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Usos do computador Magalhães entre a escola e a família: sobre a apropriação de uma política educativa em duas comunidades escolares

Pedro Silva,Ana Diogo

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9 Usos do compUtador magalhães entre a escola e a família: sobre a apropriação de Uma política edUcativa em dUas comUnidades escolares1 Pedro Silva Instituto Politécnico de Leiria Ana Diogo Universidade dos Açores resumo Contrariamente a muitas das políticas e iniciativas que têm sido desenvolvidas nas últimas décadas, com o objectivo de difundir as tecnologias de informação e comunicação (TIC) no contexto escolar, o programa de distribuição de computadores portáteis no 1º ciclo do ensino básico, iniciado em 2008/09, tem a particularidade de amplificar a sua intervenção, pretendendo incentivar o uso das TIC tanto na escola como em casa. Esta iniciativa parece assentar na crença de que a promoção do acesso a estes recursos, em ambos os contextos, irá reforçar as aprendizagens escolares e reduzir as desigualdades de oportunidades no uso das novas tecnologias. Da sua implementação poderá ARQUIPÉLAGO — CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO, 2011, 12, 9-48 © 2011 — Universidade dos Açores 1 Este texto contou com a colaboração de Carlos Gomes e António Barreto (membros da equipa de investigação de Ponta Delgada) e de Conceição Coelho, Conceição Fernandes e Joana Viana (membros da equipa de investigação de Leiria). ARQUIPÉLAGO — CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO 10 emergir um conjunto de interrogações relativas aos usos e efeitos das TIC no âmbito da relação escola-família. Este texto equaciona algumas destas questões, numa abordagem sociológica, com base em resultados empíricos de dois estudos de caso. introdução A introdução do computador Magalhães no 1º ciclo do ensino básico (CEB) teve início no ano lectivo 2008/09, no território português, ao abrigo do programa e.escolinha, no quadro do Plano Tecnológico da Educação, definido pelo XVII Governo Constitucional. Ao contrário de muitas outras políticas e iniciativas que têm sido desenvolvidas nas últimas décadas, com o objectivo de promover as tecnologias de informação e comunicação (TIC) na educação, esta medida não se circunscreve ao espaço escolar. Uma das particularidades do programa de distribuição de computadores portáteis no 1º CEB é, precisamente, a de amplificar a sua intervenção, abarcando simultaneamente os contextos escolar e familiar, ao pretender promover o uso do computador e da Internet tanto na escola como em casa. O que parece estar em causa é o uso precoce das TIC, assim como o alargamento da base social da sua utilização, não só na escola, mas também noutros contextos, nomeadamente na família, na medida em que a promoção do acesso a estes recursos no contexto familiar poderá reforçar as aprendizagens escolares e reduzir as desigualdades de oportunidades no uso das TIC. Para além das questões acerca dos usos e impactos das TIC no contexto escolar, a análise da realidade decorrente da introdução dos computadores Magalhães vem colocar, com uma pertinência acrescida, um conjunto de questões relativas à relação entre os dois contextos em causa. O presente texto pretende equacionar efeitos de uma política educativa em duas comunidades escolares, a partir do ponto de vista da sociologia da edu- USOS DO COMPUTADOR MAGALHÃES ENTRE A ESCOLA E A FAMÍLIA 11 cação, bem como apresentar, numa perspectiva comparativa, resultados preliminares de dois estudos empíricos similares, conduzidos um numa Escola Básica Integrada de Ponta Delgada e outro num Agrupamento de Escolas de Leiria. Ambas as pesquisas visam responder a um conjunto de questões, incluindo identificar os actores sociais que surgem associados ao computador Magalhães e as suas representações sociais sobre o mesmo; traçar o perfil sociológico dos adquiridores e não adquiridores do Magalhães; entender os usos deste, nomeadamente por parte de quem, em que contextos e quais os seus modos de regulação; compreender os efeitos escolares e sociais da sua utilização, em particular nos contextos de sala de aula e da interacção escola-família. Saliente-se que os estudos apresentam uma natureza longitudinal (Outubro 2009 a Dezembro 2011) e ancoram-se numa postura ontológica e epistemológica de índole fenomenológica, atenta ao cruzamento fecundo entre o dedutivo e o indutivo, integrando ambos uma componente extensiva (com recurso a inquérito por questionário a professores, pais e alunos) e outra intensiva (com recurso, por exemplo, a entrevistas e à etnografia de uma turma seleccionada em cada um dos dois territórios educativos). Neste texto limitamo-nos a apresentar os primeiros resultados apurados (inquéritos a professores e pais) em ambos os estudos de caso e em condições de serem sujeitos a um exercício comparativo dos usos e efeitos da tecnologia em questão em duas comunidades escolares diferentes. as tic na sociedade da informação O uso das TIC na educação escolar, bem