre o território. Reflexo de uma atitude que o arquiteto já tinha integrado na sua forma de projetar, mas também de uma necessária procura de limites que eram escassos na aridez do local. Wright estende o seu complexo de edifícios por uma distância de aproximadamente 2,5 km, em que insere não só o programa necessário como também vários espaços – jardins, pátios, espelho de água, pérgula entre outros – que densificam a qualidade de relações entre o interior e o exterior. “The terraces and gardens of Taliesin emanate outward from the dwelling; the reverse is also true: landscape suggested the form of the buildings, the size and placement of windows. It is often impossible to say where building ends and landscape begins.” 12 Wright moldou os seus edifícios para retirar o máximo partido do carácter intrínseco da paisagem. Assim, quem se encontra no interior compreende através dos vãos a envolvente capturada do deserto, umas vezes mediada por estes muros e espaços exteriores desenhados por Wright, outras vezes crua e árida sem filtros construídos. Mas os vãos surgem sempre como um resultado ponderado e objetivo que influi dinâmica – “a sense of flux and mutability”. 13 - pela cadência com que o arquiteto abre e fecha os pontos de vista para o exterior. “Again and again, I found myself inside the buildings looking out to distant views of hills, lakes, trees, and buildings, following the plane of interior floor to exterior terrace, then outside, tracing 11 MYERS SEITTERS, Patricia – Scottsdalle Jewel in the Desert. [Nova Iorque]: Windsor Publications, 1988 12 WHISTON, Anne – Architect of Landscape. In LONG, David G. de - Frank Lloyd Wright: Designs for an American landscape: 1922-1932. 1º ed. New York: Harry N. Abrahams, 1996. P.: 158 13 Id. Ibid., P.: 159
CASOS DE ESTUD0 # 05 COMPLEXO DE TALIESIN WEST . FRANK LLOYD WRIGHT 119 the line of walls and roofs as they slid into terrain in a fusion of building and earth.”14 O arquiteto suporta-se na geometria para criar o volume compreendendo a topografia através de uma abstração linear que lhe permite uma ação racional sobre o terreno – “Wright abstracted the formal structure of the landscape, the angles of mountain peaks and talus at the base of nearby hills, and applied that triangular geometry to the form of the house and garden and structure of the whole. 15A geometria é para o arquiteto a forma de compreensão da realidade, como uma ferramenta de síntese da estrutura do terreno -“Structure is the very basis of what I call reality”16 Para Wright um arquiteto deveria impor uma geometria idealizada a partir do carácter da envolvente natural sobre o terreno, num ato ponderado de alteração da paisagem para que esta corresponda às características essênciais do lugar, à sua estrutura primária. 17 Ainda sobre a definição da forma de Taliesin West, Wright baseou- -se na orientação solar para implantar e alinhar a geometria do edifício, definindo um eixo ao longo do qual, organizou o complexo para que as paredes e vãos dos edifícios recebem luz do sol nascente ou poente, como afere Whiston, Wright considered the orientation of this spine carefully (…) The spine is aligned so that the walls of the buildings that line it received both morning sun and afternoon light, and so that ends of the main path point to distant landforms.”18 (fig.6) A partir deste eixo concebeu uma malha ortogonal, na qual distribui as várias funções do complexo, no entanto, entende-se também em planta a presença forte de uma outra direção que rasga a retícula base, que surge de norte para sul, e parece estabelecer um alinhamento paralelo com a formação montanhosa que se define a nascente. Este alinhamento cria linhas diagonais que permitem a diversificação de espaços e ligações com a envolvente, fundindo desta forma geometria e 14 WHISTON, Anne – Architect of Landscape. In LONG, David G. de - Frank Lloyd Wright: Designs for an American landscape: 1922-1932. 1º ed. New York: Harry N. Abrahams, 1996. P.: 158 15 WHISTON, Anne – Architect of Landscape. In LONG, David G. de - Frank Lloyd Wright: Designs for an American landscape: 1922-1932. 1º ed. New York: Harry N. Abrahams, 1996. P.: 157 16 BROWNELL, Baker, WRIGHT, Frank Lloyd - Architecture And Modern Life. [Nova Iorque]: Harper & brothers (1937) P.:277 17 WHISTON, Anne – Architect of Landscape. In LONG, David G. de - Frank Lloyd Wright: Designs for an American landscape: 1922-1932. 1º ed. New York: Harry N. Abrahams, 1996. P.: 156 18 Id. Ibid., P.: 150
126 SOBRE A SINGULARIDADE DO LUGAR
CASOS DE ESTUD0 # 06 CASA AZUMA TADAO ANDO 127 CASA AZUMA Tadao Ando 1975-1976 #06 Este projeto de Tadao Ando foi realizado entre 1975 e 1976, na cidade de Osaka, no Japão. Situa-se numa zona densamente edificada, com uma malha apertada que define rigidamente o lote trabalhado pelo arquiteto. Lampugnani descreve de forma simples a obra de Ando como: “uma pequeníssima casa alinhada, inserida numa fila casas igualmente pequenas (...) ”. 1 (fig.1) Na sua maioria pertencentes a uma antiga classe operária, são feitas em madeira e agrupam-se empacotando espaços de habitar em áreas reduzidas. O espaço da rua, negligenciado, é apenas o resultado deste aglo1 LAMPUGNANI, Vittorio Magnano – Três Casas de Tadao Ando. In DAL CO, Francesco - Tadao Ando: as obras, os textos, a crítica; trad. Margarida Periquito. 1ª ed. Lisboa : Dinalivro, 2001. P.: 503
128 SOBRE A SINGULARIDADE DO LUGAR (fig. 1) ANDO, Tadao - Tadao Ando 1: Houses & Housing. (fig. 2) ANDO, Tadao - Tadao Ando 1: Houses & Housing.
