Comportamento de risco em adolescentes portugueses: variações em função da região e do comportamento sexual
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Comportamentos de risco em adolescentes portugueses: variações em função da região e do comportamento sexual Dissertação realizada no âmbito do Mestrado em Temas de Psicologia Área de especialização de Consulta Psicológica de Jovens e Adultos Orientador: Joaquim Luís Coimbra Marta Morais Barbedo de Magalhães Porto, Maio de 2009
Resumo A prevalência de comportamentos de risco no período da adolescência e a emergência de problemas como o Vírus da Imunodeficiência Humana (VIH) enfatizam a importância de tentar perceber estes fenómenos, constituindo-se como objecto deste estudo. O principal objectivo deste estudo é perceber se existem diferenças por um lado, entre os alunos portugueses do 10º ano da Região do Norte e do resto do país e, por outro, entre os que já iniciaram a actividade sexual e os que ainda não iniciaram no que concerne a vivência da sexualidade, os conhecimentos e atitudes no âmbito do VIH/SIDA, o consumo de álcool, ao bullying e a adaptação ao contexto escolar. Para atingir o objectivo proposto, utilizou-se uma amostra parcial (1581 alunos de cinco regiões portuguesas) do Estudo HBSC/ OMS (Health Behaviour in School-aged Children) referente ao ano de 2002. Os resultados obtidos indicam que é apenas uma minoria de alunos que se envolve em comportamentos de risco e que os conhecimentos e atitudes em relação ao VIH são francamente positivos. Em relação às hipóteses formuladas, os alunos do Norte (em comparação com os do resto do país) parecem iniciar a actividade sexual mais tarde, apresentar menos comportamentos de risco e revelar uma maior adaptação escolar. Um dado interessante é que os alunos do Norte se apoiam mais frequentemente na religião para se informarem sobre SIDA e denotam conhecimentos menos sólidos sobre VIH/SIDA. Os alunos que ainda não tiveram relações sexuais parecem apresentar menos comportamentos de risco e uma melhor adaptação escolar. Os alunos que já iniciaram a actividade sexual referem sentir-se mais confortáveis para comunicar/negociar com o parceiro e recorrer a fontes de informação presenciais. Curiosamente, revelam mais conhecimentos sobre VIH/SIDA e ligeiramente mais preconceitos. O presente estudo termina com a discussão dos resultados, a reflexão sobre as limitações encontradas e com algumas pistas para a intervenção na promoção dos comportamentos de saúde dos jovens.
Abstract Adolescent risk behaviours prevalence and the Human Immunodeficiency Virus (HIV) emmergency justify the importance of understanding these phenomena, this study object. The main aim of present research is to understand whether there are differences between Portuguese 10 th grade students from North Region and from remaining country regions and, on the other hand, between those who have already had sexual intercourse and those who haven’t in what regards sexual domain lived experiences, HIV knowledge and attitudes, alcohol use, bullying and school context adjustment. In order to reach the proposed aim a partial sample (1581 students from five Portuguese regions) from HBSC/ OMS 2002 study (Health Behaviour in Schoolaged Children) was used. According to results, only a students minority get involved in risk behaviours, and HIV knowledge and attitudes are, undoubly, positive. In what concerns the formulated hypothesis, North Region students (comparing with other country regions) seem to initiate sexual intercourse later, show less risk behaviours and tend to demonstrate a better school adjustment. An interesting finding was that among North students religion sources to obtain HIV and sexuality information’s is more frequent, and show less HIV knowledge. Students who have not yet sexual intercourse seem to present less risk behaviours and a better school adjustment. Those who have already sexual intercourse experiences feel more comfortable to communicate/negotiate with their partners and to make use of “face-to-face” information sources. Curiously, tend to have more HIV knowledge and express slightly less prejudice. The present study ends with results discussion, analysis of its shortcomings, and with some intervention proposals in order to poster young health behaviours promotion.
Résumé L’incidence de comportements de risque pendant l’adolescence et l’émergence de problèmes tels que le Virus de l’Immunodéficience Humaine (VIH) emphatise l’importance de la recherche de ces phénomènes. Le principal objectif de cet investigation c’est de comprendre s’il y aucune différence , d’un coté entre les élèves portugais de la 10eme année, habitant la région nord et ceux qui habitent les autres régions du pays et, de l’autre coté, entre ceux que ont déjà initié l’activité sexuelle et ceux qui ne l’ont pas encore commencée, sur leurs connaissance et posture autour du VIH/SIDA, de l’abus d’alcool, du bullying et de l’adaptation au contexte de l’école. Pour atteindre l’objectif prétendu, on a utilisé une échantillon partiale (158 élèves de cinq régions portugaises) de l’étude HBSC/OMS (Health Behavior in School-aged Children) rapporté à l’année de 2002. Les résultats obtenus indiquent que seulement une minorée d’élèves a des comportements de risque et que la connaissance et posture envers le VIH sont vraiment favorables. En ce qui concerne les hypothèses formulées, les élèves du nord (comparativement aux autres) semblent initier leur activité sexuelle plus tard, ont moins de comportements de risque et présentent une plus grande adaptation à l’école. Une question sensible c’est que les élèves du Nord semblent obtenir plus souvent, dans le contexte de la religion, les informations sur le SIDA et révèlent des connaissances moins solides en ce qui concerne le VIH/SIDA. Les élèves qui n’ont pas encore des relations sexuelles paraissent avoir moins de comportements de risque et une meilleure adaptation à l’école. Les élèves qui ont déjà des relations sexuelles disent qu’ils se sentent plus confortables pour communiquer/faire des négociations avec leur pairs et appellent a des sources d’information présentielle. Curieusement, ils révèlent plus de connaissances au tour du VIH/SIDA et un peu plus de préjugés. La présente étude termine avec la discussion des résultats, la réflexion sur les limitations trouvées et quelques chemins pour l’intervention sur la divulgation des comportements de santé des jeunes.
Agradecimentos A realização deste trabalho assenta numa lógica de co-construcção sendo por isso inprenscindível agradecer a todos os que, em geral, contribuiram para que fosse possível alcançar este resultado final e em particular às seguintes pessoas: Ao meu orientador, Professor Doutor Joaquim Coimbra, pela sapiência, pelo permanente apoio e incentivo e sobretudo pela naturalidade com que “transforma” o abstracto em concreto e pelo respeito genuíno demonstrado a cada proposta, a cada passo. À Professora Doutora Margarida Gaspar de Matos, pela autorização da utilização dos dados do HBSC, pela sua infinita capacidade de estar sempre presente e disponível, pela confiança, por tornar tudo possível. Aos meus revisores, Pai e Mãe, Sónia, Carolina, Professora Filomena Póvoa pelo alcance da visão que me proporcionaram, pela ajuda fulcral. Às colegas e amigas, Sónia, Carolina, Claúdia, Mariana, Joana, Inês e Marlene pela solidez da amizade, por acreditarem e incetivarem este meu percurso, pela paciência inesgotável e pelo desejo de ajudar. À Cristina, pela forma como “arquitectou” a logística, pela preocupação e carinho com que me apoiou. Ao Carlos, pelo amor, por crescer comigo pessoal e profissionalmente. Aos meus pais e irmão pelo amor, pela admiração, essencialmente pelo modelo que são para mim e pelo que conseguem ver em mim. Porto, 27 de Maio de 2009 Marta Morais Barbedo
Introdução 1 Capítulo I. O desenvolvimento do conceito de sexualidade na confluência das competências interpessoais e dos problemas emergentes (VIH e outras IST) 4 1. O conceito de Sexualidade como expressão de afecto em contexto cultural 5 1.1. A evolução do conceito de sexualidade 5 1.2. Convergências e divergências na expressão da sexualidade no mundo 6 2. VIH, IST e Métodos Contraceptivos: Informação, Negociação e Auto-Eficácia 9 2.1. A evolução do Vírus da Imunodeficiência Humana (VIH) 9 2.2 Assimetrias de poder e variáveis psicológicas no uso de preservativo. Propostas de intervenção 8 Capítulo II – Comportamentos de risco e contexto escolar: fenómenos isolados e emparelhados. O papel da religião 15 1. Violência entre pares – Bullying 16 2. Consumo de álcool 19 3. Contexto escolar 20 4. Associação entre comportamentos de risco, a iniciação sexual precoce como factor de risco e a religiosidade como factor de protecção 22 Capítulo III – O contexto cultural português 28 1. Contexto escolar, sexualidade, consumos e violência em Portugal: sub-culturas regionais? 29 Capítulo IV – Estudo empírico: conhecimentos, atitudes e comportamentos de risco nos jovens Portugueses do 10º ano segundo a iniciação sexual e a Região do país. 32 1. Introdução 33 2. Método 34 2.1 Participantes 34 2.2 Medida e recolha de dados 34 2.2.1. Instrumento de medida 34 2.2.2 Recolha de dados 36 2.3 Análise dos dados 36 3. Resultados 36 3.1. Estatística descritiva 36 3.2 Resultados relativos às questões de investigação 38 4. Discussão 44 5.Conclusão e implicações para futuras investigações 50 Referências Bibliográficas 52 Anexos Anexo I – Síntese das questões retiradas do questionário do Estudo HBSC Anexo II – Resultados – Estatística descritiva
C Co om mp po or rt ta am me en nt to os s d de e r ri is sc co o e em m a ad do ol le es sc ce en nt te es s p po or rt tu ug gu ue es se es s: : v va ar ri ia aç çõ õe es s e em m f fu un nç çã ão o d da a r re eg gi iã ão o e e d do o c co om mp po or rt ta am me en nt to o s se ex xu ua al l 1 Introdução Vivemos em sociedades de risco (Beck, 1992). A complexidade cultural e política do mundo em que vivemos, o imparável desenvolvimento da tecnociência e a diferenciação individualizadora a que os processos de socialização hegemónicos têm dado origem, tiveram, entre outros efeitos, a elevação das expectativas de qualidade de vida, por parte dos cidadãos, que evoluem a par das preocupações, pressões e prescrições sociais e políticas. Por razões compreensíveis, o risco acabou por tornarse numa “pedra de toque da relação” entre gerações mais velhas no seu papel de preparação das mais jovens para o futuro. A associação entre comportamentos de risco, frequente na revisão da literatura, reveste-se de alguma complexidade, podendo esquematizar-se entre vários domínios da saúde dos adolescentes. Do vasto conjunto de variáveis e comportamentos susceptíveis de serem objecto deste estudo optou-se por escolher quatro dimensões que consideramos preponderantes na actualidade. Dessas, duas são comportamentos de risco (bullying/violência entre pares e consumo de álcool), uma pode originar comportamentos de risco (sexualidade) e, por último mas não menos importante, um dos contextos-chave no desenvolvimento do adolescente e na manifestação dos comportamentos de risco, o escolar. Não obstante o facto de haver quem considere que o VIH/SIDA está “fora de moda” e independentemente de existir um grande número de estudos que se debruçam sobre esta área, em Portugal existem aproximadamente 30 mil casos de VIH, sendo que a maioria das pessoas infectadas pertence à faixa etária dos 15 aos 49 anos de idade (UNAIDS, 2008), o que reforça a importância de continuar a estudar o fenómeno. Será essa uma das razões que leva à inclusão dos jovens na selecção dos grupos mais expostos à infecção, tornando-se, igualmente, premente perceber que variáveis podem mediar os comportamentos, conhecimentos e atitudes dos mesmos, no que respeita às formas de transmissão e à empatia pelas pessoas portadoras do vírus. No entanto não é possível reflectir sobre Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST) sem abordar um território fundamental na nossa vida, mas que para ser vivido em plenitude e com segurança implica informação, educação e sobretudo comunicação: a sexualidade. Principalmente perante a “miséria simbólica” com que nos deparamos na sociedade contemporânea, em que a balança tende para
C Co om mp po or rt ta am me en nt to os s d de e r ri is sc co o e em m a ad do ol le es sc ce en nt te es s p po or rt tu ug gu ue es se es s: : v va ar ri ia aç çõ õe es s e em m f fu un nç çã ão o d da a r re eg gi iã ão o e e d do o c co om mp po or rt ta am me en nt to o s se ex xu ua al l 2 a componente produtiva e aniquila a esfera simbólica da nossa existência (Coimbra & Menezes, 2009), tentamos reflectir sobre o significado da iniciação sexual precoce e do seu impacto na adopção de comportamentos de risco. Nos meandros da violência, o bullying, violência entre pares, tem ostentado um crescente patamar de relevo na sociedade actual. Em contraste com uma sexualidade salutar, o bullying constitui-se como ameaça ao bem-estar físico e psicológico dos adolescentes. Será que os jovens com uma baixa assertividade sexual (fraca capacidade de negociação), baixos níveis de conhecimento sobre formas de transmissão do VIH e atitudes estereotipadas negativas em relação aos indivíduos infectados com VIH são os mesmos que agridem os seus pares? E como é crítico falar em comportamentos de risco sem frisar uma quota-parte dos consumos de substâncias, elegeu-se o uso de álcool como representante do grupo dos mesmos. Finalmente, tendo em conta o contexto onde o bullying ocorre mais frequentemente (a escola) porque não perceber como se sentem os alunos nas escolas e se o grau de satisfação de cada um se pode relacionar com alguma das dimensões anteriores? Os jovens com problemas de aprendizagem ou baixo aproveitamento escolar têm maior probabilidade de iniciar a actividade sexual mais precocemente (Commitee on Psychosocial Aspects of Child and Family Health and Commitee on Adolescence, 2001). A iniciação sexual e a região do país foram eleitas como possíveis variáveis que influenciam toda esta dinâmica de comportamentos. A religião emergiu também como provável pilar de sustentação das diferenças encontradas. Foram utilizados dados do estudo Health Behaviour in School-aged Children (HBSC/OMS) referentes ao ano de 2002 pela sua riqueza e representatividade nacional e em particular os dados alusivos aos alunos do 10º ano que, porventura, serão mais experientes e consistentes nas atitudes e comportamentos. À medida que os adolescentes se tornam mais velhos, vai aumentando a probabilidade de se envolverem em actividades sexuais e comportamentos de risco capazes de gerar uma maior excitação (Goh, Primavera & Bartalini, 2001). Para além disso, a maioria dos adolescentes que se encontra sensivelmente a meio deste período tem a capacidade cognitiva da tomada de decisão eficaz (Chambers & Rew, 2003). De referir que embora o HBSC 2006 já tenha sido divulgado, ainda não é possível utilizar esses dados. Em suma, a amostra não é recente, mas não se trata de todo de uma replicação de informações existentes, e sim de uma nova perspectiva sobre novos
C Co om mp po or rt ta am me en nt to os s d de e r ri is sc co o e em m a ad do ol le es sc ce en nt te es s p po or rt tu ug gu ue es se es s: : v va ar ri ia aç çõ õe es s e em m f fu un nç çã ão o d da a r re eg gi iã ão o e e d do o c co om mp po or rt ta am me en nt to o s se ex xu ua al l 3 dados, aspirando delinear um estudo quantitativo sem descurar as componentes cognitiva, sócio-cultural e emocional que constrangem e influenciam a maioria dos nossos comportamentos. O presente trabalho assenta em cinco eixos estruturantes: Capítulo I – O desenvolvimento do conceito de sexualidade na confluência das competências interpessoais relevantes no âmbito da saúde sexual e reprodutiva e decorrentes dos problemas emergentes (VIH e outras IST) Capítulo II – Caracterização de dois comportamentos de risco - consumo de álcool e violência entre pares - e do contexto escolar. Perspectiva dos fenómenos isolados e emparelhados. Factores de risco e de protecção: a iniciação sexual precoce e a religião. Capítulo III – Reflexão sobre os comportamentos de risco no contexto cultural português e de eventuais sub-culturas regionais. Capítulo IV – Estudo empírico (baseado em dados do estudo HBSC) sobre os conhecimentos, atitudes e comportamentos de risco nos alunos Portugueses do 10º ano, tendo como variáveis-chave a iniciação sexual e a Região do país. Descrição, reflexão e implicações em futuras investigações.
