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A construção duma política pública no campo das drogas: normalização sanitária, pacificação territorial e psicologia de baixo limiar = The construction of public policy in the field of drugs: Health standards, territorial pacification and low-threshold psychology

Simão Mata,José Luís Fernandes

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A construção duma política pública no campo das drogas: normalização sanitária, pacificação territorial e psicologia de baixo limiar The construction of public policy in the field of drugs: Health standards, territorial pacification and low-threshold psychology. Simão Mata Luís Fernandes Universidade do Porto Autor Biografias: Simão Mata Psicólogo na Norte Vida – Associação para a Promoção da Saúde. Investigador externo do Centro de Ciências do Comportamento Desviante (CCCD) da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCEUP). Estudante de doutoramento da FPCEUP. Luís Fernandes Prof. Associado da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCEUP). Diretor do Centro de Ciências do Comportamento Desviante (CCCD) da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCEUP). Citar : Mata, S. Fernandes, L. (2016). A construção duma política pública no campo das drogas: normalização sanitária, pacificação territorial e psicologia de baixo limiar. Global Journal of Community Psychology Practice, 7 (1S), 1-25. Retrieved Day/Month/Year, from (http://www.gjcpp.org) Global Journal of Community Psychology Practice Volume 7, Issue 1S February 2016 ! Global Journal of Community Psychology Practice, http://www.gjcpp.org/ Page 2 ! A"construção"duma"política"pública"no"campo"das"drogas:"normalização"sanitária," pacificação"territorial"e"psicologia"de"baixo"limiar" ! Resumo" O!presente!artigo!centra-se!sobre!a!recente!construção!duma!política!pública!em!Portugal! no!campo!das!drogas,!cujos!eixos!fundamentais!são!a!redução!de!riscos!e!minimização!de! danos!(RRMD)!e!a!descriminalização!do!consumo!e!da!posse!para!consumo!de!todas!as! drogas!ilícitas.!Daremos!atenção!ao!primeiro!dos!eixos,!dividindo!a!nossa!análise!em!dois! momentos:! 1.!! A!emergência!e!consolidação!das!medidas!e!estruturas!de!RRMD.!Relacionamo-las! com!duas!crises:!a!crise!sanitária!aberta!pela!rápida!expansão!do!VIH,!das!hepatites!B!e!C!e! da!tuberculose!em!consumidores!problemáticos;!a!crise!das!periferias,!que!trás!para!o! debate!público!a!figura!do!“bairro!social!problemático”,!vulgarizado!na!linguagem! mediática!como!“bairro!das!drogas”!e!representado!como!locus&de&insegurança.!A!RRMD! teria!assim!como!alvo!prioritário!concentrações!de!consumidores!problemáticos!situadas! em!comunidades!urbanas!ditas!em!exclusão,!interpretando!no!terreno!uma!política! alternativa!ao!modelo!médico-psicológico!da!droga-doença!e!das!terapias!centradas!na! abstinência.!Estavam!assim!criadas!as!condições!de!possibilidade!duma!intervenção! territorializada,!proximal!e!de!vocação!comunitária.!! 2.! Num!segundo!momento!ilustraremos!a!intervenção!em!RRMD!através!do!trabalho! levado!a!cabo!por!uma!equipa!de!rua!em!territórios!psicotrópicos!da!zona!ocidental!do! Porto.!Enquanto!membro!da!equipa,!um!de!nós!elaborou!um!diário!de!campo!entre!2009!e! 2013,!caracterizando!os!atores!e!territórios,!bem!como!as!principais!áreas,!formas!e! objetivos!da!intervenção.!Dedicaremos!atenção!especial!ao!papel!do!psicólogo!numa!equipa! multidisciplinar!e!apresentam-se!dois!resultados!da!nossa!experiência!interventiva:!1)! status!dos!atores!e!identidade!de!lugar!nos!territórios!psicotrópicos;!2)!aquilo!que! designaremos!por!psicologia!de!baixo!limiar.! ! ! Global Journal of Community Psychology Practice Volume 7, Issue 1S February 2016 ! Global Journal of Community Psychology Practice, http://www.gjcpp.org/ Page 3 ! The"construction"of"public"policy"in"the"field"of"drugs:"Health"standards,"territorial" pacification"and"low-threshold"psychology." Abstract" This!paper!focuses!on!the!recent!elaboration!of!a!public!policy!on!drugs!in!Portugal,!the! main!axes!of!which!are!risk!and!harm!reduction!(RHR),!together!with!the!decriminalization! of!use!and!possession!for!use!of!all!illicit!drugs.!We!will!concentrate!on!risk!and!harm! reduction,!organizing!our!analysis!in!two!stages:! 1.!!The!emergence!and!consolidation!of!RHR!policies!and!structures.!We!articulate! these!processes!with!two!crises:!the!public!health!crisis!brought!about!by!the!rapid! expansion!of!HIV,!B!and!C!hepatitis!and!tuberculosis!in!problematic!drug!users;!the!crisis!of! urban!peripheries,!which!brings!the!"problematic!council!estate"!or!the!"drugs!estate"!to! the!public!debate,!where!it!is!portrayed!as!an!insecure!arena.!RHR!would!thus!have!clusters! of!problematic!drug!users!located!in!excluded!urban!areas!as!its!main!target.!This!is!an! alternative!to!the!medical-psychological!model!based!on!understanding!drug!use!as!a! disease!and!on!abstinence-based!therapies.!This!created!the!condition!for!a!territorialized,! proximal!intervention!of!communitarian!base;! 2.!!!!!On!a!second!stage,!we!will!illustrate!the!RHR!intervention!through!work!carried! out!by!an!outreach!team!in!psychotropic!territories!in!the!west!part!of!Porto,!Portugal.!As!a! team!member,!one!of!the!authors!wrote!a!field!diary!between!2009!and!2013,!describing! actors,!territories,!and!the!main!areas,!forms!and!objectives!of!intervention.!We!will!pay! particular!attention!to!the!role!of!the!psychologist!in!a!multidisciplinary!team.!Two!results! are!presented!based!on!our!intervention!experience:!1)!actors'!status!and!place!identity!in! psychotropic!territories;!2)!what!we!chose!to!call!low-threshold!psychology.! ! " " Global Journal of Community Psychology Practice Volume 7, Issue 1S February 2016 ! Global Journal of Community Psychology Practice, http://www.gjcpp.org/ Page 4 ! Introdução! A!forma!como!Portugal!tem!vindo!a! construir!uma!política!pública!no! chamado!“problema!da!droga”!desde!que,! em!2001,!criou!suporte!legislativo!para! mudanças!importantes!na!forma!como! respondia!a!tal!problema!tem!sido!alvo!de! atenção!internacional.!A!comunicação! social!de!vários!países!tem!reportado! aquilo!que!designa!como!“o!modelo! português”,!e!dirigentes!do!organismo! público!responsável!pela!implementação! duma!estratégia!nacional!no!campo!das! substâncias!psicoativas!–!o!ex-Instituto!da! Droga!e!da!Toxicodependência,!atual! Serviço!de!Intervenção!nos! Comportamentos!Adictivos!e! Dependências!–!têm!sido!convidados!a! expor!tal!“modelo”!em!vários!parlamentos! nacionais!e!outras!instâncias!políticas.! Não!é!objetivo!deste!artigo!expor!o! “modelo!português”i!ou!mesmo!saber!se!é! realmente!algo!tão!diferenciado!doutras! práticas!que!mereça!tal!epíteto,!mas! refletir!sobre!as!condições!que! conduziram!a!mudanças!importantes!na! gestão!do!