Medo da intimidade, vinculação e divórcio parental: um estudo com jovens adultos
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993 Actas do VII Simpósio Nacional de Investigação em Psicologia Universidade do Minho, Portugal, 4 a 6 de Fevereiro de 2010 Medo da intimidade, vinculação e divórcio parental: um estudo com jovens adultos Maria Pedro Sobral1, Pedro R. Almeida1, & Maria Emília Costa1 1 Universidade do Porto – Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação Este estudo enquadra-se na teoria da vinculação (Bowlby, 1969; Bartholomew, 1990) e pretende analisar as relações entre medo da intimidade, divórcio parental, e qualidade de vinculação ao pai, à mãe e ao par amoroso. Foram aplicados o Questionário de Vinculação ao Pai e à Mãe (Matos & Costa, 2001), a Experiences in Close Relationships (Brennan, Clark, & Shaver, 1998) e o Risk in Intimacy Inventory (Pilkington & Richardson, 1988) a 264 jovens adultos (111 filhos de pais divorciados e 153 filhos de pais casados). Os resultados sugerem uma relação entre medo da intimidade e os padrões de vinculação insegura, nomeadamente desinvestida e preocupada ao pai e à mãe e desinvestida e amedrontada ao par amoroso. O divórcio parental não se demonstrou relacionado com o medo da intimidade nem com a vinculação ao par amoroso, verificando-se um efeito do divórcio sobre a vinculação aos pais, moderada pelo progenitor com quem o sujeito vivia. Palavras-chave: medo da intimidade, vinculação, divórcio parental. 1. INTRODUÇÃO Sendo os aspectos do foro relacional centrais para o bem-estar psicológico dos jovens adultos, parece-nos importante debruçar-nos sobre a adaptação relacional destes indivíduos. A teoria da vinculação (Bowlby; 1969) tem sido frequentemente utilizada para apurar as diferenças interpessoais no âmbito relacional. Embora tradicionalmente tenha sido usada para descrever o vínculo afectivo estabelecido entre a criança e o seu cuidador, as conceptualizações mais recentes desta teoria estenderam-se a descrever uma série de relações significativas ao longo da vida, incluindo as relações de intimidade durante a juventude adulta. Pressupondo que os indivíduos com diferentes padrões de vinculação percepcionam, nas suas relações, os acontecimentos em função dos modelos de si próprio (i.e., as expectativas gerais acera do valor do self, que regulam a ansiedade nas relações de proximidade com os outros e o medo do abandono) e do outro (i.e., as expectativas gerais acerca da disponibilidade dos outros, que regulam a procura de apoio e de proximidade dos outros) que vão sendo desenvolvidos em relação com as figuras de vinculação, Bartholomew (1990) propõe um modelo bi-
994 Actas do VII Simpósio Nacional de Investigação em Psicologia Universidade do Minho, Portugal, 4 a 6 de Fevereiro de 2010 dimensional da vinculação, constituído por quatro padrões: seguro (modelo positivo de si e do outro), preocupado (modelo negativo de si e positivo do outro), desinvestido (modelo positivo de si e negativo do outro) e amedrontado (modelo negativo de si e do outro). O medo da intimidade foi sugerido como preditor dos problemas de intimidade (Descutner & Thelen, 1991), que, por sua vez, são vitais para uma vida em geral saudável e satisfatória (Berman & Margolin, 1992; Firestone & Catlett, 2000; Prager, 1995). O medo da intimidade pode ser definido como relutância à confiança e ao selfdisclosure (Descutner & Thelen, 1991; McDonald, 2000; Sinclair & Nelson, 1998), medo do abandono, de perder o poder e de ser criticado ou ridicularizado pelo outro (Chelune et al., 1994; Pilkington & Richardson, 1988). A este fenómeno os autores referem-se utilizando por vezes diferentes expressões, como, precisamente, medo da intimidade (e.g., Costa, 1996; Descutner & Thelen, 1991; Firestone & Catlett, 2000; McDonald, 2000; Sherman & Thelen, 1996) ou percepção de risco da intimidade (e.g., Brunell, Pilkington & Webster, 2007; Pilkington & Richardson, 1988). O divórcio dos pais aparece implicado na adaptação relacional dos jovens adultos na medida em que pode ser uma de entre a miríade de experiências significativas ao longo da história desenvolvimental que poderão condicionar a percepção que o indivíduo tem de si e do mundo, em geral (Brennan & Shaver, 1998; Mullett & Stolberg, 2002; Woordward, Fergusson, & Belsky, 2000), e da medida em que as relações de intimidade são ou não uma ameaça à sua integridade psicológica, em particular (de Silva, 2005; Klein, 2004; Toomey & Nelson, 2001). A propensão que os filhos de pais divorciados apresentam para eles próprios se divorciarem (Gabardi & Rosen, 1992) convida-nos a explorar que potenciais dificuldades relacionais estarão por detrás desta tendência. A literatura, contudo, não é unânime quanto aos efeitos negativos do divórcio, havendo alguns estudos que não verificaram diferenças significativas entre filhos de pais divorciados, nomeadamente quanto à vinculação (Hayashi & Strickland, 1998; Schulman, Scharf, Lumer, & Maurer, 2001) e quanto ao medo da intimidade (Brooks, 2008). Este estudo pretende ser um contributo para a compreensão da adaptação relacional dos jovens adultos, avaliando o efeito da vinculação aos pais e par amoroso sobre o medo da intimidade e a medida em que estes são influenciados pela experiência de divórcio parental.
