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Estudo das representações maternas acerca das características do bebé no primeiro e terceiro mês de vida pós-parto

Gisela Marisa Castro da Silva Maia Gomes

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UNIVERSIDADE DO PORTO FACULDADE DE PSICOLOGIA E DE CIÊNCIAS DE EDUCAÇÃO ESTUDO DAS REPRESENTAÇÕES MATERNAS ACERCA DAS CARACTERÍSTICAS DO BEBÉ NO PRIMEIRO E TERCEIRO MÊS DE VIDA PÓS-PARTO Dissertação de Mestrado em Psicologia do Desenvolvimento e Educação da Criança - Intervenção Precoce, sob orientação do Professor Doutor Pedro Lopes dos Santos. GISELA MARISA CASTRO DA SILVA MAIA GOMES 2004 UNIVERSIDADE DO PORTO FACULDADE DE PSICOLOGIA E DE CIÊNCIAS DE EDUCAÇÃO ESTUDO DAS REPRESENTAÇÕES MATERNAS ACERCA DAS CARACTERÍSTICAS DO BEBÉ NO PRIMEIRO E TERCEIRO MÊS DE VIDA PÓS-PARTO Dissertação de Mestrado em Psicologia do Desenvolvimento e Educação da Criança - Intervenção Precoce, sob orientação do Professor Doutor Pedro Lopes dos Santos. GISELA MARISA CASTRO DA SILVA MAIA GOMES 2004 Agradecimentos Ao Professor Doutor Pedro Lopes dos Santos pela forma empenhada e solidária como me acompanhou ao longo da elaboração deste trabalho. À Secretaria Regional dos Assuntos Sociais da Região Autónoma da Madeira, em nome do Exmo. Director Regional de Saúde Pública, Dr. Carlos Perdigão pela sua prontidão com que autorizou a recolha de dados, sem a qual este trabalho não seria possível. À Dr.a Maria Neves Rodrigues, Directora do Centro de Saúde do Bom Jesus do Funchal, pela sua disponibilidade e colaboração para que a realização das entrevistas às mães fosse possível, bem como a toda a equipa de Enfermeiras e auxiliares de acção médica cuja simpatia e colaboração me ajudou por vezes em momentos penosos. Agradeço especialmente às "minhas" mães e seus bebés pela forma tão simpática, generosa e gratificante com que prontamente aceitaram participar neste estudo. Agradeço também à minha cunhada Luísa pela sua ajuda e colaboração na recolha dos dados. Ao Rui Poínhos pela sua disponibilidade e apoio prestado no tratamento estatístico dos dados. Aos meus pais, à minha irmã Aline, e ao meu marido, agradeço toda a ajuda, apoio, disponibilidade, conselhos, encorajamento, optimismo e paciência, sem o qual não teria sido possível chegar ao fim. A ti, Beatriz por seres parte de mim dedico-te este trabalho. Resumo Actualmente, são ainda em número reduzido e muito recentes os trabalhos que abordam o estudo dos processos cognitivos e emocionais da mãe e a interacção que ela estabelece com o seu bebé. Sabendo-se hoje o papel que as primeiras experiências desempenham no desenvolvimento físico, cognitivo e emocional do bebé e numa altura em que se assiste ao despertar da importância atribuída às dimensões cognitivas, representacionais e emocionais dos pais e de pesquisas orientadas para o estudo da variabilidade humana, é importante perceber e compreender as representações, as percepções, os sentimentos e as emoções que para além de importantes afectam toda a relação entre a mãe e o bebé. Importa assim, salientar o papel das mães, que não é algo estático pois à medida que a família se desenvolve, não só as relações se alteram, como as suas funções se modificam, tratando-se de um processo que exige uma constante adaptação. O desempenho eficaz do papel de maternidade depende da exigência desse mesmo papel, do stress sentido pelas mães, da ajuda e apoio provenientes de outras estruturas. O objectivo deste estudo, de natureza exploratória, consiste em demonstrar a importância das percepções e concepções das mães sobre o desenvolvimento dos seus filhos, da influência dos seus sentimentos, atitudes e expectativas e sobre a interacção que se vai estabelecendo entre ambos. Desta forma, pretendemos contribuir para a valorização das representações maternas de um grupo de mães com bebés com um e três meses de idade, demonstrando a influência do seu mundo subjectivo que se baseia na sua história passada, nas suas vivências, nos seus valores, mas também das suas percepções sentimentos e atitudes. Destaca-se também a importância de conceptualizar as representações maternas como um processo transaccional do qual depende não só as características da mãe, mas também as características particulares do bebé, as condições ambientais, as transacções que ocorrem entre mãe e filho e ainda, o apoio prestado pelas estruturas sociais envolventes. Abstract Nowadays, there is still a reduced and very recent number of works relating to the study of cognitive and emotional processes of the mother and the inter-action she establishes with her baby. As we are aware today, the role that the first experiences perform on the physical, cognitive and emotional development of the baby and by the time we witness to the arousing of the importance given to parents' cognitive, representative, and emotional dimensions of the parents and the researches into the study of human variability, it is important to perceive and understand the representations, perceptions, feelings and emotions which are not only important, but also affects all the relation between mother and baby. Therefore, it is important to emphasize the role of the mother, which is not static, once, as the family develops, not only the relations are changed, but also their functions are modified, being a process which demands constant adaptation. The efficient performance on the maternity role depends on the demands of that same role, the stress felt by the mothers and the help and support of other social structures. The aim of this study, of exploring nature, consists on showing the importance of mother's perception and understanding on the development of their children, the influence of their feelings, attitudes and expectations and about the inter-action which is being established between both of them. Under this circumstances, we intend help on the valorisation of maternal representations within a group of mothers of one and three months aged babies, showing the influence of their subjective world, which is based on their own past, their experience of life, their values, as well as, their perceptions, feelings and attitudes. Finally we should point out the importance of conceptualizing maternal representations as a transactional process, on which depends not only the mother's features but also the personal baby's features, the environment conditions, the mutual transactions between mother and child and also the support of the involved social structures. Résumé Actuellement, les investigations qui abordent l'étude des processus cognitifs et émotionnelles de la mère ainsi que l'interaction/l'échange qu'elle réalise avec son bébé sont très réduits et récentes. On connaît aujourd'hui le rôle que les premières expériences ont sur le développement physique, cognitif et émotionnel du bébé et, comme on assiste au réveil de l'importance qui est attribuée aux domaines cognitifs, représentationnelles et émotionnelles des parents et des recherches orientées vers l'étude de la variabilité humaine, il est de toute importance comprendre les représentations, les perceptions, les sentiments et les émotions qui sont pertinentes et qui affectent toute la relation mère - bébé. On doit remarquer que le rôle des mères n'est pas statique, vue que, au fur et à mesure que la famille se croît, les relations s'altèrent et ses fonctions se modifient dans un processus qui exige une adaptation constante. La performance efficace du rôle de la maternité dépend de l'exigence de ce même rôle, du stress senti par les mères, de l'aide et de l'appui parvenu d'autres structures sociales. De cette étude alors, on prétend démontrer l'importance des perceptions et conceptions des mères concernant le développement de leurs enfants, l'influence de leurs sentiments, leurs attitudes et les spectatives, ainsi que l'interaction qui s'établit entre eux. De cette façon, on a l'intention de contribuer pour la valorisation des représentations maternelles d'un groupe de mères ayant des bébés âgés d'un à trois mois et démontrer l'influence de leur monde subjectif qui à sa ressource sur leur histoire passée, sur leur modes de vie, sur leurs valeurs, et aussi sur leurs perceptions, sentiments et attitudes. Pour conclure, il faut donc conceptualiser les représentations maternelles comme un processus transactionnel dont dépendent les caractéristiques de la mère et aussi celles du bébé, les conditions ambientales, les échanges entre la mère e l'enfant, et bien sûr, l'appui donné par les structures sociales. CAPÍTULO 1 - Intervenção Precoce - Dos Princípios às Práticas 7 1.1. Definição do Conceito de Intervenção Precoce A Intervenção Precoce mais que um conceito consiste numa prática ern constante mudança. Actualmente, não faz qualquer sentido intervir apenas nos problemas específicos da criança, ignorando a família ou reconhecendo-a, somente quando necessitamos de alguém que implemente actividades centradas nas suas necessidades individuais. A Intervenção Precoce não se reduz à implementação de um programa de estimulação precoce aplicado no domicílio, na creche ou numa instituição. A Intervenção Precoce consiste num trabalho de cariz transdisciplinar, envolvendo os profissionais de saúde, de educação, do serviço social e principalmente a família. Para Dunst e Trivette (1989 cit. in Mahoney et al., 1990), a Intervenção Precoce deverá prestar um suporte à família de crianças com N.E.E. nos primeiros anos de vida, por membros de redes de suporte social informais e formais, que têm efeitos directos ou indirectos no funcionamento dos pais, da família e da criança. O conceito de Intervenção Precoce é o produto de uma evolução histórica, científica e organizacional (Bairrão, 1994). Este conceito tem sido utilizado para descrever uma variedade de serviços prestados às crianças e suas famílias (Bailey & Wolery, 1992). A Intervenção Precoce define-se, assim, como um conjunto de serviços que funciona em parceria com as famílias, promovendo o seu bem-estar e o das suas crianças cujo desenvolvimento se encontra em risco, dada a combinação de factores biológicos e ambientais (Thurman, 1997). Em Portugal, podemos encontrar no Despacho Conjunto do Ministério da Educação, da Saúde, do Trabalho e da Solidariedade, n° 891, de 19 de Outubro de 1999, que regulamenta a Intervenção Precoce a seguinte definição: "A Intervenção Precoce é uma medida de apoio integrado, centrado na criança e na família, mediante acções de natureza preventiva e habilitativa, designadamente do âmbito da educação, da saúde e da acção social, com vista a: a) Assegurar condições facilitadoras do desenvolvimento da criança com deficiência ou em risco de atraso grave de desenvolvimento; b Potenciar a melhoria das interacções familiares; c) Reforçar as competências familiares como suporte da sua progressiva capacitação e autonomia face à problemática da deficiência" (Anexo Ponto 2). 8 A Intervenção Precoce consiste na prestação de serviços multidisciplinares a crianças com deficiência ou em risco e às suas famílias. Tem como objectivo favorecer o desenvolvimento da criança, prevenindo problemas futuros, minimizando e remediando os já existentes, através de serviços educacionais e terapêuticos, bem como, apoiar e fortalecer as suas famílias. A Intervenção Precoce assenta em dois princípios fundamentais: o primeiro, que diz respeito às necessidades da criança que só poderão ser avaliadas e entendidas se tivermos em conta toda a dinâmica e contexto familiar; o segundo, que tem a ver cóm o conjunto diversificado de profissionais que estas crianças exigem, dada a complexidade de problemas com que se confrontam (Shonkoff & Meisels 2000). Presentemente, a Intervenção Precoce ocupa um lugar importante ao nível das políticas educativas, por se reconhecerem as suas vantagens, quer para a criança com deficiência ou em risco, quer para as suas famílias. As actuais correntes psicológicas destacam a importância dos primeiros anos de vida da criança, como modeladores do desenvolvimento cognitivo e sócioemocional dos indivíduos. Neste sentido, a Intervenção Precoce assume uma clara vertente preventiva em relação à família, no apoio que lhe presta, com o objectivo de a capacitar a melhor lidar com os problemas das crianças nascidas em risco. Embora se aceite que as práticas de Intervenção Precoce devam enfatizar a prestação de serviços quer à criança quer à família, este entendimento situa-se mais ao nível conceptual, do que prático, uma vez que em Portugal, o foco da intervenção continua predominantemente centrado na criança. Existe, assim, um desfazamento entre o que a lei determina e o que se faz na prática, principalmente no que respeita aos serviços de apoio à família. 1.2 Evolução Histórica do Conceito de Intervenção Precoce O conceito de Intervenção Precoce tem vindo a sofrer ao longo do tempo uma grande evolução, decorrente de reflexões teórico-práticas e de factores socioeconómicos e políticos. 9 Para Shonkoff e Meisels (2000), a estrutura actual de Intervenção Precoce teve origem em quatro domínios distintos: (...)- early childhood education maternal and child health, special education, and child development research - (p. 15). Nos fins do século XIX e início do século XX constata-se um crescente interesse e preocupação relativamente à criança, ao seu bem-estar e à sua educação. Surge legislação que prevê a obrigatoriedade do ensino e a proibição do trabalho infantil. Verifica-se também um aumento do trabalho feminino, surgindo os primeiros "Kindergarten", as "Nursery Schools", ao mesmo tempo que os primeiros Serviços de Saúde Materno-lnfantis manifestam preocupações relacionadas com a intervenção junto de crianças carenciadas. Surgem nos E.U.A. os primeiros programas de Intervenção Precoce que tinham como objectivo combater a pobreza, baseando-se no princípio de que uma intervenção neste período traria resultados a nível da prevenção e da remediação, tendo em conta a plasticidade do desenvolvimento nos primeiros anos de vida. Este tipo de intervenção torna-se conhecido através do programa Head-Start, cujos resultados foram avaliados durante toda a década de 70 (Pimentel, 1997). Paralelamente, surge a preocupação com os direitos e necessidades dos indivíduos e das minorias, quer se trate dos direitos das mulheres, das minorias étnicas ou dos deficientes. A preocupação na área da deficiência infantil surge nos E.U.A. em 1975 com a publicação da PL94-142 - Education of All Handicapped Children Act. Pela primeira vez, reconhece-se às crianças com alterações do desenvolvimento, o direito a uma educação pública e adequada num meio natural não restritivo. É exigida a elaboração de um Programa Individualizado de Ensino (PIE) e é realçado o papel dos pais como parceiros dos técnicos, não só a nível da elaboração do PIE como da intervenção. Em 1986 surge a PL-99-457 que abrange a população dos 3 aos 5 anos com carácter de obrigatoriedade e recomendando à população dos 0 aos 3 anos com carácter opcional. Esta legislação tem também por objectivo evitar a dispersão da família por diferentes serviços, proporcionando um atendimento com carácter interdisciplinar para todas as crianças com N.E.E. e suas famílias, através da coordenação entre serviços. O papel da família é aqui realçado, principalmente em relação à população dos 0 aos 3 anos. A Intervenção Precoce é entendida como um serviço individualizado e centrado na família destacando-se a necessidade, da 10 elaboração de um Plano Individualizado de Apoio à Família (PIAF), caso a família o deseje. Durante as décadas de 1970 e 1980, foram criados vários programas de Intervenção Precoce para crianças com deficiência ou em risco, salientando-se o Programa Portage para Pais (Shearer & Shearer, 1972) que surge em 1969. Este crescimento foi acompanhado por um grande número de pesquisas cujo objectivo consistia em avaliar a eficácia dos diferentes tipos de programas (Casto & Mastopieri, 1986). Para estes autores, a eficácia destes programas depende do seu início o mais precocemente possível. Para que os resultados se mantenham a longo prazo é importante a intensidade e a frequência da intervenção e que seja assegurada a continuidade do apoio. Outro aspecto importante para o sucesso dos programas é o envolvimento dos pais. Bronfenbrenner (1974), numa revisão exaustiva dos resultados de diferentes programas, realça o papel da família, afirmando que o envolvimento directo dos pais é um factor indispensável para que os ganhos a nível da criança se mantenham no tempo. Actualmente, o termo Intervenção Precoce não designa uma forma específica de intervenção, mas engloba um grande número de diferentes tipos de prestação de serviços que variam em função de factores, tais como, as necessidades da criança, as necessidades ou preferências da família, os recursos disponíveis ou o modelo teórico dos técnicos. Bailey e Wolery (1992) consideram que, apesar desta diversidade, é importante que exista uma base consensual subjacente à filosofia dos programas, sugerindo sete objectivos de ordem geral que deverão estar sempre presentes na prestação de serviços de Intervenção Precoce: 1) Dar apoio às famílias no sentido de as ajudar a atingir os seus objectivos; 2) Promover o envolvimento, a independência e a competência da criança; 3) Promover o seu desenvolvimento em domínios chave; 4) Promover e apoiar a competência social da criança; 5) Promover a generalização das suas capacidades; 6) Proporcionar à criança experiências de vida normalizantes; 7) Prevenir a emergência de problemas ou alterações futuras. Os diferentes conceitos de desenvolvimento infantil, do papel da família, dos profissionais, e do contexto irão reflectir-se nas práticas dos técnicos que 11 trabalham em Intervenção Precoce e no modo como estes objectivos vão ser operacionalizados. Não é possível falar de Intervenção Precoce sem abordar também as várias perspectivas que a caracterizam (Bailey & Wolery, 1992). Faremos, assim, referência a três grandes perspectivas: a desenvolvimental, a comportamentalista e a ecológica-sistémica. 