C Co om mp po or rt ta am me en nt to os s d de e r ri is sc co o e em m a ad do ol le es sc ce en nt te es s p po or rt tu ug gu ue es se es s: : v va ar ri ia aç çõ õe es s e em m f fu un nç çã ão o d da a r re eg gi iã ão o e e d do o c co om mp po or rt ta am me en nt to o s se ex xu ua al l 10 (Frade, 2006). Nos tempos que correm fala-se em comportamentos de risco e grupos mais expostos. É necessário ter em consideração que actualmente e, mantendo a lógica das céleres e profundas metamorfoses nos últimos anos em torno do VIH/SIDA, deixámos de lidar com uma doença mortal para nos depararmos com uma doença crónica. Constata-se que a ciência ainda não encontrou uma cura para a doença mas tem desenvolvido tratamentos cada vez mais eficazes que permitem aferir uma diminuição da mortalidade e um aumento da esperança média de vida (Campos, 2006). Tendo por base este contexto seria então de esperar uma diminuição do número de infectados, níveis de conhecimento razoáveis e baixos índices de preconceito face às pessoas infectadas. No entanto e indo ao encontro do que foi referido anteriormente, nem sempre todos os indivíduos estão inseridos numa sociedade plena em propagação de fontes de conhecimento e de acesso ao único método eficaz comprovado para o combate do VIH e outras IST (o preservativo). Os países asiáticos, por exemplo, parecem apresentar níveis de confiança bastante inferiores à Europa e América do Sul no que se refere ao conhecimento sobre como se proteger do VIH e outras IST (Durex, 2008). 2.2) Assimetrias de poder e variáveis psicológicas no uso de preservativo. Propostas de intervenção Por outro lado, há inúmeras hipotéticas razões para a não utilização do preservativo para além da lacuna informativa. Jovens canadianos destacaram o “não ter disponível” na altura da relação sexual, a “interferência”/incómodo na relação e, a terceira causa mais referida, o estar sob a influência de substâncias (o próprio ou o parceiro) (Poulin & Graham, 2001). Segundo o estudo nacional de Vilar e Ferreira (2008) na última relação sexual, 74% dos jovens afirmou ter usado preservativo e 50.1% indicou ter usado outro método independentemente de ser ou não em simultâneo com o preservativo. Dos que não usaram qualquer método contraceptivo, 29% afirmou que não usou porque não pensou nisso. Noutro estudo, “Não sei”, “Não tinha” e “Não pensei nisso” foram as respostas frequentes de um grupo de jovens latinos (Sneed et. al, 2001). Ainda no âmbito da utilização de métodos contraceptivos trata-se, uma vez mais, de uma área complexa onde se deve evitar negligenciar aspectos na raiz da decisão/motivação para a sua utilização. Processos cognitivos como as percepções do sujeito, a sua auto-eficácia, a motivação e capacidade para negociar a utilização de
C Co om mp po or rt ta am me en nt to os s d de e r ri is sc co o e em m a ad do ol le es sc ce en nt te es s p po or rt tu ug gu ue es se es s: : v va ar ri ia aç çõ õe es s e em m f fu un nç çã ão o d da a r re eg gi iã ão o e e d do o c co om mp po or rt ta am me en nt to o s se ex xu ua al l 11 métodos contraceptivos constituem elementos fundamentais para a compreensão global do comportamento sexual do indivíduo. A auto-eficácia, ou seja, a crença do indivíduo na sua capacidade para pôr em prática uma competência em particular, determina a quantidade e a amplitude do esforço que o sujeito irá investir em determinada tarefa (Bandura, 1986). A percepção é mais preponderante que a própria realidade e é a convicção do indivíduo nas suas próprias capacidades que vai incentivar a tomada de decisão de partir para a acção, o sentido da mesma, a persistência e a resistência à adversidade/obstáculos (Bandura, 1997). Assim, a adesão aos comportamentos protectores implica acima de tudo um sentido de competência intrínseco ao próprio sujeito. Goh, Primavera e Bartalini (2001) encontraram uma associação entre auto-eficácia, conhecimento auto percepcionado/medido e intenções relativas a comportamentos específicos de prevenção do VIH. Embora se tenham deparado com uma relativa consistência entre intenções e comportamentos preventivos (por exemplo entre a intenção de usar e a verdadeira utilização de preservativo) apelaram para o facto de se tratar de uma realidade complexa e multifacetada que sofre a influência de uma multiplicidade de factores. A associação entre intenção e comportamento (uso do preservativo) parece ser mais forte nas mulheres. Quer homens, quer mulheres avaliam como mais importante a intenção do parceiro usar este método contraceptivo do que a sua própria intenção ou apenas do elemento masculino da relação. A auto-eficácia parece ser a variável preditora do uso de preservativo para ambos os sexos (Visser & Smith, 2004). Importa referir que quando reflectimos sobre sexualidade e prevenção de IST nos centramos, tendencialmente, no processo individual de decisão. No entanto, o grau de compromisso pessoal na relação, a identidade interpessoal e os objectivos de manutenção do relacionamento são factores susceptíveis de influenciar o referido processo de decisão (Umphrey & Sherblom, 2007). No estudo destes autores foi patente que os indivíduos que apresentavam um elevado nível de compromisso na relação estavam menos dispostos a negociar a utilização de preservativo. No mesmo sentido, quem percepcionava este pedido/requisito como uma ameaça para os objectivos de manutenção da relação, estava menos permeável ao uso de preservativo. Assim, para além do papel de relevo da aquisição de conhecimentos e do desenvolvimento de competências, urge ter em conta que cada jovem irá equacionar as reacções e interpretações do parceiro (decorrentes da tentativa de negociação do uso de preservativo) antes de tomar a sua decisão. A utilização de estratégias criativas (que não ponham em questão a fidelidade ou envolvimento de ambos os parceiros) para convencer o parceiro a usar preservativo pode ser mais
C Co om mp po or rt ta am me en nt to os s d de e r ri is sc co o e em m a ad do ol le es sc ce en nt te es s p po or rt tu ug gu ue es se es s: : v va ar ri ia aç çõ õe es s e em m f fu un nç çã ão o d da a r re eg gi iã ão o e e d do o c co om mp po or rt ta am me en nt to o s se ex xu ua al l 12 eficaz no sentido de levar o homem a usar este método. Alguns exemplos são a utilização de preservativo para fins contraceptivos, para não agravar infecções ou por alergia ao esperma (Neighbors & O‟Leary, 2003). Na esfera sexual, o poder desponta como outro factor crucial para a mobilização de comportamentos protectores. No estudo de Pulerwitz et. al (2002) mulheres com elevados níveis de poder na relação tinham cinco vezes mais probabilidade de declararem usar preservativo de forma consistente: “quem detém o poder tem mais chance de garantir o uso do preservativo, como também de não aceitar o seu uso” (Vilella & Doreto, 2006, p. 2471). Neste sentido e fruto do crescente número de mulheres infectadas2 através de relações sexuais de carácter heterossexual, a capacidade da mulher negociar práticas sexuais seguras, especificamente no que concerne ao uso de preservativo, tornou-se uma componente vital das estratégias de prevenção no campo da saúde reprodutiva (Pulerwitz et al. 2002). São muitas vezes as próprias mulheres a apontar a necessidade de empowerment3: num grupo focal realizado com jovens australianas, estas avaliaram a ausência de conteúdos sobre negociação de relações sexuais seguras e consensuais, como uma lacuna na educação sexual (Powell, 2007). Crenças, mitos, receios podem efectivamente interferir de forma negativa na experiência sexual de cada um. No cômputo geral emergem também (no contexto mais amplo da idiossincrasia de cada indivíduo) as diferenças de género. Boer e Mashamba (2007) encontraram uma correlação positiva entre atitude em relação ao preservativo, auto-eficácia e intenção de uso de preservativo nas raparigas. Nos rapazes, em contraste, verificaram uma correlação positiva apenas entre atitude e normas subjectivas e uma relação negativa entre auto-eficácia e intenção do uso de preservativo. Num outro estudo qualitativo realizado com adolescentes na África do Sul (Morojele et al., 2006), os rapazes indicaram como motivos para a não utilização de preservativo a diminuição do prazer e a emergência de um estatuto positivo de “playboy” ou de “poderoso” a partir da adopção de comportamentos sexuais de risco. As raparigas justificaram os mesmos comportamentos pela tentativa de proporcionar prazer ao companheiro e pela incapacidade de refrear o assédio masculino temendo 2 O enfoque da tese no empowerment feminino constitui um próprio reflexo da revisão da literatura e é entendido como pertinente devido a alguns factores. Por um lado pela presença de imaturidade biológica cervical que na puberdade potencia o risco de IST nas adolescentes sexualmente activas (Cates, 1991). Por outro porque apesar de morrerem mais homens do que mulheres com VIH/SIDA, tem-se assistido, nos últimos anos, a um aumento significativo na mortalidade por VIH/SIDA nas mulheres e em especial na faixa etária com idade igual ou superior aos 65 anos (Campos, 2006). 3 A utilização da terminologia “empowerment” em detrimento de “empoderamento” constituiu uma opção, em virtude da utilização da última ainda ser controversa.
