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Formação para prestadores de suporte interpares: manual do participante

Ana Rita Sousa,Filipa Campos,António Marques,Cristina Queirós

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FORMAÇÃO PARA PRESTADORES DE SUPORTE INTERPARES 2015 Manual do Participante 2 Ficha Técnica Título Formação para prestadores de suporte interpares: Manual do Participante Autores Ana Rita Sousa, MSc Filipa Campos, PhD António Marques, PhD Cristina Queirós, PhD Com a colaboração de: Associação Nova Aurora na Reabilitação e Reintegração Psicossocial - ANARP Instituto Nacional para a Reabilitação - INR Local Porto Data de Edição Dezembro de 2015 Design Gráfico XPTO Design Versão original Sousa, A. R., Campos, F., Marques, A. & Queirós, C. (2015). Formação para prestadores de suporte interpares: Manual do Participante. Porto: Laboratório de Reabilitação Psicossocial da FPCEUP/ ESTSPIPP. Publicado por Laboratório de Reabilitação Psicossocial Universidade do Porto/Instituto Politécnico do Porto Rua Alfredo Allen, s/n 4200-135 Porto, Portugal www.labrp.com ISBN 978-989-97744-7-6 3 Índice 1. Introdução 2. Descrição das sessões 2.1. Sessão 1 – Sessão Introdutória 2.2. Sessão 2 – Introdução ao Suporte Interpares 2.3.Sessão 3 – Recovery 2.4. Sessão 4 – Caminhos para a mudança 2.5. Sessão 5 – Advocacy e Empowerment 2.6. Sessão 6 – Prevenção da Crise e Resolução de Problemas 2.7. Sessão 7 – Competências de Comunicação e Escuta Ativa – Parte I 2.8. Sessão 8 – Competências de Comunicação e Escuta Ativa – Parte II 2.9. Sessão 9 – Estigma e discriminação na doença mental 2.10.Sessão 10 – Reforma na saúde mental, ética e direitos dos utentes 2.11. Sessão 11 – Empregabilidade 2.12. Sessão 12 – Balanço Final e Avaliação da Formação 3. Referências bibliográficas 4 Introdução 1 5 O suporte interpares é uma prática em crescente evolução no âmbito da doença mental e que pode ser definida como um “sistema de dar e receber ajuda baseado em princípios como o respeito, o sentido de responsabilidade e acordo mútuo sobre aquilo que é benéfico” (Mead, Hilton & Curtis, 2001, p. 135). Gartner e Riessman (1982) e Solomon (2004) definiram o suporte interpares como o suporte social e emocional, frequentemente associado a um suporte instrumental, fornecido ou prestado por pessoas com experiência de doença mental, a outras pessoas que vivenciam condições psiquiátricas similares, tendo como objetivo potenciar mudanças pessoais e sociais desejadas. A prática de suporte interpares é aceite e reconhecida para outras condições de que são exemplo, o abuso de substâncias, cancro, trauma e HIV. Contudo, no que respeita à doença mental esta prática encontra-se ainda em consolidação e expansão (Davidson, Chinman, Sells & Rowe, 2006). A nível internacional tem aumentado a contratação de utentes enquanto prestadores de suporte interpares por entidades de reabilitação psicossocial e saúde mental, sendo notório o progressivo desenvolvimento de programas de formação para prestadores deste tipo de serviços (Moll, Holmes, Geronimo & Sherman, 2009). Importa salientar que a criação de programas de formação assumese como um aspeto nuclear na padronização dos valores, competências e conhecimentos para que os prestadores de suporte interpares possam desempenhar as suas funções de forma adequada em prol do recovery dos seus pares (Repper & Carter, 2010; Woodhouse & Vincent, 2006). Os programas de formação são concebidos para preparar os prestadores de suporte para um serviço específico ou para o contexto organizacional (Repper & Carter, 2010) e desempenham ainda um papel central na formalização da prática de suporte interpares (Mental Health Foundation, 2012). Assim, considerou-se pertinente a criação de um manual que permita capacitar pessoas com experiência de doença mental para desempenharem a função de prestadores de suporte interpares, contribuindo, consequentemente, para a implementação desta prática em Portugal. A criação deste manual resultou de uma revisão da literatura referente a programas de formação para prestadores de suporte interpares e da informação recolhida através de um questionário online realizado a profissionais de saúde mental, pares especialistas e utentes de países como o Reino Unido, Estados Unidos da América e Portugal. Num primeiro momento procedeu-se à organização e análise de 49 programas de formação para prestadores de suporte interpares, o que permitiu a determinação preliminar de um conjunto de linhas orientadoras para o programa de formação: conteúdos abordados, duração, número de participantes, critérios de elegibilidade, certificação da formação e supervisão. Num segundo momento, através do questionário online, recolheu-se a opinião de 41 especialistas em suporte interpares (a nível nacional e internacional) sobre as orientações preliminares que determinamos para este programa, com base na revisão da literatura, no sentido de obter uma melhor evidência para o desenho do programa de formação e supervisão para prestadores de suporte interpares e consequentemente melhor eficiência na sua aplicação. Como resultado destas duas fases foi então concebido este manual, cuja estrutura contempla a apresentação dos seus objetivos, destinatários, orientações, conteúdos a abordar, avaliação da formação e metodologias, bem como a descrição pormenorizada das sessões. Este manual inclui ainda orientações de apoio ao formador para a implementação do programa de formação e materiais teóricos e práticos de suporte a cada sessão de formação. 6 1.1. Objetivos A formação para prestadores de suporte interpares pretende: • Preparar os prestadores de suporte interpares para a prestação deste serviço a pessoas com condições psiquiátricas similares. • Potenciar as competências dos pares enquanto prestadores de um serviço orientado para o recovery de outros índividuos. • Potenciar as competências dos prestadores de suporte interpares e utilizar o seu potencial único devido à experiência vivida. • Promover uma prática formalizada e acreditada. • Preparar os prestadores de suporte interpares para o trabalho em equipa com os profissionais de saúde mental, no sistema de saúde mental português. 1.2. Destinatários Esta formação destina-se a pessoas com experiência de doença mental, clinicamente estáveis, que se sintam motivadas para o desempenho de funções como prestadores de suporte através da sua história de recuperação pessoal. Todos os participantes serão submetidos a um rigoroso processo de candidatura e seleção. 1.3. Orientações A formação deve ser organizada de acordo com as seguintes orientações gerais, eventualmente ajustadas de acordo com as características do grupo e da organização onde se concretizará: • Duração total da formação: 36h, num total de 12 sessões • Duração de cada sessão: 180 minutos • Frequência: 3 vezes por semana • Participantes: entre 5 a 8 elementos 1.4. Conteúdos Sessão 1. Sessão Introdutória Sessão 2. Introdução ao Suporte Interpares Sessão 3. Recovery1 Sessão 4. Caminhos para a mudança Sessão 5. Advocacy e Empowerment Sessão 6. Prevenção da Crise e Resolução de Problemas Sessão 7. Competências de Comunicação e Escuta Ativa – Parte I 1 Importa referir que ao longo de todo o manual serão mobilizados alguns conceitos com terminologia inglesa (nomeadamente: recovery, advocacy e empowerment) uma vez que a sua tradução para a Língua Portuguesa é utilizada com menor frequência 7 Sessão 8. Competências de Comunicação e Escuta Ativa – Parte II Sessão 9. Estigma e discriminação na doença mental Sessão 10. Reforma na saúde mental, ética e direitos dos utentes Sessão 11. Empregabilidade Sessão 12. Balanço final e avaliação da formação 1.5. Avaliação O desempenho durante a formação é avaliado através de uma avaliação ongoing que inclui dimensões relacionadas com assiduidade, pontualidade e participação na formação, assim como a realização de um role play que simule o desempenho de funções e a elaboração de um trabalho de grupo. 1.6. Metodologias A formação é realizada em regime presencial, intercalado com trabalhos de casa. Os trabalhos de casa consistem em exercícios práticos que permitam a consolidação e assimilação dos conteúdos abordados em cada sessão. No início de cada sessão o formador deve proceder ao esclarecimento de dúvidas e à partilha dos exercícios realizados em trabalho de casa. As sessões são lecionadas recorrendo, especialmente, a metodologias demonstrativas (demonstração/simulação de comportamentos) e metodologias ativas (trabalho de grupo, estudos de caso, resolução de problemas). 8 Descrição das sessões 2 9 1 Serão seguidamente descritas as 12 sessões do programa, apresentando para cada uma os objetivos, o guia do material, as fichas de trabalho correspondentes aos exercícios e o material de apoio detalhado. 2.1. Sessão 1 Sessão Introdutória 2.1.1. Objetivos • Apresentação dos conteúdos, objetivos e linhas orientadoras da formação • Apresentação dos elementos do grupo • Discussão sobre as expetativas e receios de cada um relativamente à formação • Estabelecimento de objetivos pessoais e para o grupo 2.1.2. Guia do material Informação Teórica: Sessão Introdutória Exercício 1 – Conhecer o Grupo Exercício 2 – Expectativas pessoais 2.1.3. Fichas de trabalho 16 2.2.4. Trabalho de casa • Revisão de conteúdos aprendidos • Criação de uma listagem de serviços de suporte interpares existentes noutros países e reflexão sobre as vantagens desta prática 1. Indique, colocando um X na coluna SIM que intervenções são inerentes ao suporte interpares. Sempre que colocar um X na coluna NÃO, indique quem seria o responsável por prestar essa intervenção ou serviço. Função Sim Não Quem faz? Advocacy individual Atividades sociais Diagnóstico Grupo de suporte Intervenções clínicas Prática focada no recovery Prescrição de medicação Relações mútuas e recíprocas Suporte após a crise Suporte emocional e Prático Técnico de referência Terapia cognitivo-comportamental 2. Contacto com serviços de suporte interpares noutros países (através de pesquisa) e posterior criação de uma listagem de locais onde existem serviços de suporte interpares. Reflexão sobre as vantagens desta prática comparativamente com as outras práticas utilizadas na reabilitação de pessoas com experiência de doença mental. 17 Material adicional: http://aeips.pt/novo2009/wp-content/uploads/2009/07/interpares1.pdf http://aeips.pt/novo2009/wp-content/uploads/2009/07/interpares3.pdf http://www.aeips.pt/wp-content/uploads/2010/02/interpares4_NET.pdf http://www.aeips.pt/wp-content/uploads/2011/10/interpares5_NET.pdf http://www.centreformentalhealth.org.uk/recovery/peer_workers.aspx 2.2.5. Material É seguidamente apresentada informação teórica sobre o suporte interpares, sobre os princípios base desta prática, sobre os pares especialistas, nomeadamente no que se refere ao seu desempenho de funções e para finalizar será abordado o modelo de Egan. Suporte Interpares No início dos anos 90, nos Estados Unidos da América e decorrente da reforma dos serviços de saúde mental, teve inicio um movimento organizado por utentes que começou a dar ênfase a conceitos como a escolha e inclusão dos utentes na administração, prestação e avaliação dos serviços de saúde mental. O suporte interpares surgiu deste movimento de consumidores (Substance Abuse and Mental Health Services Administration, 2011a). O suporte interpares refere-se ao apoio mútuo que é prestado por pessoas em situações similares e que conseguiram ultrapassar essas adversidades. Baseia-se na premissa de que pessoas que ultrapassaram situações adversas podem oferecer suporte, motivação e esperança a outros que enfrentam situações idênticas, o que permite uma validação mais autêntica e empática (Repper & Carter, 2010). O suporte interpares caracteriza-se ainda por ser um modelo promotor de bemestar, com foco no recovery e nas competências/pontos forte de cada indivíduo. As competências e pontos fortes da pessoa são suportados, em detrimento de modelos que enfatizam a doença e os sintomas (Repper & Carter, 2010). Assim, podemos considerar as seguintes definições para o suporte interpares: • “um sistema de dar e receber ajuda baseado em princípios como o respeito, o sentido de responsabilidade e acordo mútuo sobre aquilo que é benéfico”(Mead et al., 2001, p. 135). • “suporte social e emocional, frequentemente associado a um suporte instrumental, que é fornecido ou prestado por pessoas com experiência de doença mental, a outras que