1.3. Perspectivas Subjacentes à Intervenção Precoce O campo da Intervenção Precoce encontra-se sujeito à influência de perspectivas epistemológicas diferentes. O conceito acerca das crianças, suas famílias e profissionais vai determinar o foco e a direcção dos esforços da Intervenção Precoce. As perspectivas desenvolvimental, comportamentalista e ecológica oferecem diferentes visões da criança e, consequentemente, a adopção de qualquer um destes modelos irá definir o tipo de intervenção. A Perspectiva Desenvolvimental Esta perspectiva também associada aos trabalhos de Gesell, atribui o crescimento e o desenvolvimento da criança a factores maturacionais. As crianças nascem com capacidades físicas e cognitivas que, à medida que crescem e amadurecem, lhes vão permitindo um melhor desempenho. Da mesma forma, as estruturas cerebrais desenvolvem-se através do processo de mielinização, permitindo um funcionamento intelectual mais complexo e integrado (Anastasiow, 1990 cit. por Bailey & Wolery, 1992). Com o seu modelo cognitivo, Piaget demonstrou que a maturação cognitiva permite à criança realizar e compreender conceitos cada vez mais complexos. Para Brokman, Morgan e Harmon (1988, cit. por Bailey & Wolery, 1992), as crianças nascem com a motivação intrínseca para explorar e controlar o seu meio ambiente. Para os defensores da perspectiva desenvolvimental, o desenvolvimento é a consequência da maturação. A competência é alcançada através do jogo, da exploração e da experiência. 12 Segundo esta perspectiva, o papel do educador consiste em proporcionar à criança um ambiente adequado, facilitador das actividades correspondentes ao seu nível de maturação. O enfoque da avaliação vai incidir sobre as aquisições próprias de determinado nível de desenvolvimento (Almeida, 1997). A Perspectiva Comportamentalista Esta perspectiva associada a Skinner centra-se na aprendizagem como essencial para o crescimento e desenvolvimento da criança (Bijou & Baer, 1961; 1965; 1978 cit. por Bailey & Wolery, 1992). As crianças nascem com a capacidade para aprender e as competências que exibem, emergem como resultado das experiências com o meio ambiente. Antecedentes e consequentes servem para moldar o comportamento. A aprendizagem de certos padrões de resposta faz-se através de interacções rápidas e repetidas com o ambiente. Se entendermos o desenvolvimento numa perspectiva comportamentalista, em que o papel da aprendizagem é crucial no desenvolvimento e a capacidade de aprendizagem consiste no resultado das experiências em determinado contexto ambiental, então a Intervenção Precoce reveste-se de uma grande importância. Nesta perspectiva, o papel do educador consiste em organizar o contexto de aprendizagem, sequenciando as actividades de modo a facilitar à criança a aquisição de competências. Quanto à avaliação, esta terá como foco a identificação das capacidades de desenvolvimento, a nível funcional, que permitirão à criança ter êxito. A Perspectiva Ecológica Nesta perspectiva são integradas três abordagens relacionadas e complementares entre si: a transaccional, a da teoria geral dos sistemas e a ecológica. No modelo transaccional (Sameroff & Chandler, 1975; Sameroff & Fiese, 2000) dá-se ênfase à inter-relação da criança e dos sistemas nos quais ela se integra, atendendo às influências recíprocas entre pais/amas/técnicos e criança. Por exemplo, uma criança difícil de alimentar pode criar sentimentos de incompetência 13 nos pais. Estes sentimentos podem transpor-se para outras áreas, tais como brincar ou falar com a criança, originando um ambiente alterado. Segundo esta perspectiva, os programas de intervenção devem atender à reciprocidade e continuidade das inter-relações. A teoria dos sistemas inscreve-se também numa perspectiva ecológica, que encara a criança como fazendo parte do sistema mais vasto da família. Bronfenbrenner (1989) encara as famílias como fazendo parte de uma rede mais alargada, a vizinhança, pertencendo ao sistema comunitário. Para este modelo, todos os sistemas, especialmente as famílias, integram valores que determinam o que é ou não desejável para a criança e a família. Uma intervenção segundo a perspectiva ecológica, só fará sentido se tiver em conta o quadro de valores e o ambiente eco-cultural de cada indivíduo. A avaliação numa perspectiva ecológica deverá incidir, não só sobre as capacidades da criança como deve, ainda, analisar as características do contexto e as necessidades, recursos e expectativas da família. 2 - A Importância das Primeiras Relações A aceitação de que o desenvolvimento pode ser afectado pelo meio ambiente em que a criança é criada, leva muitos investigadores a debruçarem-se sobre as consequências negativas da privação das relações humanas precoces, e da capacidade de modificar essas mesmas sequelas desenvolvimentais. Surgiram estudos centrados sobre os efeitos da institucionalização no desenvolvimento cognitivo e sócio-emocional das crianças, sendo possível constatar o impacto destrutivo que provoca o isolamento e a sub-estimulação, comum na vida dos orfanatos, em hospitais com pouco pessoal e outras instituições. Este síndrome caracterizado por Spitz (1945 cit. por Shonkoff & Meisels, 2000) como "hospitalismo" provocava atrasos em múltiplos domínios do desenvolvimento. Outros estudos realizados vieram demonstrar que um meio mais rico e estimulante pode inverter os efeitos das experiências precoces, realçando a maleabilidade dos processos desenvolvimentais, bem como a necessidade de se intervir nos primeiros anos de vida (Kirk, 1958; Richardson & Koller, 1996; H. Spitz, 1989, in Shonkoff & Meisels, 2000). 14 Nos anos 50, John Bowlby, através das suas investigações, forneceu um conjunto teórico sobre a importância crítica das relações mãe-filho no desenvolvimento saudável das crianças. A formulação do constructo da "vinculação" forneceu uma fundamentação teórica para o desenvolvimento de importantes estudos sobre a adaptação sócio-emocional das crianças (Ainsworth, 1969; Bretherthon & Waters, 1985; Werner & Smith, 1977, 1982, 1992, in Shonkoff & Meisels, 2000). Nos anos 50/60 surgiram estudos longitudinais que demonstraram a importância do ambiente de prestação de cuidados, apoiando a validade do modelo de desenvolvimento transaccional. O processo de desenvolvimento é considerado complexo e transaccional, tornando-se cada vez mais evidente que os produtos desenvolvimentais são mediados pelos efeitos mútuos da "natureza" e "educação" (Shonkoff & Meisels, 2000). 3 - Quadro Conceptual de Teorias e Modelos Subjacentes às Práticas de Intervenção Precoce 3.1. Abordagem Sistémica na Intervenção Precoce Toda a conceptualização teórica sobre a teoria geral dos sistemas é atribuída a Von Bertalanffy (1968). De acordo com esta perspectiva, os indivíduos, as famílias, as organizações e as instituições são vistos não como unidades com um funcionamento independente, mas como componentes de um todo organizado e interrelacionado. Este sistema altera-se sempre que os seus componentes se adaptam às informações, "feedback e estímulos. Os profissionais de Intervenção Precoce deverão, numa perspectiva de sistema, ter em conta a necessidade de considerar múltiplos componentes, alguns dos quais influenciam, outros são influenciados pela criança com limitações (Ramey Yeates, & Macphee, 1984 cit. por Bailey & Wolery, 1992). Segundo Powers (1988), os prestadores de serviços em Intervenção Precoce deverão guiar as suas práticas, tendo em conta três desígnios estratégicos fundamentais: 15 - Actuarem no sentido da prevenção dos desequilíbrios, intervindo proactivamente de forma a reequilibrar, na medida do possível, o funcionamento do sistema familiar; - Dedicarem atenção particular ao processo organizacional, pois embora os sistemas de Intervenção Precoce operem como suporte para as crianças e respectivas famílias, as organizações podem funcionar como barreiras à mudança, sobretudo quando os indivíduos não têm consciência das estruturas organizacionais e os profissionais não compreendem os valores, as estruturas e os recursos considerados pela família como normais e importantes para si; - Preocuparem-se por entender a realidade sobre a qual intervêm à luz das interrelações entre o comportamento dos indivíduos e o meio ambiente. Bailey e Wolery (1992), convocando o conceito de "goodness of fit', originalmente formulado por Thomas e Chess (1977), argumentam que os resultados positivos são potenciados quando existe um maior ajuste entre as características da criança ou da família e os serviços prestados. Bernheimer, Gallimore, e Weisner (1990) sublinham os contributos que a teoria eco-cultural pode fornecer para o desenvolvimento do Plano Individual de Apoio à Família. Segundo os autores, cada família representa um nicho ecológico com determinadas características específicas. A compreensão deste nicho implica uma análise detalhada dos componentes da ecologia da família e das percepções que os membros da família possuem sobre as suas circunstâncias. O recurso a um enfoque sistémico poderá beneficiar com a incorporação dos princípios avançados pelo modelo transaccional de Sameroff e Chandler (1975) - demonstrando a natureza das interacções e as dinâmicas de influência no contexto do sistema familiar - bem como, com a utilização dos referenciais teóricos do modelo ecológico de Bronfenbrenner que clarificam as relações hierárquicas subsistentes entre os vários níveis de um sistema. 3.2. Abordagem Transaccional na Intervenção Precoce Segundo Sameroff e Fiese (2000), os produtos desenvolvimentais da criança em determinado momento não dependem do estado inicial da mesma, nem do estado inicial do meio ambiente, mas sim de uma função complexa de interacção e 16 No entender de José Gameiro, "A família é uma rede complexa de relações e emoções na qual se passam sentimentos e comportamentos que não são possíveis de ser pensados com os instrumentos criados pelo estudo dos indivíduos isolados. (...) A simples descrição dos elementos de uma família não serve para transmitir a riqueza e complexidade relacional desta estrutura" (Gameiro, 1992, p. 187). A família é como uma unidade invisível, com interacções permanentes e dinâmicas e em constante transformação (Cornwell & Korteland, 1997). Cada família é de facto una e única e deverá ser entendida como um todo. É a Teoria Geral dos Sistemas que fornece mais alguns instrumentos teórico-práticos: cada família enquanto sistema é um todo, mas é também parte de sistemas, de contextos mais vastos nos quais se integra. Por outro lado, dentro da família existem outras totalidades mais pequenas (a menor é o indivíduo) que são elas próprias, partes do grupo total: são os chamados subsistemas (Relvas, 1996). Outro aspecto fundamental é o da abertura do sistema. De facto, as unidades estão rodeadas por limites ou fronteiras, permitindo a passagem selectiva da informação, quer entre a família e o meio, quer entre os diversos subsistemas familiares. O grau de abertura ou fecho desses limites é considerado por Minuchin como normas que definem quem participa num subsistema e o modo como o faz, e é variável conforme as próprias famílias e o momento de evolução que atravessam. Em termos práticos, essa abertura refere-se à influência de pressões exteriores a que o sistema está sujeito, bem como às que ele próprio exerce sobre o meio (Minuchin, 1979). Assim sendo, não é possível conhecer uma família se não se tiver em conta o(s) contexto(s) em que participa. O grau de abertura da família é variável conforme a sua organização, pois possui um dinamismo próprio que lhe confere, para além da individualidade, a sua autonomia. A família no seu funcionamento integra as influências externas, mas não está dependente delas, não é simplesmente reactiva às pressões do meio, pois está também sujeita a forças internas, possuindo uma capacidade auto-organizadora que lhe dá coerência e consistência. É também importante lembrar que cada elemento da família participa em vários sistemas e subsistemas, desempenhando, em simultâneo, diversos papéis em diferentes contextos, num registo de complexidade relacional. 23 As unidades sistémico/relacionais (subsistemas) são criadas por interacções particulares que têm a ver com os indivíduos nelas envolvidos, com os papéis desempenhados, os estatutos ocupados, com as finalidades ou objectivos comuns e com as normas transaccionais que progressivamente se vão construindo. Na família distinguem-se vários subsistemas: o individual (constituído pelo indivíduo que, para além do seu envolvimento no seio do sistema familiar, desempenha noutros sistemas funções e papéis que interagem com o seu desenvolvimento pessoal e também com o seu posicionamento familiar); o parental (com funções executivas, tendo a seu cargo a protecção e educação das gerações mais novas e que, na maior parte das vezes, é constituído pelos pais); o conjugal (que engloba marido e mulher, o casal); o fraternal (constituído pelos irmãos, com funções específicas no que diz respeito ao treino de relações entre iguais). A forma como estes subsistemas se organizam, o tipo de relações que se desenvolvem entre eles e no interior de cada um, consubstancia a estrutura da família (Relvas, 1996). A organização/estruturação da família enquadra-se no eixo espacial ou relacional onde a unidade familiar assume um contexto de valor heurístico. O indivíduo é um todo, parte de uma família e de uma sociedade, mas nesse indivíduo vive, existe e reconhece-se essa família e essa sociedade. É de salientar que as tarefas de desenvolvimento da família, para além de se relacionarem com as características individuais dos elementos que a compõem têm que ver com a pressão social para o desempenho adequado de tarefas essenciais à continuidade funcional do sistema familiar. Os papéis parentais concretizam-se em função das necessidades particulares dos filhos, mas também procuram responder positivamente às expectativas sociais atribuídas aos pais. A família tem assim, como funções primordiais, o desenvolvimento e protecção dos seus membros (função interna), a sua socialização, adequação e transmissão da cultura (função externa). Com o nascimento do primeiro filho inicia-se uma nova fase de transição do ciclo vital da família. Com tal evento, a díade transforma-se em tríade e a transformação afectiva operada a nível do funcionamento dos pais é acompanhada por uma redistribuição de papéis, funções e imagens identificatórias a três níveis fundamentais: no seio do próprio par, nas relações entre o casal e as famílias de 24 origem e nas relações com os contextos envolventes mais significativos (profissional, de amizades, redes de suporte social). Os novos pais organizam o modelo parental que comporta dois modelos distintos: o maternal e o paternal. Esta representação vai permitir assumir a função parental, baseada no ajustamento das funções maternal e paternal que não significam, estritamente, o papel desempenhado pela mãe e pelo pai. Podem ser definidas como o conjunto de elementos biológicos, psicológicos, jurídicos, étnicos, económicos e culturais que tornam um indivíduo mãe ou pai de um ou vários outros indivíduos (Relvas, 1996). A parentalidade organiza-se num processo do qual fazem parte três aspectos: 1) A interacção com a realidade da criança que não é um elemento passivo, participando com as suas competências e características próprias na modelagem desta função; 2) A relação com as famílias de origem; 3) As expectativas sócio-culturais e familiares que acompanham o seu nascimento. O funcionamento do sistema familiar impõe uma reavaliação constante dos comportamentos associados à parentalidade, feita em função do tempo e do contexto específico em que se desenvolve. A família como sistema social mais não é que um grupo de indivíduos que se encontram num processo de construção da sua própria realidade (Cornwell & Korteland, 1997). Segundo Bronfenbrenner (1979), o desenvolvimento da criança é um processo sujeito à influência directa e indirecta de diferentes sistemas (micro, mexo, exo e macrossistemas), em que a família se situa ao nível do microssistema tratando-se da estrutura que mais directamente influencia a criança. Por isso, cabe aos profissionais de Intervenção Precoce desenvolver a sensibilidade que lhes permita compreender os vários subsistemas da família. 