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Country Embeddedness - um estudo exploratório sobre as forças que ligam jovens adultos portugueses a Portugal

Raquel de Sá Ferreira Geraldes

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i Country Embeddedness Um estudo exploratório sobre as forças que ligam jovens adultos portugueses a Portugal por Raquel de Sá Ferreira Geraldes Dissertação de Mestrado em Economia e Gestão de Recursos Humanos Orientada por: Professora Doutora Luísa Helena Ferreira Pinto 2013 ii Nota Biográfica Raquel de Sá Ferreira Geraldes nasceu a 8 de Setembro de 1986 na cidade da Póvoa de Varzim onde até hoje reside. Licenciou-se em 2007 em Ciência Psicológica pela Universidade do Minho, onde concluiu em 2009 o Mestrado Integrado em Psicologia Clínica, ao abrigo da reestruturação académica do programa de Bolonha. Em Dezembro de 2009 finalizou a Formação Pedagógica Inicial de Formadores, sendo formadora habilitada. Possui ainda uma Pós-Graduação em Psicopatologia da Criança e do Adolescente pelo CRIAP. Iniciou o seu percurso profissional num Protocolo de Rendimento Social de Inserção, onde ainda hoje exerce funções de Psicóloga. Entretanto teve experiência como orientadora de estágios em Psicologia Clínica pela Universidade do Minho e exerceu psicologia clínica privada em diversos locais. Assumiu funções de consultora externa no Centro Nuno Martins, em Braga, onde fundou e organizou de raiz o serviço de psicologia, gerindo a equipa; e no projeto de apoio à idade maior, Casa Maior – Póvoa de Varzim, onde prestou assessoria à direção, no que concerne à gestão estratégica e de recursos humanos e formação à equipe. iii Agradecimentos À Professora Doutora Luísa Pinto pela orientação, estímulo e paixão. Aos participantes, pela disponibilidade e abertura. Aos João Trocado e Tiago Martins pelos contactos. À Elisabete, pela partilha. À Filipa, pelos contactos, pela amizade e pela crença. Ao Diogo pelos estímulos imprevistos. Ao Marco, ao Fifas e ao Patas pela viagem. iv Resumo Este estudo explora e desenvolve o conceito de country embeddedness, numa amostra de 26 jovens adultos portugueses qualificados, residentes em Portugal e no estrangeiro, pretendendo conhecer os aspetos que favorecem ou prejudicam a sua relação com o país e as diferenças existentes entre os dois grupos. Utilizando uma metodologia qualitativa, com recurso a entrevistas semiestruturadas e focus group, foi possível aferir a existência de três dimensões na atual relação dos participantes com Portugal, tendo a grelha teórica do embeddedness demonstrado ser adequada aos propósitos do estudo. O constructo de country embeddedness, definido como as forças que ligam um indivíduo a um país, neste caso o de origem, surge como teoricamente pertinente e distinto. São aspetos individuais, culturais e do país e conjunturais que determinam a posição do indivíduo num continuum de country embeddedness. A natureza circunstancial e compósita do constructo é inegável. Os portugueses percecionam-se country embedded, embora admitam a existência de mais fatores que contribuem para a saída e permanência no estrangeiro do que para a permanência e regresso a Portugal, o que reforça a distintividade do conceito. Na comparação entre os grupos, a relação entre host-country embeddedness e o homecountry embeddedness e a natureza do primeiro parecem determinar largamente o country embeddedness dos residentes no estrangeiro. Os residentes em Portugal manifestam-se altamente country embedded, sendo os aspetos conjunturais aqueles com maior peso negativo na relação com o país. Sendo o primeiro estudo conhecido neste domínio, ele abre caminho para que outros investigadores se debrucem sobre a relevância que o country embeddedness pode assumir no contexto individual, organizacional, nacional e transnacional em diversas áreas do conhecimento. De ressaltar que as conclusões deste estudo devem ser interpretadas à luz das suas limitações, nomeadamente a dimensão da amostra, ainda que possibilitem uma reflexão fundamentada e pertinente sobre a temática. v Abstract This study aimed to explore the concept of country embeddedness. Using a sample of Portuguese young adults (N=26) currently living in Portugal and abroad (selfassignees), this work explores the factors that favours or prejudice the relationship with home-country and the differences between both groups. Applying a qualitative methodology, with semi-structured interviews and focus groups, we were able to assess three dimensions in the current Portugueses relationship with Portugal. The theoretical grid of country embeddedness has shown to be adequate to this purpose. The construct of country embeddedness, defined as the forces that embedded an individual to a country, in this case his home-country, has demonstrated to be pertinent and distinct. Individuals, cultural and country, and conjuncture aspects determine the individual position in a continuum of country embeddedness. The construct is circumstantial and composite. Portuguese young adults perceive themselves as country embedded, although they admit the existence of a major number of factors that further enhances their intentions to leave and/or stay abroad than to stay and/or return to Portugal. This finding corroborates the pertinence and distinctiveness of country embeddedness. Comparing the two groups, the relationship between the host-country embeddedness and home-country embeddedness and the nature of the first one interfere in the country embeddedness of self-assignees. The residents in Portugal have demonstrated a high home-country embeddedness. The conjuncture aspects were the ones with more negative weight in the relationship with country. As the first known study in this field, this work opens a way to other researchers to look into the relevance that country embeddedness may assume in individual, organizational, national and transnational contexts of different areas of knowledge. The limitations of this study, namely the sample dimension, preclude the results significance, but not the fundamental and pertinent reflection about them. 6 Índice Introdução .....................................................................................................................8 Enquadramento Teórico .............................................................................................. 10 1. Teorias de Embeddedness ................................................................................. 10 1.1 Job e Occupational Embeddedness ................................................................ 11 1.2 Social, Cultural and Family Embeddedness ................................................... 14 1.3 Country Embeddedness .................................................................................. 16 1.4 Questões teóricas sobre o constructo de embeddedness .................................. 18 2. O contexto português: portuguese country embeddedness ................................. 23 2.1 A Atual Conjuntura Socioeconómica em Portugal .......................................... 24 2.2 A tradição emigratória ................................................................................... 25 2.3 Os portugueses e Portugal .............................................................................. 27 Metodologia ................................................................................................................ 31 1. Procedimento de recolha de dados .................................................................... 31 2. Participantes na investigação ............................................................................ 33 3. Análise dos Dados ............................................................................................ 34 Resultados ................................................................................................................... 36 1. Country Embeddedness: Ligação, Retenção e Retorno ...................................... 36 1.1 Ligação ao País .............................................................................................. 37 1.2 Retenção no país ............................................................................................ 42 1.3 Retorno ao país .............................................................................................. 45 2. Diferenças e similaridades no Country Embeddedness de residentes em Portugal e no estrangeiro ....................................................................................................... 50 2.1 Ligação ao país .............................................................................................. 51 2.2 Retenção no país ............................................................................................ 56 2.3 Retorno ao país .............................................................................................. 59 Discussão dos Resultados ............................................................................................ 65 1. Country Embeddedness: o que liga os Portugueses a Portugal? ....................... 65 7 2. Diferenças e Semelhanças no Country Embeddedness de residentes em Portugal e no Estrangeiro ....................................................................................................... 69 Conclusão: Limitações e Contributos........................................................................... 72 Bibliografia ................................................................................................................. 75 Anexos ........................................................................................................................ 83 Anexo I ................................................................................................................... 83 a. Questionário Sociodemográfico ..................................................................... 83 b. Guião de Entrevista.................................................................................... 84 Anexo II .................................................................................................................. 87 Tabela IIa – Nº de Participantes com unidades de análise cotadas na categoria principal Ligação e subordinadas ......................................................................... 87 Tabela IIb – Nº de Participantes com unidades de análise cotadas na categoria principal Retenção e subordinadas ....................................................................... 89 Tabela IIc – Nº de Participantes com unidades de análise cotadas na categoria principal Retorno e subordinadas ......................................................................... 