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Representações das relações entre o Estado e as organizações do terceiro setor : algumas pistas de análise

Paula Guerra,Mónica Santos

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EMPREENDEDORISMO SOCIAL EM PORTUGAL CRISTINA PARENTE EDIÇÃO UNIVERSIDADE DO PORTO FACULDADE DE LETRAS PORTO 2014 332|A Empreendedorismo social em Portugal 125HSUHVHQWDo}HVGDV UHODo}HVHQWUHR(VWDGRH DVRUJDQL]Do}HVGR 7HUFHLUR6HWRUDOJXPDV SLVWDVGHDQiOLVH Paula GUERRA ISUP/DSFLUP – Universidade do Porto Mónica SANTOS ISUP – Universidade do Porto Este capítulo insere-se na dimensão macro de análise das orientações políticas nacionais de empreendedorismo social, direcionadas para as OTS1. O principal objetivo deste capítulo é a exposição e a análise exploratória das representações dos dirigentes e actores-chave sobre as orientações e as medidas políticas que têm i) condicionado a atuação do setor em geral e ii) incentivado as práticas de empreendedorismo social, em particular. Desta forma, a nossa atenção recai sobre um conjunto de dados recolhidos a partir de duas fontes de informação: em primeiro lugar, por via das entrevistas exploratórias não estruturadas aos 20 atores chave selecionados pela importância da sua atuação no campo do Terceiro Setor, em segundo lugar, pela abordagem extensiva à amostra de 89 OTS inquiridas. No caso dos atores-chave, procuramos aferir (i) o seu conhecimento face às orientações e programas políticos nacionais e europeus que permitem o desenvolvimento de práticas de empreendedorismo social e (ii) o reconhecimento de obstáculos ou oportunidades conferidas pelas orientações dos programas políticos às suas organizações, aos seus associados ou organizações congéneres. Relativamente aos inquiridos, analisamos um conjunto de dimensões, analiticamente relevantes, sobre o posicionamento dos mesmos no que respeita: (i) às iniciativas políticas de promoção e desenvolvimento do empreendedorismo social, da economia social e do Terceiro Setor em geral; (ii) às virtualidades ou aos condicionamentos decorrentes do regime jurídico da organização; (iii) ao grau de conhecimento e de acompanhamento das políticas e da legislação referente à economia social. 333 Parte IV Representações sociais: políticas, legislação e conceitos de empreendedorismo social Capítulo 12 Representações das relações entre o Estado e as organizações do Terceiro Setor: algumas pistas de análise Antes contudo da descrição e análise dos dados empíricos a partir destas duas abordagens, faremos um breve esboço teórico sobre as relações entre o Terceiro Setor e o Estado, tendo em conta as particularidades da estrutura social portuguesa, com o objetivo de enquadrar teoricamente a análise dos dados. Uma vez discutidos e articulados os dados provenientes das diferentes técnicas, procuraremos, em jeito de síntese, apurar algumas pistas exploratórias sobre os modelos de atuação entre o Estado e as entidades de Terceiro Setor, no tocante às políticas que podemos incluir no espetro do empreendedorismo social português. $UWLFXODo}HVHQWUHR(VWDGRHDVRUJDQL]Do}HVGR7HUFHLUR 6HWRUSRUWXJXrVUHWRPDQGRRVSULQFLSDLVHL[RVGHDQiOLVH Segundo Quintão (2011), é com a implantação do regime democrático que se assiste à recomposição do Terceiro Setor português e é com a entrada na Comunidade Económica Europeia que se inaugura um período de maior estabilização, visível no crescimento do número e do tipo de organizações que o compõem. Em termos da evolução do setor, a autora lembra o dinamismo sentido ao nível associativo, com o nascimento de novas áreas de intervenção, tais como a defesa dos direitos humanos, a sensibilização e reivindicação da sustentabilidade ecológica ou a progressiva implementação de organizações com intervenção internacional, como as associações de cooperação internacional, de ajuda humanitária ou de comércio justo. Concomitantemente, permanece o peso e o papel de organizações ligadas à Igreja Católica, como as misericórdias e os centros paroquiais e sociais, no domínio da assistência a públicos mais desfavorecidos. As IPSS, a cujo estatuto acresce diferentes formas jurídicas, têm registado um aumento VLJQLÀFDWLYR (Quintão, 2011) e dados de 2007 indicam que aproximadamente 60% destas instituições teve a sua origem em iniciativas ligadas à Igreja (Joaquim, 2007). Do que foi dito atrás, é facilmente percetível uma das principais caraterísticas GR 7HUFHLUR 6HWRU SRUWXJXrV D VXD FRQÀJXUDomR KHWHURJpQHD 'H IDFWR R setor compreende um conjunto de organizações diversas desde as associações, cooperativas, fundações, IPSS, mutualidades, entre outras, cuja representação dentro do tecido institucional varia muito (Parente, 2012; Quintão, 2011). Esta diversidade, segundo Hespanha (2000), embora possa condicionar sobremaneira a autonomia e a capacidade do setor na partilha de princípios e objetivos comuns, é também o seu principal trunfo, uma vez que esta versatilidade permite um contínuo (re)ajuste à natureza mutável e complexa dos problemas e à plasticidade da condição dos destinatários. 