A semiótica das emoções no discurso ficcional
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redis: revista de estudos do discurso, nº 1, ano 2012 A semiótica das emoções no discurso ficcional figueiredo, olívia maria ferreira gonçalves oli[email protected]t palavras-chave: semiótica; emoção; discurso; língua; ficção. resumo: O tratamento das emoções, no quadro duma teoria do discurso interacional, confirma o lugar central da expressão das emoções na dimensão relacional através dos elementos verbais, não verbais e paraverbais. Os dispositivos de comunicação ficcional são um bom exemplo de espaço de estratégia de semiótica emocional dado a ficção se prestar perfeitamente ao aparecimento de efeitos patémicos. Ler o texto literário, também nesta perspetiva, é um bom motivo para aproximar os leitores aos textos literários e o acesso destes à experiência estética. abstract: Addressing emotions, in the frame of an international theory of discourse, confirms the central place of expressing emotions in the relational dimension through verbal, non verbal and para verbal elements. Fictional communication devices are a good example of emotional semiotic strategy spaces, once fiction is vulnerable to the appearance of patemic effects. Reading a literary text, under this perspective, is a good reason to bring readers closer to literary texts and the access to these closer to the aesthetic experience. Universidade do Porto, Portugal Centro de Linguística da Universidade do Porto, Portugal keywords: semiotics; emotion; discourse; language; fiction.
56 figueiredo, olívia maria ferreira gonçalves; a semiótica das emoções no discurso ficional redis: revista de estudos do discurso, nº 1, ano 2012, pp. 55-78 «Écoutez parler autour de vous: dans tous les types d´expression où se révèle une pensée vécue, vous trouverez au moins un minimum d´éléments subjectifs et affectifs.» Charles Bally (1965: 89) «[…] la fictionalité n´est nullement une evidence logique ou sémantique, mais plutôt une probabilité culturel, induite par un certain nombre de données conventionelles d´ordres textuel, contextuel et paratextuel.» Gérard Genette (1991: 57) introdução Quando o filósofo José Gil afirma que «Só há uma metalinguagem, que é a linguagem verbal, que fala de todas» e que «As sensações vivem num caos e a linguagem ordena-as» (Gil, 2010: 45), está este Autor a validar a ideia, já presente em Aristóteles e Wierzbicka, de que as palavras/expressões de emoção constituem um domínio estruturalmente coerente. Saber que se experimenta uma emoção determinada e compreender a palavra/expressão que representa e significa esta emoção, constitui um ato de cognição a partir de um processamento semiótico. Embora os termos ligados às emoções não constituam um campo nocional homogéneo, as diferenças, ainda que importantes, mostram que o caráter reativo dos estados emocionais depende sempre da intensidade, da duração e da orientação da emoção. De acordo com o cenário, a expressão dos afetos diferencia-se de acordo com o objeto semiótico. Assim, tal estado patémico pode manifestar-se de modo verbal, vocal ou mimo-postural-gestual. Esta caraterística permite formular, com uma certa previsibilidade a partir dos termos das emoções numa dada língua, determinados tópicos duma sociedade. <Se há um cenário semiótico de tipo X, haverá uma emoção de tipo Y>. E é precisamente o entendimento prévio de cada tópico que vai permitir a cada ator social deduzir, a partir dum dado cenário, uma dada emo-
figueiredo, olívia maria ferreira gonçalves; a semiótica das emoções no discurso ficional redis: revista de estudos do discurso, nº 1, ano 2012, pp. 55-78 57 ção, ou abduzir, a partir de signos, uma inferência hipotética de uma determinada atitude: por exemplo, “ficar pálido” pode querer dizer “ter medo”, “estar emocionado”, ou “ficar colérico”. Embora a retórica clássica não tenha desenvolvido este sistema semiológico específico da expressão simultânea do corpo e da fala, Aristóteles, ao distinguir duas formas de ethos (por um lado, os hábitos e, por outro, as atitudes) preconiza já a ideia de que há uma norma que diz respeito à manifestação justa e adequada de uma emoção num dado cenário. Este sistema de avaliação normativa tem um argumento inegável e incontornável: a língua. Manifestações emocionais e atitudinais estão lexicalizadas e gramaticalizadas numa imensidade de palavras, de construções, de rodeios, de mímicas, de gestos, de vocalizações que constantemente se constroem, reconstroem, se modificam nas diferentes interações comunicativas. O facto de os comportamentos emotivos variarem de uma cultura a outra e de as normas de expressividade emocional poderem variar no seio de uma mesma