Análise comportamental do cão (Canis familiaris) em relação a
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FCUP Análise Comportamental do cão (Canis familiaris) em relação a"playbacks" de sons humanos com carga emocional i AGRADECIMENTOS Gostaria de agradecer primeiramente à minha orientadora, Prof. Doutora Liliana de Sousa, por ter tornado possível este trabalho, pela inspiração, força, conselhos e conhecimentos transmitidos, e, acima de tudo, pelo grande apoio. Gostaria também de agradecer à Doutora Ana Magalhães, pela disponibilidade e colaboração. Um grande reconhecimento ao Sebastião Casto Lemos, proprietário da Quinta do Côvo, por ceder o seu espaço e os seus cães para o trabalho prático, e pela foto do Charlie. Agradeço aos cães: Charlie, Núria, Pisca, Graça, Tobias e Cookie, pela participação no estudo e por toda a felicidade transmitida. Às colegas do GEE (Grupo de estudos de Etologia), o meu agradecimento, pelas ideias partilhados, e, particularmente, à Karine Silva e Joana Bessa, pela participação no primeiras experiências. Ainda um obrigado sincero à minha amiga Mariana Filipe por toda a atenção. Em especial, um enorme agradecimento à minha amiga Ana Magalhães, à minha família e Nuno Saavedra, por todo o amor, confiança, encorajamento, paciência e apoio incondicional demonstrados. E por último, a minha gratidão especial ao meu cão Kid, por me animar a qualquer momento.
FCUP Análise Comportamental do cão (Canis familiaris) em relação a"playbacks" de sons humanos com carga emocional ii ABSTRACT The interactions between our species and the domestic dog have a unique character, such as the strong attachment and the inter-specific communication, which implies exchange of complex signals, visual and acoustic. This study intended a behavioral analysis of dog’s reactivity to non-verbal sound patterns that carry emotional information. One of the intentions of this work was to deepen the thematic of dog’s ability to comprehend and share emotions, with focus on dog-human relation, which allows the beginning of a study with potential future relevance in the area of Cognitive Ethology. In this study, a sample of 6 dogs was used. Playbacks of 30 seconds of non-verbal sounds carrying emotional information that included positive sounds (laugh), negative sounds (cry) and a neutral sound (‘ummm’) were played to each dog. They composed seven different sounds: baby crying, woman crying, man crying, neutral, baby laughing, woman laughing and man laughing). Each playback session (preselected at random) was preceded and succeeded by 1 minute of film footage for behavioral analysis, following a break with 2 minutes outside. The obtained results showed that were a higher number of Alert behaviors at the Sound moment, comparatively to the rest of the behaviors at any moment; and a decrease of misplaced behaviors at the Sound moment, when compared to the occurring ones at pre-sound moment. This results suggests that we could be facing a dog’s reaction to this human non-verbal sounds with emotional charge. Key-words Dog; Playbacks; Human sounds; Emotions; Human-dog communication
FCUP Análise Comportamental do cão (Canis familiaris) em relação a"playbacks" de sons humanos com carga emocional iii SUMÁRIO As interações entre a nossa espécie e o cão doméstico têm um carácter único, como o forte vínculo e a comunicação interespecífica, que implica trocas de sinais complexos, visuais e acústicos. Este estudo pretendia uma análise comportamental da reatividade do cão a padrões sonoros não-verbais que carregam informação emocional. Foi uma das intenções deste trabalho, aprofundar a temática da capacidade de compreender e partilhar emoções, focando-nos na relação cão-homem, o que permite o início de um estudo de potencial importância futura na área da Cognição Social. Neste estudo usou-se uma amostra de seis cães. Reproduziram-se "playbacks" de 30 segundos de sons humanos não-verbais com carga emocional que incluíam sons positivos (riso), sons negativos (chorar), e um som neutro ('ummm’), a cada cão. Ao todo compunham sete sons diferentes: bebé a chorar, mulher a chorar, homem a chorar, neutro, bebé a rir, mulher a rir, homem a rir. Cada sessão de "playback" (pré-selecionada aleatoriamente) foi antecedida e sucedida de 1 minuto de filmagem para observação comportamental, seguindo-se um intervalo de 2 minutos no exterior. Os resultados obtidos mostraram que houve um número mais elevado de comportamentos de Alerta no momento Som, comparativamente aos restantes comportamentos em qualquer momento; e uma diminuição das Atividades Deslocadas no Momento Som, quando comparadas com as que ocorrem no momento Pré-som. Estes resultados sugerem que poderemos estar perante uma reação do cão a estes sons humanos não-verbais com carga emocional. Palavras-chave Cão; “Playbacks”; Sons humanos; Emoções; Comunicação Humano-cão