25 7. Do Modelo Transaccional à Intervenção Precoce Bronfenbrenner (1977) diz-nos que o desenvolvimento será facilitado através da participação do sujeito em padrões de actividade cada vez mais complexos, mantidos com alguém com quem ele tenha desenvolvido uma ligação afectiva positiva. É importante observar os sistemas de regulação que afectam o desenvolvimento da criança. O ambiente desempenha um papel fundamental em todos os pontos, ajudando a criança a desenvolver-se e a auto-regular-se. O estudo Kauai (Werner, Bierman, & French, 1971; Werner & Smith, 1982), veio demonstrar que, quando a família e as variáveis culturais promovem o desenvolvimento, as crianças que experimentaram complicações na altura do parto, não se distinguem das que nasceram sem qualquer tipo de complicações. No entanto, se as variáveis culturais da família dificultam ou impedem o desenvolvimento, até as crianças sem complicações biológicas desenvolvem graves défices afectivos e sociais na vida futura. Isto permite-nos chegar às seguintes conclusões: a primeira, é que o nível de competência da criança em qualquer ponto do seu desenvolvimento, tenha ele sido atingido através de processos de desenvolvimento normal ou através de esforços de intervenção especiais, não é linearmente relacionável com a competência futura na vida. A segunda, é que no desenvolvimento futuro é sempre necessário ter em conta os efeitos do contexto social e familiar da criança, que podem promover ou impedir o seu desenvolvimento harmonioso. Assim, qualquer programa de intervenção, nunca poderá ter sucesso se as mudanças apenas incidirem na criança, sendo necessário proceder a alterações e modificações no ambiente e contexto, de forma a aumentar as competências já existentes, protegendo-a de acontecimentos perturbadores no futuro. Estudos realizados vêm comprovar que a eficácia da intervenção depende, não só do número de factores de risco, como também, os mesmos efeitos são resultado de diferentes combinações de factores de risco. Em cada família dever-seá efectuar, então, uma análise dos factores de risco, exigindo um conjunto de estratégias de intervenção. 26 7.1. O modelo de regulação do desenvolvimento - o Mesótipo Tal como existe uma organização biológica - o genótipo, que regula o resultado físico de cada indivíduo - existe também uma organização social que regula a forma como cada ser humano se enquadra na sociedade. Essa organização - o mesótipo - funciona através da família e dos padrões sócio-culturais (Sameroff & Fiese, 2000). Este é composto por subsistemas que, não só se relacionam com a criança, mas também uns com os outros. Havendo interesse em manipular o desenvolvimento, como no caso dos programas de prevenção ou intervenção, importa identificar as fontes de regulação do desenvolvimento humano. As regulações do desenvolvimento ao nível da cultura, família e pai/mãe, ocorrem dentro de códigos: código cultural, código familiar e código individual do pai/mãe. Estes códigos regulam o desenvolvimento cognitivo e sócio-emocional da criança num registo, em parte, determinado pelas crenças, valores e personalidade dos pais, pelos padrões de influência transgeracional e, também, pelas crenças de socialização, controlo e suportes da cultura. Deve reconhecer-se a distinção entre códigos e comportamentos. O mesótipo não é mais que uma descrição do contexto experiencial, assim como o genótipo não é mais do que o fenótipo biológico. Em cada caso, o código deve ser actualizado pelo comportamento. Os códigos têm uma influência organizacional e regulatória no comportamento dos pais, mas o comportamento não é o mesmo que código. Embora o mesótipo possa ser conceptualizado independentemente da criança, as mudanças nas capacidades da mesma ao nível do desenvolvimento podem provocar alterações nos processos de regulação, contribuindo para a evolução de uma agenda de desenvolvimento que regula cada mesótipo em marcos de desenvolvimento. Embora os marcos do desenvolvimento tenham sido concebidos como próprios à criança, o seu significado fica muito reduzido se não existir uma regulação desencadeada pelo mesótipo. Diferentes pais, diferentes famílias e diferentes culturas podem ser sensíveis a comportamentos diferentes da criança (Sameroff e Fiese, op. cit.). 27 O comportamento da criança, em qualquer ponto do tempo, é o produto de transacções entre o fenótipo (a criança), o mesótipo (fonte externa de experiência) e o genótipo (fonte de organização biológica). 7.1.1. Código cultural Consiste num conjunto de características que organizam uma sociedade que inclui elementos de socialização e educação. Estes processos estão enquadrados em conjuntos de controlo social e suporte social. Baseiam-se em crenças que diferem na medida do consenso comunitário que vai da moral às normas, até às modas passageiras. Uma das actuais condições de risco, para a qual muitos programas de intervenção estão dirigidos, é a gravidez na adolescência. Embora para algumas jovens mães a gravidez seja resultado de factores individuais, para grande parte é o resultado de um código cultural que define os padrões de maturidade, relações familiares e de socialização relativamente à maternidade adolescente. Furstenberg, Brooks-Gunn, e Morgan (1987), salientam "(...) que a perspectiva das famílias acerca do curso da vida, atribuem o momento de casar e de ter filhos à interacção entre crenças pessoais, sociais, económicas e culturais relativamente ao comportamento apropriado a cada idade (...)". IA.2. Código familiar Tal como os códigos culturais regulam a adequação entre os indivíduos e o sistema social, os códigos familiares organizam os indivíduos dentro do sistema familiar. Os códigos familiares fornecem uma fonte de regulação que permite que um grupo de indivíduos forme uma unidade colectiva em relação à sociedade como um todo. Assim, como os códigos culturais regulam o desenvolvimento de modo a que o indivíduo possa cumprir um papel na sociedade, os códigos familiares regulam o desenvolvimento no sentido de produzir membros que cumpram um papel no seio da família, e de serem capazes de integrar novos membros no sistema partilhado. 28 A família regula o desenvolvimento da criança através de uma variedade de processos que diferem no grau de representação explícita e de conduta. As famílias têm rituais que prescrevem papéis e ditam normas de comportamento dentro do conjunto familiar; histórias que transmitem orientações e valores a cada membro da família e a quem as ouvir; mitos partilhados que influenciam as interacções individuais ou exageram aspectos das histórias de família, e paradigmas, que modificam o comportamento individual na presença de outros membros da família. Reiss (1989) fez o contraste entre o grau, no qual estes processos são articulados e prontamente relatados pelos membros individuais, e o grau, no qual o comportamento de cada membro da família é regulado por uma prática comum evidente, somente quando os membros da família se encontram juntos. Enquanto os rituais familiares podem ser relatados por cada membro da família, os paradigmas familiares são construídos através de processos grupais. As regulações mais representativas são exemplificadas pelos rituais familiares e as menos representativas, pelos paradigmas familiares. As histórias e mitos providenciam funções regulatórias intermédias dos rituais e paradigmas. O que tem importância para os esforços de intervenção é a natureza exacta de como estas formas são transmitidas, através do comportamento entre os membros da família e de como são representadas cognitivamente. Rituais Segundo Sameroff e Fiese (2000), os rituais são formas de regulação familiar mais conscientes, praticados por toda a família e frequentemente documentados. As actividades dos rituais situam-se por definição fora da rotina normal e incluem celebrações familiares, tradições e interacções padronizadas. O conteúdo dos rituais familiares inclui informação simbólica, assim como estádios preparatórios, horários e planos. Os rituais cumprem uma função reguladora ao atribuir papéis ou tarefas claras a cada membro da família. Para participar no ritual, cada membro da família deve adequar-se às características específicas de um papel. 29 Histórias As histórias fornecem uma segunda forma de regulação da família. Para Reiss (1989), embora as histórias tenham interesse para os cientistas do desenvolvimento e da cognição, (como instrumento para a compreensão do desenvolvimento cognitivo), existem poucos trabalhos sobre a importância das histórias que as famílias contam sobre si próprias. Num estudo sobre o folclore familiar, Zeitlin, Kotkin e Baker (1982), reuniram um vasto número de histórias familiares. A partir da sua análise propuseram três funções para as histórias: 1) Para enaltecer "heróis" notáveis ou brincalhões na história da família; 2) Para dramatizar ou conservar transições significantes na família ou eventos stressantes; 3) Para preservar certos costumes familiares. As histórias têm sido vistas como tendo um efeito estabilizador, ao preservar importantes acontecimentos transmitindo um sistema de valores à geração seguinte. Há uma forte componente de desenvolvimento nas histórias de família. Como fonte de regulação, a prática de contar histórias é um factor importante nas relações da criança com os outros membros da família. As crianças ouvem as histórias e organizam experiências ao longo delas, permitindo aos pais transmitir determinados valores através das histórias contadas. Mitos A terceira fonte de regulação dentro do código da família foi os mitos. Os mitos familiares são crenças que permanecem inalteráveis apesar da realidade. Segundo Kramer (1985), os mitos podem ter uma origem traumática e possuem, frequentemente, uma componente afectiva muito forte. Os mitos familiares não se discutem, nem são reconhecidos como distorções (Sameroff & Fiese, 2000). Alguns mitos familiares, ajudam a regular a definição de papéis na família. Podem surgir problemas de desenvolvimento quando a criança tem de aceitar um mito familiar distorcido para ser congruente com a família ou quando a família impõe um papel desadequado à criança, mediante a criação de um novo mito. 30 Paradigmas Os paradigmas familiares são a quarta forma de regulação da família. Reiss (1981) descreve a forma como as famílias desenvolvem os paradigmas, que incluem um conjunto de suposições, convicções ou crenças acerca do seu funcionamento. A evidência de que os paradigmas operam ao nível da família reside no facto de, face a uma mesma questão, os membros da família agirem de forma diferente quando estão sozinhos ou quando estão em presença de outros membros. Segundo Reiss, Oliveri e Curd (1983), estes paradigmas geralmente persistem durante anos, mesmo gerações e manifestam-se "in the fleeting fantasies and expectations by all members of the family and, even more important, in the routine action patterns of daily life". Pesquisas actuais sobre os efeitos dos factores familiares no desenvolvimento da criança, salientaram interacções conflituosas ou harmoniosas, observáveis entre membros de uma família. O código familiar é um domínio do funcionamento da família que organiza tais comportamentos. Uma condição de risco reconhecida na criança, é o efeito da discórdia entre os pais e do divórcio, uma vez que produzem problemas no comportamento face ao conflito familiar ou à ausência de um dos pais (Wallerstein & Kelly, 1980 cit. por Sameroff & Fiese, 2000). 7.1.3. Código individual dos Pais O comportamento dos pais é influenciado pelo contexto familiar, uma vez que fazendo parte de uma família, o comportamento de cada membro é alterado frequentemente sem consciência da mudança de comportamento (Sameroff & Fiese, 2000). Contudo, não há dúvida de que os indivíduos trazem o seu próprio contributo para as interacções familiares. A contribuição dos pais é determinada de forma mais complexa do que o das crianças, devido aos múltiplos níveis que contribuem para o seu comportamento. Discutem-se as regulações da socialização enquadradas nos códigos cultural e familiar, mas não se discutem as interpretações individuais que os pais impõem a esses códigos. Tais interpretações estão condicionadas pela participação dos pais nos códigos das suas famílias anteriores, sendo apreendidas unicamente por cada 31 membro da família. Estas diferenças individuais favorecem as respostas do pai e da mãe aos seus próprios filhos. Main e Goldwyn (1984) identificaram categorias de ligação dos adultos que reflectem a codificação dos pais e a interpretação dessa mesma ligação. O que é interessante nessas categorias de ligação dos adultos é que estas operam através de gerações e são predictivas de categorias de ligação aos filhos. Relativamente ao desenvolvimento precoce, Fraiberg, Adelson e Shapiro, (1980), forneceram muitas descrições das atribuições que os pais trazem para o exercício da parentalidade. Esses "fantasmas" de conflitos não resolvidos parecem "(...) do their mischief according to a historical or topical agenda, depending upon the vulnerabilities of the parental pasf (Fraiberg, et al, op. cit. p. 164). Segundo Sameroff, Seifer e Zax (1982), o efeito do desvio dos pais não foi ainda reconhecido como contributo para a perturbação do desenvolvimento da criança. Um dos maiores avanços na investigação corrente de programas de Intervenção Precoce é o esforço para facilitar a prestação de cuidados por parte dos pais, dada a sua importância para o desenvolvimento da criança. Embora se reconheça essa influência, é importante considerar os contextos onde o comportamento parental ocorre, ou seja os seus códigos familiares e culturais. É necessário reconhecer os pais como uma fonte de regulação de grande importância, mas é igualmente importante reconhecer que o comportamento parental está, ele próprio, condicionado por contextos de regulação que podem exigir estratégias de intervenção adicionais. 7.2. Regulações Desenvolvi mentais A descrição dos contextos de desenvolvimento é necessária para a compreensão dos problemas desenvolvimentais, bem como para o eventual delinear de programas de intervenção. Após se ter avaliado a complexidade dos sistemas, é possível direccionar a intervenção para a procura de elementos chave. Esses elementos serão encontrados na interacção entre a criança, a família e os sistemas culturais, especialmente aqueles onde as regulações ocorrem. 32 temporais. As setas que partem da criança para os pais representam mudanças na criança que se realizam com eles e que, no limite, mudam os seus comportamentos ou as suas atitudes. A seta descendente reflecte mudanças nos pais que estão dirigidas a eventuais mudanças na criança. As setas horizontais entre P1 e P2 reflectem mudanças iniciadas com os pais em ti, que depois influenciam os seus comportamentos em t2 e que podem, também, afectar o comportamento da criança emt2. Cada direcção que o efeito toma, implica um diferente ponto e forma de intervenção. Em relação às estratégias de Intervenção Precoce temos a remediação que modifica a forma como as crianças se comportam face aos pais. Por exemplo, nos casos em que as crianças têm desordens orgânicas conhecidas, a intervenção deve ser dirigida para a remediação dessas irregularidades biológicas. Ao melhorar o estado físico da criança, esta será capaz de extrair cuidados e atenção dos seus pais. A redefinição modifica a forma como os pais interpretam o comportamento dos filhos. Encarar a criança como sendo difícil ou teimosa, pode impedir interacções positivas por parte dos pais. Ao redireccionar as atribuições que fazem da criança, pode facilitar-se uma atitude mais positiva. A reeducação modifica a forma como os adultos se comportam face à criança. Fornecer treino em técnicas de posicionamento para pais de crianças com deficiência, é um exemplo desta forma de intervenção. 7.3.1. Remediação É uma técnica de intervenção que consiste em introduzir modificações na criança, podendo ocorrer eventuais modificações nos pais, uma vez que o objectivo é a adequação da criança às competências parentais pré-existentes que seriam adequadas se a criança tivesse as respostas apropriadas. A remediação pode, por exemplo, ser apropriada a crianças prematuras com dificuldades na alimentação originadas pela imaturidade em chupar e fraca coordenação em engolir. 39 A fraca nutrição e o atraso no desenvolvimento do reflexo de chupar pode levar a que a criança esteja hospitalizada durante um longo período de tempo, levando os pais a criar uma percepção da mesma como sendo uma criança doente, sujeitando-a a possíveis disfunções na forma de cuidar e lidar com ela. Neste exemplo, se as crianças prematuras forem alvo de uma intervenção de remediação individual em que haja estimulação do reflexo de chupar para conseguirem alimentar-se, elas são capazes de normalizar mais cedo o seu comportamento e consequentemente, terem alta do hospital mais depressa (Anderson, Burroughs, & Measel, 1983). As intervenções de remediação são regulações do comportamento infantil, tal como os códigos familiares e culturais são constructos reguladores do desenvolvimento. A remediação é indicada quando existe uma razoável expectativa de que a condição da criança pode ser alterada e de que os códigos familiares e culturais não impedem que a implementação dos esforços de intervenção se faça. Existem, no entanto, situações em que os códigos culturais e familiares não podem operar com sucesso sendo então necessário implementar uma outra estratégia de intervenção - a estratégia de redefinição. 