Porto, quem (re)desenha o teu âmago?
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1 faculdade de belas artes da universidade do porto Porto, quem (re)desenha o teu âmago? Ocupação temporária e intermitente de casas devolutas através da utilização dos media digitais e dos modos de intervenção artístico Marta Calejo, Porto 2009 Orientador, Professor Doutor Heitor Alvelos Coorientador, Professor Doutor José Bartolo
2 3 ÍNDICE Sumário/ Abstract Agradecimentos Introdução Enquadramento Objectivos Principais Objectivos Universo de Estudo Contexto Metodologia 1 - Diário da Acção 1.1Primeira Intervenção – Ancoragem do Tempo 1.2Segunda Intervenção 1.2.1o.u.n.u (Objectos Urbanos Não Identificados) 1.2.2Zangam-se as Comadres 1.2.3Sem título 1.2.4- “The Sky is My Roof” 2Lugar/ Espaço 2.1A Película Fragmentada 3-Memória uma questão transversal 3.1Respigadoria das Imagens 4Urbe 5Considerações Finais APÊNDICES I - Mosaicos Culturais e suas inter-relações II – Espaço uma supra-estrutura 7 — 9 — 11 — 12 — 13 — 15 — 16 — 18 — 21 — 21 — 29 — 30 — 31 — 33 — 33 — 37 — 48 — 51 — 53 — 57 — 65 — 71 — 73 —
4 5 “ A cidade por onde fores, ela irá.” Konstantinos Kaváfis, poeta grego (1863-1933) III – Espiral cumulativa IV – Lições de Hospitalidade V – Histórias Subterrâneas ANEXOS I – Alguns exemplos de casas devolutas da cidade do Porto ou Levantamento do Terreno II – Prelúdios da Acção III – Diálogo IV – Compilação das Sinópses dos autores BIBLIOGRAFIA 75 — 77 — 80 — 85 — 101 — 107 — 119 — 123 —
6 7 Sumário O trabalho aqui exposto pretende pensar a orgânica da cidade do Porto a partir do seu refugo, as casas devolutas. Compreensão destes não-lugares, reolhando-os com o intuito de potenciar aquele que à partida representa uma subtracção da malha urbana. O binómio relacional privado/público e memória estão igualmente na base da investigação. Para efeito instrumentalizou-se as formas de acção tidas como criativas, articulando desta forma a criação artística à critica sócio-política, exploração dos novo media digitais, bem como, as formas analógicas de criação constituíram o modus operandi do projecto em causa. Abstract The work here exposed has the duty to analyze the Porto´s organic from his offscourings, as the unoccupied houses. Comprehension of these non-places, giving them the potential, whose representations, at some point of view, are non-important urban pieces. The relation of private/public and memory are equally on the base of this investigation. For the effect, the creative actions were instrumented, therefore the artistic creation was linked to the politic/social voice, exploring the new digital media as well as analogic means of creation. Both constitute the main purpose of this project.
8 9 Agradecimentos A tarefa dos agradecimentos será sempre algo engrata pelo que espero não omitir nenhum nome, uma vez que para a realização deste projecto foi necessário estabelecer contacto, com um punhado de colaboradores. Antes de mais quero agradecer ao docente e amigo Vitor Manuel Martins, pelas sábias conversas informais, pelas sugestões pontuais bibliográfica e pela revisão atenta do texto. Ao Professor Doutor Heitor Alvelos que ainda antes de ser meu orientador, sempre acreditou no projecto e desde cedo me encorajou a avançar com uma submissão deste projecto, quando este ainda se encontrava numa fase embrionária, ao Future Places Festival que me valeu uma menção honrosa e acima de tudo o ânimo necessário para prosseguir no seguinte ano. Ao Professor Doutor José Bartolo pela coorientação e pertinentes sugestões que foi fazendo ao longo do processo de investigação. Como não poderia deixar de ser, agradeço ao Capucho, antigo amigo que está integrado e habituado ás comunidades ocupas e que se revelou um excelente orientador nos meandros das ocupações clandestinas. Agradeço ainda ao colega e amigo Jonas Nobre e a Claudia Consciência por gentilmente me terem emprestado as suas vozes que deram vida ao texto de Rober Diaz, poeta errante que teceu um interessantíssimo diálogo para uma das intervenções e a quem, como é claro, quero aqui agradecer. A Nuno Brito pela ajuda, na meticulosa tradução do texto de Rober Diaz. Ainda a Luís Sezões, Mariana Ribeiro, Oto Hudec e Sérgio Couto por prontamente aceitarem o convite que
10 11 INTRODUÇÃO O projecto apresentado tende a pensar a orgânica da cidade do Porto naquilo que ela tem de pior, as casas devolutas e o lixo urbano. Sendo este um problema real da cidade propomo-nos a compreender estes não lugares e reolhá-los afim de potenciar aquele que é um foco infeccioso da cidade. Pretende-se com isto e segundo um prisma antropológico assinalar uma doença que não é só física, isto é não diz apenas respeito ao edifício, mas sim e também à forma como as pessoas lidam com ele, sendo também importante frisar a forma passiva como a economia e as autarquias se tem mantido face a este problema - as casas devolutas representam uma subtracção à cidade enquanto espaço de organização de pessoas e de bens. Mais do que uma simples intervenção de carácter artístico esta é uma proposta de inclusão, na teia urbana, aquilo que aparentemente é um problema, sendo por isso também, uma forma de reabilitação temporária daquilo que será um espaço infértil num espaço pró-activo. Propomo-nos então a repensar estratégias de absorção desse refugo urbano. As casas devolutas acabam por representar uma ruptura epistemológica com os paradigmas estruturais actuais; estas habitações representam um entrave ao funcionamento normal da urbe, será então uma tentativa de ensaiar a sublimação de um problema a partir de uma fórmula fecunda de acumulação, articulação e de partilha do conhecimento. No epicentro da abordagem, está a apropriação do espaço/ lugar articulado com a análise da estrutura social que a abarca. lhes estendi aquando das intrevenções em rede na Praça da Républica. A Albano Esteves Martins, Jorge Miraldo e Ricardo Moura por nos momentos de montagem das instalações se terem mostrado incansáveis no apoio fornecido. Por último gostaria de estender os meus agradecimentos a Artur Calejo, por se ter revelado incansável no apoio logístico e moral que me forneceu durante todo o tempo de investigação. A todos estes e perdoem-me se me estiver a esquecer de alguém, o meu muito sincero e profundo obrigada.
