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A Identidade Nacional depois de Salazar: Estudo comparativo da presença da iconografia do antigo Regime na formação da identidade portuguesa contemporânea

João Tiago Pinto Osório de Castro Santos

Abstract

Na presente dissertação, pretendemos perceber se existirá na nossa identidade nacional actual, traços da identidade nacional salazarista. Para responder a esta pergunta, efectuamos uma análise baseada na identidade nacional e nos símbolos/momentos que julgamos serem relevantes para elaboração deste estudo. Começamos por definir a identidade e a noção de identidade nacional, onde efectuamos de forma sintetizada um percurso pela identidade nacional. Após esta apresentação, elencamos os mencionados símbolos/momentos que pensamos serem relevantes para a formação de uma noção de identidade. Neste capítulo, várias narrativas visuais serão apresentadas, demonstrando o exaustivo trabalho na construção da identidade nacional efectuado pelo regime do Estado Novo, mas também o processo de construção de identidade efectuado após a queda do regime fascista. Finalmente, elaboramos uma análise comparativa de algumas narrativas visuais, tentando a partir delas pensar a identidade nacional existente, analisando vários parâmetros em cada imagem, de maneira a percebermos se os referidos traços de identidade salazarista poderão estar presentes nas actuais narrativas visuais. Desta forma, percebemos que o regime salazarista poderá ter deixado mais marcas do que possivelmente poderíamos ter imaginado. A sua presença não só ocupou a política nacional, mas também a "política do espírito" do povo português.

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A IdentIdAde nAcIonAl depoIs de sAlAzAr Estudo comparativo da presença da iconografia do antigo Regime na formação da identidade portuguesa contemporânea João Tiago Pinto Osório de Castro Santos Dissertação para a obtenção do grau de Mestre em Design de Imagem Orientador: Professor Heitor Alvelos Co-Orientador: Assistente Mário Moura Porto, 22 de Setembro de 2008 AgrAdecImentos Orientador Professor Heitor Alvelos pelo empenho, disponibilidade Co-orientador Assistente Mário Moura pela disponibilidade e sentido crítico Lígia pelo amor, dedicação e estímulo constantes Pais pelo apoio permanente, a minha eterna gratidão Miguel um exemplo Márcia pelo apoio e dedicação Fátima, Francisco, Daniel e Joana pelo carinho e ajuda Catarina que sempre com amizade me ajudou e incentivou Isabel pela partilha, compreensão e amizade Marta, grande amiga de luta, entusiasmo e ajuda Daniel, amigo da bola, gralhas e de coração Ni pela amizade, motivação e apoio Cristina pelo apoio Henrique, Teresa, Eva e Maria pela amizade Isa pela disponibilidade, carinho e compreensão Raquel Arouca pelo apoio sempre voluntário e auxílio linguístico Cristina Braga da Cruz, pelo interesse e apoio voluntário Companheiros de Mestrado da Turma do MDI: Ana Carvalho, Ana Ferreira, Ana Moreno, Anselmo Canha, Dária Salgado, Inês Laranjeira, Luís Camanho, Manuel Brázio, Pedro Sá e Pedro Cardoso Restantes Amigos que, sem terem tido uma intervenção directa, sempre manifestaram o seu apoio - o meu abraço. resumo O ‘imaginário social’ português, através do qual se pode pensar a identidade nacional, elabora-se com base em elementos específicos e que tendem a permanecer relativamente imutáveis. (CUNHA, 1991) Na presente dissertação, pretendemos perceber se existirá na nossa identidade nacional actual, traços da identidade nacional salazarista. Para responder a esta pergunta, efectuamos uma análise baseada na identidade nacional e nos símbolos/momentos que julgamos serem relevantes para elaboração deste estudo. Começamos por definir a identidade e a noção de identidade nacional, onde efectuamos de forma sintetizada um percurso pela identidade nacional. Após esta apresentação, elencamos os mencionados símbolos/momentos que pensamos serem relevantes para a formação de uma noção de identidade. Neste capítulo, várias narrativas visuais serão apresentadas, demonstrando o exaustivo trabalho na construção da identidade nacional efectuado pelo regime do Estado Novo, mas também o processo de construção de identidade efectuado após a queda do regime fascista. Finalmente, elaboramos uma análise comparativa de algumas narrativas visuais, tentando a partir delas pensar a identidade nacional existente, analisando vários parâmetros em cada imagem, de maneira a percebermos se os referidos traços de identidade salazarista poderão estar presentes nas actuais narrativas visuais. Desta forma, percebemos que o regime salazarista poderá ter deixado mais marcas do que possivelmente poderíamos ter imaginado. A sua presença não só ocupou a política nacional, mas também a “política do espírito” do povo português. A IdENTIdAdE NACIONAl dEPOIS dE SAlAzAR6 AbstrAct The ‘social imaginary’ Portuguese, through which we can think about national identity, elaborates on the basis of specific elements and they tend to remain relatively unchanged. (CUNHA, 1991) In this dissertation, we want to see if there is in our national identity today, traces of salazarist national identity. In answering this question, made an analysis based on national identity and symbols / moments we believe to be relevant to producing this study. We began by defining the identity and the notion of national identity, which had synthesized form of a journey for national identity. After this presentation, listed the aforementioned symbols / moments that we deem relevant to the formation of a notion of identity. In this chapter, several visual narratives will be presented, demonstrating the extensive work in the construction of national identity made by the Estado Novo regime, but also the process of building identity made after the fall of the fascist regime. Finally, make a comparative analysis of some visual narratives, with them trying to think the existing national identity, working for that every image on certain parameters, so as to realize these are traces of identity Salazar may be present in the current visual narratives. Thus, we realize that the Salazar regime may have left more marks than we could possibly have imagined. Their presence not only held the national policy, but also the “politics of the spirit” of the Portuguese people. pAlAVrAs-cHAVe Identidade Nacional; Portugal; Estado Novo; Salazar; Identidade Nacional Contemporânea; Estudo comparativo da presença da iconografia; Agradecimentos Resumo/Abstract Palavras-Chave Introdução 1. Identidades 1.1. Noção de Identidade 1.1.1. Identidades corporativas 1.2. Identidades Nacionais 1.2.1. Identidade nacional associada ao caso português 2. Referências marcantes para a criação da identidade nacional 2.1. O primeiro elemento de identidade nacional do séc. XX – A Bandeira 2.2. Iª Guerra Mundial 2.3. Estado Novo e propaganda 2.5. 25 e Pós-25 de Abril 3. Análise de alguns exemplos 3.1. Metodologias 3.2. Análise comparativa de narrativas visuais 3.2.1. Reprodução 3.2.2. Adaptação 3.2.3 Recriação 3.2.4. Apropriação 4. Conclusões e Perspectivas de futuro 4.1 Conclusões 4.2 Perspectivas de futuro Bibliografia Índice de imagens Anexos sumárIo 3 5 7 11 15 15 16 17 17 21 21 25 34 50 53 53 57 57 62 68 74 79 79 82 85 91 95 A IdENTIdAdE NACIONAl dEPOIS dE SAlAzAR16 1.1.1. Identidades corporativas Nos primeiros anos do século XX, a Europa e a América do Norte sofrem uma imensa industrialização. As fábricas evoluem e surgem as primeiras linhas de produção em série. Com este processo a sofrer uma revolução, surge também a necessidade de diferenciação de produto, e consequentemente o aparecimento de todo um novo território por explorar. A noção de identidade corporativa no século XX, chega-nos pela mão de Peter Behrens que cria para a Allgemeine Elektricitäts-Gesellschaft que acabaria por ficar conhecida por AEG a primeira identidade corporativa coordenada – AEG (siglas da empresa). Behrens criou para esta empresa toda uma forma de ser parecer e estar no mercado. Concebeu um universo da marca que considerava todos os aspectos da AEG. A ideia praticada por Behrens é referida por F.H.K. Henrion, que considerava que a identidade corporativa seria uma ferramenta que contribuiria para a coerência e coesão de uma organização, e a uma comunicação visual sem ambiguidades. É também um aglutinador emocional que mantém a empresa unida, afectando a estrutura do que se faz, como se faz e como se vê o que se faz. A identidade não se fica apenas pela criação de um logótipo e de uma imagem, a identidade é todo o conjunto de manifestações visuais e não visuais que poderão definir uma filosofia corporativa empresarial, desde o logótipo, até ao tipo de atendimento que se presta (no caso da empresa atender ao público). Este conceito de identidade coordenada gerou grande impacto no mundo empresarial, mas também na forma como se viam as marcas nacionais, ou por outras palavras, identidades nacionais. IdENTIdAdES 17 1.2. IdentIdAdes nAcIonAIs 1.2.1. Identidade nacional associada ao caso português “Preservar” e “necessidade” são, por assim dizer, as palavras-chave dessa concepção primordialíssima da identidade. (CABRAl, MANUEl VIllAVERdE, 2000) A identidade nacional apresenta-se como ferramenta do nacionalismo, que se manifesta nas sociedades modernas, e vai assumindo diferentes formas de manifestação perante os indivíduos das comunidades em que estão inseridos. O nacionalismo é um movimento que exalta os valores da nação, mais do que tudo. A nação seria para Benedict Anderson uma “comunidade política imaginada – e que é imaginada ao mesmo tempo como intrinsecamente limitada e soberana” (ANDERSON, 2005). Ao ser imaginada, vai ter necessidade de recriar a história do país, enaltecendo os valores mais importantes para o Estado, necessários à unificação do país, e consequentemente à agregação do grupo. “Na verdade, o factor nacional é o mais universalmente legitimado entre os valores da vida política do nosso tempo, e a era do nacionalismo conforme se tem profetizado não está nem remotamente à vista”. (ANDERSON, 2005). Os estados totalitários do primeiro quarto do século XX, seguiram um pouco a tendência do que abordamos em cima; começaram a perceber as identidades nacionais como marcas. Segundo Steven Heller estes pretendiam que, de uma forma imediata se tornasse reconhecível a ideologia do regime e que esta passasse de forma quase instantânea. Para tal, utilizavam a propaganda para assim atingirem os seus objectivos. Os meios utilizados provavam ser