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Competência social das crianças adotadas: relação com as reações parentais às emoções negativas dos filhos

Marta Maria Correia de Campos Azevedo Moreira

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i Universidade do Porto Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação COMPETÊNCIA SOCIAL DAS CRIANÇAS ADOTADAS: RELAÇÃO COM AS REAÇÕES PARENTAIS ÀS EMOÇÕES NEGATIVAS DOS FILHOS Marta Maria Correia de Campos Azevedo Moreira outubro 2014 Dissertação apresentada no Mestrado em Temas em Psicologia, na área de especialização de Psicologia do Desenvolvimento e Educação da Criança, na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, orientada pela Professora Doutora Maria Adelina Barbosa-Ducharne e co-orientada pela Professora Doutora Orlanda Cruz. ii O conteúdo desta dissertação reflete as perspetivas, o trabalho e as interpretações do autor no momento da sua entrega. Esta dissertação pode conter incorreções, tanto conceptuais como metodológicas, que podem ter sido identificadas em momento posterior ao da sua entrega. Por conseguinte, qualquer utilização dos seus conteúdos deve ser exercida com cautela. Ao entregar esta dissertação, o autor declara que a mesma é resultante do seu próprio trabalho, contém contributos originais e são reconhecidas todas as fontes utilizadas, encontrando-se tais fontes devidamente citadas no corpo do texto e identificadas na secção de referências. O autor declara, ainda, que não divulga na presente dissertação quaisquer conteúdos cuja reprodução esteja vedada por direitos de autor ou de propriedade industrial. iii Este estudo integra-se num projeto de investigação mais abrangente “Preditores individuais, familiares e extrafamiliares da competência social em crianças adotadas”, financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia através da bolsa de doutoramento SFRH/BD/77316/2011, atribuída à doutoranda Joana Lara Ferreira Soares, em desenvolvimento na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCEUP), sob a orientação da Professora Doutora Maria Adelina BarbosaDucharne e do Professor Doutor Jesus Palacios (Universidade de Sevilha). O projeto de investigação foi aprovado pela Comissão Nacional de Proteção de Dados (autorização nº 3912/2013) e pela Comissão de Ética da FPCEUP. Foi ainda assinado um Protocolo de Colaboração específica com o Instituto de Segurança Social, Instituto Público (ISS, IP). De forma a facilitar uma divulgação de resultados preliminares desse projeto, e dada a importância da investigação nesta temática para a promoção do bem-estar das famílias adotivas, considerou-se pertinente elaborar esta tese sob a forma de artigo científico, a submeter para publicação na Revista Psicologia: Teoria e Pesquisa. Uma vez que o estudo aqui apresentado é parte de um projeto de doutoramento, serão coautores deste artigo científico a Joana Soares, como doutoranda, o Professor Doutor Jesus Palacios da Universidade de Sevilha, como orientador do projeto de Doutoramento, a Professora Doutora Maria Adelina Barbosa-Ducharne, como orientadora do projeto de Doutoramento e deste Mestrado e a Professora Doutora Orlanda Cruz, como co-orientadora do Mestrado. iv Não poderia concluir esta jornada sem antes agradecer a todos os que, de alguma forma, contribuíram para a facilitar e tornar mais agradável. Agradeço aos pais e crianças que aceitaram partilhar connosco as suas vidas e experiências e que nos acolheram tão bem nas suas casas. Sem a sua boa-vontade este projeto não seria possível. Agradeço às Técnicas dos Serviços de Adoção por facilitarem a execução deste projeto ao disponibilizarem parte do seu tempo na seleção e contacto às famílias. Agradeço à minha orientadora, Professora Doutora Maria Adelina BarbosaDucharne, por me ter despertado e feito apaixonar pelo tema da adoção e por me ter guiado ao longo deste percurso. Agradeço à Joana Soares, muito, pela sua sempre pronta e incansável disponibilidade e orientação. Agradeço à minha co-orientadora, Professora Doutora Orlanda Cruz, pela valiosa ajuda sempre que necessário. Agradeço ao Professor Doutor Jesus Palacios pelo seu contributo na execução deste projeto. Agradeço às minhas colegas do grupo de investigação, companheiras nesta longa viagem, pelos momentos de partilha e animação nas longas horas que passamos juntas. Agradeço aos pilares da minha vida, os meus pais, o Tiago e o meu irmão por estarem sempre