12 13 Em jeito de nota, será prudente justificar o título do documento. Apesar de invulgar atrevemo-nos a ter um título que é ele próprio uma questão. O título apresentado mais do que um rótulo pretende constituir uma questão de carácter semi-retórico e que apesar de conscientemente incompleto, o documento apresentado tem a pretensão de ser, não uma conclusão ou uma certeza categórica, mas sim um bom começo para uma possível resposta a esta questão, que se coloca a todo e qualquer cidadão que se considere socialmente activo e crítico. Como se verá esta questão não mais aparecerá ao longo do texto pelo que se conclui - ainda que seja cedo para conclusões - que a resposta ao título é o próprio conteúdo do documento agora apresentado. enquadramento e objectivos Antes de iniciar o Capítulo 1, propriamente dito, será pertinente neste contexto ainda introdutório enquadrar o projecto agora apresentado, colocando já em explanação as questões que levaram a enveredar por este projecto, bem como quais os objectivos, o universo de estudo e a metodologia utilizada para o efeito. Será unânime a ideia de que o Porto está repleto de casas abandonadas e de que isto representa, antes de mais, um problema que não tem tido o devido destaque e tratamento como se pode ver em Anexo I. Desta forma, tomando isto como algo que merece alguma atenção/ reflexão e que é acima de tudo dotado de potencial interventivo, surgem as seguintes questões de investigação: 1_ Como aproveitar as casas abandonadas da cidade do Porto de forma a promover algum tipo de alteração no modo como a população local as interpreta e se relaciona com elas? 2_ Após as confrontar com este problema, como instigá-las a agir e cooperar na reabilitação destes espaços, aparentemente mortos? 3_De que forma a actividade criativa pode se revelar importante enquanto elemento propulsor de uma construção que se quer local e voltada para os agentes locais? principais objectivos: As casas abandonadas do Grande Porto são imensas e contêm um sem número de vestígios de uma remota habitabilidade, como se verá na explicação mais detalhada da primeira intervenção. Estas casas, bem como os objectos que estas comportam, são portadoras de um enorme potencial narrativo, sendo este potencial que nos propomos abordar, reinventando as estórias dessas habitações e de quem lá viveu. A matéria-prima “disponível” na cidade é enorme; matéria essa que poderá ser convertida em meta narrativas, alertando para este problema urbano, que se sente de maneira tão intensa no Porto. Após essa recolha, foi escolhido um local que funcionou como um exemplo para a criação dessas meta narrativas que no caso da segunda intervenção tiveram registos diferenciados, até porque funcionou num sistema em rede como se verá mais à frente. Interessa agora explicar que estas intervenções ocorreram em tempos diferentes de gestação projectoal. Numa primeira acção o projecto foi
14 15 realizado de forma individual, no contexto da disciplina de Projecto no ano curricular de mestrado, havia uma única casa envolvida, casa essa situada na rua D. João iv, em Junho de 2008; a segunda intervenção consistiu num projecto partilhado com outros agentes, criando desta forma uma acção em rede, em várias casas devolutas em simultâneo, esta segunda acção aconteceu na Praça da República a 8 e 9 de Maio de 2009. Será importante ainda referir que estas intervenções aconteceram de forma isolada, com a excepção de uma delas em que o diálogo entre habitações foi crucial para justificar em parte as demais intervenções, porém no capítulo dedicado ao diário das acções que constitui a parte prática do projecto, estas e outras questões serão devidamente enunciadas e explicadas. A representatividade e a piramidização têm-se vindo a revelar inoperante enquanto motor para respostas eficazes de combate às lacunas urbanísticas vigentes e apontadas. Sendo que, as casas devolutas começam a agonizar a forma como as pessoas e restantes edifícios se relacionam e coabitam num mesmo palco. A partir da participação das pessoas, pela permuta de ideias e vontades, considera-se que este poderá constituir um objecto passível de desenvolvimento de actividades de carácter cívico e até mesmo de natureza económica. Portanto se o investimento, ainda que falando neste contexto num capital simbólico, for dirigido para as pessoas facilmente esta solução se torna, aos olhos de todos, numa resposta profundamente democrática que aposta nos agentes locais, na sua massa cinzenta, na comunidade e na sua capacidade crítica, tendo como preocupação a criação de uma maior identificação entre as pessoas e o espaço urbano. De forma sucinta, aquilo que propomos assenta em três noções que são elas as seguintes: privado, público e memória. Os referidos legados articulam-se segundo esta lógica, dicotómica privado versus público. Sendo esta dicotomia atravessada por questões de memória individual, que é transladada para o panorama colectivo - logo público. Será também importante referir que esta relação está circunscrita na definição de lugar, num contexto mais lato e de não lugar, num contexto mais estrito, sendo que estes conceitos serão também eles, alvo de um maior aprofundamento. É de extrema importância ainda neste contexto introdutório frisar que temos como objectivo desconstruir a separação ideológica existente entre público e privado, que será devidamente enunciada no contexto. universo de estudo: O universo de acção e de interesse situa-se, nas casas abandonadas que ainda mantenham resquícios da sua habitabilidade remota, situadas na cidade do Porto. Essas acções realizaram-se em dois momentos distintos; um em 2008 e um outro em 2009, que foi devidamente acompanhado pela leitura subsequente, bem como o entrosamento nas comunidades locais que se relacionam de forma mais directa com isto, nomeadamente vizinhança das casas e comunidades ocupas. Relativamente à escolha das casas abandonadas não existiu qualquer tipo de imposição temporal ou arquitectónica, apenas exigíamos que conservassem parte dos objectos que outrora testemunharam as acções de quem lá viveu, ou que fosse possível saber-se a história do edifício,
16 17 para que posteriormente servisse de guião para as narrativas ou meta narrativas que se criaram a partir daí. Este projecto destina-se obviamente a toda a população que habita e coabita o espaço da cidade em estudo, sendo de frisar que apesar disto, essas pessoas/ agentes locais são encarados como cobaias (na medida em que este projecto pretende entender o grau de envolvimento que os agentes locais estabelecem com o espaço que coabitam) sendo os ditos agentes culturais - que neste contexto serão protagonizados pelos artistas convidados a agir - que é atribuída a função de pensar estratégias para colocar essas mesmas pessoas a reflectir e agir sobre o espaço urbano. Aquilo que está em jogo é a dinamização de um movimento onde a crítica social e política se articula com a criação artística, tendo sempre os olhos postos naquele que experiencia o trabalho e que convive com ele a partir do exterior, sendo aliás, este último, um elemento extremamente importante no projecto, pois sem este o trabalho não vive/ existe esta última questão será de resto melhor explorada nos diagramas 1 e 3, contemplados nos Apêndices 1 e 3 . contexto: “A separação do público e do privado é, apesar da sua monstruosidade ideológica, um dado também na arte, de tal modo que nada a poderia modificar que não se conecte com o seu carácter de dado. O que na realidade social seria apenas encorajamento impotente possui, no plano estético, oportunidades muito mais concretas, representativas.” -in “Experiência e Criação Artística” de Theodor. W. Adorno A citação apresentada serviu, num certo sentido, como motor de arranque de todo este projecto, pois acaba por de forma sucinta e objectiva denunciar a separação ideológica entre público e privado; sendo que é no espaço urbano do Centro do Porto que nos propomos agir. Em primeira instância, por considerarmos que é onde as casas devolutas têm o seu maior exponencial em termos nacionais, e porque nos é mais fácil, tanto por ser a cidade onde nos encontrámos e como tal onde nos relacionamos com o problema, bem como por ser a cidade onde estudo actualmente. A investigação situa-se portanto na identificação de um problema real que assola o Centro do Porto, sendo que será uma tentativa de fazer uma acção pioneira 1 de um conjunto de outras acções, protagonizadas numa primeira análise por agentes culturais da mesma ou de outras áreas de estudo, numa segunda fase pelos próprios espectactores 2 locais que experienciam e consomem a peça, ou seja, gostaríamos que estes se apropriassem da deixa e se servissem dela como mote de acção crítica na cidade 1_ A propósito da actualidade do projecto será pertinente fazer uma referência a um emergente e consequente projecto denominado “Chão”, realizado dentro do mesmo âmbito desde Setembro de 2008 em Lisboa. Definem-se como um projecto de ocupação temporária de espaços urbanos devolutos ou em transição, através de actividades concebidas a partir da especificidade de cada local. Este projecto que consiste na ocupação temporária de edifícios devolutos previstos para demolição ou remodelação, trabalha em parceria com outras instituições de poder como Câmara Municipal de Lisboa, sendo este aliás um elemento divergente em relação ao projecto agora apresentado que tem um carácter, por enquanto, menos institucional de contra-poder e que parte de um pressuposto de inoperância autarca no contexto portuense. 2_ Termo inventado pelo dramaturgo Augusto Boal para uma técnica criada por este e que foi apelidada pelo próprio de Teatro do Oprimido, técnica esta fortemente politizada que articula o teatro à acção social.
