Mulheres toxicodependentes: o género na desviância: "a vida dela é à estrada e a vida dele é nas esquinas a arrumar carros"
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Maria Susana Cardoso MULHERES TOXICODEPENDENTES O GÉNERO NA DESVIÃNCiA Faculdade de Psicologia e de Ciências de Educação Universidade do Porto 2004
Maria Susana Cardoso MULHERES TOXICODEPENDENTES O GÉNERO NA DESVIÂNCIA Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação Universidade do Porto 2004
Maria Susana Ribeirinha Cardoso de Carvalho MULHERES TOXICODEPENDENTES O GÉNERO NA DESWIÃNCIA SÍA Yida dela é à estrada e a ¥ïcSa dele é nas esqyinas a arrymar carros6 Dissertação apresentada na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, para obtenção do grau de Mestre em Psicologia, na Área de Especialização em Comportamento Desviante/Toxicodependências, sob Orientação da Prof. Doutora Celina Manita Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação Universidade do Porto 2004 2
RESUMO Partindo duma reflexão crítica sobre a construção social do "género" e da "toxicodependência", propomo-nos contribuir para o conhecimento das trajectórias das mulheres que usam e abusam de drogas, abordando as diferentes áreas da vida que se entrecruzam com a sua experiência de drogas e dando particular relevo à relação que estabelecem com os homens. O objectivo da investigação é, portanto, compreender os significados dos consumos para a mulher e o modo como os constrangimentos de género se espelham nesses significados. Com base num guião, previamente elaborado, realizámos entrevistas "em profundidade" a mulheres, com vista a obter relatos significativos sobre as suas trajectórias de consumo de heroína/cocaína. Nesse sentido, elaborámos dez "histórias de vida" de mulheres toxicodependentes em fase de "saída" das drogas, sobre as quais desenvolvemos um processo de análise de conteúdo com base na grounded theory. Entre outras conclusões da investigação, ressaltamos que, para além da grande influência dos homens na trajectória de consumos da mulher, emergem, da experiência de drogas, significações existenciais alternativas para a mulher. A experiência de drogas, numa primeira fase, constitui-se como um espaço de fuga aos constrangimentos de género, dominantes na trajectória de vida da mulher no mundo convencional. Salientamos, também, que o prolongamento das trajectórias de consumos tende a dessubjectivar a mulher, situação em parte sobreponível ao que acontece com o homem toxicodependente, ao colocá-la sob o poder da substância. No entanto, na "saída" dos consumos, há indicadores de que a mulher, a partir da experiência do "mundo das drogas", retira saber sobre si de modo a poder constituir-se como sujeito da sua experiência ou, dito de outro modo, parece ter criado condições para a (re)autoria de alternativas da sua vida menos contrangidas pelo "género" e pela "droga". O estudo empírico, de acordo com as conclusões, permitiu-nos, ainda, equacionar algumas pistas para a intervenção com mulheres toxicodependentes. 3
ABSTRACT Starting with a critical consideration of the social construction of "gender" and of "drug addiction", I intend to contribute for a better knowledge of the life trajectories of women that have used and abused drugs, discussing the different areas of their lives connected with their experience of drug abuse and giving a special emphasis to the relations they establish with men. The purpose of this research is, thus, to understand the meanings of drug consumption for women and the way gender constraints are reflected in those same meanings. Using a previously designed set of guidelines, I did some "in depth" interviews with women in order to obtain some meaningful narratives on their trajectories of heroin and cocaine abuse. For that purpose, I developed ten "life stories" of women drug addicts going through a phase of "getting rid" of drugs. The content of these "life stories" was then analysed with the help of grounded theory. Among the varied conclusions obtained from this research, I would stress the realisation that together with the great influence exerted by men in the consumption trajectories of these women other alternative existential meanings emerge out of their experience of drug abuse. The experience of drugs, in a first moment, emerges as a way of escape from gender constraints, dominant in the life trajectory of women in the more conventional world. I also realised that the continuation of these trajectories of drug abuse tends to make women lose their quality as subjects, a situation partially comparable to what happens with male drug users, simply because drugs end up acting as an object of power. However, in the phase of "getting rid" of drugs, some other indicators emerge suggesting that those women use that experience of immersion in the "world of drugs" as a way to acquire some knowledge on their inner selves so that they become able to constitute themselves as subjects of that experience. It is as if women manage to create conditions to (re)author some life alternatives less constrained both by "gender" and "drugs". According to the conclusions, the empirical study has also enabled me to consider some new possibilities for the clinical treatment of women drug addicts. 4
RESUME En partant d'une réflexion critique de la construction sociale du "genre" et de la "toxicomanie"; nous avons pour but d'améliorer la connaissance des trajectoires des femmes qui utilisent et abusent de drogues, en abordant les différentes parties d'une vie qui se mêlent avec leur expérience de drogue, et en apportant une attention particulière à leurs liaisons avec les hommes. L'objectif de la recherche est donc, de comprendre le pourquoi de la consommation pour les femmes et la façon donc leurs contraintes propres se reflètent dans ces significatifs. En utilisant des lignes guides pré-établies, nous avons fait auprès des femmes des enquêtes "en profondeur" pour obtenir des faits concrets sur leurs trajectoires avec l'héroïne et la cocaïne. Pour cela nous avons élaboré dix "histoires de vie" sur les femmes toxicomanes en phase de "sortie" des drogues, à partir desquelles nous avons développé un processus d'analyse de contenus ayant comme support la grounded theory. Parmi les diverses conclusions de cette recherche, nous notons que, au-delà de l'influence importante des hommes dans la trajectoire de consommation des femmes, apparaissent des raisons existentielles alternatives à l'expérience des drogues par les femmes. Dans une première phase, l'expérience des drogues devient un espace de fuite aux contraints du genre, dominant dans la trajectoire de vie de la femme dans un monde conventionnel. Nous notons aussi que le prolongement des trajectoires d'abus mènent les femmes à perdre leurs qualités comme sujet, une situation qui peut être comparée à ce qui arrive aux hommes toxicomanes, car les drogues transforment les femmes en objet de puissance. Cependant dans la phase de "sortie" des drogues, il y a des signes qui montrent que l'expérience de la femme du monde des drogues, l'amène à mieux se connaître de façon à se considérer comme sujet de ses expériences ou, dit d'une autre façon, lui permet de d'accéder aux conditions lui permettant de recréer des solutions alternatives pour sa vie, moins contraignantes par le "genre" et par la "drogue". L'étude empirique, d'après les conclusions, nous a aussi permis de trouver de nouvelles possibilités pour le traitement clinique des femmes toxicomanes. 5
AGRADECIMENTOS À Prof. Doutora Celina Manita que orientou com empenho inexcedível, e com afecto, o percurso de construção deste trabalho. Ao Prof. Doutor Luís Fernandes com quem compreendi que há sentidos positivos na desviância. À Dra. Helena Dias (e à direcção do IDT) pelo acolhimento do projecto, pela partilha do seu saber clínico e pelo encorajamento profissional. Ao Dr. António Roma Torres e à Prof. Doutora Gabriela Moita pelo desafio intelectual constante, significativo para o desempenho do papel de investigadora. A bons colegas, da Universidade e dos CAT(s), que disponibilizaram material bibliográfico e partilharam saber de experiência feito. À Dra. Olinda Azevedo, à Dra. Andreia Rodrigues e à Dra. Raquel Escudeiro pela colaboração na preparação do corpus das entrevistas. À Dra. Alexandra Oliveira e à Prof. Doutora Carla Machado pela colaboração como "juízes independentes" na análise das entrevistas. À Dra. Joana Ferreira da Silva e à Dra. Ana Margarida Dias pela persistência e cuidado colocados na revisão do texto e das referências bibliográficas. Ao Dr. Paulo Eduardo e à Dra. Susana Mesquita pela disponibilidade demonstrada na realização das traduções. À Equipa do CAT-Gaia, pela boa onda, pelo optimismo, a amizade e a colaboração. À Gabriela, à João, e à Paula, muito presentes ao longo deste percurso. Aos meus muito amigos. À minha mãe e ao meu pai, e à minha sogra. 6
Ao Luís, à Camila, ao Henrique, e à nossa história de vida.
ABREVIATURAS CAT Centro de Atendimento a Toxicodependentes DST Doença Sexualmente Transmissível IDT Instituto da Droga e da Toxicodependência IPDT Instituto da Prevenção e da Toxicodependência TSA Teoria do Sujeito Autopoiético SPTT Serviço de Prevenção e Tratamento da Toxicodependência PST Posição de Significação Transgressiva NIDA National Institute on Drug Abuse 8
Na sequência destas interrogações e da pesquisa efectuada numa primeira fase, concluímos que a literatura científica que tinha como objecto de estudo as mulheres toxicodependentes era parca. Por outro lado, constatámos que existia, nos estudos analisados, uma ênfase sistemática nos temas da gravidez (e bebés) e da maternidade (e crianças). Tornou-se para nós evidente o constrangimento de saber relativo à compreensão da mulher toxicodependente, ao ser valorizado exclusivamente o seu papel de mãe. Deparámo-nos, então, com uma assimilação entre os saberes que o senso comum e a ciência produzem acerca das mulheres, denunciando ligações "ocultas" que assentam num só modo de "fazer o género"6. Um outro conjunto de questões se seguiu: 0 que há de comum nesse conhecimento? De que modo a trajectória das mulheres nas drogas espelha os constrangimentos de género de "ser mulher"? Será que o conhecimento científico espelha essa realidade experíencial das mulheres (constrangidas pelo género) no modo como foca determinados temas em detrimento de outros, no modo como procede às interpretações dos comportamentos, diferencialmente consoante se trate de homens ou de mulheres? Em síntese, o baixo número de mulheres toxicodependentes comparado com o dos homens, as significações atribuídas diferencialmente às mulheres utilizadoras de drogas e a centração no tema da maternidade, quando se toma como objecto de estudo estas mulheres, apontam incontornavelmente para significações associadas às suas trajectórias, ligadas ao género. O conhecimento lacunar sobre as mulheres como pessoas toxicodependentes e, consequentemente, a necessidade de o aprofundar constitui-se como exigência, traduzida em concreto na recomendação de uma equipa canadiana7 de investigação: Utilizamos esta expressão assumindo a tradução literal de doing gender. 7 Grupo de investigação denominado "The task group on gender-focused research". 15
«Since past research has focused largely on males, much important qualitative and descriptive information needs to be developed for women (...), particularly with regard to the social context of substance use and social interaction issues.» (recomendação 4.3.5, cit. in Ferrence, 1994, p.42) A busca de um saber potenciador do acesso a significados "verdadeiros" sobre as mulheres toxicodependentes, no sentido de transcender o mais possível os constrangimentos socio-culturais do discurso, implica uma compreensão de cariz fenomenológico. Tal como Rosenbaum (1981, 1990) consideramos essencial a compreensão do significado existencial do consumo de drogas da mulher a partir da perspectiva da utilizadora. Destacamos, desde já, Marsha Rosenbaum, que citaremos por diversas vezes ao longo do nosso trabalho, porque constitui uma referência importante na investigação de tipo qualitativo com mulheres toxicodependentes. Interrogava-se a autora, na sua obra "Women on heroin", sobre o significado das mulheres no "mundo da droga": «What it means to be a women in this arena?» (Rosenbaum, 1981, p.7). Na mesma senda, acrescentámos uma outra questão de género sobre as mulheres toxicodependentes: São mulheres que se libertaram dos constrangimentos associados aos estereótipos de género ou são mulheres duplamente exploradas como mulheres e toxicodependentes? Como última inquietação motivadora do estudo, pareceu-nos existir uma assimilação da narrativa dominante de género (mulher "tradicional": vítima do marido, cuidadora dos filhos e com um duplo emprego) à narrativa da mulher toxicodependente, da qual derivou uma última questão: Será que é atribuída à mulher toxicodependente uma imagem de mulher "vítima da droga, do homem e da prostituição"? Será esta a narrativa de género da "mulher desviante?" Desenvolvemos, então, a partir destas e de outras questões orientadoras, uma investigação no sentido de contribuir para o conhecimento das trajectórias de mulheres 16
que usam e abusam de drogas, "apreciando" o modo como a mulher vive na relação com os companheiros, com os filhos, com a família e os amigos e, ainda, na relação com o trabalho. De acordo com os significados das trajectórias de consumo e com o modo como se espelham nesses significados os constrangimentos de género, propusemo-nos, também, equacionar algumas pistas de intervenção com mulheres toxicodependentes. Apresentamos, de seguida, a estrutura do presente trabalho, constituído, basicamente, por duas grandes partes, uma teórica e outra prática. A primeira parte consiste no Enquadramento Teórico que se subdivide em dois capítulos. O Capítulo I, intitulado "Na perspectiva do Construcionismo Social", organiza-se em função dos dois temas/pontos centrais do nosso trabalho: o primeiro a propósito das "Contribuições para a desconstrução do género" e o segundo sobre a "Construção social da toxicodependência". No primeiro ponto, colocamos a tónica no doing gender e reflectimos sobre o modo como as questões de género têm sido consideradas no contexto terapêutico, ressaltando, finalmente, as contribuições das abordagens narrativas na desconstrução do género. Apesar dos movimentos sociais e da progressiva afirmação da igualdade de direitos das mulheres no mundo ocidental, os estudos indicam que são ainda manifestos os estereótipos de género diferenciais nos discursos dominantes. Realçaremos, por isso, a repercussão dos estereótipos no modo de ser mulher ou homem num dado contexto social e cultural. Em seguida reflectimos sobre algumas das principais críticas, desenvolvidas sobretudo pelas escolas feministas, ao modo como o género tem sido tratado no contexto terapêutico (na terapia familiar mais especificamente). Assim, reflectir-se-á sobre o 17
processo terapêutico no âmbito do pós-modernismo, no qual se enquadra harmoniosamente uma abordagem "gender sensitive". Referimos, também, o contributo das terapias narrativas por se ajustarem particularmente à abordagem da questão do género. Sendo o "género" influente nas narrativas dominantes em que as pessoas são aculturadas, daremos conta do desenvolvimento de narrativas problemáticas, porque restritivas, e da importância da desconstrução dos constrangimentos de género, de modo a proporcionar a autoria de narrativas existenciais alternativas. No segundo ponto, dando ênfase à dimensão social, prosseguimos com uma abordagem crítica sobre a problemática do uso/abuso de drogas e acentuamos a importância da subjectividade do indivíduo enquanto actor social, dando relevo às significações das trajectórias desviantes de uso de drogas. Centramo-nos, portanto, na compreensão do fenómeno da toxicodependência como problemática relacionada com o regime proibicionista de utilização de drogas, procurando uma conceptualização não reducionista às vertentes individual e/ou da substância. Nesse sentido, adoptamos uma perspectiva fenomenológica, considerando o indivíduo como produtor da sua própria subjectividade enquanto actor social. Ou seja, enquadrado pelo Interaccionismo Simbólico, realçamos como os significados da "realidade" são construídos pelo indivíduo na interacção social. Finalmente, enunciamos a Teoria do Sujeito Autopoiético como modelo de referência para o nosso estudo com mulheres toxicodependentes. Propomos, ainda, a abordagem narrativa da toxicodependência, a partir do referencial da TSA, dadas as suas potencialidades para lidar com as dimensões sociais e culturais, tão mais relevantes quanto se trata da "toxicodependência no feminino". Consideramos que, através do modelo narrativo, se poderá aceder à fenomenologia própria da mulher toxicodependente 18
e, consequentemente, sustentar propostas de intervenção específicas no sentido da (re)construção de trajectórias alternativas de sentido. No segundo capítulo, com o título "Mulheres e Uso de Drogas", desenvolve-se o conhecimento produzido acerca das mulheres toxicodependentes, organizado em torno de três pontos específicos. No primeiro ponto consideram-se alguns elementos históricos relativos à utilização de drogas pelas mulheres. No segundo dá-se relevo à investigação desenvolvida tendo como objecto de estudo a mulher toxicodependente. Finalmente, no terceiro ponto desenvolve-se o tema das significações associadas às trajectórias de consumo das mulheres, tendo em conta especificamente as áreas de "relacionamento com os homens", a "relação com os filhos" e a "relação com a actividade económica". A segunda parte é constituída pelo Estudo Empírico que se organiza em dois capítulos. No Capítulo III, sobre o "Método", descrevemos a metodologia utilizada, assim como os procedimentos de recolha de dados e de análise. Fundamentamos, em primeiro lugar, a opção por uma metodologia qualitativa de tipo biográfico dado o carácter fenomenológico do nosso estudo. Explicamos, no segundo ponto, os procedimentos que seguimos de modo a obter entrevistas "em profundidade" e, nos últimos pontos, apresentamos os procedimentos de análise de conteúdo das entrevistas. O Capítulo IV refere-se à "Apresentação e Interpretação dos Dados", onde se apresentam, em primeiro lugar, as sinopses das entrevistas e, num segundo ponto, a sistematização em quadros sinópticos de alguns dados. Num terceiro ponto são apresentados os dados da análise de conteúdo realizada (categorias e subcategorias). Num quarto ponto, com base nos processos de categorização, desenvolvemos os processos inferencial e de interpretação, referenciados aos dados. Procedemos, ainda, num quinto ponto, à classificação das trajectórias das mulheres em Posições de Significação Transgressiva em função da sua "Experiência de Drogas". 19
Concluimos a dissertação com uma "Reflexão Final", na qual nos propusemos realizar uma integração conceptual, de modo a tirar ilações úteis sobre o modo como se espelha a construção social do género nas trajectórias de vida das mulheres que utilizam drogas. Enunciamos, ainda, algumas pistas pragmáticas, num esforço último de aplicação dos dados provenientes do estudo empírico à realidade da intervenção com mulheres toxicodependentes. 20
«Há regras a respeito de como as ideias se mantém de pé e de como se suportam umas às outras.» Gregory Bateson8 PARTE I ENQUADRAMENTO TEÓRICO Bateson (1996, p. 33). 21
Organizámos o Enquadramento Teórico em dois capítulos, o primeiro relacionado com as perspectivas do Construcionismo Social e o segundo relacionado especificamente com o tema "Mulheres e o Uso de Drogas". Capítulo I: NA PERSPECTIVA DO CONSTRUCIONISMO SOCIAL «The locus of knowledge is no longer taken to be the individual mind but rather patterns of social relatedness.» Kenneth Gergen9 A importância da construção humana na produção do saber científico é um dos fundamentos do Construcionismo Social: «...a ciência é um processo de construção individual e/ou social, e o nascimento do conhecimento científico não pode ser dissociado dos indivíduos e das suas práticas sociais.» (Gonçalves, 2000, p.27) K.Gergen em 1985, reflectindo sobre o "Movimento do Construcionismo Social na Psicologia Moderna", chamou a atenção para o alcance epistemológico da perspectiva adoptada quando se faz ciência, quer ao nível do conhecimento resultante, quer ao nível do impacto que o conhecimento científico inevitavelmente tem na experiência das pessoas. Gergen (1994, p.129). 22
Refiram-se alguns dos aspectos principais realçados pelo Construcionismo Social segundo a sistematização de M. Gonçalves (2003): 1. As pessoas constróem os significados na interacção social: a construção do conhecimento é inseparável da negociação interpessoal de significados. 2. A significação é fundamentalmente construída na linguagem: a linguagem «molda de forma inexorável o que percebemos» (p.50). 3. O contexto histórico e cultural constrange também o modo de produção de significados: a realidade é construída socialmente na base da perpetuação de relações de poder vigentes. Assim, nesta perspectiva a realidade não está separada da significação, nem o conhecimento está separado da existência. O entendimento da realidade passa por, mais do que conhecer "factos", que não existem por si só, conhecer os significados que o indivíduo lhes atribui. Esses significados são construídos na interacção social e veiculados através da linguagem. Assim as experiências possíveis da realidade são, simultaneamente, plurais e únicas. Por via do movimento do Construcionismo Social, o conhecimento científico é considerado múltiplo, consoante a perspectiva que o indivíduo assuma face à realidade e consoante a diversidade de experiências vivenciadas. Trata-se, portanto, de um posicionamento que vai de encontro às referências do pós-modernismo: «At the heart of post modernism is pluralism: a belief in multiverses and multiplicity, implying that there are as many ways to understand and experience the world as there are people who experience it. Post modernism is about multiplicity, plurality, and indeterminacy. Post modernism argue that all human experience is particular, local, and culturally constituted.» (Moules, 2000, pp. 229-230). 23
Todo o conhecimento é co-construído na interacção entre sistemas (não há sistemas observadores e sistemas observados10), o que tem implicações epistemológicas tanto na leitura da realidade como nos modelos terapêuticos adoptados. Há uma dimensão ideológica no construcionismo social ao conceptualizar a realidade como socialmente construída, sendo essa construção organizada de forma a perpetuar relações de poder. Neste modelo é assumida uma preocupação em termos de política e responsabilidade social, assim como é defendida a necessidade dum posicionamento político, também, face à intervenção. Tal como a posição do investigador/a, sobre os fenómenos a estudar, não é neutra, a posição do/a terapeuta face à intervenção também o não é. Os movimentos pós modernistas impelem, assim, à compreensão do indivíduo numa matriz de relações e não na ilusão do individual. Como já referimos, os fenómenos psicológicos não são entidades essenciais existentes no espaço e no tempo e reguladas por leis universais. São fenómenos localizados nos actos discursivos co-produzidos pelas pessoas que tomam a forma narrativa (Alves, 2000, p. 46). Se não há uma realidade estável a que o próprio e os outros possam aceder, então o conceito de self, identidade ou personalidade, testemunhos de uma individualidade reificada, perde sentido (Gonçalves, 2000). No contexto da pós-modernidade, das "exigências da multirealidade" emerge o conceito de autoria em que o indivíduo se constrói e se projecta numa diversidade de si, na interacção com o Outro e com o mundo: «No fundo, a emergência da autoria testemunha a passagem do indivíduo da condição de objecto à condição de sujeito de um projecto.» (Gonçalves, 2000, p.20) 10 Cf. Almeida Costa (1994) sobre o construtivismo e a epistemologia dos "sistemas observantes" que vem substituir a epistemologia dos "sistemas observados". A dicotomia positivista entre sujeito e objecto ou entre observador e observado, ainda presente nos modelos da cibernética de primeira ordem, é questionada e é proposta a concepção de que ao observador também se aplicam as características de todo o sistema vivo: «Todo o observador, ao observar um sistema, distingue-o como tal, constrói-o, e forma com ele outro sistema de que é participante.» (Almeida Costa, 1994, p.106) 24