C Co om mp po or rt ta am me en nt to os s d de e r ri is sc co o e em m a ad do ol le es sc ce en nt te es s p po or rt tu ug gu ue es se es s: : v va ar ri ia aç çõ õe es s e em m f fu un nç çã ão o d da a r re eg gi iã ão o e e d do o c co om mp po or rt ta am me en nt to o s se ex xu ua al l 13 violência ou rejeição. Ambos referiram o sentido de invulnerabilidade ao VIH como potenciador da prática de comportamentos de risco. A inaptidão para percepcionar o risco está muitas vezes patente na distorção cognitiva. Exemplo disso é o resultado de um estudo com um grupo de adolescentes que se consideraram em risco, não pelos seus comportamentos, mas devido ao facto de qualquer um poder tornar-se seropositivo e pelo desconhecimento do estado de saúde do parceiro (Sneed et al., 2001). A percepção de custos elevados e algum cepticismo em relação à eficácia do preservativo assim como um elevado número de parceiros parecem ser factores que influenciam o uso consistente de preservativo (DiClemente et al., 1992). Quando nos debruçamos sobre a problemática do VIH, para além de emergir uma reflexão sobre comportamentos, torna-se imprescindível abordar a questão das atitudes. O preconceito e a discriminação de seropositivos parecem estar correlacionados negativamente com o conhecimento sobre VIH/SIDA. Num contexto extra-escolar (com jovens da Tanzânia) são os rapazes e os jovens das áreas urbanas que parecem apresentar mais conhecimentos na área do VIH provavelmente em virtude do seu maior acesso à educação (Bastien, 2008). “Então devemo-nos preocupar com a Educação” (Wiwanitkit, 2003, p.266). Curiosamente, a percepção de risco era superior nos rapazes mais novos e de meios rurais (Bastien, 2008). Nos Emirados Árabes onde, segundo o Islão, relações sexuais não maritais, homossexualidade e uso de drogas intravenosas são proibidos, 94% de uma amostra de universitários afirmou ser a favor da realização do teste pré-matrimonial ao VIH (Ganczak et al., 2007). 53% considerou que as pessoas infectadas com VIH deviam viver à parte da sociedade e apenas 27% da amostra concordou com a integração de crianças seropositivas no contexto escolar. No mesmo sentido de outros estudos, no cômpeto geral os conhecimentos eram baixos (sobretudo das raparigas) e as atitudes negativas (Ganczak et al., 2007). Com fundamento na revisão da literatura e na nossa experiência no âmbito da prevenção do VIH, julgamos que deveríamos assistir a uma mudança de paradigma como nos frisa o seguinte autor: “apesar do contínuo ênfase no debate público sobre os „perigos‟ associados à sexualidade juvenil – em termos de gravidez e doenças – o enfoque centra-se na prevenção dos receios emergentes e não no encorajamento de um diálogo aberto sobre sexualidade entre adultos e jovens” (Powell, 2007, p. 22). Se a informação per si não é suficiente para produzir mudança comportamental e de atitudes, por vezes pode ser contraproducente pelo facto de gerar pânico. Temos
C Co om mp po or rt ta am me en nt to os s d de e r ri is sc co o e em m a ad do ol le es sc ce en nt te es s p po or rt tu ug gu ue es se es s: : v va ar ri ia aç çõ õe es s e em m f fu un nç çã ão o d da a r re eg gi iã ão o e e d do o c co om mp po or rt ta am me en nt to o s se ex xu ua al l 14 exemplos constantes nos meios de comunicação que disponibilizam muitas vezes a informação de forma alarmista. Os programas de prevenção do VIH devem, entre outras funções, colmatar os défices dos jovens, recorrendo a conhecimentos científicos que combatam os mitos existentes, tendo como pilares o contexto escolar e os meios de comunicação (Wiwanitkit, 2003). Devem também reforçar a importância do respeito pela diferença e incidir particularmente na promoção das competências interpessoais, nomeadamente, na auto-eficácia. No domínio da prevenção do VIH, julgamos (pela literatura e experiência) ser extremamente importante a componente cognitiva, no sentido de fomentar a percepção de estar em risco (independentemente da existência de uma relação estável e da fidelidade, pelo nosso passado), regularmente ausente quer em adolescentes quer em adultos. Outro ponto a “desconstruir” é o mito de que apenas determinados grupos de risco devem fazer o teste, uma vez que, o que é o foco da questão é o comportamento e não o grupo.
C Co om mp po or rt ta am me en nt to os s d de e r ri is sc co o e em m a ad do ol le es sc ce en nt te es s p po or rt tu ug gu ue es se es s: : v va ar ri ia aç çõ õe es s e em m f fu un nç çã ão o d da a r re eg gi iã ão o e e d do o c co om mp po or rt ta am me en nt to o s se ex xu ua al l 15 Capítulo II – Comportamentos de risco e contexto escolar: fenómenos isolados e emparelhados. O papel da religião.
C Co om mp po or rt ta am me en nt to os s d de e r ri is sc co o e em m a ad do ol le es sc ce en nt te es s p po or rt tu ug gu ue es se es s: : v va ar ri ia aç çõ õe es s e em m f fu un nç çã ão o d da a r re eg gi iã ão o e e d do o c co om mp po or rt ta am me en nt to o s se ex xu ua al l 16 “O professor da Carolina enviou-nos uma mensagem apelidando a incessante provocação e bullying de que a Carolina era vítima na escola como normal, até natural, apenas uma parte do crescimento. Sugeriu, inclusive, que o bullying praticado por raparigas não era „nada de especial‟”. (Bright, 2005, p.97) 1. Violência entre pares – Bullying Há quatro décadas começou a esboçar-se, dentro do vasto panorama da violência, um conceito fortemente versado pela actualidade, o bullying. No entanto a prática remete a uma longa história, relativamente generalizada no espaço e no tempo (Aluedse, 2006; Jolliffe & Farrington, 2006). Apesar disso, o fenómeno parece ser uma realidade actual sobretudo nos países que mais se dedicam a investigá-lo: Estados Unidos, Reino Unido, Suécia e Noruega (Bright, 2005). A origem do conceito teve assim lugar na década de 70 na Escandinávia (Noruega e Suécia) fruto do pioneiro e sistematizado estudo de Dan Olweus (Aluedse, 2006; Gonçalves & Matos, 2007). Um dos principais distintivos do bullying consiste no facto de se tratar de uma dinâmica entre pares repetida no tempo e não de cariz esporádico (Olweus, 1993,1994). A definição mais comum versa a existência de um comportamento negativo intencional com o objectivo específico de magoar ou perturbar a homeostasia do outro. O agressor tem sempre mais poder que a vítima (Jolliffe & Farrington, 2006, Olweus, 1994). Nesta relação assimétrica o agressor apreende um aspecto que torne a vítima mais susceptível de ser fragilizada: ser alto, baixo, gordo, magro, ter uma doença, um atraso cognitivo, usar óculos, ser tímido, entre outros. Este comportamento leva à prostração da vítima que frequentemente é agredida, coagida a dar dinheiro e, em última instância, forçada a nível sexual. Aluedse (2006) define bullying como um desejo consciente de magoar o outro ou de lhe gerar stress, sendo o mesmo sustentado por situações reais ou pelo medo do que possa suceder. O provocador actua não só de forma consciente como premeditada, não agredindo espontânea e ocasionalmente, guiado pelo foro emocional, como reacção a uma frustração (Tomás de Almeida, 2007). Esta perspectiva é suportada por um estudo qualitativo que utilizou crianças entre os 8 e os 12 anos no sentido de perceber o seu ponto de vista sobre bullying (Bosacki, Marini & Dane, 2006). No mesmo, 70% dos participantes considerou que o agressor pensava em gerar tristeza na vítima (factores psicológicos) e 30% em ficar com o almoço da vítima (factores instrumentais). No entanto, quando questionados sobre o motivo da agressão, 70% mencionou a obtenção do dinheiro do almoço da vítima e 30% reportou-se a factores psicológicos como revolta/reacção ao facto de o agressor ser também vítima do irmão
C Co om mp po or rt ta am me en nt to os s d de e r ri is sc co o e em m a ad do ol le es sc ce en nt te es s p po or rt tu ug gu ue es se es s: : v va ar ri ia aç çõ õe es s e em m f fu un nç çã ão o d da a r re eg gi iã ão o e e d do o c co om mp po or rt ta am me en nt to o s se ex xu ua al l 17 ou por “raiva”. Segundo os autores, estas classificações (proactiva e reactiva) coadunam-se com a literatura (Bosacki, Marini & Dane, 2006). O bullying pode ocorrer de forma directa, como é o caso de bater (violência física), chamar nomes (violência psicológica/verbal) ou indirectamente como sucede quando há propagação de rumores ou se opta por ignorar sistematicamente alguém (violência psicológica) (Jolliffe & Farrington, 2006; Juvonen, Graham & Schuster, 2003). A perpetuação do papel de vítima e agressor leva a que ao longo do tempo se acentue ainda mais esta estrutura hierárquica, formando um ciclo vicioso. Vários estudos apontam para o facto (que também verificamos na realidade) de os rapazes se envolverem mais no bullying (em ambas as facções) do que as raparigas (Matos et. al, 2003; Matos et. al., 2006) e de formas diferentes (as raparigas tendem a exercer mais frequentemente o bullying indirecto) (Gonçalves & Matos, 2007; Jolliffe & Farrington, 2006; Smith, 2004). O bullying indirecto revê-se nos rumores, na exclusão, isolamento e discriminação, na manifestação de fúria, preponderância, ciúmes e invejas (Tomás de Almeida, 2007). Assim, não é razoável depreender que o bullying feminino seja menos violento do que o masculino, uma vez que, na realidade as agressoras femininas exercem uma pressão socialmente manipulativa e com menor visibilidade para os adultos (Bright, 2005). Nos Estados Unidos estima-se que cerca de uma em cada quatro crianças seja vítima de bullying e que uma em cada cinco se defina a si própria como agressora (Lumsden, 2002 cit in Whitted & Dupper, 2005). Embora o fenómeno do bullying seja cada vez mais protagonista do debate público-profissional em Portugal, a comparação entre os dados de 2002 e 2006 com uma amostra de representatividade nacional, revelou uma redução dos jovens que afirmam ter sido provocados várias vezes na escola (de 7.7% para 4.6%) e uma estabilização dos que mencionam ter provocado várias vezes (de 4% para 3%) (Matos et.al, 2006). Se é verdade que urge alguma relativização do que se pode tratar ou não desta forma de violência, também as consequências decorrentes da mesma podem ser bastante nefastas. “Há cada vez mais evidências que o bullying provoca efeitos perversos e profundos no ambiente de aprendizagem escolar” (Whitted & Dupper, 2005, p. 167). As vítimas de bullying podem vir a sofrer de problemas a nível emocional, académico e comportamental (Olweus, 1993) como baixa auto-estima, ansiedade e depressão, insegurança e solidão (Olweus, 1994; Bond et al. 2001). O colmatar deste processo de vitimação crónica pode residir numa tentativa de suicídio ou homicídio (Aluedse, 2006).