90 8 Introdução A globalização influiu nos fluxos de mobilidade internacional, facilitando-os e incrementando-os (Richardson e McKenna, 2006). Acrescendo ao fenómeno de emigração, a expatriação, ou seja, a mobilidade internacional temporária por motivos profissionais, assume uma maior relevância, à qual não têm ficado alheios os estudiosos das mais diversas áreas relacionadas com a economia, a gestão e o comportamento humano (Lewin e Zhong, 2013). Alguns teóricos sugeriram que a maior expressão destes fenómenos pudesse contribuir para a convergência de culturas, padrões e mercados, no entanto, as diferenças entre regiões, culturas e sociedades não parecem ter sido atenuadas com a globalização (Meyer, Mudambi, e Narula, 2011) A noção de embeddedness, tradicionalmente aplicada ao ramo económico, e portanto aos fatores de emaranhamento social que influenciam o sucesso da atividade económica, tem sido explorada noutros domínios (Granovetter, 1985). O job embeddedness, correspondente às forças que ligam e retêm um indivíduo numa organização, tem-se revelado um bom preditor do turnover, designadamente em contexto internacional (Mitchel, Holtom, Sablynski e Erez, 2001). Assim, o quadro teórico do embeddedness permite interpretar a relação que os indivíduos estabelecem com o seu país de origem como um emaranhamento, uma rede de forças que incita à proximidade física e emocional e à permanência (Lo, Wong, Yam, e Whitfield, 2012). No contexto português, os fenómenos migratórios, tradicionalmente complexos, continuam a fazer-se sentir atualmente, tal como confirmam as estatísticas do Instituto Nacional de Estatística. Apesar da cultura e da identidade portuguesas terem sido alvo de curiosidade e interesse por teóricos e empíricos das mais diversas áreas e nacionalidades (Almeida, 2004), o estudo da ligação dos portugueses a Portugal, com consequência nas razões que os conduzem a partir ou a ficar, permanece ainda incipiente. Se num contexto de crescimento económico, sem alterações demográficas significativas, seria benéfico para as organizações, relevante para as entidades políticas, cativante para os cidadãos e aliciante para a comunidade científica, saber o que liga os indivíduos ao seu país, podendo ou não retê-los, num contexto socioeconómico e político débil, como o português, em que se assistem a movimentos emigratórios e de 9 expatriação acentuados, este estudo assume uma relevância acrescida e uma utilidade inquestionável. Ao longo deste trabalho procurar-se-á explorar o conceito de country embeddedness, ou seja, as dimensões que compõem a rede de forças que incita à proximidade física e emocional e à permanência em Portugal, de jovens adultos ativos portugueses. Importa esclarecer que o termo embeddedness não foi traduzido por (1) não ter sido encontrada investigação nacional que se debruçasse sobre o conceito e o tivesse adaptado e por, (2) consultados peritos em tradução, não ter sido encontrado um termo equivalente em português que respeitasse integralmente o significado original. Assim, ao longo das diversas secções serão utilizados os termos originais em inglês na aplicação do conceito de embeddedness aos diversos contextos, inclusive, o objeto deste trabalho, o country embeddedness, aplicado como referente ao país de origem. Este trabalho encontra-se organizado em quatro secções. A primeira secção dedicarse-á à exploração da literatura relevante no domínio do conceito de embeddedness e do contexto da presente investigação, o contexto português na atualidade. Seguir-se-á a apresentação das questões de investigação, da metodologia utilizada e dos resultados. Os mesmos serão discutidos à luz da literatura consultada, sendo depois refletidas as principais conclusões e limitações do estudo. Serão, finalmente, conferidas algumas recomendações e sugestões para investigação futura. 16 Numa proposta teórica debruçada sobre importância que o family embeddedness poderá desempenhar no empreendedorismo, Aldrick e Cliff (2003) criticaram a negligência da comunidade científica perante a relevância da aplicação do conceito de embeddedness à família, enquanto unidade social básica. Os autores, depois de uma revisão bibliográfica acerca do conceito de embeddedness e das alterações na família tradicional norte-americana, propuseram a exploração desta relação em futuros estudos. A aplicação do conceito de family embeddedness associa-se à de structural embeddedness que enfatiza que uma relação entre indivíduos é definida pela extensão em que estes se relacionam com outros similares e praticam atividades comuns (Feld, 1997). Sem dúvida que no contexto da família, estes requisitos permanecem ao longo do tempo. Mais recentemente Ramesh e Gelfand (2010) propuseram a necessidade de acautelar a aplicação do modelo de gestão de conhecimento de Nonaka e Takeuchi (1997) de forma similar a culturas individualistas e coletivistas. Nas suas conclusões, os autores alertaram para a relevância dos gestores atenderem ao family e cultural embeddedness dos trabalhadores, tendo proposto formas de envolver a família na vida organizacional. 1.3 Country Embeddedness No âmbito da investigação em gestão internacional de recursos humanos e no seguimento das propostas acerca do constructo de job embeddedness (Zhang et al., 2012), Lo et al. (2012) exploraram as dimensões off-the-job do conceito com o objetivo de explicar, de forma mais completa, as decisões de turnover dos expatriados. Num estudo com 210 self-assignees, os autores apresentaram pela primeira vez os conceitos de ‘home-country community embeddedness (HomeCCE)’, ‘host-country organization embeddedness (HostCOE)’ e ‘host-country community embeddedness (HostCCE)’, esperando que a decisão de turnover dependesse tanto do embeddedness na comunidade atual (de destino) como do embeddedness na comunidade de origem. Assim, assumindo que a decisão de permanecer ou sair do país de destino se poderia associar positiva e/ou negativamente ao embeddedness com o país de origem e de destino, Lo et al. (2012) esperaram, por exemplo, que quanto mais embedded estiver o indivíduo no país de origem maior será a intenção de regressar; inversamente quanto mais embedded estiver o indivíduo no país de destino menos intenção terá de regressar, 17 sobretudo se a permanência no destino for um meio para garantir melhores condições de vida à família. Esta possibilidade remete também para o conceito de family embeddedness já discutido. Os resultados (cf. Figura 1) apontaram para que a relação entre o home-country community embeddedness e o turnover seja totalmente mediada pelo host-country organizational embeddedness. Quando o home-country community embeddedness é elevado, o host-country community embeddedness tende também a sê-lo, sendo que, nestes casos, as intenções de turnover são menores. A relação entre o home-country community embeddedness e a vontade em aceitar uma nova proposta de trabalho demonstrou ser parcialmente mediada pelo host-country organization embeddedness, o que indica que o embeddedness no país de destino pode amortecer o efeito de possíveis choques culturais e da intenção de sair. Destaca-se ainda que o host-country organization embeddedness surge como um fator vital na decisão de turnover dos self-initiated expatriates. Figura 1 – Modelo Teórico Country Embeddedness e Turnover Fonte: Lo et al., 2012, p.15 As conclusões do estudo sugerem que o home-country embeddedness se associa positivamente ao host-organization embeddedness, contribuindo para diminuir as intenções de turnover, o que demonstra a complexidade destas relações e a necessidade de uma maior exploração empírica destes domínios. 18 Com efeito, pese embora a questão do embeddedness a países, nomeadamente no contexto da investigação em gestão internacional, já ter sido abordada, a sua investigação permanece incipiente. 1.4 Questões teóricas sobre o constructo de embeddedness Tendo em conta a revisão efetuada e o objetivo de explorar o constructo de country embeddedness, constatada a sua proximidade a outros constructos, impôs-se a necessidade de distinguir o conceito de embeddedness dos seus próximos. No Quadro 2 encontram-se definidos estes constructos, organizados segundo as aplicações já discutidas para o conceito de embeddedness. Quadro 2 – Distinção entre o constructo de embeddedness e outros similares Conceito Definições e Autores Aspetos diferenciadores do conceito de embeddedness Por comparação ao constructo de social embeddedness: Identidade / Identificação Social (social identity) “(…) that part of an individual’s self-concept which derives from knowledge of is membership of a social group (or groups) together with the emotional significance attached to the membership.” (Tajfel, 1974, p. 69) O constructo de identidade social induz a noção de fusão entre o indivíduo e o grupo, sendo que este último se confunde com o self. Tal não reflete o constructo de social embeddedness que, aplicado ao contexto individual, aponta para as forças que ligam e retêm um indivíduo numa sociedade ou contexto social, mas não o confundem com esse coletivo. 19 Conceito Definições e Autores Aspetos diferenciadores do conceito de embeddedness Por comparação aos constructos de job/organizational embeddedness: Compromisso organizacional (organizational commitment) “the psychological link between individual and organization” (van Knippenberg e Sleebos, 2006, p. 573) Apesar de também se correlacionar negativamente com o turnover (Mitchell et al., 2001), o commitment tem sido aplicado a temas unicamente organizacionais. Acresce o facto de, neste contexto, as dimensões afetiva e normativa se distanciarem teoricamente do constructo equivalente de job/organizational embeddedness. Allen e Meyer, 1990 - 3 dimensões de compromisso: “The affective component of organizational commitment, proposed by the model, refers to employees' emotional attachment to, identification with, and involvement in, the organization.” (Allen e Meyer, 1990, p.1) A dimensão afetiva refere-se ao facto do indivíduo gostar do seu posto de trabalho, ou seja, a manutenção no cargo justifica-se pelos afetos e sentimentos positivos nutridos pela organização. Ora, pese embora alguns aspetos do community embeddedness possam englobar sentimentos e afetos positivos, eles podem também incluir julgamentos não afetivos (Mitchell et al., 2001). Segundo os autores (Mitchell et al., 2001), o conceito de embeddedness não é essencialmente afetivo. “Finally, the normative component refers to employees' feelings of obligation to remain with the organization.” (Allen e Meyer, 1990, p.1) A dimensão normativa do constructo de compromisso, por seu lado, remete para um sentido de obrigação, ou seja, a permanência no cargo justifica-se porque o individuo se sente obrigado a fazê-lo. No caso do constructo de job embeddedness, embora alguns aspetos da dimensão de links se possam reportar a um sentido de obrigação, como o caso de fazer parte de uma equipa de trabalho, esta dimensão não se reduz a esse sentido, ultrapassando-o (Mitchell et al., 2001). 20 Conceito Definições e Autores Aspetos diferenciadores do conceito de embeddedness “The continuance component refers to commitment based on the costs that employees associate with leaving the organization.” (Allen e Meyer, 1990, p.1) Finalmente, embora a dimensão de continuidade do constructo de compromisso e a dimensão de sacrifício do de job embeddedness se aproximem concetualmente, a forma como se acede a cada uma delas, nomeadamente através dos itens de uma escala difere no grau de especificidade. Segundo os autores, quando se utiliza a escala de job embeddedness avalia-se de forma muito mais específica a natureza da dimensão sacrifício e, portanto do próprio constructo. Identidade Organizacional (organizational identity/ identification) “The extent to which individuals define the self in terms of the membership in the organization is reflected in the concept of organizational identification, the perceived oneness with the organization. Organizational identification thus reflects the psychological merging of self and organization” (van Knippenberg e Sleebos, 2006, p. 572) Ainda que possa ser confundida com a noção de organizational embeddedness, e particularmente com a sua dimensão de encaixe/adequação (fit), a identidade/identificação organizacional assume um significado mais profundo do que o primeiro. Enquanto a identidade remete para a fusão entre o self e a organização ou o posto de trabalho, o embeddedness, em particular a dimensão de encaixe, remete para a compatibilidade entre o indivíduo e o posto de trabalho, no que concerne a aspetos específicos (Mitchell et al., 2001). 