995 Actas do VII Simpósio Nacional de Investigação em Psicologia Universidade do Minho, Portugal, 4 a 6 de Fevereiro de 2010 2. MÉTODO 2.1 Participantes A amostra foi seleccionada segundo um formato de conveniência e seguindo um efeito bola de neve. É constituída por 264 sujeitos, 111 dos quais são filhos de pais divorciados e 153 filhos de pais casados. 147 desses jovens são do sexo feminino e 117 são do sexo masculino. O intervalo de idades dos sujeitos varia entre os 18 e os 30 anos, em que a média de idades é de 22,75 anos (DP=2,567). Destes jovens adultos, 67,0% são estudantes e 90,2% da amostra estava a frequentar ou tinha frequentado o ensino superior. Para se proceder às comparações entre filhos de pais divorciados e filhos de pais casados, analisou-se o emparelhamento dos grupos, não se encontrando diferenças entre os mesmos quanto às variáveis consideradas relevantes. 2.2 Instrumentos Questionário de Vinculação ao Pai e à Mãe (QVPM; Matos & Costa, 2001). Trata-se de um instrumento de auto-relato que se destina a avaliar as representações de vinculação que os adolescentes e jovens adultos têm em relação ao pai e à mãe. É composto por uma estrutura de três factores, cada um dos quais com 10 itens, todos eles ajustados à teoria da vinculação de Bowlby (1969) e Bartholomew (1990): Inibição da Exploração e da Individualidade (IEI; que acede à percepção de limitações à expressão da individualidade e aos comportamentos exploratórios), Qualidade do Laço Emocional (QLE; que pretende avaliar a importância do pai ou da mãe enquanto figura de vinculação) e Ansiedade de Separação e Dependência (ASD; que acede ao medo da separação da figura de vinculação e ao grau de dependência à mesma). Dado que este instrumento tem vindo a ser utilizado num conjunto alargado de estudos independentes em Portugal, tendo vindo a evidenciar invariância da estrutura factorial (e.g., Guedes, 2005; Moura, 2005; Oliveira, 2005; Rocha, 2008) e um ajustamento do modelo teórico, procedeu-se apenas à análise da consistência interna que, tal nos estudos anteriores referidos, revelou-se com valores adequados (IEI: α=.823 - pai; α=.852 - mãe; QLE: α=.953 - pai; α=.894 - mãe; ASD: α=.875 - pai; α=.855 - mãe). Experiences in Close Relationships Scale (ECR; Brennan, Clark e Shaver, 1998). O ECR é composto por duas subescalas (ansiedade e evitamento) e pede aos participantes para indicarem a forma como vivem as relações em geral (não só a relação romântica actual mas também as passadas). A subescala da ansiedade (18 itens) acede à
996 Actas do VII Simpósio Nacional de Investigação em Psicologia Universidade do Minho, Portugal, 4 a 6 de Fevereiro de 2010 medida em que os sujeitos receiam ser rejeitados, não amados ou não aprovados pelo outro e à medida em que o indivíduo sente ansiedade quando um companheiro não demonstra disponibilidade ou responsividade. A subescala de evitamento (18 itens) acede à medida em que o sujeito receia a proximidade, a dependência e a intimidade, bem como a medida em que relute ao self-disclosure e em que não sente que pode confiar no outro quando necessário. Foi realizada uma análise factorial restringindo a solução a dois factores ortogonais (rotação Varimax com normalização de Kaiser). A solução obtida explica 45.00% da variância dos dados (o factor 1 (evitamento) explica 26.235% da variância e o factor 2 (ansiedade) explica 18.771% da variância), sendo que todos os itens saturam nas dimensões previstas. Ambas as subescalas demonstram uma boa consistência interna para a amostra presente (ansiedade: α=.907; evitamento: α=.922). Risk in Intimacy Inventory (RII; Pilkington e Richardson, 1988). Trata-se de uma medida unifactorial das percepções de risco de intimidade. Uma análise factorial revelou que os 10 itens saturam num único factor, que explica 50,042% da variância. Os 10 itens apresentam um alpha de cronbach de .887 para a amostra presente. Questionário Sócio-demográfico, construído especialmente para este estudo. 