7.3.2. Redefinição A redefinição está indicada quando os códigos familiares não se enquadram nem aceitam o comportamento da criança, tendo como objectivo facilitar as interacções parentais mais adequadas para que os pais identifiquem áreas de funcionamento normal. As estratégias de redefinição estão dirigidas para facilitar a adequação das interacções dos pais. São apropriadas quando os pais definiram, por exemplo, a criança como anormal e são incapazes, ou não têm vontade, de lhe fornecer os cuidados normais. Tais dificuldades em fornecer atenção e cuidados podem ter duas fontes: dificuldade dos pais em se adaptarem à condição incapacitante da criança, ou dificuldade dos pais em distinguir entre as suas reacções emocionais e o comportamento actual da criança. Exemplo do primeiro tipo de problema, são os pais que se desqualificam ao não se considerarem capazes de tratar da criança e, automaticamente, 40 reconhecerem a deficiência física ou mental como uma condição que só pode ser tratada por profissionais. Exemplo do segundo tipo de problema, são os pais que ficaram desencantados com o tratamento e cuidado prestado aos filhos, porque não correspondeu às expectativas que tinham criado. Estas estratégias dirigem-se aos pais quando uma condição desviante na criança é um foco não identificado nas percepções erradas que eles têm relativamente à mesma. Por exemplo, os pais que se deparam com o nascimento de uma criança com Síndrome de Down e que a definem como uma criança "anormaf devido à diferença na aparência ou no ritmo de desenvolvimento, são muitas vezes levados a acreditar que são incapazes de tratar dela. Neste caso, as estratégias de redefinição devem ser orientadas para a normalização das reacções dos pais face à criança, tendo como principal preocupação salientar os aspectos normais do seu comportamento apesar dos atrasos no seu funcionamento cognitivo e da alteração das suas respostas sociais e emocionais. Por exemplo, estabelecer a comunicação através do contacto ocular e de respostas emocionais como sorrir e eventualmente, rir. Para que a redefinição seja a intervenção escolhida, um aspecto crucial da dificuldade em ter sucesso deve estar na percepção dos progenitores relativamente à criança. É sabido que muitos pais de crianças com dificuldade em ter sucesso descrevem os seus filhos como sendo "opositores" ou maus (Ayoub & Milner, 1985) e têm dificuldade em aceitá-los (Casey, Bradley, & Wortham, 1984). Os esforços de redefinição, neste caso, teriam como alvo a reconstrução, por parte dos pais, das expressões emocionais da criança. No caso de uma mãe que recusa alimentar um bebé a chorar, a criança é percebida como sendo teimosa; o choro da criança pode ser redefinido como um sinal de fome e não de raiva. Uma simples redefinição pode ser suficiente para alterar a relação pais - criança para que as interacções alimentares possam ter lugar. Contudo, alguns casos podem não responder à alteração dos rótulos do comportamento infantil, e aí, um esforço mais intensivo dirigido à história passada dos pais seria indicado. Fraiberg, Adelson e Shapiro (1980), descreveram como as experiências passadas dos pais, influenciam os actuais comportamentos de "carefa/c/ngr". Assim que os pais implementam actividades rotineiras de "caretaking", as experiências passadas da sua própria infância são recordadas. Indivíduos que 41 experimentaram cuidados sensíveis e apropriados, recordam experiências positivas quando tomam conta dos seus filhos. Todavia, indivíduos que experimentaram cuidados inadequados, geralmente repetem as mesmas interacções inapropriadas. Estes "fantasmas da maternidade", podem influenciar a forma como os pais levam a cabo as suas rotinas relativas a cuidar e atender os filhos. Em relação ao caso da dificuldade em ter sucesso, as mães destas crianças usualmente recordam a sua própria educação na infância como inadequada. Neste caso, as intervenções de redefinição podem ser dirigidas para as memórias dos pais, relativas a experiências passadas. Chatoor e seus colegas afirmam que a redefinição do bebé como sendo da mãe, mais que um símbolo das experiências de "parenting" passadas, tem sido eficaz no tratamento de crianças com dificuldades (Chatoor, Dickson, Schaeffer & Egan, 1985). A mãe ou o pai, ou a família inteira, podem ser a fonte de atribuições inadequadas relativas à criança. De facto, reconhecer como a família pode contribuir para as disfunções na criança é central para adaptar o código da família ao comportamento da criança. A maior parte da discussão em torno da redefinição tem sido dirigida para o código familiar, mas ocasionalmente pode ser dirigida para o código cultural. As redefinições em diferentes níveis de regulação movem-se do foco no comportamento da criança específica, para o foco das atribuições gerais de uma dada criança, até ao foco nas atribuições das crianças em geral. Intervenções ao nível das microregulações, ajudam os pais a reinterpretar as sugestões das crianças, por exemplo, a redefinir o choro como um choro de fome e não de oposição. Intervenções ao nível das miniregulações ajudam os pais a redefinir quem o seu filho é - "É o meu bebé e não eu enquanto bebé, nem a minha mãe, nem o meu pai, nem a minha mulher"- para que o objecto da sua atenção seja clarificado. Intervenções ao nível das macroregulações têm como objecto a redefinição de estereótipos culturais, como por exemplo, redefinir o ideal de bebé como magro e mau, em vez de gordo e alegre. O objectivo desta intervenção é alterar a relação dos pais com a criança. As intervenções de redefinição devem ser dirigidas para a forma como a família vê a criança e quais os papéis que o código familiar permite que a criança desempenhe. 42 Podemos concluir que as intervenções de redefinição tentam alterar padrões de relacionamento perturbados a partir de percepções não adaptáveis ou inadequadas. Há casos, no entanto, que os pais não possuem as capacidades necessárias para desempenharem o seu papel, sendo indicada a reeducação. 7.3.3. Reeducação Consiste em ensinar os pais a cuidar dos seus filhos, estando indicada quando estes não possuem as competências parentais básicas ou quando o comportamento parental adequado não faz parte do seu repertório. Um exemplo de uma intervenção de reeducação é o cuidar e alimentar de bebés prematuros, sendo pertinente um programa que dê instrução aos pais sobre a forma de como tratar os filhos. Este facto permite-lhes compreender as necessidades de desenvolvimento dos bebés. Intervindo desta forma, os pais são levados a compreender os seus filhos como menos difíceis de educar, tornando-os capazes de interagir com os bebés no contexto social. Os bebés prematuros apresentam desafios particulares aos pais, em relação à rotina de "caretaking", já que a imaturidade da criança é muitas vezes caracterizada por irregularidades na regulação da homeostasia (Sameroff & Fiese, 2000), os padrões de sono irregulares (Parmelee & Sigman, 1984), e as inconsistências na interacção social (Field, 1980; Goldberg et al., 1980). Esta forma de intervenção pode levar os progenitores a perceberem os seus filhos como menos difíceis de educar e torná-los mais voluntariosos para interagir com os bebés. O modelo complexo que caracteriza a nossa moderna compreensão da regulação do desenvolvimento parece apropriado para analisar a etiologia das desordens no desenvolvimento. Permite a compreensão da intervenção a um nível necessário, para identificar objectivos de intervenção. Ajuda-nos a perceber porque razão as condições iniciais não determinam os resultados, positivos ou negativos. O modelo transaccional ajuda-nos a perceber a razão pela qual os esforços de Intervenção Precoce podem não determinar os futuros resultados. Há muitos pontos no desenvolvimento onde as regulações podem facilitar ou retardar o 43 progresso da criança, no entanto, a parte esperançosa deste modelo, é que estes pontos no tempo representam oportunidades de mudança no processo de desenvolvimento. Segundo alguns estudos longitudinais realizados no âmbito do modelo transaccional, a criança exerce influência no ambiente que a rodeia destacando-se a bidireccionalidade na interpretação de relações pais/filhos. Assim, é o carácter das transacções que se desenvolvem entre a criança e o meio, que parece determinar o curso do desenvolvimento (Veiga, 1995). No capítulo seguinte iremos abordar as representações, percepções e atitudes maternas e de que forma estas condicionam o comportamento da mãe. 44 Capítulo 2 - Representações, Percepções e Atitudes Maternas 45 Verifica-se uma relação sempre que alguém, num determinado contexto, presta atenção a outra pessoa ou participa nas actividades dessa mesma pessoa (Bronfenbrenner, 1979). Podemos, assim, afirmar que sempre que duas pessoas mãe-bebé prestam atenção uma à outra ou participam em actividades comuns, forma-se uma díade. Para o desenvolvimento de qualquer díade é importante que estas possuam características de reciprocidade (do qual fazem parte a interdependência e a interacção), de equilíbrio de poder e relação afectiva. Conclui-se, então, que se um elemento da díade a mãe ou o bebé, atravessa um processo de desenvolvimento, o outro também atravessará, produzindo efeitos a nível do desenvolvimento de ambos. À medida que ocorre a interacção da díade mãe-bebé desenvolvem-se sentimentos nos seus elementos em relação um ao outro, intensificando a relação afectiva entre mãe e filho. Convém referir que a mãe, após o nascimento do seu bebé, obtém uma nova visão do seu campo psicológico capacitando-se para desenvolver novas actividades relacionadas com o seu novo papel de mãe. Bronfenbrenner (1979) considera que o processo de desenvolvimento do indivíduo depende da forma como outros elementos (pai, avós, amigos...), presentes nesse contexto favorecem ou destroem as actividades daqueles que interagem com a criança. Os resultados das investigações realizadas por Hetherington (1977 cit. por Bronfenbrenner, 1979) reforçam esta ideia, embora salientem que perturbações no desenvolvimento não devem ser atribuídas somente à possível ausência paterna, mas à alta tensão e falta de sistemas de apoio vivenciados pela mãe e, consequentemente, pela criança. Quando uma mulher assume e desempenha o papel de mãe esperar-se-á dela um determinado tipo de comportamento, congruente com um certo estatuto. Numa perspectiva ecológica, essa noção é vista por Bronfenbrenner (1979) como um conjunto de actividades e relações esperadas de alguém que ocupa uma determinada posição na sociedade e dos outros em relação a essa pessoa. Criam-se, assim, expectativas acerca do comportamento do sujeito-mãe para com os outros - o seu bebé, mas também como os outros - o seu bebé actuam em relação a ele - mãe. 46 Essas expectativas dizem respeito, não só ao conteúdo das actividades desenvolvidas pela mãe, mas também às relações existentes entre ela e o bebé, grau de reciprocidade, equilíbrio de poder e relação afectiva. Estas, definem-se ao nível da cultura ou subcultura, funcionando a mãe como um elemento do microssistema tendo, no entanto, as suas raízes ao nível do macrossistema. A Maternidade tem sido objecto de estudo da Antropologia, da Sociologia, da História e da Psicologia, entre outras áreas. No entanto, devido a esta se apresentar como um fenómeno demasiado complexo, nenhuma delas consegue explicar toda a sua dinâmica. Para podermos entender os aspectos psicológicos da maternidade é necessário enquadrá-la ao nível histórico, antropológico e social, uma vez que ser mãe é encarado de forma diferente de civilização para civilização, dependendo não só das características individuais de cada mulher, mas também, do meio cultural que a rodeia. É em função dos valores e exigências da sociedade que são determinados os papéis do pai, da mãe e da criança. Segundo Colman e Colman (1994) a reacção da mulher ao parto reflecte os valores da sua cultura e o seu posicionamento face às expectativas dos outros. Para Badinter (1980), o amor maternal não se encontra inscrito na profundidade da natureza feminina, pois, quando se analisa a evolução das atitudes maternas, nem sempre o interesse e a dedicação se manifestam. Num mundo onde cada vez mais se valoriza a formação profissional, a maternidade caracteriza-se pela ausência de profissionalização e especialização. Embora a informação possa ser útil e importante, não é imperativo que se leia livros para se ser uma boa mãe ou um bom pai. As mães não são preparadas para desempenharem o seu papel, no entanto, tudo aquilo que fazem traduz a sua personalidade e depende da relação que estabelecem com a criança (Kitzinger, 1978/1996). Em qualquer sociedade, os estilos de maternidade ou as práticas de educação são produto da cultura, fazendo parte de um sistema de valores responsáveis pelo significado da família, do que é ser criança, do que é ser homem ou mulher e do papel de pai e de mãe. Dar à luz uma criança consiste num processo de integração social, não é só um acto privado e isolado, mas algo que fomenta a coesão social. A própria gravidez reflecte toda a vida anterior à concepção, desde as experiências da mulher com as 47 figuras paternas; as forças que lhe permitiram adaptar-se a este com maior ou menor sucesso e, por fim, a separar-se dos pais, tudo isto influencia a adaptação ao seu novo papel (Brazelton & Cramer 1989/1993). Actualmente, é aceite que se pode descrever a gravidez normal em três fases: incorporação, diferenciação e separação (Colman & Colman, 1973 cit. por Campos, 2000). Estas três fases comportam um encadeamento de seis tarefas psicológicas: aceitar a gravidez, aceitar a realidade do feto, reavaliar a geração parental anterior, reavaliar o relacionamento com o parceiro, aceitar o bebé como uma pessoa individualizada e integrar a identidade parental. Segundo estes dois autores, até ao aparecimento dos primeiros movimentos fetais, no primeiro trimestre da gravidez são trabalhados pela grávida, os conflitos relacionais com a sua mãe. No segundo trimestre, talvez o mais calmo, é elaborado o significado da gravidez no contexto da vida conjugal. No terceiro trimestre aparecem os temas relacionados com a separação e com o parto e é elaborada a separação do bebé. A fase da incorporação diz respeito ao período de aceitação da gravidez, implicando o ajustamento da mulher às expectativas da maternidade e um trabalho à volta da identidade feminina. A gravidez em termos psicológicos inicia-se quando a mulher tem a noção que está grávida. A fase da diferenciação tem início com a percepção da mãe dos primeiros movimentos fetais. "A confirmação da vitalidade e independência funcional do feto põe em marcha o processo de autonomização da grávida em relação ao seu bebé" (Justo 1994, p. 124). Antes da separação biológica, a grávida deve ser capaz de uma separação psicológica do seu bebé, que ocorre nos últimos meses de gravidez. Esta fase de separação tem o seu termo no trabalho de parto. Trata-se de um período que, embora faça parte de um processo normal de desenvolvimento, implica reestruturações e reajustamentos a várias dimensões. A decisão de ter um filho é resultado de várias motivações conscientes e inconsciente (Gil M. 1998). Após o tempo de gestação, o nascimento quer ao nível físico, quer ao nível psicológico é considerado um momento de transformações, separações e novas ligações. A maternidade, segundo Kitzinger (1978/1996), é uma actividade multidimensional, bastando para isso, observarmos as diversas manifestações do papel de mãe noutras civilizações. Em civilizações como a nossa, as mães têm a 48 Estes parceiros imaginários têm muito de real, pois os pensamentos, as recordações, as percepções e os sentimentos possuem uma existência própria. Uma das questões que se coloca é: A criança terá a capacidade de 1er algumas mensagens que lhe indicam o papel que é suposto desempenhar? Segundo Brazelton e Cramer (1989/1993), a experiência clínica prova que as crianças desempenham, através do seu comportamento, o papel que os pais inconscientemente esperam delas. A mãe que receia que o filho venha a morrer de fome, tem um bebé anoréxico; a mãe que nunca suportou o carácter afirmativo do irmão, tem um filho tirânico. Esta atribuição de papéis é determinante para o desenvolvimento da criança, daí ser importante tentar compreender de que modo as crianças captam aquilo que se espera que elas venham a reproduzir. Robert Emde (1983, cit. por Brazelton & Cramer 1989/1993) filmou crianças a ler atentamente a expressão facial das mães (naquilo