Sons e lugares: Trajeto e retrato da cena rock no Tâmega
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FACULDADE DE LETRA S UNIVE RSIDADE DO PO RTO Tânia Daniela Monteiro Moreira 2º Ciclo de Estudos em Sociologia Sons e Lugares: trajeto e retrato da cena rock no Tâmega 2013 Orientador: Professora Doutora Paula Maria Guerra Tavares Classificação: Ciclo de estudos: Dissertação/relatório/Projeto/IPP: Versão definitiva
No place is nowhere. A todos aqueles que tornaram possível este espaço de sons: mãe, pai, irmã, namorado, orientadora, entrevistados. A todos vós, let’s go rock!
iii Resumo Esta investigação relaciona-se com a visibilidade das manifestações musicais vinculadas ao pop rock num contexto de modernidade globalizada. Assim, e mediante esta tendência, têm vindo a surgir perspetivas sociológicas filiadas numa corrente de pensamento pós-subculturalista (cenas). A nossa intenção foi explicar e compreender o surgimento de cenas musicais locais considerando um contexto particular de Portugal, o Tâmega. A escolha deste contexto regional é de toda a relevância, uma vez que esta região assume, no contexto nacional, um estatuto de periferização. A exemplo do que acontece em outros sectores artísticos, as maiores dinâmicas de produção, de intermediação e de fruição de pop rock têm uma distribuição central, litoral e urbana; ora, estas tendências levaram-nos a questionar a possibilidade de existência de cenas em contextos periféricos. Este intento foi reforçado pela existência de uma investigação atual e permanente a nível mundial acerca da premência e relevância das cenas musicais, mas sem grande expressão empírica em espaços periféricos. A nossa abordagem procurou delinear e caraterizar uma cena pop rock no Tâmega assente na triangulação, recorrendo a uma multiplicidade de técnicas tendo em vista o desvendamento desta cena. O tratamento de dados seguiu as lógicas qualitativa e quantitativa dos dados, sendo acompanhado pela social network analysis. Assim, foi possível desenhar, analisar e compreender uma cena pop rock de natureza local, virtual e afetiva delimitada por espaços, atores, instituições e canais particulares, que não concorre com cenas centrais, mas tem força para a (re)afirmação musical do Tâmega nos últimos anos, sobretudo quando estamos perante uma das regiões mais jovens da Europa. Palavras-chave: Cenas musicais; redes; criação musical; intermediação musical; fruição musical; art worlds.
v Abstract This research relates to the visibility of musical manifestations bounded to pop rock in a context of globalized modernity. Through this trend, affiliated sociological perspectives in a post-subculturaliste line of thought (scenes) are emerging. Our intention was to explain and understand the emergence of local music scenes considering a particular context of Portugal, the Tâmega. The choice of this regional context is relevant, since this region takes a statute of peripherization in the national context. Similar to what happens in other artistic sectors, the largest dynamics of production, intermediation and enjoyment of pop rock have been distributed along central, coastal and urban areas; therefore, these trends led us to question the possibility of scenes in peripheral contexts. This intent was reinforced by the existence of a current and ongoing worldwide research about the urgency and relevance of musical scenes, but with little empirical expression in peripheral areas. Our approach sought to delineate and characterize a pop rock scene in Tâmega based on triangulation, using a variety of techniques in order to unveil this scene. Data processing followed the logical qualitative and quantitative data, accompanied by social network analysis. Thus, it was possible to design, analyze and understand a pop rock scene, with a local, virtual and affective nature, delimited by space, actors, institutions and private channels, which does not compete with central scenes, but has the power to allow the musical (re)affirmation of Tâmega in recent years, especially when we are dealing with one of the younger regions in Europe. Keywords: Musical scenes; networks; musical creation; musical intermediation; musical fruition; art worlds.
vii Resumé Cette recherche concerne la visibilité des manifestations musicales liées à la pop rock dans un contexte de modernité globalisée. Ainsi, par cette tendance sont apparus affiliées perspectives sociologiques dans un courant de pensée post-subculturaliste (scènes). Notre intention était d'expliquer et de comprendre l'émergence de scènes musicales locales envisagent un contexte particulier du Portugal, le Tâmega. Le choix de ce contexte régional est très importante, puisque cette région prend dans le contexte national, un état de périphérisation. Similaire à ce qui se passe dans d'autres secteurs artistiques, les plus grands dynamiques de production, de intermédiation et de consumption de pop rock ont une distribution centrale, côtier et urbain; désormais, ces tendances nous ont amenés à s'interroger sur la possibilité de scènes dans des contextes périphériques. Cette intention a été renforcée par l'existence d'une recherche actuelle et en cours dans le monde entier sur l'urgence et la pertinence des scènes musicales, mais sans beaucoup d'expression empirique dans les zones périphériques. Notre approche vise à délimiter et caractériser la scène pop rock dans Tâmega le basé sur la triangulation, en utilisant une variété de techniques afin de dévoiler cette scène. Le traitement des données a suivi aussi la logique qualitative et quantitative, étant accompagné par la social network analysis. Ainsi, il était possible de concevoir, analyser et comprendre la scène de caractère local, virtuel et affective composé d'espaces, acteurs, institutions et des chaînes, qui n'entre pas en concurrence avec des scènes centrales, mais a la force d'affirmer la scène musicale du Tâmega au cours des dernières années, surtout quand il s'agit de l'une des plus jeunes régions d'Europe. Mots-clés: Scènes musicales; réseaux; création musicale; intermédiation musicale; la consummation musical; art worlds.
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xv Lista de quadros Quadro 3.1. - Amostra das entrevistas semiestruturadas ________________________________ 47 Quadro 3.2. - Amostra do inquérito por questionário __________________________________ 49 Quadro 4.1. – Número de eventos rock por espaço de fruição (excluídos os que se realizaram ao ar livre) _____________________________________________________________________ 54 Quadro 4.2. - Número de eventos por tipo de evento (2012-2013) _________________________ 62 Quadros 4.3. – Motivos da frequência do espaço/ evento musical e importância do espaço/ evento musical para a região _________________________________________________________ 73 Quadros 6.1 – Preferências musicais ______________________________________________ 90 Quadro A.1. - Evolução do número de empresas em Portugal, Norte e Tâmega (2004-2011), por atividade económica (Subclasse - CAE Rev. 3) _____________________________________ 121 Quadro A.2. - Ponderação do número de empresas de cada atividade económica (Subclasse - CAE Rev. 3) no total de empresas de cada região considerada (Portugal, Norte e Tâmega) __________ 122 Quadro A.3. - Evolução do número de pessoas ao serviço nas empresas de Portugal, Norte e Tâmega (2004-2011), por atividade económica (Subclasse - CAE Rev. 3) ________________________ 123 Quadro A.4. - Ponderação do número de pessoas ao serviço das empresas de cada atividade económica (Subclasse - CAE Rev. 3) no total de pessoas ao serviço das empresas de cada região considerada (Portugal, Norte e Tâmega) ____________________________________________________ 124 Quadro A.5. - População residente (dos 15 aos 39 anos) por grupo socioeconómico, em Portugal e na NUT III-Tâmega (2011): ): ponderação em relação ao total de habitantes __________________ 125 Quadro A.6. - Despesas dos municípios em cultura e desporto (milhares de euros): total e por domínio cultural, entre 1995-2011 (Portugal, Norte, NUT III-Tâmega) ___________________________ 127 Quadro A.7. – Espaços de fruição musical no Tâmega (ago/2013) ________________________ 131 Quadro A.8. – Bandas do Tâmega _______________________________________________ 137
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1 Introdução Load up on guns, bring your friends/ It's fun to lose and to pretend/ She's over bored and self assured/ Oh, no, I know a dirty word/ Hello, hello, hello, how low/ Hello, hello, hello, how low/ Hello, hello, hello, how low/ Hello, hello, hello/ With the lights out it's less dangerous/ Here we are now, entertain us/ I feel stupid and contagious/ Here we are now, entertain us/ A mulatto, an albino/ A mosquito, my libido, yeah, hey, yay/ I'm worse at what I do best/ And for this gift I feel blessed/ Our little group has always been/ And always will until the end. Nirvana (1991) – Smells Like Teen Spirit. Nunca antes (nem depois) um género musical tivera tanto impacto no mundo (cultural, social, económico, político) como teve o rock. Comummente tido como filho do blues, r&b, country ou ainda do jazz, este género musical parece ter mais vidas que um gato, tantas tenham sido as vezes em que foi dado como morto. Ele veio mesmo para ficar (Frith e Goodwin, 1990; Grossberg, 1983). Tal como um vírus ou como uma erva daninha, ele entranhou-se em tudo, ele contagiou tudo e todos. A produção e a receção musical, essas, nunca mais foram as mesmas depois da emergência do rock’n’roll. O seu poder pode fazer-se sentir mais neste ou naquele elemento, mas, como que um tornado, o rock abalou tudo o que existia (e ainda continua a fazê-lo!). Até mesmo a música tradicional (folk music) ou a dita música erudita não escaparam a este “ruído de rua” (Ross, 2009: 537). Nem mesmo os lugares mais recônditos do mundo estão de fora de todo este movimento centrípeto/ centrífugo sonoro: se ainda não foram encontrados, um dia serão. Mas desiludam-se também aqueles que, perante o rock, julgam estar diante de algum deus da autenticidade. Tudo isso não será mais que mero misticismo. O rock não é único, não é autêntico, não é anticomercial. Ele é a perfeita reencarnação da pop music, da sua massificação; aliás, ele próprio mudou a pop music. Ele é, na verdade, pop rock. Por isso, querer fazer de conta que o rock e o pop não colidem, não passa de isso mesmo, de fazer de conta. Querer distinguir o que usualmente chamamos de rock de outros géneros musicais parece também uma tarefa cada vez mais difícil, tamanha a hibridização contemporânea entre os diferentes géneros musicais. Esta questão, a da autenticidade assume-se, aliás, como uma das discussões mais interessantes na sociologia da cultura contemporânea. Dick Hebdige, por exemplo, considera que as subculturas musicais se encontram “envolvidas numa constante luta de identidade com a cultura mainstream onde os significados são constantemente negociados e renegociados” (Hebdige, 2002: 2). Com efeito, desde o seu aparecimento que o rock reclamou de autenticidade, isto é, de ser a «voz» dos mais desfavorecidos, de ser o veículo de divulgação dos seus valores, crenças e estilos de vida. Todavia, o rock não escapou à mercadorização subcultural. Ainda assim, esta tendência teve, como efeitos, um aumento do seu poder na expressividade
Sons e Lugares: trajeto e retrato da cena rock no Tâmega 2 das culturas populares contemporâneas e uma ênfase à sua legitimidade identitária. Nesse contexto, o rock não é mais do que uma manifestação cultural e artística cuja autenticidade é negociada, não sendo necessário continuar a discutir se os Beatles ou os Rolling Stones (como dizia Johnny Ramone, vocalista da emblemática banda punk Ramones) são autênticos ou mais uma mercadoria do capitalismo avançado. Numa frase: importa centrar-nos não numa discussão estéril acerca da autenticidade; o “foco, então, não deve ser o que a subcultura significa, mas sim como ela se sente.” (Driver, 2011: 13). Foi com base neste conjunto de constatações e indagações que formulamos a nossa questão de partida: saber até que ponto a região do Tâmega (NUT III) é suficientemente capaz de sustentar uma cena rock distinta da cena central e global. Esta questão funda-se num interesse sociológico que se tem vindo a sedimentar em nós desde 2011, acompanhando uma paixão pessoal em torno do pop rock e no Tâmega, nosso local de residência. Esta questão de partida foi o móbil para a formulação e concretização dos seguintes objetivos norteadores: (1) Identificar, caracterizar e avaliar as dinâmicas económicas, culturais, sociais e territoriais ínsitas à região do Tâmega (NUT III) numa perspetiva diacrónica, sincrónica e prospetiva de modo a desenhar tendências de caracterização da(s) cena(s) musical(ais) em presença. (2) Conhecer e entender o processo de consolidação das dinâmicas pop rock ao nível da produção artística-musical local. (3) Explicar e compreender os processos de mediação cultural presentes nas cenas pop rock locais. (4) Delinear, perceber e explicar como são vividas as manifestações rock pelos públicos. (5) Compreender a influência das dinâmicas rock sobre a construção identitária dos mais jovens do ponto de vista da fruição lúdica e cultural. (6) Identificar a posição (pontes/distinções) que as manifestações rock do Tâmega assumem face às manifestações dos grandes centros urbanos do país e às manifestações globais do ponto de vista de uma cena vibrante de fruição cultural e musical. (7) Explicar e compreender a importância da existência de tais dinâmicas para o desenvolvimento da região. Ao longo das páginas seguintes, iremos demonstrar a materialização destes objectivos, apresentando uma Dissertação estruturada da seguinte forma: (1) No primeiro capítulo – Why do we do what we do? Fundamentos de uma opção –, aprofundaremos as razões que nos levaram a elaborar e a construir esta Dissertação. Num primeiro momento, discutimos o papel do rock nas construções identitárias e a sua força enquanto mecanismo produtor e reprodutor do real social. Passando, num segundo momento, a apresentar
Introdução 3 o posicionamento que a sociologia tem assumido face ao estudo do rock. Aí, nesse segundo ponto, expomos ainda uma pequena pesquisa acerca da produção científica em torno do rock no contexto português, revelando que, no nosso país, este é ainda um tema em estado embrionário, sobretudo no meio sociológico. Por fim, num terceiro momento, analisamos as relações que a música e o território podem assumir nos dias de hoje, aproveitando este ponto para a exposição das características sociodemográficas, económicas e culturais da NUT III – Tâmega. (2) No segundo capítulo – The art of scientific memory. Mapeamento teórico dos sons e lugares –, tentamos sucintamente dar conta das várias noções teóricas (subculturas, tribos, art worlds, cenas, campo) que, ao fim de algumas leituras, se revelaram pertinentes para a construção e execução do estudo que aqui se apresenta. Começamos o capítulo por apresentar as debilidades de alguns dos conceitos que, apesar de tudo, continuam a ser muito usados nos dias de hoje, terminado a exposição com a asserção de que, para o nosso caso, será a noção de cena (apoiada pelos conceitos de art world de Becker e de campo de Bourdieu) que maior aplicabilidade terá. (3) No terceiro capítulo – Cooking na object. Objetos, metodologias e técnicas plurais –, revelamos todo o processo de investigação teórico-empírica, desde as hipóteses, a consolidação e clarificação dos objetos em que se debruça este estudo, até à justificação do processo metodológico e das técnicas escolhidas, assim como a forma como essas técnicas foram aplicadas. (4) No quarto capítulo – This is Tâmega zone! Contexto e dinâmicas de uma cena musical – damos início à apresentação dos nossos resultados, num vai-e-vem entre teoria e empiria. Aqui, neste capítulo, procuramos dar conta daquilo que consideramos serem os elementos constituintes desta cena musical local, nomeadamente os atores, as bandas, os espaços, e as facilidades e as dificuldades que os caracterizam. (5) No quinto capítulo – The new world. Mudanças e persistências do pop rock – fazemos uma incursão pela desmaterialização da música e alteração dos suportes e formatos musicais, aprofundando, nesse sentido, a noção de cena virtual. Ao mesmo tempo, é apresentada ainda uma radiografia à cena em termos de gostos musicais (estilos, bandas, etc.). (6) No sexto e último capítulo – Who are you? Do you like what? Trajetória, self e art world pop rock – descemos o nível da nossa análise para darmos conta da importância da música, dos gostos musicais ao nível mais individual. Nesse capítulo apresentamos ainda o papel que as mulheres têm assumido nos últimos anos no mundo do rock.
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5 Why do we do what we do? Fundamentos de uma opção A missão mais importante da música reside em que esta tem de ser um médium subtil que penetre até aos átomos do homem, através de toda a pele, do corpo inteiro, e não apenas através dos ouvidos. Como dizia Stravinsky, o homem não se deve limitar apenas a ouvir, porque um pato também ouve. A música é o meio mais importante para colocar o homem em contacto com o seu criador. Stockhausen, 1928 – 2007 1.1. O rock, o social e o individual Porquê fazer o que estamos a fazer? Porquê fazer uma Dissertação cujo objeto de estudo recai sobre o rock? De que importância se reveste o rock? Talvez se pensarmos o rock em termos de cultura, a questão fique mais clara. No entanto, ainda assim, acreditamos que muitas dúvidas fiquem no ar. Dizem-nos Tony Bennett et al. (2005: 4) que a «música é um processo ou, talvez mais precisamente, uma série de ações». Já Tia DeNora (2003: 156) não tem dúvidas que «a música está envolvida, que é um dos participantes no que acontece ao longo do tempo e do espaço.» Na mesma linha, Paula Guerra (2010: 383) argumenta que o rock é um fenómeno social total. De facto, o rock não é apenas música; ele é muito mais que isso; ele está, pois, imbricado nas mais diversas dimensões do real social. Desde logo, ele, o rock, constitui uma importante ferramenta simbólica, com códigos linguísticos e condutas comportamentais próprias, e, desse modo, fornece um importante contributo para a estruturação das identidades, na medida em que, ao promover certas sociabilidades lúdicas e culturais, permite aos indivíduos não só expressarem as suas emoções e anseios, como também terem contacto com aqueles códigos simbólicos, o que influencia o modo como essas mesmas emoções e anseios são sentidos, percebidos e exprimidos e, consequentemente, a forma como as identidades individuais são consolidadas (DeNora, 2004; Frith, 2004b; Guerra, 2010). Depois, se permite a interação entre os indivíduos, a integração, a participação, então ele constitui também uma forma de expressão coletiva, concedendo um sentido de pertença aos indivíduos e contribuindo para a efervescência ou coesão social, pelo que configura ainda um modo de os indivíduos adquirirem melhor qualidade de vida, porque preenche certas lacunas deixadas por outros campos do quotidiano (Blau, 1988: 884; Guerra, 2010: 86). Mas, note-se, esta influência não é absoluta, como se, por si só, o rock causasse alguma coisa. Não. Os seus efeitos (à boa maneira de uma tal monitorização reflexiva da ação (Giddens, 1991: 38)) dependem dos seus ouvintes, da forma como eles o captam, da forma como eles o ligam a outras coisas. Não é de admirar, por isso, que uma mesma música possa ter diferentes
Sons e Lugares: trajeto e retrato da cena rock no Tâmega 6 efeitos em diferentes pessoas: para uma pode significar alegria, para outra tristeza; para uma pode funcionar como um mecanismo que a faz lembrar de certas coisas, para outra pode funcionar como forma de as esquecer (DeNora, 1999; 2003: 48; Roy e Dowd, 2010: 187). Da mesma forma, o rock não exerce nenhum tipo de poder exclusivamente unidirecional. Se a sua audiência é influenciada, então o rock também é influenciado. Afinal, ele é, antes de mais, um constructum dos seus apreciadores. Pegando nas palavras de Roy e Dowd (2010: 191), diríamos que ele é «profundamente social»: primeiro, como refere Peterson (1990), se o seu advento se deu em meados do século XX, isso deve-se a todo um apanágio de circunstâncias (sociais, económicas, culturais, tecnológicas) que assim o possibilitaram (ver Figura 1); segundo, se assume esta ou aquela forma, se a ele lhe são ligados determinados objetos, comportamentos e gestos, isso fica a dever-se a um diálogo que existe não só entre os seus fãs, mas também entre os seus criadores, produtores, etc. (Wicke, 1990: 76). O rock, completaríamos, pode, então, ser considerado como um relevante mecanismo de produção e de reprodução do real social e, portanto, como um fator determinante para o entendimento não só das identidades, como também da estrutura social. Mais ainda, ele será, com certeza, uma importante matriz “de análise das representações sociais e da memória coletiva” (Guerra, 2010: 85). Isto, porque, embora recente, a história do rock pautou-se por uma larga democratização (Frith, 2012). Apesar da curta distância histórica que nos separa da emergência do rock and roll, não podemos menosprezar a importância do impacto que teve na sua audiência, tendo mudado para sempre a forma como a música popular era produzida, distribuída e socialmente recebida. Ao contrário do que acontecia noutros tempos no campo musical, o rock nem sequer teve a sua origem nas classes mais privilegiadas (as quais, aliás, não lhe reconheciam tão-pouco legitimidade), mas no “povo”, pelo que, desde cedo, o rock prefigurou-se como um sistema de referência e de integração para a vasta maioria das populações, sobretudo, para as faixas etárias mais jovens (de onde efetivamente o rock irradia). Ora, se a isto juntarmos o facto de, hoje, vivermos num mundo globalizado e altamente digitalizado, facilmente entendemos até que ponto poderá ir o alcance do rock. Para Guerra (2010: 383), o rock tornou-se “sorrateiramente mas eficazmente uma das formas dominantes da música e consequentemente da cultura popular”. Já Ross (2009: 537) afirma que nem faz sentido falar-se de música clássica e de música popular como se se tratassem de mundos opostos: graças ao rock, até a música mais erudita foi invadida pelo “ruído da rua”. Ele não só influenciou os outros géneros musicais, como também os colonizou, desvanecendo as fronteiras que existiam entre eles (Frith, 2012).
