scieee AI-readable full text Open interactive document viewer

Doença renal crónica no idoso - Artigo de revisão bibliográfica

Susana Maria Vasques Martins

Full text

Doença Renal Crónica no Idoso Dissertação: Artigo de Revisão Bibliográfica Susana Maria Vasques Martins Mestrado Integrado em Medicina Orientadora: Prof. Doutora Idalina Maria Almeida Brandão de Melo Beirão Professora auxiliar convidada do MIMICBAS, Regente de Semiologia Médica e Cirúrgica I e II Assistente Hospitalar Graduada de Nefrologia Porto 2015 Doença Renal Crónica no Idoso ICBAS i Resumo Com o aumento da esperança média de vida e a redução da natalidade, a população idosa tem vindo a representar uma proporção cada vez maior da população geral. No mundo ocidental, os idosos representam o segmento populacional em maior crescimento. O envelhecimento acarreta um declínio nas funções fisiológicas de vários órgãos e sistemas. O declínio progressivo e inexorável da função renal faz do rim um dos órgãos mais afetados pela idade. O envelhecimento renal é um processo multifatorial em que o género, o background genético e outros mediadores chave, como a inflamação crónica e o stress oxidativo, desempenham um papel crítico. Ao envelhecimento da função renal sobrepõem-se as lesões associadas a doenças. Tem havido um aumento do número de idosos com Doença Renal Crónica. No entanto, a maioria morre por complicações cardiovasculares, em vez de progredir para doença renal terminal. O tratamento neste grupo constitui um desafio para os profissionais de saúde, nomeadamente devido às suas comorbilidades, fragilidade, isolamento social, mau status funcional e declínio cognitivo. Assim, o seu tratamento individualizado parece ser fundamental. A diálise poderá não ser a melhor opção em determinados idosos, sendo o tratamento conservador uma alternativa. O transplante renal, em idosos com bom estado geral e poucas comorbilidades parece ter bons resultados. Objetivos: Pretende-se com esta revisão abordar o envelhecimento demográfico da população, a prevalência da doença renal crónica na população idosa, o envelhecimento fisiológico do rim, a suscetibilidade aumentada dos séniores à nefrotoxicidade, o seu seguimento adequado e as opções de tratamento disponíveis para este grupo. Metodologia: O levantamento bibliográfico será feito através de consulta a partir das seguintes bases de dados eletrónicas: Pubmed e ScienceDirect incidindo predominantemente no período entre 2000 e 2014. Palavras-chave: idoso, doença renal crónica, nefrotoxicidade, envelhecimento renal, tratamento. Doença Renal Crónica no Idoso ICBAS ii Abstract With the increase of life expectancy and the fall of birth rate, the elderly population is becoming an increasing proportion of the general population. In the western world, the elderly represent the fastest growing population segment. Aging causes a decline in the physiological function of various organs and systems. The progressive and inexorable decline of renal function makes it one of the organs most affected by age. The kidney aging is a multifactorial process in which gender, genetic background and other key mediators such as chronic inflammation and oxidative stress play a critical role. Adding to the renal function aging there’s an overlap of lesions associated with diseases. There has been an increase in the number of elderly with chronic kidney disease. However, most die from cardiovascular complications, instead of progressing to end-stage renal disease. The treatment in this group is a challenge for health professionals, namely due to comorbidities, frailty, social isolation, poor functional status and cognitive decline. Thus, individualized treatment seems to be essential. Dialysis may not be the most suitable option in certain elderly, to whom conservative treatment might be an alternative. Kidney transplantation in elderly patients with good performance status and few comorbidities seems to have good results. Objectives: The aim of this review is to address the aging of the population, the prevalence of chronic kidney disease in the elderly, the physiological aging of the kidney, their increased susceptibility to nephrotoxicity, their proper monitoring and the available treatment options for this group. Methodology: The literature review will be done through consultation from the following electronic databases: PubMed and ScienceDirect focusing predominantly between 2000 and 2014. Keywords: elderly, chronic kidney disease, nephrotoxicity, kidney aging, treatment Doença Renal Crónica no Idoso ICBAS iii Agradecimentos À minha orientadora, Prof. Doutora Idalina Beirão pelo apoio, disponibilidade e orientação neste trabalho. À minha família e amigos que sempre estiveram presentes neste percurso para me apoiar. Ao Diogo pela paciência e incentivo. Doença Renal Crónica no Idoso ICBAS iv Índice Abreviaturas................................................................................................................................ 1 1) Introdução............................................................................................................................... 2 1.1) Relevância do tema face ao envelhecimento demográfico ............................................... 2 1.2) Envelhecimento e a disfunção celular .............................................................................. 4 1.3) Envelhecimento fisiológico do rim .................................................................................... 7 1.3.1) Alterações estruturais ................................................................................................ 7 1.3.2) Alterações funcionais ................................................................................................. 8 2) Prevalência da Doença Renal Crónica ................................................................................. 10 3) Diagnóstico e Estadiamento da Doença Renal Crónica ........................................................ 11 4) Particularidades da Doença Renal Crónica no Idoso ............................................................ 13 4.1) Avaliação da função renal .............................................................................................. 15 5) Progressão da Doença Renal Crónica .................................................................................. 18 6) Sobreposição de Doença Renal Aguda ................................................................................ 19 7)Suscetibilidade farmacológica aumentada ............................................................................. 