21 Conceito Definições e Autores Aspetos diferenciadores do conceito de embeddedness Satisfação Organizacional (organizational satisfaction) “(…) job satisfaction represents a feeling that appears as a result of the perception that the job enables the material and psychological needs” (Aziri, 2011, p. 78) O foco da satisfação encontra-se nos fatores organizacionais e não e aspetos exteriores à organização (Mitchell et al., 2001), ao contrário do que acontece com o job e o organizational embeddedness. Existem inúmeras abordagens teóricas e de medida ao conceito de satisfação, com múltiplas dimensões identificadas (Mitchell et al., 2001). Estas dimensões do constructo de satisfação incluem atitudes afetivas em relação ao ambiente de trabalho, colegas e superiores hierárquicos. Embora a dimensão de sacrifício do constructo job embeddedness possa incluir aspetos afetivos, ela não se limita a estes, à semelhança do que sucede quando considerado o conceito de compromisso (Mitchell et al., 2001) Esclarecida a distintividade do constructo de embeddedness e tendo em conta que o presente trabalho se dedica à exploração do conceito de country embeddedness numa realidade particular - a relação com o país de origem -, importa atender às premissas que aqui o norteiam e segundo as quais ele deverá ser entendido neste estudo (Mitchell et al., 2001; Ng e Feldman, 2009). As críticas já discutidas ao constructo reforçam a necessidade de o estudar por si só, antes de o relacionar com antecedentes ou consequências, o que ilustra a pertinência deste trabalho. Ainda que o constructo possa contribuir para a explicação, pelo menos em parte, das decisões de partir ou ficar (Zhang et al., 2012), ele indicia na sua definição independência e distintividade teóricas, sendo que o estudo dos seus componentes, particularmente no contexto de países e, especificamente, do país de origem, permanece por explorar. Neste trabalho, o conceito de embeddedness será abordado numa perspetiva compósita (Ng e Feldman, 2009), procurando atender aos aspetos que o constituem, no que respeita à relação dos indivíduos com o seu país de origem e àquilo que contribui 22 para a força dessa ligação. Seguindo a concetualização de Mitchell et al. (2001) no que respeita ao job embeddedness, o presente trabalho presume a existência de uma rede de aspetos/forças (p.e. familiares, profissionais, comunitárias…) que mantêm os indivíduos emaranhados no seu país de origem e que influenciarão as suas decisões de permanecer ou partir. As diferenças individuais desempenham neste contexto um papel relevante, designadamente na definição das fronteiras do constructo embeddedness, seja o mesmo aplicado a um cargo, profissão ou a um país, como neste caso, tal como preconizado no estudo de Feldman e Ng (2007), a respeito do job/occupational embeddedness. Com efeito, diferentes indivíduos percecionam de diferentes formas as forças que os ligam a estas realidades. Assim, é pertinente a adoção, neste trabalho, de uma abordagem exploratória e profunda ao constructo de forma a explorar a perceção destas diferenças. Acresce ainda a necessidade de realçar que o embeddedness não se constitui um fenómeno estanque, tendendo a modificar-se ao longo do tempo e assumindo, por isso, um caráter situacional e individual. Assim, poder-se-á esperar que o nível de embeddedness, nomeadamente country embeddedness, varie consoante fatores conjunturais (p.e. condições socioeconómicas) ou individuais (p.e. fase do ciclo de vida). Não obstante, e como referido a respeito da distinção entre embeddedness e satisfação, os indivíduos podem optar por permanecer num país, tal como num posto de trabalho (Ng. e Feldman, 2012), mesmo identificando melhores alternativas noutro local, como por exemplo, melhores condições económicas, havendo uma rede de outros fatores que o justifica. De igual forma se entende que, correspondendo o country embeddedness ao conjunto de forças que retém os indivíduos num país, dificultando o seu abandono, é possível que esse conjunto de forças persista, mesmo face à saída do país. Assim, o conceito de country embeddedness, e respetivas dimensões (que aqui se procuram conhecer), distingue-se dos fatores que favorecem ou prejudicam as decisões de permanecer ou partir. Em última instância, o conceito de embeddedness poderá explicar uma parte da variância dessas decisões. Neste estudo, por simplificação, explora-se o country embeddedness com o país de origem, ou seja, com o país de nacionalidade e de nascimento, mas não necessariamente o país de residência. Este é um aspeto a atender, porquanto outros estudos (Lo et al., 23 2012) revelaram que para os trabalhadores internacionais o home-country embeddedness não se demonstra independente de dimensões do país de destino, como o host-country embeddedness e host-organizational embeddedness (Lo et al., 2012) Em síntese, este trabalho explora o conceito de country embeddedness de portugueses com o seu país de origem, através de uma análise compósita, procurando conhecer as suas dimensões. Assume-se que este fenómeno é dinâmico e circunstancial, tendendo a alterar-se ao longo do tempo, ainda que de forma lenta, sendo por isso relevante explorar o contexto português atual, como forma de contextualizar e compreender os resultados encontrados. 2. O contexto português: portuguese country embeddedness ‘Latente, se não mesmo adormecido durante a maior parte do tempo, o sentimento nacional constitui, pois, um recurso ao dispor dos membros da comunidade, tanto para efeitos pessoais, como para a manutenção da identidade individual perante a emigração ou o exílio, por exemplo, experiências em que os portugueses são historicamente peritos, mas também para efeitos coletivos, como, por exemplo, o estabelecimento de redes grupais suscetíveis de trazerem benefícios económicos (...)” (Cabral, 2003, p.528) Tendo em conta o objetivo de explorar o conceito de country embeddedness com Portugal, e sendo este um constructo dinâmico, como se referiu, importa caracterizar o contexto português. Será elaborada uma breve descrição da conjuntura socioeconómica atual, seguida de uma reflexão sobre a tradição emigratória portuguesa, sem ignorar alguns dados acerca da relação dos portugueses com o país. Estes surgem como relevantes se atendermos às condicionantes situacionais e individuais do conceito de country embeddedness, anteriormente referidas, e à forma como estas mesmas variáveis e o conceito em si podem afetar as decisões de partir e ficar no país. 24 2.1 A Atual Conjuntura Socioeconómica em Portugal ‘A crise que vivemos presentemente, surgida na confluência de uma crise de contornos internacionais com fundamentos nacionais, apresenta-se com uma complexidade particular pelas restrições que impendem sobre a economia portuguesa.’ (Farto e Morais, 2011) A situação socioeconómica e política portuguesa assume, nos dias de hoje, contornos complexos e exigentes, que desafiam quotidianamente os portugueses e a sua relação com Portugal. A contração económica, a elevação dos custos de vida, a diminuição dos rendimentos de trabalho, a retração da qualidade de vida e bem-estar, a crise social e a fragilidade dos poderes políticos interferem sobre a atratividade de Portugal para o exterior mas, primeiramente, para os seus (Farto e Morais, 2011). O Programa de Estabilidade e Crescimento impôs constrangimentos, limites e penalizações que não auguram uma bolha de respiração próxima. Acresce que o contexto mundial, extraeuropeu, também impõe desafios complexos a uma economia pouco competitiva e com fraca expressão exportadora como a portuguesa (Farto e Morais, 2011). Já antes da atual crise económico-financeira, e com as reservas que as alterações subsequentes impõem, Cabral (1995) estudou a perceção dos portugueses acerca da equidade social, do estado-providência e do sistema fiscal, tendo constatado que a população considerava o desempenho da segurança social insuficiente. Referia-se à necessária gratuitidade dos sistemas de saúde e educação e considerava a equidade social insuficiente no que concerne ao sistema de oportunidades e recompensas socioeconómicas. Em termos políticos, o descontentamento da população é feito sentir em manifestações públicas, na imprensa e no quotidiano. Os portugueses não creem na solução política para os problemas, reconhecem na corrupção instalada um motivo para a total descrença no poder político e na sua volição (Sousa e Triães, 2008). Acrescem ao exposto os dados que apontam para a não identificação dos portugueses eleitores com os políticos em cargo, não os assumindo como decisores de confiança (Vitorino e Fernandes, 2000). 25 Todos estes factos, quer oriundos da realidade socioeconómica atual, quer da perceção dos portugueses acerca da mesma, sugerem um desafio contínuo à relação dos portugueses com Portugal e à sua atratividade deste enquanto país. Com efeito, os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE, 2012) apontam para que em 2011, o número de emigrantes tenha aumentado 85% face aos números de 2010, estimando-se que tenham saído do país 43.998 pessoas, mais 20.238 do que em 2010. Ora, se o country embeddedness remete para o conjunto de forças que liga um indivíduo ao seu país, com possível consequência nas decisões de partir/ficar, poderemos estar a assistir, em Portugal, a um enfraquecimento destas forças e, portanto, do country embeddedness, o que reforça a pertinência do estudo nesta população específica. 2.2 A tradição emigratória ‘O comportamento migratório é uma presença constante ao longo da história de Portugal’ (Antunes, 1981, p. 18). Ainda antes da constituição de Portugal enquanto estado, as movimentações populacionais entre os povos que habitavam o território que viria a constituir Portugal indiciavam um comportamento que se viria a instaurar como tradicionalmente português (Antunes, 1981). Os Descobrimentos que se iniciaram no séc. XV propiciaram a diáspora portuguesa pelo mundo e a consagração deste comportamento que, segundo Antunes (1981), se assumiu, e assume, como um dos principais fenómenos sociais portugueses. Nas décadas de 60 e 70, o crescimento económico dos países do Norte e Centro da Europa contribuíram para um movimento emigratório ímpar na sociedade portuguesa, motivado pela busca de melhores condições de vida. A figura do emigrante português, enquanto integrante do imaginário e da realidade social nacional, ter-se-á consagrado nos anos 60, com a dimensão do movimento emigratório (Antunes, 1981). Nessa altura, as famílias e a sociedade portuguesas familiarizaram-se com a realidade do ‘português no mundo’. O ‘modo português de estar no mundo’, conceito introduzido por Adriano Moreira nos anos 50, “pressupõe que o povo português tem uma maneira particular, específica, 32 académica atual. Procurou-se ainda a construção de uma amostra equilibrada e comparável de residentes e não residentes, do ponto de vista de algumas variáveis demográficas como: idade, género, educação/qualificação, situação familiar e profissional. A opção por uma recolha de dados multimodal surgiu pela necessidade de utilizar os Focus Group como espaço de exploração inicial das questões das entrevistas e obtenção de dados que pudessem ser utilizados na realização das mesmas. Esta opção, já validada no âmbito da investigação qualitativa (Gill et al., 2008), demonstrou-se essencial para a avaliação da consistência dos dados e orientação do entrevistador. Em ambos os contextos foi utilizado o mesmo guião semiestruturado. A postura do entrevistador, imparcial e não-participante, foi, tanto quanto possível, similar nos dois contextos. Os primeiros contactos com todos os participantes foram efetuados por correio eletrónico no sentido da auscultação da disponibilidade para a participação no estudo e prestação de informação sucinta sobre o mesmo. De seguida, foram enviados, também via correio eletrónico, os questionários sociodemográficos. As entrevistas com os residentes em Portugal foram realizadas presencialmente, com gravação áudio, com a exceção de dois casos, em que as mesmas, por indisponibilidade do participante, foram realizadas via Skype, com recurso a suporte áudio e vídeo. As entrevistas com os residentes no estrangeiro foram realizadas via Skype, nas mesmas condições. Num dos casos foi possível realizar a entrevista presencialmente. Os Focus Group foram dinamizados em salas de estudo da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, encontrando-se os participantes residentes em Portugal presentes e sendo a participação dos residentes no estrangeiro conseguida via Skype, com recurso a suporte áudio e vídeo. A todos os participantes foi requerida autorização para gravar e transcrever o material recolhido e para citar os resultados. Depois da realização das entrevistas e Focus Group foi atribuído um código a cada participante, ao qual foi associado o material respetivo, para que se potenciasse a isenção e imparcialidade na análise de dados, assim como o anonimato e confidencialidade. Conforme referido, foi utilizado um questionário sociodemográfico para caracterização da amostra (cf. Anexo IA – Instrumentos, Questionário 33 Sociodemográfico) e um Guião de Entrevista de índole semiestruturada (cf. Anexo IB – Instrumentos, Guião de Entrevista). Com base na literatura consultada, o guião foi construído e dividido em duas grandes partes: a perceção da existência de uma ligação a Portugal; e a caracterização dessa ligação através dos aspetos que a fortalecem e/ou prejudicam. O mesmo instrumento foi utilizado para a realização das entrevistas e dos Focus Group. 