1. Why do we do what we do? Fundamentos de uma opção 7 A Figura 1.1. representa, no âmbito desta dissertação, um exercício demonstrativo da importância do rock’n’roll no que diz respeito às suas ligações entre o social e o individual, mas também no tocante às suas constantes metamorfoses no tempo e no espaço globais desde os anos 50 até aos dias de hoje. Aliás, a profusão de reinvenções estilísticas e de géneros e subgéneros obedece à complexidade da estrutura social onde está imerso e às constantes readaptações da cultura musical e das indústrias culturais no contexto da modernidade (tardia). O rock transformou-se, pois, numa mediascape global (Appadurai, 1990; Bennett, 2002) com uma força social própria (Frith, 2012). Apesar de tudo, tal como um dia aconteceu com a música, também o rock parece estar a ter dificuldades em afirmar-se amplamente como objeto de análise legítimo na sociologia. Se na literatura anglo-saxónica contam-se já alguns estudos neste âmbito (cf. Hesmondhalgh e Negus, 2002), o mesmo não se poderá dizer de outros contextos, onde o rock parece continuar a ser tido como impróprio de análise, dado o seu caráter popular (ou para alguns, senão mesmo bárbaro), altamente mercantilizado e, assim, supostamente, de menor valor cultural (Blau, 1988: 885; Guerra, 2010: 384). Porém, algumas incursões da teoria pós-subcultural atual permitiram conceber as questões culturais que afetam os jovens de uma forma mais complexa e dinâmica do que as interpretações da teoria subcultural consideravam ser; e, nesse contexto, as identidades musicais dos jovens passaram a ser vistas e analisadas como identidades reflexivas, que articulam questões especificamente locais com questões globais, especialmente devido à “multiplicidade de dinâmicas culturais que existem na prática – e processo – de consumo e apropriação cultural” (Bennett, 2011: 28). Uma área de análise da teoria pós-subcultural e que foi alvo de um crescente desenvolvimento nos últimos vinte anos é a questão entre o local e o global nas práticas musicais dos jovens, pois “apesar do debate continuar enquanto a natureza do local num mundo onde a música popular, moda e outras mercadorias culturais associadas como a jovens são fluxos globais, estudos empíricos em culturas jovens locais deram origem a novas áreas em relação ao interface entre culturas globais com jovens localizados em cidades e regiões específicas em todo o mundo” (Bennett, 2011: 30). A própria articulação entre Portugal e o mundo está plasmada na Figura 1.1., mostrando a complexidade, as reapropriações múltiplas e a dialética permanente entre global e local.
Sons e Lugares: trajeto e retrato da cena rock no Tâmega 14 de Basto, Cinfães, Felgueiras, Lousada, Marco de Canaveses, Mondim de Basto, Paços de Ferreira, Paredes, Penafiel, Resende e Ribeira de Pena 5 (Figura 1.4.). Estatisticamente falando, trata-se de uma região que em termos sociodemográficos, em 2011 (INE, 2012a), possuía cerca de 5,2% (550.516 habitantes) do total da população portuguesa, o que equivale a dizer que era a 4.ª região do país com mais habitantes. Figura 1.4. – NUT III – Tâmega Fonte: Elaboração da autora construída a partir de IGP (2012). Apesar do que iremos ver mais à frente, é das regiões do país que mais consegue “segurar” os seus habitantes, possuindo uma taxa de repulsão interna de 2% ao passo que a média entre as NUT III ronda os 3,28%. (INE, 2013d) Talvez, por isso, se explique a manutenção do número de habitantes nesta zona que pouco mudou desde 2001. (INE, 2012a) Todavia, essa taxa de repulsão muda de configuração quando descemos à escala municipal (Figura 1.6.b): aí, a taxa de repulsão média ronda os 3,85%, levando-nos, então, a acreditar que parte substancial da mobilidade residencial dos seus habitantes se faz dentro das fronteiras do Tâmega. Por um lado, como iremos ver, a população ainda consegue encontrar nesta região (ainda que fora do seu município natal) um lugar no mercado de trabalho (muito embora a oferta de trabalho existente tenha diminuído nos últimos anos); por outro lado, a região do Tâmega beneficia de toda uma rede rodoviária e ferroviária que a aproxima das regiões mais desenvolvidas do país (nomeadamente do Grande Porto), fazendo com que as pessoas sejam 5 De momento, a NUT III – Tâmega aparece, geralmente, tratada de uma de duas formas: ou de acordo com o Decreto-lei n.º 244/2002, onde o Tâmega aparece composto por 15 concelhos, ou de acordo com o Decreto-lei n.º 68/2008, onde o Tâmega surge com menos três concelhos (Cabeceiras de Basto, Mondim de Basto e Ribeira de Pena). Visto que as grandes fontes de informação estatística ou outros organismos (cf. INE (s/d), IGP (2012)) continuam a usar o Decreto-lei n.º 244/2002, optou-se por analisar a região nesses termos. Lousada Cinfães Castelo de Paiva Resende Ribeira de Pena Cabeceiras de Basto Mondim de Basto Celorico de Basto Amarante Felgueiras Paços de Ferreira Penafiel Paredes Baião Marco de Canaveses
1. Why do we do what we do? Fundamentos de uma opção 15 capazes de conciliar uma vida pessoal e familiar no Tâmega e uma vida profissional fora das suas fronteiras. Outras das características marcantes desta região, diz respeito à sua proporção de jovens no total da população, que também é das mais elevadas do país (Figura 1.5.), muito embora, como é possível verificar na Figura 1.6.a, existam, no seu seio, concelhos (nomeadamente os que se situam na zona mais interior do Tâmega) que exibem valores próximos dos albergados pelas zonas mais envelhecidas do país. Ainda para este ponto, certamente, não será despiciendo referir-nos ao nível de escolaridade dos residentes no Tâmega, o qual, como podemos comprovar na Figura 1.7., pode não ser dos mais elevados, mas com certeza é dos que mais espetacularmente tem aumentado: de 2001 para 2011, a proporção de indivíduos com mais de 15 anos que havia completado o ensino secundário aumentou cerca de 77,4%, enquanto o número de indivíduos com o ensino superior aumentou 133,3% (Figueiredo et al. (2008: 37) referem-se a estas melhorias, nomeadamente do aumento de indivíduos com o ensino secundário ou até mesmo com o ensino básico completo (já que até há bem pouco tempo o cumprimento do ensino obrigatório nesta região continuava a ficar muito aquém da média nacional), como sendo “decorrentes, fundamentalmente, do incremento da oferta de cursos de carácter profissional e da menor pressão do tecido empresarial no recrutamento de jovens desqualificados, escolar e profissionalmente.” Mas, como frisámos, esta não é a região do país com os mais elevados níveis de escolaridade (antes pelo contrário); mesmo entre os mais jovens, é o ensino básico que continua a predominar (Figura 1.6.d). Figura 1.5. – Proporção de jovens (16-40 anos) no total de habitantes de cada NUT III, em 2011 (%) Fonte: Elaboração da autora adaptada de INE (2012e). 33% 0% 5% 10% 15% 20% 25% 30% 35% 40% Jov. 16-24 anos (NUT) Jov. 25-32 anos (NUT) Jov. 33-40 anos (NUT) Jov. 16-40 anos (Portugal)
Sons e Lugares: trajeto e retrato da cena rock no Tâmega 16 Figura 1.6. – Caracterização da NUT III-Tâmega a nível concelhio: (a) proporção de jovens (16-40 anos) no total da população; (b) taxa de repulsão interna; (c) estado civil dos indivíduos entre os 16 e 40 anos; (d) nível de escolaridade dos jovens entre os 16 e 39 anos Fonte: Elaboração da autora construída a partir de INE (2012d; 2012e; 2013d). Figura 1.7. – Proporção de indivíduos com 15 e mais anos por nível de escolaridade completo mais elevado em 2011 (NUT III; %) e taxa de variação relativamente a 2001 Fonte: Elaboração da autora construída a partir de PORDATA (2013f). Indo mais longe, e considerando que a música é um meio através do qual são experienciadas as experiências e interações sociais desenvolvidas no espaço, parece-nos importante atentar às especificidades de desenvolvimento e socioeconómicas do Tâmega. Este exercício é fundamental se considerarmos a importância das condições socioeconómicas para a produção de música (Cohen, 1991); às narrativas entre local e identidade construídas pelos músicos locais (Grossberg, 1986); às relações entre local, música e identidade global (Frith, 2012) e ainda, à forma como géneros musicais são apropriados, retrabalhados e inseridos em significados locais (Bennett, 2001). Assim, em termos socioeconómicos, podemos também adiantar que é uma das 0 20 40 60 80 100 120 140 160 0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 Grande Lisboa Baixo Mondego Península de Setúbal Grande Porto Algarve Portugal Cávado Pinhal Litoral Baixo Vouga Beira Interior Sul Alentejo Central Médio Tejo Lezíria do Tejo R. A. Madeira Oeste Cova da Beira Dão-Lafões Alentejo Litoral Beira Interior Norte Baixo Alentejo Minho-Lima Douro Alto Alentejo Alto Trás-os-Montes Entre Douro e Vouga R. A. Açores Ave Serra da Estrela Pinhal Interior Norte Pinhal Interior Sul Tâmega Variação entre 2001 e 2011 (%) % de indivíduos por nível escolar Secundário Superior Variação: Secundário Variação: Superior
1. Why do we do what we do? Fundamentos de uma opção 17 regiões menos desenvolvidas do país. Somente a região dos Açores apresenta um índice de desenvolvimento regional mais baixo que o Tâmega (Figura 1.8.). Olhando para a Figura 1.9., constatamos que, embora a coesão (dimensão que procura dar conta do nível de bem-estar da população) e a qualidade ambiental da região usufruam de valores mais favoráveis com o passar dos tempos, a competitividade (dimensão que avalia a capacidade da região em gerar riqueza, bem como de penetrar e atrair mercados externos) tem-se deteriorado (INE/DPP, 2009). Figura 1.8. – Índice sintético de desenvolvimento regional, em 2010 (NUT III) Fonte: construído a partir de INE (2013b). Figura 1.9. – Índice sintético de desenvolvimento regional (índice global e índices parciais de competitividade, coesão e qualidade ambiental): NUT III – Tâmega (2004-2010) Fonte: construído a partir de INE (2013b). Tal como o que aconteceu com o resto do país, a região do Tâmega, após um período de crescimento, sofreu, a partir de 2009, uma redução no número de empresas existentes (Quadro A.1.); em contrapartida, em 2011, era a 6.ª região do país com maior número de empresas (3,8% do total de empresas em solo nacional) e a 3.ª se nos cingirmos à região Norte (INE, 2013a). É, por isso, das regiões que mais oferta de trabalho possui, empregando (em 2011) cerca de 4,4% do total de pessoas ao serviço das empresas em Portugal (o que faz com que ocupe o 5.º lugar do ranking de regiões com mais pessoas ao serviço), sobretudo nos setores 85 90 95 100 105 110 Portugal 80,00 85,00 90,00 95,00 100,00 105,00 110,00 Índice global Competitividade Coesão Qualidade ambiental 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 Portugal
Sons e Lugares: trajeto e retrato da cena rock no Tâmega 18 das indústrias transformadoras, construção e comércio por grosso e a retalho, reparação de veículos automóveis e motociclos (INE, 2013c). No entanto, o mercado existente não é suficiente para absorver toda a mão-de-obra disponível. Se houve tempos em que a taxa de desemprego se mantinha a valores aceitáveis (em 2001, rondava os 5,1%, menos 1,7% que a verificada a nível nacional), nos dias que correm ela atinge números nunca antes vistos (em 2011, rondava os 14,3%, mais 1,1% que a verificada em contexto nacional). O desenvolvimento económico desta região assenta fortemente na indústria transformadora (em 2011, este setor empregava cerca de 39,9% dos trabalhadores ao serviço nesta região (INE, 2013c)), pois “desde os anos oitenta, houve grandes investimentos em unidades fabris de sectores intensivos em mão-de-obra”; porém, nos últimos anos, as grandes multinacionais que investiam neste território deslocalizaram as suas fábricas para o estrangeiro. Ora, o “encerramento destas e outras unidades subsidiárias, nos últimos anos, levou a uma redução do emprego e ao aumento do desemprego.” (CIM-TS/CCDRN, 2010: 25) E isso é particularmente dramático para a população mais jovem: em 2011, os indivíduos dos 15 aos 34 anos, apresentavam, nalguns concelhos, taxas de desemprego que chegavam a ultrapassar a barreira dos 20% (Figura 1.10.c), e se isolássemos a população dos 15 aos 24 anos, a casa dos 20% (ou melhor, dos 22,3%) passava a ser o valor médio desta região. Ainda assim, no cômputo geral, o Tâmega apresentava, em 2011, um panorama mais favorável que a média do país, exibindo uma taxa de desemprego para os jovens dos 15 aos 34 anos que rondava os 15,5%, menos 0,9% que a média nacional (PORDATA, 2012a; 2012b). Figura 1.10. – Caracterização da NUT III-Tâmega a nível concelhio: (a) ganho médio mensal em relação à média nacional; (b) poder de compra; (d) taxa de desemprego entre os jovens dos 15 aos 34 anos Fonte: Fonte: Elaboração da autora construída a partir de INE (2011a; 2011b) e PORDATA (2012a; 2012b)
1. Why do we do what we do? Fundamentos de uma opção 19 Neste contexto, não é de admirar que o Tâmega esteja entre as 12 NUT III que mais pessoas veem sair para trabalhar noutros municípios (em 2011, os valores rondavam os 27,4% dos trabalhadores residentes no Tâmega) ou que seja a região do país que mais habitantes tem a trabalhar no estrangeiro (cerca de 4,9% dos seus trabalhadores, enquanto a nível nacional esse valor não ultrapassava os 1,6%, em 2011) (Figura 1.11.a/b) (INE, 2012f). Aliás, como dizem Figueiredo et al. (2008: 31), “a emigração (…) tem constituído uma importante resposta à situação de desemprego, sobretudo para os homens, na área da construção civil (…); sem este movimento de saída para o mercado de trabalho no estrangeiro a dimensão do desemprego seria muito superior.” A par da emigração, outras dinâmicas parecem também contribuir “para conservar o movimento no mercado de trabalho local: alguns projectos de carácter mais estrutural – p.e. instalação de multinacionais e o crescimento das zonas industriais –, a manutenção da importância do sector da construção civil, a instalação de grandes superfícies comerciais e o reforço da diversificação da actividade económica, nomeadamente a restauração e o turismo. Por outro lado, mantém-se a presença dos circuitos da economia informal na actividade empresarial e no emprego destes concelhos; apesar da tendência de redução, continuam a penetrar de forma transversal nos diversos sectores da actividade económica local, nomeadamente no mobiliário, na construção e nas confecções.” (Figueiredo et al., 2008: 31). A existência dessa economia paralela assume-se tão ou mais importante quando olhamos para os níveis salariais dos trabalhadores desta região, que constituem os mais baixos do país (Figura 1.10.a) e, por certo, ajudam também a explicar a tão baixa capacidade de poder de compra dos habitantes do Tâmega (Figura 1.10.b) (INE, 2011a; 2011b). Ao mesmo tempo, os baixos salários acabam também por nos indicar que não é o facto de um indivíduo possuir um emprego que isso lhe garantirá o afastamento de situações de carência e fragilidade, levando-nos a compreender melhor não só a manutenção em larga escala da economia informal, como também o elevado número de emigrantes, pessoas que procuram no estrangeiro uma vida que o Tâmega não é capaz de lhes oferecer. No entanto, os baixos ganhos médios podem ser compreendidos se atentarmos ao modelo económico existente, que se pauta fundamentalmente pela criação de emprego desqualificado. Em 2011, os operários qualificados e semiqualificados, os trabalhadores administrativos do comércio e serviços não qualificados, e os operários não qualificados tinham um peso de 23,8% na estrutura socioeconómica da região, um valor bastante acima dos 14,8% do contexto nacional. E se limitarmos a análise à população mais jovem (dos 15 aos 39 anos) essa discrepância aumenta ainda mais: 35,0% contra os 20,2% nacionais (Figura 1.12. e Quadro A.5.) (INE, 2012c).
Sons e Lugares: trajeto e retrato da cena rock no Tâmega 20 Figura 1.11. – Caracterização da NUT III-Tâmega a nível concelhio: (a) proporção de população empregada noutro município (b) e no estrangeiro; (c) proporção de estudantes que estuda noutro município (d) e no estrangeiro; (e) número de empresas por concelho em relação ao total de empresas na NUT III – Tâmega; (f) número de empresas do setor das atividades artísticas, de espetáculos, desportivas e recreativas Fonte: Elaboração da autora construída a partir de INE (2012f) e PORDATA (2013c). Figura 1.12. – População residente (dos 15 aos 39 anos) por grupos socioeconómicos predominantes, em Portugal e na NUT III-Tâmega (2011) Fonte: Elaboração da autora a partir de INE (2012c).
1. Why do we do what we do? Fundamentos de uma opção 21 Do ponto de vista sociocultural, em 2011, era a 7.ª região do país que mais gastava em cultura e desporto (25.960.000 euros) mas, quando comparados esses gastos com a despesa total dos municípios, a sua posição descia drasticamente no ranking, passando a ocupar os últimos lugares (apenas 7% dos dinheiros gastos eram adstritos à cultura e desporto). Na generalidade, e acompanhando a tendência nacional, os concelhos do Tâmega viram as suas despesas em cultura e desporto diminuírem nos últimos anos (Figura A.1.), muito provavelmente por causa da crise que assolapou o país, pois, como é sabido, em tempos de crise dão-se prioridade a outros assuntos. Prova disso é o facto de serem os concelhos com maiores capacidades socioeconómicas (ver, por exemplo, Figuras 1.10. e 1.11.e) aqueles que mais gastam na cultura e no desporto (Figura 1.13.b) (INE, 2012b). Tal como a maioria das outras NUT III, em 2011, grande parte das despesas em cultura e desporto do Tâmega dirigiam-se para os jogos e desportos (cerca de 53,7%, mais 13,7% que o verificado a nível nacional). Só depois apareciam as despesas com as publicações e literatura (10,9%), com as atividades socioculturais (10,3%), com o património cultural (9,7%), com os recintos culturais (7,5%), com a música (3,7%) e com as artes cénicas (1,6%). No caso da música (que é a que importa de momento), a região do Tâmega gastava, assim, menos cerca de 0,9% que a média nacional, mas um pouco mais que a média verificada na região Norte (mais 0,05%). No entanto, quando comparados os valores gastos em 2011 com os de 2001, o Tâmega ocupa nitidamente um lugar desfavorável no panorama nacional, estando entre as 13 NUT III que mais diminuíram as suas despesas com a música. Com uma diminuição de cerca de 27,1%, o Tâmega distanciava-se, assim, dos 21,9% negativos da região Norte e muito mais dos cerca de 20,4% positivos do território nacional. (Figura 1.13.a; Figura A.2.) (PORDATA, 2013b). Ao contrário das despesas, o peso das empresas por nós consideradas ligadas à cultura, lazer, recriação e diversão (ver Quadro A.2.) no total das empresas do Tâmega é cada vez maior: se em 2004 representavam cerca de 6,4% do total das empresas, em 2011 esse valor crescia para os 6,9%, um aumento na ordem dos 11,9%, enquanto a nível nacional esse acréscimo ficou-se pelos 6,5% e o peso destas empresas no total das empresas nos 6,5%, revelando uma maior importância destas empresas na paisagem económica do Tâmega. Para tais valores, contribui imenso a atividade dos cafés que, embora tenham diminuído, representavam, em 2011, cerca de 4,8% do total das empresas do Tâmega (a nível nacional o valor ficava-se pelos 2,9%). A seguir aos cafés, seguem-se as empresas ligadas às atividades desportivas, de diversão e recreativas (0,9%), as empresas ligadas às atividades de teatro, música, dança e outras atividades artísticas e literárias (0,6%) e os bares (0,3%), todas elas com um historial estável, senão mesmo de crescimento (INE, 2013a).