a que chama "referenciação"). Estes filmes mostram até que ponto a disposição da mãe afecta o estado emocional e os actos do filho. Esta transmissão de emoções não é um fenómeno subtil e passageiro, pois produz efeitos visíveis no comportamento da criança (Emde & Sorce, 1983 cit. por Brazelton & Cramer 1989/1993). É importante reconhecer que as crianças são extremamente sensíveis à disposição das pessoas que cuidam delas, e que isso se transmite ao seu próprio comportamento. Para que uma mãe se sintonize com as necessidades do seu filho, tem de confiar na identificação de partes da sua experiência infantil, agora projectadas no bebé. Ao mesmo tempo, se ela está verdadeiramente disposta a conhecer o seu bebé, tem de se afastar desta identificação e respeitar os seus sinais objectivos e individuais. Assim, o sucesso de uma mãe depende do equilíbrio entre a identificação projectiva (descoberta de semelhanças) e a leitura objectiva do bebé (percepção das diferenças). Necessitamos tanto das experiências de fusão como da capacidade de distanciação. A tendência dos pais para atribuírem os seus próprios traços psicológicos aos filhos tem muitas variantes. A natureza do que eles projectam também varia imenso. Enquanto a maioria dos pais tende a ver no filho características ideais, outros projectam as suas características más. O papel da criança deve ser sempre tido em 55 conta. As características inatas, a aparência física e o sexo da criança podem ajudar a fixar um tipo específico de projecção (Brazelton & Cramer, 1989/1993). O recém-nascido é envolvido em idealizações: ele é o melhor, o mais belo e o mais esperto e os pais descobrem novos testemunhos destes notáveis talentos ern todas as fases do seu desenvolvimento. Isto não só é normal como é indispensável para o processo de ligação. No entanto, existe sempre um potencial de desapontamento em todos os recém-nascidos, uma vez que nenhum bebé corresponde às fantasias que os pais criam em relação a ele. Deste modo, os traços normais de um bebé também podem suscitar desilusão. Uma das formas mais importantes de ajustamento depois do nascimento é a necessidade que os pais sentem de se reconciliarem com o filho, e de enterrarem o bebé imaginário e perfeito. A projecção de determinadas tendências indesejáveis afectará, naturalmente, a interacção pais-bebé neste domínio específico. Os pais reagirão com exagero e desencorajarão ou inibirão no filho o comportamento que corresponde a essas tendências. Isto é visível nos problemas com a alimentação. Quando uma criança é teimosa para comer, a culpa é-lhe muitas vezes atribuída quando, na realidade, revela uma preferência oculta dos pais pela comida. Presente em todas as relações entre pais e filhos o seu sentimento pelos filhos, o modo como cuidam deles e o estilo de educação que escolhem é fortemente determinado por uma nova representação de modelos enterrados há muito. Se educar um filho é um acto de criação, ele é alimentado pela recriação de experiências há muito esquecidas (Brazelton & Cramer, 1989/1993). 56 Il PARTE - Planificação e Organização Empírica do Estudo 57 Capítulo 3 - Procedimentos metodológicos 58 3.1. Introdução Após o enquadramento teórico efectuado ao longo da primeira parte, iremos apresentar a investigação empírica que integra a presente dissertação. Em termos de organização optámos por apresentar o nosso estudo de campo em três Capítulos. Teremos assim, no Capítulo 3 a descrição da metodologia que norteou este estudo, seguindo-se o Capítulo 4 com a apresentação dos estudos de validade e fiabilidade das escalas utilizadas e, por último, o Capítulo 5 com a apresentação do estudo das relações entre as variáveis, procedendo à discussão das mesmas, confrontando os resultados encontrados. Até à data da elaboração do nosso estudo não é do nosso conhecimento a existência de instrumentos aferidos para a população portuguesa que permitam avaliar as representações maternas. Como tal, atendendo aos objectivos deste estudo, exceptuando a Escala Mother-Father-Peer (MFP) que foi por nós utilizada, todas as outras - a Escala de Atitudes e Sentimentos Maternos, a Escala de Apoio Social, o Inventário de Percepção Neonatal e o Inventário do Grau de Incómodo — considerou-se necessário que se efectuasse o estudo psicométrico dessas mesmas escalas para a sua aplicabilidade à população de mães portuguesas. Para tal, foi necessária a sua tradução e algumas alterações dos instrumentos utilizados. Optámos por efectuar os estudos psicométricos (de fiabilidade e validade) que permitissem a utilização científica dos instrumentos no nosso estudo. Este tema surge da tomada de consciência da importância dos factores da relação mãe-bebé capazes de influenciar, quer o comportamento interactivo do bebé, quer o comportamento afectuoso da mãe, bem como, as suas representações, percepções e atitudes. Tendo em conta, a importância das primeiras relações no desenvolvimento físico, cognitivo e emocional da criança, surge a vontade de conhecer as representações que as mães possuem das capacidades sensório-perceptivas (auditivas e visuais) dos seus bebés. Que diferenças e/ou associações se destacam em relação ao tempo de separação entre a mãe e o recém-nascido após o parto e, ainda, que percepções, atitudes e sentimentos se evidenciam no contexto da relação precoce entre mãe-filho. 59 Este trabalho, aborda a influência e a relação que os factores internos da mãe, cognitivos (representações, percepções e atitudes) e emocionais (expectativas e sentimentos) têm no seu relacionamento com o seu bebé e no próprio desenvolvimento deste. Com base na análise das relações entre estas variáveis, espera-se encontrar variabilidade intra-grupo ao nível das representações maternas sobre as características e competências do bebé. Este estudo longitudinal contemplou dois momentos distintos de avaliação: (1) no primeiro mês pós parto; (2) nos terceiros meses pós-parto. No primeiro momento de avaliação - 1o mês pós-parto - pretendeu-se avaliar: (1) as representações maternas das competências sensório-perceptivas (auditivas e visuais) do bebé; (2) nível sócio-económico das mães; (3) percepção das mães acerca das dificuldades comportamentais relativas ao bebé neste período; (4) as memórias de infância acerca das relações com os pais e com os pares; (5) os sentimentos maternos e as atitudes educativas das mães relativas a este período, e comparar com os sentimentos e atitudes do terceiro mês pós-parto; (6) a necessidade de vários tipos de ajuda e assistência, relacionando com a necessidade e ajuda do terceiro mês pós-parto. No segundo momento de avaliação - 3o mês pós-parto - procurou-se examinar: (1) os sentimentos maternos e as atitudes educativas das mães relativas a este período, relacionando e comparando com os sentimentos e atitudes do primeiro mês pós-parto; (2) a necessidade de vários tipos de ajuda e assistência, relacionando com a necessidade e ajuda do primeiro mês pós-parto. 3.2. Método 3.2.1. Participantes No período compreendido entre Janeiro de 2002 e Fevereiro de 2003, contactámos as 97 mães com bebés com 30 dias de vida residentes no Funchal, foram contactadas telefonicamente com o objectivo de participar neste estudo. Esta amostra foi recolhida no Centro de Saúde do Bom Jesus, na Região Autónoma da Madeira. Este Centro está localizado no Funchal abrangendo as 60 seguintes freguesias: Sé, Santa Luzia, São Gonçalo, Santa Maria Maior, São Pedro e Imaculado Coração de Maria. A amostra inicial, avaliada no primeiro mês de vida do bebé, é constituída por 97 mães. Do conjunto destas, apenas 80 foram reavaliadas quando os seus bebés tinham 90 dias de vida. 17 não aceitaram continuar a participar no estudo, umas manifestando indisponibilidade para participar, outras não aparecendo às entrevistas após repetidas marcações. 3.2.2. Instrumentos Analisaremos agora os instrumentos utilizados com o objectivo de avaliar os factores cognitivos (representações, percepções e atitudes) e factores emocionais (sentimentos e expectativas) da mãe. Alguns destes instrumentos, que apresentaremos de seguida, foram criados ou adaptados para o nosso estudo: (1) Questionário (Ver anexo 1) Procedemos à construção de um questionário que de uma forma objectiva nos permitiu recolher dados sobre a mãe e o bebé, recolhendo o máximo de informação possível, contendo a identificação da mãe; a caracterização familiar sócio-económica e cultural; dados referentes ao recém-nascido; dados relativos à gravidez; história médica; história emocional; parto; conhecimento do bebé; preocupações, expectativas e sentido da realidade. Com este questionário pretendeu-se sobretudo: • Aprofundar os sentimentos com que a gravidez foi vivida, nomeadamente se a gravidez foi desejada e se havia preferência pelo sexo do bebé; ■ Conhecer o momento em que a mãe sentiu amor pela primeira vez em relação ao seu bebé; - Percepção da mãe sobre a qualidade e sentimento de apoio e suporte social com o qual pode contar; ■ Conhecer as representações maternas sobre a dimensão sensórioperceptiva do bebé, mais especificamente quanto à audição e visão; 61 ■ Avaliar a capacidade de previsão e expectativa da mãe sobre o desenvolvimento futuro do seu bebé. (2) Classificação Social Internacional de Graffar rveranexo2) Em termos de proveniência social, a caracterização das famílias destes bebés foi realizada através da Classificação Social de Graffar, uma vez que permitiu obter o nível sócio-económico das mães; (3) Inventário de Percepção Neonatal e o Inventário do Grau de Incómodo (1971 ) - (Ver anexos 3 e 4) Esta escala é utilizada para avaliar a percepção que as mães têm dos seus bebés e é constituída por duas partes: - percepção do bebé médio e percepção do seu próprio bebé. Cada uma contém os mesmos 6 itens, cuja resposta se processa de acordo com uma escala de Lickert de 1 a 5 valores (1 - Nada; 5 - Muitas Vezes). A pontuação total obtida na escala do seu bebé é subtraída ao total da escala do bebé médio. Se o resultado obtido pelas mães for superior àquele obtido na percepção média do bebé, indica que o seu bebé é percebido positivamente e estamos perante um bebé menos difícil do que a média; um resultado negativo indica que temos um bebé percebido como difícil. Foi administrada por Broussard e Hartner em 1971, a 318 mães após o parto e quando os seus bebés tinham um mês de vida. Estes mesmos autores conceberam um outro instrumento - Degree of Bother Inventory (Inventário do Grau de Incómodo) com o objectivo de avaliar as dificuldades sentidas pelas mães em relação aos mesmos comportamentos, relativamente ao choro, ao bolsar, ao sono, à alimentação, à evacuação e cuidados prestados ao seu bebé. Esta escala apresenta apenas 5 pontos (1Nada; 5 - Muito) que pretende demonstrar o grau de aborrecimento sentido pelas mães em relação a determinados comportamentos do seu bebé. Segundo Broussard e Hartner (1971), apenas foi possível obter correlações positivas quando os bebés tinham um mês de vida. Assim, as mães que avaliavam os seus bebés como melhores do que a média, eram aquelas que demonstravam menor grau de aborrecimento do que aquelas que não possuíam essa percepção. 62 Com as investigações realizadas, estes autores concluíram que, não só ocorrem mudanças na percepção que as mães têm do seu bebé entre o nascimento e o primeiro mês de vida, como também no fim do primeiro mês, em que muitas das mães percepcionam os seus bebés de modo negativo. Com o Inventário de Percepção Neonatal - NPI e o Inventário do Grau de Incómodo pretendeu-se avaliar a percepção da mãe acerca do comportamento do bebé no momento em que este tinha um mês de vida. (4) Mother-Father-Peer (MFP) - (Veranexos) Esta escala foi construída originalmente por Epstein (1983) para investigar as memórias de infância acerca das relações com os pais e com os pares. Pedro Lopes dos Santos, Ana Paula Silva e Ana Maria Sousa, ambos da Universidade do Porto apresentaram a versão portuguesa da escala, tendo sido examinadas algumas das suas propriedades psicométricas. Nesta escala é possível distinguir a presença de dois factores nas subescalas de interacção materna e paterna: o primeiro, representando a dimensão de Aceitação/Rejeição e o segundo, a dimensão de Encorajamento da Independência/Sobreprotecção. Em relação à sub-escala de relação com os pares, os resultados obtidos sugerem a necessidade de se discriminar um factor de Aceitação Activa de um factor de Aceitação Passiva. A análise da consistência interna dos itens indicou um bom nível de fidedignidade dos próprios itens da escala. A importância da aplicação desta escala prende-se com o facto das experiências relacionais vividas na infância terem um peso marcante no desenvolvimento futuro do indivíduo, já que distúrbios ocorridos nas primeiras relações podem desencadear desordens de comportamento ou de desenvolvimento, no futuro. Segundo Bowlby (1980 cit. por Lopes-dos-Santos, Silva & Sousa, 1995), as transacções interpessoais estabelecidas na infância são interiorizadas pelo indivíduo sob a forma de modelos representacionais. Essas representações constituem um sistema gerador de significados, através do qual o indivíduo se avalia a si próprio, prevê comportamentos e promove as trocas interactivas. 63 Os modelos representacionais surgem como esquemas pré-simbólicos que regulam a acção e a economia dos afectos (Stern, 1989 cit. por Lopes-dos-Santos, Silva & Sousa, 1995). Embora os modelos representacionais da relação tenham um carácter não verbal, uma vez se tratar de uma experiência subjectiva, individual e inexplicável, possuem, também, uma dimensão verbal capaz de ser comunicada e partilhada socialmente. Apesar de nessa passagem poderem surgir elementos de deformação, tais como, mecanismos de defesa, dados da investigação, parece que os conteúdos narrativos podem oferecer aproximações razoáveis aos modelos internos. Algumas abordagens mostram-nos que as memórias da infância, pesquisadas mediante o método da entrevista ou do questionário, estão relacionadas com vários aspectos da organização da personalidade e do comportamento social (e.g., Buri, 1989; Gegas & Schwalbe, 1986; Hopkins & Klein, 1994; Soares, 1992; Thomas & Raj, 1985 cit. por Lopes-dos-Santos, Silva & Sousa, 1995). Epstein (1983, cit. por Lopes-dos-Santos, Silva & Sousa, 1995), reconhecendo o valor prognóstico das recordações infantis, elaborou um questionário destinado a avaliar as memórias do adulto, referentes às relações que, em criança, manteve com os pais e os pares. A escala Mother-Father-Peer (MFP) demonstrou a sua capacidade preditiva em relação a fenómenos como a conduta das mães no âmbito das interacções com os seus bebés (Biringen, 1990; Jacobvitz, Morgan, Kretchmar & Morgan, 1992 cit. por Lopes-dos-Santos, Silva & Sousa, 1995) ou a respeito de variáveis do funcionamento pessoal como a força e plasticidade do eu, o nível de auto-estima, o grau de neuroticismo, a organização das emoções primárias e o temperamento (Epstein, 1983 e 1989 cit. por Lopes-dos-Santos, Silva & Sousa, 1995). Este instrumento consiste num questionário composto por 56 itens cuja resposta se processa de acordo com uma escala de Lickert. Cada um dos seus itens consta de uma proposição, em relação à qual o sujeito deverá indicar o grau de acordo que mantém com ela, atribuindo-lhe uma pontuação variável entre 1 e 5 valores (1desacordo total; 5acordo total). O conteúdo dos itens tem por finalidade activar aspectos das memórias infantis que se encontram ordenados segundo três grandes sub-escalas: uma, que diz respeito à relação mantida pela mãe (23 itens), outra referente à relação com o 64 Capítulo 4 - Estudo das Propriedades Métricas de alguns Instrumentos usados no âmbito do Estudo A informação sobre a qual repousam as nossas análises baseia-se nas respostas maternas a diferentes questionários. Entre os instrumentos usados, dois suscitavam um estudo prévio que esclarecesse as respectivas propriedades métricas e, consequentemente, a sua aplicabilidade no âmbito deste estudo. Referimo-nos, concretamente, à Escala de Atitudes e Sentimentos Matemos e à Escala das Funções de Apoio. Dada a natureza de ambas as escalas, que permitem obter scores a partir do somatório das pontuações atribuídas a vários itens, era indispensável dispormos da garantia de que esses resultados preenchiam critérios razoáveis de sensibilidade, fidedignidade e validade. Se em relação ao questionário MFP tal avaliação tinha já sido feita junto de uma amostra portuguesa (Lopes-dos-Santos, Silva & Sousa, 1995), o mesmo já não se passava com aqueles. No que respeita à Escala de Atitudes e Sentimentos Maternos, elaborámos uma versão directamente inspirada no instrumento de Codrenou (1984), reduzindo, porém, o número de itens e reconhecendo dimensões não inteiramente sobreponíveis. A respeito da Escala das Funções de Apoio, trabalhámos com a tradução de um questionário construído por Dunst, Trivette e Deal (1988) que -tanto quanto sabemosera, pela primeira vez, usado na nossa realidade nacional. O mesmo se passou em relação ao Inventário de Percepção Neonatal e ao Inventário do Grau de Incómodo idealizados por Broussard e Hartner (1971). Assim, este capítulo -de carácter marcadamente preambularexaminará as propriedades métricas dos instrumentos mencionados. 