expressividade, remetem o homem para a esfera pública e produtiva e a mulher para a esfera privada e doméstica. No mesmo sentido afirma Conceição Nogueira (2001 b, p.183): «As diferenças biológicas serviram para colocar as mulheres "nos seus devidos lugares", isto é, na esfera familiar e nas relações de suporte afectivo.» A construção social do género é tanto mais sólida quanto mais são as mulheres e os homens que participam dessa construção, não obstante esta ser restritiva das suas formas de conhecer, de pensar, de sentir e de se comportar (Hare-Mustin, 1994; Hoffman, 1990). A própria pessoa constitui-se como agente da sua conformação social, enquanto objecto de saber e poder. Ser mulher e ser homem são resultados da categoria social, mas esta categoria é também perpetuada pelo modo como se é homem e mulher. A diferenciação em função do sexo é, assim, recursivamente, sustentada. O modo de organização social é legitimado pelas diferenças decorrentes da categorização sexual e as correspondentes diferenças de poder "naturalizadas". Segundo West e Zimmerman (1991), "fazer o género" é inevitável pois a categoria sexual institui por si só a diferença. A contestação da investigação das "diferenças sexuais", veiculada nomeadamente pelas perspectivas da crítica feminista, visa denunciar que: «(...)a ciência em vez de proporcionar recursos neutros e objectivos para "descobrir" as naturezas fundamentais de homem e mulher é acima de tudo uma instituição social atravessada por relações de poder.» (Nogueira, 2001b, p.195) Como construcionista social, Judith Myers Avis (1996) desafia categoricamente os "fazedores do conhecimento": se o género e as relações sociais do género são construídas socialmente, também são passíveis de ser "desconstruídas, reconstruídas e transformadas" (p.220). Neste sentido, o feminismo, nas suas diferentes abordagens, é importante na busca de formas alternativas de conhecimento, nos contextos de investigação e nos contextos de intervenção. 31
De acordo com a proposta epistemológica de Sandra Harding (1986, cit. in Machado, 2000), assiste-se a três tipos de abordagens feministas de crítica à construção do saber, ao modo de "fazer ciência": o "empirismo feminista"; "a fenomenologia feminista" e o "pósmodernismo feminista". A primeira abordagem proclama a necessidade de considerar amostras de mulheres nos estudos científicos de modo a cumprir os critérios de neutralidade e representatividade da ciência (Machado, 2000). Ou seja, não saindo do paradigma positivista, é criticada a utilização do homem como referente universal no modo de fazer ciência. O homem tem representado o lugar de "falso neutro" na linguagem científica (Barreno, 1985, cit. in Machado, 2000), o que significa que o saber científico e o entendimento da realidade, de um modo geral, têm um cunho masculino. Tal como salienta Gilligan (1982): «How accustomed we have become to seeing life through men's eyes.»(p.6). A segunda abordagem, também chamada de standpoint feminism, toma como base epistemológica a experiência. Considera-se a diferença de experiências incontornável, quer em termos do significado como em termos do poder que encerra. Assim, considerando que o conhecimento produzido pelas mulheres faz parte dos "conhecimentos subjugados" (Riger, 1992, cit. in Machado, 2000), aquele não é igualmente veiculado e valorizado. Assim, para aceder ao entendimento da experiência da mulher, fora da grelha de interpretação masculina, é necessário dar-lhe voz. Uma terceira abordagem considera que é necessário atender à multiplicidade de conhecimentos possíveis, considerando que "a verdade da experiência" não decorre de nenhuma realidade essencial susceptível de ser conhecida (tão pouco existiria uma realidade ou experiência feminina una), mas sim que todo o conhecimento é função de diferentes dimensões de poder em que o sujeito se inscreve, seja o género, a classe, ou outras categorias sociais. Por isso, mais do que produzir saber sobre uma "verdade 32
feminina", será importante desconstruir as "verdades dominantes" e seus efeitos de poder sobre as interacções experienciadas pelo sujeito. É nesta última perspectiva que se enquadra um posicionamento pós-modernista de produção de saber sobre a influência do "género" na realidade relacional. Mais do que colocar a tónica na "diferença", que só por si reforça a visão diferencial "essencialista" entre homens e mulheres, é necessário conhecer os significados e o poder do discurso de género nas relações (Hare-Mustin e Marececk,1988, 2001). O mais importante é o modo como se vivem as diferenças e não as diferenças em si. Neste sentido a transformação social operar-se-ia, a par da desconstrução da diferença de poder na relação entre sexos, pela promoção da individualidade e da singularidade de cada mulher e de cada homem. Porque, convém não esquecer, a questão da desconstrução do género tem importância pelo modo como altera a realidade concreta e localizada de como as pessoas vivem, a autoridade e autoria que têm sobre ela (Potter, cit. in Nogueira, 2001a; Vale de Almeida, 1997). Em seguida reflectimos sobre algumas das principais críticas ao modo como o género tem sido tratado no contexto terapêutico, desenvolvidas, designadamente, no âmbito da terapia familiar. 33
1,2. Género e contexto terapêutico' «The dominant voice, the culturally designated professional voice, usually speaks and decides for marginal populations - gender, economic, ethnic, religious, political, and racial minorities...» Harlene Anderson16 A terapia e os terapeutas enquadram-se no discurso dominante e, por isso, têm grande influência na vida das pessoas, na definição da relação homem e mulher, no casal, na sociedade. Assim, o/a terapeuta tem um papel de grande responsabilidade política e ética, podendo constituir-se como agente do controlo social em lugar de ser promotor de mudança (Knudson-Martin, 1996; Hare-Mustin, 1994). Na óptica do construcionismo social, "fazer terapia" também não é um exercício neutro de acção e conhecimento realizado por terapeutas sem posicionamento, nomeadamente em relação ao género. Gehart (2001 )17 ressalta, em particular, o papel dos terapeutas na perpetuação dos preconceitos de género e, através deles, do poder diferencial que engendram na vida de homens e mulheres. No mesmo sentido sublinha Anderson (1997, cit. in Minuchin,1998, p. 398): 15 Optamos por restringir este ponto de reflexão sobre as relações de poder que o género assume no contexto terapêutico ao âmbito do modelo da "terapia familiar". Por um lado, porque é na conceptualização sistémica da realidade terapêutica que se situa um pilar fundamental do desenvolvimento das terapias narrativas e, por outro, porque se trata duma perspectiva que privilegiamos na leitura das questões de género e na consequente formulação de pistas para a (re)autoria da vida das mulheres. i6 Anderson (1997, cit. in Minuchin, 1998, p. 398). 17 O estudo centra-se no "efeito do poder do género" na experiência dos clientes na relação terapêutica; através de análise de conteúdo do discurso de clientes e terapeutas a autora confirma que ambos se comportam na interacção de acordo com os estereótipos de género. 34
«Sometimes unwittingly, sometimes knowingly, therapists subjugate or sacrifice a client to the influences of this broader context, which is primarily patriarchal, authoritarian and hierarchical.» A terapia familiar tem sido criticada por reproduzir a visão dominante de mulher e homem na família e na interacção social em geral, tanto na construção das suas teorias como na conceptualização das práticas. São terapeutas-mulheres quem protagoniza, de modo mais veemente, estas posturas críticas. Rachel Hare-Mustin, Carmen Knudson-Martin, Anne Mahoney e Virginia Goldner afirmam que os terapeutas ao ignorarem o género estariam a legitimar o desigual poder que aquele engendra na interacção social entre homens e mulheres. Hare-Mustin (1986,1994) considera que as questões de género são tratadas como um "segredo de família", como se não existissem, efectivamente minimizando as diferenças sexuais18. Knudson-Martin (1994) critica, concretamente, alguns modelos da terapia familiar19 pela associação que estabelecem entre o conceito de "diferenciação" e o desenvolvimento do homem e o conceito de "coesão" e o modo de ser feminino. Knudson-Martin e Mahoney (1999) desafiam a terapia familiar a reconhecer "gendertraps"20 que actuando insidiosamente nas relações, nomeadamente entre terapeuta e cliente, sustentam a diferença de poder entre sexos. Goldner (1988) referindo-se, também, à denegação do poder ligada ao género, apelida esta abordagem da terapia familiar como "homeostática"21. 18 De acordo com a formulação de Hare-Mustin (1986) a Terapia Familiar incorre no preconceito Beta, ou seja, parte do princípio de que não existem diferenças de género ou diferenças de poder relacionadas com o sexo. Segundo a autora há dois preconceitos principais na abordagem do género: o preconceito Beta, já referido, e o preconceito Alfa que dá ênfase à polaridade da diferença. 19 Cf. conceptualizações teóricas associadas ao Modelo Transgeracional. 20 São quatro as "gender traps"(Knudson-Martin e Mahoney, 1999): as diferenças são naturais; actuação sem consciência; ignorar diferenças de poder; a desigualdade já não existe. 21 A autora critica, nomeadamente, a conceptualização de Haley por iludir a questão do poder ligado à construção social do género e à sua importância nas famílias, não obstante "o poder" constituir um tema privilegiado na abordagem que o autor faz da interacção no contexto de terapia, por exemplo, o poder do sintoma na interacção. 35
Escamotear a narrativa de género seria, portanto, espelhar na sala de terapia a ideologia dominante. As estruturas tradicionais sexistas operam sobre a vida das pessoas, dizem as autoras Marianne Walters, Betty Carter, Peggy Papp e Olga Silverstein (1991), denunciando a "rede invisível" de poder associada ao género nas interacções. Lynn Hoffman (1990), reclamando-se da nova vaga da terapia familiar, pós-modernista, sustenta as críticas feitas à terapia familiar "clássica", reconhecendo que esta não foi sensível às questões sociais e políticas do género. O pós-modernismo contribui, de modo claro, para a consideração do género na terapia pela ênfase que dá à influência do contexto, da cultura e da linguagem na experiência humana (Dankoski e Deacon, 2000; Moules, 2000; Hoffman, 1990). Hoffman (1990) ressalta, em particular, o papel das abordagens narrativas na desconstrução do género dado o seu carácter assumidamente engagé. É no âmbito destas abordagens que a consciência social, e questões específicas como a marginalização e a opressão, se constituem como objecto de reflexão da terapia familiar (Dankoski e Deacon, 2000). No mesmo sentido, Nancy Moules (2000) considera que a terapia narrativa, ao valorizar a influência da cultura na criação de significados nas histórias pessoais, favoreceu a atenção às questões de poder diferencial implícito na prática terapêutica. A óptica pós-modernista proporcionaria, então, um enquadramento óptimo à desconstrução efectiva do poder ligado às prescrições diferenciais de género, já que os seus valores imanentes são os do pluralismo, da liberdade de escolha e da promoção de alternativas (Hare-Mustin,1994). A autora advoga que para este questionamento é necessário, antes de mais, não colocar a tónica na oposição das diferenças entre homem e mulher, mas antes no valor da diferença, no seu significado, transcendendo desse modo a perspectiva da diferença entre sexos (Hare-Mustin e Marecek,1988). 36
Salvador Minuchin (1998), representante do mainstream da terapia familiar, apesar de reconhecer o mérito à terapia narrativa22 - por trazer para o contexto de intervenção a influência da cultura no modo como as pessoas significam as suas experiências - tem, todavia, uma postura crítica em relação ao pós-modernismo. Será o mundo só histórias? - parece interrogar-se o autor, não conseguindo resolver a aparente dicotomia entre realidade e significações. Minuchin parece temer que se perca o posicionamento moral e ético no contexto terapêutico e com essa perda se dificultem as mudanças consideradas desejáveis para o sistema familiar. Moules (2000) e Oleson (1998), por seu turno, afirmam que com a perspectiva pósmodernista se corre o risco de descurar o questionamento das instituições e branquear posições e práticas opressivas. A crítica feminista aponta, assim, o risco de se desenvolver um escotoma face à existência duma realidade comum às mulheres na cultura patriarcal (será que não há relativismo a mais num mundo cheio de desigualdades?), o que tem fortes implicações nas políticas de género. Está, assim, em questão o risco de se perder de vista não só o sentido colectivo de uma voz no feminino (será a realidade tão singular e local?), como ignorar o facto de haver discursos mais dominantes que outros (Moules, 2000; Hare-Mustin,1994). A construção de género tem implicações no pensamento, na acção e na linguagem (HareMustin,1994), tornando-se determinante do modo como é dada voz ao discurso e do tipo de impacto que este tem sobre as interacções. Ao considerar as questões de género na intervenção não bastará alargar as oportunidades de discurso, pois a expressão de uma voz não garante a repercussão dos sentidos emergentes. Os discursos dominantes tendem a dissolver os minoritários - nem todas as leituras têm a 22 O autor considera que a terapia narrativa incorre no paradoxo de, ao nível da prática, favorecer a expressão duma voz singular, "calando" as vozes múltiplas do contexto familiar, quando a nível conceptual enfatiza o contexto familiar como locus intermédio do relacionamento social (Minuchin, 1998). 37
mesma repercussão na cultura, a mesma possibilidade de globalização, o mesmo poder (Santos, 2000). M. Vale de Almeida (1997) procurando reforçar as implicações do género na vida das pessoas, critica o construcionismo social por reduzir a leitura do género ao nível do pensamento. Nesse sentido, vai mais além, ressaltando a importância da inscrição corporal das opções culturais: «o corpo aprende silenciosamente, inconscientemente, mimeticamente, a "dizer" certas coisas e a legitimá-las como "carnais"» (Vale de Almeida, 1997, p.76). Também Virginia Goldner (1988) afirma que o género marca de forma constitutiva a vida do indivíduo e, por isso, defende a importância do processo terapêutico se centrar especificamente na desconstrução do género. Haddock e Zimmerman (2000), propõem programas de formação específica, centrados no tema do género, considerando a necessidade de capacitação de terapeutas no sentido de constituírem a terapia como um espaço dialógico gender sensitive23 Knudson-Martin e Mahoney (1999) preconizam que o indivíduo, no seu desenvolvimento, possa fazer a "diferenciação"24 das construções de género no sentido de alargar opções existenciais. O desafio aos constrangimentos das construções de género, que limitam as capacidades individuais e relacionais, é sugerido também por Adams-Westcott, Dafforn e Sterne (1993) no trabalho narrativo que desenvolvem - desconstrução de histórias opressivas e de sujeição e construção de histórias generativas promotoras de agência e de alargamento de alternativas. Para a construção dum espaço dialógico "gender sensitive", como foi já referido, é de suprema importância a revisão do posicionamento do/a terapeuta, já que a dominância do seu discurso é incontornável pois, por inerência ao seu papel, tende a representar o poder institucional e o controlo social. Diversos autores recomendam, assim, um 23 Cf. Haddock e Zimmerman (2000) que propõem programas de formação específica, centrados no tema do género, de capacitação de terapeutas para uma terapia "sensível ao género". 24 Extrapolação, pelas autoras, do conceito de "diferenciação do self face à família (oriundo da terapia familiar transgeracional) para a "diferenciação do self face ao contexto social alargado. 38
exercício de constante vigilância auto-reflexiva, de forma a dar-se conta dos seus próprios preconceitos na conversação com seus interlocutores (Tomm, 1987), em particular os relacionados com o género (Allen, 200125; Gehart, 2001; Knudson-Martin e Mahoney, 1996). Uma vez que ao nível do contexto terapêutico, tal como ao nível dos vários "dispositivos normalizadores", a narrativa dominante de género perpassa incessantemente, é efectivamente necessária uma análise do/a terapeuta sobre si próprio para potenciar liberdades em vez de promover constrangimentos: «(...)esto exige que los terapeutas questionem las condutas y atitudes "normales" consagradas por la tradición y se vuelvam más sensibles a las manifestaciones dei condicionamento por género en las interacciones cotidianas.» (Walters, Carter, Papp e Silverstein, 1991, p. 22). Nancy Moules (2000) vai para além da didáctica de género, considerando que a prática terapêutica pós-moderna, integradora da diferença como mais-valia, não se pode reduzir à racionalidade da intervenção e propõe a reconexão com o lado mais espiritual da vida na leitura da realidade, tanto no quotidiano como na terapia. A promoção dos valores da igualdade e da pluralidade, segundo a autora, passam pelo reencontro com a voz do mundo e da terra - "conection in our greater-than-human worlds"26. No mesmo sentido, Hare-Mustin (1986) apela à sensibilidade ao que há de comum na experiência humana, reafirmando a importância de se transcender a dicotomia entre homem e mulher. 25 A autora refere-se à importância da auto-vigilância do/a terapeuta no modo como lida com o género, considerando nomeadamente a interpenetração da esfera pessoal e privada do/a terapeuta como pessoa; por exemplo a mulher, terapeuta ou investigadora, pertence simultaneamente a uma categoria social dominante (terapeuta/investigadora) e dominada (mulher). Expressão que faz parte do título do artigo referenciado (Moules, 2000). 39
1.3. Contribyíções da terapia narrativa «We live by the stories that we have about our lives, that these stories actually shape our lives, constitute our lives, and that they embrace our lives» Michael White27 O Construcionismo Social, pela importância que atribui à influência da dimensão socioculturel na criação dos significados, constitui o enquadramento epistemológico das abordagens narrativas (Hoffman, 1990; Gergen, 1985). A pertinência de um modelo narrativo28 de produção de saber, ou seja, um modelo em que o conhecimento do indivíduo é organizado e mantido por narrativas, está, efectivamente, fundamentada na premissa de que a realidade é construída socialmente na interacção e através da linguagem. As narrativas são quadros de interpretação da experiência própria, na relação com os outros, e são determinantes não só do sentido que se dá à experiência como das experiências que se tem na vida (White, 1993,1995). M. White e D. Epston (1993, p.27) ressaltam na sua leitura narrativa da realidade os seguintes pressupostos construcionistas: 1. O conhecimento do mundo faz-se através da experiência vivida e não a partir dum conhecimento directo do "real". White (1995, p. 14). Modelo que tem por base de analogia o texto e sua estrutura narrativa. 40
veiculadas por si próprio, que assim favorecem o constrangimento existencial e não o alargamento de opções de vida da pessoa. Lynn Hoffman (1990) refere-se a este processo como uma "conversação etnográfica", no mesmo sentido em que Anderson e Goolishian (1996) se referem à perspectiva "colaborativa" do "not knowing approach". Harlene Anderson e Harold Goolishian (1996) não só enfatizam o processo conversacional "deshierarquizado" como recusam a ideia de terapia, considerando que o "perito é o cliente". White e Epston (1993) corroboram, em certa medida, este posicionamento de redução da hierarquia no contexto terapêutico, de modo a facilitar a desconstrução de poder nas "histórias opressivas" que as pessoas vivenciam. Não advogam, no entanto, que se anule o papel distintivo do/a terapeuta, até pela importância que atribuem a este/a ao nível das dimensões política e ética da terapia. M. Gonçalves (2003) traça uma distinção, nas abordagens narrativas37, entre "modelos centrados no problema" e "modelos centrados nos comportamentos patológicos", atribuindo o mérito, aos "modelos centrados no problema", de valorizarem a pessoa e não reificarem os problemas, já que conceptualizam os problemas como resultado duma "narrativa totalizante" constrangedora do modo de vida da pessoa38. É este posicionamento, com ênfase nas "narrativas problemáticas" em detrimento das leitura narrativas dos fenómenos psicopatológicos, o que mais nos interessa já que estamos atentos ao jogo de poder e saber na construção dos problemas. Os modelos 37 M.Gonçalves (2003), fazendo um contraponto aprofundado entre os modelos, ressalta o dilema com que se depara o terapeuta narrativo face às duas posições: o modelo "centrado em problemas" pode ser desvalorizado porque, não obstante fazer uma utilização "minimalista" de conceitos nosográficos, recusa a "existência" de patologia e não adopta o discurso terapêutico dominante; a leitura narrativa com referência à psicopatologia facilitaria a articulação com equipas e instituições terapêuticas mas é questionada porque o modelo narrativo acaba por ser cooptado pela psicopatologia tradicional. 5a Pelo contrário, de acordo com M.Gonçalves (2003), as abordagens narrativas centradas na psicopatologia valorizam o problema ao potenciarem um modelo de competência/défice em termos de "dotes" narrativos da pessoa (maior ou menor funcionalidade narrativa). 47
narrativos "centrados no problema" ganham particular relevância na abordagem das questões de "género" e do fenómeno "droga", em que, inquestionavelmente, há um domínio das dimensões social e cultural sobre o individual. Face a estes temas, consideramos que a utilidade dos conceitos nosográficos não é óbvia, podendo até ser contraproducente já que favorece a reificação do problema e a sua redução ao plano individual, fazendo perder de vista a construção social subjacente. Independentemente de algumas especificidades destes modelos39, o objectivo da terapia narrativa é restituir a autoria da existência à própria pessoa, passando pela "externalização" dos problemas e sua dissolução, pela identificação de "resultados únicos" das narrativas dominantes e ampliação de "excepções" às restrições das histórias de vida, alcançando-se então a (re)construção de narrativas alternativas existenciais. O processo terapêutico de reautoria narrativa é sistematizado, a partir de diferentes autores, por M. Gonçalves (2003, p.69): «(...) os problemas dissolvem-se à medida que a conversação terapêutica se desenvolve de um modo dialógico, que outras vozes vão sendo ouvidas, que se criam novas perspectivas e que se tornam obsoletas as narrativas prévias. Ou seja, a questão que deve organizar a actividade do terapeuta não é a de como um problema pode ser resolvido, mas antes quais são as pressuposições que o sustentam e como é que estas se podem ver desafiadas (i.e. dissolvidas) no diálogo entre os diversos intervenientes.» 39 Cf. M.Gonçalves (2003) acerca das especificidades dos modelos, representados por diferentes autores, que adoptam a concepção de narrativa problemática. 48