Sons e Lugares: trajeto e retrato da cena rock no Tâmega 22 Figura 1.13. - Despesas dos municípios em cultura e desporto (milhares de euros), por domínio cultural e NUT III (2011) Fonte: Elaboração da autora a partir de PORDATA (2013b). Ao nível da população empregue nestas empresas, embora assumam valores baixos se comparados com os auferidos noutros setores de atividade (indicando a diminuta dimensão destas empresas), são, nalguns casos, superiores aos exibidos pela média portuguesa. Falamos precisamente dos cafés que, em 2011, davam trabalho a cerca de 1,6% do total de pessoas empregues nas empresas do Tâmega, mais 0,2% que a média nacional. A estes seguem-se as
1. Why do we do what we do? Fundamentos de uma opção 23 atividades desportivas, de diversão e recreativas que, com um valor na ordem dos 0,4%, aproximam-se bastante da realidade nacional (0,5%) (INE, 2013c) (Quadro A.4.). A acompanhar esta dinâmica de crescimento, temos o número de espetáculos ao vivo e o número de espectadores que, apesar de continuarem a ser dos mais baixos do país (Figura 1.14.), viram os seus valores serem aumentados nos últimos anos: os primeiros em 23,2% (de 2003 a 2011), os segundos em 18,6% (de 2009 a 2011). Figura 1.14. – Espetáculos ao vivo: n.º de sessões e n.º de espectadores por 1000 habitantes, por NUT III (2011) Fonte: Elaboração da autora construída a partir de PORDATA (2013d; 2013e). A música é uma das formas através da qual definimos quem somos, é um dos meios pelo qual podemos afirmar as nossas especificidades. Mas se hoje a música é cada vez mais um fenómeno global, marcado por constantes interligações e influências mútuas, torna-se também articulação entre o seu carácter global e as suas dimensões específicas. Se a nossa música deixar de traduzir a nossa história e a nossa identidade, cabe aos músicos encontrar formas alternativas de demarcação e distinção. A tarefa difícil dos dias de hoje, e perante um tal cenário, é perceber até que ponto essa diferença é definida local ou nacionalmente. A análise dos indicadores sociais, económicos e culturais do Tâmega prestou esse serviço nesta Dissertação. Não podemos também ignorar que a música que definimos como nossa é também um produto dos seus criadores e de todos os agentes envolvidos na sua divulgação. A Irlanda e a Escócia são dois casos paradigmáticos no que respeita à música como expressão de uma identidade própria e, portanto, como meio de distinção face aos demais. “Podemos dizer que em ambos os países a música tem sido um factor chave para a identidade cultural, para um sentido de história e tradição; em 0,0 500,0 1000,0 1500,0 2000,0 2500,0 0.0 150.0 300.0 450.0 600.0 750.0 900.0 1050.0 Grande Lisboa Grande Porto Península de Setúbal Algarve Baixo Mondego Entre Douro e Vouga R. A. Madeira Minho-Lima Alentejo Central Baixo Alentejo Douro Baixo Vouga Alto Alentejo Pinhal Litoral Lezíria do Tejo Oeste Dão-Lafões R. A. Açores Alto Trás-os-Montes Tâmega Médio Tejo Cávado Ave Cova da Beira Alentejo Litoral Beira Interior Norte Pinhal Interior Norte Beira Interior Sul Pinhal Interior Sul Serra da Estrela N.º espectadores por 1000 hab. N.º espetáculos ao vivo Espetáculos ao vivo Espectadores
Sons e Lugares: trajeto e retrato da cena rock no Tâmega 30 Figura 2.2. – (a) Os art worlds de Becker (b) e os culture worlds de Crane Fonte: Elaboração da autora. Nota: A sigla AW significa art world; a sigla CW significa culture world. No entanto, apesar de toda a sua pertinência, a noção de art world beckeriana não está isenta de alguns reparos. Maanen (2009: 42) não entende, desde logo, por que é que Becker faz tanta questão de dar a todos os participantes dos art worlds a mesma relevância/ status, quando ele próprio acaba por relevar especificamente o papel do artista ao mencionar, por exemplo, a figura do “artista apoiado”. Por isso, não é de admirar que Crane (2007: 179) diga que ele é frequentemente criticado por enfatizar demasiado os aspetos sociais e organizacionais da criação artística, ou por tratar as questões e significados estéticos muito superficialmente, não tendo tido qualquer tipo de preocupação, refere Lourdes Lima dos Santos (1994b: 421), nem “com a articulação micro-macro (através do habitus) nem (…) com a conflitualidade interna ao campo ou com a relação de dominação/dependência intra e intercampos”, preferindo, ao invés, conceber o mundo da arte como como um todo consensual, solidário, cooperativo e (mais ou menos) fechado sobre si. A concessão de uma maior flexibilidade a este conceito ficaria a cargo de Diana Crane (1992) que, ao estudar as várias formas de cultura urbana, mostra-nos como determinadas condições de produção, divulgação e receção podem levar os artistas a percorrer diferentes culture worlds (termo que Crane prefere usar) e, dessa forma, a ter percursos profissionais não tão rígidos, fechados como queria fazer parecer Becker (Guerra, 2010: 499-500; Santos, 1994b: 421-422). Nessa análise, Crane distingue três diferentes culture worlds com base na classe social das suas audiências típicas e nas características dos contextos em que são produzidos: (a)
2. The art of scientific memory. Mapeamento teórico dos sons e lugares 31 os network oriented que funcionam muito dentro de uma lógica informal, em que os criadores e os consumidores/ frequentadores assíduos se conhecem e se relacionam (mesmo porque estes consumidores normalmente conhecem as convenções que estão por detrás das criações artísticas) e em que as organizações culturais (small cultural organizations) fornecem os recursos para a produção, disseminação e exibição destes trabalhos. Esta combinação, para além de atrair as pessoas mais jovens, propicia a contínua troca de ideias entre criadores e audiências, estimulando uma “produção de cultura que é ou esteticamente original, ideologicamente provocadora, ou ambas”; (b) os culture worlds em que as organizações se movem pelos lucros (profit-oriented small businesses) e em que, por isso, “a atividade dos criadores se concentra na própria organização mais do que numa rede de outros criadores. O objetivo é produzir trabalhos que agradem a uma audiência ou uma clientela e não que choquem ou provoquem”; (c) e, por fim, os culture worlds onde as organizações predominantes são as sem fins lucrativos (non-profit organization) e em que os objetivos passam não pelo desenvolvimento de novas produções, mas pela preservação das tradições étnicas e artísticas existentes (Crane, 1992: 113114). 2.4. Uma contemporaneidade irresistível: as tribos Também o conceito de tribos desenvolvido por Michel Maffesoli, não deve ficar de parte desta nossa incursão teórica. Na base desta noção, está a ideia de que o homem, mais do que um ser racional, é um ser complexamente de opostos, um ser que acaba sempre por trazer à tona as suas características mais tribais, arcaicas (Maffesoli, 2010: 7). Por isso, segundo Maffesoli (2007: 98), a exacerbada racionalidade dos tempos modernos conduziu as sociedades a maiores níveis de emotividade: “depois da dominação do «princípio do logos», o de uma razão mecânica e predizível, o de uma razão instrumental e, estritamente, utilitária, assiste-se ao retorno do «princípio do Eros».” Ora, esta maior necessidade de emoções (que leva o autor a falar da “eterna criança” que todos (mesmo todos) procuram viver (Maffesoli, 2007: 99)) permite-nos entender o porquê de Maffesoli afirmar que estamos a viver tempos em que o individualismo está a dar lugar à indiferenciação, tempos em que o social altamente racionalizado está a dar lugar à urgência de uma sociabilidade empática: hoje já não importam os universalismos modernos, nem tão-pouco as pertenças grupais singulares e tradicionais (baseadas na classe, género, religião, etc.); hoje, as pessoas procuram viver vidas altamente ativas e emocionantes, sem que isso se traduza necessariamente em trajetórias com qualquer tipo de fim/ objetivo (o que importa é o agora, só depois vem o futuro); vidas em que todos os momentos são bons para se viver, e viver, não
Sons e Lugares: trajeto e retrato da cena rock no Tâmega 32 sozinho, mas em grupo; não num grupo, mas em vários grupos. São tempos de grande transitoriedade, fugacidade, heterogeneidade e até de confusão; tempos de identidades não unas, mas plurais; tempos paradoxais em que, se por um lado, os indivíduos sentem necessidade de partilhar as suas emoções, de criar raízes e vínculos, por outro, dada a sua ânsia emotiva, não conseguem pertencer apenas a um ou a alguns grupos (Maffesoli, 1998: 20-22; 2007: 98-100). É, neste contexto, que Maffesoli propõe o conceito de comunidade emocional como forma de descrever as neo-tribos urbanas, as quais, assim entendidas, são caracterizadas “pelo seu aspeto efémero, a sua «composição mutável», a sua inscrição local, a «ausência de organização»…” (Guerra, 2010: 428). O conceito de tribo acaba, assim, por dar um importante contributo para o entendimento dos gostos e das escolhas dos estilos de vida, na medida em que se os indivíduos anseiam agrupar-se a outros indivíduos a si semelhantes e ao mesmo tempo estão sempre a mudar de grupo de referência, então facilmente se percebe o porquê da vinculação a um determinado estilo ou gosto ser tão efémera e fluída (Bennett, 1999: 611). Apesar de tudo, o facto é que também esta noção não escapa a críticas. Simões et. al (2005: 182), a este respeito, acusam o conceito maffesoliano: primeiro, de se entregar demasiado ao livre arbítrio individual e de não ter em linha de conta as influências da estrutura social sobre as práticas dos indivíduos; segundo, de parecer querer “esvaziar ideologicamente essas mesmas práticas, considerando-as destituídas de qualquer motivação ideológicodiscursiva e, por isso, sem efeito prático aparente”, não sendo, portanto, capaz, segundo Muggleton e Weinzierl (2003: 12), de explicar as novas formas de ativismo político que se desenvolveram nos últimos anos no seio das culturas juvenis 2.5. Uma materialidade incontornável: as cenas atuais A noção de cena cultural, alicerçada nos conceitos de campo de Bourdieu e de art world de Becker (Bennett e Peterson, 2004: 3), é, segundo vários autores, a noção que melhor consegue captar as dinâmicas culturais, muito embora, como nos alerta Paula Guerra (2010: 441, 465), seja uma noção que não consiga abranger toda a complexidade do campo cultural (procurar um tal conceito ser-nos-ia penoso, dado que tal não existe). É, no entanto, um conceito, por estranho que possa parecer, que não surgiu no seio da academia científica, mas sim com os jornalistas e turistas que já há muito falavam das cenas para se referirem a determinados clusters de atividades socioculturais (que se agregavam pela sua localização – normalmente uma cidade ou um distrito – ou pelo tipo de produção cultural – por exemplo, um estilo de música) (Bennett, 2004: 223; Straw, 2004: 411).
2. The art of scientific memory. Mapeamento teórico dos sons e lugares 33 Somente nos anos 90 o conceito foi assumido dentro das análises científicas, devido, sobretudo, a um famoso artigo de Will Straw – Cultural scenes (1991). A partir de então, o conceito tem vindo a ser cada vez mais utilizado como modelo para as análises sobre a produção, performance e receção da música popular (Bennett e Peterson, 2004: 3). De uma forma elucidativa e sinóptica, poderíamos (como faz Alan Blum (2001)) dizer que as cenas são caracterizadas: (1) Pela espacialidade. Nesta noção o espaço possui uma grande importância. Nele se inscrevem práticas diferenciadas e inter-relacionadas que com ele também mantêm uma relação de reciprocidade. Alan Blum (2001: 10) refere, inclusivamente, num dos seus artigos, que a cena sempre esteve e está muito ligada à cidade. Segundo o autor, existem mesmo situações em que a cena e a cidade são tão indistinguíveis que se chega a questionar se a hospitalidade (que todos aceita) da cidade não anulará a exclusividade e o carácter distintivo da cena. Para percebermos tal proximidade, bastará tão-somente pensarmos em noções como cidade-fantasia (Hannigan), urbanismo de ficção (Harvey) ou cidade-palco (Amendola), noções onde a simulação e o espetáculo estão a tomar conta do quotidiano, dos espaços e da experiência metropolitana e onde a cidade, essa, aparece cada vez mais como um espaço de heterotopias em que já não se consegue distinguir a cidade do seu relato (Gonçalves, 2002: 211; Lopes, 2002: 44, 54). Mas, não se pense que a extensividade da cena se reduz à cidade. “Devido às tecnologias de comunicação e à mobilidade dos suportes culturais físicos – como fita K7, CD, Vinil, etc., bem como shows e turnês – os limites da cena” alargaram-se. Claro que o núcleo inicial da cena pode continuar a ser o seu foco principal, mas isso não esconde o facto dela se estender para outros sítios (Junior e Pires, 2011: 13). Bennett e Peterson (2004: 6) referem que todo este desenvolvimento tecnológico permitiu que mais pessoas tivessem acesso, por exemplo, a suportes de gravação de música; a tecnologia de hoje para além de tornar os processos mais baratos, garante uma qualidade semelhante aos antigos processos de gravação; assim, cantores e bandas não precisam mais de ter o apoio das grandes editoras para receber a atenção do público, conseguindo fazer tudo sozinhos, desde a gravação até mesmo à própria divulgação das suas músicas, pois, com o desenvolvimento da internet, a comunicação entre os artistas e os seus fãs tornou-se mais fácil. Neste contexto, também o nascimento das cenas (assim, como a sua morte) se tornou mais facilitado, podendo-se encontrar cenas, não só nas cidades, nos meios urbanos, como também nos meios ditos mais rurais, mais afastados dos grandes centros. Ao mesmo tempo, a cena deixou de ser apenas local; hoje ela também pode ser translocal e até virtual (internet) (Bennett e Peterson, 2004: 6). Mesmo porque as cenas culturais, tal como o
Sons e Lugares: trajeto e retrato da cena rock no Tâmega 34 espaço, não se definem simplesmente pelas coisas materiais, pela arquitetura, mas pelas regras, pelas práticas, pelas instituições e pelos significados que a elas se encontram associadas (Filho e Fernandes, 2005: 6). As cenas culturais existem porque, como iremos ver nos pontos seguintes, existe todo um aparato cultural, simbólico, social, económico (para além de espacial, claro) por detrás delas. (2) Pela regularidade. A existência de cenas só é possível porque as pessoas a visitam frequentemente, regularmente; na medida em que possuem clientes assíduos que com ela desenvolveram um compromisso real e que, por isso, se for necessário, estão inclusivamente dispostos a sacrificar-se para poderem continuar a frequentá-la (Blum, 2001: 10). (3) Pela efemeridade, mortalidade, volatilidade. As cenas fazem-se e desfazem-se rapidamente. O que não faz delas menos importantes para a cidade. Não. Essa efemeridade até lhes possibilita ter um papel ainda mais criativo, produtivo e funcional dentro da vida urbana. (4) Pela coletivização. As cenas, na maioria das vezes, surgem por vontade dos habitantes locais, o que (para além de revelar mais uma vez a importância que estas têm) revela a existência de uma coletivização, a existência de intensas sociabilidades, de grupos de indivíduos que possuem interesses interrelacionados e que exteriorizam, partilham, trocam ideias acerca desses interesses e gostos, fazendo com que as cenas influenciem a “forma mediante a qual as cidades são organizadas, vistas e experienciadas” (Blum, 2001: 11-13; Filho e Fernandes, 2005: 6; Straw, 2004: 412). Mas, atenção, esta coletivização pouco tem a ver com o conceito de comunidade. Bennett e Peterson (2004: 8) dizem que este equívoco muitas vezes se comete, por exemplo, quando se fala da apropriação que as cenas fazem dos estilos musicais globais, como se as cenas criassem algo totalmente distinto do mainstream global. É certo que as cenas espelham o local e as pessoas que lhe deram vida; no entanto, deve-se ter em linha de conta que as cenas constituem, na maioria das vezes, momentos e locais que se (re)apropriaram de signos culturais de outros locais; símbolos que foram recombinados é certo, mas ainda assim símbolos de outros locais. (5) Pela teatralidade. Nas cenas, exige-se uma certa performance, como se uma espécie de compromisso social existisse em que as pessoas acordam agir de uma certa maneira num determinado espaço e num determinado momento temporal. Nas cenas, todos querem (e têm que) ser vistos a ver; todos possuem um desejo não simplesmente de voyeurismo (ver) mas de exibicionismo (ser visto) e, por isso, as cenas acabam por funcionar como ocasiões para a exibição (Blum, 2001: 14-16). (6) Pela transgressão. Porque nas cenas existe um desejo de exibicionismo, não espanta que outra das características das cenas diga respeito à transgressão. Não uma transgressão que
2. The art of scientific memory. Mapeamento teórico dos sons e lugares 35 evoca outros estilos de vida, outros valores culturais ou doutrinas esotéricas, mas uma transgressão que convida para o diferente, para o exibicionismo, para o espetáculo, para a participação, para o desanuviar da rotina quotidiana (ex: participar num karaoke) (Blum, 2001: 16-18, 22-25). Da mesma forma, não se trata de uma transgressão idêntica à vivida pelas subculturas, em que todos os seus participantes se movem por padrões subculturais comuns. Não. Como dizem Bennett e Peterson (2004: 3), claro que algumas pessoas poderão viver intensamente e plenamente a vida da cena, mas a grande maioria das pessoas que a frequentam terão identidades, comportamentos diferentes consoante estejam dentro ou fora da cena, como se de uma máscara se tratasse. Ora, isto vai de encontro à teatralidade de que falamos à pouco e ao contexto de fugacidade e transitoriedade das identidades de que falamos a propósito de Michel Maffesoli e das suas tribus. (7) Pelo espetáculo. Se as cenas reclamam a visibilidade dos seus participantes, também terão que fazer por isso. As cenas, mais que impressionar e fascinar, desejam seduzir e atrair; mais que a mera curiosidade, procuram incitar a contínua visitação através de programas diversos. Aliás, é na gestão desta característica que reside a resposta para o sucesso de certas cidades e o fracasso de outras, porque a cidade torna-se num ícone memorável através das diversas possibilidades de sedução que oferece (Blum, 2001: 18-20). (8) Pela inter-relação. As cenas culturais relacionam-se com outras cenas culturais, como a teatral, a literária, a cinematográfica, a musical, o que permite criar programas culturais mais apelativos para as pessoas. (9) E pela mercantilização. A cena está impregnada de elementos da economia política, porque, afinal, como já se deve ter percebido, as cenas representam “ocasiões oportunas para os investimentos e para a criação de consumidores”, e, por isso, elas “são feitas e desfeitas sob o insaciável desejo de maximização de lucros e minimização de perdas (…). É claro que,” como diz Blum, “este desejo de mercantilizar as cenas ou, vice-versa, de transformar os mercados em cenas, exprime a vingança concertada do espectador ocioso sobre a cidade, que tenta tornar a criatividade desta em algo lucrativo.” No entanto, o facto é que se do discurso das cenas fazem parte os fãs, os turistas, os excêntricos, também dessa aura fazem parte os negócios, o comércio e a mediatização e massificação. “Uma mistura de comércio e criatividade marca a cidade e as cenas.” (Blum, 2001: 25; Guerra, 2010: 456). E a noção de cena demarca-se de outras precisamente porque tem em linha de conta o facto de as cenas não serem somente “o resultado de interações puramente sociais, mas também, a consequência da lógica da produção e da comercialização” (Filho e Fernandes, 2005: 5). Assim se explica a mítica cena cultural da
Sons e Lugares: trajeto e retrato da cena rock no Tâmega 36 cidade das luzes e dos jogos que é Las Vegas ou a Paris romântica e tantas outras que existem mundo fora. E é assim que eu tentarei explicar e exemplificar a cena rock existente no Tâmega. 2.6. Cenas musicais afetivas e reforçadas Bourdieu defende o espaço social enquanto representação abstrata conseguida através da multiplicidade de construções que um agente concretiza ao longo da sua quotidianidade; da sua trajetória de vida. É, ilustra o sociólogo, uma visão aérea, um mapa, construído pelo agente a partir de um determinado ponto. É um modo de ver o mundo social. Sublinhe-se um modo – um olhar –, que é consequente da posição que o agente ocupa nesse espaço e donde exprime a sua vontade de o transformar ou de o conservar (Bourdieu, 1998). Esse modo de ver remete o agente para uma totalidade do espaço social que nunca poderá ser de facto apreendida; é um mundo social representado, ou seja é um espaço social dos estilos de vida. “Bernard Lahire apresenta algumas limitações do modelo bourdiano, pois considera que este não revela a plasticidade dos efeitos sobre os indivíduos das condições contemporâneas de socialização bastante heterogéneas, designadamente através da pluralidade de influências socializadoras e de contextos de práticas e consumos culturais. A constatação da grande diversidade de perfis culturais individuais e da grande importância dos perfis dissonantes patenteia a importância da especificidade do social incorporado, do social à escala individual.” (Guerra, 2010: 501). No entanto, parece relevante assumir a importância do espaço social relacional bourdiano no reforço às cenas musicais no tocante às suas posições e estratégias e dinâmicas de funcionamento num espaço de lutas e de conflitos pela detenção da música legítima, pela busca de uma visibilidade musical no Tâmega. Este reforço permite avançar que o trabalho aqui apresentado é definido, em termos analíticos, por uma abordagem pós-estruturalista ou pós-subculturalista que não prescinde da pertinência e acutilância da desigual distribuição de capitais ou da praxis da desigualdade social de Bourdieu. Para além deste reforço, recentemente, Andy Bennett (2013) permitiu uma maior moldagem do conceito de cena ao referir o seu caráter afetivo, mostrando que a participação dos atores numa dada cena musical pode ser feita por memória, pela lembrança dos tempos em que participaram. Assim, existe uma sentimento de apego a uma cena mesmo que dela não façamos parte atualmente. Esse apego funda-se no interesse, na busca de revivificação identitária e também na reatualização do curso e trajetória de vida dos indivíduos.