como em muitos outros sectores, tem vindo a expandir-se e a ser amplamente incentivado, ao abrigo da noção de sociedade da informação que surge dominantemente associada a crenças positivas acerca do impacto de tecnologias, como o computador e a Internet, na sociedade. ARQUIPÉLAGO — CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO 12 2 Citado por Silva et al., 2010a, 2010b. O termo sociedade de informação é uma construção teórica que, embora com cambiantes em função dos autores, pretende dar conta da ideia de que as principais mudanças que caracterizam as sociedades contemporâneas estão relacionadas com a centralidade que a informação aí adquiriu (Webster, 2004, 2006). Na perspectiva do sociólogo catalão Manuel Castells (2007), um dos mais influentes autores da “era da informação”, embora o conhecimento e a informação sejam importantes nos modos de desenvolvimento agrário e industrial, a particularidade do modo de desenvolvimento informacional reside no facto da produção, processamento e transmissão de informação constituírem a principal base da produtividade, tornado possível através do desenvolvimento de TIC e impregnando o conjunto das relações e estruturas sociais. O conceito de rede tem igualmente sido utilizado por Castells na caracterização que nos oferece das sociedades pós-industriais, que apelida de sociedade em rede. Segundo ele, uma rede é um conjunto de nós interligados. As redes são formas muito antigas de actividade humana, mas actualmente essas redes ganharam uma nova vida ao converterem-se em redes de informação, impulsionadas pela Internet (Castells, 2001). Assim, a sociedade em rede, que “é a estrutura social dominante do planeta” (Castells, 2005a, p. 19), assenta numa economia global, onde a ciência e a tecnologia constituem as “forças produtivas essenciais”, pelo que “a riqueza e o poder na sociedade em rede dependem, antes de mais nada, da qualidade da educação” (Castells, 2005a, p. 22). Para este autor “a sociedade em rede só se pode desenvolver a partir de um novo sistema tecnológico, o das tecnologias de informação e comunicação de base microelectrónica e comunicação digitalizada” (Castells, 2005a, p. 20), dado que “a Internet é simultaneamente o instrumento chave e o símbolo deste novo sistema tecnológico.” (Castells, 2005a, p. 20). Neste quadro, para as crianças e jovens que nascem e crescem num mundo de tecnologias em rede, - os “nativos digitais” (Prensky) ou a “geração Internet” (Tapscott)2 - as tecnologias tornam-se naturais. São instrumen- USOS DO COMPUTADOR MAGALHÃES ENTRE A ESCOLA E A FAMÍLIA 13 tos com os quais lidam no seu quotidiano. Pelo contrário, muitos adultos, ao depararem-se com tais tecnologias, têm de se esforçar para aprenderem a lidar com elas (“imigrantes digitais”, Prensky, 2001), para se adaptarem a novos contextos sociais, de trabalho e de comunicação com os outros. Este efeito geracional é, em alguma medida, colocado em causa por análises como a de Maria de Lurdes Rodrigues e João Mata (2003), para a realidade portuguesa. Os autores notam que a utilização das TIC apresenta uma correlação mais forte com o nível de escolaridade do que com a idade, concluindo, que isso vem “contrariar algumas ideias feitas sobre o efeito geracional no uso das TIC, pela demonstração que é menos uma questão de idade e mais uma questão de qualificação.” (Rodrigues & Mata, 2003, p. 168). De acordo, ainda, com o mesmo trabalho, o nível de instrução, em conjugação com a ocupação dos indivíduos, explicarão mais a utilização das TIC do que a idade. Deste modo, é pelo facto dos mais jovens serem estudantes e tenderem a ser mais qualificados que as estatísticas mostram índices mais elevados de utilização das TIC neste grupo etário. Uma das principais questões (e um dos principais desafios) que se colocam na sociedade da informação, ou em rede, refere-se às desigualdades e relações de poder que lhe estão subjacentes (Lyon, 1992), fenómeno que será alvo de maior preocupação a partir dos anos 90, sob a denominação de “digital divide” na literatura anglófona, assumindo na língua portuguesa termos diferentes, como info-exclusão, divisão digital ou fosso digital (Cruz, 2008). Genericamente, o que está em causa é a clivagem entre dois grupos opostos, os que têm e os que não têm acesso às novas tecnologias da informação (Cruz, 2008). Múltiplos estudos realizados nos últimos anos têm vindo a mostrar empiricamente os contornos destas clivagens noutros países (cf. Cruz, 2008) e em Portugal (Cardoso, Costa, Conceição & Gomes, 2005), pese embora estudos recentes como o de Ana Nunes de Almeida, Ana Delicado e Nuno de Almeida Alves (2008) sugerirem uma rápida disseminação no uso de computadores e da Internet, com algum esbatimento das desigualdades sociais entre as crianças e jovens em idade escolar. ARQUIPÉLAGO — CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO 14 as tic na educação A educação tornou-se, por conseguinte, uma das áreas chave de intervenção no âmbito da promoção da sociedade da informação. Face aos baixos níveis de literacia