“problema!da!droga”,! nomeadamente!na!expressão!territorial!e! comunitária!que!passou!a!ser!parte! importante!desta!gestão.!Assim,!depois! duma!primeira!parte!em!que! analisaremos!as!condições!de! possibilidade!de!novas!práticas! interventivas!em!resposta!a!uma!crise! sanitária!e!socioterritorial,!ilustraremos! uma!prática!de!redução!de!riscos!e! minimização!de!danos!a!partir!do! exemplo!concreto!duma!equipa!de!rua! que!intervém!em!territórios!psicotrópicos! da!zona!ocidental!do!Portoii.! O!nosso!trabalho!procurou!uma! caracterização!do!fenómeno!droga!em! alguns!bairros!sociais!da!zona!ocidental! do!Porto:!os!bairros!do!Aleixo,!Pinheiro! Torres,!Viso!e!Ramalde.!As!nossas! questões!de!investigação!podem!resumirse!da!seguinte!forma:!Como!se!organizam! atualmente!as!práticas!de!venda!e! consumo!de!drogas!nesses!territórios?! Como!se!operacionalizam!algumas! estratégias!de!intervenção!comunitária! realizadas!junto!de!consumidores!de! drogas!nestes!locais?! " 1."EMERGÊNCIA"E"ESTABILIZAÇÃO" DUMA"POLÍTICA"SOCIO-SANITÁRIA:"A" REDUÇÃO"DE"RISCOS"E"MINIMIZAÇÃO" DE"DANOS" 1.1& A&“crise&das&periferias”&e&as&novas& respostas&de&intervenção&social&e& comunitária& A!evolução!em!direção!a!uma!política! pública!no!campo!das!drogas!que!tem!em! Portugal!como!máximos!expoentes!a! descriminalização!do!consumo!de!todas! as!substâncias!psicoativas!ilegais! (decreto-lei!183!de!21!de!junho!de!2001)! e!os!programas!e!estruturas!de!redução! de!riscos!e!minimização!de!danos! (consagrados!legalmente!no!mesmo! decreto-lei)!relaciona-se!com!um!contexto! de!crise!cuja!expressão!mostrou!a! necessidade!urgente!de!mudanças.!Dita! assim,!a!frase!soa!a!refrão:!a!palavra! “crise”!tornou-se!endémica!e,!como!toda!a! palavra!insistentemente!repetida,!perde! precisão!e,!enquanto!explicação!dum!dado! estado!da!realidade,!torna-se! autoevidente!e!encerrada!em!si!própria:! por!que!estamos!como!estamos?!Por! causa!da!crise.!E!por!que!estamos!em! crise?!Esta!crise!resulta!do!agravamento! das!anteriores,!que!resultam!das! anteriores!–!a!crise!seria!pois!um!traço! estrutural!das!sociedades!capitalistasiii.! Assente!que!está!a!desconfiança!em!torno! da!palavra,!digamos!assim!mesmo!que!é! Global Journal of Community Psychology Practice Volume 7, Issue 1S February 2016 ! Global Journal of Community Psychology Practice, http://www.gjcpp.org/ Page 5 ! uma!dupla!crise!que!nos!ajuda!a! compreender!o!desenvolvimento!das! respostas!interventivas!que!hoje! englobamos!na!expressão!redução&de& riscos&e&minimização&de&danos&(RRMD).!A! primeira!delas!é!sanitária!e!deve-se!ao! grande!aumento!de!doenças!infeciosas! entre!os!consumidores!de!drogas,! sobretudo!os!que!utilizavam!a!via! endovenosa!(VIH,!hepatites,!tuberculose);! a!segunda!é!conhecida!dos!especialistas! da!questão!urbana!e!da!sociologia!da! exclusão!social!como!“crise!das! periferias”iv.!Por!razões!que!não!serão! tratadas!neste!artigo,!mas!que! investigámos!ao!longo!das!décadas!de!90! e!2000!(Fernandes,!1998;!Fernandes,! 2002;!Fernandes!&!Pinto,!2004;! Fernandes!&!Ramos,!2010),!as!relações! dos!indivíduos!com!drogas!ilícitas!que!se! revelaram!mais!destrutivas,!tanto!para!a! sua!saúde!física!e!mental!como!para!os! contextos!envolventes,!aconteceram!e! acontecem!ainda!em!zonas!urbanas!ou! periurbanas!de!periferia!desqualificada! (nomeadamente!os!bairros!sociais! “problemáticos”!ou!“críticos”)!e!de! espaços!intersticiais!de!concentração!de! pobreza.! !É!assim!natural!que!a!grande!maioria!dos! projetos!e!programas!de!RRMD!tenha!sido! implementada!junto!de!indivíduos!ou! grupos!em!condições!altamente!precárias! de!vida.!Instalam-se!preferencialmente! junto!do!“suffering!body!of!the!city”,!para! tomar!a!expressão!que!Le!Marcis!(2004)! usa!a!propósito!das!periferias!de! Joanesburgo.!Analisando!o!crescimento! exponencial!do!VIH!na!população!da! cidade!no!período!de!1990!a!2000,!o! autor!fala!numa!distribuição!urbana! desigual!do!vírus,!sendo!o!centro!urbano! claramente!menos!afetado!relativamente! às!periferias.! !O!“Suffering!body!of!the!city”!reveste-se! dum!duplo!significado:!por!um!lado,! representa!o!caráter!de!distribuição! desigual!das!doenças!no!espaço!urbano,! particularmente!do!VIH,!estando!portanto! as!periferias!em!sofrimento!efetivo;!por! outro!lado,!vem!salientar!a!pouca! capacidade!desta!população!em!recorrer! aos!serviços!de!saúde!e!à!rede! assistencial,!estando!por!isso!em! sofrimento!resultante!dessa!limitação.! Rubens!Adorno!(2011)!e!Taniele!Rui! (2012)!chegam!a!resultados!muito! semelhantes!quanto!a!utilizadores!de! drogas!da!zona!conhecida!por!Cracolândia! em!São!Paulo,!propondo!a!autora!a! expressão!“corpos!abjetos”!para!indicar!o! modo!como!os!dependentes!de!crack!mais! estigmatizados!carregam!na!sua! aparência!corporal!a!marca!da!adicção,! das!doenças!infeciosas!e!da!vida!de!rua!e! o!modo!como!essa!corporalidade!“abjeta”! é!o!elemento!mais!forte!da!estigmatização! de!que!são!vítimas.!Escrevíamos!também! nós!a!propósito!do!Porto!que!“o!fenómeno! droga!participa!desse!cenário!de!crise! urbana,!cruzando!e!sobrepondo!na!sua! trajetória!as!trajetórias!dos!outros! fenómenos!problemáticos:!sem-abrigo,! prostituição!de!rua,!imigração! clandestina.!Este!cenário!de!crise!da!urbe! convocou!a!resposta!rápida!da! intervenção!social,!que!reagiu!reativando! a!sua!vocação!de!terreno,!exercida!agora! sobre!situações!de!emergência!social! caracterizadas!pelo!desabrigo”! (Fernandes,!Pinto!&!Oliveira,!2006,!p.!80)! Um!dos!temas!mediáticos!–!mas!também! sociológicos!e!criminológicos!–!acerca!das! metrópoles!é!o!da!rua!como!palco!da! proliferação!de!novas!marginalidades! (errância!associada!à!cada!vez!maior! presença!de!migrantes!clandestinos,!de! pessoas!sem!domicílio!fixo,!de!pessoas!a! Global Journal of Community Psychology Practice Volume 7, Issue 1S February 2016 ! Global Journal of Community Psychology Practice, http://www.gjcpp.org/ Page 6 ! viver!na!rua)!e!desvios!(grupalidades! juvenis!desviantes,!toxicodependentes!de! rua,!com!associação!a!pequena! criminalidade!e!ao!crescimento!do! sentimento!de!insegurança).! !Perante!a!pouca!eficácia!das!respostas! institucionais!convencionais!confrontadas! com!estes!novos!fenómenos,!a!rua!começa! também,!sobretudo!a!partir!dos!anos!90,!a! ser!olhada!como!palco!de!intervenção!-! aquilo!a!que!genericamente!tem!vindo!a! chamar-se!intervenção!social!de!primeira! linha!ou!intervenção!de!proximidade,!de! que!são!exemplo!as!equipas!de!rua!a!atuar! junto!de!trabalhadores!e!trabalhadoras! sexuais!e/ou!de!toxicodependentes,!os! centros!de!abrigo/de!acolhimento!e!os! drop&ins!de!baixo!limiar!de!exigência.! !Ao!longo!da!última!década!do!século!XX! vimos!assim!surgir!em!Portugal,! sobretudo!nas!suas!duas!metrópoles,! agências!de!desenvolvimento!local! vocacionadas!para!respostas!a!variadas! situações!de!risco!social!e!psicológico.! Impulsionadas!por!medidas!da!Europa! comunitária!que!viabilizavam! financeiramente!a!instalação!de! estruturas!e!a!formação!de!equipas! multidisciplinares,!fizeram!convergir!nas! suas!intervenções!as!práticas!do!serviço! social,!da!psicologia!comunitária!e!da! saúde!pública.!É!também!nestas!agências! de!desenvolvimento!local!que!surgirão!os! primeiros!projetos!de!RRMD,!ainda!antes! da!existência!de!enquadramento!legal!que! salvaguardasse!medidas!socio-sanitárias! na!altura!tão!polémicas!como!a!troca!de! seringas,!prática!interventiva!que! desenvolveremos!amplamente!na! segunda!parte!deste!artigo.!!! ! ! 