334|A Empreendedorismo social em Portugal 3HUDQWHHVWDFRQÀJXUDomRRUJDQL]DWLYDLPSRUWDSHUFHEHUTXDLVRVSDSpLV que o Terceiro Setor assume no contexto da sociedade portuguesa. Sabemos que o desenvolvimento deste setor varia em função dos diferentes modelos sociais nacionais, HQTXDQWRSURGXWRVyFLRKLVWyULFRHVSHFtÀFRGHVWHVVHQGRIUXWRLQHYLWDYHOPHQWHGH uma dimensão política, e designadamente das políticas públicas (Laville, 2000), mas também enquanto resultado do conjunto de interações entre poderes públicos e iniciativas heterogéneas da sociedade civil, mais ou menos formais e organizadas, que se traduzem em efeitos mútuos que vão variando no tempo e no espaço, no tocante à intensidade e àVPRGDOLGDGHV)HUUHLUDFLWD*ULGRQDÀUPDQGRTXH “a heterogeneidade do Terceiro Setor faz com que ele seja encarado ou como opositor ou como aliado, como substituto ou como complementar, quer do setor estatal quer do setor mercantil, consoante as organizações, as perspetivas teóricas e políticas e as sociedades” (2004, p. 74). Na interação com o poder estatal, o papel do Terceiro Setor em Portugal pode, como adianta Santos (1999, p.34), limitar-se à execução de determinadas políticas públicas, mas pode envolver igualmente a escolha das políticas e a formação da própria agenda política, em processos de complementaridade ou confrontação com o Estado. As relações entre Estado e Terceiro Setor podem ser múltiplas e têm-se caraterizado por ritmos e formas próprias. Se, durante o regime ditatorial português, as organizações do Terceiro Setor foram controladas e instrumentalizadas por um regime corporativo e assistencialista (Quintão, 2011; Parente, 2012), a partir da Revolução de 1974, estas relações FRPSOH[LÀFDUDPVH ora avançando ora recuando os discursos de autonomia e complementaridade entre Estado e Terceiro Setor, em dinâmicas frequentemente dúbias e contraditórias (Hespanha, 2000; Franco, Sokolowski, Hairel & Salamon, 2005). Franco et al. (2005), num estudo sobre o setor não lucrativo português, adiantam que o Estado após o 25 de Abril tem privilegiado o desenvolvimento de entidades não lucrativas, limitando ao mesmo tempo a sua independência e campo de atuação. Se, por um lado, estas dinâmicas contribuíram para o reconhecimento da importância das relações entre (VWDGRHVHWRUQmROXFUDWLYRSRURXWURÀFDSDWHQWHDDPELJXLGDGHGDVIXQo}HVH SDSpLVGRVDJHQWHVGDVIRQWHVGHÀQDQFLDPHQWRHGRJUDXGHFRRSHUDomRHQWUHRV atores. É a partir de 1980 que novos enquadramentos legais contribuíram para que muitas organizações se tornassem produtoras de bens e serviços subcontratados pelo Estado (Ferreira, 2000), engendrando o designado modelo «pluralista» (Perista, 2001) de um sistema cujas responsabilidades seriam partilhadas entre o Estado e o setor não governativo e não lucrativo, modelo aliás intimamente relacionado com a parca consolidação do Estado Providência em Portugal. Esta ambiguidade de papéis, aliás patente no caráter disperso e fragmentado da OHJLVODomRUHIHUHQWHDRVHWRU4XLQWmRHRVFRQGLFLRQDOLVPRVYHULÀFDGRVWrP conduzido à contínua incapacidade ou capacidade limitada do Terceiro Setor em JHUDU UHFXUVRV FRQVWLWXLQGRHVWDGHSHQGrQFLDÀQDQFHLUDIDFHDR (VWDGRXPDGDV suas principais debilidades. Importa lembrar Santos (1994) quando este refere que o recuo das competências estatais impõe uma sociedade civil secundária, ligada a novas instituições não  Parte IV Representações sociais: políticas, legislação e conceitos de empreendedorismo social Capítulo 12 Representações das relações entre o Estado e as organizações do Terceiro Setor: algumas pistas de análise lucrativas, ou a (re)emergência de instituições já existentes e que, no fundo, mantêm a dependência, sobretudo económica, face ao Estado, conferindo a este ator a sua centralidade e ascendente regulador (Santos, 1994). Se, por um lado, o Estado vê recuar o seu controlo da regulação social, por outro lado, adquire o controlo da meta-regulação: “da seleção, coordenação, hierarquização e regulação dos agentes não estatais que, por subcontratação política, adquirem concessões de poder estatal” (Santos, 1999, p.39). No intuito de procurar outras pistas que nos pudessem elucidar sobre as diferentes modalidades de relação entre o Estado e o designado Terceiro Setor, consideramos '|UQHU  H DV WLSRORJLDV SRU HOH LGHQWLÀFDGDVH LOXVWUDWLYDV GD GLYHUVLGDGH de relações possíveis entre estes atores. A primeira tipologia, de Adil Najam (2000 apud Dörner, 2008), socorre-se de duas dimensões, a concordância de objetivos ÀQV HDFRQFRUGkQFLDFRPHVWUDWpJLDVPHLRVSDUDDFRPELQDomRGHGLIHUHQWHV cenários: há cooperação entre o Estado e o Terceiro Setor quando há consenso nestas duas dimensões; compromisso - numa vertente de complementaridade - quando existe partilha de objetivos, mas não de estratégias e, numa vertente de cooptação, quando há ausência de objetivos comuns embora exista concordância em termos de estratégias. A complementaridade converte-se em suplementaridade quando é o SUySULR 7HUFHLUR 6HWRU D ÀQDQFLDUD VXD LQWHUYHQomR$ confrontação acontece quando há discordância em ambas as dimensões. Numa outra abordagem, Coston (1998 apud Dörner, 2008) apresenta uma escala para apreender a capacidade do Estado em aceitar o pluralismo institucional perante atores não estatais, sendo que a escala varia entre a resistência, neutralidade, indiferença ou o apoio ativo. Num outro registo, Brinkerhoff (2002 apud Dorner, 2008) apresenta uma tipologia com base em duas dimensões, a mutualidade e a identidade organizacional. A tipologia varia entre a parceria real, contratual, extensão e cooptação. Há parceria real quando os atores têm igual oportunidade GHLQÁXHQFLDU DVGHFLV}HV 4XDQGR XP DWRU WHP SULPD]LD QR HVWDEHOHFLPHQWR de objetivos, mas ao outro ator é-lhe conferida liberdade de participar ou não, estamos perante a relação contratual. Há extensão quando o ator mais fraco não WHPFDSDFLGDGHGHHVFROKHURXLQÁXHQFLDUDVGHFLV}HV3RUÀPDFRRSWDomRUHVXOWD na capacidade de o ator mais forte interferir e destruir a identidade organizacional do outro. Young (1999, 2000 apud Dorner, 2008) analisa esta relação a partir da suplementaridade (divisão horizontal do trabalho), complementaridade (divisão vertical do trabalho) ou rivalidade. Já os autores Kuhnle e Selle (1992 apud Dörner, 2008) concetualizam a relação quanto ao distanciamento entre entidades do Terceiro Setor e atores estatais, no que concerne à facilidade e frequência da comunicação, e quanto à (in)dependência daquele setor, inerente ao nível de controlo ou autonomia YLVtYHOQRVWLSRVGHDFRUGRVGHÀQDQFLDPHQWR2FHQiULRGHautonomia separada RFRUUHQXPFRQWH[WRGHIUDFDFRPXQLFDomRHDSRLRÀQDQFHLURHSRUFRQVHJXLQWH não há controlo entre os atores. No cenário de dependência separada, à inexistência de ÀQDQFLDPHQWR acresce o caráter unidirecional da comunicação, permitindo maior controlo do Estado sobre o Terceiro Setor. O cenário de dependência integrada |A Empreendedorismo social em Portugal aponta para a existência de ÀQDQFLDPHQWR mas, também, do controlo sobre o setor. 