FCUP Análise Comportamental do cão (Canis familiaris) em relação a"playbacks" de sons humanos com carga emocional iv ÍNDICE ABSTRACT ............................................................................................................................ 2 SUMÁRIO .............................................................................................................................. 3 MATERIAL E MÉTODOS ....................................................................................................... 5 DESIGN EXPERIMENTAL E PROCEDIMENTO ......................................................................... 5 ANÁLISE COMPORTAMENTAL .................................................................................................... 8 RESULTADOS ..................................................................................................................... 14 DISCUSSÃO ........................................................................................................................ 19 CONCLUSÃO ...................................................................................................................... 21 BIBLIOGRAFIA .................................................................................................................... 22 ÍNDICE DE TABELAS Tabela 1 – Comportamentos relativos aos sete estímulos reproduzidos. ................................ 8 ÍNDICE DE FIGURAS Fig. 1 – Esquema de uma sessão de "playback". ................................................................... 6 Fig. 2 – Esquema do “setup” experimental. ............................................................................ 7 Fig. 3 – Médias (e intervalos de confiança de 95%) dos comportamentos observados relativos aos diferentes momentos (Pré-som, Som e Pós-som) nas cinco categorias: Desinteresse/Cansaço, Alerta, Conforto, Atividades Deslocadas e Vocalizações. ................ 15 Fig. 4 – Médias dos comportamentos observados para a categoria Atividades Deslocadas, relativos aos diferentes estímulos. ....................................................................................... 16 Fig. 5 – Médias dos comportamentos observados para a categoria Alerta, relativos aos diferentes estímulos. ............................................................................................................ 16 Fig. 6 – Médias dos comportamentos observados para a categoria Desinteresse/Cansaço, relativos aos diferentes estímulos. ....................................................................................... 17 Fig. 7 – Médias dos comportamentos observados para os pares relativos aos estímulos Positivos/Negativo e às cinco categorias (Desinteresse/Cansaço, Desinteresse/Cansaço, Alerta, Conforto, Atividades Deslocadas e Vocalizações) ..................................................... 18
FCUP Análise Comportamental do cão (Canis familiaris) em relação a"playbacks" de sons humanos com carga emocional 1 INTRODUÇÃO Essencialmente na última década, houve uma “redescoberta do cão para a investigação comportamental” (Miklósi, 2007). O seu recente estatuto de espécie de eleição na investigação da cognição social e outras áreas da Etologia, advém precisamente do fator que, durante muito tempo, levou investigadores a subvalorizá-lo – a sua domesticação. O cão tem grande vantagem prática relativamente a outras espécies de estudo: dispensa cuidados específicos ou gaiolas, pois, não permanece residente no laboratório, o que implica uma redução de custos, maior praticabilidade e uma importante acessibilidade mundial. A presença do cão doméstico (Canis familiaris) na nossa sociedade é crescente, principalmente como animais de companhia, mas, também como cães de assistência ou cães de trabalho (cães pastores, cães de deteção de substâncias, cães polícias, cães de resgate). Este facto, aliado à evidência de que o cão foi o primeiro animal a ser domesticado (Maejima et al., 2007), integrando a sociedade humana há mais tempo do que qualquer outro animal; induz um elevado interesse na relação dual de ligação e afeto entre o Homem e o cão (Prato-Previde et al., 2003). A origem do cão doméstico foi estimada por estudos genéticos entre 15000 e 100000 anos (Vilà et al., 1997; Savolainen et al., 