extremamente criativos, e o uso da sua nova estratégia de marca para vender as suas mensagens políticas – criando narrativas visuais para seduzir as populações – parecia ter resultados a curto prazo. No seu livro Iron Fists, Heller refere as quatro ditaduras que para ele seriam as mais marcantes em termo de concepção de uma verdadeira marca nacionalista: os Nazis Alemães, os Fascistas Italianos, os Comunistas Soviéticos e os Comunistas Chineses. Existiram outras que usaram as mesmas técnicas, mas, segundo Heller foram apenas imitações, com um impacto bastante mais reduzido a nível mundial; imitadores com a sua linguagem e influência locais. A IdENTIdAdE NACIONAl dEPOIS dE SAlAzAR18 Nesta nova abordagem às identidades nacionais, os regimes totalitários criavam símbolos, marcas do poder que seriam difundidas em massa por todo o território ocupado. Eram criadas mnemónicas visuais para serem facilmente reconhecidos. Todas estas soluções seriam retiradas das metodologias com que se concebe uma marca. Os estadistas equiparavam-se a marcas de consumo, e por isso teriam que ser agressivos nas suas campanhas, nomeadamente na forma como abordavam a população. Uma outra característica interessante nesta época é a personificação da identidade de um líder. Criar um personagem era muito importante e fundamental para se personificar a mudança e a liderança do país. Hitler, Mussolini, Estaline, Mao, Salazar foram as marcas dos seus regimes. Ao serem promovidos como parte integrante da solução para os problemas que os seus países passavam, estavam a fundir-se com a identidade do Estado, como tal, e seria impossível pensar um Estado sem o seu líder carismático, pois ele “era” o Estado. Uma vez sem esse líder, o estado desmoronava-se ou dificilmente se equilibrava. As identidades nacionais são vistas como marcas empresariais, logo têm necessidades de representação perante o grupo que pretende cativar. São concebidos por estes estados totalitários símbolos que permitem um maior relacionamento e uma identificação entre os indivíduos e o seu estado, provocando um sentimento de pertença no individuo. Ao abordarmos a identidade portuguesa, temos em consideração que esta foi na altura do regime do Estado Novo, contemporânea de outros grandes regimes totalitários que proliferavam em toda a Europa. Os casos italiano e alemão são interessantes para a melhor compreensão da nossa identidade gráfica até aos anos 50, uma vez que Salazar tinha um pensamento político muito próximo destes regimes. Além disso, rodeou-se de homens que foram influenciados pela estética modernista do estrangeiro, com uma maior incidência nestes dois países europeus, nomeadamente Stuart de Carvalhais2, Almada 2 (1887-1961) Desenhador, ilustrador e caricaturista, nascido em Vila Real. Discípulo de Jorge Colaço, par tiu para Paris em 1913, convivendo aí com Almada Negreiros, Souza Cardoso e outros. Nos seus desenhos, predominam temas rústicos e tipos tradicionais lisboetas. Como pintor, pouco mais fez além de um dos quadros que decoram a Brasi- IdENTIdAdES 19 Negreiros3, Fred Kradolfer4, entre outros. Com o passar do tempo e o fim da II Grande Guerra, que depôs os regimes fascistas de Itália e Alemanha, Salazar soube adaptar-se às novas condições geopolíticas, tendo como consequência a permanência do regime até à década de setenta. A incidência da política nacional na construção de uma identidade foi realmente importante neste período de ditadura, pois como foi referido, o povo aceitando a identidade nacional, aceitava consequentemente o líder. O líder confundia-se com a nação, ele “era” a nação. Esta seria uma das “regras” que Salazar “cumpria”, cuidando sempre que o povo fosse doutrinado a respeitar o país, logo a ele. Com a revolução de 25 de Abril de 1974, o povo português ao rebelarse, também acabaria por confundir a afirmação da mudança de regime com a recusa indiscriminada de símbolos, demonstrando que os símbolos não são estanques, mas polissémicos e que as suas significações acontecem de formas diferentes nos diferentes momentos históricos como pudemos observar no momento da mudança da bandeira nacional (da monárquica para a republicana) e o repúdio de alguns ícones nacionais, que haviam sido apropriados pelo regime de Salazar. Nestes momentos, a mudança de pensamento originou também a alteração de concepções de identidade, e a ruptura com os símbolos que representavam a ideologia deposta, foram afastados do quotidiano português. leira do Chiado. Em 1949 recebeu o Prémio Domingos Sequeira, do SNI. Colaborou em jornais e revistas como ABC a rir (de que foi director), Ilustração Portuguesa, Diário de Notícias e Sempre Fixe. (RIBEIRO, 2006) 3 (1893-1970) Pintor, desenhador, artista gráfico e poeta, ligado ao movimento Futurista entre 1915 e 1917. Colaborou na “Exposição do Mundo Português” (1940). (RIBEIRO, 2006) 4 (1903-1968) Pintor suíço que, depois de ter viajado pela Europa e de ter residido algum tempo na Bélgica e em Paris, se fixou em Lisboa (1924), onde se ligou ao grupo dos pintores modernistas. Aqui, durante mais de 20 anos, fez escola no meio artístico português, salientando-se a sua influ ência nos campos das artes decorativas, publicitárias e gráficas. Na pintura, depois de se ter dedicado sobretudo à paisagem e ao retrato, orientar-se-ia, nos últimos anos de vida, para a arte abstracta. (RIBEIRO, 2006) A IdENTIdAdE NACIONAl dEPOIS dE SAlAzAR20 Surgiram novos entendimentos acerca da identidade nacional, mas, ainda assim, a noção de identidade, os valores e ícones incutidos pelo regime salazarista foram de tal forma fortes, que estavam já “enraizados” na cultura e vivência dos portugueses. No começo do séc. XXI, a identidade nacional assume novos contornos. A distância temporal ao regime de Salazar e à revolução de Abril, permitiu aos portugueses encarar de uma outra forma os símbolos da identidade nacional, mesmo no uso de ícones anteriormente utilizados pelo regime salazarista. Estes ganham novo fôlego ao adquirirem novos significados. No entanto, o fantasma do nacionalismo, associado ao fascismo ainda está presente bem como o anti-nacionalismo do pósregime. Portugal tem alguma distância dos dois momentos marcantes da sua História, e consequentemente procura em si uma identidade, iniciando um processo de auto-identificação, com novas maneiras de se ver a si próprio, e também de ser visto pela comunidade internacional. 2. referêncIAs mArcAntes pArA A crIAção dA IdentIdAde nAcIonAl Pretendemos neste capítulo enunciar alguns momentos e elementos visuais marcantes para a construção de uma identidade nacional no século XX português, a partir da década de trinta – com o aparecimento do fascismo em Portugal, denominado de Estado Novo – até aos primeiros anos do século XXI. Neste capítulo passaremos em revista os elementos que achamos pertinentes para a concepção da identidade nacional em Portugal na janela temporal mencionada em cima, bem como alguns momentos históricos que se mostraram reveladores para essa construção. 2.1. o prImeIro elemento de IdentIdAde nAcIonAl do séc. XX – A bAndeIrA Com a implantação da República em 1910, e a consequente mudança de paradigma político, uma vez que o regime monárquico tinha sido deposto e tinha saído vitorioso o regime republicano, os revolucionários republicanos – que se apercebiam da importância da simbólica política nacional – apressam-se a constituir uma comissão para determinar o símbolo em torno do qual se pudesse reflectir uma unidade nacional. “Assim, e a par das grandes questões de ordem política que se impunham, a questão dos símbolos nacionais foi uma das prioridades do Governo.” (TEIXEIRA, 1991) Portugal era uma nova República que estava a construir um imaginário simbólico comum a todos os portugueses, e que os pudesse unir em torno desses símbolos revolucionários. A bandeira republicana foi disso uma consequência com a concepção do novo símbolo nacional. A IdENTIdAdE NACIONAl dEPOIS dE SAlAzAR22 REfERêNCIAS MARCANTES PARA A CRIAçãO dA IdENTIdAdE NACIONAl 23 A IdENTIdAdE NACIONAl dEPOIS dE SAlAzAR24 Foi então constituída uma comissão especialmente destinada à criação dos principais símbolos de identificação da nação: a bandeira e o hino nacional. Dessa comissão faziam parte o pintor Columbano Bordalo Pinheiro, o romancista Abel Botelho, o jornalista e republicano João Chagas, o primeiro-tenente Ladislau Pereira e o capitão Afonso Palla (dois destacados combatentes da revolução de 5 de Outubro). Em pouco mais de quinze dias, a comissão apresentava a primeira proposta de bandeira, que apesar de parecida com a bandeira utilizada na revolta de 5 de Outubro, tinha algumas diferenças quer na proporção, quer na ordem das cores em relação à tralha. Após apreciação em Conselho de Ministros e feitas as modificações solicitadas, é enviada nova proposta de bandeira, sendo, após várias discussões, escolhida em Novembro de 1910. Este assunto não foi de todo pacífico: a discussão sobre o tema alargou-se a vários quadrantes da sociedade, seja na classe política ou no meio popular. As discussões surgiam em Lisboa e no Porto em torno do novo símbolo nacional. Pelos defensores das cores da bandeira nacional verde e vermelha (para além da comissão que propôs a bandeira), estavam Afonso Costa, António José de Almeida e o próprio Presidente do Governo Provisório – Teófilo Braga que, numa tentativa de justificar as cores republicanas, referia que a nova proposta de bandeira tinha a cor vermelha da conquista do território do Algarve aos mouros – em que se tinha integrado o território português – e a cor verde do estandarte vencedor da histórica batalha de Aljubarrota – que reivindicava a autonomia de Portugal (TEIXEIRA, 1991). Na defesa da bandeira azul e branca estavam personalidades distintas da sociedade portuguesa de então, como o poeta Guerra Junqueiro, A. Braancamp Freire, António Arroio, Lopes de Mendonça, Sampaio Bruno, em que Guerra Junqueiro afirmava que as cores deveriam traduzir o génio do povo, assim como as armas e as insígnias, num resumo instantâneo da história da pátria. Já para Sampaio Bruno, as cores da bandeira deviam continuar a ser o azul e o branco, mais: a bandeira devia ser a mesma, retirando-lhe apenas a coroa que no seu projecto seria substituído por uma estrela de ouro (TEIXEIRA, 1991) . Estes movimentos acabariam por não ter consequências, uma vez que a 19 de Julho de 1911, por decreto de lei, a Bandeira Nacional passa a ser em definitivo “bipartida verticalmente em duas cores fundamentais, verdePágina anterior Figura 1 (pág esq.) Proposta de Bandeira nacional – Guerra Junqueiro Figura 2 (pág esq.) Proposta de Bandeira nacional segundo projecto da comissão Figura 3 (pág dir.) Bandeira Portuguesa REfERêNCIAS MARCANTES PARA A CRIAçãO dA IdENTIdAdE NACIONAl 25 escuro e escarlate, ficando o verde-escuro do lado da tralha. Ao centro e sobreposto à união das duas cores terá o escudo das armas nacionais orlado de branco e assente sobre a Esfera Armilar em amarelo avivada a negro”. Dias depois era publicado o parecer técnico sobre as medidas e proporções da bandeira nacional, como das bandeiras regimentais e do Jack para os navios. (TEIXEIRA, 1991) Estava irreversivelmente reconhecida a nova bandeira da República Portuguesa. Neste exemplo de símbolo nacional, podemos reparar que as preocupações da primeira República seriam as de tentar a todo o custo retirar dos símbolos nacionais qualquer envolvimento com o passado monárquico da época. Quando na realidade, a solução final foi concluirem que apenas se trocariam os elementos da bandeira que mais se aproximavam aos da monarquia recente, nomeadamente a coroa que encimava o brasão, bem como a cor azul e branca - marcas da monarquia constitucional. Os descobrimentos foram, desde os finais do séc. XIX, a chave da identidade nacional portuguesa - solução que ainda hoje se mantém. 