sociedade, segundo o cenário semiótico- -comunicativo, a relação entre os interlocutores e o estatuto social, põe em evidência o caráter eminentemente convencional da expressão das emoções. Nesta ordem de ideias, se é pacífico que a língua estrutura a emoção e esta é reconhecida como um fator fundamental da racionalidade e da adaptação ao mundo circundante (Damásio, 1995), então a componente emotiva constitui-se como parte integrante do sistema linguístico e comunicativo. Assim, do ponto de vista pragmático-interativo, gerir e calibrar as distâncias emotivas por meio de inferências dedutivas e abdutivas é parte integrante da competência comunicativa quer nos processos de descodificação quer nos processos de codificação. Sendo que o grau de cooperação conversacional se mostra tanto mais eficaz quanto maior for a implicação emotiva espoletada entre os interlocutores (Ghiglione, 1986). Inter-relacionar a dimensão textual-emocional com a dimensão ficcional poderá ser também o objetivo do estudo do discurso ficcional, uma vez que a literatura, entre outras vertentes, é uma arte e esta arte é a linguagem. Assere-se, declara-se, exprime-se, ordena-se, promete-se nas mesmas condições e consequências como na vida real, com a única reserva de
58 figueiredo, olívia maria ferreira gonçalves; a semiótica das emoções no discurso ficional redis: revista de estudos do discurso, nº 1, ano 2012, pp. 55-78 que tudo isso se passa num universo de ficção perfeitamente separado do mundo real onde vivem os leitores. a semiótica das emoções nas interações sociais Em todas as sociedades, e todas as vezes que se materializam as interações verbais, entram em jogo sistemas de práticas, de convenções e de regras procedimentais que orientam e organizam o fluxo das mensagens. Quando os interactantes se acreditam mutuamente e efetuam esta ratificação recíproca, pode-se dizer que está em marcha uma conversação. Para descrever e analisar a manifestação semiótica das emoções nos discursos orais ficcionais haverá que problematizar, por um lado, as relações que existem entre os níveis psicológico (emoções experimentadas), cognitivo (emoções representadas) e linguístico (emoções expressamente denominadas) e, por outro, haverá que considerar que as emoções, como signos convencionais e intencionais, se projetam em ações metacognitivas. Efetivamente, o sujeito quando experimenta uma emoção sabe quais os elementos que a representam, significam e expressam. A tradição retórica (séculos XVII e XVIII) tinha sublinhado já a importância da semiotização do ethos e do pathos, na linha aristotélica da distinção entre emoção experimentada pelo emissor e emoção suscitada no recetor, embora não tenha desenvolvido de modo sistemático a semiologia corporal. Na verdade, o sujeito comunicante manifesta no seu discurso as marcas das suas emoções fazendo-as partilhar, ao mesmo tempo que informa e comove. Esta intencionalidade patémica pertence à ordem da enunciação e realiza-se de maneira privilegiada através da performatização e da figurativização dos enunciados que geram a perceção do enunciador (o seu ethos) e a modificação dos afetos do enunciatário (o seu pathos). Como se verificará, na conceção de uma realização ótima da intenção patémica, estão implicadas todas as dimensões da retórica geral como a inventio (seleção das matérias e dos argumentos
figueiredo, olívia maria ferreira gonçalves; a semiótica das emoções no discurso ficional redis: revista de estudos do discurso, nº 1, ano 2012, pp. 55-78 59 mais adequados), a dispositio (a ordem das matérias e dos argumentos), a elocutio (seleção das palavras e das figuras), a actio (vocalizações, gestos, mímicas). Esta aproximação semiótica centrada na análise e reconhecimento das marcas verbais, não verbais e paraverbais faz perceber que a patemização se ordena de três modos: relacional, sendo, por isso mesmo, portadora dum potencial emocional que se apresenta ao mesmo tempo como motor das trocas e como suporte das emoções sentidas ou suscitadas; intencional, estando, deste modo, ligada a saberes de crença, inscritos estes numa problemática de representação psicossocial polarizada em redor de valores socialmente partilhados; social, perpetuando, neste caso, velhas rotinas e sinalizando a vitalidade da consciência coletiva. A patemização é relacional porque o sujeito tem a capacidade de modalizar o enunciado, gerir a intensidade ou a força ilocutória de todo o ato de fala para provocar efeitos perlocutórios; é intencional porque as emoções têm uma base cognitiva de racionalidade que se encontra ligada a saberes de crenças que se influenciam mutuamente. Toda a modificação de uma crença implica uma modificação da emoção e toda a modificação da