21 7. 1) Abordagem para a prescrição segura no idoso ............................................................. 21 8) Seguimento da Doença Renal Crónica no Idoso................................................................... 23 8.1) Abordagem farmacológica e dietética............................................................................. 23 8.1.1) Hipertensão ............................................................................................................. 23 8.1.2) Anemia .................................................................................................................... 23 8.1.3) Insuficiência cardíaca .............................................................................................. 24 8.1.4) Dieta ........................................................................................................................ 24 9)Tratamento da Doença Renal Terminal no Idoso ................................................................... 26 9.1) Tratamento conservador ou Diálise ................................................................................ 26 9.2) Diálise ............................................................................................................................ 27 9.2.1) Acessos vasculares ................................................................................................. 27 9.2.2) Complicações dialíticas ........................................................................................... 27 9.2.3) Hemodiálise versus Diálise Peritoneal ..................................................................... 28 9.3) Transplantação renal no idoso ....................................................................................... 29 10) Conclusão e perspetivas futuras ......................................................................................... 31 11) Referências bibliográficas ................................................................................................... 32 1 Abreviaturas ADN: Ácido desoxirribonucleico AINEs: Anti-inflamatórios não esteroides ARAs: Antagonistas do recetor da angiotensina BIS: Berlin Initiative Study CG: Cockcroft-Gault ClCr: Clearance da creatinina CKD-EPI: Chronic Kidney Disease Epidemiology Collaboration DCV: Doença cardiovascular DM: Diabetes mellitus DP: Diálise peritoneal DRC: Doença renal crónica DRT: Doença renal terminal ESA: Agentes estimuladores da eritropoiese FSR: Fluxo sanguíneo renal Hb: Hemoglobina HTA: Hipertensão arterial IC: Insuficiência cardíaca IECAs: Inibidores da enzima de conversão da angiotensina IL: Interleucina KDIGO: Kidney Disease Improving Global Outcomes LRA: Lesão renal aguda MDRD: Modification of Diet in Renal disease NTA: Necrose tubular aguda PA: Pressão arterial QV: Qualidade de vida ROS: Espécies reativas de oxigénio TFG: Taxa de filtração glomerular TFGe: Taxa de filtração glomerular estimada TFGm: Taxa de filtração glomerular medida TR: Transplante renal TSFR: Tratamento substitutivo da função renal Doença Renal Crónica no Idoso ICBAS 2 1) Introdução 1.1) Relevância do tema face ao envelhecimento demográfico Ao longo do século XX, a esperança média de vida aumentou e as principais causas de doença e morte modificaram-se. Enquanto no início desse século, as doenças infeciosas e parasitárias, representavam as principais ameaças à saúde, hoje em dia são as doenças crónicas, que ocupam o maior peso na saúde pública (1). No mundo ocidental, os idosos representam o segmento populacional em maior crescimento (2). O envelhecimento da população resulta não só do aumento da esperança média de vida, mas também da queda da fertilidade (3). Este processo conduziu a uma redução relativa na proporção de crianças e a um aumento na faixa da população em idade laboral e dos idosos (4). A quota global de pessoas com ≥ 60 anos aumentou de 9.2% em 1990 para 11.7% em 2013 e espera-se que continue a crescer como uma proporção cada vez mais significativa da população mundial, atingindo 21% em 2050 (4). Portugal não é exceção à tendência global de envelhecimento da população. De acordo com dados oficiais dos Censos 2011, a base da pirâmide etária portuguesa correspondente à população mais jovem, diminuiu em relação a 2001 e o topo alargou-se devido ao crescimento da população idosa. Entre 2001 e 2011, Portugal perdeu população em todos os grupos etários compreendidos entre os 0-29 anos. A situação inverte-se a partir dos 30 anos, com o crescimento de 9% da população para o grupo dos 30-69 anos e de 26% para idades superiores a 69 anos (5). Doença Renal Crónica no Idoso ICBAS 3 Figura 1 - Pirâmide etária da população residente em Portugal por sexo, em 2001 e 2011 (5). Tabela 1 - Estrutura etária da população residente em Portugal, em 2001 e 2011 (5). Estrutura etária da população residente por sexo (%) 2001 2011 Total Homens Mulheres Total Homens Mulheres Jovens 16,00 16,95 15,11 14,89 15,93 13,93 Idosos 16,35 14,16 18,40 19,03 16,69 21,17 Doença Renal Crónica no Idoso ICBAS 4 1.2) Envelhecimento e a disfunção celular O envelhecimento está associado a um comprometimento progressivo e generalizado das funções corporais e com frequência, é acompanhado por uma elevada incidência de doenças que afetam os órgãos e os tecidos (6). Os mecanismos biológicos do envelhecimento não são ainda totalmente conhecidos. Contudo, têm sido descritos diversos mecanismos de lesão que podem contribuir para o envelhecimento de órgão (7). A senescência celular é um elemento chave que tem sido associado a várias doenças relacionadas com a idade (7). Existem dois tipos de senescência, a senescência replicativa, induzida pelo encurtamento crítico dos telómeros e a senescência induzida pelo stress prematuro independente da primeira (8). Tanto in vitro como in vivo, a senescência é induzida por diversos fatores exógenos como endógenos, nomeadamente espécies reativas de oxigénio (ROS), radiação ultravioleta, radiação ionizante e dano no ácido desoxirribonucleico (ADN) que condicionam stress e senescência celular (9). Ambas poderão estar envolvidas na disfunção dos tecidos associada à idade, diminuição da capacidade de regeneração e doença (9). As células senescentes possuem um fenótipo particular caracterizado pela paragem irreversível do ciclo celular mediado por p21 e/ou p16Ink4a, morfologia alterada, resistência à apoptose, expressão genética alterada inclusive aumento da expressão de β-galactosidase associada à senescência e um perfil secretório único (9, 10). A senescência, pelo