presentes. "Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós." (Antoine de Saint-Exupéry) Muito obrigada a todos! v Resumo A competência social é frequentemente apontada como uma área vulnerável no desenvolvimento da criança adotada. Neste estudo pretende-se caracterizar a competência social de crianças adotadas de idade escolar e identificar que variáveis relativas às crianças, aos pais e à interação pais-filhos, nomeadamente, as reações parentais às emoções negativas dos filhos, são preditores da competência social. Participaram neste estudo 119 pais adotivos de crianças com idades entre os 8 e os 11 anos. A competência social das crianças e as reações parentais às emoções negativas dos filhos foram avaliadas, respetivamente, através da Escala de Habilidade Sociais e Problemas de Comportamento – Versão para Pais (EHSPC-P) e da Escala de Reações Parentais às Emoções Negativas (RPEN). Os resultados mostram que as crianças adotadas detêm adequadas habilidades sociais mas apresentam problemas de externalização e hiperatividade e défice de atenção, sobretudo os rapazes. As experiências de negligência prévias à adoção, a escolaridade dos pais, as reações parentais negativas e os problemas de comportamento são preditores das habilidades sociais da criança adotada. O tempo de acolhimento, as reações parentais negativas às emoções dos filhos e as habilidades sociais predizem os problemas de comportamento das crianças. Os resultados deste estudo contribuem para a compreensão dos processos que estão na base do desenvolvimento da competência social das crianças com um passado de adversidade que são posteriormente adotadas. Palavras-chave: competência social, crianças adotadas, idade escolar, reações parentais vi Abstract Social competence is often identified as a vulnerable area in the adopted child's development. This study aims to characterize school-aged adopted children's social competence and identify which variables concerning the child, the parents and the parentchild interaction, in particular the parental reactions to the child's negative emotions, are predictors of social competence. One hundred and nineteen adoptive parents of children aged between 8 and 11 years participated in this study. Children's social competence and parent’s reactions to the child's negative emotions were evaluated, respectively, through the SSIS-RS and the CNNES. The results show that adopted children have adequate social skills but exhibit externalizing problems and hyperactivity and attention deficit, particularly the boys. Adverse experiences prior to adoption, parents' schooling, parent’s reactions to the child’s negative emotions and the child’s behavioural problems are predictors of the adopted child's social competence. These findings contribute to the understanding of the processes that underlie the development of social competence in children with a history of adversity who are subsequently adopted. Keywords: social competence, adopted children, school-age, parental reactions 1 Introdução Um grande número de crianças em idade escolar não cresce em contextos familiares convencionais, como é o caso das crianças que foram adotadas (Palacios, Moreno, & Román, 2013). A investigação desenvolvida no âmbito da psicologia e da psicopatologia do desenvolvimento tem-se preocupado em estudar o impacto da adoção nas trajetórias desenvolvimentais de crianças com história de adversidade precoce, como as que posteriormente são adotadas (Palacios & Brodzinsky, 2010). Estes estudos têm incidido, sobretudo, no crescimento físico, no desenvolvimento cognitivo e académico e no comportamento. No entanto, pouco se conhece acerca da competência social destas crianças e da sua integração no grupo de pares (Palacios et al., 2013). Adicionalmente, a investigação tem-se focado mais nas crianças adotadas do que nos pais adotivos ou no conjunto da família, pelo que pouco se sabe sobre os processos familiares na adoção (Palacios, 2010). O presente estudo incide na relação entre a criança adotada e a sua família e procura analisar de que modo o comportamento dos pais, mais concretamente as suas reações às emoções negativas dos filhos, se relaciona com a competência social das crianças adotadas. 