Cad. Me op., São Paulo, . 21, n. 44, pp. 221-251, jan/ab 2019
h p://dx.doi.o g/10.1590/2236-9996.2019-4410
A igo publicado em Open Acess
C ea i e Commons A ibu ion
Lisboa em ansição p o unda
e desequilib ada. Habi ação,
imobiliá io e polí ica u bana no sul
da Eu opa e na e a digi al
Lisbon in deep and unbalanced ansi ion. Housing, eal es a e
and u ban policy in he sou h o Eu ope and in he digi al e a
João Seixas [I]
Simone Tulumello [II]
Gio anni Alleg e i [III]
Resumo
Lisboa encon a-se em ansição. Ao sai de uma
c ise económica acompanhada po se e as polí i-
cas de aus e idade, encon a-se numa no a ase de
dinamismo económico, mas sem consegui in e e
an igas e no as es u u as de desigualdade social
e e i o ial. Es e a igo, ao mos a as ecen es
ans o mações do me cado imobiliá io e da habi-
ação na p incipal cidade po uguesa, bem como
os mo imen os sociais p eocupados com o di ei o
à habi ação, ques iona as a iculações en e de-
sen ol imen o local e modelos da no a economia
global. A ecen e his ó ia de Lisboa é ap esen ada
como caso pa adigmá ico das dispu as en e mode-
los pseudolibe ais de desen ol imen o económico
e u bano, e a paula ina o mação de suas con es a-
ções locais, sob e udo sociais mas ambém ins i u-
cionais e, dece o, c escen emen e in e ligadas em
edes in e nacionais.
Pala as-cha e: mo imen os sociais; di ei o à
habi ação; di ei o à cidade; polí icas u banas;
Po ugal.
Abs ac
Lisbon is unde going deep ans o ma ions.
A e an economic c isis accompanied by ha sh
aus e i y policies, Lisbon is expe iencing a new
economic dynamism, bu wi hou e e ing old
and new, social and e i o ial, inequali ies.
This a icle p esen s ecen ans o ma ions in
he eal es a e ma ke and housing o he main
Po uguese ci y, and po ays eme ging social
mo emen s conce ned abou he igh o housing.
In addi ion, i ques ions he a icula ions be ween
local de elopmen and models o he new global
economy. Lisbon’s ecen his o y is shown as a
pa adigma ic case o clashes among pseudo-libe al
models o u ban and economic de elopmen , and
he g adual eme gence o o ms o con es a ion,
wi h bo h social and ins i u ional na u es, a
he local le el bu inc easingly connec ed o
in e na ional ne wo ks.
Keywo ds:
social mo emen s; igh o
housing; igh o he ci y; u ban policies;
Po ugal.
João Seixas, Simone Tulumello, Gio anni Alleg e i
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In odução
Lisboa, junho de 2018. Sucedem-se, ao longo
desse mês das es as da cidade, uma mul iplici-
dade de no ícias e de si uações com epicen o
e i o ial ou polí ico na capi al po uguesa, e-
sul an es de impo an es endências com e o-
lução inc emen al:
1) A cidade de Lisboa é p emiada no
“Eu ope’s Leading Ci y Des ina ion” nos p é-
mios da Wo ld T a el Awa ds. No ano an e io ,
a cidade ha ia sido elei a como o “Melho Des-
ino Mundial pa a Ci y B eaks”. As dis inções,
apesa de simbólicas, êm e le ido nos núme-
os do me cado u ís ico da cidade.
2) Os dados do ano de 2017 egis a am
mais de 20 milhões de hóspedes no país, co -
espondendo a ce ca de 60 milhões de diá ias
em ho éis. O me cado do u ismo ep esen a a
quase 10% do PIB nacional, co espondendo
a ce ca de 50% das expo ações de se iços e
a mais de 15% das expo ações o ais. Nesse
con ex o, o u ismo u bano em a i mando-se
cla amen e como o segmen o em maio c esci-
men o no país.
3) Segundo o ela ó io de junho da Con iden-
cial Imobiliá io,1 as expec a i as de alo ização
dos in es imen os imobiliá ios u ís icos si ua-
am-se em o no de 7,1%/ano ( eja-se quando
compa adas com uma média de 3-4% dos in-
es imen os em habi ação). En e os elemen os
em maio c escimen o, como esul ado da ápi-
da mu ação pa a uma economia de in e media-
ção digi al, o des aque man inha-se nos apa a-
men os de
sho en al
(a endamen o de b e e
du ação). Os dados da pla a o ma “Ai DNA”2
ap esen a am pa a o município cen al de Lis-
boa, em junho de 2017, um núme o de apa -
amen os em
sho en al
já supe io a 14 mil,
80% des es co espondiam a casas in ei as,
demons ando a p o issionalização do sec o e
a desmis i icação da pe spec i a da habi ação
pa ilhada, pelo menos em e mos u ís icos.