1Escala de Atitudes e Sentimentos Maternos Conforme tivemos ocasião de explicitar, este instrumento foi elaborado a partir de um questionário originalmente adaptado ao contexto da cultura anglosaxónica. Depois de traduzido, procedemos ao estudo do seu conteúdo, modificando pontualmente certos itens, eliminando outros. Da mesma forma, esperávamos que os itens seleccionados para a versão a aplicar se agrupassem de acordo com um modelo tetradimensional (e não pentadimensional como sucede com o instrumento que nos serviu de inspiração). Tratando-se, afinal, de uma "nova" escala, importava avaliar as suas características. Para tal, o questionário foi 72 aplicado a um grupo de 360 mães com bebés cujas idades variavam entre os 30 e os 90 dias. Os dados que, aqui, reportaremos têm como base essa amostra. Sensibilidade dos itens Um fenómeno de natureza psicológica será sensivelmente apreendido pelo dispositivo que o pretende medir quando as mensurações efectuadas captam, consistentemente, a sua variabilidade. Por conseguinte, na avaliação da sensibilidade de qualquer escala intervalar, a ponderação dos valores de assimetria e curtose das distribuições adquire importância fundamental. Uma distribuição com elevado nível de assimetria caracteriza-se por ter a maioria dos efectivos concentrados acima ou abaixo da média. Tal facto, pode implicar uma redução significativa do seu nível de variabilidade. Do mesmo modo, a existência de uma curtose positiva de grande amplitude configurar-se-á, também, como dado potencialmente problemático. De facto, a noção de curtose está relacionada com o nível de elevação ou de achatamento da curva de distribuição dos resultados. Quando o seu valor é negativo, verifica-se uma larga dispersão dos casos pelo espaço de variação amostrai, resultando daí uma curva platicúrtica (de forma "achatada"). Se estivermos, pelo contrário, face a um coeficiente positivo, isso significa que há uma aglomeração dos efectivos junto da média, originando-se uma curva de tipo leptocúrtica (morfologicamente "afunilada"). Entende-se, pois, que uma curtose negativa não é de molde a lesar a variabilidade inerente à distribuição, ao passo que uma curtose de valor positivo pode afectá-la significativamente. A partir destas considerações apreciemos, agora, o quadro 1 onde se mostra a variação, as médias, os valores do desvio padrão, as medidas de assimetria e de curtose dos itens da Escala de Atitudes e Sentimentos Maternos. 73 Quadro 1. Indicadores de sensibilidade dos itens da Escala de Atitudes e Sentimentos Maternos. Itens1 Média D. P Variação Assimetria Curtose 1. Não tenho um minuto de descanso 2.14 0.86 1-5 0.44 -0.29 2. Desde o parto fiquei muito mais nervosa 2.46 1.06 1-5 0.66 -0.26 3. Estou sempre com medo que possa suceder algo com o meu fillho/a 3.63 1.03 1-5 -0.59 -0.02 4. Desde que nasceu sinto-me interiormente tensa 2.59 0.97 1-5 0.46 -0.41 5. Há dias em que me sinto à beira de um esgotamento 2.35 1.11 1-5 0.55 -0.60 6. Estou feliz porque já vi que aprende coisas novas 4.39 0.67 2-5 -1.12 1.98 7. Às vezes perco a calma mesmo com pequenas coisas 2.56 0.89 1-5 0.43 -0.34 8. Nos últimos tempos choro mais vezes 2.36 1.07 1-5 0.43 -0.52 9. Nunca pensei que a vida com o bebé fosse tão cansativa 2.14 0.89 1-4 0.49 -0.44 10. Sinto-me completamente só com os meus problemas 2.00 0.91 1-5 1.15 1.38 11. Ninguém se lembra que também preciso de apoio 2.42 1.04 1-5 0.62 -0.18 12. Às vezes não suporto o meu bebé 1.30 0.53 1-4 1.72 3.13 13. Levanto-me muitas vezes de noite só para ver se respira 3.83 1.09 1-5 -0.58 -0.36 14. Sinto-me exausta 2.74 0.94 1-5 0.24 -0.14 15. Às vezes penso que posso perdê-lo 2.78 1.02 1-5 -0.05 -0.56 16. É um alívio quando está a dormir 2.63 1.03 1-5 0.01 -0.82 17. Às vezes nem consigo dormir só de pensar que lhe pode acontecer algo 2.54 1.04 1-5 0.47 -0.51 18. Desde que nasceu nunca mais pude fazer aquilo que me dá prazer 2.24 0.81 1-5 0.49 0.14 19. Acho que o bebé se sente bem comigo 4.45 0.52 3-5 -0.01 -1.55 20. Dá-me imenso prazer brincar com o bebé 4.64 0.52 3-5 -1.01 -0.13 1 Embora conservando o sentido dos conteúdos, a redacção dos itens não corresponde, necessariamente à formulação original. Conforme se pode verificar, na maior parte dos casos, as respostas dispersam-se de acordo com um leque que aproveita todo o espaço de variação 74 possível. Exceptuam-se os itens 9 e 12 nos quais não se verificou qualquer efectivo com a pontuação máxima, bem como os itens número 6, 19 e 20 onde a nota mínima está ausente. Por outro lado, os coeficientes de assimetria -uns negativos outros positivos-, possuem, na esmagadora maioria, valor inferior a ±1.00, não se constatando nenhum que tivesse ultrapassado o limite de ±2.00. No que diz respeito às medidas de curtose, o panorama parece genericamente similar. A única situação discrepante é a do item 12 cuja curtose se eleva acima de +3.00. Tal constatação sugere que a variabilidade das respostas a ele fornecidas é mais reduzida. Em jeito de conclusão, poderemos dizer que, de forma geral, os itens da Escala de Atitudes e Sentimentos Maternos apresentam uma sensibilidade satisfatória, apesar de um deles (o n° 12) revelar, aparentemente, menos capacidade para diferenciar os respondentes. Estrutura factorial e sub-escalas do questionário Quando seleccionámos os itens do questionário, era nossa expectativa que eles seriam agrupáveis de acordo com quatro dimensões ou sub-escalas. Uma traduziria, directamente, o nível de satisfação com a criança; outra diria respeito aos sentimentos de sobrecarga trazidos pela maternidade; a seguinte reflectiria os receios de perder o(a) filho(a); finalmente, a última assinalaria a ressonância depressiva associada ao exercício do papel materno. O quadro 2 refere as quatro dimensões com menção aos itens que em cada uma se agrupariam. Em ordem a apreciarmos a validade empírica de tal agrupamento, examinámos, primeiro, até que ponto a matriz de correlação entre os itens possuía características susceptíveis de confirmarem a sua factoriabilidade. Caso esse atributo fosse observado, propunhamo-nos ver, depois, em que medida seria possível identificar, a partir dela quatro dimensões sobreponíveis à ordenação esperada. 75 Quadro 2. Agrupamento dos itens nas quatro dimensões Ordenação apriorística dos itens nas quatro dimensões1 Dimensão 1. Satisfação com a criança Estou feliz porque já vi que aprende coisas novas Às vezes não suporto o meu bebé2 Acho que o bebé se sente bem comigo Dá-me imenso prazer brincar com o bebé Dimensão 2. Sentimento de sobrecarga Não tenho um minuto de descanso Nunca pensei que a vida com o bebé fosse tão cansativa Sinto-me exausta É um alivio quando está a dormir Desde que nasceu nunca mais pude fazer aquilo que me dá prazer Dimensão 3. Medo de perder a criança Estou sempre com medo que possa suceder algo com o meu fillho/a Levanto-me muitas vezes de noite só para ver se respira Às vezes penso que posso perdê-lo Às vezes nem consigo dormir só de pensar que lhe pode acontecer algo Dimensão 4. Tendência depressiva Desde o parto fiquei muito mais nervosa Desde que nasceu sinto-me interiormente muito tensa Há dias em que me sinto à beira de um esgotamento Às vezes perco a calma mesmo com pequenas coisas Nos últimos tempos choro mais vezes Sinto-me completamente só com os meus problemas Ninguém se lembra que também preciso de apoio 1 Embora conservando o sentido dos conteúdos, a redacção dos itens não corresponde, necessariamente à formulação original. Para que possa ser contabilizado enquanto "Satisfação com a criança" a pontuação deverá ser, obviamente, invertida. Tendo em conta aqueles propósitos, procedemos à análise factorial dos resultados, recorrendo ao método das Componentes Principais. A ponderação de indicadores estatísticos como a determinante matricial (D= .001), o índice de KaiserMeyer-Olkin (KMO= .845), as medidas de adequação da amostra (MSA) relativas a cada item (valores situados entre .908 e .741) a que se juntam os resultados do 76 teste de esfericidade de Bartlett (X2= 3238.726; P=.000) suportam, pela positiva, a tese da factoriabilidade dos rs obtidos. Considerando os propósitos orientadores das nossas análises, forçámos a extracção de quatro factores. Como o quadro 3 ilustra, a solução encontrada explica, cumulativamente, cerca de 77% da variância total dos resultados, cabendo à primeira componente justificar 29.59% dessa mesma variância. Quadro 3. Componentes extraídas e percentagens da variância explicada Componentes Valor próprio Percentagem Percentagem Componentes (Eigenvalue) da variância cumulativa Componente 1 5.92 29.59% 29.59% Componente 2 2.22 11.09% 40.68% Componente 3 1.46 7.29% 47.97% Componente 4 1.37 6.86% 54.83% Procedemos, seguidamente, à rotação oblíqua da matriz factorial pelo método Oblimin Directo com a normalização de Kaiser. Definido o valor mínimo de .40 como critério de inclusão das variáveis para a interpretação dos factores, verificamos a partir da análise da Matriz Padrão (Pattern Matrix) que a estrutura de saturação dos itens nas diversas componentes é, formalmente, bastante satisfatória. De facto, conforme o quadro 4 mostra, nenhum deles deixa de cumprir o critério de inclusão acima enunciado. Além disso, revelam todos grande especificidade saturando, ao nível requerido, um e apenas um factor. Se tomarmos como referência o agrupamento definido a priori, observaremos que a solução factorial revela uma configuração semelhante à esperada. Assim, os itens que, em princípio, avaliariam a satisfação com a criança saturam mais fortemente o factor 2, os referentes ao sentimento de sobrecarga reúnem-se no factor 4, os do medo de perder a criança no factor 3 e os da ressonância depressiva no factor 1. Parece, assim, legitimar-se a inclusão dos itens em quatro sub-escalas que doravante designaremos como (1) Ressonância Depressiva Relacionada com a 77 Maternidade, (2) Satisfação com a Criança, (3) Medo de Perder a Criança e (4) Sentimento de Sobrecarga Associado à Maternidade. Quadro 4. Saturação dos itens nos vários factores. itens1 Factor 1 Factor 2 Factors Factor 4 1. Nâo tenho um minuto de descanso .037 .052 .000 .683 2. Desde o parto fiquei muito mais nervosa .647 .068 -.170 .081 3. Estou sempre com medo que possa suceder algo com o meu fillho/a .126 .079 -.705 .048 4. Desde que nasceu sinto-me interiormente muito tensa .666 -.021 -.233 -.011 5. Há dias em que me sinto à beira de um esgotamento .650 .065 -.085 .240 6. Estou feliz porque já vi que aprende coisas novas -.110 .677 -.160 .063 7. Às vezes perco a calma mesmo com pequenas coisas .780 .053 .237 .048 8. Nos últimos tempos choro mais vezes .702 -.156 -.170 -.162 9. Nunca pensei que a vida com o bebé fosse tão cansativa .191 -.127 .103 .603 10. Sinto-me completamente só com os meus problemas .489 -.209 -.067 .087 11. Ninguém se lembra que também preciso de apoio .542 -.084 -.043 .040 12. Às vezes não suporto o meu bebé -.073 -.544 .024 -.184 13. Levanto-me muitas vezes de noite só para ver se respira .083 .178 -.722 -.044 14. Sinto-me exausta .329 .097 .046 .648 15. Às vezes penso que posso perdê-lo .047 -.056 -.629 .021 16. É um alívio quando está a dormir -.030 -.094 -.050 .675 17. Às vezes nem consigo dormir só de pensar que lhe pode acontecer algo -.049 -.170 -.790 .118 18. Desde que nasceu nunca mais pude fazer aquilo que me dá prazer -.171 -.045 -.149 .753 19. Acho que o bebé se sente bem comigo .031 .817 .039 .029 20. Dá-me imenso prazer brincar com o bebé .040 .839 .063 -.058 Embora conservando o sentido dos conteúdos, a redacção dos itens não corresponde, necessariamente à formulação original. 78 Em termos de resultados brutos, os scores para cada escala obter-se-ão através da soma das pontuações dos itens a ela pertencentes. Importa, contudo, salientar que no caso da Satisfação com a Criança os pontos do item 12 deverão ser contabilizados por ordem inversa de forma a que o seu contributo seja coerente com as restantes pontuações dessa mesma sub-escala. Sensibilidade e consistência interna das sub-escalas do questionário Procurámos avaliar os indicadores de sensibilidade destas quatro subescalas. A leitura dos dados referidos no quadro 5, permite constatar que o somatório dos itens em cada uma delas define um considerável espaço de variação entre os valores máximo e mínimo. Quadro 5. Variação, média, desvio padrão, e coeficientes de assimetria e de curtose. Sub-escalas Variação Média D.P. Assimetria Curtose Ressonância depressiva 7-33 16.74 4.97 0.48 -0.01 Satisfação com a criança 14-20 17.74 1.78 -0.09 -0.44 Medo de perder a criança 4-20 12.58 3.19 -0.27 -0.19 Sentimento de sobrecarga com a 5-20 11.89 3.26 0.16 -0.48 maternidade Os coeficientes de assimetria e de curtose não chegam em caso algum a superar o nível de ±1.00, sugerindo que os resultados se distribuem, em todas as escalas, dentro de um espaço de variação susceptível de captar com sensibilidade satisfatória as diferenças entre as respostas dos vários membros da amostra. A fidedignidade constitui uma característica crucial de qualquer sistema de avaliação. Este conceito diz respeito ao grau de consistência verificável entre medidas múltiplas de uma variável. A literatura sugere diversos procedimentos para aferir o atributo em causa. Um dos métodos mais utilizados para determinar o grau de fidedignidade das escalas é o cálculo do coeficiente alpha de Cronbach. Este coeficiente, referido como coeficiente de consistência interna, avalia a coerência das respostas dadas pelos membros da amostra aos diversos itens de uma escala. Admite-se, genericamente, que o limite mínimo aceitável do coeficiente alpha é de 79 .70, apesar de nas investigações de carácter exploratório esse valor poder diminuir até .60 (Hair, Anderson, Tatham & Black, 1998). O quadro 6 mostra o valor dos coeficientes alpha para as quatro escalas do questionário, calculados a partir das respectivas matrizes de covariância. Quadro 6. Coeficientes alpha nas quatro escalas do questionário. Ressonância Satisfação com Medo de perder a Sentimento de Depressiva a Criança Criança Sobrecarga .83 .74 .74 .77 Verifica-se que nas quatro das escalas os alpha não se situam abaixo do valor crítico acima mencionado. Importa, aqui, notar que estas escalas integram apenas entre 4 e 7 itens. Ora, conforme Hair et al. {pp. cit.) salientam há uma relação positiva entre os valores do alpha de Cronbach e o número de itens das escalas. Quer isto dizer que, para a dimensão das escalas, os coeficientes obtidos são aceitáveis. Intercorrelações entre os resultados das sub-escalas Face ao conteúdo das sub-escalas é de esperar que as relações entre elas tenham configuração bem definida. Sob o ponto de vista conceptual, torna-se lógico pensar que: 1Os scores das diferentes escalas estejam, na esmagadora maioria, correlacionados significativamente; 2Se observem, particularmente, coeficientes de correlação positivos entre a Satisfação com a Criança e o Medo de Perder a Criança bem como entre a Ressonância Depressiva Relacionada com a Maternidade e o Sentimento de Sobrecarga Associado à Maternidade; 3Se constatem coeficientes de correlação negativos entre os resultados na escala de Satisfação com a Criança e os da Ressonância Depressiva Relacionada com a Maternidade ou do Sentimento de Sobrecarga Associado à Maternidade. 80 consistentes de itens. Procedemos, assim, à sua análise factorial através do método das componentes principais. A ponderação dos indicadores estatísticos como a determinante matricial (D= .001), o índice de Kaiser-Meyer-Olkin (KMO= .914), as medidas de adequação da amostra (MSA) relativas a cada item (valores situados entre .954 e .882) a que se juntam os resultados do teste de esfericidade de Bartlett (X2= 967.15; P=.00O) suportam a adequabilidade de uma tal análise. Os valores próprios (eigenvalues) relativos às diversas componentes só num dos casos foram superiores a um (cf. quadro 12). Tal constatação corrobora a hipótese da unidimensionalidade dos itens do inventário. Quadro 12. Componentes extraídas e percentagens da variância explicada Componentes Valores próprios (Eigenvalues) Percentagem da variância Componente 1 2.10 35.034% Componente 2 .99 16.540% Componente 3 .91 16.517% Componente 4 .80 13.286% Componente 5 .66 11.013% Componente 6 .46 7.609% A suposição em causa sai reforçada quando verificamos o elevado nível de consistência interna dos itens deste mesmo instrumento (o valor do alpha de Cronbach foi igual a .87). Por conseguinte, parece legitimar-se a elaboração de um único score para descrever as respostas de cada participante que resultará, conforme o proposto por Broussard e Hartner (op. cit.), do somatório das diferenças entre os itens relativos ao meu bebé e aos bebés em geral. O quadro 13 mostra as médias, a variação bem como os valores do desvio padrão e dos coeficientes de assimetria e curtose referentes aos scores globais do Inventário de Percepção Neonatal. 