vivenciam condições psiquiátricas similares, com o objetivo de potenciar mudanças pessoais e sociais desejadas”(Solomon, 2004, p. 393). Os serviços de suporte interpares são individualizados, orientados para o recovery, empowerment e bem-estar, sendo geralmente constituídos por atividades estruturadas para adultos com experiência de doença mental. Caracterizam-se por uma valorização da segurança pessoal, da confiança e do crescimento pessoal, procurando potenciar uma ligação à comunidade e um desenvolvimento de suporte social e competências de comunicação eficazes baseado no princípio da ajuda. Além disso, os serviços de suporte interpares focam-se na aquisição, desenvolvimento e expansão das competências necessárias para que a pessoa possa avançar no seu processo de recovery. Os serviços de suporte interpares constituem um meio de partilha de experiências e vontade para alterar padrões disfuncionais, ultrapassar as limitações e construir relacionamentos baseados no respeito e mutualidade (Repper & Carter, 2010). Como benefícios desta prática para os pares que 18 recebem suporte destaca-se uma diminuição das taxas de hospitalização, aumento da qualidade de vida, aumento da autoestima, diminuição do estigma, aumento do sentimento de esperança e da aceitação e compreensão da doença, melhoria no suporte social, aumento dos níveis de voluntariado, empregabilidade e habitação, melhoria na saúde física e aumento de realização de atividades recreativas. Contudo, sendo o suporte interpares um sistema bidirecional, o prestador deste serviço também beneficia com esta prática. A remuneração financeira, a realização e crescimento pessoal, o aumento da autoestima e confiança, o desenvolvimento de competências, o aumento do próprio potencial de recovery e da qualidade de vida são benefícios reportados para os prestadores deste tipo de suporte (Moll et al., 2009). Podem ser considerados três tipos de suporte interpares: • Informal - é um suporte que ocorre de forma natural e espontânea; o suporte é prestado em momentos não-estruturados, não-planeados mas que permitem estabelecer uma relação de apoio e suporte com os outros. Pode ocorrer a qualquer altura e em qualquer lugar. • Pares que participam em programas geridos por pares, conjuntamente com os serviços de saúde mental. • Pares que são contratados pelos serviços de saúde mental locais. Princípios Suporte Interpares Independentemente do tipo de suporte interpares prestado, a sua prática rege-se por princípios nucleares como: • Mutualidade – a experiência dos pares que prestam e recebem o suporte interpares é semelhante. • Reciprocidade – as relações entre os pares não são pautadas pela existência de um perito (profissional de saúde mental) e um não-perito (utente). As relações entre pares permitem a partilha e exploração de diferentes pontos de vista e o desenvolvimento de uma solução comum. • Não-diretividade – o suporte interpares não procura introduzir mais um conjunto de peritos e prescrições, e por outro lado, procura ajudar as pessoas a reconhecerem os seus próprios recursos e soluções. • Focado no recovery – o suporte interpares foca-se no recovery através da esperança, suportar os pares a retomar o controlo das suas vidas e facilitar o acesso a oportunidades. • Baseado nas forças de cada um – o suporte interpares explora aquilo que a pessoa ganhou com a sua experiência, procura as suas qualidades, identifica conquistas e celebra os pequenos passos de cada um. • Inclusivo – ser um par significa compreender o significado das suas experiências dentro da comunidade em que se está inserido. O suporte interpares fornece suporte sobre os recursos e possibilidades da comunidade, ajudando os seus pares a tornarem-se membros efetivos na sua comunidade. • Progressivo – o suporte interpares não é uma amizade estática mas sim um suporte mútuo constante e uma jornada partilhada. • Seguro – pode ser atingido através da partilha de regras, receios, demonstração de compaixão, autenticidade e uma atitude não-julgadora. 19 Pares Especialistas Os pares especialistas são pessoas com experiência de doença mental que receberam formação para trabalhar com outras pessoas com o diagnóstico de doença mental. A formação constitui uma parte significativa para o papel de prestador de suporte interpares, mas o critério mais importante é a experiência de doença mental. A formação é concebida para transformar esta experiência numa forma única de prestar um serviço e auxiliar os seus pares a alcançar o recovery. A experiência proporcionada por esta formação irá permitir saber como ajudar os outros a fazerem as suas próprias escolhas e a descobrirem o seu caminho para o recovery, salientando-se que este é um caminho único. Os pares especialistas podem prestar os seus serviços em contexto de internamento, ambulatório ou comunitário. O suporte interpares inclui todas atividades/ações que ajudem a melhorar a qualidade de vida e potenciar o processo de recovery de outro par, ajudar a lidar com situações da vida diária e a estabelecer e atingir metas. Assim, alguns dos serviços prestados por pares especialistas incluem: • Autoajuda e Apoio Mútuo: procura potenciar a capacidade para fazer escolhas independentes e informadas, ajudando os pares a estabelecer uma rede de contactos para informações e apoio. • Modelo e mentor: funciona como modelo para os outros pares devido à sua experiência e processo de recovery, fornecendo educação sobre o recovery. • Mentor na resolução de problemas: ajuda os pares a refletir e a procurar resolver os obstáculos pessoais e ambientais do processo de recovery. • Advocacia individual: auxiliar os pares a perceber que conhecer os seus direitos, responsabilidades e obrigações assim como incentivar os pares a desempenharem um papel proactivo no sistema de saúde para melhorar a qualidade dos cuidados prestados. Por solicitação da pessoa, discutir as suas preocupações sobre algum profissional de saúde e ajudar na procura da solução mais adequada. • Suporte após a crise: ajudar os pares a desenvolverem um plano de crise e a envolverem-se na delineação do seu plano individual de reabilitação, bem como dar feedback e estratégias sobre sinais precoces de recaída e como prever uma crise. • Habitação: ajudar os colegas a aprender a manter estabilidade na sua habitação sendo capaz de pagar as suas contas, de limpar, respeitar a privacidade e direitos dos outros. • Educação/emprego: auxiliar os pares na procura de informação sobre como voltar à escola, fazer formação ou procurar emprego. • Atividades sociais: assistir os colegas para encontrarem atividades sociais significativas, acessíveis e que possam ser feitas na comunidade. Pares Especialistas • Focam-se na experiência vivida de doença mental • Fornecem suporte emocional e prático • Estabelecem relações mútuas e recíprocas • Suportam os seus pares durante as adversidades • Mantêm a esperança, aspirações • Suportam os pares no seu processo de recovery 20 • Co-facilitam grupos/cursos • Inspiram os seus pares • Ouvem os seus pares sobre as suas dificuldades e sobre como é ser um utente • Contribuem para manter a segurança • Influenciam uma prática focada no recovery em conjunto com a equipa Profissionais de Saúde Mental • Focam-se no conhecimento e competências aprendidas • Realizam uma avaliação dos problemas • Diagnosticam/formulam dificuldades • Fornecem intervenções clínicas, tratamento e supporte • Compreendem várias abordagens para trabalhar com a doença mental • Fornecem informação sobre o diagnóstico e tratamento • Avaliam e gerem o risco segundo uma perspectiva profissional • Asseguram que as responsabilidades legais são cumpridas • Gerem uma equipa/serviço • Fornecem uma supervisão da equipa e monitorização do desempenho • Suportam uma prática focada no recovery Modelo de Egan Segundo o Modelo de Ajuda de Egan existem três fase de durante o processo de ajuda (PBH Consumer Affairs and Network Management, 2011): Fase 1 Explorar o estado atual – nesta primeira fase o par espcecialista deve ajudar os seus pares identificar e clarificar as áreas problemáticas/dificuldades. Envolve ajudar a pesssoa a focar-se nas suas preocupações, falar sobre elas, sobre os seus sentimentos, experiências e comportamentos. Pressupõe ajudar a pessoa a desenvolver novas perspectivas/perspectivas alternativas dos seus problemas. Tem como objetivo ajudar as pessoas a tornarem-se mais objetivas sobre os seus problemas e/ou situação. Fase 2 Desenvolver um cenário ideal – durante a segunda fase, o par especilista ajuda as pessoas a desenvolverem uma visão mais positiva e auxilia no planemanto das mudanças necessárias.O par especialista suporta o seu par no estabelecimento de objetivos realistas e promotores de mudança e, concomitante, as ações para os atingir. Fase 3 Formular as estratégias e planos - nesta fase, o prestador de suporte inetrpares ajuda a pessoa a identificar/organizar um conjunto de abordagens para alcançar os obejtivos delineados anteriormente e depois auxilia durante o desenvolvimento de um plano sólido de ação, que seja realista em termos de recursos disponíveis. 21 3 2.3. Sessão 3 Recovery 2.3.1. Objetivos • Compreender o processo de recovery (definição, etapas, pressupostos) • Criação de objetivos de recovery • Utilização da história pessoal como ferramenta para o recovery 2.3.2. Guia do material Informação Teórica: Recovery; Função do Prestador de Suporte Interpares no Recovery; Etapas do Processo de Recovery; Utilização da História Pessoal como Ferramenta para o Recovery. Exercício 8 – Reflexão sobre o recovery Exercício 9 – Recovery, uma reflexão pessoal Exercício 10 – Objetivos de recovery Exercício 11 – A minha história de recuperação 2.3.3. Fichas de trabalho 22 Ficha de Trabalho Exercício 8 Reflexão sobre o Recovery 1. Para mim, o recovery é... 2. A sua definição de recovery é igual àquela que definiu há cinco anos atrás? Se não, quais considera serem os fatores para a mudança? Considera que houve uma mudança positiva? NOME DATA LOCAL FORMADOR 23 Ficha de Trabalho Exercício 9 Recovery uma reflexão pessoal 1. O princípio mais significativo para o meu processo individual de recovery é... Porque.... 2. Considera-se a si próprio(a) uma pessoa recuperada ou em processo de recuperação? 3. O que pensa que pode fazer para ajudar os seus pares a encontrar o caminho para a recuperação? NOME DATA LOCAL FORMADOR 24 Visualização do vídeo: “Seguir em Frente – Vencendo a esquizofrenia” https://www.youtube.com/ watch?v=16q6NbbeeoY 4. Analisando, o testemunho que foi apresentado, consegue identificar quais foram os princípios orientadores, os aspetos facilitadores e barreiras do processo? 5. Os seus caminhos para a recuperação quais são? Pensa que são os mesmos dos seus colegas? Porquê? Qual a diferença? 6. Identifique algumas situações que poderão condicionar o seu processo de recovery. 