O ácio de núme o de apa amen os u ís icos
em ace do núme o o al de apa amen os, no
município de Lisboa, mos a a se p ac icamen-
e o dob o que em Ba celona (4,5% an e 2,5%
espec i amen e); e i icando-se o mesmo ipo
de p essão nou os indicado es sin é icos si-
mila es, ais como o núme o de hospedagens
u ís icas, dian e do núme o de esiden es (21,5
an e 14,5, espec i amen e).
4) O índice de alo ização das endas esi-
denciais, a ualizado pelo Ins i u o Nacional de
Es a ís ica (INE, 2018), egis a a um aumen o
anual homólogo de ce ca de 18%. Essa e olu-
ção e a co obo ada pela Con idencial Imobiliá-
io, que in o ma a uma a iação pa a o cen o
de Lisboa supe io a 100% em ace dos ní eis
de 2011; e um índice global de 140% pa a oda
a cidade; num aumen o inc emen al que a in-
gia uma a iação da enda imobiliá ia, pa a o-
do o país, de 14,2% em elação ao ano an e io
(ibid.). O núme o de casas em pipeline de licen-
ciamen o habi acional pa a a cidade aumen a-
a 60% an e o ano an e io (ibid.).
5) Po seu lado, o ela ó io de Es abilidade Fi-
nancei a do Banco de Po ugal (2018) e ela a,
pela p imei a ez, uma ele an e p eocupação
pública pela c escen e ulne abilidade e endi-
idamen o das amílias em ace dos aumen os
das endas egis ados no me cado imobiliá io.
6) A Câma a Municipal de Lisboa (CML)
anuncia a a en ega de meia cen ena de casas
municipais eabili adas e com enda apoiada
pa a mo ado es do cen o his ó ico, no âmbi-
o do p og ama “Habi a o Cen o His ó ico”,
e lec indo, assim, o início ope acional do mais
Lisboa em ansição p o unda e desequilib ada
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amplo P og ama de Renda Acessí el (PRA)
cujos obje i os compo am a en ega de ce ca
de 7 mil unidades habi acionais a é ao ano de
2021, num o e in es imen o público (sob e-
udo na disponibilização de pa imónio muni-
cipal) e sus en ado na con a ualização com
in es imen o p i ado num alo global supe io
a 700 milhões de eu os.3
7) A CML assumia, en e an o, a sua pa ici-
pação no g upo de cidades – que inclui Be lim,
Ba celona, Cidade do México, Lond es, No a
Yo k, Mon e ideo, en e ou as – que i ia, no
mês seguin e, assina publicamen e na sede
das Nações Unidas, em No a Yo k, a decla a-
ção “Ci ies o Adequa e Housing”.4 A c iação
dessa ede e ela a p eocupação pública e in-
e nacional pela si uação de c escen e p essão
sob e os me cados u banos da habi ação; e
exigia maio a enção global a essas ealidades,
bem como mais pode es, ins umen os e capa-
cidade polí ica pa a pode em ac ua de o ma
mais ené gica.
8) En e an o, na Assembleia da República
Po uguesa, e já desde o ano an e io , deba-
iam-se e p opunham-se al e ações a diplo-
mas de ele ada ele ância pa a os me cados
imobiliá io, habi acional e u ís ico nacional. A
pe spec i a que se ia ma e ializando e a a do
econhecimen o das ele adas p essões sob e a
habi ação; mas conjugada com uma necessida-
de de manu enção da ecupe ação económica
e dos in es imen os ex e nos.
9) P ac icamen e odos os dias, nos jo nais
e nos mais di e sos encon os, con e ências
e cong essos sob e a habi ação e o me cado
imobiliá io, os agen es económicos – e ambém
mui os polí icos – ão con inuamen e e e indo
que não se de e ia c ia excessi a ins abilidade
nos me cados, com o isco do a as amen o dos
in es imen os e da consequen e ecupe ação
económica e u bana.
