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Raul Proença: a moral epicurista e o homem de elite

Natário, Maria Celeste

Abstract

Para Raul Proença, as elites teriam como missão servir as «massas populares», no sentido de as orientar para o Bem e o bem-estar, o que significava que essas «massas» tinham que ser igualmente educadas através de uma educação popular permanente.

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Raul Proença: a moral epicurista e o homem de elite. Maria Celeste Natário (Universidade do Porto) 1 Resumo: Para Raul Proença, as elites teriam como missão servir as «massas populares», no sentido de as orientar para o Bem e o bem-estar, o que significava que essas «massas» tinham que ser igualmente educadas através de uma educação popular permanente. Palavras-Chave: Raul Proença, Elite, Massas, Educação Abstract For Raul Proença, the elites would have as its mission to serve the "masses" in order to steer the good and welfare, which meant that these 'masses' had to also be educated through a popular education permanent. Key-words: Raul Proença, Elite, Masses, Education 1 Coordenadora do Grupo de Investigação Roots and Horizons of Philosophy and Culture in Portugal / Instituto de Filosofia / Faculdade de Letras da Universidade do Porto / RG-PHIL-Norte-Porto-502-1948 Propagar ou divulgar mais cultura, mais instrução, criar uma opinião pública, a par de uma elite empenhada na renovação e transformação do País, exigia condições de ampla dimensão. Proença desempenhava funções nos Serviços Técnicos da Biblioteca Nacional, desde 1911. Leonardo Coimbra era então Ministro da Instrução Pública, Jaime Cortesão, que saíra do «ninho da águia», era nomeado director da Biblioteca ao mesmo tempo que Raul Proença era empossado no cargo de director da Divisão dos Serviços Técnicos, sendo ainda Aquilino Ribeiro o 2.º bibliotecário e Álvaro Pinto chefe dos Serviços Administrativos, depois substituído por Ferreira de Macedo. 2 A actividade cultural e intelectual que a Biblioteca Nacional empreendeu era de grande notoriedade. Raul Proença e Jaime Cortesão, dois «exrenascentes» a que outros também estiveram ligados, traçaram um plano de actividades que tornaram a Biblioteca não só um verdadeiro centro aglutinador de intelectuais e artistas (com uma dinâmica vida cultural), como também ao nível da catalogação, produção e autonomia editorial exerceram um trabalho inexcedível. Raul Proença, um dos maiores obreiros deste projecto de renovação, apesar do esquecimento a que o seu pensamento e obra foram votados durante muitos anos, viu a sua actividade desenvolvida na Biblioteca por todos reconhecida. 3 De igual modo foi também reconhecido o seu papel de 2 Esta substituição aconteceu na sequência do convite de António Sérgio a Álvaro Pinto para seu assessor nas actividades editoriais que entretanto levava a cabo no Brasil. Ao que tudo indica, teria sido Raul Proença convidado para o cargo de director da Biblioteca Nacional, na sequência da demissão de Fidelino de Figueiredo. Raul Proença não terá aceitado o convite por entender que no momento era mais útil à reorganização técnica dos serviços da Biblioteca que já havia iniciado. Por isso, ele mesmo convida o seu grande amigo Jaime Cortesão para desempenhar o cargo, ao que este responde afirmativamente. Contudo, e porque Jaime Cortesão nesta época enfrentava problemas de saúde causados pela Guerra, Raul Proença assume por longos períodos de tempo o papel de director interino da Biblioteca Nacional, que em nada desmereceu a instituição, graças também aos elevados conhecimentos de biblioteconomia que possuía, a que se aliava uma grande capacidade de organização por todos conhecida. Sobre este assunto consulte-se António Reis, Raúl Proença: biografia de um intelectual republicano, Lisboa, INCM, 2003, 2 vols., 525/ 341 pp., onde apresenta um trabalho exaustivo a este propósito. 3 Aliás, antes de alguns estudiosos começarem a dedicar atenção ao seu pensamento, como Sant’Anna Dionísio, Joel Serrão, Sottomayor Cardia, mas sendo António Reis a pessoa grande promotor e colaborador do Guia de Portugal. Contudo, o estudo sobre o Eterno Retorno, entre muitos outros textos dispersos por variadíssimas publicações, são a prova clara de que Raul Proença ultrapassou largamente o âmbito referido. Aliás, a intensa actividade editorial que se conhece nesta fase da Biblioteca foi marcada também pelo lançamento da segunda série da revista Anais das Bibliotecas e Arquivos, que, embora nominalmente tivesse como director Júlio Dantas e Raul Proença como secretário de redacção, entre outros intelectuais a esta publicação ligados, o facto é que é Raul Proença que aí se destaca, principalmente pelos seus grandes conhecimentos nas áreas de bilioteconomia e arquivística, dando a conhecer em diversos artigos aí publicados não só notícias do que na Biblioteca Nacional se ia passando, mas também publicando artigos da especialidade biblioteconómica e levando a que a revista se afirmasse logo desde o primeiro número como uma das melhores da Europa. Contudo, os anseios de Proença iam mais longe e, por isso, não resiste à criação de rubricas como «Intermezzo» e «Notas e comentários», excedendo os limites da especialidade da revista. Nestas rubricas, as suas reflexões de cariz ético, político, filosófico e educativo demonstram, além do mais, a preocupação com a formação de elites, acreditando que delas poderia surgir uma renovação das mentalidades. 