37 Cooking an object Objetos, metodologias e técnicas plurais 3.1. Defining the ingredients 3.1.1. Um imbricado de hipóteses Na base deste estudo está, como fomos vendo no início desta dissertação, uma série de hipóteses que nós, através de observações e de estudos já existentes, fomos pensando que poderiam aplicar-se ao contexto analisado. Vimos, no capítulo um, que a par dos movimentos de globalização e de homogeneização, subsistem movimentos de localização, diferenciação e hibridização, e, nesse sentido, acreditamos que esta região (a do Tâmega) não constitui uma mera extensão de territórios mais centrais, nomeadamente do Grande Porto. Em primeiro lugar, vimos que esta é uma região bastante jovem (das mais jovens da Europa), o que, por certo, nos poderá dar uma relativa confiança quanto à existência, nesta região, de dinâmicas em torno das culturas juvenis, nomeadamente ligadas ao pop rock. Isto, porque também nós (autores deste texto) crescemos no contexto do Tâmega e, nesse sentido, tivemos oportunidade, ao longo dos anos, de presenciar ao desenvolvimento de uma cultura de “saídas à noite” por parte da população mais jovem. Ao mesmo tempo, fomos assistindo, em segundo lugar, a um crescendo de jovens dedicados à música, e especialmente à música rock, e, em terceiro lugar, a um desenvolvimento musical em torno de pequenos eventos em espaços (cafés, bares) pouco usuais até então. É certo que não possuíamos informações acerca de todos os concelhos constituintes da região do Tâmega, mas, sabendo nós, que esta é uma região que, apesar de algumas diferenças internas, possui características mais ou menos semelhantes em muitos dos domínios da realidade social, julgamos que a evolução a que íamos assistindo quotidianamente fosse mais ou menos transversal a todo o território desta NUT III. Em quarto lugar, devido a esse desenvolvimento em termos de indivíduos e de espaços dedicados ao rock, e até mesmo à perceção de uma evolução na produção criativa (músicas originais, lançamento de registos fonográficos) das bandas que iam surgindo, acreditamos que aqui existam dinâmicas em torno do pop rock que possam ser consideradas distintas de outras cenas, ainda que com tendência à convergência. Falamos, por exemplo, de dinâmicas de informalidade (tão características desta região como podemos perceber no capítulo um) e de outras
Sons e Lugares: trajeto e retrato da cena rock no Tâmega 38 de pendor mais profissional (medidas, por exemplo, pelo número de registos fonográficos lançados) que parecem desenvolver-se, então, a par dessa informalidade. Em quinto lugar, e porque estamos perante uma região pouco desenvolvida económica e culturalmente, acreditamos que, tal como os indivíduos que emigram em busca de melhores condições de vida, também estes músicos (a avaliar o desenvolvimento daquelas dinâmicas ditas mais profissionais) tenham esperança de encontrar na música uma porta para uma outra qualidade de vida, ou, então, de pelo menos nela encontrar uma forma de libertar as angústias e de aclamar ao mundo as questões que mais os inquietam. Por fim, e ainda tendo em conta o contexto pouco desenvolvido desta região, acreditamos que, aqui, os processos de digitalização e virtualização da música (que se têm vindo rapidamente a verificar por todo o mundo) se façam sentir, talvez, mais do que em qualquer outro contexto português, ainda que tenhamos a perceção de que esses processos não afaguem o poder que o “local” detém sobre a evolução do pop rock no Tâmega. 3.1.2. It’s only rock? Não é fácil clarificar a questão que nos levou a construir este ponto do texto. Algo que nos parecia, no início, um dado adquirido, passou a ser tema complexo. A literatura existente dá conta dessa complexidade, mas acaba por ser muito pouco esclarecedora, fazendo uso dos diversos termos de forma contraditória (Regev, 2013: cap. 1.2.; Wicke, 1990: xi). Por isso, dentro do que nos é possível, tentaremos dar o nosso contributo para uma melhor e mais límpida compreensão sobre este tópico (embora, ressalve-se, não existam respostas tão claras quanto as que gostaríamos de ter). O que é, afinal, o rock? É, pois, a questão de fundo, neste primeiro momento. Segundo Frith (2012), não existe uma definição comummente aceite, desde logo, porque, como diz Brackett (2002: 67), um género musical não se define apenas pelas suas características estritamente musicais, mas também pelos seus “rituais performativos, pela sua aparência visual, pelas conotações sociais e ideológicas a ele associadas, e pela sua relação com as condições materiais de produção”. Mas, se assim não fosse, a questão não seria menos confusa; não é fácil conferirlhe características que mais nenhum género possua; poderíamos distingui-lo pelos seus instrumentos musicais característicos, pelo seu forte ritmo, mas não encontraríamos esses atributos noutros géneros musicais também? (Frith, 2012) Se (se) algum dia o rock exibiu uma definição clara, rapidamente deixou de a exibir. Ao longo da sua existência, o mundo da música foi-se tornando cada vez mais próximo do mundo do rock (Regev (2002; 2011) fala mesmo da poprockização da música popular) e, nesse contexto, tornou-se cada vez mais difícil dizer quem é
3. Cooking an object. Objetos, metodologias e técnicas plurais 39 o quê. Aliás, para Scaruffi (2010), o rock nunca constituiu um “estilo uniforme, monolítico, mas simplesmente um encadeamento histórico de eventos”, tamanha tenha sido a sua influência sobre os outros géneros já existentes e a quantidade de géneros que se criaram sob a sua alçada. Bom, este emaranhado de estilos musicais (que já bastava para uns bons nós mentais nas nossas cabeças) leva-nos à segunda parte da nossa problematização: a relação do rock com a pop e a popular music. E, aqui, importa, antes de mais, entender o que é a pop e a popular music (ou pelo menos, dar-lhes um sentido fixo para efeitos deste trabalho), pois até neste ponto existem usos terminológicos imprecisos. Por um lado, há quem use esses termos como sinónimos, indiscriminadamente e indiferenciadamente; por outro, temos autores (herdeiros de uma tal teoria da cultura hierarquizada (cf. Santos, 1994a)) que, apesar de atribuírem a ambas as noções algumas características semelhantes, argumentam que a música pop é impura e comercialmente orientada, ao passo que a popular music seria uma forma de cultura mais autêntica e mais orientada para as pessoas. Portugal é um claro exemplo deste último uso dos termos, em que a música popular, diríamos, tem um significado que se prende mais ao que noutros países se chamaria de folk music (Rojek, 2011: 1; Shuker, 2001: 2). Como resolver a questão? Vejamos com maior pormenor (que o problema assim o exige) o que a literatura diz a este respeito. Simon Frith (2004a: 95-96) distingue a pop music segundo quatro critérios: (1) O mercado: o pop não procura nichos, não se move por gostos particulares; ele é, sim, pensado e desenhado para agradar a todos; (2) A ideologia: o pop não tem outras ambições que não sejam os lucros e as recompensas comerciais; oriundo do light enternainment/ easy listening, ele não tem pretensões de suscitar ativismos políticos ou quaisquer outros tipos de comportamentos e pensamentos mais revolucionários nos seus ouvintes; ele mais não almeja do que dar às pessoas o que se sabe que realmente elas querem; (3) A produção: o pop é um negócio, uma variante musical profissionalmente produzida e distribuída que, por isso, provém de cima, das editoras, das rádios, etc., e não de baixo, das pessoas; a sua importância reside, portanto, nos compositores profissionais, nas editoras e nas estrelas (cantores) pop; (4) A estética: embora pensado para as massas, o pop procura “tocar os corações” de cada um; para isso, faz uso de clichés, estereótipos (recorrentemente sobre o amor, a perda, o ciúme) e de performances artísticas que enfatizem o que se está a cantar. Perante estas características, segundo Rojek (2011: 3), existem autores que concluiriam que a pop music deveria ser tratada como um género distinto dos outros; dentro do “guarda-
Sons e Lugares: trajeto e retrato da cena rock no Tâmega 46 traçar uma panorâmica geral sobre o que existe na região do Tâmega ao nível da criação, produção e divulgação da música rock. Desta feita, construímos (de raíz) um web survey (que preenchesse campos como “n.º de bandas”; “n.º de álbuns editados”; “dimensão média das bandas”; etc.) com base nas informações que se encontravam disponíveis na internet (blogs, fóruns, MySpace, Facebook) para que, dessa forma, nos fosse possível delinear as características mais fortes desta região a esses níveis. Ainda que o facto de nos termos baseado na pesquisa online tenha as suas vantagens (nomeadamente, o largo acesso à informação disponível), não podemos deixar de aqui mencionar as suas desvantagens, designadamente em termos de acesso a informação mais antiga, já que, em Portugal, o acesso massivo à internet é recente. Em contrapartida, como dissemos, teremos com certeza bastante mais informação do que aquela que as pessoas (inquiridas ou entrevistadas) nos poderiam dar. O desconhecimento acerca do que existe por parte dos locais da região é mais ou menos considerável, mesmo porque, como iremos ver, as dinâmicas musicais do Tâmega não atingem níveis de profissionalização que as tornem mais (re)conhecidas. No entanto, sempre que possível, este web survey foi complementado com as informações que as pessoas (nomeadamente, em momento de entrevista) nos podiam dar. Há ainda que referir que, para este estudo, a propósito do que vimos umas páginas atrás, foram consideradas todas as bandas, todos os artistas que se auto designassem como sendo bandas/artistas de rock (tivessem ou não lançado álbuns). Os únicos elementos excluidores foram, nesse contexto, tão-somente a falta de informação (como a naturalidade da banda/ artista ou o género musical). A observação direta não tão usada quanto o gostaríamos (pois as disponibilidades temporais e monetárias assim nos impossibilitaram de movimentar mais entre os diferentes eventos que foram ocorrendo), foi, no entanto, estando presente ao longo do nosso estudo, seja nos momentos de entrevista ou de inquirição. Esta é uma técnica privilegiada, na medida em que permite a recolha de dados autênticos (já que não têm interferência dos juízos e subjetividade dos participantes dos eventos) e em tempo real. A entrevista semiestruturada, técnica emblemática do paradigma qualitativo, foi aqui utilizada para aprofundarmos as nossas informações, nomeadamente no que toca à evolução diacrónica e sincrónica da cena rock no Tâmega ou às vivências dessa cena por parte dos entrevistados. Apesar de termos conseguido chegar a pessoas da maioria dos concelhos, alguns concelhos tiveram de ficar de fora da nossa análise (nomeadamente, Baião, Amarante, Cinfães, Mondim de Basto, Resende e Ribeira de Pena), pois não tivemos como contactar pessoas de lá. E aqui há que referir o apoio crucial dos entrevistados (que, num movimento de bola de neve,
3. Cooking an object. Objetos, metodologias e técnicas plurais 47 nos levaram a pessoas importantes) e das redes sociais (as quais, nos permitiram contactar pessoas que desconhecíamos e a quem não teríamos acesso se não fosse dessa forma). Apesar de tudo, julgamos o resultado satisfatório: como referimos, conseguimos cobrir quase todas as zonas, e obtivemos respostas de pessoas com funções diferentes dentro da cena musical do Tâmega, conseguindo, assim ter um espectro de origens mais ou menos diverso e representativo da realidade social. Os entrevistados, como dissemos, foram escolhidos pela junção, fundamentalmente, de dois fatores: a sua importância na cena e/ ou a sua disponibilidade/ facilidade de contacto. Além dos entrevistados residentes/ naturais do Tâmega, abordamos também alguns atores residentes noutras zonas, como forma de obtermos uma visão comparativa e de conseguirmos posicionar melhor o Tâmega no contexto musical mais alargado. Quadro 3.1. - Amostra das entrevistas semiestruturadas Concelho de origem N.º de entrevistados Cabeceiras de Basto 4 Castelo de Paiva 1 Celorico de Basto 1 Felgueiras 2 Lousada 2 Marco de Canaveses 7 Matosinhos 1 Paços de Ferreira 2 Paredes 2 Penafiel 3 Porto 6 Total Geral 31 O inquérito por questionário estruturado com o propósito de alcançarmos uma perspetiva mais alargada sobre a música e a cena musical do Tâmega, foi construído tendo por base uma amostra teórica que pretendia-se ser capaz de atingir alguma da diversidade dos jovens “fãs” do rock. Com a pouca informação que tínhamos (pouco mais que o número de jovens residentes nesta região) e com a heterogeneidade que logo se nos apresentou (para além de serem “fãs” de todas as idades, essa heterogeneidade ainda variava de acordo com os locais), foi-nos impossível pensar numa amostra que fosse além dos critérios regionais. Assim, a nossa amostra (uma amostra não aleatória) baseou-se na, academicamente conhecida, amostra por quotas, procurando dar conta dos pesos que o número de jovens (dos 16 aos 40 anos) de cada concelho tinha na população total do Tâmega; como não tínhamos como inquirir em algumas terras (dada a inexistência de locais e de eventos para isso), compensamos essa insuficiência com a abordagem de mais pessoas de outras zonas (ver quadro
Sons e Lugares: trajeto e retrato da cena rock no Tâmega 48 1). Essa dificuldade leva-nos a uma outra que, também neste texto deve ficar registada: o facto de ser uma amostra não aleatória e de, por isso, a escolha dos inquiridos e dos locais de inquirição sofrer de uma maior subjetividade do investigador (ainda que, neste sentido, a nosso favor esteja o facto de não existirem muitos espaços por onde se pudesse escolher e, assim, tivéssemos maior probabilidade de conseguirmos chegar à maioria dos apreciadores de rock). Deste modo, alertamos para o facto de não estarmos aqui a tentar desenhar uma visão generalista, universalizante; os dados aqui revelados deverão ser lidos tendo sempre presente que se reportam à região do Tâmega (ainda que acreditemos (e os vários estudos por nós lidos a isso nos conduzem) que muitas das dinâmicas encontradas nesta região sejam características de um contexto mais vasto). Para finalizar, importa justificar a nossa opção quanto ao modo de inquirição: o da administração indireta (inquirição realizada pelo investigador). A sua explicação é muito simples, mas, julgamos, de extrema importância para a obtenção de dados. O nosso objeto de análise faz-se acompanhar de intentos de diversão, de socialização por parte dos seus públicos; foram esses os momentos (os de contacto explícito com o rock – as saídas de sábado à noite, as idas aos concertos) escolhidos para inquirição; mas se esses momentos, por um lado, nos dariam maior probabilidade de contactar realmente com os fãs do rock, por outro, trazía-nos os “barulhos” e as “indisponibilidades para papéis” característicos destes momentos de diversão e de “desanuviação” do self; por isso, se não tivéssemos optado pela administração indireta do inquérito por questionário, o mais provável que nos acontecesse (e isso foi-nos, inclusivamente, dito por alguns atores juvenis) era que não obtivéssemos tantas respostas quanto as que desejaríamos. O inquérito administrado via online também poderia ter sido uma opção (e por nós também foi ponderada), mas devido a esse receio da não-resposta (que, novamente, também foi compartilhado por alguns atores juvenis) rejeitamos tal opção. E, agora sim, para finalizar, resta referir o porquê do nosso inquérito ter sido construído de forma aberta. A resposta a esta questão resume-se ao que acabamos de mencionar, ainda que (e isso não podemos deixar de frisar) os nossos inquiridos tenham sido muito recetivos à nossa intrusão nos seus contextos de socialização. Já Weber nos havia falado da importância das redes ao nos demonstrar o quão relevante é a rede de amigos para a manutenção do status. Cummings-Russel e Rantisi (2012: 94) sugerem o mesmo ao afirmar que, “na música, os profissionais progridem nas suas carreiras ao conhecerem as «pessoas certas»”. Ora, se nós, como dizem Hansen et al. (2011: ix; itálico nosso), “vivemos na era das networks”, então não há porque não tentar fazer uso da análise de redes. É verdade que não é aqui nossa ambição elaborar uma tipologia dos campos à boa
3. Cooking an object. Objetos, metodologias e técnicas plurais 49 maneira bourdiana (pois a reduzida magnitude do nosso campo de ação a isso não nos permite), mas isso não significa que não podemos usar na mesma a análise de redes. Esta técnica permitiu-nos, efetivamente, conhecer melhor a dinâmica desta cena, as relações que existem no seu seio, entre atores, entre zonas geográficas, e, assim, alcançar uma compreensão mais sustentada da importância e peso desta região no contexto português mais alargado. Quadro 3.2. - Amostra do inquérito por questionário Concelho N.º de jovens inquiridos Amarante 15 Baião 0 Cabeceiras de Basto 6 Castelo de Paiva 4 Celorico de Basto 6 Cinfães 6 Felgueiras 17 Lousada 6 Marco de Canaveses 16 Mondim de Basto 3 Paços de Ferreira 21 Paredes 24 Penafiel 21 Resende 0 Ribeira de Pena 0 Total 145 Figura 3.2. - Teia técnico metodológica
Sons e Lugares: trajeto e retrato da cena rock no Tâmega 50
51 This is Tâmega zone! Contexto e dinâmicas de uma cena musical A cena é sempre igual, Nem dá p'ra perceber/ Ou corre mal ou mal, ás vezes não sei o que escolher/ Não sei se vou voltar, eu já me estou a arrepender/ Ou eu me atiro ao mar, ou levo um tiro p'ra morrer/ Mas sei que ás vezes não consigo ver aquilo que está a meus pés,/ Então vem, eu já não tenho ninguém!!/ Estava muito confuso, os copos a ajudar/ Foi aquela mocita, que me pôs a atrofiar/ Eu não tinha mais bago, nunca mais a vi/ Sabia que ia ser assim, p'ra mim isso já morreu/ A cena é sempre igual, nem dá p'ra perceber/ Ou corre bem ou mal, ás vezes não sei o que escolher/ Não sei se vou voltar, eu já me estou a arrepender/ Ou eu me atiro ao mar, ou levo um tiro p'ra morrer. Gritali & os Tratantes 8 (2007) - Que Cena! Em Estado de Rock! No Tâmega parecem existir pequenos núcleos que vão alimentando o rock. Umas coisas aqui, umas coisas ali, que vão surgindo, que se mantêm uns anos, e que depois desaparecem: característica da cena e das próprias tribos, fluídas e transitórias… Imagine-se uma nuvem, uma nuvem rock que, ao longo dos anos, parece ter sido levada pelo vento para outras terras, espalhando o interesse e o gosto por este género musical. Esta é uma cena, diríamos, inter/independente: inter, porque, como iremos ver, existe um certo intercâmbio entre as diferentes zonas do Tâmega, mas mantendo-se sempre uma determinada independência dos concelhos aos mais variados níveis da cena (daí ser, ao mesmo tempo, independente). No fundo, poderíamos imaginar uma micro-cena (porque, apesar de tudo, o Tâmega não deixa de ser uma micro-cena rock num campo mais vasto) com algumas micro-micro-cenas; umas que se conseguem sustentar melhor, outras que necessitam de maiores apoios externos. Nos anos 90 e inícios dos anos 2000, parecem ter sido os concelhos de Paredes, Penafiel, até mesmo de Castelo de Paiva que mais movimentaram esta cena rock. Com o advento do novo milénio, outras terras emergiram: sobretudo, Marco de Canaveses e Paços de Ferreira. 4.1. Atores, espaços e dinâmicas de sociabilidade musical Em termos de espaços de fruição rock, quase todos os entrevistados indicam o declínio do seu número. Espaços existentes há uns anos e que tiveram importância na transição do século XX para o século XXI parecem ter sido o Ribeira Bar de Paredes, o Sunny Side de Lousada ou o Sindicato de Castelo de Paiva. Nos dias de hoje, assumem maior importância o Canecas Bar de Paços de Ferreira, o Wood Rock de Marco de Canaveses ou o Roque Bar de Lordelo (Paredes). No entanto, devemos frisar a existência de dois tipos de movimentos nesta nossa cena rock: uma que tenta ser o mais profissional possível (ancorada numa certa formalidade) e outra 8 Trata-se de uma banda de rock oriunda de Recarei do concelho de Penafiel no Tâmega. Cfr. http://gritali.blogs.sapo.pt/.
Sons e Lugares: trajeto e retrato da cena rock no Tâmega 52 que se sustenta mais pela informalidade. Esses dois movimentos, essas duas dinâmicas não são de hoje; elas são visíveis ao longo de toda a primeira década do século XXI, mas exibem uma tendência para a convergência: se há uns anos, segundo os nossos entrevistados, existiam mais bares dedicados ao rock (leia-se exclusivamente dedicados e que regularmente tinham live acts) ou “grandes” festivais (reconhecidos no meio rock da zona), também existia um movimento mais underground promovido pelos apreciadores de rock nos seus domínios mais privados; hoje, assistimos à precarização do primeiro, mas a uma elevação do segundo: as pessoas que tocavam gratuitamente no passado no seio dos seus núcleos mais restritos, tocam agora também gratuitamente nos espaços semipúblicos de fruição deste rock. Ao mesmo tempo, o império dos bares exclusivamente dedicados ao rock viu-se abalado pela chegada dos live acts em cafés e outros espaços cuja função não é o rock e, às vezes, nem tão pouco é a música. Assim, o número de espaços rock pode ter diminuído sim, mas com certeza alargaram-se as possibilidades de atuar (ainda que com todas as desvantagens que isso tenha acarretado, mas que, sabemos, não é exclusivo do Tâmega). Antes havia mais sítios para tocar do que agora; agora há poucos, pelo menos aqui nas redondezas havia mais. Havia o Diferenças, havia o Ribeira, tinha esses dois bares que metia muitas bandas a tocar na altura. Em Penafiel nem se fala, o maior festival de metal era lá que se fazia e iam lá bandas, iam ao Momentos, iam ao Jard ‘Água e assim. Agora muito dificilmente metem uma banda de metal ou punk a tocar aí nos bares, é muito complicado. Eu acho que existe mais [oferta] agora, acho que sim. Existe mais agora mas também é mais complicado tocar em bares ou assim se estivermos a falar dentro do punk. Agora rock, ainda há bares que metem. Leonardo, 30 anos, músico, Marco de Canaveses 9 Havia dois sítios, mas agora já não existem, por motivos diferentes. Havia um bar chamado Sindicato só que era tipo num casarão sei lá antiquíssimo [arrendado por] uma pessoa privada que fez lá tipo um bar alternativo, faziam muitos concertos e também se acabava por juntar esse núcleo duro: fazíamos lá montes de concertos, vieram também bandas de fora tocar cá; depois fazíamos muitas jams sessions, estás ver? (…) Só que isso depois, (…), acabou-se. Isso era num sítio público. Depois nós tínhamos uma casa, lá em Castelo de Paiva tipo há montes de praiazinhas do Rio Paiva na floresta, e nós tínhamos uma casa na floresta que era em Várzea, (…) e fazíamos lá montes de festas, mas isso eram cenas privadas. [Hoje] Há tipo bares tipo mais underground, mas é tudo, não há uma industria nem mercado, percebes? Hélder, 31 anos, designer multimédia, músico, Castelo de Paiva Quando os espaços são poucos temos de variar. Aquilo tinham um café onde nós íamos, que era o café Colmeia, onde vamos tocar. Depois havia bares em Mondim, um ou dois. Depois havia em Celorico. Bruno, 33 anos, músico, Celorico de Basto 9 Todos os nomes aqui apresentados para identificar os entrevistados são fictícios.
4. This is Tâmega zone! Contexto e dinâmicas de uma cena musical 53 Paredes não dá para falar, porque aquilo nunca houve… Até 2003, 2004, esteve-se mais ou menos bem. Depois daí, foi o… a Câmara mudou, foi cortarem licenças de espetáculos, licenças de diversão noturna… tínhamos a Casa da Cultura que era brutal, desaproveitaram aquilo de uma maneira tremenda, mesmo, terrível. Aquilo era um sítio altamente, agora está todo f**ido. E acabou por acontecer, não com tanta força como em Paredes, mas um pouco no resto do… das freguesias, ali dos concelhos do Vale do Sousa. A Degradagem [espaço criado pelo entrevistado e os seus amigos numa garagem] tornou-se ali, durante muitos anos, o ponto central de encontro das bandas todas. Mesmo que não fosse para ensaiar: sair à noite para beber um copo, ou só para discutir. Afonso, 27 anos, trabalhador independente de serviços, músico, Porto Eu às vezes [quando era mais novo] queria sair e ia para Guimarães; ia todos os sábados, (…), porque aqui era muito limitado; havia uma casa só, também te fartavas ao fim de um tempo. Aqui não há [eventos]. Acabou tudo. Ou pelo menos, não há nada que se veja. Barroselas será o mais próximo, que é um grande festival de metal (…). Vai aparecendo uma festita ou outra de vez em quando, de uma banda ou outra, mas, no geral, é muito fraco. Gabriel, 38 anos, dono do bar, Marco de Canaveses Apesar de não haver muitos sítios para tocar, a realidade é que lá acontece uma coisa que, por exemplo, aqui não acontece que é: os cafés fazem concertos… Carlos, 38 anos, músico, Matosinhos Figura 4.1. – Espaços de fruição musical (rock) referidos pelos entrevistados Nota: Dados obtidos através das entrevistas semiestruturadas Ora, este conjunto de dados mostram-nos que a cena rock do Tâmega é portadora de espacialidade, de regularidade e de coletivização: elementos fundamentais para a sua caraterização. Não obstante a presença destas caraterísticas delineadoras de cenas, a sua fraca densidade encontra-se condicionada pelas determinantes estruturais de desenvolvimento económico e social que atravessam o Tâmega. Assim se explicará o aumento do número de eventos por nós identificado entre 2012 e 2013 (um aumento que ronda os 9,4%, Figuras 4.2.), pois, como podemos ver no Quadro 4.1., a quantidade de espaços que recebem eventos rock é considerável (35,16% dos espaços encontrados receberam, pelo menos, um evento), mas apenas quatro organizaram mais que 17 eventos.
