Uso do medicamento - somos todos responsáveis
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Uso do medicamento somos todos responsáveis Debate Saúde Carlos Maurício Barbosa Reconhecidamente os medicamentos constituem uma das mais importantes tecnologias de que a humanidade hoje usufrui contribuindo de modo decisivo para a saúde e a qualidade de vida das pessoas Se é verdade que são uma parcela muito importante da despesa em saúde sendo frequentemente apontados como a segunda rubrica que absorve mais recursos logo a seguir aos gastos com pessoal também é verdade que têm trazido à sociedade os maiores ganhos em saúde no último século Por isso mesmo como tenho reiteradamente afirmado importa numa visão abrangente e estratégica encarar esta despesa como um investimento precisamente na saúde das populações e na melhoria da sua qualidade de vida Contudo vários estudos demonstram a existência de um potencial não aproveitado na despesa com medicamentos A OMS estima que 50 dos medicamentos não são correctamente usados pelos doentes E um estudo efectuado em 2012 pela multinacional americana IMS Health a pedido do Ministério da Saúde holandês estima que a optimização do uso do medicamento permitiria poupar anualmente em todo o mundo cerca de 370 mil milhões de euros mais do dobro do PIB de Portugal o que corresponde a aproximadamente 8 da despesa anual em Saúde a nível mundial O referido estudo da IMS destaca a não adesão à terapêutica como a principal causa do problema estimando se que contribua para 57 da despesa excedentária Entre as outras causas salientam se a utilização de medicamentos fora do tempo certo devido à sua aprovação ou prescrição tardias a utilização errada e a sobreutilização de antibióticos os erros de medicação a utilização insuficiente de medicamentos genéricos e a gestão incorrecta da terapêutica dos doentes polimedicados Todas estas situações geram gastos evitáveis muitas vezes associados a internamentos hospitalares ou a outros cuidados de saúde e até a quadros fatais em suma associados a morbilidade e mortalidade As recomendações do estudo mencionado apontam no sentido de os sistemas de Saúde adoptarem como prioridade a promoção do uso responsável do medicamento URM Este é um conceito bem caracterizado pela Federação Internacional Farmacêutica O medicamento deve ser utilizado apenas quando é necessário e quando é necessário não deve deixar de ser utilizado a sua selecção deve ser apropriada e baseada na mais recente evidência científica e ou clínica considerando também as preferências do doente e fazendo o melhor uso dos recursos disponíveis Tudo isto em conjugação com o acesso a medicamentos de qualidade e atempadamente disponibilizados que são administrados e adequadamente monitorizados quanto à sua efectividade e segurança assumindo o doente a responsabilidade pelo uso com base na forma mutuamente acordada com um profissional de saúde Tal implica a adopção permanente de uma abordagem colaborativa e multidisciplinar também deontológica que congregue os doentes ou os seus cuidadores e os profissionais de saúde que lhes prestam cuidados Em suma o que o URM procura garantir é o acesso do cidadão ao medicamento correcto na dose e no tempo adequados à sua necessidade individual e com o menor custo possível quer para o próprio quer para o sistema de Saúde proporcionando por conseguinte o maior benefício do tratamento Trata se de um conceito abrangente comum a todos os intervenientes nas diferentes fases do ciclo de vida do medicamento desde a investigação e desenvolvimento até à sua utilização pelo doente passando pela aprovação e colocação no mercado fabrico distribuição prescrição e dispensa pelo que pressupõe o envolvimento activo consciente e responsável de todos Foi neste contexto que a Ordem dos Farmacêuticos decidiu lançar publicamente a campanha subordinada ao tema Uso do Medicamento Somos Todos Responsáveis por altura das Comemorações do Dia do Farmacêutico em 2014 Reputamos esta iniciativa da mais elevada importância O URM promove ganhos significativos quer no plano clínico quer no plano económico pelo que deve constituir também um grande objectivo para o sistema de Saúde português em que o marcado envelhecimento da população torna o assunto ainda mais relevante Segundo dados do INE o número de cidadãos com mais de 65 anos residentes em Portugal já é superior a dois milhões correspondendo a cerca de 19 da população Há pois um longo caminho que todos juntos devemos percorrer A campanha lançada pela OF visando alertar a população promover boas práticas e debater o assunto com os outros stakeholders constitui um primeiro passo Mas julgo que somente um esforço integrado permitirá alcançar verdadeiros ganhos que sejam premeditados sistémicos e irreversíveis O valor do trabalho em conjunto está bem realçado na proposição todos temos um papel a desempenhar que consta do relatório Um Futuro para a Saúde recentemente promovido pela Fundação Calouste Gulbenkian e dedicado ao sistema de Saúde português A Ordem dos Farmacêuticos e os farmacêuticos nas suas diferentes áreas profissionais saberão participar neste desígnio e estar uma vez mais como sempre à altura das suas responsabilidades Bastonário da Ordem dos Farmacêuticos e professor da Universidade do Porto Pedro Sousa Carvalho regressa a este espaço na próxima semana Público 48 S/Cor 925 51453 Nacional InformaçãoGeral Diário Página(s): Imagem: Dimensão: Temática:Periodicidade: Classe: Âmbito: Tiragem:23012015 Saúde