c. Narratiwas de género e reaytoria «Gender is one of the most powerful and dominant stories informing our personhood.» Alan Parry e Robert Doan40 A construção social do género sustenta ou prescreve ao homem e à mulher determinadas narrativas de acordo com a ideologia dominante. Esta transmite, de modo preponderante, duas narrativas dominantes e complementares que estabelecem, através de uma "rede invisível", diferentes trajectórias para os homens e as mulheres: os homens "agentes" da sua história e as mulheres "subordinadas" da sua história (Walters, Carter, Peggy, e Silverstein,1991). De acordo com as autoras, e tal como já foi referido, há programas distintos de "masculinização" e de "feminização". O homem sustenta a definição de si na capacidade de realização de tarefas que dependem, essencialmente, de papéis exteriores à família, enquanto que a mulher se constitui como pessoa em função do "cuidado dos outros" - a definição de si mesma advém da capacidade de expressão emocional e de satisfazer as necessidades dos outros. Se a inibição da expressão emocional e a distância íntima fazem parte do papel de homem, a dependência, nomeadamente económica, e a falta de poder são requisitos do papel de mulher. A valoração diferencial inerente às prescrições de género é óbvia, a dependência da mulher é socialmente menos positiva que a desconexão emocional do homem, já que traduz menor poder social e político (Walters, Carter, Peggy, e Silverstein,1991). Também Zimmerman e Dickerson (1994) afirmam que as narrativas não têm todas o mesmo impacto nas interacções41, umas são mais dominantes que outras em função das Parry e Doan (1994, p.130). 49
categorias sociais em que a pessoa se inscreve, e do poder que medeiam. Se a experiência de poder decorre do posicionamento do indivíduo face às diversas categorias sociais, então, é importante proceder à análise dos níveis de dominância ou subordinação acumulados42. Quando apreciamos a influência da narrativa de género na vida da pessoa é importante ter em conta os diferentes contextos sociais em que ela se insere (como, por exemplo, a classe social). Como diz M.Vale de Almeida (1997) só podemos analisar as significações de género de modo socialmente integrado: «Os símbolos de género são investidos de significado pela sociedade em que ocorrem. Daí déverse comparar e inter-relacionar estes símbolos e significados com outros símbolos e significados operantes numa dada sociedade e as relações sociais com base no género com outras formas de vida social.» (p. 70). M. White e D. Epston (1993), convocando Foucault, sugerem ainda que os dispositivos de controlo social são dominados diferencialmente em função do género, considerando que é mais frequente os homens serem os "instrumentos" do "olhar" normalizador e as mulheres o seu "objecto", uns mais que outros com probabilidade de "dizer ou ser dito" (White, 1993, p.53; White e Epston, 1993, p. 40). Poder-se-ia falar, então, de narrativas "genderizadas" na medida em que há implicações diferenciais do género na capacidade de autoria de vida das mulheres ou homens, resultantes, em última instância, de narrativas incrustadas desde há muito na sociedade Parece-nos existir um paralelismo com as propostas do Interaccionismo Simbólico, onde, pressupondo que os actores se definem uns aos outros, se ressalta a existência de diferenciais de poder que permite a uns, mais que a outros, ter voz afirmativa (Charon, 1979). Nesta leitura sobre o diferencial de poder, quando aplicada ao género, as mulheres seriam, então, mais definidas do que o que definem, tendo uma voz subordinada. Há conhecimentos subjugados, no sentido em que nem todas as experiências são igualmente ouvidas e consideradas (Riger, 1992, cit. in Machado, 2000). 50
patriarcal43. A questão de género tem um background histórico-cultural extenso que estrutura de modo consistente a "macronarrativa" de género (Gergen e Gergen, 1988). A experiência individual como mulher, tal como a do homem, é então constrangida em função da "macronarrativa" em que se enlaça a narrativa individual. Da narrativa da mulher, saturada pelo constructo de género, decorre, no entanto, um sentido mais problemático já que se trata duma narrativa restritiva de poder, que a confina a um mundo mais pequeno que o do homem. A influência da cultura e da linguagem na interacção social em função do género outorga, pois, um domínio de "voz" diferencial (Adams-Westcott, Thomas e Sterne, 1992). J.L. Zimmerman e V.C. Dickerson (1994) referem que as mulheres jovens tendem a orientar-se por uma história da autoria de outrem (representante da sociedade patriarcal), muitas vezes nem se dando conta que podem ter voz própria no desenrolar da sua vida. Na primeira adolescência as jovens perdem o domínio da sua vida, duvidando do seu saber, questionando a sua postura (por exemplo, perdem a descontracção). As prescrições sociais de género calam a sua voz e limitam o seu modo de ser. Os autores ressaltam, ainda, quão diferente é percebido socialmente o comportamento de "busca de autoria" de uma jovem em relação a um jovem - a rapariga é designada como "desafiadora" porque manifesta um comportamento em desacordo com as expectativas sociais, enquanto que o rapaz transita do desígnio de rebelde para "senhor de si", já que o seu desempenho está em conformidade social. Assim, Zimmerman e Dickerson (1996)44 salientam a importância de tornar visíveis as influências que silenciam as jovens e que moldam a maneira como se vêem a si próprias, e como se relacionam consigo e 43 Há prescrições de narrativas de género diferenciais em função dos pressupostos patriarcais (Walters, Carter, Peggy, e Silverstein,1991): autonomia, poder e desvinculação emocional, para o homem; dependência, falta de poder e vinculação emocional, para a mulher. 44 Segundo Zimmerman e Dickerson (1996) as mães e os pais têm um papel fundamental neste processo de desconstrucção dos constrangimentos de género, pois "passaram toda uma vida relacionando-se com o mundo e com o outro em função do género": as mães "reclamando voz para si própria" e os pais "abrindo espaço à voz das filhas e das mulheres" e ficando na rectaguarda (p.246). 51
com os outros, de forma a reabilitar a própria voz, «to be in the world in their own preferred ways" (p.247). Ao elaborarmos neste ponto uma reflexão sobre narrativas de género e reautoria não pretendemos apontar a existência de "uma verdade mais verdadeira" sobre a realidade da mulher, mas antes apontar pistas no sentido da desconstrução das verdades dominantes instituídas na interacção social, cujos efeitos de poder, sobre a mulher em particular, limitam as suas experiências e significações potenciais: «(...) hay personas que se esfuerzan por construir su vida según determinadas historias y que siguen sus proprias ideas, pêro que tienem dificultades en este empeno debido a los relatos dominantes y descalificadores que otras personas mantienem sobre ellos y sus relaciones.» (White eEpston, 1993,87). A sensibilidade do pós-modernismo à diferença acentua a importância das experiências de resistência aos estereótipos de género de modo que cada mulher, e cada homem, possam alargar as suas opções existenciais sem o constrangimento das prescrições de conformidade social de acordo com o sexo de pertença. Neste sentido o "modelo de busca de autoria", a que nos referimos no ponto anterior, constitui um desafio às mulheres, ou homens, para se diferenciarem do "guião de género", prescrito pela ideologia dominante, num contexto dialógico, «a context that contributes to the exploration of other ways of living and thinking» (White, 1995, p.19). 52
Na concepção da "terapia narrativa" é colocada a ênfase na desconstrução de determinadas práticas de poder da nossa sociedade, que resultam na opressão das pessoas. Invocando Foucault, estararíamos perante pessoas-sujeito tornadas pessoasobjecto, que, porém, encerram em si o desejo de se constituírem autores da sua vida: «É a vontade de poder como força activa da vida,..., [que significa] força e dinamismo interior capazes de aniquilar o saber e o querer constituídos tradicionalmente.» (Carvalho, 2001, p.44). 53
2. Construção social da toxicodependência: entre o proteccionismo social e a auto-organização pessoal «...there is only one offense against authorithy: self-control.» Thomas Szasz45 Neste ponto abordamos o modo como o regime de proibicionismo em torno das drogas justifica, em grande medida, a constituição do consumo de drogas como fenómeno problemático. Sustentamos a importância, para o conhecimento do fenómeno, da consideração da voz experiencial dos próprios actores sociais e dos significados de que se revestem os seus comportamentos de utilização das drogas. Propomos a abordagem do comportamento transgressivo com base nas teorias de autoorganização, contemplando a trajectória do indivíduo nas drogas e os seus significados. A partir da Teoria do Sujeito Autopoiético (Agra, 1990, 1991) fazemos uma aproximação ao modelo de terapia narrativa, aplicado às carreiras de consumos. para Na intervenção na toxicodependência consideramos central a reconstrução da subjectividade do sujeito, perdida, eventualmente, na trajectória de consumos de drogas. Ou seja, salientamos que a reautoria, em função da "vontade de saber e poder sobre si", é essencial na vida das pessoas e que se pode expressar em múltiplas alternativas existenciais, inclusivamente desviantes. Szasz (1998, p. 175) 54
2.1. O proibicionismo e a dessubjjectíwação do toxicodependente «...a materialidade do fenómeno droga inscreve-se, assim, na própria construção histórico-social do objecto.» Cândido da Agra46 O "problema da droga" constitui-se em função das sucessivas "operações ideológicas" de que os consumidores de drogas são objecto (Agra, 1993). A discursificação sobre as drogas tornou-se extrema nos nossos dias, não correspondendo a um maior conhecimento do fenómeno mas a um saber perscrutador que, mais que pretender compreender o uso e abuso de drogas, pretende dominar e normalizar os indivíduos. Um saber produzido por outrem no exercício de funções de disciplinação do corpo social, e que, ao identificar, controlar e estigmatizar, contribui para a dessubjectivaçào do indivíduo. Tal como Helen Nowlis (197547) afirma, de modo desmistificador, a compreensão do fenómeno da droga implica a consideração da substância, do indivíduo e, ainda, do contexto, diferentes vertentes dum sistema complexo. O fenómeno da droga como objecto problemático não é apreensível apenas ao nível da substância e dos seus efeitos sobre o indivíduo, sendo necessário equacioná-lo também a partir da dimensão social que o envolve. Considerar a construção social do fenómeno da droga implica, de modo incontornável, reflectirmos no impacto social do proibicionismo. O regime proibicionista, mais do que 46 Agra (1993, p. 197) 47 Brochura de conteúdo básico, sem ser simplista, e didáctico mas não "doutrinário", editada originalmente pela UNESCO. 55
lograr diminuir o consumo de drogas, gerou novas dificuldades, designadamente ao nível do utilizador. Para além da mestria relacionada com a própria substância, o indivíduo que utiliza drogas necessita de aprender a lidar com as questões legais e suas consequências ao nível económico e social. Neste contexto, assiste-se historicamente ao desenvolvimento de uma rede de implicações que fazem emergir o fenómeno com a sua dimensão problemática48 - a toxicodependência, os toxicodependentes e "outras figuras desviantes" complementares, o que aparece bem descrito, já no princípio do século XX, aquando da ruptura do quadro legal vigente49: «Los adictos arruinados actuán como agentes provocateurs para los camellos callejeros, siendo recompensados com regalos de heroína o credito para sus suministros. La Ley Harrison creó al camello y el camello créa adictos» (Schless, 1925, cit. in Szasz, 1990, p.25850) A lógica repressiva, transversal às sociedades ocidentais (apesar da maior ou menor tolerância das leis reguladoras), assenta na presumível "perda de controlo" do indivíduo que utiliza drogas: «The drug abuser is a person lacking adequate internal controls over his drug use; hence he requires - for his own protection as well as for the protection of society - external restraints upon it. This, then, justifies the prohibition of "dangerous drugs", the incarceration and involuntary treatment of "addicts", the eradication of "pushers", and much else besides.» (Szasz,1998, p. 181) 48 Cf. "Historia de las drogas" (Escohotado, 1994) - pretendemos ressaltar que os opiáceos foram usados de forma generalizada sem a conotação problemática que hoje em dia têm. Estabelecendo um paralelismo possível com a "repressão" da sexualidade, lembremos que também a masturbação foi vista como causa e sintoma de doença mental tendo a sua "perigosidade" desaparecido quando essa crença foi dissolvida. 49 A Lei Harrison de 1914 sobre estupefacientes promulga o controlo da venda de ópio, morfina e cocaína e institui a necessidade de prescrição médica. 50 Szasz (1990) refere-se, em texto-apêndice à sua obra, às reflexões, de 1925, de Robert A. Schless, esclarecedoras sobre a "história da promoção e proibição de drogas". 56
A utilização de drogas pode constituir-se como uma forma de exprimir a sua posição social e a sua significação existencial, face a si e aos outros, traduzindo um "estilo de vida" (Manita, 2001). Convocando o domínio ético, Agra (1995b) define o conceito: «0 conceito de "estilo" ou de "forma" de vida, instituindo o sujeito como actor e criador de si próprio obriga à introdução do valor e da responsabilidade, de liberdade no quadro explicativo do fenómeno droga.» (p. 58) Há uma dimensão de temporalidade nesta conceptualização pois o "acto simbólico" inscreve-se num continuum biográfico, que se traduz quer no conceito de "carreira", quer no de "trajectória". O conceito de "carreira", adoptado pela Escola de Chicago59, pressupõe que a carreira desviante tem uma caracterização sobreponível à carreira tradicional, quer em termos de sequência, quer de progressão: «(...) one enters the deviant world, gain skills, earns a living, and so forth (...)» (Rosenbaum, 1981, p. 30). No conceito de "trajectória" revela-se, também, este mesmo sentido sequencial do estilo de vida ligada à utilização de drogas: «Cada sequência caracteriza-se por interacções próprias: a sequência de iniciação, a de confirmação do estatuto do consumidor habitual e a construção de identidade de toxicómano.» (Agra, 1995b, p.57) C. da Agra, questionando o "saber rapsódico"60 prevalecente no domínio do conhecimento das drogas, procura uma compreensão complexa, das causas aos processos, do comportamento do sujeito: 59 Conceito originalmente ligado aos domínios vocacional e profissional que é extrapolado para a carreira desviante por Becker (1973); o autor, na sua obra "Outsiders", exemplifica o conceito de carreira em diversos mundos desviantes, indicando a existência, em todos eles, de um processo de "aprendizagem social" que a realização de uma carreira desviante implica: I.Ter a ideia; 2. Ser "baptizado"; 3. Ter "estilo de vida". 60 Cf. Agra (1995a,b), onde se refere a "saber rapsódico" como justaposição de saberes disciplinares (psicológico, biológico e social), redutor da complexidade do conhecimento do fenómeno da droga. 63
«Pensar complexamente é contrariar a obrigação de suspender o antagonismo dessa bipolaridade [do determinismo/indeterminismo, da irresponsabilidade/responsabilidade], (...) adoptar a forma de espirito científico que acolhe a contradição, o paradoxo, a dialéctica e a multiplicidade dos níveis de análise.» (Agra, 1997, p. 162) A Teoria do Sujeito Autopoiético (Agra, 1991, 1993 ) articula conceitos da teoria dos sistemas com princípios fenomenológicos, considerando, concretamente, os conceitos de "auto-organização" e "autopoiesis" na definição de sujeito autopoiético61. A TSA permite articular o determinismo e o livre arbítrio que caracterizam todo o "sistema finalizado": «Os indivíduos são fruto do jogo da determinação e da indeterminação, são fruto de causas externas que não controlam mas também da sua causalidade interna, sobre a qual podem tomar decisões. São à uma autor e produto da sua história - singulares, irredutíveis à lógica causalista clássica e ao prognóstico fechado.» (Fernandes, 1998, p.53) A TSA conceptualiza o indivíduo como um sistema que é constituído por três subsistemas fundamentais: o sistema de personalidade (forma), o sistema de acção (conteúdo) e o sistema de significação (sentido). A organização complexa destes sistemas (autoorganizados e finalizados), todos eles com estratos hierarquizados mas interdependentes, permite compreender o sujeito autopoiético como uma entidade "capaz de se criar a si própria". O sistema de personalidade é a matriz do sistema psíquico (constituída por sete estratos sucessivamente mais complexos, do neuropsicológico ao político) cujo objectivo é "dar uma significação psicológica ao substrato biológico e ao superestrato sociocultural": «0 sistema psicológico surge, assim, como elemento de ligação e integração entre o biológico e o social mas, mais do que isso, como sistema criativo, produtor de vias de possibilidade e de 61 Cf. definição de sujeito autopoiético: «(...)entidade finalizada, dotada de capacidade de autoorganização, isto é, capaz de se criar a si própria, de se transformar e evoluir para uma melhor e mais eficaz prossecução das suas finalidades e projectos.» (Manita, 2000, p. 18). 64
construção de alternativas de fuga aos condicionalismos, quer biológicos, quer sociais» (Manita, 1998, p.24) O sistema de acção materializa as condições de possibilidade, definidas por essa matriz psíquica, em comportamentos. Da interrelação entre o sistema de personalidade e o sistema de acção emerge o sistema de significação, que traduz, em diferentes planos, os sentidos resultantes da relação entre personalidade e comportamento. Sentidos que se organizam de forma narrativa e, por vezes, se estruturam "à luz da transgressão". O Sistema de Significação traduz-se, então, em quatro planos de significação existencial que, por sua vez, se podem concretizar em quatro posições de significação transgressiva. Vejamos mais detalhadamente os diferentes Planos de Significação Existencial, onde convergem variáveis individuais, contextuais e temporais que condicionam os sentidos em que os actos se inscrevem (Manita, 2000, p.19): 1. Piano de Significação Existencial Ontológico É o registo da significação positivista da realidade das coisas e dos factos, "o sujeito existe pelo seu acto". O comportamento é heterodeterminado e não intencionalizado. O sujeito não se organiza em função de uma intencionalidade própria. 2» Plano de Significação Existencial Deontoiógico É a lógica do sujeito como objecto de determinação social, em que "a natureza do sujeito é como a de todo o mundo". O comportamento está de acordo com as normas convencionais, da ética grupai. O sujeito reconhece a natureza normativa exterior ao seu comportamento. 65
3. Plano de Significação Existencial Lógico É a lógica eminentemente psíquica, "o sujeito descobre o poder de si sobre si". O comportamento é autodeterminado em função da coerência do indivíduo, em si mesmo e na sua relação com o mundo. O sujeito cria distância em relação à normatividade dominante. 4, Plano de Significação Existencial Teleológico Há um registo verdadeiramente autopoiético, em que há uma projecção de si no mundo, "o sujeito vai para além do seu projecto individual". O comportamento pode integrar "o acaso" de acordo com as necessidades biopsicossociais do indivíduo. O sujeito atribui poder auto-organizador ao indeterminismo, integrando-o na realização de um sentido existencial auto-hetero-determinado. Os quatro grandes Planos de Significação Existencial traduzem, como já referimos, diferentes graus de saber e poder do sujeito sobre si e sobre as suas acções. Ou seja, na interrelação entre sistema de personalidade (matriz de possibilidades) e sistema de acção (orientação pragmática) há a produção da significação existencial (narrativa de sentidos múltiplos) que se inscreve em diferentes trajectórias. Estas trajectórias, por vezes, concretizam-se em modalidades transgressivas, que a TSA denomina de posições de significação transgressiva. No Quadro II apresentam-se os diversos níveis dos três subsistemas que constituem o sujeito autopoiético. Estes mantêm entre si relações de interdependência, de mútua integração e progressiva complexidade. 66
Quadro II: Os Sistemas do Sujeito Autopoiético Sistema de Personalidade -EstratosSistema de Acção: -NíveisPlanos de Significação Existencial Posições de Significação Transgressiva • Neuropsicológico • Psicosensorial Etológico "o mundo de coisas e factos" Ontológico Não intencionalização Substantiva Fatalismo • Expressivo • Afectivo Etológico-Ético Normatividade exterior a si Deontológico Relação convencional com a norma Solidária Determinação social • Cognitivo • Experiencial Ético-Etológico Poder de si sobre si Lógico Coerência em si Solitária Autodeterminação psicológica • Experiencial • Político Ético Poder autoorganizador Teleológico Projecção universal Projectiva Auto-organização e Indeterminismo Agra, 1990 Agra (1990) considera o psíquico como sendo, em si mesmo, transgressivo, como se no desvio o indivíduo revelasse verdadeiramente a sua condição de actor social. Ou, como diz Fernandes (1998), a propósito da conceptualização que o autor tem do indivíduo, "a novidade está inscrita no seu devir não como acidente mas como estruturá'(p.53). O sujeito autopoiético é produtor de sentidos múltiplos na sua vida, também nos percursos transgressivos. Ou seja, os comportamentos trangressivos obedecem à mesma lógica de acção dos comportamentos normativos, sendo construídos pelos seus actores na relação com o mundo e com os outros, de acordo com sentidos e significações próprios (Manita, 1998, 2000). De acordo com esta conceptualização de sujeito desviante, também sujeito autopoiético, é na própria lógica transgressiva que se encontra a racionalidade dos comportamentos desviantes. Em relação ao toxicodependente importa compreender o modo como o actor 67
inscreve as suas acções no sentido existencial que assume face a si, aos outros e ao mundo, ou seja, conhecer em que plano de significação existencial e em que posição de significação transgressiva o indivíduo se situa. Os resultados de um conjunto de estudos, que tomaram como quadro de referência a TSA (Agra, 1997)62, indicam, ao nível do determinismo e das significações dos comportamentos de consumo de drogas, que, numa fase inicial, a significação dos consumos se situa fundamentalmente ao nível do plano lógico, ou seja: "um plano de significação em que o fenómeno da psicoactividade aparece como meio de agir voluntariamente sobre si e sobre as suas condições de existência" (Manita, 2000, p.24). Com o prosseguir da carreira de consumos as significações do plano ontológico tomam primazia em relação à fase anterior, o indivíduo é mais objecto de poder da substância do que actor de intenção e domínio próprios. Quer dizer que, em termos de significação transgressiva, se, na primeira fase, dominam as posições solitárias, na segunda fase surgem com grande relevância as posições substantivas. Dá-se uma verdadeira inversão das modalidades de determinação do comportamento no período de manutenção de consumo, passando da preponderância da acção autodeterminada pelos sujeitos para a heterodeterminação do comportamento de consumo de droga (Manita, 1997, 1998): «Quando deixa de ser a experiência de si, a descoberta, a aventura, o saber de si e dos seus actos, a dominar a lógica dos consumos, e passa a ser a necessidade de suprir os estados de carência de droga, o sujeito perde a capacidade de auto-determinação dos seus actos e reduz a complexidade das significações associadas» (Manita, 1998, p. 460) Agra (1991) considera que o plano de significação existencial, ou modo de vida, determinado pelo comportamento de consumo de substâncias corresponde a uma 62 Conjunto de estudos realizados por uma equipa de investigadores, do C.C.D. da F.P.C.E/U.P., que se centra de modo integrado, mas diferenciado, nas várias dimensões biopsicossociais do fenómeno; note-se que, não obstante destacarmos os resultados relacionados com as significações ligadas à carreira de consumo de drogas, a investigação em questão centra-se não apenas no fenómeno da droga como também na sua relação com o crime. 68