1.2.&RRMD&e&perturbação&da&estabilidade& normativa& A!emergência!da!RRMD!ao!longo!dos!anos! 90!pôs!em!causa!a!estabilidade!normativa! do!dispositivo!de!“combate!à!droga”.!Tal! estabilidade!assentava!nas!ordens! terapêutica!e!jurídica,!laboriosamente! construídas!ao!longo!de!todo!o!século!XX! (Agra,!2009;!Romani,!1999;!Escohotado,! 1989),!e!a!ascensão!das!políticas!de!RRMD! vem!introduzir!desordem!neste!status& quo,&que!era!marcado!pela!inoperância:! consumos!a!aumentar,!recaídas! sucessivas!nos!programas!terapêuticos,! consumidores!problemáticos!longe!das! estruturas!que!lhes!eram!destinadas,! aumento!do!controle!policial!e!da! população!carcerária!sem!nenhum!reflexo! visível!na!redução!da!oferta!e!da!procura,! bem!demonstrado!pelo!crescimento! constante!dos!consumidores!e!dos! mercados!psicotrópicos.!! A!troca!de!seringas!é!bem!o!símbolo!da! colocação!em!causa!duma!ordem! terapêutica,!em!que!os!programas!livres! de!drogas!acreditavam!que!as! psicoterapias!convencionais!podiam! resgatar!o!toxicodependente!à!sua!doença! e!conduzi-lo!à!cura,!sem!nunca!porem!em! causa!a!sua!ineficácia,!sem!nunca! refletirem!sobre!o!seu!fracasso,!que!não! se!media!apenas!pelas!recaídas!mas!pela! quantidade!de!indivíduos!que!não! acediam!a!estas!estruturas.! A!perturbação!da!estabilidade!dava-se,! desde!logo,!ao!nível!da!linguagem:!tolerar! em!vez!de!perseguir,!descriminalizar!em! vez!de!punir,!olhar!o!utilizador!como! responsável!por!si!e!pelos!seus!atos!em! vez!de!o!remeter!para!a!posição!passiva! do!doente!à!mercê!da!sua!patologia,!falar! em!“utilizador”!em!vez!de! “toxicodependente”.!E!progressivamente! afirmava-se!no!terreno!da!política!da! Global Journal of Community Psychology Practice Volume 7, Issue 1S February 2016 ! Global Journal of Community Psychology Practice, http://www.gjcpp.org/ Page 7 ! existência:!o!direito!ao!consumo!em!vez! da!obrigatoriedade!da!abstinência,!o! direito!à!participação!nas!decisões!que! implicassem!a!vida!dos!utilizadores,!a! argumentação!que!mostrava!como!uma! boa!parte!dos!riscos!para!o!indivíduo!e! para!a!sociedade!imputados!ao!consumo! de!drogas!resultavam!das!próprias! políticas!proibicionistas!(Karan,!2005;! Labrousse,!2004;!Szazs,!1992).! No!final!da!década!de!90!iniciavam-se!os! primeiros!programas!de!substituição! opiácea!em!meio!prisional!(Barros,!Lucas! &!Santos,!2010).!E!a!metadona!nas!prisões! foi!bem!o!símbolo!da!colocação!em!causa! duma!ordem!jurídico-penal!que,!desde!o! início!dos!anos!80,!traduzia!para!o!nosso! ordenamento!jurídico!e!para!as!nossas! práticas!policiais!e!carcerárias!a!war&on& drugsv.&No!início!do!milénio,!tal!como!já! referimos!atrás,!foram!consagradas! juridicamente!as!principais!medidas!de! RRMD,!criadas!as!comissões!de!dissuasão! da!toxicodependência!e!descriminalizado! o!consumo,!originando!uma!grande! curiosidade!da!comunidade!internacional! em!relação!ao!que!começou!a!ser! conhecido!como!“o!modelo!português”! (Domostawski,!2011;!Greenwald,!2009).! Em!síntese,!a!progressiva!afirmação!das! políticas!de!RRMD!teve!um!importante! contributo!para!a!reorganização!do! dispositivo!da!droga.!Para!além!da!sua! expansão!de!modo!a!assegurar!a! cobertura!de!todo!o!território!nacional,! este!passou!a!incluir!nas!suas!áreas!de! missão!e!nos!seus!planos!de!ação!a!RRMD,! reconhecendo!a!insuficiência!das! respostas!repressiva!e!de!tratamento! concebida!unicamente!no!modelo!medicopsicológico.!Mas!sobretudo!criou!espaço! para!a!intervenção!de!proximidade,!para!a! ligação!das!práticas!interventivas!ao! território,!para!a!leitura!contextual!e! comunitária!dum!problema!que!até!aí!era! visto!como!resultando!essencialmente!do! poder!do!químico!sobre!o!indivíduo!e!das! características!intrapsíquicas!deste.! Mas!é!preciso!reconhecer!que,!em! Portugal,!esta!nova!política!de!saúde,! social!e!de!afirmação!dos!direitos!dos! utilizadores!surge!praticamente!só!a! partir!do!interior!do!dispositivo!de! intervenção,!não!tendo!como! protagonistas!os!próprios!utilizadores!de! drogas,!como!aconteceu!na!Holanda!ou!na! Espanha.!De!resto,!não!existia!ainda! nenhuma!associação!de!utilizadores! constituída!em!Portugal!que!pudesse!ter! desempenhado!esse!papel.vi!Dito!doutra! maneira,!a!alavanca!inicial!não!foi!a! proatividade!-!os!utilizadores!a!quererem! tomar!conta!do!seu!próprio!destino,!a! assunção!sociopolítica!das!opções! pessoais,!do!direito!à!gestão!do!corpo!e!do! prazer!-!mas!a!resposta!à!crise:!da! ineficácia!do!modelo!da!abstinência! assente!nas!terapias!livres!de!drogas,!da! prisão!como!estratégia!de!“combate!à! droga”,!da!periferia!urbana!degradada,!do! aumento!do!VIH/SIDA,!da!hepatite!C!e!da! tuberculose.! A!RRMD!não!está!isenta!de!ambiguidades! e!contradições:!é!de!facto!um!novo!modo! de!olhar!os!indivíduos!que!consomem! drogas!e!uma!nova!maneira!de!lidar!com!a! complexidade!das!adicções,!ou!é!uma! forma!de!controle!de!grupos!e!territórios! vistos!como!problemáticos,!uma!espécie! de!pacificador!territorial!que!desvitaliza!o! poder!de!denúncia!que!eles!poderiam!ter! sobre!a!pobreza!e!a!exclusão!(Ilundain,! 2004)?!Trata-se!duma!gestão!do!conflito! social!que!não!visa!em!primeira!instância! melhorar!a!situação!dos!afetados!mas! conter!a!sua!expressão!na!urbe! mantendo-os!num!baixo!potencial!de! Global Journal of Community Psychology Practice Volume 7, Issue 1S February 2016 ! Global Journal of Community Psychology Practice, http://www.gjcpp.org/ Page 8 ! conflitualidade!(Romani,!Terrile!&!Zino,! 2003)?!! Tissot!e!Poupoeau!(2005)!alertam!para!o! risco!de!a!intervenção!de!proximidade! constituir!uma!panaceia!que!apaga!as! desigualdades!estruturais!no!território.! Puzzetti!e!Brazzabeni!(2011)!são!ainda! mais!contundentes!e!falam!na! psicologização!do!social,!da!assistência! das!populações!de!segmentos! marginalizados!com!a!retórica!em!torno! do!“apoio”!e!do!“empoderamento”!–! porque!a!compaixão!não!tem!inimigos...! (inspiram-se!na!expressão!“ethos!de! compaixão”!de!Didier!Fassin!para! caracterizar!certo!tipo!de!intervenções! sociais!e!comunitárias).!! ! 2."O"CONSULTÓRIO"DE"RUA"E"A" PSICOLOGIA"DE"BAIXO"LIMIAR" 2.1& Breves¬as&metodológicas& Ilustraremos,!nesta!segunda!parte!do! nosso!exercício,!o!trabalho!de!RRMD! levado!a!cabo!por!uma!equipa!de!rua!que! faz!intervenção!em!alguns!territórios! psicotrópicos!da!zona!ocidental!do!Porto:! Bairro!do!Aleixo,!Pinheiro!Torres,!Viso!e! Ramalde.!Esta!equipa!é!constituída!por! uma!Assistente!Social!(também! coordenadora!técnica!da!equipa),!um! educador!de!pares,!um!técnico! psicossocial,!dois!enfermeiros!e,!depois!da! nossa!saída!em!dezembro!de!2013,!por! uma!psicólogavii.A!figura!do!educador!de! pares!representa!uma!novidade!trazida! pela!RRMD!para!o!campo!da!intervenção! nas!drogas,!pelo!que!convém!esclarecer!o! seu!papel.!De!acordo!com!Broadhead,! Heckathorn,!Weakliem,!Anthony,!Madray,! Mills!e!Hughes!(1998,!p.!43)!um!educador! de!pares!no!contexto!da!RRMD!pode!ser! definido!como:!“a!small!number!of! community!members,!usually!ex-drug! users!or!injectors!or!people!with!street! credentials,!are!hired!to!contact!and!work! with!drug-using!members!of!their!own! community!as!clients”.!Quanto!ao!técnico! psicossocial,!