CASOS DE ESTUD0 # 06 CASA AZUMA TADAO ANDO 129 merado de casas, o que tem como consequência um ambiente exterior de excesso de edificação e falta de luz. (fig.2) Estas características podem ser encontradas em muitos locais, em diferentes cidades e países, e por isso a forma como o arquiteto japonês se relacionou com a envolvente é motivo de interesse e estudo nesta tese. O projeto para a casa Azuma, não é senão um resultado desta sobrecarga de construção, é uma resposta à falta de espaço exterior com qualidade e iluminação. Ando tendo em conta a realidade de “desenvolvimento insano e as condições de sobrepovoamento”, que observa, afirma que “nos dias de hoje, o que há a fazer é construir paredes que separem radicalmente o interior do exterior.”2 (fig.3) O arquiteto soluciona o programa interior em dois pisos, com dois quartos, áreas de estar e serviços de uma forma perspicaz em que estes não serem forçados a conviver com o espaço público. Ando substitui um dos pequenos edifícios da rua, “decalcando a sua superfície e o seu perímetro, mas não a sua tipologia”.3 O arquiteto japonês altera a composição e a distribuição interior conformando um núcleo de habitar com os mesmos limites das casas adjacentes, mas com um resultado de qualidade interior distinto. Cria para os espaços internos uma realidade própria no meio de uma envolvente caótica que Ando escolhe ignorar. Esta atitude do arquiteto perante o lugar abre o estudo desta tese a uma vertente urbana, altamente construída, cujas circunstâncias externas do lugar não qualificam o espaço interno da casa, e por isso é necessário encontrar soluções arquitetónicas que permitam uma relação com exterior através da construção de uma realidade alternativa. O lugar de implantação da casa Azuma é num lote central de um conjunto de três casas em linha, com dois pisos, de construção antiga em madeira, como já foi referido ser comum na área. A habitação que se encontrava no centro deste conjunto foi demolida por completo, e no vazio estreito e profundo que resultou da demolição, Tadao Ando edificou o seu projeto – “The central part of three row houses was excised, and a concrete box was inserted.”4 2 ANDO, Tadao – A Parede como Limite de um Território. In DAL CO, Francesco - Tadao Ando: as obras, os textos, a crítica; trad. Margarida Periquito. 1ª ed. Lisboa : Dinalivro, 2001. P.: 445 3 LAMPUGNANI, Vittorio Magnano – Três Casas de Tadao Ando. In DAL CO, Francesco - Tadao Ando: as obras, os textos, a crítica; trad. Margarida Periquito. 1ª ed. Lisboa : Dinalivro, 2001. P.: 503 4 ANDO, Tadao - Tadao Ando 1: Houses & Housing. Tokyo: Toto Shuppan, 2007. P.:91
130 SOBRE A SINGULARIDADE DO LUGAR (fig. 3) ESQUEMA . LOCALIZAÇÃO URBANIZAÇÃO DENSA (fig. 4) ESQUEMA . ESTUDO DE RELAÇÃO ENTRE HABITAÇÕES (fig. 5) PLANTA E CORTE . ESTUDO DISTRIBUIÇÃO FUNCIONAL (fig. 6) DUAS VISTAS . PÁTIO CENTRAL ANDO, Tadao - Tadao Ando 1: Houses & Housing. (fig. 7) DESENHOS DE TADAO ANDO . RELAÇAO COM A ENVOLVENTE
CASOS DE ESTUD0 # 06 CASA AZUMA TADAO ANDO 131 Ando é, por isso, obrigado a cingir-se ao lote e a solucionar a obra no pouco espaço concedido. Foi um desafio para o arquiteto japonês – “This is a house that challenged limits even during its construction”- , a margem de manobra de conceção e de construção era miníma, como reflete autor no mesmo texto, “the gaps between the box and the neighboring houses are not even wide enough for a person to enter, so the formwork for the concrete could not be removed.”5 O lote oferece apenas duas frentes, visto que a proximidade as casas contíguas não permite nenhuma abertura. Uma das frentes voltada a poente têm o acesso da habitação à rua; a outra – a nascente – vira-se para as traseiras de uma das casas do quarteirão; esta relação com o outro lote é mediada apenas por um caminho estreito pedonal. Os desafios colocados perante a exiguidade do espaço e a saturação de construção que caracteriza o território envolvente, encontrados por Tadao Ando no local, conformam o carácter do lugar em que as soluções tipológicas para estas circunstância confinada dos terrenos são repetidas de casa para casa. Na maioria dos lotes existe um pátio, que se desenvolve no limite interior do terreno. (fig.4) Estes pátios possibilitam o afastamento do edifício que está construído diretamente atrás, e desta forma conseguem que a iluminação penetre nos vãos da fachada oposta à de entrada. Mas a relação entre os lotes permanece muito próxima, não há espaço exterior privado da casa. O pátio cumpre apenas a função de iluminar e ventilar a habitação; não produz espaço de habitar. A solução encontrada por Ando acaba por se assemelhar ao que é possível encontrar na malha urbana envolvente, porque preserva uma fachada estreita e a sua cércea à altura dos edifícios adjacentes; Ando abre também um pátio, repetindo a ação que se compreende noutras casas, no entanto, este pátio desmarca-se do limite do terreno, para ocupar o espaço central do lote. Tadao Ando cria um volume tripartido, em que o espaço central é este pátio, definindo uma estrutura longitudinal e simétrica.6 Nesta divisão igualitária compreende-se a relevância e o significado deste espaço para a organização da casa. (fig.5) O pátio é o gerador de todos os espaços, as funções da habitação giram 5 ANDO, Tadao - Tadao Ando 1: Houses & Housing. Tokyo: Toto Shuppan, 2007. P.:91 6 DAL CO, Francesco - Tadao Ando: as obras, os textos, a crítica; trad. Margarida Periquito. 