seu fenótipo pró-inflamatório poderá contribuir para a inflamação crónica ao estimular a secreção de fatores pró-inflamatórios com efeito direto nas células vizinhas (11). Evidências cumulativas sugerem que o envelhecimento constitui um estado de inflamação crónica, de baixo grau. Além disso, diversas doenças relacionadas com a idade, como a aterosclerose, osteoartrite e a doença renal crónica têm uma natureza inflamatória (12). A inflamação crónica pode aumentar o stress oxidativo já que os fatores inflamatórios, como o fator de necrose tumoral alfa, interleucinas IL6 e IL-1 estimulam a produção de ROS nas células (11). Doença Renal Crónica no Idoso ICBAS 11 3) Diagnóstico e Estadiamento da Doença Renal Crónica A DRC integra um grupo heterogéneo de distúrbios que afetam a estrutura e a função renal com uma apresentação variável (46). Os estadios iniciais são com frequência assintomáticos (47). Os sintomas são habitualmente decorrentes de complicações devidas à diminuição da função renal (46). Em 2012 o diagnóstico da DRC foi sujeito a revisão pela Kidney Disease Improving Global Outcomes (KDIGO) group. A DRC define-se pela diminuição da TFG (< 60mL/min/1.73m2) e/ou evidência de dano renal, presentes por mais de 3 meses com implicações para a saúde (tabela 4) (46). Tabela 4Critérios de diagnóstico de DRC. (46) As últimas guidelines da KDIGO propõem que a DRC seja classificada com base na causa, categoria de TFG e de albuminúria (tabela 5). Deve ser definido primeiro se a causa de DRC está relacionada com uma doença sistémica, e depois a localização presumida ou observada de alterações anátomo-patológicas no rim. Para os estadios da TFG G1 e G2 devem estar presentes outros marcadores de lesão renal para que se faça o diagnóstico de DRC (46). Critérios diagnóstico de DRC (qualquer um dos seguintes por > 3 meses) Marcadores de dano renal (um ou mais)  Albuminúria (>30mg/24h; razão albumina/creatinina ≥30mg/g)  Anomalias do sedimento urinário  Distúrbios eletrolíticos e outras anomalias devidas a lesões tubulares  Anomalias detetadas por exame histológico  Anomalias estruturais detetadas por exame de imagem  História de transplante renal Diminuição da TFG TFG <60mL/min/1.73m2 (categorias de TFG G3a-G5) Doença Renal Crónica no Idoso ICBAS 12 Tabela 5Categorias de TFG e de Albuminúria (46). Categorias Albuminúria na DRC Estadios Albuminúria Razão albumina-creatinina ou Taxa de excreção da albumina (mg/24h ou mg/g) Termo A1 <30 Normal a ligeiramente aumentada A2 30-300 Moderadamente aumentada A3 >300 Severamente aumentada Os principais fatores de risco para DRC são a DM e a HTA, ambos mais comuns em idosos. Obesidade, tabagismo, hiperuricemia, dislipidemia, doença cardiovascular (DCV) e história familiar de doença renal são outros fatores de risco (45) (tabela 6). Tabela 6Fatores de risco para DRC. Adaptado de Mallappallil, Friedman, Delano, McFarlane e Salifu. (2014) (44) FR tradicionais modificáveis  Hipertensão arterial  Diabetes  Obesidade  Proteinúria  Hiperlipidemia  Doença cardiovascular  Doença glomerular e tubulointersticial  Acidose metabólica  Tabagismo  Dieta rica em proteínas FR não tradicionais modificáveis  Anemia  Hiperuricemia  Contraste radiológico  Plantas nefrotóxicas  Anti-inflamatórios não esteroides  Antibióticos  Níveis elevados de FGF-23 FR não modificáveis  Idade avançada  Raça/etnia  Género  Baixo peso à nascença  História familiar FGF-23: fator de crescimento fibroblástico 23; FR: fatores de risco Categorias TFG na DRC Classe TFG TFG (mL/min/1.73m2) Termo G1 ≥90 Normal ou alta G2 60-89 Levemente diminuída G3a 45-59 Leve a moderadamente diminuída G3b 30-44 Moderada a severamente diminuída G4 15-29 Severamente diminuída G5 <15 Falência renal Doença Renal Crónica no Idoso ICBAS 13 4) Particularidades da Doença Renal Crónica no Idoso Ainda que ocorra um declínio na função renal com o avanço da idade, nem todos os indivíduos desenvolvem DRC quando envelhecem. Naqueles em que há predisposição genética e exposição a fatores de risco cardiovasculares parece haver maior probabilidade de desenvolver aterosclerose sistémica e DRC (48). Num estudo prospetivo com 4.380 indivíduos e ≥ 65 anos verificaram uma associação independente de aterosclerose clínica, insuficiência cardíaca (IC) e medidas subclínicas de DCV com o declínio da função renal com a idade, sugerindo que esse declínio resulte de aterosclerose microvascular (49). De facto, evidência epidemiológica sugere que a doença vascular possa ser a etiologia predominante de DRC nos idosos (50). O dano vascular, inclusive a nível capilar (glomerular), causaria isquemia renal e progressivo declínio da função renal. Nesses indivíduos, a taxa de declínio da função renal pode ser acelerada por episódios de lesão renal aguda (LRA), nefrotoxicidade ou obstruções do trato urinário. Os idosos com uma função renal normal poderiam não ter sido predispostos geneticamente ao envelhecimento vascular e/ou ter tido uma exposição menor aos fatores de risco cardiovasculares (51). A DRC está associada a algumas síndromes geriátricas, principalmente pelo declínio na função física e cognitiva. Estas síndromes, mais comuns nos idosos, manifestam-se como incontinência, quedas e comprometimento cognitivo e são responsáveis por doença severa (48). Doença Renal Crónica no Idoso ICBAS 14 Figura 4 - Associação da DRC com o envelhecimento e síndromes geriátricas. Adaptado de Abdelhafiz, Ahmed, Flint, e Nahas (2011) (48). A predisposição genética e a exposição a fatores de risco cardiovascular podem desencadear inflamação crónica, aterosclerose e stress oxidativo, que por sua vez contribuem para o aumento da resistência renovascular, diminuição do FSR e isquemia renal. Isto, associado à exposição a outros elementos, como infeções urinárias e nefrotóxicos poderia acelerar o desenvolvimento de DRC. A fragilidade é provavelmente um dos processos que causa/agrava os sintomas observados nas síndromes geriátricas nos idosos com DRC. Pensa-se que possa haver um mecanismo de feedback positivo entre as síndromes geriátricas e a fragilidade, que resulta em maus outcomes. Doença Renal Crónica no Idoso ICBAS 15 4.1) Avaliação da função renal A avaliação correta da função renal tem inúmeras implicações clinicas, desde o ajuste da dosagem de fármacos, auxílio na decisão do timing para iniciar TSFR, a aspetos psicológicos e financeiros de erradamente rotular alguém como tendo DRC (52). A TFG é considerada o melhor indicador de função renal (48). Pode ser medida pela clearance de marcadores exógenos, que são totalmente filtrados pelos glomérulos, não sofrem secreção ou reabsorção no túbulo renal, nem são metabolizados. Todavia, estes marcadores não são adequados à prática clinica (53). A creatinina sérica é um marcador pouco sensível da função renal, em especial nos idosos.