emoção implica um deslocamento da crença. Por fim, é social porque a patemização permite ao sujeito manifestar desejos e intenções, estabelecer laços de pertença a grupos, interagir entre indivíduos/grupos, partilhar saberes do mundo em circunstâncias de trocas ao mesmo tempo particulares e tipificadas. Os enunciados, que significam factos e gestos dos seres do mundo, testemunham em simultâneo a visão e a experiência intelectual e afetiva que o sujeito absorve do mundo, tornando- -se, assim, objetos de partilha e constituindo-se como um saber comum e, particularmente, um saber de crença. Estes enunciados que circulam numa comunidade social criam um vasto feixe de intertextos que manifestam sintomas de universos de crenças partilhadas que contribuem para delimitar e para marcar os “seres” sociais e os “eus” individuais. Assim se compreende que determinados dispositivos de comunicação como a “comunicação científica” não se predisponham ao surgimento de efeitos patémicos. É que a relevância de saberes de conhe-
60 figueiredo, olívia maria ferreira gonçalves; a semiótica das emoções no discurso ficional redis: revista de estudos do discurso, nº 1, ano 2012, pp. 55-78 cimento não se compadece com saberes de crença. Estes saberes de crença muito particulares dependem da enunciação, do dispositivo comunicativo, da atividade inferencial que o sujeito está a desenvolver, tudo isto por meio do uso de determinadas manifestações lexicalizadas e gramaticalizadas. Como se depreende, o discurso ficcional apresenta-se como o dispositivo mais apropriado para a manifestação da semiosis em contextos significativos. 0s procedimentos potenciais da afetividade Um discurso não é a soma de enunciados e muito menos de frases. Existem regras de construção que regem a organização dos discursos e, com maior destaque, nos discursos ficcionais. Nos discursos conversacionais face a face, estão inventariados alguns procedimentos admitidos como constituindo os melhores vetores potenciais da afetividade a saber: procedimentos fonéticos e prosódicos; marcadores de discurso e índices mimo-gestuais; interjeições, exclamações e enunciados exclamativos; procedimentos de mitigação; vocabulário e tropos, entre muitos outros recursos como a elipse e o anacoluto, as metáforas criativas e as da vida quotidiana ou, textualmente, a retoma intra e extralinguística e a repetição. Toda a análise do discurso interacional deverá ter por objeto de estudo aquela linguagem que se apresenta como sinal de algo que muitas vezes não está nos signos mas que, no entanto, deles dependem. Estes sinais só tomam sentido numa relação de troca social: exprimem-se desejos e intenções, estabelecem-se laços de pertença, joga-se o jogo do implícito e do indireto, sugere-se mais do que se diz e do que se escreve, usam-se impressões idiossincrásicas fluidas e não verbalizadas, num misto de comunicação emocional e comunicação emotiva, no sentido que lhe dá Damásio (1995) quando distingue, por um lado, afetividade espontânea e involuntária e, por outro, afetividade consciente e voluntária. Como toda a emoção se expressa comunicativamente numa dimensão de partilha, localizada intersubjetivamente no e entre os sujeitos, a expressão das emoções implica uma adaptação ao outro e à situação comunicativa, adaptando incessantemente mecanismos de regulação, de intersincronização e negociação entre os interactantes. No quadro de uma pragmática inte-
figueiredo, olívia maria ferreira gonçalves; a semiótica das emoções no discurso ficional redis: revista de estudos do discurso, nº 1, ano 2012, pp. 55-78 61 racionista, o problema mais premente encontrado no estudo da emotividade na interação é, assim, o da gestão das emoções. Como balizar a afetividade a partir de certos factos da língua (como as interjeições, certos itens lexicais, os sufixos diminutivos ou os procedimentos de intensificação) quando se sabe que o contexto é sempre mais decisivo, segundo o princípio geral que diz que um valor está tanto menos fortemente inscrito na língua, quanto mais necessita do discurso para se atualizar? A questão em considerar que os valores afetivos relevam ao mesmo tempo da língua e do discurso e que os atos enunciativos expressivos manifestam a atitude do sujeito falante diante da mensagem que enuncia, só mostra que os signos que manifestam a emoção não só vinculam enunciados, mas os enunciados com a enunciação. Deste modo, a conversação é sempre coesa: uma coesão não só interenunciativa, mas também extraenunciativa, como se poderá aferir através dos diversos usos dos procedimentos linguísticos, extralinguísticos e paralinguísticos que o sujeito tem ao seu alcance para manifestar as suas emoções. Como toda a emoção é por