87 Quadro 13. Variação, média, desvio padrão, e coeficientes de assimetria e de curtose. Variação Média D.P. Assimetria Curtose -4-17 4.51 3.88 0.32 0.29 O espaço de variação, os valores da assimetria e de curtose indicam que o instrumento revela boa capacidade para diferenciar as mães na base das suas respostas a este instrumento. Síntese dos resultados O Inventário de Percepção Neonatal foi administrado a uma amostra de 97 mães cujos filhos tinham cerca de 30 dias de vida após o parto. Os indicadores de sensibilidade revelaram ser estatisticamente aceitáveis. A unidimensionalidade dos itens ficou demonstrada através dos resultados da análise factorial e do coeficiente de consistência interna dos itens. Assim, o procedimento de cotação sugerido por Broussard e Hartner (op. cit.) que propõe o cálculo de um score global resultante da soma das diferenças observadas em cada um dos itens recolhe suporte empírico nesta versão portuguesa. Como tal, o instrumento parece evidenciar características psicométricas que validam a sua utilização no âmbito da pesquisa. 4Inventário do Grau de Incómodo O Inventário do Grau de Incómodo constitui a tradução de uma escala idealizada por Broussard e Hartner (op. cit.) -Degree of Bother Inventory. Este instrumento indaga, através de cinco itens, até que ponto o choro, o bolsar ou o vomitar, o sono, a alimentação e as funções de eliminação intestinal (evacuação) do bebé têm incomodado a mãe na dispensa dos cuidados maternos à criança. Um sexto item pede uma avaliação relativa à dificuldade sentida em lidar com o(a) filho(a). As respondentes fazem as suas estimativas recorrendo a uma escala de 88 tipo Lickert cuja pontuação se estende de 1 a 5. De acordo com as autoras, o somatório dos pontos dos itens permite a obtenção de uma nota que representa o grau de incómodo experienciado com o bebé. Sensibilidade dos itens Tomando como referência os resultados das 97 participantes que, por volta do primeiro mês após o parto, responderam ao inventário, o quadro 14 refere a média, o desvio padrão, a variação, a assimetria e a curtose dos scores obtidos em cada um dos seis itens. Conforme se pode constatar, as médias situam-se, genericamente, mais próximas do limite mínimo do que do máximo da escala de pontuação. Não obstante, as respostas registam uma variabilidade que cobre todo o espaço de dispersão possível. Os valores dos coeficientes de assimetria situam-se em três dos seis casos acima de 1.00. Quanto aos coeficientes de curtose essa mesma situação verifica-se em dois dos itens. Quadro 14. Indicadores de sensibilidade dos itens do Inventário do Grau de Incómodo. Kens1 Média D. P. Variação Assimetria Curtose i. Relativamente ao choro quão incomodativo 2.54 1.11 1-5 0.45 -0.51 é o bebé 2. Relativamente ao vomitar quantos 1.75 0.99 1-5 1.51 2.14 aborrecimentos tem dado o bebé 3. Relativamente ao sono quantos 2.34 1.13 1-5 0.86 0.20 aborrecimentos tem dado o bebé 4. Relativamente à alimentação quantos 1.62 0.91 1-5 1.52 1.91 aborrecimentos tem dado o bebé 5. Relativamente à evacuação intestinal que 2.08 1.25 1-5 0.83 -0.58 aborrecimento tem dado o bebé 6. Qual a dificuldade de cuidar do bebé 147 0.71 1-3 1..17 -0.02 ' A menção ao conteúdo dos itens não corresponde, obviamente, à sua formulação textual. 89 Poderemos, pois, afirmar que os itens não apresentam, globalmente, os melhores indicadores de sensibilidade. Estrutura factorial do instrumento Um dos pressupostos do Inventário do Grau de Incómodo é o de que os itens se organizam segundo uma estrutura unidimensional. A fim de avaliarmos a plausibilidade de uma tal hipótese, procedemos à análise factorial dos resultados, recorrendo ao método das componentes principais. O valor da determinante matricial (D= .466), o índice de Kaiser-Meyer-Olkin (KMO= .663) as medidas de adequação da amostra (MSA) referentes a cada item (situados entre .777 e .609) a que se junta o coeficiente do teste de esfericidade de Bartlett (X2= 71.14; P=.00O) justificam a legitimidade estatística do procedimento. Os valores próprios (eigenvalues) referentes às seis componentes do inventário só num dos casos atingiram valores superiores a um (cf. quadro 15). Perante tal resultado, sai reforçada a hipótese de que os itens se organizam segundo uma única dimensão. Aliás, o elevado coeficiente de consistência interna que pôde ser verificado (alpha de Cronbach= .82) traz apoio adicional a esta conclusão. Quadro 15. Componentes extraídas e percentagens da variância explicada Componentes Valores próprios (Eigenvalues) Percentagem 3 da variância Componente 1 2.17 36.199% Componente 2 .98 16.387% Componente 3 .94 15.709% Componente 4 .81 13.481% Componente 5 .66 10.986% Componente 6 .43 7.237% Assim, a tese de que as estimativas de cada respondente podem ser descritas através de um único score, resultante do somatório das pontuações 90 obtidas nos vários itens é compatível com os resultados das análises efectuadas. A suposição em causa sai reforçada quando verificamos o elevado nível de consistência interna dos itens deste mesmo instrumento (o valor do alpha de Cronbach foi igual a .87). Sensibilidade da escala O quadro 16 mostra as médias, a variação bem como os valores do desvio padrão e dos coeficientes de assimetria e curtose referentes às pontuações globais do Inventário do Grau de Incómodo. Quadro 16. Variação, média, desvio padrão, e coeficientes de assimetria e de curtose. Variação Média D.P. Assimetria Curtose 6-21 11.80 3.61 0.38 -0.23 Conforme se pode apreciar, os scores distribuem-se por um largo espaço de variação delimitado pelos valores de 6 e 21. A tendência geral das participantes para responderem seleccionando os pontos da parte inferior das seis escalas de Lickert, reflecte-se na média dos somatórios que é inferior a 18.00 (representará o ponto intermédio entre os limites teóricos de 6 e de 30). Não obstante, os coeficientes de assimetria e de curtose -próximos de zerorevelam que os resultados se dispersam segundo o modelo da distribuição normal. Por conseguinte, o instrumento parece ter demonstrado capacidade razoável para diferenciar as mães a partir das suas respostas. Síntese dos resultados Pudemos confirmar através das análises efectuadas que o Inventário do Grau de Incómodo possui os seus itens organizados de acordo com uma estrutura unidimensional. Se, por um lado, os indicadores de sensibilidade dos itens não se revelaram plenamente aceitáveis em todos os casos, já os resultados globais evidenciam uma capacidade de diferenciação susceptível de reflectirem a variabilidade existente entre as respondentes. Estamos, pois, perante um 91 instrumento cujas características legitimam, em princípio o seu uso no contexto da investigação. Considerações Finais Quando procedemos ao planeamento do nosso estudo, seleccionámos, entre outros, quatro instrumentos que, por constituírem adaptações ou traduções de medidas originalmente utilizadas junto de populações não portuguesas, exigiam um estudo prévio com o objectivo de avaliarmos a sua aplicabilidade à amostra por nós investigada. Nesse sentido, recorrendo em dois casos -Escala de Atitudes e Sentimentos Matemos e Escala das Funções de Apoioa amostras compostas por várias centenas de respondentes e nos restantes -Inventáho de Percepção Neonatal e Inventário do Grau de Incómodoao conjunto de mães que integravam, inicialmente, o trabalho, procurámos ver até que ponto os instrumentos preenchiam atributos psicométricos aceitáveis. Os resultados obtidos permitiram-nos concluir pela positiva. Encontradas bases de legitimidade para a sua utilização, apresentaremos no próximo capítulo o conjunto de análises que visam responder mais intencionalmente às questões da nossa investigação. 92 Capítulo 5 - Estudo das Relações entre as Variáveis Analisadas 93 A grande quantidade de resultados obtidos ao longo do presente estudo levanta, desde logo, o problema de se decidir qual a melhor maneira de organizarmos a sua apresentação. A fim de evitarmos o necessariamente fastidioso relato de análises que de modo repetitivo dariam conta de relações estatisticamente irrelevantes -e até pouco pertinentes sob o ponto de vista teóricoprocedemos a um exame prévio dos dados, procurando identificar as variáveis que, por não estarem sistematicamente relacionadas com as medidas mais importantes da nossa pesquisa, estariam longe de fornecer informação significativa. Entre esses factores, pudemos, assim, detectar os seguintes: - profissão, estatuto conjugal, idade e fonte de rendimento dos pais; - número de filhos e de elementos constituintes do agregado familiar; - problemas obstétricos durante a gravidez, acompanhamento médico da gestação e tipo de parto; - planeamento e semana de confirmação da gravidez; - experiência materna em cuidar de crianças e apoio familiar percebido; - preferência pelo sexo do bebé; - expectativa das mães referentes ao desenvolvimento futuro dos bebés; - género da criança, tempo de gestação, medidas do peso, comprimento ou do Apgar à nascença. Em função dos motivos atrás referidos, dispensarmo-nos-emos de considerar estas variáveis nas análises que, doravante, apresentaremos. Do mesmo modo, omitimos qualquer menção ao nível de escolaridade das mães ou dos pais. Constituindo, em si, factores que estiveram relacionados com muitos outros, a verdade é que os seus efeitos estatísticos demonstraram ser notavelmente redundantes quando tomávamos em linha de conta as medidas da escala de Graffar (os coeficientes de correlação ordinal de Spearman elevaram-se acima de .800). Uma vez que esta última variável avaliava, sensivelmente, a mesma realidade, optámos por contemplá-la somente a ela, como forma de reduzirmos os dados ao mínimo indispensável. A exposição que se segue reparte-se por duas secções maiores. Na primeira, analisaremos o conjunto de dados recolhidos na altura em que os bebés tinham cerca de um mês de vida pós-parto. Na segunda, centrarmo-nos-emos nas medidas 94 do terceiro mês, procurando, entre outros aspectos, avaliar as suas relações com as variáveis anteriormente examinadas. 1. Medidas do Primeiro Mês Durante a entrevista efectuada às mães, indagámos que representações possuíam elas das capacidades sensório-perceptivas (auditivas e visuais) dos seus bebés. Para o efeito, socorremo-nos de algumas questões ensaiadas num protocolo de entrevista idealizado por Lopes-dos-Santos e Alves (1986). Duas dessas questões procuravam saber até que ponto as respondentes acreditavam se os seus filhos já ouviam ("ouvir" versus "não ouvir" ou "só capazes de perceber sons fortes") ou conseguiam ver ("ver31 em contraponto com "não ver" ou "só estarem aptos a distinguir a luz do escuro"). As restantes perguntavam se as crianças já reconheciam a voz materna ou visualmente a mãe. O quadro 1 mostra que a esmagadora maioria das participantes pensavam que os bebés com cerca de um mês de vida conseguiam definitivamente ver e ouvir. De notar, contudo que o reconhecimento da capacidade auditiva parece ter mais expressão do que a atribuição de competência visual. Embora o trabalho de Lopes-dos-Santos et al. (op. cit.) tivesse sido conduzido junto de mães cujos filhos tinham apenas até duas semanas de vida pós parto e a incidência de respostas afirmativas fosse, em ambas as questões, menor, a verdade é que esta discrepância entre o reconhecimento de capacidades auditivas e visuais foi, igualmente, observada. Tal constatação sugere que a clareza dos sinais de resposta dos bebés pequenos será maior face à estimulação auditiva do que visual. Quadro 1. Quantidade de mães que responderam afirmativamente às questões se os seus bebés eram capazes de ouvir e ver. Frequência Percentagem Já consegue ouvir Sim 87 Reage a ruídos fortes 4 Não 6 Já consegue ver Sim 76 Distingue a luz do escuro 9 Não 12 89.69 4.12 6.19 78.35 4.12 12.37 95 No que diz respeito ao reconhecimento da mãe, a frequência de respostas afirmativas baixa sensivelmente (cf. quadro 2). Se no caso do canal auditivo, as atribuições positivas se mantêm, não obstante, assaz elevadas, no que respeita ao visual, essas atribuições baixam para perto dos cinquenta por cento. Quadro 2. Quantidade de respostas afirmativas às questões da capacidade dos bebés para reconhecerem auditiva e visualmente a mãe. Frequência Percentagem Já reconhece a voz materna Sim Não tem a certeza Não Já reconhece visualmente a mãe Sim Não tem a certeza Não 74 76.29 15 15.46 8 8.25 50 51.55 25 25.77 22 22.68 Quando interrogadas acerca das razões que as levavam a afirmar que eram reconhecidas pela voz, as participantes deram respostas muito diversas. Procedendo à análise dos conteúdos agrupámo-las em três grandes categorias. A primeira reúne justificações que invocavam efeitos de apaziguamento (e.g., "acalma-se quando lhe falo"). A segunda agrega alegações de que a audição da voz materna suscitava respostas de orientação (e.g., "volta-se na minha direcção", "procura-me", "olha para mim quando lhe falo"...). Por último, a terceira inclui argumentos que invocavam reacções de animação ou de elevação da qualidade do estado de alerta (e.g., "presta atenção quando lhe falo", "sorri quando me ouve", "balbucia quando lhe falo"...). A figura 1 mostra, dentro do universo das respostas positivas (N= 74), a percentagem de justificações classificadas em cada uma das três categorias. 96 que percebiam mais positivamente os(as) filhos(as) avaliavam o seu comportamento como sendo menos incomodativo. As memórias maternas referentes à sua relação na infância com a própria mãe, o pai e os pares eram indagadas mediante o Mother-Father-Peer Scale. Os coeficientes de correlação constantes do quadro 3, mostra que nenhum dos resultados obtidos em cada uma das suas sub-escalas manteve associações estatisticamente significativas com os scores dos inventários de Percepção Neonatal e do Grau de Incómodo. Quadro 3. Coeficientes de correlação entre as pontuações observadas nas seis subescalas da Mother-Father-Peer Scale e os resultados relativos ao Inventário de Percepção Neonatal e ao Inventário do Grau de Incómodo. Percepção Neonatal Grau de Incómodo Mother-Father-Peer Scale Aceitação por parte da mãe .093 -.118 Aceitação por parte do pai .109 -.170 Encorajamento da independência (mãe) .100 -.137 Encorajamento da independência (pai) .007 -.118 Aceitação activa por parte dos pares .119 -.093 Aceitação passiva por parte dos pares -.031 -.144 Por sua vez, o quadro 4 ilustra que não se detectaram praticamente relações significativas entre as escalas do Mother-Father-Peer Scale e os resultados alcançados na Escala de Atitudes e Sentimentos Maternos. 103 Quadro 4. Coeficientes de correlação entre as sub-escalas da Mother-Father-Peer Scale e da Escala de Atitudes e Sentimentos Maternos. Satisfação com Sentimento Medo perder Tendência criança sobrecarga criança depressiva Mother-Father-Peer Scale Aceitação por parte da mãe .166 -.199 .096 -.087 Aceitação por parte do pai .222* -.172 .018 .014 Encorajamento da independência (mãe) .191 -.104 -.038 -.178 Encorajamento da independência (pai) .047 -.048 -.066 -.053 Aceitação activa por parte dos pares -.015 -.067 .106 .001 Aceitação passiva por parte dos pares -.002 -.082 -.142 -.160 * P< .03 A única excepção regista-se no caso da avaliação do modo como as respondentes se sentiram aceites na infância pelos respectivos pais que esteve positivamente associado à satisfação actual com o bebé. Note-se, porém que, embora significativo, o valor do coeficiente de correlação é baixo, sugerindo uma ligação, claramente, marginal entre as duas variáveis. Se a maneira como as participantes avaliavam a memória das relações na infância não pareceu manter associações com as atitudes e sentimentos maternos estimados cerca de 30 dias após o parto, o oposto sucedeu com o modo como percebiam, nessa altura o bebé e o incómodo por ele causado. Quadro 5. Coeficientes de correlação entre as pontuações da Escala das Atitudes e Sentimentos Maternos e os resultados do Inventário de Percepção Neonatal e do Inventário do Grau de Incómodo. Percepção Neonatal Grau de Incómodo Atitudes e Sentimentos Maternos Satisfação com a criança Sentimento de sobrecarga Medo de perder a criança Tendência depressiva .402*** -.289* .274* -.060 -.326** .458*** -.176 .328** * P< .008 **P< .002 ***p< .000 104 Conforme se pode apreciar no quadro 5 o nível de satisfação sentida com a criança é correlativa da avaliação que dela a mãe faz quando a compara com as outras em geral. Embora de forma menos evidente, observou-se tendência idêntica ao examinarmos as relações entre esta última variável e a expressão dos receios de perder o(a) filho(a). Por outro lado, a avaliação positiva da criança parece diminuir a probabilidade de a maternidade ser sentida como uma sobrecarga. Concomitantemente, o grau de incómodo experienciado pelas respondentes com o bebé esteve associado a uma menor satisfação com a criança e a um nível maior de sentimentos de sobrecarga e depressão. O estatuto sócio-económico das respondentes esteve longe de revelar associações com as variáveis analisadas. A única excepção (cf. figura 8) diz respeito às funções de apoio (que também não se relacionaram com qualquer um dos outros factores). % □ nível 1 ■ nível 2 □ nível 3 □ nível 4 Figura 8. Médias na Escala das Funções de Apoio em função do nível sócio-económico das participantes (índice de Graffar). Conforme se pode apreciar, as respondentes classificadas nos níveis 2 e 3 foram as que relataram possuir mais necessidades de apoio. Pelo contrário, as do nível 4 apresentaram, genericamente, os valores mais baixos (H de Kruskal Wallis= 11.09; P= .01). 