inversão da ordem hierárquica dos estratos constitutivos do sistema psíquico. Em lugar de individualidade psíquica capaz de exercer poder e saber sobre si, o sujeito torna-se objecto alienado da subjectividade, intencionalidade e determinação por si perseguidas. Nas palavras do autor, a trajectória prevalecente do consumidor de drogas constitui-se como um "jogo trágico": «Um jogo porque o toxicodependente estabelece um acordo lúdico de si para si, que consiste em tornar-se outro no interior e a partir de si mesmo, trágico porque este jogo termina pela perda de si na qualidade de actor e pela perda de outrem que se desejava. Eis aqui uma vontade de se autoproduzir, de se autocriar, de se tornar um sujeito autopoiético, cujos processos conduzem ao oposto, à autodestruição...» (Agra, 1991, p.3) 2,3, Das significações das trajectórias de uso de drogas à (re)construção de trajectórias alternativas de sentido «A lógica existencial do toxicodependente e das nossas sociedades é a mesma: "eu consumo , logo existo.» Cândido da Agra63 A trajectória de consumo de drogas parece evoluir inexoravelmente para a dependência heterodeterminada64, culminando na figura do toxicodependente-criminoso que domina, de facto, a "visibilidade social" do mundo da droga. 63 Agra (1991, p.5) 64 Ressalte-se, como já referido, que o proibicionismo sustenta não apenas a dessubjectivação do indivíduo face aos seus actos, como favorece concretamente a substantivação da significação do consumo. Note-se, em particular, como a pressão económica sobre o consumidor, inerente ao 69
Manita (2000), no âmbito de um estudo que incide sobre as dimensões de sentido associadas às trajectórias de drogas-crime numa amostra de reclusos, destaca, no entanto, a existência de um número importante de sujeitos com uma gestão-manutenção de consumos numa lógica autodeterminada, alguns dos quais situando-se em posições de significação transgressiva de tipo solitário. Questionando a trajectória-tipo do consumidor heterodeterminado em relação à droga e ao crime, a investigação permite evidenciar a dominância de "posições de significação transgressiva" compósitas (associação de planos de significação) (Manita, Negreiros e Agra, 1997). Ou seja, existem entre os consumidores diferentes tipos de modalidades de gestão, autodeterminação e auto-organização no uso de drogas. A dominância de posições compósitas permite inferir, segundo Manita (2000, 2001), que existem diferentes tramas de significação subjacentes a diferentes trajectórias e, ainda, que é importante diversificar as intervenções terapêuticas de modo a adaptá-las às diferentes trajectórias e às respectivas determinações e significações dominantes. Os objectivos do processo terapêutico, de acordo com a TSA, orientam-se «para a redução dos componentes de significação e de determinação mais elementaristas, mais rígidos, menos complexos e para o reforço dos mais elaborados, flexíveis e complexos.» (Manita, 2001, p.69, nota 14). Procurando integrar estes objectivos no quadro das abordagens narrativas, Manita reflecte sobre a importância das propostas terapêuticas terem em conta, como ponto de partida, as significações existenciais que estão na base da trajectória desviante do indivíduo, de forma a promover a complexificação do sujeito e a sua evolução para níveis mais elevados de subjectivação, ou de modo a favorecer a construção de trajectórias alternativas com sentido. De acordo com a TSA, é no "plano existencial teleológico" que o sujeito autopoiético se produz plenamente. O sujeito, integrando de modo dinâmico os diferentes estratos da facto de se tratar de uma substância ilegal, tende a anular a individualidade face ao seu acto, expressa, por exemplo, na afirmação: "tinha que roubar para consumir". 70
personalidade, subjectiva-se, chama a si a vontade de saber e poder sobre a sua existência (Agra, 1990, 1991). O conceito de autopoiesis pressupõe que o indivíduo tem a possibilidade de se constituir como sujeito da sua experiência, de se tornar outro em si, num jogo criativo que supõe a relação entre heterodeterminação e autodeterminação. Ou, como diz o autor, o psíquico emerge do continuum dinâmico entre a heteronomia e a autonomia, entre o concreto e o abstracto, entre o singular e o universal e entre o simples e o complexo. A acção humana não existe por si só, nem é resultado de causalidade única. Assim, o que importa analisar e constituir como objecto de intervenção é "o plano de significação existencial do acto". De acordo com Agra (1991) a intervenção com toxicodependentes implica uma espécie de "Pedagogia da Arte da Existência". Esta proposta pressupõe que o toxicodependente conduz a sua vida numa lógica de significação existencial em que o indivíduo, perdendo o saber e o poder do seu acto, não é capaz da gestão do prazer e do sofrimento. Pretende-se, então, favorecer a evolução do toxicodependente para planos de significação existencial superiores, integradores do acto desviante na sua história individual. Há que desocultar o lado libertador que o desvio pode revelar, compreender o sofrimento em lugar de o silenciar, «centrando-se nas "vozes caladas", nos "objectossujeitos" do sofrimento infligido», de modo a possibilitar ao indivíduo reconstruir a sua subjectividade (Carvalho, 2001, p.12765) Poderíamos dizer que o objectivo principal detse modelo de intervenção na toxicodependência seria a re(construção) do toxicodependente como sujeito autopoiético, devolvendo-lhe o saber e o poder sobre o seu comportamento a partir da sua biografia: «a intervenção é um jogo de aprendizagem de uma nova ou novas maneiras (não 65 Da leitura que Carvalho (2001) desenvolve a partir de Foucault a autora sugere que talvez o "lado oculto" da obra do autor seja, precisamente, uma arqueologia/genealogia do sofrimento que só em parte estaria por ele feita. Foucault teria realizado uma das partes de desocultação dos "discursos normalizadores geradores de sofrimento", "o lado dos que têm voz para silenciar os desviantes", faltando "erigir", diz a autora, a parte «do que fica "calado" nos sujeitos manietados pelo poder dos "jogos de verdade"», "aquele silêncio que o ser não pode quebrar porque não tem existência"(p.126). 71
destrutivas) de jogar à transformação de si por si próprio» (Agra, 1991, pp. 9-10). Agente perante as circunstâncias do seu consumo, pressupõe-se que o toxicodependente em tratamento não anulará o sentido do jogo do seu percurso, mas voltará a jogá-lo na senda de se "tornar outro". Ou seja, a intervenção vai no sentido do trabalho proposto pelas abordagens narrativas: a busca de um modo de jogo alternativo a partir da experiência do jogo existencial conhecido. De facto, a abordagem de tipo processual que a TSA supõe permite dar conta da integração dos consumos de drogas, e suas significações, no contexto da história de vida do sujeito: «A droga num dado momento da trajectória individual confere um sentido particular à vida do sujeito que, como vimos, pode ser um sentido potenciador de complexidade, de abertura experiencial, de capacidade de gestão de si, de promoção de saber e poder de si sobre si, ou pode serum sentido rigidificador e gerador de dependências múltiplas.» (Manita,2001, p.66) As significações multipotenciais da trajectória individual traduzem também a relação do indivíduo consigo próprio, com a a sua acção, com os outros e com o mundo. O modo como as pessoas expressam os seus problemas não é independente das influências sociais e culturais. As significações pessoais não estão apenas no sistema cognitivo interno do indivíduo (Alves, 2000). Ou seja, o indivíduo não é completamente indeterminado nas suas acções e significados: «[Há] influência das dimensões biológicas, psicológicas, eco-sociais, da sociedade e da cultura em que se insere, das condições e sistema-económico-político em que se integra, da posição social que ocupa, do género a que pertence, dos contextos em que vive, das relações que constrói, das experiências que constituem o seu vivido» (Manita, 2001, p.62) No entanto, e por definição, o indivíduo é sujeito autopoiético pela capacidade de que é dotado para agir sobre as determinações e de recriar as condições que o afectam: 72
questionamento das imagens tradicionais de género. O sentido de desvio e o seu impacto social ampliam-se, dada a efectiva proibição do uso de drogas, aos quais se associam os efeitos remanescentes da inversão das prescrições comportamentais de género. No contexto de ilegalidade há uma mudança no perfil das pessoas que abusam de drogas: passam a ser essencialmente homens, oriundos das zonas metropolitanas, de classe baixa, não brancos, de lares de alcoólicos e, ainda, marginais (Keire, 1998; Aldrich, 1994; Young, 1994). Neste contexto, o número de mulheres ligadas ao mundo das drogas diminuiu, predominando apenas as mulheres prostitutas, mediadoras do acesso dos homens às drogas (Courtwright, 1982, cit. in Keire, 1998; Dai, 1937, cit. in Aldrich, 1994). As drogas passam a ser do domínio do "junkie rebelde" que procura activamente o prazer e não da "matrona sofredora" que, no seu consumo privado, procura superar os seus sofrimentos e fraquezas de mulher (Courtright, 1982, cit. in Keire, 1998). O contexto sócio-cultural, e a sua influência efectiva no comportamento, favorece a diferenciação dos significados das drogas já que remete o contexto público, a busca de aventura e o comportamento criminal para um registo masculino, sendo o contexto privado, a diminuição do sofrimento e a fragilidade comportamental atribuídos ao registo feminino. O uso e abuso de drogas pelo homem, num contexto proibicionista, suporta já a associação de "etiquetas" de marginalidade e de criminalidade74. Porém, no mesmo contexto, recai sobre a mulher toxicodependente um duplo estigma, acrescentando-se àquelas a não conformidade à imagem, socialmente definida, de mulher (Pollock, 1998; Friedman e Alicea, 1995; Rosenbaum, 1981). O estilo de vida nas drogas é fortemente dissonante com a prescrição social do papel de género da mulher : 74 Cf. o conjunto de investigações "Droga/Crime: Estudos Interdisciplinares", desenvolvido por Agra e equipa (1997), que avaliou os dois fenómenos, a partir das trajectórias dos seus protagonistas, concluindo que só em parte se interpenetram. 79
«The nature of addiction - the rough, almost frenzied street life of the addict - runs counter to women's traditional involvement in domestic life as wives and mothers». (Rosenbaum, 1981, p. 3) Coppel (1986) sugere que, a partir dos anos 70 do século XX, a droga tem como simbolismo a "neutralização" das diferenças sexuais, mas afirma, simultaneamente, que a mulher que utiliza drogas se esforça por evitar a imagem de toxicodependente e a marginalização. A diminuição abrupta do uso de drogas pela mulher, em contexto ilegal, parece estar relacionada com o estigma temido, e que lhes é efectivamente atribuído. A prostituição75 é uma das actividades que assume relevo fundamental na estruturação do estigma em torno da mulher toxicodependente. A conotação moral negativa e estigmatizante inerente à prostituição (e ao trabalho sexual em geral) é transportada massivamente para a imagem da mulher toxicodependente, esteja ela envolvida ou não em práticas prostitutivas (Copeland, 1997; Rosenbaum e Murphy, 1990; Rosenbaum, 1981). O proibicionismo do século XX ao estigmatizar a mulher utilizadora de drogas promove a inversão das estatísticas de prevalência de consumo a favor dos homens, padrão que se mantém até à actualidade. 75 A questão da prostituição será abordada por diversas vezes neste capítulo, nomeadamente pela ligação íntima que mantém com a questão do estigma; é retomada de modo mais consistente no ponto 3.1 deste mesmo capítulo, a propósito do "relacionamento com os homens". 80
2. Perspectivas dominantes rso conhecimento das mulheres toxicodependentes As expectativas sociais de género, reforçadas e controladas através de oportunidades e benefícios diferentes para os homens e para as mulheres, desincentivam a mulher da experimentação de actividades não convencionais. É nesta perspectiva que se pode compreender o menor envolvimento das mulheres no consumo de drogas (Esteves, 1997). Dito de outro modo, o estilo de vida nas drogas não corresponde às expectativas de conformidade de género da mulher, de quem se espera "abstinência" face aos consumos. A mulher seria submetida a um controlo social eficaz76, distinto em relação ao homem, de tipo informal e insidioso, baseado na estigmatização social (Madriz, 1997) ^ Assim, por um lado, antecipando o estigma social a mulher evitaria o desvio e, consequentemente, a sanção moral e/ou judicial78. Por outro lado, a mulher "desviante" tende a proteger-se do reconhecimento público dos seus comportamentos, reservando, por exemplo no caso da utilização das drogas, os seus consumos, ou o seu tratamento, para a intimidade. De facto, como já referimos, a visibilidade social dos comportamentos desviantes das mulheres e, em particular o comportamento de utilização de drogas, penaliza-as diferencialmente em relação aos homens. Dum modo geral, as mulheres que se tornam consumidoras suportam etiquetas sociais de "duplo desvio", não só porque resistem à prescrição da abstinência de drogas ilegais como também, e essencialmente, porque 76 Dada a diferença no modo como a mulher é objecto de controlo social, N. Graham e E.D.Wish (1994) chamam a atenção para a necessidade de produzir um conhecimento específico, nomeadamente a nível das "teorias de desviância" aplicadas às mulheres. 77 A autora refere-se a diferentes mecanismos de controlo como, por exemplo, a falta de poder político, a capacidade económica limitada, o discurso de feminilidade quanto ao papel da mulher no sistema familiar (Madriz, 1997). 78 Assim, a detenção das mulheres, ou outro tipo de pena efectiva, poderá coincidir com os casos mais graves em termos de desvio da norma, até porque se assiste, paralelamente, à discriminação positiva das autoridades face às mulheres, em que o pequeno delito é mais tolerado, e a probabilidade de detenção menor. Estes aspectos poderiam contribuir para compreender que os padrões de consumo e a prevalência de co-morbilidade das mulheres nas prisões sejam mais elevados em relação aos homens (Madriz, 1997; Graham e Wish, 1994). 81
resistem ao cumprimento das expectativas de género. A mulher identificada como desviante é tida como violando a prescrição de género, base essencial da socialização da mulher. Nas perspectivas hegemónicas de leitura da realidade, não só nos contextos terapêuticos como também na enunciação das questões de investigação, o discurso médicopsicológico caracteriza as mulheres toxicodependentes como mulheres "rebeldes" e com psicopatologia marcada. Os contextos institucionais dominantes reflectem, portanto, o estigma social forte e perene que as mulheres experienciam face ao comportamento desviante de uso de substâncias79(Goffman, 1963). Assim, constituem-se como instâncias de saber e poder, de grande contributo para o processo de etiquetagem social da mulher (Becker, 1973) e para a construção de uma "identidade social desviante total" (Pollock, 1998, p.79). Procuramos, em seguida, dar conta do modo como o estigma da mulher desviante se revela no conhecimento desenvolvido nos contextos de investigação (2.1) e de intervenção (2.2). 2.1. Na investigação Até aos anos 80 do século XX, foi manifesta a ausência de estudos qualitativos com mulheres toxicodependentes, ou seja, não havia uma investigação sistemática e processual da experiência das mulheres no "mundo das drogas"80, de modo que não se sabia quem eram estas mulheres (Rosenbaum, 1981). 79 O forte estigma da mulher alcoólica e a imagem diferencial da mulher alcoólica em relação ao homem são referências recorrentes na literatura, com alguns aspectos comuns à estigmatização da mulher que usa drogas ilícitas (Pohl e Boyd, 1992); no entanto, optamos por não ampliar a revisão teórica sobre o abuso de álcool já que os contextos de legalidade vs ilegalidade, ao longo da história, oferecem contornos diferentes aos dois fenómenos. 80 Cf. definição de "mundo social" neste capítulo. 82
Os estudos sobre mulheres utilizadoras de drogas estavam fundamentalmente integrados em estudos da população geral, com contacto institucional, e enquadrados num referencial de cariz epidemiológico, não favorecedor de uma perspectiva de conhecimento das mulheres como "actrizes" do consumo. Reportemo-nos a C. Agra (1995b), aplicando a sua reflexão ao tema específico das mulheres toxicodependentes: «...a epidemiologia das drogas, quedando-se numa análise discreta dos "indicadores indirectos" esclarece-nos mais sobre a actividade dos dispositivos de normalização (instâncias formais e informais de controlo social e de tratamento) do que sobre a dimensão real da natureza dum fenómeno que há décadas e décadas permanece envolto num véu de ignorância.» (Agra, 1995b, p.52) Numa primeira fase, os estudos baseavam-se na caracterização da mulher numa perspectiva moral e na extrapolação de conclusões de estudos a partir de amostras de homens (Ferrence, 199481; Rosenbaum, 1981). Deste modo, não só se escamoteava a diversidade relacionada com o género como também se reforçavam os estereótipos de género. Na realidade, não obstante a fragilidade do suporte empírico, os estudos não se abstinham de explicar a personalidade da mulher utilizadora de drogas em função dos padrões de género dominantes. Por exemplo, o comportamento de consumo de drogas da mulher era entendido como resultante do desvio do seu papel de género, portanto, sintomático duma mulher agressiva, rebelde, imatura em termos de identidade sexual, que se recusava a assumir a dependência e a passividade, características presumivelmente salutares numa mulher (Pohl e Boyd,199282; Prather e Fidell, 1978). 81 Relatório desenvolvido por "The task group on gender-focused research", equipa canadiana que, a partir duma revisão bibliográfica extensa sobre o estado de conhecimento sobre drogas e género, sugere recomendações para futuras pesquisas. Note-se que as autoras põem a ênfase na diferenciação das denominações de addiction e dependency, já que a primeira teria um sentido negativo e a segunda assumiria uma conotação positiva, já que a "dependência" seria algo de salutar nas mulheres. 83
Numa outra fase, de acordo com as conclusões de estudos do "pragmatismo epidemiológico e do tratamento norte americanos"83, o perfil das mulheres toxicodependentes é globalmente descrito, por comparação com os homens, como correspondendo às seguintes características: oriundas de famílias mais disfuncionais e disruptivas, nomeadamente com maiores dificuldades de relacionamento com as mães, com história de violência física e abuso sexual, de estatuto sócio-económico mais baixo e mais jovens; são vistas como tendo um estilo de coping evitativo, menor auto-estima, mais isolamento e mais problemas de "intimidade"; utilizam mais ansiolíticos e antidepressivos que os homens, quer em regime de auto-medicação quer prescrito medicamente; têm um comportamento sexual de maior risco que os homens, mas menos problemas com a justiça, com a escola, com grupos marginais; têm habitualmente maior responsabilidade no cuidado dos filhos. De acordo com este perfil, era esperado, também, que a mulher fosse menos capaz de procurar tratamento e de realmente se tratar que os homens toxicodependentes. Nas duas últimas décadas do século XX a investigação tem considerado de forma mais complexa as motivações das mulheres, não se limitando simplesmente a fazer espelho da ideologia dominante (Rosenbaum, 1981). Ressaltando o retrato inconsistente e parcelar do conhecimento sobre a mulher consumidora, surgem estudos que se centram concretamente na comparação das trajectórias de mulheres e homens toxicodependentes e que colmatam, de algum modo, a falta de investigação sobre a toxicodependência e as questões de género. Destacamos quatros estudos de uma equipa da Universidade da California84, pelo relevo que dão à comparação dos padrões de consumo nas fases de "início", do "tornar-se dependente", do "abuso" e de tratamento entre homem e mulher. 83 Adoptamos a expressão de Agra (1995b) para nos referirmos a estudos com metodologias quantitativas, e de cariz revisionista, e às suas conclusões. 84 Cf. Hser, Anglin e McGlothin (1987); Anglin, Hser e McGlothin (1987); Hser, Anglin e Booth, (1987), Anglin, Hser e Booth, (1987). 84
Sistematizamos, em seguida, alguns dados resultantes destes estudos que caracterizam as especificidades dos consumos das mulheres, em relação aos homens, e evocam algumas explicações, em função da fase da trajectória. Na fase inicial do consumo de heroína, referem os estudos, o companheiro exerce grande influência no comportamento da mulher. Frequentemente, o primeiro consumo da mulher acontece com o companheiro, por simples mimetismo ou para alívio de algum mal-estar (Hser, Anglin e McGlothin, 1987). A existência de diferentes oportunidades de contacto com drogas para as mulheres e para os homens, sendo para elas o acesso mais difícil, é indicada como pista explicativa da tendência das mulheres iniciarem os consumos pela mão dos companheiros. O mesmo estudo refere, no entanto, a experimentação por iniciativa própria, ou em grupo social, por parte de mulheres que iniciaram consumos mais recentemente. Emergem, então, motivações de cariz hedonista (curiosidade, busca de prazer e sociabilidade) associadas ao comportamento de consumo destas mulheres. Como refere Rosenbaum (1981) o "início" de consumo delas não seria tão passivo quanto tinha sido afirmado em estudos anteriores, o que poderá relacionar-se com o papel social cada mais activo das mulheres85. A sua progressão no sentido do consumo regular, por comparação com a dos homens, dá-se de modo mais célere, tornando-se a mulher após o contacto inicial mais rapidamente dependente das drogas (Anglin, Hser e McGlothin, 1987). O facto de ela ter, o seu consumo garantido, habitualmente, por um homem companheiro/consumidor é indicado, pelos autores, como característica distintiva da mulher na fase de "tomar-se dependente", o que constituiria um factor explicativo do envolvimento no consumo de modo mais rápido da mulher em relação ao homem. Retomaremos este tema no ponto 3 deste capítulo, em que se focam especificamente as significações da utilização de drogas pela mulher. 85
Na fase de pleno consumo ressalta-se a aproximação dos padrões de utilização de drogas de homens e mulheres (Hser, Anglin, Booth, 1987): o prazer é uma dimensão significativa para ambos, muito embora o seja de forma mais inquestionável no percurso do homem; a probabilidade de o companheiro(a) ser consumidor(a) torna-se idêntica entre homens e mulheres; a par do envolvimento mais consistente da mulher nas drogas verifica-se, também, um maior envolvimento no tráfico, e na criminalidade em geral, como garante dos consumos, embora se trate de uma actividade prevalecente na carreira do homem. Esta maior comunhão de trajectórias, segundo os autores, parece estar relacionada com o estilo de vida que a utilização abusiva das drogas, nesta fase, como que impõe ao indivíduo, e que seria independente do sexo. O envolvimento em drogas múltiplas é também um aspecto comum a homens e mulheres, embora existam diferenças no tipo de associação que uns e outros fazem a par com o consumo de heroína. As mulheres tendem a utilizar psicofármacos de prescrição médica (muitas vezes anterior à utilização de drogas ilícitas) e os homens consomem mais frequentemente haxixe e álcool (Hser, Anglin e Booth, 1987). Não obstante as similaridades já referidas, ressalta-se, em diferentes estudos, que a grande diferença entre a carreira de consumos do homem e da mulher é a maior prevalência de pessoas significativas (dos companheiros, em particular) nas trajectórias das mulheres (Grella e Joshi, 199986; Gossop, Griffiths e Strang, 1994; Hser, Anglin, Booth,1987). O tratamento surge mais cedo na carreira da mulher, havendo, portanto, um intervalo menor entre o uso inicial e a primeira tentativa de paragem de consumos, o que configura uma trajectória nas drogas mais "comprimida" do que a do homem (Grella e Joshi, 1999; Hser, Anglin e Booth, 1987). 86 Este estudo, relacionado especificamente com a utilização dos serviços de tratamento, merece especial referência atendendo à grande amostragem a partir da qual se examinam as diferenças entre homens e mulheres. 86