C Co om mp po or rt ta am me en nt to os s d de e r ri is sc co o e em m a ad do ol le es sc ce en nt te es s p po or rt tu ug gu ue es se es s: : v va ar ri ia aç çõ õe es s e em m f fu un nç çã ão o d da a r re eg gi iã ão o e e d do o c co om mp po or rt ta am me en nt to o s se ex xu ua al l 18 Uma possível explicação para o fenómeno (no que concerne aos agressores frequentes) consiste na existência de um défice de empatia por parte dos agressores em relação às vítimas, isto é, deparamo-nos, eventualmente, com uma incapacidade de compreensão da reacção emocional negativa que o seu comportamento provoca nas vítimas (Jolliffe & Farrington, 2006). Os agressores podem apresentar uma personalidade anti-social e dominante, assim como elevados níveis de agressividade (Olweus, 1993). Em Portugal os provocadores, quando comparados com os outros grupos (vítimas, agressores/vítimas e jovens sem envolvimento), parecem ter melhores relações com os seus pares. Parecem, também, consumir mais álcool, tabaco e outras drogas do que os jovens sem qualquer envolvimento com bullying e apresentar uma atitude menos positiva em relação à escola do que as vítimas (Matos et al., 2003). Este perfil conflui na perspectiva de que os provocadores são muitas vezes populares, independentemente de o serem por admiração ou por receio da parte dos observadores e restantes pares. Cabe ter presente o facto de que quando emergiram os primeiros estudos sobre esta forma de violência, o enfoque residia no perfil comportamental dos indivíduos e que só a partir da década de 1990, com os estudos de Salmivalli, se valorizou a perspectiva sistémica (Tomás de Almeida, 2007). Efectivamente, embora se trate de uma agressão centrada na vítima e no agressor convenciona fenómenos de grupo (hierarquias, assimetrias e homogeneidades) que devem ser contextualizados socialmente. Podem existir outros sinais, no comportamento individual, familiar ou social que, necessariamente, promovem ou decorrem do bullying. Em Portugal, os provocadores, por exemplo, parecem adoptar, mais vezes, comportamentos de risco. As vítimas, por seu turno, parecem consumir menos substâncias e praticar mais exercício físico. Contudo, são as que apresentam piores relacionamentos com os pares, mais sintomas físicos, psicológicos e de depressão. O duplo envolvimento é o pior cenário com mais factores de risco (Matos et al., 2003). À semelhança da sexualidade, a violência edifica-se numa teia de dinâmicas interpessoais e sociais sendo, no entanto, mediada cognitivamente. A interpretação que o sujeito infere de determinada situação, assim como, a aprendizagem do uso da violência como mecanismo de resposta socialmente aceitável, podem desempenhar um papel fulcral nas dinâmicas da violência. Segundo Tomás de Almeida (2007), Dodge (1986) identifica défices de processamento (como a hipervigilância a sinais negativos) como alicerces da agressão. Autores mais recentes preconizam que os
C Co om mp po or rt ta am me en nt to os s d de e r ri is sc co o e em m a ad do ol le es sc ce en nt te es s p po or rt tu ug gu ue es se es s: : v va ar ri ia aç çõ õe es s e em m f fu un nç çã ão o d da a r re eg gi iã ão o e e d do o c co om mp po or rt ta am me en nt to o s se ex xu ua al l 19 agressores manipulam, pela compreensão da mente e a seu favor, a posição do grupo. Outros autores equacionam a hipótese de uma vertente sádica, pelo facto de alguns agressores parecerem experienciar uma excitação emocional positiva (adrenalina). Esta perspectiva tem por base desenhos de 82 crianças canadinas, das quais 78% desenhou (na representação de uma situação de bullying) o agressor a sorrir (Bosacki, Marini & Dane, 2006). Curiosamente, estas representações através do desenho eram constituídas, na maioria, apenas pelo agressor e pela vítima que em geral era mais pequena que o primeiro. 2. Consumo de álcool O consumo ocasional de substâncias constitui um hábito cada vez mais generalizado e enraizado nas sociedades actuais. Esta perspectiva de banalização dos consumos levou, inclusive, à concepção de que o uso de substâncias seja equiparável a uma “norma cultural” (Marlatt, 1998). Esta óptica é particularmente relevante no que diz respeito ao consumo de álcool patente na aprovação e incentivo da sociedade, para além do consumo solitário, uma espécie de lenitivo, beber pode ser ainda um acto social. Embora o consumo de álcool seja relativamente transversal às diversas gerações, a adolescência representa a fase mais propícia para beber num contexto de pressão dos pares (D‟Amico & McCarthy, 2006). Exemplo disso é o fenómeno designado de binge-drinking, consumo muito elevado de álcool numa dada ocasião, estar associado no nosso país a um perfil que corresponde a jovens rapazes com idades compreendidas entre os 15 e os 24 anos (Santana & Negreiros, 2008). O perfil do adolescente português revê-se num consumo regular de álcool associado aos períodos de saídas à noite. (Mendes & Lopes, 2007). Por outro lado vários estudos apontam para diferenças de género no que respeita ao tipo de bebidas ingeridas. Para além de no geral consumirem mais, os rapazes bebem mais cerveja e bebidas brancas ao passo que as raparigas optam apenas pelas últimas (Feijão & Lavado, 2006; Matos et. al, 2006; Mendes & Lopes, 2007). O álcool foi referido como a substância consumida (95,10%) por um grupo de universitários de Coimbra que será novamente referido adiante (Lomba et al. 2008). Não obstante a propensão dos jovens para consumirem, um estudo evolutivo sobre consumos indica que apesar de ter aumentado o número de consumidores de álcool entre os jovens portugueses do 3º ciclo de 1989 para 2001, actualmente parece estar estabilizado. No caso dos alunos do secundário, o consumo de álcool (de 1995 a
C Co om mp po or rt ta am me en nt to os s d de e r ri is sc co o e em m a ad do ol le es sc ce en nt te es s p po or rt tu ug gu ue es se es s: : v va ar ri ia aç çõ õe es s e em m f fu un nç çã ão o d da a r re eg gi iã ão o e e d do o c co om mp po or rt ta am me en nt to o s se ex xu ua al l 26 parecem assemelhar-se mais aos pares não religiosos (Visser et al., 2007). Podemos equacionar a possibilidade de existir uma forte relação entre atitudes e comportamentos sexuais e religião não descurando que a mesma depende do tipo de religião, do grau de envolvimento e do comportamento ou atitude em questão. O controlo social pela via da instrução de padrões ideais parece ser um elemento-chave para a compreensão da relação que se esboça (Hardy & Raffaelli, 2003; Meier, 2003; Rostsoky et al., 2003; Visser et al., 2007). O discurso religioso assente na dicotomia pecado/reprodução proclama um código sexual baseado no medo do corpo, dando origem a um sentimento individual que deve ser normatizado na inter-relação social (Reis & Vilar, 2004). Neste estudo foi encontrada uma associação negativa significativa entre o grau de religiosidade (de professores portugueses) e o sentimento de conforto para abordar temas de sexualidade. O receio do incentivo de determinados comportamentos de risco através da Educação Sexual determina a posição negativa da igreja no que respeita à prevenção de VIH (Ganczak et al., 2007). É interessante constatar que também a capacidade ser sexualmente assertivo (no sentido de debater/partilhar assuntos sexuais e de questionar o parceiro sobre o seu percurso sexual passado) parece estar associada, em jovens universitárias americanas, a uma menor probabilidade de estar sob a influência de álcool ou de outras substâncias. A componente cognitiva parece desempenhar um papel fulcral, uma vez que, estas jovens baseavam fundamentalmente as suas decisões nos próprios pensamentos e objectivos, revelando uma maior satisfação sexual psicológica (Moore & Davidson, 2000). Os jovens que iniciam a sua vida sexual mais precocemente parecem ser menos assertivos na comunicação sexual e apresentar índices mais baixos de auto-eficácia em relação ao uso de preservativo (Shercliffe et al., 2007) o que permite ponderar a hipótese de que a iniciação sexual precoce se possa constituir como factor de risco. Não será contudo simples chegar a um consenso sobre o que se pode considerar como iniciação precoce. Os contextos são, de facto, panos de fundo cruciais para a manifestação de determinados comportamentos. Para além do âmbito religioso, a escola emerge como reflexo e condicionador de sentimentos, atitudes e comportamentos. No estudo de Gonçalves e Matos (2007), as autoras propuseram-se a analisar possíveis variáveis preditoras dos comportamentos de bullying tendo encontrado que a percepção de uma maior sensação de insegurança na escola parece aumentar os relatos de ser vítima de bullying e de perturbar os colegas. Outro resultado apresentado foi o de que os alunos que mais afirmavam transportar armas também consumiam mais álcool. A
C Co om mp po or rt ta am me en nt to os s d de e r ri is sc co o e em m a ad do ol le es sc ce en nt te es s p po or rt tu ug gu ue es se es s: : v va ar ri ia aç çõ õe es s e em m f fu un nç çã ão o d da a r re eg gi iã ão o e e d do o c co om mp po or rt ta am me en nt to o s se ex xu ua al l 27 covariação/covariância de problemas comportamentais pode reflectir uma tendência transversal a vários domínios e que pode, por vezes, estar relacionada com uma “má adaptação à vida escolar” (Takakura et al., 2001, p. 28). O comportamento violento também pode estar acoplado a outros problemas. Segundo um estudo americano de ampla escala, uma maior propensão para ser vítima (feminina) de violência no namoro parece estar associada ao consumo de substâncias (álcool, tabaco e cocaína), a ter relações sexuais desprotegidas e com diversos parceiros assim como a um maior envolvimento em lutas e porte de arma por parte da vítima (Howard, Wang &Yan, 2007). Estar exposto a situações de violência na comunidade (presenciar) parece relacionar-se com um conjunto vasto de comportamentos de risco nomeadamente, a um maior consumo de álcool, a um menor uso de preservativo na última relação sexual e ao uso de substâncias (o próprio ou o parceiro) associado às relações sexuais. Os autores reflectem ainda sobre o interessante facto de que as drogas em questão são depressoras, não tendo sido encontradas associações com drogas estimulantes (Voisin et al., 2007). A investigação em Portugal contribui para a crença de que o insucesso e inadaptação escolar possam contribuir para a ocorrência de agressão entre pares (Tomás de Almeida, 2007).
C Co om mp po or rt ta am me en nt to os s d de e r ri is sc co o e em m a ad do ol le es sc ce en nt te es s p po or rt tu ug gu ue es se es s: : v va ar ri ia aç çõ õe es s e em m f fu un nç çã ão o d da a r re eg gi iã ão o e e d do o c co om mp po or rt ta am me en nt to o s se ex xu ua al l 28 Capítulo III – O contexto cultural português
C Co om mp po or rt ta am me en nt to os s d de e r ri is sc co o e em m a ad do ol le es sc ce en nt te es s p po or rt tu ug gu ue es se es s: : v va ar ri ia aç çõ õe es s e em m f fu un nç çã ão o d da a r re eg gi iã ão o e e d do o c co om mp po or rt ta am me en nt to o s se ex xu ua al l 29 1. Contexto escolar, sexualidade, consumos e violência em Portugal: sub-culturas regionais? Nos capítulos anteriores foram citados resultados e reflexões provenientes de diversos países e continentes que coadjuvam a compreender similitudes e contrastes das sociedades e dos indivíduos. A sociedade contemporânea reflecte um conjunto de céleres mutações com repercussão na vivência e nos comportamentos dos jovens. Essas poder-se-ão sintetizar em seis eixos: a individualização, a ruptura com a tradição, a crise de confiança, a intensificação da insegurança percebida e o défice de sentido de comunidade e, a assimilação do incalculável pelo calculável (Coimbra & Menezes, 2009). No âmbito dos comportamentos de risco é particularmente importante o eixo da ruptura com a tradição, pelo facto de se rever na descontinuidade geracional em relação aos modos de socialização. Os jovens parecem não se confrontar com os progenitores e o processo de autonomia sofreu alterações drásticas (Coimbra, 2009). Também a alteração do sentido de vida em comunidade e a emergência de novas estruturações das redes sociais (Putnam, 2000) deve exercer influência na adopção de comportamentos de risco ou de saúde. No que concerne à associação entre comportamentos de risco, a co-ocorrência dos mesmos na adolescência parece ter características particulares que revelam alguma determinação cultural (Viner et al., 2006). Neste sentido, a principal lente de referência deste trabalho prende-se com o modelo bioecológico de Brofenbrenner (1979; 2001) que reconhece, simultaneamente, a relevância da base biológica dos indivíduos (assim como os seus recursos e capacidades) sem descurar a componente ambiental e a interacção entre os dois (pessoas e contextos). Este modelo dinâmico e sistémico preconiza que, para o desenvolvimento humano ocorrer, urge o processo de interacção com o ambiente pautado pela componente activa do sujeito. O indivíduo influencia e é influenciado pelo contexto tendo por base o condicionamento temporal. Esta perspectiva tem estado subjacente à definição dos conceitos anteriores como a sexualidade ou o consumo de álcool. Para compreender estes comportamentos é necessário contextualizá-los numa época e aceitar a idiossincrasia individual. No entanto, um dos principais objectivos desta tese é compreender o impacto do contexto cultural como factor de protecção ou de risco. A região do país (macrossitema) poderá exercer uma influência directa ou indirecta, através dos microssistemas (pares, família). O litoral e o interior, o norte e o sul, as regiões, a capital e o resto do país constituem dualidades interessantes que cingem e incitam determinados comportamentos e atitudes. Alguns dados socio-económicos