3. RESULTADOS De forma a permitir a avaliação da existência de configurações específicas na organização das dimensões avaliadas pelo QVPM (em separado para o pai e para a mãe) e pelo ECR, foram realizados procedimentos estatísticos de análise de clusters, através do método K_Means. Os sujeitos foram divididos em quatro estilos de vinculação ao pai, à mãe e ao par amoroso, utilizando-se como critério fundamental para a tomada desta opção a análise dos dendogramas e a pertinência conceptual da interpretação dos mesmos, de acordo com estudos anteriores e com os postulados da teoria da vinculação. De seguida foram realizadas análises de variância (ANOVA) simples, legitimando-se a especificidade de cada configuração. Desta forma averigua-se também a variabilidade de cada uma das dimensões em função de cada um dos clusters, tendo em conta que o modelo de Bartholomew pressupõe a existência de determinadas semelhanças entre protótipos de quadrantes próximos. As análises post hoc demonstraram um efeito de cluster na IEI (F(3, 246)=51.629, p=.000), na QLE (F(3, 246)=348.709, p=.000) e na ASD (F(3, 246)=129.939, p=.000) no que toca à vinculação
997 Actas do VII Simpósio Nacional de Investigação em Psicologia Universidade do Minho, Portugal, 4 a 6 de Fevereiro de 2010 ao pai, assim como diferenças significativas para os clusters do QVPM-mãe tanto em IEI (F(3, 252)=131.832, p=.000), como em QLE (F(3, 252)=111.364, p=.000) e ASD (F(3, 252)=126.020, p=.000). Verificou-se ainda que os 4 clusters para o ECR se diferenciam significativamente quer quanto à ansiedade (F(3, 252)=214.046, p=.000), quer quanto ao evitamento (F(3, 252)=115.642, p=.000). Os clusters foram denominados de seguros, preocupados, amedrontados e desinvestidos, de acordo com o modelo de Bartholomew (1990). Tabela 1: Análise de clusters do QVPM – versão pai Clusters Dimensões Seguros (N=94) Preocupados (N=59) Amedrontados (N=66) Desinvestidos (N=28) IEI 1.96 c 3.26 a 2.99 a 2.48 b QLE 5.47 a 5.25 a 4.17 b 2.00 c ASD 3.02 b 3.83 a 2.34 c 1.29 d Nota: Diferentes letras identificam diferenças significativas dos valores indicados na célula à significância estatística de p≤.05. Tabela 2: Análise de clusters do QVPM – versão mãe Clusters Dimensões Seguros (N=67) Preocupados (N=85) Amedrontados (N=65) Desinvestidos (N=36) IEI 1.77 d 3.10 b 2.39 c 3.90 a QLE 5.73 a 5.46 b 4.99 c 4.02 d ASD 3.49 b 4.00 a 2.26 c 2.49 c Nota: Diferentes letras identificam diferenças significativas dos valores indicados na célula à significância estatística de p≤.05. Tabela 3: Análise de clusters do ECR Clusters Dimensões Seguros (N=75) Preocupados (N=94) Amedrontados (N=31) Desinvestidos (N=53) Ansiedade 2.20 d 3.25 b 4.10 a 2.76 c Evitamento 1.74 c 1.82 c 2.56 b 2.94 a Nota: Diferentes letras identificam diferenças significativas dos valores indicados na célula à significância estatística de p≤.05. 3.1 Efeito da vinculação aos pais sobre o medo da intimidade Em relação à qualidade de vinculação ao pai, verifica-se que os clusters diferem significativamente quanto ao medo da intimidade (F(3, 246)=12.723, p=.000).