Aquando das primeiras tentativas de "saída" das drogas a mulher encontra-se, habitualmente, menos envolvida com questões criminais e judiciais do que o homem. No entanto, também em relação ao homem, apresenta menos autonomia financeira, menos emprego e maior dependência de outrem, concretamente no que diz respeito ao apoio social do Estado (Anglin, Hser e McGlothin, 1987). Neste contexto, a razão principal para as mulheres diminuírem ou pararem os consumos tende a ser a gravidez e a preocupação com a custódia dos filhos, enquanto que para o homem é a prisão e a hospitalização (Hser, Anglin e Booth, 1987). No mesmo sentido, o contacto dos homens com os serviços de tratamento é mediado através do sistema judicial, enquanto as mulheres tendem a ser encaminhadas para tratamento por serviços médicos e sociais (Grella e Joshi, 1999). A par de diferentes contingências exteriores, há também diferenças na motivação pessoal de procura dos serviços de tratamento. As mulheres referem menos pressão, menor influência e menos ajuda de companheiros e familiares no seu tratamento do que os homens. Há uma tendência evidente para a auto-iniciação da mulher no tratamento, motivada pelo reconhecimento da sua necessidade de ajuda e da importância dos serviços de tratamento para esse efeito (Grella e Joshi,1999; Gossop, Griffiths e Strang, 1994). É ainda de ressaltar a participação habitual da mulher, consumidora activa, no acompanhamento do tratamento do companheiro, ainda que, como já referido, raramente conte com o respectivo companheiro para a apoiar no seu tratamento (Esteves, 1997). Anglin, Hser e Booth (1987), de acordo com um estudo específico sobre o processo de tratamento, afirmam que não há diferenças de eficácia entre homens e mulheres após acederem ao tratamento, contrariamente à crença prevalecente de que há menos procura, menos retenção e menos eficácia de tratamento com mulheres toxicodependentes87. Consideram os autores que, pelo contrário, se pode afirmar ser 87 Esta crença parece resultar de uma leitura linear de que, por um lado, há menos procura de tratamento da mulher por existir menor pressão social, legal e financeira e, por outro lado, há 87
mais consistente o curso de tratamento da mulher dada a relação evidente entre a eficácia do tratamento e o empenho próprio. Por um lado, há indicadores de que as mulheres entram mais cedo em tratamento e que cumprem mais as regras dos programas de tratamento. Por outro lado, as mulheres decidem por si próprias, e não por pressão de outrem, e ultrapassam "obstáculos"88 de acesso aos serviços de tratamento com os quais os homens não se confrontam. Algumas contradições existem, de facto, no que diz respeito à comparação do curso de tratamento de homens e mulheres. Há indicadores específicos de que os períodos de abstinência das mulheres são mais curtos que o dos homens (Anglin, Hser e McGlothin, 1987). Há referências, também, à maior frequência de dropouts ao tratamento por parte das mulheres, sendo adiantadas explicações centradas na sua personalidade: a possibilidade de mudança da mulher estar condicionada por "sentimentos de falta de poder" relacionados, por sua vez, com a "codependência" inerente à mulher (Pollock, 1998); a maior prevalência de co-morbilidade89 na mulher (Kandel, Warner e Kessler, 1998). Algumas destas contradições entre os dados, resultantes dos estudos comparativos sobre o tratamento, poderão ser compreendidas em função de condicionalismos sociais externos, concretamente relacionados com os contextos de tratamento90. Sendo socialmente construídos, esses contextos podem suscitar o desenvolvimento de interacções desiguais face à mulher ou face ao homem, assim como desiguais leituras dessas mesmas interacções. menor retenção e eficácia do tratamento porque é presumido existir por parte da mulher uma maior facilidade em assegurar os consumos, com base quer no suporte económico de companheiros, quer através do trabalho sexual. 88 Trata-se fundamentalmente de barreiras relacionadas com o estigma, que a mulher toxicodependente sustenta, que vão ser abordados especificamente no ponto 2.2. deste capítulo. 89 Segundo Gossop, Griffiths e Strang (1994), as mulheres tendem a apresentar perturbações de ansiedade e quadros depressivos graves, enquanto os homens correspondem mais a critérios de diagnóstico de personalidade anti-social; é curioso referir que, no caso de repetição de tratamentos, o padrão psicopatológico entre mulheres e homens aproxima-se, correspondendo ambos a critérios de personalidade anti-social. 90 Cf. ponto 2.2. deste capítulo em que desenvolvemos o tema. 88
3. Trajectórias das mulheres toxicodependentes: significados construídos na interacção social Neste ponto interessa-nos compreender o significado das drogas para as mulheres a partir do seu ponto de vista. Com este objectivo consideramos essencialmente estudos baseados em metodologias que permitem o acesso á perspectiva das mulheres sobre a sua experiência. A procura de compreensão dos significados das drogas para as mulheres leva-nos a acompanhar o seu processo de socialização no mundo das drogas98, ou seja, o curso, as modalidades, as interacções e as significações do seu envolvimento. As evoluções e homeostasias nos padrões de comportamento da mulher, no trajecto desviante e no mundo social da droga, espelham certamente o papel da mulher na sociedade e nas relações sociais de poder. No entanto, dar conta da trajectória das mulheres é, não apenas considerar o que está relacionado com as experiências de vida "feminina", como também considerar que estas são conformadas pelo grupo social e pela classe social de pertença. Se as especificidades de género nos estilos de vida das mulheres toxicodependentes são importantes é de relevar que o papel dos consumos assume contornos diferentes na vida das pessoas consoante os estratos sociais. Numa investigação recente de Fernandes e Carvalho (200399) aponta especifidades entre estratos sociais quanto aos consumos: «...(há) diferenças de autonomia financeira com reflexo directo quer no acesso à 98 Entendemos o mundo das drogas como um "mundo social" e socorremo-nos da mesma definição que Rosenbaum (1981) utilizou: "Social worlds [are] groupings of individuals bound together by networks of communication or universe of discourse. (...) it is not a matter of physical or oficial belonging but of shared symbolization, experiences and interests" (Lindesmith, Strauss e Denzin,1977, cit. in Rosenbaum, 1981, p. 19). 99 Estudo sobre consumos problemáticos de drogas em "populações ocultas" em que é visível o confronto entre o perfil dos consumidores da "zona up", de "estratos sociais elevados", com consumidores da "zona down" de "estratos de periferia social". 95
variedade dos contextos do espaço urbano, quer nas estratégias de gestão dos consumos» (p.131). Em relação à heroína e ao seu uso prolongado os autores deparamse com a uniformização da experiência do sujeito independentemente do estrato social - estreitamento da experiência no sentido da submissão do sujeito ao poder químico. No entanto, há uma evidência notória ao nível das diferenças conforme o estrato social, é que os indivíduos da "zona up", ao contrário dos da "zona down", tendem a gerir o seu consumo no tempo de modo a evitarem a imagem negativa associada ao uso de heroína. O estilo de vida com drogas tem implicações mais danosas para a imagem das pessoas de classes sociais mais desfavorecidas100, sendo de esperar.portanto, tal como acontece nas carreiras dos homens toxicodependentes, também as mulheres de estatuto socioeconómico mais elevado sejam capazes de uma gestão da carreira de um modo mais autónomo. Há diferentes dimensões de poder, incluindo o género, em que o indivíduo se inscreve que são determinantes para a configuração e significação dos trajectos. Nas carreira da mulher haverá mais ou menos invenção ou sujeição de si consoante o contexto alargado das interacções sociais em que está envolvida, ou seja, «depends on commitments, contigencies and circunstances in the individual's life»(Rosenbaum, 1981, p.131). Na procura de compreensão do jogo de género, e da relação de significado entre "ousadia"(invenção de si) e "estigma"(sujeição de si), significados101 que ora se sucedem ora se cruzam, iremos focar as diferentes áreas de vida das trajectórias de consumos das mulheres. Como já referimos anteriormente, assumem especial relevo neste jogo de significados a área do "relacionamento com os homens" e a área da "relação com os 100 Não esqueçamos que, independentemente da toxicodependência, a pobreza tende a diminuir a capacidade de gestão da vida do indivíduo, por "ter menos voz", por "ser mais falado do que fala", por "ser menos capaz de controlar a representação social de si próprio" (Fernandes, 1997, p.115) Ambos os significados são determinados pelo poder dominante; são significados opostos mas idênticos pelo que denotam quanto ao contexto de poder em que a mulher se inscreve: pela positiva elas inventam-se diferentes do que lhe é prescrito, pela negativa confirmam o que o estigma indica; em ambos os casos a sua autoria é constrangida, é função de ser ou não ser o que o modelo de conduta feminino determina. 96
filhos", constituindo, portanto, pontos específicos de reflexão. A actividade económica adoptada é alvo também de uma referência específica na medida que é central na organização do estilo de vida, seja ele qual for. A retaguarda familiar e as relações sociais, áreas que também se entrecruzam e influenciam o modo como o jogo de género se desenvolve na vida de uma mulher toxicodependente, serão também abordadas, ainda que de forma dissolvida, nos pontos acabados de referir. a. Invenção de si O questionamento da visão tradicional da mulher que, passivamente impelida pelo homem, se inicia nas drogas, na actividade criminal e na prostituição é reiterado pelos relatos vividos das mulheres, a quem os estudos de cariz etnográfico dão voz (Taylor, 1998102; Rosenbaum, 1981103). Há um sentido positivo na experimentação inicial das drogas pelas mulheres, relacionado com o alargamento de opções de vida: «...initial heroin use may be part of a world that a young woman enters willingly and purposefully because it is more attractive, rewarding and acessible than any other open to her.» (Rosenbaum, 1981, p. 32) As mulheres das classes baixas, de bairros e lares opressivos, onde prevalece a violência, a pobreza e o bloqueio às aspirações, experimentam de forma mais agravada o diferencial de poder ligado ao género, e os respectivos constrangimentos. A busca de 102 Trabalho realizado em 1993 na Escócia com observação participante e entrevista a 26 mulheres; os resultados apontam para uma caracterização da vida das mulheres que não está de acordo com o estereótipo da mulher toxicodependente. 103 Trabalho realizado nos E.U.A. de tipo etnográfico, numa perspectiva fenomenológica e do Interaccionismo Simbólico, não se enquadrando nas perspectivas tradicionais, psicológica e psiquiátrica; utiliza uma metodologia qualitativa procurando compreender, a partir de entrevistas a 100 mulheres, o sentido e significados do seu comportamento como heroínodependentes e o contexto social e cultural em que a mulher inicia e mantém a dependência das drogas. 97
alternativas de sentido no estilo de vida desviante é tanto mais relevante quanto mais se trate de mulheres com oportunidades de vida limitadas, em grande parte, ao quotidiano doméstico: «(...)due to their initially reduced options resulting from proverty, lack of viable goals, work, and education, the woman became emeshed in social worlds that they felt could increase their options" (Rosenbaum, 1981, p. 26) A experimentação de drogas pela mulher estaria sustentada na significação das suas vivências neste mundo social. Para além disso, os territórios que estas mulheres habitam favorecem a socialização com o "mundo desviante"104, em particular através do uso de drogas, que dá acesso a "sentidos existenciais" alternativos (Rosenbaum, 1981). No contacto com o estilo de vida ligado às drogas algumas mulheres encontram ao seu alcance alternativas de vida mais gratificantes do que na vida convencional, onde se sentiriam constrangidas e amarradas a expectativas de género rígidas (Friedman e Alicea,1995; Rosenbaum, 1981). No mundo "fora da lei" e da "fast life", paralelo ao da ordem social dominante, as mulheres vêem irromper oportunidades de experimentar actividades e relações que, pela primeira vez, lhes proporcionam prazer, excitação e desafio. Neste contexto, sentem-se valorizadas enquanto pessoas pela efectiva expressão de si próprias e pela experiência de pertença na interacção social: «They had been part of a cohesive and active social groupthe outlawswhere there was much partying and drug use» (Rosenbaum, 1981, p. 23). Têm acesso a actividades desviantes, como a venda de drogas e a prostituição que, apesar de estigmatizadas no mundo convencional, lhes podem permitir sentir-se mais reconhecidas economicamente e reforçadas nos sonhos de ascenção social. 104 Note-se que este mundo tem habitualmente origem em territórios guetizados onde a droga ganha significações positivas e onde, portanto, a busca de sentido existencial nas drogas é favorecida (Fernandes, 1997). 98
J. Friedman e M. Alicea (1995)105 afirmam que as drogas constituíam para as mulheres não só um meio de resistência como também assumiam uma função libertadora face aos constrangimentos ligados ao género. A heroína, em particular, como "droga de paz"106, de utilização desviante, em contexto não convencional, proporcionava oportunidades à mulher de assumir condutas de não conformidade à prescrição social de género (Rosenbaum, 1981; Friedman e Alicea, 1995). Não podemos deixar de referir, a propósito do "sentido de resistência" das mulheres, o trabalho de Cunha (1996) sobre mulheres em contexto carcerário em que a autora realça a capacidade de "invenção de si" a partir do corpo - se o "corpo recluído" é objecto de controlo da instituição prisional, é-o também instrumento de resistência, actuando como "sujeito da sua experiência"107.. As mulheres poder-se-iam "inventar" de um outro modo na trajectória desviante, ultrapassando as referências dominantes quanto ao ser mulher, esposa e mãe. Ou seja, assumindo um estilo de vida desviante permitir-se-iam contrariar o isolamento em casa e na família, envolver-se activamente na utilização de drogas, criar, assumir diversas condutas ou atitudes como unisexuais, atrever-se em relações instrumentais com homens e até arriscar-se em actividades criminais, favorecendo o prazer pelo prazer, a capacidade económica própria e o prestígio social num "mundo de homens"108 (Rosenbaum, 1981; Friedman e Alicea, 1995; Taylor, 1998). 105 A autora, no mesmo artigo, reflecte sobre o carácter "disciplinador" dos programas de tratamento com a metadona, ressaltando que há nestas mulheres, apesar do seu enquadramento institucional, preservação de autonomia própria: "these are people with a strong sense of themselves as resistors" (Friedman e Alicea, 1995, p.447). 106 Cf. a classificação de Drogas, de carácter fenomenológico (Escohotado, 1995) 107 Note-se que, segundo Cunha (1996), o uso de fardas uniformizadoras dos corpos traduz, da parte da instituição, o sentido de reeducação: "A recondução das desviantes à normalidade passava assim pela imagem considerada apropriada para o seu género e cujos ingredientes eram o recato, o pudor, a sobriedade..." (p.74).Por sua vez, as mulheres assumem condutas, dotadas de agência, através da utilização da maquilhagem e de adornos, atenuando a despersonalização imposta pela utilização de uniformes. 108 Cf. Ponto 3.1 Trajectória de Consumos e Relacionamento íntimo com Homens 99
b. Sujeição d© si Rosenbaum (1981) refere que o progressivo envolvimento no mundo social das drogas afasta a mulher do estilo de vida social anterior, uma vez que é difícil compatibilizar a rotina intensa ligada ao consumo com a ligação ao trabalho, a relação com a família e crianças. A progressiva "inundação"109 no mundo das drogas acarreta consigo um estreitamento de opções de vida, a todos os níveis: «... work activities become centered around the deviant commitment, and these activities serve to limit the possibility of working in the conventional world - and even further narrowing of options. Relationships with family and non deviant friends become strained, so that options for interpersonal relationships with members outside of the deviant community are reduced.» (Rosenbaum, 1981, p. 130) À medida que a mulher se aliena da vida convencional e emerge na carreira desviante, as opções em "ambos os mundos" vão-se estreitando, "decreasing the option to go back and forth between both worlds" (Rosenbaum,1981:130). Ao longo do trajecto de dependência das drogas o prometido alargamento de opções existenciais para a mulher transforma-se, então, em miragem. Verifica-se um registo de "substantivação" da existência, em que a busca de "transcendência" de si se dissipa (Agra, 1997): "(...)o poder químico, actuando à solta, devora a diferença mesmo aquela que a própria desviância inventou" (Agra, 1997, p.183). Na carreira da mulher nas drogas, tal como na dos homens, há portanto uma regressão no sucesso, a que M. Rosenbaum (1981) se refere como carreira "invertida". A regressão na carreira da mulher é mais marcada porque o desvio sublinha a estereotipia das expectativas de género e, por isso, as implicações na existência quotidiana da mulher 109 Cf. Definição de "inundation" (Rosenbaum, 1981, p.48). 100
que abusa de drogas são mais negativas (Rosenbaum, 1981; Friedman e Alicea, 1995). É, efectivamente, no final da trajectória que as diferenças no estilo de vida entre homem e mulher se acentuam: «when the toll of the heroin life affects women more severely and their roles as mothers and women impede their ability to "keep it together" as na addict» (Rosenbaum, 1981, p.47). Contrariamente à liberdade de alternativas que o início da carreira desviante proporcionava, dissolvendo-se os papéis de homem e mulher, os constrangimentos de género redobram-se e a mulher vai perdendo voz, isto é, fica mais sujeita às determinações de outrem, seja da substância, do homem ou da reacção social. A mulher confronta-se, no final da carreira, com as mais reduzidas opções de vida porque: «They are, in fact, more opressed than other women: they lose not only their work options but their options for a traditional career in wife and motherwood» (Rosenbaum, 1981, p.136) A ousadia de "invenção de si" representa custos elevados em termos de imagem social. As mulheres desviantes são vistas como "sexualmente promíscuas", e mesmo prostitutas, pois ultrapassam os limites estritos para as quais foram socializadas, nomeadamente pelo modo pouco feminino como utilizam o espaço público (Machado, 1997). Por outro lado, a prostituição, derradeiro recurso económico para muitas mulheres, coloca a mulher perante o paradoxo de, não obstante desafiar a prescrição social em termos de padrões de género, se sujeitar simultaneamente ao papel tradicional de subordinação ao homem, cedendo à utilização de si como "objecto sexual" de acordo com os modelos de comportamento sexual prescritos socialmente (Rosenbaum, 1981). No fim da carreira, os constrangimentos de classe, das classes mais desfavorecidas, ganham também mais relevo em termos de perda de poder na interacção social. Assim, associado ao maior isolamento e alienação a que a mulher toxicodependente se vai 101
sujeitando, agrava-se a probabilidade de problemas judiciais e da efectiva detenção das mulheres (Rosenbaum, 1981). c. Reinvenção perdida Se a redução do sentido da vida nas drogas se amplia consoante se prolonga a carreira, emerge, entretanto, a motivação para o tratamento. Face à experiência quotidiana intensa em que se inscrevia a sua vida anterior ao tratamento, quer do ponto de vista psicosensorial (novas sensações, novas perspectivas...) quer ao nível da acção (actividade constante, no espaço e no tempo), a "saída" das drogas é vivida, num primeiro momento, como um vazio (Taylor, 1998) e, num segundo momento, com desapontamento, perante as rotinas fundamentalmente produtivas do mainstream da vida. Ou seja, na tentativa de "saída" das drogas a mulher dá-se conta de quão difícil é a vida comum: «The recogntion of decreasing options often motivates the individual to try to get out of the deviant career. Upon attempting to sustain a conventional lifestyle, the now ex-deviant finds that, indeed, his/her options have been reduced and reentry into nondeviant society proves more difficult than have been assumed.This difficulty is perceived as a personal failure often causing the individual to retreat back to deviance.» (Rosenbaum, 1981, p. 130) O retorno à vida das drogas pode ser, então, entendido como o desejo renovado de criar alternativas de vida ligadas às experiências do passado. O estilo de vida nas drogas é reinvestido com mais atracção e com menos desdém - é a busca da euforia temporária do uso das substâncias mas também a gratificação do contexto de interacção social do "mundo das drogas" (Rosenbaum, 1981, p.133). 102
Em suma, se o uso de drogas, no início de carreira, seria integrado pela mulher no sentido duma maior determinação de si, ao longo da sua trajectória, pelo contrário, as alternativas e sentidos existenciais estreitam-se e os constrangimentos ligadas ao género vincam-se cada vez mais (Agra, 1997; Friedman e Alicea, 1995; Rosenbaum, 1981). 3.1.Trajectória de consumos e relacionamento com os homens «Detrás de cada chica toxicómana hay una historia de amor» Oriol Romani110 Apesar da grande influência, já referida111, dos parceiros sexuais nas carreiras de consumos das mulheres há indicações, dadas pelas investigação de proximidade, que a auto-iniciação da mulher é cada vez mais clara nas gerações mais novas (Rosenbaum, 1981; Taylor, 1998). Efectivamente, as mulheres mais velhas, por confronto com as mais novas, tendem a iniciar-se com os companheiros consumidores. No entanto, em geral as mulheres toxicodependentes112 não seriam tão passivas como a imagem social perpassa. Os companheiros teriam, essencialmente, um papel de mediadores da socialização com o mundo das drogas, proporcionando-lhes a familiarização quer com a substância, quer com o contexto. Através deles as mulheres entravam numa relação de proximidade com a simbólica das drogas, acompanhando-os aos "sítios" das drogas ou apreciando o 110 Romani(1985, p.130). Corresponde a um subtítulo de um ponto, relacionado com as mulheres toxicodependentes, que se intitula de modo sugestivo "Sin caballo, ni caballero" (Romani (1985, pp. 130-135). Cf. ponto 2.1. deste capítulo. 112 Cowan e Warren (1994) a este propósito distingue "mulher toxicodependente" de "mulher codependente": a mullher toxicodependente caracteriza-se por aspectos positivos mais ligados ao género masculino e à autonomia (instrumentalidade), enquanto que a "mulher codependente", parceira de homem consumidor mas não consumidora, é caracterizada por aspectos negativos associados ao género feminino (auto-sacrifício, responsabilidade pelo cuidado do outro, autonegação...). 103