(48) Varia com a massa muscular, a dieta e uma parte é secretada pelos túbulos (48). A produção de creatinina e a excreção urinária de creatinina diminuem gradualmente em proporção à diminuição de massa muscular e peso corporal que ocorrem com a idade (19). Permanece dentro dos valores normais até que haja uma redução de 50% na TFG (54). A ClCr é sujeita a erros de colheita em especial nos idosos (55). Foram desenvolvidas diversas equações para estimar a TFG (TFGe) tendo por base a creatinina sérica (56). A equação Cockcroft-Gault (CG), a primeira a ser desenvolvida, não tem em conta a variabilidade da produção de creatinina e sobrestima a TFG em obesos e doentes edematosos (57). Verhave et al. apuraram que esta fórmula subestima a TFG em doentes com mais de 65 anos (58). Cirillo et al. observaram que subestimava sistematicamente a TFG em idosos (59). A fórmula Modification of Diet in Renal Disease (MDRD) foi desenvolvida num estudo com 1628 doentes com TFG <60 mL/min, para estimar a TFG ajustada para 1.73m2 (60). Mais tarde foi redefinida para utilização com a creatinina sérica padronizada (61). Em comparação com a CG, a equação MDRD demonstrou ser mais exata nos idosos (58). Ambas as equações MDRD foram criadas numa população com DRC pelo que podem subestimar a TFG medida (TFGm) para níveis mais elevados de função renal (62). A equação Chronic Kidney Disease Epidemiology Collaboration (CKD-EPI) surgiu com o intuito de ser uma equação mais exata que a equação MDRD (63). Mesmo com esta fórmula, a prevalência de DRC entre os idosos continuou a ser elevada (56). Os autores referem a inclusão de poucos participantes com mais de 70 anos e dados incompletos, nomeadamente nas medidas de massa muscular e outras condições, ou medicações que pudessem influenciar a creatinina sérica independentemente da TFG (63). Num estudo prospetivo de coorte, em França, numa população de idade superior a 65 anos, verificou-se que as equações CKD-EPI e MDRD forneciam estimativas de prevalência e risco a longo prazo idênticas (64). Doença Renal Crónica no Idoso ICBAS 16 Recentemente foram criadas duas novas equações, para uma população com idade igual ou superior a 70 anos no Berlin Initiative Study (BIS): uma baseada apenas na creatinina sérica (BIS1) e outra baseada na creatinina sérica e na cistatina C (BIS2) (52). Koppe et al. realizaram um estudo retrospetivo com o intuito de comparar a performance da equação BIS-1 com as equações MDRD e CKD-EPI e verificaram que BIS-1 era mais exata e precisa na avaliação da TFG, sobretudo com TFGm > 30 mL/min/1.73m2 (65). No entanto, para TFG<30 mL/min/1.73m2 a equação mais precisa era a CKD-EPI. Como os próprios autores referem o estudo só incluiu indivíduos com suspeita ou disfunção renal estabelecida pelo que são necessários estudos adicionais para avaliar BIS-1 em idosos com função renal normal para a sua idade (65). A cistatina C foi proposta como um marcador da TFG potencialmente superior à creatinina sérica (66). Por ser livremente filtrada pelos glomérulos, totalmente reabsorvida e degradada pelos túbulos constitui um bom marcador (67). A sua concentração não é tão dependente da massa muscular, peso, estado de doença, dependendo sim da função renal, idade, sexo, tabagismo e inflamação (56, 68). A KDIGO sugere a medição da cistatina C em adultos com TFGe 45-59 mL/min/1.73m2 que não apresentam outros marcadores de dano renal e que requerem uma confirmação de DRC. Se a TFGecistatina C / TFGe creatinina-cistatina ≥ 60, a DRC não é confirmada (46). Doença Renal Crónica no Idoso ICBAS 17 Tabela 7Fórmulas para estimativa da função renal. Adaptada de Maw e Fried (2013) (45). Crs: creatinina sérica; N-raça negra Nome Fórmula CG ClCr= [ (140-idade) × peso ]÷(72-Crs) × 0.85 se mulher MDRD TFG= 186×(Crs)-1.154× (idade)-0.203 × (1.212 se N) × (0.742 se mulher) MDRD reajustada TFG= 175×(Crs standardizada)-1.154 ×(idade)-0.203×(0.742 se mulher)×(1.180 se N) CKD-EPI creatinina Mulher:  Creatinina ≤ 0.7 mg/dL - raça caucasiana TFGe= 144 × (Crs÷0.7)-0.329× (0.993)idade - raça negra TFGe= 166 × (Crs÷0.7)-0.329× (0.993)idade  Creatinina > 0.7 mg/dL - raça caucasiana TFGe= 144 × (Crs÷0.7)-1.209× (0.993)idade -raça negra TFGe= 166 × (Crs÷0.7)-1.209× (0.993)idade Homem  Creatinina ≤ 0.9 mg/dL - raça caucasiana TFGe= 141 ×(Crs÷0.9)-0.411×(0.993)idade -raça negra TFGe= 163×(Crs÷0.9)-0.411×(0.993)idade  Creatinina > 0.9 mg/dL -raça caucasiana TFGe= 141×(Crs÷0.9)-1.209×(0.993)idade -raça negra TFGe= 163×(Crs÷0.9)-1.209×(0.993)idade BIS1 TFGe= 3736×creatina-0.87× idade-0.95 ×0.82(se mulher) BIS2 TFGe= 767×cistatinaC-0.61× creatina-0.40× idade-0.57×0.87(se mulher) Doença Renal Crónica no Idoso ICBAS 18 5) Progressão da Doença Renal Crónica A grande maioria dos idosos com DRC tem um risco de mortalidade, sobretudo por complicações cardiovasculares, superior ao de progressão para DRT. (69, 70) Isto parece ser devido não só à progressão mais lenta da DRC nos idosos, mas também a diferenças na escolha de tratamento, relacionadas com a idade, já que alguns idosos optam por um tratamento mais conservador (70). Nicola et al. verificaram que nos estadios iniciais de DRC, a presença de proteinúria elevada aumenta o risco de DRT em idosos (71). Os autores levantam a hipótese do rim dos idosos ser mais suscetível aos efeitos nefrotóxicos da proteinúria devido ao maior grau de fibrose renal e isquemia (71). Entre os idosos a progressão da DRC varia de acordo com a severidade e a etiologia subjacente (72). Num estudo prospetivo que visava avaliar a progressão da disfunção renal numa comunidade com 10184 idosos (≥ 66 anos), indivíduos com DM tiveram o maior declínio na TFG; de 2.1 mL/min/1.73m2 por ano nas mulheres e 2.7 por ano nos homens comparativamente a 0.8 e 1.4 mL/min/1.73m2 por ano nas mulheres e homens respetivamente sem DM. No mesmo estudo, as maiores taxas de progressão foram encontradas nos indivíduos com TFG < 30 mL/min/1.73m2, com e sem DM. A relação entre a pressão arterial (PA) e o declínio na TFG foi avaliada em 2181 pessoas (idade média de 72 anos) no ramo placebo do estudo Systolic Hypertension in the elderly program. Neste estudo observaram que a pressão sistólica aumentada é um fator de risco independente importante para o declínio da função renal nos idosos com HTA sistólica isolada (73). Assim, tanto o tratamento da DM como da HTA podem modular o curso da doença nestes doentes (72). Doença Renal Crónica no Idoso ICBAS 19 6) Sobreposição de Doença Renal Aguda A LRA define-se como o declínio na TFG que ocorre no período de horas ou dias, num indivíduo com função renal previamente normal, ou no contexto de DRC prévia (74). A sua incidência tem aumentado nos últimos anos, nomeadamente na população mais velha (75). A idade é um fator de risco independente para o desenvolvimento de LRA.