2002). Miklósi e colegas (2004) propuseram que, através de um processo evolutivo complexo, o cão como espécie passou do nicho do seu antecessor (o qual é partilhado com o lobo) para o nicho humano, ficando adaptado a viver no seio da sociedade humana. Deste modo, este novo ambiente representa agora o nicho ecológico natural desta espécie. Pela aceitação de que o cão está adaptado ao seu nicho, pode-se agora considerar o cão como uma espécie “natural”, ao invés de uma espécie “artificial” como foi já denominado. Estas adaptações permitiram um contacto muito próximo com o humano, devido à natureza social do cão, o que levou à emergência de grupos sociais heterospecíficos. A domesticação permitiu não só o processo de adaptação do cão ao nicho humano, como implicou uma acumulação de mudanças genéticas; levando, assim, a mudanças profundas nos comportamentos sociais: cooperação (Topál et al., 1997; Naderi et al., 2001 e 2002); aprendizagem social (Kubinyi et al., 2003; Pongrácz et al,. 2003a, c); comunicação (Miklósi et al., 1998 e 2000; Agnetta et al., 2001; Soproni et al., 2001e 2002); e de vínculo do cão em relação ao Homem (Miklósi et al., 2003). Este processo evolutivo convergente levou possivelmente a analogias entre comportamentos do cão e do humano, e, habilidades cognitivas similares (Hare et al., 2002; Miklósi et al. 2003). Verifica-se em inúmeros estudos que os cães formam fortes laços e ligações com os humanos (Gácsi et al., 2001; Topál et al., 1998) e que se sentem atraídos pelas nossas atividades e companhia. Topál et al. (1998), salientou que a relacionamento do cão com o seu dono é análoga ao comportamento vínculativo entre criança e pais. E em 2005, Topál e
FCUP Análise Comportamental do cão (Canis familiaris) em relação a"playbacks" de sons humanos com carga emocional 2 colegas demonstraram uma importante diferença vinculativa entre crias de cães e lobos criados por humanos, o que suporta a ideia de que diferenças genéticas no cão criaram um sistema vinculativo análogo ao humano (Topál et al., 2005). Contrariamente ao esperado, animais que estão filogenéticamente mais próximos da nossa espécie, como os chimpanzés, falham em “ler” as indicações/pistas fornecidas pelos humanos (Tomasello & Call, 2004). Estudos comparativos entre primatas e canídeos (lobos, cães e raposas), vieram apoiar este facto e evidenciar a hipótese de evolução convergente de cão e humano relativamente a contextos de cooperação e comunicação (Hare & Tomasello, 2005). Estas capacidades sociocognitivas do cão têm sido evidenciadas em inúmeros estudos, e, deste modo, tem sido demonstrada a capacidade de compreensão canina de variadas pistas fornecidas por humanos: como o gesto de apontar - que indica a localização de comida ou objetos escondidos - nas suas diversas variações (Hare et al., 1998 e 2002; Miklósi et al., 1998 e 2005; Agnetta et al., 2000; Soproni et al., 2001 e 2002; ,Szetei et al., 2003; Brauer et al., 2006; Lakatos et al., 2009), inclusive utilizando a perna (Lakatos et al., 2009). Miklósi e colegas (1998) demonstraram também o uso de inclinar e virar a cabeça como pista, embora não tão eficiente quando o apontar. Os resultados foram inferiores com pistas dadas pelo olhar (Miklósi et al.,1998; Hare et al., 1998; Agnetta et al., 2000; Brauer et al., 2006). É, assim, possível afirmar que o cão poderá confiar em sinais visuais humanos, e também em sinais acústicos (Pongrácz et al., 2003b; Virányi et al., 2004). Por exemplo, o estudo de Adachi e colegas em 2007, revelou que o cão tem a capacidade de distinguir entre a voz do dono e a de outro humano. Recentemente, verificou-se que também os humanos conseguem compreender os sinais acústicos dos cães, e, estes sinais carregam uma forte carga e informação emocional (Pongrácz et al., 2006). Isto sugere que emoções básicas e a capacidade de as reconhecer, serão antigas capacidades partilhadas por animais e humanos: e que, o emergir destas vocalizações (ladrar do cão) possa ter sido favorecida por seleção natural e artificial (Pongrácz et al., 2006), podendo a sua utilidade nas interações entre ambas as espécies, ter criado pressão evolutiva positiva na diversificação do ladrar do cão durante a domesticação. O ladrar do cão poderá, assim, desempenhar um complexo papel na comunicação Homemcão (Molnár et al., 2006). Perante estas evidências, propôs-se com este trabalho uma abordagem inversa, isto é, investigando se "playbacks" de sons humanos (especificamente sons com carga emocional) implicariam alguma resposta emocional no cão. Dada a importância do reconhecer de emoções nas interações entre indivíduos, surgiram vários estudos sobre a perceção do cão relativamente a expressões faciais humanas de emoção. Adachi e colegas, em 2007, obtiveram resultados que sugerem que o cão cria uma representação interna da face do dono ao ouvir o chamado deste, tendo sido esta a primeira demonstração de que os animais não-humanos geram ativamente uma imagem visual a partir de informação auditiva. Indicaram ainda a possibilidade de o cão usar regras de