998 Actas do VII Simpósio Nacional de Investigação em Psicologia Universidade do Minho, Portugal, 4 a 6 de Fevereiro de 2010 Realizando testes Post Hoc através do método Sheffe, verifica-se que os sujeitos seguros obtêm valores de medo da intimidade significativamente mais baixos (M=1.84, DP=0.59), não se diferenciando dos sujeitos dos amedrontados (M=2.10, DP=0.77) (p=.ns) e diferenciando-se significativamente dos desinvestidos (M=2.36, DP=0.94) (p=.001) e dos preocupados (M=2.52, DP=0.62) (p=.000). Os sujeitos preocupados não se diferenciam dos desinvestidos (p=ns), diferenciando-se dos amedrontados (p=.001) e dos seguros (p=.000), e os sujeitos amedrontados diferenciam-se dos preocupados (p=.010). No que diz respeito à qualidade de vinculação à mãe, pode verificar-se que os 4 clusters diferem significativamente quanto ao medo da intimidade (F(3, 252)=9.782), p=.000). Testes Post Hoc através do método de Sheffe demonstraram que os amedrontados (M=1.94, DP=0.73) e os seguros (M=1.87, DP=0.63), bem como os preocupados (M=2.36, DP=0.74) e os desinvestidos (M=2.44, DP=0.74) não diferem quanto ao medo da intimidade (p=ns), sendo que os últimos (preocupados e desinvestidos) apresentam significativamente mais índices de medo da intimidade do que os primeiros (amedrontados e seguros) (preocupados vs. amedrontados, p=.006; preocupados vs. seguros, p=.001; desinvestidos vs. amedrontados, p=.012; desinvestidos vs. seguros, p=.002). No sentido de explorar mais aprofundadamente estas relações, realizaram-se regressões entre as diferentes dimensões do QVPM para o pai e para a mãe e o medo da intimidade. No que respeita à qualidade da vinculação ao pai, verificou-se uma relação negativa moderada (β=-.198, p=.002) entre QLE e os níveis de medo da intimidade; uma relação positiva moderada (β=.174, p=.006) entre ASD e os níveis de medo da intimidade; e uma relação positiva moderada/forte (β=.349, p=.000) entre IEI e os níveis de medo da intimidade. No que toca à mãe, verificou-se uma relação positiva moderada (β=-.249, p=.000) entre QLE e os níveis de medo da intimidade; uma relação positiva moderada (β=.213, p=.001) entre ASD e os níveis de medo da intimidade; e uma relação positiva moderada/forte (β=.358, p=.000) entre IEI e os níveis de medo da intimidade. 3.2 Efeito da vinculação ao par amoroso sobre o medo da intimidade Verificou-se que os sujeitos se diferenciam significativamente quanto ao medo da intimidade (F(3, 252)=39.477, p=.000), sendo que os sujeitos amedrontados (M=2.81, DP=0.61) não se diferenciam dos desinvestidos (M=2.62, DP=0.68) (p=ns). Ambos estes clusters se diferenciam do grupo dos preocupados (M=2.03, DP=0.66) e
999 Actas do VII Simpósio Nacional de Investigação em Psicologia Universidade do Minho, Portugal, 4 a 6 de Fevereiro de 2010 dos seguros (M=1.65, DP=0.51) (p=.000 para todas as comparações) e estes diferenciam-se dos preocupados (p=.002). Explorando mais aprofundadamente estas relações, realizaram-se regressões lineares simples e uma regressão linear múltipla, verificando-se uma relação positiva moderada/forte (β=.406, p=.000) entre ansiedade e medo da intimidade e uma relação positiva forte (β=.615., p=.000) entre evitamento e medo da intimidade. Inserindo a ansiedade e o evitamento como preditores do medo da intimidade num modelo de regressão múltipla, tanto a ansiedade (β=.327, p=.000) como o evitamento (β=.570, p=.000) revelam-se preditores significativos do medo da intimidade (R2=.483). No sentido de explorar ainda qual a variável com maior impacto no medo da intimidade, a qualidade de vinculação ao pai, à mãe e ao par amoroso foram inseridas num modelo factorial 4x4x4, com o medo da intimidade como variável dependente. Quando se insere estas variáveis no modelo, verifica-se um efeito significativo dos padrões de vinculação ao pai (F(3, 245)=3.442, p=.018) e um maior dos padrões de vinculação ao par amoroso (F(3, 245)=15.769, p=.000), não existindo efeito dos padrões de vinculação à mãe (F<0) ou interacções entre estes preditores (R2 ajustado do modelo = .34). 