é!um!professional!com! formação!não!universitária!e!que!tem! funções!de!coadjuvação!dos!outros! profissionais.! O!principal!objetivo!desta!equipa!é!o!de! atenuar!ou!reduzir!os!riscos!e!danos!que! resultam!do!consumo!de!drogas!por!parte! dos!utilizadores!que!recorrem!a!esses! territórios!psicotrópicos!quer!para! comprar!quer!para!consumir!as! substâncias!psicoativas.!Essa!intervenção! tem!como!grande!foco!os!utilizadores!de! heroína!e!de!cocaína,!uma!vez!que!estas! duas!drogas!possuem!um!maior! protagonismo!nos!territórios! considerados,!sejam!nas!práticas!que!se! relacionam!com!a!sua!venda!sejam!nas! práticas!que!se!relacionam!com!o!seu! consumo.!! Um!de!nós,!enquanto!membro!dessa! equipa,!realizou,!entre!Outubro!de!2009!e! Dezembro!de!2013,!um!diário!de!campo! que!funcionou!como!uma!âncora!técnica!e! reflexiva!para!a!intervençãoviii.!Os!dados! foram!recolhidos!através!de!técnicas!de! observação!direta,!quer!na!modalidade! mais!participada!quer!na!mais! distanciada,!dos!atores!com!que!íamos! contactando!no!decurso!do!nosso! trabalho!de!redutores!de!danos.! Estivemos!no!terreno,!para!além!do!papel! de!interventores,!inspirados!por!uma! postura!etnográfica!no!modo!como! olhávamos!e!fixávamos!no!diário!de! campo!o!contexto!de!que!eramos!também! elemento!ativo.!Temos!verificado!essa! postura!etnográfica!noutros!trabalhos!que! caracterizaram!a!expressão!urbana!e!os! atores!sociais!do!fenómeno!droga!a!partir! destes!dispositivos!móveis!(e.g.!Rui,!2012;! Global Journal of Community Psychology Practice Volume 7, Issue 1S February 2016 ! Global Journal of Community Psychology Practice, http://www.gjcpp.org/ Page 9 ! Gomes!&!Adorno,!2011;!Raupp!&!Adorno,! 2010;!Oliveira,!2009).!Os!registos!de! terreno!foram!recolhidos!durante!o!giro! da!equipa!de!rua!pelos!territórios!e,! posteriormente,!organizados!e!inseridos! no!nosso!diário!de!campo.!Numa!fase! posterior,!quando!o!diário!era!já!uma! longa!narrativa!(não!falamos!no!seu!fim,! pois!é!um!instrumento!em!aberto,! voltando-se!a!ele!sempre!que!surja! oportunidade!de!regressar!ao!terreno),! procedemos!à!identificação!dos!principais! conteúdos!que!emergiam!da!sua!leitura! sistemática.!Constituímos!assim!temas! estruturantes!da!narrativa!e!sobre!cada! um!deles!produzimos!uma!síntese.!Dito! doutro!modo,!se!o!texto!do!diário! constituía!uma!escrita!de!primeira!ordem,! a!produção!dum!texto-síntese!a!partir!dos! temas!estruturantes!constituía!um!texto! de!segunda!ordem!–!o!equivalente!no! método!etnográfico!aos!resultados!nas! investigações!mais!estandardizadas.!É! justamente!com!alguns!destes! “resultados”!que!elaboraremos!as! próximas!secções.! 2.2& Consultório&de&rua&nos&territórios& psicotrópicos:&o&caso&do&Rotas&com&Vida& A!análise!do!nosso!diário!de!campo!bem! como!a!nossa!própria!experiência! interventiva!na!equipa!de!rua!permitenos!constatar!que!a!intervenção!realizada! se!organiza!em!dois!grandes!eixos.!Por!um! lado,!realiza-se!uma!intervenção!direta! com!os!atores!sociais!ao!nível!dos! territórios!referidos!e,!por!outro!lado,!um! trabalho!de!acompanhamento!de!alguns! utilizadores!às!diferentes!estruturas!da! comunidade!com!quem!a!equipa!de!rua! tem!estabelecidos!protolocos:!hospitais! (em!particular!o!Hospital!Santo!António!e! Hospital!Joaquim!Urbano),!equipas!de! tratamento!para!as!toxicodependências,! laboratórios!de!análises!clínicas,!centros! de!saúde,!loja!do!cidadão!e!centro!de! diagnóstico!pneumonológico!do!Porto! (CDP!–!Porto).! Estes!dois!eixos!interventivos! apresentam-se!como!complementares! durante!o!trabalho!da!equipa!de!rua!pois! constata-se!que!os!acompanhamentos! realizados!às!diferentes!estruturas!da! comunidade!têm!como!base!uma! constante!monitorização!e!avaliação!das! necessidades!dos!atores!com!que! contactamos!durante!o!trabalho!de! proximidade!ao!nível!dos!territórios.!Para! este!trabalho!procura-se!o!envolvimento! ativo!dos!utilizadores!de!drogas!no! desenho!e!na!intervenção.!A!realização!de! Focus&Groups!com!alguns!atores!da! comunidade!permitiu!que!os!mesmos!se! pronunciassem!acerca!da!intervenção!que! estava!a!ser!realizada,!contribuindo! simultaneamente!para!a!sua!emancipação! e!optimização!das!estratégias! interventivas.!Por!outro!lado,!a! permanência!diária!dos!técnicos!nos! territórios!onde!os!utilizadores! protagonizam!ação!coloca-os!no!estatuto! de!atores!sociais!e!não!no!de!“doentes”,! “pacientes”,!ou!“toxicodependentes”.!A! não!exigência!da!abstinência!de!drogas! como!critério!terapêutico!inicial! funcionou!também!enquanto!estratégia! de!empoderamento!levada!a!cabo!pela! equipa,!devolvendo!ao!sujeito!a! responsabilidade!pelo!seu!regime!de! utilização!de!drogas.!Esta!postura! interventiva!assente!no!empoderamento! dos!consumidores!de!drogas!com!quem! trabalhamos!situa-nos!ao!nível!de!um!dos! princípios!orientadores!da!RRMD! enquanto!prática!de!intervenção! comunitária.!Segundo!Southwell!(2010,!p.! 103):!“People!who!use!drugs!need!to! become!routine!partners!in!harm! reduction,!supporting!the!identification,! Global Journal of Community Psychology Practice Volume 7, Issue 1S February 2016 ! Global Journal of Community Psychology Practice, http://www.gjcpp.org/ Page 16 ! drogas.!Essa!mediação!revelou-se! particularmente!importante!nos!sujeitos! que!permanecem!com!um!maior! afastamento!da!rede!de!apoio.! Escrevíamos!a!dado!momento!no!diário! de!campo!que!os!acompanhamentos!às! estruturas!existentes!na!comunidade! procuram!colmatar!o!hiato!existente!entre! a!população-alvo!e!essas!respostas.!! Os!acompanhamentos!dos!utilizadores!às! estruturas!implicavam!momentos!de! espera!até!ao!atendimento.!A!sala!de! espera!constituía-se!como!um!setting&que! possibilitava!o!começo!da!escuta! terapêutica.!Vejamos!o!seguinte!excerto! do!diário!que!dá!conta!disso!mesmo:!! Chegamos!ao!CDP!na!Rua!da! Constituição!e!o!PV!continuava! impaciente.!Vi!que!o!NS,!outro! utilizador!de!drogas!que!foi! connosco,!permanecia!muito! calmo,!sentado!numa!cadeira!da! sala!de!espera!do!CDP,!afastado!de! nós!e!com!um!livro!de!sudoku.! Sentei-me!ao!lado!dele.!Pergunteilhe!se!ele!gosta!de!sudoku!e!ele! disse-me!que!sim,!que!enquanto! joga!é!da!forma!que!mantêm!a! cabeça!ocupada!e!que!isso!lhe! permite!não!andar!a!pensar!em! coisas!que!não!deve,!nos! problemas!dele.!Falou-me!de! alguns!dados!da!sua!história!de! vida.!Referiu-me!que!tem!24!anos,! faz!anos!no!próximo!domingo!(dia! 21/02).!É!natural!da!Ilha!Terceira! dos!Açores.!Perguntei-lhe!se!tinha! família!cá!e!ele!disse-me!que!sim,! que!parte!da!família!está!em!Vila! Nova!de!Gaia!(da!parte!do!pai),!e! que!outra!parte!da!família!(da! parte!da!mãe)!está!nos!Açores.!“Eu! fiz!muita!coisa!torta!doutor,!tive! oportunidades!e!deixei-as!escapar”! disse-me!ele.!(Excerto!de!diário!de! campo,!dia!19!de!Fevereiro!de! 2010)! A!esta!escuta!exercida!no!espaço!da!sala! de!espera!chamamos,!a!dado!momento!do! nosso!diário!de!campo,!como!a!psicologia& de&sala&de&espera.!Juntamente!com!a! psicologia&de&baixo&limiar!de!que! falaremos!adiante,!constitui-se!como!um! dos!dois!elementos-chave!daquilo!que! designamos!num!primeiro!momento! como!psicologia&de&rua!