Sons e Lugares: trajeto e retrato da cena rock no Tâmega 54 Quadro 4.1. – Número de eventos rock por espaço de fruição (excluídos os que se realizaram ao ar livre) 10 N.º de eventos rock recebidos N.º de espaços (bares, cafés) que recebem os eventos % do total de espaços 17 - 35 4 4,40% 8 - 11 4 4,40% 4 - 7 3 3,30% 1 - 3 21 23,08% 0 59 64,84% Total 91 100,00% Nota: Dados obtidos através de web survey aos eventos na região do Tâmega Figura 4.2. - Número de eventos rock no Tâmega, total e por concelho ( 2012-2013) 11 Nota: Dados obtidos através de web survey aos eventos na região do Tâmega Um aumento que vai contra todas as dificuldades identificadas. Primeiro, parece existir uma falta de apoios por parte das Câmaras (quer seja ao nível das licenças, quer seja ao nível de comparticipações monetárias e de iniciativas que promovam o rock) e das empresas privadas. Segundo, verifica-se também uma fraca procura por parte das pessoas que residem no Tâmega, a qual, segundo os entrevistados, se fundará, por vezes, numa pré-noção que (numa fuga ao “parolo”) valoriza o que é urbano, cosmopolita e mediaticamente conhecido e desvaloriza o que é tido como rural, local e mais desconhecido; ou, outras vezes, resultará das opções tomadas 10 Os 91 espaços de fruição musical foram encontrados através de uma pesquisa online e correspondem aos espaços que, até finais de agosto de 2013, segundo o que conseguimos apurar, se encontravam no ativo. Os espaços de fruição musical por nós considerados agregam estabelecimentos semipúblicos possuidores de uma estrutura jurídica e de recursos humanos permanentes ou temporários; tratam-se de estabelecimentos com uma atividade diária ou semanal de caráter lúdico-cultural que, de alguma forma, proporciona (alguns) momentos de teor musical (concertos, djing) aos seus públicos, podendo, assim, tomar a forma de cafés, discotecas, bares (ver Quadro A.7.). 11 O número de eventos apurou-se através de uma pesquisa no mundo virtual que teve por base, sobretudo, as publicações de bandas (nomeadamente as por nós encontradas) e de espaços de fruição musical. Os resultados dessa pesquisa englobam todos os eventos que tivessem sido tratados enquanto tal, enquanto eventos, o que se traduz, na maioria das vezes, na exibição de cartazes e flyers. Este critério foi importante para excluirmos a atuação rotineira de artistas (designadamente disc jockeys) nos espaços identificados. 0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 2012 ago/2013 130 135 140 145 150 155 Total
4. This is Tâmega zone! Contexto e dinâmicas de uma cena musical 55 por quem tem pouco dinheiro para gastar e, nesse sentido, mesmo quando as posses monetárias são um pouco mais folgadas, opta-se sempre por ir ao concerto mais consagrado e reconhecido no meio musical; ainda, outras vezes, será por causa de uma habituação por parte dos públicos aos eventos gratuitos e que, por isso, faz com que as pessoas não adiram aos eventos quando estes não são gratuitos. A falta de media local (rádios, jornais) que divulgue o que se faz na zona também parece dificultar a sobrevivência desta cena. Segundo os entrevistados, mesmo quando existe media voltada para o rock (nomeadamente, rádios), as bandas ou os eventos locais são excluídos das agendas. Os entrevistados identificam ainda o não pagamento das bandas pelas suas atuações ao vivo como outra das grandes dificuldades enfrentadas. No entanto, dizem, é uma prática que está cada vez mais bem aceite no seio dos próprios artistas, os quais (no desejo de um dia virem a conseguir ganhar um estatuto que lhes dê os benefícios merecidos), acabam, inclusivamente, por promover esses espetáculos onde vão atuar gratuitamente. Por fim, como facilmente se perceberá, estes atores referem ainda a crise que está a assolapar todo o país e que veio tornar ainda mais evidentes todos aqueles constrangimentos. O [ano] mais problemático acho que tem sido este ano. Não pela casa em si, ou porque os clientes são diferentes, mas pela situação do país que se nota muito aqui. E então o meu maior problema tem sido manter isto a dar alguma coisa e a poder oferecer uma porta aberta, (…), sem teres uma obrigação de consumires. Essa tem sido a maior dificuldade; os consumos baixaram bastante e a maior dificuldade é a financeira. Depois há uma cultura da borla (…) que foi, durante muitos anos, instigada pela Câmara e isso paralisou também um bocadinho o concelho nesse aspeto. Gabriel, 38 anos, dono do bar, Marco de Canaveses A Câmara Municipal, que sempre foi uma das cenas que eu tripei, tipo, ya, Câmaras Municipais, mas são eles que têm os meios, não é? Mas eles nunca fizeram nada por isso, é melhor teres a Tonicha a tocar para três mil pessoas. Não… Hoje em dia é tudo negócio, não é? Ou seja: se tu és um desconhecido e não vendes, porque é que eles te vão publicitar? Júlio, 28 anos, auxiliar de acção educativa, músico, Penafiel Aqui nesta zona, (…) é um bocado lutar contra a maré porque nós gostamos muito, muito de rock só que nos falta os apoios e que as pessoas se interessassem mais. As pessoas não se interessam muito porque pensam que não é rentável, que não vão ganhar dinheiro com isto, meter uma banda rock não vai dar dinheiro, não querem saber e é mau, mas pronto. [Falta] Apoios monetários para as bandas, para os palcos, para tudo que é preciso para fazer um festival. (…) [Antes] Ainda havia rock, agora com esta crise que se instalou no país, a nível geral cortaram com a cultura e a nível regional cortaram com os festivais. Não tendo dinheiro, nós podíamos continuar a organizar festivais mas não há dinheiro, o dinheiro claro que não é tudo, mas o dinheiro é muito importante e as bandas também precisam de dinheiro, cachés e isso tudo e é complicado. Mas há rock, aqui há rock. Luís, 29 anos, abastecedor de bombas de gasolina, músico, Penafiel
Sons e Lugares: trajeto e retrato da cena rock no Tâmega 62 Quadro 4.2. - Número de eventos por tipo de evento (2012-2013) Tipo de evento 2012 Ago/2013 Total Concerto 89 88 177 Concerto(s) & DJ Set 27 19 46 Concurso de Bandas 2 2 DJ Set 13 31 44 Festival (mais que 1 dia) 7 13 20 Total 138 151 289 Nota: Dados obtidos através de web survey aos eventos na região do Tâmega Não obstante, o leque de dificuldades por que têm que passar estes nossos artistas engloba ainda um certo preconceito para com eles por parte da população em geral. Não só se ainda faz sentir o velho preconceito que associa o artista rock às drogas, ao álcool e à delinquência, mas também não se reconhece a atividade destes músicos (o qual, por vezes, também não quer ser encontrado por estes artistas), julgando-se que apenas se trata de diversão, de puro hobby e que, por isso, se não tem reconhecimento, também não precisa de o ter, porque não passa de uma brincadeira de miúdos. E continuamos a ser um país onde o pessoal vê isto quase como se fosse um capricho, percebes? Tipo: “Ah, estás a tocar, é um capricho…”. Ya, é um capricho, mas é cultura, não é? Para mim tocar é um capricho, mas eu também posso tocar na sala de ensaios… Se eu vou tocar a um sítio é para mostrar, e para o pessoal se divertir. Portanto, se tu consegues pagar cinco euros para entrares numa discoteca para teres “Txi bum, txi bum, txi bum”, também podes pagar dois euros para ver um gajo que passou três meses numa sala de ensaios a tocar, a ensaiar para ir lá tocar uma noite. Mas, mais uma vez, (…) a música ao vivo continua a ser aquela cena manhosa: não existe um circuito onde possas tocar e conseguir ganhar alguma coisa, porque tens custos (…), gastas dinheiro, para ir de um sítio ao outro, para te mexeres. E é difícil encontrares alguém que te diga: “Oh pá, não, vens aqui tocar, eu pago-te tanto, e tal…”. É muito difícil. Júlio, 28 anos, auxiliar de ação educativa, músico, Penafiel Só que isso passa completamente ao lado das pessoas. Não há reconhecimento rigorosamente nenhum, nem de órgãos nem das pessoas. Mas tipo nem nós queremos isso, percebes? Tem piada porque é uma cena invisível, que passa ao lado. (…) Isso não há preconceito rigorosamente nenhum. Hoje em dia não. Não. Quer dizer, é uma questão de estilo de vida. Se tu por si só, pá se és um gajo que bebe bué de copos e sai sempre à noite já tens esse rótulo. O facto de tocares ou não tocares já não vai acrescer nada, porque já é essa a imagem que as pessoas têm de ti, acho que é um bocado assim: como lá em Castelo de Paiva esse pessoal que está envolvido já é bastante notívago e não sei quê, já não dá para tecer mais. Hélder, 31 anos, designer multimédia, músico, Castelo de Paiva Só que pelo aspeto do pessoal e estarem a beber, parece que são uns drogados de primeira e bêbados e isso incomoda o pessoal. Por isso é que quando há festivais ou qualquer cena, há sempre queixas e às vezes até acaba tudo e o pessoal vai todo embora. Se for uma festa pimba ou uma festa da
4. This is Tâmega zone! Contexto e dinâmicas de uma cena musical 63 terriola eles até podem fazer, pronto mais ou menos isto, a maior asneira que existe que está tudo bem, quando é cenas assim, não sei, acho que é pelo aspeto do pessoal ou o estilo. Miguel, 30 anos, operador florestal, músico, Lousada Apesar de tudo, e embora reconheçam que isso seja quase impossível, ainda mais nos dias de hoje, a motivação dos amigos e até mesmo a relativa boa aceitação por parte dos familiares, assim como, o seu gosto pela música fazem com que muitos destes artistas anseiem um lugar ao sol no mundo da música, mais que não seja para influenciar e atrair mais apreciadores para este género musical. Denota-se, assim, a assunção de um conjunto de convenções necessárias para a pertença ao art world ainda que mesclado com a obrigatoriedade de tarefas profissionais remuneradas destinadas à sobrevivência quotidiana e ao futuro. Existe uma perspetiva de mercantilização, só que na prática essa é denegada pelas condições reais da cena (Blum, 2001: 25; Guerra, 2010: 456). Assim, estamos perante uma rede tribal que se desenha por uma estrutura irregular que, mesmo ao conferirem uma vantagem geral aos seus participantes, lhes confere vantagens em diferentes graus, gerando possibilidades de conflitos entre a satisfação pessoal e a aceitação comunitária ou entre a aceitação familiar e a remuneração económica (Crossley, 2008; Filho, 2010). Esta comunidade de pertença e de interesse, próxima das concetualizações de Maffesoli (1998) aponta para um lifestyle roqueiro específico. Assim, se “um estilo de vida pode ser definido como um conjunto mais ou menos integrado de práticas que um indivíduo abraça, não só porque essas práticas preenchem necessidades utilitárias, mas porque dão forma material a uma narrativa particular de auto-identidade” (Giddens cit. por Filho, 2010: 99), estamos aqui perante um estilo de vida que podemos apelar de antinómico, portador de razões e forças integradoras e desintegradoras da cena. A maioria delas são pessoal que gosta, vive mesmo de música. São pessoas com quem se pode ter uma conversa, que se pode falar sobre música. (…) é mesmo uma cena por gosto. (…) Qualquer coisa vem sempre a música, sempre, o pessoal está a falar de roupa e vem a música, sempre. Se falar com uma pessoa que ouça por ouvir nem liga nenhuma a isso. Nota-se bem o pessoal que gosta. Miguel, 30 anos, operador florestal, músico, Lousada A motivação é o gosto pela música e tentar chegar o mais longe possível, com uma banda ou com outra, a minha ideologia é chegar o mais longe possível. Se puder viver da música, que isso é quase impossível, mas sempre a pensar nisso. Sempre a pensar vamos conseguir, vamos chegar lá acima, porque senão já não andava na música. O meu pai não liga nenhuma porque ele às vezes ouve-nos a ensaiar e não faz caso. A minha mãe gosta. Gosta de nos ouvir e pergunta se temos concertos… Gosta que eu toque e fica contente, apesar de nunca ter visto um concerto meu porque não quer ir. Luís, 29 anos, abastecedor de bombas de gasolina, músico, Penafiel
Sons e Lugares: trajeto e retrato da cena rock no Tâmega 64 O meu pai nunca levou muito a sério ainda hoje não leva a sério. Ir mais assistir aos concertos mas era mais por ser filho, agora já leva um bocadinho mais a sério porque as coisas, nós temos feito são mais sólidas mas não. No início, quando queria bateria foi um filme porque eu moro num apartamento e é muito complicado. Pedro, 21 anos, estudante, músico, Cabeceiras de Basto Por isso, estes atores não receiam meter mãos à obra e, num autêntico movimento doit-yourself, fazerem tudo por si próprios, desde a criação, gravação dos seus originais até à divulgação e promoção da banda, mesmo porque não existe dinheiro para pagar a editoras que façam esse trabalho por eles. E, para este propósito, como iremos ver mais à frente, o surgimento dos novos suportes digitais, nomeadamente os disponíveis online, vieram trazer uma ainda maior autonomia e um certo traço profissionalizante a estas bandas. [N] este álbum (…) nós fomos completamente multifacetados, tocamos em várias áreas, desde design, de art works, desde videoclip, temos dois. Este último, que lançamos agora, desde produção e captação, desde promoção, desde mercandising, tudo! Fomos nós que fomos os promotores, os autopromotores… Fábio, 24 anos, engenheiro informático, músico, Paços de Ferreira Também eram CD que fizemos em casa, com aquelas fotocópias. Mas o pessoal gostava, gostava daquilo, fizemos muitos amigos, com muita gente. (…) Acho que sim, que adere mais ao mp3 porque também não tem bandas assim muito conhecidas aqui. As bandas mais conhecidas têm CD, agora vinil não, isso está fora de questão aqui nas redondezas, mas é mais mp3. Fazem umas gravações em casa ou vão a um estúdio, ou gravam um CD ou ficam a ouvir em mp3, nos phones. Tiago, 25 anos, estofador, músico, Paredes Na maior parte dos concertos, as bandas levam os CD e o merchandising e vendem-nos. Nós fizemos camisolas e CD. Isso também é uma maneira de as bandas ganharem dinheiro. Tínhamos o Acamparock que também era um festival… Mas isto foi tudo feito por nós, ou seja, nós é que levávamos o PA, é que levávamos o material, era tudo Do It Youtself. Agora, grandes festivais… Mas também qualquer festival começa do nada. Luís, 29 anos, abastecedor de bombas de gasolina, músico, Penafiel 4.3. A cena rock do Tâmega Perante este cenário, a questão persiste, existirá cena no Tâmega? Vimos que, apesar de todas as adversidades, que apesar de serem em reduzido número (ou em excesso para a procura existente, no caso das bandas), ainda vão subsistindo (ainda que possamos dizer que de uma forma um tanto ou quanto precária) espaços, eventos, artistas e um público que sustenta e mantém acesa a chama do rock no Tâmega; nuns locais mais intensa, noutros menos densa; nuns anos mais vigorosa, noutros nem tanto, mas ainda assim essa chama parece ter forças (tão fortes quanto as suas dificuldades) para cintilar (Figura 4.7.). Assim, novos membros vão-se juntando
4. This is Tâmega zone! Contexto e dinâmicas de uma cena musical 65 a esta comunidade com o passar dos tempos; jovens que procuram uma outra maneira de estar e que encontram no rock uma solução possível para alguns dos seus anseios, valores e forma de transição para a vida adulta. Aquela fase da maluqueira, dos dezassete a passar para dezoito, passar de pito para galo, ali a coisa, se calhar, dá mais margem a criatividade, não sei. Mas parece-me que sim, parece-me que sim, pelo menos o início de algo, acho que é aí; agora, se depois esse projeto morre e nasce outro, já noutra fase da vida, não sei, provavelmente, conheço alguns casos disso também. Há uma banda aí, são os XYZ já são... não os vês a tocar muito, pelo menos agora, mas conheço os membros, já têm alguma idade. Acho que é por aí, mas diria que sim, que nessa fase do secundário, universidade, secundário, acho que sim. Até porque as pessoas normalmente aprendem a tocar algo, um instrumento, muito novos, nos casos mais extremos, os seis anos até aos quinze, é a idade de aprender algo; depois, se calhar, já tens outras preocupações e já é tarde demais, nem desenvolveste aquele gosto, a fase em que se define uma personalidade, não é? É nessa fase. Paulo, 29 anos, massagista, músico Marco de Canaveses Ao incidirmos a nossa análise nas bandas constituintes da cena atual (Figuras 4.7.), é importante salientar que entre 2000 e 2013 o seu número aumentou em termos gerais, o que dá alento à hipótese de dinamismo emergente da cena. Complementarmente, são os concelhos de Marco de Canaveses, de Paços de Ferreira, de Paredes e de Penafiel que lideram essa dinâmica. Adquire uma relevância inegável a disponibilização de registos fonográficos em suportes virtuais por parte das bandas do Tâmega, sendo de destacar o facto de mais de metade disponibilizarem álbuns e músicas online. Se juntarmos a estes dados, o número de membros ativos nas bandas da região, podemos reconhecer entre 2004 e 2012 uma evolução de sentido francamente positivo, isto é, passamos de 120 elementos para 434 (o que representa um acréscimo de 261%), refletindo a sustentação e reforço da cena como temos vindo a referir. Parece-nos pertinente detetar que em 2011, o número de membros de bandas por mil jovens contabilizava um total de 10,9 membros (sendo de destacar os concelhos de Marco de Canaveses, Paços de Ferreira e Felgueiras); entre 2005 e 2011, o número de membros por mil jovens do Tâmega aumentou 214% (sobretudo no Marco de Canaveses e Paços de Ferreira), fortalecendo as considerações anteriores, mas também a mobilização da juventude da região em torno da música pop rock.
Sons e Lugares: trajeto e retrato da cena rock no Tâmega 66 Figuras 4.7. – Produção rock no Tâmega: bandas, elementos e discografia, por concelho (2012-2013) Nota: Dados obtidos através de web survey às bandas da região do Tâmega Num registo pertinente (Figuras 4.8.), o número médio de likes no Facebook face a cada banda é sintomático disso: 1035 likes (o valor registado mais elevado) é um valor significativo quando comparado a números pertencentes a bandas situadas nas zonas metropolitanas do país. Notaremos, em seguida, e através do registo de atividade das bandas no Facebook, a faixa etária predominante dos fãs dessas mesmas bandas. Aqui, releva o intervalo de idades entre os 18 e os 24 anos, fazendo transparecer a juvenilidade da cena em análise. As possibilidades de demonstração de uma cena pop rock regional parecem assim colocar-se ao nível da produção, ao nível da intermediação e do consumo e fruição. Deriva da diversificação da oferta e do consumo musical e, consequentemente, da maior extensão das atividades musicais e da maior amplitude quantitativa e qualitativa dos públicos e eventos, sendo ainda de apontar a importância de uma certa prática de colaboração entre promotores e bandas a sua sedimentação. Ora bem, estamos a fazer entrar a conceção de Becker a respeito dos art
4. This is Tâmega zone! Contexto e dinâmicas de uma cena musical 67 worlds novamente: alguns dos eventos mais importantes como o Acampa Rock ou o Chaos in Mesio derivam de iniciativas de diferentes pessoas e promotores; alguns concertos, um pouco por toda a região do Tâmega, só existem por força da vontade das bandas; muitas bandas só subsistem porque utilizam nos ensaios e concertos instrumentos comuns; existem iniciativas associativas de gestão e troca de informação como a Associação Compaços; a Degradagem Records, disponibilizou espaços para concertos e ensaios, instrumentos e gravações. Figuras 4.8. – Relação entre bandas e fãs no mundo virtual: (a) número médio de likes (facebook) por banda; (b) número de bandas por faixa etária predominante das pessoas que falam sobre 14 as bandas no facebook, (até 15 de junho 2013) Nota: Dados obtidos através de web survey às bandas da região do Tâmega Havia uns amigos meus mais novos que também tinham uma banda. Eles na altura tocavam heavy metal… E eles tiveram uma altura que não podiam ensaiar, tiveram um problema qualquer. Eu pedilhes se nos podiam emprestar o material e eles emprestaram. Andamos para ai um mês a ensaiar com o material que eles nos emprestaram. (…) Eles tinham bateria e não tinham mesa de som nem colunas. Começamos a emprestar uns aos outros… Francisco, 35 anos, motorista, músico, Paredes O único circuito de colaboração que existiu entre nós foi sempre: “Epá eu preciso de um amplificador, o meu avariou”; “Toma lá.”; “Eu preciso de um prato.”; “Toma lá.”, de resto nunca houve mais nada, nunca houve do género: “Vamos todos tocar ali para um sítio.” Isso nunca existiu. Pedro, 21 anos, estudante, músico, Cabeceiras de Basto É claro que as bandas, as pessoas de perto, é normal que, por causa do bairrismo, se calhar apoiem mais o que é da terra, já vi muita gente a partilhar “da minha terra c***lho”, a partilhar; isso no fundo é o bairrismo que é uma coisa interessante também, para sociologia até… A associação de música [Associação Compaços], que eu acho que foi o começo de uma coisa muito importante, 14 "Pessoas que falam sobre as bandas" refere-se ao número de pessoas que criaram uma "história" a partir da publicação da página da banda. As histórias incluem: partilhar, gostar ou comentar a sua publicação; responder a uma pergunta; responder a um evento; ou reclamar uma oferta.