30 31 produzir a sua intervenção. Esta atribuição foi feita sem grandes dificuldades, após serem levados ao local cada um dos artistas envolvidos no processo, escolheram a habitação que quiseram, sem nenhum tipo de restrição. Quando contactados, os agentes criativos não lhes foi imposto qualquer espécie de regra estética, sendo por isso que cada um dos projectos aqui apresentados é da inteira responsabilidade dos próprios intervenientes. Porém foi-lhes previamente explicado o propósito deste projecto e quais as reais preocupações conceptuais e de que tipo de consequências gostaríamos de obter com a acção. Contrariamente à primeira intervenção esta teve de ser devidamente autorizada, pois havia mais pessoas envolvidas e o tempo de duração também se pretendia que fosse mais extenso o que acabou por exigir isso mesmo (em Anexo ii todo este processo está devidamente explicado e documentado). casa número 138 o.u.n.u (Objectos Urbanos Não Utilizados) Projecto realizado por Luís Sezões, resultou de uma parceria laboral, pois também ele se encontrava a realizar o mestrado e os nossos projectos acabam por se cruzar em termos conceptuais nesta série do projecto de Sezões intitulada de o.u.n.u. sendo este objecto que apresento o último de vários que o Luís fez pela cidade do Porto. O projecto do Sezões é resultado de uma desmateria-lização da noção de habitação, para o efeito cobriu toda a fachada da casa a uma única cor, para que desta forma ela deixasse de ser uma habitação devoluta e passasse a ser uma peça escultórica emergente. Este efeito de peça escultórica gigante que emerge do solo é conseguida pela nivelação cromática, tudo fica reduzido a um mínimo denominador comum, no presente caso recorreu à monocromia, sendo que janelas portas e toda a variedade de materiais tais como: azulejo, madeira, vidro, etc. desaparecem e passam a ser uma única e singular peça vermelha. Esta alteração súbita de estatuto não foi indiferente aos olhos daqueles que passavam na praça e de repente eram confrontados com uma gigante forma monocromática. As perguntas foram sistemáticas, sendo este um excelente projecto, que para além do seu evidente carácter artístico, comporta também uma forte componente activista e foi muito importante como propulsor de debate entre autores e agentes locais. casas número 26 e 29 “Zangam-se as Comadres” Este projecto foi realizado por mim e foi o único que não teve autorização legal. Duas casas devolutas “unidas pelas costelas”, como se referiu a elas Rober Diaz autor do texto que fez parte da instalação sonora (Anexo iii), estabelecem um diálogo onde vão denunciando o drama dos ocupas e das políticas de habitação. Á medida que as casas “conversavam” eram projectados uns holofotes ao jeito dos edifícios nobres da cidade (Museus, Catedrais, Câmaras Municipais etc.) cuja luz e cor iam alterando a intensidade consoante o volume do som. Estas habitações encontravam-se um pouco desfasadas das outras, porém como recorri ao diálogo, esta acabou por funcionar como memória justificativa das outras habita-
32 33 ções e por conseguir comunicar de forma directa com os transeuntes. Sendo que, por estas características acima descritas, a presente intervenção foi também ela geradora de discussão. casa número 150 Nesta casa intervieram dois autores distintos, Oto Hudec (com a cooperação de Mariana Afonso para montar a instalação) e Sérgio Couto. 1_ Sem título O projecto apresentado pelo Sérgio Couto foi um mapa abstracto acompanhado de um pequeno vídeo explicativo do mesmo. A intenção do projecto do Sérgio era a partir de escalas fazer um apelo á ocupação, apresenta deste modo e através de uma linguagem linear a ocupação como uma forma de combater o flagelo identificado, para tal é deixado um post-it onde inscreve uma espécie de slogan “ocupem” o suporte usado – papel com um mapa onde é deixado casualmente um post-it onde inscreve o slogan – acaba por simultaneamente funcionar como legenda do próprio projecto sendo que, a meu ver, esta mais do que uma legenda é um forte apelo à reflexão do espaço onde se inscreve o desenho para quem visiona o mesmo. 2_“The sky is my roof” A instalação de Oto Hudec foi realizada numa sala da mesma habitação. Um projecto de carácter mais poético, mas fortemente politizado, como demonstra a sua sinopse, consistiu numa simulação da noite no interior 5. o.u.n.u, Instalação de Luís Sezões 6. Zangam-se as Comadres, Instalação de Marta Calejo
34 35 da casa, pois no limite o céu é telhado que nos cobre a todos independentemente da condição socio económica que comportamos. Convém, para uma melhor compreensão dos projectos apresentados uma leitura das sinopses de cada um dos autores sobre o projecto que apresentaram, uma vez que Oto Hudec é checo e a sua sinopse foi escrita em inglês, esta aparece em duas línguas afim de salvaguardar possíveis traduções menos correctas (Anexo iv). 7. Sem título, Instalação de Sérgio Couto 8. Sem título, Pormenor da Instalação de Sérgio Couto
36 37 2. Lugar/ Espaço Habermas, defende o reino do espaço público, para este a esfera pública é “ um reino da liberdade e da continuidade. Só à luz da esfera pública é que aquilo que é, consegue aparecer aos olhos de todos”. Esta afirmação de Habermas funciona bem para começo de capítulo porque ilustra de forma clara e evidente aquilo que o espaço público representa enquanto desencadeador de acção. O termo lugar aparece aqui num sentido macro, isto é como uma supra-estrutura que alicerça e potencia conceptualmente todo o projecto. Por sua vez as questões mais relacionadas com o público e o privado surgem aqui apenas como orientadoras de um processo interventivo, pois esta é feita a partir de dentro para fora, identificandose as portas e janelas como a fronteira legal entre os dois. A rua representa no projecto um papel fulcral, pois é ela que articula os agentes existentes, isto é, o objecto que é visionado e o espectator que consome a obra. A apropriação e usurpação temporária do espaço/ lugar aparecem como uma ferramenta possível, embora heterodoxa de reutilização desses espaços de habitação, surgindo não apenas como uma forma de lidar com espaço em si, mas também como uma forma de lidar com lixo que essas habitações contêm, pois este mais do que qualquer outro é portador de uma estória, entrando aqui as questões de memória e família. Ao longo da última década assiste-se a um interesse renovado pela definição de Lugar, falando aqui em certas vertentes da arte contemporânea que normalmente se
38 39 fundem com as ciências sociais e humanas, sobe pena de perda do seu sentido na sociedade actual. Tal deve-se ao facto da forma como experienciamos e vivenciamos actualmente o espaço e o tempo. Citando Mike Feathearstone “estamos todos no quintal de cada um” sem muitas vezes sabermos o que se passa no nosso próprio quintal. Esta última expressão de Featherstone é bastante ilustrativa daquilo a que se assiste actualmente, isto é, se por um lado sabemos, através das novas tecnologias aquilo que se passa a nível local no mundo inteiro, por outro acabamos na maioria das vezes por ser displicentes em relação aquilo que se passa no nosso contexto local ou simplesmente, parafraseando Marta Traquino 3, não nos identificamos com ele julgando que o seu cuidar não nos diz respeito. Neste sentido corroborando com a ideia de M. Featherstone, este problema concreto apresentado é algo que nos afecta de forma directa, somos obrigados a conviver com ele diariamente e como tal é nosso dever enquanto cidadãos, que diariamente experienciamos e vivenciamos estes lugares/ não lugares da urbe, pensarmos e traçarmos em conjunto estratégias de resolução. Neste sentido o projecto prático apresentado, não é, obviamente, uma resposta/ solução, mas antes uma forma/ estratégia, tida como criativa, de denunciar aquilo que está aos olhos de todos, todos os dias, ou seja é apenas uma forma dentro de outras possíveis de confrontar os transeuntes/ cidadãos locais, com uma realidade que a maioria parece querer ignorar. Das várias experiências que se fizeram pode-se constatar, que de facto, contrariamente ao que se julgava inicialmente, esta é uma problemática com a qual a popu3_ Marta Traquino, Da Construção de Lugar pela Arte Contemporânea, 2008 lação se identifica e tendo um qualquer leitmotiv que as estimule ela reage começando a interagir de imediato com o arguente, apontando possíveis soluções. Será ainda importante, neste contexto projectoal, afirmar que foi extremamente gratificante constatar que o projecto comunica com todos os flancos sociais, indiscriminadamente, como aliás se pode ver nas imagens que apresento. Trata-se de um projecto local pensado para as gentes e problemas locais, não sendo de todo um projecto que se quer translocal ou de aplicabilidade global, o que não significa que a tradução para outros contextos não seja possível, sê-lo-á certamente caso seja necessário, porém esta não é de todo a nossa intenção e como tal não será gasto tempo numa análise deste género. Se por um lado a população quer e mostra vontade de intervir, ser mais participativa, e se por outro as autarquias se têm mostrado inoperantes em resolver este flagelo, parece-nos que estamos diante de uma enorme falta de comunicação entre partes. Atrevermo-nos a dizer que este é aliás um problema com raízes muito mais fundas e que se prende com a forma como se faz política em Portugal, onde infelizmente a função de cidadania está quase resumida a votar e pagar impostos. É um sistema que funciona numa lógica de cima para baixo, sistema fechado e unidireccional de representatividade que impera sobre qualquer tentativa de trabalho comunitário, onde o cidadão poder-se-ia sentir mais útil, naquilo que seria a construção dos locais que cohabita. Não é isto que se deveria esperar da cidadania nem é isto que se deve esperar da acção política, considera-se por isso e neste contexto que o sistema democrático só será válido se for assente em pressupostos de participação activa dos agentes envolvidos, pois no limite o facto disto não