2. Participantes na investigação Participaram neste estudo 26 jovens adultos portugueses entre os 22 e os 32 anos (M = 27,38), sendo 50% do sexo feminino e 50% do sexo masculino (N = 13; N = 13). Quanto ao estado civil, 15 participantes eram solteiros, nove residiam em união de facto e dois eram casados. Nenhum dos participantes tinha filhos. Todos os participantes detinham, no momento da recolha de dados, formação superior (Licenciatura, N = 16; Mestrado, N = 9; Doutoramento, N = 1) e ocupação profissional ou académica, sendo as suas profissões variadas, ressaltando-se apenas a presença maioritária de Engenheiros Informáticos (N = 7; cf. Gráfico 1 – Profissões dos Participantes). Dezasseis participantes (61,5%) encontravam-se a residir em Portugal e dez (38,5%) a residir no estrangeiro, sendo as suas localizações variadas (cf. Gráfico 2 – 4% 4% 7% 4% 27% 4% 11% 8% 4% 4% 4% 4% 11% 4% Gráfico 1 - Profissões dos Participantes Psicólogo Médico Professor Gerente Engenheiro Informático Engenheiro Mecânico Consultor/Auditor Tradutor Técnico de Vendas Técnico de Emprego Enfermeiro Técnico Administrativo Estudante Jurista 34 Localização dos Participantes no Exterior), tal como o tempo de permanência no destino (cf. Gráfico 3 – Tempo de Permanência no Destino). Quanto às localizações dos participantes a residir no estrangeiro, dois residiam na Holanda, e um participante em cada um dos seguintes países: República Checa, Luxemburgo, França, Inglaterra, Noruega, Emirados Árabes Unidos, Austrália e Eslováquia. No que respeita ao tempo de permanência no país de destino cinco participantes encontravam-se no exterior há mais de cinco anos, um estava no exterior entre três e cinco anos, três participantes entre seis meses e três anos e um participante encontravase no exterior há menos de seis meses. 3. Análise dos Dados Os materiais áudio das entrevistas e dos Focus Group foram transcritos integralmente, e posteriormente sujeitos a uma análise de conteúdo categorial temática (Bardin, 2013). Esta análise foi feita com recurso ao programa informático QSR NVivo, versão 10. Partindo das transcrições das entrevistas e das participações nos Focus Group como unidade de contexto, escolheu-se o parágrafo como unidade de registo de forma a promover uma fidedigna categorização dos conteúdos. Foram integrados os dados relativos aos Focus Group e às entrevistas individuais, segundo a opção multimodal da metodologia qualitativa (Gondim, 2003). 11 1 2 1 1 1 11 Gráfico 2 - Localização dos Participantes no Exterior Républica Checa Emirados Árabes Unidos Luxemburgo Holanda França Austrália Inglaterra Eslováquia 1 3 1 5 Gráfico 3 - Tempo de Permanência no Destino < 6m 6m a 3 anos 3 a 5 anos > 5 anos 35 Para assegurar a validade e fidelidade da análise, foram utilizados os procedimentos indicados pela literatura. Numa primeira fase, procedeu-se à leitura de todo o material transcrito (leitura flutuante – Bardin, 1977) e procedeu-se a uma categorização inicial dos principais temas: categorização não apriorística (Campos, 2004). Depois da categorização inicial foram elaboradas descrições gerais e específicas das categorias e subcategorias, sendo as mesmas adicionadas e reformuladas à medida que progredia a análise e categorização do material (Bardin, 1977). Na fase seguinte, procedeu-se à análise e interpretação dos dados, com reformulação e refinamento da categorização inicial e recurso ao cruzamento de dados, utilizando os comandos de Coding Queries e Matrix Coding Queries, disponíveis no QSR Nvivo, versão 10. A análise de dados e respetiva interpretação assenta na expressão numérica das unidades de análise por ser este um critério que quantifica a relevância conferida pelos participantes aos diferentes temas. No entanto, em anexo encontram-se, para consulta, os mesmos dados expressos em número de participantes que mencionaram cada tema/categoria. 36 Resultados Nesta secção proceder-se-á à exposição e descrição dos principais resultados, organizando-os segundo as questões de investigação colocadas. Assim, serão descritos os resultados relativos à primeira questão de investigação, a exploração do conceito de country embeddedness, e em seguida referem-se os aspetos relativos à segunda questão de investigação, ou seja, as diferenças no country embeddedness dos participantes residentes em Portugal e no estrangeiro. Em cada uma das subsecções apresenta-se uma análise inicial das três principais dimensões encontradas, sendo os dados relativos às categorizações secundárias e descendentes expostos, por ordem decrescente, nas tabelas respetivas. Será elaborada, pela mesma ordem, uma análise das categorias subordinadas, sendo esta acompanhada com citações dos participantes. Nestas citações serão utilizados os códigos atribuídos aos participantes após a realização das entrevistas e focus group1. Em cada subsecção sumarizam-se os principais resultados. 1. Country Embeddedness: Ligação, Retenção e Retorno O nosso país é aquilo que tu aprendes a amar desde pequenina e é intrínseco a ti, tu nem te dás conta de quando é que isso começa, não é? Essa paixão. Sujeito E_H_1 Eu acho que se eu pudesse voltar atrás e escolher o sítio onde pudesse nascer queria crescer aqui na mesma. Sujeito E_H_3 Não é só recordações, é... nós nascemos e crescemos passamos uma infância e o nosso país quase que faz parte de nós, quase que entra no nosso DNA e já vai para além de questões culturais, ou questões profissionais ou pessoais, ou mesmo de família, é mesmo... é aquele sentimento de casa. Sujeito E_SIE_5 1 Nos códigos utilizados para cada sujeito a inicial E refere-se a Entrevista, FG a Focus Group, H a participantes residentes em Portugal e SIE a participantes residentes no estrangeiro. 37 Remetendo para a primeira questão de investigação – que dimensões compõem o country embeddedness dos portugueses na atualidade - é importante sublinhar que todos os participantes do estudo percecionaram a sua relação atual com Portugal como um emaranhado de fatores (cf. Anexo II – Nº de participantes com unidades de análise cotadas em cada categoria). Numa análise global, destacam-se três categorias principais: a ligação a Portugal – “Ligação”; a ponderação da saída versus permanência no país, que se denominou “Retenção”; e o “Retorno”, a ponderação do retorno versus permanência no país de destino, quer nos participantes residentes no estrangeiro, quer naqueles que, permanecendo em Portugal, se imaginaram no papel dos primeiros. Em cada uma dessas categorias foi possível identificar dois grupos de aspetos, respetivamente, aqueles que favorecem a ligação, a retenção e o retorno ao país, e aqueles que os prejudicam. Lá está eu não conheço outro sítio e a verdade é que tenho muitas boas memórias aqui e consigo apesar de toda a situação, consigo ver que há coisas muito especiais e únicas no nosso país. E se calhar é por isso que me custa ver isto tudo tão mal aproveitado e ver-nos a nós jovens expulsos daqui. Porque sinto que me estão a rejeitar o direito de aproveitar o nosso país, onde nós nascemos, não é? Estamos a ser expulsos de uma coisa que é nossa. Que é nossa que é muito especial, que tem uma história que acho que é de nos orgulharmos, da maior parte, nos seus aspetos, e acho que é disso que eu me orgulho, das pessoas, e sei que é disso que eu vou ter saudades e sei que se calhar falares comigo daqui a um ano e eu noutro país já te vou dar respostas diferentes. Sujeito E_H_1 1.1 Ligação ao País A dimensão de ‘Ligação ao país’ surgiu a partir das unidades de análise que se referiam à perceção dos participantes acerca dos aspetos que favorecem ou prejudicam a sua relação com Portugal. Na Tabela 1 encontram-se esquematizadas todas as subcategorias integradas neste tema e a sua expressão em termos de unidades de análise, por ordem decrescente (ua). 38 Tabela 1 – Categoria ligação ao país (3618)2 Aspetos que favorecem a ligação com o país (2258) Aspetos Individuais (1021) Sentimentos por Portugal (569) Sentimento de ser português (120) Última vez (22) No estrangeiro (15) 1ª vez (14) Portugal como o seu lugar (106) Vontade de ficar/voltar a Portugal (40) Sentimento de Casa (28) Interesse em saber o que se passa (13) Vontade de ser recordado em Portugal (3) Portugal como parte de si (94) Relação Imutável (19) Sentido de Missão (15) Amor e Emaranhamento (31) Orgulho (14) Sentimentos por Pessoas (371) Família (94) Amigos (59) Namorado/a (12) Contactos Portugueses no Estrangeiro (12) Lugares Específicos (60) Cidade Natal (21) Casa Própria ou de Familiares (11) Memórias (20) Aspetos Culturais (465) Características dos Portugueses (114) Simpatia e Hospitalidade (46) Desenrasque e Adaptação (21) Sentir Português (13) Espírito Lutador e Trabalhador (13) Solidariedade (9) Equilíbrio e Calma (8) Humildade e Integridade (6) Insatisfação e Pessimismo (5) Esperança (3) Hábitos e Costumes (86) Língua (60) Gastronomia (56) De Lazer (22) Sociais (14) Futebol (19) Momento da Refeição (9) História de Portugal (13) Música (11) Literatura (4) Religiosos (3) Aspetos Físicos e Geográfi cos de Portugal (95) Clima (59) Paisagens Físicas (30) Dimensão e Localização Geográfica (5) Aspetos Socioecon ómicos e Laborais (34) Funcionamento da Sociedade (21) Emprego Atual e Prospeção de Carreira (13) 2 Os números parentesados remetem para o número de unidades de análise (ua). 39 Fatores que prejudicam a ligação com o país (551) Aspetos Socioeconómicas e políticas (167) Mercado de Trabalho (43) Condições de Trabalho (14) Cultura Empresarial (4) Pouca especialização (4) Questões Políticas (40) Mentalidade política (15) Conjuntura Socioeconómica Atual (38) Falta de perspetiva de futuro (8) Aspetos Individuais (145) Residir noutro país (102) Distância Física e Emocional de Portugal por estar fora (22) Identificação com o país de destino (21) Conhecer outros países e culturas (16) Sentimentos negativos por Portugal (43) Injustiça e Revolta (12) Desilusão e Vergonha (10) Impotência e Frustração (6) Rejeição e Expulsão (3) Características dos Portugueses (57) Falta de participação e proatividade (15) Mentalidade Fechada e Retrógrada (14) Má-língua e Mesquinhez (13) Tendência para desrespeitar as regras (13) Pessimismo (6) *Os números parentesados correspondem às unidades de análise categorizadas em cada item. Da análise da tabela, depreende-se primeiramente a prevalência dos aspetos que favorecem a ligação a Portugal sobre aqueles que a prejudicam. Com efeito, os participantes parecem percecionar a sua ligação com Portugal como positiva. De ressaltar ainda que, na análise das categorias subordinadas aos dois tipos de aspetos (os que fortalecem e os que prejudicam a ligação) é possível verificar que algumas subcategorias se encontram presentes em ambos, como por exemplo as características dos portugueses. Ou seja, existem fatores que funcionam simultaneamente como abonatórios e prejudiciais à ligação com Portugal. Importa analisar assim, as categorias mais expressivas em cada um dos aspetos secundários à ligação a Portugal. A análise dos dados referentes aos aspetos que são referidos pelos participantes como favorecendo a ligação a Portugal (cf. Tabela 1) permite verificar que: 40  Os aspetos individuais, nomeadamente os sentimentos por Portugal, como o sentimento de pertença, de que Portugal é o seu lugar e parte de si, as pessoas, os locais, como a cidade-natal, e as memórias, são aqueles mais vezes percecionados como contribuindo para a positividade da ligação com Portugal. (…) é intrínseco a nós. É nosso como a nossa cor de pele, é como a cor dos olhos(…) Sujeito E_H_1 (…) a minha ligação mais forte ao país seria à minha terra, percebes? E o estar na minha terra e o… e o… a sensação de estar confortável neste lugar, de saber que eu saio à rua e conheço os lugares e os lugares me dizem alguma coisa. Sujeito E_H_8  Os aspetos culturais, nomeadamente as características dos portugueses, a história, os hábitos e costumes (p.e. futebol, o momento da refeição como momento de convívio), a língua e a gastronomia, são percecionados como desempenhando um papel relevante e positivo nesta ligação. Portugal é assim muita gente sentada à mesa a comer posta à mirandesa Sujeito E_H_3  Nos fatores que contribuem positivamente para a ligação com Portugal foram ainda consideradas pelos participantes os aspetos físicos e geográficos do país em si, independentemente da história individual e das memórias. As paisagens físicas e a geografia de Portugal foram também mencionadas. Pah eu acho Portugal bonito, é a tal questão. Se tu estás aqui no Norte, tens o Gerês, vais a Trás-os-Montes tens planaltos, que é quase um Alentejo só que a 800m de altitude, vais ao Alentejo tens um... Oh pah, eu adoro o Alentejo, tens uma costa vicentina, tens praia tens tudo!’ Sujeito E_H_5  Menos mencionadas, as questões sociais e laborais, parecem também poder desempenhar um papel positivo na ligação com Portugal, nomeadamente no caso dos participantes que residem em Portugal e exercem atividade profissional gratificante. 41 Em termos profissionais, felizmente sou uma felizarda porque trabalho na área de que gosto. (...) E tenho uma ligação não só com a instituição, com a entidade e com os próprios alunos, que me faz realmente ter essa ligação profissional a Portugal, fazendo aquilo que eu realmente gosto e ter a oportunidade de trabalhar nessa área. Sujeito E_H_2 No que respeita aos fatores referenciados pelos participantes como contribuindo negativamente para o country embeddedness, salientam-se os seguintes dados:  Os aspetos socioeconómicos são aqueles que mais prejudicam a ligação dos participantes com Portugal, nomeadamente as características do mercado de trabalho, questões relacionadas com administração e gestão políticas e a conjuntura socioeconómica atual. A força está em nós, certo! Podíamos... mas nós estamos cada vez mais desinteressados, mais desligados de política e seja lá o que for, porque estamos. E infelizmente, por mais que eu odeie política, política é de facto o que nos governa, e a forma como estamos se deve à política também. Não estamos envolvidos em política, somos totalmente desinteressados, cada vez mais... eu acho! Sujeito FG1_H_4  Também questões individuais relacionadas com a residência no exterior e com sentimentos negativos nutridos por Portugal, como a injustiça, a revolta e a frustração, surgem como prejudiciais à relação dos participantes com o País, quer para residentes quer para não-residentes. (...) há um sentimento muito grande de impotência cá e sinto-me muito injustiçada de certa forma, e isso neste momento está mais predominante. Sujeito E_H_1  Algumas características dos portugueses são também percecionadas como prejudiciais a esta relação, como sejam a mentalidade fechada e retrógrada, a málíngua e mesquinhez e a falta de participação e proatividade. 48 de voltar a Portugal... se calhar até por motivos mais egoístas do que... e isto porquê, porque não... provavelmente queria que eles crescessem dentro da mesma, da mesma sociedade em que eu cresci. Sujeito E_SIE_6  Os aspetos relacionados com o país de origem como a qualidade de vida ou uma possível oportunidade profissional são considerados fatores que contribuem para a decisão de regressar. Se a minha empresa abrisse um escritório aí amanha, eu ia para aí amanhã. Sujeito FG2_SIE_1 Sumarizando os principais resultados descritos nas três categorias primárias é possível verificar que a categoria de ligação é a mais expressiva, em termos de unidades de análise e diversidade de categorias, seguindo-se a dimensão de retenção e, por último, a de retorno. No que concerne à expressão dos aspetos que favorecem e prejudicam o country embeddedness nas três categorias principais encontradas, e que é possível consultar nas Tabelas 1, 2 e 3, importa sublinhar:  A prevalência dos indicadores positivos sobre os negativos na ligação a Portugal, sendo a diversidade dos mesmos mais vasta no caso dos primeiros;  A prevalência dos fatores que impulsionam a saída do país sobre aqueles que contribuem para a manutenção em Portugal;  Uma vez efetivada a saída do país, a prevalência de fatores conducentes à permanência no exterior sobre aqueles conducentes ao regresso. Os participantes percecionam-se embedded em Portugal, facto que surge como independente do reconhecimento de mais fatores impulsionadores da saída do país e da permanência no exterior do que daqueles que conduzem à permanência em Portugal e ao regresso. Assim, o conceito de country embeddedness confirma-se como distinto da decisão de permanecer ou partir, assumindo um significado particular e próprio que o distingue de outros: o country embeddedness remete para as forças que ligam um indivíduo a um país, e que influenciam as suas decisões de partir/ficar. 49 Se não senti noutros países o mesmo que sinto em Portugal. Não, mas sinto outras coisas noutros países que não sinto em Portugal... (risos). Que é precisamente o motivo de estar cá fora, não é? Mas lá está, as coisas positivas que me faltam aqui estão todas em Portugal. Sujeito E_SIE_5 Além de estar bem com muitas outras coisas por ser português por estar em Portugal, tudo o resto está-me a ligar e está diretamente ligado com Portugal, portanto, a ligação é 100% com Portugal. Sujeito E_H_8 Numa análise geral dos fatores que contribuem positiva e negativamente para cada uma das dimensões é possível concluir que:  As questões individuais, designadamente os sentimentos pelas pessoas e por Portugal, surgem como aspetos que favorecem e prejudicam o country embeddedness nas três dimensões;  As questões socioeconómicas foram também mencionadas tanto como aspetos que favorecem como que prejudicam o country embeddedness, sendo, no entanto, nos últimos que elas se revelam, nas três dimensões, como os aspetos prejudiciais mais vezes mencionados;  Apesar dos aspetos que prejudicam o country embeddedness serem aqueles mais vezes mencionados nas categorias principais de Retenção e Retorno, a vontade de ficar/voltar a Portugal é a categoria mais expressiva no seu nível hierárquico e enquadra-se nos fatores positivos da Ligação a Portugal. Porque no fundo quero voltar... não tenho uma data definida para voltar mas quero voltar. Sujeito E_SIE_1 Estes factos permitem inferir que a relação dos participantes com Portugal, pese embora consista num emaranhado de fatores, não deixa de ser pessoal e individual. Os componentes dos aspetos individuais são aqueles que maior papel parecem exercer no country embeddedness, quer no sentido do seu fortalecimento, quer no sentido do seu desvanecimento. 50 A expressão das questões socioeconómicas como fator negativo por excelência parece apontar para a relevância que a conjuntura atual portuguesa e internacional assume na forma como os portugueses percecionam e vivenciam a sua relação com o país. É assim, aquilo que alimenta a minha relação com Portugal são os meus, percebes? Pah... adoro o país, adoro o clima, adoro tudo... mas, neste momento, quando venho cá sinto-me um bocado deprimida porque é só más notícias, é só crise é só... as pessoas andam deprimidas na rua, pah e tudo isso me deixa sem vontade de cá ficar ... só o que me liga aqui são as lembranças que tenho cá e .... mas é uma coisa pessoal e não uma coisa... pah, como é que eu te hei-de explicar... não é uma coisa que depende das coisas que eu não conheço, percebes? A minha ligação a Portugal é a ligação às experiências e às pessoas que eu tenho cá. Sujeito FG1_SIE_1 Sobretudo esta nuvem negra das pessoas andarem sempre mal dispostas, malhumoradas, culparem a crise por tudo e por nada, e isso se espelhar depois nas relações que as pessoas têm umas com as outras. Eu acho que a própria disponibilidade das pessoas falarem umas com as outras diminui, e por exemplo, mesmo em conversa de café ou conversa de circunstância, o tema é sempre o mesmo, portanto, quando disse fechada também queria dizer neste sentido de haver esta nuvem negra e de parecer que vivemos no pior país do mundo. Sujeito E_H_2 2. Diferenças e similaridades no Country Embeddedness de residentes em Portugal e no estrangeiro Tendo em conta a categorização previamente descrita e a existência de dois grupos amostrais, residentes em Portugal e residentes no estrangeiro, cruzaram-se os dados (através do comando do Nvivo, versão 10, Matrix Coding Query) com o objetivo de responder à segunda questão de investigação: explorar as semelhanças e especificidades de cada um dos grupos na expressão das categorias encontradas. 51 A descrição dos resultados obedecerá aos mesmos critérios utilizados anteriormente, sendo que se iniciará pela descrição dos resultados relativos à categoria de ligação, seguidos por aqueles da categoria de retenção e, finalmente, pelos referentes à categoria de retorno. Em tabelas serão apresentadas as categorias de cada tema e respetivo número de unidades de análise cotadas, sendo divididos os resultados referentes a residentes em Portugal dos referentes aos residentes no estrangeiro. Os dados numéricos nas tabelas serão apresentados por ordem decrescente de referência. No final de cada tabela serão descritos os principais resultados, comparando aqueles que remetem para residentes no estrangeiro com os relativos aos residentes em Portugal. Esta descrição será acompanhada de citações ilustrativas. 2.1 Ligação ao país Os participantes residentes em Portugal foram aqueles que mais vezes mencionaram a ligação a Portugal, sendo nestes mais evidente a prevalência dos aspetos que a favorecem sobre os que a prejudicam (cf. Tabela 4 – Diferenças e Similaridades na Categoria Ligação). Tabela 4 – Diferenças e Similaridades na Categoria Ligação CATEGORIA R esidentes Estrangeiro R esidentes País Ligação ao País 316 513 Aspetos que favorecem a ligação ao país 261 407 Aspetos Individuais 175 176 Lugares Específicos 23 37 Casa Própria ou de Familiares 5 6 Cidade Natal 7 14 Memórias 12 8 Pessoas 86 110 Família 34 25 Amigos 10 2 Namorado/a 57 37 Contactos Portugueses no Estrangeiro 6 6 Sentimentos por Portugal 94 152 Amor e Emaranhamento 9 19 Orgulho 4 10 Portugal como o seu lugar 43 56 Interesse em saber o que se passa 10 3 Sentimento de Casa 9 19 Vontade de ficar/voltar a Portugal 18 22 Vontade de ser recordado em Portugal 1 2 Portugal como parte de si 27 61 Relação Imutável 5 14 Sentido de Missão 6 9 52 Sentimento de ser português 30 40 1ª vez 4 10 Última vez 11 11 No estrangeiro 7 8 Aspetos Culturais 118 160 Características dos Portugueses 46 68 Desenrasque e Adaptação 6 15 Equilíbrio e Calma 1 7 Esperança 1 2 Espírito Lutador e Trabalhador 3 10 Humildade e Integridade 0 6 Insatisfação e Pessimismo 0 5 Sentir Português 7 6 Simpatia e Hospitalidade 21 25 Solidariedade 3 6 Gastronomia 28 28 Hábitos e Costumes 28 20 De Lazer 10 11 Futebol 9 10 Religiosos 1 2 Sociais 9 3 Momento da Refeição 7 2 História de Portugal 5 8 Língua 19 41 Literatura 2 2 Música 4 7 Aspetos Físicos e Geográficos 34 41 Clima 30 29 Dimensão e Localização Geográfica 3 2 Paisagens Físicas 9 21 Aspetos Socioeconómicas e laborais 12 21 Emprego Atual e Prospeção de Carreira 1 12 Funcionamento da Sociedade 11 10 Aspetos que prejudicam a ligação com o país 75 110 Aspetos Individuais 35 45 Residir noutro país 30 25 Conhecer outros países e culturas 7 9 Distância Física e Emocional de Portugal por estar fora 21 1 Identificação com o país de destino 12 9 Sentimentos negativos por Portugal 5 21 Desilusão e Vergonha 1 9 Impotência e Frustração 2 4 Injustiça e Revolta 3 9 Rejeição e Expulsão 1 2 Aspetos Socioeconómicos e políticos 36 42 Conjuntura Socioeconómica Atual 20 17 Falta de perspetiva de futuro 2 6 Mercado de Trabalho 16 11 Condições de Trabalho 6 8 Cultura Empresarial 4 0 Pouca especialização 4 0 Questões Políticas 11 19 Mentalidade política 7 8 Características dos portugueses 17 40 Falta de participação e proatividade 3 12 Má-língua e Mesquinhez 5 8 Mentalidade Fechada e Retrógrada 4 10 Pessimismo 4 2 Tendência para desrespeitar as regras 4 9 53 A análise dos dados referentes aos aspetos que favorecem a ligação a Portugal, no que respeita às diferenças entre os participante residentes em Portugal e no estrangeiro, permite verificar que:  Os residentes em Portugal e no estrangeiro consideram relevantes os lugares específicos, as pessoas (família e o/a namorado/a), as memórias, e os sentimentos positivos por Portugal, como o amor/emaranhamento, o sentimento de que o país é o seu lugar e faz parte de si e o sentimento de ser português. Nas categorias subordinadas destaca-se que os participantes residentes no estrangeiro realçam o interesse em saber o que se passa no país e a vontade de voltar a Portugal, enquanto os residentes em território nacional enfatizam a cidade natal, a sensação de que a relação com Portugal é imutável e o sentido de missão. Se calhar o que me iria custar mais era o quebrar um bocadinho com as raízes, e com a ligação que nós criamos com o país, com o sítio onde nós nascemos, que no fundo é onde estão as nossas raízes, as nossas origens. E se calhar é um bocado cortar com esse vínculo que talvez iria custar um bocadinho mais. Sujeito FG2_H_2 Ou seja, eu acredito que nós e embora, e há muitas coisas no nosso país que me irritam e pessoas que me irritam e muitas atitudes que me irritam mas acredito que tenho que dar o meu contributo para mudar as coisas e não ficar à espera sentado no sofá em casa à espera que as coisas mudem. Acho eu, temos que ser parte ativa na mudança.’ Sujeito FG2_H_1  No que respeita às questões culturais os participantes de ambos os grupos realçam as características dos portugueses, a gastronomia, os hábitos e costumes, como o interesse pelo futebol, a história do país, a literatura, a música e a língua como questões culturais que favorecem a sua ligação com Portugal. No entanto, os residentes em Portugal mencionam mais vezes a língua, o desenrasque e adaptação e o espírito lutador e trabalhador, enquanto os residentes no estrangeiro realçam o ‘sentir português’ e os hábitos sociais, como o momento da refeição. 54 Desenrascar! Que eu acho que é uma palavra que não existe em inglês. Sujeito FG1_H_2 Por exemplo, uma coisa... um exemplo nesse aspeto é por exemplo o aspeto da alimentação. Aqui na Holanda as pessoas não dão tanto valor às refeições por exemplo. Em relação a almoçar, só para dar um exemplo, eles aqui uma sandes está bem e pronto, siga para a frente. E depois à noite talvez um jantar apressado e quanto mais rápido o fizer tudo bem. Eu acho que em Portugal as pessoas dão muito mais valor a esse tipo de coisas, porque em Portugal é mais como um ritual. As pessoas gostam de ter uma boa refeição, gostam de estar acompanhados com pessoas, conversar durante a refeição, gostam de cozinhar coisas interessantes. Sujeito E_SIE_4  No que concerne às questões socioeconómicas os participantes residentes no estrangeiro percecionam o funcionamento da sociedade portuguesa como uma questão que favorece a ligação com o país, enquanto os residentes em Portugal privilegiam o emprego que detêm atualmente e a prospeção de carreira, para o que pode contribuir a fase do ciclo de vida em que os participantes se encontram, com claro favoritismo pela carreira. ‘E tratar... abrir uma conta no banco por exemplo aqui em França deu-me cabo da cabeça, ter... instalar internet, um mês inteiro. Eu encontrei... eu fiquei louca porque não estou habituada a isso. Estou habituada a que as coisas funcionem em termos de serviços. Sujeito E_SIE_7 Mas nesta altura penso que aquele projeto de vida que nós todos temos, cada um à sua maneira mas que toda a gente tem, que leva, que segue aquelas linhas normais no plano que as pessoas fazem. Nesta altura já vejo esse horizonte, portanto, motivado claro como é óbvio pela mudança de emprego, e aqui em Portugal, sem grandes alterações, nesse caso, também pronto tive um pouco de sorte, porque é perto de casa, portanto não tive que mudar muito o meu estilo de vida. Não ter que mudar, ter que mudar, mas pronto não ter que fazer uma 55 alteração radical... Estou muito perto do que fazia e nesse especto sinto-me a 100% confiante de que aqui em Portugal consigo seguir os meus horizontes. Sujeito E_H_8 Quanto aos dados referentes aos aspetos que prejudicam a ligação atual com Portugal, são de destacar as seguintes diferenças e similaridades entre os dois grupos de participantes:  Ambos os grupos identificaram algumas características dos portugueses como prejudiciais à sua relação com Portugal, embora esta realidade pareça ser mais expressiva nos que residem em território nacional. Estes relevam a falta de participação e proatividade, a mentalidade retrógrada e fechada, a má-língua e mesquinhez e a tendência para desrespeitar as regras. Acho que continua a haver muito aquela mentalidade pequenina e de alguma mesquinhez principalmente em meios mais pequenos. Posso dar aquele exemplo do português e do americano em que o português compra um carro e outro vai e ‘vais comprar o carro e não sei quê… devias era ter um acidente’ e o norte-americano vê um vizinho a comprar um carro e diz ‘Ei vou trabalhar ainda mais que é para comprar um carro ainda melhor.’ Acho que nós ainda nesse aspeto de mentalidade acho que ainda vivemos muito nessa mesquinhez e toda a gente que se dá bem na vida é porque é corrupto, ou porque roubou, ou porque não sei quantos… desvaloriza-se muito o sucesso das pessoas. Acho que ainda há muito o sentimento de inveja. Sujeito FG2_H_1  Tanto os participantes residentes em Portugal como aqueles que residem no estrangeiro percecionam o facto de viver noutro país e alguns sentimentos negativos nutridos por Portugal como questões individuais que prejudicam a sua ligação com o país. No grupo de participantes residentes em Portugal, a desilusão/vergonha e a injustiça/revolta sentidos são os mais mencionados e podem ser associados à atual situação conjuntural portuguesa e às perceções negativas acerca da sociedade e da situação política. Já no caso do segundo grupo a distância física e emocional implicada no facto de residir noutro país é o fator mais mencionado. 56 Agora que é uma fase transitória, não posso garantir a 100%, mas acho que se as coisas melhorassem também o sentimento em relação ao próprio país se calhar também melhoraria porque há coisas que nós vemos no próprio país mesmo em termos políticos que se calhar não vemos noutros países que se calhar nos fazem sentir uma certa revolta. Acaba por me afastar. Não me posso identificar com um país em que não acredito naquilo que me dizem, ou não me posso identificar com um país em que vejo que as pessoas, os maiores ladrões, passam impunes (...) Sujeito E_H_2 ...é uma sensação muito estranha voltar e sentires que não te relacionas com… não tens muito em comum com muito do que se passa aqui, com, com… é uma sensação muito difícil de descrever Sujeito E_SIE_8  Tanto os participantes que residem em Portugal como os que residem no estrangeiro mencionaram questões socioeconómicas e políticas que percecionam como prejudiciais à sua ligação a Portugal. A conjuntura socioeconómica atual, as características do mercado de trabalho, nomeadamente as condições de trabalho oferecidas, e as questões políticas atuais são mencionadas de forma equivalente por ambos os grupos. 2.2 Retenção no país No que respeita à categoria Retenção, os participantes residentes em Portugal foram também aqueles que mais vezes mencionaram aspetos que percecionam como relevantes para a decisão de sair ou permanecer em Portugal (cf. Tabela 5 – Diferenças e Similaridades na Categoria Retenção). 57 Tabela 5 – Diferenças e Similaridades na Categoria Retenção CATEGORIA Residentes Estrangeiro Residentes Portugal Retenção no país 47 148 Aspetos que prejudicam a retenção no país 43 76 Aspetos Socioeconómicos ou políticos 27 45 Falta de oportunidades em Portugal 25 37 Gestão Política em Portugal 0 4 Mentalidade Política em Portugal 0 5 Questões Económicas 4 12 Aspetos Individuais 24 31 Espírito de Aventura 19 13 Impossibilidade de cumprir projeto de vida em Portugal 2 7 Passar os últimos dias da vida 1 7 Pessoas 3 3 Vontade de autonomização/emancipação 4 3 Aspetos relacionados com o País de Destino 5 10 Clima 1 1 Conhecidos ou Família no Destino 2 3 Experiência Anterior 1 1 Aspetos que favorecem a retenção no país 7 85 Aspetos Individuais 3 67 Pessoas 0 3 Família 3 25 Amigos 0 8 Namorado 2 18 Experiências Internacionais Anteriores 1 3 Projeto de ter Filhos 0 14 Receios 0 4 Sentimentos por Portugal 0 23 Comodismo/Conforto 0 14 Esperança no País e nas Pessoas 0 10 Aspetos Socioeconómicos e Laborais 2 31 Condições Económicas Atuais 2 6 Finalização de formação académica 0 2 Trabalho 0 28 Emprego Atual 0 19 Possível Oportunidade Profissional 0 5 Qualidade da Formação e Prática Profissional 0 2 A análise da tabela permite verificar as seguintes diferenças e similaridades entre os residentes em Portugal e no estrangeiro no que concerne aos aspetos que prejudicam a decisão de permanecer no país: 64 De uma forma geral, os residentes em Portugal surgem como mais country embedded no país de origem do que aqueles que residem no exterior. O papel do emaranhamento no país de destino (host-country embeddedness), assim como a situação socioeconómica e laboral encontrada em Portugal na atual conjuntura, parecem desempenhar um papel relevante neste dado. Por outro lado, as ligações interpessoais e à cultura e país permanecem como fortificadores da relação com Portugal e são realçadas mais pelos participantes que residem em Portugal. 65 Discussão dos Resultados Depois de descritos os resultados, nesta secção, procurar-se-á discuti-los e enquadrálos à luz da literatura consultada e por referência às questões de investigação. 1. Country Embeddedness: o que liga os Portugueses a Portugal? Os resultados obtidos neste estudo confirmam o conceito de country embeddedness como revelador da rede de forças que ligam um indivíduo a um país, sendo possível identificar aspetos que reforçam e enfraquecem essa ligação. Corroborando a literatura (Lo et al., 2012; Zhang et al., 2012), entende-se que o emaranhamento no país de origem, e os aspetos que o constituem, podem influenciar as decisões de partir ou ficar, ainda que as suplantem e delas se distingam (Zhang et al., 2012). É neste contexto que a emergência das três dimensões – ligação, retenção e retorno – é entendida. Os aspetos que são percecionados como fortalecendo a ligação, a retenção e o retorno a um país serão aqueles que mais contribuem para o country embeddedness. Os aspetos percecionados pelos participantes como prejudicando a ligação, a retenção e o retorno são aqueles que menos contribuem para o country embeddedness. Uma análise geral da categorização descrita na análise dos resultados permite verificar que, na atualidade, o country embeddedness de jovens adultos qualificados portugueses parece ser essencialmente influenciado por aspetos individuais, aspetos culturais e do país, e aspetos conjunturais. Estes aspetos, que surgem como componentes centrais do country embeddedness, indiciam a natureza circunstancial do fenómeno (Lo et al., 2012; Zhang et al., 2012). O country embeddedness demonstra ser também um constructo compósito, assumindo um caráter dinâmico que lhe é conferido, de forma mais volátil, pelos seus componentes conjunturais e individuais e, de forma mais enraizada, pelos componentes culturais e do país. Nos aspetos individuais, são de destacar o papel que as ligações pessoais, familiares e sociais detêm no country embeddedness, tanto no sentido do seu fortalecimento, como do seu enfraquecimento. 