25 Ficha de Trabalho Exercício 11 A minha história de recuperação 1. Leitura e discussão/exploração em grupo do testemunho apresentado. História da Sharon “Os meus desafios psiquiátricos começaram quando era muito nova e depois de um trauma familiar significativo. Lembro-me de ser uma criança muito ansiosa e isto marcou significativamente a minha infância e adolescência. Aos 18 anos de idade saí de casa e juntei-me com o meu companheiro; a minha ansiedade piorou e comecei a ter graves ataques de pânico, fobia social e agorafobia. A relação foi muito difícil e eu sofri de violência doméstica durante muitos anos, temendo pela minha vida durante sete anos. Mesmo a tarefa mais simples tornou-se uma grande dificuldade e isto limitou a minha capacidade de usufruir a vida ao máximo. O trabalho era o meu porto seguro e, de alguma forma, eu consegui manter o meu trabalho na área da saúde mental e assistir pessoas que enfrentavam desafios semelhantes. Contudo, outras áreas da minha vida tornaramse muito desafiantes e, por vezes, isso levou-me ao desespero. A vida foi passando por mim e eu não tinha confiança ou esperança nem em mim nem nas minhas capacidades, e apenas sonhava de fazer formação na área da saúde mental. Estava tão preocupada que os meus gerentes e colegas descobrissem os meus problemas que decidi não procurar ajuda profissional. Como é que poderia pedir ajuda à equipa que me iria oferecer suporte? Felizmente, esta relação terminou e eu estava fisicamente bem. Tentei recomeçar a minha vida. Durante os próximos meses teria que gerir a minha vida sozinha, algo que nunca tinha feito antes, bem como provar ao gerente do banco que ia ser capaz de pagar a minha renda, apesar de ser uma renda baixa. Também teria que passar as noites sozinha com ansiedade e ataques de pânico. Comecei a ler sobre ansiedade e a aprender estratégias para lidar com os meus ataques de pânico incapacitantes. Trabalhei em três empregos, e aos poucos a minha confiança começou a crescer. Entretanto, casei-me novamente com um homem maravilhoso que acreditou em mim e encorajou-me com o meu sonho de me formar. Comecei a formação após o nascimento do meu filho. O nascimento do meu filho fezme perceber que tinha que cumprir os meus objetivos e desafios, pois não podia deixar que ele crescesse a assistir ao meu desespero. Uma colega de trabalho partilhou comigo os seus próprios desafios e eu fiquei admirada de como alguém que eu admirava também experienciava as mesmas dificuldades e desafios. Ela encorajoume a procurar apoio de outros serviços e continuar a desenvolver as minhas próprias estratégias de NOME DATA LOCAL FORMADOR 32 Função do prestador de suporte interpares no recovery Enquanto par especialista de suporte interpares, uma das tarefas inclui a facilitação do diálogo com a pessoa a quem está a fornecer apoio para que esta consiga criar a sua própria definição de recuperação e bem-estar. Importa salientar que para podermos ajudar os nossos pares devemos ser capazes de definir, entender e ter presente o conceito de recuperação para nós próprios. Os prestadores de suporte interpares podem prestar apoio ao longo das várias dimensões do processo de recuperação: • Esperança em relação ao futuro • Autodeterminação • Adoção de estilos de vida saudáveis • Autogestão dos sintomas e estratégias de coping • Diminuição do estigma • Suporte para (re)stabelecer as redes de suporte social • Suporte para (re)stabelecer objetivos pessoais • Incentivo e motivação durante a recuperação • Ajuda para readquirir papéis sociais valorizados e exercer a cidadania Os prestadores de suporte interpares podem ainda suportar e auxiliar os seus pares na construção de objetivos de recovery. Estes objetivos podem ser os sonhos, aspirações e metas dos indivíduos, influenciados pela sua personalidade e valores e sendo únicos e idiossincráticos. São baseados naquilo que a pessoa deseja, em detrimento daquilo que a pessoa quer abolir. São baseados nas forças individuais e reforçam a aquisição de uma atitude positiva e requerem que o indivíduo assuma a responsabilidade de os cumprir e pôr em prática. Por outras palavras, os objetivos de recuperação são estabelecidos pelo utente e são sonhos com prazo para ser cumprido. Ajudar um par a estabelecer objetivos realistas é uma etapa importante do processo de ajuda, pois os objetivos fornecem um sentido de direção para a ação que encoraja o par a pensar e estabelecer estratégias para os alcançar. A criação de objetivos envolve também avaliar se os objetivos criados são coerentes com os valores dos pares. Existem algumas questões que o par pode fazer para orientar a criação de objetivos: • “Como é que este problema/situação poderia estar se o estivesse a gerir de outra forma?” • “Que padrões de comportamento devem ser eliminados?” • “Que novos padrões de comportamento iriam ajudar a ultrapassar este problema?” • “Como é que esta oportunidade iria ser se a desenvolvesse?” • “O que necessita para obter as mudanças que deseja?” É importante ainda orientar os pares a criar objetivos que possam ser estabelecidos em termos concretos e específicos. Em alguns casos é benéfico criar um objetivo a longo-prazo e objetivos mais específicos designados por objetivos a curto-prazo. Como par especialista, é importante ajudar os pares a avaliar se os seus objetivos são exequíveis tendo em conta os seus recursos. 33 Etapas do processo de recovery Podem ser consideradas quatro etapas ou estádios no processo de recuperação individual: Estádio 1 Estádio 2 Estádio 3 Estádio 4 • Não identifica as suas necessidades pessoais • Pode não aceitar o diagnóstico • Pode ter perdido contacto com colegas • Falta de autoestima e autoconsciência • Os sintomas, tratamento e estigma podem interferir com a motivação • Pode ter conhecimento limitado quanto aos recursos de suporte e médicos • Pode experimentar conflito cultural e espiritual • Pode sentir-se impotente e sem esperança • Pode evitar o contacto com os outros • Define necessidades pessoais • Recupera o sentimento de esperança e torna-se consciente dos problemas de autoestima • Compreende a importância de manter o equilíbrio e bem-estar na vida • Começa a utilizar o modelo de autoconfiança • Desenvolve competências no seu dia-a-dia • Participa em grupos suporte • Aprende a desenvolver relacionamentos • Torna-se consciente da sua relação com a comunidade • Torna-se consciente da necessidade de se monitorizar • Assume a responsabilidade de gerir a própria vida e doença • Dá suporte aos outros • Usa suporte interpares como parte da sua rede de suporte • Está consciente das opções de serviços, tratamento e recursos • Faz escolhas de forma independente • Obtém e usa recursos, suporte e serviços • Começa a usar a prevenção de recaída • Começa a dar valor a si mesmo como um indivíduo único com pontos fortes e metas alcançáveis • Razoavelmente autoconfiante e com valorização pessoal • Monitoriza a sua doença, sintomas, medicamentos e identifica as suas necessidades aos médicos • Cultiva relações recíprocas • Participa na comunidade • Disposto e pronto para retribuir à comunidade • Serve como modelo para outros • Defende os seus direitos e os dos outros • Gere o seu stress • Partilha estratégias de coping com outros utilizadores e profissionais • Reconhece e sente valor próprio como uma pessoa completa e membro colaborador da sociedade Utilização da história pessoal como ferramenta para o recovery A partilha das histórias pessoais de recuperação pode ter um impacto positivo no outro, aumentando o sentimento de esperança e acreditando que a recuperação é possível. A partilha de experiências permite também que a pessoa que escuta compreenda as experiências vivenciadas pelo outro e, por vezes, se reveja na sua perspetiva. 34 2.4. Sessão 4 Caminhos para a mudança 2.4.1. Objetivos • Compreender os fatores essenciais para promover a mudança • Listar razões para não mudar • Identificar uma área de insatisfação e listar razões para mudar • Compreender a importância da motivação no processo de mudança 2.4.2. Guia do material Informação Teórica: Mudança: Papel do Prestador de Suporte Interpares na Mudança. Exercício 12 – A minha experiência pessoal na mudança Exercício 13 – O prestador de suporte interpares e a mudança Exercício 14 – O processo de mudança Exercício 15 – A Motivação 2.4.3. Fichas de trabalho 4 35 Ficha de trabalho Exercício 12 A minha experiência pessoal na mudança Sem pensar muito, deve escrever algumas palavras relacionadas com os conceitos anteriormente descritos e a sua experiência pessoal. NOME DATA LOCAL FORMADOR 36 Ficha de trabalho Exercício 14 O Processo de Mudança Primeiro: Quais as três áreas da sua vida com que está mais satisfeito? Aqui estão alguns exemplos: A minha aparência física... O apoio que sinto da minha família... 1. 2. 3. Segundo: Escolha uma área de vida com a qual se sente insatisfeito e responda às perguntas abaixo. 1. Numa uma escala de 1 (menos insatisfeito) a 10 (mais insatisfeito), avalie o grau de insatisfação nessa área e marque o valor com uma cruz por cima do número: 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 2. Identifique em que aspetos que gostaria de trabalhar: NOME DATA LOCAL FORMADOR 37 3. Quais são os benefícios em fazer essa mudança? 4. Quais as principais dificuldades que pode encontrar? 5. Como é que a sua rede de suporte o pode ajudar? 38 Ficha de Trabalho Exercício 15 A Motivação l. O que o motivou no início do seu processo de reabilitação? 2. O que o motiva no seu dia a dia? NOME DATA LOCAL FORMADOR 39 2.4.4. Trabalho de casa • Reflexão sobre a sua história pessoal interligando os conceitos abordados (motivação e mudança) 1. Refira 3 razões para alguém não querer mudar: 2. Refira 3 formas de ajudar essa pessoa a mudar: 3. Quais os benefícios de fazer uma mudança? 4. O que entende por motivação? 2.4.5. Material É seguidamente apresentada informação teórica sobre a mudança e o papel do prestador de suporte interpares neste processo enquanto prestador de um serviço. A Mudança É importante conhecer e aceitar as pessoas como elas são. O especialista de suporte interpares vai trabalhar com pessoas que estão a tentar fazer grandes mudanças na sua vida, mas a mudança pode ser difícil e todos nós resistimos a algumas mudanças em determinados momentos. Ora, o processo de recuperação requer mudança em muitos aspetos da vida do indivíduo. Além disso, é importante lembrar que a recaída faz parte do processo de recuperação. Assim, o especialista de suporte interpares deve ajudar o indivíduo a explorar o que funcionou e não funcionou no seu passado para identificar áreas de mudança. É também importante refletir sobre a previsão de mudança. Como especialista de suporte interpares, é importante perceber o que a pessoa sente sobre as mudanças que prevê fazer na sua vida, sendo algumas dessas áreas (Marques & Queirós, 2012): • Necessidade de mudança – evidenciada por um insucesso ou insatisfação em condições específicas de vida tais como aprendizagem, trabalho ou a nível social. • Compromisso de mudança – evidenciado por uma crença de que a mudança é, pessoalmente, desejada e possível. 40 • Consciência do ambiente que a rodeia – evidenciada por um conhecimento das diferentes características e tipos de ambientes de vida, aprendizagem, trabalho e/ou sociais, nos quais a pessoa pode desejar aumentar o seu sucesso e satisfação. • Autoconhecimento – evidenciado por uma consciência dos próprios valores e interesses relevantes para um ambiente particular. • Proximidade pessoal – evidenciada por uma relação pessoal com alguém que apoia a reabilitação. O papel do prestador de suporte interpares na mudança Algumas pessoas podem ser resistentes a mudar, existindo algumas razões pelas quais as pessoas podem não querer mudar, nomeadamente: • Não considera que precisa mudar • Não acredita que a mudança é boa • Não acredita que a mudança é possível • Não acredita que a mudança será suportada por pessoas significativas para si • Não conhece todas as possibilidades possíveis para si • Não sabe quais são os seus valores, interesses, do que gosta e do que não gosta • Não está disposto a comprometer-se numa relação de apoio Como prestador de suporte interpares, pode: • Contar a sua história • Modelar • Reforçar positivamente as mudanças que já fez até agora ou o esforço que está a fazer • Valorizar as características positivas da pessoa • Construir confiança Motivação Após a pessoa identificar o que quer mudar na sua vida é essencial que tenha motivação para a mudança, sabendo que a motivação: • É uma força e energia que nos impulsiona na direção de alguma coisa, de forma intrínseca. • Está dentro de nós, nasce de nossas necessidades interiores (processo de desenvolver uma atividade pelo prazer que ela mesma proporciona). • Está associada a desejos, aspirações e necessidades que influenciam a escolha de alternativas, determinando o comportamento do indivíduo. • É o processo de mobilização de energia. Devem ser consideradas algumas técnicas e princípios da motivação, nomeadamente: • A aprendizagem cooperativa é percebida como mais motivante e interessante do que a aprendizagem individualista. • A organização flexível de um grupo aumenta a motivação intrínseca do grupo. • As tarefas criativas aumentam o nível de motivação, por oposição às repetitivas. • Conhecer as causas do êxito ou do fracasso de uma tarefa aumenta a motivação. • O reconhecimento do sucesso é bastante motivador. • O registo dos progressos aumenta a motivaçãointrínseca. • Começar a realizar uma tarefa pelas atividades mais fáceis pode ser motivador porque faz com promova êxito nas atividades seguintes. 