1ª ed. Lisboa : Dinalivro, 2001. P.:11
132 SOBRE A SINGULARIDADE DO LUGAR entorno deste vazio, e são dependentes dele; é ele que faz chegar a luz e o vento ao interior da casa. Ele é simultaneamente um limite para cada espaço interior e um polo de confluência de elementos naturais – a device that draws in nature”. 7 Ando pretendia criar um microcosmos através desta divisão geométrica da habitação, e ao abrir inesperadamente o seu núcleo central, produz “um espaço descoberto onde seria lógico esperar-se um espaço fechado”.8 (fig.6) Ando afirma que ao criar este vazio provoca uma quebra na continuidade, e este pode ser um elemento sujeito a crítica - “The residents have to go a toilet with an umbrella on a rainy day” 9 A intenção do arquiteto foi abrir a possibilidade ao habitante da casa Azuma estar em contacto permanente com o exterior, com o lugar - “a descontinuidade permite à natureza penetrar na casa e, embora ela seja um simples invólucro em forma de caixa, retira da natureza e dos movimentos dos habitantes uma complexidade articulada” 10 Esta relação constate e incontornável entre o espaço de habitar e o espaço exterior controlado por elementos naturais - como a chuva, o vento, a temperatura - implica tornar a vida mais dura, como reflete o próprio arquiteto, mas o impacto sentido pelas mudanças de luz, a variação do clima e estações, capturado por este espaço central confere à casa Azuma o seu estatuto de obra intemporal, como afirma K. Echigojima: “this house was born to became a masterpice. ” 11. O pátio que na sua génesis é definido como um espaço exterior artificial que produz uma ambiência da natureza. Aqui é concebido como um espaço de dependência de toda a casa, que só existe vinculada à capacidade que este lugar construído e artificial têm de, no seu âmago, gerar qualidades próprias de um espaço da natureza. São estas presenças de uma realidade natural captada por este vazio central que animam o espaço interno e o enriquecem com as suas mudanças que refletem o tempo, apurando a nossa sensibilidade.12 O esforço de Ando, por isso, foi na produção dos espaços interiores em relação intima com o pátio, baseando-se na ideia de 7 ANDO, Tadao - Tadao Ando 1: Houses & Housing. Tokyo: Toto Shuppan, 2007. P.:108 8 ANDO, Tadao – Natureza e Arquitectura. In DAL CO, Francesco - Tadao Ando: as obras, os textos, a crítica; trad. Margarida Periquito. 1ª ed. Lisboa : Dinalivro, 2001. P.: 461 9 ANDO, Tadao - Tadao Ando 1: Houses & Housing. Tokyo: Toto Shuppan, 2007. P.:375 10 ANDO, Tadao – Natureza e Arquitectura. In DAL CO, Francesco - Tadao Ando: as obras, os textos, a crítica; trad. Margarida Periquito. 1ª ed. Lisboa : Dinalivro, 2001. P.: 461 11 Echigojima. In ANDO, Tadao - Tadao Ando 1: Houses & Housing. Tokyo: Toto Shuppan, 2007. P.:375 12 ANDO, Tadao –Interior e Exterior. In DAL CO, Francesco - Tadao Ando: as obras, os textos, a crítica; trad. Margarida Periquito. 1ª ed. Lisboa : Dinalivro, 2001. P.: 449
CASOS DE ESTUD0 # 06 CASA AZUMA TADAO ANDO 133 que a “arquitetura pode tornar-se o instrumento que permite ao homem entrar em contacto com a natureza”; 13 e que é um veículo essencial para esta ligação numa sociedade extremamente urbana e densificada. Funcionalmente, Ando distribuiu no piso inferior, duas grandes áreas para além do pátio central, que são a zona de estar -a primeira divisão do projeto a partir da entrada - e a zona de jantar e cozinhar. Estes dois espaços encontram-se voltados e abertos amplamente para o pátio, que é único elemento que lhes fornece luz e ventilação. As transparências dos vãos de vidro e o pavimento contínuo do pátio para as áreas internas produz uma difusão entre a área exterior e os espaços interiores invertendo por completo, como pretendido por Tadao Ando, “the concepts of architecture’s inside and outside.”14 No extremo nascente, oposto à entrada, encontra-se a única casa de banho da habitação. Esta divisão tem uma relação única com o exterior, que o arquiteto não repete no resto da casa - foram abertos dois vãos quadrangulares, de dimensões reduzidas cuja função é apenas de iluminar e ventilar o vestíbulo estreito da casa de banho. O acesso ao piso superior é feito pelo pátio, o que reforça mais uma vez, a importância e a dependência de toda a casa deste espaço aberto, como refere K. Echigojima, “More important is, however, the fact that the architect design the stairway and paths that connect the rooms to share the space with an outdoor courtyard.” 