3RUÀPQRTXDGURGHautonomia integrada, as organizações do Terceiro Setor têm XPIRUWHDSRLRÀQDQFHLURHPERUDQmRHVWHMDPVXMHLWDVDIRUWHFRQWURORLQÁXrQFLD do Estado. Os autores defendem a inexistência de um cenário ideal, assumindo que DUHODomRVHSDXWDQHFHVVDULDPHQWHSHODFRPSHWLWLYLGDGHHFRQÁLWR Por último, destaca-se a tipologia construída por Kramer, Lorentzen, Melief e Pasquinelli (1993 apud Dörner, 2008) com base em duas dimensões: a provisão ÀQDQFHLUDH D SURGXomR GH VHUYLoRV 1XP TXDGUR GH governação dominante, é o Estado quem assegura estas dimensões. Num quadro de dominação do Terceiro SetorRÀQDQFLDPHQWRHDSUHVWDomRGHVHUYLoRVé de responsabilidade do setor não estatal. Num cenário de relacionamento dual, afere-se uma posição de equidade em WHUPRVGHÀQDQFLDPHQWRHSUHVWDomRGH VHUYLoRV 1XP FHQiULR GH relacionamento colaborativo, o Estado assegura o ÀQDQFLDPHQWRHGHOHJDDSUHVWDomRGRVVHUYLoRV Num cenário de relacionamento de suplementaridadeYHULÀFDVHDSDUFHULDSRVLWLYD através da extensão dos serviços públicos, por via da disponibilização de serviços similares. Num cenário de relacionamento complementar, há também uma parceria de extensão de serviços, embora estes sejam distintos. Finalmente, num cenário de relacionamento rival, a ação do Terceiro Setor representa uma alternativa ao serviço público. Apesar das abordagens distintas elencadas anteriormente, sobretudo ao nível GDV GLPHQV}HV GH UHODomR H FDWHJRUL]Do}HV LQYHQWDULDGDV FRQVHJXLPRV YHULÀFDU VLPLOLWXGHVHQWUHHODV3ULPRUGLDOSDUHFHVHUDGLPHQVmRGRÀQDQFLDPHQWRHQTXDQWR meio de dependência face ao Estado ou enquanto meio de autonomia do Terceiro Setor. No mesmo patamar, a dimensão relativa ao tipo de prestação que é devotada ao Terceiro Setor, numa lógica suplementar, complementar ou alternativa. De forma geral e grosseira, se podemos antever dois extremos nestas relações, a cooperação ou a rivalidade, o fosso entre estes dois extremos é pautado por um conjunto imenso de combinações e compromissos possíveis. Esperamos, a partir da exposição destas tipologias, enquadrar e vincular as representações dos atores chave e das organizações do Terceiro Setor inquiridas às diferentes modalidades LGHQWLÀFDGDV procurando descortinar pistas que elucidem as relações com o Estado, sobretudo aquando dos REVWiFXORVLGHQWLÀFDGRVSHORVDWRUHV7HQGRHPFRQWDDOLWHUDWXUDHREVWiFXORVPDLV evidenciados nos discursos dos nossos atores, podemos antever a maior utilidade das últimas duas tipologias na análise da articulação entre Estado e Terceiro Setor português. Procuramos, por isso, contribuir para a exploração analítica destas relações, tendo em atenção o quadro que se vislumbra de partilha de responsabilidades entre as autoridades públicas centrais e locais no tocante à intervenção em matéria de coesão social ou, numa versão menos otimista, a um quadro de delegação e/ou esvaziamento de funções e dos papéis estatais para as entidades do Terceiro Setor, em lógicas ainda pouco claras relativamente, por exemplo, ao enquadramento legal e à autonomia económica do setor. Esta tendência de autonomia económica das organizações assume, na atualidade, uma importância crescente na discussão sobre o futuro do Terceiro Setor e é ainda uma das dimensões fulcrais do conceito de empreendedorismo 337 Parte IV Representações sociais: políticas, legislação e conceitos de empreendedorismo social Capítulo 12 Representações das relações entre o Estado e as organizações do Terceiro Setor: algumas pistas de análise social. Não sendo nosso objetivo aqui discutir este conceito, importa referir que ele tem sido construído a partir da articulação entre os princípios das organizações não lucrativas e os métodos e ideias de negócio dos campos da gestão e da economia, com vista à PDLRUHÀFiFLDHVXVWHQWDELOLGDGHHFRQyPLFDGDTXHODVRUJDQL]Do}HV0DLU Marti, 2006). Estas dinâmicas efervescentes do empreendedorismo social, entendidas também como uma renovação do próprio Terceiro Setor, poderão ser equacionadas enquanto aposta na emergência de um novo dinamismo social. Vejamos qual a perceção e o posicionamento dos atores chave entrevistados sobre as políticas de fomento do empreendedorismo social em Portugal e na Europa e sobre os principais constrangimentos e oportunidades, no que diz respeito às orientações dos programas SROtWLFRV SRU HOHV LGHQWLÀFDGRV FRPR RV PDLV LPSRUWDQWHV QR HVSDoR GR 7HUFHLUR Setor, economia social e empreendedorismo social2. Com base nestas perspetivas, procuraremos aferir o grau de conhecimento destes atores perante as dinâmicas do empreendedorismo social e discutir as articulações existentes entre o Estado e o Terceiro Setor à luz das tipologias apresentadas, com particular enfoque no papel GHVHPSHQKDGRSHOR7HUFHLUR6HWRUHQDVXDLQGHSHQGrQFLDÀQDQFHLUDIDFHDR(VWDGR 5HSUHVHQWDo}HVGRVDWRUHVFKDYHDFHUFDGDVSROtWLFDVGH DSRLRDRHPSUHHQGHGRULVPRVRFLDO As entrevistas aos atores chave permitiram-nos descortinar, numa primeira abordagem ao terreno, um conjunto de representações sobre as orientações políticas no âmbito do empreendedorismo social, assim como as principais oportunidades e constrangimentos sentidos pelos atores e suas instituições. Foram realizadas 20 entrevistas a atores chave 3 com as seguintes proveniências e designações: oito organizações de cúpula setorial (A, B, C, D, E, F, G e H ), duas organizações políticas (O e P), três organizações de investigação e formação (I, J e K), duas representantes de programas de fomento (1 e 2), três instituições e atores ligados ao ensino (L, M e N) e duas informantes com pluralidade de pertenças ligadas à problemática (1 e 2). Considerando o primeiro eixo referido, sobre as políticas nacionais, importa referir que apenas dois atores