(76) Baraldi et al. verificaram que indivíduos hospitalizados com idade igual ou superior a 65 anos tinham uma incidência 10 vezes maior de LRA comparativamente aqueles com menos de 65 anos (77). Esta predisposição pode ser imputada aos seguintes fatores: comorbilidades que conferem maior suscetibilidade ao desenvolvimento de LRA, exposição a múltiplos fármacos e procedimentos invasivos possivelmente nefrotóxicos, bem como alterações fisiológicas do rim (75). A diminuição da reserva renal que ocorre com a idade compromete a adaptação renal após isquemia aguda e, aumenta a suscetibilidade a LRA (74). A aterosclerose e a HTA comprometem a capacidade de autorregulação renal na manutenção da perfusão, especialmente no contexto de hipotensão. Assim, reduções modestas na PA podem gerar dano renal significativo no idoso (76). A LRA que se desenvolve no idoso é mais severa e o doente tem menor probabilidade de recuperar (26). Hsu et al. verificaram que os doentes com LRA hospitalizados com necessidade de diálise eram mais velhos que os que não requeriam diálise (63.4 versus 47.6 anos) (78). Tem vindo a ser reconhecido que a LRA ocorre com frequência no contexto de DRC. Os idosos que desenvolvem LRA no contexto de DRC têm menor probabilidade de recuperação e maior tendência a evoluir para DRT (79). Nos idosos a etiologia da LRA é com frequência multifatorial e com um espetro idêntico ao encontrado nos mais jovens, mas com maior relevância das causas pré e pós-renais (80). Num estudo prospetivo, a isquemia foi a principal causa de LRA encontrada nos idosos (53.3%), seguida de cirurgia (33%), sépsis/infeção (10%) e nefrotoxinas (3%) (81). A principal causa pré-renal é a diminuição da perfusão renal por hipovolémia, verdadeira (desidratação, vómito, hemorragia) ou funcional (IC ou sépsis). Os idosos são mais propensos à depleção de volume e à desidratação devido à diminuição da capacidade de concentração da urina, toma de diuréticos, diminuição da sensação de sede e eventualmente, acesso limitado a líquidos (76). Achados ao exame físico como mucosas e pele seca, hipotensão são encontrados em idosos saudáveis, não implicando necessariamente desidratação (82). Doença Renal Crónica no Idoso ICBAS 20 Alguns fármacos também podem contribuir para a LRA pré-renal. A parede vascular renal envelhecida parece exibir uma vasoconstrição exagerada mediada pela angiotensina-II que afeta sobretudo a arteríola eferente, importante na manutenção da pressão intraglomerular quando o FSR diminui e responsável pela manutenção da pressão de filtração nestes doentes (80). Os IECAs e os ARAs, ao antagonizarem a atividade da angiotensina-II e ao reduzirem a pressão na arteríola eferente diminuem a pressão de filtração glomerular e condicionam agravamento da função renal. Em casos de depleção severa, este mecanismo de autorregulação renal que seria importante para manter a TFG fica comprometido. Os antiinflamatórios não esteroides (AINEs) ao inibirem a síntese das prostaglandinas vasodilatadoras intrarrenais anulam os mecanismos de compensação e reduzem a perfusão renal. Estas duas classes de fármacos são muito frequentemente usadas nos doentes idosos no contexto de HTA, IC e no controlo da dor (80). Dentre as várias causas renais de LRA destaca-se no idoso a necrose tubular aguda (NTA) por isquemia ou nefrotoxinas (fármacos, como aminoglicosídeos; contraste; pigmentos) (76). A distinção entre as duas etiologias nem sempre é clara e com frequência sobreposta. À isquemia (por exemplo, por sépsis, depleção de volume ou cirurgia cardiovascular), que quando prolongada e severa pode causar NTA, associam-se nefrotóxicos exógenos e endógenos. O risco de sépsis é mais elevado no idoso devido à diminuição da eficácia do sistema imunitário (82). As causas pós-renais são relativamente comuns nos idosos, com uma incidência de 10%. Nos homens idosos é sobretudo devida a hiperplasia benigna ou carcinoma da próstata enquanto nas mulheres idosas a principal causa é neoplasia pélvica (76). Figura 5 – Fatores que contribuem para o aumento da suscetibilidade do idoso à LRA (83). Doença Renal Crónica no Idoso ICBAS 27 9.2) Diálise Ainda que a sobrevivência seja um parâmetro importante, nos idosos pode não ser tão relevante como os outcomes funcionais ou a QV, uma vez que a idade avançada per se representa um fator de risco para mortalidade (109). A falência renal não tratada é mais prevalente no idoso, em particular com idade superior a 75 anos (110). Tamura et al. identificaram 3702 idosos residentes em lares (média 73.4+/- 10.9 anos) a realizar hemodiálise e verificaram que no 1º ano 58% morreram e que apenas 13% mantiveram o estado funcional pré-diálise. Os autores salientam que por não ter havido um grupo de controlo (com DRT que não estivesse a realizar diálise) não foram capazes de inferir se a diálise era a causa do declínio do estado funcional (111). 9.2.1) Acessos vasculares Um bom acesso vascular é fundamental para o sucesso da hemodiálise (56). A fístula arteriovenosa constitui o acesso preferencial devido às menores taxas de complicações e maior duração. A referenciação precoce visa preservar o leito vascular e dar tempo ao planeamento, criação e maturação do acesso vascular. O planeamento do acesso vascular deve começar no estadio 4 da DRC. Uma fístula autologa requer pelo menos 6 semanas de maturação antes de ser usada (112) Porém, idealmente a fístula arteriovenosa deve ser criada até um ano antes do início da diálise (113). O planeamento vascular pré-operatório é fundamental na escolha do local de acesso mais adequado e inclui a anamnese, exame físico e ultrassonografia Doppler dos membros superiores (112). No caso dos idosos, comorbilidades como a DM, aterosclerose e IC podem limitar o sucesso de um bom acesso vascular (56). Os cateteres venosos centrais têm inúmeras complicações associadas, em particular o maior risco de infeções, pelo que devem ser a última escolha quando é necessário um acesso de longa duração (112). 