41 2.5. Sessão 5 Advocacy e Empowerment 2.5.1. Objetivos • Familiarização com os conceitos de advocacy e empowerment • Aplicação em situações práticas e enquanto prestadores de suporte interpares 2.5.2. Guia do material Informação Teórica: O que é o advocacy? O que é o empowerment? Exercício 16 – O que é o advocacy? Exercício 17 - O que é o empowerment? Exercício 18 - Como transmitir empowerment aos pares 2.5.3. Fichas de trabalho 5 48 2.5.5. Material É seguidamente apresentada informação teórica sobre em que o advocacy e o paradigma do empowerment. O que é o advocacy? Advocacy ou advocacia significa – dar voz a…, defender ou apoiar uma causa, ou falar a favor do outro. No âmbito da saúde mental, a defesa dos direitos dos consumidores designa-se por advocacy (advocacia) e tem como principal objetivo combater a discriminação de que são alvo as pessoas com experiência de doença mental. A maior parte das pessoas que experienciam uma doença mental e que utilizam os sistemas de saúde mental sentem-se poucos ouvidos, sentem que as suas vontades são ignoradas e por vezes, sentem-se discriminados por não terem acesso às oportunidades que gostariam. Neste sentido, a advocacia pode ajudar os utentes a suprirem as suas necessidades, a mudar a sua frustração e energias para outros aspetos e aprender novas competências em diferentes áreas. A advocacia é então um processo de apoio e capacitação das pessoas com doença mental que lhes permite: • expressar as suas opiniões e preocupações • ter acesso a informação • defender e promover os seus direitos e responsabilidades • explorar as suas escolhas e opções Podem ser considerados os seguintes tipos de advocacia: • Advocacia individual: consiste no processo de comunicar e atender às necessidades, desejos e problemas de uma pessoa. Pode ser feito pela pessoa ou pelos pares, amigos, familiares. • Sistemas de advocacia: lida com as práticas da mudança, políticas, sistemas e leis que afetam um grupo de pessoas, tendo como exemplos os grupos de utentes, grupos de ajudamútua ou conselhos de utentes das instituições. • Advocacia formal: consiste em organizações de voluntários que têm vindo a desenvolver serviços para a defesa dos direitos dos utentes. São serviços contratados durante curta duração, não fornecendo suporte a longo prazo. • Advocacia de cidadãos: permite juntar pessoas com experiência de doença mental a pessoas da comunidade, com o objetivo de apoiarem as pessoas mais vulneráveis no desempenho de um papel mais ativo na comunidade. • Advocacia jurídica: refere-se a pessoas com formação específica, como por exemplo, os advogados, permitindo representar a pessoa em contextos formais. • Advocacia tendo em vista os superiores interesses: ocorre quando o defensor representa aqueles que considera serem os desejos da pessoa caso tivesse capacidade para se exprimir. Apesar dos vários tipos de advocacia, existem tópicos comuns salientando-se que os indivíduos devem: • decidir o que querem/quais os seus objetivos • reunir aquilo que querem mudar 49 • criar a sua estratégia • reunir apoio • ser firme e persistente • manter a credibilidade Nesta sessão aprofunda-se a auto-advocacia, a advocacia de pares e os sistemas de advocacia, considerando-se que são os tipos de advocacia mais relacionados com a prática de suporte interpares. Auto-advocacia Consiste em expressar as suas próprias necessidades no sentido de as ver supridas, assim como expressar descontentamento quando se enfrenta uma situação que não corresponde às expectativas e reivindicar os seus direitos. Implica mostrar o seu ponto de vista claramente para terceiros. Saliente-se que este processo não precisa de ser feito só pela pessoa, pois os pares especialistas podem fornecer orientação e suporte aos seus pares na defesa pelos seus direitos. Consiste em decidir o que se quer, o que quer mudar e comunicar as alterações de forma efetiva e eficaz para ser bem-sucedido e alcançar os objetivos pretendidos. Algumas etapas podem ajudar durante este processo, nomeadamente preparar o caso, apresentar o caso e fazer o follow-up: Prepare o seu caso: 1. Identificar o problema – tente responder a perguntas como: “o que quero mudar?”, “como é que este assunto me afeta? E aos outros?”, “que soluções ou resultados iriam ser satisfatórios para mim?”; 2. Pesquise sobre o assunto – a pesquisa pode ajudar a clarificar o seu problema, a formular questões importantes ou fornecer informação para enriquecer o seu caso. 3. Estimule o seu pensamento – seja capaz de explicar o seu ponto de vista e as soluções que pretende de forma breve e concisa, focando-se nos fatos e não nos sentimentos. 4. Faça um plano de ação – após ter analisado o seu problema e ter encontrado as soluções que melhor o satisfazem, deve criar um plano de ação que implique: Decidir se é apenas um assunto ou vários. No caso de serem vários assuntos deve priorizar. Decidir quem deve abordar, e geralmente será a pessoa mais relacionada com o seu problema. Decidir qual a melhor forma de apresentar o seu problema. Qual considera ser a abordagem mais adequada e aquela em que se sente mais confortável para expressar os seus problemas? Pessoalmente, por telefone, por escrito. Se decidir utilizar uma abordagem presencial pode ajudar se escrever os tópicos a abordar durante a conversa. • Decidir que atitude irá tomar se a primeira pessoa que abordar não lhe fornecer uma solução para o seu problema. Irá contactar com o supervisor, com outro membro da equipa, com o diretor da organização? • Pensar naquilo que o outro lado tem a ganhar com a resolução do seu problema e como expressar isso de uma forma positiva. • Escrever o seu plano de ação e todas as ações que tomar. 50 Apresente o seu caso: após ter delineado o seu plano de ação pode apresentar o seu caso. Contudo, lembre-se que a forma como expressa o problema e a solução desejada pode ter um grande impacto, seja educado, calmo e assertivo, certifique-se que a sua posição fica clara. Follow–up: se não atingir os seus objetivos nas fases descritas anteriormente deve manter-se em contacto com a pessoa a quem expôs o seu problema. Advocacia de Pares Este tipo de advocacia é feito por um par em nome de alguém ou em conjunto com outro par. O seu papel é trabalhar com as pessoas para garantir que os seus desejos e necessidades são expressos de forma eficaz, no sentido de se obter um resultado satisfatório. Os pares devem apresentar formação em competências de advocacia e dominar regras, leis e políticas dos sistemas de saúde mental, serviços sociais, segurança social, entre outros. Além disso, os pares devem recorrer-se da sua experiência pessoal e demonstrar empatia e compreensão pelos pares com quem trabalham. Um par que presta serviços de advocacia tem como funções: • ouvir cuidadosamente as preocupações dos seus pares. • explicar os possíveis métodos de ação e as suas consequências. • trabalhar com a pessoa no desenho do seu plano de ação. • assegurar que a pessoa tem os recursos e a assistência necessários para expressar as suas preferências. • garantir que as preocupações da pessoa são ouvidas. • negociar em nome dos colegas. • entender o poder desempoderante da identidade de doença e trabalhar para assegurar que a pessoa tem os recursos, competências e confiança para expor os seus problemas. • ser sensível ao impacto da raça, género, orientação sexual, comprometimentos físicos, cultura, entre outros. • persistir nas preferências da pessoa no dentro dos trâmites legais. • reconhecer os limites das suas funções e, quando necessitar, solicitar ajuda. Um par que presta serviços de advocacia pode ser solicitado para situações como: • informar os pares sobre os seus direitos. • acompanhar e apoiar as pessoas nas reuniões de serviço. • negociar em nome dos colegas com a equipa, diretores, administrativos, prestadores de serviços. • ajudar as pessoas a apresentar queixas ou descontentamento e suportá-las ao longo do processo. • ajudar as pessoas a ter acesso e a rever os seus registos psiquiátricos. Sistemas de Advocacia Os sistemas de advocacia surgem quando é identificado um problema na estrutura de um sistema que afeta um grande número de pessoas. A organização dessas pessoas pode permitir mudar leis, políticas e práticas. Geralmente, a melhor abordagem é falar diretamente com o gestor ou oficiais do governo. Algumas das estratégias utilizadas podem passar por: • reuniões com gestores ou políticos. • reuniões com responsáveis do governo. • contacto através de cartas, fax, e-mails e campanhas. 51 • desenvolvimento e distribuição de panfletos. • participação em comités. • testemunhar em audições públicas. • realizar campanhas nos media. • organizar comícios e demonstrações. • assumir o problema através de meios judiciais. Em suma, os pares especialistas podem ter que ser defensores dos seus pares, no sentido de ajudar a solucionar os seus problemas. Contudo, existe uma formação específica para que os pares possam exercer advocacia de pares. Os pares prestadores de suporte interpares podem atuar como facilitadores e defensores em algumas situações, como por exemplo: • os pares manifestam vontade alterar o seu técnico de referencia. • os pares manifestam vontade de sair do hospital mas foi-lhe dito que ainda não estavam preparados. • os pares manifestam vontade alterar a medicação ou dosagem. • os pares querem encontrar uma habitação mas disseram que não havia nenhuma disponível • os pares tentam arranjar um trabalho mas sentem-se desconfortáveis com as questões sobre a sua história psiquiátrica. Em suma, a advocacia consiste em utilizar a voz de cada um para promover mudanças desejadas. No âmbito da saúde mental, na maioria das vezes, a advocacia permite enfatizar o acesso, utilização ou reclamações sobre os serviços de saúde mental e prestação de serviços. O que é o Empowerment? É um princípio muito importante para pessoas que experienciaram uma perda de controlo e de oportunidades de escolha. É sobre dar e receber poder, abrangendo componentes psicológicos, sociais, organizacionais e políticos. Encontra-se intrinsecamente relacionado com o conceito de participação e consiste em: ganhar ou recuperar o controlo da sua vida e sobre o seu futuro; acrescentar conhecimentos, capacidades e recursos. O conceito de empowerment encontra-se também relacionado com os conceitos de autodeterminação e autonomia, proporcionando ao indivíduo a tomada das suas próprias decisões sobre os serviços e tratamentos que lhe são prestados e sobre a sua vida. O empowerment pode ter uma base individual ou de grupo. O empowerment individual é um sentido de força pessoal e eficácia, com auto-direção e controlo sobre as direções afetas à sua vida. O empowerment de grupo significa que cada membro tem um papel ativo, real e significativo na gestão e tomada de decisão do programa. Para facilitar este processo, não devem existir hierarquias ou distinções entre a equipa e os membros. O empowerment pode ser potenciado por profissionais de saúde mental, pares e pelos próprios utentes, e pode ser promovido através de: • suporte no acesso a recursos de autogestão • suporte de serviços conduzidos por pares/utentes • testemunho de pessoas em recuperação, o que pode promover a capacitação e modelagem enquanto pessoas empoderadas e com competências de autogestão. • promoção da assertividade e reforçar comportamentos de empoderamento • valorização de uma forma positiva a experiência de doença mental 52 2.6. Sessão 6 Prevenção da crise e Resolução de Problemas 2.6.1. Objetivos • Estratégias para prevenção de crise • Desenvolvimento de estratégias e competências para a resolução de problemas 2.6.2. Guia do material Informação Teórica: Prevenção da Crise; Resolução de Problemas Exercício 19 – Prevenção da Crise: Sinais de Alerta Exercício 20 – Resolução de Problemas 2.6.3. Fichas de trabalho 6 53 Ficha de Trabalho Exercício 19 Prevenção da Crise: sinais de alerta Plano de Avaliação de Prevenção da Crise4 Nome: Data: _____/_____/___________ Este plano é desenvolvido por si e pela pessoa com contacta com mais frequência durante o dia (par, familiar, amigo). Tem como objetivo: • identificar as suas forças e realizar uma gestão de necessidades • orientar o seu sistema de suporte 1. Que situações me causam stress? 2. O que posso fazer para me ajudar nestas situações? 3. O quê que os outros podem fazer para me ajudar? 4 Adaptado de PBH Consumer Affairs and Network Management (2011) NOME DATA LOCAL FORMADOR 54 4. Quem pode ser uma mais-valia para mim? 5. Como é que sinto que estou a ficar stressado/entrar numa crise? O que é diferente do habitual? Quais são os meus pensamentos? Os meus sentimentos? O quê que eu faço? 6. Nesta situação? O que posso fazer para me aclamar? E como os outros me podem ajudar? Plano de Crise5 Descreve como se sente quando está bem. Quando me sinto bem eu... Os seguintes sintomas indicam que, neste momento, não estou capaz de tomar decisões conscientes nem sou capaz de ser responsável por mim. Quando estiver a ter os sintomas acima descritos necessito que as pessoas tomem decisões por mim, me forneçam tratamento apropriado, cuidados e suporte: 5 Adaptado de: PBH Consumer Affairs and Network Management(2011). 