–!Consultório&de& Rua!a!partir!de!agora,!adotando!a! expressão!que!tem!vindo!a!ser!proposta! no!Brasil.! Todo!o!trabalho!de!proximidade!que! procuramos!descrever!sumariamente! atrás!apresenta!um!forte!potencial!para!a! construção!de!Conhecimento!no!âmbito! do!fenómeno!droga.!O!contacto!direto! com!os!utilizadores!de!substâncias! psicoativas!permite!o!acesso!a!zonas!da! Cidade!que!têm!permanecido!esquecidas! e!alvo!de!diferentes!processos!de! estigmatização.!Isto!permitiu!o!acesso!a! níveis!de!expressão!do!fenómeno!droga! que!permaneciam!até!aí!desconhecidos!ou! mal!caracterizados.!Procuraremos! evidenciar!isso!mesmo!na!secção! seguinte.! 2.5& Status&dos&atores&e&identidade&de& lugar&nos&territórios&psicotrópicos& Verificámos!a!existência!de!três!tipos!de! consumidores!de!droga!que!recorrem!aos! territórios!psicotrópicos:!os!esporádicos!-! aqueles!que!recorrem!ao!território! psicotrópico!espaçadamente.!São!também! aqueles!que!fazem!um!consumo! recreativo!de!drogas,!os!“consumidores! de!fim-de-semana”,!como!a!eles!mesmos! se!designam;!!os!regulares!-!aqueles!que! apesar!de!se!deslocarem!diariamente!ao! território!psicotrópico!não!permanecem! Global Journal of Community Psychology Practice Volume 7, Issue 1S February 2016 ! Global Journal of Community Psychology Practice, http://www.gjcpp.org/ Page 17 ! nele!ao!longo!do!dia.!Muitas!vezes!a!sua! deslocação!resume-se!a!ir!“comprar! produto”xxii.!Algumas!vezes!são!indivíduos! que!trabalham,!tendo!de!deslocar-se!aos! locais!de!compra!nas!alturas!do!início!ou! no!final!do!trabalho,!ou!então!na!hora!de! almoço;!os!permanentes!-!aqueles!que! estão!mais!tempo!no!território.!É!nestes! atores!que!se!verifica!um!enraizamento! profundo!ao!lugar,!sendo!nele!que!o!ator! encontra!as!condições!para!experimentar! uma!determinada!posição!existencial.!! Foquemo-nos!agora!nos!atores!que! tipificamos!como!permanentes.!É!com! eles!que!o!vínculo!com!a!equipa!de!rua!se! intensifica!e!desenvolve.!Para!se! adaptarem!à!expressão!de!rua!do! fenómeno!droga,!vão-se!envolvendo! numa!série!de!atividades!informais!que!aí! existem.!Passamos!a!exemplificar!com! três!tipos!de!atividades!desenvolvidas! pelos!atores!permanentes:!os! “capeadores”!-!são!os!intermediários! entre!o!vendedor&e!o!consumidor.! Trabalham!para!um!“patrão”,!com!um! determinado!horário!que!é!cumprido!de! modo!rigoroso.!Apregoam!no!bairro!o! nome!do!patrão!para!que!os!clientes!se! desloquem!a!ele!e!lhe!comprem!produto;! o!“vigia”!-!é!responsável!pelo!controlo!das! entradas!e!saídas!do!bairro,!sinalizando! com!o!grito!“água”!sempre!que!avista! alguém!que!supõem!poder!por!em!perigo! a!atividade!em!curso,!nomeadamente!a! Polícia;!os!“enfermeiros”!-!são!indivíduos! com!um!razoável!domínio!da!técnica!de! injeção.!Devido!a!isso!são!solicitados!para! injetarem!os!que!sentem!dificuldade!em!o! fazer.!O!pagamento!pode!ser!feito!em! bases!de!cocaína,!em!pacotes!de!heroína! ou!em!troca!de!material!de!consumo,!o! que!também!acontece!com!capeadores!e! vigias.xxiii! Acabamos!de!apresentar!três!atividades! realizadas!pelos!atores!que!fazem!desses! territórios!o!seu!quotidiano!(os! capeadores,!os!vigias,!os!enfermeiros).!O! desempenho!das!mesmas!traduz-se!num! determinado!Status!por!parte!desses! atores.!Este!desempenho!assume!um! caráter!rigoroso!e!é!cumprido!de!forma! zelosa!por!quem!o!executa.!Uma! passagem!do!nosso!diário!de!campo!no! bairro!do!Aleixo!dá!conta!do!que! acabamos!de!dizer!através!do! comportamento!do!vigia!do!Bairro:! O!DM!vem!trocar!máquinas! (seringas)!à!carrinha.!Está!agitado.! Vejo!que!está!sempre!a!olhar!para! a!parte!de!cima!do!Bairro,!para! controlar.!Como!lhe!é!difícil!trocar! máquinas!e!vigiar,!pega!no!Balde! de!troca!de!seringas!e!puxa-o!mais! para!cima!do!passeio.!Desloco-me! com!ele.!Coloca!as!máquinas! enquanto!eu!as!conto!e!ele!vigia.! Retoma!depois!o!“posto”.!(Excerto! de!diário!de!campo,!dia!03!de! Outubro!de!2013)! Em!que!é!que!este!conhecimento!dos! territórios!e!dos!atores!é!importante!para! a!intervenção?!O!trabalho!de!rua!da! equipa,!ao!confrontar-se!com!essas! dinâmicas!dos!atores!sociais,!inscreve!no! seu!trabalho!essas!mesmas!dinâmicas,! tornando-as!também!como!âmbito!da! intervenção.!Exemplificamos!essa! situação!com!uma!passagem!do!nosso! diário!de!campo!quando!queríamos! acompanhar!uma!capeadora!do!bairro!do! Aleixo!ao!CDP!do!Porto!e!tivemos! necessidade!de!ir!falar!com!o!dealer!para! quem!esta!utilizadora!de!drogas! trabalhava:! (…)!ela!acenava-me!com!a!mão! para!eu!ir!falar!com!ele!(com!o! patrão!dela).!Assim!o!fiz.! Global Journal of Community Psychology Practice Volume 7, Issue 1S February 2016 ! Global Journal of Community Psychology Practice, http://www.gjcpp.org/ Page 18 ! Apresentei-me!ao!sujeito!e!disselhe!que!era!importante!a!SC!ir!ao! CDP,!que!era!algo!rápido!e!muito! importante!para!a!saúde!dela.!Ele! olhou-me!e!disse:!“vá,!vá,!20! minutos!e!tudo!bem…!(Excerto!de! diário!de!campo,!dia!18!de!Abril!de! 2011)! Pudemos!ainda!constatar!em!alguns! atores!em!situação!de!Sem-abrigo,!uma! organização!personalizada!do!seu!local!de! pernoita,!construindo!em!seu!torno!uma! determinada!identidade!de!lugar.!Assim,! verifica-se!nesses!locais,!uma!série!de! comportamentos!por!parte!de!alguns! utilizadores!de!drogas!que!visam!a! personalização!dos!mesmos,!como!por! exemplo!a!existência!de!pequenas!pedras! a!rodear!o!local!como!que!a!delimitar!um! “espaço!pessoal”,!tapete!de!entrada,! vários!materiais!(espelhos,!cómodas! velhas,!cortinas,!objetos!de!decoração)!no! cubículo,!prateleiras!ou!pósteres:! Enquanto!apanhávamos!uma! altura!mais!morta!nos!baldios! vimos!as!recentes!“modificações”! que!o!NT!fez!ao!seu!cubículo.!O!NT! apresenta!agora!um!novo!móvel! com!3!prateleiras.!Apresenta! também,!à!entrada,!um!balde!para! o!licho.!Contêm!pedras!de!vários! tamanhos!a!criar!um!perímetro!à! sua!“casa”!e!um!tapete!à!“entrada”.! (Excerto!de!diário!de!campo,!dia! 12!de!abril!de!2011)! O!conceito!de!“Psychological!Home”! avançado!no!domínio!da!Psicologia! Comunitária!por!Sigmon,!Whitcomb!e! Snyder!(2002)!foi!particularmente! importante!na!análise!destes! comportamentos.!De!acordo!com!os! autores,!este!conceito!envolve!três! componentes!fundamentais:!componente! cognitiva!–!o!sentimento!de!pertença!ao! lugar!num!determinado!território!tem! como!consequência!uma!orientação! cognitiva!no!quotidiano!do!ator,!levando!a! momentos!“em!casa”!e!“fora!de!casa”;! componente!afetiva!-!bem!visível!através! de!uma!conexão!emocional!partilhada! entre!os!atores!na!mesma!posição! existencial!e!transgressiva;!componente! comportamental!–!existe!um!investimento! comportamental!por!parte!dos!atores!em! organizarem!esses!locais!de!pernoita.! O!nosso!trabalho!com!consumidores!de! drogas!duras!nos!territórios!psicotrópicos! da!zona!ocidental!do!Porto!permite-nos! verificar!que!esta!identidade!de!lugar! assume!ainda!mais!importância!quando!o! utilizador!aprofundou!o!seu!afastamento! com!a!esfera!escolar,!laboral,!familiar!e! encontra!nestes!locais!o!espelho!de!si!e!da! sua!conduta.!Diríamos!que!estes!espaços! se!constituem!como!organizadores! existenciais!para!sujeitos!que! fragmentaram!as!suas!relações!sociais.! 