chave (Organização L e Informante 2) desconhecem quaisquer orientações políticas de enquadramento, embora esse desconhecimento não implique a inexistência das mesmas. Contudo, há nove organizações (Organização D, G, H, Organização O, Organização I, J, K, Programa de fomento 1 e Organização M) que DÀUPDP o reduzido fomento ou mesmo a inexistência de políticas de empreendedorismo social. Ficam aqui alguns excertos ilustrativos: ´6mR SDUDGR[DLV D PDLRU SDUWH GDV SROtWLFDV S~EOLFDV QHVWD áreD >«@ Ká um problema HVWUXWXUDO>«@TXHpPXLWRSHUWLQHQWHHFRQWLQXDQDDJHQGDHVWHVDQRVWRGRVGHSRLV que é não haver uma legislação HVSHFtÀFD para este setor. Se não considerar este setor, PHVPRHVWDQGRGHÀQLGRQD&RQVWLWXLomRé muito complicado termos políticas públicas desenvolvidas que possam potenciar o seu crescimento e as organizações do Terceiro Setor.” (Organização H) 338|A Empreendedorismo social em Portugal ´1RV últimos anos tem havido grandes limitações, sobretudo neste último quadro comunitário temos sentido fortes limitações ao desenvolvimento da economia social e solidária e à iniciativa dos empreendedores sociais. Este quadro comunitário está muito formatado.” (Organização G) Porém, nove dos atores chave demonstram conhecimento, sobretudo ao nível das políticas e orientações mais direcionadas para o seu tipo de organização, evidenciando um posicionamento de autocentramento, comum em muitas esferas organizativas apesar de o próprio Terceiro Setor, espaço onde atuam estes atores, VHUDOYRGHXPSURJUHVVLYRUHFRQKHFLPHQWRQRVPpGLDHQDFRPXQLGDGHFLHQWtÀFD (Quintão, 2011). 1R TXH UHVSHLWD D UHIHUrQFLDV HVSHFtÀFDVD SURJUDPDV RX D DWRUHV GRLV SRQWRV merecem ser retidos: o EQUAL e a CASES foram citados por 12 atores chave. Este padrão de resposta releva a importância do programa EQUAL em Portugal e o seu caráter pioneiro e fundador, no que respeita a metodologias de intervenção, alicerçadas na participação e no envolvimento dos EHQHÀFLiULRV FRPLQLFLDWLYDVHVSHFtÀFDVHPWRUQRGDHFRQRPLD social. Também a CASES tem como objeto promover o fortalecimento da economia social, com vista ao aprofundando da cooperação entre Estado e as organizações que a integram. Vejamos alguns dos excertos referentes ao EQUAL e à CASES: ´8PSURJUDPDFRPRR(48$/QDPLQKDRSLQLmRIH]PDLVSHORGHEDWHHSHODFRQVWUXomR de conceitos do que qualquer política que me lembre de ter sido traçada.” (Organização F) ´3DUDPLPé um erro não tornar os princípios e as metodologias EQUAL transversais a todas as linhas, prioridades e programas políticos. Mas o EQUAL é determinante e foi GHWHUPLQDQWHQRGHVHQYROYLPHQWRGHXPDGDWDGHLQLFLDWLYDVTXHKRMHHXFRQVLGHURGH empreendedorismo social.” (Organização H) ´$ &RRSHUDWLYD$QWyQLR 6pUJLR SDUD D (FRQRPLD 6RFLDO DSUHVHQWDVH FRPR XP DWRU não é bem público nem privado, é duplo, porque tem cooperantes públicos e privados, pelo menos nos seus estatutos tem lá grandes responsabilidades tanto no fomento da economia social como na questão do micro crédito.” (Programa de fomento 1) Outro programa presente em quatro das entrevistas foi o QREN (2007-2013). Sendo o quadro estratégico de referência nacional até 2013, o QREN é mais do que um SURJUDPDHVSHFtÀFRYLVWRTXHVHDSUHVHQWDFRPRXPFRQMXQWRGHSRVVLELOLGDGHVGH ÀQDQFLDPHQWRTXHVXVWHQWDUDPYiULRVSURJUDPDVHVHWRUHVQRVúltimos anos. No que às organizações do Terceiro Setor diz respeito, embora não haja referência direta D HL[RV HVSHFtÀFRVDVVXPH UHOHYkQFLD R 323+  H HP SDUWLFXODU R HL[R Prioritário 5 – Apoio ao Empreendedorismo e à Transição para a Vida Ativa; e o Eixo Prioritário 6 – Cidadania, Inclusão e Desenvolvimento Social. Outros programas, atores e iniciativas foram também mencionados, embora com reduzida frequência. A título de exemplo, lembramos o CNES, o PADES, o PROGRESS, o Programa Escolhas, entre outros. Uma vez que estamos perante instituições de 339 Parte IV Representações sociais: políticas, legislação e conceitos de empreendedorismo social Capítulo 12 Representações das relações entre o Estado e as organizações do Terceiro Setor: algumas pistas de análise representação de cúpula, representantes de programas políticos e de política estatal, seria de facto expectável esta maior sensibilidade e familiaridade perante os instrumentos de política. ´7HP KDYLGR XPD UHODomR PXLWR SUy[LPD GDV 21*' FRP R 0LQLVWpULR GD 7XWHOD H FRP DV LQVWLWXLo}HV GD WXWHOD WrP YLQGR D VHU GHÀQLGRVXPD VpULH GH PHFDQLVPRV OHJDLV H LQVWUXPHQWRV RSHUDFLRQDLV H GH ÀQDQFLDPHQWR H DV 21*' WrP YLQGR D SURÀVVLRQDOL]DUVHµ(Organização A) Do que foi dito, concluímos que quase metade dos entrevistados admite o reduzido ou o inexistente incremento do empreendedorismo social embora, em simultâneo, mais de metade reconheça políticas na sua área concreta de intervenção. O EQUAL, a CASES são as iniciativas mais citadas, revelando uma valorização do caráter pioneiro no desenvolvimento de metodologias e projetos que promovam o crescimento do Terceiro Setor e da economia social. Relativamente às políticas e orientações europeias, pelo menos 11 dos entrevistados mostraram um grande desconhecimento face aos instrumentos de política europeia e suas orientações e concretizações. Tal posicionamento sedimenta-se no facto de não fazerem qualquer tipo de referência, ora porque não constitua uma área com que habitualmente trabalhem ora porque simplesmente referem não conhecer ou ter pouco conhecimento. Entre aqueles que evidenciam algum posicionamento perante as políticas europeias, há que salientar o caráter disperso ou pontual por parte das instituições europeias e sua consequente não disseminação e não apropriação à escala nacional. É referido, ainda, que a Europa apenas emite orientações gerais, mas falha QDFRQFUHWL]DomRHPGLUHWLYDVHVSHFtÀFDVLVWRé, parece não haver um esforço de DSURSULDomRHVSHFtÀFRHPIXQomRGRVWHUULWyULRVSDtVHVRTXHLQYLDELOL]DSRUYH]HV DDSOLFDomRHÀFD]HHÀFLHQWHGDVSROtWLFDV ´$(XURSDWHPDFRQWUDGLomRTXHRVSDtVHVWRGRVWrPTXHVmRDVSROtWLFDVVHWRULDLV$ questão