3.3 Efeito do divórcio parental sobre a vinculação aos pais Não se verificou associação entre os padrões de vinculação ao par amoroso e o divórcio dos pais (א2(3)=2.884, p=ns). Observa-se também que não existe dependência entre a qualidade de vinculação à mãe e a estrutura familiar (א2(3)=2.540, p=ns), existindo, porém, uma dependência entre a qualidade de vinculação ao pai e o divórcio parental (א2(3)=43.678, p=.000). Assim, observou-se que, para o grupo de filhos de pais divorciados existe uma maior prevalência de desinvestidos e amedrontados ao pai, enquanto que para os filhos de pais casados existe uma maior prevalência de seguros. No sentido de explorar mais aprofundadamente o significado destas relações, realizaram-se ANOVAS com as dimensões do QVPM para o pai e mãe como variáveis dependentes e divórcio como variável independente, e separando posteriormente o grupo de filhos de pais divorciados segundo o progenitor com quem vivem (comparando, portanto, Filhos de pais casados vs. Filhos de pais divorciados que vivem com a mãe vs. Filhos de pais divorciados que vivem com o pai para as dimensões do QVPM). Verifica-se, no que respeita ao pai, que os filhos de pais divorciados (M=4.11,
1000 Actas do VII Simpósio Nacional de Investigação em Psicologia Universidade do Minho, Portugal, 4 a 6 de Fevereiro de 2010 DP=1.454) têm valores significativamente mais baixos de QLE (t(147.211)=-6.374, p=.000) do que filhos de pais casados (M=5.10, DP=0.773), mas que existe, no entanto, um efeito moderador do progenitor com quem vive o sujeito, uma vez que quando se separa os filhos de pais divorciados em jovens que vivem com a mãe e jovens que vivem com o pai, apenas os primeiros diferem significativamente dos casados (p=.000) quanto à QLE. Quanto à ASD, os filhos de pais divorciados (M=2.56, DP=1.112) apresentam valores significativamente mais baixos (t(181.542)=-3.921, p=.000) do que filhos de pais casados (M=3.04, DP=0.813) e, quando se separa os filhos de pais divorciados em jovens que vivem com a mãe e jovens que vivem com o pai, apenas os primeiros diferem significativamente dos casados (p=.001). Já no que diz respeito ao IEI, não existem diferenças significativas entre os filhos de pais divorciados e filhos de pais casados (t(245)=-0.105, p=ns) ou efeito moderador do progenitor com quem o sujeito vive. Considerando a qualidade de vinculação à mãe, não se verificam diferenças significativas entre o grupo de filhos de pais divorciados e o grupo de filhos de pais casados quanto à dimensão QLE, verificando-se, no entanto, um efeito moderador do progenitor com quem vive, uma vez que, quando se separa os filhos de pais divorciados em jovens que vivem com a mãe e jovens que vivem com o pai, os segundos diferem significativamente dos casados (p=.001) quanto à QLE. Quanto a ambas as outras dimensões, não se verificam diferenças significativas entre os filhos de pais divorciados e os filhos de pais casados quanto à ASD (t(251)=-0.666, p=ns), nem quanto à IEI (t(251)=-0.424, p=ns), não se verificando também nenhum efeito moderador do progenitor com quem vive em nenhuma destas duas variáveis. 3.4 Efeito do divórcio parental sobre a vinculação ao par amoroso Recorrendo ao teste de dependência do Chi-quadrado, verifica-se que não existe associação entre os padrões de vinculação ao par amoroso e o divórcio dos pais (א2(3)=2.884, p=ns). Não se verificou também efeito do divórcio sobre o evitamento, tendo-se verificado um efeito marginalmente significativo do divórcio sobre a ansiedade (F(1,249)=2.833, p=.094).