55 Eu não gostava que as seguintes pessoas estivessem envolvidas no meu tratamento. (Responda a esta questão caso se aplique ao seu caso). Medicações preferidas/aceites e porquê? Medicações inaceitáveis e porquê? Tratamentos/intervenções clínicas aceitáveis e porquê? Tratamentos/intervenções clínicas inaceitáveis e porquê? Instalações preferenciais para os tratamentos e porquê? 56 Instalações inaceitáveis para o tratamento e porquê? Durante o período em que a minha sintomatologia estiver ativa quero que os meus cuidadores/ pares especialistas: Durante o período em que a minha sintomatologia estiver ativa não quero que os meus cuidadores/ pares especialistas: Durante esta fase, preciso que façam por mim e que pessoas podem faze-lo: Durante esta fase, eu próprio consigo fazer: Indicadores de que os meus cuidadores/pares especialistas não irão necessitar de utilizar mais este programa: Assinatura dos intervenientes: Data: ____/____/______________ 57 Ficha de Trabalho Exercício 20 Resolução de Problemas 1. Como é o que o problema tem impacto na sua vida? 2. Que soluções existem para este problema? 3. Que planos pode pôr em prática para resolver o problema? NOME DATA LOCAL FORMADOR 64 Quando terminado o exercício, o formador deve dar por terminada a sessão e realçar que esta terá continuação na sessão seguinte dada a interligação dos temas. 2.7.4. Material É seguidamente apresentada informação teórica sobre escuta ativa e parafraseamento. Escuta Ativa As competências de escuta ativa permitem mostrar ao outro o nosso interesse e atenção naquilo que está a dizer. Implica atenção e intencionalidade, não podendo ocorrer de forma passiva. Existem algumas respostas de escuta ativa que podem indicar ao outro que está a ser ouvido e que tem o nosso interesse e atenção, como por exemplo: • abanar com a cabeça (expressão de interesse) • “hum, hum”, “sim”… (sons encorajadores) • “estou a ver”, “estou a perceber” (pequenos comentários) • “poderia explicar-me melhor a sua ideia?” (solicitar explicações) • fazer perguntas A escuta ativa implica extrema atenção ao que o par está a dizer para que se consiga perceber o seu ponto de vista, existindo alguns elementos que poderão diminuir a eficácia da escuta ativa: • evite distrair-se com os seus próprios pensamentos. É particularmente importante quando os pares especialistas estão muito preocupados com a sua próxima resposta e a dada altura param de prestar atenção ao seu par. O ideal será prestar total atenção à pessoa e, só depois, pensar na resposta que lhe poderá dar. • evite interromper as pessoas quando não é necessário. Contudo, interromper torna-se pertinente para recapitular e garantir que estamos a conseguir acompanhar o raciocínio. • fatores culturais, familiares ou pessoais podem tornar-se um viés. • o envolvimento emocional com a pessoa a quem está a prestar suporte também pode comprometer a objetividade e imparcialidade. • a comunicação não-verbal (postura corporal, expressões faciais) pode acrescentar intensidade emocional às palavras e pode confirmar ou contrariar o seu discurso. Parafraseamento Consiste em dar respostas “de volta”, isto é, repetir aquilo que a outra pessoa disse mas pelas nossas próprias palavras. Esta competência permite demonstrar interesse na conversa assim como direcionar o foco da atenção e realçar aquilo que se considera mais importante. Boas competências de parafraseamento incluem: • reformular utilizando palavras nossas e evitando repetir aquilo que a pessoa disse • capturar de forma clara e concisa a mensagem • formular como questão para que a pessoa confirme/corrija aquilo que foi dito Alguns exemplos de parafraseamento são: • “parece-me que é…?” • “deixe-me ver se compreendi…?” • “então, disse-me que…?” • “… Isto está correto?” 65 2.8. Sessão 8 Competências de Comunicação e Escuta Ativa – Parte II7 2.8.1. Objetivos • Compreender a importância de competências de comunicação e escuta ativa para o suporte interpares • Aprender a utilizar eficazmente diferentes tipos de comunicação • Aprender a importância da escuta ativa • Aprender competências de parafraseamento, empatia, comunicação não verbal, iniciar, manter e terminar uma conversa 2.8.2. Guia do material Informação Teórica: Empatia; Empatia Avançada; Comunicação não-verbal Exercício 24 – Empatia Exercício 25 – Comunicação não-verbal 2.8.3. Guia da sessão Dando continuidade à sessão anterior, é feita uma breve apresentação teórica sobre a empatia e é proposto aos elementos do grupo a realização de um role play (Exercício 24 – Empatia). Numa simulação em pares, o formador deve pedir para utilizarem sempre que possível as competências abordadas. Exercício 24 Empatia Pretende-se que os participantes apliquem as competências de empatia aprendidas e pratiquem através de uma simulação. Solicita-se que os pares se dividam em grupos de dois e cada grupo terá cerca de 10 minutos para realizar o seu role play. Cada um dos elementos do grupo deve assumir o papel de par ou de prestador de suporte interpares e devem discutir um problema que o par se sinta à vontade para partilhar com o grupo. As competências de empatia devem ser utilizadas durante a simulação e no final o grupo discute as competências utilizadas e o desempenho dos dois elementos. Duração: 40minutos 7 Os exercícios desta sessão foram adaptados de Coelho & Palha (2006). 8 66 Em seguida é abordada a temática da empatia avançada (Consultar Material – Empatia Avançada) e das competências de comunicação não-verbal (Consultar Material – Comunicação não-verbal). Depois desta breve explicação teórica propõe-se um exercício com vista a praticar a informação abordada (Exercício 25 – Comunicação não-verbal). Exercício 25 Comunicação não-verbal Pretende-se reconhecer sinais não-verbais durante a comunicação e perceber o impacto da comunicação não-verbal. É solicitado aos participantes para formarem grupos de dois e cada elemento deve dirigir-se ao formador e retirar, à sorte, uma emoção. Durante a simulação de uma conversa, cada elemento deve expressar os sinais não-verbais específicos dessa emoção. Os restantes elementos do grupo, no final, devem tentar adivinhar que emoções foram representadas. Segue-se o role play do par seguinte. As emoções para representar são: raiva, tristeza, medo, surpresa, alegria e nojo. Depois de todos os elementos fazerem a simulação, o grupo pode discutir sobre: - como considera que estes sinais não-verbais podem interferir com a comunicação? - que sinais foram mais difíceis e mais fáceis de identificar? - no dia-a-dia costuma reparar nos sinais não-verbais do outro? Duração: 45 minutos Em seguida é dada uma breve exposição sobre como iniciar, manter e terminar uma conversa. Para os elementos aplicarem as competências anteriormente abordadas devem realizar o exercício proposto para o trabalho de casa (Ficha de Trabalho – Iniciar, manter e terminar uma conversa). Terminado o exercício, o formador deve dar por terminada a sessão, proceder ao esclarecimento de eventuais dúvidas e fornecer o trabalho para casa. 2.8.4. Trabalho de casa • Treino das situações aprendidas na sessão com familiares e/ou conhecidos 1. Os participantes devem escolher uma pessoa amiga ou conhecida e iniciar, manter e terminar uma conversa com a pessoa escolhida. Durante a simulação devem utilizar os tópicos para manutenção da conversa descritos anteriormente criar perguntas gerais, específicas e de sentimentos e, por fim, terminar a conversa de forma adequada e agradável. No final, deve debruçar-se sobre as seguintes questões: - Em que local estava? A pessoa que escolheu era sua conhecida? - Que sinais não-verbais observou que indicaram que a pessoa queria falar consigo? - Que assunto escolheu para iniciar a conversa? Porquê? 67 - Como se sentiu durante a conversa? - Pensa que a pessoa ficou com ressentimentos por terminar a conversa? - O que correu melhor e o que faria de outra forma? - O que aprendeu com esta simulação? 2.8.5. Material É seguidamente apresentada informação teórica sobre empatia, empatia avançada e para finalizar, comunicação não-verbal. Empatia A empatia é uma competência muito importante para a construção de relações, sendo necessária para uma prática de suporte interpares eficaz. A empatia consiste em sermos capazes de nos colocar no lugar dos outros, significando compreender o outro de forma tão completa que os seus sentimentos mais superficiais e os mais profundos, emoções e pensamentos são reconhecidos. Implica respeito mútuo e uma aceitação positiva. Sugere-se a visualização de um vídeo sobre empatia: (https://www.youtube.com/watch?v=VRXmsVF_QFY) A empatia é uma resposta do prestador de suporte interpares que demonstra o seu entendimento sobre a situação/problema do par. As respostas empáticas com maior impacto são as que refletem os sentimentos e emoções dos pares e vinculam-nos com as experiências ou comportamentos correspondentes. Por exemplo: “Tem sido uma semana terrível, tive uma discussão muito grande com a minha enteada. O pior desta situação é que o meu marido parece que toma sempre partido dela e está constantemente a criticar-me à frente dela… Ele irrita-me tanto!” Reposta empática: “Está chateada com o seu marido porque ele desafiou a sua autoridade à frente da sua enteada”. Resposta não-empática: “O meu marido também é um idiota. Ele também me chateia.” Os prestadores de suporte interpares devem ainda ter especial atenção às suas afirmações empáticas no sentido de não culpabilizar os outros pelos sentimentos dos pares. Por exemplo: Resposta errada: “O seu irmão fez com que se sentisse zangada porque a deixa triste. Ele magoa-a especialmente quando faz isso em frente aos seus amigos”. Resposta correta: “Está zangada porque com o seu irmão porque ele a deixa triste. É especialmente doloroso por ser em frente aos seus amigos”. A empatia é uma competência que resulta porque: • ajuda a construir a relação, os pares sentem-se compreendidos, apoiados e acreditados 68 • ajuda os pares a explorarem os seus sentimentos devido ao carácter não-julgador • é uma ferramenta que o prestador de suporte interpares pode utilizar para focar a atenção do seu par • é uma ferramenta de verificação da perceção • estimula o processo de ajuda Os prestadores de suporte interpares devem ter em atenção algumas respostas não-empáticas que devem ser evitadas. Considere os seguintes exemplos: “Eu acho que os sintomas da minha agorafobia estão outra vez ativos. Nos últimos dias, eu fui ao shopping e o meu coração começou a bater muito forte e eu só queria sair dali.” Responder com uma questão: “quando é os seus sintomas começaram novamente?” Responder com um cliché: “isto não é incomum, muitas pessoas têm pequenas recaídas.” Responder com uma interpretação: “eu acho que a sua recaída foi despoletada pelo fim do seu casamento.” Responder com um conselho: “eu acho que devia aumentar a sua medicação.” Responder com simpatia em exagero: “oh, coitadinha, isso é horrível!” Responder com uma afirmação de salvamento: “oh, não se preocupe com isso. É só uma pequena recaída. Tenho a certeza que vai superar!” O formador deve incentivar uma discussão em grupo que se debruce sobre: • porquê que estas respostas são consideradas não-empáticas? • que tipo de resposta seria adequada para o exemplo proposto? • no lugar desta utente, como se sentiriam caso o vosso prestador de suporte interpares vos desse uma resposta não-empática? Exemplo de uma resposta empática: “Parece que está com medo de não ser capaz de lidar com os seus sintomas em lugares públicos”. Empatia avançada As competências de empatia avançada são também uma resposta empática mas que reflete os significados mais profundos daquilo que o par nos está a dizer, isto é, permite-nos realçar aquilo que nem sempre é consciente para a pessoa e esta consciência pode influenciar o seu ponto de vista/forma de pensar. Considere o seguinte exemplo e analise as diferenças: “Eu penso que este trabalho era algo que iria gostar de fazer… Mas nem sinto vontade de tentar mais. Eu tenho ficado muito desapontada durante a minha procura por um trabalho. Com tantas pessoas desempregadas, eu não vejo forma de conseguir pertencer ao reduzido grupo das pessoas com trabalho.” Resposta empática: “percebo que se sinta desencorajada para conseguir um trabalho por estarmos num mercado de trabalho muito competitivo”. 