das políticas integradas é uma coisa que ainda vai demorar muitos séculos, se alguma vez lá chegarmos. E, portanto, há políticas setoriais que parecem seguir no bom sentido, naquele que estamos aqui a falar, e há outras políticas que não tanto.” (Programa de fomento 1) ´1HVWDJUDQGHiUHDGRVRFLDOWXGRRTXHHXWHQKRYLVWRpGHVGHRFRQVXODGR%DUURVR um grande abandono desta área. Obviamente que, de vez em quando, saem umas orientações e umas coisas que aparentemente vêm mudar o mundo e que não mudam coisa nenhuma.” (Programa de fomento 2) ´(GHSRLVKá uma resolução importante do Parlamento Europeu, mas ao nível de políticas concretas, não há medidas nem políticas concretas dirigidas.” (Organização H) Contudo, foram mencionadas algumas políticas concretas: o programa EQUAL foi mencionado duas vezes, para além de alusões ao PROGRESS, a linhas de Micro |A Empreendedorismo social em Portugal 4XDGUR3HUFHomRDFHUFDGDVLQLFLDWLYDVGR(VWDGRHVHXVLPSDFWRVQDV RUJDQL]Do}HV Fonte: Autoras baseadas no inquérito por questionário. Nos restantes níveis de iniciativas, ressalve-se que, pelo menos metade da amostra, evidencia desconhecimento das mesmas; a inexistência de desenvolvimento neste domínio ou a não verificação de qualquer impacto na própria organização. Assim, nos incentivos fiscais, 33% avaliam as iniciativas como tendo criado oportunidades para a organização, mas 23,9% afirmam não ter sido feito nada neste domínio e 18,2% consideram que as medidas desenvolvidas não tiveram qualquer impacto para a organização. Lembre-se que a não isenção fiscal constituiu um dos constrangimentos apontados pelos atores chave, nomeadamente aqueles da economia social, deduzindo-se o não reconhecimento do papel destas organizações e o dificultar da sua subsistência dentro do mercado. Os instrumentos de regulação de atividades, por exemplo o HACCP4, o transporte de crianças e a qualidade de produtos foram avaliados de forma mais negativa: 22,9% dos inquiridos consideram que estas iniciativas têm criado obstáculos, enquanto outros 22,9% afirmam que não tiveram impacto para a organização. No que toca às políticas e programas de formação profissional, 46% referem que as medidas tomadas têm criado oportunidades, embora 20,7% desconheçam qualquer medida nesta área e 18,4% não verifiquem qualquer impacto na organização. Por fim, quanto à existência de programas e projetos de enquadramento do setor5, 39,1% declaram o desenvolvimento de iniciativas que têm criado oportunidades para a organização, 25,3% afirmam que as medidas não apresentam qualquer impacto e 23% desconhecem qualquer medida. Depreendemos que, entre estes programas, o EQUAL seja o mais reconhecido, uma vez que no âmbito de entrevistas exploratórias realizadas aos atores chave do Terceiro Setor português foi destacado o seu relevo e as suas heranças, em termos de processos organizacionais e metodologias de intervenção. Tendo em conta estes resultados, podemos dizer que, em termos tendenciais, estamos perante um quadro representativo que demonstra iniciativas que criam impactos organizacionais, designadamente ao nível financeiro e de programas de formação profissional, reconhecendo um investimento do Estado a este respeito e uma assunção do alargamento das articulações entre ambas as 347 Parte IV Representações sociais: políticas, legislação e conceitos de empreendedorismo social Capítulo 12 Representações das relações entre o Estado e as organizações do Terceiro Setor: algumas pistas de análise esferas, o que não invalida, ainda, que possamos considerar que a tradição da participação das entidades do Terceiro Setor tem muito a ver com uma prática de prestação de serviços, havendo todo um grande caminho a percorrer, no que respeita à efetiva participação nos processos de decisão política. O inquérito procurou ainda entender o posicionamento das entidades face a uma série GHDÀUPDo}HVUHODWLYDVDRSDSHOGR(VWDGRSRUWXJXrVHVXDVUHODo}HVFRPR7HUFHLUR Setor. Assim, relativamente à DÀUPDomR de que “o Estado tem desenvolvido políticas e legislação HVSHFtÀFDV para promoção e enquadramento de empreendedorismo social”, 43% das entidades consideram-na verdadeira, enquanto 33,7% consideram-na falsa. 2VUHVWDQWHVDÀUPDPQmRVDEHU2VGDGRVVmRUHODWLYDPHQWHFRQFRUGDQWHVFRP a questão anterior, relativa às oportunidades criadas pelas iniciativas de programas e projetos de enquadramento do setor. Contudo, parece haver algum desfasamento FRPRVGDGRVGDVHQWUHYLVWDVH[SORUDWyULDVRQGHÀFRXFODURDTXDVHLQH[LVWrQFLDGH políticas de fomento nesta área HVSHFtÀFD GRHPSUHHQGHGRULVPRVRFLDO1DDÀUPDomR seguinte, exclui-se a orientação direta e imediata para o empreendedorismo social. Metade da amostra (50,6%) considera que “o Estado tem desenvolvido políticas e OHJLVODomR TXH PHVPR QmR VHQGR HVSHFtÀFDVSDUD D SURPRomR H HQTXDGUDPHQWR do empreendedorismo social, têm indiretamente o efeito de o estimular”. 27,6% FRQVLGHUDPDDÀUPDomRIDOVDHGHFODUDPQmRVDEHU3RGHVHGHSUHHQGHUTXH há maior consenso sobre o caráter indireto do desenvolvimento político-legislativo e a natureza subsidiária do empreendedorismo social, no que respeita a políticas públicas. Esta é aliás a mesma conclusão retirada das entrevistas exploratórias: os atores chave têm maior conhecimento de políticas direcionadas para as suas áreas de intervenção do que propriamente orientações na área concreta do empreendedorismo social. Também em consonância com os resultados das entrevistas, verificámos que a grande maioria das entidades (73,6%) considera desigual a relação que mantém com o Estado. Para estas entidades, é falsa a afirmação que o Estado se relaciona com as organizações do setor em plataformas de igualdade institucional. Esta desigualdade está intimamente relacionada com a ausência de diálogo e de reconhecimento do papel do Terceiro Setor, manifestada já pelos atores chave. Estes posicionamentos vão no sentido da parceria por extensão, identificada por Birkerhoff (2002 apud