Sons e Lugares: trajeto e retrato da cena rock no Tâmega 68 interajuda entre as pessoas, um dos propósitos da associação é para novas bandas não começarem do zero, terem já a experiência de outros. Fábio, 24 anos, engenheiro informático, músico, Paços de Ferreira Numa tentativa de posicionarmos a região do Tâmega, assim como, os seus diferentes concelhos numa rede relacional de pendor social e espacial, apoiamo-nos na social network analysis. Como se pode ver pela Figura 4.9., a região do Tâmega está dependente das zonas que a circundam, sendo de destacar aqui o papel do Porto enquanto cidade que oferece aquilo que o Tâmega não consegue dar aos seus públicos e artistas. Falamos, precisamente, de uma maior diversidade na oferta num curto espaço geográfico e do maior número de espaços que recebam live acts e gigs. A este respeito, não podemos deixar de referir que o Porto assume um papel de ainda maior destaque nas vidas dos atores em análise devido ao simples facto de existir uma certa proximidade geográfica com a região do Tâmega e a toda uma rede de transportes e de vias que encurtam ainda mais essa distância, permitindo a estes músicos e fãs terem, no mínimo, a opção de ir para o Porto. Figura 4.9. – Destinos eleitos pelos públicos: municípios com públicos provenientes de outros concelhos Nota: Dados obtidos através dos inquéritos por questionário. Todavia, existem concelhos que conseguem segurar a saída destes públicos e até mesmo destes artistas (Figura 4.9.): Paços de Ferreira e Marco de Canaveses aparecem à cabecilha, seguidas de Paredes, Lousada e Penafiel, cidades detentoras de uma dinâmica proporcionada Ligação Municípios com públicos provenientes de outros concelhos. N.º de municípios de proveniência: 0 1 2 4 5 7
4. This is Tâmega zone! Contexto e dinâmicas de uma cena musical 69 muito à custa da existência de alguns bares que, pela sua exclusividade, vão conseguindo satisfazer relativamente bem não só as necessidades dos indivíduos lá residentes, como também das terras à volta (como pode ser visto pelos vários clusters que se criaram em torno dessas terras (Figura 4.10.). Falamos do Canecas Bar (Paços de Ferreira), do Wood Rock (Marco de Canaveses), do Roque Bar e Indie Bar (Paredes), do Old Rock (Penafiel) ou do Sunny Side (Lousada). Figura 4.10. – Destinos eleitos pelos públicos: bares com públicos provenientes de outros concelhos Nota: Dados obtidos através dos inquéritos por questionário. Também aqui será de referir o facto de esta população ser desprovida de grandes meios monetários, o que faz com que (por obrigação) não possam fazer grandes viagens (frequentemente) para ir para outros bares. Não obstante, como revelam alguns entrevistados, não é que as pessoas que frequentem estes bares de rock gostem propriamente de rock. Elas gostam, sim, de estar com os amigos, de se divertirem, de socializar. Já Crossley (2008) na sua abordagem pioneira da constituição de uma cena punk em Londres e em Manchester tinha chamado atenção para a importância das sociabilidades, incluindo amizades e afetos. Esta situação é atestada pelas dinâmicas de saída de públicos para a fruição de eventos rock, designadamente festivais, em outros concelhos do Tâmega. Não obstante, no quadro do inquérito por questionário (Figura 4.11.), os atores declararem que vão de forma mais intensa a eventos de âmbito e caráter naciBares com públicos provenientes de outros concelhos. N.º de municípios de proveniência: 1 2 3 – 4 5 – 7 Concelho. N.º de bares a que está ligado: 1 3 – 6 10 – 11 12 – 13
Sons e Lugares: trajeto e retrato da cena rock no Tâmega 70 onal (Optimus Alive, Paredes de Coura, Super Bock Super Rock), é possível evidenciar a existência de eventos no quadro do Tâmega que suportam muita da adesão das populações pese embora não se realizem no seu concelho de residência (Chaos in Mesio (Lousada); Canecas Fest (Paços de Ferreira); Oural (Cabeceiras de Basto)). Outrossim, por parte dos respondentes ao inquérito por questionário, é importante destacar o peso dos amigos e dos familiares na companhia para a frequência de eventos musicais no quadro do pop rock no Tâmega (Figura 4.12.). Interessante é a constatação da proximidade do desenho e estruturação desta cena na confluência do que Andy Bennett designa atualmente por cena afetiva (2013). Não, é assim, acho que quem é daqui, é normal que não vá para o Porto de propósito para um bar de rock. Acho que o Canecas, nesse caso, enche as medidas. Ao nível de… É óbvio que quem quiser ir para o Porto também pode fazê-lo, a algum sítio específico a que queira ir… Mas aqui da zona, acho que estão servidos. Eduardo, 28 anos, produtor/ promotor, Porto Sim, claro que sim. As poucas cenas que existem aqui, o pessoal daqui dos arredores enfia-se todo ali. (…) Não existem muitos mas os que existem o pessoal enfia-se todo ali e pronto. Depois o que acontece é que o pessoal depois farta-se de ir sempre ao mesmo sítio e procura outros mas aqui dá perfeitamente. Miguel, 30 anos, operador florestal, músico Lousada Figura 4.11. – Destinos eleitos pelos públicos: eventos com públicos provenientes de outros concelhos Nota: Dados obtidos através dos inquéritos por questionário. Concelho. N.º de eventos a que está ligado: 4 – 5 6 – 8 9 – 10 21 Eventos com públicos provenientes de outros concelhos. N.º de municípios de proveniência: 1 2 – 3 5 – 7 9 – 11
4. This is Tâmega zone! Contexto e dinâmicas de uma cena musical 71 Figura 4.12. – Companhia dos inquiridos aos eventos/ espaços de fruição (n.º de respondentes) Nota: Dados obtidos através dos inquéritos por questionário Se nos centramos na movimentação de bandas (Figura 4.13.) no espaço regional do Tâmega, podemos constatar que são os projetos originários do próprio Tâmega os que mais atuações e concertos têm no quadro intrarregional. São os concelhos de Paços de Ferreira, de Marco de Canaveses e Celorico de Basco os que detêm um maior número de eventos centrados em projetos do próprio concelho de origem. Simultaneamente, o concelho de Paços de Ferreira é o que recebe mais projetos exteriores à região do Tâmega, seguindo-se os concelhos de Marco de Canavezes, Lousada e Celorico de Basto. Tal equivale a dizer que existe, na região, um conjunto de concelhos ativos no seu interior e exterior. A característica da inter-relação interna e externa apontada por Blum (2001) está aqui presente. No entanto, dado o desenho global do perfil e espacialização dos eventos, podemos garantir que estamos predominantemente perante uma cena local (Bennett e Peterson, 2004) alimentada por um art world local sem contornos de translocalidade como se verifica em zonas mais metropolitanas, cosmopolitas e litorais (Straw, 2004). Figura 4.13. – Proveniência das bandas que atuam nos concelhos do Tâmega (2012-2013) Nota: Dados obtidos através de web survey aos eventos na região do Tâmega 129 619 99 Amigos Familiares Namorado(a)/ Cônjuge Organizadores, donos do espaço e/ou músicos Ligação entre concelhos. Intensidade da ligação (medida pelo n.º de bandas): 1 – 11 43 12 -23 79 26 94 Concelhos não pertencentes à NUT III – Tâmega (ou países que não Portugal) Concelhos pertencentes à NUT III – Tâmega. N.º de concelhos exteriores ao Tâmega a que estão ligados: 1 3 7 9 14 16 34 Concelhos com atuações de bandas locais.
Sons e Lugares: trajeto e retrato da cena rock no Tâmega 78 dão sempre as mesmas coisas e as pessoas cansam também e então se queres ouvir música boa tens que comprar, o que é bom comprar, se puderes. Agora a maior parte das pessoas não pode. Gabriel, 38 anos, Dono do Bar, Marco de Canaveses Eu acho que é uma boa ferramenta, porque é assim: a forma mais fácil de promover uma banda é oferecer a música a nível mundial e sem qualquer custo de portes de envio. Pode afetar as vendas, mas é assim… as edições podem ser mais pequenas, mas a promoção da banda vai ser maior, a evolução da banda pode ser mais rápida, e o cachet da banda também vai subir, e vai compensar o artista pela falha que tem nos discos. O disco é o pretexto para haver a apresentação de algo – a tour, a atividade da banda em si. Eduardo, 28 anos, Produtor/ Promotor, Porto Há bué de grupos que hoje em dia lançam… Ou seja, para tu te mostrares, funciona quase como se fosse o teu cartão de visita, não é? Vais sacar um álbum, mas sacas o single antes, e depois há aquela cena para fazer o download, e toda a gente vai lá e diz: “Oh, cena engraçada…”, e depois se calhar até acaba por comprar o vinil ou o disco. Como sistema de divulgação, acho que é porreira a cena das novas tecnologias todas. É altamente. Júlio, Músico, 28 anos, Auxiliar de Acção Educativa numa escola, Penafiel Voltando aos respondentes inquiridos, é notório constatar que a sua frequência de espaços e eventos de fruição musical é muito condicionada por amigos, familiares, vizinhos, organizadores, promotores e donos de bares – certificando a tal proximidade e familiaridade desta cena (Figura 5.3.). Mas a Internet e as redes sociais correlativas têm vindo a assumir um protagonismo importante nesta troca de informação, conhecimento e música, aproximando o Tâmega de outros contextos mais litorais e urbanizados. Figura 5.1. – Evolução dos lançamentos discográficos por parte das bandas rock do Tâmega Nota: Dados obtidos através de web survey às bandas da região do Tâmega. 0 0,05 0,1 0,15 0,2 0,25 0,3 0,35 0,4 0,45 0,5 0 2 4 6 8 10 12 14 16 18 1999 2000 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 N.º lançamentos por banda ativa N.º de obras N.º de obras N.º lançamentos por banda ativa
5. The new world. Mudanças e persistências do pop rock 79 Figura 5.2. – Evolução do número de sites, blogs ou redes sociais a que as bandas estão ligadas Nota: Dados obtidos através de web survey às bandas da região do Tâmega. Figura 5.3. – Modo como os inquiridos tomaram conhecimento do espaço ou evento Nota: Dados obtidos através dos inquéritos por questionário. Mesmo a rede virtual existente entre os fãs (do Facebook) das bandas rock do Tâmega deixa transparecer a importância de uma cena que é local e virtual. A figura 5.4. a isso nos leva na medida em que agrupa os projetos musicais provenientes dos mesmos concelhos (veja-se os casos assinalados na figura – Marco de Canaveses, Paços de Ferreira, Castelo de Paiva ou Cabeceiras de Basto), o que significará que os apreciadores de rock desta região possuem uma maior ligação com as bandas da sua zona de residência. Isso torna-se mais evidente se tivermos em linha de conta o número de fãs que estão virtualmente ligados a apenas uma banda: cerca de 9 300, contra 1 350 que mantêm atividade nas páginas de Facebook das bandas. No entanto, esta mesma figura também trespassa a ideia de que no Tâmega existe uma rede virtual numa 0 10 20 30 40 50 60 70 80 1987 1991 1993 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 Blog Facebook Myspace Palco Principal Site Oficial SoundCloud Youtube Outros 0 10 20 30 40 50 60 70 80
Sons e Lugares: trajeto e retrato da cena rock no Tâmega 80 aceção que se aproxima ao conceito de virtual scene apresentado por Bennett e Peterson (2004), pois, como podemos visualizar, as ligações e, em consequência, o intercâmbio de ideias entre os atores ultrapassa as fronteiras locais, criando uma cena que aproxima virtualmente os vários concelhos do Tâmega e os seus diversos fãs e bandas. Nesta cena virtual desenhada na Figura 5.4. 16 , os indivíduos encontrarão um espaço não só para dialogarem entre si e com os seus artistas locais de eleição, mas também um espaço para conhecerem o que se faz na região. Estamos a referir-nos no desenho em análise a cerca de 10 650 fãs de 88 bandas. Estamos, pois, perante os culture worlds network oriented de Diana Crane (1992) caracterizadores da atual indústria musical em todo o mundo (cfr. Garofalo, 1999). Apesar de tudo, existe uma consciência de que toda esta digitalização e virtualização da cena, se trouxe vantagens, também trouxe algumas desvantagens. De forma nostálgica, os entrevistados referem-se aos tempos de miúdos em que trocavam ideias e conhecimentos acerca de novas bandas in locu, em que, por ouvirem apenas algumas bandas, retiravam delas todo o seu saber e aplicavam essas influências nas suas músicas. Hoje, dizem, já não acontece isso. A música tornou-se mais descartável, e, para alguns, menos rentável. Ao contrário das vozes que defendem o acesso livre e gratuito da música enquanto forma democratizadora dos gostos; alguns entrevistados referem esse mesmo acesso como tendo aniquilado não só a sua qualidade, mas também a sua rentabilidade para as bandas, ainda que depois essas críticas sejam contraargumentadas com o facto de os lucros das vendas se dirigirem quase todos para as editoras (pelo menos nos moldes tradicionais de gravação) e de, assim, ser principalmente através dos concertos que as bandas (sobretudo as mais “pequenas”) conseguem sustentar-se financeiramente, embora também reconheçam que, muitas vezes, as pessoas não possuem essa predisposição para ir a concertos, parecendo, pois, existir um certa postura musical contemporânea que, paradoxalmente, faz as pessoas procurarem mais música, mas ao mesmo tempo as impede de elogiarem e de irem a concertos de bandas que não figuram entre as bandas pública e mediaticamente reconhecidas. 16 Processo de pesquisa disponibilizado pelo software NodeXL, um software que permite importar dados da internet (nomeadamente de algumas redes sociais, como o Facebook) para se elaborarem análises de redes aos seus utilizadores (neste caso, fãs ativos, utilizadores do Facebook que comentam e “gostam” dos comentários deixados nas páginas das bandas que aqui são alvo de análise). De referir que não foi possível realizar este procedimento para todas as bandas, pois somente 59% das bandas em análise possuía página de artista de música/ banda no Facebook à data da importação dos referidos dados (de 30/05/2013 a 15/07/2013). Para tornar o gráfico (Figura 5.4.) mais legível, optou-se por se apresentar apenas os fãs que gostam de mais que uma banda (cerca de 1350 fãs); a perceção da existência dos restantes fãs (os que gostam/falam de apenas de uma banda – cerca de 9300 fãs) é dada pela importância (tamanho dos símbolos) que cada banda assume no cômputo da rede virtual desenhada.
5. The new world. Mudanças e persistências do pop rock 81 Figa 5.4. – Rede virtual do rock no Tâmega: relação entre bandas e fãs (do Facebook) (junho de 2013)
Sons e Lugares: trajeto e retrato da cena rock no Tâmega 82 A cena de ter acesso a tudo é uma ilusão. Porque imagina, nós há vinte anos atrás (...) pá, para comprar discos ou tinha uma ou duas lojas em Castelo de Paiva que todas as lojas dos sítios das terras pequenas em Portugal tinham os mesmos discos, as distribuidoras são as mesmas, por isso quem mora nos sítios pequenos (…) ouvia a mesma música (…). Depois querias ouvir um bocadinho fora, ias ao Porto, uma loja em segunda mão e não sei quê compravas um disco que nunca tinhas visto de uma banda que nunca tinhas ouvido falar, porque não havia internet. Tu ouvias esse disco para aí duzentas vezes. E só de um disco recolhias n de influências e pensavas e interiorizavas e tinhas tempo para tirar conclusões, percebes? Tu hoje em dia se andares num blog que tenha discos pirateados e sacares 100 discos, um puto saca 100 discos numa tarde, oh pá ouve dez segundos de cada música e depois se lhe falarem dessa banda tipo acende-lhe uma luz e ele “ai eu conheço” mas não conhece nada, não conhece m**da nenhuma, porque não tem tempo para conhecer, percebes? Hélder, 31 anos, Designer multimédia, Músico, Castelo de Paiva Os downloads levam a um problema que é o dilúvio de informação. Hoje há tanta, tanta banda, tu antes, na época da antiguidade clássica, tu estavas aqui no teu mundo e curtias a tua cena, não tinhas milhentas bandas a cair no teu youtube, ou na tua caixa de correio, e ouvias aquilo e curtias aquilo. Agora há tanta coisa (…). Um bocado como o fast-food; o fast-food acontece-te na arte. Afonso, Músico, 27 anos, Trabalhador independente de serviços, Porto Este público, em especial, do rock, do metal, é um público diferente do comum. É diferente, porquê? Porque eu acho que é muito seletivo, é muito crítico, mas, em contrapartida, quando gosta é muito fiel, muito fiel; é muito fácil, neste estilo de música, tu teres um grupinho que te segue para todo o lado e que gosta e que, pronto, é fiel, e dedica-se porque também estão lá contigo. Mas, para isso acontecer, tens de ser seletivo, eles são muito seletivos, tens de dar provas, e isso acaba um bocado pronto, é todo um monte de variáveis que é complicado para mim computar esta coisa. Mas sim, downloads tudo bem, tudo bem, desde que as pessoas apareçam aos concertos; o que acontece é que as pessoas ficam em casa, no seu computador, a ouvir e coladas na net e não saem de casa e isso é, pronto, acaba por ser mau. Porque depois não há downloads, porque não há músicos. Fábio, 24 anos, Engenheiro Informático, Músico, Paços de Ferreira Hoje em dia as coisas nascem tão facilmente que as pessoas não se dão ao trabalho de fazer nada. Antigamente, eu lembro-me que um amigo meu comprava um CD e nós íamos para a sala de ensaios ou para o quarto e ouvíamos o CD do princípio ao fim, já sabíamos qual era a música a seguir, líamos as letras vinham no CD, víamos as fotos. Hoje em dia não, vamos à net e no Youtube carregamos na música que queremos e ouvimos. Já não há aquele conceito… Em termos de indústria musical perdeu-se muito porque hoje em dia os músicos já não ganham praticamente nada. Só as grandes bandas é que conseguem ganhar dinheiro com os discos porque toda a gente copia e faz pirataria. Luís, 29 anos, Abastecedor de bombas de gasolina, Músico, Penafiel Agora na parte legal acho mal, porque temos de pensar naquelas bandas, e tudo bem que é a editora que suga essa parte toda, mas a banda também recebe algo por isso, e com os downloads acabou por existir muito menos compra de material e eu também vejo a parte da banda que também lucra algum com isso e neste momento com a situação dos downloads esquece, agora é raro uma pessoa comprar um CD. Eu falo por mim, que gosto mais de ter a capa e tudo direitinho em casa do que ter no computador. Às vezes procurares uma música, e eu tenho situações que com certas bandas
5. The new world. Mudanças e persistências do pop rock 83 só gosto de 2 ou 3 músicas e não vou estar a comprar o CD, isso não, só se for uma banda que goste muito que compro o CD. Ana, 30 anos, Bancária, Músico, Penafiel Existe ainda nesta região, o despontar de uma tendência (também ela global) e assente na retromania de um retorno ao objeto físico, traduzido não só num maior consumo de vinis, mas também de cassetes. Tratam-se, sobretudo, de colecionadores que procuram melhor qualidade em termos visuais e estéticos e em termos sonoros e também uma distinção perante a banalização do acesso virtual (Bourdieu, 1998). Aqui está em jogo uma hierarquização em função da autenticidade. Para os entrevistados, existe em torno destes suportes, especialmente do vinil, uma espécie de aura que mistura o desejo de qualidade e a nostalgia de outrora com uma ânsia de afirmação e distinção entre os indivíduos, o que concede ao vinil um estatuto que mais nenhum suporte musical possui. Pá porque o formato físico hoje em dia são peças para colecionadores, para melómanos. Tipo o maior bolo de compradores de música tradicional são os putos ou são os pais que compram para os putos, agora comprar tudo mp3, não é? (…) Mas no círculo mais fechado nota-se bué a cena do Vinil e agora da Cassete também outra vez. Nós temos, o que eu estava a dizer, os [L.B.] temos agora uma editora que só lança Vinil, lançou o nosso single de estreia e agora também essa editora a Degradagem também só lançam em Cassete. Hélder, 31 anos, designer multimédia, músico, Castelo de Paiva Pá, o cd está obsoleto, completamente. Não, quase já ninguém compra cd’s. Vinil continua a ser para se realmente gostas de música, e é um bocado quase o cliché de comprar o vinil, e chegar a casa, e não sei o quê… Mas o mercado do vinil claro que não é a cena que mais vende. Mas, oh pá, continua a vender muito, não é? (…)também porque está na moda, não é? Agora “é fixe” teres um vinil lá em casa, na estante… Júlio, músico, 28 anos, Auxiliar de Ação Educativa numa escola, Penafiel Não diria retorno: o vinil nunca saiu da cena. Sempre esteve presente. Cá em Portugal é que se calhar… (…)À cassete é que se calhar posso dizer que houve um retorno. Quando apareceu o CD e os CD-Rs o pessoal cagou logo para a cassete, porque aquilo era muito mais fácil de gravar. Afonso, 27 anos, Trabalhador independente de serviços, Músico, Porto Está outra vez, digamos assim, na moda. O pessoal agora a comprar se tiver em CD e vinil o pessoal prefere mil vezes vinil, agora. A opinião que eu tenho e pelo que ouço, é mais pela cena de ser antigo, aquela cena como começou. Antes havia vinil e tipo VHS, o pessoal chamava-lhe cartuchos não sei se chama-se assim. Acho que o pessoal procura isso por ser uma cena antiga, recordar os tempos antigos, pelo que eu ouço o pessoal dizer porque eu não sou muito adepto disso do vinil. Miguel, Músico, 30 anos, Operador Florestal, Lousada É assim o vinil acho que neste momento há uma procura muito forte e também porque as novas bandas estão a lançar nas duas vertentes, no formato digital mas também estão a apostar no vinil e
Sons e Lugares: trajeto e retrato da cena rock no Tâmega 84 isso leva a que as pessoas procurem mais e vão buscar os gira-discos do avó que estavam guardados não sei aonde para os voltar a ouvir. Para mim é a cassete porque sempre me acompanhou desde a minha juventude e CD sou sincera não é assim há muitos anos que comecei a ter CD, que sempre fui gravando cassetes. Ana, 30 anos, Bancária, Músico, Penafiel 5.2. Radiografia da cena e cenas pop rock: tendências e estilos predominantes De forma relacionada, também a abordagem aos géneros e subgéneros musicais presentes no Tâmega, se interliga com as tendências de estruturação global dos mundos das artes e da cultura na modernidade. Em termos de estilos musicais, na região do Tâmega o que parece predominar, a um nível geral, tal como no resto do país, é a designada música electro, de dança. Quase todos os bares que se foram criando ao longo dos anos pautaram-se por esse estilo musical, assumindo-se o rock (nos termos identificados pelos nossos entrevistados) como um estilo mais restrito, que abrange um menor número de fãs e de organizações. Dentro deste estilo musical (o rock) emerge, entre as bandas por nós identificadas, uma diversidade de subgéneros considerável que parece sempre ter caracterizado a região do Tâmega, retratando o que dissemos no capítulo três do nosso texto a propósito da dificuldade de definição do rock (Figura 5.5.). Tanto é assim, que muitas das bandas encontradas nem sequer se conseguiam posicionar minimamente dentro deste grande género musical, apelidando-se tão-somente de rock. Desta feita, estamos perante “a mescla, da diluição de fronteiras estanques entre as diversas formas artísticas e concretamente entre os diversos géneros e subgéneros musicais incluídos na plataforma mutável da música popular na contemporaneidade. Este posicionamento também assenta na importância dada às catalogações, rótulos e designações conferidas a esse mundo volátil do rock num plano de «mundo da vida»” (Guerra, 2010: 170). Ouve-se… Se calhar se tiverem Tony Carreira é isso… Ouve-se música pimba, música de discoteca, por ai… Acho que é o que geralmente o pessoal ouve. Há exceções, claro, mas geralmente é isso. Começa logo por aquilo da música brasileira… Francisco, 35 anos, Motorista, Músico, Paredes Houve muitas bandas aqui mas era quase tudo de estilos diferentes. Mas não acho que seja uma cópia do Porto, nem nada que se pareça, era mais o que se fazia lá fora, do que mesmo no Porto. Ou em Lisboa. Eu tinha muitas influências de bandas de Lisboa e o pessoal, como o Zé, Tozé, pessoal que tocou nessas bandas, era mais de Lisboa lá fazia-se mais coisas. Tiago, 25 anos, Estofador, Músico, Paredes Apesar de toda essa hibridização e ecletismo, alguns géneros rock conseguem destacarse mais que outros: é o caso do metal/hard ou do rock alternativo, que com 41 e 23 bandas, respetivamente, abarcam, em conjunto, mais de metade das bandas por nós identificadas (cerca
5. The new world. Mudanças e persistências do pop rock 85 de 60,4% do total de bandas). No caso do metal, este subgénero musical do pop rock é objeto de um culto global muito importante que radica na sua materialidade, identidade e lifestyle. O rock alternativo, acaba por ser hoje uma forma de reação à tirania da pop music centrada nas playlists. Igualmente implica uma abordagem a uma produção e distribuição de música mais fácil e a mais baixo custo muito decorrente da Internet. O Marco é metal. Acho que começa tudo em metal e depois cada um; nós começamos no punk-rock e estamos no rock alternativo. Gonçalo, 22 anos, Estudante, músico, Marco de Canaveses Naquela zona, nós sempre tivemos um gosto especial para as cenas extremas: cenas mesmo f***das, grind’alhada, ali podemos mesmo até dizer que é um coração forte em grind, ali – somos mesmo uma cena ativa. E aparecem bandas, e projetos de noise… o que é mesmo estranho! Ali, no meio das aldeias, tipo, não há concertos, não há público para aquilo. E, no entanto, nós… é o que nos faz mais sentido tocar, aquela merda. Afonso, 27 anos, Trabalhador independente de serviços, músico, Porto Eu acho que é por causa da localização deles. Eles vivem mesmo nas montanhas. (…) Para eles irem para o Porto, ou para outro sítio qualquer, é muito longe. Eu acho que isso é como aquela cena do género: os Joy Division tem uma música mais depressiva porque é uma zona industrial, desemprego... e lá eles também não têm muitas oportunidades. (…) Isso leva a que eles fiquem frustrados e transmitem isso pela música. Beatriz, 27 anos, Aprendiz de costureira, DJ, Lousada Figura 5.5. - Géneros musicais das bandas (2000-2013) Nota: Dados obtidos através de web survey às bandas da região do Tâmega 0 20 40 60 80 100 120 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 Folk Rock Garage Rock Grunge Metal/ Hard Pop/ Rock Punk Rock Rock acústico Rock Alternativo Rock and Roll Rock Experimental Rock Instrumental Rock Português Rock Progressivo
Sons e Lugares: trajeto e retrato da cena rock no Tâmega 86
87 Who are you? Do you like what? Trajetória e self no pop rock do Tâmega Osso/ não faz mal/ são uns dias a mais que eu/ dorme mal/ são uns dias a mais que eu/ calmo e tal/ são uns dias a mais que eu/ passam mal/ não digas mais que eu/ no volume sobe/ um volume sobe mais/ cai no ai/ são mais dias demais que eu/ salto e saem/ sintonias carnais/ dorido/ do osso/ daqui não sais/ o filme não acabou/ o do costume corre/ um volume sobe/ eu sim ou não/ assim não sais/ veia tendão/ dentro tem/ daqui não sais/ de dentro vens/ hora demora/ o pé na trave/ salto para fora/ abraço um pouco onde não sei/ lembra-te do teu/ choveu no meu. Bueno.sair.es 17 (2011) – Osso. Separador Santinho. 6.1. Papel da música e gostos musicais A música assume um papel determinante na vida dos nossos inquiridos e entrevistados. Para todos eles, ela carrega e transmite um significado que os auxilia nas rotinas diárias. À música, os indivíduos associam uma sensação de bem-estar e de desanuviação do stress diário; nela, eles encontram uma “amiga” e “companheira” que os segue em todos os momentos da vida; e a partir dela, eles podem delinear uma filosofia de vida que os guiará nas suas trajetórias pessoais (Quadros 6.1). A importância da música para estes indivíduos acaba, assim, por se traduzir não só em termos mais psíquicos e emocionais, mas também em mudanças e opções mais concretas: pensemos, por exemplo, nos músicos da região do Tâmega que, embora não sendo na sua maioria profissionais, não deixaram de mudar as suas vidas quando escolheram seguir os trilhos da música, ou, então, em algumas das pessoas que deram origem a determinados espaços de fruição rock pelo facto de sentirem (entre outras coisas, nomeadamente de pendor mais económico) necessidade de preencher um vazio existente nesta região. Mas, estas correspondem afinal a algumas das características das cenas que vimos no capítulo 2 desta Dissertação: é com base nesse desejo de fruição musical, de visitação das cenas, e nesse espírito económico e musicalmente ativo que se fundam as cenas musicais. Eu acabei o 12.º ano com 17 anos e, então, quis logo trabalhar. No meu tempo havia mais aquela vontade; era muito importante termos dinheiro e termos carro, porque tu hoje tens trinta mil amigos com carro, tens comboios para todo o lado, mas na nossa altura não era assim. Eu às vezes queria sair e ia para Guimarães; ia todos os sábados, ou para Guimarães, ou para Fafe, porque aqui era muito limitado; havia uma casa só, também te fartavas ao fim de um tempo. E, então, havia muito essa necessidade, quando tinhas 18 anos na minha altura de ser independente. Gabriel, 38 anos, Dono de Bar, Marco de Canaveses Eu acho que é em tudo praticamente, acho que é mesmo em tudo. Por exemplo o estilo, a maneira de vestir muitas das vezes, no estado de espírito também. É tudo, eu acho que para mim a música é tudo. Eu não passo um único dia sem ouvir, não consigo. Por exemplo aquela cena de uma pessoa 17 Banda oriunda de Penafiel que se autointitula de rock alternativo. Surgiu em 2005 e ainda permanece ativa.