C Co om mp po or rt ta am me en nt to os s d de e r ri is sc co o e em m a ad do ol le es sc ce en nt te es s p po or rt tu ug gu ue es se es s: : v va ar ri ia aç çõ õe es s e em m f fu un nç çã ão o d da a r re eg gi iã ão o e e d do o c co om mp po or rt ta am me en nt to o s se ex xu ua al l 30 (macrossistémicos) podem ser pertinentes para a construção de um esboço da realidade que caracteriza a Região do Norte e que legitimam a escolha desta região para ser comparada com o resto do país. Numa perspectiva de cariz social, o relatório mais recente do Ministério da Administração Interna (2008) no âmbito da Violência Doméstica revela que a taxa média de incidência das participações em Portugal Continental se situa em 1,44 por mil habitantes. O mesmo relatório salienta que as comarcas de Sintra, Porto e São João da Madeira são as que apresentam as taxas mais elevadas do país. O despontar destas dissemelhanças parece ainda não ter sido fruto de uma investigação que permita descortinar se esta diferença se prende com questões geográficas ou pessoais. Numa perspectiva económica mas com amplas repercussões psicossociais, as taxas de desemprego por região (INE, 2008) revelam que pelo menos desde o último trimestre de 2007, a Região do Norte a par da região de Lisboa lideram os índices de desemprego. Esta conjuntura pode ter implicações a nível educacional, moral e comportamental. Também a dimensão religiosa (mais estudada pela ciência) pode constituir um factor desencadeante de algumas discrepâncias que se irão reflectir nas atitudes e comportamentos dos jovens nos vários âmbitos (comportamentos de risco, sexualidade, etc...). A sexualidade, por exemplo, é uma dimensão crucial na nossa vida mas pode estar absorta num manancial de mitos, desequilíbrios e omissões. O contexto influencia bastante esta dimensão, nomeadamente no que diz respeito aos conhecimentos, ao nível do conforto para debater determinadas situações e dúvidas (com os parceiros ou terceiros) e a religião pode interferir de forma crucial nestas construções pessoais e colectivas. A tradição judaico-cristã e a sua meta narrativa preconizam a ideia de sofrimento na vida com o intuito de merecer o prazer póstumo e, a religião apresenta uma forte componente trágica de auto-sacríficio (Coimbra, 2009). Um estudo recente (Marktest, 2005) indica que cinco milhões de portugueses são religiosos (praticantes) salientando-se que, destes, 59.6% são mulheres, 55.7% têm mais de 44 anos, 64.5% pertencem às classes sociais média baixa ou baixa, 50.8% são reformados, domésticas ou trabalhadores não qualificados e que 55% residem nas regiões do litoral norte ou interior norte. Estes indicadores perspectivados sob uma óptica mais alargada, que contemple as questões do desemprego e da violência, podem sugerir que é na Região do Norte que há menos trabalhadores qualificados, consequentemente mais desemprego e por sua vez mais problemas sociais. Também poderá ser na Região do Norte que a religião tenha mais impacto. Será, desta forma, expectável que os jovens desta região se definam mais religiosos e que apresentem um perfil de conhecimentos, atitudes e comportamentos distintos do
C Co om mp po or rt ta am me en nt to os s d de e r ri is sc co o e em m a ad do ol le es sc ce en nt te es s p po or rt tu ug gu ue es se es s: : v va ar ri ia aç çõ õe es s e em m f fu un nç çã ão o d da a r re eg gi iã ão o e e d do o c co om mp po or rt ta am me en nt to o s se ex xu ua al l 31 resto do país sem que seja possível definir uma causalidade entre as diversas variáveis. A Região do Norte é a mais populosa do país e a que concentra, tradicionalmente, a indústria recorrendo a mão-de-obra pouco especializada. Na actualidade, tem-se vindo a assistir à deslocalização das empresas o que contribui, em larga escala, para elevar os índices de desemprego. O PIB per capita (Produto Interno Bruto) da Região do Norte é um dos mais baixos do país, sendo essa Região “penalizada pelo Efeito Estrutura Sectorial e reflectindo o elevado peso da agricultura e de alguns sectores industriais tradicionais no emprego desta região” (Ramos & Rodrigues, 2001, p. 11). O abandondo precoce da escola também é superior nesta Região (Caetano, 2005). Não obstante a emergência destas hipóteses, urge ter em conta que nem sempre se confirmam as mesmas que não raramente reflectem os nossos estereótipos. Dos estudos existentes que realçam a variável regional, por exemplo, a nível do consumo de álcool, os jovens de Lisboa parecem consumir mais bebidas alcoólicas que os jovens da Beira Interior (Mendes & Lopes, 2007). Este dado pode contrariar a ideia de que no Interior se consome mais (de forma isolada). Em suma, o presente estudo tem como objectivo principal “revitalizar” dados representativos dos adolescentes portugueses, evidenciando as seguintes dimensões: sexualidade, comportamentos de risco (consumo de álcool, bullying) e ambiente escolar. Pretendeu-se compreender a sexualidade “em números”, no que concerne à idade da primeira relação sexual e à utilização do preservativo e, “em palavras” no que diz respeito a quem constitui a rede de apoio destes jovens (para esclarecimento de dúvidas) e ao poder de negociação de uma vivência sexual aprazível e segura. Pela proeminência do VIH na sociedade actual e por interesse pessoal, estipulou-se como objectivo perceber quais os conhecimentos dos adolescentes portugueses sobre as formas de transmissão do VIH e quais as principais fontes de onde advém essa informação. Também se pretendeu avaliar atitudes e preconceitos em relação aos seropositivos. No âmbito deste contexto perspectiva-se o conhecimento das percepções subjectivas de capacidade académica, da pressão com trabalhos de casa (TPC) e do sentimento em relação à escola. Os consumos e a violência devem ser mensurados a partir da frequência destes comportamentos. O aspecto inovador do tratamento dos dados prendeu-se com o objectivo de perceber se todas estas variáveis estavam interligadas à variável socio-demográfica “Região do país” e à iniciação de relações sexuais.
C Co om mp po or rt ta am me en nt to os s d de e r ri is sc co o e em m a ad do ol le es sc ce en nt te es s p po or rt tu ug gu ue es se es s: : v va ar ri ia aç çõ õe es s e em m f fu un nç çã ão o d da a r re eg gi iã ão o e e d do o c co om mp po or rt ta am me en nt to o s se ex xu ua al l 32 Capítulo IV – Estudo empírico: Conhecimentos, atitudes e comportamentos de risco nos jovens Portugueses do 10º ano segundo a iniciação sexual e a Região do país.
C Co om mp po or rt ta am me en nt to os s d de e r ri is sc co o e em m a ad do ol le es sc ce en nt te es s p po or rt tu ug gu ue es se es s: : v va ar ri ia aç çõ õe es s e em m f fu un nç çã ão o d da a r re eg gi iã ão o e e d do o c co om mp po or rt ta am me en nt to o s se ex xu ua al l 33 1. Introdução O seguinte estudo foi elaborado com base em dados quantitativos referentes ao estudo Health Behaviour in School-aged Children (HBSC/OMS) de 2002. Não obstante o facto de ser uma amostra recolhida e tratada previamente ao nosso estudo, julgamos ser uma boa prática científica a reutilização de amostras pré-existentes sobretudo sendo elas representativas (a nível nacional) de um determinado grupo etário. Para além disso realizaram-se novos procedimentos estatísticos no sentido de aferir outras hipóteses ainda por explorar. As principais questões orientadoras da presente investigação são as seguintes: 1) Existem diferenças entre os alunos do 10º ano da Região do Norte e do resto do país no que concerne aos seguintes itens: (a) Sexualidade (início das relações sexuais, utilização do preservativo, comunicação e negociação com o parceiro); (b) Conhecimentos e atitudes no âmbito do VIH/SIDA (modos de transmissão, fontes de conhecimento e nível de preconceito); (c) Consumo de álcool; (d) Violência entre pares (provocador, vítima e duplo envolvimento); (e) Adaptação ao contexto escolar (pressão com trabalhos de casa [TPC] sentimento de segurança, avaliação da percepção dos professores sobre as suas capacidades)? 2) Existem diferenças entre os alunos do 10º ano que já iniciaram a actividade sexual e os que ainda não iniciaram, no que concerne aos itens referidos das alíneas 1(a) à 1 (e) ? Perante estas questões e tendo em conta a revisão da literatura, são expectáveis as seguintes hipóteses: 1) Que os alunos do Norte apresentem menos comportamentos de risco, funcionando como factores de protecção a não iniciação da vida sexual e uma maior adaptação escolar por ser uma região tradicionalmente mais religiosa. 2) Espera-se que não existam diferenças nos conhecimentos e atitudes sobre VIH/SIDA entre os jovens do Norte e os do Resto do país. Espera-se encontrar diferenças nas fontes de conhecimento em que os jovens do Norte recorram mais à religião. 3) Que os alunos que ainda não tiveram relações sexuais apresentem menos comportamentos de risco e uma melhor adaptação escolar (factor de protecção).
C Co om mp po or rt ta am me en nt to os s d de e r ri is sc co o e em m a ad do ol le es sc ce en nt te es s p po or rt tu ug gu ue es se es s: : v va ar ri ia aç çõ õe es s e em m f fu un nç çã ão o d da a r re eg gi iã ão o e e d do o c co om mp po or rt ta am me en nt to o s se ex xu ua al l 34 4) Espera-se que os alunos que já tenham tido relações sexuais, apesar de terem uma maior propensão para o risco, se sintam mais à vontade para comunicar e negociar com o parceiro e que tenham mais conhecimentos sobre VIH/SIDA e menos preconceitos (factores de protecção). 2. Método 2.1 Participantes A seguinte análise de dados quantitativos foi elaborada com base numa amostra parcial do estudo HBSC 2002. A mesma foi constituída de forma aleatória tendo representatividade nacional para os jovens que frequentam o 6º, 8º e 10º anos de escolaridade no ensino público. A amostra utilizada pelo estudo HBSC 2002 foi constituída por 6131 alunos, frequentando os 6º, 8º e 10º anos de escolaridade do ensino público, em Portugal Continental, sendo que, no presente estudo, nos vamos cingir aos alunos do 10º ano (1581). Os grupos de idade foram escolhidos de acordo com os critérios do protocolo internacional (Currie et al., 2000; 2004) no sentido de representar diferentes fases da adolescência: 11 anos – desafio das mudanças físicas e emocionais; 13 anos – idade intermédia em que são importantes as decisões de vida e de carreira que vão ser tomadas à idade dos 15 anos. A selecção dos alunos do 10º ano justifica-se pelo facto de nos centrarmos em questões de foro sexual às quais no estudo original apenas responderam os alunos do 8º e 10º anos. A amostra inicial foi também estratificada, proporcionalmente, pelas cinco Regiões do Continente (Norte, Centro, Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo, Algarve) pelos autores do estudo HBSC 2002, tendo sido recodificada no presente estudo em duas Regiões (Norte e resto do país). 2.2. Medida e recolha de dados 2.2.1. Instrumento de medida O presente estudo utilizou, como instrumento, um questionário retirado do Estudo HBSC/OMS (Health Behaviour in School-aged Children). Este último é um estudo colaborativo da Organização Mundial de Saúde que tem por propósito percepcionar os estilos de vida dos adolescentes e os seus comportamentos nos
