NECESSIDADES NUTRICIONAIS DO DOENTE CRÍTICO
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Universidade do Porto Instituto de Ciências Biomédicas de Abel Salazar Dissertação Mestrado Integrado em Medicina N NE EC CE ES SS SI ID DA AD DE ES S N NU UT TR RI IC CI IO ON NA AI IS S D DO O D DO OE EN NT TE E C CR RÍ ÍT TI IC CO O Nuno André de Almeida Costa Orientador: Dr. Aníbal Marinho Porto, 2012
NECESSIDADES NUTRICIONAIS DO DOENTE CRÍTICO Dissertação para obtenção do grau de Mestre em Medicina. Nuno André de Almeida Costa, aluno do 6.º ano do Mestrado Integrado em Medicina do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto. Orientador: Dr. Aníbal Defensor Marinho, Chefe de Serviço da Unidade de Cuidados Intensivos 1 do Centro Hospitalar do Porto Este trabalho segue as normas de publicação da Revista Brasileira de Terapia Intensiva (Brazilian Journal of Intensive Care, BJIC), ISSN 0103-507X, onde se perspetiva ser publicado.
III Resumo Introdução: A avaliação do consumo energético através de calorimetria indireta é o método mais preciso para determinar as necessidades calóricas reais. Contudo, devido às suas limitações e inacessibilidade, as unidades de cuidados intensivos recorrem a equações preditivas do consumo energético ou a recomendações estabelecidas por sociedades internacionais. Objetivo: Comparação do consumo energético de doentes críticos avaliados por calorimetria indireta com os calculados através da equação de Harris-Benedict e com os recomendados pela Sociedade Europeia de Nutrição (ESPEN). Métodos: Procedeu-se a um estudo retrospetivo num Serviço de Cuidados Intensivos Polivalente do Centro Hospitalar do Porto. Foram selecionados doentes em que se procedeu à avaliação das necessidades calóricas desde 2003 até abril de 2012. Foi calculada a precisão (intervalo de ± 10% entre os valores medidos e estimados), limites de concordância e o viés da equação. Resultados: Foram avaliados 85 doentes em que se efetuaram 288 medições por calorimetria indireta. Valores obtidos para necessidades nutricionais em diferentes métodos: Calorimetria Indireta 1773,23 ± 444,84 kcal/dia (24,69 ± 6,44 kcal/kg/dia), Equação de Harris-Benedict 1510,85 ± 276,90 kcal/dia (20,77 ± 2,24 kcal/kg/dia). A precisão da equação foi de 29,51% e o viés foi de -262,38 kcal/dia, com limites de concordância entre -1007,26 a 482,50 kcal/dia. O sexo (p=0,023), a temperatura (p=0,009) e o índice de massa corporal (p<0,001) revelaram-se fatores com impacto significativo no consumo energético.
IV Conclusões: As recomendações europeias de administração calórica adequam-se, de uma forma global, aos doentes críticos na unidade estudada. A equação de HarrisBenedict não é precisa na determinação do consumo energético, subestimando-o, e apresentando diferenças significativas para predizer a nível individual o consumo energético real. Palavras-chave: Calorimetria indireta; suporte nutricional; doente crítico; consumo energético.
V Abstract Introduction: Measuring energy expenditure via indirect calorimetry is the most accurate method to determine the actual caloric needs. However, due to its limitations and inaccessibility, intensive care units rely on energy expenditure predictive equations or recommendations from international societies. Objective: To evaluate and compare energy expenditure in critically ill patients measured by indirect calorimetry with those calculated by the Harris-Benedict equation and the recommended by the European Society of Nutrition (ESPEN). Methods: A retrospective study was conducted in a polyvalent intensive care service of Centro Hospitalar do Porto. Critically ill patients with caloric needs assessment between 2003 and April 2012 were selected. We calculated the accuracy (predictions within 90% to 110% of the measured values), limits of agreement and bias of the equation. Results: A total of 85 patients in which 288 measurements by indirect calorimetry were performed were selected. Energy expenditure obtained for different methods: Indirect Calorimetry 1773.23 ± 444.84 kcal/day (24.69 ± 6.44 kcal/kg/day); Harris-Benedict Equation 1510.85 ± 276.90 kcal/day (20.77 ± 2.24 kcal/kg/day). The equation accuracy was 29,51% with bias of -262.38 kcal/day and limits of agreement between -1007.26 and 482.50 kcal/day. Sex (p = 0.023), temperature (p = 0.009) and body mass index (p <0.001) had significant impact on energy expenditure. Conclusions: The European Society caloric recommendations are globally suitable for the critically ill needs in the study unit. The Harris-Benedict equation is not accurate in
VI determining the energy expenditure. It underestimates it and reveals significant differences at the individual level to predict actual energy expenditure. Key words: Indirect calorimetry; nutritional support; critically ill; energy expenditure.