4 Em simultâneo, para além de bibliotecário, Proença que mais longe levou a divulgação e estudo da obra proenciana, Raul Proença surge-nos descrito de um modo geral quer em dicionários ou histórias ou em algumas poucas obras em que se lhe faz referência, como o «bibliotecário» de grande prestígio que redigiu as «Regras para a redacção, impressão e ordenação dos catálogos e respectivos modelos», assim como o principal responsável e autor do Guia de Portugal. Além destas duas situações, nada ou quase nada era referido em relação ao pensamento deste autor, a não ser, esporadicamente, a sua curta passagem pela Renascença e também pela Seara Nova, o que, como sabemos, e principalmente nesta última situação, a injustiça é flagrante. 4 Embora o tema das elites seja extenso e de grande importância no pensamento do autor, não é nosso objectivo desenvolvê-lo neste trabalho. Mesmo assim, pensamos poder afirmar que estas elites que Raul Proença gostaria de ver surgir através da educação e formação poderiam ser comparadas ao grupo de «Guardiões» responsáveis por uma sociedade mais humana, justa e responsável, assemelhando-se assim ao papel desempenhado pelos filósofos na República, de Platão, não esquecendo obviamente as diferentes épocas e respectivos contextos, apresenta-se nestas rubricas como noutros textos enquanto um filósofo e teorizador de ideais sócio-políticos, onde uma dimensão vitalista e espiritualista se vai cada vez mais aprofundando. Porém, não sendo aqui nosso objectivo enveredar pelo desenvolvimento alargado que o tema das elites teve em Raul Proença, com uma maior aproximação ao tema da política e da ética, este não se pode dissociar do pensamento do nosso autor, pelo que apenas salientamos as ideias de Proença, para quem as elites teriam como missão servir as «massas populares», no sentido de as orientar para o Bem e o bem-estar, o que significava que essas «massas» tinham que ser igualmente educadas através de uma educação popular permanente, recorrendo para tal aos mais diversos meios, entre os quais as bibliotecas populares e itinerantes. 5 Em diversos artigos escritos na revista que reiniciara, Raul Proença teve consciência do difícil caminho para chegar ao modelo de elite «ideal», principalmente num País como o nosso, onde a renovação mental que se pretendia não acontecia, uma vez que os próprios governantes no poder, de onde o exemplo deveria começar, eram o resultado de uma deficiente educação com mentalidades estreitas e cheias de vícios, tendo como consequência o descalabro em que o País se encontrava. 6 assim como a própria evolução e concepção das ideias e teorias das elites. (Consulte-se Marques Bessa, Quem Governa para uma Teoria das Elites, tese de dissertação de doutoramento apresentada no ISCTE, entre muitíssimas outras obras sobre este tema.) 5 Cf. Raul Proença, «As bibliotecas populares e o mundo moderno, o que há a fazer em Portugal», in Anais das Bibliotecas e Arquivos, 2.ª série, vol. 1, 1920, e «O que pode fazer em Portugal uma grande biblioteca popular», ibidem, vol. 1, n.º 4, 1920. 6 Cf. Raul Proença, «O soldado desconhecido», in Anais das Bibliotecas e Arquivos, 2.ª série, vol. 2, n.º 5, 1921, e «Tempestade produzida por umas pobres borboletas», ibidem. A mentalidade «estreita, viciosa, troglodita» correspondia ao movimento da Cruzada Nun’Álvares, movimento que se intitulava apartidário e que surge durante o sidonismo em1918. De timbre nacionalista, privilegiava sobretudo a superação do decadentismo nacional, tendo como princípios a ordem e a organização corporativa do Estado e onde o respeito pela ordem e tradição eram acentuados. Este movimento, que chegou a ser aceite por alguns republicanos, degenera em 1926 para uma extrema-direita. Aliás, sobre este movimento Raul Proença tece nas páginas da Seara Nova fortes críticas. É também o integralismo lusitano um dos grandes combates ideológicos que Raul Proença leva a cabo nesta fase, no qual esse movimento «degenerou». Como havia de ser possível formar uma elite se os próprios intelectuais e educadores – também eles – tinham sido vítimas de uma deficiente educação, e por isso mais vítimas que responsáveis? Como proceder à renovação mental do País? Como formar uma opinião pública nacional esclarecida e responsável? A resposta para algumas destas questões vamos encontrá-la escrita pela pena do bibliotecário reformador da Biblioteca Nacional, mas sobretudo pelo pensador no artigo intitulado «A filosofia de Epicuro e a concepção heróica da vida», 7 onde a sua concepção de «verdadeiro homem de élite» é exposta de forma modelar em acordo com a sua concepção ética e política, alicerçada