C Co om mp po or rt ta am me en nt to os s d de e r ri is sc co o e em m a ad do ol le es sc ce en nt te es s p po or rt tu ug gu ue es se es s: : v va ar ri ia aç çõ õe es s e em m f fu un nç çã ão o d da a r re eg gi iã ão o e e d do o c co om mp po or rt ta am me en nt to o s se ex xu ua al l 35 vários âmbitos das suas vidas. Iniciou-se em 1982 com investigadores de três países (Finlândia, Noruega e Inglaterra) tendo sido, pouco tempo depois, adoptado pela OMS, como um estudo colaborativo. Actualmente a rede é constituída por 44 países, entre os quais Portugal, integrado desde 1996 e membro associado desde 1998 (Currie, Samdal, Boyce & Smith, 2001). Os objectivos do HBSC prendem-se com a compreensão dos comportamentos de saúde dos adolescentes, dos seus estilos de vida e dos seus contextos sociais. Podem sintetizar-se da seguinte forma: (a) iniciar e manter uma pesquisa nacional e internacional sobre os comportamentos de saúde e contextos sociais nos adolescentes em idade escolar; (b) contribuir para o desenvolvimento teórico, conceptual e metodológico em áreas de pesquisa dos comportamentos de saúde e do contexto social da saúde nos adolescentes; (c) recolher dados relevantes que contribuam para ajudar a monitorizar a saúde e os comportamentos de saúde nos adolescentes dos países membros; (d) fazer a ligação com os objectivos da OMS, especialmente na monitorização dos objectivos principais do HEALTH 21, no que respeita os comportamentos de saúde dos adolescentes; (e) apoiar o desenvolvimento da promoção da saúde dos adolescentes em idade escolar; (f) promover e apoiar os peritos nacionais bem como estabelecer e fortalecer uma rede de peritos internacionais nesta área. O estudo HBSC criou e mantém uma rede internacional dinâmica nesta área da saúde dos adolescentes. Esta rede permite que cada um dos países membros contribua e adquira conhecimento com a colaboração e troca de experiências com os outros países participantes. O questionário internacional, para o estudo HBSC, é desenvolvido através de uma investigação cooperativa entre os investigadores dos países. Como é habitual em estudos de cariz internacional, os países membros do HBSC têm de respeitar um protocolo de pesquisa e procedimentos comuns (Currie, Samdal, Boyce & Smith, 2001). Portugal realizou um primeiro estudo-piloto em 1994 (Matos et al., 2000); o primeiro estudo nacional foi realizado em 1998 (Matos et al., 2000), o segundo em 2002 (Matos et al., 2003), e o terceiro em 2006 (Matos et al., 2006). O instrumento utilizado é um questionário de auto-preenchimento intitulado “Comportamento e Saúde em Adolescentes em Idade Escolar”. Trata-se de uma adaptação portuguesa do Health Behaviour of School Aged-Children (Currie et al., 2001), efectuada pela equipa do projecto Aventura Social (Matos et al., 2003). Este instrumento engloba variáveis macrossociais de controle (idade, género, estatuto
C Co om mp po or rt ta am me en nt to os s d de e r ri is sc co o e em m a ad do ol le es sc ce en nt te es s p po or rt tu ug gu ue es se es s: : v va ar ri ia aç çõ õe es s e em m f fu un nç çã ão o d da a r re eg gi iã ão o e e d do o c co om mp po or rt ta am me en nt to o s se ex xu ua al l 42 000).. Os inquiridos que indicam já ter tido relações sexuais situam-se dentro dos jovens que mais afirmam “não gostar muito” e “não gostar nada” da escola (40.4%). Já os que ainda não tiveram expressam mais habitualmente “gostar um pouco” e “gostar muito da escola” (76.8%). Em relação à percepção do sentimento de segurança na escola, também se verificaram diferenças estatisticamente significativas (χ² (4) = 31,988; p =. 000). em que os alunos que já iniciaram a sua vida sexual mencionam mais vezes “raramente” ou “nunca” se sentirem seguros na escola (11.4%) e os que ainda não iniciaram afirmam mais vezes sentirem-se “frequentemente” seguros neste contexto (37.5%). Os alunos que nunca tiveram relações sexuais parecem sentir mais pressão com os trabalhos de casa (48.6% “alguma”) do que os que já tiveram (“nenhuma” 17.8%); (χ² (3) = 21,452; p =. 000). Ao nível dos conhecimentos e mitos sobre as formas de transmissão do VIH/SIDA, constataram-se diferenças significativas (em relação a quem iniciou ou não a vida sexual) apenas na hipótese da via tosse/espirro (χ² (2) = 8,623; p =. 013). Quem já teve relações sexuais mostra mais vezes dúvida em relação à premissa (“não sei” 20.4%), ao passo que, os jovens que ainda não tiveram relações sexuais estão, mais vezes, acertadamente seguros (“não” 78.2%). No plano das atitudes, os alunos que tiveram relações sexuais patenteiam mais preconceitos em relação aos indivíduos infectados com VIH, discordando mais vezes parcial e totalmente da hipótese de visitarem um amigo infectado com VIH/SIDA (3.9%); (χ² (4) = 13,961; p =. 007). Ter tido relações sexuais parece potenciar o grau de à vontade para falar com os pares sobre SIDA (χ² (4) = 24,253; p =. 000). Quem já teve relações sexuais está mais vezes “muito à vontade” para conversar com pessoas da mesma idade sobre SIDA (67.2%) em oposição aos adolescentes que ainda não tiveram relações sexuais e que parecem estar menos à vontade para abordar esta temática com os seus pares (“pouco à vontade” 4%). Quem teve relações sexuais parece estar mais predisposto a socorrer-se de fontes presenciais como o médico de família (37.2%). Em contraste, quem ainda não teve relações sexuais indica mais frequentemente que “talvez” recorresse ao médico de família para aprender mais ou esclarecer dúvidas sobre o VIH/SIDA (37.6%); (χ² (2) = 12,090; p =. 002). Apesar de as diferenças serem menos significativas, a hipótese de apelar a um centro de saúde segue exactamente a mesma tendência da hipótese do médico de família (χ² (2) = 6,959; p =. 031). Por outro lado, os adolescentes que ainda não tiveram relações sexuais mantêm a incerteza em relação à possibilidade de ouvir um programa de rádio sobre VIH/SIDA para aprenderem mais ou para se
C Co om mp po or rt ta am me en nt to os s d de e r ri is sc co o e em m a ad do ol le es sc ce en nt te es s p po or rt tu ug gu ue es se es s: : v va ar ri ia aç çõ õe es s e em m f fu un nç çã ão o d da a r re eg gi iã ão o e e d do o c co om mp po or rt ta am me en nt to o s se ex xu ua al l 43 tranquilizarem em relação a alguma preocupação (33.4%). Os jovens que já tiveram recusam de forma mais determinante a possibilidade de o rádio constituir uma fonte de informação nesta matéria (27.8%); (χ² (2) = 7,156; p =. 028). A Internet é mais vezes referida como potencial fonte de conhecimento e esclarecimento sobre VIH/SIDA pelos jovens que ainda não tiveram relações sexuais (56.4%) ao passo que os que já tiveram voltam a recusar essa possibilidade (23.1%); (χ² (2) = 8,534; p =. 014). Extremamente significativa é a diferença entre os adolescentes que já e os que ainda não tiveram relações sexuais no que respeita à possibilidade de falar com o/a namorado/a para atenuar uma preocupação ou obter informação acerca do VIH/SIDA (χ² (2) = 46,650; p =. 000). Assim, os jovens que já tiveram relações sexuais assumem mais vezes o parceiro como hipotética fonte de informação (73.3%); os que ainda não tiveram apresentam maiores dúvidas sobre se recorreriam ou não (28%). Comparando a variável ter tido relações sexuais com a variável região foram encontradas diferenças bastante significativas (χ² (1) = 18,106; p =. 000) sendo que no Norte do país há mais jovens do 10º ano que ainda não iniciaram a sua vida sexual (e no resto do país, pelo contrário, há mais adolescentes que já tiveram relações sexuais. Quadro 20 - Síntese das principais diferenças significativas na comparação entre os alunos que já tiveram e ainda não tiveram relações sexuais Relações Sexuais Iniciou (N= 440, 28.2%) Não iniciou (N= 1118, 71.8%) __________________________________________________ N % N % χ² Freq. de embriaguez: Nunca 149 34.3 767 69.2 Uma vez 88 20.2 169 15.2 2-3 vezes 86 19.8 118 10.6 216.500*** 4-10 vezes 60 13.8 37 3.3 Mais de 10 52 12.0 18 1.6 Freq. de envolvimento em lutas (últimos 12 meses): Nunca 300 69.0 942 84.9 1 vez 65 14.9 104 9.4 2 vezes 27 6.2 38 3.4 64.559*** 3 vezes 14 3.2 10 .9 4 vezes ou mais 29 6.7 16 1.4 Freq. de provocação(últimos 12 meses): Nunca 276 63.0 818 73.5 1-2 vezes 97 22.1 234 21.0 2-3 vezes/mês 18 4.1 26 2.3 54.204*** 1 vez/semana 9 2.1 18 1.6 Várias vezes/semana 38 8.7 17 1.5 Percepção da avaliação dos professores sobre a capacidade escolar: Muito boa 20 4.6 61 5.5 Boa 113 25.9 363 32.6 21.052*** Média 261 59.7 640 57.5 Inferior à média 43 9.8 49 4.4
C Co om mp po or rt ta am me en nt to os s d de e r ri is sc co o e em m a ad do ol le es sc ce en nt te es s p po or rt tu ug gu ue es se es s: : v va ar ri ia aç çõ õe es s e em m f fu un nç çã ão o d da a r re eg gi iã ão o e e d do o c co om mp po or rt ta am me en nt to o s se ex xu ua al l 44 Sentimento em relação à escola: Gosto muito 57 13.0 221 19.8 Gosto um pouco 205 46.7 635 57.0 47.283*** Não gosto muito 121 27.6 181 16.2 Não gosto nada 56 12.8 78 7.0 Segurança na escola: Sempre 165 37.6 370 33.1 Frequentemente 119 27.1 419 37.5 31.988*** Ás vezes 105 23.9 272 24.4 Raramente 26 5.9 35 3.1 Nunca 24 5.5 31 1.9 Pressão c/ TPC: Nenhuma 78 17.8 122 10.9 Um pouco 126 28.8 295 26.5 21.452*** Alguma 164 37.5 542 48.6 Muita 69 15.8 156 14.0 Transmissão do VIH pela tosse/espirro: Sim 37 8.5 76 6.9 Não 311 71.2 866 78.2 8.623** Não sei 89 20.4 166 15.0 Visitar amigo infectado c/ VIH: Concordo totalmente 276 63.4 706 63.8 Concordo 111 25.5 304 27.5 13.961** Não tenho a certeza 31 7.1 79 7.1 Discordo 6 1.4 1 .1 Discordo totalmente 11 2.5 16 1.4 Conversar c/ pares sobre SIDA: Muito à vontade 293 67.2 599 54.3 À vontade 130 29.8 437 39.6 24.253*** Pouco à vontade 6 1.4 44 4.0 Nada à vontade 3 .7 9 .8 Não falo c/ eles sobre isso 4 .9 15 1.4 Aprender sobre SIDA consulta centro de saúde: Sim 177 40.7 374 33.6 Não 96 22.1 281 25.2 6.959** Talvez 162 37.2 459 41.2 Aprender sobre SIDA c/ médico de família: Sim 162 37.2 314 28.2 Não 132 30.3 381 34.2 12.090** Talvez 141 32.4 419 37.6 Aprender sobre SIDA c/ programa de rádio: Sim 189 43.3 500 44.9 Não 121 27.8 241 21.7 7.156** Talvez 126 28.9 372 33.4 Aprender sobre SIDA c/ Internet: Sim 225 51.5 627 56.4 Não 101 23.1 186 16.7 8.534** Talvez 111 25.4 299 26.9 Aprender sobre SIDA c/ namorado(a): Sim 321 73.3 601 54.4 Não 47 10.7 195 17.6 46.650*** Talvez 70 16.0 309 28.0 * p<.05; **p<.01; ***p<.001 A negrito: valores a que corresponde um residual ajustado ≥ 1.9 4. Discussão Os objectivos desta tese eram perceber a existência de eventuais relações entre alguns comportamentos de risco e compreender a importância da iniciação sexual e do contexto cultural na adopção dos referidos comportamentos (consumo de
C Co om mp po or rt ta am me en nt to os s d de e r ri is sc co o e em m a ad do ol le es sc ce en nt te es s p po or rt tu ug gu ue es se es s: : v va ar ri ia aç çõ õe es s e em m f fu un nç çã ão o d da a r re eg gi iã ão o e e d do o c co om mp po or rt ta am me en nt to o s se ex xu ua al l 45 álcool, bullying, comunicação ineficaz na sexualidade, atitudes negativas em relação às pessoas portadoras de VIH). Das hipóteses formuladas confirma-se que os alunos do Norte (em comparação com os do resto do país) parecem iniciar a sua vida sexual mais tarde, apresentar menos comportamentos de risco e revelar uma maior adaptação escolar/avaliação mais positiva da escola. Também se verificou que recorrem mais frequentemente (que os jovens do resto do país) a um padre/grupo religioso para se informarem sobre sexualidade e SIDA. Contudo, esta foi a única fonte de informação com diferenças estatisticamente significativas. Para além disso também denotam, ao contrário do que foi hipotetizado, conhecimentos menos sólidos sobre VIH/SIDA. À semelhança dos resultados de outros estudos, uma percentagem mais reduzida de comportamentos de risco pode ter na sua raiz fortes convicções religiosas manifestas num grande auto-controlo (Archibald, 2007). Se reflectirmos sobre os conceitos Focauldianos (2005) de ética (uma prática, maneira de reflectir de cada um em relação ao modo como se constitui a si mesmo como sujeito moral inserido num determinado código) e de moral (conjunto de regras) que se relacionam pelo facto de a ética ser o comportamento real dos indivíduos em relação à moral (às regras instituídas), poder-se-á dizer que a ética (comportamentos) destes jovens é congruente com a moral (regras/crenças religiosas). Em relação à terceira e quarta hipóteses, também se confirmou que os alunos que ainda não tiveram relações sexuais parecem apresentar menos comportamentos de risco e uma melhor adaptação escolar. Os alunos que já tiveram relações sexuais parecem sentir-se mais aptos e confortáveis para comunicar/negociar com o parceiro e recorrer a fontes de informação presenciais. Embora só tenham sido encontradas diferenças estatisticamente significativas em duas questões, os jovens que já iniciaram a sua vida sexual parecem (conforme esperado) ter mais conhecimentos (mesmo em algumas respostas sem significância estatística) sobre VIH/SIDA mas (ao contrário do esperado) mais preconceitos. Contudo, conforme já foi referido, não existe uma base que permita extrapolar e generalizar os resultados sobretudo no que respeita a evidência de preconceito. No cômputo geral, obteve-se resultados interessantes que indicam que, quer o contexto cultural (medido através da Região do país) quer a iniciação sexual se constituem como variáveis com alguma preponderância na adopção de comportamentos de risco, sobretudo a última. A idade da primeira relação sexual assemelha-se aos resultados obtidos em outras investigações (Alfaro et al., 2007; Vilar & Ferreira 2008). Do universo possível de fontes de informação/atenuação de