FCUP Análise Comportamental do cão (Canis familiaris) em relação a"playbacks" de sons humanos com carga emocional 3 exclusão, prevendo que o dono não deveria aparecer após ouvirem a voz que não era familiar. Morisaki (2009), sugere ainda que o cão poderá ser sensível aos estados emocionais dos humanos. Muito recentemente Ruffman e Morris-Trainor (2011) examinaram a sensibilidade de cães a expressões emocionais humanas, e verificaram que, por exemplo, os cães mostravam mais interesse quando ouviam choro comparativamente ao riso. Os seus resultados implicam algum nível de “entendimento” das emoções pelo cão. Durante este ano foi sugerido que o cão utiliza múltiplas pistas para interpretar as emoções humanas, e, que o fazem associando expressões faciais humanas características com os respetivos sons (Hagley, 2012). Outros estudos recentes vieram reforçar os anteriores resultados: Deputte, em 2011, reforça a capacidade do cão para reagir a expressões faciais humanas que expressam emoções; e Racca em 2012, demonstra evidências de sensibilidade a expressões faciais conspecíficas e de humanos, no cão doméstico. Também relevantes foram as descobertas que indicam que, no cérebro do cão, o hemisfério direito parece estar envolvido na deteção de algumas características do discurso humano (Siniscalchi et al., 2008), pois, porções do hemisfério direito exibem AERs (“auditory evoked responses”) quando o cão discrimina entre sons consoantes, os quais têm importância no contraste da fonética humana (Sinnott & Adams, 1987). Também noutro trabalho recente se recorreu a "playbacks" de sons: no entanto, reproduziram-se sons que não contêm informação linguística, mas carregam informação afetiva, com o objetivo de investigar capacidades cognitivas no processamento afetivo nos humanos (Pollak et al., 2004). Estes padrões de sons não-verbais são de extrema importância na comunicação social, pois, representam comportamentos inatos relativamente a estados afetivos (JärvinenPasley et al., 2010); e o seu uso permite examinar os processos de reconhecimento de pistas afetivas, enquanto atenua a ativação dos mecanismos de linguagem facilitando alguns aspetos da perceção do discurso humano (Pollak et al., 2004; Siniscalchi et al., 2008). Estas investigações serviram também de base para a elaboração de uma aproximação experimental aos "playbacks" de sons com carga emocional a utilizar neste trabalho em cães. O forte vínculo entre cão e humano experienciado por vários de nós, enquanto indivíduos, conjuntamente com as crescentes evidências científicas acima citadas, levou à elaboração deste estudo, em que se pretende fazer uma análise comportamental da espécie Canis familiaris relativamente a "playbacks" de sons humanos com carga emocional (choro e riso de mulher, homem e bebé). Dado que as respostas emocionais ao exibir de emoções de outro indivíduo são tão triviais nos animais (de Waal, 2008), um dos motivos da realização deste trabalho era
FCUP Análise Comportamental do cão (Canis familiaris) em relação a"playbacks" de sons humanos com carga emocional 4 analisar a hipótese de que poderiam existir no cão, formas de perceção da emoção humana mais complexas. Frans de Wall (2008), defende que existem mais evidências de que a empatia (no sentido abrangente) será um mecanismo filogenéticamente antigo, provavelmente tanto como os mamíferos e as aves. Refere que a perceção do estado emocional de outro indivíduo activa automaticamente representações partilhadas, reproduzindo um estado correspondente no observador, podendo este fenómeno, com o aumentar da cognição, ter evoluído para formas mais complexas. Na década de 80, Zahn-Waxler e colegas (1984), estudaram respostas de crianças a familiares fingindo tristeza, dor, angústia. Surgiram semelhanças notáveis entre as reações de crianças de 1 ano de idade e animais de estimação, em que, por exemplo, demostraram tentativas de reconfortar a pessoa que fingia angústia, o que sugere "preocupação simpatética" (Zahn-Waxler et al., 1992). Mais tarde, investigações evidenciaram que os cães reagem ao stress dos seus donos