igualmente num projecto antropológico e existencial de grande lealdade e desafio. * É na rubrica «Intermezzo» da mencionada revista – em que o bibliotecário dedicado vai criar também espaço para o pensador especulativo e inquieto – que o seu idealismo vitalista solicitava pelas exigências de formas de existência cada vez mais altas, onde estavam presentes o prazer e a dor (mas podendo esta ser criadora). O homem, e, de forma mais específica, o homem de elite, teria que acordar do «sono epicúreo», onde a consciência estava adormecida, não sendo possível sem ela criar nenhuma nova mentalidade e muito menos aquela que Raul Proença desejava, isto é, uma mentalidade que tivesse como base uma revolução espiritual, aquela a partir da qual, acreditava, a vida se poderia afirmar e exceder e pela qual sempre lutou. Explanando e tentando clarificar a filosofia de Epicuro, de cuja moral se distancia porque, escreve: «Querendo fundar a moral, não nos preconceitos da 7 In Anais das Bibliotecas e Arquivos, 2.ª série, vol. 1, n.º 4, 1920. ‘vã opinião’, mas na natureza das cosias, ele reconhece, com a escola cirenaica, que é o prazer o fim último de toda a existência.» 8 Epicuro «um dos pensadores sobre que o vulgo nutre mais errados juízos», «decerto esse perspicaz arengador dos jardins de Atenas, que apodava os outros filósofos de cabotinos e ignorantes e inventava uma filosofia para uso dos valetudinários» 9 , merece a Proença uma crítica atenta. Afirmando contra o que outros pensavam que a sua moral mostra que ele não é nem um diletante do prazer, cultivando apenas no seu jardim as flores raras da sensação, nem como outros queriam «o criador duma filosofia generosa, heróica, elevadora do tonus vital», 10 porque para Proença «os mundos do prazer e da dor não são separados; comunicam a cada instante e a cada passo um se converte no outro», aliás, continuando o nosso autor: «muitas vezes as coisas mais doces deixam um depósito de amargor incomparável», contrariando assim Epicuro para quem o prazer significava – ou era entendido como ausência de qualquer tipo de dor, fosse do corpo fosse da alma. A posição de um mundo fechado à dor que vê no prazer apenas a ausência da mesma acabaria por anular o esforço, a insatisfação do espírito, o princípio da vontade criadora, condições que Proença entendia como fundamentais para uma verdadeira moralidade, apostando numa ética do heroísmo da vida e do progresso criador. A plenitude da vida, a plena dinâmica da vontade não pode encontrarse, escrevia: «na calma dos lagos mortos, no fundo dos vales», onde a «crispação das ondas» não existe. A vida é bem mais do que a «simples ausência de dor» ou o «prazer sem desejo», «a ausência de inquietação» e a «serenidade de consciência». 11 Ainda que, assim lhe chama Proença, o «utilitarismo egoísta» de Epicuro tivesse grande êxito, quando o mundo grego atingia a fase da decadência, 8 Ibidem, p. 309. 9 Ibidem, p. 309. 10 Ibidem, p. 309. 11 Ibidem, p. 310. entendendo que a vida não fazia sentido a partir do momento em que ela não pudesse ser – ou continuar a ser – fonte de prazer, também, por outro lado, para os estóicos, a morte teria que acontecer necessariamente a partir do momento em que a vida não pudesse continuar a ser uma fonte de virtude. Embora estas posições possam ser antagónicas, ambas seriam, segundo o filósofo português, de certo modo, defensoras do suicídio. E, assim sendo, onde é que se poderia encontrar o esforço criador? Onde estaria afinal a razão de ser da vida? Segundo Proença, pode ser que no mundo grego, ao entrar em decadência, Epicuro tenha sido «o Messias dos filisteus», e por isso tenha contribuído para ajudar nessa época «os homens pequenos demais para poder suportar os terrores da morte e dos deuses», contentando-se com certa mediocridade. Desinteressados da política, paralisado o «esforço criador», a elite desapareceria seguramente porque perdidos estavam «os entusiasmos da vontade vitoriosa» e sem esta tornar-se-ia impossível qualquer elite. O epicurismo, no que concerne à moral do prazer que concebeu (e que não deve ser confundido, segundo Raul Proença, «com o que há de primordial e fundamental em toda a moral do prazer»), por mais que quisesse «fazer brotar as mais altas flores da vida das suas raízes mais profundas», 12 enganou-se, porque não conseguiu encontrar um ponto de apoio sólido. Querendo construir uma moral com base no mais profundo da própria terra «nas tendências mais elementares da vida orgânica, nos movimentos espontâneos de tudo o que sente e respira» e fazendo «coincidir o círculo das virtudes com o dos interesses», pretendendo convencer os homens da importância e do interesse próprio de praticar o bem, cai num egoísmo moral. Ora, se os meios poderiam eventualmente ser aceitáveis, os fins não o seriam certamente, porque, ao pretender descer às raízes da vida, não viu que essas mesmas raízes «mergulhavam mais fundo do que o prazer e a dor». Por isso, no mais profundo da existência, acaba por negar depois o elemento primordial que, segundo o 12 Ibidem, p. 311.