9.2.2) Complicações dialíticas O inicio da diálise pode contribuir para o declínio funcional e/ou cognitivo do idoso (105). Alguns idosos apresentam patologias cardiovasculares que predispõem ao desenvolvimento de hipotensão intradialítica, a qual por sua vez pode precipitar uma interrupção precoce das sessões de diálise e causar uma menor eficácia desta e, eventualmente aumentar o risco de mortalidade. A desnutrição também é mais prevalente em idosos hemodialisados, pela perda de proteínas, restrição dietética, anorexia, isolamento ou depressão e condiciona perda de Doença Renal Crónica no Idoso ICBAS 28 força muscular (114). Alguns distúrbios psiquiátricos, como a depressão podem ser agravados ou despoletados com o início da diálise devido às exigências físicas e/ou tempo do tratamento, bem como à maior dependência e interferência na vida quotidiana (115). Figura 6 - Efeitos do início da diálise na saúde. Estes efeitos podem acentuar/agravar a morbilidade geriátrica. Adaptado de Malavade, Sokwala e Jassal (2013) (105). 9.2.3) Hemodiálise versus Diálise Peritoneal A hemodiálise é a opção mais comumente oferecida aos idosos uma vez que não requer que o doente esteja envolvido no tratamento. De facto, não sobrecarrega tanto os cuidadores nem o próprio idoso, permitindo-lhe algum convívio social e evita o seu isolamento (105). A diálise peritoneal (DP) tem a vantagem de permitir a preservação da função renal e da diurese por um período de tempo superior (114). Não requer a criação de um acesso vascular, tem menor risco de hipotensão e não requer deslocações (116). No entanto, requer que o idoso seja capaz de realizar o tratamento sozinho, ou com assistência de familiares o que nem sempre é exequível sobretudo se existir disfunção cognitiva e/ou dificuldades na aprendizagem do procedimento (105). Outros fatores como burden nos cuidadores, risco de peritonite e até mesmo isolamento social podem tornar esta opção menos atrativa (114). Esta modalidade de tratamento pode agravar a desnutrição nos idosos devido à perda de proteínas e aminoácidos livres pelas soluções de DP (56). Doença Renal Crónica no Idoso ICBAS 29 9.3) Transplantação renal no idoso Atualmente, a idade per se não constitui uma contraindicação absoluta para o transplante renal (TR). Contudo, o acesso a esta opção continua a ser limitado nos idosos com DRT (56, 88). O envelhecimento associa-se a alterações funcionais no sistema imunitário e a diversas comorbilidades que podem afetar o resultado do transplante renal (117). A seleção de um candidato idoso deve ter em conta o estado de saúde, a função cognitiva, fragilidade, fatores psicossociais e a distância no caso de transplante renal de dador cadáver. Deve ser feito screening para cancro e infeções crónicas que possam ser afetadas pela imunossupressão. Os fatores psicossociais são particularmente relevantes uma vez que os idosos podem ter uma rede de apoio insuficiente (doença ou morte do cônjuge ou falta de disponibilidade da família). Este processo de seleção deve ser criterioso dado que a cirurgia e o tratamento imunossupressor podem reduzir a esperança média de vida em indivíduos com elevado nível de comorbilidades (117). De facto, se selecionados corretamente, o TR mesmo nos idosos, associa-se a uma melhoria da esperança de vida e da QV (118). Heldal et al. reportaram benefício na sobrevivência a longo prazo em doentes com mais de 70 anos transplantados e previamente submetidos a diálise versus aqueles que permanecerem apenas em diálise (119). Os idosos com DRT tem maior probabilidade de morrer na lista de espera do transplante pelo que é imperativo tentar reduzir o tempo de espera (120). Uma forma de aumentar o pool de órgãos e assim reduzir o tempo de espera é o alargamento dos critérios de doação. Nesse sentido, foi criado o Eurotransplant senior program (ESP) que visa promover a doação de rim de dadores cadavéricos com ≥ 65 anos para recetores com idade igual ou superior a 65 anos independentemente do HLA. Órgãos de dadores fisiologicamente subótimos (dadores idosos) têm maior probabilidade de se manterem funcionais por um período de tempo superior à esperança média de vida do recetor idoso (120). O transplante de dador vivo apresenta menor mortalidade peri-operatória e melhores resultados a longo prazo entre os recetores idosos. A relutância de muitos idosos em aceitar órgãos de familiares, de indivíduos mais jovens ou mesmo destes em serem os doadores constitui um entrave ao transplante de dador vivo (121). Como forma de ultrapassar este problema tem sido proposto o uso de dadores vivos idosos (117). Enquanto a idade do dador é um fator de risco major para a rejeição do enxerto, a idade do recetor não parece afetar a sobrevivência do enxerto (122). Com o envelhecimento o sistema imunitário experiencia um conjunto de alterações fenotípicas e funcionais, designadas por imunosenescência. Por um lado, a perda da função efetora que se verifica com a Doença Renal Crónica no Idoso ICBAS 30 imunosenescência confere proteção contra a rejeição mas por outro aumenta o risco de infeção e cancro nestes doentes. A imunossupressão pode exacerbar esse risco e obrigar à redução da dose de fármacos. (117) Doença Renal Crónica no Idoso ICBAS 31 10) Conclusão e perspetivas futuras O envelhecimento renal é um fenómeno complexo ao qual se sobrepõe o efeito de várias comorbilidades, tornando difícil destrinçar o verdadeiro envelhecimento fisiológico do patológico. A prevalência da DRC tem vindo a aumentar, principalmente entre os idosos. O aumento da esperança de vida e a exposição a fatores de risco cardiovasculares parecem ser a explicação. Por outro lado, alguns autores defendem que as atuais equações sobrestimam a verdadeira prevalência desta doença nos idosos. A maioria dos idosos não parece progredir para DRT e acaba mesmo por morrer devido a complicações cardiovasculares. A identificação precoce destes fatores de risco e o seu tratamento poderá ter um papel importante na prevenção da morbimortalidade cardiovascular. Uma abordagem individualizada ao tratamento do idoso com DRC parece ser essencial. Na decisão do tratamento do idoso com DRT deve ser dada particular atenção aos seus desejos, às comorbilidades e QV. Em alguns idosos a diálise poderá não ser a melhor opção sendo o tratamento conservador uma alternativa. O TR, em idosos selecionados com bom estado geral e poucas comorbilidades parece ter bons resultados. Contudo, a inclusão de mais idosos no futuro em estudos e ensaios clínicos será importante para que se possa otimizar o seu cuidado. No futuro, a melhor compreensão das alterações que ocorrem a nível celular e molecular com o envelhecimento poderá permitir o desenvolvimento de tratamento dirigido para prevenir e atrasar a progressão da DRC no idoso. Doença Renal Crónica no Idoso ICBAS 32 11) Referências bibliográficas 1. World Health Organization (Who); US National Institute of aging. Global Health and Aging. 