66 As relações mantidas em Portugal e com os portugueses assumem um papel preponderante na expressão dos resultados. Com efeito, os relacionamentos interpessoais surgem como fundamentais, sendo a qualidade e a natureza das relações relevante. O papel da família e dos amigos no país de origem é sempre identificado como uma força de ligação prioritária (Delicado, 2008; Crespo, 2011; Richardson e McKenna, 2006), sendo inclusive aludida, em alguns relatos, a figura do emigrante aventureiro, destemido e em busca de melhores condições de vida para a família de origem (Antunes, 1981). O que custa deixar em Portugal, quando se parte ou se pensa em partir, são as ligações, sendo que as mesmas contribuem para o country embeddedness. Este dado, remete para o custo social integrado na dimensão de sacrifício encontrada por Mitchel et al. (2001). Quando pensam em ter filhos, os participantes não deixam de realçar a proximidade familiar como fator preponderante na equação da manutenção no país ou regresso a Portugal (Richardson e McKenna, 2006). Com efeito, os resultados sugerem que o family embeddedness (Feld, 1997; Ramesh e Gelfand, 2010), implícito no exposto, pode ocupar um papel preponderante enquanto preditor do country embeddedness. As ligações com o país de destino, vivenciadas pelos residentes no estrangeiro ou cogitadas pelos que permanecem em Portugal, relembram o papel dissuasor que o emaranhamento no país de destino – host-country embeddedness - pode desempenhar na decisão de retorno, contribuindo ou não para a diminuição do home-country embeddedness. Relembrando os trabalhos de Lo et al. (2012), os resultados sugerem que, sendo o conceito de country embeddedness distinto da decisão de permanecer ou partir, esta decisão parece ser influenciada, ao menos parcialmente, quer pelo homecountry embeddedness, quer pelo host-country embeddedness. A este respeito, é possível prever a existência de uma correlação negativa entre o home-country embeddedness e o host-country embeddedness, ou seja, quanto maior o emaranhamento no país de destino, mais ténue será a relação com o país de origem, e vice-versa. Estes resultados evocam também os trabalhos de Kraimer et al. (2012) acerca dos papéis identitários e de Tieler (2012) acerca da alteração das práticas culturais no contexto da adaptação ao país de destino. Estas ligações, tanto com o país de destino como com o de origem, podem ser entendidas como integrando e estendendo a dimensão de ligações apresentada por 67 Mitchel et al. (2001) no contexto do job embeddedness. Respondendo ao repto lançado por Zhang et al. (2012), os resultados apontam para que não só a quantidade das ligações seja relevante no constructo de embeddedness, a natureza das mesmas, as suas qualidade e diversidade parecem também deter um papel relevante. Ainda nos aspetos individuais, o momento de vida profissional e pessoal parece influir também no country embeddedness. Tanto a decisão de ter filhos, já mencionada, como as condições de trabalho e carreira, no contexto de uma amostra jovem qualificada e integrada profissional e academicamente, surgem como influentes no country embeddedness. É possível então prever que variáveis como a idade, a composição familiar, o emprego/desemprego e as perspetivas de carreira possam constituir preditores do country embeddedness (Feldman e Ng, 2007; Neto, 2010). No que respeita aos aspetos culturais e do país, foi possível verificar que os participantes se sentem ligados a Portugal enquanto país de alma e cultura (De Lange, 2013), enumerando os fatores que para tal contribuem como um emaranhado de conexões. Este facto, corroborando a literatura, evoca a dimensão de adequação/encaixe (fit) proposta por Mitchel et al. (2001) aquando da teorização do job embeddedness. Os participantes referem a sua ligação com Portugal como sendo favorecida pelas suas características, pela história do país (Lourenço, 1990; Cunha, 1991; Barca, 2007), pelos costumes e hábitos (Tieler, 2012; Crespo, 2011), pela língua (Brito e Martins, 2004) e pela gastronomia, nos quais se sentem emaranhados. Encontram-se vinculados ao local onde nasceram, onde construíram as suas primeiras memórias e, por isso, sentem que este lhes pertence, que é diferente do que encontram noutros países e que nele querem permanecer ou a ele pretendem regressar (Nielsen-Pincus, et al., 2010; Hernández, et al., 2010; Raymond, et al., 2010). O ‘sentir português’ (Carvalho, 2006; Nielsen et al., 200), as características sociais dos portugueses (Rego, 2004) e a sua índole trabalhadora e desenrascada (Tomás, 2013) fazem prever a adequação do país ao ‘eu’ ou do ‘eu’ ao país. Da forma análoga à positiva, ressaltam os sentimentos negativos por Portugal como prejudiciais ao country embeddedness e que se relacionam com a desilusão e a frustração (Barnard e Pendock, 2013). Embora sejam encarados como prejudiciais ao country embeddedness, contribuindo para o enfraquecimento das forças que ligam os indivíduos a Portugal, estes sentimentos não deixam de, em si mesmos, indiciarem um 68 profundo sentimento de ligação a Portugal, o que pode indiciar a natureza contínua do constructo. Seguindo o mesmo raciocínio, algumas características dos portugueses são também, analogamente às positivas, referidas como prejudiciais ao country embeddedness. Percecionadas como identitárias, estas características parecem entrar em confronto com novas formas de pensar, talvez mais cosmopolitas, mais europeias e, pelo menos tradicionalmente, menos portuguesas (Luna-Arocas, Guzmán, Quintanilla e Farghangmehr, 2001), o que corrobora e relaciona o constructo com a sua dimensão conjuntural. Finalmente, no que concerne aos aspetos conjunturais, e, neste caso, aos aspetos que prejudicam o country embeddedness, as questões socioeconómicas e a crise em Portugal assumem no contexto atual um papel preponderante. A literatura consultada no âmbito da atual situação socioeconómica portuguesa e da perceção que os portugueses dela têm (Sousa e Triães, 2008; Vitorino e Fernandes, 2000), assim como as características enraizadas do mercado de trabalho português, a realidade e a mentalidade políticas, surgem como fatores que prejudicam o country embeddedness dos participantes. Sendo este um dado conjuntural, será de prever que em contextos conjunturais diferentes, por exemplo uma economia em desenvolvimento, estes aspetos possam deter um papel positivo ou neutro no country embeddedness. Em síntese, o constructo de country embeddedness parece ser constituído por 3 componentes fundamentais: aspetos individuais (nos quais se enquadram as ligações, particularmente o family embeddedness, e a fase de ciclo de vida), aspetos culturais e do país (correspondente ao sentimento de encaixe na cultura, nos hábitos, sentires e características do país e dos nacionais) e aspetos conjunturais (sociais e económicos). Nestes resultados é possível encontrar imbuídas as três dimensões do constructo de job embeddedness propostas por Mitchell et al. (2001), sendo que as dimensões de ligações (links) e de adequação/encaixe (fit) são aquelas que detêm maior realce. A dimensão de sacrifício (sacrifice) surge apenas na sua vertente social e muito associada à primeira. No entanto, conclui-se que estas três dimensões são insuficientes para explicar a complexidade do conceito quando aplicado ao país de origem. A natureza 69 simplista da sua definição parece não fazer jus à riqueza do constructo de country embeddedness. As três dimensões concluídas no âmbito do conceito de country embeddedness surgem como complexas e dinâmicas, pressupondo-se a sua independência mas também a sua interação. O constructo, em si mesmo, augura-se dinâmico e contínuo, influenciado pela densidade e qualidade das suas dimensões (cf. Imagem 1). Imagem 1 – Constructo Teórico de Country Embeddedness e suas Dimensões 2. Diferenças e Semelhanças no Country Embeddedness de residentes em Portugal e no Estrangeiro Como se observou, os jovens adultos qualificados portugueses, residentes no estrangeiro e em Portugal, parecem ser capazes de identificar forças variadas que os mantêm emaranhados no país, ou seja, apresentam-se como country embedded, ainda que o façam em maior ou menor grau, tal como sugere a natureza contínua do constructo. Neste ponto discutir-se-ão as principais diferenças e semelhanças encontradas entre os residentes em Portugal e no estrangeiro, e que vão de encontro às dimensões já discutidas do constructo de country embeddedness (aspetos individuais, aspetos culturais e do país, e aspetos conjunturais). Aspetos Individuais •Ligações / Family Embeddedness •Fase do Ciclo de Vida Aspetos Culturais e do País •Encaixe/Adequação Aspetos Conjunturais •Sociais e económicos COUNTRY EMBEDDEDNESS 70 No que respeita aos aspetos individuais, as ligações ocupam no caso de ambos os grupos um papel preponderante no que concerne ao country embeddedness (Hofstede, 1991; Rego, 2004). No entanto, evocando o já discutido a respeito do papel do hostcountry embeddedness, os residentes no estrangeiro evocam as ligações ao país de destino como prejudicando o home-country embeddedness com Portugal, reforçando a previsão de uma correlação negativa entre os dois fenómenos. As questões relacionadas com a fase do ciclo de vida são abordadas por ambos os grupos, sendo que os residentes em Portugal realçam o emprego atual como favorecedor do country embeddedness, enquanto os residentes no estrangeiro realçam a natureza do mercado de trabalho português e as condições oferecidas como prejudiciais ao country embeddedness com Portugal. Este último dado pode corroborar também o papel que o host-country embeddedness parece deter na ligação dos self-assignees com o país de origem. No que respeita aos aspetos culturais e do país, no caso dos residentes em Portugal o efeito de recência parece determinar a maior atenção à familiaridade com as dinâmicas e o conforto de se encontrarem no país de origem (Hack-Polay, 2009; Schwartz e Reisberg, 1991), sendo predominante o sentimento de encaixe/adequação, da dimensão proposta por Mitchell et al. (2001). Este sentimento é menos notório nos residentes no estrangeiro, ainda que permaneça identificável e percebido. O tempo de permanência no exterior poderá ser aqui um fator a atender (Tieler, 2012). Os resultados sugerem que quanto maior o tempo no destino menor o sentimento de encaixe/adequação. No âmbito dos aspetos culturais, os residentes no estrangeiro realçam as características sociais dos portugueses, sendo este o aspeto em que os self-assignees mais sentem que se adequam a Portugal. Este dado, corroborando a literatura acerca da tradição emigratória portuguesa (Castelo, 2011; Crespo, 2011; Hofstede, 1991; Rego, 2004), indica também que o facto dos participantes residentes no exterior se manterem country embedded com Portugal permite que não só mantenham as suas ligações, como se referiu, mas também que tenham maior facilidade em estabelecer novas relações no destino (host-country embeddedness). Esta conclusão vai de encontro à sugestão dos resultados de Lo et al. (2012) acerca da complexidade da relação entre o embeddedness 71 no país de origem e de destino. Neste estudo, sem dúvida que a necessidade de mais investigação neste domínio é reforçada. Para os participantes residentes no país o country embeddedness é mais favorecido pelo sentimento de vinculação ao lugar, à sua cidade, à sua terra, sentindo-se em casa no país que lhes pertence e a quem pertencem (Hernández et al., 2010; Nielsen-Pincus et al., 2010; Raymond et al., 2010) e procurando ter um papel determinante na melhoria da situação atual (Barnard e Pendock, 2013). Estes resultados confirmam a dimensão de aspetos culturais como incluindo aquela de encaixe/adequação de Mitchell et al. (2001), embora a ultrapasse em significado. De forma transversal aos dois grupos, os aspetos conjunturais, nomeadamente a situação socioeconómica que o país atravessa, foram identificados como principal elemento prejudicial ao country embeddedness, o que corrobora a literatura consultada acerca da perceção dos portugueses da atual situação nacional e das previsões económicas (Farto e Morais, 2011; Sousa e Triães, 2008; Tomás, 2009; Vitorino e Fernandes, 2000). Em síntese, parece ser possível afirmar que os resultados apontam para que as principais diferenças entre os residentes no estrangeiro e em Portugal no que concerne ao country embeddedness e suas dimensões se deve ao efeito que o host-country embeddedness pode deter nesta relação. A relação entre o home-country embeddedness e o host-country embeddedness, corroborando os dados de Lo et al. (2012), surge como complexa, bidirecional e consequente. 