definição um modo de ter o seu corpo num dado cenário, a sua manifestação está tanto ligada a índices corporais (entoação, mímica, gestos…) como a índices linguísticos que formam um sistema semiológico específico que veicula conteúdos emocionais. Estes procedimentos são vários: • Procedimentos fonéticos: a presença de sons onomatopaicos, cujo emprego de fonemas em vocábulos apresenta ruídos convencionais, imprime ao enunciado uma tonalidade emocional (A festança foi até às tantas e foi um forrobodó; O relógio tiquetaqueava sem parar e não me deixou descansar); • Procedimentos prosódicos: os enunciados com tonemas suspensos marcam enunciados informativamente pertinentes dado serem entendidos com valor ilocutório completo pelo recetor (Ele era um aluno… ; Se eu tivesse sabido…); a entoação, por seu lado, é um recurso que organiza e estrutura o discurso, dá coesão à mensagem ao mesmo tempo que ela é realçada, por razões subjetivas de índole pragmático-comunicativa. Recorde-se a capacidade de realce
62 figueiredo, olívia maria ferreira gonçalves; a semiótica das emoções no discurso ficional redis: revista de estudos do discurso, nº 1, ano 2012, pp. 55-78 temático ou remático da topicalização com deslocações à esquerda (Não sei, o meu avô os olhos a cor que tinham…) ou à direita (Ela ainda os tem bons os dentes…). Também a inflexão (ascendente e descendente) contribui para o efeito rítmico e para a informação adicional da expressividade desejada, por meio de atos enunciativos (asserção, interrogação, pedido…) manifestando a atitude do sujeito, aportando valores que se sobrepõem aos papéis modais primários através do acrescento de uma força modal secundária (Hidalgo, 1997). Pense-se na expressão irónica baseada na modificação tonal - Ela vê. Diz que vê. Diz ver a alma. - Se a sua filha vê a alma, ótimo É o que se diz ver bem ao longe! Ou nas frases interrogativas parciais, que apresentam um tonema final ascendente (Mas que vais comer|?), ou nas interrogativas totais, cuja inflexão final descendente aporta um forte conteúdo modal assertivo. Além disso, o mesmo conteúdo proposicional pode não ter a mesma força ilocutória (- [*Então] Queres comer|?; - [Então] Queres comer|?), tudo dependendo da entoação. No primeiro caso, trata-se de um pedido de informação; no segundo, um pedido cortês de confirmação. A correlação entre forma ilocutória e força ilocutória nem sempre coincide, como é o caso bem sabido dos atos de fala indiretos. Um ato típico de pergunta pode ser um pedido matizado de cortesia (Queres/Podes vir mais cedo?). O efeito dos procedimentos prosódicos, como as modulações da voz, está influenciado por outros “modos de expressão” como os gestos, as expressões faciais que, para além de transmitirem informações sobre os estados emocionais internos do locutor, asseguram uma função de regulação das interações conversacionais e a semiotização das significações e finalidades ilocutórias. Esta ressonância afetiva das emoções expande-se ecoicamente em sorrisos simultâneos, analogias mímicas, mudanças de posições corporais, modificações de melodia e de qualidades prosódicas da voz, tudo isto entrecortado por longos/curtos silêncios, por longas/ breves pausas.
figueiredo, olívia maria ferreira gonçalves; a semiótica das emoções no discurso ficional redis: revista de estudos do discurso, nº 1, ano 2012, pp. 55-78 63 • Marcadores de discurso e índices mimo-gestuais: as interrupções e os silêncios são controlados pelos interlocutores de tal forma que o fluxo da troca regule, assegure e seja compatível com a face que os interactantes apresentam. Salvar a face implica conhecer as regras de circulação numa dada sociedade, conhecer os usos das componentes simbólicas, saber que a conversação age por impulsos sucessivos, saber usar as unidades rituais fundamentais para ativar o fluxo da informação (Goffman, 1974). Exemplo evidente, em dadas sociedades, é o uso frequente de dados marcadores discursivos. Uns ritualizam o discurso como “desculpa”, “obrigada”, “de nada” (- Desculpa, não ouvi chamar; - Obrigada por me ter guardado o lugar; - De nada/Não tem de quê/Por quem é); outros enfatizam o discurso com o marcador “e” (- Digo-te que ele telefonou e disse que voltava cedo e para não te preocupares). Outros ainda regulam o fluxo da conversação (- Olha, está a ouvir-me?; - Ela anda cada vez mais triste, não sei). O emprego dialógico de determinados marcadores reforçam o desacordo como “mas”, ou o enlace como “então” (- Mas, quem te disse isso?; - Então, eu ainda não sabia!). O marcador metadiscursivo “pois” estabelece o mais das vezes os limites de uma intervenção (- Pois, não se fala mais nisso!). Os elementos paralinguísticos como os gestos, os movimentos dos lábios, das mãos, da boca dão instruções que guiam, marcam e colaboram na progressão e formulação do discurso. É o caso, por exemplo, do pró-advérbio “assim” que necessita da companhia dos gestos e do movimento dos olhos para cobrar sentido. (- Ele olhou-a assim [com os olhos arregalados e as mão suspensas no ar] e disse-lhe que a amava mais que nunca). • Interjeições: Yakobson (1963) insistiu na ideia de que a gradualidade dos fenómenos expressivos se realiza no estado puro nas interjeições. As interjeições, na verdade, são rotinas enunciativo-comunicativas e sociais que participam na ritualização da emocionalidade,