C Co om mp po or rt ta am me en nt to os s d de e r ri is sc co o e em m a ad do ol le es sc ce en nt te es s p po or rt tu ug gu ue es se es s: : v va ar ri ia aç çõ õe es s e em m f fu un nç çã ão o d da a r re eg gi iã ão o e e d do o c co om mp po or rt ta am me en nt to o s se ex xu ua al l 46 preocupações salientam-se os pares, os parceiros, fontes face-to-face (como o médico de família), no caso dos jovens que já iniciaram a sua vida sexual, e fontes indirectas (como o rádio e a Internet) para os adolescentes que ainda não tiveram relações sexuais. Este resultado reforça o impacto que as novas tecnologias podem ter nos jovens em geral e, em particular, nos que ainda não tiveram relações sexuais, sendo importante a disponibilidade e veracidade da informação a que recorrem. Desta selecção de fontes de informação os pais foram remetidos, pelos filhos, para um plano secundário (em concordância com Vilar & Ferreira, 2008). A falta de preparação e insegurança dos pais para dialogar com os filhos sobre sexualidade são percepções referidas pelos próprios jovens (Dias, Matos & Gonçalves, 2007). Assim, concomitantemente à intervenção centrada no jovem, seria interessante trabalhar com os adultos/pais a importância e o grau de conforto para comunicar com os jovens, contribuindo, também, para combater a ruptura com a tradição (Coimbra & Menezes, 2009). Apelando à nossa experiência na comunidade, parece-nos que, sobretudo no plano sexual, muitos pais não sabem o que dizer aos filhos, pensam que é muito cedo para abordar determinadas questões (quando os filhos sabem e observam bastante mais conteúdos sexuais do que eles pensam) ou julgam não ser necessário comunicar com eles, uma vez que sabem tudo. A hesitação sobre que património transmitir aos filhos decorre de mudanças sociais drásticas. Por um lado, assiste-se ao enfranquecimento dos canais de transmissão e, por outro, à precarização do trabalho e das relações de intimidade, originando a ruptura com a tradição e exponenciando a individualização (Coimbra & Menezes, 2009). Conforme já foi referido e, de acordo com o que esperávamos, parece ser no Norte que a religião tem um impacto mais preponderante, o que é visível no facto de os adolescentes desta região recorrerem mais frequentemente a um padre para esclarecer dúvidas sobre VIH. Deve, assim, ser tido em atenção que o factor da religiosidade origina valores morais que podem regular os comportamentos sexuais (Reis & Vilar, 2004). No entanto, também é na Região do Norte que os jovens parecem ter menos conhecimentos sobre a matéria (formas de transmissão), resultado inesperado e que poderá indicar que existirão outras fontes mais fidedignas. Os resultados deste trabalho perspectivam a forte possibilidade de existir uma relação entre religião e uma atitude proibitiva em relação ao álcool (Francis et al., 2005; Michalak et al., 2007; Piko & Fitzpatrick, 2004; Sinha et al., 2007; Viner et al., 2006), uma vez que os jovens do Norte, mais religiosos, são também os que consomem menos. No nosso ponto de vista e com base na revisão da literatura, apesar de existir
C Co om mp po or rt ta am me en nt to os s d de e r ri is sc co o e em m a ad do ol le es sc ce en nt te es s p po or rt tu ug gu ue es se es s: : v va ar ri ia aç çõ õe es s e em m f fu un nç çã ão o d da a r re eg gi iã ão o e e d do o c co om mp po or rt ta am me en nt to o s se ex xu ua al l 47 uma multiplicidade de religiões que preconizam crenças e práticas diferentes entre si, as várias religiões têm em comum o facto de serem socializadoras. A religião, como vimos, apresenta uma forte componente moral (incutida nos escuteiros, na catequese, na missa) mas também proporciona, a par dessa regulação social/comportamental,um projecto de vida. Ora, o adolescente não pode ir contra o projecto com o qual está comprometido ou, pelo menos, não o tentará fazer. Curiosamente, foram encontrados dois padrões que parecem ser semelhantes: o primeiro entre os comportamentos dos jovens do Norte do país e dos que ainda não tiveram relações sexuais; e o segundo, entre os adolescentes do resto do país e os que já tiveram relações sexuais. A explicação parece residir no facto de existirem mais jovens que já iniciaram a sua vida sexual no resto do país. A iniciação sexual pode ser um dos elementos-chave, uma vez que, quem já teve relações sexuais parece adoptar mais comportamentos de risco (consumo de álcool, envolvimento em lutas e agressão/bullying), apresentar uma menor adaptação ao contexto escolar (gostam menos da escola, consideram mais negativa a percepção dos professores sobre as capacidades do aluno) e revelar mais preconceitos em relação às pessoas portadoras de VIH. No entanto, convém sublinhar que não é desejável nem ético “rotular” linearmente os jovens que já iniciaram a sua vida sexual como potenciais envolvidos em vários comportamentos de risco. A experiência de campo diz-nos que, nem todos os jovens provenientes de meios particularmente empobrecidos e de famílias desestruturadas, se vão tornar delinquentes, apesar de serem factores de risco (Ruzany et al., 2003). Desta forma, uma iniciação sexual mais tardia pode ser mais protectora, sem que isto implique que todos os jovens que iniciam a actividade sexual mais precocemente estejam necessariamente em risco. O que podemos aludir é que para grandes grupos, a probabilidade de risco é maior para os adolescentes que iniciam a vida sexual mais precocemente. Para além disso, a sexualidade não pode ser considerada como variável preditora sem levarmos em conta o papel de eventuais variáveis mediadoras socio-culturais por identificar (factores de protecção e de risco). O efeito cumulativo de factores de risco (onde se inclui a iniciação sexual precoce), num contexto desprotegido, pode potenciar o risco de forma exponencial, dado origem à desviância e à exclusão. Os jovens que já tiveram relações sexuais, comparativamente com os jovens que ainda não são sexualmente activos, também parecem gostar mais da escola e, sentir uma maior pressão em relação aos trabalhos de casa. Estes resultados são congruentes com o facto, fácilmente constatado na prática profissional, de que os
C Co om mp po or rt ta am me en nt to os s d de e r ri is sc co o e em m a ad do ol le es sc ce en nt te es s p po or rt tu ug gu ue es se es s: : v va ar ri ia aç çõ õe es s e em m f fu un nç çã ão o d da a r re eg gi iã ão o e e d do o c co om mp po or rt ta am me en nt to o s se ex xu ua al l 48 jovens que ainda não tiveram relações sexuais se envolvem em menos comportamentos de risco e, não dispendem a sua energia pelo mesmo número de actividades do que os que já tiveram. A escola assume uma maior preponderância na vida destes jovens (cuja actividade sexual ainda não se iniciou), o que os leva a estarem mais preocupados e concentrados nos resultados escolares. Também os jovens da Região do Norte onde, como vimos, o abandono escolar precoce é mais frequente (Caetano, 2005), parecem gostar mais da escola porventura pelo facto de já se tratar de uma selecção de adolescentes “resilientes”, ou seja, que resistiram à adversidade do contexto onde se inserem, apresentando uma maior motivação para a escola. A presença destes comportamentos de risco em jovens que, eventualmente, terão iniciado precocemente as relações sexuais em associação aos consumos, à violência e à má adaptação escolar, pode desaguar em alguns problemas. A possibilidade da ocorrência de relações sexuais sob o efeito de substâncias pode ser um deles, aumentando a vulnerabilidade a jovens [(para além da indesejabilidade da relação (Lomba et al., 2008)] a uma gravidez indesejada ou a transmissão de uma IST. A violência, na forma de envolvimento em lutas e de agressão entre pares, (associada muito significativamente aos jovens que já iniciaram a sua vida sexual) pode estar associada a um fraco envolvimento com o contexto escolar, perspectivado como bastante negativo por estes jovens. Os resultados apresentados e a nossa experiência profissional suportam a plausibilidade de que programas de prevenção de comportamentos sexuais de risco devam ter início o mais cedo possível no sentido de facilitar o desenvolvimento de atitudes e auto-estima positivas por parte dos jovens (DiClemente et al., 1992). Para além disso a perspectiva defendida nesta tese vai ao encontro de que a educação sexual não antecipa o início das relações sexuais podendo ser um factor de algum adiamento. Tem ainda a vantagem de tornar a sexualidade mais gratificante e aumentar a probabilidade dos jovens ingressarem em mais comportamentos protectores (Vilar & Ferreira, 2008). Efectivamente, somos quotidianamente desafiados, enquanto profissionais, a trabalhar competências e conteúdos sexuais/afectivos com jovens até aos 19 anos e, em contextos mais deprotegidos (bairros problemáticos) ou até punitivos (Centros Educativos), sentindo que seria necessário uma intervenção muito mais precoce que “abrisse caminho” para uma vivência sexual positiva/desmistificada ou até evitasse a construção de percursos desviantes. Crenças erróneas, desconhecimentos básicos, fobias em relação a diferentes orientações sexuais e uma moralidade severa sobre
C Co om mp po or rt ta am me en nt to os s d de e r ri is sc co o e em m a ad do ol le es sc ce en nt te es s p po or rt tu ug gu ue es se es s: : v va ar ri ia aç çõ õe es s e em m f fu un nç çã ão o d da a r re eg gi iã ão o e e d do o c co om mp po or rt ta am me en nt to o s se ex xu ua al l 49 terceiros, são realidades frequentes na nossa experiência de terreno. É tendo sempre em consideração a nossa “luta” permanente que consideramos que os exercícios de tomada de decisão e debates sobre o valor do preservativo também devem ser fomentados (DiClemente et al., 1992). Consideramos, portanto, que embora os anos do ensino básico e secundário constituam um período crítico para a aquisição e desenvolvimento de competências e comportamentos adequados de prevenção do VIH (Goh, Primavera & Bartalini, 2001), é importante redireccionar as estratégias para idades mais precoces, no sentido de desenvolver não só os afectos mas a liberdade de viver e/ou respeitar as múltiplas formas de experienciar a sexualidade. Não obstante estes resultados, a maioria dos jovens declarou ter usado preservativo, estar à vontade para convencer o parceiro a usar preservativo e recusar relações sexuais sem o mesmo. À semelhança do que foi encontrado em outros estudos, a maior parte dos adolescentes não inicia a sua vida sexual precocemente e poucos se envolvem em comportamentos de risco (Dias, Matos & Gonçalves, 2007; Kirby, 2002). Embora seja possível esboçar uma perspectiva positiva não só destes resultados como também de outros estudos que apontam para uma melhoria nos conhecimentos dos jovens sobre VIH/SIDA e um aumento do uso do preservativo pelos mesmos (Matos et al., 2002; 2006), ainda existem adolescentes (e provavelmente adultos) que não sabem correcta e convictamente quais as formas de transmissão do VIH o que pode contribuir para um maior índice de preconceitos. Os nossos resultados indicam que cerca de um quarto dos adolescentes não percebe que se pode contrair o vírus do VIH através de relações sexuais entre homens e não concorda com a hipótese de incluir uma pessoa portadora de VIH ou de assistir a uma aula ao seu lado. Estes dados para além de serem preocupantes, interpretados à luz da nossa experiência profissional, confirmam os “filtros” e a rigidez psicológica dos adolescentes com que nos temos deparado. A ausência de tolerância em relação a outras orientações sexuais (que não a hetero) e às pessoas portadoras de VIH associada à filtragem da informação (“Com SIDA pode-se morrer com uma constipação”, “Temos de usar o preservativo”) pode agravar o nível de preconceitos e discriminação. Estes resultados vão ao encontro da nossa realidade de intervenção. Para além disso a preocupação central dos jovens consiste muito mais frequentemente na possibilidade de engravidar do que de contrair uma IST (Mcgree et al., 2003). Uma percepção de baixo risco em relação à possibilidade de contrair uma infecção pode estar associada a uma curta duração dos relacionamentos amorosos