VII Agradecimentos Ao Dr. Aníbal Marinho pela disponibilidade e atenção demonstrada e pelo incentivo e desejo de produção científica que incutiu em mim. À Raquel Gil pela preocupação e ajuda.
VIII Índice Resumo ................................................................................................................................ III Abstract ................................................................................................................................. V Agradecimentos .................................................................................................................. VII Lista de Abreviaturas ............................................................................................................. 9 Lista de Tabelas ................................................................................................................... 10 Lista de Figuras ................................................................................................................... 11 Introdução ............................................................................................................................ 12 Material e métodos .............................................................................................................. 15 Resultados ............................................................................................................................ 20 Discussão ............................................................................................................................. 33 Referências .......................................................................................................................... 38
9 Lista de Abreviaturas ASPEN – American Society for Parenteral and Enteral Nutrition CHP – Centro Hospitalar do Porto CE – Consumo energético CI – Calorimetria indireta CTL – Contagem total de leucócitos DP – Desvio-padrão ESPEN – European Society for Clinical Nutrition and Metabolism HB – Harris-Benedict IC – Intervalo de confiância IMC – Índice de massa corporal OR – Odds ratio PCR – Proteína C reativa QR – Quociente respiratório SN – Suporte nutricional SOFA - Sequential Organ Failure Assessment SPSS – Statistical Package for the Social Sciences VCO2 – Volume de dióxido de carbono VO2 – Volume de Oxigénio UCI – Unidade de Cuidados Intensivos
16 sendo agrupados em cinco classes tendo por base a classificação da Organização Mundial de Saúde24: <18,5 (baixo peso), 18,5-24,99 (normoponderal), 25-29,99 (excesso de peso), 30-34,99 (obesidade grau I) e ≥ 35 (obesidade grau II e III). 2. Calorimetria indireta A medição do CE real dos doentes foi efetuada por CI respiratória e todas as medições foram realizadas por um único responsável na instituição (orientador deste trabalho) com domínio da técnica, limitando-se, assim, a introdução de erros operador-dependente. Foram registados dados de todas as medições efetuadas a partir do segundo dia de internamento, respeitando os critérios de inclusão no estudo. Todos os doentes foram avaliados durante ventilação mecânica, de forma contínua, com duração mínima de 25 minutos, em posição supina no leito, com movimentação mínima dos doentes e num ambiente termoneutro. Foi realizada apenas uma medição por dia, não sendo estabelecido um período específico para esse efeito. Em cada medição por calorimetria indireta foram registados valores de quociente respiratório (QR), volume de oxigénio consumido (VO2) e de dióxido de carbono produzido (VCO2), administração de catecolaminas, temperatura do doente e presença ou não de sedação. O aparelho utilizado para realização da CI foi o monitor metabólico DeltatractTM II (Datex-Ohmeda, Finlândia) e foi calibrado (gás e pressão) antes de
17 cada medição conforme as recomendações do fabricante25. O consumo energético é apresentado em kcal/dia e em kcal/kg/dia. Após estabelecimento de suporte nutricional, as medições foram realizadas com manutenção de nutrição contínua. A cada doente foram ainda registados valores de albumina, leucócitos, PCR e score SOFA no dia da primeira medição da CI e valores de pré-albumina e de ureia e creatinina de 24h nos dias subsequentes mais próximos ao da primeira medição. 3. Equação de Harris - Benedict Foi calculado o consumo energético basal através da equação preditiva de Harris-Benedict (tabela I). Não foram aplicados fatores de stress/correção à equação por se considerar que a introdução de tais fatores introduz um carácter empírico nas estimativas. Tabela I – Cálculo do consumo energético basal (kcal/dia) através da equação de Harris-Benedict sem fatores de correção Equação de Harris-Benedict* Sexo masculino 66,47 + (13,75 x peso) + (5,003 x altura) – (6,775 x idade) Sexo feminino 655,09 + (9,563 x peso) + (1,85 x altura) – (4,676 x idade) * Unidades dos parâmetros: peso em kg, altura em cm e idade em anos.