2.6.&O&psicólogo&no&trabalho&de&rua&-&a& psicologia&de&baixo&limiar& LM:!Quanto!aos!jogadores!da! Selecção,!só!gosto!do!Cristiano! Ronaldo.!(…)!É!um!grande!jogador! e!merece!o!dinheiro!que!ganha.!(…)! Há!muitos!que!fazem!ainda!menos! que!ele!e!também!ganham!milhões.! Em!todos!os!clubes!por!onde! passou!era!um!grande!jogador.(…)! Mas,!resumindo,!eu!gosto!é!do!meu! Beira-Mar!e!do!meu!Benfica,!não! gosto!da!Seleção!(Excerto!de!diário! de!campo,!dia!8!de!Agosto!de! 2012)! " Durante!a!nossa!intervenção!fomos! constatando!que!“a!Droga”!se!constituía! simultaneamente!como!o!principal! definidor!discursivo!entre!os!técnicos! Global Journal of Community Psychology Practice Volume 7, Issue 1S February 2016 ! Global Journal of Community Psychology Practice, http://www.gjcpp.org/ Page 19 ! bem!como!o!limitador!das!possibilidades! discursivas!do!utilizador!de!drogas.!Se,! por!um!lado,!“a!Droga”!explicava!aos! técnicos!todos!os!problemas!familiares,! escolares!ou!de!outro!tipo!que!o!indivíduo! apresentava!(mesmo!quando!esses! problemas!nada!tinham!que!ver!com!a! adicção!propriamente!dita)!por!outro,!“a! Droga”,!constituia-se!também!como!o! locus!explicativo!que!o!utilizador! identificava!e!utilizava!para!enquadrar!os! problemas!decorrentes!da!sua!trajetória! existencial.!Remetidos!a!uma!posição! passiva,!incorporavam!aquilo!que!os! especialistas!dizem!que!eles!eram,! confirmando!portanto!as!definições!que!o! dispositivo!ia!tecendo!a!seu!respeito.! Apesar!disso,!a!análise!do!nosso!diário!de! campo,!permitiu-nos!constatar!a! possibilidade!de!construção!de!uma! relação!de!confiança!com!os!atores!sociais! no!contexto!da!intervenção!de!rua,!a! partir!de!conversas!sobre!as!banalidades! da!vida!quotidiana!e!sobre!assuntos!que! fogem!ao!usual!“problema!da!droga”.!A! formação!de!uma!relação!sólida,!de! confiança!e!horizontal!revelou-se!como! fortemente!importante!na!construção! dessa!interação!conversacional!com!os! atores!com!que!íamos!contactando!ao! longo!do!nosso!trabalho!-!interação!de! tipo!not&knowing!(Anderson!&!Goolishian,! 1992).!Essa!interação!horizontal!levounos!a!encetar!um!diálogo!com!os!atores! que!extravasava!o!registo,!diríamos,!mais! clínico,!mas!que!era!revelador!da! cosmovisão!dos!indivíduos!sobre! assuntos!caracterizados!pela!não! centração!no!tema!da!droga,!contribuindo! para!a!quebra!do!circuito!fechado! temático!técnico-utilizador-técnico!em! torno!da!droga!e!suas!peripécias!de! consumos!e!paragens.!Chamamos!à! interação!de!rua!com!estas!características! psicologia&de&baixo&limiar!porque,!à! semelhança!da!metadona!que!é!dada!no! contexto!da!intervenção!da!RRMD,! também!esta!psicologia!está!carregada!de! baixa!exigência,!pois!não!há!nenhum! tópico!à&priori&que!deva!ser!falado,!todos! eles!são!admitidos!e!valorizados,!num! clima!de!fluidez!discursiva!típica!de!quem! quer!ser!ouvido!como!pessoa!e!não!como! toxicodependente.!Vejamos!o!seguinte! excerto!de!diário!de!campo:! Estava!a!sair!do!Aleixo!e!o!MLF! falava-me!dos!acontecimentos!no! Egipto!em!Port!Said,!cujos! incidentes!no!estádio!envolveram! o!treinador!do!Al-Ahly!Manuel! José.!“Para!que!Mundo!estamos!a! caminhar,!S.?”!dizia-me!o!MLF.! “Quando!iremos!ter!a!Paz!no! Mundo?”!continuava!ele.! Recordava!com!ele!alguns! episódios!desses!em!Estádios!de! Futebol,!nomeadamente!os! acontecimentos!da!final!da!taça! dos!campões!europeus!de!1985!na! Bélgica,!no!Estádio!Heysel,!onde! adeptos!da!Juventus!e!do!Liverpool! se!envolveram!em!pancadarias! culminando!com!a!morte!de!39! pessoas.!O!MLF!expunha-me!aquilo! com!algum!pormenor!(…)!(Excerto! de!diário!de!campo,!dia!02!de! Fevereiro!de!2012)! A!presença!de!um!ou!mais!sujeitos!nas! imediações!da!carrinha!da!equipa!de!rua,! nas!horas!“mortas”!do!serviço,!apareceunos!várias!vezes!como!um!pedido! implícito!por!parte!dos!atores!para!que!os! víssemos!como!pessoas,!não!pelo!prisma! do!utente!que!recorre!ao!serviço!da! equipa,!mas!para!estabelecer!connosco! um!contacto!de!outra!natureza.!Vejamos! um!excerto!do!nosso!diário!de!campo!que! dá!conta!do!que!afirmámos:! Global Journal of Community Psychology Practice Volume 7, Issue 1S February 2016 ! Global Journal of Community Psychology Practice, http://www.gjcpp.org/ Page 20 ! Estava!no!Aleixo!a!trabalhar! quando!o!LD!e!o!RD!chegavam!com! a!sua!“princesa”,!uma!cadelinha! que!compraram!por!5!euros!no! Aleixo.!Enquanto!o!LD!foi!à!Torre! comprar!produto,!o!RD!ficou!com!a! princesa!perto!da!carrinha.! Aproveitei!e!fui!ter!com!ele!e! comecei!a!falar-lhe!sobre!ela.!“Até! lhe!fiz!uma!casotinha!onde!eu!meti! uma!mantinha.!Às!vezes!estamos! na!cama!e!ela!pede-me!para!ir!lá! fora!fazer!xixi.!É!novinha,!tem!um! mês,!mas!é!muito!inteligente”! dizia-me!ele!(Excerto!de!diário!de! campo,!dia!13!de!junho!de!2012)! Às!mesmas!conclusões!tínhamos!já! chegado!em!trabalho!de!campo! anterior,!com!toxicodependentes! de!rua!no!centro!e!zona!histórica! de!Guimarães:!“!(…)!a!carrinha!é! também!o!espaço!de!sociabilidade! que!se!cria!em!seu!torno,! importante!para!quem!fragmentou! as!relações!sociais,!para!quem!se! sente!distanciado!das!estruturas! formais!para!toxicodependentes! (…)!(Fernandes!&!Araújo,!2011,! p.119).!! A!nossa!experiência!interventiva!permitenos!constatar!a!importância!do! estabelecimento!de!uma!interação!técnica! horizontal!no!trabalho!de!rua!com! toxicodependentes.!Para!isso!torna-se! fundamental!a!diluição!do!“estatuto!do! técnico!de!saúde”!na!“pessoa!do!técnico! de!saúde”.!Se!este!requisito!não!for! respeitado!a!intervenção!poderá!ficar! refém!daquilo!a!que!Carl!Rogers! (1961/2010)!chamou!de!“relações! fabricadas”.!Diz-nos!o!autor!a!este! propósito:!“As!atitudes!que!consistem!em! rejeitar-se!como!pessoa!e!em!tratar!o! outro!como!um!objeto!não!têm!grandes! probabilidades!de!servir!para!alguma! coisa”!(p.!72).!A!nossa!experiência! interventiva!nestes!contextos! comunitários,!marcados!pela!pobreza!e! pela!invisibilidade!social!face!à!sociedade! dominante,!chama-nos!ainda!a!atenção! para!o!perigo!do!exercício!de!uma!postura! técnica!demasiado!explicativa!em! detrimento!de!uma!compreensiva!e!de! baixo!limiar.!Verificamo-lo!na!primeira! pessoa!enquanto!elementos!da!equipa!de! rua!cujo!trabalho!aqui!estamos!a!ilustrar:! o!exercício!dessa!postura!técnica! demasiado!explicativa!contribuía!várias! vezes!para!a!manutenção!de!um!discurso! técnico-utente!cujas!dinâmicas! assentavam!num!jogo!de!fintas!e! manobras!assentes!no!“problema!da! droga”.!Quebrar!esse!jogo!contribuía!para! quebrar!também!a!clivagem!simbólica! entre!equipa!técnica!e!utilizadores!de! drogas!com!consequências!na! aproximação!entre!estes!dois!Mundos.! Assim,!a!adoção!de!uma!atitude! incondicional!positiva!(Rogers,! 1942/1974)!e!a!criação!de!uma!atmosfera! de!horizontalidade!com!os!utilizadores!de! drogas,!revelaram-se!como!instrumentos! úteis!ao!longo!de!toda!a!intervenção.!A! psicologia!de!baixo!limiar!mostrou-se! também!importante!na!aceitação!do! nosso!trabalho!junto!dos!consumidores! de!drogas!com!que!