2.2. Iª guerrA mundIAl Em 1909, com o advento da modernidade e da revolução industrial que incutia na Europa um novo ritmo, mais veloz, surge o Manifesto Futurista pelas mãos de Marinetti, que em rasgados elogios à velocidade e à guerra, se rodeava de um grupo de jovens rapazes que se autointitulavam de Futuristas. Este grupo, que tanto elogiava a guerra, viria a ter o seu desejo realizado em poucos anos, pois a Europa e o mundo embarcavam num conflito mundial que duraria quatro anos. Nesse período, os artistas portugueses que tinham estado em contacto com os futuristas, regressavam a Portugal, trazendo as novidades artísticas que estavam em voga, em Paris do início do século XX. Com o eclodir da 1.ª Grande Guerra, a necessidade de angariação de homens para a frente de batalha era uma necessidade premente para a vitória do conflito, bem como o apoio da população e o desencorajamento do adversário. Nesta altura as populações – com A IdENTIdAdE NACIONAl dEPOIS dE SAlAzAR32 REfERêNCIAS MARCANTES PARA A CRIAçãO dA IdENTIdAdE NACIONAl 33 A IdENTIdAdE NACIONAl dEPOIS dE SAlAzAR34 2.3. estAdo noVo e propAgAndA Assim que forma o novo governo – o Estado Novo – em 1933, Salazar, apercebendo-se da necessidade da propaganda e vendo em António Ferro12 um homem capaz de reflectir as intenções políticas do regime através da propaganda, vai convidá-lo a dirigir o Secretariado de Propaganda Nacional (designado doravante por SPN). Seguindo a ideologia conservadora do Estado Novo, o SPN deveria dedicar-se à reinvenção do passado histórico num sentido nacionalista, tradicionalista e imperial. Como um resultado de um reencontro do país com o seu verdadeiro passado de marinheiros, santos, cavaleiros de destino providencial e colonizador. Segundo Fernando Rosas13, “nesta acepção, o Estado Novo não se limitaria a ser mais um regime político, mas a tradução institucional e ontológica do verdadeiro destino da nação. Atacá-lo era pô-la em causa: «tudo pela Nação, nada contra a Nação!». Discurso do qual decorria o papel essencial da manipulação legitimadora da História, tornada instrumento central da propaganda do regime. A criação de uma «identidade nacional» de fundo ruralista, de uma nova «essencialidade portuguesa», de uma ética nacional da ruralidade, fundamento da apologia do país «essencialmente rural e essencialmente pobre» como berço das «virtudes permanentes da raça». (…)”(ROSAS, 1998) era uma das componentes mais fortes do SPN.14 Segundo Paula Ribeiro15, são variadas as formas como o SPN propaga a mensagem, nomeadamente através de edições, conferências, feiras, prémios literários, participações em exposições e Feiras Internacionais ou a Exposição do Mundo Português, que vem funcionar como encenação para o espectáculo de mobilização ideológica, política e cultural. Através do folclore, da recuperação das festas, costumes e tradições, o SPN vai criar uma espécie de marca registada no país 12 (1895-1956) foi um dos principais impulsionadores da propaganda do regime de Salazar. Fascista convicto e admirador de Mussolini, Ferro esteve à frente dos destinos da propaganda nacional nos períodos de 1933 até 1949. Pelo caminho ficam ainda a participação na revista Orpheu (em conjunto com Almada Negreiros, Fernando Pessoa entre outros), e variadíssimas entrevistas a personalidades mundiais da sua época. 13 Historiador Português 14 Ver anexo 1 15 Em Design do livro em Portugal Figura 6 Cartaz de campanha para a Constituição de 1933 Figura 7 Cartaz de campanha para a Constituição de 1933 Figura 8 Cartaz de campanha para a Constituição de 1933 REfERêNCIAS MARCANTES PARA A CRIAçãO dA IdENTIdAdE NACIONAl 35 do Estado Novo. No final do ano de 1934, Ferro manda publicar o Decálogo do Estado Novo, no qual em dez mandamentos (mais uma vez a analogia a Moisés) explicava a filosofia do Estado Novo. Estavam traçadas as linhas que orientariam a força de acção do novo regime. Apesar de alguns artistas portugueses terem acompanhado a vanguarda artística futurista, Portugal ainda tinha alguma afeição por estilos mais decorativos, como a Art Déco, e a Arte Nova. A maior parte das obras gráficas de Art Déco publicitava produtos, viagens e bebidas, parte integrante e importante no estilo de vida da época. Foi também muito usada para promoções dos impérios coloniais. Os países europeus queriam passar a mensagem de que faziam parte do pequeno grupo das grandes potências detentoras de um vasto império colonial. Para isso utilizavam as exposições temáticas alusivas a esse tema para se promoverem internacionalmente e para se avaliarem enquanto potência perante os seus pares. A exposição do mundo colonial em Paris, em 1931, foi exemplo disso. Na área das artes gráficas, o estilo decorativo predominante foi o Art Déco em que o realce era dado às formas decorativas, enfatizadas nos cartazes que produziram para promover o evento. Este estilo cativou também os artistas gráficos portugueses que tentaram aplicar esses estilos em algumas produções gráficas para a promoção da primeira Exposição Colonial Portuguesa que teve lugar no Porto em 1934. A IdENTIdAdE NACIONAl dEPOIS dE SAlAzAR36 REfERêNCIAS MARCANTES PARA A CRIAçãO dA IdENTIdAdE NACIONAl 37 A IdENTIdAdE NACIONAl dEPOIS dE SAlAzAR38 A exposição do Porto estava a ser pensada desde 1931, reflexo da ideologia colonialista europeia e nomeadamente portuguesa e também devido ao grande sucesso que a sua congénere francesa tivera. “Correspondendo a uma estratégia de afirmação, nacional e internacional, do novo regime do Estado Novo, dos seus valores e do seu chefe, apostava numa visão forte de Portugal: esse enorme espaço português que, pela reunião das suas colónias, era idêntico a todo o território europeu. Uma visão de força de consumo externo e interno. Na realidade, a tónica da exposição foi dada como solução da óbvia ignorância do povo português sobre a existência desse enorme império colonial, glória do passado nacional e desafio do futuro.” (SERÉN, 2008). Para coordenar esta exposição, foi convidado um africanista entusiasta, Henrique Galvão (1895-1970) que, para além de coordenador, foi também o responsável pela concepção de um mapa peculiar aliado a um lema que viria a ser adoptado por Portugal, durante a década que se seguia. O célebre mapa “Portugal não é um país pequeno”. Esta imagem reflectia toda uma vontade de ombrearmos com os vizinhos europeus. A forma de o representar era precisamente essa. Ao sobrepor a imagem do território colonial português sobre o mapa da Europa, criando uma comparação imediata, de rápida leitura e entendimento. Essa comparação tinha como objectivo mostrar a grandeza da Nação,às populações que desconheciam as colónias. Portugal era do tamanho da Europa. A ideia de grande império e a defesa dos ideais nacionalistas ecoavam neste trabalho gráfico de Galvão. De tal forma que esta ideia mateve-se nas exposições seguintes e até à década de 40. Após os anos 40 dá-se uma mudança de paradigma, consequência do final da II Guerra Mundial e também do inicio da descolonização africana. Ainda no ano da Exposição colonial, era lançada uma brochura de propaganda com o nome “Portugal 1934”. Este material fazia parte de uma estratégia de propaganda feita pelo regime, com o propósito de mostrar em números reais, o progresso obtido desde que o país “adoptou” o Estado Novo. Seria um “material informativo de carácter económico, em que os números, percentagens e estatísticas apresentadas de forma inovadora e corroborada por legendas explicativas funcionavam como resposta às vozes dissonante do proclamado milagre financeiro de Salazar”. (MATOS, 2004) Página anterior Figura 9 “Portugal não é um país pequeno” REfERêNCIAS MARCANTES PARA A CRIAçãO dA IdENTIdAdE NACIONAl 39 Profusamente ilustrado com fotografias e gráficos, este material transmite os “grandes feitos” em termos económicos. Um material de propaganda puro, que em termos gráficos está próximo do que se produzia na Europa de então. António Ferro liderava estas iniciativas propagandísticas que iam sendo efectuadas. O projecto de promoção que viria a ser utilizado pelo Estado, seria um marco na obra do SPN e da propaganda nacional, pois explorava estilos gráficos contemporâneos à época, e comunicava de forma obsessiva os feitos do Estado, promovendo os valores de um estado fascista: os seus Chefes de Estado, as colónias, as suas acções. Poderemos mesmo considerar esta peça gráfica como sendo uma excelente peça de propaganda política nacional. Nesta edição o SPN contou com a participação dos melhores fotógrafos nacionais, Figura 10 “Portugal 1934” A IdENTIdAdE NACIONAl dEPOIS dE SAlAzAR40 nomeadamente Alvão, A. Rasteiro, João Martins, Diniz Salgado, Ferreira da Cunha, Francisco Santos, Horácio Novais, J. Benoliel, José Mesquita, Luis Teixeira; Pinheiro Correia, Mário de Novais, Octávio Bobone, Raimundo Vaissier, Raúl Reis, Salazar Diniz, Serra Ribeiro e V. Rodrigues. Mais uma vez, Ferro viria a demonstrar que a propaganda poderia ser o melhor amigo do Estado. Esta publicação, associada ao momento que se vivia na exposição colonial, permitia uma exaltação de vários ideais constituintes da identidade nacional que eram queridas ao salazarismo, designadamente as contas públicas e o império colonial. Na década