digital registados em Portugal e às desigualdades sociais de que esses são acompanhados, tem vindo a defender-se que a inserção de comportamentos e atitudes relativamente ao uso de ferramentas tecnológicas deverá ser trabalhada nas escolas, uma vez que é nestas que os alunos de níveis desfavorecidos poderão ter condições de acesso às TIC e ao mundo digital. Desde os anos 90, a generalidade dos países da União Europeia tem realizado investimentos consideráveis nas TIC nas escolas, nomeadamente em equipamentos, ligação à Internet, formação e conteúdos (Balanskat, Blamire, & Kefala, 2006). Em Portugal, foram implementados diversos programas destinados a introduzir e difundir as TIC nas escolas, como é o caso do Projecto Minerva (1985-94), do Programa Nónio Século XXI (1996-2002) e do Programa Internet na Escola (1997-2003). Na sequência dos investimentos realizados, os dados sobre o uso das TIC nas escolas portuguesas revelam incrementos nos acessos a computadores e à Internet, nos ensinos básico e secundário durante esta década (GEPE, 2008, 2009), sendo, no entanto, detectadas insuficiências ao nível dos equipamentos, dos conteúdos, do financiamento, bem como das competências dos professores e do suporte técnico aos docentes na operação e na manutenção das infra-estruturas TIC (GEPE, 2008, Korte & Hüsing, 2006). Na área da educação, têm sido apontadas múltiplas potencialidades às TIC. Nesse sentido, tem-se defendido que o desenvolvimento destas e das suas especificidades, nas últimas décadas, contribuiu para dinamizar as formas de intervenção e de actividade das pessoas; proporcionar novas oportunidades de interacção, de aprendizagem e de travar conhecimento com outros; e possibilitar oportunidades de aquisição de conhecimentos em diversas áreas e práticas conjuntas. Torna-se cada vez mais fácil, simples e rápido aceder à informação USOS DO COMPUTADOR MAGALHÃES ENTRE A ESCOLA E A FAMÍLIA 15 e adquirir conhecimentos, comunicar e produzir conteúdos (Viana, 2009). Na relação com a escola, o computador e a Internet são encarados como instrumentos potenciadores de novas práticas e novas relações pedagógicas onde “a contribuição real dos meios de comunicação digitais para a educação é a flexibilidade que pode permitir a cada indivíduo encontrar trajectos pessoais para aprender” (Papert, 1997, p. 39). Seymour Papert considera mesmo que uma das maiores contribuições do computador é “a oportunidade para as crianças experimentarem a excitação de se empenharem em perseguir os conhecimentos que realmente desejam obter” (Papert, 1997, p. 43). As TIC ocupam um lugar crescente no meio escolar, mesmo sabendo que renovação tecnológica nas escolas não implica necessariamente inovação pedagógica (Coelho, 1992) e que diversos estudos apontam para uma visão cautelosa em relação aos efeitos das TIC, revelando que a aplicação simples das TIC, sem nada modificar as práticas de ensino, tal como sucede frequentemente, não traz mudanças significativas aos sistemas educativos (Eurydice, 2001, Miranda, 2007). Com efeito, a ideia de que “a tecnologia tem uma ‘vida própria’ capaz de moldar a nossa existência social.” (Lyon, 1992, p. 28), inerente às teorias da sociedade da informação, tem sido criticada pelo seu determinismo tecnológico. Em contrapartida, tem-se argumentado que as TIC constituem uma construção social e que o seu impacto depende dos contextos sociais onde se situam (Lyon, 1992). O próprio Castells (2005b, p.19) reconhece que “difundir a Internet ou colocar mais computadores nas escolas, por si só, não constituem necessariamente grandes mudanças sociais. Isso depende de onde, para quem e para quê são usadas as tecnologias de comunicação e informação.”. as tic entre a escola e a família Além de ocuparem um lugar crescente no meio escolar, as TIC estão também cada vez mais presentes nos lares das famílias (INE, 2002, 2004, ARQUIPÉLAGO — CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO 16 2009), especialmente no caso das famílias com filhos em idade escolar. Efectivamente, as TIC parecem vir a ser alvo de uma adesão generalizada por parte das famílias enquanto dimensão do seu investimento na escolarização dos filhos. A educação escolar dos filhos surge como o motivo fundamental para as famílias, em geral, adquirirem computador e optarem pela ligação à Internet, como notam Rodrigues e Mata (2004). Por esta razão, as famílias com filhos dependentes salientam-se como as que mais frequentemente têm computador, face aos agregados sem filhos dependentes (Almeida et al., 2008). Não obstante, a investigação tem mostrado que nem todas as famílias estão igualmente preparadas para realizar as suas apostas no “jogo” do investimento escolar, registando-se desigualdades na forma como se mobilizam na escolaridade dos filhos em função da clivagem sociológica que perpassa pela relação escola-família (Diogo, 2008, Silva, 2003). No que respeita ao uso das TIC, tem-se verificado que são principalmente os grupos mais favorecidos que tiram maior partido (Almeida et al., 2008). Um outro estudo