com um aumento da excitação emocional negativa (Jones & Josephens, 2006). Numa outra perspectiva, Joly-Mascheroni e colegas (2008), demonstraram que os cães podem “apanhar” bocejos humanos, o que, segundo Platek e colegas (2003), implica ligação a elevados níveis de empatia nos humanos, partilhando provavelmente uma base de desenvolvimento com autoconsciência, e, assim, poderá haver algum potencial de que o cão possa também desenvolver capacidade empática perante o humano (Silva et al., 2012). No decorrer do ano passado, Silva e de Sousa consideraram que os dados experimentais existentes em conjunto com “anedoctal´s”, afirmam a capacidade de contágio emocional no cão e talvez suportar algum processamento cognitivo de estado emocional do humano. Contudo, apesar de uma ligação empática entre cães e humanos - considerando a capacidade de ser afetado e partilhar o estado emocional como empatia (Franz de Wall, 2008) - seja diariamente enfatizada na convivência com o cão doméstico (por exemplo, pelo uso de cães de terapia), poucos passos se têm dado na direção da análise da empatia no cão. Com este estudo, pretende-se contribuir numa pequena parte do explorar deste recente e complexo assunto que tanto interesse tem suscitado na comunidade científica da área da Cognição Animal. Com este trabalho, propôs-se portanto, o objetivo de analisar o comportamento do cão (Canis familiaris) relativo à reprodução de sons humanos (mulher, homem e bebé) nãoverbais, providos de carga emocional positiva (rir) e negativa (chorar), de forma a estudar a hipótese colocada: de que, o cão teria sensibilidade às emoções humanas que lhe eram transmitidas e, eventualmente, conseguiria processar essa informação, “perceber”, reagir e identificar-se com essas diferentes emoções humanas. Capacidade essa, provavelmente adquirida através do complexo e particular processo de domesticação do cão, e facilitada pela nossa relação especial com esta espécie, uma relação interespecífica de tal forma singular que forneceu ao cão o estatuto de “melhor amigo do Homem”.
FCUP Análise Comportamental do cão (Canis familiaris) em relação a"playbacks" de sons humanos com carga emocional 5 MATERIAL E MÉTODOS Utilizou-se uma amostra de seis cães (Cinco Labrador Retrivier e um Grand Danois) de idades compreendidas entre os 6-13 anos de idade, machos e fêmeas, residentes numa Quinta – Quinta do Côvo - em Oliveira de Azeméis, formando um grupo social. Os cães têm contacto regular com os residentes humanos. Todos os procedimentos animais foram conduzidos em concordância com as regras éticas da Sociedade Internacional de Etologia Aplicada. DESIGN EXPERIMENTAL E PROCEDIMENTO Os "playbacks" de sons humanos não-verbais com carga emocional incluem sons positivos – riso (feliz), sons negativos – chorar (infeliz) e um som neutro. O grupo de sons positivos (riso) e o de sons negativos (chorar), são constituídos cada por 3 diferentes sons – um referente a um bebé, outro a uma mulher e um último de homem. Ao todo, usaram-se sete sons: bebé a chorar, mulher a chorar, homem a chorar, neutro, bebé a rir, mulher a rir, homem a rir. O som neutro utilizado para controlo foi cedido por Pollak e colegas, e, consiste num som produzido por uma atriz feminina, que não possui conteúdo de semântica linguística e consiste em vogais simples ('ummm’) pronunciadas numa voz neutra (Pollak et al., 2004). Os sons positivos e negativos foram obtidos no site de venda de sons reais gravados, Audiosparks.com. Estes sete sons foram apresentados por ordem aleatória a cada cão. A cada cão efetuou-se três sessões a quatro, por dia, em dias não consecutivos, perfazendo dois ensaios com os sete sons no total. Cada "playback" de som teve a duração de 30 segundos. Cada sessão de "playback" (Figura 1) consistiu em: 3 a 4 "playbacks" diferentes (préselecionados aleatoriamente) de 30 segundos cada, antecedidos e precedidos de 1 minuto de observação comportamental. Passado 1 minuto de cada "playback", o cão teve um intervalo de 2 minutos no exterior, onde se movimentava livremente.
FCUP Análise Comportamental do cão (Canis familiaris) em relação a"playbacks" de sons humanos com carga emocional 12 Lamber corpo O cão lambe alguma zona do seu corpo. Actividades deslocadas Arfar Respiração rápida e repetitiva de boca aberta. Mastigar em seco O cão mastiga em seco. Lamber lábios O cão passa a língua pelo focinho. Cauda para baixo O cão baixa a cauda mostrando diminuição de confiança. Membros baixam O cão baixa os membros ligeiramente, principalmente os posteriores, mostrando diminuição de confiança.