1. Competência Social As habilidades sociais são "comportamentos específicos que o indivíduo exibe para desempenhar uma tarefa (de natureza social) de modo competente" (Gresham, 1986, p. 4). Estes comportamentos são aprendidos e socialmente aceites e permitem ao indivíduo interagir com os outros de forma positiva (Gresham, Elliott, Vance, & Cook, 2011). O desenvolvimento adequado das habilidades sociais revela-se fundamental, sendo que as crianças que apresentam défices nesta área estão em maior risco de problemas socioemocionais e académicos (Gresham et al., 2011). Estes défices nas habilidades sociais podem dever-se a défices na sua aquisição, no seu desempenho e/ou ao facto de as crianças deterem padrões de comportamento externalizador ou internalizador que interferem ou impedem a aquisição/desempenho das habilidades sociais (Gresham, Elliott, & Kettler, 2010). Deste modo, segundo estes autores, a avaliação do comportamento social individual 2 da criança pressupõe a avaliação da presença de habilidades sociais e da ausência de problemas de comportamento. Por sua vez, a competência social não se refere só aos comportamentos específicos do indivíduo mas também à avaliação que os agentes sociais fazem do modo mais ou menos adequado de como este desempenhou determinada tarefa social (Gresham, 1986). A definição de competência social relaciona-se com a validação social, na medida em que um comportamento pode ser considerado socialmente competente se é reconhecido como tal pelos parceiros de interação (Gresham, 1986). As crianças com uma baixa competência social apresentam dificuldades no desenvolvimento e manutenção de relacionamentos interpessoais significativos, em exibir padrões de comportamentos pró-sociais e em ser aceites pelos pares. A médio e/ou longo prazo o seu funcionamento nos domínios educacional, psicossocial e vocacional pode ficar comprometido (Gresham et al., 2010). 1.1. A competência social das crianças adotadas As crianças adotadas são crianças com um passado e uma carga genética mais ou menos desconhecida e, frequentemente, têm uma história de maus-tratos e institucionalização/acolhimento, de maior ou menor duração, e em condições de qualidade variável e, muitas vezes, pautadas por défices de estimulação (Palacios, 2010). Estas experiências adversas poderão ter um impacto negativo no desenvolvimento físico, cognitivo e socioemocional da criança adotada (Juffer et al., 2011; Palacios, 2010; Vorria et al., 2006). Um tipo de experiência adversa que tem vindo a ser associada a mais consequências negativas para o desenvolvimento da criança é a negligência (Pears & Fisher, 2005). As crianças negligenciadas estão em maior risco de ter problemas de internalização e externalização e, consequentemente, atrasos ao nível do desenvolvimento da competência socioemocional. (Stoltenborgh, Bakermans-Kranenburg, & van IJzendoorn, 2013). Viezel, Lowell, Davis, e Castillo (2014) verificaram que as crianças negligenciadas tinham um comportamento menos adaptativo, ao nível da comunicação e habilidades sociais, quando comparadas com crianças vítimas de abuso. Tan (2006) verificou que raparigas adotadas internacionalmente com uma história de negligência na infância apresentavam menor desempenho académico e competência em geral, na idade escolar. A criança que foi adotada pode ter sido exposta a experiências de negligência na família biológica, sendo que a própria experiência de acolhimento institucional tem sido reconhecida como uma outra experiência de negligência, desta vez estrutural (Mccall, van 3 Ijzendoorn, Juffer, Groark, & Groza, 2011), face aos cuidados pouco individualizados que as crianças recebem neste contexto. Para além das experiências anteriores à adoção, o desenvolvimento da criança adotada também pode ser influenciado pelas experiências pós-adoção, nomeadamente pelas características da família adotiva, pelas interações que ocorrem dentro e fora da família adotiva e pela crescente compreensão que a criança adquire do seu estatuto de adotada (Juffer et al., 2011). A qualidade do ambiente familiar adotivo pode permitir a recuperação de determinadas áreas do desenvolvimento da criança, sendo reconhecida atualmente como uma intervenção natural de sucesso (van Ijzendoorn & Juffer, 2006) Afastando-se do paradigma clínico, considerado demasiado redutor, no estudo do funcionamento e ajustamento psicológico das crianças adotadas, os investigadores dos anos 1980/90 abordaram a criança adotada comparando-a com a criança não-adotada, ambas inseridas na comunidade (Palacios & Brodzinsky, 2010). Os resultados destes estudos libertaram a criança adotada do estigma da patologia, contrariando o “síndrome da criança adotada”, na medida em que apontam para um perfil não uniforme nem problemático (Sharma, McGue, & Benson, 1998). Outros estudos indicam uma maior proporção de adotados entre a população clínica, sobretudo crianças que experienciaram maior adversidade antes da adoção. É indicado uma maior prevalência de problemas de externalização (Juffer et al., 2011; Sánchez-Sandoval & Palacios, 2012), problemas de internalização, problemas de atenção, incluindo hiperatividade e défice de atenção (Juffer et al., 2011) e dificuldades no ajustamento à escola (Palacios & Sánchez-Sandoval, 2005). Brodzinsky, Schechter, Braff, e Singer (1984) verificaram que as crianças adotadas, quando comparadas com os seus pares não-adotados, apresentavam mais problemas psicológicos e de comportamento, relacionados com a escola, menor competência social e menor desempenho académico. Brodzinsky, Radice, Huffman, e Merkler (1987) reanalisaram estes dados e verificaram que os rapazes adotados apresentavam mais sintomas de hiperatividade e dificuldades de comunicação do que os rapazes não adotados, enquanto as raparigas adotadas manifestavam mais sintomas depressivos, de hiperatividade e agressividade, do que as raparigas não adotadas. Na mesma linha, e partindo dos relatos dos pais, Simmel, Brooks, Barth, e Hinshaw (2001) evidenciaram que 29.9% das crianças e adolescentes adotados do seu estudo apresentava sintomatologia externalizadora, nomeadamente problemas de hiperatividade e défice de atenção e/ou um padrão de comportamento opositor-desafiante. 10 habilidades sociais e os restantes problemas de comportamento encontram-se dentro dos limites médios. Note-se que não existem normas aferidas para a população portuguesa, pelo que se utilizaram as normas originais do instrumento para comparação (Gresham & Elliott, 2008). Nas análises subsequentes apenas serão usadas as duas escalas globais da EHSPC-P: habilidades sociais e problemas de comportamento. “Inserir Tabela 1” Verificaram-se diferenças estatisticamente significativas entre rapazes e raparigas na escala global de problemas de comportamento, t(117) = 2.29, p = .020, d = 0.42, IC a 95% [0.73; 10.19], com os rapazes (M = 32.15, DP = 12.49) a obterem médias significativamente superiores às raparigas (M = 26.68, DP = 13.58). No entanto, rapazes e raparigas não diferem significativamente nas habilidades sociais. A escala global de habilidades sociais correlaciona-se positivamente com a idade da criança e negativamente com a escolaridade dos pais e com os problemas de comportamento. A escala global de problemas de comportamento correlaciona-se positivamente com o tempo de acolhimento. A Tabela 2 apresenta as correlações entre as variáveis estudadas. “Inserir Tabela 2” Encontraram-se diferenças estatisticamente significativas nas habilidades sociais entre as crianças que experienciaram negligência enquanto residiam com a família biológica e as que tiveram outro tipo de experiências, t(117) = -2.55, p = .012, d = 0.47, IC a 95% [-13.94; -1.75]. As crianças que foram negligenciadas (M = 99.69, DP = 17.53) obtiveram médias significativamente inferiores às das crianças que tiveram outro tipo de experiências na família biológica (M = 107.53, DP = 15.89). 2.2. Reações parentais às emoções negativas dos filhos A Tabela 3 apresenta as intercorrelações e as medidas descritivas das escalas e subescalas da RPEN. Os pais deste estudo apresentam mais frequentemente reações positivas do que reações negativas, às emoções dos filhos. A diferença entre as médias destas reações é significativa e com uma magnitude de efeito muito elevada, t(118) = 19.80, p < .001, d = 3.65, IC a 95% [1.67; 2.04]. A análise descritiva das subescalas permite verificar que as reações de resolução e distração/descentração são as mais reportadas pelos pais e as reações de aborrecimento e de punição são as menos referidas. As subescalas do RPEN apresentam correlações altas entre si, verificando-se que as 11 correlações são mais elevadas entre as subescalas de reações positivas, por um lado, e negativas, por outro, do que entre as subescalas positivas e negativas. Além disso, à exceção da subescala reações de aborrecimento, as subescalas positivas e negativas intercorrelacionam-se positivamente entre si, o que é indicador de que estas reações coexistem. Resultados semelhantes foram encontrados no estudo de Alves e Cruz (2011). Nas análises seguintes serão apenas usadas as duas escalas – reações positivas e reações negativas. “Inserir Tabela 3” Não se verificaram diferenças nas reações parentais em função do sexo