15 A escadaria e a ponte que liga os dois volumes construídos permite proteção para a passagem entre divisões no piso inferior, mas no piso superior o percurso pela passerelle de betão é desprotegido, perfeitamente exterior. Os dois volumes, no piso de cima, têm a função de quarto de dormir. Relacionam-se com o pátio da mesma maneira que os espaços do piso inferior, por um pano vidro, que, neste caso, preenche toda a fachada interior do quarto. A geometria destes espaços é concisa, perfeita e simétrica, e produz espaços, segundo Fransceco del Co, “anti domésticos, que acolhem a vida mas tornam-na num rito transformando as funções de habitar em simulações – mais precisamente, em manifestações de hipocrisia da própria vida, em «movimentos», poder-se-ia di13 ANDO, Tadao –Interior e Exterior. In DAL CO, Francesco - Tadao Ando: as obras, os textos, a crítica; trad. Margarida Periquito. 1ª ed. Lisboa : Dinalivro, 2001. P.: 449 14 ANDO, Tadao - Tadao Ando 1: Houses & Housing. Tokyo: Toto Shuppan, 2007. P.:103 15 Echigojima. In ANDO, Tadao - Tadao Ando 1: Houses & Housing. Tokyo: Toto Shuppan, 2007. P.:375
134 SOBRE A SINGULARIDADE DO LUGAR (fig. 7) VISTA INTERIOR . PÁTIO CENTRAL ANDO, Tadao - Tadao Ando 1: Houses & Housing. (fig. 9) VISTA INTERIOR ANDO, Tadao - Tadao Ando 1: Houses & Housing. (fig. 10) VISTA INTERIOR . PÁTIO CENTRAL ANDO, Tadao - (fig. 12) DESENHO DE TADAO ANDO . ENTRADA DE LUZ PÁTIO CENTRAL ANDO, Tadao - Architectural Monographs 14. Academy Edition. (fig. 11) DUAS VISTAS . PÁTIO CENTRAL ANDO, Tadao - Tadao Ando 1: Houses & Housing. (fig. 8) VISTA INTERIOR . CLARABÓIA ANDO, Tadao - Tadao Ando 1: Houses & Housing.
CASOS DE ESTUD0 # 06 CASA AZUMA TADAO ANDO 135 zer, que libertam a existência de todas as contingências e a protegem de toda e qualquer interferência.”.16 As áreas não são divididas de acordo com o espaço necessário para cada função, são antes o resultado de uma vontade expressa de controlar e dominar geometricamente todo o espaço, promovendo uma coerência geométrica sem precedentes “where nothing but geometric characteristics reign”.17 Na realidade Ando pretende criar o confronto entre a rotina diária e a geometria austera e indiferente à funcionalidade. O arquiteto afirma procurar intencionalmente este choque da ordem métrica absoluta com o quotidiano dos habitantes com o objetivo de “produzir conflitos que contribuam para a formação de novos espaços.”18. A casa resulta, então, de uma procura por espaços protegidos e individuais, que formem um todo com o espaço exterior do pátio que tem igual peso e valor na obra. Os espaços internos e externos completam-se, não se sobrepõem, nem se suplantam, porque a preocupação principal de Ando é “esta relação entre a individualidade e o todo”, que nos seus projetos “cresce do interior para o exterior”. 19 (fig.7 - fig.10) No estudo dos cortes e perfis também se compreende a coerência geométrica entendida em planta. Aliás, a informação esclarece no campo tridimensional a caixa rígida de betão criada pelo arquiteto japonês, e sublinha, com muita evidência, a dependência que toda a casa tem do vazio central. No entanto, mostra que o pátio não é a única fonte de luz que Ando oferece aos espaços interiores. No corte longitudinal, compreende-se a existência de duas claraboias. Uma que permite a iluminação zenital do quarto no extremo nascente. E outra abertura, no extremo oposto que ilumina a zona de entrada na habitação. (fig.11 e fig. 12) Esta última, participa na fachada principal da casa, na qual o vão de acesso – que é apenas um buraco, e não uma porta – se encontra iluminado de forma difusa pela claraboia. Este pormenor revela um trabalho intenso de Ando sobre a luz, sobre os materiais e as sensações que estes despertam no observador porque a sua arquitetura “dirige-se aos sentidos”.20 A luz é determinante 16 DAL CO, Francesco - Tadao Ando: as obras, os textos, a crítica; trad. Margarida Periquito. 1ª ed. Lisboa : Dinalivro, 2001. P.:12 17 Echigojima. In ANDO, Tadao - Tadao Ando 1: Houses & Housing. Tokyo: Toto Shuppan, 2007. P.:375 18 ANDO, Tadao –Pontos Programáticos. In DAL CO, Francesco - Tadao Ando: as obras, os textos, a crítica; trad. Margarida Periquito. 1ª ed. Lisboa : Dinalivro, 2001. P.: 452 19 Id. Ibid. 20 ANDO, Tadao – Uma Cunha de Circunstâncias. In DAL CO, Francesco - Tadao Ando: as obras, os textos, a crítica; trad. Margarida Periquito. 1ª ed. Lisboa : Dinalivro, 2001. P.: 444