Sons e Lugares: trajeto e retrato da cena rock no Tâmega 94 Se calhar há mulheres que se sentem um bocado à margem por ser só homens e estarem ali tipo…e os gajos com as conversas deles e estarem um bocadinho de parte. Mas eu costumo dizer aos elementos da banda, não digo ao meu namorado, mas façam como se eu fosse um gajo, falem à vontade, mas é mesmo, e estão à vontade comigo porque eu estou na onda. Depois também tem a ver com a tua personalidade, e eu tenho os meus momentos de ser uma pessoa séria e direitinha, mas sempre fui uma pessoa extrovertida que nunca tive nenhum problema com as pessoas. Que lá está, também existe essa situação, “Ah, uma rapariga no meio só de gajos e não sei quê” e infelizmente a sociedade ainda vive um bocadinho esse preconceito e eu nunca me preocupei com isso. Ana, 30 anos, bancária, músico Penafiel 6.3. Consumos, espaços e tempos de fruição musical No que toca aos consumos, estes atores, à semelhança do que vimos mais atrás, também aderem aos downloads ilegais, embora refiram que sempre que as possibilidades económicas o permitam e/ou que os CD retirados da internet lhes agradem, façam a compra efetiva das músicas. Compro CD, mas pá, compro muito menos, sem dúvida, saco bué de música, saco todos os dias. Pá saco, porque também gosto que saquem as minhas cenas e tipo o meu disco tem para ai 50 cenas, torrents e tipo em.ddl para sacar e quem me dera ter cinco mil. Pá por mim quanto mais se espalhar e a mais pessoas chegar, melhor, percebes? É para isso que faço música. Hélder, 31 anos, designer multimédia, músico, Castelo de Paiva Tenho um [MP3] no carro mas nem ouço geralmente. Não é coisa que me entre muito. Gosto de comprar, gosto de… Apesar disso muito porque são caros mas compro, de vários tipos de música. Não gosto só de punk. Gosto de outras coisas, ou de rock português ou de… Oh pá de vários géneros… Francisco, 35 anos, motorista, músico, Paredes A par dos álbuns, existe também, por parte de alguns entrevistados, um gosto pela compra de outro tipo de merchandising das bandas, como t-shirts ou edições especiais de álbuns. Olha, roupas. Camisolas de bandas que gosto, por exemplo, coleciono, sou colecionador de Metallica, sou do clube de fãs de Metallica, todos anos vêm aquelas edições limitadas só para colecionadores que só nós temos acesso por exemplo. Basicamente é isso. Rafael, 32 anos, Dono de Bar, Paços de Ferreira Se eu gostar posso comprar o CD, posso comprar o vinil, posso comprar merchandising, uma tshirt, compro cenas dessas obviamente. Se eles vierem cá a Portugal ou a Espanha e não sei quê, eu vou ver, não é? Acho que é nesse sentido. Hélder, 31 anos, Designer multimédia, Músico, Castelo de Paiva
6. Who are you? Do you like what? Trajetória e self no pop rock do Tâmega 95 A ida a eventos (festivais, concertos de menor dimensão), dizem os entrevistados, tentase que seja frequente, assim como a visitação de espaços (bares) de rock, assumindo, aqui, um papel importante o Porto enquanto cidade que melhor satisfaz as necessidades musicais e sociais dos entrevistados, e daí destacam, por exemplo, o Hard Club, o Armazém do Chá, o Plano B, Altar, o Tendinha, ou ainda a Casa Viva. Na região, são sobretudo os espaços que fomos referindo noutros pontos deste trabalho que recebem maior preferência por estes atores: Wood Rock (Marco de Canaveses), Canecas Bar (Paços de Ferreira), TripArt (Celorico de Basto), Old Rock (Penafiel), Roque Bar, Indie Bar (Paredes). Apesar de tudo, os entrevistados dizem que é nas suas residências que melhor conseguem experienciar e sentir a música. A minha maior fuga para poder acompanhar o panorama musical acaba por ser sempre o Porto, ou seja, o Hard Club, eu faço também fotografia e texto com a Joana que é minha namorada, fazemos cobertura de concertos, de música, temos feito bastantes coisas, mas é tudo fora daqui. Aqui no Marco é basicamente o Wood Rock. Gabriel, 38 anos, dono do bar, Marco de Canaveses Quando nós nos juntamos para ouvir música em Cabeceiras, nos vamos ao Triparte ou vamos a Mondim. Especialmente ao Triparte que é mais perto e a gasolina está um bocado cara. Aqui no Porto. Ah não falei dos Radiohead (---) mas agora não vale a pena. Sei lá, Plano B costumo ir bastantes vezes ao Plano B. Pedro, 21 anos, estudante, músico, Cabeceiras de Basto Vamos a bandas pequenas, quando tocam a gente vai lá ver. É quase como uma coisa de amigos. Vamos a um concerto de um amigo nosso... Depois eles vão ver o nosso. Rui, 17 anos, Estudante, Músico, Felgueiras Prefiro ouvir em casa, mas ouço no carro, ouço muito no carro. Prefiro em casa, mesmo para ouvir com mais atenção e tudo, é em casa. Fábio, 24 anos, engenheiro informático, músico, Paços de Ferreira Esses momentos lúdicos fazem-se acompanhar ainda do consumo de álcool e de algumas substâncias ilícitas (nomeadamente cannabis e haxixe), muito embora, tal como sublinham os entrevistados, este tipo de consumos não sejam próprios dos públicos do rock, apontando até para cenários musicais onde, para os entrevistados, existe um consumo mais exagerado destas substâncias. Agora, tal como acontecerá nesses “outros cenários”, também no rock essas substâncias parecem funcionar como mecanismo impulsionador e facilitador da desinibição e da libertação do indivíduo do stress do dia-a-dia. Acho que é igual às outras… tudo o que é música, consumo de massas, sair à noite, é igual. Há cenas bem piores. O drum, por exemplo, não é o álcool mas é as drogas, e o pessoal dar uns cheiros; os ácidos no trance; o vinho no pimba, meu… Estás a ver? O consumo de substâncias está sempre
Sons e Lugares: trajeto e retrato da cena rock no Tâmega 96 associado à música. Vais ver uma cena aqui à Casa da Música de ópera, e o c***lho, e não vendem também lá copos de vinho, e champagne? Está ligado a tudo… Acho que é normal, meu, é mesmo assim. Afonso, 27 anos, trabalhador independente de serviços, músico, Porto Drogas existem, como é lógico, mas o rock tem uma vantagem: o rock continua ser das pessoas que bebem mais que as outras, ou seja, bebem muita cerveja e muito whisky, e fumam marijuana; essa é a ideia que eu tenho; não quer dizer que não hajam drogas mais pesadas envolvidas, porque há de certeza. (…) No rock, é verdade, que há muita gente a consumir marijuana e haxixe e álcool, whisky e cerveja, principalmente, que é o que eu vendo mais aqui no meu bar. Gabriel, 38 anos, dono do bar, Marco de Canaveses Neste contexto, existe uma certa predileção pela “noite”, pois à noite as pessoas, porque isso também o pretendem, conseguem abstrair-se mais facilmente dos problemas do dia-a-dia, criando assim um ambiente potencialmente mais propício à socialização e à diversão. Para além disso, a consolidação da “cultura de saídas” tem vindo a institucionalizar a noite desde os anos 50 como sendo atemporalidade do lúdico, da fruição urbana e musical. Aliás, é um pouco inconcebível a realização de concertos durante o dia, para os públicos, músicos e promotores, uma situação de estranheza. Neste âmbito, tem vindo a adquirir importância a chamada economia da noite que mobiliza interesses e desejos cada vez mais importantes em Portugal e ao que aprece no Tâmega. Pá, se é em direto, é claro que prefiro ver um grupo em direto à noite. Mas também já vi grupos em direto durante a tarde (…) Pá, só que é outra onda, não é? Mas claro, se me dizes: “Pá, vamos a um concerto”, é um concerto à noite, ya, claro. Claro que sim. Mas isso já vem do misticismo de “sair”, e “beber um copo”, jantar, beber mais quinze copos, ou vinte, ou trinta, e ir para o concerto, não é? Aliás, porque se é à noite, quer dizer que no dia a seguir não vais ter que ir trabalhar, se é fim de semana, é juntares o útil, entre aspas, de ires ver um concerto, ao agradável de passares um fim de semana em grande. Mas, sim, acho que também se devia fazer mais coisas à tarde. Sou adepto. Júlio, 28 anos, auxiliar de acção educativa, músico, Penafiel Os eventos, à noite têm outra magia, mas eu acho que isso é porque é quando as pessoas estão livres. Uma vez tocamos á tarde e não foi tão bonito, até me enganei, disse boa noite às pessoas [risos] com o hábito. Fábio, 24 anos, engenheiro informático, músico, Paços de Ferreira As pessoas à noite têm outro tipo de disposição, de dia há muita gente a trabalhar ou há aquele ambiente ainda muito stressante do dia-a-dia, se calhar à noite já está tudo mais relaxado. Rafael, 32 anos, dono do Canecas Bar, Paços de Ferreira
Considerandos Finais 97 Considerandos finais Tudo o que mudou, chegou 'pra poder crer. / Tudo o que vier não será mais que um parte de um sonho que entendes ser só teu. / Sabes que ao teu lado, nada mais volta atrás. / Levo-te comigo depois de acordar. / Leva-me contigo, lua linda.../... A luz fria, o sono, a insónia.../ ... No escuro do quarto, na cama, / Onde também está.../... e então voava ... Lentamente, / E então ficava.../ ... Mais tempo essa noite, / Dava tudo 'pra ficar. / Voar devagar contigo, / Sem sítio certo 'pra chegar. / Mais alto, tão alto, / Daqui dá 'pra ver melhor/ De tudo o que se vê, / Ao seu lado consigo ver mais cor./ Fácil é poder dizer "que queres",/ A pagar por segundos, muitos dias/ Q'enquanto fáceis horas diluías nas noites d'entrega ao que tu querias./ E passa tanto tempo aqui e diz, / O que passa para mim outra vez. / Mais tarde, mais calmo, tão calmo, / Tão forte, mais forte, do que este luar.../... E então voava... Lentamente, / E então ficava.../... Mais tempo essa noite, / Dava tudo 'pra ficar. / Voar devagar contigo, / Sem sítio certo 'pra chegar. / Mais alto, tão alto, / Daqui dá 'pra ver melhor/ De tudo o que se vê, / Ao seu lado consigo ver mais cor. Orangotang 18 (2006) - Mais Alto. Propaganda. Chegados a este ponto, vale a pena recordar que esta investigação se sustentou em três pilares fundamentais. O primeiro alimentou-se de um desejo e necessidade de conhecer e interpretar uma realidade cultural, musical e sociabilitária que nos é próxima. Assim, o facto de termos residência no concelho de Marco de Canaveses, integrante do Tâmega, foi um móbil primordial desta investigação, mostrando que o destino sociológico que quisemos para profissão também veio ajudar ao autoconhecimento, à procura de uma razão prática e de um sentido de vida. Ainda dentro deste pilar, foi fundamental a assunção da nossa condição de jovens à procura de uma consolidação identitária oscilante entre o Porto e o Marco de Canaveses, entre a grande cidade e o meio péri-urbano, entre a sociologia e a devoção ao pop rock. O segundo pilar desta investigação foi-se construindo através do nosso contacto com todo um conjunto de trabalhos e teorias que abriram os nossos horizontes relativamente às culturas urbanas e à interpretação sociológica da música, do rock, da juventude, da noite e da convivialidade lúdica em torno da música. É óbvio que isto foi acontecendo através do contacto com as obras de Andy Bennett, José Machado Pais e de Paula Guerra. Este manancial permitiu-nos perceber a pertinência e heuristicidade destes interesses, ajudando a estreitar relações entre interrogações que eram nossas e interrogações que começamos a incorporar como sendo legítimas e definidoras do nosso papel na sociologia. Da combinação destes dois pilares surgiu o terceiro. Este liga-se à dinâmica presente que começamos a sentir no próprio local de residência e concelhos vizinhos em torno de uma cena musical. Tudo se foi adensando quando, nos últimos dois anos, passamos a descobrir e a ouvir produções musicais locais, bem como, a frequentar eventos e espaços que hoje assumiram categoria de objeto empírico. Assim, e na impossibilidade de esmiuçar aqui todos os elementos racionais e emocionais que estiveram na origem deste projeto, lançamo-nos à conquista de um objeto, movidos por uma interrogação fundamental: saber até que ponto o Tâmega é capaz de suportar 18 Esta banda é de Mondim de Basto e foi criada em 2003 e ainda está ativa e situa-se numa linha de rock alternativo.