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42 43 resultante de uma vivência essencialmente localizada, por outro a segunda entende a cultura como um software humano geral, ou seja um processo de aprendizagem translocal. De acordo com a geógrafa Doreen Massey o sentido de Lugar no mundo contemporâneo deve-se estruturar em relação á cultura translocal na medida em que estas estão associadas as noções de cruzamento, interstícios, heterogeneidade, tradução, mediação, identificação ou mestiçagem. Ainda no entender desta autora face à noção de Lugar, no sentido em que este é uma plataforma que ‘olha’ á sua volta, estamos perante um “sentido global de lugar”. A especificidade de cada lugar advém do facto de cada lugar ser o epicentro de uma mistura singular de relações sociais, mais amplas e mais locais. Neste sentido o primeiro ensaio, realizado na rua D. João iv, bem como a segunda na Praça da República, acaba por ser, no limite uma tradução disso mesmo. Note-se que o agente criativo, age segundo o seu próprio padrão/ mosaico cultural, sobre uma herança urbana; a isto soma-se a história de cada edifício, onde joga com os limites da paisagem interna e a paisagem externa, resultando num ‘espontâneo’ mapeamento da memória individual que é apropriada e trazida para o contexto colectivo, sendo novamente apropriada e levada para o contexto privado de quem usufrui do projecto (Apêndice 2). Fala- -se apenas da peça como acto singular, de desencadeamento permanente de choque com o Outro, também ele rico em memórias e noções sobre o tema. Automaticamente a rua enquanto artéria de circulação de símbolos, transforma-se em palco para que o Outro, enquanto agente primordial do trabalho pela força que representa enquanto possibilidade motora da acção, se abra e possibilite um diálogo com o(s) objecto(s). Os moacontecer será certamente um dos factores que leva a uma não identificação com os lugares/ não-lugares que habitamos/ cohabitamos, experienciamos aquele travo de “terra de ninguém” o que acaba por promover, de forma consciente ou não, ciclos viciosos de vandalismo e de falta de civismo, pois não há um envolvimento efectivo entre população e governantes. Assim sendo “o que parece estar em causa são os moldes em que se pode (re)estabelecer, hoje a experiência do Lugar, acreditando que dos valores qualitativos, discorrem os valores de cidadania” 4, importantes para a forma como os fluxos culturais se identificam e se relacionam com a supra-estrutura que neste contexto de investigação o Espaço representa (Apêndice 2). Mike Featherstone afirma que, para a (re)construção de Lugar é necessária a capacidade de transformar enquadramentos e de promover o movimento entre uma série de vozes diversas, ou seja, é necessário uma capacidade de manipular uma variedade de material simbólico, a partir do qual várias entidades podem ser formadas e reformadas em diferentes situações, o que é relevante na situação global contemporânea. “A hibridização como perspectiva, pertence ao resultado fluído das relações entre culturas: é a mistura de culturas e não a sua separação que é acentuada. Ao mesmo tempo que a hipótese sublinhada sobre cultura é a de cultura/ lugar” a esta tese do sociólogo Jan Nederveen Pieterse soma-se a ideia de que a cultura está dividida em dois tipos – primeiro, cultura territorial; segundo, cultura translocal. Se por um lado a primeira visa um processo de aprendizagem que provém da experiência 3_ Marta Traquino, Da Construção de Lugar pela Arte Contemporânea, 2008
44 45 Esta transcrição de parte da tese de Marta Traquino, aparece neste momento por nos parecer que traduz de forma simples, clara e objectiva os pressupostos vitais do projecto, passo a explicar: o Espaço como supra-estrutura que alicerça a acção é redesenhado a partir do cruzamento e da partilha de soluções para uma questão comum que é levantada pelo próprio Lugar. O referido rol de soluções, aparece como resultado inegável de uma justaposição (por camadas) de memórias e experiências vivenciadas em tempos distintos, por parte dos actores envolvidos, sendo que é a partir dessa justaposição por vezes de ideias mesmo antagónicas que se começa a delinear todo o projecto, identificando-se por isso a partir deste momento a função mais social do projecto, até então adormecida, que só agora desperta, tomando conta do trabalho, parecendo-nos importante frisar que este processo é totalmente transversal a quem quiser agir sobre ou a partir dele, não havendo por isso nenhuma linha previamente estabelecida, que oriente ou lidere todo o processo, neste sentido o projecto toma a forma que as pessoas lhe quiserem conferir. Na espiral cumulativa que acima identifico, existe, inevitavelmente, um vector analítico da realidade (x) que é transversal a todo o processo, será esse vector analítico (que no presente caso serão as casas devolutas da cidade do Porto) que acaba por funcionar simultaneamente como charneira e âncora dos vários elementos. Guiada, num certo sentido, por esse vector, a espiral cumulativa cresce a partir daí, donde disparam em cascata, ideias ou simulacros de soluções possíveis. Sente-se então uma necessidade de estabelecer um diálogo entre ideias e simulacros a fim de filtrar possíveis contrariedades, desencadeando-se então a partir daqui uma dialéctica de rivalidades saicos culturais de cada um dos agentes implicados no processo, começa a cruzar-se criando inevitavelmente uma espiral cumulativa de experiências e de possíveis soluções para a problemática então levantada, obviamente que a prosseguir com isto de forma consequente, a informação conseguida teria de ser devidamente filtrada e alicerçada. Porém apesar de aparentemente caótico, em parte pela descrição que faço de todo este processo, o resultado acaba por ser bastante enriquecedor para as partes envolvidas (Apêndice 3). Os cruzamentos das memórias/ experiências só neste momento são realmente traçados, pelo confronto de opiniões, sendo que as fotografias acabam por se demonstrar insuficientes enquanto dispositivos de tradução da acção. “Que lugares podem derivar de espaços e tempos não coordenados entre si será, provavelmente, uma das questões centrais que se coloca, como desafio, à arte contemporânea que trabalha com o Lugar. Uma via possível para os artistas envolvidos em tal investigação será a exploração de recombinações de espaço e tempo que possibilitem a ocorrência de actividades sociais, com referência nas particularidades dos lugares entendidos enquanto fusões de espaço e experiência. Possibilitando deste modo o desenvolvimento de memórias de experiências vividas (e partilhadas) não tão facilmente esquecíveis quanto as “memórias imaginadas” derivadas das experiências filtradas pelos mass media. Segundo Andreas Huyssen, as memórias de experiências vividas são as necessárias para construir diferentes futuros locais num mundo global.” – in. Marta Traquino, in ‘ Da Construção de Lugar pela Arte Contemporânea’
46 47 como já tivemos oportunidade de referir parecem ter uma resposta pronta e uma solução delineada, que contrariamente aos “leoneanos” não passa pela demolição ou extinção dos objectos/ dejectos, mas sim pela inclusão/ absorção deste pelas estruturas/ malha urbana, com o intuito, de zelar pelo património arquitectónico que a todos pertence. O que Marco Polo diria é que os leoneanos “em vez de preservarem o que dizem amar eles só conseguem preservar realmente o lixo”. O mesmo parece querer aplicar-se á situação vigente com a agravante de que a doença não está na população mas sim em todo um sistema falhado que se recusa em promover o diálogo e a partilha de responsabilidades. Sendo por isso que no actual contexto local, com aplicabilidade directa, caso isso seja necessário, ao contexto translocal, a única solução será a de criação de mais plataformas de acções organizadas em movimentos ou em simples polvilhar de acções singulares, que assegurem uma tomada de posse por parte da população, daquilo que é, o direito por inteiro, à sua cidadania. A produção de refugo na construção é um produto da modernização que tem a sua origem num fenómeno social que no contexto português se explica em parte, a partir da história da população 6. Sendo que, no actual panorama local, a este legado inevitável da nossa própria história enquanto população, soma-se a falta de estraté gias de partilha de conteúdos e de articulação das diversas esferas sociais componentes da amálgama urbana. (amphisbetesis - dialéctica dos pretendentes) (Apêndice 4). O espaço articulado com o tempo representa uma categoria fundamental que modela o conteúdo segundo um prisma de mudança que é, logicamente, mutável. Saltando um pouco da esfera criada no início do capítulo, o prazer dos habitantes da Letónia - uma das cidades invisíveis do Ítalo Calvino - é o desfrutar coisas novas, e diferentes. Porém o prazer maior talvez seja “o de expelir descartar, limpar-se de uma impureza recorrente”, como forma de ilustrar isso ainda que num outro panorama, aproveito para citar Zygmunt Bauman “caso contrário, porque razão os varredores de rua seriam recebidos como anjos” 5, pois ninguém quer voltar a ver as coisas que já foram rejeitadas. Pedindo, agora emprestado o raciocínio de Ítalo Calvino, “os leoneanos são doidos por novidades”, “uma fortaleza de dejectos indestrutíveis cerca a cidade”, “dominando-a por todos os lados, como uma cadeia de montanhas”. Segue-se a questão: será que os leoneanos enxergam essas montanhas? Logo de seguida é respondida – Eles não só se apercebem como também odiariam a notícia da impossibilidade da sua destruição. Abrem-se a partir daqui algumas portas para se analisar o caso corrente. Faremos de seguida um exercício de substituição das premissas, para que se possa desmontar a história em função daquilo que nos propomos analisar. Os anteriores “leoneanos” são no presente caso os portuenses e as “montanhas de lixo” são as casas devolutas que parecem querer multiplicar-se sem que uma solução consequente e justa surja. À seme-lhança dos leoneanos de Ítalo Calvino também os portuenses se apercebem deste flagelo e quando confrontados com isso 5_ Zygmunt Bauman, Vidas Desperdiçadas, 2004 6_ Fomos sempre um país de emigrantes e agricultores, que transportavam sua bagagem a ideia de um dia voltarem á terra natal para poderem comprar casa própria, com isto as casas antigas perdem o seu valor simbólico, pois durante muitos anos e em parte fomentado pela