mostra, todavia, que quando o uso educacional dos computadores em casa se estende a diversos grupos sociais, as TIC podem ter um impacto positivo na sua escolaridade (Fuch & Wossman, 2004). As TIC afiguram-se, assim, como um recurso e uma oportunidade de acesso ao conhecimento, com um potencial efeito de compensação do meio social de origem. No entanto, embora na escola se tenda a fazer utilizações mais estruturadas e direccionadas para as aprendizagens escolares (Fluckiger, 2007), essas revelam-se, ainda, bastante circunscritas e limitadas, quer em Portugal, quer noutros países (Almeida et al., 2008, Fluckiger, 2007). Por outro lado, vamos tendo “provas” de que as TIC podem potenciar a comunicação no processo de interacção escola-família com os consequentes efeitos escolares e sociais que daí poderão decorrer, desde logo para as crianças (Martinez-Gonzalez, Pérez-Herrero, & Rodríguez-Ruiz, 2005, Wiedemann, 2003). Colocam-se, assim, questões referentes à relação dos actores situados nos contextos escolar e familiar. As TIC parecem abrir novos canais USOS DO COMPUTADOR MAGALHÃES ENTRE A ESCOLA E A FAMÍLIA 17 3 Os alunos do 1º ano não foram abrangidos dado que não receberam o computador Magalhães. Em Ponta Delgada a amostra é constituída por 332 famílias, tendo sido definida a partir de um universo de 733 alunos, dos 2º, 3º e 4º anos, distribuídos por 39 turmas. Em Leiria a amostra é de 255 famílias de um universo de 561. Na definição das famílias de ambas as amostras combinou-se os procedimentos da amostragem por cachos e da amostragem estratificada, tendo-se seleccionado, de forma aleatória, respectivamente, 21 turmas e 15 turmas, levando em consideração o número de turmas por escola e por ano. As taxas de retorno foram, respectivamente, de 86% e 82%. de comunicação e de participação, potenciando a interacção escola-família e possivelmente assumindo-se como um meio (material) que pode contribuir para a mediação (sociocultural) (Silva et al., 2010a, 2010b) entre a cultura escolar e a cultura local, pressupondo que a relação escola-família constitui uma relação entre culturas (Silva, 2003). Porém, é possível que alguns dos traços que têm marcado esta relação persistam. As famílias não constituem um bloco monolítico, sendo provável que a sua relação com as TIC varie não apenas em função de factores como a classe social ou a etnia, mas também da geração e do género, dois elementos fulcrais nas relações intra-familiares, bem como com o exterior, desde logo, com a instituição escolar. estudo comparativo em duas comunidades escolares É a partir do conjunto de questões anteriormente equacionadas e problematizadas que os dois estudos empíricos têm vindo a ser desenvolvidos paralelamente em duas comunidades escolares. Neste texto apresentam-se alguns resultados que procuram comparar, nos dois territórios educativos, os usos do computador Magalhães em diversos contextos, especialmente na escola e na família, assim como na relação entre escola e família. Compara-se, ainda, o uso do computador Magalhães com o de outros computadores nestes contextos. Os dados analisados reportam-se, essencialmente, a inquéritos realizados aos pais e aos professores. O inquérito aos pais foi realizado no final do ano lectivo 2009/2010, abrangendo duas amostras de famílias com filhos a frequentar os 2º, 3º e 4º anos.3 São apresentados resultados de dois inquéritos ARQUIPÉLAGO — CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO 24 16 O inquérito realizado às crianças em Ponta Delgada, em Outubro e Novembro de 2010, revelou que cerca de 1/3 das crianças possuidoras do computador Magalhães não o usava no momento do inquérito, especialmente, devido a avarias do equipamento que ocorreram, sobretudo, nos últimos meses. Usos do computador magalhães em diversos contextos O cruzamento de informação recolhida junto de pais e professores mostra que o portátil tem sido usado pelas crianças em diversos contextos, embora com intensidades e contornos diferenciados. gráfico 1 - Uso do computador magalhães pela criança em vários contextos Fonte: inquérito aos pais (Julho, 2010). Nota: percentagens calculadas em relação ao total dos que possuem o computador Magalhães. Ponta Delgada: N = 297; Leiria: N = 186. Tendo o computador Magalhães chegado às escolas no final do ano lectivo 2008/09, os dados reportam-se, no essencial, ao primeiro ano da sua utilização, ou seja, a 2009/10. O computador tem sido largamente usado em casa pelas crianças: 95% das de Ponta Delgada e 95% das de Leiria que têm o computador, segundo os pais16, o que representa 85% do total de famílias inquiridas em Ponta Delgada e 84% em Leiria. Em 78% das famílias de Ponta USOS DO COMPUTADOR MAGALHÃES ENTRE A ESCOLA E A FAMÍLIA 25 Delgada e 74% das de Leiria, que possuem o equipamento, as crianças usamno em casa pelo menos uma vez por semana e 63% (Ponta Delgada) e 55% (Leiria) várias vezes por semana ou todos os dias. O computador Magalhães é igualmente usado pelas crianças nas actividades lectivas, mas de modo mais esporádico do que em casa. De acordo