da criança. No entanto, observaram-se diferenças significativas entre pais e mães no tipo de reações às emoções negativas dos filhos, com as mães a manifestarem mais reações positivas do que os pais, t(117) = -2.51, p = .013, d = 0.46, IC a 95% [-0.83; -0.98]. Verifica-se que quanto mais reações positivas os pais usam: menos tempo a criança esteve em acolhimento, mais nova foi adotada, maior o tempo de adoção, menor o número de contextos de desenvolvimento e menor a escolaridade dos pais. Da mesma forma, quanto mais reações negativas os pais utilizam: mais cedo a criança foi adotada, maior o tempo de adoção, menor número de contextos de desenvolvimento e menor a escolaridade dos pais. Estas correlações são fracas (ver Tabela 2). Não foram observadas diferenças significativas nas reações parentais positivas em função do tipo de experiências das crianças adotadas na família biológica. Por outro lado, a análise de variância a um fator indicou existirem diferenças significativas nas reações parentais negativas em função das experiências da criança na família biológica, F(3,112) = 4.08, p = .009. Dado não existir homogeneidade de variâncias, utilizou-se o teste Welch e o teste post-hoc Games-Howell. A análise de variância revelou que os pais manifestam mais reações negativas às emoções negativas dos filhos que não tiveram experiências na família biológica (M = 3.61, DP = 1.22) do que às emoções negativas das crianças que foram vítimas de maus-tratos, (M = 2.58, DP = 0.67). Esta diferença é estatisticamente significativa, p = .007, IC a 95% [0.23; 1.84]. 2.3. Relação entre as reações parentais e a competência social das crianças adotadas As reações parentais positivas não se correlacionam com as variáveis da competência social do estudo (habilidades sociais e ausência de problemas de 12 comportamento). Por outro lado, as respostas negativas dos pais às emoções negativas dos filhos correlacionam-se de forma negativa com as habilidades sociais e de forma positiva com os problemas de comportamento (ver Tabela 2) 2.4. Preditores das habilidades sociais e problemas de comportamento da criança adotada Realizaram-se análises de regressão linear múltipla hierárquica para examinar quais as variáveis preditoras das habilidades sociais e dos problemas de comportamento das crianças adotadas. Os resultados encontram-se na Tabela 4. Analisaram-se os pressupostos dos dois modelos, nomeadamente, a distribuição normal e homogeneidade dos erros (validados graficamente), a independência dos erros (estatística de Durbin Watson = 1.42, para o modelo das habilidades sociais; estatística de Durbin Watson = 1.57, para o modelo dos problemas de comportamento), e a multicolinearidade (validada através dos valores de tolerância, não havendo variáveis colineares). O modelo final de regressão linear hierárquica das habilidades sociais incluiu quatro variáveis introduzidas pela seguinte ordem: negligência (β = -.15, p = .03), variável do passado da criança; escolaridade dos pais (β = -.25, p = .002), variável parental; reações parentais negativas (β = -.21, p = .009), variável de interação pais-filhos; e problemas de comportamento (β = -.53, p < .001), variável da criança. Estes quatro preditores em conjunto explicam 48% da variabilidade observada nas habilidades sociais das crianças adotadas, F(4,113) = 27.47, p < .001. Por sua vez, no modelo de regressão linear hierárquica dos problemas de comportamento consideraram-se as seguintes variáveis: tempo de acolhimento, que constitui uma variável do passado da criança (β =.26, p < .001); habilidades sociais, variável associada à criança adotada (β = -.55, p < .001) e reações parentais negativas às emoções negativas dos filhos, variável associada à interação paisfilhos (β = .19, p = .008). As três variáveis explicam 47% da variabilidade observada nos problemas de comportamento das crianças adotadas, F(4,113) = 35.90, p < .001. “Inserir Tabela 4” 3. Discussão dos resultados 13 O objetivo central desta investigação era estudar a competência social das crianças adotadas na perspetiva dos pais, focando nas habilidades sociais e na ausência de problemas de comportamento, e explorar os preditores desta, nomeadamente a importância das reações parentais às emoções negativas dos filhos. Os resultados revelaram que, se por um lado, as crianças adotadas detêm, em geral, um desenvolvimento adequado ao nível das habilidades sociais, por outro lado, apresentam mais problemas de externalização e hiperatividade