142 SOBRE A SINGULARIDADE DO LUGAR (fig. 1) CASA AZUMA FOTOGRAFIA DE HIROMITSU MORIMOTO (fig. 2) COMPLEXO DE TALIESIN WEST FOTOGRAFIA DE KIDDER SMITH
CASOS DE ESTUD0 # 05 COMPLEXO DE TALIESIN # 06 CASA AZUMA 143 O isolamento desconfinado do terreno de Taliesin West e o confinamento estreito da Casa Azuma colocam questões de limite, enquadramento e relação com a envolvente que são comuns aos dois casos. Durante o estudo entendeu-se que os projetos se assemelhavam na forma como os seus arquitetos fizeram refletir a preocupação da ligação entre o interior e o exterior. Na Casa Azuma e em Taliesin West, percebe-se a influência dos dois lugares, de presença forte e dinâmica inflexível que não foi de nenhuma forma negligenciada pelos arquitetos. Os dois compreenderam o carácter do lugar em que tinham que trabalhar e traçaram estratégias distintas para suplantar as questões próprias de cada um dos territórios. As circunstâncias impostas pela aridez do deserto do Arizona, sem referências ou pré-existências, fizeram com que Wright se tivesse que debruçar sobre a topografia para implantar e fixar a sua obra ao terreno. O arquiteto americano estudou profundamente o solo, com a intenção clara de desenvolver um projeto com referências constantes ao lugar de inserção. No caso de Ando, o confinamento e a rigidez inflexível do espaço era de tal forma limitador que não ofereceu dúvidas sobre o local de edificação. No entanto, a qualidade do espaço exterior não permitia ao arquiteto uma resolução simples e direta do contacto entre os espaços interiores e a rua. Ando esforçou-se, então, por desenvolver espaços internos demarcados do ambiente do local, mas simultaneamente carregados de influências exteriores. Os dois procuraram intensamente produzir espaços com luz natural, e em relação com o vento, com a chuva - espaços onde se sentisse a presença da natureza. O estudo destas obras permitiu compreender a ambição dos dois arquitetos em produzir interiores invadidos por elementos naturais que lhes concedessem qualidades invulgares. A habitação de Ando é o resultado de uma evidente seleção das qualidades exteriores que ele pretende trazer para dentro de casa. O caso de Wright não é tão demonstrativo, no entanto, o projeto de vãos e a implantação dos edifícios reflete uma escolha ponderada da envolvente que deve ser transportada para as divisões internas. A obra de Ando é “(…) sinónimo de exclusão de tudo o que pode interferir com a continuidade, de rejeição dos elementos perturbadores originados pela funcionalidade, de ordem que se exime ao uso, de isolamento do organismo residencial em relação ao ambiente que o rodeia. (…) Comprimida no ambiente urbano que a acolhe, a ele opõe a impenetrabilidade do seu invólucro e a matérica declaração de estranheza da fachada.” Franscesco Dal Co 1 1 DAL CO, Francesco - Tadao Ando: as obras, os textos, a crítica; trad. Margarida Periquito. 1ª ed. Lisboa : Dinalivro, 2001. P.:13 - 14
144 SOBRE A SINGULARIDADE DO LUGAR “To Wright, landscape was often an imperfect, outward manifestation of nature; the task of the architect was to bring the outer in closer conformity with the inner ideal, its nature, or essential characteristics.” Anne Whiston 2 Os dois arquitetos excutam uma análise minuciosa às características do lugar em que inserem as suas obras para, em seguida, apoiarem as decisões de projeto na síntese que fizeram da evolvente. Ambos utilizam a geometria como ferramenta para interpretar a realidade, e integrar as suas construções. Wright implanta o seu projeto tomando como base a topografia e a orientação solar, e encontra na estrutura do terreno o mote para o alinhamento dos edifícios do complexo, trançando eixos amplos e extensos que se prendem ao território. Através da geometria organiza também a distribuição funcional, que gere de acordo com o movimento solar. Em Tadao Ando também é a ordem geométrica que prevalece, neste caso, respondendo ao caos da envolvente urbana. A caixa de betão do arquiteto japonês é uma abstração das construções adjacentes, e de forma dura cria um corte com as circunstâncias em que se insere. Esta rejeição é também uma maneira do arquiteto se relacionar com o que o rodeia, afirmando o seu descontentamento com a realidade. A introspeção de Ando reflete a vontade de criar um ambiente interno em que não participassem os problemas da envolvente sobrecarregada de edificação. (…) a “true artist” must “impose” an idealized geometry derived from a landscape’s inner nature upon the given or “natural forms”. Frank Lloyd Wright 3 “Row house in Sumiyoshi is a highly geometric work. (…) If functional needs are followed, the house should be divided according to the necessary size of each room and courtyard, here, however, geometric coherence is given precedence (…). And, this has allowed the design to reach the realm of unshakable “power of contours” where nothing but geometric characteristics reign.” Echigojima 4 Apesar da vontade expressa de negar a envolvente, Ando tal como Wright, ambiciona o contacto constante com o exterior. Na casa Azuma, o pátio central é o núcleo do quotidiano da habitação, e as diferentes 2 WIHISTON, Anne – Architect of Landscape. In LONG, David G. de - Frank Lloyd Wright: Designs for an American landscape: 1922-1932. 