com os pais, 75% das crianças de Ponta Delgada e 62% das de Leiria, que têm o portátil, costumam usá-lo na aula com o professor. Quanto aos professores, 75% dos de Ponta Delgada e 76% de Leiria, inquiridos em Julho de 2010, afirmaram que os seus alunos usavam o computador Magalhães na sala de aula. Registam-se aqui dois aspectos: a) a coincidência de valores em Ponta Delgada entre pais e professores quanto ao uso na sala de aula; b) a descoincidência destes mesmos valores entre pais e professores em Leiria, com os docentes a indicarem valores de utilização mais altos. gráfico 2 - frequência com que o computador magalhães é usado na aula, segundo pais e professores Fonte: inquéritos aos pais (Julho, 2010) e aos professores (Julho, 2010). Nota: as percentagens dos pais foram calculadas em relação ao total dos que possuem o computador Magalhães (Ponta Delgada: N = 297; Leiria: N = 186) e as percentagens dos professores em relação ao total de inquiridos (Ponta Delgada: N = 40; Leiria: N = 33). ARQUIPÉLAGO — CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO 26 Contudo, há um aspecto comum: os dados em ambas as comunidades dão conta de um uso com baixa regularidade. Apenas 23% das famílias de Ponta Delgada e 36% das de Leiria, onde existe o portátil, indicam que a criança o leva para a escola uma ou mais vezes por semana, o que parece indiciar um menor, mas ligeiramente mais regular uso do Magalhães na sala de aula em Leiria. O computador surge, fundamentalmente, como um recurso que é usado de modo esporádico na sala de aula. Segundo os pais, 58% das crianças em Ponta Delgada e 51% em Leiria nunca o usam ou usam-no ocasionalmente (menos do que uma vez por mês), a que correspondem valores de 40% e 30% (Ponta Delgada e Leiria, respectivamente) segundo os professores. Por outro lado, 23% dos professores em Ponta Delgada e 61% em Leiria indicam que o computador é usado na aula pelo menos uma vez por semana. Para 53% dos docentes de Ponta Delgada e 24% dos de Leiria o computador Magalhães é usado pelos alunos na aula com uma regularidade inferior a uma vez por semana. Por outras palavras, os docentes tendem a indicar valores mais elevados sobre a frequência do uso do Magalhães na sala de aula quando comparados com os dos pais, sendo esta diferença mais notória em Leiria. Sobretudo neste último caso (Leiria) ficamos na dúvida sobre se estaremos perante um discurso politicamente correcto dos docentes, na medida em que informações complementares apontam para um efectivo menor uso. Para além do espaço familiar e da sala de aula, o computador Magalhães é usado noutros locais por 33% das crianças de Ponta Delgada e 37% das de Leiria que possuem o equipamento, segundo os pais. A regularidade com que o computador é usado aí é bastante menos expressiva do que acontece em relação ao seu uso em casa: somente 12% das crianças de Ponta Delgada que possuem este equipamento e 8% das de Leiria o utilizam várias vezes por semana ou todos os dias, sendo o principal local onde esse uso ocorre a casa de parentes e amigos (98% e 90%, respectivamente). Em ambas as comunidades, o computador Magalhães é, ainda, usado noutros locais, para além da casa de parentes e amigos. Embora quantitativa- USOS DO COMPUTADOR MAGALHÃES ENTRE A ESCOLA E A FAMÍLIA 27 mente pouco importantes, os outros contextos abrangem uma diversidade de espaços, interiores e exteriores, como o recreio da escola, o ATL, espaços wireless, espaços comerciais/restauração, bibliotecas/museus, centros de explicações, jardins/parques, a rua ou o carro, atestando a versatilidade do portátil. caracterização dos usos do computador magalhães em casa Quanto ao que a criança faz no computador Magalhães em casa, os pais dão conta de uma diversidade de usos, enfatizando os usos educativos e mais compatíveis com o trabalho escolar. gráfico 3 - actividades que a criança costuma fazer no computador magalhães em casa Fonte: inquérito aos pais (Julho, 2010). Nota: as percentagens foram calculadas em relação ao total dos que possuem o computador Magalhães. Ponta Delgada: N = 297; Leiria: N = 186. ARQUIPÉLAGO — CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO 28 17 Ao longo do texto, sempre que se indicamos as duas percentagens sequencialmente, sem mais indicações, essas referem-se respectivamente a Ponta Delgada e a Leiria. Em ambos os contextos, entre os usos com mais utilizadores, destacamse, em primeiro lugar, os jogos didácticos (67% e 76%)17 e a escrita de texto (61% e 74%). Em segundo lugar, salientam-se os usos que se referem a fazer desenhos (57% e 57%), consultar enciclopédias no computador (48% e 43%), aceder à Internet (48% e 39%) e fazer jogos não didácticos (45% e 43%). gráfico 4 - tipo de utilização que a criança faz na internet quando utiliza o magalhães em casa Fonte: inquérito aos pais (Julho, 2010). Nota: as percentagens foram calculadas em relação ao total dos que usam a Internet no computador Magalhães. Ponta Delgada: N = 182; Leiria: N = 95.ido No acesso à Internet, evidenciam-se como usos mais expressivos, segundo os