Todos esses anúncios e enómenos, c es-
cen emen e in e ligados e p o enien es de uma
economia u bana em p o unda ans o mação
desde pelo menos o início da década de 2010
(Seixas e al., 2015), pa ecem con e gi cada
ez mais pa a uma si uação de cha nei a, em
e mos de sé ias decisões polí icas – de polí ica
u bana, segu amen e, mas ambém de polí ica
económica e mesmo de modelos mais globais
de p og esso.
Es e ex o isa e le i sob e a condição
p esen e de Lisboa: uma me ópole em p o-
unda ansição, que, ao p ocu a sai de uma
o e c ise económica – acompanhada po se-
e as polí icas de aus e idade impos as pelo
Es ado nacional e pelas p óp ias ins i uições
Eu opeias –,encon a-se ago a numa no a a-
se de dinamismo económico; sem, po ém, ain-
da consegui in e e que an igas, que no as
es u u as de desigualdade, an o sociais co-
mo e i o iais.
Ao mos a os ecen es impac os no me -
cado imobiliá io e da habi ação na p incipal
cidade po uguesa, p o indos es es da conju-
gação de ans o mações globais com polí icas
e e oluções de base local, e le e-se em o no
das ans o mações, de empos longos, nas
paisagens e es u u as socioespaciais de odo
um sis ema u bano. Sendo essa e olução de
Lisboa e iden emen e especí ica, enquad a-
-se, no en an o, nos pad ões de e olução mais
globais dos modelos de desen ol imen o e de
p og esso e da no a economia, bem como das
mu ações nas in luências u banas deco en es
de p ocessos em e iden e ca ência de capaci-
dade de acção e de egulação polí ica. A ecen-
e his ó ia da cidade de Lisboa, em p o unda,
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mas desequilib ada ansição, é (no nosso
en ende ) um caso pa adigmá ico das c es-
cen es dispu as – com ince as e oluções, po
se em dependen es de de e minados a o es
ambém em e olução – en e no os modelos
pseudolibe ais de desen ol imen o económico
e u bano e a paula ina o mação de suas con-
es ações, de base local e, sob e udo, social,
mas ambém ins i ucionais e, dece o, c es-
cen emen e in e ligadas em edes eu opeias e
mesmo globais.
O nosso a gumen o desen ol e-se po
seis seções. P imei o, ap esen a emos o con-
ex o polí ico e económico po uguês em an-
sição, especialmen e no no o pe íodo de “ im
da aus e idade” desencadeado com a mudan-
ça de go e no em 2015. Segundo, ap esen-
a emos as ca a e ís icas p incipais dos sis-
emas e me cado de habi ação em Po ugal;
necessá ias pa a comp eende , em e cei o
pon o, as ans o mações dos úl imos anos
deco idas em Lisboa e ap esen adas – em
elação com o con ex o me opoli ano e na-
cional – seguidamen e. Qua o, ocaliza emos
a a enção sob e os no os mo imen os sociais
que eme gem na conjugação das no as condi-
ções u banas com as e iden es p essões sob e
o sis ema de habi ação. Quin o, analisa emos
em maio e lexi idade, o campo das polí icas
e seus po enciais mo imen os de abe u a e
de ausência, bem como as con adições ine-
en es nas espos as às dinâmicas polí icas e
dos p óp ios mo imen os sociais. Em sex o e
conclusi o pon o – que assumimos “em mo i-
men o” –, e le i emos sob e as possí eis en-
dências pe an e essa cidade em plena ase de
e iginosa ansição sociopolí ica.
O im da aus e idade?
Em compa ação com ou os países da Eu opa
Ociden al, Po ugal – nos úl imos anos – em
seguido uma aje ó ia peculia e em mudança
mui o acele ada. As eleições polí icas de 2015,
e uma cen alidade eno ada da polí ica pa -
lamen a desde en ão, le a am o país a uma
expe imen ação go e namen al quase única
na Eu opa, que oi denominada – com um e -
mo inicialmen e des inado a se dep ecia i o
e depois ap op iado pelos p óp ios esque dis-
as –“ge ingonça”. O e mo, que se e e e a
uma espécie de mecanismo mui o in incado
e complicado de ge encia , in en a o og a a
a incomensu abilidade de isões da coligação
(compos a pelos pa idos socialis a e comunis-
a, os e des e o Bloco de Esque da) que apoia
o go e no socialis a lide ado po An ónio Cos-
a, an igo p esiden e da Câma a de Lisboa. A
aliança – in olun a iamen e acili ada e cemen-
ada pela hos ilidade mos ada po ela pelo en-
ão P esiden e da República Ca aco Sil a – de
alguma o ma az as consequências de uma
e lexão que se p oduziu numa esque da a-
dicionalmen e agmen ada e li igiosa (F ei e,
2017) sob e a necessidade de empenha -se em
conjun o pa a e e e o aumen o das desigual-
dades azido pelas polí icas “aus e i á ias”5
o jadas a pa i do acme da c ise económico-
- inancei a que a ingiu o país a pa i de 2008.