2011. 2. Costello DC, G. Can Europe afford to grow old? Int Monet Fund Finance Dev Mag. 2006;43(28). 3. Kinsella K, Phillips DR. Global Aging: The Challenge of Success. Population Reference Bureau: 2005. 4. United Nations Department of Economic and Social Affairs Population Division. World Population Ageing 2013. 2013. 5. Instituto Nacional de Estatística IP. Censos 2011 Resultados Definitivos - Portugal. 2012. 6. Lauri A, Pompilio G, Capogrossi MC. The mitochondrial genome in aging and senescence. Ageing research reviews. 2014;18:1-15. 7. Yang H, Fogo AB. Cell senescence in the aging kidney. J Am Soc Nephrol. 2010;21(9):1436-9. 8. Zou H, Stoppani E, Volonte D, Galbiati F. Caveolin-1, cellular senescence and agerelated diseases. Mech Ageing Dev. 2011;132(11-12):533-42. 9. Naylor RM, Baker DJ, van Deursen JM. Senescent cells: a novel therapeutic target for aging and age-related diseases. Clin Pharmacol Ther. 2013;93(1):105-16. 10. Campisi J, d'Adda di Fagagna F. Cellular senescence: when bad things happen to good cells. Nat Rev Mol Cell Biol. 2007;8(9):729-40. 11. Mei C, Zheng F. Chronic inflammation potentiates kidney aging. Semin Nephrol. 2009;29(6):555-68. 12. Izquierdo MC, Perez-Gomez MV, Sanchez-Nino MD, Sanz AB, Ruiz-Andres O, Poveda J, et al. Klotho, phosphate and inflammation/ageing in chronic kidney disease. Nephrol Dial Transplant. 2012;27 Suppl 4:iv6-10. 13. Anderson S, Halter JB, Hazzard WR, Himmelfarb J, Horne FM, Kaysen GA, et al. Prediction, progression, and outcomes of chronic kidney disease in older adults. J Am Soc Nephrol. 2009;20(6):1199-209. 14. Kuro-o M, Matsumura Y, Aizawa H, Kawaguchi H, Suga T, Utsugi T, et al. Mutation of the mouse klotho gene leads to a syndrome resembling ageing. Nature. 1997;390(6655):45-51. 15. Kurosu H, Yamamoto M, Clark JD, Pastor JV, Nandi A, Gurnani P, et al. Suppression of aging in mice by the hormone Klotho. Science. 2005;309(5742):1829-33. 16. Nagai R SY, Ohyama Y, Aizawa H, Suga T, Nakamura T, Kurabayashi M, Kuroo M. Endothelial dysfunction in the klotho mouse and downregulation of klotho gene expression in Doença Renal Crónica no Idoso ICBAS 33 various animal models of vascular and metabolic diseases. Cell Mol Life Sci. 2000;57(5):73846. 17. Saito K, Ishizaka N, Mitani H, Ohno M, R. N. Iron chelation and a free radical scavenger suppress angiotensin II-induced downregulation of klotho, an anti-aging gene, in rat. FEBS Letters. 2003;551(1-3):58-62. 18. Schmitt R, Cantley LG. The impact of aging on kidney repair. Am J Physiol Renal Physiol. 2008;294(6):F1265-72. 19. Zhou XJ, Rakheja D, Yu X, Saxena R, Vaziri ND, Silva FG. The aging kidney. Kidney Int. 2008;74(6):710-20. 20. Melk A. Senescence of renal cells: molecular basis and clinical implications. Nephrol Dial Transplant. 2003;18(12):2474-8. 21. Melk A, Ramassar V, Helms LM, Moore R, Rayner D, Solez K, et al. Telomere shortening in kidneys with age. J Am Soc Nephrol. 2000;11(3):444-53. 22. Basso N, Paglia N, Stella I, de Cavanagh EM, Ferder L, del Rosario Lores Arnaiz M, et al. Protective effect of the inhibition of the renin-angiotensin system on aging. Regul Pept. 2005;128(3):247-52. 23. Pannarale G, Carbone R, Del Mastro G, Gallo C, Gattullo V, Natalicchio L, et al. The aging kidney: structural changes. J Nephrol. 2010;23 Suppl 15:S37-40. 24. Baylis C. Age-dependent glomerular damage in the rat. Dissociation between glomerular injury and both glomerular hypertension and hypertrophy. Male gender as a primary risk factor. J Clin Invest. 1994;94(5):1823-9. 25. Neugarten J, Gallo G, Silbiger S, Kasiske B. Glomerulosclerosis in aging humans is not influenced by gender. Am J Kidney Dis. 1999;34(5):884-8. 26. Wang X, Bonventre JV, Parrish AR. The aging kidney: increased susceptibility to nephrotoxicity. Int J Mol Sci. 2014;15(9):15358-76. 27. Weinstein JR, Anderson S. The aging kidney: physiological changes. Adv Chronic Kidney Dis. 2010;17(4):302-7. 28. Karam Z, Tuazon J. Anatomic and physiologic changes of the aging kidney. Clin Geriatr Med. 2013;29(3):555-64. 29. Glassock RJ, Rule AD. The implications of anatomical and functional changes of the aging kidney: with an emphasis on the glomeruli. Kidney Int. 2012;82(3):270-7. 30. Martin JE, Sheaff MT. Renal ageing. J Pathol. 2007;211(2):198-205. 31. Eknoyan G. A clinical view of simple and complex renal cysts. J Am Soc Nephrol. 2009;20(9):1874-6. 32. Hollenberg NK, Adams DF, Solomon HS, Rashid A, Abrams HL, Merrill JP. Senescence and the renal vasculature in normal man. Circ Res. 1974;34(3):309-16. Doença Renal Crónica no Idoso ICBAS 34 33. Takazakura E, Sawabu N, Handa A, Takada A, Shinoda A, Takeuchi J. Intrarenal vascular changes with age and disease. Kidney Int. 1972;2(4):224-30. 34. Ljungqvist A, Lagergren C. Normal intrarenal arterial pattern in adult and ageing human kidney. A microangiographical and histological study. J Anat. 1962;96:285-300. 35. Rowe JW, Andres R, Tobin JD, Norris AH, Shock NW. The effect of age on creatinine clearance in men: a cross-sectional and longitudinal study. J Gerontol. 1976;31(2):155-63. 36. Lindeman RD, Tobin J, Shock NW. Longitudinal studies on the rate of decline in renal function with age. J Am Geriatr Soc. 1985;33(4):278-85. 37. Esposito C, Plati A, Mazzullo T, Fasoli G, De Mauri A, Grosjean F, et al. Renal function and functional reserve in healthy elderly individuals. J Nephrol. 2007;20(5):617-25. 38. Bolton WK, Benton FR, Maclay JG, Sturgill BC. Spontaneous glomerular sclerosis in aging Sprague-Dawley rats. I. Lesions associated with mesangial IgM deposits. Am J Pathol. 1976;85(2):277-302. 39. Jones CA, Francis ME, Eberhardt MS, Chavers B, Coresh J, Engelgau M, et al. Microalbuminuria in the US population: third National Health and Nutrition Examination Survey. Am J Kidney Dis. 2002;39(3):445-59. 40. Musso CG, Miguel R, Algranati L, Farias Edos R. Renal potassium excretion: comparison between chronic renal disease patients and old people. Int Urol Nephrol. 2005;37(1):167-70. 41. Michelis MF. Hyperkalemia in the elderly. Am J Kidney Dis. 1990;16(4):296-9. 42. Perazella MA, Mahnensmith RL. Hyperkalemia in the elderly: drugs exacerbate impaired potassium homeostasis. J Gen Intern Med. 1997;12(10):646-56. 43. Jha V, Garcia-Garcia G, Iseki K, Li Z, Naicker S, Plattner B, et al. Chronic kidney disease: global dimension and perspectives. Lancet. 