pais, a pesquisa de informações para trabalhos escolares (70% e 74%) e de assuntos que interessam à criança (61% e 63%). Estes usos têm valores mais elevados do que utilizações mais lúdicas, como jogar online (59% e 42%), USOS DO COMPUTADOR MAGALHÃES ENTRE A ESCOLA E A FAMÍLIA 29 ver vídeos (42% e 37%) ou descarregar filmes, jogos ou música (10% e 11%). Também os usos que envolvem comunicação com outros apresentam valores menos importantes que a pesquisa de informação (30% e 24% enviam e recebem mensagens de correio electrónico; 29% e 22% comunicam por escrito em chats; 18% e 15% participam em redes sociais; 6% e 5% comunicam oralmente). Como vemos, quer sobre os usos do Magalhães, em geral, quer sobre os da Internet, em particular, não se verificam diferenças significativas entre Ponta Delgada e Leiria. caracterização dos usos do computador magalhães na escola O uso do computador nas aulas, para além de esporádico, como se viu, quando ocorre, apresenta-se menos multifacetado do que em casa, especialmente em Ponta Delgada. gráfico 5 - tipo de utilização que a criança faz quando utiliza o magalhães na escola Fonte: inquérito aos professores (Julho, 2010) Nota: as percentagens foram calculadas em relação aos total dos professores que usam o computador Magalhães nas aulas. Ponta Delgada: N = 32; Leiria: N = 28.i ARQUIPÉLAGO — CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO 30 18 No estudo de caso de Ponta Delgada foi possível apurar, através do inquérito às crianças, uma perspectiva muito semelhante. Elas destacaram, em primeiro lugar, a escrita de texto e, em segundo lugar, os jogos. 19 Esta constitui, aliás, uma actividade significativa na turma selecionada em Leiria, que tem blogue próprio. Em ambas as comunidades, a utilização do portátil nas actividades lectivas revela a mesma tendência, incidindo, de acordo com os docentes, nos jogos didácticos (78% e 71%), na consulta de enciclopédias (75% e 68%) e principalmente na escrita de textos (91% e 89%).18 De forma correspondente, as áreas mais trabalhadas, quando utilizam o Magalhães, são o Estudo do Meio (72% e 79%) e, principalmente, a Língua Portuguesa (97% e 93%). A Matemática (34% e 54%) e, sobretudo, as Expressões (19 % e 43%) revelam uma atenção mais escassa. A grande diferença - ao contrário do que sucede em casa – prendese com o uso da Internet na sala de aula, pois esta é pouco usada nas actividades lectivas em Ponta Delgada (22%), ao contrário do que ocorre em Leiria (57%). Esta disparidade não pode deixar de ser associada ao facto de haver uma reduzida ligação à Internet nas salas de aula da Escola Básica Integrada, enquanto que no agrupamento de Leiria todas as salas têm rede sem fios. Quando a Internet é utilizada, é principalmente para pesquisas: 90% e 73% dos que usam a Internet fazem pesquisas e 50% e 27% fazem jogos (Ponta Delgada e Leiria, respectivamente). No caso de Leiria temos o acesso a blogues como actividade significativa, com peso igual ao dos jogos: 27%.19 Os dados apresentados em relação uso do computador Magalhães nas actividades lectivas sugerem que, um ano após a distribuição deste recurso, o quotidiano das salas de aula parece não ter sofrido um impacto significativo dessa distribuição, através de uma efectiva e ampla integração deste recurso nas actividades lectivas. USOS DO COMPUTADOR MAGALHÃES ENTRE A ESCOLA E A FAMÍLIA 31 20 De acordo com o inquérito às crianças, em Ponta Delgada, o valor é ligeiramente mais elevado (76,1%). Uso de outros computadores A utilização de outros computadores em casa pela criança é relativamente menos abrangente do que a do computador Magalhães. Em Ponta Delgada e Leiria, em, respectivamente, 81% e 87% das famílias onde existem outros computadores, as crianças fazem uso desses equipamentos, o que representa 69%20 e 79% do total de famílias inquiridas. O quantitativo dos que usam os outros computadores em casa com elevada regularidade é também sensivelmente mais baixo do que em relação ao computador Magalhães: 45% (Ponta Delgada) e 36% (Leiria) dos que têm outros computadores, usamnos mais que uma vez por semana, segundo os pais. Estes valores apontam, pois, para um uso menos alargado do que no caso do computador Magalhães. gráfico 6 - tipo de utilização que a criança faz dos outros computadores em casa Fonte: inquérito aos pais (Julho, 2010). Nota: as percentagens foram calculadas em relação ao total dos que possuem outros computadores. Ponta Delgada: N = 280; Leiria: N = 190. ARQUIPÉLAGO — CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO 32 Por outro lado, comparativamente com a utilização do portátil em casa, os outros computadores revelam-se também menos abrangentes em relação aos vários tipos de actividades realizadas, como se pode inferir a partir dos inquéritos aos pais. Nas famílias que possuem outros computadores, estes são usados, num maior número de casos para aceder à Internet (58% e 58%) e fazer jogos didácticos (55% e 60%). O desenho (43% e 43%), a escrita de textos (42% e 47%) e os jogos não didácticos (41% e 45%) apresentam, ainda, algum