69 Resposta empática avançada: “tem sido dolorosa a rejeição que sentiu anteriormente. Estou a pensar que talvez a sua hesitação esteja relacionada com o seu medo de ser rejeitada.” Neste exemplo, o prestador de suporte interpares tenta mudar a perspetiva do par no sentido em que este foca a sua atenção para a situação económica atual e, o prestador de suporte interpares procura fazê-lo refletir na possibilidade de estar com medo da rejeição. Considere o seguinte exemplo: “Eu não posso acreditar nisto, eu utilizei um argumento sobre a pergunta do quiz e depois ele começou a chamar-me ignorante… eu perdi o controlo e comecei a lutar com ele.” Resposta empática avançada: “parece que ficou magoado por ele lhe ter chamado de ignorante. Eu lembro-me de uma situação semelhante com o seu irmão em que também reagiu com o confronto físico.” Após terem sido apresentados os exemplos, o formador deve refletir e analisar as diferenças com os elementos do grupo, promovendo uma discussão sobre este tema. É importante reforçar que as competências de empatia avançadas exigem muitas competências dos prestadores de suporte interpares e apenas devem ser utilizadas quando o prestador de suporte interpares estabeleceu um relacionamento e já existe uma base sólida de confiança entre ele e o par. Comunicação não-verbal A comunicação não-verbal assume-se como um componente fundamental para uma comunicação eficaz e bem-sucedida, permitindo detetar sinais no outro e tornar-nos melhores ouvintes e comunicadores. Inclui sinais não-verbais como por exemplo gestos, contacto visual, postura corporal, orientação corporal, expressão facial e voz. A Tabela 2 relaciona alguns sinais não-verbais com a emoção que a pessoa poderá esta a sentir. 70 TABELA 2 – Relação entre sinais não-verbais e a emoção (Coelho & Palha, 2006) Gestos Corporais Contacto Corporal Postura Corporal Orientação Corporal Expressão Facial Preocupado Poucos gestos; anda de um lado para outro Contacto ausente ou intenso Postura tensa Virado para si próprio Séria Amigável Movimentado e calmo Olha com frequência para nós Descontraído Vira-se para a pessoa com quem fala Sorridente Zangado Apontando com o dedo Olhar sério e penetrante Tenso Encara ou ignora ativamente Expressão tensa, sobrancelhas franzidas Triste Testa apoiada na mão Olhar para baixo Caída Cabisbaixo Sem sorriso Iniciar, manter e terminar uma conversa Para iniciar, manter e terminar uma conversa são necessárias competências de diálogo, existindo um conjunto de tópicos que podem facilitar a iniciação de uma conversa. Geralmente, durante a interação com o outro começa-se por fazer perguntas gerais e só depois se fazem perguntas específicas, terminando com perguntas relacionadas com sentimentos. São seguidamente apresentados alguns tópicos que podem ajudar a iniciar e manter uma conversação. Tópico 1. Assunto recente que envolva o outro. Questão geral: “Como tens passado ultimamente? O que tens feito recentemente?” Questão específica: “O que é que fizeste exatamente?” Questão de sentimento: “Estás triste?” Tópico 2. Trabalho, casa, viagens, tempos livres, vida social. Tópico 3. Coisas em comum (amigos, profissão, cinema, televisão… etc.). Tópico 4. Notícias, desporto, personalidades e acontecimentos. Tópico 5. Elogiar o comportamento ou aparência do outro. Tópico 6. Escolher um assunto. Tópico 7. Perguntar informações ao outro. São necessárias ainda competências para terminar uma conversa de forma agradável. Assim, deve dizer ao outro que tem de terminar a conversa mas que gostaria de voltar a conversar noutro dia ou ocasião. 71 2.9. Sessão 9 Estigma e Discriminação na Doença Mental 2.9.1. Objetivos • Enquadramento sobre a doença mental • Compreender o conceito de estigma • Aprender/discutir estratégias para lidar com situações estigmatizantes e discriminantes • Desenvolver formas/estratégias para combater o estigma 2.9.2. Guia do material Informação Teórica: Enquadramento sobre a Doença Mental; Estigma e Discriminação na Doença Mental. Exercício 26 - Estigma e Discriminação Exercício 27 - Estigma, como ultrapassar? Exercício 28 - Campanha anti-estigma 2.9.3. Fichas de trabalho 9 72 Ficha de Trabalho Exercício 26 Estigma e Discriminação Visualize o seguinte vídeo e de seguida complete os exercícios propostos. https://www.youtube.com/watch?v=oSG4z80pUKs 1. Como considera que o suporte interpares pode ajudar a diminuir o estigma na doença mental? 2. Enquanto prestador de suporte interpares como atuaria? NOME DATA LOCAL FORMADOR 73 2.9.4. Trabalho de casa: • Partilha de testemunhos reais • Melhoria da campanha anti-estigma delineada na sessão • Divulgar uma campanha anti-estigma realizada em Portugal a pelo menos 2 pessoas Partilha de material sobre a doença mental: http://www.aware.ie/help/education/aware-monthly-lectures-2014-video/ http://www.abrebrasil.org.br/web/index.php/como-apoiamos/publicacoes-livre Veja os exemplos de campanhas anti-estigma: https://www.youtube.com/watch?v=oSG4z80pUKs http://www.encontrarse.pt/upa08/ http://upafazadiferenca.encontrarse.pt/ http://www.encontrarse.pt/Default.aspx?Tag=CONTENT&ContentId=2218 http://www.encontrarse.pt/upa08/ https://www.youtube.com/watch?v=QficvVNIxTI http://www.encontrarse.pt/upa08/relatorio.pdf http://tohsj.blogspot.pt/2013/06/projetosanti-estigma-2007-concurso-de.html http://jpn.c2com.up.pt/2011/10/09/mais_nozes_que_vozes_saude_mental_sem_fios.ht ml http://www.saudemental.pt/familias-e-apoio-psicossocial/programa-mais-nozes-quevozes/ http://www.time-to-change.org.uk/ http://www.time-to-change.org.uk/sites/default/files/Men%20leaflet.pdf http://www.time-to-change.org.uk/sites/default/files/TtC%20Organisational%20Tips%20 Card%20- %20FINAL.pdf 1. Terminar a campanha anti-estigma que iniciou na sessão. 2. Partilhe uma campanha anti-estigma que coinheça com um familiar, um, amigo ou colega. 3. Analise o seguinte testemunho: A VIVÊNCIA DO ESTIGMA – R.V.L. “É muito triste perceber que as pessoas rotulam as outras de esquizofrénicas, independentemente de todas as suas outras características enquanto pessoas. A expressão do rótulo é uma coisa realmente impressionante, e as pessoas gostam de rotular. Li num livro que um ser humano é considerado um universo em miniatura. Então, como é possível que alguém face a um universo, rotule isto e aquilo, não conseguindo ver o que está para além do rótulo? Por que não arrancar o rótulo? Ele não é preciso, basta olhar para dentro do frasco para ver o que está lá dentro.” Após analisar o testemunho, reflita sobre as seguintes questões: • Identifica-se com os sentimentos descritos nesta história? 80 A redução do estigma inerente à doença mental é um dos benefícios reportados na literatura para a prática do suporte interpares. A partilha de experiências entre os pares permite uma diminuição do estigma internalizado e a partilha de estratégias para lidar com o estigma público. Os prestadores de suporte interpares podem ainda ajudar a reforçar as relações positivas entre os profissionais de saúde mental e os utentes. Os prestadores de suporte interpares, “peritos pela experiência”, podem desempenhar um papel fundamental em campanhas anti-estigma, no sentido em que o seu papel e trabalho será reconhecido e valorizado. A prática de suporte interpares é identificada como vantajosa quer para quem recebe este serviço, quer para os prestadores de suporte. Estudos (Ochocka, Nelson, Jansen, & Trainor, 2006; Repper & Carter, 2011) identificaram que as pessoas que recebem suporte interpares estão menos propensas a identificar o estigma como um obstáculo para a obtenção de trabalho e encontram-se mais propensos a conseguir um emprego. Outros estudos (Davidson, Bellamy, Guy, & Milller, 2012) relatam que o envolvimento dos prestadores de suporte permite alterar as atitudes em relação à doença mental, diminuindo o estigma e promovendo a esperança nos seus pares. Considerando o papel do suporte interpares no combate ao estigma, pode-se considerar que a sua prática permite um aumento do insight, suporte e ideias para lidar com situações estigmatizantes através da partilha de experiências, suporte mútuo e treino de variadas formas para combater o estigma. 81 2.10. Sessão 10 Reforma na saúde mental, ética e direitos dos utentes 2.10.1. Objetivos • Compreender o movimento de reforma da Saúde Mental • Perceber os direitos dos consumidores • Perceber os valores centrais e código de ética dos prestadores de suporte interpares 2.10.2. Guia do material Informação Teórica: Reforma na Saúde Mental em Portugal; Direitos e Responsabilidades dos utentes; Códigos de Ética Exercício 29 – Reforma da Saúde Mental em Portugal Exercício 30 – Dilemas Éticos 2.10.3. Fichas de trabalho 10 82 Ficha de Trabalho Exercício 29 Reforma da Saúde Mental em Portugal 1. Identifique três momentos fundamentais para a reforma da saúde mental em Portugal. 2. Que importância atribuiu a esses momentos para a prestação de serviços de saúde mental atuais? 3. Que mudanças ainda considera necessárias nos serviços de saúde mental? Código de ética e conduta NOME DATA LOCAL FORMADOR 83 2.10.4. Trabalho de casa • Resolva os dilemas éticos apresentados, tendo por base o conhecimento que adquiriu nesta sessão. Plano Nacional de Saúde Mental 2007-2016: http://adeb.pt/ficheiros/uploads/02a75f2c0346f49717d171c23b7f56a2.pdf Reatualização do Plano Nacional de Saúde Menta 2012: http://www.saudemental.pt/wp-content/uploads/2012/06/ Recalendarizac%CC%A7a%CC%83o_PNSM.pdf Guia para a defesa dos direitos em saúde mental: http://www.portaldasaude.pt/NR/rdonlyres/F45D89BD-21F5-46AB-90841FB298052365/0/20091218_guiasaudemental.pdf Princípios orientadores para a participação do utente: http://www.saudemental.pt/wp-content/uploads/2011/05/2011-04-19_ PincipiosOrientadoresParticipacaoUtente.pdf Resolva os seguintes dilemas à luz dos conteúdos aprendidos e tendo em consideração a perspetiva e função do prestador de suporte interpares. Para cada situação diga como atuariae justifique a sua resposta de forma adequada. Na sessão seguinte, as respostas serão partilhadas no grupo e o formador deve incentivar uma discussão e partilha ativa de todos os elementos do grupo. 1. Um utente está a lutar para perceber se de facto a sua vida tem algum sentido e pergunta-lhe sobre a sua filosofia pessoal. Partilhava informação sobre as suas crenças pessoais religiosas? 2. Um utente que considera ser muito confiável pede-lhe 2€ emprestados. Emprestavalhe o dinheiro? 84 3. Um utente está interessado em frequentar uma igreja e pergunta se pode ir ao mesmo sítio onde você vai. Diria que sim a esta pessoa? 4. Um utente acabou recentemente a sua relação com a namorada. Ele está extremamente magoado e irritado. Ele diz-lhe em segredo que gostaria de incendiar o seu carro. Você não acredita que ele vá realmente prejudicar a sua namorada ou estragar o carro. O que deve fazer? Deve denunciar a ameaça? 5. Um utente está interessado em comprar uma televisão. Você tem uma televisão que não usa em casa. Oferece-se para lhe vender a televisão por um preço mais baixo que o mercado? 2.10.5. Material • É seguidamente apresentada informação teórica sobre a reforma na saúde mental em Portugal, os direitos e responsabilidades dos utentes e os códigos de ética em vigor noutros países. Reforma na Saúde Mental em Portugal Ao longo dos tempos, a conceptualização de doença mental, o desenvolvimento de respostas para pessoas com incapacidades psiquiátricas e a forma como esta problemática é encarada pelas diferentes sociedades e culturas, tem resultado de um processo evolutivo. O conceito de doença mental é dotado de uma considerável variação sociocultural no que se refere à forma como a doença se manifesta e é compreendida, podendo esta variação ser verificada entre as diferentes sociedades e mesmo dentro de uma dada sociedade (Alves, 2011; Alves & Silva, 2004). Em Portugal, a evolução das políticas de saúde mental pode reportar-se a dois períodos essenciais. O primeiro centra-se na construção dos hospitais psiquiátricos, por contraste com o segundo momento que propõe uma intervenção focada na comunidade. O primeiro período, compreendido entre o final do século XIX e a década de 60, caracterizou-se pela construção de hospitais 85 psiquiátricos e por uma mudança na forma de como a “loucura” era encarada. Em Portugal, o aparecimento do primeiro hospital psiquiátrico (Hospital Conde Ferreira) ocorreu no Porto em 1883. O segundo período relaciona-se com a intervenção direcionada para a comunidade e pode dividirse em quatro etapas fundamentais: setorização, ocorrida entre a década de 60 e 70; integração de cuidados primários verificada na década de 80; integração hospitalar na década de 90; e reforma (Alves, 2011; Alves & Silva, 2004). Na década de sessenta e setenta, tendo em conta os desenvolvimentos ocorridos a nível internacional, houve a necessidade de centralizar a política de saúde mental para o contexto comunitário, ou seja, evitar a marginalização das pessoas com doença mental, procurar prestar um tratamento adequado e a reintegração na comunidade. Assim, em 1963 surgiu a Lei da Saúde Mental (Lei n.