e/ou défice de atenção, sobretudo os rapazes. Estes dados vão de encontro à literatura que refere que o perfil de funcionamento social de grande parte das crianças adotadas nem sempre é problemático, mas que existe um elevado número de crianças com problemas de externalização e hiperatividade e/ou défice de atenção (e.g. SánchezSandoval & Palacios, 2012; Sharma et al., 1998; Simmel et al., 2001), particularmente as que experienciaram adversidade prévia à adoção. De facto, neste estudo, o passado da criança adotada revelou ter impacto no seu funcionamento atual, confirmando a investigação anterior que reporta que as experiências prévias à adoção prejudicam o desenvolvimento da criança (e.g. Sánchez-Sandoval & Palacios, 2012; Vorria et al., 2006). O tempo de acolhimento é preditor dos problemas comportamentais, observando-se que quanto mais tempo a criança esteve acolhida, maior a perceção parental de problemas de comportamento na criança. Verificou-se ainda que a negligência constitui um preditor das habilidades sociais, o que é consistente com investigação anterior (e.g. Stoltenborgh et al., 2013; Tan, 2006; Viezel et al., 2014). As crianças que experienciaram negligência, quando residiam com a família biológica, apresentam menos habilidades sociais do que as crianças que vivenciaram outro tipo de experiências. De acordo com Pears & Fisher (2005) as crianças adotadas, vítimas de negligência, apresentaram efeitos da experiência de stress tóxico, resultante da ativação prolongada do sistema de resposta ao stress, na ausência de relações protetoras, o que influencia diretamente o seu desenvolvimento socioemocional, tal como comprovam estes resultados. Relativamente ao modo como os pais reagem às emoções negativas dos filhos, verifica-se que as figuras parentais reportam mais reações positivas do que negativas, observando-se que são as mães quem manifesta mais este tipo de reações. Ao contrário da evidência científica anterior (e.g. Alves & Cruz, 2011; Eisenberg et al., 1996), as reações positivas dos pais às emoções negativas dos filhos não revelaram ter qualquer impacto na competência social das crianças adotadas. Por sua vez, mais reações parentais negativas às emoções dos filhos são preditoras de menos habilidades sociais e mais problemas de 14 comportamento nas crianças adotadas. Estes resultados vão de encontro aos dados da investigação com crianças não adotadas (e.g., Alves & Cruz, 2011; Eisenberg et al., 1996) e mostram o impacto dos comportamentos parentais no desenvolvimento da competência social dos filhos, bem como o impacto negativo que advém de reagir de modo não construtivo às emoções negativas destes. A escolaridade dos pais revelou ser preditor das habilidades sociais dos filhos – quanto maior a escolaridade menos habilidades sociais. Note-se que maior escolaridade dos pais também se relaciona com menos reações parentais positivas e negativas às emoções dos filhos, indicando que os pais com mais escolaridade são menos ativos a responder às emoções negativas dos filhos. Este baixo nível de orientação parental, perante as emoções negativas dos filhos, pode estar a contribuir para uma menor competência social das crianças adotadas. . Finalmente, características da própria criança também se revelaram preditores da sua competência social. Verificou-se que menos habilidades sociais são preditores de mais problemas de comportamento e vice-versa. A falta de habilidades sociais das crianças, quer devido a falta de oportunidade para as adquirir, quer devido a uma inadequada exibição das mesmas, pode conduzir a problemas de ajustamento social ou mesmo psicopatologia grave (Gresham & Elliott, 2008; Gresham et al., 2010). Da mesma forma, os problemas de comportamento podem interferir/impedir a aquisição ou a manifestação das habilidades sociais (Gresham et al., 2010). Este dado comprova a importância de estudar estas duas variáveis quando se avalia competência social. Apesar de algumas limitações, nomeadamente no que diz respeito à avaliação destes processos apenas na perspetiva parental, os resultados deste estudo contribuem para a compreensão dos processos que estão na base do desenvolvimento da competência social das crianças com um passado de adversidade e comprovam que esse desenvolvimento é influenciado quer por fatores intrapessoais, quer por fatores contextuais, sendo a família um fator determinante. 