relevo, face aos restantes usos já menos expressivos. Tal como acontece em relação ao computador Magalhães, os pais estimam como mais frequentes o uso dos computadores para jogos didácticos do que para jogos não didácticos. Contudo, com excepção do acesso à Internet, todas as outras actividades apresentam valores claramente abaixo das percentagens registadas em relação ao computador Magalhães. o computador magalhães na relação escola-família Não obstante o computador Magalhães ser um equipamento portátil, oferecendo a possibilidade de haver continuidade entre o trabalho realizado na escola e em casa, e, como vimos, ser usado pelas crianças, quer em casa (regularmente), quer na escola (com menor frequência), esse não é um recurso ampla e regularmente usado para os trabalhos de casa nas duas comunidades nem nos contactos entre famílias e escola. USOS DO COMPUTADOR MAGALHÃES ENTRE A ESCOLA E A FAMÍLIA 33 21 Em Ponta Delgada, no inquérito às crianças o valor é semelhante: 43%. gráfico 7 - frequência com que o computador magalhães é usado nos trabalhos de casa, segundo pais e professores Fonte: inquéritos aos pais (Julho, 2010) e aos professores (Julho, 2010). Nota: as percentagens dos pais foram calculadas em relação ao total dos que possuem o computador Magalhães (Ponta Delgada: N = 297; Leiria: N = 186) e as percentagens dos professores em relação ao total de inquiridos (Ponta Delgada: N = 40; Leiria: N = 33). Os dados recolhidos junto dos pais e dos professores mostram que, na Escola Básica Integrada de Ponta Delgada, em menos de metade dos casos os docentes passam trabalhos de casa para os alunos realizarem com o computador Magalhães (44% das famílias que possuem o computador e 43% dos professores inquiridos).21 Em Leiria os trabalhos de casa apresentam uma expressão muito semelhante se tivermos em conta as respostas dos professores (45%) e um pouco menor, considerando as respostas dos pais (37%). Quando são passados trabalhos de casa para realizar com recurso ao portátil, a ARQUIPÉLAGO — CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO 40 À semelhança do que acontece em relação aos outros computadores, nestas duas comunidades escolares, a utilização que a criança faz do computador Magalhães, em geral ou especificamente para trabalho escolar, parece envolver geralmente os outros membros da família, nomeadamente o pai, os irmãos e, particularmente, a mãe, que vigiam e apoiam essa utilização. A mãe salienta-se, em ambos os territórios, como a protagonista principal do acompanhamento dos filhos no uso escolar e geral de computadores, não se desviando muito daquele que é o cenário de acompanhamento parental do trabalho escolar em geral, facto este que, como vimos na secção anterior, vai ao encontro da literatura especializada (David, 1993, Lareau, 1989, Silva, 2003, Vincent, 1996). A par do vasto conjunto de semelhanças, o processo de apropriação desta medida política apresenta algumas especificidades em cada um dos dois territórios, as quais parecem incidir especialmente na integração do computador Magalhães nas actividades pedagógicas. Com um início mais tardio, comparativamente com o Agrupamento de Escolas de Leiria, a utilização do computador Magalhães na Escola Básica Integrada de Ponta Delgada conta, ainda, com outras limitações: a reduzida ligação das salas de aula à Internet e a menor formação do corpo docente na área das TIC. Estas limitações poderão ajudar a explicar uma integração, aparentemente, mais deficitária do computador Magalhães nas actividades lectivas em Ponta Delgada. O portátil é usado nas actividades pedagógicas um pouco mais pontualmente e de forma menos multifacetada em Ponta Delgada do que em Leiria. Neste uso menos multifacetado, destaca-se, sobretudo, uma reduzida utilização da Internet, em contraste com a cidade do continente, onde essa surge como mais facilitada pelas infra-estruturas existentes. De qualquer modo, também aqui se revela uma outra similitude: em ambas as comunidades a actividade que se destaca nitidamente na utilização do Magalhães em contexto de sala de aula é a da Língua Portuguesa (nomeadamente, através do processamento de texto), seguindo-se, por ordem decrescente, o Estudo do Meio, a Matemática e as Expressões (estas duas últimas com valores reduzidos). USOS DO COMPUTADOR MAGALHÃES ENTRE A ESCOLA E A FAMÍLIA 41 24 O que nos é confirmado, por exemplo, em Leiria, pelos dados que resultam da etnografia da turma selecionada (incluindo a análise de algumas produções das crianças). 