FCUP Análise Comportamental do cão (Canis familiaris) em relação a"playbacks" de sons humanos com carga emocional 13 Vocalizações Ladrar O cão emite a vocalização ladrar. Ganir O cão emite a vocalização ganir. Gemido O cão emite uma vocalização breve, como um gemido. Ganir estridente O cão emite uma vocalização do tipo ganir, mais alto e estridente. Para cada estímulo foram calculadas as frequências totais dos comportamentos observados. Para testar a significância das diferenças entre os estímulos nas diferentes categorias, utilizou-se o software SPSS Statistics 17.0 (SPSS Inc., 2008), usando três testes não-paramétricos: o Teste Kruskal-Wallis (para verificar as diferenças entre os momentos em cada categoria), seguido do Teste Mann-Whitney (para comparação de pares de momentos), e o Teste Wilcoxon Signed Ranks (para comparação entre pares de estímulos dentro de cada categoria). O indicador de significância estatística adotado foi p<0.05.
FCUP Análise Comportamental do cão (Canis familiaris) em relação a"playbacks" de sons humanos com carga emocional 14 RESULTADOS Obteve-se resultados significativos com o Teste Kruskal-Wallis, demonstrando que os comportamentos de Alerta são significativamente diferentes dos restantes (χ²(2) = 40.942, p<0.000) e que, também há diferenças significativas nos Atividades Deslocadas (χ²(2) = 12.126, p<0.002), sendo o p˂0.05 indicador de significância estatística. Nas categorias Desinteresse/Cansaço, Conforto e Vocalizações, não se obtiveram resultados significativos. Verifica-se assim, um número mais elevado de comportamentos de Alerta no momento Som, comparativamente aos restantes comportamentos em qualquer momento; e uma diminuição das Atividades Deslocadas no momento Som, quando comparadas com as que ocorrem no momento Pré-som (Figura 3). Obteve-se também resultados significativos com o Teste Mann-Whitney, no qual são comparados pares de momentos: para o par momento1–momento2, verificaram-se resultados significativos na categoria Alerta (U = 169.000 p<0.000) e Atividades deslocadas, (U = 655.500, p<0.040); para o par momento1–momento3, verificaram-se resultados significativos na categoria Alerta (U = 633.500, p<0.049 e Atividades deslocadas, (U = 505.500, p<0.001); e para o par momento2–momento3, verificaram-se resultados significativos apenas na categoria Alerta (U = 430.000, p<0.000).
FCUP Análise Comportamental do cão (Canis familiaris) em relação a"playbacks" de sons humanos com carga emocional 15 Fig. 3 – Médias (e intervalos de confiança de 95%) dos comportamentos observados relativos aos diferentes momentos (Pré-som, Som e Pós-som) nas cinco categorias: Desinteresse/Cansaço, Alerta, Conforto, Atividades Deslocadas e Vocalizações. Não houve resultados significativos no Teste Wilcoxon Signed Ranks, em que se compararam pares de estímulos da mesma categoria (não houve diferenças significativas entre os 7 estímulos), assim como na comparação de pares de estímulos positivos/negativos e na comparação de pares de estímulos positivos/negativos/neutros, de cada categoria. Denotou-se, no entanto, determinadas tendências: um número bastante elevado de comportamentos de Alerta para os estímulos positivo e negativo (Som) e de um número superior de comportamentos de Alerta para os estímulos positivo (Figura 5), e, de modo geral, mais frequentes, comparativamente aos restantes comportamentos (por exemplo, em comparação com os comportamentos de Desinteresse/Cansaço - Figura 6); e as Atividades Deslocadas para o estímulo negativo são superiores às Atividades deslocadas que ocorrem no estímulo positivo (Figura 4). 0 5 10 15 20 25 pre som pos Total pre som pos Total pre som pos Total pre som pos Total pre som pos Total Desincan alerta conforto acdesloc vocal Média dos Comportamentos Momentos
FCUP Análise Comportamental do cão (Canis familiaris) em relação a"playbacks" de sons humanos com carga emocional 16 Fig. 4 – Médias dos comportamentos observados para a categoria Atividades Deslocadas, relativos aos diferentes estímulos. Fig. 5 – Médias dos comportamentos observados para a categoria Alerta, relativos aos diferentes estímulos. 0,0 0,5 1,0 1,5 2,0 2,5 3,0 3,5 Bébé chorar Homem rir Mulher rir Bébé rir Homem chorar Neutro Mulher chorar Média dos Comportamenntos Estimulos na categoria Actividades Deslocadas 0 2 4 6 8 10 12 14 16 Bébé chorar Homem rir Mulher rir Bébé rir Homem chorar Neutro Mulher chorar Média dos Comportamenntos Estimulos na categoria Alerta