2013;382(9888):260-72. 44. Mallappallil M, Friedman EA, Delano BG, McFarlane SI, Salifu MO. Chronic kidney disease in the elderly: evaluation and management. Clin Pract (Lond). 2014;11(5):525-35. 45. Maw TT, Fried L. Chronic kidney disease in the elderly. Clin Geriatr Med. 2013;29(3):611-24. 46. Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO) CKD Work Group. KDIGO 2012 Clinical Practice Guideline for the Evaluation and Management of Chronic Kidney Disease. Kidney inter, Suppl. 2013;3:1-150. 47. Rivas Velasquez KM, Hames E, Masri H. Evaluation and management of the older adult with chronic kidney disease. Prim Care. 2014;41(4):857-74. 48. Abdelhafiz AH, Ahmed S, Flint K, Nahas ME. Is chronic kidney disease in older people a new geriatric giant? Aging Health. 2011;7(5):749-52. Doença Renal Crónica no Idoso ICBAS 35 49. Shlipak MG, Katz R, Kestenbaum B, Fried LF, Siscovick D, Sarnak MJ. Clinical and subclinical cardiovascular disease and kidney function decline in the elderly. Atherosclerosis. 2009;204(1):298-303. 50. Stevens LA, Viswanathan G, Weiner DE. Chronic kidney disease and end-stage renal disease in the elderly population: current prevalence, future projections, and clinical significance. Adv Chronic Kidney Dis. 2010;17(4):293-301. 51. Abdelhafiz AH, Brown SH, Bello A, El Nahas M. Chronic kidney disease in older people: physiology, pathology or both? Nephron Clin Pract. 2010;116(1):19-24. 52. Schaeffner ES, Ebert N, Delanaye P, Frei U, Gaedeke J, Jakob O, et al. Two novel equations to estimate kidney function in persons aged 70 years or older. Ann Intern Med. 2012;157(7):471-81. 53. Drenth-van Maanen AC, Jansen PA, Proost JH, Egberts TC, van Zuilen AD, van der Stap D, et al. Renal function assessment in older adults. Br J Clin Pharmacol. 2013;76(4):61623. 54. Hood B, Attman PO, Alhemén J, Jagenburg R. Renal hemodynamics and limitations of creatinine clearance in determining filtration rate in glomerular disease. Scand J Urol Nephrol. 1971;5(2):154-61. 55. Stevens LA, Levey AS. Measured GFR as a Confirmatory Test for Estimated GFR. J Am Soc Nephrol. 2009(20):2305–13. 56. Dousdampanis P, Trigka K, Fourtounas C. Diagnosis and management of chronic kidney disease in the elderly: a field of ongoing debate. Aging Dis. 2012;3(5):360-72. 57. Rolin HA, 3rd, Hall PM, Wei R. Inaccuracy of estimated creatinine clearance for prediction of iothalamate glomerular filtration rate. Am J Kidney Dis. 1984;4(1):48-54. 58. Verhave JC, Fesler P, Ribstein J, du Cailar G, Mimran A. Estimation of renal function in subjects with normal serum creatinine levels: influence of age and body mass index. Am J Kidney Dis. 2005;46(2):233-41. 59. Cirillo M, Anastasio P, De Santo NG. Relationship of gender, age, and body mass index to errors in predicted kidney function. Nephrol Dial Transplant. 2005;20(9):1791-8. 60. Levey AS, Bosch JP, Lewis JB, Greene T, Rogers N, Roth D. A more accurate method to estimate glomerular filtration rate from serum creatinine: a new prediction equation. Modification of Diet in Renal Disease Study Group. Ann Intern Med. 1999;130(6):461-70. 61. Levey AS, Coresh J, Greene T, Marsh J, Stevens LA, Kusek JW, et al. Expressing the Modification of Diet in Renal Disease Study equation for estimating glomerular filtration rate with standardized serum creatinine values. Clin Chem. 2007;53(4):766-72. 62. Stevens LA, Coresh J, Feldman HI, Greene T, Lash JP, Nelson RG, et al. Evaluation of the modification of diet in renal disease study equation in a large diverse population. J Am Soc Nephrol. 2007;18(10):2749-57. Doença Renal Crónica no Idoso ICBAS 36 63. Levey AS, Stevens LA, Schmid CH, Zhang YL, Castro AF, 3rd, Feldman HI, et al. A new equation to estimate glomerular filtration rate. Ann Intern Med. 2009;150(9):604-12. 64. Stengel B, Metzger M, Froissart M, Rainfray M, Berr C, Tzourio C, et al. Epidemiology and prognostic significance of chronic kidney disease in the elderly--the Three-City prospective cohort study. Nephrol Dial Transplant. 2011;26(10):3286-95. 65. Koppe L, Klich A, Dubourg L, Ecochard R, Hadj-Aissa A. Performance of creatininebased equations compared in older patients. J Nephrol. 2013;26(4):716-23. 66. Dharnidharka VR, Kwon C, Stevens G. Serum cystatin C is superior to serum creatinine as a marker of kidney function: a meta-analysis. Am J Kidney Dis. 2002;40(2):221-6. 67. Chew JS, Saleem M, Florkowski CM, George PM. Cystatin C--a paradigm of evidence based laboratory medicine. Clin Biochem Rev. 2008;29(2):47-62. 68. Knight EL, Verhave JC, Spiegelman D, Hillege HL, de Zeeuw D, Curhan GC, et al. Factors influencing serum cystatin C levels other than renal function and the impact on renal function measurement. Kidney Int. 2004;65(4):1416-21. 69. Dalrymple LS, Katz R, Kestenbaum B, Shlipak MG, Sarnak MJ, Stehman-Breen C, et al. Chronic kidney disease and the risk of end-stage renal disease versus death. J Gen Intern Med. 2011;26(4):379-85. 70. O'Hare AM, Choi AI, Bertenthal D, Bacchetti P, Garg AX, Kaufman JS, et al. Age affects outcomes in chronic kidney disease. J Am Soc Nephrol. 2007;18(10):2758-65. 71. De Nicola L, Minutolo R, Chiodini P, Borrelli S, Zoccali C, Postorino M, et al. The effect of increasing age on the prognosis of non-dialysis patients with chronic kidney disease receiving stable nephrology care. Kidney Int. 2012;82(4):482-8. 72. Ahmed AK, Brown SH, Abdelhafiz AH. Chronic kidney disease in older people; disease or dilemma? Saudi J Kidney Dis Transpl. 2010;21(5):835-41. 73. Young JH, Klag MJ, Muntner P, Whyte JL, Pahor M, Coresh J. Blood pressure and decline in kidney function: findings from the Systolic Hypertension in the Elderly Program (SHEP). J Am Soc Nephrol. 2002;13(11):2776-82. 74. Himmelfarb J. Acute kidney injury in the elderly: problems and prospects. Semin Nephrol. 2009;29(6):658-64. 75. Coca SG. Acute kidney injury in elderly persons. Am J Kidney Dis. 2010;56(1):122-31. 76. Rosner MH. Acute kidney injury in the elderly. Clin Geriatr Med. 2013;29(3):565-78. 77. Baraldi A, Ballestri M, Rapana R, Lucchi L, Borella P, Leonelli M, et al. Acute renal failure of medical type in an elderly population. Nephrol Dial Transplant. 1998;13 Suppl 7:25-9. 78. Hsu RK, McCulloch CE, Dudley RA, Lo LJ, Hsu CY. Temporal changes in incidence of dialysis-requiring AKI. J Am Soc Nephrol. 2013;24(1):37-42. 79. Ishani A, Xue JL, Himmelfarb J, Eggers PW, Kimmel PL, Molitoris BA, et al. Acute kidney injury increases risk of ESRD among elderly. J Am Soc Nephrol. 2009;20(1):223-8.