4. Conclusão Este estudo pretende ser um contributo para a compreensão da competência social das crianças adotadas de idade escolar, uma vez que esta tem vindo a ser referida como 15 uma área vulnerável no desenvolvimento destas crianças, sobretudo as que experienciaram adversidade prévia à adoção. Uma das principais mais-valias deste trabalho é a avaliação da competência social através, não só dos problemas de comportamento, como também das habilidades sociais, o que permitiu averiguar que as crianças adotadas em geral apresentam adequadas habilidades sociais, apesar de terem mais problemas de externalização e hiperatividade e/ou défice de atenção, principalmente os rapazes. Uma das limitações deste estudo prende-se com a avaliação da competência social através de apenas um informante, os pais. Estudos posteriores deveriam obter também as perspetivas de outros informantes, nomeadamente professores e pares, de forma a compreender como é que outros agentes sociais, exteriores à família mas que convivem diariamente com as crianças, percecionam a adequação das habilidades sociais destas. A perspetiva da própria também deverá ser tida em conta na avaliação da competência social. Este estudo permitiu também identificar diferentes preditores do desenvolvimento da competência social das crianças adotadas. Ao nível das variáveis relacionadas com a criança e com o seu passado, verificou-se que as experiências adversas prévias à adoção têm um impacto negativo no desenvolvimento da competência social, com a vivência de negligência na família biológica a predizer menos habilidades sociais e o tempo de acolhimento a predizer mais problemas de comportamento. Estes resultados demonstram a importância de identificar precocemente as crianças que estão em risco nos contextos onde estão inseridas e de encontrar soluções que permitam acelerar a colocação das crianças numa família. Verificou-se ainda que menos habilidades sociais é preditor de mais problemas de comportamento e vice-versa, o que mostra esta dupla dimensão do comportamento social individual. No que concerne às variáveis parentais, observou-se que maior escolaridade dos pais é preditor de menos habilidades sociais das crianças adotadas. Este dado pode deverse ao facto de neste estudo os pais com maior escolaridade serem menos ativos na abordagem educativa às emoções negativas das crianças. Em estudos futuros seria importante verificar se estes resultados se replicam e, caso se verifique, analisar se esta é uma especificidade das famílias adotivas. Finalmente, quanto às variáveis da interação pais-filhos, mais reações parentais negativas às emoções negativas dos filhos é preditor de menos habilidades sociais e mais problemas de comportamento. Estes dados mostram que uma postura negativa e/ou de minimização das emoções negativas dos filhos tem um impacto negativo na competência 16 social das crianças adotadas. Este resultado é indicador do papel interventivo que a família, e principalmente a qualidade da relação pais-filhos, pode ter no desenvolvimento social da criança adotada. Estudos futuros poderiam analisar o valor preditor de outras variáveis, relacionadas com a adoção, na competência social das crianças adotadas, nomeadamente avaliar o eventual impacto da comunicação sobre a adoção na família, das atitudes que as crianças têm perante a adoção e do modo como lidam com as perdas associadas. A partir destes resultados surgem algumas implicações para a prática de intervenção profissional junto de famílias adotivas. É um facto que as experiências na família adotiva podem contribuir para um desenvolvimento mais adequado e para colmatar algumas dificuldades das crianças adotadas. As crianças com história de adversidade precoce são frequentemente portadoras de problemas emocionais e de comportamento, hiperatividade e/ou défice de atenção, dificuldades escolares, entre outras, que se prolongam no tempo e que tornam necessário um acompanhamento profissional mais específico junto dos pais adotivos e da criança adotada. Neste sentido, são necessários serviços de pós-adoção com um papel mais efetivo no apoio às famílias adotivas. Espera-se que este estudo contribua para a investigação acerca da adoção em Portugal e que seja um catalisador de uma intervenção mais eficaz junto das famílias adotivas. 17 Referências bibliográficas Alves, D., & Cruz, O. (2011). Reações Parentais às Emoções Negativas dos filhos (RPEN): Um questionário de avaliação da meta-emoção parental. In A. S. Ferreira, A. Verhaeghe, D. R. 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