Sons e Lugares: trajeto e retrato da cena rock no Tâmega 98 uma cena rock específica e particular oscilando entre o global e o local. Nos excertos abaixo transcritos, podemos afirmar que é possível, nesta segunda década do século XXI, delimitar e caracterizar uma cena rock local de âmbito regional com vários pólos, portadora de agentes, estruturas, organizações, registos fonográficos e relações. Assim, como fomos referindo ao longo desta Dissertação, é uma cena local e virtual, na interpretação dos antagonismos e contradições que caracterizam a modernidade e, nela, a indústria pop rock contemporânea. A subsistência aqui é um bocado complicada, porque não há mercado, também não há iniciativas. Mas aqui nesta zona, funciona, vai funcionando. Gabriel, 38 anos, dono do bar, Marco de Canaveses Não, é assim, acho que quem é daqui, é normal que não vá para o Porto de propósito para um bar de rock. Acho que o Canecas, nesse caso, enche as medidas. É óbvio que quem quiser ir para o Porto também pode fazê-lo, a algum sítio específico a que queira ir… Mas aqui da zona, acho que estão servidos. Eduardo, 28 anos, produtor/ promotor, Porto As poucas cenas que existem aqui, o pessoal daqui dos arredores enfia-se todo ali. Não existem muitos mas os que existem o pessoal enfia-se todo ali e pronto. Depois o que acontece é que o pessoal depois farta-se de ir sempre ao mesmo sítio e procura outros mas aqui dá perfeitamente. Aqui, sinceramente acho que não, por aqui acho que não [há futuro]. Alguns ficam como sempre, há pessoal que entra pela moda e acabam por gostar e acaba por ficar, há pessoal que não, é moda aquilo depois passa para outro e anda assim. Aqui nesta zona não me cheira muito. Pode, isso acredito que sim, existirão mais bares ou cenas para concertos mas não será como no Porto. Miguel, 30 anos, operador florestal, músico Lousada É preciso ir para o Porto, para arranjar mais concertos é no Porto, aqui é mais complicado de arranjar. A não ser que sejam bandas de covers que aqui ainda se encontra muitos bares para tocar. Depende do estilo de som que seja, agora as bandas dentro do metal, punk e assim tem de ser no Porto, aqui é mais complicado para tocar. É como falávamos há bocado, a gente tem de ir para o Porto, como os Quebra Cabeças, com aqueles estilos mais agressivos ou que as pessoas às vezes intitulam como isso, que para mim… tenho noção que não é um Tony Carreira nem nada do género. Mas temos mais facilidade no Porto. Com bandas de rock como eu estava a dizer, como os What’s in the bag, se calhar temos mais facilidade aqui do que no Porto, temos mandado muitos mails para bares e tudo e lá têm as bandas não dão cachet fixo, é por entrada, 1€ por pessoa e se não vier pessoas, eles dizem que não há concerto, enquanto aqui nos bares costumam dar cachet fixo, pedimos 100 ou 150€ e eles lá dão. Tiago, 25 anos, estofador, músico, Paredes Daqui para afrente iremos retomar as nossas hipóteses de pesquisa e com elas apresentar as principais conclusões a que chegamos. Uma nota antes desse exercício. Trata-se de uma investigação inacabada porque deixou em aberto uma série de portas de reflexão futuras para o aprofundamento da investigação sociológica, nomeadamente no que diz respeito à abordagem de contextos periféricos de produção, intermediação e consumo musical; algo que nos parece
Considerandos Finais 99 de extrema relevância, na mediada em que as investigações de referência só se reportam a contextos centrais e dominantes da indústria musical, assim como, a manifestações musicais legítimas do reportório musical, deixando de lado sonoridades que manifestamente são denominadores comuns das preferências e consumos da população na contemporaneidade. Igualmente, importa aprofundar a particularidade que determinados subgéneros musicais vão assumindo nos quotidianos dos jovens, onde destacamos a eletrónica, o metal, o rock alternativo e o punk. Desta feita, importa ir para além do limiar do rock. Também consideramos como eixos de desenvolvimento futuros, a complexidade da condição juvenil, sobretudo ao percebermos a trajetória do que é assumido como sendo jovem hoje que pode percorrer uma ageing career diversificada em função do local habitado e da região destinatária da sua produção e criação musical: estamos a referir-nos ao estudo do ageing musical territorial. Também é importante investir um esforço de investigação nas estratégias de empreendedorismo musical juvenil do Tâmega e do-it-yourself que podem estar na base de uma via de requalificação do self e da própria inclusão de alguns destes atores no sistema alternativo, mas consistente, de integração na vida adulta. Estas e muitas outras questões ficam em aberto, assim como, a possibilidade de um desenho de um programa de intervenção político a ser debatido junto das autarquias e da associação de municípios que inclua como eixos estruturantes a música, os jovens e as possibilidade de desenvolvimento sustentado, inteligente e inclusivo da região já num piscar de olhos à Europa 2020. Retomando as nossas notas conclusivas. Na senda de outras investigações, sobretudo canadianas e inglesas acerca da territorialização musical, estamos perante uma realidade que abarca o desenvolvimento de manifestações rock em contexto periférico. Essa situação foi sustentada pelo facto de a região do Tâmega constituir uma das regiões onde se faz sentir ainda uma forte presença dos jovens e em consequência, uma diminuta presença das camadas mais velhas da população; uma região que, ao mesmo tempo, se faz mover por um modelo económico muito assente na economia informal e paralela e onde a escolarização, embora com tendência para o crescimento, ainda fica muito aquém daquela verificada a nível nacional. Ora, tudo isso, conjugado com o facto de estarmos perante um contexto em que o desemprego assume níveis significativos e em que existe um forte movimento emigratório, não é de espantar que estes jovens exibam, muitas vezes, comportamentos pouco convencionais em termos educacionais e profissionais, assumindo, aí, a cultura e os espaços lúdicos uma forte importância na consolidação das identidades e percursos individuais dos mais jovens nos dias que correm. Através destas características demográficas é possível, desde logo, estabilizar um conjunto de adeptos da música rock, uma adesão a uma cultura de saídas, o desenvolvimento de
Sons e Lugares: trajeto e retrato da cena rock no Tâmega 100 projetos musicais e ainda pequenos eventos ligados à divulgação deste género musical. Esta mesma dinâmica também nos levou a considerar as especificidades desta cena musical no contexto global, designadamente pelas caraterísticas de informalidade e de familiaridade que relacionam criadores, espaços e consumidores. Sendo ainda possível identificar, por parte dos nossos interlocutores, perspetivas de entendimento da música enquanto denominador comum de qualidade de vida e de realização identitária, fazendo-se sentir a importância da música no quotidiano lúdico dos seus consumidores, no tempo livre dos seus produtores e no desenvolvimento de estratégias de negócio por parte dos intermediadores. Todo este intricado levou-nos a avançar com uma abordagem de cenas musicais locais e virtuais do Tâmega, como sendo afetivas e reforçadas. Marcante em relação ao que acabamos de dizer é o facto de, na análise dos atores, espaços e dinâmicas de sociabilidade, termos verificado a presença de dois tipos de movimentos nesta cena rock: por um lado, uma cena musical e organizativa muito ligada ao profissional; e outra cena ligada a uma certa informalidade (não pagamento das bandas, música a part-time) atestada pelo facto dos grandes eventos ocorrerem de forma mais irregular, pelo facto de nos espaços de fruição musical ocorrerem eventos de rock misturados com outro tipo de eventos. Ponto assente. Neste última vertente de cena, existem mais bandas, mais eventos, mais público, mas paradoxalmente essa intensidade é quase de natureza espontânea, isto é, cada vez existem mais músicos dedicados ao rock, mas essa dedicação ocorre em simultâneo e paralelo com uma multiplicidade de atividades de outra natureza. A este respeito estamos perante um conjunto de bandas com percursos amadores. São bandas de garagem cujos elementos não tiveram aprendizagem formal de música, mas que foram sendo socializados na música dentro das dinâmicas locais de musica tradicional (filarmónicas ou nos espaços lúdicos existentes). O caráter paradoxal desta cena pode ainda ser constatado pela falta de media locais (rádios, jornais) que divulguem o que se faz na zona. Segundo os entrevistados, mesmo quando existe media voltada para o rock (nomeadamente, rádios), as bandas ou os eventos locais são excluídos das agendas. Ora, este conjunto de dados mostramnos que a cena rock do Tâmega é portadora de espacialidade, de regularidade e de coletivização: elementos fundamentais para a sua caraterização. Não obstante a presença destas caraterísticas delineadoras de cenas, a sua fraca densidade encontra-se condicionada pelas determinantes estruturais de desenvolvimento económico e social que atravessam o Tâmega e que se revertem no rock na falta de estruturas de apoio, de escolas, de destinos ligados especificamente à música.
Considerandos Finais 101 No que diz respeito à fruição e consumo musical, é importante destacar similarmente essa relativa informalidade, demonstrada pela densidade relacional em torno das bandas baseada na amizade, pela pertença à mesma terra, e inclusive, pela existência de relações de familiaridade entre fãs e bandas. É também importante relevar a presença de movimentações de doit-yourself por parte de públicos, bandas e promotores, evidentes, por exemplo, na movimentação no mesmo automóvel para a deslocação a um concerto, na montagem de concertos em que participam todos, na dinamização de páginas do facebook, no apoio a eventos de maior dimensão emprestando equipamentos e instrumentos. Assim, as possibilidades de demonstração de uma cena pop rock regional colocam-se ao nível da produção, intermediação e consumo de forma antinómica e à primeira vista paradoxal. Estamos perante um contexto de diversificação de oferta e consumo musical e consequentemente de uma maior extensão das atividade musicais, de uma maior amplitude dos públicos e eventos e da emergência de novos produtores e promotores num pano de fundo de relativa informalidade e voluntarismo. Relacionalmente, estamos perante um contexto em que criadores, consumidores e promotores acabam por desenvolver um raio de ação sobretudo de natureza intra-Tâmega, mostrando bem que se trata de uma cena local e não translocal, com forte suporte emocional. Parece ainda evidente a presença, no Tâmega, da tendência geral e global da desmaterialização da música e da alteração dos formatos e suportes musicais. Algumas das principais mudanças situam-se no acesso muito facilitado à música, no aumento do número de bandas, na fragmentação e pulverização de interesses musicais, no aumento de canais de acesso e fruição da música, na capilaridade de canais de divulgação e de crítica, na multiplicidade de suportes… A relevância da cena virtual do Tâmega é assim uma realidade. Se nos contarmos nos públicos, a facilidade do acesso à música e o facto de ser gratuita, sustenta a sua avidez musical. Do lado dos criadores, a expansão das redes sociais (facebook) ou de outros blogs veio contribuir para uma maior autonomia, possibilitando-lhes não só disponibilizar as suas músicas gratuitamente para os seus fãs ouvirem, como também chegarem a mais públicos – com a consciência de que o facto de se ter um like não significa que essa pessoa vá aos concertos das bandas; continuando, assim, a ser indispensável o papel da intercomunicação entre amigos e familiares na divulgação dos eventos existentes ao nível da cena local. Apesar de todas as dificuldades, a vontade das pessoas fala mais alto e existe sempre quem (apoiados por uma pequena legião de fãs – na maioria amigos) consiga organizar, quem consiga promover e consiga criar algo. O aumento do número de bandas e de membros dedicados ao rock é um claro exemplo disso, dessa vontade musical existente nos jovens do Tâmega, constituindo estes um dos maiores motores da cena rock no Tâmega: dando-lhe visibilidade,
Sons e Lugares: trajeto e retrato da cena rock no Tâmega 102 regularidade e coletivização. Aqui, importa referir a importância dos bares mais dedicados ao rock, nomeadamente o Wood Rock e o Canecas Bar ou mesmo, a recém criada Associação Compaços de Paços de Ferreira ou as diferentes escolas de música e espaços de ensaios que vão existindo em todo o território do Tâmega enquanto organizações influenciadoras dos gostos dos jovens desta região e enquanto principais patrocinadoras dos encontros destes miúdos. Apesar do dinamismo da cena virtual, existe uma consciência de que toda esta digitalização da cena, se trouxe vantagens, também derivou algumas desvantagens: banalização das bandas e das músicas. Mas assim, também, adquirem mais relevo os concertos e os live acts ou o vinil, como regresso à materialidade do objeto musical. Os géneros e subgéneros musicais presentes no Tâmega, no que toca às preferências dos nossos interlocutores, interligam-se com as tendências de estruturação global dos mundos das artes e da cultura na modernidade. Em termos de estilos musicais, na região do Tâmega o que parece predominar, a um nível geral, tal como no resto do país, é a designada música electro, de dança. Quase todos os bares que se foram criando, ao longo dos anos, pautaram-se por esse estilo musical, assumindo-se o rock (nos termos identificados pelos nossos entrevistados) como um estilo mais restrito, que abrange um menor número de fãs e de organizações. Dentro deste estilo musical (o rock) emerge, entre as bandas por nós identificadas, uma diversidade de subgéneros considerável que parece sempre ter caracterizado a região do Tâmega: punk, metal, rock alternativo, pop… Last but not the least, a cena aqui apresentada pauta-se por um grande afeto à música e à importância da música na realização do self, como recurso de qualidade de vida e como patamar de realização pessoal. A vivência musical no Tâmega é ainda mais masculina do que feminina, indo de encontro às tendências globais presentes na sociedade portuguesa. Neste contexto, existe uma certa predileção pela noite, pois à noite as pessoas conseguem abstrair-se mais facilmente dos problemas do dia-a-dia, criando, assim, uma atmosfera potencialmente mais propícia à socialização e à diversão. Para além disso, a consolidação da cultura de saídas tem vindo a institucionalizar a noite desde os anos 1950, como sendo a temporalidade do lúdico, da fruição urbana e musical. Aliás, é um pouco inconcebível a realização de concertos durante o dia, para os públicos, músicos e promotores: é uma situação de estranheza. Neste âmbito, tem vindo a adquirir importância a chamada economia da noite que mobiliza interesses e desejos cada vez mais importantes em Portugal e ao que parece no Tâmega. Finalmente, e na eminência de ter de concluir, gostaríamos só de referir com Simon Frith que “nos últimos cinquenta anos, pelo menos, a música pop tem sido uma forma importante na qual temos aprendido a compreender-nos a nós mesmos como sujeitos históricos, étnicos, de vinculações classistas e de género. (...) Durante os últimos trinta anos, por exemplo,
Considerandos Finais 103 pelo menos para os jovens, a pop tem sido a forma pela qual os cálculos diários de raça e sexo têm sido confirmados e confundidos. Pode ser que, no final, queiramos valorizar de forma suprema esta música (...) que tem efeitos colectivos, perturbadores e culturais. O meu ponto é que a música só faz isso através do seu impacto sobre os indivíduos. Que impacto é o que precisamos primeiro entender” (Frith, 2004:46).
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117 Anexos
Sons e Lugares: trajeto e retrato da cena rock no Tâmega 118
Anexos 119 1. Enquadramento social, económico e cultural da NUT IIITâmega
Sons e Lugares: trajeto e retrato da cena rock no Tâmega 126 Figura A.1. - Despesas em cultura e desporto (€) por NUT III, em 2011 Fonte: construído a partir de INE (2012b) e PORDATA (2013a) Figura A.2.a/b - Evolução das despesas em cultura e desporto (€) dos municípios da NUT III-Tâmega (2001-2011); e da NUT III-Tâmega (2000-2011) Fonte: construído a partir de INE (2012b) e PORDATA (2013a) 25,96 25,96 32,11 33,93 31,78 27,99 40,63 30,22 26,15 28,11 26,06 20,47 0 €25 €50 € 2011 2010 2009 2008 2007 2006 2005 2004 2003 2002 2001 2000 Milhões
Anexos 127 Quadro A.6. - Despesas dos municípios em cultura e desporto (milhares de euros): total e por domínio cultural, entre 1995-2011 (Portugal, Norte, NUT III-Tâmega) Fonte: construído a partir de PORDATA (2013b)
128
Anexos 129 2. Espaços de fruição musical no Tâmega
Sons e Lugares: trajeto e retrato da cena rock no Tâmega 130
Anexos 131 Quadro A.7. – Espaços de fruição musical no Tâmega (ago/2013) Espaço de fruição musical Concelho N.º eventos rock 2012ago/2013 Link D'Arcos Bar Amarante 11 https://www.facebook.com/pages/Darcos-Bar/166467463403069 Dom Giannini Amarante 0 https://www.facebook.com/gianninibar/about Glam Club Amarante 0 https://plus.google.com/109219668503847677833/posts Pop Amarante 1 https://www.facebook.com/popdiscotech1?fref=ts Spark Amarante 1 https://www.facebook.com/SparkbarSextasfeirasLoucas Spirit Amarante 0 https://www.facebook.com/pages/Discoteca-Spirit/155751431143301 Boss Baião 0 https://www.facebook.com/bossclub.santamarinha Lareira Café Baião 0 https://www.facebook.com/pages/LareiraCaf%C3%A9/126528607433456?fref=ts Bar Turismo Cabeceiras de Basto 2 http://barturismo.pt/ Café Carvalhal Cabeceiras de Basto 2 https://www.facebook.com/cafebar.esplanadadocarvalhal?fref=ts Casa da Música - Coffee Lounge Cabeceiras de Basto 0 https://www.facebook.com/coffeelounge.casadamusica?fref=ts Discoteca Model's Cabeceiras de Basto 0 https://www.facebook.com/pages/Discoteca-Models/117915244937925?sk=wall&filter=12 Espaço Armazém Cabeceiras de Basto 0 https://www.facebook.com/pages/Espa%C3%A7o-Armaz%C3%A9m/194984660644280 Fetish Club Cabeceiras de Basto 0 https://www.facebook.com/pages/Fetish-Club/172134826142295 Slim Cabeceiras de Basto 0 https://www.facebook.com/SlimBar.cabeceiras?filter=3 Visual Caffe Cabeceiras de Basto 0 https://www.facebook.com/visual.caffe Autarquia Castelo de Paiva 0 https://www.facebook.com/discotecaautarquia Boavista Lounge Café Castelo de Paiva 1 https://www.facebook.com/boavista.loungecafe?ref=ts&fref=ts Canastro Castelo de Paiva 2 https://www.facebook.com/pages/Canastro-Castelo-dePaiva/375293329152684 Copofonia Bar Castelo de Paiva 1 https://www.facebook.com/CoposBar?ref=stream&hc_location=stream Game Club Castelo de Paiva 0 https://www.facebook.com/pages/Game-Club/184894761535371 Sindicato Bar Castelo de Paiva 0 https://www.facebook.com/sindicato.castelodepaiva 2 Moinhos Celorico de Basto 7 https://www.facebook.com/2moinhos Cinzas Bar Celorico de Basto 0 https://www.facebook.com/cinzas?fref=ts Cubo Bar Celorico de Basto 3 https://www.facebook.com/cubobarceloricodebasto Tripart Bar Celorico de Basto 9 https://www.facebook.com/tripart.bar S2 Bar Cinfães 0 https://www.facebook.com/pages/S2-BAR/188568614503287 Double Face Felgueiras 0 https://www.facebook.com/media/set/?set=o.446832740124&type=3 Santa Baía Bar Felgueiras 0 https://www.facebook.com/santabaiabar2 SLEEPY British Pub Felgueiras 11 https://www.facebook.com/sleepy.lixa?fref=ts Tascoela (Felgueiras) Felgueiras 0 https://www.facebook.com/tascoela.barfelgueiras Tropical Bar Felgueiras 0 https://www.facebook.com/tropicalbarrosas
Sons e Lugares: trajeto e retrato da cena rock no Tâmega 132 Espaço de fruição musical Concelho N.º eventos rock 2012ago/2013 Link White Felgueiras 0 https://www.facebook.com/WhiteFelgueiras Havana Club Lixa (Felgueiras) 0 https://www.facebook.com/havanaclublixa Adeskabir Lousada 0 https://www.facebook.com/espaco.adeskabir First Pub Bar Lousada 19 https://www.facebook.com/FirstPubBar?fref=ts Industrial House Club Lousada 0 https://www.facebook.com/HouseClubSenssions Latinos Club Lousada 0 https://www.facebook.com/Club.Latinos.Lousada/timeline Paddock Café Lousada 0 https://www.facebook.com/paddock.caffe/about Praça Pública Lousada 0 https://www.facebook.com/pages/Praca-publica-bar-lousada/196090227078332 Sunny Side Lousada 3 https://www.facebook.com/sunnysidebar Cohiba Marco de Canaveses 0 https://www.facebook.com/cohibamcn Contratempo Bar Marco de Canaveses 1 https://www.facebook.com/ContraTempo07?fref=ts ECLIPSE BAR Marco de Canaveses 3 https://www.facebook.com/eclipse.bar.3 ETC Marco de Canaveses 0 https://www.facebook.com/pages/Etc-Caff%C3%A9/208558872505916 Gift Marco de Canaveses 0 https://www.facebook.com/giftcaffebar# Happy Marco de Canaveses 0 https://www.facebook.com/pages/Happy/204231019623201 Jamaica Marco de Canaveses 0 https://www.facebook.com/pages/JamaicaCaff%C3%A9/119510761463828 Kalesh Club Marco de Canaveses 0 https://www.facebook.com/KaleshClubAlpendorada Lost In Marco de Canaveses 0 https://www.facebook.com/pages/Lost-In-ClubLounge/106159422863598 Piso Zero Marco de Canaveses 1 https://www.facebook.com/PisoZEro?filter=3 Torre de Nevões Marco de Canaveses 2 https://www.facebook.com/pages/Torre-de-Nev%C3%B5es-Gold-Edition-13/420683564679139?fref=ts Woodrock Marco de Canaveses 33 https://www.facebook.com/woodrockbar?group_id=0 Baketas Bar Mondim de Basto 0 https://www.facebook.com/baketas.bar Bossa Café Mondim de Basto 0 https://www.facebook.com/pages/Bossa-Caf%C3%A9Bar/137171433124192 Kotton Club (encerrado) Mondim de Basto 0 https://www.facebook.com/kottondisc Old Bar (encerrado) Mondim de Basto 0 https://www.facebook.com/oldbar.mondimdebasto Canecas Bar Paços de Ferreira 35 https://www.facebook.com/Canecas.Bar.Oficial?fref=ts Casa da Eira (PUPF) Paços de Ferreira 0 https://www.facebook.com/CasadaEira?filter=1 Dany Bar Paços de Ferreira 2 https://www.facebook.com/danybar.frazao Desigual Paços de Ferreira 0 https://www.facebook.com/pages/Bar-Desigual/145082582220596 Discoteca Elitis Paços de Ferreira 0 https://www.facebook.com/clubelitis Havanna Paços de Ferreira 0 https://www.facebook.com/freamundehavanaclub Inkulto Live Bar Paços de Ferreira 17 http://www.facebook.com/InkultoLiveBar
Anexos 133 Espaço de fruição musical Concelho N.º eventos rock 2012ago/2013 Link Kaos Caffé Paços de Ferreira 0 https://www.facebook.com/kaoscafepf Kascos Caffé Paços de Ferreira 0 https://www.facebook.com/pages/KascosCaff%C3%A9/168970436475712?sk=wall&filter=12 MI.KA.DU. Sports Café Paços de Ferreira 0 https://www.facebook.com/Mikadu.CafeBar Miau Bar Paços de Ferreira 0 https://www.facebook.com/miaubar Portagem Paços de Ferreira 1 https://www.facebook.com/pages/Portagem-BAR/194464673905339 Sun 7 Bar Paços de Ferreira 0 https://www.facebook.com/pages/SUN-7-BAR/150311215067031 Café Europa Paredes 2 Indie Bar Paredes 4 https://www.facebook.com/IndieBaltar Piso de Baixo Paredes 0 https://www.facebook.com/piso.debaixo Praxe Caffé Paredes 0 https://www.facebook.com/newpraxe Prestige Club (exLá de Lá) Paredes 0 https://www.facebook.com/pages/Prestige-Club/297813820254213 Raio X Bar Paredes 2 https://www.facebook.com/raiox.bar/about Roque Bar Paredes 8 https://www.facebook.com/roquebar.lordelo Star Light Paredes 0 http://starlight.home.sapo.pt/ Step Caffe Paredes 2 https://www.facebook.com/step.caffe.5?fref=ts ZEN Coffee House Paredes 1 https://www.facebook.com/ZenCoffeeHouse Bar do Lago Penafiel 0 https://www.facebook.com/lagotapasmusic Bliss Penafiel 0 https://www.facebook.com/pages/blisscafelounge/134374039935129 Crazy Café Penafiel 0 https://www.facebook.com/CRAZYCAFFE1 EP Penafiel 0 https://www.facebook.com/EPestudiocafe?sk=notes Euforia Lounge Caffe Penafiel 0 https://www.facebook.com/Euforialoungecaffe Mini box Penafiel 1 https://www.facebook.com/minibox.worldmusicbar?fref=ts My Space Penafiel 0 https://www.facebook.com/HelderMoreira2012 Old Rock Penafiel 5 https://www.facebook.com/OldRockPenafiel 3D Bar Ribeira de Pena 0 https://www.facebook.com/disco3dclub Black & White Ribeira de Pena 3 Cansado's Bar Ribeira de Pena 0 https://www.facebook.com/CansadosBar
Sons e Lugares: trajeto e retrato da cena rock no Tâmega 134
Anexos 135 3. Bandas do Tâmega