18 4. Análise estatística Para análise e tratamento dos dados estatísticos foi usado o programa SPSS (Statistical Package for the Social Sciences), versão 17, e, em todos os testes, foi considerado um nível de significância estatística de p <0,05. Os resultados são apresentados como média ± desvio-padrão (DP). Foi calculado o quociente de correlação de Pearson para avaliar a relação entre o CE obtido pela equação de HB e medido por CI. A correlação mede a força e direção da relação e o valor (r) varia entre 0 (sem correlação) e 1 (correlação perfeita)26. O método de Bland & Altman permite descrever a concordância entre duas medições quantitativas que medem a mesma característica na mesma escala27 e foi usado para avaliar a concordância dos valores obtidos pelos dois métodos. Não existe um valor de prova para descrever a concordância, esta passa pelo conceito que a diferença das duas medições emparelhadas é analisada em relação à média das duas medições, sendo recomendado que 95% dos dados devem estar incluídos em ± 1,96 desvios-padrões da média da diferença26 e que o viés seja próximo do valor 0. Foi calculado o grau de precisão da equação de HB, traduzido pela percentagem de dados compreendidos em ± 10% dos obtidos pela CI. Quando os valores das estimativas se encontravam fora desse intervalo, estas foram entendidas como imprecisas6 e foram classificados como aporte calórico indutor de subnutrição valores fornecidos pela equação de HB < 90% dos medidos pela CI e sobrenutrição os > 110%. Foi calculado o odds ratio (OR) para o risco de morte de acordo com o aporte calórico, e a probabilidade de sobrevivência estratificada de acordo com o aporte calórico foi estudada através das curvas de Kaplan-Meyer e log rank test.
19 Foi igualmente calculado o viés da equação de HB, isto é, a diferença média do CE obtido pela equação de HB e pela CI para todas as medições e agrupada por IMC. Os resultados foram expressos em Kcal/dia e em intervalos de confiança (IC) a 95% para a média da diferença. A equação de HB é considerada sem viés se o IC incluir o valor 0. Avaliou-se a associação entre o CE real por quilograma de peso e os seguintes parâmetros: sexo, idade, sedação, administração de aminas, temperatura, tipo de admissão e score SOFA. A comparação entre as variáveis contínuas foi feita usando modelos de regressão e a comparação entre variáveis contínuas e categóricas, dicotómicas e policotómicas, foi realizada através do recurso aos testes estatísticos de t-Student e ANOVA, respetivamente.
20 Resultados Do total de 136 doentes que foram submetidos a CI desde 2003 até abril de 2012 nesta UCI, 85 cumpriram os requisitos de inclusão. A amostra foi constituída por 71,76% (n=61) indivíduos do sexo masculino com uma idade média de 60,08 ± 17,05 anos, um IMC médio de 25,84 ± 5,13 e uma taxa de mortalidade de 23,8%. Motivos de admissão: foro neurocirúrgico 50,6%, médico 16,5%, transplantes 7,1%, cirúrgico urgente 15,3% e cirúrgico programado 10,6%. O tempo de internamento médio foi de 13,42 ± 13,86 dias com o valor mínimo de 3 dias de internamento e máximo de 76 dias (figura 1). Figura 1 – Histograma da frequência de tempo de internamento (dias). Os valores obtidos em cada medição de CI, nomeadamente o QR, VO2 e VCO2, administração de catecolaminas, temperatura do doente e presença ou não de sedação estão descritos na tabela II. Os valores obtidos de albumina, leucócitos,
21 PCR e score SOFA no dia da primeira medição da CI e valores de pré-albumina e de ureia e creatinina de 24h encontram-se na tabela III. Tabela II – Parâmetros fornecidos pelo monitor da calorimetria indireta e dados colhidos para cada medição efetuada n Valor médio % de casos positivos QR 288 0,77 ± 0,16 - VO2 240 269,45 ± 73,33 - VCO2 240 186,99 ± 51,72 - Catecolaminas 224 - 30,4 Sedação 214 - 65,9 Temperatura ≥ 38.ºC 204 - 34,8 Tabela III – Dados analíticos colhidos por doente n Valor médio Diferença mediana de dias da medição da CI Albumina (g/dl) 85 2,82 ± 0,59 0 CTL (células/mm3) 85 12409,72 ± 8476,77 PCR (mg/L) 78 112,60 ± 106,82 SOFA 82 5,46 ± 3,02 SOFA – cardiovascular 80 1,41 ± 1,85 SOFA – respiração 81 1,78 ± 1,16 SOFA – renal 80 0,2 ± 0,6 SOFA – coagulação 81 0,43 ± 0,93 SOFA – Glasgow 68 1,45 ± 1,69 SOFA – hepático 80 0,32 ± 0,74