25 Embora, aparentemente, sob vigilância parental, que define regras de uso, nomeadamente quanto ao tempo de utilização e aos conteúdos, salientando-se a Internet como o principal foco da regulação parental. Por outro lado, a posse de computadores Magalhães, por parte dos professores, uma particularidade da comunidade escolar de Ponta Delgada face à de Leiria, parece não constituir um elemento determinante na facilitação da sua integração nas actividades pedagógicas. Em suma, a criança, sem surpresa, é a grande apropriadora do Magalhães, o qual se configura como um verdadeiro computador pessoal para a criança24, sendo bastante usado por si em casa e por iniciativa própria.25 O computador Magalhães parece, assim, destacar-se do restante material didáctico – e é isso que ele constitui para os docentes – ao ser alvo de um uso em casa e com os amigos que vai bem para além das preocupações com os conteúdos escolares. Por outro lado, o facto de a maioria das famílias já possuir computador e Internet antes da chegada dos Magalhães não impediu uma adesão maciça à sua aquisição nem que as famílias de menores recursos tenham aproveitado o ensejo para passarem a ter tal tipo de meio em casa, denotando-se aqui um claro processo de democratização no acesso a este tipo de artefacto. Deste ponto de vista, torna-se pertinente procurar entender se o uso do Magalhães – em “quantidade” e “qualidade” – é o mesmo por parte das crianças oriundas dos diferentes tipos de meios sociais, incluindo as que já possuíam computador em casa ou não. Por exemplo, os dados de Leiria fornecidos pela componente etnográfica (não carreados para este texto) parecem sugerir uma maior desenvoltura inicial no uso do Magalhães por parte do grupo que já lidava em casa com computadores, o que poderia eventualmente configurarse como uma nova forma de desigualdade social e escolar, embora ainda seja cedo para se perceber se, a prazo, a aparente desvantagem inicial do grupo referido tenderá a esbater-se, constituindo-se, assim, a política de dissemina- ARQUIPÉLAGO — CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO 42 ção do Magalhães como uma verdadeira medida democratizadora. A adesão maciça das famílias e a apropriação das crianças, sobretudo a feita no lar, parece apontar para um efeito de democratização no acesso às TIC. Contudo, os dados ora apresentados não permitem demonstrar a existência de um efeito pedagógico e educativo do uso do computador Magalhães, quer porque surgem alguns índicios de um impacto reduzido no contexto escolar, quer porque este texto limita-se a apresentar uma análise exploratória dos primeiros dados no âmbito dos dois estudos de caso. contactos: Pedro Silva, Escola Superior de Educação e de Ciências Sociais, Rua Dr. João Soares, 2411-901 Leiria. Correio electrónico: [email protected]; Ana Diogo, Departamento de Ciências da Educação, Universidade dos Açores, Rua da Mãe de Deus, 9501 – –801 Ponta Delgada. Correio electrónico: [email protected] USOS DO COMPUTADOR MAGALHÃES ENTRE A ESCOLA E A FAMÍLIA 43 referências bibliográficas Almeida, A. N., Delicado, A., & Alves, N. A. (2008). Crianças e internet: usos e representações, a família e a escola. Lisboa: ICS. Disponível em http://www. crinternet.ics.ul.pt/icscriancas/content/documents/relat_cr_int.pdf. 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USOS DO COMPUTADOR MAGALHÃES ENTRE A ESCOLA E A FAMÍLIA 47 Uses of magalhães laptop between school and family: on the appropriation of an edUcational policy in two school commUnities abstract Unlike many policies and initiatives that have been carried out in the past decades aiming at the dissemination of information and communication technology (ICT) in the schooling context, the program of distribution of laptops at the elementary education, started in 2008-2009, has the particularity of amplifying its intervention, trying to foster the use of ICT both at school and at home. This initiative seems to be based upon the belief that the promotion of the access to these resources, in both contexts, will reinforce school learning and reduce the inequality of opportunities in the use of ICT. From its implementation might arise several questions concerning the uses and effects of ICT in the context of home-school relations. This paper, using a sociological approach, deals with some of these questions based on the empirical results of two case studies. ARQUIPÉLAGO — CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO 48 Usages de l’ordinateUr magalhães entre l’école et la famille: sUr l’appropriation d’Une politiqUe édUcative dans deUx commUnaUtés scolaires résumé Au contraire de beaucoup de politiques et d’initiatives qui ont été développés dans les dernières décades, avec le but de disséminer les technologies de information et communication (TIC) dans le contexte scolaire, le programme de distribution des ordinateurs portables à l’école primaire, initié en 20082009, a la particularité de amplifier son intervention, essayant de augmenter l’usage des TIC à l’école et chez la famille. Cette initiative semble se baser dans la croyance de que la promotion de l’accès à ces ressources, dans les deux contextes, renforcera les apprentissages scolaires et réduira les inégalités des chances dans l’usage des nouvelles technologies. De son implémentation pourront émerger plusieurs interrogations sur les usages et les effets des TIC dans le contexte de la relation école-famille. Ce texte aborde quelques unes de ces questions, selon une approche sociologique, en se basant sur les résultats empiriques de deux études de cas.