1º ed. New York: Harry N. Abrahams, 1996. P.: 156 3 WRIGHT, Frank Lloyd - The Japanese Print: An Interpretation. [Nova Iorque]: Horizon Press, (1967). P.: 124 4 Echigojima. In ANDO, Tadao - Tadao Ando 1: Houses & Housing. Tokyo: Toto Shuppan, 2007. P.:375
CASOS DE ESTUD0 # 05 COMPLEXO DE TALIESIN # 06 CASA AZUMA 145 divisões disfrutam dos elementos naturais que são captados por ele – luz, vento, chuva, temperatura. Ando projeta este microcosmos e deixa que a natureza invada propositadamente todas as áreas da casa. A mesma coisa é procurada por Wright que desenha criteriosamente as divisões interiores, explorando a entrada de luz com vãos, claraboias e frestas. Para além, da luz o arquiteto americano define perspetivas sobre a paisagem, abrindo pontos de vista e estendendo muros pelo terreno. Desenvolve também espaços exteriores que medeiam a relação dos edifícios com o deserto. “Patterns of life and landscape merge over time as repeated shuttling along Taliesin’s paths weaves you into the landscape, immediate and distant. (…) Wright planned this structure carefully from the outset, then built it gradually.” Anne Whiston “Nas casas de Ando o tempo é medida da natureza, do seu devir, enquanto a natureza transforma o tempo numa série de manifestações fisicamente exequíveis. Esta pertença recíproca é percetível somente no interior dos espaços isolados e protegidos.” Francesco Dal Co 5 A escolha dos materiais para obra revela, no entanto, um contraste latente na posição dos arquitetos em relação à envolvente. Wright constrói o complexo de Taliesin West com materiais do deserto, criando a sensação de que o objeto construído pertence aquele terreno, surgiu da mesma matéria, obedece às mesmas leis. Em Osaka, não é isso que ocorre. Ando utiliza o betão, em contraste vincado com as construções de madeira que ladeiam a casa. Mais uma vez reforçando a diferença entre a sua habitação e as restantes. Apesar das escolhas de materiais revelarem intenções opostas, têm o dado em comum de ambas refletirem a relação da arquitetura com a envolvente. Ou seja, os dois arquitetos fizeram a opção pelos materiais do edifício projetando na seleção a relação que estes estabeleceriam com o lugar. Para além deste jogo dos materiais com a envolvente exterior, os dois projetos revelam ainda conhecimento da importante ligação entre os materiais e a luz que penetra o edifício. Aliás, a intencionalidade com que a luz é projetada para as divisões internas tendo em conta a materialidade e as funções dos espaços pode ser compreendida em Ando nas divisões que estão em contacto com o elemento nuclear do pátio, que são quase todas as áreas da casa, mas pode ser entendida, mais particularmente, no momento de entrada na casa em que o arquiteto cria uma claraboia que projeta uma luz zenital difusa sobre o espaço de penumbra, iluminando parcamente o betão e o degrau de acesso a casa. Este momento indica a noção que Ando têm do efeito que a luz produz em contacto com os materiais, e em 5 DAL CO, Francesco - Tadao Ando: as obras, os textos, a crítica; trad. Margarida Periquito. 1ª ed. Lisboa : Dinalivro, 2001. P.:14
146 SOBRE A SINGULARIDADE DO LUGAR espaços pontuais e controlados. Na obra de Wright, também é possível perceber o detalhe do seu trabalho sobre a luz na variação de dimensão e colocação de vãos, que se rege pela forma como esta invade os espaços internos. A divisão em que se pode destacar de forma mais veemente este trabalho é a da sala de projeto, em que a grande claraboia definida por Wright altera a compreensão da dimensão real do espaço, para além de que promove uma iluminação constante e equilibrada em toda a área. “He believed that architecture – of buildings and landscapes – could become “natural” if design according to principles derived from nature. The aim of his art was “truly no less than the creation of man as a perfect ‘flower of Nature’” F.L. Wright em carta para Lewis Mumford, 7 Jan. 1929 6 “Light and wind enter the four rooms that comfort each other across the courtyard coed. The courtyard contained in the middle of the dwelling is a buffer area for