48 49 mas, denunciam hábitos, tendências familiares e jogos de micro poder, sendo que a partir desta película fragmentada no tempo e no espaço é possível adivinhar-se todo um mapeamento memo-referencial. A título de exemplo falaremos um pouco de uma personagem feminina que era predominante nas imagens achadas. Aparentemente um agente dominador no grupo familiar onde se inseria com a peculiar característica de que as mãos nunca estavam vazias. Ao longo das imagens as mãos eram sempre enchidas com algum objecto ou gesto singular, como segurar o rosto por exemplo. Tinha em mãos dois tempos distintos, uma dessincronização cronológica, por um lado a habitação com os objectos fora do local, por outro as imagens que apesar de gastas e destruídas denunciavam qual o aspecto original da habitação e qual o local correcto de cada um dos objectos que ali se encontrava. Um puzzle por montar, e que continua por montar pois o interesse principal prendese com a imagem e as infinitas narrativas que se podem criar a partir daí. Jogando com os vários níveis de memória envolvidos, que são por si só potenciadores de um património vernacular comum, a partir do momento que é exibido. 2.1 - a película fragmentada O conceito de família interessa explorar neste contexto de investigação como um organismo gerador de micro poder que apesar de se encontrar num estádio de latência, há vestígios nas habitações que denunciam os tipos de poder exercidos naquele seio familiar. Sendo que no único ensaio onde se tornou possível esboçar-se estas noções, foi na primeira intervenção pois foi a única habitação que continha objectos e entre eles, as imagens, que pela natureza do que se pretendia fazer foi onde nos demorámos mais. Este achado, que só aconteceu na segunda visita feita à habitação, representa uma investigação a um passado anónimo e vernacular sem nenhum valor Histórico, mas que é dotado de um incalculável valor simbólico e semântico, pois tratam-se de pessoas comuns que habitam ou habitaram esta cidade e agora se encontram (falando na existência simular destas) em paralelo com a sua habitação ao abandono. Cada imagem vale por si e representam frames de toda uma história ou novelle familiar que inegavelmente nos seduz e é altamente efervescente enquanto promotora de histórias inter-cronológicas. As imagens achadas, como foto frames de um filme construído a várias mãos anóniindústria fortemente alicerçada no consumo, a ideia do novo, pronto a estrear foi o que pautou a forma como as pessoas viam a vida e consequentemente a forma como habitavam o espaço residencial. Fugindo, numa fase inicial, para o estrangeiro e posteriormente para a periferia onde teriam espaço de sobra para construir casa própria, o centro das cidades começou inevitavelmente a ficar desertificadas transformando-se em autênticos contentores de lixo imobiliário.
62 63 À parte disto, K. Lynch, refere-se sem ressalvas á importância da acção do observador na constituição do objecto observado. Mais ainda este autor defende a pluralidade e multiplicação de formas preceptivas, o que nos leva a concluir o espaço urbano como um texto polissémico, aberto a várias leituras e interpretações. A cidade é ela própria um enorme contentor simbólico. Toda a imensa imagística ligada à cidade e à urbanidade representa um gigantesco e plurifacetado campo semântico impregnado de significações e rituais9. A cidade vivida é também uma cidade imaginada 10, conclui-se portanto que a cidade é um elemento central na definição das identidades sociais. Neste contexto as próprias identidades tendem a ser, “transitórias”, “plurais” e “auto-reflexivas”. Feitas incessantemente “ao sabor das mudanças sociais e das novidades culturais”, fruto da destruição criativa, representam antes de mais o fim da segurança ontológica e correspondem a uma sociedade líquida e plastificada. Devid Harvey escreve “a confiança na associação entre juízos científicos e morais ruiu, a estética triunfou sobre a ética como foco primário da preocupação intelectual e social, as imagens dominaram as narrativas”. O urbanismo pós-moderno, ao guiar-se, aparentemente, pela “estética pura”, acabou por esquecer a ética e o poder económico diferencial dos grupos urbanos, gerando exclusão e desqualificação, ao mesmo tempo que edifica com grandeza e espectáculo 11, será por isso este um processo de gentrificação 12. 9_ Noção de Henri Lefevre retomada por João Teixeira Lopes in, “A Cidade e a Cultura – Um estudo sobre práticas culturais urbanas” 10_ João Teixeira Lopes in, “A Cidade e a Cultura – Um estudo sobre práticas culturais urbanas” 11_ João Teixeira Lopes in, “A Cidade e a Cultura – Um estudo sobre práticas culturais urbanas” 12_ Termo usado nas ciências sociais e que surge do inglês “gentrification”, com origem no termo “gentry”, pequena nobreza.
64 65 5 . CONSIDERAÇÕES FINAIS “— Gatinho Cheshire – começou Alice timidamente (…) – Diga-me, por favor, a partir daqui, que caminho devo seguir? — Isso depende para onde queres ir – respondeu o Gato. — Pouco me importa para onde - disse Alice. — Então não tem importância para que lado vais – disse o Gato. — Contando que vá dar a qualquer parte – acrescentou Alice, explicando-se melhor. — Ah, isso é que vais, de certeza – disse o Gato – se andares o suficiente…” - Lewis Carrol, Alice no País da Maravilhas Ao longo do documento foram já sendo apontadas algumas pistas daquilo que seriam resenhas de um possível processo conclusivo. Porém dada a natureza do projecto em curso não será possível ter uma conclusão de natureza taxionómica, porque não estamos diante de um projecto de investigação que se encerra em si mesmo, segundo uma óptica fechada e tautológica. Neste sentido, estamos perante um projecto que se quer aberto e socialmente consequente e operante, ou seja mais do que uma resposta a um dado problema, este projecto tem como ambição maior, constituir um bom começo para que possa conseguir uma resposta que seja o resultado visível de um processo e trabalho colectivo de massas, para tal (sendo esta uma possibilidade apenas entre várias possíveis) instrumentalizou-se as formas
66 67 de intervenção criativas, para que se pudesse comunicar a partir de um espaço que é comum a todos. Este tipo de intervenção e instrumentalização, acabou por se revelar um excelente promotor de debate. Colocando desta forma os ciclos de poder hegemónico em cheque, na medida em que de uma forma natural e fluida se colocou todos os cidadãos (presentes nos momentos de intervenção) a traçar em conjunto aquilo que poderia ser uma estratégia urbanística viável, ainda que por vezes ingénua, esta é de facto uma forma de criar laços de identificação dos agentes locais com os espaços com que estes se relacionam. Isto é, por breves momentos conseguiu-se criar processos reflexivos de conjunto, onde se provou de facto que as ruas e praças constituem efectivamente esses tabuleiros e ou palcos rotativos, promotores de narrativas e de mosaicos culturais. Este é um projecto que só agora teve o seu início, e que dada a sua natureza não reúne condições para produzir resultados visíveis de imediato, porém a longo prazo acreditamos que este poderá vir a ser um elemento propulsor de criação de movimentos e dinâmicas sociais com semânticas e morfologias próprias. Porque lidamos com pessoas, com realidades e padrões sociais diversificados na sua origem e no seu termo, a gestão disto torna-se muito difícil e morosa, porém era de todo o interesse que se visse esta estratégia crescer de forma mais consequente. Conclui-se após o projecto que para que este se torne mais eficaz e consequente seria mais operante se, se tivessem criado equipas responsáveis só pela legalização, pois esta foi de facto uma tarefa morosa e difícil, porém essencial na medida em que da primeira vez, em Junho de 2008 este processo não existiu acabando por ter que ser encerrado prematuramente devido a acção policial. As intervenções nocturnas revelam-se mais eficazes na medida em que os agentes locais deambulam de forma mais errante e descomprometida pelas ruas, pois de forma genérica não está a coincidir com o horário laboral da maioria dos cidadãos, o que permite uma maior interacção com as instalações criadas. Gostaríamos ainda de continuar com o projecto recorrendo para efeito a um novo ciclo de formação Académica, num outro gau será com certeza mais consequente uma possível parceria mais intensa das ciências sociais e humanas, não querendo isto dizer que a investigação de carácter mais artístico, não seja também uma possibilidade concreta.