Dorner, 2008), e que carateriza a relação desigual entre Estado e Terceiro Setor, em que é reconhecido ao segundo a incapacidade de influenciar as decisões. Ainda em consonância com os principais obstáculos identificados nas entrevistas exploratórias, 60,5% dos inquiridos consideram que o Estado fomenta relações de dependência com organizações congéneres, sobretudo financeiramente. Este modelo sugere a dependência integrada de Kuhnle e Selle (1992 apud Doner, 2008), em que o Estado financia o setor e, por essa via, exerce o poder de o controlar. Esmagador é o peso (81,6%) das entidades que sublinham o aumento de exigências estatais face a organizações congéneres, sem contrapartidas de recursos. A título de exemplo, na entrevista realizada à Organização B, refere-se as exigências de requisitos de qualidade, ao nível das 348|A Empreendedorismo social em Portugal instalações para as IPSS e da subsequente dificuldade das entidades em cumprir esses requisitos. Com menor expressão, embora de importante visibilidade, 58,6% consideram que o Estado tem desenvolvido mecanismos de apoio financeiro, que exigem complementos financeiros incomportáveis, impedindo o acesso das organizações a estes apoios. Esta imagem algo negativa do Estado é reforçada quando se questiona o GHVHQYROYLPHQWR GH PHFDQLVPRV GH VLPSOLÀFDomRGRV SURFHGLPHQWRV EXURFUiWLFRV na relação com o Estado. Para metade (52,3%) das entidades não foi potenciada esta desburocratização. Ressalve-se, no entanto, os 36% que reconhecem a maior desburocratização. Pelo que foi referido até agora, delineia-se um setor dependente economicamente do Estado, não reconhecido enquanto parceiro e cujas exigências de regulação por parte dos corpos estatais parecem estar a aumentar sem correspondência às reais condições e recursos do setor. Tendo em conta o posicionamento genérico positivo/negativo6 relativo à intervenção estatal (Quadro 2), percebemos facilmente algumas das tendências que têm marcado o desencontro entre ambas as esferas: o peso convincente das organizações que afirmam o aumento das exigências estatais para as entidades, sem contrapartidas ao nível dos recursos; as exigências de complementos financeiros incomportáveis e o fomento da dependência financeira. Este posicionamento face ao Estado é revelador das exigências estatais perante as organizações do Terceiro Setor, no que respeita às questões da sustentabilidade financeira. É ainda de salientar a referência a programas e legislação que indiretamente estimulam o empreendedorismo social. Em termos do posicionamento negativo face às dimensões analisadas, destaca-se o predomínio da referência à desigualdade institucional do Estado no relacionamento com as entidades do Terceiro Setor e, por fim, a recusa da afirmação da existência de mecanismos de simplificação dos procedimentos burocráticos. Estas representações remetem, desde logo, para o tipo de entendimento das relações entre Estado e Terceiro Setor à escala portuguesa e, ainda, para a compreensão do papel do Estado e suas relações com o bem-estar social ao longo das décadas. 3RGHPRVFRQVLGHUDUTXHHVWHVSRVLFLRQDPHQWRVYmRGHSDUFRPDDÀUPDomRGHTXHD “sociedade civil formal em Portugal tem vindo a ser constituída largamente por ação H VRE D LQÁXrQFLDGR SUySULR (VWDGR +HUGHLUD GH XP SDVVDGR GH UHSUHVVmR H VHP tempo para consolidar uma cultura de cidadania política e social, a sociedade civil SRUWXJXHVD YHP GHPRQVWUDQGR DOJXPDV GLÀFXOGDGHV GH PRELOL]DomR H RUJDQL]DomR autónoma em bases formais. No âmbito de projetos políticos de desinvestimento social e de devolução, tem sido o próprio Estado a chamar a si a tarefa de criar na sociedade civil estruturas formais para as quais possa concretizar essa devolução” (Lopes, 2000, p. 3). Este quadro representacional vai também de encontro a Estivill quando este sustenta que o Terceiro Setor na Europa do Sul tem vindo a submeter-se a uma YDULDomRSURÀVVLRQDOL]DomRHTXDOLÀFDomRGHIXQo}HVFRPXPDPDLRUGHSHQGrQFLD 349 Parte IV Representações sociais: políticas, legislação e conceitos de empreendedorismo social Capítulo 12 Representações das relações entre o Estado e as organizações do Terceiro Setor: algumas pistas de análise UHODWLYDPHQWHDRVHWRUS~EOLFRGDGDDPHQRUYDULDomRGDVIRQWHVGHÀQDQFLDPHQWR e a crescente inscrição das suas atividades na assistência, na saúde, na inserção e na formação (Estivill, 2003). Também Fitoussi e Rosanvallon (1996) se referem ao «malestar» ligado ao político, que deverá ser apreendido a partir de outras constatações, nomeadamente a degradação da capacidade de regular económica e socialmente o sistema; e uma das maiores incapacidades parece, sem dúvida, a que está ligada à cristalização de laços de dependência das entidades do Terceiro Setor face ao Estado, numa associação clara a um welfare mix de natureza retrógrada (Lopes, 2000, p. 2). 4XDGUR3RVLFLRQDPHQWRGDVRUJDQL]Do}HVIDFHDRSDSHOGR(VWDGR Fonte: Autoras baseadas no inquérito por questionário. As entidades foram ainda questionadas sobre se a forma jurídica aplicável às suas organizações é facilitadora ou inibidora do seu desenvolvimento, sendo que 74,7% FODVVLÀFDPQD GH IDFLOLWDGRUD 5HYHODQGR R DFRPSDQKDPHQWR GRV GHVHQYROYLPHQWRV SROtWLFRVVREUHRVHWRUDÀUPDPHVWDUDSDUQRPHDGDPHQWHGDFULDomRGD&$6(6GR CNES, etc. &RQÀUPDVH aqui, novamente, a informação já obtida no âmbito das entrevistas sobre o reconhecimento da CASES e do seu papel, no fomento à economia social. 