70 figueiredo, olívia maria ferreira gonçalves; a semiótica das emoções no discurso ficional redis: revista de estudos do discurso, nº 1, ano 2012, pp. 55-78 língua não se centre só nas práticas escolares baseadas na gramática normativa e na história da literatura, mas que o ensino da língua e da literatura se não dissocie e se ponha ao serviço da educação idiomática e estética dos sujeitos. Esta mudança de olhar sobre o panorama de outros modos de ler deve levar a conceber a literatura como uma potencialidade de qualidades, propriedades e recursos da língua no seu grau máximo (Coseriu 1987, 1992), dadas as múltiplas as possibilidades de estruturação e reestruturação dos recursos da língua e da paralíngua ao serviço da atividade emocional-estética. Como bem afirma Bronckart (1997: 17), Si bien la literatura es un patrimonio, este patrimonio es ante todo un patrimonio de debates, de trabajo interpretativo a propósito de la personna humana, de su carácter social, de la diversidad sociocultural, y de las posibilidades de uso de la lengua. Y la literatura es también, precisamente por eso, el lugar de la contradicción permanente. O conto em análise mostrará como, em obras de criação, os exatos conteúdos concetuais são inseparáveis da linguagem quotidiana emocional: o menino que escrevia versos De que vale ter voz, se só quando não falo é que me entendem? De que vale acordar se o que vivo é menos do que o que sonhei? (Versos do menino que fazia versos) - Ele escreve versos! Apontou o filho, como se entregasse criminoso na esquadra. O médico levantou os olhos, por cima das lentes, com o esforço de alpinista em topo de montanha. - Há antecedentes na família? - Desculpe, doutor?
figueiredo, olívia maria ferreira gonçalves; a semiótica das emoções no discurso ficional redis: revista de estudos do discurso, nº 1, ano 2012, pp. 55-78 71 O médico destrocou-se em tintins. Dona Serafina respondeu que não. O pai da criança, mecânico de nascença e preguiçoso por destino, nunca espreitara uma página. Lia motores, interpretava chaparias. Tratava-a bem, nunca lhe batera, mas a doçura mais requintada que conseguira tinha sido em noite de núpcias: - Serafina, você hoje cheira a óleo Castrol. Ela hoje até se comove com a comparação: perfume de igual qualidade qual outra mulher ousa sequer sonhar? Pobres que fossem esses dias, para ela, tinham sido lua-de-mel. Para ele, não fora senão período de rodagem. O filho fora confeccionado nesses namoros de unha suja, restos de combustível manchando o lençol. E oleosas confissões de amor. Tudo corria sem mais, a oficina mal dava para o pão e para a escola do miúdo. Mas eis que começaram a aparecer, pelos recantos da casa, papéis rabiscados com versos. O filho confessou, sem pestanejo, a autoria do feito: - São meus versos, sim. O pai logo sentenciara: havia que tirar o miúdo da escola. Aquilo era coisa de estudos a mais, perigosos contágios, más companhias. Pois o rapaz, em vez de se lançar no esfrega-refrega com as meninas, se acabrunhava nas penumbras e, pior ainda, escrevia versos. O que se passava: mariquice intelectual? Ou carburador entupido, avarias dessas que a vida do homem se queda em ponto morto? Dona Serafina defendeu o filho e os estudos. O pai, conformado, exigiu: então, ele que fosse examinado. - O médico que faça revisão geral, parte mecânica, parte eléctrica. Queria tudo. Que se afinasse o sangue, calibrasse os pulmões e, sobretudo, lhe espreitassem o nível do óleo na figadeira. Houvesse que pagar por sobressalentes, não importava. O que urgia era pôr cobro àquela vergonha familiar. Olhos baixos, o médico escutou tudo, sem deixar de escrevinhar num papel. Aviava já a receita para poupança de tempo. Com enfado, o médico se dirigiu ao menino: - Dói-te alguma coisa? - Dói-me a vida, doutor. O doutor suspendeu a escrita. A resposta, sem dúvida, o surpreendera. Já Dona Serafina aproveitava o momento: Está a ver, doutor? Está a ver? O médico voltou a erguer os olhos e a enfrentar o miúdo: - E o que fazes quando te assaltam essas dores? - O que melhor sei fazer excelência. - E o que é?