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70 71 1 - Mosaicos Culturais e suas inter-relações As ruas, avenidas e vielas, mais do que artérias para circular o fluxo populacional, são a área por excelência onde todas essas ‘peças’ do mosaico cultural se articulam e confrontam entre si, sendo que a habitação (aqui no sentido mais lato - engloba igrejas, sedes, escritórios, casas particulares etc.) acaba por funcionar como células de comunhão desses símbolos e padrões culturais, quanto mais não seja pela vizinhança, ou seja proximidade espacial. Cada um acaba por funcionar como um ícone de um complexo legado simbólico, cada indivíduo funciona como um contentor de símbolos móvel, sendo as ruas e as praças como os locais por excelência de articulação entre contentores é porque nos cruzamos e olhamos que todo o padrão cultural se vai formando como
72 73 uma entidade urbana, caleidoscópica 1 que se funde e separa consoante afinidades ou disparidades simbólicas entre semelhantes/ pares. As tensões desencadeadas entre agentes que á partida são diariamente potenciadas pelos eixos de rotação, ou planos que funcionam como tabuleiros de rotatividade entre agentes (ruas, praças, respectivamente) não encontrará sempre eco enquanto não existir algum tipo de estrutura/ dispositivo que desencadeie ainda que de forma subtil algum tipo de resposta por parte de quem circula. É precisamente esse eco ou ressonância que nos parece poder e dever ser considerado como um excelente promotor de activismo social. Neste sentido, estamos diante uma proposta que instrumentaliza a arte ou as formas de acção criativas por considerar que este pode ser um instrumento fértil enquanto elemento comunicador de mensagem/ ideia sócio-política. Julgamos mesmo que a arte 2 pode e deve ser esse elo/ elemento de ligação entre a população e os possíveis movimentos sócias que se criem. 1O termo “caleidoscópico” é usado neste contexto explicativo, porque inegavelmente estamos diante de uma realidade multifacetada e polivalente. 2É escrito com letra minúscula por considerar que estamos diante de um género de intervenção artística que se quer despida de vaidade ou de função “aurática” e revestida de uma relação íntima com quem observa, onde a distância exigida entre observador e obra que existe noutros contextos aqui não existe, sendo que quanto mais próximo o observador estiver do objecto, mais rica a peça se torna e mais útil enquanto elemento propulsor de poder simbólico e massa crítica. 2 – Espaço uma supra-estrutura O termo Lugar aparece neste diagrama como a célula onde se desenrola toda a acção, como aliás já no Apêndice 1 se compreendeu o que é que esta célula representava em termos simbólicos, em toda esta análise. Deste modo temos o lugar como uma supra-estrutura que alicerça e potencia todo o projecto, sendo que este lugar por sua vez se relaciona com os demais lugares que estão contidos no espaço vivencial, existe então um não-lugar uma não-casa e é precisamente a partir desta não-casa que os demais elementos (memória individual,
74 75 memória colectiva, espaço público, espaço privado, bem como agentes locais e agentes culturais) se articulam. Então vejamos, do elemento casa transbordam dois tipos de paisagem – a paisagem interna e a paisagem externa, será adjacente a estes que estão as noções de espaço privado e espaço público – sendo a partir deste legado que a memória individual versus memória colectiva surge como infra-estrutura que potencia toda a acção, sendo precisamente a partir daqui que a espiral cumulativa, como se verá mais a frente, se gera. O confronto entre estas duas paisagens faz-se a partir de uma reconstrução de documentos achados, pela respigadoria de imagens e pelo mapeamento de memórias, esse mapeamento é feito a partir das apropriações ilegais de imagens e espaços que não nos pertencem, mas que constituem eles próprio uma arqueologia da imagem – no fundo estamos perante uma Ode ao Vernáculo, pois considera-se que estas imagens estão carregadas de valor simbólico pelo que a sua instrumentalização enquanto ferramenta de acção sociopolítica, pareceu-nos passível de constituir um elemento forte de criação de um dinamismo de massas, onde a acção se correlaciona com a crítica. Inerente à construção dos novos documentos (construção essa que resulta da articulação dos vários pontos de vista heterogéneos sobre um mesmo objecto) e do mapeamento da memória está a acção activista per si, acreditando portanto, que essa acção é promotora, a longo prazo, de uma alteração social consequente. 3 – Espiral-acumulativa No presente diagrama existem apenas dois pontos degenerativos a e b porém isto pode ser ampliado até ao infinito, tento em conta que existem tantos pontos quanto os actores envolvidos no processo, contudo por uma questão de clarividência resolvemos simplificar a análise reduzindo a equação a um esquema binário. O ponto x representa o objecto de estudo (que no presente caso são as habitações devolutas, o problema que é posto em análise/ discussão pelos demais intervenientes, sejam os artistas convidados ou os agentes locais que aparecem no momento da intervenção) adjacente a este objecto é lançada uma determinada questão que será a identificação do problema e uma solução consequente, ou seja o objecto x é-nos dado segundo uma orientação de pensamento, ou seja surge com a associação
76 77 a um vector (vector este que foi denominado de vector analítico da realidade, que à partida condiciona ainda que de forma tímida essa mesma análise). Assim sendo perante determinado estímulo surgem respostas diferentes que surgem como opostas, não necessariamente antagónicas, se bem que isso também pode acontecer, não sendo menos viável por isso, estas respostas divergentes são aqui identificadas como a e b. Esta tensão gerada por estes dois pontos provoca um saber cumulativo que se prende com as referências políticas, culturais e sociais de cada um dos elemento interventivos, pelo que a sua resposta está fortemente condicionada pelo seu padrão sociocultural, a partir da tentativa de gerenciar estas várias referências heterogéneas, convergindo elas mesmas para um mesmo ponto comum de interesse, a espiral cumulativa vai sendo formada em direcção a um ponto x que é percorrido por um eixo analítico sendo esse mesmo eixo que serve de charneira entre os vários contributos para que estes não se desintegrem promovendo desta forma um diálogo inter-referencial, caso contrário o que teríamos era um monólogo colectivo, sendo que é esta mesma âncora que torna a acção à partida mais consequente e consciente. 4 - Lições de hospitalidade Platão diria a propósito disto que o simulacro é constituído sobre uma disparidade, sobre uma diferença, ou seja ele interioriza uma dissimilitude (veremos isto com mais pormenor aquando a dissecação do primeiro ensaio na Praça D. João iv), no entanto interessa neste contexto explicar aquilo que ficou denominado de trindade platónica, os elementos constituintes desse esquema são “o usuário - que dispõem do saber/ Ideia”; “o produtor - cópia”; “o imitador - simulacro”. O simulacro inclui em si o ponto de vista diferencial, em que o observador faz parte do próprio simulacro, que se transforma e se deforma com o seu ponto de vista. O Mesmo e o Semelhante encontram em Leibniz e Hegel a possibilidade de convergirem para um mesmo ponto. O mesmo se passa com a arte moderna em que se permite contar várias histórias ao mesmo tempo. Não se trata de pontos de vista diferentes, sobre uma história que se supõe ser a mesma, pois os pontos de vista permanecem submetidos a uma regra de convergência. Trata-se sim de histórias diferentes e divergentes, como se cada paisagem absolutamente distinta correspondesse a cada ponto de vista. Há uma unidade das séries divergentes enquanto divergentes, mas é um caos excentrado que se confunde ele próprio com o objecto. Ainda na lógica destes autores, este caos não é qualquer caos: é potência de afirmar todas as séries heterogéneas, ele compila em si todas as séries. Entre estas séries de base (propulsoras do caos) produzem uma espécie de ressonância interna, sendo esta ressonância que induz um movimento forçado, que transborda das próprias séries. Estas são as
78 79 características do simulacro, quando rompem com as suas cadeias e sobe à superfície, afirmando desta forma, a sua potência de Fantasma. Freud também afirmou esta carga de ressonância que os Fantasmas são potenciadores. Ressonância essa, que resulta da articulação em paralelo de duas séries distintas (a infantil e a pós-pubertária). Este sistema coloca em comunicação elementos díspares ou séries heterogéneas, são no fundo sistemas sinal-signo. O sinal é uma estrutura em que se repartem diferenças de potencial e que assegura a comunicação dos elementos díspares, por sua vez, o signo é o mediador entre duas séries de comunicação. Todos os fenómenos encontram sua razão numa dissimetria, numa diferença, numa desigualdade constitutiva. No simulacro é necessário que as séries heterogéneas sejam introduzidas no sistema, é preciso que a diferença seja incluída. Daqui conclui-se a par com Deleuze que há sempre uma semelhança entre séries que ressoam. O simulacro não é portanto uma cópia degradada, ele encerra uma potência positiva, seja tanto o original como a cópia, tanto o modelo como a reprodução. Das duas séries divergentes interiorizadas no simulacro, nenhuma pode ser designada como a original, nenhuma como a cópia. Não basta invocar um modelo do Outro, pois nenhum modelo resiste á vertigem do simulacro. Não há mais ponto de vista privilegiado do que o objecto comum a todos os pontos de vista: não há mais hierarquia possível. O objecto não hierarquizado é um condensado de consistências, um simultâneo de acontecimentos. Tentar-se-á fazer de seguida, uma análise destes legados à luz do projecto vigente. Começando pela herança teórica de Platão pode dizer-se que ambas as intervenções realizadas albergam esta definição de simulacro, pois o espectador imprime o seu ponto de vista no objecto, sendo que este, enquanto definição simbólica se vai igualmente metamorfoseando de acordo com as verdades (pontos de vista) de cada um daqueles que quer participar enquanto elemento organizativo de um movimento social de massas. Porém ele próprio é gerador de um caos excentrado que por momentos se confunde com o próprio objecto, indo desta forma ao encontro do pensamento de Leibniz e Hegel, são propulsores de uma ressonância interna que induz a um movimento que discorre do próprio objecto. É esta ressonância que coloca em paralelo duas séries distintas, ou seja é ela a causadora das heterotopias - noção esta que será à frente melhor definida - introduzindo num mesmo sistema de percepção momentos cronológicos distintos, isto é, imagens ou histórias de tempos e contexto divergentes que num dado momento convergem para uma mais-valia comum, ou seja o objecto (a acção propriamente dita) não é hierarquizada todos os elementos tem o mesmo grau de importância resultando num aglomerado de pontos de vista, num simultâneo de acontecimentos/ simulacros do real e que no presente caso, qualquer uma das intervenções ilustra.