consumo e a actividade de tráfico do companheiro, quando estes transpunham as fronteiras do espaço de rua e invadiam o doméstico. Efectivamente, são muitas vezes as mulheres que procuram os companheiros para lhes oferecerem drogas, porque querem partilhar a "onda" e o bem-estar deles, "o que quer que seja que a droga dá". Muitas vezes não há uma intencionalidade linear, a motivação hedonista da mulher cruzar-se-ia com uma lógica económica em que ela "faz questão" de consumir de forma a usufruir também os recursos económicos do casal, que são esgotados na vida da droga pelos companheiros. Por outro lado, a frequente oposição dos companheiros aos consumos da mulher, decorre, também, da tentativa de preservar as condições facilitadoras do consumo do próprio, e não simplesmente de motivações de protecção para com a mulher. É um facto que se torna mais difícil sustentar o estilo de vida das drogas se ambos os elementos do casal abusam de drogas, quer pelo desgaste económico, quer pela perda dum elemento de suporte doméstico, habitualmente a mulher (Rosenbaum, 1981; Taylor, 1998). Questionemo-nos, como já em 1978 Prather e Fidell propunham, sobre o tipo de relações estabelecidas por estas mulheres e os seus significados, em lugar de ver a interacção de homens e mulheres, toxicodependentes, de forma estereotipada113. Ao dicotomizar e homogeneizar em dois grupos de utilizadores de drogas, por um lado os "homens agentes", por outro lado as "mulheres vítimas", estamos a denegar a possibilidade de existência de experiências múltiplas das mulheres nas trajectórias transgressivas (e dos homens também) e a anular o que elas representam de subjectivação de si. O cruzamento ao longo do trajecto de consumos de mulheres e homens é, pois, mais diverso e complexo do que "consumir com eles", "por causa deles" e "à custa deles". 113 À imagem do que acontece nos processos de vitimação em que se constituem os homens como agressores e as mulheres como vítimas (Madriz, 1997a, cit. in Machado, 2000); 104
percorrido e ela própria terá dificuldade em (re)assumir o papel de mulher tradicionalmente esperado face a um companheiro: «Women who have been active, independent and self-supporting in illegal work find it difficult to enter traditional relationships as the subservient member of a dyad even if they have no learning toward feminism» (Rosenbaum, 1981, p. 134) Os estudos baseados em "histórias de vida" das mulheres permitem apreender a diversidade nas trajectórias das mulheres que se tornam consumidoras. Embora a trajectória de utilização de drogas das mulheres se inicie, habitualmente, no contexto das suas relações íntimas com companheiros consumidores, encontram-se, naquelas trajectórias, diferenças no grau de influência dos companheiros e diferenças no grau de determinação da mulher 3,2.Trajectória de consumos e relação com os filhos «Women in this group had to navigate a precarious path between their efforts to reduce drug-related harms and their efforts to avoid persecution» M. Rosenbaum e K. Irwin126 A expectativa de incapacidade das mulheres toxicodependentes no desempenho do papel da maternidade é sustentada pelo discurso médico-psicológico que está imbuído de estereótipos de género (Copeland, 1997; Rosenbaum, 1997). A mulher que utiliza drogas tende a ser considerada com "menos impulso materno" e "mais impulso sexual", o 126 Rosenbaum e Irwin (1998, p.316). 111
que decorre da assimilação à imagem de prostituta e do estigma correspondente (Copeland, 1997). Vários estudos indicam que ser mulher toxicodependente e mãe responsável não é necessariamente incompatível e questionam a perspectiva de que as mulheres toxicodependentes não assumem adequadamente o papel de mães, (Woods, 2000; Rosenbaum e Irwin, 1998; Taylor, 1998; Murphy, cit. in Rosenbaum, 1997) Do discurso das mulheres, dizem as autoras, são emanentes a preocupação e a responsabilização pelos seus filhos. Elas preocupam-se com o desenvolvimento das suas gravidezes, usam diversas estratégias para reduzir os riscos associados ao uso das drogas e, muitas vezes, os filhos são o motivo para a redução ou interupção de consumos. No entanto, Margaret Woods (2000127) chama a atenção para situações de pouco estímulo e de grandes dificuldades nos cuidados das crianças, embora reconhecendo que não se trata de algo inerente à estruturação da personalidade daquela mãe/mulher. Salienta, então, a existência de condicionantes contextuais e legais que não facilitam a tarefa da maternidade. A autora ressalta a situação de pobreza em que muitas mulheres estão envolvidas, que frequentemente antecede a dependência das drogas e, ainda, o facto de exercerem o seu papel parental a sós, sem contar com o envolvimento do pai da criança, alertando, assim, para questões de classe e de género que ultrapassam em muito o problema específico da mulher toxicodependente face à maternidade. O registo de suspeição e ameaça de retirada dos filhos, e efectiva penalização, tal como já referido, poderá contribuir para a fuga ao pedido de ajuda institucional da mulher e, consequentemente, desfavorecer os cuidados médicos à criança (Woods, 2000; Rosenbaum e Irwin, 1989). As mulheres relatam o dilema em que vivem, 127 Estudo em Dublin com base na observação participante de mulheres/mães toxicodependentes, assim como em entrevistas a técnicos de intervenção em toxicodependência. 112
simultaneamente desejantes e culpadas de exercerem a função maternal, procurando ser cuidadosas mas incapazes de o provarem perante a presunção social de incompetência. A propósito da "fuga às instituições", M. Rosenbaum (1997)128 e M. Woods (2002)129 denunciam o impacto preverso das políticas sociais criminalizadoras da mulher toxicodependente grávida ou mãe, respectivamente nos E.U.A e na Irlanda. Ou seja, a mulher toxicodependente, de modo a assegurar que o filho não lhe seja retirado e/ou a não ser confrontada com atitudes críticas ou culpabilizantes, pode sujeitar-se, a si e à criança, a não ter o acompanhamento médico necessário. O tema da maternidade é, muitas vezes, focado numa perspectiva moral130, de censura e de correcção, em que a ênfase é dada à retirada e colocação institucional, em detrimento do reforço da relação maternal e do seu acompanhamento, não obstante a maternidade poder constituir uma opção integradora no mundo fora das drogas, favorável à prossecução do tratamento (Rosenbaum,1981). Mesmo após o tratamento, refere Woods (2002), a mulher depara-se frequentemente com dificuldades em retomar a relação com os filhos (à guarda da família ou de uma instituição). O registo de confiança institucional na competência das mulheres permite, pelo contrário, o acompanhamento social mínimo das mulheres toxicodependentes grávidas, ou mães, apesar do dilema com que, muitas vezes, os técnicos também se confrontam acerca da qualidade da relação mãe-filho e das vantagens da manutenção desta relação (Woods, 2000). 128 Investigação importante a propósito dos "crack babies" sobre o efeito negativo, para a mãe e seus filhos, das opções assumidas pelos sistemas formais de tratamento que, presumivelmente, zelariam pela garantia dos cuidados na maternidade. 129 Investigação acerca das mulheres "desviantes" que, emblematicamente, tem o título "No place to hide", realizada na Irlanda, após o endurecimento das leis que permitem a retirada dos filhos (assim como a casa) às mulheres que são consideradas como apresentando um "comportamento antissocial" e cuja capacidade de ser mãe é questionada. 130 Marcelino (1995) afirma categoricamente que a maternidade amplia os problemas da mulher toxicodependente, culpabilizando-a por ter concebido uma criança adicta. 113
De qualquer modo, a autora salienta também a importância em desafiar as expectativas conservadoras, não tendo apenas como objectivo de tratamento a devolução da função maternal à mulher, sob o risco de a conformar apenas a prescrições sociais pré-definidas em detrimento de outras aspirações como mulher. Tal como já referimos, o percurso desviante ter-lhe-á proporcionado experiências distintas das que tem acesso no mundo convencional, mais consonantes com as expectativas de género, cujo significado não pode ser escamoteado na promoção de trajectórias alternativas com sentido. Será necessário promover intervenções complexas, que não descurem o cuidado com os bebés e as crianças, mas em que se procurem recursos e competências nas mães toxicodependentes, e não se conclua liminarmente pela sua incompetência, atendendo, simultaneamente, à mulher nas diferentes áreas da sua vida. 3,3, Trajectória de consumos e reiação com a actiwidade económica «Many women would like to leave the heroin but are not interested in legitimate work which is considered lowpaying routine, boring and too structured» Marsha Rosenbaum131 Como já referimos, a vida nas drogas proporciona à mulher acesso a um leque mais alargado de actividades que não as habitualmente destinadas às mulheres no mundo "legal". Há constrangimentos profissionais ligados ao género, em particular nas classes mais desfavorecidas, que favorecem a circunscrição do mundo do trabalho da mulher, em 131 Rosenbaum (1981, p. 134) 114
grande parte, à actividade doméstica, ao apoio a crianças e idosos, muitas vezes em contexto familiar não remunerado (Rosenbaum, 1981). Assim, as carreiras desviantes são activamente procuradas pelas mulheres em alternativa ao trabalho tradicional, já que a "vida de rua" proporciona oportunidades de proventos económicos mais vantajosos, promove a integração social e o prestígio entre a comunidade (Rosenbaum, 1981 ;Taylor, 1998). Tal como na trajectória do homem, a participação activa da mulher no crime é frequente, tanto no tráfico como no furto (Hser, Anglin e Chou,1992). Estes constituem a principal "actividade económica", dizem os autores, e garantem o seu estilo de vida nas drogas (quer em relação à subsistência quer ao consumo de drogas), contrariamente à crença de que a prostituição constituiria a actividade preponderante das mulheres toxicodependentes. De um modo geral, o estilo de vida da mulher nas drogas, como tal como o do homem, embora desviante é organizado num quotidiano de actividade intensa, planeado em busca de dinheiro e/ou de drogas, de forma o menos perigosa e o mais responsável possível. Mantêm-se, efectivamente, algumas diferenças entre homens e mulheres, de acordo com os estereótipos de género, no envolvimento em actividades desviantes, fundamentalmente em termos qualitativos, quer no modo de participação no tráfico (papel secundário), quer no tipo de furto realizado (shoplifter). Na fase final do trajecto de "abuso" de drogas a redução de opções profissionais revelase no recurso à prostituição, o que pode justificar a habitual assimilação da imagem social de mulher toxicodependente a prostituta (Rosenbaum, 1981). 115
Diversos estudos indicam a droga como um dos motivos mais importantes para a entrada na prostituição (Manita e Oliveira, 2002; Dalla, 2000; Graham e Wish, 1994)132. Manita e Oliveira (2002) afirmam, ainda, que para as mulheres toxicodependentes a prostituição é um recurso transitório em função dos consumos133. Segundo as autoras o facto de estas mulheres se terem iniciado no trabalho sexual, de modo a terem acesso a dinheiro para os consumos, coloca-as numa situação de pouca autonomia económica e de grande susceptibilidade social: «estas [toxicodependentes] revelam-se de entre as diferentes prostitutas de rua estudadas, aquelas em que a gestão da vida se afigura mais desorganizada, tanto no plano económico como nas restantes áreas da sua vida» (Manita e Oliveira, 2002, p.100) O trajecto de "abuso" de drogas vai-se reflectindo, não só na imagem social, mas também na imagem visual pouco apelativa, relacionada com o envelhecimento, o comprometimento da saúde física, o descuido dentário e o vestuário parco. Concretamente ao nível da actividade de prostituição a mulher vê limitado o seu sucesso já que a atracção sexual é, muitas vezes, um requisito essencial para que seja considerada com "valor comercial" na venda do corpo (e até na venda de drogas em que a atracção sexual é passível de ser associada ao "produto") A própria agilidade física, que se vai debilitando, é essencial no "trabalho de rua", tanto no trabalho sexual como na venda de drogas. 132 Note-se que os estudos indicam que a conexão dos dois fenómenos, toxicodependência e prostituição, não é de todo linear, sendo evidente também a utilização de drogas por mulheres prostitutas com uma significação própria: "coping face ao estilo de vida" (Kidd e Kral, 2002; Graham e Wish, 1994); a utilização abusiva de drogas, especialmente de cocaína, aconteceria após o início da actividade de prostituição, no sentido de facilitar a distância emocional que o "trabalho sexual" exige (Graham e Wish, 1994) ou, ainda, como um modo de "suicídio lento" (Kidd e Kral, 2002). 133 O estudo de C. Manita e A. Oliveira (2002) sobre a prostituição nas cidades do Porto e Matosinhos evidencia os seguintes dados: "a maioria destas mulheres [mulheres prostitutas] (69,8%) iniciou os consumos antes de se dedicar à actividade prostitutiva, enquanto que 30,2% dizem ter começado a consumir já depois de envolvidas na prostituição" (Manita e Oliveira, 2002, p.70). 116
As marcas deixadas pelas drogas dificultam ainda a reintegração profissional dos toxicodependentes, sendo mais gravosas para as mulheres. Por um lado, pelo estigma relacionado com o trabalho sexual134 que se presume ter existido no passado. Por outro lado, porque as actividades que tradicionalmente135 lhe são destinadas, como as de "relação de ajuda", requerem contacto social face a face, pelo que se torna mais relevante a imagem física. Finalmente, a relevância da idade para a imagem social é diferente consoante se trate da mulher ou do homem - quanto mais velha a mulher, menos cumpre os critérios de imagem ideal, social e "sexualmente". A mulher de "meiaidade" confronta-se com a sua desvalorização como trabalhadora, pois a capacidade profissional é muito referida à sua imagem e ao seu potencial de atracção. De facto, a mulher toxicodependente vive o retorno à relação com o "mundo convencional" do trabalho com dificuldades acrescidas, face aos homens e face ao "antes das drogas". Na fase de "saída" das drogas, habitualmente, as mulheres têm menos emprego e são mais dependentes de subsídios do Estado que os homens (Anglin, Hser e Booth, 1987). Quando a mulher se integra numa actividade formal, legal e "feminina", atingindo o equilíbrio profissional, "desaponta-se" porque o nível de vida tende a decair em termos económicos e a estruturação da rotina quotidiana fora das drogas deixa um "vazio" de acção (Taylor, 1998). A reintegração profissional é vivida, então, por muitas mulheres, como uma perda de liberdade, pela constrição do estilo de vida produtiva que o mainstream impõe, nomeadamente ao remeter a mulher para actividades low-sensation, ditas femininas, em contraponto com a diversidade e intensidade da vida das drogas (Rosenbaum, 1981). As autoras que propõe a denominação de "trabalho sexual", não deixam de ressaltar a sua especificidade: "este trabalho é diferente dos outros, sobretudo pelo estigma que lhe está associado." (Manita e Oliveira, 2002, p.24). 135 Note-se que as actividades tradicionalmente destinadas ao homem estão ligadas à manualidade e à força e, portanto, a imagem não tem o mesmo impacto na relação com o trabalho. 117
«...o pai do James Watt não inventou a máquina a vapor (...) porque outras pessoas tiveram de pensar noutras coisas antes que alguém pudesse fazer uma máquina a vapor.» Mary Catherine Bateson136 PARTE II ESTUDO EMPÍRICO 136 Bateson (1996, p.38). 118
Na primeira parte do nosso estudo analisámos, reflectimos, e sistematizámos, sob a égide do construcionismo social, as questões de género e a problemática da toxicodependência e a compreensão das trajectórias de consumos das mulheres e dos processos de (re)construção de trajectórias alternativas. É com este enquadramento que pretendemos, com o estudo empírico que realizámos, contribuir com uma parcela de saber "cumulativo" que de algum modo permita ampliar o alcance e a precisão do conhecimento existente (Khun, 1998). A segunda parte deste trabalho consiste na apresentação do estudo empírico que desenvolvemos de modo a explorar os significados associados às trajectórias de consumo de mulheres. Em primeiro lugar, esclarecemos as nossas opções metodológicas e processuais no Capítulo III: "Método", e em seguida procedemos à análise, classificação e interpretação do material qualitativo no Capítulo IV: "Apresentação e Interpretação dos Dados". 119
Capítulo III: MÉTODO «...doing biography is an active constructionist activity, from the picking of a hero or heroine to the seeking of data pools, to the selection of issues and themes, and to the final image or portrait that is drawn.» L. Smith137 Neste capítulo enunciamos os objectivos que sustentam o estudo empírico de acordo com as motivações referidas na introdução, apresentamos as opções metodológicas do mesmo estudo e reflectimos brevemente sobre a contextualização epistemológica do método, disponibilizando a perspectiva de investigação que esteve presente no processo e para a qual uma leitura ajustada do conhecimento produzido remete. Assim, descrevemos no essencial o procedimento de recolha de dados, o processo de análise de conteúdo e, ainda, as respectivas técnicas e instrumentos utilizados. 1. Posicionamento metodológico 1,1. Obfecto/objectívos O estudo empírico que realizámos tem como objecto de estudo as mulheres toxicodependentes e a sua trajectória no consumo de drogas (heroína e/ou cocaína138), tendo em conta os seguintes objectivos de investigação: L Smith (1998, p. 218) 120
2. Recolha de dados 2.1. Participantes À escolha das participantes presidiram critérios de significatividade, configurando uma amostra de conveniência, base a partir da qual se visam aprofundar dimensões qualitativas sobre o fenómeno social e as suas implicações (Burgess, 1984). Como já referido, o objectivo do estudo é aceder a histórias de vida ricas de conteúdo que permitam mapear as possibilidades discursivas das mulheres toxicodependentes Ou seja, as "mulheres toxicodependentes" foram selecionadas em função da plausibilidade em representar o fenómeno central que se pretende estudar, o que as configura como "peritos experienciais". A "amostra" foi sendo constituída de forma intencional até ao ponto de "saturação teórica": aquando da oitava entrevista percebemos que as regularidades dos vários discursos se tornavam cada vez mais evidentes. Assim, considerando que os "casos" não seriam significativamente diferentes, em relação aos objectivos específicos deste estudo, concluímos a recolha dos dados à décima entrevista151. Todas as mulheres entrevistadas152 frequentam um Centro de Atendimento a Toxicodependentes (CAT) do Grande Porto, onde seguiam tratamento no momento em que foram entrevistadas (primeiro semestre de 2002).153 Foram contactadas pelas 151 Cf. Capítulo IV: "Apresentação e Interpretação dos Dados" onde se procede à caracterização das participantes, já que, por razões metodológicas, apenas são conhecidas as suas características na sequência da análise de conteúdo das entrevistas. 152 Apenas uma mulher foi contactada através do marido, utente do CAT, não sendo, nem tendo sido, ela própria utente do CAT; embora tivesse, no passado, realizado tratamento institucional recorrera a outra instituição. 153 A selecção de mulheres participantes com contacto institucional constituiu, também, uma opção pragmática, já que tínhamos desde logo garantido o acesso à recolha de dados na instituição onde exercemos a nossa prática profissional (CAT); estamos cientes que a saída para o contexto da experiência do quotidiano das drogas (ainda que as mulheres entrevistadas tivessem igualmente em contacto com alguma instituição de tratamento) teria permitido aprofundar as significações dos percursos das mulheres toxicodependentes, já que a rememoração das vivências seria favorecida pela integração dos planos cognitivo e afectivo. Consideramos, ainda, que seria interessante procurar contextos diversificados que, eventualmente, enquadrassem outras singularidades nas 127
respectivas terapeutas para conversarem, nas instalações do CAT, com uma colega que estava a realizar um estudo sobre a experiência das mulheres com drogas. O que significa que as terapeutas funcionaram como "informantes privilegiados"154, seleccionando as mulheres de acordo com os critérios estabelecidos e pondo-nos em contacto com elas. Os critérios de selecção155 das entrevistadas foram: a heroína constituir uma droga de "abuso" na trajectória da mulher, ainda que outras possam ser, ou ter sido, utilizadas; existir uma fase evidente de "abuso" de drogas na trajectória de consumos vivida pela mulher, não interessando entrevistar mulheres numa fase inicial. 2,2. Procediu A adesão e a colaboração das mulheres toxicodependentes no processo da entrevista foi evidente156. Por um lado, esta disponibilidade foi, em grande parte, garantida pelas terapeutas, dada a relação de confiança estabelecida. Por outro lado, essa adesão devese ao sucesso do encaminhamento directo para a entrevista a partir da consulta com a terapeuta. histórias das suas "actrizes"; por exemplo, seria diferente ouvir mulheres: em fase activa de consumo ou mulheres que estão em fase de tratamento; mulheres que consomem em casa, nos bastidores da vida dos seus homens, sem cidadania real no "mundo das drogas", ou mulheres consumidoras que habitam o contexto de rua; mulheres que actuam no negócio do tráfico ou num território de prostituição. No entanto, as limitações temporais inerentes a este tipo de investigação não nos permitiram o alargamento dos objectivos de estudo. 154 Conceito extrapolado do campo da etnografia, contexto onde assume o sentido em pleno, que se refere a pessoas cujo o papel é facilitar o acesso aos sujeitos a conhecer; o informante privilegiado pode ser ele próprio também entrevistado, apenas o mediador do contacto para entrevista, ou ainda facilitador, através da sua presença natural no habitat social, da observação directa dos sujeitos pelo investigador que o acompanha. 155 Dadas as características do estudo, optou-se por excluir mulheres com incapacidade grave - situacional ou estrutural - em se exprimirem ou reflectirem sobre a sua experiência. 156 Apenas uma das mulheres com quem se efectuara contacto não compareceu (após terceira marcação respeitámos a sua não comparência, entendendo-a como forma de comunicar a não disponibilidade). 128
Por nossa parte, adoptámos algumas estratégias no sentido de valorizar a contribuição das mulheres e garantir o respeito por cada uma como pessoa, já que nos estavam a disponibilizar tempo e privacidade seus. Assim, houve o cuidado por parte da entrevistadora (simultaneamente investigadora e terapeuta no mesmo CAT) de usar indicadores distintivos do contexto de conversação no sentido de tornar expresso que a entrevista não se situava nos contextos clínico e institucional habituais, apesar do espaço da consulta e da entrevista ser o mesmo157. Igualmente, procurando introduzir um registo de maior horizontalidade na comunicação, não utilizamos a secretária que, nas consultas do CAT, se interpõe sempre entre terapeuta e cliente, tendo a conversa com as mulheres decorrido em sofás lado a lado158. Por outro lado, a entrevistadora reforçou também a confiança e o sentido de sigilo reafirmando: que se tratava duma conversa que pretendia "perceber a sua experiência com as drogas, como aliás a de outras mulheres com quem já conversei"; que se tratava de um estudo da nossa responsabilidade em ligação com uma Faculdade de Psicologia, independente do CAT e da sua terapeuta; que com a sua colaboração poderia ajudar outras mulheres, pois pretendíamos «comprender melhor a história das mulheres nas drogas para poder tratar melhor». Finalmente, considerámos importante fazer saber que, "quando o trabalho estiver concluído, podem ter acesso a ele ou conversar comigo sobre os resultados". 157 A distanciação do papel de terapeuta da instituição onde decorria a entrevista e a ênfase na identificação como investigadora duma faculdade constituíram cuidados processuais relacionados com a premissa, já referida, de que o entrevistador contribui incontornavelmente para a construção da realidade em função da representação de que é alvo. Tratando-se de mulheres com envolvimento actual com a instituição de tratamento, seria de esperar que as entrevistas traduzissem, de algum modo, a "experiência" da instituição de saúde, tanto mais que nós representamos o "outro lado", o poder institucional, a norma e o controlo social; o nosso propósito, ao adoptar estes cuidados no procedimento, visava tão só minimizar o constrangimento de poder/saber institucional que a sobreposição de papéis e contextos favorecia. No decorrer da entrevista foi oferecido um café, criando-se um ambiente mais informal favorecedor da partilha da intimidade da sua vida. 129