de trinta, o Regime desperto para a necessidade de deixar a semente do salazarismo nas gerações futuras, entendeu que seria uma boa aposta a educação dos mais novos como garantia do futuro do Estado Novo. O Governo iria criar um conjunto de iniciativas que lhe permitia educar os jovens de forma a torná-los obedientes aos ensinamentos da nação. E, com este intuito, foram criados em 1936 a Mocidade Portuguesa e, em 1937, a Mocidade Portuguesa Feminina. No seguimento dos símbolos de carácter nacionalista criados neste período pelo regime, assentes em episódios históricos importantes para a fundação da nação, a Mocidade Portuguesa e a Mocidade Portuguesa Feminina, adoptam para sua insígnia principal uma adaptação do estandarte de D. João I. Todo o ensino destes jovens Figura 11 Desfile da Mocidade Portuguesa Figura 12 Bandeira da Mocidade Portuguesa masculina REfERêNCIAS MARCANTES PARA A CRIAçãO dA IdENTIdAdE NACIONAl 41 prepara-os para a continuidade ideológica do Regime. Mais, este grupo de jovens seria importante para o estímulo do Estado Novo Juvenil, designadamente com as grandes demonstrações da Mocidade, as paradas, eventos que demonstravam a sua aliança com o regime. Ainda na década de trinta (1938), é editado nas comemorações dos dez anos da entrada de Salazar para o Governo, uma campanha que iria ser difundida por todas as escolas, na sequência do seu pensamento educador. Esta campanha designou-se “As Lições de Salazar”. No conteúdo dos cartazes, com um carácter conciliador, formativo e fortemente político é quase ausente o retrato de Salazar: “A liderança de Salazar não faz apelo à mobilização das paixões maciças, não é veiculada pelo seu retrato, que só uma única vez aparece nos cartazes, e mesmo assim em forma de desenho” (BARROS, 2008). Nos materiais eram representados a oposição ordem/desordem, decadência/prosperidade, estado da 1ª República/Estado Novo, comparações estas que serviam de forma muito singular para a difusão da doutrina de Salazar. A mensagem era passada de forma simples, “realista” e directa e a comparação efectuada era muito explícita passando uma mensagem clara. Pretendia-se desta forma passar “retrato” da situação de Portugal antes e depois do novo Regime, “mau/bom”. A comparação foi um elemento fundamental nesta campanha, uma forma de chegar a todos os níveis Figura 13 Cartaz de “A lição de Salazar” A IdENTIdAdE NACIONAl dEPOIS dE SAlAzAR48 REfERêNCIAS MARCANTES PARA A CRIAçãO dA IdENTIdAdE NACIONAl 49 A IdENTIdAdE NACIONAl dEPOIS dE SAlAzAR50 As campanhas do Turismo na década de cinquenta ainda que de forma pouco organizada, procuravam projectar uma imagem de Portugal “um paraíso para os turistas” , onde se pode ter sol, mar e exotismo. O tradicionalismo é também uma referência que o regime se propõe a divulgar, pois era uma das políticas mais vigorosas do regime – a tradição portuguesa. Em todos os exemplos aqui apresentados, a palavra Portugal é apresentada como destaque. A imagem ilustrará o resto. Com um certo carácter modernista, os cartazes iriam ser peças que permitiriam a difusão de uma imagem convidativa de Portugal pela Europa e Mundo. 2.5. 25 e pós-25 de AbrIl Os descontentamentos populares, estudantis e dos operários, as prometidas reformas que tardavam não permitiam mais sustentar o regime. Este acabaria por cair em 1974, três anos após a morte do seu mais carismático líder. Na noite de 25 de Abril de 1974, deu-se a revolução militar que depôs o regime. O Estado Novo acabava. Em Abril, os militares tomaram o poder. As revoluções foram-se fazendo um pouco por todo o país e todos os grupos partidários queriam assumir o controlo da situação. Reinava a divergência,e o país vivia numa enorme instabilidade. A liberdade de expressão era a “arma conquistada”, utilizada por todos, de forma sistemática, em todo o país eram passadas mensagens reivindicativas e de revolução. O período da revolução foi de desenraizamento, a identidade que até aqui tinha sido exaustivamente trabalhada, sofre uma “tentativa de destruição”. Os reis, os descobrimentos e todos os elementos que estivessem de alguma forma relacionados com a imagem passada pelo regime, são afastados numa tentativa de apagar e esquecer o passado e de criar novas raízes. Um caso paradigmático foi o dos “Heróis do Mar”, uma banda musical do início dos anos oitenta considerada Página anterior: Figura 21, 22 Cartaz de promoção turística nacional REfERêNCIAS MARCANTES PARA A CRIAçãO dA IdENTIdAdE NACIONAl 51 nacionalista e extrema-direita, devido ao nome e à exaltação dos feitos dos portugueses no passado contida nas suas letras, imagem e videoclips. Este tipo de atitude, volvidos sete anos da revolução, levou a furiosos e acesos comentários por parte dos críticos. A partir desta década, a temática da identidade nacional seria novamente motivo de interesse e de questionamento de intelectuais e escritores. “Surgem novas “Histórias de Portugal”, estudos sobre o salazarismo, sobre a história da arte, social, económica, política, etc. (…) A esta nova sociedade de consumo, em plena fase de transformação cultural, de abertura ao exterior – e também ao ‘interior’, na sua procura de identidade –, não poderia ser alheio o próprio design.” (RIBEIRO, 2006). A entrada na Comunidade Económica Europeia (CEE), foi um passo fundamental para a afirmação de Portugal como país democrático e integrado num sistema capitalista. Assim como nos anos trinta o regime utilizou as exposições mundiais para se afirmar como estado forte no mundo, também nos anos noventa, Portugal irá legitimar-se como país democrático e estável nas duas exposições mundiais que teriam lugar em Sevilha em 1992 e em Lisboa, em 1998. Os Descobrimentos Portugueses foram o tema escolhido por Portugal para se fazer representar no pavilhão português em Espanha. Mário Soares, no texto alusivo ao evento, referiu “a importância da epopeia marítima portuguesa não está, assim, apenas no que ela teve de capacidade organizativa, de rigor científico ou de fervor religioso, a par do indomável espírito de curiosidade e aventura dos portugueses. (…) os Descobrimentos valem sobretudo por terem constituído o primeiro passo no sentido da criação de um mundo único, e para um melhor conhecimento mútuo entre nós (…) lançando a semente da solidariedade universal” (SOARES, 1992). Os Descobrimentos são vistos agora como uma demonstração de um Portugal empreendedor e responsável pela primeira globalização. Em 1998, no discurso de abertura da exposição, António Guterres afirmaria que “A Expo’98 é antes de mais um grande momento de afirmação de Portugal europeu, moderno e coeso, virado ao progresso e ao futuro. Um Portugal de que podemos estar orgulhosos.”, que a Figura 23 Heróis do Mar A IdENTIdAdE NACIONAl dEPOIS dE SAlAzAR52 exposição representaria uma “nova auto-estima” em oposição “à velha e fatal aliança de inveja com a mediocridade, que tantas vezes nos faz ficando para trás”(LOPES, 1998). Este evento será visto como um marco do Portugal moderno e aberto ao mundo. Em termos gráficos a Expo 98 foi também muito importante para o desenvolvimento nacional da disciplina. A temática da exposição é “os oceanos”. É passada uma mensagem de união dos povos, através do oceano. A imagem criada para o evento é a de um oceano com personagens características de todo o mundo. O texto é trabalhado de forma a estar integrado na mancha criada pelas formas vectoriais fluidas que animam toda a identidade da exposição. O tipo de trabalho criado é extremamente contemporâneo na época e a experimentação tipográfica é também disso um reflexo. Após vinte e quatro anos de democracia, Portugal erguia a maior exposição jamais feita em território Nacional. A última grande exposição que se podia recordar tinha já sido há cinquenta e oito anos, quando o país era governado por um regime fascista. Foi então importante para o posicionamento de Portugal no Mundo, como um país capaz de enfrentar desafios e de ombrear com os seus pares. Foi relevante também para ficar na memória colectiva, um grande acontecimento nacional fora das malhas da ditadura. Portugal começava a criar a sua nova memória visual democrática e contemporânea. Em 2007, em vésperas da presidência da união europeia, o Governo Português lançou uma campanha que pretendeu mudar um pouco a imagem de Portugal na Europa e no Mundo. O tema: Portugal Europe’s West Cost. O objectivo da campanha era mostrar os jovens talentos portugueses e o potencial das energias renováveis em Portugal. Um sinal dos tempos, em que o Estado volta a sentir a necessidade e importância de comunicar a obra pública e a de propagandear o “feito nacional”. Ainda que com contornos mais indefinidos e menos assumidos do que no Estado Novo, Portugal volta a ter uma máquina de propaganda, eficaz e atenta às mudanças de paradigmas. Figura 24 Logo da Expo’98 Figura 25 Portugal Europe’s West Coast 3. AnálIse de Alguns eXemplos 3.1. metodologIAs Uma vez feita a contextualização, onde se abordou de uma forma ligeira a história dos principais acontecimentos sociais, políticos e culturais, incidindo particularmente sobre a história das artes gráficas e propaganda e depois de uma pequena introdução ao conceito de identidade, em que expomos a noção da identidade no seu sentido mais lato, aproximando depois ao nosso objecto de estudo, considerámos que seria pertinente analisar alguns exemplos de manifestações da identidade do Estado Novo, a fim de melhor compreendermos a problemática da pergunta que efectuamos. Para isso comparámos dois tipos de imagem: uma do Estado Novo e outra contemporânea. Pretendemos usar estes exemplos como ponto de partida para uma reflexão sobre a forma como a identidade nacional era e é actualmente tratada, e a forma como interpretamos o nosso país – Portugal. Apresentaremos num total quatro pares que, na nossa opinião, podem representar quatro tipos de atitudes perante marcas da identidade nacional portuguesa, tão trabalhadas pelo Estado Novo. Identificámos, então quatro grupos distintos, que categorizámos como “Reprodução”, “Adaptação”, “Recriação” e “Apropriação” (estes nomes descrevem a relação entre os conceitos subjacentes a cada par de imagens). Para melhor analisarmos as imagens, desenvolvemos uma grelha onde inserimos parâmetros que consideramos serem de relevo para a sua interpretação e comparação. No primeiro campo, é analisado o tema da campanha, ou aquilo que entendemos por área de acção que a imagem abrange. Esta pode ser de ordem cultural, turística, educacional, entre outras. Outro campo utilizado refere-se