íamos!contactando,! nomeadamente!através!da!incorporação! técnica!do!vocabulário!dos!territórios!e! dos!atores!(por!exemplo,!o!termo!“caldar”! em!vez!de!“injetar”!ou!o!“dar!na!prata”!em! vez!de!“fumar”,!“droga!martelada”!em!vez! de!“droga!adulterada”).!Em!jeito!de! conclusão,!terminamos!com!uma!frase! proferida!por!um!ator!enquanto!fazíamos! trabalho!de!rua!e!exercíamos!essa!postura! interventiva!de!baixo!limiar:!“É!com!essa! linguagem!igual!à!nossa!que!nos!sentimos! Global Journal of Community Psychology Practice Volume 7, Issue 1S February 2016 ! Global Journal of Community Psychology Practice, http://www.gjcpp.org/ Page 21 ! entendidos”!(Excerto!de!diário!de!campo,! dia!29!de!Março!de!2011).! Nota"Final" Mostramos,!através!do!presente!trabalho,! como!as!mudanças!operadas!na!política! das!drogas!em!Portugal!têm!possibilitado! uma!nova!forma!de!intervir!sobre!o! fenómeno.!Se!durante!a!fase!da!criação!e! instalação!dos!primeiros!dispositivos!de! “combate!à!droga”!estes!laboravam! sobretudo!numa!atitude!de!centralidade! interventiva!no!“indivíduo-doente”!ou!nos! seus!microcontextos!(Agra,!1993;!Agra!&! Fernandes,!1993),!o!desenvolvimento!das! políticas!de!RRMD!contribuiu!para!uma! abertura!tanto!no!modo!de!olhar!quem! utiliza!drogas!como!no!setting!e!no!estilo! interventivos.!Essa!abertura!tornou!viável! uma!intervenção!de!rua!próxima!das! comunidades!e!atores,!possibilitando!que! os!espaços!urbanos!ditos!“degradados”! pudessem!ser!também!lugares!da!escuta! terapêutica!em!contextos!marcados!pelo! sofrimento!social.! Além!disso,!esta!abertura!às!comunidades! onde!o!fenómeno!assume!protagonismo! tem!permitido!que!os!atores!sociais!locais! tanto!coletivos!como!individuais!–! nomeadamente!os!utilizadores!-!assumam! uma!postura!ativa!quer!na!construção! quer!na!implementação!das!práticas! interventivas.!Para!a!assunção!duma! postura!ativa!dos!consumidores!de!drogas! muito!contribuiu!uma!mudança!na!forma! de!o!olhar,!reconcetualizando-o!como! sujeito!ativo!e!capaz!de!exercer!uma! atitude!reflexiva!acerca!da!sua!posição! transgressiva!e!existencial!(Agra,!1990).! Apesar!de!tudo,!partilhamos!com!alguns! autores!(e.g.!Tissot!&!Poupoeau,!2005;! Ilundain,!2004;!Romani,!Terrile!&!Zino,! 2003)!algum!ceticismo!relativamente!ao! verdadeiro!poder!transformador!e! emancipador!destas!práticas! interventivas!de!proximidade!face!aos! problemas!quotidianos!que!estas! comunidades!apresentam.!Criarão!estas! equipas!de!terreno!as!condições!para!a! visibilidade!de!grupos!que!permanecem! em!situação!de!pobreza!e!“exclusão! social”!ou,!pelo!contrário,!funcionarão! involuntariamente!como!neutralizadores! do!“espetáculo!da!droga”!que!neutraliza!o! seu!poder!denunciador!face!às! problemáticas!quotidianas!com!que!se! enfrentam?!Apesar!de!não!ter!sido!objeto! do!nosso!trabalho!responder!a!esta! questão!consideramos!que!a!mesma!é! demasiado!complexa!para!uma!resposta! simples,!clara!e!conclusiva.!Mas!talvez!a! sua!importância!e!relevância!científica!e! social!nos!sirva!como!guia!de!orientação! para!pesquisas!futuras.! !! Referências"bibliográficas! Adorno,!R.!(2011).!Atenção!à!saúde,! direitos!e!o!diagnóstico!como!ameaça:! políticas!públicas!e!as!populações!em! situação!de!rua.!Etnográfica,!15!(3),!543567! Agra,!C.!(1990).!Sujet!autopoiétique!et! transgression.!In!F.!Digneffe!(Ed.)!Acteur& social&et&délinquance.&Hommage&à& Christian&Debuyst!(34-42).&Bruxelas:! Mardaga!Edition! Agra,!C.!(1993).!Dispositivos!da!droga!–!a! experiência!portuguesa.!In!C.!da!Agra! (Ed.)!Dizer&a&droga&ouvir&as&drogas:& estudos&teóricos&e&empíricos¶&uma& ciência&do&comportamento&adictivo!(2953).&Porto:!Radicário!! Agra,!C.!&!Fernandes,!L.!(1993).!Droga! enigma,!droga!novo!paradigma.!In!C.!da! Agra!(Ed.)!Dizer&a&droga&ouvir&as&drogas:& estudos&teóricos&e&empíricos¶&uma& Global Journal of Community Psychology Practice Volume 7, Issue 1S February 2016 ! Global Journal of Community Psychology Practice, http://www.gjcpp.org/ Page 22 ! ciência&do&comportamento&adictivo!(5586).&Porto:!Radicário! Agra,!C.!(2009).!Requiem!pour!la!guerre!à! la!drogue:!L’expérimentation!portugaise! de!décriminalisation.!Déviance&et&Société,! 33,!27-49! Anderson,!H.!&!Goolishian,!H.!(1992).!The! Client!is!the!Expert:! !A!Not-Knowing! Approach!to!Therapy.!In!S.!McNamee!&!K.! Gergen!(Eds).!Therapy!as!social! construction!(25-39).!London:!Sage! Publications! Andrade,!T.!(2011).!Reflexões!sobre! Políticas!de!Drogas!no!Brasil.!Ciência&&& Saúde&Coletiva,!16!(12),!4665-4674! Agência!Piaget!para!o!Desenvolvimento! (APDES)!(2013).!Considerações&gerais& sobre&o&PNRCAD&(2013-2020)&e& recomendações&no&domínio&das&drogas&em& Portugal.!Porto:!APDES& Barros,!H.,!Lucas,!R.!&!Santos,!M.!(2010).! Sida&em&Meio&Prisional.!Lisboa:!Fundação! Calouste!Gulbenkian! Broadhead,!R.,!Heckathorn,!D.,!Weakliem,! D.,!Anthony,!D.,!Madray,!H.,!Mills,!R.!&! Hughes,!J.!(1998).!Harnessing!Peer! Networks!as!an!Instrument!for!AIDS! Prevention:!Results!from!a!Peer-Driven! Intervention.!Public&Health&Reports,!113,! 42-57! 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Toxicodependências,!16!(2),!15-29! Fernandes,!L.!&!Araújo,!T.!(2010).!A&Vida& do&Andamento.&Para&uma&caracterização& dos&consumidores&problemáticos&de&drogas& em&Guimarães.!Porto:!FPCEUP! Fernandes,!L.,!Pinto,!M.!&!Oliveira,!M.! (2006).!Caracterização!e!análise!crítica! das!práticas!de!redução!de!riscos!na!área! das!drogas!em!Portugal.! Toxicodependências,!12!(2),!71-82! Fernandes,!L.!&!Pinto,!M.!(2004).!El! espacio!urbano!como!dispositivo!de! control!social:!territorios!psicotrópicos!y! políticas!de!la!ciudad.!Monografías& Humanitas,&5,!147-162! Ferreira,!G.!(2004).!Reforma!psiquiátrica:! La!ética!de!los!derechos!civiles.!In!A.!Vidal,! A.!Constanzo!&!M.!Lois!(Eds.).!Psicología& Comunitaria&Europea:&Comunidad,&Poder,& Ética&y&Valores!(178-187).!Barcelona:! Publicacions!de!la!Universitat!de! Barcelona! Global Journal of Community Psychology Practice Volume 7, Issue 1S February 2016 ! Global Journal of Community Psychology Practice, http://www.gjcpp.org/ Page 23 ! Filho,!A.!(1993).!La&vie&dans&la&marginalité& ou&la&mort&dans&l'instituiton:&étude&sur& quatre&groups&d´enfants&et&d´adolescents& vivant&de&la&rue&a&Salvador&de&Bahia& (Bresil)!(Tese!de!doutoramento).! Faculdade!de!Antropologia!e!de!Sociologia! -!Universidade!Lumière,!França! Gomes,!G.,!&!Adorno,!R.!(2011).!Tornar-se! "noia":!trajetória!e!sofrimento!social!nos! "usos!de!crack"!no!centro!de!São!Paulo.! Etnográfica,&15(3),!569-586! Greenwald,!G.!(2009).!Drug! decriminalization!in!Portugal!–!lessons!for! creating!fair!and!successful!drug!policies.! Washington:!Cato!Institute! Ilundain,!E.!(2004).!Drogas,!Enfermedad!e! Exclusión.!Can!Tunis!(Barcelona)!como! Paradigma?!Humanitas,!5,!105-118! Jorge,!J.!&!Corradi-Webster,!C.!(2012).! Consultório!de!Rua:!Contribuições!e! Desafios!de!uma!Prática!em!Construção.! Saúde&&&Transformação&Social,!3!(1),!3948! Karam,!M.!(2005).!As!leis!e!a!política! brasileira!de!drogas.!Comunicação&ao&I& Seminário&Nordestino&de&Redução&de& Riscos&relacionados&ao&álcool&e&outras& drogas.&Recife,!14-16!dezembro! Labrousse,!A.!(2004).!La!«Guerra!a!la! Droga»:!estado!de!la!cuestión,!Humanitas,! 