FCUP Análise Comportamental do cão (Canis familiaris) em relação a"playbacks" de sons humanos com carga emocional 17 Fig. 6 – Médias dos comportamentos observados para a categoria Desinteresse/Cansaço, relativos aos diferentes estímulos. Não se verificaram resultados significativos para as restantes análises (na comparação de pares de estímulos positivos-negativos e na comparação de pares de estímulos positivos-negativos-neutros, de cada categoria, utilizando o Teste Wilcoxon Signed Ranks), destacando-se possíveis tendências: um número bastante elevado de comportamentos de Alerta para os estímulos positivo e negativo (Som) e de um número superior de comportamentos de Alerta para os estímulos positivo; e as Atividades Deslocadas para o estímulo negativo são superiores às atividades deslocadas que ocorrem no estímulo positivo (Figura 7). 0,00 0,05 0,10 0,15 0,20 0,25 0,30 0,35 0,40 0,45 0,50 Bébé chorar Homem rir Mulher rir Bébé rir Homem chorar Neutro Mulher chorar Média dos Comportamenntos Estimulos na categoria Desinteresse/Cansaço
FCUP Análise Comportamental do cão (Canis familiaris) em relação a"playbacks" de sons humanos com carga emocional 18 Fig. 7 – Médias dos comportamentos observados, e respectivo desvio padrão, para os pares relativos aos estímulos Positivos/Negativo e às cinco categorias (Desinteresse/Cansaço, Desinteresse/Cansaço, Alerta, Conforto, Atividades Deslocadas e Vocalizações). -5 0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 + - + - + - + - + - Desinteresse/ Cansaço Alerta Conforto Actividades Deslocadas Vocalizações Média dos Comportamentos Pares de Categorias/Sons
FCUP Análise Comportamental do cão (Canis familiaris) em relação a"playbacks" de sons humanos com carga emocional 19 DISCUSSÃO Neste estudo, pretendia-se analisar se "playbacks" de sons humanos não-verbais com carga emocional induziriam respostas que implicassem algum nível de sensibilidade emocional no cão, baseado na especial relação cão-humano. Os resultados obtidos não foram significativos na sua maioria, no entanto, na análise que relaciona as cinco categorias – Desinteresse/Cansaço, Alerta, Conforto, Atividades deslocadas e Vocalizações – com os 3 momentos estudados – Pré-som, Som e Pós-som -, utilizando o Teste Kuskal-Wallis, registaram-se dois resultados estatisticamente significativos. O primeiro é relativo à categoria de comportamentos de Alerta, que, tal como esperado, têm uma elevada representação no momento do Som. A segunda é relativa aos comportamentos reunidos nas Atividades deslocadas, que, como previsto, diminuíam em número quando se passava do momento Pré-som para o momento do Som. Também se obtiveram resultados significativos com o Teste Mann-Whitney, que compara pares de momentos (momento1 - momento2, momento1 - momento3, momento2 - momento3) relativamente às cinco categorias (Desinteresse/Cansaço, Alerta, Conforto, Atividades deslocadas e Vocalizações). Verificaram-se diferenças significativas para o par momento1 (Pré-som) - momento2 (Som) nas categorias Alerta e Atividades deslocadas, o que estava de acordo com o esperado, pois, previa-se um aumento acentuado de comportamentos de Alerta na passagem do Pré-som (momento 1) para o Som (momento2), e uma diminuição acentuada de comportamentos de Atividades deslocadas, também na passagem do Pré-som (momento 1) para o Som (momento2). Houve ainda diferença significativas, nessas mesmas categorias (Alerta e Atividades deslocadas), entre o par momento1 (Pré-som) – momento3 (Pós-som), o que veio de encontro ao esperado, isto é, uma diminuição de comportamentos de Alerta e de Atividades deslocadas, do pré para o pós-som. Para o par momento2 (Som) – momento3 (Pós-som), registou-se uma diferença significativa nos comportamentos da Categoria Alerta, o que veio reforçar uma esperada diminuição de comportamentos de Alerta após o som (comparativamente ao momento do som). Não se obtiveram diferenças significativas entres os setes estímulos, comparando pares de estímulos (da mesma categoria) através do Teste Wilcoxon Signed Ranks. Apenas está patente uma tendência na categoria Alerta - em que as médias são mais elevadas do que nas restantes categorias, sugerindo alguma possível reacção de alerta aos Sons, positivos e negativos – e na categoria Atividades deslocadas – em que as médias são mais baixas nos sons positivos do que nos sons negativos, apontando para uma possível redução de comportamentos deslocados durante os sons positivos. Embora os resultados não tenham sido significativos para as restantes análises (na comparação de pares de estímulos positivos-negativos e na comparação de pares de estímulos positivos-negativos-neutros, de cada categoria, utilizando o Teste Wilcoxon Signed Ranks), denotaram-se possíveis tendências: um número bastante elevado de comportamentos de Alerta para os estímulos positivo e negativo (Som) e de um número