aos propósitos da imagem, e à sua produção de sentidos. No campo seguinte são identificados os signos que constituem a imagem estudada. Aí enumeramos as principais unidades constitutivas da imagem. Os signos16 são os elementos que constituem a imagem que 16 Signo é uma unidade significativa que se refere a algo diferente de si mesmo (ex: palavras, imagens). Os signos não têm qualquer significado intrínseco, pelo que a significação só ocorre quando os seus utilizadores lhe atribuem algum significado referente a um determinado código. A IdENTIdAdE NACIONAl dEPOIS dE SAlAzAR54 ANálISE dE ExEMPlOS 55 A IdENTIdAdE NACIONAl dEPOIS dE SAlAzAR56 apresentamos; todos os elementos serão elencados neste campo. No último descrevemos algumas das significações possíveis e relevantes para o estudo, como aquelas respeitantes à mitologia17. Aqui se identificam os ambientes que foram abordados pelos construtores das imagens para passarem a sua mensagem de forma mais imediata e eficaz e algum do simbolismo empregado na construção ou consolidação de identidades. No primeiro grupo de imagens, confrontámos duas imagens que têm bastante em comum, embora separadas por cerca de setenta anos. Tratase de de imagens das marchas populares de Lisboa, que demonstram nítidos traços da identidade nacional tradicionalista criada no tempo do Estado Novo e que hoje continuam presentes e continuando até a ser exaltados pela população. Neles estão presentes princípios defendidos pelo regime que agora adoptamos como simples (e apolítica) tradição popular, mas que na sua raiz são propagandísticos. No segundo grupo, a dupla de imagens apresenta duas perspectivas diferentes sobre o mundo mas que são representadas de forma semelhante. As imagens demonstram a relação de Portugal consigo próprio e com o mundo. Apesar de terem públicos diferentes, a forma como é abordada a temática cultural é muito semelhante. Passámos de um país visto como uma grande nação ultramarina, fechada, mas heróica e multirracial (apesar do espírito “orgulhosamente sós”, manifestação de uma doutrina de pensamento medíocre), para um país que se abre ao estrangeiro e ao diálogo com as outras nações. No terceiro grupo apresentámos um par de imagens que demonstram o trabalho que o Secretariado Nacional de Informação executou na área do turismo, e as suas repercussões na actualidade. Com estas imagens percebemos a necessidade da mudança de paradigma já que o anterior estava desadequado à realidade do país actual. Estamos portanto perante a mudança de algo que está ainda estabelecido, mas que se pretende mudar a curto, médio prazo. 17 “Um mito é uma história pela qual uma cultura explica ou compreende um dado aspecto da realidade ou da natureza.” (FISKE, 1993) Página anterior: Figura 26 (esq.) Marchas Populares de Lisboa, 1933 Figura 27 (dir.) Marchas populares de Lisboa, 2007 ANálISE dE ExEMPlOS 57 No quarto e último par, propusemo-nos a comparar um conjunto de imagens que pudessem demonstrar a possível consequência da utilização de imagens que aludam ao tipo de imagética existente no regime de Salazar. Com este par de imagens tentámos investigar a razão pela qual o uso de determinadas simbologias que exaltam a nação pode ser polémico. Assim percebemos a dificuldade de Portugal em lidar com as questões dos símbolos nacionais. 3.2. AnálIse compArAtIVA de nArrAtIVAs VIsuAIs 3.2.1. Reprodução As imagens representam as marchas populares santo antoninas. Criadas nos anos trinta, pela mão de Leitão de Barros. “O seu propósito seria o de criar um espectáculo capaz de mobilizar as atenções dos lisboetas e que tivesse como fonte de inspiração os tradicionais e antigos festejos dos santos populares na cidade.”(COSTA, 2008). António Ferro descrevia, em 1932, a sua importância: “as paradas, as festas, os emblemas e os ritos são necessários, indispensáveis, para que as ideias não caiam no vazio, não caiam no tédio”. E assim estava dado o mote para a criação das marchas populares de Lisboa. Actualmente as marchas continuam vivas no espírito da cidade e do país. Os signos utilizados neste tipo de celebrações são os mesmos signos utilizados pelo folclore, os adornos tradicionais, e elementos que fazem ligação com o passado, sublinhando momentos da história nacional e da sua tradição. Todas as roupagens são variáveis consoante a temática utilizada na marcha e cada marcha funciona em representação de uma freguesia (também esta um símbolo político da união, reunião em torno de objectivos comuns), que decide o seu tema do ano (os temas podem ou não estar relacionados com a freguesia, embora geralmente remetam para temas históricos ou personalidades que de alguma forma se notabilizaram no passado). As histórias criadas são importantes para o povo, que segundo Ferro, ao lhe suprirem algumas liberdades e direitos humanos, teriam de ter uma contrapartida. Essa seria a alegria e o entusiasmo da fé. Ferro A IdENTIdAdE NACIONAl dEPOIS dE SAlAzAR64 era preciso estar unido, daí o governo ter percebido a importância da educação. Ao educar as juventudes com a noção de um Portugal colonial, teriam como resultado colonos na idade adulta, e assim em diante. Os ideais estavam desta forma a ser perpetuados de geração em geração, estando também garantidos os ideais colonizadores. Após o 25 de Abril, as colónias africanas tornam-se países independentes e Portugal acaba por se ver reduzido (em termos geográficos) ao “cantinho da Europa”. O isolamento também tinha acabado e, em consequência de novos laços económicos, Portugal abre-se novamente, mas desta vez ao mundo, sendo a Expo’98 reflexo disso. Agora Portugal está unido com o mundo, enquanto no Estado Novo, estávamos unidos por, e a Portugal. ANálISE dE ExEMPlOS 65 IlustrAção AlusIVA Ao ImpérIo multIrrAcIAl cApA encArte publIcItárIo eXpo’98 proVenIêncIA Extraído de Gomes, João - «O Obreiro da Pátria» 2006. www. http://www.oliveirasalazar.org/ default.asp Extraído de Expo’98 - Tudo sobre a Expo’98, 1997. Capa dAtA 19 - - 1997 temA Educação Cultura objectIVos Promover a nação multirracial – relação entre as raças do mesmo país Promover a nação aberta ao mundo – relação entre as culturas sIgnos Ícones raciais Mãos dadas Bandeira nacional Ícones raciais Braço dado Edifício em fundo conotAções e mItos Várias raças, um Portugal As raças que compõe Portugal (Ásia – Macau, Portugal, África – Angola, Moçambique, Guiné Bissau, S. Tomé e Principe) União das raças e a sua saudável convivência Mãos dadas Omnipresença da Bandeira Símbolo máximo de um país. Aparece no fundo da imagem, como uma aura que envolve as raças que lhe correspondem. A representação dos continentes Os seis personagens com os vários trajes tradicionais que representam os continentes da Terra União dos povos De braço dado A união na Expo dos Oceanos O Oceanário é o edifício que se encontra atrás. Conjuga os oceanos (tema da exposição, logo acaba por ser também um símbolo da mesma) e a arquitectura. Estão unidos na exposição pelos oceanos. A IdENTIdAdE NACIONAl dEPOIS dE SAlAzAR66 ANálISE dE ExEMPlOS 67 A IdENTIdAdE NACIONAl dEPOIS dE SAlAzAR68 3.2.3 Recriação Nesta dupla de imagens, pretendemos reflectir dois momentos gráficos em torno de um mesmo tema: o turismo. O primeiro exemplo, data da década de cinquenta, quando Portugal, após a vinda de muitos estrangeiros para o país, percebe a rentabilidade do movimento de turistas – com todo o seu potencial económico e político. O segundo exemplo, mais actual, data de 2007, ano em que o Estado Português revela uma consciência de que a imagem de Portugal no estrangeiro está demasiado colada aos estereótipos do país pouco desenvolvido, conservador e tradicionalista do passado. Ambas as campanhas eram destinadas a públicos estrangeiros. Ambas foram difundidas em países que teriam potenciais turistas que pudessem viajar até Portugal. Ambas têm a noção de que “cuidar da reputação do nosso país é um imperativo económico” (BBDO, 2007). Na década de cinquenta (exemplo da esquerda) o país passava por um período de desacreditação quer nacional quer internacional. Era importante que o regime melhorasse a sua reputação no estrangeiro. Para isso elabora campanhas de que este cartaz é exemplo. Ao “vender” a tradição, o regime estava a vender a sua ideologia e ao mesmo tempo a credibilizá-la perante os “compradores” turísticos. Portugal queria ser um pequeno refúgio tradicionalista na Europa. Na campanha de Portugal West Coast, o governo quer demarcar-se da imagem que o país tem tido no estrangeiro –a imagem do tal país tradicional e conservador, pouco evoluído tecnologicamente – pretendendo dar uma imagem nova a um dos mais antigos países da Europa. Os signos utilizados na primeira campanha são: o Galo de Barcelos, o sol, o céu azul e uma frase em língua inglesa: good morning in (bom dia em). Nesta representação, o Galo de Barcelos cumpre toda a tradição e folclore que o país tanto prezava na altura (o estado queria um país Página anterior: Figura 30 (esq.) Cartaz de promoção turística nacional Figura 31 (dir.) Imagem da campanha “Portugal Europe’s West Coast” ANálISE dE ExEMPlOS 69 rural, um país tradicional). Sendo este ícone – Galo de Barcelos – um dos principais símbolos de Portugal, e sendo também o galo índice do despertar da manhã, do nascer do dia, este cartaz acaba por combinar duas ideias, veiculadas por um signo apenas. Os dois papéis conjugamse num só: acordar com tradição. Sendo o galo folclórico, acaba por ser também acolhedor, uma das características que Portugal também queria publicitar e que acabou por conseguiu passar para o exterior. Na campanha de Portugal Europe’s West Coast são escolhidas para dar a “cara” pelo país, personalidades portuguesas que tenham reconhecimento no estrangeiro. Desta forma pretendeu-se “Mostrar um Portugal mais contemporâneo, cosmopolita e empreendedor. Vencedor sem deixar de ser acolhedor. O nosso papel de liderança … e alguns dos jovens talentos que são referências portuguesas com expressão internacional, (…).” (BBDO, 2007). No “interior” dos talentosos portugueses, encontramos imagens captadas pelo fotógrafo, Nick Night , como as praias ou o mar português. Apesar de muitos residirem no país, são consagrados internacionalmente funcionando como “embaixadores” de Portugal daí que, metaforicamente, a imagem seja construída de forma a colocar o país dentro de cada um. O sucesso deles é portanto um reflexo do país que eles contêm. As campanhas de turismo nacionais que aqui colocamos a par acabam por demonstrar que o regime, nos seus quarenta e um anos de governação, com