72 figueiredo, olívia maria ferreira gonçalves; a semiótica das emoções no discurso ficional redis: revista de estudos do discurso, nº 1, ano 2012, pp. 55-78 - É sonhar. Serafina voltou à carga e desferiu uma chapada na nuca do filho. Não lembrava o que o pai lhe dissera sobre os sonhos? Que fosse sonhar longe! Mas o filho reagiu: longe porquê? Perto, o sonho aleijaria alguém? O pai teria, sim, receio de sonho. E riu-se, acarinhando o braço da mãe. O médico estranhou o miúdo. Custava a crer, visto a idade… Mas o moço, voz tímida, foi-se anunciando. Que ele, modéstia apartada, inventara sonhos desses que já nem há, só no antigamente, coisa de bradar à terra. Exemplificaria, para melhor crença. Mas nem chegou a começar. O doutor o interrompeu: - Não tenho tempo, moço, isto aqui não é nenhuma clínica psiquiátrica. A mãe, em desespero, pediu clemência. O doutor que desse ao menos uma vista de olhos pelo caderninho de versos. A ver se ali catava o motivo de tão grande distúrbio. Contrafeito o médico aceitou e guardou o manuscrito na gaveta. A mãe que viesse na próxima semana. E trouxesse o paciente. Na semana seguinte, foram os últimos a ser atendidos. O médico, sisudo, taciturneou: o miúdo não teria, por acaso, mais versos? O menino não entendeu. - Não continuas a escrever? - Isto que faço não é escrever, doutor. Estou, sim, a viver. Tenho este pedaço de vida - disse, apontando um novo caderninho – quase a meio. O médico chamou a mãe à parte. Que aquilo era mais grave de que se poderia pensar. O menino carecia de internamento urgente. - Não temos dinheiro – fungou a mãe entre soluços. - Não importa – respondeu o doutor. Que ele mesmo assumiria as despesas. E que seria ali mesmo, na sua clínica, que o menino seria sujeito a devido tratamento. E assim se procedeu. Hoje quem visita o consultório raramente encontra o médico. Manhãs e tardes ele se senta num recanto do quarto onde está internado o menino. Quem passa pode escutar a voz pausada do filho do mecânico que vai lendo, verso a verso, o seu próprio coração. E o médico, abreviando silêncios: - Não pare, meu filho. Continue lendo… Mia Couto, O fio das missangas, Caminho, 2009.
figueiredo, olívia maria ferreira gonçalves; a semiótica das emoções no discurso ficional redis: revista de estudos do discurso, nº 1, ano 2012, pp. 55-78 73 leitura semiótica do conto A conversa desenrola-se em dois cenários: no consultório e na clínica, onde as relações entre as personagens se alteram de acordo com o contexto social e espacial. De destacar as alterações das formas de tratamento (- Dói-te alguma coisa?; - E o que fazes quando te assaltam essas dores? / - Não pare, meu filho. Continue lendo….). A comunicação desenvolve-se em turnos de fala num clima de tensão emocional e manifesta-se: Paraverbalmente, por gestos e atitudes (apontou o filho; levantou os olhos; Olhos baixos, o médico escutou tudo; Com enfado, o clínico dirigiu-se ao miúdo; O doutor suspendeu a escrita; A resposta o surpreendera; O médico voltou a erguer os olhos e a enfrentar o miúdo; Serafina voltou à carga e desferiu uma chapada na nuca do filho; E riu-se, acarinhando o braço da mãe; O médico estranhou o miúdo; O doutor o interrompeu; A mãe, em desespero pediu clemência. O doutor que desse ao menos uma vista de olhos; Contrafeito o médico aceitou; O médico, sisudo, taciturneou; fungou a mãe entre soluções; E o médico abreviando silêncios); Linguisticamente, através de atos de fala ilocutoriamente expressivos e com força perlocutória (O médico destrocou-se em tintins; o filho confessou, sem pestanejar; O pai logo sentenciara; Dona Serafina defendeu o filho; o médico escutou tudo; o clínico se dirigiu ao menino; Mas o moço foi-se anunciando; Explicaria, para melhor crença; O doutor interrompeu; A mãe pediu clemência, o médico taciturneou; Continue lendo…); Emocionalmente, por meio do recurso a uma linguagem que traduz afetivamente a implicação dos enunciadores. D. Serafina revela ao médico o modo de ser do marido (que é preguiçoso, que só sabe ler motores e interpretar chaparia), e as emoções nela suscitadas aquando da sua lua de mel, recordando a frase enunciada pelo marido na noite de núpcias (Serafina, você hoje cheira a óleo Castrol), e a perturbação que experimenta pelo facto de o filho escrever versos (apontou o filho como se entregasse criminoso na esquadra); por seu lado, o estado emo-