80 81 5 – Histórias Subterrâneas Segundo Klossowski existe um paralelismo entre ver e falar, sendo que no romance “Des Forêts” é colocado em cena um tagarela voyeur. “Ver designava uma operação ou uma contemplação muito especial” – visão pura dos reflexos, representa aqui uma multiplicação do que reflectem, acabando por conferir ao voyeur uma participação mais intensa, do que se ele experimentasse estas paixões, cujo o duplo ou as reflexões dos semblantes de outrem ele agora persegue. Deste modo também para Klossowski, quando Octave instaura a lei da hospitalidade de acordo com a qual “oferece” sua mulher, Roberte, aos convidados. Segundo este autor, tal acto mais não é que multiplicar a essência da Roberte, de criar tantos reflexos e simulacros quanto o número de personagens que com ela entram em relação e de inspirar Roberte uma espécie de emulação dos seus próprios duplos, graças aos quais Octave-voyeur possui e conhece melhor a mulher, mais até de que se a guardasse, simplificada para si mesmo. “Era preciso que Roberte tomasse gosto por si mesma, que tivesse curiosidade de se reencontrar naquele que eu elaborava com seus próprios elementos e que pouco a pouco ela quisesse, por uma espécie de emulação com seu próprio duplo, ultrapassar até mesmo os aspectos que se esboçavam em meu espírito.” 1 Deste modo se dá a posse visual, ou seja, só se possui bem aquilo que já é possuído. Segundo a óptica de Klossowski não se possui bem a não ser aquilo que é expro1_ Referencia ao romance ‘Des Forêts’ retomado por Gilles Deleuze em “Lógica do Sentido” priado, posto fora de si, ou seja aquilo que foge aos seus próprios limites tendencialmente opressores, segundo uma gramática da existência, isto é o objecto ganha (e simultaneamente perde como se viu no Capítulo 3 a propósito da história de Alice) uma hiper-existência quando supera os limites, é desdobrado, reflectido sob o olhar, multiplicado pelos espíritos possessivos. A partir desta multiplicação até ao infinito, assegura-se uma perda de identidade pessoal, mas precisamente esta aparente perda ou dissolução do eu “deixa de ser uma determinação patológica para se tornar a mais alta potência, rica em promessas positivas e salutares.” 2 O eu só é “dissoluto” porque primeiro foi dissolvido: não somente o eu que é olhado, que perde sua identidade sob o olhar, mas aquele que olha e se põem a si de fora, multiplicando-se desta forma em seu olhar. É precisamente a dinâmica que está subentendida neste percurso identitário, que se considerou passível de desencadear estruturas geradoras de uma energia muito própria, reflectindo uma estratégia de desenvolvimento dos diversos agentes, já enunciados em outros contextos. No actual plano de análise as imagens (Roberte) perdem a sua identidade inicial pertencente a um passado-anónimo, para cederem lugar a algo construído por todos aqueles que a experienciam (convidados de Octave) num futurocolectivo e não num presente-colectivo, embora este esteja obviamente subentendido em todo este processo, pois é na esfera do presente que nos movemos, porém temos a consciência e olhos postos no futuro, pois sabemos que não são este tipo de acções que produzem uma alteração imediata, mas seguramente são este tipo de acções que a longo prazo impulsionam aquilo que se acredita ser uma construção futura e colectiva, válida. 2_ Gilles Deleuze “Lógica do Sentido”
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100 101 II. Prelúdios da Acção Este anexo aparece apenas a título de exemplo para dmonstrar um pouco o carácter bizarro da hiper-burocracia vigente, é um simples gráfico demonstrando as voltas sinuosas que foram feitas, apenas para que se conseguisse descobrir os nomes dos proprietários das habitações, para que então a partir daí se pudessem ter as autorizações, proporcionando deste modo aos artistas com quem trabalhamos condições interventivas legais e por isso mais confortáveis. Como se vê nos gráficos os caminhos são caóticos, sinuosos e redundantes, sendo que por estes mesmos motivos acabou por se desistir desta via mais institucional e recorreu-se aos elementos que são no fundo a base do projecto – agentes locais (no presente momento os vizinhos). Julga-se mesmo que foi neste primeiro contacto, inicialmente inocente pois tratava-se de uma clara questão de sobrevivência, que o projecto prático, enquanto promotor de diálogo, começou, ou seja muito antes da intervenção enquanto objecto físico, visível aos olhos de todos, ela já tinha começado aqui, sendo este momento o primeiro acto interventivo, pois ao ter de explicar o que se pretendia realizar e quais os fins, inevitavelmente foi necessário apresentação dos pressupostos e toda a orientação ideológica que lhe estava subjacente, sendo que estes elementos (vizinhos) automaticamente estabeleciam diálogo e mostravam interesse no assunto, quanto mais não seja, porque eles, mais do que ninguém convivem com esta questão diáriamente, temendo mesmo muitas vezes que os pédios ruam e destruam os seus imóveis.