as suas campanhas de turismo efectuadas sob a alçada do SNI, deixou marcas na imagem de Portugal no Mundo. Um país em que os seus pontos fortes não seriam a sua massa crítica, o seu povo, mas o tradicionalismo folclórico (que Salazar queria enraizada), o seu conservadorismo e o seu clima – Sol e mar todo o ano. De tal forma que a campanha desenvolvida em 2007 para a Europa pretendia começar a contrariar esse preconceito europeu em relação aos portugueses. Manuel Pinho Ministro da Economia e da Inovação de Portugal, num artigo do Herald Tribune Internacional, afirmava que A IdENTIdAdE NACIONAl dEPOIS dE SAlAzAR70 sabia que não se mudava a percepção de um país assim de repente, mas que pelo menos seria uma percepção mais próxima da realidade. Ao querer-se mudar algo que está instituído, como a nossa identidade lá fora, tem-se a percepção do trabalho de longos anos que foi sendo efectuado e também a percepção de quão fundas são as suas raízes. É nesta preocupação que percebemos a herança do regime, o legado deixado de uma imagem desadequada aos desafios contemporâneos. É essa imagem de um Portugal pouco moderno que agora está a ser confrontada por campanhas como a Portugal Europe’s West Coast. ANálISE dE ExEMPlOS 71 promoção turístIcA nAcIonAl portugAl europe’s west coAst proVenIêncIA Extraído de Vieira, Joaquim - Portugal Século XX: Crónica em Imagens 1950-1960, 1999. p. 151 Extraído de BBDO - Portugal Europe’s West Coast, 2007 dAtA 19 - - 2007 temA Turismo e Cultura Turismo e Cultura objectIVos Promover o país aos turistas estrangeiros Promover o país aos turistas estrangeiros sIgnos Galo de Barcelos Sol Céu Azul Palavra Portugal Frase “Good morning in Portugal” Personalidade nacional (com valorização internacional) Praia Sol Palavra Portugal Legenda da personalidade Registo em cabeçalho do fotógrafo conotAções e mItos Tradição e Folclore nacional Galo de Barcelos (para além de ícone popular, o galo dita o alvorecer do dia. Aqui poderá existir um jogo de ideias que resulta numa mensagem próxima de “desperte com tradição”) Clima e bom tempo (Sol e Céu azul) Jovens talentos Personalidade nacional a fadista Mariza apresenta o seu lado contemporâneo do fado. É um símbolo nacional do fado moderno. A tradição enfrenta e reinventa a modernidade. Clima e bom tempo (Sol e Praia) A IdENTIdAdE NACIONAl dEPOIS dE SAlAzAR72 ANálISE dE ExEMPlOS 73 A IdENTIdAdE NACIONAl dEPOIS dE SAlAzAR80 possíveis pontes, achámos pertinente elencar alguns exemplos que foram importantes para a definição do “ser português”. No terceiro capítulo, recuámos um pouco mais, iniciando a apresentação em 1910, para podermos enquadrar o país na sua realidade social e política. Esta data é relevante para o nosso estudo, pois foi a data da Instauração da República e a mudança de um dos principais símbolos da identidade de um país: a bandeira nacional. Percorremos depois o século XX até ao começo do século XXI, recorrendo sempre a exemplos imagéticos como forma de visualização do percurso de Portugal neste período e da respectiva identidade. O país sofreu do que se poderá chamar, excesso de identidade, sendo que a ditadura muito contribuiu para isso. Foram elaboradas campanhas para todas as áreas de acção da máquina do estado que implicassem uma representação oficial e institucional. Actualmente, podemos encontrar paralelos com as campanhas efectuadas, que foram expostas no terceiro capítulo. Após termos elencado as narrativas visuais, necessárias para a compreensão do tema abordado, procedemos à análise comparativa das mesmas. Neste capítulo, colocámos lado a lado imagens com temáticas semelhantes, mas de épocas distintas. Posteriormente elaborámos uma tabela em que se sistematizou a informação obtida nas imagens, o que nos permitiu analisar comparativamente as imagens em questão. Concluímos que existem pontos de contacto entre o trabalho efectuado na construção da identidade nacional no período do Estado Novo, e a identidade nacional actual. Estes traços vão-se apresentando de variadíssimas maneiras, designadamente com o recurso a mitos semelhantes nos dois períodos. Desta forma, pudemos concluir que Portugal, apesar de ser um país aberto à modernidade, apesar de viver em democracia plena, continua a revelar algumas questões da ditadura e das marcas deixadas por esta na identidade nacional. Uma tão forte presença temporal não se consegue apagar sem deixar marcas. Embora o tempo e os novos desígnios nacionais estejam já a sarar algumas marcas mais nocivas, a identidade nacional portuguesa está relacionada com os tempos do nosso incomparável passado. Segundo Almeida, “Uma vez que Portugal perde na competição da prosperidade económica com os CONClUõES E PERSPECTIVAS dE fUTURO 81 países vizinhos, muitos portugueses sentem-se orgulhosos, não com aspectos da modernidade de Portugal mas sobretudo com a era de ouro do passado e com características relacionadas com memória, história nacional e tradição” (ALMEIDA, 2004). Existe, para além dos temas mais épicos, outro tipo de mitologia – que foi abordada de forma incessante por Salazar, permanecendo na nossa memória – que foi ficando sem carácter político, como por exemplo o folclore e todos os motivos inerentes a este mito, que perduraram e são elogiados da mesma forma e da maneira, como foram fabricados – o exemplo das marchas populares. Existem, portanto, traços de identidade nacional do regime do estado novona identidade nacional portuguesa, de tal forma que são encetadas iniciativas – Portugal Europe’s West Coast – para promover uma nova noção de identidade, mais actualizada e coerente com o país que somos. Este esforço pretende ainda combater alguns dos estigmas do passado, como a ideia do país conservador e tradicionalista que permanece no estrangeiro. “(…) o sentimento de pertença ao fado nacional se tornou nas sociedades modernas uma expressão fortemente interiorizada da consciência de grupo, pode-se prever que as características se alterem com a mudança de condições sociais, mas não é de esperar que desapareçam facilmente (…)” (MATTOSO, 2001) Como já tínhamos referido anteriormente, o país esteve, está e estará em constante mudança, mas só com uma abordagem frontal e desprovida de preconceitos poderemos entender e identificar-nos com um novo “eu” nacional. Muitos foram os mitos que foram sendo alterados pela ditadura “ao sabor” das suas necessidades. Com a Revolução de Abril, e a aposta a necessidade de contrariar qualquer manifestação do regime deposto, os portugueses esqueceram-se de interpretar e clarificar os seus mitos e as suas raízes simbólicas. Portugal lutou para que a ditadura fosse esquecida, mas não reparou que ela, apesar de ter sido deposta politicamente, tinha deixado traços quase invisíveis no A IdENTIdAdE NACIONAl dEPOIS dE SAlAzAR82 imaginário nacional. O país sentiu vergonha sempre que essas heranças se manifestavam e tornavam visíveis, porque as conotava com a ditadura. Actualmente as feridas começam a passar, mas sente-se ainda alguma apreensão na celebração dos símbolos patrióticos. O país precisa de se libertar deste estado de dormência nacional, e de adaptar os mitos e os símbolos nacionais às suas necessidades, incutindo novamente neles a alma do “ser português”, para que possam ser fonte mobilizadora, permitindo conotar, positivamente, todas as narrativas visuais que poderão ter sido utilizadas, anteriormente, por qualquer outro regime. O período do luto já passou. O país mostra-se novo e diferente. Mas não deve (nem consegue) esquecer a sua história. E parte do que o define enquanto nação são precisamente esses mitos originais e símbolos. A criação de narrativas visuais sempre foi útil para o reforço das identidades e hoje, podem sê-lo de novo. De forma consciente e verdadeira. Sem complexos mas com o respeito pela história, com todos os seus episódios e ensinamentos. 4.2 perspectIVAs de futuro Na presente dissertação, definiram-se alguns traços da identidade criados pelo regime do Estado Novo, aquando a sua permanência no poder. Para o seu aprofundamento poderíamos conceber uma plataforma colaborativa, onde seriam alojadas imagens relativas a vários momentos da história, todas referentes à identidade nacional portuguesa. Com este tipo de projecto seria possível acedermos a um maior número de imagens e, consequentemente, poderíamos aprofundar o estudo e perceber melhor a real/popular identidade nacional. Ou seja, teríamos o que se poderia designar por base de dados pictórica, com as tendências da identidade nacional. Podendo perceber os ícones com maior capacidade de agregação, podendo até perceber se existem ciclos de narrativas visuais na identidade, e quais os mitos utilizados. Isto proporcionaria um investimento em narrativas de identidade que sejam contributivas para a narrativa IdENTIdAdES 83 do “cidadão comum”, “exorcizando” os estigmas de determinados reportórios que, apesar das ideologias subjacentes, se mantêm válidas e operativas. Mas esta dissertação poderá também apontar novos caminhos a ser seguidos, nomeadamente a assimetria da linguagem gráfica praticada em Portugal com a executada em países estrangeiros onde contextos culturais eram distintos, bem como a reforma efectuada por António Ferro na efectiva mudança de identidade nacional, temas que ficaram em aberto para possíveis abordagens, que poderão enriquecer o estudo aqui iniciado. Contudo, esta exposição serviu para nos tentarmos libertar de preconceitos do passado em que Portugal esteve mergulhado, e tentar entender se realmente, como afirmava José Gil20, a revolução conseguiu varrer de uma penada, esse passado negro. 20 Portugal Hoje bIblIogrAfIA MONOgRAfIAS ANDERSON, Benedict - Comunidades Imaginadas. Lisboa: Edições 70, 2005. ISBN 97244-1210-5. BARTHES, Roland - Mitologias: Signos. Lisboa: Edições 70, 1974. BERGSTRöM, Magnus; Reis, Neves - Prontuário Ortográfico. Lisboa: Notícias Editorial, 2004. ISBN 972-46-0840-9. 