22 Pré-albumina (mg/L) 63 141,83 ± 72,05 1,5 Ureia 24h (g/dia) 67 25,53 ± 14,19 Creatinina 24h (mg/dia) 67 1139,08 ± 536,99 Onde: CTL, contagem total de linfócitos Os doentes estudados apresentavam um IMC médio de 25,84 ± 5,13 assim distribuídos: 5,9% (n=5) tinham IMC < 18,5 (baixo peso), 38,8% (n=33) com IMC entre 18,5 e 24,99 (normoponderal), 36,5% (n=31) com IMC 25-29,99 (excesso de peso), 15,3% (n=13) com IMC 30-34,99 (obesidade grau I) e 3,5% (n=3) com IMC ≥ 35 (obesidade grau II e III) (figura 2). Figura 2 – Distribuição do índice de massa corporal (IMC). À esquerda histograma da distribuição do IMC dos indivíduos. À direita distribuição dos indivíduos por classes de IMC. Foram efetuadas 288 medições de CI tendo-se obtido um valor médio de necessidades calóricas de 1773,23 ± 444,84 kcal/dia (24,69 ± 6,44 Kcal/kg/dia) (tabela IV).
23 Tabela IV – Características das medições por calorimetria indireta Medições por calorimetria indireta Número de medições 288 N.º médio por doente 3,38 ± 2,18 Duração da medição (h) Média ± DP 12,12 ± 9,43 Mínimo 0,45 Máximo 72,42 Total 3491,38 Necessidades calóricas (Kcal/kg/dia) Média ± DP 24,69 ± 6,44 Mediana 24,22 Mínimo 11,75 Máximo 50,00 Onde: DP, desvio padrão. O consumo energético médio obtido pela equação de HB foi de 1510,85 ± 276,90 kcal/dia (20,77 ± 2,24 kcal/Kg/dia). Desta forma, a equação de HB indicou em média um CE correspondente a 85,17% do medido pela CI. Apenas em 29,51% (n=85) das medições por CI a equação de HarrisBenedict previu uma administração calórica adequada. Em 57,29% das medições (n=165) haveria hiponutrição (valor previsto < 90% do medido) e em 13,20% (n=38) hipernutrição (valor >110%), perfazendo um total de 70,49% de aporte calórico desadequado (figura 3).
24 Figura 3 – Distribuição do aporte calórico de acordo com a estimativa da equação de Harris-Benedict (percentagem de aporte adequado, indutor de subnutrição e sobrenutrição). O quociente de correlação de Pearson revelou uma correlação significativa (p < 0,001, n= 288) mas moderada26 (r= 0,528) entre o CE obtido através da fórmula de HB e o medido por CI (fig. 4). A figura 5 mostra a representação do método de Bland-Altman. A partir deste podemos constatar que 15/288 (0,05%) dos pontos estão para além de ± 1,96 desvios-padrões, existindo uma concordância aceitável entre os dados fornecidos pelos dois métodos. O viés obtido foi de -262,38 ± 380,04 kcal/dia e os limites de concordância variaram entre -1007,26 (média – 1,96 DP) e 482,5 (média + 1,96 DP).
25 Figura 4 – Correlação de Pearson para o consumo energético medido por calorimetria indireta e estimado pela equação de Harris-Benedict. A equação de HB apresentou-se enviesada quando considerada a totalidade das medições (intervalo de confiança a 95% de -306,46 a -218,30), estando não enviesada apenas quando agrupada por IMC e para os indivíduos com IMC nas classes de baixo peso, excesso de peso e obesidade graus I, II e III (tabela V). A equação preditiva de HB subestimou o CE real para a generalidade das medições e para todas as classes de IMC, sendo a diferença média maior para os indivíduos com IMC < 18,5 (-318,36 kcal/dia) e a menor para os indivíduos com obesidade grau II e III (-4,70 kcal/dia). A precisão da equação mostrou-se aumentada nas classes referentes a obesidade, sendo que, nos graus II e III, a precisão obtida foi de 100%. O fator de correção médio da equação de HB à CI foi de 1,17.