C Co om mp po or rt ta am me en nt to os s d de e r ri is sc co o e em m a ad do ol le es sc ce en nt te es s p po or rt tu ug gu ue es se es s: : v va ar ri ia aç çõ õe es s e em m f fu un nç çã ão o d da a r re eg gi iã ão o e e d do o c co om mp po or rt ta am me en nt to o s se ex xu ua al l 50 dos jovens (Tulloch et al., 2004). Outra tendência do terreno e que poderá contribuir para a compreensão da falta de noção de risco, relaciona-se com a imagem que os adolescentes retêm das pessoas infectadas – a de toxicodependentes – não admitindo que uma pessoa doente não manifeste marcadamente no seu físico a doença que tem. 5.Conclusão e implicações para futuras investigações O intuito deste estudo era proporcionar alguns dados para uma compreensão global da interacção entre alguns comportamentos de risco entre os jovens escolarizados. Pretendia apelar-se, igualmente, para a importância dos sistemas ecológicos em que os jovens se desenvolvem numa sociedade em permanente mutação. Priorizou-se a área da sexualidade, conceito na ordem do dia, e basilar no bem-estar juvenil. Considera-se que os objectivos foram atingidos sendo necessário ter atenção no que diz respeito à análise e generalização dos resultados. Apesar de ter sido possível desenvolver este trabalho com base numa ampla amostra de representatividade à escala nacional, colocam-se algumas limitações cuja análise permitirá inferir orientações para futuras investigações. Apesar de os dados trabalhados serem relativamente recentes, dada a evolução fulminante da sociedade e das dinâmicas juvenis, seria de maior interesse a utilização de observação mais recente. Relativamente ao instrumento, o facto de ser um pouco extenso pode ter limitado a concentração e motivação dos alunos. Também o preenchimento na forma de auto-relato e num contexto “familiar” (sala de aula), pode ter interferido na fiabilidade das respostas. Embora cientes das implicações financeiras implícitas na nossa sugestão, a presença de um supervisor (psicólogo ou outro profissional) capaz de garantir a não interacção entre os alunos ao longo do preenchimento do questionário podia diminuir o “peso” significativo do método de administração (diferentes docentes) na variância dos resultados. Na área da violência entre pares, em particular, seria útil reformular algumas questões do questionário. O bullying reveste-se de formas cada vez mais sofisticadas fazendo uso das novas tecnologias (através do envio de mensagens escritas, da criação de páginas na Internet sobre a vítima) (Aluedse, 2006; Lawrence & Adams, 2006). Desta forma, seria útil integrar questões que acompanhassem esta evolução. Ainda dentro deste fenómeno, a violência entre pares afecta não só as vítimas e
C Co om mp po or rt ta am me en nt to os s d de e r ri is sc co o e em m a ad do ol le es sc ce en nt te es s p po or rt tu ug gu ue es se es s: : v va ar ri ia aç çõ õe es s e em m f fu un nç çã ão o d da a r re eg gi iã ão o e e d do o c co om mp po or rt ta am me en nt to o s se ex xu ua al l 51 agressores como também as testemunhas/observadores (Whitted & Dupper, 2005). Uma sugestão pertinente poderia ser a de realizar estudos específicos que englobem o maior número de envolvidos no processo, de forma a perceber qual o papel de cada um e como quebrar o ciclo da agressão entre pares. A opção metodológica de utilizar um estudo meramente quantitativo pode suscitar algumas questões pelo facto de se tratar de uma tese na área da psicologia. As questões levantadas não permitem compreender sentimentos e outras reflexões próprias da esfera mental. No entanto possibilitam a expressão de grandes tendências. Estas também são importantes e podem, como é aliás prática do Estudo HBSC, constituir um ponto de partida para a realização de grupos focais com adolescentes, no sentido de compreender os dados iniciais. Futuramente, poder-se-ão desenvolver estudos com amostras mais recentemente observadas cujos resultados sejam interpretados à luz de estratégias metodológicas qualitativas que iluminem os significados experienciados pelos protagonistas do estudo: os jovens. Sobretudo nas questões ligadas à sexualidade, pela infinidade de determinantes, o ponto de vista dos intervenientes poderia contribuir para a compreensão das causas subjacentes aos comportamentos. As desigualdades não serão exclusivamente regionais pelo que as diferenças de género também se podiam constituir como objecto de estudo. As infecções sexualmente transmissíveis continuam a ser a segunda causa de morte mais determinante do sexo feminino (Glasier et al., 2006). Fomentar a auto-estima e auto-eficácia, seguindo uma lógica de empowerment feminino, assim como “aumentar a motivação de ambos os parceiros para o uso de preservativo, removendo porventura, a pressão individual” (Tulloch et al., 2004, p. 267) parecem continuar a fazer sentido numa perspectiva de intervenção. Na nossa óptica e com base na nossa experiência profissional, o uso do preservativo ainda não está generalizado sobretudo nos adolescentes, pelo facto de “retirar o prazer”. Assim, ainda numa lógica de intervenção/terreno, devemos ter em conta que o uso de preservativo vai de encontro à espontaneidade juvenil sendo que a inclusão da sensualidade e do pragmatismo em alternativa ao receio é uma estratégia fulcral (Vilella & Doreto, 2006). Tendo como ponto de referência a revisão da literatura na área da sexualidade e, em particular, a evolução das definições da OMS (2000,2002) e propostas de intervenção do GTES (2007), consideramos pertinente que o estudo HBSC reflicta sobre uma eventual reformulação das questões em torno da sexualidade, uma vez que esta não se restringe à genitalidade/coito. A sexualidade
ANEXOS
ANEXO I Síntese das questões retiradas do questionário do Estudo HBSC
Do questionário Health Behaviour in School-aged Children construído e aplicado pela Equipa do Projecto Aventura Social e Saúde (Faculdade de Motricidade Humana/U. T.L. – Instituto de Higiene e Medicina Tropical/U.N.L.; Colaboração da Fundação para a Ciência e Tecnologia/Ministério da Ciência e Tecnologia e da Comissão Nacional de Luta Contra a SIDA) no ano de 2002 foram utilizadas as seguintes questões: Código do investigador - Região do país com cinco opções de resposta N.º 1 – Género com duas opções de resposta. N.º 2 – Ano de escolaridade, com três opções de resposta (só foi utilizada a terceira opção, 10º ano). N.º 33 – Frequência de embriaguez com cinco opções de resposta N.º 36 – Número de vezes que se envolveu em lutas nos últimos doze meses, com cinco opções de resposta. N.º 37 – Número de vezes que foi provocado na escola nos últimos dois meses, com cinco opções de resposta. N.º 38 – Número de vezes que provocou outro aluno na escola nos últimos dois meses, com cinco opções de resposta. N.º 48 – Como percepcionam o que os professores pensam sobre a sua capacidade escolar comparada com a dos seus colegas, com quatro opções de resposta. N.º 49 – Como classificam o que sentem pela escola, com quatro opções de resposta. N.º 50 – Como classificam o sentimento de segurança na escola, com cinco opções de resposta. N.º 51 – Como avaliam a pressão com os trabalhos da escola, com quatro opções de resposta. N.º 60 – Início da vida sexual, com duas opções de resposta. N.º 61 – Idade de início da vida sexual, com oito opções de resposta. N.º 62 – Utilização de preservativo na última relação sexual, com duas opções de resposta.
N.º 66 – Conhecimentos sobre as vias de transmissão do VIH, 10 afirmações (usar agulha/seringa utilizada, infectar por tossir, não usar preservativo em relação homossexual, grávida infectar bebé, infectar por abraçar, estar protegida com a pílula, aspecto saudável e infectado, infectar-se pela utilização de utensílios para comer, infectar com transfusão de sangue) com três opções de resposta. N.º 67 – Atitudes com seropositivos, cinco afirmações (ser amigo de infectado, jovens infectados na escola, aula com colega infectado, visitar amigo infectado, infectados a viver à parte da população), com cinco opções de resposta. N.º 68 – Classificar como se sentiria em duas situações, duas afirmações (conversar com pares sobre VIH/SIDA e IST, conversar com pais/outros adultos sobre SIDA e IST), com cinco opções de resposta. N.º 69 – Fontes de informação/aprendizagem sobre VIH/IST, dezasseis fontes (livros/revistas, folheto, rádio, televisão, centro de saúde, médico de família, linha de informação, Internet, pais, namorado/a, amigo, irmão/ã, familiar, professor, padre, ninguém, outro), com três opções de resposta. N.º 104 – Avaliação de como se sentiria em quatro situações (conversar com o par sobre o uso de preservativo, convencer o par a usar preservativo, recusar relações sexuais sem preservativo, recusar relações sexuais se não quiser) com seis opções de resposta.
ANEXO II Resultados – Estatística descritiva
Quadro 1 – Frequências de Género Género N % Masculino 757 47.9 Feminino 824 52.1 Total 1581 100 Quadro 2 – Região do país (recodificada em 2 categorias) Região N % Região Norte 650 41.1 Resto do país 931 58.9 Total 1581 100 Quadro 3 – Frequência do início das relações sexuais N % Sim 440 28.2 Não 1118 71.8 Total 1581 100 Quadro 4 – Frequência da idade da primeira relação sexual Idade (anos) N % 11 45 10.3 12 28 6.4 13 36 8.2 14 98 22.3 15 145 33.0 16 87 19.8 Quadro 5 – Frequência do uso de preservativo na última relação sexual (só quem teve relações sexuais) N % Sim 315 71.8 Não 124 28.2
Quadro 6 – Frequência de embriaguez N % Nunca 930 59.3 Uma vez 261 16.7 2-3 vezes 206 13.1 4-10 vezes 99 6.3 Mais de 10 71 4.5 Quadro 7 – Frequência do envolvimento em lutas nos últimos doze meses N % Nunca 1259 80.3 Uma vez 171 10.9 2 vezes 66 4.2 3 vezes 25 1.6 4 v. ou mais 46 2.9 Quadro 8 – Frequência de bullying (vítimas) nos últimos doze meses N % Nunca 1033 65.7 Uma vez 384 24.4 2-3 vezes 49 3.1 1 vez/semana 36 2.3 Várias vezes/semana 70 4.5 Quadro 9 – Frequência de bullying (agressores) nos últimos doze meses N % Nunca 1106 70.0 Uma vez 339 21.6 2-3 vezes 44 2.8 1 vez/semana 27 1.7 Várias vezes/semana 57 3.6
Quadro 10 – Frequência da percepção da avaliação dos professores sobre a capacidade escolar N % Muito boa 81 5.2 Boa 484 30.8 Média 914 58.2 Inferior à média 92 5.9 Quadro 11 – Frequência do sentimento em relação à escola N % Gosto muito 282 17.9 Gosto pouco 853 54.2 Não gosto muito 306 19.4 Não gosto nada 134 8.5 Quadro 12 – Frequência do sentimento de segurança na escola N % Sempre 541 34.3 Frequentemente 545 34.6 Às vezes 384 24.4 Raramente 62 3.9 Nunca 45 2.9 Quadro 13 – Frequência da percepção de pressão com trabalhos de casa N % Nenhuma 201 12.8 Um pouco 424 27.0 Alguma 719 45.7 Muita 229 14.6
Quadro 14 – Síntese das frequências dos conhecimentos sobre as formas de transmissão do VIH Sim Não Não Sei N % N % N % Agulha/seringa 1513 96.5 27 1.7 28 1.8 Tosse/espirro 115 7.3 1195 76.3 256 16.2 Rel. Homem c/ homem 1173 75.3 88 5.7 296 19.0 Grávida/bebé 1467 94.0 18 1.2 76 4.8 Abraço 30 1.9 1485 95.2 45 2.9 Pílula protege 119 7.6 1193 76.4 250 16.0 Rel.S.s/ preservativo 1461 93.4 50 3.2 53 3.4 uma só vez Parecer saudável 1253 80.8 106 6.8 192 12.1 Utensílios comer/beber 277 17.8 957 61.3 326 20.9 Transfusão de sangue 1418 91.0 42 2.7 99 6.4 Quadro 15 – Síntese das frequências sobre atitudes em relação às pessoas portadoras de VIH Concordo Concordo Não tenho Discordo Discordo totalmente a certeza totalmente N % N % N % N % N % Deixar de ser 32 2.0 24 1.5 210 13.4 307 19.6 992 63.4 amigo Podem frequentar 778 50.0 395 25.4 248 15.9 70 4.5 65 4.2 a escola Assistir a aula 804 51.5 419 26.9 258 16.5 34 2.2 45 2.9 Ao lado dela Visitar amigo 997 63.8 420 26.9 110 7.0 8 0.5 27 1.7 Viver à parte 50 3.2 23 1.5 78 5.0 232 14.8 1181 75.5 Quadro 16 – Síntese das frequências do grau de conforto em relação a conversar sobre SIDA Muito à À vontade Pouco à Nada à Não falo com vontade vontade vontade eles sobre isso N % N % N % N % N % Falar c/ pares 901 57.7 577 36.9 52 3.3 12 0.8 20 1.3 Falar c/ pais 534 34.3 554 35.6 315 20.2 71 4.6 84 5.4
Quadro 17 – Síntese das frequências das fontes de aprendizagem sobre VIH/sexualidade Sim Não Talvez N % N % N % Livros/revistas 974 61.9 146 9.3 453 28.8 Folheto 1187 75.6 105 6.7 278 17.7 Prog. De rádio 696 44.3 371 23.6 503 32.0 Prog. TV 1239 79.2 75 4.8 250 16.0 Abraço 30 1.9 1485 95.2 45 2.9 Cons. Centro Saúde 559 35.6 384 24.5 627 39.9 Médico de família 486 31.0 519 33.1 565 36.0 Linha telefónica 347 22.1 683 43.6 537 34.3 Internet 869 55.4 290 18.5 411 26.2 Pais 832 53.0 275 17.5 462 29.4 Namorado(a) 935 59.8 244 15.8 385 24.6 Amigo(a) 1160 74.1 99 6.3 306 19.6 Irmão 717 46.2 476 30.7 360 23.2 Outro familiar 596 38.0 419 26.7 554 35.3 Professor 381 24.3 577 36.8 608 38.8 Padre/grupo religioso 138 8.9 1026 65.9 392 25.2 Ninguém 92 6.1 1197 79.3 221 14.6 Quadro 18 – Síntese das frequências do grau de conforto em relação à negociação Muito à À vontade Pouco à Nada à Não me sinto Não sei vontade vontade vontade capaz N % N % N % N % N % N % Conversar 687 44.9 562 35.5 151 9.9 19 1.2 13 .9 97 6.3 sobre uso do preservativo Convencer 671 44.7 533 35.5 162 10.8 24 1.6 18 1.2 94 6.3 parceiro a usar preservativo Recusar 734 48.9 367 24.5 150 10.0 66 4.4 59 3.9 124 8.3 relações sem preservativo Recusar 839 55.2 374 24.6 115 7.6 47 3.1 31 2.0 114 7.5 relações se não quiser