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Disponível em WWW: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Mocidade_Portuguesa>. A IdENTIdAdE NACIONAl dEPOIS dE SAlAzAR96 Republicano Português. Manteve-se o brasão e as quinas suportados por uma esfera armilar, soluções baseadas nos descobrimentos e nos tempos áureos de Portugal. Mas a solução não foi pacífica, muitos queriam que a bandeira se mantivesse azul e branca, alegando que um país não mudava conforme os seus governos. Mas o desfecho pendeu para os que tencionavam alterar as cores da insígnia para as da bandeira do partido republicano. A escolha da bandeira seria sintomática desta época, pois reflectia o tipo de pensamentos sobre o país dos vitoriosos republicanos – Que tipo de regime quereriam para o país? Um regime para os partidos onde estes digladiariam pelos seus interesses e onde a bandeira fosse alterada em função do novo estatuto nacional, ou um regime de todos os portugueses, onde a vontade do povo fosse reflectida na forma de governação, e em que a bandeira seria a mesma da monarquia, com algumas alterações de ordem política – o caso da coroa? Em 1914, instalava-se a Guerra na Europa, que seria conhecida como a 1ª Guerra Mundial. Apesar das grandes discussões internas para a tomada de decisão, se a nação deveria ou não entrar no conflito, em 1916 Portugal entrava na guerra das nações juntando-se aos Aliados da Tríplice Entente3 como forma de legitimar a República internacionalmente. Ainda no decorrer do conflito mundial, em 1917, o país acordava com mais uma revolta. Era implementada a República Nova e Sidónio Pais tomava o poder. Um ano mais tarde foi assassinado e com ele, a esperança de uma estabilização do país. As revoltas eram cada vez mais numerosas e não se via um fim à vista para estas disputas do poder nacional. O panorama cultural acompanhava o cenário político. Existia um atraso em relação às Vanguardas europeias, vislumbrando-se apenas raramente alguns artistas que acompanhavam os tempos modernos. Na Europa, sopravam os ventos de mudança no panorama das Artes 3 Foi assim como ficou chamado o grupo dos países que lutavam contra a Aliança dos Alemães, Otomanos e Austro-húngaros. O nome Tríplice Entente provém de acordos assinados entre O Reino Unido, a França e a Rússia. A Quem Portugal se aliou mais tarde. ANExOS 97 Plásticas. A revolução industrial fazia-se sentir nos países mais desenvolvidos da Europa. Marinetti publicava o Manifesto Futurista no jornal francês Le Fígaro, onde exaltava os valores da velocidade, da máquina, entre outros. Este grupo foi por vezes iconoclasta, acabando por ser influenciador de outras vanguardas que o sucederam, nomeadamente o dadaísmo. Os futuristas escreveram um conjunto de manifestos revolucionários onde expunham os seus pontos de vista sobre a vida moderna, a Era das máquinas, da velocidade, a guerra e a tecnologia. O Manifesto tecnico della letteratura futurista, em 1912, aboliu mesmo a pontuação, a sintaxe e a gramática tradicional. A linguagem desta época usava o que os futuristas chamavam de “declamação sinóptica” – velocidade, ritmo e entoação eram transmitidos em termos visuais tentando ampliar e enaltecer o significado das palavras. A tipografia era utilizada como ilustração das palavras que por sua vez eram onomatopeias em que o som indicava o significado. Exemplo deste trabalho a revista Zang Tumb Tum, que Marinetti edita em 1912, aplicando todas as ideias futuristas, bem presentes aquando da utilização do texto enquanto veículo de informação no seu tipo tradicional, e que, ao mesmo tempo, continha significado gráfico. Em Portugal, no início do século XX o Naturalismo4 teimava em ficar e as vanguardas custavam a chegar. Com o alvorecer do novo século, a insatisfação apossava-se de uns quantos artistas plásticos que insistiam em não querer ficar na retaguarda da Europa. Apesar de serem um tipo de registo menos canonizado, sem a vertente tradicional/clássica, os desenhos Humorísticos foram o início da modernidade artística em Portugal. Foram eles que, apesar das suas raízes do séc. XIX, tornaram o desenho um acto democrático, sem as regras dos cânones clássicos das escolas de Belas-Artes. Nomes como Almada Negreiros, Emmérico Nunes, Jorge Barradas, estiveram presentes nas Exposições dos Humoristas, contando-se quatro 4 O Naturalismo é uma corrente artística que teve grande influência na forma de ver o mundo. A Escola de Barbizon é um dos principais locais de referência deste estilo. Por lá passaram muitos artistas que mais tarde criaram as vanguardas artísticas do início do século XX A IdENTIdAdE NACIONAl dEPOIS dE SAlAzAR98 exposições até 1926. Apesar de, na época, não ser considerada uma arte maior, o desenho humorístico desempenhou um papel importante no desenvolvimento artístico em Portugal, possibilitando maior liberdade ao traço e, consequentemente, abrindo um pouco a porta ao modernismo que já estalava na restante Europa. Paris era um dos principais centros culturais do mundo, os grandes artistas estavam na cidade das luzes. Alguns artistas portugueses rumam para a capital francesa na tentativa de absorverem os ensinamentos da grande metrópole. Santa-Rita Pintor e Dórdio Gomes são pioneiros ao trazer o Modernismo, um movimento do início do século XX, que reflectia uma nova maneira de ver o mundo, reflexo de todas as transformações profundas da humanidade ao nível do pensamento, da sociedade, da política, da economia. A arte era um espelho dessas transformações e chega a Portugal pela mão destes artistas que, após o seu regresso, são seguidos por Amadeo de SouzaCardoso, Diogo de Macedo e Eduardo Viana. Neste emergente grupo modernista salienta-se o movimento Futurista que, chegado pelas mãos de Santa-Rita Pintor, ecoa na pintura de Amadeo e de Almada Negreiros, e sente-se também profundamente na poesia de Fernando Pessoa ou Mário de Sá Carneiro. É assim constituído o célebre grupo futurista denominado “Geração Orpheu”. A Geração de Orpheu foi o grupo responsável pelo início do Modernismo em Portugal. Seguindo as vanguardas europeias nomeadamente o Futurismo, propunham-se segundo Almada Negreiros a “dar uma bofetada no gosto público”. Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros, Amadeo de Souza-Cardoso e Santa Rita Pintor, fizeram parte do grupo de Orpheu, que queria pôr em causa todas as convenções sociais, agitando as consciências nacionais, não ficando agarrados ao passado, olhando sempre em frente no caminho para percorrer para participarem como disse Almada Negreiros, na “edificação do Portugal do séc. XX”. O próprio nome Orpheu era metáfora para esse pensamento, porque segundo a lenda, Orpheu era um mítico músico grego que, para salvar a sua mulher das mãos de Hades, teria que a trazer de volta ao mundo dos vivos sem nunca olhar para trás. Era esse o pensamento do grupo ANExOS 99 de Orpheu, não olhar para trás, concentrando todas as atenções no futuro, e com o propósito de agitar a sociedade civil portuguesa. Todos estes grupos, num esforço colectivo, foram organizando exposições, conferências, que não suscitaram grande interesse da parte do grande público português, que sendo maioritariamente analfabeto e conservador, não estava preparado para tais manifestações artísticas. estAdo noVo 28 Maio 1926 Na madrugada de 28 de Maio de 1926, saía das mãos do General Gomes da Costa um comunicado onde se poderia ler: “Não quer a Nação uma Ditadura de políticos irresponsáveis como tem sido até agora. Quer um Governo forte que tenha por missão salvar a Pátria, que concentre em si todos os poderes para, na hora própria, os restituir a uma verdadeira representação nacional (…)”. Estava em marcha a revolta militar contra o governo da altura. A 30 de Maio capitula o Presidente da República Bernardino Machado, e a 6 de Junho, Gomes da Costa chega a Lisboa. O golpe triunfara. Salazar seria convidado para fazer parte do governo, que reticentemente aceita, vindo a demitir-se cinco dias após ter tomado posse, alegando: “(…) foram chamados a exercer uma determinada acção administrativa e essa acção só se lhes afigura depois de resolvido o problema político. (…)”. Mantendo-se afastado do poder legislativo, é novamente chamado por Carmona – após este ter sido eleito Presidente da República em 1928 – desta feita para a pasta das Finanças, que aceitaria sob as seguintes condições: “- Nenhum ministério deveria passar a verba que lhe foi atribuída; - Os Ministérios não poderão tomar qualquer medida com impacto no orçamento sem o acordo prévio do Ministro das Finanças; - O Ministro das Finanças poderá vetar qualquer aumento das despesas; - Todos os demais ministérios deverão colaborar com o Ministro das A IdENTIdAdE NACIONAl dEPOIS dE SAlAzAR100 Finanças no estabelecimento de critérios para reduzir despesas e aumentar receitas.” (Paço, 2008) Salazar impunha dentro de uma ditadura militar uma “ditadura das Finanças”. A 27 de Abril de 1928 toma posse da pasta das finanças, comunicando: “sei muito bem o que quero e para onde vou, mas não se me exija que chegue ao fim em poucos meses. No mais, que o país estude, represente, reclame, discute, mas que obedeça quando se chegar à altura de mandar”. É o início do Salazarismo em Portugal. A situação nacional estava longe de estar estável, e durante os anos que se seguiram, as revoltas iriam ser uma constante. Durante esse período, Salazar, o “ditador das finanças”, gera uma onda de apoio em torno do seu trabalho, e muitos acreditavam que só poderiam contar com ele para prosseguir a “revolução nacional”. Em 1932 é convidado a ser Presidente do Conselho, e forma Governo. Estado Novo Em 1930, Salazar lidera um movimento nacional que preferiu não apelidar de partido, pois: “Os Partidos fizeram-se para servir clientelas. A União Nacional5, como o seu nome indica, para servir a Nação…” (FERRO, 1935). Movimento esse que se vai comportar como partido único e que vai vencer as eleições de 1934 após a nova constituição que iria dar início ao Estado Novo em Setembro de 1933. Estando à frente da UN, poderia agora tomar o país. E assim o fez, surgindo como representante para correntes políticas da direita e vários sectores de interesse nacional, permanecendo à frente dos destinos da nação até 1968. O Estado Novo inspirou-se no fascismo italiano, podendo caracterizálo como sendo de poder ditatorial e de culto do chefe – Salazar, presidente do Conselho (1933-1968), concentrava os poderes executivo e legislativo e controlava a vida política do país; O Estado 5 A União Nacional (UN) foi fundada em 1930, constituída para apoiar a criação e a manutenção do Estado Novo, o regime político que se estabeleceu em Portugal após a alteração da Constituição em 1933. ANExOS 101 Novo suprimia as liberdades – os partidos políticos foram proibidos, sendo apenas autorizada a União Nacional, movimento político constituído por partidários do regime. Os opositores políticos eram presos, perseguidos, torturados e alguns foram mortos. Para garantir a segurança do regime, criou-se uma polícia política (a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, mais tarde chamada Polícia Internacional de Defesa do Estado. Abriram-se