1001 Actas do VII Simpósio Nacional de Investigação em Psicologia Universidade do Minho, Portugal, 4 a 6 de Fevereiro de 2010 3.5 Efeito do divórcio parental sobre o medo da intimidade Um teste t de Student para amostras independentes revelou que não existem diferenças significativas entre o grupo de filhos de pais divorciados e o grupo de filhos de pais casados relativamente ao medo da intimidade (t(252)=1.523, p=ns). 4. DISCUSSÃO DOS RESULTADOS Em relação à qualidade de vinculação aos pais, parecem ser os desinvestidos e os preocupados (os quais não se diferenciam significativamente) aqueles que apresentam mais medo da intimidade. Para ambas as figuras parentais, os seguros aparecem como os que menos têm medo da intimidade, sendo acompanhados pelos amedrontados. No que respeita à qualidade de vinculação ao par amoroso, parecem ser os amedrontados e os desinvestidos (que não se diferenciam significativamente) aqueles que têm mais medo da intimidade, seguindo-se dos preocupados e, finalmente, dos seguros. Estes resultados vão parcialmente de encontro aos trabalhos de Gifford (2004), que, utilizando também o ECR e o RII, verificou que os amedrontados apresentam valores mais elevados do que os desinvestidos e os preocupados, os quais apresentam níveis moderados de medo da intimidade e significativamente mais elevados do que os seguros; e de Talka (2008) que apontou os desinvestidos como os maiores detentores de medo da intimidade. É de notar que, em termos de estilos de vinculação, são os seguros e os desinvestidos aqueles que apresentam consistentemente os mais reduzidos e os mais elevados (respectivamente) índices de medo da intimidade. Tendo um modelo positivo de si e negativo do outro, os desinvestidos terão uma tendência para nas relações amorosas apresentarem baixos níveis de confiança, incapacidade de interdependência, falta de proximidade e evitamento da intimidade. Talvez o medo da intimidade tal qual é concebido se possa assumir como característica que, aliada a essas com que se cruza, compõem este padrão. Por outro lado, tendo um modelo positivo de si e do outro, e confiando em si próprios como passíveis de ser amados e passíveis de amar, os sujeitos seguros, ao apresentarem os mais reduzidos níveis de medo da intimidade parecem ter, neste sentido, uma maior capacidade para a intimidade. O facto dos indivíduos com um modelo preocupado de vinculação ao pai e à mãe (indivíduos com níveis elevados de ansiedade de separação e dependência) surgirem, não significativamente atrás dos desinvestidos, como os maiores detentores do
1008 Actas do VII Simpósio Nacional de Investigação em Psicologia Universidade do Minho, Portugal, 4 a 6 de Fevereiro de 2010 Firestone, R. W., & Catlett, J. (2000). Fear of intimacy. Washington, DC: American Psychological Association. Gabardi, L., & Rosen, L. A. (1992). Intimate relationships: College students from divorced and intact families. Journal of Divorce and Remarriage, 18 (3), 25-56. Gifford, J. N. (2004). Desire and fear as dimensions of romantic attachment. Doctoral Dissertantion. College of William and Mary, Eastern Virginia Medical School, Norfolk State University, Old Dominion University, USA. Klein, H. K. (2005). Investigation of variables influencing college students’ marital attitudes and fear of intimacy. Doctoral Dissertation, Ball State University, Muncie, Indiana, USA. McDonald, A. (2000). Young adults’ attitudes toward marriage and fear of intimacy in relation to gender, religiosity, and conflict in the family of origin. Doctoral dissertation, Faculty of the Graduate School of Texas, USA. Moura, O. (2005). A vinculação aos pais e relações familiares na adolescência. Tese de Mestrado, Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, Porto, Portugal. Pilkington, C. J., & Richardson, D. R. (1988). Perceptions of risk in intimacy. Journal of Social and Personal Relationships, 5, 503-508. Pilkington, C. J., & Woods, S. P. (1999). Risk in intimacy as a chronically accessible schema, Journal of Social and Personal Relationships, 15, 249-263. Prager, K. J. (1995). The Psychology of Intimacy. New York: Guilford. Sherman, M. D., & Thelen, M. H. (1996). Fear of intimacy scale: Validation and extension with adolescents. Journal of Social and Personal Relationships, 13 (4), 507-521. Schulman, S., Scharf, M., Lumer, D., & Mauer, O. (2001). Parental divorce and young adult children’s romantic relationships: Resolution of the divorce experience. American Journal of Orthopsychiatric, 71 (4), 473-478. Sinclair, S. L., & Nelson, E. S. (1998). The impact of parental divorce on college students’ intimate relationships and relationship beliefs. Journal of Divorce and Remarriage, 29 (2), 103-129. Talka, K. M. (2008). Alone on the range: Does dismissing attachment style, masculine ideology and alexithymia predict men’s fear of intimacy in romantic relationships? Masters Dissertation, Albany, USA.
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