O no o clima polí ico, jun amen e com
os e ei os da lexibilização de algumas das me-
didas de aus e idade in oduzidas desde 2010
e especialmen e du an e o chamado “ esga e
ex e no” de Po ugal,6 em suge ido, a mui os
cidadãos e obse ado es, que Po ugal acaba á
Lisboa em ansição p o unda e desequilib ada
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em b e e po deixa pa a ás a pio pa e das
suas polí icas aus e i á ias.
O
mains eam
aus e i á io dominou
(bem além das cli agens pa idá ias) á ios
anos da isão polí ica nacional, mas nunca oi
o almen e acei o pela maio ia dos a o es de
ní el local da adminis ação do Es ado e po
g ande pa e da opinião pública.7 De ac o,
mui os obse ado es êm sublinhado que a e-
cei a de aus e idade demons ou se ine icien-
e e injus a pa a lida com a c ise econômica
e inancei a, sendo, a inal, uma das p incipais
causas da p o unda ecessão após 2011 (Pe-
d oso, 2014). Além disso, o consenso aus e i-
á io ouxe consigo uma al a gene alizada de
au onomia polí ica pa a o país, pa icula men-
e no que diz espei o aos c edo es ex e nos
(Ab eu e al., 2013).8
Apesa das expec a i as ele adas e da
pe ceção de mui os cidadãos ( e elada po
á ias pesquisas; e Fe ei a, 2018) de que
as p omessas de ecupe ação e es abilização
enham sido pa cialmen e cump idas, muda
adicalmen e seis anos de polí icas aus e i á-
ias não se em e elado uma a e a ácil. De
ac o, a maio ia das e o mas ap o adas du-
an e o pe íodo de iun o da aus e idade não
oi e e ida ou ans o mada in eg almen e9
e con inua a o ien a conside a elmen e as
di eções de desen ol imen o do país. Mesmo
com o apoio subs ancialmen e a o á el da
comunicação social nacional e do uso in eli-
gen e do apa a o de comunicação do go e no,
o c escimen o econômico ela i o que o país
des u ou du an e os úl imos anos (p incipal-
men e baseado em ecei as p oceden es de e-
cu sos inancei os ex e nos ligados a u ismo e
imobiliá io) pode á não du a pa a semp e. Há
quem diga que a e omada a ual seja um alí io
“apa en e” e não es eja a consegui en en a
os p oblemas es u u ais do país, incluindo a
al a e c escen e desigualdade e as aquezas
es u u ais do es ado de bem-es a .
Teles (2018), po exemplo, ealça como
a economia po uguesa – apesa de não e
ul apassado “um dos maio es ní eis de endi-
idamen o do mundo (público e p i ado)” –
man ém-se o emen e dependen e de luxos
inancei os es angei os, assim que “uma no a
c ise inancei a é apenas uma ques ão de em-
po”. Pa a o in es igado , Po ugal em-se o -
nado “um es udo de caso sob e a compa ibili-
dade de polí icas an iaus e idade e me as is-
cais eu opeias”, e a maio ia dos comen a is as
associa a ecupe ação do dinamismo econó-
mico e da capacidade de aze en e aos de i-
dos pagamen o dos emp és imos es angei os
“ao aumen o do consumo in e no, impulsiona-
do pela e e são dos co es sala iais e p e i-
denciá ios” que em sido capaz de aumen a
a ecei a ibu á ia e diminui gas os sociais
como aqueles ligados ao segu o-desemp ego.
Po ém – de ende o au o , que su aga as suas
hipó eses com dados p oduzidos pelo Obse -
a ó io Po uguês sob e C ises e Al e na i as
(CRIS-ALT)10 – esse eequilíb io da ecei a
“não se aduziu em mais in es imen os no
se o público [que ep esen am] um dos p in-
cipais pon os cegos do aco do do go e no de
coalizão”.11 Nesse quad o, os se iços públicos
ainda es ão amplamen e sujei os às no mas
de aus e idade, pe manecendo “c onicamen e
insu icien es e sub inanciados”.