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106 107 III. Diálogo Texto de Rober Diaz (Licenciado em Ciências Políticas na unam - Universidade Nacional Autónoma do México) Tradução de Nuno Brito (Licenciado em História na flup – Faculdade de Letra na Universidade do Porto) casa a: Imagina que me fizeram 16 buracos com um diâ metro de 25 centímetros repartidos entre os meus oito quartos, imagino que a quantidade de tnt é proporcional aos cinco metros quadrados que ocupa o chão de cada um dos meus compartimentos. Pensei no estrondo que causaria. Na mobilização de pó e partículas. Pelo menos espero não fazer muito barulho, pelo menos pretendo ser eficaz para deitar-me definitivamente sem fazer tanto alarido e não acordar os nossos vizinhos, não quero imaginar o que diria de mim a igreja? Faz muito tempo, ouvi um dos últimos moradores que esteve por aqui, um foragido e vagabundo, que veio mal viver os seus últimos dias dentro de mim. Por causa daquele grande estúpido tomaram conta de mim, o cheiro putrefacto e nauseabundo dele atraiu os agentes municipais. Os arquitectos urbanos por causa desse bárbaro, souberam que eu era uma casa vazia. Deram-se conta que eu já não servia. Aquele vagabundo disse que duas grandes torres caíram de forma quase cronometrada. Dizia que a operação tinha sido perfeita, que ordenada-
108 109 mente esses dois gigantes que ficavam em Nova York tinham tombado um sobre o outro. Disse que era o inferno, que se começava a desatar o apocalipse, que não era mais do que o começo do fim, que bom que ele tinha frio, que bom que nada o ia ajudar, que sabia que ia morrer, mas morrer era o que ele preferia à barbárie que daí se ia desatar. Eu quero cair assim, como essas duas torres de que ele falava, eu quero fundirme assim e estoicamente dar origem a uma nova época, sem alaridos, sem choradeiras, porque já há muitos que estou morta. casa b: Primeiro, a igreja que está à tua direita pode dizer o que lhe apetece. Achas que ela se importava com os sem abrigos que me habitavam? Esses desgraçados, chegavam às portas pedindo protecção, e que é que o padre lhes dizia? Esta é a casa de Deus mas não um asilo e corria-os. Ouvia-se mais as suas barrigas de fome, do que a sua voz de agonia. Esses débeis mentais, como os catalogaram os funcionários municipais, deram-me vida, criaram um ser em festa dentro das minhas entranhas. Eu apanho sol para o compartir dentro das minhas escadas, dentro dos meus compartimentos desgastados pelo tempo. Dou-lhes protecção e entre eles aquecem-se. Consegui manter-me graças aos pequenos cuidados que os ocupas tiveram comigo. As minhas instalações sanitárias ainda estão a funcionar, os meus pisos ainda se mantêm sem grandes estragos. Eu aprendi muito sobre esses que tu desprezas. Há quanto tempo não falavas comigo? Apesar de estarmos unidas pelas costelas? Porque é que decidiste não falar comigo? Porque foste ocupada por personagens importantes que no fim te abandonaram? Eu, pelo contrário, fui um bordel, mas também uma casa da cultura, fui lugar de reunião de ladrões, mas também de artistas. Eu vi nascer dentro de mim grandes obras, senti amores inverosímeis, porque é que te perguntei tanto e tão pouco respondeste? Através da avaliação, vais ver que fui admitida para o novo programa de revitalização urbana. Não me vão demolir, mas tiraram-me os sem abrigo e tenho saudades deles. Vais ver que me vou encher de ar e aos meus próximos habitantes vou lhes encher os ouvidos de ruídos, vão pensar que são fantasmas. Não vão conseguir dormir debaixo dos meus tectos, não vão descansar sobre as minhas paredes. Tu vais cair e não queres fazer ruído? Vão demolir-te e não queres dizer nada pela ordem? Porque já não te enquadras nos modelos que os governos actuais querem? Falas porque tens medo e eu falo contigo porque te estimo apesar da tua frieza. casa a: Tenho medo, às vezes sonho que vêm com as má quinas demolidoras e levantam-me os alicerces como se fosse uma árvore seca. casa b: Às vezes ouço o eco de uma grande explosão e penso que é uma tormenta silenciosa. Na minha imaginação vejo um grande cogumelo de ondas radioactivas, mas não são uma onda expansiva ou explosiva, são uma chuva de toxicidade e
110 111 sei que vou sobreviver, mas os que me habitam não conseguirão sobreviver e talvez passem mil anos sem eu ter oportunidade de falar sobre o seu movimento. Ficarei presa a uma eternidade sem ofício. casa a: Mas tu não vais desaparecer, eu sim. A minha história e o espaço que eu ocupei ficarão enterrados, o rosto velho da cidade vai desaparecer. casa b: Somos parte de uma cirurgia estética. casa a: Tu serás isso, eu pelo contrário sou uma extirpação. Sou um tumor que evidencia um passado que é preferível esquecer. Esse é o estúpido futuro. Esquecer. casa b: Sinto muito isso, mas há um bocado não dizias que querias cair ordeiramente? casa a: Disse isso por dizer. Aquele homem que veio morrer na minha sala contou-me uma história: Disse que há muito tempo numa cadeia, alguém pintou uma cadeira de branco, o director da cadeia proibiu que as pessoas se sentassem aí porque iam ficar com o rabo pintado, trocou o turno dos guardas, mas a ordem manteve-se, trocaram os guardas e os que saíam, não sabiam porquê, diziam, é proibido sentar-se aí. Mudaram os chefes, a pintura ficou, mas não a ordem que nada a aboliu, esqueceram-se da cadeira, ninguém se queria aí sentar. Mas ninguém perguntou porquê. Isso passou-se a mim. Alguém disse simplesmente que não ia ser mais ocupada e alguém se esqueceu de o pôr em dúvida. Perdime num absurdo e até inventaram que habitavam fantasmas dentro de mim. Fecharam-me. Aquele homem morreu pedindo auxílio e ninguém o veio ajudar nem eu pude. Estou acabada. casa b: Não estás acabada! casa a: Quem pode evitar que eu desapareça? casa b: O que se passa é que tens estado em silêncio e fechada, vê à tua volta, fora a igreja, todas as casas desta praça estão em ruínas, são vítimas dos mesmos trâmites burocráticos que só servem as imobiliárias, ávidas de demolir para edificar, de destruir para custear os seus futuros planos de manutenção. Pagam a arquitectos imbecis, esses que apostam na delapidação do património de um povo. Com o objectivo de reduzir os custos, estão a alterar a cara da cidade, é mais fácil demoli-la toda e cem por cento mais lucrativo edificá-la sobre os materiais que eles mesmo produzem. Todas as análises de risco sempre dirão: É inevitável, nós compramos e tiramos, senhor governo não se preocupe que nós vamos pagar os impostos, não digam nada que aqui ganhamos todos, é um negócio completo. casa a: Que vamos fazer? casa b: Que vamos fazer? Antes fazer tremer a terra do quechorar, um grande terramoto, um golpe directo
112 113 à câmara municipal. Aquela velha aristocrática que só ouve elogios dos turistas. Vamos fazer cair essa sede de plutarcas, que leva todos os aplausos. Aqui protegem-se uns e dá-se manutenção a todos. Aqui não somos só uns quantos que somos um perigo. Vamo-nos unir e defender todos. Este texto foi gravado para que posteriormente se pudesse realizar a instalação na Praça da República, para tal pedi as vozes emprestadas a Jonas Andrade Nobre e Cláudia Consciência para que protagonizassem as Casas a e b respectivamente. Anexo a este documento, segue-se uma faixa sonora com a referida gravação a título de curiosidade. Segue-se o texto original de Rober Diaz, pois por motivos de tradução para o português e de questões levantadas com em relação à dicção, uma vez que o texto teria de ser lido houve pequenas alterações ao documento inicial. Dialogo Casa A: Imagina que me hicieron diez y seis hoyos con un diámetro de 25 centímetros. Repartidos ente mis ocho cuartos me imagino que la cantidad de TNT será proporcional a los cinco metros cuadrados que ocupan los suelos de cada una de mis habitaciones. He pensado en el estruendo que causaré. En la movilización de polvo y partículas. Por lo menos espero no hacer mucho ruido, por lo menos pretendo ser eficaz para acostarme definitivamente sin hacer tanto alarde y no despertar a nuestros vecinos, no quiero ni imaginarlo ¿Qué diría de mí la Iglesia?. Hace no mucho escuche a un de los últimos habitantes que estuvo por aquí, un sucio y vago forajido que vino a mal vivir sus últimos días a mi seno. Por aquel gran estúpido tomaron cuanta de mi, su olor putrefacto y nauseabundo atrajo a los agentes municipales, los arquitectos urbanos por ese bárbaro que no le servía a nadie supieron que yo era una cascara vacía, se dieron cuenta que yo ya no servía. Aquel vago dijo que dos grandes torres se habían caído de forma casi cronométrica. Balbuceaba que la operación había sido perfecta, que ordenadamente esos dos gigantes que estaban en Nueva York se habían ido apilando uno sobre el otro. Dijo que era el infierno, que se había desatado el apocalipsis, que no era más que el comienzo del final, que qué bueno que tenía frío, que qué bueno que nadie lo ayudaría que sabía que iba morir, pero que morir era lo que prefería a la barbarie que después iba a desatarse. Yo quiero caer así, como esas dos torres, yo quiero fundirme así y estoicamente darle paso a otra época, sin alaridos, sin lloriqueos porque hace tantos años que en realidad ya estoy muerta. Casa B. Primero, la Iglesia de tu derecha puede decir lo que le venga en gana. Acaso a ella le importaron los vagos que a mi me habitaron? Esos desgraciados llegaban a las puertas pidiendo cobijo y que era lo que decía el señor padre? Esta es la casa de Dios pero no es un auspicio y los corría, así hiciera frío, así se escucharan mas sus tripas hambrientas que su voz agónica. Esos minusválidos mentales como los han catalogado los oficinistas de la municipalidad, me han dado vida, me han hecho un ser con fiesta entre sus entrañas, yo agarro sol para repartirlo entre mis escaleras, entre mis estancias desgastadas por el tiempo. Los cobijo y entre ellos se calientan. He podido mantenerme gracias a los pequeños cuidados que esos infelices me han prodigado. Mi drenaje aun esta funcionando y no se diga de mi caldera, mis pisos algo sucios no puedo negarlo se han mantenido sin grandes grietas por puro agradecimiento. Yo he aprendido mucho