72 Conclusão: Limitações e Contributos No momento particular que atravessamos enquanto país, incluído num contexto de uma Europa e de uma União Europeia que se repensam e de uma crise das maiores potências mundiais que se tenta ultrapassar, a abordagem ao conceito de country embeddedness revela-se pertinente e particularmente instigadora. Este estudo, ao debruçar-se sobre a relação de jovens adultos portugueses qualificados com o seu país de origem surge não só como contributo relevante para todos os que se interessam pelo estudo do comportamento humano no contexto económico e político atual de Portugal, mas também como um desafio às empresas portuguesas, que se movem nos territórios nacionais e internacionais, e aos próprios portugueses, para que repensem a relevância que a relação com o país poderá ocupar no que concerne às suas escolhas e às suas práticas. Importa agora refletir sobre as limitações e os contributos teóricos e empíricos do presente estudo, indicando novos caminhos por explorar. A natureza exploratória do estudo, implicando uma metodologia qualitativa, com recurso a uma amostra de conveniência, não permite a generalização dos resultados à população portuguesa jovem adulta (Almeida e Freire, 2003). Acresce o facto de a dimensão da amostra limitar a interpretação dos mesmos, no que concerne à exploração de diferenças de género, tempo de permanência no estrangeiro, e à influência do país de destino, que teoricamente seriam interessantes dissecar (Richardson e McKenna, 2006; Kraimer et al., 2012). No que respeita aos métodos de recolha de dados, embora a opção por diferentes métodos possa contribuir para uma maior riqueza e validade dos resultados (Tashakkori e Teddlie, 2010), a opção por entrevistas e focus group não afasta os perigos da desejabilidade social, tão difíceis de controlar nestes contextos (Almeida e Freire, 2003). Assim, em termos futuros, será relevante replicar este estudo numa amostra mais representativa de jovens adultos e de portugueses, no sentido de explorar o fenómeno de country embeddedness noutras faixas populacionais, alargando as conclusões à população portuguesa, e de conhecer o papel que outras variáveis individuais parecem deter na expressão do conceito (p.e. idade, emprego/desemprego, composição familiar, perspetivas de carreira...; Feldman e Ng, 2007; Neto, 2010). 73 Os resultados do presente estudo permitirão ainda construir um instrumento de medida do country embeddedness, que se aproxime de forma mais fidedigna às dimensões de aspetos individuais, culturais e do país, e conjunturais e seus constituintes. A criação de um instrumento de autorrelato atendendo e testando estas dimensões, deveria incluir itens desenvolvidos a partir dos relatos já recolhidos. Ainda que não aferisse a riqueza de resultados disponibilizada pelas entrevistas, não as substituindo, o instrumento de autorrelato poderia permitir a confirmação destes resultados como reveladores das forças que favorecem ou prejudicam a relação dos portugueses com Portugal. Realizado numa versão longitudinal, este estudo permitiria também confirmar o papel dos aspetos conjunturais no country embeddedness, assim como a sua natureza dinâmica. De forma mais específica e direcionada, será fundamental estudar o papel que o hostcountry embeddedness detém no emaranhamento dos indivíduos com o seu país e a relação entre os dois conceitos (home e host-country embeddedness). Neste âmbito, a validação prévia dos resultados deste estudo, através do instrumento de autorrelato referido, abriria caminho para a sua replicação no caso do host-country embeddedness e, consequentemente, para a investigação quantitativa dos dois constructos, de forma independente e associada. Da mesma forma se sugere a exploração do conceito de family embeddedness e do seu papel enquanto preditor do country embeddedness. Incluído, neste estudo, nos aspetos individuais do constructo, prevê-se que o family embeddedness possa ocupar um papel central nas forças que ligam indivíduos ao país de origem, pelo menos no caso de portugueses. A ponderação da autonomização dos aspetos familiares em relação aos individuais, que neste estudo surge como frágil e pouco fundamentada, merece, ainda assim, pela sua expressão, exploração futura. Como implicação internacional, e no seguimento do exposto, seria ainda interessante reproduzir o mesmo estudo com outras nacionalidades, especialmente por dois motivos centrais: em primeiro lugar, aferir a especificidade do country embeddedness português, explorando a força dos aspetos culturais e do país; e em segundo lugar, comparar o country embeddedness de países que atravessam conjunturas mais retracionárias, com outros em desenvolvimento, explorando a força dos aspetos conjunturais. 80 Portes, A., e Sensenbrenner, J. (1993), “Embeddedness and immigration: notes on the social determinants of economic action”, The Academic Journal of Sociology, Vol. 98, Nº 6, pp. 1320-1350. Rai, A., Maruping, L. M., e Venkatesh, V. (2009), “Offshore information systems project success: the role of social embeddedness and cultural characteristics”, MIS Quarterly, Vol. 33, Nº 3, pp. 617-641. Ramesh, A., e Gelfand, M. J. (2010), “Will they stay or will they go? 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(2012), "A review of job embeddedness: Conceptual, measurement issues, and directions for future research", Human Resource Management Review, Vol. 22, Nº 3, pp. 220-231. 83 Anexos Anexo I a. Questionário Sociodemográfico Código Sujeito _________ Data _________________ Autorização para gravar o áudio e transcrever integralmente: ___ Autorização para citar: ___ Confidencialidade dos dados: ___ Nome Idade Nacionalidade e Naturalidade Nacionalidade dos Pais/Outros Próximos Estado Civil Solteiro/sem relação significativa ___ Solteiro/com relação significativa ___ Casado ___ União de Facto ___ Divorciado/Separado ___ Viúvo ___ Situação Familiar Isolado sem Filhos ___ Isolado com Filhos ___ Nuclear sem Filhos ___ Nuclear com Filhos ___ Alargada ___ Extensa ___ Profissão Habilitações Académicas 12º ano/técnico - profissional nível 4 ___ Licenciatura ___ Mestrado ___ Doutoramento ___ Cidade Natal; Região do País de Origem Há quanto tempo está fora? O que motivou a decisão de ir? País de Destino É a primeira vez que vai? Experiências Internacionais Anteriores 84 b. Guião de Entrevista Aspetos a Abordar Questões Exploração da Ligação a Portugal; Country embeddedness Sente-se ligado a Portugal? Como? Porquê? Qual é a sua ligação a Portugal? Assumindo que está no melhor dos países, com as pessoas que lhe são queridas, sem que lhe falte nada, o que o ligaria a Portugal? Como descreveria essa ligação? Como descreveria a sua ligação com Portugal? O que pensa quando pensa em Portugal? Porquê? Onde gostava de se reformar? Porquê? Onde gostava de passar os últimos dias da sua vida? Porquê? Quais são o aspetos que consegue identificar que reforçam a sua ligação com Portugal? Porquê? Onde gostaria que o recordassem quando morresse? Porquê? O que o levou a sair/querer sair/pensar sair de Portugal? Porquê? O que é/foi necessário para concretizar essa decisão. Porquê? O que poderia ter evitado essa decisão? Porquê O que retém/poderia ter retido/poderá vir a reter as pessoas consoante o seu estado _ já saíram, pensam sair ou estão fora. 85 Ligação e Dimensões; perspetiva das forças O que acha que alimenta essa ligação que sente? Porquê? Como? Recorda-se da primeira vez que se lembra “ser Português”? Quando foi? Porquê? O que a prejudica? O que a beneficia? Quais as forças que o ligam a Portugal? Elas têm todas a mesma expressão ou alguns aspetos pesam mais do que outros? Porquê? Imaginando Portugal como um puzzle, consegue imaginar-se como uma das suas peças? Porquê? Há pessoas que referem sentir que Portugal é o seu lugar... Que sentem que encaixam na perfeição no país. O que acontece consigo? Sente que se adequa a Portugal? Porquê? Como vivencia essa ligação? Recorda-se de algum exemplo que ilustre esta ligação? Em que aspetos sente que é compatível ou congruente com Portugal? Estamos a falar em aspetos tão diversos quanto interesses, valores, hábitos, práticas, planos para o futuro... Porquê? Recorda-se de algum exemplo que sustente essa (in)compatibilidade? Gostava agora que me falasse das relações interpessoais que mantém em Portugal... (explorar família, amigos, trabalho, grupos sociais e religiosos...) 86 Ligação e Dimensões; perspetiva das forças Sente que estas diferentes relações são uma das forças que o liga a Portugal? Em que medida? Porquê? Seria/foi fácil para si deixar Portugal? O que lhe custaria/custou ao sair de Portugal? Como poderia colmatar esse gap? (ou colmata) Porquê? O que mais detesta fora de Portugal? O que mais o surpreendeu? Porquê? Se tivesse de descrever aquilo que considerava/considerou que perderia/perdeu ao sair de Portugal, que aspetos referiria? Esses aspetos assumem todos a mesma relevância ou considera existir uma hierarquia, sendo uns mais relevantes do que outros? Quais? Porquê? 87 Anexo II Tabela IIa – Nº de Participantes com unidades de análise cotadas na categoria principal Ligação e subordinadas CATEGORIA RE* RP** T*** Ligação 10 16 26 Aspetos que favorecem a ligação ao país 10 16 26 Aspetos Culturais 10 16 26 Características dos Portugueses 10 14 24 Desenrasque e Adaptação 2 6 8 Equilíbrio e Calma 1 5 6 Esperança 1 2 3 Espírito Lutador e Trabalhador 2 7 9 Humildade e Integridade 0 4 4 Insatisfação e Pessimismo 0 2 2 Sentir Português 5 3 8 Simpatia e Hospitalidade 7 11 18 Solidariedade 3 5 8 Gastronomia 9 13 22 Hábitos e Costumes 9 9 18 De Lazer 6 8 14 Futebol 5 8 13 Religiosos 1 2 3 Sociais 6 2 8 Momento da Refeição 5 2 7 História de Portugal 5 3 8 Língua 10 10 20 Literatura 2 2 4 Música 2 4 6 Aspetos Físicos e Geográficos 10 12 22 Clima 9 11 20 Dimensão e Localização Geográfica 1 2 3 Paisagens Físicas 4 10 14 Aspetos Individuais 10 16 26 Lugares Específicos 9 14 23 Casa Própria ou de Familiares 2 5 7 Cidade Natal 4 8 10 Memórias 6 5 11 Pessoas 10 16 26 Família 10 13 23 Amigos 10 13 23 Namorado/a 3 5 8 Contactos Portugueses no Estrangeiro 5 2 7 Sentimentos por Portugal 10 16 26 Amor e Entrosamento 5 10 15 Orgulho 3 6 9 Portugal como o seu lugar 10 15 25 Interesse em saber o que se passa 5 3 8 Sentimento de Casa 5 9 14 Vontade de ficar/voltar a Portugal 8 11 19 88 Vontade de ser recordado em Portugal 1 2 3 Portugal como parte de si 10 14 24 Relação Imutável 3 10 13 Sentido de Missão 2 5 7 Sentimento de ser português 9 14 23 1ª vez 5 9 14 Última vez 8 6 14 No estrangeiro 6 5 11 Aspetos Socioeconómicos e laborais 3 10 13 Emprego Atual e Prospeção de Carreira 1 7 8 Funcionamento da Sociedade 2 4 6 Aspetos que prejudicam a ligação ao país 9 16 25 Características dos portugueses 6 14 20 Falta de participação e proatividade 3 8 11 Má - língua e Mesquinhez 4 7 11 Mentalidade Fechada e Retrógrada 3 8 11 Pessimismo 4 1 5 Tendência para desrespeitar as regras 2 5 7 Aspetos Individuais 8 12 20 Residir noutro país 8 6 14 Conhecer outros países e culturas 3 5 8 Distância Física e Emocional de Portugal por estar fora 7 1 8 Identificação com o país de destino 6 3 9 Sentimentos negativos por Portugal 3 9 12 Desilusão e Vergonha 1 4 5 Impotência e Frustração 2 3 5 Injustiça e Revolta 1 6 7 Rejeição e Expulsão 1 1 2 Aspetos Socioeconómicos e políticos 8 14 22 Conjuntura Socioeconómica Atual 8 9 17 Falta de perspetiva de futuro 2 5 7 Mercado de Trabalho 5 5 10 Condições de Trabalho 4 5 9 Cultura Empresarial 2 0 2 Pouca especialização 2 0 2 Questões Políticas 4 9 13 Mentalidade política 3 6 9 *N RP=16, N RE =10 89 Tabela IIb – Nº de Participantes com unidades de análise cotadas na categoria principal Retenção e subordinadas CATEGORIA RE* RP** T*** Retenção 10 16 26 Aspetos que favorecem a retenção no país 5 16 21 Aspetos Individuais 3 14 17 Pessoas 3 11 14 Família 2 9 11 Amigos 0 5 5 Namorado 1 2 3 Experiências Internacionais Anteriores 0 2 2 Projeto de ter Filhos 0 4 4 Receios 0 4 4 Sentimentos por Portugal 0 11 11 Comodismo/Conforto 0 7 7 Esperança no País e nas Pessoas 0 6 6 Questões Socioeconómicas e Laborais 1 14 15 Condições Económicas Atuais 0 5 5 Finalização de formação académica 0 2 2 Trabalho 1 11 12 Emprego Atual 1 9 10 Possível Oportunidade Profissional 0 3 3 Qualidade da Formação e Prática Profissional 0 1 1 Fatores que prejudicam a retenção no país 10 15 25 Aspetos relacionados com o País de Destino 4 5 9 Clima 1 1 2 Conhecidos ou Família no Destino 2 3 5 Experiência Anterior 1 1 2 Aspetos Individuais 9 10 19 Espírito de Aventura 9 6 15 Impossibilidade de cumprir projeto de vida em Portugal 2 3 5 Passar os últimos dias da vida 1 5 6 Pessoas 2 3 5 Vontade de autonomização/emancipação 3 2 5 Aspetos Socioeconómicas ou políticas 9 13 22 Falta de oportunidades em Portugal 9 13 22 Gestão Política em Portugal 0 4 4 Mentalidade Política em Portugal 0 4 4 Questões Económicas 3 7 10 *N RP=16, N RE =1