74 figueiredo, olívia maria ferreira gonçalves; a semiótica das emoções no discurso ficional redis: revista de estudos do discurso, nº 1, ano 2012, pp. 55-78 cional do médico intensifica-se a partir do momento em que o miúdo responde (- Dói-me a vida, doutor). “A resposta surpreendeu-o, estranhou o miúdo e custou-lhe a crer”; Lexical e gramaticalmente, por intermédio do recurso ao emprego de vocabulário expressões logicamente marcados emocionalmente (comover, mariquice intelectual, com enfado, surpreender, em desespero, grave distúrbio, sisudo, pedir clemência, taciturnear, internamento urgente, fungar entre soluços); Polifonicamente, através do apelo à voz de autoridade do marido/pai, transmitida em discurso indireto livre, sobretudo (o pai logo sentenciara; o pai exigiu; queria tudo; o pai lhe dissera…). síntese Sendo a emoção a marca indelével de qualquer interação, é por demais evidente que só um desenvolvimento pleno da literacia emocional permite entender que não se deve confundir a capacidade biológica de “sentir” com literacia emocional, embora esta não seja possível sem aquela; que a emoção não resulta da escolaridade, embora exija estudo; que não é apanágio de uma única disciplina porque exige competências múltiplas; que a emoção não é uma caraterística biológica natural, mas que se renegoceia em contexto sociocultural; que a experiência emocional afigura-se como uma experiência representacional já que sentir emoção é interpretar; que a relação semiótica entre linguagem verbal e emocional não é simples e natural, porque convencional e socialmente codificada; que a emoção comunica-se e que para tal se exige uma descodificação inevitavelmente linguística que requer a mediação da linguagem verbal, não verbal e paraverbal; que o que provoca a emoção é a representação de uma perceção culturalmente situada e não um dado biológico universal; que aquilo que o sujeito “sente” é a representação do objeto/evento transformado em sistema semiótico.
figueiredo, olívia maria ferreira gonçalves; a semiótica das emoções no discurso ficional redis: revista de estudos do discurso, nº 1, ano 2012, pp. 55-78 75 Por outro lado, privilegiando a ficção um discurso semiótico-estético, é por demais evidente que a leitura literária tem de levar à descoberta de que o texto de ficção produz na mente do leitor imagens mentais ou virtuais, necessariamente contingentes, diversas de leitor para leitor e culturalmente determinadas; à experimentação da emocionalidade, entendida esta como sistema semiótico global que funciona como uma prática sociocultural; à identificação com as personagens e com os valores e crenças que elas apresentam e à identificação das suas próprias experiências vitais representadas simbolicamente no discurso; ao reconhecimento de que o discurso ficcional é um discurso autêntico porque provido do seu caráter locutório, ilocutório e perlocutório; à evidência de que a literacia emocional constitui-se como estratégia de ação sociocultural, no sentido de um agir em função de evitar, promover ou modificar estados emocionais. Assim, no discurso literário, o leitor descobre a potencialidade da linguagem, o seu poder para criar mundos possíveis e imaginários; experimenta as emoções suscitadas pelos eventos; identifica-se com as personagens e os valores que apresentam; reconhece-se na própria experiência vital representada simbolicamente no texto; evade-se da realidade e descobre outros universos; vê o facto literário como uma forma de estar e de interpretar o mundo. No que concerne ao discurso oral, porque este recorre a uma polifonia de vozes e de experiências, o leitor reconhece aí ecos que ressignificam e outorgam sentido ao lido, descobre a vinculação da arte à realidade objetiva e se descobre o universo dos sentimentos e das emoções. Ou como muito bem dizem Gil e Damásio: “As emoções vivem num caos e a linguagem ordena-as” (Gil, 2010: 45); “Sem emoções, não é possível funcionar humanamente, nem decidir de uma forma criadora. Mas é preciso educá-las.” (Damásio, 2001: 30)