3RU ÀP H DLQGD FRP UHFXUVR DRV GDGRV GR LQTXpULWR SURFXUDPRV HOHQFDU os problemas políticos e legais que mais afetam as entidades inquiridas. De forma JHQpULFD YHULÀFDVH TXH SDUD FHUFD GH PHWDGH GD DPRVWUD DV DWLWXGHV KRVWLV do público, o estatuto jurídico, a competição por parte das empresas lucrativas, o HQTXDGUDPHQWRÀVFDOHDDXVrQFLDGHSDUFHLURVYiOLGRVQmRDIHWDPDRUJDQL]DomR2V problemas que parecem afetá-las mais prendem-se com a atual conjuntura política de instabilidade (72,5%), o desajustamento das políticas públicas (66,7%), a debilidade da política de mecenato (54,8), a falta de consciência pública (54,1) e a legislação dispersa e incoerente (54,1%) (Quadro 3). Foi também acrescentada outra ordem de problemas para termos a ideia do impacto que a questão da dependência económica ou a incapacidade para a sustentabilidade e autonomia económica trazem a estas entidades: 80,3% referem que a falta de doações individuais/empresariais afeta e/ou afeta muito a sua organização e 70,2% |A Empreendedorismo social em Portugal DFUHVFHQWDP D IDOWD GH DSRLR ÀQDQFHLUR HVWDWDO UHYHODGRU GD IUDJLOLGDGH GHVWDV entidades no que toca à sua própria sobrevivência. É relevante ainda adiantar que 50 das organizações consideram que deve ser o EstadoRSULPHLURDJHQWHFRPDREULJDomRGHDSRLDUÀQDQFHLUDPHQWHRUJDQL]Do}HV congéneres. Em segundo lugar, 26 dos inquiridos consideram que é a própria organização TXHWHPDREULJDomRGHHQFRQWUDUUHVSRVWDVÀQDQFHLUDVSDUDDVXDVXVWHQWDELOLGDGH A função de substituição e de complementaridade aos serviços e bens intrínsecos do Estado Providência está inerente a grande parte destas organizações e, por isso, o SUHVVXSRVWRGDSURYLVmRÀQDQFHLUDSRUSDUWHGR(VWDGRHVWDUWRWDOPHQWHQRUPDOL]DGR nos seus discursos. Em jeito de conclusão, lembramos a ambivalência já referida nas palavras de Hespanha (2000) sobre a relação do Estado com estas iniciativas da sociedade civil: “Ao nível do discurso político, estes grupos de cidadãos são reconhecidos e valorizado o seu contributo para a resolução das questões sobre quem atuam (…) por parte dos serviços estatais foram, em regra, colocados todo o tipo GHLPSHGLPHQWRVOHJDLVHGLÀFXOGDGHVEXURFUiWLFDVDRUHFRQKHFLPHQWRHDFHLWDomR dessas formas organizativas como entidades credíveis para negociar com o Estado regimes de cooperação, ou mesmo como suporte institucional dos serviços prestados às populações” (Hespanha, 2000, p. 129). 4XDGUR5HSUHVHQWDomRDFHUFDGRVSUREOHPDVTXHDIHWDPDVUHODo}HVHQWUH (VWDGRHRUJDQL]Do}HV Fonte: Autoras baseadas no inquérito por questionário. Nota Conclusiva Tendo presente que o Terceiro Setor se vai modelando em função dos diferentes modelos sociais e é HP VLPXOWkQHR XP SURGXWR VyFLRKLVWyULFR HVSHFtÀFR GHVWHV terminamos o trabalho sistematizando os principais resultados obtidos por via da  Parte IV Representações sociais: políticas, legislação e conceitos de empreendedorismo social Capítulo 12 Representações das relações entre o Estado e as organizações do Terceiro Setor: algumas pistas de análise abordagem intensiva e extensiva que realizamos. No cômputo das representações acerca do Estado e do Terceiro Setor no que diz respeito a orientações e instrumentos de política, e situando-nos na abordagem intensiva, éSRVVtYHOLGHQWLÀFDUXPFRQMXQWR de obstáculos causadores de entropia nas relações entre o Estado e o Terceiro Setor. (PWHUPRVGHWLSLÀFDomRSRGHPRVLGHQWLÀFDUREVWiFXORVOHJDLVUHODFLRQDGRVFRPDV VHJXLQWHVGLPHQV}HVDDXVrQFLDHDLQVXÀFLrQFLDGHHQTXDGUDPHQWROHJDOGR7HUFHLUR Setor e da economia social; a falta de adaptabilidade de códigos e estatutos face às HVSHFLÀFLGDGHVGRVHWRUDGLPLQXWDSURWHomRHFRQyPLFRÀVFDOQRPHDGDPHQWHQR que toca àTXHVWmRGDQmRLVHQomRÀVFDO([LVWHPWDPEpPREVWiFXORVGHQDWXUH]D propriamente política e concretizados no caráter avulso e fragmentado das orientações políticas ao longo da última década e no reduzido diálogo e comunicação entre o Estado e as organizações do Terceiro Setor. No modelo proposto por Kuhnle & Selle (1992 apud Dorner, 2008), a comunicação ou ausência dela apresenta-se como uma dimensão fundamental no estabelecimento do grau de distanciamento da relação entre os atores. O facto de mais de metade dos entrevistados (12), seis dos quais provenientes de RUJDQL]Do}HVGHF~SXODHQIDWL]DUHPDVHFXQGDUL]DomRHRXLQGHÀQLomRGRSDSHOGR Terceiro Setor por parte do Estado remete-nos para cenários de maior controlo estatal e de menor autonomia do setor, atestado também pelo obstáculo da dependência HFRQyPLFD D DXVrQFLD GH GLYHUVLÀFDomR GH IRQWHV GH ÀQDQFLDPHQWR H D HVFDVVH] quotidiana de recursos com que estas instituições se deparam apresentam-se, igualmente, como obstáculos referidos pelos atores. Esta conjugação da ausência de diálogo com a dependência económica aponta para a tipologia da dependência integrada (Kuhnle & Selle, 1992 apud Dorner, 2008), mas também para os modelos de resistência por via da neutralidade e da indiferença estatal (Coston 1998 apud Dorner, 2008) e da relação de extensão (Brinkerhoff, 2002 apud Dorner, 2008), onde o Terceiro Setor se apresenta como o elemento mais fraco e com reduzida capacidade SDUDHVFROKHURXLQÁXHQFLDUDVGHFLV}HVGRSRGHUHVWDWDOÉ ainda de realçar, entre os constrangimentos LGHQWLÀFDGRV a ausência de um sistema de avaliação e monitorização das instituições e seus impactos no tocante a iniciativas desenvolvidas, o que poderá conduzir a um descrédito das instituições, no sentido em que não se avalia o nível de investimento e o valor social gerado. Um último obstáculo enunciado situa-se na representação da inconsistência do setor, relativamente àGHÀQLomRFRPXPHLQWHUQD de objetivos e estratégias. Subjacente a esta inconsistência, encontra-se o próprio caráter do Terceiro Setor português, ou seja, a sua heterogeneidade, ora encarada pelo prisma da versatilidade e da plasticidade das respostas, ora como condicionante à partilha de objetivos comuns entre as organizações (Hespanha, 2000). Aliás, esta premissa é visível na panóplia de cenários desejáveis, apontados pelos atores chave. A heterogeneidade do setor pode também ajudar a explicar os diferentes graus de apropriação das políticas e orientações nacionais e europeias. Esta apropriação varia de acordo com os tipos de orientações, mais ou menos direcionados para os seus campos de atuação e de acordo com os impactos ao nível de cada organização em particular. |A Empreendedorismo social em Portugal Olhando agora para os resultados do inquérito, ressalva-se a diversidade