32 Tabela VII – Percentagem de tipo de admissão por classe de índice de massa corporal agrupado. Tipo de admissão Neuroci. Médico Transpl. Cirúrgico Urgente Cirúrgico Programado % % % % % IMC Baixo peso 60 20 0 20 0 Normal 51,5 9,1 18,2 12,1 9,1 Excesso de peso 45,2 16,1 0 22,6 16,1 Obesidade grau I 53,8 30,8 0 7,7 7,7 Obesidade grau II e III 66,7 33,3 0 0 0 Onde: Neuroci., abreviatura de neurocirúrgico; transpl., abreviatura de transplantes Figura 9Gráfico de Kaplan-Meyer representando a probabilidade de sobrevivência ao longo de 28 dias para os indivíduos com aporte calórico prescrito adequado e não adequado.
33 Discussão A equação de Harris-Benedict revelou-se imprecisa (29,51% de precisão), enviesada e com limites de concordância alargados, desde -1007,26 a 482,50 kcal/dia. Desta forma, a utilidade a nível prático da equação de HB parece limitada, uma vez que, num extremo, dificilmente parece aceitável que, num indivíduo, a estimação calórica possa indicar um valor de 1000 kcal/dia inferior ao que seria medido por calorimetria indireta e, segundo Frankenfield et al28, valores de precisão inferiores a 50% não parecem adequados do ponto de vista clínico. Os nossos resultados apontam para 70,49% de aporte calórico estimado desadequado (57,29% de hiponutrição e 13,19% de hipernutrição), o que está de acordo com a literatura. Kross et al20, em 927 doentes críticos, constataram 68,7% de imprecisão (nutrição desadequada) da equação de HB, Pirat et al6, em 34 doentes críticos com neoplasias, relatam 58% de nutrição desadequada (29% de hiponutrição e hipernutrição respetivamente) e Boullata et al22 em 395 concluiram 57% de predições ineficazes. Neste estudo verificou-se uma correlação significativa de apenas 52,8% entre o CE obtido através da equação de HB (1510,85 kcal/dia) e da CI (1773,23 kcal/dia, p<0,001), sendo esta equação indutora de hiponutrição (a equação previu em média apenas 85,19% das calorias necessárias). A equação de HB apresentou viés de -262,38 kcal/dia, o que corresponde a um valor concordante e relativamente mais preciso que o atribuído por vários estudos, como refere a revisão de Frankenfield et al em que os valores médios variavam entre -250 e -900kcal/dia, sendo contudo bastante superior às -150 kcal/dia constatadas por Kross et al. Embora não tenha sido definido a priori, consideramos, tal como Boullata et al, que erros superiores a 250kcal/dia não são
34 clinicamente aceitáveis, podendo induzir estados de hiponutrição ou hipernutrição e suas consequências deletérias. Sabendo que em média houve uma subestimação diária de 262,38 kcal e que o tempo médio de internamento foi de 13,42 dias, poderíamos constatar que o viés cumulativo seria cerca de 3521 kcal a menos, o que enfatiza a imprecisão da estimação. Ao contrário do apontado por Kross et al, no nosso estudo a equação de HB não parece subestimar o CE de forma mais marcada nos indivíduos com obesidade. Pelo contrário, a diferença média parece ser menor (-151kcal/dia para obesidade grau I e -4,7 kcal/dia para obesidade grau II e III vs -262 kcal/dia para o total) mas isto poderá deverse ao número limitado de indivíduos com obesidade neste estudo (18,8%) comparativamente aos 43,3% que incluiam o estudo supracitado. Todavia estes resultados são concordantes com os estudos de Zauner et al.18 e de Reid29 e sugerem que a equação de HB sem fatores de correção parece ser um bom preditor do CE nos indivíduos com IMC ≥ 35 (100% de precisão). A existência de correlação entre a equação de HB e a CI é concordante com os resultados de Boullata et al, mas novamente isso não se refletiu na precisão e inexistência de viés aceitável, o que são caraterísticas clinicamente mais úteis do que a medição da força da correlação. Em suma, o presente estudo vai ao encontro de vários resultados apontando para a ineficácia das equações preditivas20,22,28,30 e para o facto da equação de HB tender a subestimar as verdadeiras necessidades calóricas 20,31. Todavia, outros autores apontam a equação de HB como um substituto aceitável da CI32,33. As últimas guidelines da ESPEN8 recomendam que, ao doente crítico, na ausência de calorimetria indireta, deve ser administrado um valor calórico de 25kcal/kg/dia a atingir ao longo de 2-3 dias após o início de suporte nutricional. Os