Acei ando essa isão, a edução dos dé-
ices iscais acumulados pode ia se explicada
po uma combinação de aumen o da ecei a i-
bu á ia, ganhos inancei os e es ições de gas-
os públicos. Uma pa e p imo dial da edução
João Seixas, Simone Tulumello, Gio anni Alleg e i
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de gas os públicos (que ai a e ando que as
inanças públicas que as p i adas) se ia de i-
do à súbi a mudança das condições inancei as
in e nacionais pa a a economia po uguesa,
p opiciada pelo p og ama Quan i a i e Easing
(QE) de comp a de ob igações do BCE, que em
a o ecido a descida das axas de ju o12 e e i-
ado uma c ise bancá ia sis êmica, num país
onde os balanços dos bancos ainda es ão a e-
ados po ní eis de inadimplência en e os mais
al os da zona do eu o (13,3%), apenas depois
da G écia e de Chip e. Po an o, a ecupe ação
econômica po uguesa pode es a oco endo
em “a eias mo ediças”,13 ou seja, num e eno
“ olá il”, iciado pela posi i a combinação de
uma mode ada ecupe ação económica ge al
da Eu opa e da polí ica não con encional de
QE. Assim, é di ícil de ende que “a e ó ica
an iaus e idade compa í el com a Eu opa” co -
esponda aos eais desa ios polí icos pa a uma
sólida ees u u ação da economia po uguesa
que não seja apenas cen ada “nos sec o es de
baixa p odu i idade, a o men ados pela p e-
ca iedade e com pouca necessidade de no os
in es imen os” (Teles, 2018).
Pode á esse quad o muda em b e e?
Da uma espos a que não seja apenas basea-
da na con iança (ou na descon iança) absolu a
nos a uais go e nan es é, ancamen e, di ícil.
Sólidas mudanças de polí icas dependem de
mui os ac o es, incluindo a capacidade das ci-
dadãs e dos cidadãos – assim como dos seus
mo imen os e cole i os sociais o ganizados
(incluindo pa idos e sindica os) – de lu a pa a
ob e uma mudança subs ancial das polí icas,
assim como um con encido abandono da subs-
ancial con inuidade com á ias das polí icas
o jadas na ase de go e nação aus e i á ia.
Nesse sen ido, é impo an e, no en an o,
sublinha o a o de que os p oblemas de longo
p azo e a longa onda de polí icas de aus e i-
dade êm indo a coexis i , ul imamen e, com
um aumen o cons an e de uma ampla gama de
no as p á icas pa icipa i as, em sua maio ia
o iundas do engajamen o ins i ucional local
na expe imen ação de ino ações democ á icas
o malizadas, mas ambém com p ocessos de
eju enescimen o do a i ismo c í ico u bano.
Ambas são mudanças impo an es em um país
onde a c ise econômica a e ou p o undamen e
a sa is ação com a polí ica ep esen a i a,14 e
onde, apesa de sua Cons i uição en a iza a
impo ância da p omoção da democ acia pa -
icipa i a (a . 2), no passado não hou e en-
a i as eais de molda o Es ado ao edo de
obje i os de en ol imen o di e o dos cidadãos
na cons ução de polí icas públicas e da ges ão
inancei a e e i o ial.
Conscien es da di iculdade de p o a as
elações de causa e e ei o na incidência mú ua
de enômenos ão complexos e a iculados,
nes e ensaio amos en a a unila a nossa
análise pa a emas mais ligados aos mo imen-
os e aos ó uns u banos e, pa icula men e, pa-
a o domínio das polí icas de habi ação, exem-
plo p imo dial da conjun u a de aquezas na
es u u ação de polí icas públicas es u u ais e
da o e onda de polí icas aus e i á ias ado a-
das pelo Es ado no pe íodo 2011-2015 (incluin-
do, ambém, as ensões com ou as endências
em di e en es escalas e ní eis ins i ucionais).
Na p óxima secção, analisa -se-á, jus a-
men e, como às polí icas nacionais sus en a-
das quase exclusi amen e no me cado e di i-
gidas p incipalmen e pa a a ecupe ação eco-
nômica do se o imobiliá io e da cons ução
Lisboa em ansição p o unda e desequilib ada
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ci il, o ma am-se em pa alelo com co es
nos in es imen os públicos em habi ação. De
al o ma, a e a am-se os e i ó ios locais, e
ans o ma am-se p o undamen e, em pou-
cos anos, ecidos u banos como o da Região
Me opoli ana de Lisboa. Essa segunda pa e
do ex o p ocu a á seguidamen e mos a co-
mo o ecido social em começado a eagi a
essas ans o mações.