O limite da partilha da história de vida foi determinado por cada entrevistada, em termos de tempo e, sobretudo, de profundidade, ainda que a entrevistadora tenha utilizado questões abertas, de acordo com o guião, no sentido de facilitar o relato e a abertura de áreas temáticas na conversa. Foi com base nas duas primeiras entrevistas realizadas que aferimos a adequação do "guião da entrevista" como instrumento adequado para obter o tipo de informação que pretendíamos sobre o nosso objecto de estudo. Neste momento do processo de recolha dos dados afinámos, também, todos os meios envolvidos no processo de entrevista, para além do guião, a logística e o sistema de registo. As entrevistas realizaram-se individualmente, com uma duração entre os 30 minutos e as duas horas, e foram integralmente gravadas em sistema audio e, posteriormente, transcritas para Word. 3. Procedimentos de análise 3.1. Constituição do corpus e preparação da análise Ao longo do processo de entrevista, e da sua transcrição, os dados obtidos foram suscitando em nós pistas de análise e interpretação159. De modo a "fazer ciência", tendo presente a importância do corte epistemológico em relação ao senso comum (Bachelard, 1996), havia que organizar o material e analisá-lo de modo sistemático. A sistematização é preciosa para se garantir o respeito pela informação contida nos dados, pois possibilta o teste de consistência de intuições impostas à primeira impressão e também permite reconhecer o "não visível" ao nível dos dados brutos. Como diz L. Bardin Constituiram-se, assim, os primeiros memorandos de cariz impressionista e intuitivo. 130
(1991, p.116): «O acontecimento, o acidente e a raridade possuem por vezes, um sentido muito forte que não deve ser abafado». A análise de conteúdo constitui uma metodologia consistente, quer com o carácter eminentemente qualitativo do material em estudo, quer com os propósitos de conceptualização teórica da investigação160. No sentido da preparação do corpus para a análise realizou-se, numa primeira fase, morosa mas incontornável, a transcrição integral das entrevistas do registo audio para o processamento em Word. No decorrer da transcrição das entrevistas foram feitos alguns retoques de forma a "limpá-las de ruído", eliminando do corpo do texto, por exemplo, interjeições e redundâncias do discurso oral, procurando não interferir com o seu sentido. Em seguida, procedemos ao recorte do corpus em unidades de registo161. Finalizado este procedimento para os dez documentos, resultante das dez entrevistas, obtivemos um conjunto de 5121 unidades de registo, correspondendo em média a 500 unidades de registo por documento. 3,2, O processo de codificação e categorização As entrevistas foram objecto duma análise de conteúdo de tipo categorial: «...operação de classificação de elementos constitutivos de um conjunto, por diferenciação e, seguidamente, por reagrupamento segundo o género (analogia)...» (Bardin, 1991, p.117). Optámos por utilizar o NUD*IST como software informático de apoio a todo o procedimento de análise, que se revelou fundamental quer como suporte eficaz de 160 A perspectiva de investigação vai na direcção da "criação teórica" {theory generation) por oposição à "verificação teórica" (theory verification) (Glaser e Strauss, 1967). 161 Dada a dificuldade na consistência do mesmo critério ao longo do processo, socorremo-nos de um juiz independente (a quem nos referimos na página de agradecimentos) para melhor aferir o recorte final das unidades de registo. 131
registo e organização dos dados, quer como base dinâmica na criação e recriação de categorias: «...o importante é dispor de um instrumento que permita ventilar eficazmente as respostas sem as deformar ou interpretar e sem deixar um pesado resíduo por explorar...» (Poirier, ClapierValladon, Raybaut,1995, p.113) Realizou-se o reagrupamento das unidades de registo por categorias, utilizando o procedimento de code e retrieve, para a totalidade das 5121 unidades de registo, referente aos dez documentos. O processo analítico subjacente à categorização levou-nos à produção de mais de duas centenas de categorias e subcategorias. Este processo foi essencialmente orientado pelo critério de saturação teórica das categorias emergentes, em que estas vão sendo definidas à medida que prossegue a análise documental, dando-se o "ponto de saturação" quando os dados (unidades de registo) não fazem emergir novas categorias e a sua codificação recai sobre as categorias pré-existentes. Por outro lado, adoptámos a modalidade open categorizing162, ou seja, a cada unidade de análise foram atribuídas todas as categorias possíveis conquanto se adequassem. Este modo de categorização potencia a ligação do processo de análise e de interpretação aos dados, tal como é prescrito teoricamente: «Investigators sistematically categorize data and limit theorizing until patterns in the data emerge from the categorizing operation» (Rennie, Philips, Quartaro, 1988, 141). 162 Esta opção (procedimento adoptado pela grounded analysis em contraponto com a análise de conteúdo clássica) decorreu, essencialmente, da utilização do NUD*IST como instrumento de apoio à análise de conteúdo que a viabiliza; sendo as unidades de registo codificadas simultaneamente em diferentes categorias, a mútua exclusividade da categorização atém-se ao conteúdo e não à unidade de registo; a mútua exclusividade estrita, no sentido de não existir partilha de unidades de registo entre categorias ou subcategorias, será devidamente indicada e justificada no Capítulo IV:."Apresentação e Interpretação dos Dados", aquando da descrição do sistema de categorias criado. 132
Nesta fase do processo há uma maior aproximação aos propósitos de sistematização e de generalização duma metodologia clássica e de instrumentação quantitativa, pelo modo como é maximizada a aferição dos relatos individuais uns aos outros, ainda que numa perspectiva qualitativa (Rennie, Philips e Quartaro, 1988). A finalização do processo de categorização aconteceu com o trabalho posterior de fusão e cisão de categorias e subcategorias, sendo o sistema de categorias final constituído por 14 categorias e 30 subcategorias. Considerámos residuais todas as categorias com menos de 75 unidades, optando por não as considerar no sistema de classificação conceptualizado, sob o risco de a análise se tornar muito dispersa e a interpretação inconsistente. Uma referência última ao NUD*IST que, assente em dois sistemas, Document Explorer e Node Explorer, procede à organização do corpus simultaneamente em documentos e em categorias. O procedimento de code and retrieve, base do programa, supõe o confronto sistemático das unidades de registo umas com as outras antes da sua inclusão numa ou noutra categoria/subcategoria. Esta constante comparação do conteúdo das categorias e subcategorias do sistema de classificação dos vários documentos163, visa alcançar o que há de comum aos diferentes relatos individuais. A possibilidade de se colocar em relação as categorias e/ou documentos, através de "comandos" de pesquisa específicos, potencia a emergência de novas categorias de carácter conceptual mais complexo. Procedimento denominado pela grounded analysis como "método de comparação constante". 133
O NUD*IST constituiu, assim, uma opção metodológica fundamental por facilitar não só o processo de análise de conteúdo, em sentido restrito, como também o desenvolvimento de pistas conceptuais de interpretação dos dados. 3,3, Análise das entrewistas e classificação em Posições de Significação Transgressiwa Paralelamente à análise de conteúdo das entrevistas procedemos à classificação das mulheres entrevistadas em função da Posição de Significação Transgressiva dominante: PST Substantiva; PST Solidária; PST Solitária; PST Projectiva164. Optámos por classificar as Posições de Significação Transgressiva das entrevistadas de acordo com os dados sobre a sua "experiência de drogas"165 ao longo da trajectória de vida, em três momentos distintos do consumo: Início; Abuso; Saída. A classificação foi realizada pela própria investigadora e por três juízes independentes com base em sinopses das entrevistas originais ("sinopses alargadas"166), integrando extractos de discurso directo das mulheres entrevistadas. Para cada entrevista é analisado o acordo entre juízes quanto às PST atribuídas167. 164 Cf. Teoria do Sujeito Autopoiético (Agra, 1991,1993) sumariamente descrita no Capítulo I, ponto 2.2.) 165 Optámos por focalizar a classificação das P.S.T. na "experiência da droga" por constituir o tema central catalizador de todo o discurso, que orienta e cinge o desenvolvimento do relato ao nível das diferentes áreas da vida; isto é, a profundidade da entrevista nas diferentes áreas de vida é limitada em função do cruzamento com a "experiência de droga", não oferecendo, pois, elementos necessários a uma classificação acurada das PST. Note-se que, por exemplo, no "relacionamento com os homens" as entrevistadas relatam essencialmente de modo signficativo as relações com homens contemporâneas do seu trajecto nas drogas. 166 Sinopses próximas do corpus das entrevistas de modo a facilitar o processo de classificação sem contudo desvirtuar o conteúdo; tal como em relação às entrevistas originais optamos por não disponibilizar o material em anexo devido à sua grande extensão. 167 Cf. Capítulo IV: "Apresentação e Interpretação dos Resultados" e Anexo III: Posições de Significação Transgressiva". 134
«...para ter pensamentos novos ou para dizer coisas novas, temos de separar todas as ideias já prontas e misturar os pedaços outra vez.» Gregory Bateson168 Capítulo IV: APRESENTAÇÃO E INTERPRETAÇÃO DOS DADOS Antes de proceder à interpretação e à "verdadeira" indução teórica169, organizamos os dados das entrevistas realizadas em sinopses individuais e, ainda, em quadros sinópticos globais. Deste modo, procuramos reduzir a informação tornando-a manejável, permitir uma primeira leitura "impressionista", assim como partilhar com o leitor, no fundamental, o trajecto analítico por nós percorrido. 168 Bateson (1996, p.30) 169 Poder-se-á num sentido mais lato afirmar que já há produção teórica aquando das opções metodológicas quanto aos procedimentos de recolha de dados e de análise (Richards e Richards, 1998). 135
1. Sinopses Candy Mulher de 40 anos, envelhecida, de aparência modesta. Revela dificuldade em elaborar reflexões que ultrapassem o registo descritivo da sua experiência. Tem 4 anos de escolaridade. Trabalha como operária numa fábrica de calçado, tendo, aliás, trabalhado em todo o seu trajecto de vida, inclusivamente durante o período ligado ao consumo de drogas. É casada há 20 anos e tem duas filhas. Vivem os quatro numa casa pequena, sem casa de banho própria e sem água canalizada. Foi com o marido, que consumia quando namoravam, que conheceu as drogas pela primeira vez: "eu sabia, mas eu gostava dele, casei com ele". Foi por sua própria insistência que Candy experimentou heroína: "queria saber o que ele sentia", o que era "aquilo" tão central na vida do seu homem. A partir daí, foi fazendo experiências distintas com o marido, "via fazer, também fazia igual". A experiência que a heroína e a cocaína lhe proporcionaram, oferecendo-lhe ânimo para "tudo fazer" após um dia de trabalho, nomeadamente a lida doméstica, justificou a continuidade dos consumos. Eram, contudo, vivências distintas: com a cocaína, "eu ficava com muita força", e com a heroína, "a gente parece que está nas nuvens". 170 Trata-se de sinopses correspondentes ao rearranjo das entrevistas originais no sentido de sumarizar e organizar o seu conteúdo temporal e tematicamente; optamos por não incluir em anexo as entrevistas originais dada a sua grande extensão. 136
Separou-se do primeiro marido (consumidor) e enviuvou do segundo marido (não consumidor) de quem teve um filho e ao lado de quem interrompeu os consumos. Vive actualmente com a tia e o bebé. Conheceu "drogas leves" com um grupo de amigos, em contexto de divertimento, nomeadamente em discotecas. Com a prima, por proposta desta, experimentou heroína, que uns amigos tinham, pois havia "falta de haxixe". Refere uma experiência de grande satisfação logo de "início", apesar dos efeitos secundários desconfortáveis, mantendo consumos diários com a prima: "nos princípios era bonito (...) ver a bolha da heroína a escorrer para cima e para baixo". Rapidamente se deu conta do "poder" da heroína ao qual atribui a responsabilidade do seu trajecto: "caí na tentação de experimentar e quando a gente menos espera a tentação cobre-nos". Elis envolveu-se intimamente no "mundo da droga" com o companheiro, consumidor e traficante, passando a ter heroína e cocaína à discrição. Com ele colaborou activamente no tráfico, garantindo desse modo não apenas os consumos como a sobrevivência de ambos. Foi numa época de grande "abuso" de drogas que engravidou e, apesar de ter feito esforços no sentido de reduzir os consumos, o bébé nasceu prematuramente sem vida. Na sequência da detenção do companheiro (e do sogro) assumiu a actividade de traficante durante algum tempo, fazendo de "ponte" entre o exterior e o estabelecimento prisional, revelando-se sábia no seu desempenho. Não pensou na "saída", vivenciando não só o prazer da "moca" como a sua competência no "mundo das drogas". Depois conheceu outro homem, mais velho, casado, não consumidor, e afastou-se do marido, ainda detido. 143
Devido ao encontro com este homem, que virá a ser o seu segundo marido e pai do seu filho a alternativa de tratamento começou a configurar-se no seu pensamento. O apoio incondicional da tia, "sempre me deu força e coragem", também ajudou a tecer a sua decisão de se tratar. A partir de então desenrolou-se um longo trajecto de tentativas de sucessivas "saídas" e recaídas nos consumos, sempre acompanhada pelo companheiro que a foi sustentando, tanto nos consumos, como no lazer. Acabou por parar com as drogas, engravidou e casou: "pesou-me a consciência, de tudo o que ele estava a passar". A questão da imagem social terá sido também um factor de motivação importante: "hoje posso pôr ao alto a cabeça que não sou apontada por ninguém". Mantém-se sem consumos tiá 5 anos, em consultas de follow-up sem qualquer apoio de medicação. Actualmente fuma haxixe sem regularidade. Apenas ambiciona aquilo que tem, trabalhar, tratar do filho e divertir-se: "quero curtir aquilo que não curti, sempre com a cabeça assente, com juízo". Faz, no entanto, um balanço positivo do seu percurso: "aprendi a defender-me sozinha e a lutar pela vida ". EMA Mulher de 31 anos, cuidada, sem adereços "femininos". No decorrer da entrevista teve uma postura colaborante e uma atitude afável. Tem nove anos de escolaridade. Quando desistiu de estudar foi trabalhar como empregada de balcão. Depois ficou desempregada e não voltou a trabalhar durante o primeiro casamento. Ajudou o marido a traficar na fase de consumos. Após a separação 144
retomou uma actividade legal, que manteve, mesmo nos períodos em que voltou a consumir sozinha. Actualmente é empregada numa grande superfície comercial. Vive com um companheiro (consumidor em tratamento com metadona) e com as filhas (uma filha do primeiro casamento e outra, bebé, filha da ligação actual). Contactou com as drogas, heroína e cocaína, por intermédio do seu primeiro companheiro, começando a consumir com ele após o casamento: "aquilo era novidade para mim..., e eu gostava de experimentar". Gostava de ambas as drogas, mas em especial da cocaína que lhe dava energia, embora logo depois tivesse que acalmar com a heroína: "uma pessoa sente-se diferente, não pensa em mais nada". Houve um período em que foi uma experiência de prazer, em que consumia com o companheiro e os amigos: "íamos sempre passear para todo o lado". Inicialmente o companheiro trabalhava mas depois começou a traficar, o que lhes permitiu garantir os consumos. Ema colaborou, também, na actividade de tráfico. Manteve sempre contacto com "o mundo das drogas" mesmo durante o período da gravidez em que se absteve de consmir, pois acompanhava diariamente o marido. Retomou os consumos logo após o primeiro mês de amamentação: "ele consumia, eu queria estar a consumir com ele". O "abuso" de drogas do casal, em particular a dificuldade de gerir os consumos de cocaína, excedeu a determinada altura a capacidade económica: "quando começou a deixar de haver foi muito mau, porque eu precisava de consumir e havia dias que não tinha". Ema sofreu maus tratos, física e verbalmente, ou porque ele não dividia com ela as drogas que conseguiam adquirir, ou porque ele exigia que ela pedisse dinheiro à 145
família. Interrompia os consumos sempre que se separava do companheiro, mas recomeçava-os logo que voltava para ele. Após a separação definitiva, depois de ter parado com as drogas, de ter reconstruído as suas relações familiares, de estar a trabalhar e de ter à sua responsabilidade a filha, recomeçou a consumir heroína sozinha: "é um bichinho que fica cá dentro". Mantinha um estilo de vida autónomo com o dinheiro do seu trabalho, em que o contacto com "o mundo das drogas" se restringia à compra: "ia deixar a menina na ama e tinha sempre dinheiro para consumir porque trabalhava" Com o apoio da família e com o apoio institucional orientou-se para o tratamento. A responsabilidade face à filha foi a principal motivação para que isso acontecesse: "primeiro estava a minha filha, eu queria estar com ela, não queria que ninguém ma tirasse". A maior dificuldade que sentiu na "saída" foi a de lidar com a imagem que os outros, os familiares e a rede social em geral, tinham dela: "porque as pessoas estavam sempre de pé atrás". Actualmente, está afastada de todo o estilo de vida relacionado com os consumos, não mantendo sequer contacto institucional, a não ser através do actual companheiro que está em programa de substituição (metadona). Do período de "abuso" de drogas, que considera basicamente negativo, ressalta a satisfação de ter tido uma filha. Valida do seguinte modo a experiência de todo o trajecto: "acho que aprendi um bocado a defender-me sozinha, estava habituada a ter sempre alguém que me defendesse, ou mãe ou irmã, tive de me desenrascar sozinha". 146
LOR Mulher de 30 anos, cuidada, de olhos pintados como uma "senhora". O discurso é fluente embora não seja muito elaborado, evidenciando interesse em que o relato da sua experiência possa ser útil. Fez seis anos de escolaridade. Trabalhou como operária, o que inicialmente lhe permitia ganhar para o dia a dia, inclusive para os consumos. Durante a época de "abuso" de drogas, trabalhou em actividades de prostituição para garantir os recursos económicos necessários à aquisição de drogas. Actualmente toma conta de crianças numa casa particular. Flor está divorcida do pai do seu filho (não consumidor). Vive com os seus pais e com o filho, que frequenta um colégio interno na zona do Porto durante a semana. Mantém um relacionamento afectivo regular com um homem casado (não consumidor).Iniciou o consumo de heroína, com o irmão e a cunhada (consumidores regulares), logo após a separação do seu marido. Justifica o "início" de consumos nessa fase da sua vida porque "eu andava muito em baixo, tinha-me separado...". A primeira vez que consumiu heroína não gostou, mas persistiu: "depois habituei-me aquilo e comecei a gostar". Fazia os seus consumos, de heroína e cocaína, sem grande contacto com o "mundo da droga", normalmente na companhia do seu irmão, e dum ou doutro amigo dele. Continuou a consumir porque as drogas tinham um sentido positivo para a sua vida: "a gente pode estar com o maior problema do mundo..., mas naquela altura, quando está a consumir, uma pessoa esquece completamente...". Apercebeu-se de que estava dependente da heroína quando o dinheiro começou a escassear e a droga a faltar. Na ânsia do consumo, especialmente de cocaína, aceitou uma proposta de ir trabalhar para 147
uma boite, "é querer dinheiro e não ter e começar a pensar em como..., nem me passava pela cabeça andar na rua...". No entanto, foi na actividade de prostituição de rua que encontrou o contexto de trabalho mais favorável ao seu estilo de vida centrado nas drogas, por um lado porque lhe dava garantias de proventos económicos conforme a necessidade, por outro lado porque lhe proporcionava a liberdade necessária para se deslocar, adquirir e consumir, sem as contingências dum horário laboral. Exerceu a sua actividade por "conta própria", aprendendo estratégias para minorar riscos, e procurando resguardar a sua privacidade. Com o apoio dum cliente, com quem tinha estabelecido uma relação emocional, fez um primeiro tratamento, deixando quer os consumos, quer a actividade de prostituição: "foi aquela força de gostar dele". Recomeçou os consumos aquando duma primeira separação deste homem: "quando a a gente está a fumar está tudo bem, não pensa em nada...". Retornou ao CAT procurando tratamento, com o apoio da mãe, e reconciliou-se com o "amante" com o qual mantém actualmente um relacionamento regular. Considera ter recuperado a sua "dignidade" e "auto-estima", "inclusive estou muito mais feminina". Refazer a imagem social, deixando a prostituição, foi a principal motivação para a "saída" das drogas: "porque não é vida para mim isto, para deixar a prostituição tinha que deixar o consumo de drogas". O filho foi também importante na decisão de tratamento: "um dos desejos que ele pediu quando fez dez anos foi que eu deixasse a droga". O filho é actualmente uma prioridade no seu quotidiano, pois anteriormente, embora não o tratasse mal, foi a sua mãe quem cuidou dele: "não pude ter tempo, nem lhe dei a atenção que lhe devia dar". 148
Deixou de consumir há dois anos utilizando um opiáceo substituto (buprenorfina), que ainda hoje mantém. Na sequência do trajecto vivido conclui que se devem enfrentar os problemas: "refugiarme na droga não me leva a nada nenhum, antes pelo contrário, em vez de ter os mesmos problemas tenho muito mais". Considera, apesar de tudo, que a experiência da droga lhe permitiu ampliar a sua sabedoria de vida, que lhe pode ser útil para ajudar alguém no futuro. Li LI É uma mulher, de 23 anos, de aparência frágil. Porém, o seu discurso é ágil e entusiástico. Fez nove anos de escolaridade, desistindo dos estudos quando o pai saiu de casa, porque tinha que ajudar ao sustento económico da casa. Começou por trabalhar como empregada de café, actividade que retomou após tratamento. Durante o período de "abuso" de drogas trabalhou com sucesso em actividades relacionadas com o tráfico, garantindo a sua sobrevivência e o seu consumo. Está separada do seu primeiro companheiro com quem conheceu as drogas e com quem consumiu nos primeiros tempos. Juntou-se a ele por amor e opôs-se à família na sua opção. Entretanto, foi tendo outras relações com homens de cariz mais funcional, em torno das drogas. Actualmente, vive com a mãe e não mantém nenhuma relação íntima. Procurando compreender o que havia nas drogas que afastava o seu companheiro de si, tomou a iniciativa de procurar um amigo dele, sem ele saber, para comprar e consumir. 149