76 figueiredo, olívia maria ferreira gonçalves; a semiótica das emoções no discurso ficional redis: revista de estudos do discurso, nº 1, ano 2012, pp. 55-78 conclusão Toda a representação linguística possui um significado social condicionado pelo contexto e gerido pelos usuários. As disciplinas que têm por objeto a análise do discurso dão por certo que o discurso é um modelo de ação social, determinado por valores, convenções e normas, e por clarividência que o discurso correlaciona as unidades linguísticas com a sua funcionalidade. Quando estes enunciados inter-relacionam valores axiológicos e afetivos está ativada uma disposição para reagir de um maneira típica e previsível em cenários determinados, e sublinhada a ligação entre emotividade e subjetividade. A teoria dos atos de fala admite a existência duma classe particular de atos de fala expressivos que exprimem um estado psicológico apropriado, no sentido de os interlocutores partilharem um conhecimento comum dos procedimentos cognitivos que permitem inferir e interpretar os significados das trocas. Como é na superfície do texto que os indícios e a sinalética emocionais se manifestam, terá de ser da superfície do texto que se deve partir para fazer inferências sobre os comportamentos e as emoções dos interactantes. Estes jogos relacionais, cognitivos, conativos e afetivos, suportes das emoções sentidas ou suscitadas, constituem o objeto e o motor da patemização das trocas, cujo alcance do efeito é uma força emocional ilocutória ao mesmo tempo que perlocutória. O estatuto das falas trocadas entre as personagens do discurso ficcional são atos de fala efetuados no universo ficcional do romance e são atos autênticos, inteiramente providos dos seus carateres locutórios, da sua força ilocutória e dos seus efeitos perlocutórios. O traço específico do enunciado de ficção é que, ao contrário dos enunciados da realidade que descrevem factos objetivos, o discurso ficcional descreve um estado mental o mais das vezes inacessível à interpretação literal.
figueiredo, olívia maria ferreira gonçalves; a semiótica das emoções no discurso ficional redis: revista de estudos do discurso, nº 1, ano 2012, pp. 55-78 77 referências ARISTOTE. Poétique. Ed. J. Hardy. Paris: Les Belles Lettres, 1975. AUSTIN, J. How to do thinks with words. Oxford: Clarendon Press, 1962. BALLY, C. Le langage et la vie. Genève: Droz, 1965 [1925]. BRONCKART. J.-P. Le texte comme lieu d´articulation de la didactique de la langue et la didactique de la littérature. In: F. J. Cantero et al. (Org.), Didáctica de la lengua y la literature para una sociedad plurilingue del siglo xx. Barcelona: Univ. de Barcelona, 1997. CALSAMIGLIA, H. y TUSÓN, A. Las cosas del decir. Barcelona: Ariel Lingüística, 1999. CHAFE, W. L. Integration and involvement in speakimg, writing and oral literature. In: D. Tannen (Org.), Linguistic in context: Connecting observation and understanding. New Jersey: Ablex, 1982, pp. 35-53. CHARAUDEAU, P. Une problématique discursive de l´émotion. À propôs des effets de pathémisation à la television. In: Christian Plantin et al., Les émotions dans les interactions. Lyon, PUL, 2000, pp. 125155. ______ De la competencia social de comunicación a las competencias discursivas. Aled, Ano 1, nº 1, 2002, pp. 7-22. COSERIU, E. Acerca del sentido de la enseñanza de la lengua y la literatura. In: VV. AA. Innovación en la enseñanza de la lengua y la literatura. Madrid: MEC, 1987. ______ Competencia linguística. Elementos de la teoria del hablar. Madrid: Gredos, 1992. DAMÁSIO, A. R. O erro de Descartes. Lisboa: Pub. Europa-América, 1995. ______ Jornal de Letras, outubro, 2001. GENETTE, G. Fiction et diction. Paris: Seuil. 1991. GHIGLIONE, R. L´homme communiquant. Paris: Colin, 1986. GIL, J. A arte como linguagem. Lisboa: Relógio D´Água, 2010. GOFFMAN, E. Les rites d´interaction. Paris: Minuit, 1974. GRICE, H.P. Logic and conversation. In: P. Cole y J. Morgan (Org.). Speech Acts. New York: Academic Press, 1975, pp. 41-58 GUMPERZ, J. Discourse strategies. Cambridge: University Press, 1982. HABERMAS, J. Erkenntnis und Interesse. Amesterdão: Suhrkamp, 1977.
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