5,!173-185! Lancetti,!A.!(2008).!Clínica&Peripatética.! São!Paulo:!Hucitec! Le!Marcis,!F.!(2004).!The!suffering!body!of! the!city.!Public&Culture,!16!(3),!453-477! Oliveira,!M.!(2008).!Consultório&de&Rua:& Relato&de&uma&Experiência!(Tese!de! mestrado).!Instituto!de!Saúde!Coletiva!-! Universidade!Federal!da!Bahia,!Brasil! Ornelas,!J.!(2004).!Participative! democracy!and!comunity!intervention.!In! A.!Vidal,!A.!Constanzo!&!M.!Lois!(Eds.).! Psicología&Comunitaria&Europea:& Comunidad,&Poder,&Ética&y&Valores!(297300).!Barcelona:!Publicacions!de!la! Universitat!de!Barcelona! Pitta,!A.!(2011).!Um!balanço!da!Reforma! Psiquiátrica!Brasileira:!Instituições,! Actores!e!Políticas.!Ciência&&&Saúde& Coletiva,!16!(12),!4579-4589! Pussetti,!C.!&!Brazzabeni,!M.!(2011).! Sofrimento!social:!idiomas!da!exclusão!e! políticas!do!assistencialismo.!Etnográfica,! 15!(3),!467-478! PORI!(2008).!Plano&Operacional&de& Respostas&Integradas.!Lisboa:!IDT!! Raupp,!L.!&!Adorno,!R.!(2010).!Uso!de! crack!na!cidade!de!São!Paulo!/!Brasil.! Toxicodependências,!16!(2),!29-37! Rogers,!C.!(1942/1974).!Psicoterapia&e& Consulta&Psicológica.!Lisboa:!Moraes! Editores! Rogers,!C.!(1961/2010).!Tornar-se&Pessoa.! Lisboa:!Padrões!Culturais!Editora! Romani,!O.!(1999).!Las&drogas!–&sueños&y& razones.!Barcelona:!Ariel! Romani,!O.,!Terrile,!S.!&!Zino,!J.!(2003).! Drogas&y&gestión&del&conflicto&social&en&el& cambio&de&siglo:&nuevos&sujetos,&nuevos& espacios&de&riesgo?!(227-243).!In!C.!Agra,!J.! Domínguez,!J.!Amado,!Hebberecht,!P.!&! Recasens,!A.!(Eds.).!La&seguridad&en&la& sociedad&del&riesgo.&Un&debate&abierto.! Barcelona:!Atelier! Rui,!T.!(2012).!Corpos&abjetos:&etnografia& em&cenários&de&uso&e&comércio&de&crack! 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Tissot,!S.!&!Poupeau,!F.!(2005).!La! spatialisation!des!problémes!sociaux.! Actes&de&la&recherche&en&sciences&sociales,! 159,!5-9! ! NOTAS! i!Para!uma!análise!mais!detalhada!do!“modelo!português”!no!campo!das!drogas!ver,!por!exemplo,!Greenwald! (2009)!e!Domostawski!(2011).!A!atenção!internacional!que!ele!tem!merecido!prende-se!com!a!decisão! política!de!despenalizar!o!consumo!e!a!posse!para!consumo!de!todas!as!drogas!ilegais!e!com!a!criação!das! comissões!para!a!dissuasão!da!toxicodependência,!que!são!estruturas!de!atendimento!para!consumidores!que! funcionam!como!uma!instância!de!controlo!social!que!pretende!desencorajar!os!consumos!sem!conotar!os! seus!utilizadores!com!a!imagem!do!“criminoso”.!!!! ii!Utilizaremos!ao!longo!de!todo!o!texto!o!conceito!de!território!psicotrópico!(Fernandes,!1998):!o!território! psicotrópico!funciona!como!um!atrator!de!indivíduos!com!interesse!comum!num!estilo!de!vida!em!que!as! drogas!desempenham!papel!significativo.!Comporta-se!como!um!behavioral&setting,&com!um!programa! comportamental!conhecido!dos!atores!que!o!constituem!e!frequentam!e!que!o!protegem!contra!ameaças! externas.! iii!A!recorrência!do!termo!no!discurso!está!longe!de!ser!atual.!Um!dos!livros!inscritos!na!nossa!história! recente,!considerado!influente!na!preparação!do!clima!para!a!revolução!de!abril!de!1974!que!devolveu!o! regime!democrático!a!Portugal,!está!povoado!da!palavra!“crise”.!Referimo-nos!a!Portugal&e&o&Futuro,!de! António!de!Spínola,!em!1974.! iv!Para!a!precisão!do!conceito!socioespacial!de!periferia,!bem!como!para!identificação!dos!elementos!de!crise! que!caracterizariam!grande!parte!da!periferia!dos!grandes!conjuntos!urbanos!em!múltiplas!geografias!ver! Fernandes!e!Mata!(2015).! v!Para!uma!visão!de!conjunto!das!políticas!de!redução!de!riscos!levadas!a!cabo!em!meio!prisional!nos!países! da!União!Europeia!ver!Stover!e!Ossietzky!(2001)! vi!A!primeira!associação!de!utilizadores!de!drogas!–!e!até!agora!a!única!–!teria!o!seu!embrião!em!2007!numa! reunião!no!Porto!entre!utilizadores!de!drogas!e!Theo!Van!Dam,!um!dos!fundadores!da!Junkiebond,!associação! de!utilizadores!de!drogas!holandesa,!e!seria!formalizada!em!2010.!Notemos!que!a!Junkiebond!negociou!já!em! meados!dos!anos!80!do!século!XX!com!as!autoridades!sanitárias!e!municipais!a!criação!dos!primeiros! programas!de!troca!de!seringas.! ! vii!Trata-se!da!equipa!do!Rotas!com!Vida!da!Associação!Norte!Vida!–!Associação!para!a!Promoção!da!Saúde.! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Global Journal of Community Psychology Practice Volume 7, Issue 1S February 2016 ! Global Journal of Community Psychology Practice, http://www.gjcpp.org/ Page 4 ! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! viii!A!nossa!deslocação!aos!territórios!foi!dividida!em!três!momentos:!! 1. -!Outubro!de!2009!–!Junho!de!2010:!cerca!de!2!dias!da!semana;! 2. -!Fevereiro!de!2011!–!Novembro!de!2011:!todos!os!dias!da!semana;! 3. -!Novembro!de!2011!–!Dezembro!de!2013:!cerca!de!3!dias!da!semana!! ix!O!PORI!é!uma!medida!estruturante!que!faz!parte!da!estratégia!nacional!de!intervenção!integrada!a!cargo!do! Instituto!da!Droga!e!da!Toxicodependência!(IDT)!procurando!potenciar!as!sinergias!disponíveis!no!território,! através!da!implementação!de!Programas!de!Respostas!Integradas!(PRI)!(PORI,!2008).!A!equipa!de!rua!do! Rotas!com!Vida!está!ao!abrigo!desta!medida.! x!“máquinas”:!termo!nativo!para!designar!seringa! xi!Termos!nativos!para!designar!a!cocaína!e!a!heroína!nos!territórios!psicotrópicos!onde!trabalhamos!(“bases”! –!cocaína!e!“pacotes”!–!heroína).! xii!“produto”:!termo!nativo!para!designar!as!substâncias!psicoativas.! xiii!“caldo”:!termo!nativo!para!designar!a!substância!que!resulta!da!preparação!do!produto!psicoativo!de!modo! a!realizar!a!injeção.!! xiv!Cada!kit!contém!duas!seringas,!dois!reservatórios!de!água!destilada!para!a!dissolução!do!produto!e!dois! filtros!para!filtrar!as!impurezas!que!resultam!dessa!preparação,!uma!carica!para!a!preparação!do!produto! para!consumo!e!dois!toalhetes!de!álcool!para!desinfeção!do!local!de!injeção.!! xv!Teste!de!Klotho!-!teste!de!deteção!rápido!VIH.! xvi!“picar”:!termo!nativo!que!serve!para!designar!uma!administração!endovenosa!de!drogas.! xvii!“chuto”!-!termo!nativo!para!designar!uma!administração!endovenosa.! xviii!Outra!designação!nativa!para!designar!as!principais!substâncias!psicoativas!nos!territórios!onde!fazemos! a!intervenção!(“branca”!–!cocaína!e!“pó”!–!heroína).! xix!Segundo!o!The!Centre!for!Harm!Reduction!do!Burner!Institute!o!educador!de!pares!implica!“o! envolvimento!de!pessoas!da!mesma!classe!social,!idade,!estatuto!social!ou!vivência!cultural!que!se!apoiam! entre!si,!informalmente!e!formalmente!sobre!uma!variedade!de!assuntos!e!preocupações!específicas”! (Agência!Piaget!para!o!Desenvolvimento,!2013,!p.!15).! xx!“canecos”!-!termo!nativo!para!designar!o!material!usado!no!consumo!fumado!e!de!onde!se!realiza!a! aspiração!do!produto.! xxi!CAT!–!termo!que!designa!as!estruturas!de!tratamento!nas!toxicodependências.!Trata-se!de!uma!sigla!que! significa!Centro!de!Atendimento!a!Toxicodependentes.! xxii!“comprar!produto”!-!termo!nativo!que!serve!para!designar!a!compra!de!substâncias!psicoativas.! xxiii!A!designação!desses!três!tipos!de!atores!–!“capeadores”,!“vigia”!e!“enfermeiros”!–!é!fiel!à!linguagem!nativa! da!nossa!população-alvo.!