105 2. Medidas do Terceiro Mês e suas Relações com as do Primeiro Três meses após o parto, contactámos novamente as mães, solicitandoIhes que respondessem uma vez mais à Escala das Funções de Apoio e à Escala de Atitudes e Sentimentos Maternos. Entre a primeira série de medidas e esta segunda, registou-se uma perda de 17 participantes. Assim, as análises que doravante apresentaremos dizem, apenas, respeito a 80 respondentes. Uma vez que estas medidas foram repetidas com um intervalo de dois meses, importava verificar até que ponto a tendência de resposta se mostraram estáveis de uma vez para a outra. Quadro 6. Coeficientes de correlação entre as escalas cuja administração foi repetida ao primeiro e terceiro mês. Escala das funções de apoio Satisfação com a criança Sentimento de sobrecarga Medo de perder a criança Tendência depressiva .664* .412* .524* .512* .486* O quadro 6 mostra que os coeficientes de correlação entre as medidas foram elevados o que revela uma razoável estabilidade. Essa estabilidade foi muito superior no caso das funções de apoio e menor no caso da satisfação com a criança. Até que ponto as variáveis observadas ao primeiro mês demonstraram valor preditivo relativamente a estas últimas? Considerando, uma vez mais, a versão dicotomizada das respostas maternas referentes à capacidade dos bebés para reconhecerem auditiva ou visualmente a mãe, verificou-se que os resultados da segunda administração da Escala das Funções de Apoio continuaram a não evidenciar relações significativas com aquelas duas variáveis. No que diz respeito às Atitudes e Sentimentos Maternos a análise estatística revelou, agora, uma configuração muito diversa. De facto, embora a figura 9 ilustre que, no caso do reconhecimento auditivo, as respostas afirmativas permaneceram associadas a estimativas mais elevadas nas escalas da satisfação com a criança, do medo de perder a criança e a avaliações inferiores nas escalas do sentimento de sobrecarga e da tendência depressiva, a verdade é que as diferenças não atingiram os níveis de significância estatística normalmente aceites. 106 -0,60-K T 1 r Satisfação com a Sentimento de Medo de perder a criança sobrecarga criança Reconhecimento Auditivo Tendência depressiva Figura 9. Médias nas sub-escalas das Atitudes e Sentimentos Maternos (3 meses) em função da atribuição aos bebés da capacidade de reconhecerem a voz da mãe (1 mês). Puderam ser observadas exactamente as mesmas tendências quando as análises tomaram em linha de conta os dados referentes ao reconhecimento visual da face da mãe (figura 10). Parece haver, assim, uma nítida alteração das relações observadas, quando comparámos os resultados obtidos por volta do primeiro e do terceiro mês após o parto. Estas duas variáveis que, inicialmente, evidenciavam associações significativas com as escalas das atitudes e sentimentos maternos deixaram, posteriormente, de as demonstrar. 107 1,00 0,60 0,20 -0,20 -0,60 I Reconhece I Não reconhece/não está certa U=733 P= .454 U=739 P=.552 U=690 P= .287 / P=.454 F=.532 U=739 /—a /—TI f—i p=-558 Satisfação com a criança Sentimento de sobrecarga -\ r Medo de perder a criança Tendência depressiva Reconhecimento visual Figura 10. Médias nas sub-escalas das Atitudes e Sentimentos Maternos (3 meses) em função da atribuição aos bebés da capacidade de reconhecerem visualmente a face da mãe (1 mês). Constatou-se, sensivelmente, o mesmo fenómeno quando os resultados desta segunda avaliação foram relacionados com os scores do Inventário de Percepção Neonatal e do Inventário do Grau de Incómodo (quadro 7). Quadro 7. Coeficientes de correlação entre as pontuações da Escala das Atitudes e Sentimentos Maternos (3 meses) e os resultados do Inventário de Percepção Neonatal e do Inventário do Grau de Incómodo (primeiro mês). Percepção Neonatal Grau de Incómodo Atitudes e Sentimentos Maternos Satisfação com a criança .046 -.218 Sentimento de sobrecarga -.124 .384** Medo de perder a criança .173 -.176 Tendência depressiva -.094 .245* * P< .03 **P< .000 108 De facto como se pode apreciar, as medidas da percepção neonatal que se relacionaram com várias das dimensões das Atitudes e Sentimentos Maternos avaliadas no primeiro mês (cf. quadro 5) estiveram longe de evidenciar qualquer valor preditivo relativamente a essas mesmas variáveis observadas uns meses mais tarde. Já no que toca ao grau de incómodo, se é certo que continuaram a verificarse algumas relações, importa notar que os valores dos coeficientes de correlação significativos são agora francamente mais baixos quando comparados com os iniciais. À semelhança do que sucedeu anteriormente, os resultados da segunda administração da Escala das Funções de Apoio não se relacionaram com as medidas da percepção neonatal nem com as do grau de incómodo. No seu conjunto, os resultados que acabámos de mostrar parecem indiciar uma certa descontinuidade ao nível dos processos de organização das atitudes e sentimentos maternos entre o primeiro e o terceiro mês após o parto. A hipótese desta descontinuidade sai ainda mais reforçada quando analisámos a expressão de tais atitudes e sentimentos à luz das memórias das relações na infância. A primeira avaliação mostrou que ambos os tipos de variável não revelaram, praticamente, qualquer associação (cf. quadro 4). Porém, as memórias das relações na infância revelaram, em momento posterior, valor prognóstico em relação às atitudes e sentimentos maternos (quadro 8). O caso mais saliente diz respeito à percepção da aceitação por parte da figura materna. As respondentes que, por volta do primeiro mês de vida reconheceram ser mais aceites por parte de suas próprias mães, reportavam, agora, maiores níveis de satisfação com a criança e de receio de a perder. Essas mesmas inquiridas referiam, concomitantemente, menos sentimentos de sobrecarga e de depressão. Por sua vez, aquelas que indicaram ter sido mais encorajadas para a independência por ambas as figuras parentais, davam, igualmente, conta de menos sentimentos de sobrecarga. A tendência depressiva revelou estar negativamente relacionada com as medidas de encorajamento da independência relativas à mãe. 109 Quadro 8. Coeficientes de correlação entre as sub-escalas da Mother-Father-Peer Scale (primeiro mês) e da Escala de Atitudes e Sentimentos Maternos (terceiro mês). Satisfação com Sentimento Medo perder Tendência criança sobrecarga criança n^nressiv» Mother-Father-Peer Scale Aceitação por parte da mãe .554*** -.521*** .425*** -.433* Aceitação por parte do pai .214 -.304** .115 -.179 Encorajamento da independência (mãe) .208 -.333** .056 -.393* Encorajamento da independência (pai) .066 -.233* .001 -.134 Aceitação activa por parte dos pares .094 -.252* .181 .097 Aceitação passiva por parte dos pares .042 -.315** -.022 -.107 * P< .04 ** P< .007 *** P= .000 Os scores referentes à Escala das Funções de Apoio não foram prognosticados pelas diversas medidas do Mother-Father-Peer Scale. Da mesma forma -e em contraste com o observado na primeira administraçãonão se verificaram relações estatisticamente significativas entre os resultados daquela primeira escala e as pontuações da Graffar. No entanto, conforme o quadro 9 ilustra, o mesmo já não se passou quando consideramos as atitudes e sentimentos maternos. Quadro 9. Coeficientes de correlação entre a Escala das Funções de Apoio (terceiro mês) e as medidas da Escala de Atitudes e Sentimentos Maternos (terceiro mês). ESCALA DE ATITUDES E SENTIMENTOS MATERNOS Satisfação com criança Sentimento sobrecarga Medo perder criança Tendência depressiva -.457*** .282* -.127 .320** * P< .02 ** P< .005 *** P= .000 Efectivamente, pode-se observar que quanto mais as mães expressaram necessidades de suporte e apoio, menos satisfeitas se sentiam com a criança e maiores eram os sentimentos de sobrecarga com as tarefas da maternidade e a ressonância depressiva das mesmas. 110 5.1. Discussão A representação científica acerca das competências sensório-perceptivas do recém-nascido e do bebé pequeno pautou-se, durante várias décadas, pela metáfora da inaptidão cognitiva inicial da criança. De facto, reiterando as teses filosóficas do empirismo inglês, os estudiosos do comportamento infantil aceitaram, como postulado inquestionável, a ideia de que a mente do bebé pequeno seria equiparável a uma tábua rasa na qual a experiência inscreveria os materiais necessários à construção da vida psíquica (Lopes-dos-Santos, 1990). Nessa óptica, William James, psicólogo norte-americano dos finais do século XIX, descrevia o mundo da criança acabada de nascer como uma blooming, buzzing confusion. A ideia desta desorganização foi, igualmente, reafirmada por Spitz (1965) para quem o bebé funcionaria nos primeiros meses de acordo com as características de um estádio anobjectal onde a indiferenciação das categorias do self e do não-self impossibilitariam qualquer tipo de percepção diacrítica. Para Piaget (1936) o desenvolvimento da criança organizar-se ia a partir de uma posição de adualismo à luz qual sujeito e objecto não se distinguiam como poios separados dos movimentos de intencionalidade perceptiva. A investigação que se desenvolveu depois da década de 1970 veio pôr em causa a validade destas concepções. De facto, desde essa altura, um número sempre crescente de dados pôde, inequivocamente, demonstrar que a competência do bebé estava sendo subavaliada. Ao contrário daquilo que se tomava como evidência inquestionável, essas pesquisas vieram mostrar que os sistemas de processamento de informação da criança pequena denotavam uma organização mínima. Sabe-se, assim, hoje que o recém-nascido está apto a receber e percepcionar estímulos, detectar contingências entre o comportamento próprio e certos acontecimentos do meio, reconhecer experiências pessoas e coisas. Os seres humanos nascem dotados de um sistema sensorial que lhes possibilita explorar visualmente o mundo. Esta competência serve de suporte a actividades estruturantes do campo perceptivo que permitem ao bebé identificar formas bi ou tridimensionais nas excitações luminosas que atingem as zonas de projecção visual do cortex estriado (Bower, Broughton & Moore, 1970; Slater & Johnson, 1998). À semelhança do que se passa no adulto, o recém-nascido sente 111 atracção por certas configurações perceptivas. Entre esse padrões, merece destaque particular a gestalt da face humana que é desde o momento do parto preferida a outras formas (Goren, Starty & Wu, 1975; Simion, Valenza & Umiltá, 1998). Da mesma maneira, outros trabalhos documentam que o recém-nascido aprende rapidamente a reconhecer rostos familiares (Carpenter, 1975), nomeadamente, o da mãe (Pascalis, Schonen, Morton Deruelle & Fabre-Grenet, 1995; Schonen, Mancini & Liégeois, 1998). Sob o ponto de vista auditivo, a criança revela, desde muito cedo, uma notável capacidade para discriminar vários contrastes fonéticos da linguagem humana, distinguindo, nomeadamente por volta das quatro semanas, entre as sílabas pa e ba (Eilers & Oller, 1985). Outros estudos evidenciam, curiosamente, que o recém-nascido mostra preferência especial pelos estímulos com características acústicas aos sons da fala humana (e.g., Eisenberg, 1970). A esse propósito, Lecanuet (1996), revendo os dados da literatura, retira as seguintes conclusões: 1Os sons articulados da fala figuram entre os estímulos que exercem mais atracção sobre o recém-nascido; 2A fala produzida pelas vozes femininas é tendencialmente preferida à fala emergente das vozes de timbre masculino; 3A voz materna é, desde muito cedo, mais atractiva do que a voz proveniente de uma outra mulher. Esta preferência pelos sons da voz da mãe conseguiu ser, inclusivamente, observada entre as 33 e as 66 horas de vida no quadro de uma série de estudos experimentais em que os recém-nascidos tinham de sugar, selectivamente, a diferentes ritmos uma chupeta para poderem continuar a ouvir a voz materna (Fifer, 1995). O modo como as capacidades visuo-auditivas do bebé estão funcionalmente organizadas, desempenhará, assim, um papel importante na orientação social das respostas infantis, gerando tropismos que levam a criança a dirigir a atenção para os estímulos provenientes dos parceiros de interacção. Através desses canais de recepção da informação, o adulto poderá, então, actuar no sentido de estabelecer a comunicação e regular o comportamento da criança. A fim de se envolverem mais 112 de competências de interacção que os tornam socialmente atractivos e apelativos (Werner, 1985). Cada vez mais, se tem dado particular atenção ao mundo representacional da mãe, promovendo o estudo das imagens mentais e fantasias maternas na interacção que ela constrói acerca do seu bebé. De facto, este processo representacional determina muito do que acontece na interacção, pois a mãe atribui significados e interpreta o comportamento da criança a partir das percepções e fantasias que elaborou. As representações maternas dependem de factores como a personalidade, o modo como se adapta à situação que está a vivenciar, a imagem que interiorizou da própria mãe, as expectativas que foi edificando durante a vida no contexto familiar e no meio social ao qual pertence. É no desenvolvimento e na articulação dessas representações que se inscreve a transição para a maternidade (Winnicott, 1958; Rubin, 1984; Montagner, 1988). O nascimento de um bebé é um acontecimento especial do ciclo de vida, em que uma mulher se transforma em mãe, podendo este, ser considerado o início de um período de crise uma vez que, se trata de um processo irreversível pois modifica a identidade, os papéis e funções da mulher (Colman & Colman, 1994; Tobin, 1999). Esse momento, pode ser visto como um momento óptimo para o desenvolvimento pessoal, mas também, pode ser circunstância de grande vulnerabilidade. Após o parto inicia-se a adaptação à maternidade que remete para aspectos como: satisfação pessoal, equilíbrio emocional, desempenho de novas tarefas, funcionamento familiar e alteração do estilo de vida. Esta adaptação à maternidade traduz-se na capacidade de cuidar e tratar da criança contribuindo para o seu desenvolvimento harmonioso. Os factores que poderemos apontar nesta fase são, não só o importante papel que as representações maternas assumem, mas também os factores ligados à própria mulher, ao bebé e ás características do meio envolvente (Bali, 1994). Os aspectos associados à mulher mais relevantes são o decurso obstétrico da gravidez e do parto, paridade, idade, tipo de relacionamento passado com a mãe, história psiquiátrica, antecedentes familiares, comportamento sócio-emocional, e acontecimentos que antecederam a gravidez. Dos aspectos do bebé podemos realçar, o peso à nascença, a saúde física e o temperamento. 119 Ligados ao meio podemos destacar, o relacionamento conjugal, apoio e suporte social. Podemos afirmar que o desenvolvimento e crescimento da criança não tem tanto a ver com as suas características biológicas e individuais mas com o sistema das inter-relações mantidas com a figura materna. Convém, por isso, chamar a atenção para alguns riscos inerentes a qualquer intervenção no período neonatal (pós-parto) e precauções a ter em conta. Não se deve pensar o bebé como assunto de especialistas. Estes não substituem a mãe no conhecimento íntimo que ela possui do seu bebé. Cabe aos técnicos de diferentes áreas como a saúde e a educação, a responsabilidade de promover junto dos pais e/ou das famílias, atitudes parentais mais assertivas ajudando-os a encontrar as respostas mais adequadas a qualquer dificuldade surgida na relação ou interacção entre mãe-criança, de modo a que possam estabelecer comportamentos que possibilitem uma relação mais harmoniosa. Justifica-se assim, continuar a proceder à realização desta investigação e de outras que permitam compreender o mundo representacional das mães, que tanto influencia e condiciona as relações com o bebé, por forma, a desenhar programas de intervenção que visem promover quer o comportamento parental quer o desenvolvimento dos seus filhos. É preciso olhar a interacção mãe-bebé, compreendendo as suas trajectórias de desenvolvimento, nos desvios que eventualmente possam surgir, realçando as transformações comportamentais e estruturais que vão ocorrendo entre ambos. 120 Referências Bibliográficas 121 Abreu, M. R. T. (1994). O Papel da Segurança Social na Intervenção Precoce. In Actas do III Encontro Nacional de Intervenção Precoce, 183-189 - A Família na Intervenção Precoce - Da Filosofia à Acção. Coimbra: Edições Edilibir Gráfica; Fundação Calouste Gulbenkian, 1995. Affeck, G. & Tennen, H. (1993). Cognitive adaptation to adversity: insights from parents of medically fragile infants. In A. 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