Depois de experimentar passou a consumir com o companheiro porque gostou, especialmente da heroína: "uma pessoa ficava diferente". As dificuldades económicas foram aumentando e ele tornou-se muito "egoísta". A relação perdeu o sentido: "sentia falta de carinho, de tudo, porque ele não me dava nada disso, só queria saber da droga". Depois da separação começou a consumir mais. Por um lado, porque estava "deprimida" e com a heroína ficava bem: "naquela altura parece que ficamos nas nuvens, esquecemos de tudo e todos". Por outro lado, porque passou a ter droga "à disposição" pois tinha-se envolvido numa relação com um homem traficante. Inicialmente o contrato era de teor comercial, ela vendia para ele e ele dava-lhe drogas e casa: "até que depois vi-me obrigada a ser companheira dele, o interesse dele era outro e aproveitou-se". Foi um período de muito consumo e de evasão da realidade. Sentia-se muito reforçada no seu desempenho como traficante, quer pelo patrão-companheiro, quer pelos pares homens que na rua traficavam em concorrência com ela: "por acaso tinha jeito para isso e tinha olho", "tudo vinha comprar a heroína a mim". Ela própria sentia satisfação no seu papel, "gostava daquilo, achava mesmo graça". Posteriormente foi maltratada, batida e humilhada pelo companheiro, nomeadamente quando ficou grávida e não dava o mesmo rendimento no negócio. A vida tornou-se insustentável e Lili fugiu. Encontrou uma nova alternativa de vida no "mundo das drogas", trocando, com sucesso, o seu trabalho de colaboração no tráfico por drogas, residência e alimentação em casa de amigos e amigas ligados ao tráfico. O reforço que as drogas lhe proporcionava continuou a ser importante para ela: "o que eu não conseguia mesmo fazer, conseguia fazer com as drogas" 150
Entretanto, apesar de ter adoptado alguns cuidados de redução de riscos, perdeu o bébé, envolvendo-se mais no consumo de heroína. No entanto, a perda da criança constituiu um acontecimento vital para tomar a decisão de mudar o seu estilo de vida e de pedir ajuda à mãe: "foi uma força enorme que até nem me importei do meu orgulho". Apoiou-se deliberadamente no seu primeiro namorado (não consumidor) para suportar o afastamento das drogas e de todas as vivências relacionadas. Actualmente não consome, fazendo tratamento com antagonista opiáceo. Reflectindo sobre o seu trajecto, conclui que: "Sei viver sozinha às minhas custas, aprendi muito, cresci muito, cresci bastante". NÉ Mulher de 42 anos, bonita, com uma pose sedutora. O discurso é diferenciado. Situa-se num estrato social privilegiado. Fez o 9o ano, deixando de estudar quando engravidou, casou e teve a filha. Não trabalhou durante cinco anos, enquanto esteve casada, porque o marido garantia o sustento económico. Após a separação trabalhou como secretária duma empresa. Actualmente não trabalha nem tem autonomia económica.Vive em casa dos pais e a filha, de 24 anos, vive com a avó paterna desde que ingressou no ensino superior. Tem um namorado, empresário, não consumidor, com quem já viveu. Né iniciou-se nas drogas aos 16 anos com o namorado e amigos dele. Fez várias experiências com drogas "leves" e outras, como a morfina e o preludin: "mas era um ambiente muito engraçado na época, de companheirismo". 151
O namorado tinha sido uma conquista muito prestigiante: "ele era lá o ídolo das meninas, tinha uma moto e as meninas todas atrás (...), ele acabou por me seduzir". Terá sido por insistência dele que deu o primeiro "chuto" de preludin. Gostou da experiência: "foi das drogas que experimentei que mais satisfação me deram, dava uma boa disposição..., muita apetência para as coisas, muita energia". O namorado gostava de lhe dar a conhecer as várias drogas. Um dia ofereceu-lhe heroína, que ela experimentou sozinha em casa: "eu senti-me completamente a viajar". Fez um primeiro corte com o "mundo das drogas", abandonando os consumos, quando nasceu a filha: "eu só queria estar com a minha filha muito juntinha e tratar muito bem dela". Mais tarde recomeçou a consumir com regularidade: "porque o meu marido voltou à carga, eanda...". Quando a filha tinha cinco anos separou-se porque afinal a relação não era de amor, mas sim a mais-valia ligada às "experiências": "era mais aquela sedução (...), era aquilo das drogas e tudo isso". Afastada dele, e a viver com a filha, largou a heroína e começou a trabalhar. Mais tarde, por convite dum amigo consumidor recomeçou, "o bichinho funcionou". Pensa que o facto de se sentir sozinha teve importância na recaída: "[aquilo] acabava por me adormecer, anestesiar". Manteve os consumos praticamente à margem do "mundo das drogas" porque conseguia gerir a sua vida pessoal, profissional e familiar sem que ninguém se apercebesse da sua dependência. Consumia o mínimo e em privado de modo a poder garantir economicamente os consumos e, também, "de forma a ficar normalíssima para poder ser uma mãe dedicada". Né diz que nestes últimos anos se foi tornando incapaz de gerir o seu estilo de vida. Numa primeira fase porque perdeu o emprego e teve que voltar para casa dos pais, onde havia um ambiente "péssimo". Numa segunda fase porque o namorado (não consumidor) 152
mulheres denunciam que a motivação para a abstinência se prende com a renovação da imagem de mãe, que tende a ser desvalorizada pela conotação negativa que as drogas sustém. É de notar, ainda, em relação à importância do estigma, tema prevalecente nas histórias de vida das mulheres, que, se o "medo do estigma" é, muitas vezes, desencadeador de tratamento, o estigma das mulheres é indicado por elas próprias como fonte de recaída ou de dificuldade de reintegração no mundo convencional, ou até, dizem algumas, como uma marca inextinguível. Algumas mulheres participam da manutenção dos estereótipos quando, apesar da sua trajectória singular, se referem às mulheres, em geral, de forma crítica, identificando mulher toxicodependente com prostituta, como o faz Né quando diz, "a mulher nas drogas é horrível!". Ressalte-se, finalmente, que os relatos destas mulheres, mais ou menos represntativos, não são de significação unívoca, mas sim expressão de múltiplos sentidos, por vezes contraditórios, a partir dos quais surgem, precisamente, as potencialidades de (re)invenção de si. A experiência do mundo da droga e do mundo desviante proporciona à mulher, nos seus diferentes contextos, nas suas diferentes interacções, e a partir de papéis diversos, uma outra vontade de saber e poder sobre si, sobre os seus actos e sobre a vida. Valorizando a importância do sentido de autoria, que temos vindo a sustentar ao longo do trabalho, é essencial termos presente as significações, positivas ou negativas, convencionais ou alternativas, das trajectórias das mulheres toxicodependentes, de modo a considerar algumas pistas de intervenção. Pistas de intervenção que, realçamos de novo, enfatizem a possibilidade das mulheres "re-historiarem" a sua vida, de acordo com narrativas mais livres dos constrangimentos ligados ao "género" e às "drogas". 255
3. Pistas para intervenção com mulheres toxicodependentes A análise de conteúdo das entrevistas aponta para a existência de comportamentos desviantes das mulheres e para novos significados, que deles decorrem, na interacção social. Como diz Bourgois (1995), a mulher está a ousar um outro modo de estar, mais concretamente está a conquistar o espaço público. Importa, então, considerar que poderá existir maior necessidade de procura dos contextos de tratamento pelas mulheres. De modo a facilitar o acesso efectivo das mulheres toxicodependentes às diversas instituições, será importante atender a diferentes aspectos que os relatos das mulheres que entrevistámos, de facto, reflectem, e que têm sido considerados como constituindo barreiras aos cuidados das mulheres toxicodependentes. Não nos parece que a existência de serviços específicos para mulheres toxicodependentes constitua a questão central. De acordo com a premissa, para nós fundamental, de não perpetuar a diferenciação das pessoas em função do género, não vemos necessidade de existirem instituições de tratamento diferenciais. Instituições específicas para mulheres, por exemplo com base na maternidade, tendem a fomentar a essencialização das diferenças, reduzindo a mulher ao papel de mãe. Ao dicotomizar e homogeneizar os grupos em função do género está-se a denegar a existência de experiências de singularidade por parte de algumas mulheres, e alguns homens, e a existência de estratégias de resistência ao domínio que a narrativa de género exerce sobre as suas vidas. Ou seja, dessubjectiva-se a mulher, e o homem, e como que se anula a possibilidade da diferença existente para além das expectativas de género. Assumindo esta posição - a opção por instituições de tratamento sem diferenciação em função do género - não queremos, contudo, negar a importância de questões específicas ou idiossincráticas nas trajectórias das mulheres, em grande parte decorrentes da própria construção social da diferença, dominante nos contextos de socialização. Por isso, de modo a implementar intervenções gender sensitive, consideramos útil não separar, mas diversificar, contextos terapêuticos específicos para mulheres nas instituições de tratamento de 256
toxicodependentes, quer se trate de consultas específicas para grávidas, quer se trate de grupos terapêuticos para mulheres com problemáticas comuns, como,por exemplo, a violência doméstica ou o abuso sexual. No sentido de dar suporte à formação de contextos terapêuticos, designadamente na formação das equipas técnicas, direccionados para a desconstrução de restrições das narrativas de género nas trajectórias das mulheres, importa ter presente algumas questões. Por um lado, considerar a importância de desafiar os constrangimentos ligados às construções de género que limitam as capacidades individuais e relacionais, considerando especificamente as questões de marginalização e de opressão das mulheres na família (Dankoski e Deacon, 2000; Knudson-Martin e Mahoney, 1999). Por outro lado, convém considerar o entrecruzar das questões de género com as da desviância nas mulheres, que se traduz globalmente num forte estigma social revelado aos mais diversos níveis. É importante, pois, dar atenção a alguns aspectos que também no nosso estudo se revelaram centrais: 1. A dominância de companheiros consumidores, com grande influência no seu quotidiano do consumo e na sua actividade desviante e pouca influência no que diz respeito ao apoio de procura ou efectivo tratamento (Anglin, Hser, e Booth, 1987), por contraponto com o que acontece na maioria das trajectórias dos homens, em que são as companheiras que sustentam a ligação quer ao mundo convencional, quer ao tratamento. Ou seja, a mulher toxicodependente tende a ter, ao seu lado, um companheiro que é toxicodependente e com quem está envolvida no consumo e em actividades económicas desviantes, contexto relacional não favorecedor de tratamento. 2. A existência de filhos, embora constitua também fonte de ansiedade, é um factor favorável à intencionalização e empenho das mulheres toxicodependentes no tratamento (Anglin, Hser, e Booth, 1987). Note-se, portanto, a relevância das instituições contemplarem estruturas de 257
apoio às crianças, de modo a que as mulheres, responsáveis pelos cuidados dos filhos, mais facilmente possam recorrer a elas, por contraponto ao "terror interventivo" que, muitas vezes, subjaz à denúncia e à "retirada de crianças às mães" porque elas são toxicodependentes. 3. A importância de promover aspirações como mulher, pessoa singular, e não mulherestereótipo. Para isso, é necessário desafiar as expectativas conservadoras das terapias que tendem a conformar, por um lado, a mulher ao papel de mãe (Woods, 2000) e, por outro lado, a actividades domésticas ou a domínios tradicionais, face aos quais a mulher não se identifica necessariamente, apenas porque é mulher. 4. Em relação aos contextos de tratamento, importa organizar os serviços de modo a transcender as barreiras de acesso das mulheres ao tratamento, quer logísticas, quer relativas à equipa técnica (Copeland, 1997; Wallace, 1995). Estas barreiras, muitas vezes, estão envolvidas pelo temor da mulher em ser identificada como toxicodependente e ser, assim, estigmatizada (Baker, 2000). Os autores salientam a importância da formação das equipas de modo a que possam reconhecer o estigma como marca indelével para a mulher, desfavorável à motivação para tratamento. Esteves (1997) destaca, especificamente, o benefício da terapia ser desenvolvida por uma terapeuta feminina e/ou com um estilo não confrontativo. Qualquer intervenção, a nível individual ou comunitário, em termos de prevenção ou de tratamento, deve ter em atenção as peculiaridades ligadas ao género, designadamente no sentido de não abafar a diferença que a mulher (ou o homem), como pessoa, procura na sua existência. Não pretendemos preconizar qualquer proteccionismo, mas sim fazer respeitar as significações que as mulheres revelaram, de "abertura" a trajectos mais autodeterminados. Presumimos, isso sim, que a pessoa existencialmente menos determinada por constrangimentos sociais (por exemplo, os ligados às narrativas de género) será mais capaz de criar alternativas de vida harmoniosas, de fazer emergir imprevisibilidades suscitadoras de novos equilíbrios, de potenciar o desenvolvimento de (re)autorias. 258
Como terapeutas ou investigadores/as, se verdadeiramente escutarmos a voz do Outro, se recebermos o singular como positivo, numa verdadeira "conversação etnográfica" (Hoffman, 1990), se atendermos, numa posição de neutralidade, ao discurso "marginal" (Checcin, 1987), se fizermos também de nós objecto de vigilância crítica (Tomm, 1987), então poderemos aceder realmente às significações destas mulheres e facilitar a transformação das narrativasproblema em narrativas de autoria própria. Se a perspectiva pós-modemista, e narrativa, do mundo nos incita à liberdade de escolha da visão da realidade mais "útil" à abordagem terapêutica, e à vida, também nos devolve, a cada um, a responsabilidade de estar consciente da existência de constrangimentos inerentes a categorias sociais (a umas mais do que a outras) que podem estreitar sobremaneira o modo como as pessoas, homens e mulheres, pensam, actuam e vivem. Por isso, é incontornável dar atenção ao género, e à sua relação com a desviância. 259
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GRELHA DE ENTREVISTA (I) MULHERES USO E ABUSO DE DROGAS (heroína e cocaína) i. ideritifícação/Sityação Actuai 1.Idade; estudos; profissão actual; nível económico 2. Namorado/Companheiro/Marido 3. Filhos 4. Coabitação actual/nível económico õ.Família de origem (com quem cresceu): estudos; profissões; nível económico 6.Uso/Abuso da Heroína: duração; situação actual li. Carreira de Uso e Abuso de Drogas - Fases; 1 .Contacto Inicial 2.Tornar-se Dependente 3.Dependência 4.Tratamento Áreas de vida por Fase: Consumo; Trabalho; Lazer; Parceiros; Filhos; Família; Amigos; Justiça; Saúde 271
III. Impressões ao longo da entrevista ■ contexto da entrevista (onde; através de quem) ■ tempo de entrevista ■ facilidade do contacto/comunicação ■ aspectos não verbais: interesse; envolvimento emocional; capacidade de evocação e análise; IV, Questões de género269 O que pensa da relação mulherhomem? Como vê a mulher no "mundo da droga"? O que pensa da relação mulherhomem no "mundo da droga"? 269 Na conversação, especificamente sobre estas questões, que implicavam alguma metacomunicação, tivemos que encontrar expressões alternativas mais comummente utilizadas no quotodiano social, como por exemplo, "O que pensa da mulher-drogada e do homem-drogado7" 272
GRELHA DE ENTREVISTA (II) MULHERES USO E ABUSO DE DROGAS (heroína e cocaína) 1. CONTACTO INICIAL Consumo ■ Como aconteceu? Com que idade? Onde? Fumada ou injectada? Com quem? Que tipo de relação? Foi oferecida ou comprada? ■ Que expectativas tinha? Correspondeu? Já usava outras drogas ou psicofármacos? Que prazer tirou da experiência? Família/ Amigos ■ Com quem vivia? Como era a sua vida? Tinha amigos/amigas regulares? Trabalho/Lazer ■ Que actividade tinha? Estudava em que ano? Trabalhava em quê? Estava em casa? Como subsistia? Que ambições, planos tinha? ■ Como se divertia no tempo livre? Com quem? Parceiros/Filhos ■ Tinha companheiro, namorado ou marido? Ele consumia? E filhos? Justiça/Saúde ■ Tinha problemas especiais de saúde? E com a justiça? 273
2. TORNAR-SE DEPENDENTE Consumo ■ Houve algum período em que controlava o consumo, não usava diariamente, não gastava todo o dinheiro, consumia quando apetecia? Quanto tempo? ■ Porque continuou a usar? ■ Com que regularidade consumia e quanto? Com quem habitualmente? Como adquiria? Como pagava? ■ Que prazer sentia nessa altura? Trabalho/Lazer ■ Trabalhava? Em quê? Em que condições? Regalias? Davalhe autonomia económica? ■ Como se divertia no tempo livre? Com quem? Parceiros/Fíihos ■ Tinha namorado, companheiro ou marido? Este consumia? Consumia com ele? ■ Tinha filhos? Quem cuidava deles? Família/Amigos ■ Que relação mantinha com família e amigos não consumidores? Os amigos tornaramse consumidores? Há familiares consumidores? Quem sabia dos seus consumos? Como reagiam? Justiça/Saúde ■ Tinha problemas especiais de saúde? E com a justiça? 274
3. DEPENDÊNCIA Consumo ■ Quanto tempo levou até se descobrir com necessidade diária? Como percebeu? Que idade tinha? Com quem o fazia? Como sustentava? Injectava ou fumava? Frequência e quantidade por dia? Havia outras drogas/psicofármacos? ■ Porque continuava a consumir? ■ Fez alguma paragem por si própria? E tentativas? Trabalho/Lazer ■ Que actividade exercia? Estudava, trabalhava, legal ou ilegal, em casa ou fora? ■ Como se divertia no tempo livre? Com quem? Parceiros/Filhos ■ Tinha namorado, companheiro ou marido? Ele consumia? Consumia com ele? ■ Tinha filhos? Com quem viviam? Quem cuidava deles? Como os sustentava? Família e Amigos ■ Relação com amigos e família? Mudou? O que perdeu? O que ganhou? Tem relações de confiança? Com quem conta? E relações conflituais? Com alguém em particular? Justiça/Saúde ■ Algum contacto com instâncias policiais? E judiciais? Foi inquirida? Detida? Tem processo pendente? Tem pena a cumprir? O que deu origem a estas questões judiciais? ■ Tinha problemas médicos? Preocupações com saúde? Que diligências tomou? Teve algum contacto com instituições assistenciais? 275
4.TRATAMENT0 Consumo ■ Porque pensou em parar os consumos? Em que circunstâncias pensou nessa hipótese pela primeira vez? O que fez para procurar ajuda? Com que idade teve pela primeira vez ajuda? Institucional? Pessoal? Quem apoiou? ■ Com quem vivia? Como assegurava o consumo? Com quem consumia na altura? A sua companhia habitual também se tratou? ■ Recaída(s)? Como aconteceu? Com quem? Comprou ou ofereceramlhe? Em que circunstâncias? Como explica? Como aconteceu? Como explica? ■ Novos tratamentos? Qual considera ter sido o tratamento mais válido? Porquê? Último tratamento? Como correu? Está satisfeita? Porquê? Com ou sem abstinência ? Trabalho/Lazer ■ Aquando do tratamento que actividade tinha? Trabalho legal? Tráfico? Prostituição? Pequena delinquência? Manteve? Tem outra? ■ Como se divertia no tempo livre? Com quem? Parceiros/Filhos ■ Namorado/marido/ companheiro consumiam? ■ Existiam filhos aquando do 1o tratamento/último tratamento? A seu cuidado? De outrem? Família/Amigos ■ Tinha algum ligação privilegiada a familiar? Houve pressão para tratamento? E apoio? ■ Os amigos eram consumidores? Trataramse? Apoiaram? Afastaramse? Jystiça/Saéde ■ Teve problemas? Esteve detida alguma vez? ■ Questões médicas? HIV? Hepatite C? Problemas psiquiátricos? Psicofármacos prescritos? 276
ANEXO II POSIÇÕES DE SIGNIFICAÇÃO TRANSGRESSIVA 277
Quadro hPosições de Significação Transgressiva I FASE DE INÍCIO 1. Investigadora 2. Juízes Independentes ACORDO 1. Investigadora A B C 1+2 A+B+C Candy SolitáriaSolidária SolidáriaSolitária Solidária SolidáriaSolitária NAO Solidária SIM SolidáriaSolitária Cris SolitáriaSolidária Solidária Solidária Solidária SIM Solidária SIM Solidária Di SolitáriaSolidária SolidáriaSolitária SolidáriaSolitária SolidáriaSolitária SIM SolidáriaSolitária SIM SolidáriaSolitária Elis Solitária-Solidária SolitáriaSolidária SolitáriaSolidária SolidáriaSubstantiva SIM SolitáriaSolidária SIM SolitáriaSolidária Ema SolitáriaSolidária SolitáriaSolidária SolidáriaSolitária SolidáriaSolitária NAO Solitária SIM SolidáriaSolitária Flor SolidáriaSubstantiva SubstantiaSolitária SubstantivaSolidária SubstantivaSolitária NAO Substantiva SIM SubstantivaSolitária Lili Solitária SolitáriaSolidária SolitáriaSolidária Solidária NAO Solitária Solidária SIM SolitáriaSolidária Né SolidáriaSolitária SolitáriaSubstantiva SolitáriaSubstantiva Solidária NÃO Solitária SIM SolitáriaSubstantiva Sara Solitária SolidáriaSolitária SolidáriaSolitária SolidáriaSolitária SIM SolidáriaSolitária SIM SolidáriaSolitária Zé SolidáriaSubstantiva SolitáriaSolidária SolidáriaSolitária Substantiva NAO Solidária NAO Solidária 278
Quadro II: Posições de Significação Transgressiva II FASE DE ABUSO 1. Investigadora 2. Juízes Independentes ACORDO 1. Investigadora A B C 1+2 A+B+C Candy Substantiva SolitáriaSubstantiva SolidáriaSubstantiva SolitáriaSubstantiva NAO Substantiva SIM SolitáriaSubstantiva Cris SubstantivaSolidária Substantiva Substantiva Substantiva SIM Substantiva SIM Substantiva Di SubstantivaSolidária SubstantivaSolidária SolitáriaSolidária Substantiva NAO Solidária Substantiva NÃO Solidária Substantiva Elis Substantiva-Solitária SubstantivaSolitária SubstantivaSolitária SubstantivaSolitária SIM SubstantivaSolitária SIM SubstantivaSolitária Ema Substantiva-Solitária SolitáriaSubstantiva SolitáriaSolidária SolitáriaSolidária NAO Solitária SIM SolitáriaSolidária Flor Solitária Substantiva SubstantivaSolitária NÃO Substantiva Solitária NAO Substantiva Flor Solitária Substantiva SubstantivaSolitária NÃO Substantiva Solitária NAO Substantiva Lili Solitária SolitáriaSubstantiva SolitáriaSolidária Solitária NÃO Solitária NAO Solitária Né Solitária SolitáriaSubstantiva SolitáriaSubstantiva SolitáriaSubstantiva SIM SolitáriaSubstantiva SIM SolitáriaSubstantiva Sara Solitária SolitáriaSolidária SolitáriaSolidária SolidáriaSubstantiva NAO Solidária SIM SolitáriaSu bstanti va Zé SubstantivaSolidária SubstantivaSolitária SubstantivaSolitária NAO Substantiva SIM Substantiva -Solitária Zé SubstantivaSolidária SubstantivaSolitária SubstantivaSolitária NAO Substantiva SIM Substantiva -Solitária 279
Quadro III: Posições de Significação Transgressiva III FASE DE SAÍDA 1. Investigadora 2. Juízes Independentes ACORDO 1. Investigadora A B C 1+2 A+B+C Candy SolidáriaSubstantiva SolidáriaSolitária SolitáriaSolidária NAO Solidária NÃO Solidária Solitária Candy SolidáriaSubstantiva SolidáriaSolitária SolitáriaSolidária NAO Solidária NÃO Solidária Solitária Cris Solidária Solidária Solidária SubstantivaSolidária SIM Solidária SIM Solidária Di Solitária SolitáriaSolidária SolidáriaSolitária Solitária NAO Solitária NAO Solitária Elis Solidária SubstantivaSolitária SolidáriaSubstantiva NAO Solidária Substantiva NAO Substantiva Elis Solidária SubstantivaSolitária SolidáriaSubstantiva NAO Solidária Substantiva NAO Substantiva Ema Solidária SolitáriaSolidária SolitáriaSolidária SIM Solitária Solidária SIM Solitária Solidária Ema Solidária SolitáriaSolidária SolitáriaSolidária SIM Solitária Solidária SIM Solitária Solidária Flor Solidária Solitária Solitária Solitária SIM Solitária SIM Solitária Lili Solitária Solitária Solitária SIM Solitária SIM Solitária Né Solidária SolitáriaSolidária SolitáriaSubstantiva SolitáriaSolidária NÃO Solidária SIM Solitário Solidária Sara SolidáriaSubstantiva SolitáriaSubstantiva SolitáriaSubstantiva NAO Substantiva SIM SolitárioSubstantiva Sara SolidáriaSubstantiva SolitáriaSubstantiva SolitáriaSubstantiva NAO Substantiva SIM SolitárioSubstantiva Zé Solidária SolitáriaSubstantiva SubstantivaSolitária Substantiva NÃO Substantiva NAO Substantiva 280
Gráfico 8:FLOR* Solitária - SolH.Solid. _ Solít.Subst._ Solid.Solit._ Solidária SoïïcLSubsfcSubstSolitSybs.Sofîd: SubstantivaInício Abuso Saída 287
Gráfico 7;LÎLI Solitária _ Soiït.Soîid. _ ■ : : SoIît.Subst._ : ; Solid.Solit._ ! : Solidária | ' : Soïid.Subsfc i i ; ; i SubstSolit— i , : Sobs.SolId.— 1 : Substantiva- ; ; ! ■ ; : : \ \ : 1 Início 1 Abuso Saída 288
Gráfico 8;Né* Solitária _ SolltSolid SolitSubst. SoIíd.SolIt _ ; ! ; Solidária ! ; ; Soïîd.Subsfe^ SubsLSolit— Subs.Solíd.— ; ; : Substantivai 1 ; • i ; ; ; í ; Início 1 Abuso 1 Saída 289
Gráfico 9;SARA* Solitária _ Solit.Solid._ SolitSubst, Solîd.Soiït. _ Solidária SofífiSyfasfcrSubstSoiit— Subs.Solsci. SubstantivaInício Abuso I Saída 290
Gráfico 10:ZÉ Solitária - Soiit.Solid._ Solit.Subst._ SoIid.Soiit._ Solidária SoiíciSubsfeSubsLSoiit— Subs.Solicí SubstantivaInício Abuso Saída 291