FCUP Análise Comportamental do cão (Canis familiaris) em relação a"playbacks" de sons humanos com carga emocional 20 superior de comportamentos de Alerta para os estímulos positivo; e as Atividades Deslocadas para o estímulo negativo são superiores às atividades deslocadas que ocorrem no estímulo positivo. Em investigações que abordam esta temática da perceção de emoções humanas pelo cão, vários autores obtiveram resultados que comprovaram, entre outros, evidências da sensibilidade do cão a expressões faciais humanas de emoções (Deputte et al., 2011 ; Racca et al., 2012), habilidades de reconhecer emoções nos humanos (Morisaki et al., 2009), algum grau de “entendimento” das emoções humanas pelo cão (Ruffman & MorrisTrainor, 2011), ou até a proposta de que o cão gera uma representação interna da face do dono quando o ouve chamar, e uma previsão de que não deverá ser o dono quando o chamado pertence a uma voz não-familiar (Adachi et al., 2007). Com este estudo esperava-se, portanto, mais resultados significativos, que sugerissem uma sensibilidade do cão às emoções humanas transmitidas por sons nãoverbais, tendo-se apenas obtido resultados que baseiam essencialmente uma tendência evidente entre os momentos, ou seja, os cães parecem ter reagido ao Som humano nãoverbal com carga emocional. A voz humana é um estímulo importante para o cão, sendo o principal fator de aprendizagem do cão a comunicação verbal contínua com o humano (Pongrácz et al., 2004). No entanto, Fukuzawa e colegas (2005), verificou que alguns cães tiveram problemas em reconhecer ou reagir a comandos via “playback” reproduzidos por um gravador de cassetes. O tempo selecionado na metodologia (1 minuto) poderá ter sido excessivo, resultando num decréscimo da atenção do cão, o que poderá ter contribuído para os resultados pouco significativos. Outros fatores que poderão ter contribuído para estes resultados terão sido: o pequeno tamanho da amostra; o facto da amostra ser quase na totalidade constituída por uma raça (Labrador Retrivier), enquanto os outros trabalhos relacionados utilizaram variadas raças (em Deputte et al., 2011; Adachi et al., 2007; Racca et al., 2011); e o facto destes cães serem animais que vivem num grupo, habitando um espaço físico separado dos humanos, e assim, não representam animais de estimação, enquanto os cães usados em grande parte dos outros estudos incidentes nesta temática das emoções foram cães que habitavam a casa dos respetivos donos (por exemplo, Deputte et al., 2011; Adachi et al., 2007; Morisaki et al., 2009; Racca et al., 2012). O som utilizado para representar o sexo masculino, era um pouco teatral, o também poderá ter contribuído para os valores inferiores dos resultados observados. O facto de os cães estarem presos poderá também ter funcionado como um fator aversivo (Rothuizen et al., 1993), que terá afetado negativamente os resultados. Seria também benéfico, para futuros estudos, um maior controlo dos sons exteriores que poderão influenciar as experiências realizadas.
FCUP Análise Comportamental do cão (Canis familiaris) em relação a"playbacks" de sons humanos com carga emocional 21 CONCLUSÃO Os resultados deste trabalho indicaram que os comportamentos de alerta exibidos pelo cão são significativamente diferentes dos restantes comportamentos, e que quando ocorre um som, se verificam estes comportamentos de alerta; e que os comportamentos deslocados ocorrem menos durante o som, do que no momento prévio ao som. Os resultados sugerem ainda uma tendência de reação do cão quando ocorre um som humano não verbal com carga emocional. Visto este trabalho ser de certa forma inovador e escassearem trabalhos científicos que visam esta temática, seria interessante abordar de múltiplas formas este estudo em trabalhos futuros, para complementar resultados e obter nova informação sobre o comportamento do cão doméstico relativamente a sons humanos que carregam emoções. Este trabalho poderá servir como um ponto de partida e poderão, assim, ser conduzidos futuros estudos de forma a elucidar e aprofundar a nossa compreensão sobre esta temática, ainda pouco estudada, da Etologia Cognitiva, e tão intimamente ligada à nossa relação especial e única com o cão.