prisões políticas (Caxias, Peniche e Tarrafal em Cabo Verde) e estabeleceu-se a censura para controlar a imprensa, a rádio, os espectáculos. Era um Estado que defendia por vezes de forma intransigente o nacionalismo – certas épocas e figuras da história pátria foram realçadas, a fim de encher de orgulho os portugueses; e finalmente, tinha como preocupação o enquadramento da juventude e dos adultos – criou-se a Mocidade Portuguesa, para doutrinação da juventude, e a Legião Portuguesa, para defesa do regime. SPN No início do Estado Novo, em 1933, o Presidente do Conselho vai iniciar um conjunto de reformas governativas, e introduzir novos órgãos de governação na estrutura do Governo. Apesar de avesso à propaganda, como refere na sua entrevista a António Ferro onde explicava: “Teremos de ir para aí, para uma propaganda intensa, conscientemente organizada, mas é lamentável que a verdade precise de tanto barulho para se impor, de tantas campainhas, bombos e tambores, dos mesmos processos, exactamente, com que se divulga mentira. (…) Politicamente só existe o que o público sabe que existe: a ignorância das realidades, dos serviços, dos melhoramentos existentes, é causa de descontentamento, de frieza de almas, de falta de orgulho patriótico, de não haver confiança, alegria de viver. O facto tem interesse político porque o tem no terreno da coesão, da vitalidade nacional (FERRO, 1935). Salazar tinha plena noção de que precisava da propaganda para se fazer legitimar perante a opinião pública, pois entendia ser importante que estas ideias passassem no espírito de todos e de uma forma total: na família, nas escolas, nas aldeias, nas oficinas, nas ruas, no lazer, no quotidiano. A IdENTIdAdE NACIONAl dEPOIS dE SAlAzAR102 Como consequência destas preocupações, é criado o Secretariado de Propaganda Nacional (SPN) o qual, seguindo a ideologia conservadora do Estado Novo, deveria dedicar-se à reinvenção do passado histórico num sentido nacionalista, tradicionalista e imperial, que sendo resultado de um reencontro do país com o seu verdadeiro passado de marinheiros, santos, cavaleiros de destino providencial e colonizador. Segundo Fernando Rosas6, “nesta acepção, o Estado Novo não se limitaria a ser mais um regime político, mas a tradução institucional e ontológica do verdadeiro destino da nação. Atacá-lo era pô-la em causa: «tudo pela Nação, nada contra a Nação!». Discurso do qual decorria o papel essencial da manipulação legitimadora da História, tornada instrumento central da propaganda do regime. A criação de uma «identidade nacional» de fundo ruralista, de uma nova «essencialidade portuguesa», de uma ética nacional da ruralidade, fundamento da apologia do país «essencialmente rural e essencialmente pobre» como berço das «virtudes permanentes da raça». (…)”(ROSAS, 1998) era uma das componentes mais fortes do SPN. Para o cargo de direcção deste novo organismo é escolhido António Ferro7. No discurso de inauguração das instalações do SPN, em S. Pedro de Alcântara, Salazar refere que aquele organismo não era “uma repartição de elogio governativo”, mas “um instrumento de governo” com a “grande missão”, a de “elevar o espírito da gente portuguesa no conhecimento do que realmente é e vale, como um grupo étnico, como meio cultural, como força de produção, como capacidade civilizadora, como unidade independente no conceito das nações”. (BRAGA, 2008) No final do ano de 1934, Ferro manda publicar o Decálogo do Estado Novo, no qual em dez mandamentos explicava a filosofia do Estado 6 Historiador Português (é mais importante referir a fonte do que o título). 7 (1895-1956) foi um dos principais impulsionadores da propaganda do regime de Salazar. Fascista convicto e admirador de Mussolini, Ferro esteve à frente dos destinos da propaganda nacional nos períodos de 1933 até 1949. Pelo caminho ficam ainda a participação na revista Orpheu (em conjunto com Almada Negreiros, Fernando Pessoa entre outros), e variadíssimas entrevistas a personalidades mundiais da sua época. ANExOS 103 Novo. Estavam traçadas as linhas que orientariam a força de acção do novo regime. A criação do SPN no panorama artístico foi uma pedrada no charco, e assim o pretendia ser. Com as exposições de arte moderna do SPN (1935 e 1937), António Ferro queria criar uma elite artística em Portugal que pudesse absorver todos os ensinamentos do Regime e os pudesse depois exteriorizar em formas de arte. Mas, em poucos anos, o organismo que promovia o modernismo na arte estava a condicionar as formas de arte nacionais. Os artistas estavam de mãos dadas com o Estado que na década de 30 dinamizava este cenário. Para além das exposições de arte moderna já referidas em cima, distribui vários e avultados prémios, e gerava grandes ondas de expressão artística com a entrada de Portugal nas várias feiras e exposições mundiais que participou. A Exposição do Mundo Português em 1940 onde se pretendia comemorar os centenários da formação da nacionalidade em 1139, a restauração da independência em 1640 – Salazar, entendendo que “seria bem celebrar solenemente” numa única data estes dois momentos, cria a comissão das comemorações dos centenários que irão produzir as grandes manifestações de orgulho nacional nos anos que se seguiram a 1938 até 1940. Seria a maior, mais cara, mais grandiosa e eficiente manobra de propaganda do Estado Novo “no que respeita a exposições temporárias. Todo o edifício do Estado Novo ali se encontrava e, se não todos, uma parte muito significativa dos artistas portugueses contemporâneos nela colaboraram”. (Lira, s. data) Mas nem só de campanhas era constituída esta “política de espírito”8. A ideia de nação deveria passar “através de uma “educação nacional”. Concebida para moldar os jovens nos valores do nacionalismo, seriam criadas a Mocidade Portuguesa e a sua secção feminina. Funções semelhantes receberiam, os sindicatos nacionais, a Federação Nacional para a Alegria no Trabalho (FNAT) ou a Organização Nacional 8 A “política do espírito” foi concebida por António Ferro com o propósito de restaurar a alma da pátria portuguesa, reacendendo o orgulho de ser português. A IdENTIdAdE NACIONAl dEPOIS dE SAlAzAR104 das Mães para a Educação Nacional, tudo sob a orientação ideológica geral do Secretariado de Propaganda Nacional (SPN). Pós guerra Após a 2ª Guerra Mundial, em que Portugal se manteve neutral, Salazar, presidente do Conselho de um regime fascista, via agora com alguma prudência o desenrolar dos acontecimentos internacionais e nacionais. Para se prevenir de possíveis revoltas, endurece a polícia política, a censura e vai-se moldando ao panorama político internacional. Internamente vai tentando controlar os princípios de mal-estar, enquanto para o exterior passa uma imagem de ditadura moderada. Dessas transformações resultaram por exemplo: o fim de designação de Império Colonial e o surgimento de nova designação para o mesmo território, passando agora a chamar-se províncias ultramarinas. Pretendia-se com esta alteração de nomes, preservar as colónias portuguesas, facto este que era contraditório com o começo do Estado Novo, em que Portugal queria ser visto como uma potência colonizadora, como esteve presente na ideologia passada na 1ª Exposição Colonial. Foram também encetadas várias visitas de chefes de estado a Portugal, tentando desta forma legitimar o regime, e foram encenadas algumas eleições, das quais destacamos as presidenciais em que concorreram Norton de Matos e a que concorreram o General Humberto Delgado. Em todas elas ganhou o regime. E é nesta angústia que muitos portugueses tentam a sua sorte em países livres como a França, Suíça, Luxemburgo, fugindo do país e da miséria em que se encontravam, com os olhos postos num futuro mais sorridente. Para além destes que fogem por razões económicas, muitos são os que fogem por razões políticas. O regime persegue a oposição, lançando campanhas ferozes contra quem não está do lado dele. Assim, muitos são os que vão exilados para países longínquos, vendo a sua pátria definhar. Apesar de todos estes problemas internos, Salazar pretende que a imagem de Portugal para o exterior seja a de um país solarengo e que recebe bem, a imagem de um país rural. Já nas décadas de 60 e 70, Portugal enfrenta a revolta das colónias que, reclamam a independência. Salazar que já tinha perdido as ANExOS 105 colónias indianas, recusa tal exigência e desencadeia a guerra colonial portuguesa, para a qual são enviados milhares de homens combater pela pátria. Salazar sente também a pressão internacional que o empurra para a capitulação das colónias, mas este insiste na defesa do seu ideal colonialista, e não retira. A revolta dos Estudantes em Coimbra foi também uma marca indelével de que o regime começava a vacilar. Em resposta Salazar cerrava fileiras e combatia estes acontecimentos autoritariamente. O regime começa a desmoronar e com a hospitalização de Salazar em 1968, Salazar, o regime dá sinais de aliviar, com a entrada de Marcello Caetano, mais reformador que o anterior. Mas as reformas já não surtem efeito e nesse mesmo ano é substituído por Marcello Caetano que, acaba por ser destituído a 25 de Abril, rendendo-se aos militares a 25 de Abril de 1974. Após algumas exposições com o apoio do SNI9, artistas assumindo-se como um núcleo de resistência anti-regime, iriam realizar as Exposições Gerais de Artes Plásticas e Arquitectura da SNBA (1946 e 1956), onde predominava a tendência neo-realista, mas onde inicialmente expuseram também os artistas de linha naturalista e os surrealistas. Desta revolta dos artistas que se manifestavam perante um estado que não evoluía, resulta a demissão de António Ferro – um ano depois do boicote ao SNI – e com ela o fim de uma época caracterizada pela existência de uma politica cultural e de propaganda do Estado Novo. Foram sinais de desagrado, sinais que o Regime tratará de combater e de os tornar aparentemente resolvidos. Após a sua saída, os dirigentes do SNI que lhe sucederam, não conseguiram gerar períodos de tanta criatividade como Ferro o tinha feito, apelando de forma directa e banal, resultando em trabalhos de pouca expressão. Em Portugal o Neo-Realismo surge no mesmo período que o Surrealismo e o Abstraccionismo, gerando-se entre estes movimentos acesa polémica sobre a natureza e o papel das artes. Mais tarde, o 9 Em 1945, o até então denominado Secretariado de Propaganda Nacional vai mudar de nome para Secretariado Nacional de Informação, Turismo e Cultura Popular, mais conhecido por Secretariado Nacional de Informação (SNI)