º 2118 de 3/4) que estabelece os princípios orientadores para a descentralização dos serviços de psiquiatria através da criação de estruturas na comunidade, nomeadamente, centros de saúde mental de orientação comunitária. Promulga igualmente os princípios gerais da política e regulamenta o tratamento e o internamento (Alves, 2011; Alves & Silva, 2004). A sectorização em Portugal tinha como objetivo a construção de estruturas de suporte na comunidade para permitir a transferência de pessoas com doença mental dos hospitais psiquiátricos para a comunidade, facilitando, desta forma, a sua reintegração. Na década de 80, as políticas de saúde mental centraram-se na criação de valências na comunidade no sentido de fornecer cuidados de saúde primários, como consequência da reorganização dos serviços de saúde. Durante este período verifica-se o aparecimento sucessivo de diferentes legislações que visavam a aproximação da psiquiatria à comunidade através de movimentos de desinstitucionalização e integração de cuidados (Alves, 2011; Alves & Silva, 2004). Mais tarde, o decreto-lei de 1992 (D-L n.º 127/92 e Portaria n.º 750/92) determinou a extinção dos centros de saúde mental e a transferência das suas atribuições para hospitais gerais, centrais e distritais (Alves, 2011; Alves & Silva, 2004). A reforma da lei da saúde mental de 1998 (Lei n.º 36/98 de 24/7) postula a necessidade de uma rede de respostas articuladas entre si e com as estruturas comunitárias. Esta lei estabeleceu os princípios gerais da política de saúde mental e regulamentou o internamento compulsivo. Refere ainda a promoção de cuidados na comunidade, com internamentos em hospitais gerais e assegurando a reabilitação psicossocial através de variadas estruturas na comunidade (centros de dia, unidades de treino e reinserção profissional, estruturas residenciais, entre outras), sendo as intervenções salvaguardadas por equipas multidisciplinares. Em 1999, o decreto-lei n.º 35/99 de 5 de Fevereiro estabelece a organização da prestação de cuidados de psiquiatria e saúde mental e regulamenta o Conselho Nacional de Saúde Mental e as atribuições dos Hospitais Psiquiátricos (Alves, 2011; Alves & Silva, 2004). Em 2001, segundo a rede de referenciação de psiquiatria e saúde mental, os cuidados de saúde integrados no sistema nacional de saúde incluíam 5 hospitais psiquiátricos, 24 departamentos de psiquiatria e saúde mental, 5 serviços de psiquiatria, 1 centro de recuperação psiquiátrica, 3 departamentos de pedopsiquiatria e 3 centros regionais de alcoologia, distribuídos pela região Norte, Centro, Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e Algarve. Recentemente, assistiu-se à criação do Plano Nacional de Saúde Mental para 2007-2016. O plano elaborado para 2007-2016 procura: • salvaguardar um acesso igualitário para todas as pessoas com incapacidades psiquiátricas, incluindo a grupos vulneráveis. • agir em conformidade com os direitos de pessoas com doença mental. • diminuir o impacto deste tipo de nosologias, promovendo a saúde mental das populações. 86 • promover a prestação de cuidados na comunidade incentivando a participação ativa dos utentes e famílias. • promover a integração dos cuidados de saúde mental no sistema geral de saúde a nível dos cuidados primários, hospitais gerais e cuidados continuados. Segundo esta proposta, os serviços de saúde mental devem organizar-se com base na perspetiva de recuperação (recovery), assegurando a participação dos utentes no planeamento dos cuidados e privilegiando as ações que facilitem a sua autonomia e integração social. De acordo com a reactualização do plano nacional de saúde mental, alguns dos objetivos propostos já foram alcançados. Importa salientar: diminuição de 40% dos doentes institucionalizados; o encerramento do hospital psiquiátrico mais antigo do país; um avanço na criação de serviços de saúde mental nos hospitais gerais e na comunidade; criação das bases para os cuidados continuados e dos primeiros serviços e programas residenciais nesse sector, entre outros. Os desafios a superar nos próximos anos prendem-se com: a reduzida quantidade de recursos atribuídos à área da saúde mental; a distribuição equitativa dos recursos pelas diferentes zonas do país, tanto no que se refere a recursos humanos como financeiros; modificações no modelo de gestão e de financiamento; participação dos utentes e familiares (incentivando a participação ativa destes intervenientes); o número limitado de respostas para grupos vulneráveis; a ausência quase total de programas de prevenção/promoção; desenvolvimento de intervenções e serviços centrados na comunidade; o número reduzido de profissionais não médicos nas equipas multidisciplinares, entre outros. Contudo, e apesar dos sucessos alcançados até ao momento, é necessário continuar a unir esforços em prol da melhoria das respostas para pessoas com doença mental. Atualmente procura-se fazer uma transformação no sistema de saúde mental, orientando os serviços para o pressuposto da recuperação. Nesse sentido, é necessário reverter alguns pressupostos tradicionais: • A pessoa não deve ser vista como um paciente ou como “um esquizofrénico”. Em detrimento, a experiência de doença mental deve ser considerada uma parte integrante da pessoa. • Os papéis sociais valorizados melhoram a sintomatologia e reduzem as hospitalizações, em vez do tratamento ser imposto como pré-requisito para que possa assumir responsabilidades ou papéis. • Os utentes devem definir os seus objetivos de recuperação e o suporte requerido para os atingir é prestado por profissionais. • O foco é dado às potencialidades, preferências e competências em detrimento dos défices e dificuldades. • Dar atenção às necessidades normais de qualquer pessoa como ter trabalho, amor e desfrutar da sua vida, pelo que estes podem ser objetivos finais. • Considerar que as pessoas que experienciam uma doença mental têm aspirações e necessidades como todas as outras. • Dar oportunidade à pessoa com experiência de doença mental para tomar as suas decisões, suportando-a e encorajando-a em vez de tomar a decisão por ela. Direitos e Responsabilidades dos utentes De acordo com a Lei da Saúde Mental (Lei nº 36/98), os utentes dos serviços de saúde mental têm o direito de: • Serem informados, de forma adequada, dos seus direitos, bem como do plano terapêutico proposto e seus efeitos previsíveis. 87 • Receberem tratamento e proteção, no respeito pela sua individualidade e dignidade. • Decidirem receber ou recusar as intervenções diagnósticas e terapêuticas propostas, salvo quando for caso de internamento compulsivo ou em situações de urgência em que a não intervenção criaria riscos comprovados para o próprio ou para terceiros. • Não serem submetidos a terapia electroconvulsiva sem o seu consentimento prévio escrito. • Aceitarem ou recusarem, nos termos da legislação em vigor, a participação em investigações, ensaios clínicos ou atividades de formação. • Usufruírem de condições dignas de habitabilidade, higiene, alimentação, segurança, respeito e privacidade em serviços de internamento e estruturas residenciais. • Comunicarem com o exterior e serem visitados por familiares, amigos e representantes legais, com as limitações decorrentes do funcionamento dos serviços e da natureza da doença. • Receberem justa remuneração por atividades e serviços prestados. • Receberem apoio na defesa dos seus direitos. É importante notar que, de acordo com a Organização das Nações Unidas, os seguintes direitos devem ser reconhecidos e assegurados pelos governos de todos os países: • Direito aos melhores cuidados de saúde mental disponíveis, integrados no sistema de saúde e apoio social. • Direito a ser tratado com humanidade e respeito pela dignidade inerente à pessoa humana. • Direito à proteção da exploração económica, sexual ou outra, de abusos físicos ou tratamentos degradantes. • Direito à não discriminação com base na doença mental, ou seja, exclusão ou preferência que prejudique a igualdade do exercício dos direitos. • Direito ao exercício dos direitos civis, políticos, económicos, sociais e culturais reconhecidos na Declaração Universal dos Direitos Humanos. • Direito a recorrer a um tribunal independente contra decisões referentes à sua capacidade ou incapacidade. • Direito à proteção dos seus interesses, através de um representante legal, quando tenha sido declarado legalmente incapaz de gerir os seus assuntos pessoais. • Direito a viver e trabalhar, tanto quanto possível, na comunidade. • Direito ao reforço da autonomia – todos os tratamentos devem visar o aumento das capacidades do doente. • Direito à reabilitação, integração social e profissional e participação na comunidade. • Direito a ser tratado em serviços localizados na sua comunidade de residência, e da forma menos restritiva possível. • Direito ao consentimento informado obtido livremente e à recusa dos tratamentos. • Direito à proteção da sua dignidade nos serviços onde é tratado, o que inclui a informação sobre o tratamento e sobre direitos, privacidade, higiene, comunicação com o exterior, confidencialidade, visitas, alimentação, instalações adequadas e atividades ocupacionais. • Direito à não discriminação em questões jurídicas, isto é, não ser privado dos seus direitos legais e civis, a não ser quando a sua incapacidade para os exercer seja declarada por um perito, através de um processo legal. • Direito a ser protegido de tratamentos cruéis ou degradantes, ou de experiências médicas ou científicas realizadas sem o seu consentimento informado. 88 Durante a prática de suporte interpares podem ser considerados os seguintes valores: • As pessoas têm o direito de ser tratadas com dignidade e serem respeitados os seus direitos humanos. • O recovery é possível para todos, com ou sem ajuda profissional. • Partilhar a experiência de recuperação fomenta as relações interpessoais, reduz o isolamento, transmite esperança e força para prosseguir com o processo de recovery. • As pessoas têm capacidade para viver a sua vida de uma forma completa e com o significado que desejam. • As pessoas têm o direito de fazer as suas próprias escolhas quanto ao seu tratamento, mesmo que os outros considerem que as suas decisões são erradas. • O suporte interpares valoriza a importância da construção de recursos comunitários e recursos naturais de suporte. Códigos de Ética A prestação de suporte interpares, assim como a sociedade, deve reger-se por um conjunto de regras, linhas orientadoras e códigos. Os códigos de conduta são estabelecidos como uma medida de proteção para as pessoas que prestam e recebem um serviço. Assim, deve-se prestar atenção a dois exemplos de códigos de conduta que regem a prática do suporte interpares em dois estados americanos (Carolina do Norte e Michigan)(Michigan Department of Health and Human Services, 2015; PBH Consumer Affairs and Network Management, 2011). O Código de ética para prestadores de suporte interpares na Carolina do Norte refere: • Valorizar a autorrecuperação é fundamental para o desempenho de funções como especialista em suporte interpares. Caso ocorram mudanças no processo de recuperação, o prestador de suporte deve ser responsável por procurar apoio. • Os especialistas de suporte interpares devem honestos nas suas interações; mantenha-se simples, seja sincero. • As relações entre pares são experiências de aprendizagem mútua. • Os especialistas de suporte interpares têm a responsabilidade de ajudar as pessoas a encontrar as suas próprias vozes e defender os princípios da dignidade humana, a autodeterminação e capacitação. • Os especialistas de suporte interpares honram os compromissos estabelecidos com os seus pares. • Os especialistas de suporte interpares devem sempre tentar fazer perguntas abertas, explorar o que ouvem dos seus pares e não fazer suposições. Devem explorar alternativas e opções com os seus pares, em vez de dar conselhos. • Apoiar as pessoas a fazer suas próprias escolhas, honrando a autodeterminação. • Os especialistas de suporte interpares devem evitar lutas de poder e favoritismo. • Os especialistas de suporte interpares não vão explorar, desvalorizar, manipular, abusar, negligenciar ou ignorar um par. • Os especialistas de suporte interpares e colegas não vão emprestar ou pedir nada uns aos outros, especialmente dinheiro. • Os especialistas de suporte interpares não vão estabelecer relacionamentos amorosos com colegas. • Os especialistas de suporte interpares não irão violar o segredo de um par, exceto em situações extremas. 