de perceções e posicionamentos, frequentemente ao arrepio dos estatutos e formas jurídicas que as diferentes organizações sociais podem assumir. Mais de metade da DPRVWUDDYDOLDRVVXEVtGLRVHSURJUDPDVGHDSRLRÀQDQFHLURGR(VWDGRFRPR criadores de oportunidades para a organização e quase metade (46%) avalia, da mesma forma, as políticas e programas de formação SURÀVVLRQDO É de referir que para mais de metade da amostra não houve contacto direto ou indireto com as diferentes LQLFLDWLYDVDYDOLDGDVFRPH[FHomRGDVSROtWLFDVHSURJUDPDVGHDSRLRÀQDQFHLURGR Estado), ou por desconhecimento ou por considerar que nada tem sido feito ou, ainda, pelo inexistente impacto na organização. De não menosprezar a franja, rondando os 20% de entidades, que refere desconhecer medidas de enquadramento do setor e, com RPHVPRSHVRDPRVWUDOGHVFRQKHFHUSROtWLFDVHSURJUDPDVGHIRUPDomRSURÀVVLRQDO No que concerne ao grau de envolvimento e relação entre as entidades HR (VWDGR YHULÀFDVHTXH PHVPR UHFRQKHFHQGR D H[LVWrQFLD GH SROtWLFDV H GH OHJLVODomRHVSHFtÀFDVSDUDRHPSUHHQGHGRULVPRVRFLDOé mais consensual considerarse que o desenvolvimento político legislativo tem sido por via indireta. De forma geral, evidencia-se uma imagem negativa do Estado quando este promove relações GH GHSHQGrQFLD ÀQDQFHLUDH H[LJH FRPSOHPHQWRV ÀQDQFHLURVTXH GLÀFXOWDP o acesso aos apoios. A acrescentar a esta imagem negativa, a inexistência de um processo de desburocratização. A maioria das entidades reconhece que o Estado não se relaciona com as entidades em igualdade institucional (73,6%) e que tem aumentado a exigência sem disponibilizar recursos (81,6%). Estes dados apontam SDUDDVGHVLJXDLVRSRUWXQLGDGHVHPWHUPRVGHGHÀQLomRGHSROtWLFDVHFDSDFLGDGH GHLQÁXHQFLDUDVGHFLV}HVGHPRQVWUDQGRDIUDJLOLGDGHLQVWLWXFLRQDOGRVHWRU$HVWD fragilidade acresce a dependência ÀQDQFHLUD As entidades sugerem alguma ou muita GHSHQGrQFLDÀQDQFHLUDIDFHDR(VWDGRFRQVLGHUDPDIDOWDGHDSRLRÀQDQFHLUR estatal como um problema que afeta a sua organização) e, ao mesmo tempo, mais de metade considera que o Estado deveria ser o 1º agente com a obrigação de DSRLDU ÀQDQFHLUDPHQWHDV RUJDQL]Do}HV FRQJpQHUHV (VWH FHQiULR SDUHFH SURSRU R modelo de relacionamento de suplementaridade de Kramer et al. (1993 apud Dorner, 2008), cujos serviços prestados pelas entidades do Terceiro Setor são iguais àqueles oferecidos pelo Estado, embora, no caso português, esta situação pareça resultar mais da incapacidade ou esvaziamento dos papéis tradicionais do Estado Providência e uma transferência desordenada destes papéis para o setor. Resta, ainda, lembrar que a amostra considera que o estatuto jurídico funciona como facilitador do seu desempenho e encontra-se a par dos desenvolvimentos SROtWLFROHJLVODWLYRVGDHFRQRPLDVRFLDO3RUÀPRVSUREOHPDVTXHPDLVDIHWDPDV organizações são a instabilidade política, o desajustamento das políticas públicas, a debilidade da política de mecenato, a falta de consciência pública e a legislação dispersa e incoerente. Ainda que de natureza exploratória, estes resultados apontam para a necessidade de modelos de desenvolvimento económico e social alternativos, sobretudo tendo  Parte IV Representações sociais: políticas, legislação e conceitos de empreendedorismo social Capítulo 12 Representações das relações entre o Estado e as organizações do Terceiro Setor: algumas pistas de análise HPFRQWDR SDQRUDPDDWXDO8UJH LGHQWLÀFDURVSDSpLV FRQVDJUDGRVàs instituições GR7HUFHLUR6HWRUHIRPHQWDURGLiORJRHDVXDSDUWLFLSDomRQRSURFHVVRGHUHÁH[mR conceção e concretização das decisões que afetam a sua autonomia e os seus campos de atuação. Importa ter em conta a heterogeneidade do setor, as suas vantagens e inconvenientes. O setor encontra-se dividido entre organizações mais vanguardistas, que procuram soluções alternativas em termos da sua sustentabilidade, áreas de atuação, estratégias e soluções e por organizações mais tradicionais, complementares ou substitutas das funções sociais inerentes ao Estado Providência. Urge discutir GLUHo}HVSRVLFLRQDPHQWRVHUHÁHWLUVREUHRWLSRGHPRGHORTXHVHDXVSLFLHRPDLV capaz e sustentável para os cidadãos, potenciando-se ao mesmo tempo os mecanismos e modalidades de participação cívica e política, de forma a contribuir para o sentido de comunidade e para a legitimidade das estruturas políticas. |A Empreendedorismo social em Portugal notas 1 A constatação da inexistência de políticas e/ou legislação diretamente associada à problemática em questão conduziu-nos à extensão dos critérios de análise às políticas direcionadas direta ou indiretamente SDUD R WHUFHLUR VHFWRU H HFRQRPLD VRFLDO HVSDoR HOHLWR SHOD HTXLSD SDUD LGHQWLÀFDUD HPHUJrQFLD GR IHQyPHQRHPHVWXGR3DUDFRQVXOWDGRVSURJUDPDVSROtWLFRVLGHQWLÀFDGRVYHU6DQWRVH*XHUUD 2 O uso dos diferentes conceitos prende-se com o sentido de identidade e pertença de cada entidade entrevistada face aos diversos termos existentes: economia social, terceiro sector, empreendedorismo social, economia solidária, etc. Para consulta detalhada destas diferenças concetuais e suas representações, ver capítulo 1. 3 Cf. Quadro 1 do cap. 11. 4 Sistema preventivo de controlo da segurança alimentar.  4XDOLÀFDUR7HUFHLUR6HFWRU44XDOLÀFDUDLQWHUYHQomRVRFLDO4XDOB,6(48$/HWF 6 Foi realizada uma prova da binomial para cada item sob a hipótese de igualdade da distribuição pelas duas categorias de resposta. As categorias de resposta foram FRGLÀFDGDV para sentido positivo/sentido negativo. São VLJQLÀFDQWHV a 1% as representações negativas sobre o Estado nas seguintes dimensões: f), c), g), d); éVLJQLÀFDQWHDDUHSUHVHQWDomRSRVLWLYDVREUHR(VWDGRQDGLPHQVmRJHUDO$VGLPHQV}HVDHH QmRVmRHVWDWLVWLFDPHQWHVLJQLÀFDWLYDV  Parte IV Representações sociais: políticas, legislação e conceitos de empreendedorismo social Capítulo 12 Representações das relações entre o Estado e as organizações do Terceiro Setor: algumas pistas de análise UHIHUrQFLDVELEOLRJUiÀFDV Brinkerhoff, J. M. 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