each space, and simultaneously a device that draws in nature.” Tadao Ando 7 Estas questões e a forma como os arquitetos as solucionaram revelam o carácter distinto com que encararam a envolvente, mas deixam transparecer semelhanças no entendimento que fazem da importância do lugar para a qualidade dos espaços interiores. Ambos refletem nas suas escolhas projetuais uma análise crítica as circunstâncias em que inserem as suas obras, e uma seleção ponderada e metódica das qualidades do local que querem envolver no projeto. “What is man but nature’s finer success in self-explanation?” e, ainda, “the beauty of nature re-forms itself in the mind, and not for barren contemplation, but for a new creation (…)” R.W. Emerson 8 Este trabalho sobre a relação da arquitetura da habitação com o espaço exterior e a procura constante pelo contacto com a natureza foi o mote em que se construiu o estudo destes dois casos. A forma como os arquitetos trabalharam e questionaram as qualidades dos terrenos permite compreender a densidade e o impacto que o carácter do lugar pode ter nos espaços internos. As duas obras marcam a arquitetura pelos pontos de contacto que estabelecem criticamente com a envolvente. O interesse neste capítulo foi debruçar o estudo no confronto de posições sumariamente opostas e extremas, para que pudesse surgir de forma clara uma linha de debate entre a arquitetura e o lugar. 6 WIHISTON, Anne – Architect of Landscape. In LONG, David G. de - Frank Lloyd Wright: Designs for an American landscape: 1922-1932. 1º ed. New York: Harry N. Abrahams, 1996. P.:159 7 ANDO, Tadao - Tadao Ando 1: Houses & Housing. Tokyo: Toto Shuppan, 2007. P.:108 8 LONG, David G. de - Frank Lloyd Wright: Designs for an American landscape: 1922-1932. 1º ed. New York: Harry N. Abrahams, 1996. P.:15
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148 SOBRE A SINGULARIDADE DO LUGAR
CONCLUSÕES | SOBRE A SINGULARIDADE DO LUGAR 149 Neste último capítulo que encerra o trabalho pretende-se sublinhar, em primeiro lugar, a motivação para o estudo deste tema, depois sintetizar as diversas respostas que foram encontradas ao longo da tese e concluir exprimindo o que foi apreendido e concretizado com este exercício teórico. A questão da tese encaixa no tema geral da relação entre a arquitetura e o lugar, esta ligação é abordada de forma sistemática em diversas cadeiras da Faculdade de Arquitetura da UP, ao longo dos cinco anos do curso. É, por isso, incutido nos seus estudantes como fundamental um estudo crítico do lugar de implantação, prévio a qualquer exercício de projetação. Pois, com um estudo consistente das qualidades do local entende-se ser possível a criação de obras que estabeleçam laços concretos com a realidade, promovendo continuidade com a envolvente. A exigência de simbiose entre a obra e o contexto é sublinhada nas diversas cadeiras de projeto, em que é ambição frequente conseguir uma implantação que seja exímia tanto na resolução de problemas funcionais do programa, como na resposta arquitetónica às características do terreno de trabalho. Esta perseguição constante de contacto permanente entre o projeto e o lugar é realçada em textos de autores intimamente ligados à escola e à base do seu ensino, como é por exemplo Fernando Távora. Figura, entre outras, cuja influência do seu pensamento arquitetónico permanece refletida não só no âmbito prático de projeto como também no contexto teórico da faculdade. “Estes dois aspetos, liberdade de escolha forma, satisfazendo determinada circunstância, e consciência da importância do espaço organizado, devem estar na base da atividade do organizador de espaços [o arquiteto] ” Fernando Távora 1 Como resultado, produz-se também um entendimento geral da necessidade de observar e catalogar qualidades físicas do sítio, que se assumem como essenciais para que seja possível começar o projeto – como a topografia, a orientação solar, o clima, a hidrografia, a vegetação, as pré-existências, entre outros elementos caracterizadores do terreno. Para além do próprio carácter do sítio, que não é revelado de forma material, mas deve permanecer como elemento de observação. Este carácter do lugar surge, como sublinha Zumthor, da perceção emocional e precisa de ser inte1 TÁVORA, Fernando - Da Organização do Espaço. 8ª ed. Porto : FAUP Publicações, 2008. P.: 24