89 • Os especialistas de suporte interpares devem ser responsáveis pelo seu próprio desenvolvimento profissional, sendo pró-ativos na expansão dos seus conhecimentos e melhorando as suas competências. • Os especialistas de suporte interpares devem informar-se sobre o seu contexto comunitário e estabelecer contactos úteis na comunidade. • Os especialistas de suporte interpares não fazem diagnósticos clínicos. O Código de ética para prestadores de suporte interpares no Michigan refere: • Manter padrões de conduta pessoal elevados no sentido de promover o recovery. • Prática centrada na pessoa e promoção da autodeterminação dos pares. • Defender a integração ou reintegração dos seus pares na comunidade e potenciar o seu valor nessa comunidade. • Reconhecer que todos os indivíduos têm o direito a viver num ambiente seguro e menos restritivo. • Continuar a potenciar a sua recuperação funcionando, simultaneamente, como um modelo para os outros. • Manter-se atualizado sobre conceitos inerentes à recuperação e partilhar esse conhecimento com os pares e colegas. • Partilhar a sua experiência pessoal de recuperação, sempre que necessário, identificando e descrevendo quais os principais apoios durante o processo de recovery. • Respeitar a privacidade e sigilo dos pares. • Respeitar os direitos e a dignidade dos pares. • Não praticar, tolerar ou colaborar em qualquer forma de discriminação devido à etnia, raça, sexo, orientação sexual, idade, religião, nacionalidade, estado civil, crença política, doença mental, deficiência física ou por qualquer outra preferência ou característica pessoal, condição ou estado. • Nunca intimidar, ameaçar, assediar, utilizar indevidamente influências, uso de força física ou abuso verbal, fazer promessas infundadas de benefícios para os seus pares. • Manter-se afastado do consumo de substâncias e/ou álcool. 96 • O comprometimento consigo mesmo e para com os seus pares – deve trabalhar de acordo com a sua missão e visão; deve tentar não recair e, caso aconteça, deve regressar assim que possível; deve manter a sua palavra; deve pedir ajuda sempre que necessário e deve admitir sempre que errar. Para além dos conceitos abordados anteriormente, é ainda importante salientar que o emprego de prestador de suporte interpares oferece a oportunidade de ajudar os outros no seu processo de recuperação. Poderá compartilhar as suas histórias e construir relacionamentos com outras pessoas que estão a lidar com problemas significativos. Neste sentido, torna-se fulcral que cada entidade clarifique o papel e as responsabilidades de cada trabalhador. Durante as reuniões regulares com a equipa, a associação/hospital deve receber feedback dos seus prestadores de suporte sobre o seu desempenho nos diferentes papéis. Em Portugal, a profissão de especialista de suporte interpares ainda não é reconhecida mas têm aumentado as iniciativas de instituições e investigação neste âmbito, no sentido de permitir a implementação e desenvolvimento da prática de suporte interpares. Empregabilidade e os Prestadores de Suporte Interpares Para além dos requisitos que devem ter em consideração para ser contratados por uma entidade e desempenhar as suas funções de forma adequada, os prestadores de suporte interpares devem ainda suportar os seus pares na procura de emprego e de habitação com condições adequadas. O prestador de suporte interpares deve ter consciência de que o recovery dos pares pode incluir o acesso a uma habitação e emprego. Assim, os prestadores de suporte interpares devem auxiliar os seus pares a encontrar e manter uma habitação com condições de higiene e habitabilidade essenciais para cada pessoa, assim como suportar a resolução de problemas que possam vir a aparecer. A existência de um trabalho significativo, educação e a habitação traduzem-se em resultados positivos, nomeadamente no aumento da qualidade de vida. Os pares prestadores de suporte interpares devem também suportar os pares na procura de trabalho, fornecendo informação e encaminhando para os serviços e programas adequados neste âmbito. 97 2.12. Sessão 12 Balanço Final e Avaliação da Formação 2.12.1. Objetivos • Avaliação do Desempenho do Participante 2.12.2. Guia da sessão Inicia-se a sessão pela correção do trabalho de casa da sessão anterior. De seguida, o formador deve começar por explicar como se irá proceder à avaliação dos formandos. Numa fase inicial, deve fazer uma ponderação com a assiduidade, pontualidade e participação dos formandos. O desempenho do formando deve ser realizado utilizando uma pontuação de 0-20, considerando que o 0 é o valor mínimo que pode atribuir e 20 o valor máximo. 12 98 Sessão Assiduidade Pontualidade Participação Observações Sessão 1 Sessão introdutória Sessão 2 Introdução ao suporte interpares Sessão 3 Recovery Sessão 4 Caminhos para a mudança Sessão 5 Advocacy e Empowerment Sessão 6 Prevenção da Crise Sessão 7 Competências de Comunicação e Escuta Ativa parte I Sessão 8 Competências de comunicação e escuta ativa parte II Sessão 9 Estigma e discriminação na doença mental Sessão 10 Reforma na saúde mental, ética e direitos dos utentes Sessão 11 Empregabilidade e habitação Sessão 12 Balanço final e avaliação da formação 99 Role Play Checklist de Avaliação Demonstra competências de escuta ativa Consegue Não Consegue Demonstra competências de comunicação e interação Demonstra um conhecimento adequado das funções de prestador de suporte interpares Demonstra aquisição de estratégias abordadas nas sessões Demonstra empatia Demonstra capacidade de resolução de problemas Role Play Classificação Observações Trabalho de Grupo Nome do Participante: Data: Classificação Final Obtida: (Assiduidade + Pontualidade + Participação + Role Play + Trabalho de Grupo /5) = 100 Role Play de Simulação Para além da avaliação efetuada através da avaliação contínua é realizado um role play. Num contexto individualizado, os formandos (aos pares) devem simular o exercício de funções de um prestador de suporte interpares. O seu desempenho será avaliado tendo por base a aplicação dos conteúdos lecionados na formação. O meu nome é A.S. e fui diagnosticada há 5 anos com Esquizofrenia Paranoide após uma crise durante a qual me tentei suicidar e que me levou a um internamento num hospital psiquiátrico. Quando estabilizei clinicamente, o meu médico psiquiatra deu-me alta e sugeriu que frequentasse um fórum sócio-ocupacional durante a semana. Quando saí do hospital sentia-me bem, achava que estava totalmente recuperada e que os sintomas que tinha sentido tinham sido apenas uma crise passageira. Rejeitei a sugestão do meu médico, deixei de tomar a medicação e tentei retomar a minha vida normal. Contudo, quando cheguei ao trabalho o meu patrão soube do meu diagnóstico e despediu-me. Os meus amigos começaram a excluir-me das atividades sociais que fazíamos em conjunto como ir ao café, ao cinema, entre outras. A minha família também não aceitou a minha doença, apenas uma tia minha me apoiou e me convidou para morar em casa dela. A minha vida ruiu e eu senti que não havia esperança ou alternativa! A minha vida não fazia sentido! Comecei novamente a sentir os sintomas que me levaram ao primeiro internamento, e passado um ano, tive uma nova recaída. Fui novamente internada num hospital psiquiátrico e, desta vez, o internamento teve uma duração maior. Quando estabilizei, o meu médico deu-me alta. Decidi que não iria voltar a ser internada, não iria deixar de tomar a medicação e que iria fazer de tudo para recuperar a minha vida. Comecei então a frequentar o fórum o sócio-ocupacional. Desde essa altura comecei a sentir-me muito melhor, comecei a recuperar as minhas rotinas, as atividades que são significativas para mim e criei novas amizades. Atualmente frequento o fórum há 3 anos e não voltei a sentir aqueles sintomas. Recentemente, foi integrado na equipa um prestador de suporte interpares. O prestador de suporte interpares trabalha diretamente com os utentes no sentido de os apoiar na sua recuperação através da partilha das suas próprias experiências enquanto pessoa com experiência de doença. Ultimamente, surgiram-me uma série de dúvidas e inseguranças que precisava de esclarecer com o prestador de suporte interpares: 1. Atualmente resido na casa de uma familiar mas sinto necessidade de voltar a ter o meu espaço. Gostava de ter a minha casa e poder geri-la de acordo com a minha vontade. Contudo, estou desempregada e o meu médico psiquiatra aconselhou-me a não viver sozinha porque tem medo que tenha uma recaída. Desde que fui diagnosticada só tive uma recaída e estou estável há cerca de 3 anos. Precisava da sua ajuda para resolver esta situação, o que posso fazer? 2. Ultimamente, no fórum, tenho tido uns conflitos com um colega novo. Ele recusa-se a fazer qualquer tarefa durante o almoço e são sempre os mesmos a trabalhar. Confrontei-o com esta situação mas ele não reagiu bem e tem sido muito desagradável comigo. Como devo resolver esta situação? 3. Este conflito tem-me desmotivado a ir às férias lúdicas organizadas pelo fórum. Desde que cá estou que vou sempre às férias. São o meu momento do ano preferido! Mas não queria que este conflito criasse mau ambiente no grupo. Acho que não vou este ano… 4. Gostaria também de aumentar a minha formação para voltar a ter oportunidades para ter um trabalho. Antes de ter sido diagnosticada trabalhava numa pastelaria. Será que me pode ajudar a encontrar umas formações adequadas para mim? 101 5. Tenho receio que não me aceitem nessas formações devido à minha condição psiquiátrica. Já se sentiu assim? O que fez nesta situação? Após a realização do Role Play de simulação, os mesmos pares, devem elaborar um trabalho de grupo que deve refletir as aquisições que foram efetuadas durante a formação. O trabalho de grupo deve consistir numa síntese elaborada sobre as competências e funções inerentes ao prestador de suporte interpares, vantagens e desvantagens da prática de suporte interpares, entre outros tópicos que o formador considere relevantes. Nesta última sessão e, após a avaliação dos formandos, é pedido para todos os elementos do grupo avaliarem a formação e o desempenho do formador. AVALIAÇÃO DO PROGRAMA Pobre Excelente 1. Os conteúdos da formação corresponderam às suas expectativas? 1 2 3 4 5 2. Como considera que o formador suportou a sua aprendizagem 1 2 3 4 5 3. Como classifica o desempenho do formador? 1 2 3 4 5 4. Em que medida os materiais utilizados na formação reforçaram a sua aprendizagem? 1 2 3 4 5 5. Que conteúdo da formação considerou mais importante? Porquê? 6. Que conteúdo da formação considerou menos importante? Porquê? 102 7. Qual a aprendizagem mais importante que retirou desta formação? Sim Não 8. Considerou os conteúdos da formação pertinentes? 9. Acrescentava ou retirava algum conteúdo? Qual/Quais? 10. Considera que o tempo da formação foi suficiente? Porquê? 11. Que sugestões gostaria de fazer para melhor uma próxima edição desta formação? 103 Referências bibliográficas 3 104 Para a construção deste manual foram consultadas as referências bibliográficas a seguir indicadas. Afonso, P. (2010). Esquizofrenia: para além dos mitos, descobrir a doença. Cascais: Princípia. Alves, F. (2011). A Doença Mental nem Sempre é Doença. Racionalidades Leigas sobre Saúde e Doença Mental. Porto: Afrontamento. Alves, F., & Silva, L. F. (2004). Psiquiatria e comunidade: Elementos de reflexão. Actas dos ateliers do Vº Congresso Português de Sociologia. Sociedades Contemporâneas: Reflexividade e Acção. Atelier: Saúde, Braga (pp.56-64). 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