35 nossos resultados, constatando necessidades calóricas médias de 24,69 kcal/kg/dia, vieram demonstrar que, de uma forma global, os valores recomendados pela sociedade europeia são adequados às necessidades globais dos doentes desta UCI, embora possa ocorrer ligeira hipernutrição, particularmente para indivíduos com IMC mais elevado. Isto é ainda mais relevante, atendendo a que existem recomendações recentes34 que sugerem a aplicação de um regime nutricional hipocalórico (11-14/kg/dia do peso atual) e hiperproteico aos doentes obesos sem contraindicações. Stucky et al35 recomenda, inclusivamente, a utilização de regimes nutricionais hipocalóricos na generalidade dos internados em UCI. O fator de correção médio de 1,17 à equação de HB é bastante inferior ao 1,6 apontado por MacDonald e Hildebrant16 em 76 doentes críticos, mas mais próximo do 1,1 apontado por Boullata et al em 395 doentes críticos. O uso de fatores de correção foi já considerado não fiável a nível prático28, até porque, diversos parâmetros, alguns ainda não determinados, contribuem para o CE total e variam consoante a globalidade desses parâmetros numa UCI. O tipo de admissão não influenciou o CE medido, ressalvando-se que 50,6% dos indivíduos pertenciam a uma só classe (patologia neurocirúrgica). Embora esteja descrito que a sedação diminui o CE real, enquanto que as aminas vasoativas aumentam36, esta associação não se verificou no nosso estudo. Não obstante, não foi usada nenhuma escala de sedação para quantificar o nível de sedação dos doentes. Neste estudo também não se verificou a existência de uma relação entre o CE real e a gravidade da doença avaliada pelo SOFA. Por outro lado, o CE real foi significativamente maior nos indivíduos com temperatura ≥ 38ºC. Estes achados apoiam as conclusões de Bruder et al37 em que a temperatura corporal foi o maior determinante
36 do CE de repouso nos indivíduos sedados. Relativamente ao catabolismo proteico, o valor médio de ureia de 24h obtido de 25,53 g/dia é superior ao que Pirat et al obtiveram (15,1 g/dia), o que poderá indicar um estado hipercatabólico mais elevado dos doentes que ingressaram no nosso estudo. Não se observaram diferenças entre a sobrevivência dos indivíduos com aporte calórico prescrito considerado adequado vs não adequado. Todavia, o recente estudo randomizado de Singer et al (TICACOS)38 mostrou que, o aporte calórico ajustado para os valores obtidos por medições sucessivas de CI esteve associado a redução significativa da mortalidade (28,5% vs 48,2%), e maior tempo de internamento comparativamente à administração fixa de 25 kcal/kg/dia, enfatizando a relevância da determinação individual do CE. Não podemos deixar de referir as limitações deste estudo que incluem o facto de ser retrospetivo e de ter sido seleccionada uma população não aleatória de doentes, pelo que, as conclusões obtidas podem não ser generalizáveis a todos os doentes críticos. Outra limitação consiste no facto de terem sido consideradas as necessidades calóricas necessárias, e não as efetivamente administradas, podendo existir uma discrepância considerável39. Sendo a CI reconhecida como método de referência para medição do CE em doentes críticos ventilados40, as limitações que a acompanham induzem que fórmulas como a equação de HB e recomendações de sociedades de nutrição sejam ainda os métodos mais comuns de estimação do CE real na prática clínica. Os nossos resultados, apesar das suas limitações, confirmam a necessidade de se desenvolver ou melhorar os métodos preditivos de CE mais usados e corroboram que, na ausência de uma indicação
37 precisa de quais os indivíduos em que o CE é eficazmente estimado pela equação de HB, a CI permanece como método mais fidedigno da sua determinação.
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