150 SOBRE A SINGULARIDADE DO LUGAR grada na ação de projeto. Esta consciência da importância que o lugar exerce sobre a solução arquitetónica traduziu-se no interesse pessoal para colocar um foco na abordagem a locais extremos, que promovessem a produção de respostas singulares dos arquitetos. Em causa estava a intenção de uma compreensão clara dos reflexos dos ambientes exteriores sobre a solução arquitetónica, dado que se assume de forma mais evidente em circunstâncias fora do vulgar. Procurou- -se situações em que a envolvência da obra toma um papel determinante na sua caracterização, em que não é possível referi-la ou descrevê-la sem contextualizar o lugar em que está colocada. Pretendia-se, em suma, entender a influência das circunstâncias no resultado final das obras, ou seja, em que medida é que o carácter do local de implantação alterava e determinava as respostas da arquitetura. A pesquisa confluía numa vontade de explorar casos que colocassem em evidência a capacidade dos arquitetos em transformar dificuldades impostas pelo terreno em virtudes que elevassem a qualidade dos seus projetos. Foi nesse âmbito que o estudo assentou. O tema da relação entre da arquitetura e o lugar foi estratificado. E apenas um dos estratos deste assunto geral foi estudado. Cingimo-nos à análise de casos em que a presença das características inerentes ao terreno fosse profunda e incontornável no desenvolvimento e no resultado final da arquitetura. A pesquisa orientou-se sobre estas linhas e não sobre eixos temporais, locais, linguagens ou movimentos arquitetónicos. Também não foi limitada à procura pelo programa dos edifícios ou pelos autores. Contudo, foi balizada pelo reconhecimento geral da qualidade dos projetos, pois era de extrema importância para o estudo que se debatessem obras de interesse inquestionável, que pudessem traduzir ensinamentos práticos e orientações sobre modos de fazer arquitetura. Não seria razoável, numa tese com esta extensão e perfil, justificar a qualidade arquitetónica de cada um dos casos em estudo, atendendo a que não era sobre esse parâmetro que se debruçava. Por isso foram selecionadas obras que se relacionavam profundamente com o tema, descortinavam questões essenciais para a conclusão da questão colocada e que, em simultâneo, fossem reconhecidas unanimemente como obras intemporais de excecional execução. O carácter, por vezes subjetivo e pessoal, do estudo foi assumido como parte integrante de uma tese que aborda questões de perceção, no entanto, a análise realizada pretende uma aproximação concreta às obras. Foi estabeleci-
CONCLUSÕES | SOBRE A SINGULARIDADE DO LUGAR 151 do, ao longo do trabalho, um compromisso com a apresentação de factos dos projetos que ilustrassem de forma objetiva a questão em debate, promovendo conclusões sobre dados reais. Também foi permanente a pesquisa de textos e autores que suportassem os temas em análise. Pois, não se pretendia, neste estudo, apresentar apenas sínteses e conclusões individuais sobre um tema que tem uma dimensão de debate que abrange várias décadas de estudo no contexto da arquitetura. Partindo da premissa de existência de estudos e observações de relevo sobre o assunto em causa, a aproximação às obras foi realizada com o apoio constante de análises compreendidas por outros, desta forma sustentando as observações individuais com o corpo de conhecimento previamente construído por outros. A par das leituras das observações existentes sobre as obras escolhidas, o estudo dos casos sustêm-se igualmente na análise dos elementos de projeto – esquissos, plantas, perfis e alçadosbem como de registos fotográficos, nos casos de impossibilidade de visita. Os indicadores dados pela observação destes materiais de projeto, permitiram a produção de uma série de conclusões que respondem à questão em debate nesta tese. Este trabalho sobre os materiais de projeto foi o propulsor das afirmações e conclusões pessoais, que só posteriormente foram fundamentadas com análises de outros autores. Este processo foi fundamental para desenvolvimento do estudo e é a base real do assunto em causa. Para responder à questão “em que medida o lugar influencia a arquitectura?”, foram selecionados seis projetos cujos perfis encaixam na temática do estudo: 1. Casa de Chá da Boa Nova, de Álvaro Siza; 2. Casa Malaparte, de Adalberto Libera; 3. Casa Farnsworth, de Mies Van der Rohe; 4. Casa das Canoas, de Óscar Niemeyer; 5. Taliesin West, de Frank Lloyd Wright; 6. Casa Azuma, de Tadao Ando. O estudo das obras permite tornar palpável a dimensão teórica do tema. Através desta análise é possível colocar interrogações ao projeto e comprovar posições dos próprios autores sobre o lugar e a ação da sua arquitetura. Estes projetos foram selecionados, primeiramente, pelos lugares em que se situavam. A busca foi determinada pela pesquisa de lugares singulares, ou seja, que fossem distintos e marcantes. As características do local deveriam ser rapidamente apreendidas para que ficasse claro o que era ação da arquitetura e o que pertencia à estrutura primária do lugar. Ambicionava-se encontrar projetos que, para além da qualidade da sua arquitetura,