Em al pe spe i a, e complemen a men-
e à e lexão p opos a po Alleg e i (2018)
sob e p ocessos pa icipa i os “po con i e”,
desen ol idos em Po ugal na úl ima década
(mui as ezes com obje i os e olumes de e-
cu sos limi ados) pelos municípios (Blas e Iba -
a, 2006), o p esen e ex o concen a -se-á
nos mo imen os u banos de no a ge ação. Es-
peci icamen e, o ex o a a á, sob e udo, de
mo imen os p o indos dessas causas, ge ados
po dinâmicas de “pa icipação po i upção”
(ibid.), que em indo a o ja p á icas de au-
oa i mação, de esis ência ou mesmo de dis-
sidência, inspi adas em imaginá ios u banos
al e na i os (c . Subi a s apud Cole i o Polí ica
en Red, 2007, p. 54).
Con inuidades
e ans o mações:
no as sob e o sis ema
de habi ação po uguês
Em dezemb o de 2016, a Rela o a Especial da
ONU pela Habi ação Adequada isi ou Po -
ugal. O ela ó io da sua isi a (Fah a, 2017)
mos ou que Po ugal es á a a a essa uma
p o unda c ise da habi ação, c ise ca a e i-
zada po uma dupla na u eza: po um lado,
a pe manência de o mas de habi ação p e-
cá ia – pelo menos 25 mil amílias i em em
ais condições (IHRU, 2018) – e de habi ação
pública em péssimas condições; po ou o, a
c escen e p essão sob e aixas semp e mais
amplas da população, e especialmen e inquili-
nos de classes baixas e médias, causada pelo
ápido c escimen o do cus o da habi ação que
se em e i icado nos úl imos anos.
Pa a melho comp eende essa conjun u-
a, é ú il ca a e iza apidamen e o sis ema de
habi ação ípico de Po ugal. Como os ou os
países do Sul da Eu opa (Allen e al., 2004),
Po ugal é ca a e izado pela p e alência da ha-
bi ação p óp ia: ês em cada qua o amílias
i em em casa de p op iedade. Esse sis ema
esul a da adesão subs ancialmen e unânime
ao ideal da habi ação de p op iedade como
ins umen o de es abilidade social. Se, nos
anos da di adu a (1926-1974), o discu so sob e
Po ugal como país de p op ie á ios e a cen-
al à e ó ica do Es ado No o, as coisas pouco
muda am com a democ acia: os subsídios aos
emp és imos pa a comp a de habi ação, o -
malmen e concluídos em 2002, mas ainda a
componen e mais ca a da despesa pública com
habi ação, e ão sido a “polí ica” de habi ação
mais impo an e e es á el desde os anos 1980.
Não su p eende, po an o, que o se o do a -
endamen o enha caído de 46% em 1970 pa a
20% em 2011 (Fah a, 2017, p. 7). Po seu lado,
a habi ação pública ep esen a menos de 3%
do pa que habi acional.
O me cado do a endamen o e a ha-
bi ação pública encon am-se concen ados
nas g andes cidades, p incipalmen e Lisboa e
Po o. Assim, a es abilidade habi acional p o-
po cionada pela p op iedade – no sis ema po -
uguês, sem dú ida, a o ma mais es á el de
João Seixas, Simone Tulumello, Gio anni Alleg e i
Cad. Me op., São Paulo, . 21, n. 44, pp. 221-251, jan/ab 2019
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habi ação – é menos p e alen e exa amen e
nos con ex os em que as ans o mações que
desc e e emos a segui o am mais in ensas.
Na e dade, o es oque habi acional elaciona-
do com o me cado do a endamen o, e sob e-
manei a com a c ise inancei a que colocou o
endi idamen o (público e p i ado) em ní eis
insus en á eis, o nou-se o en oque cen al
das e o mas no sec o imobiliá io ap o adas
du an e os anos da aus e idade. O memo an-
do de en endimen o assinado en e Po ugal
e as ins i uições inanciado as ex e nas exigia
de o ma explíci a a libe alização do me cado
de a endamen o (EC, 2011, p. 87). O go e no
de en ão espondeu com o No o Regime de A -
endamen o U bano (NRAU; lei n. 31/2012) que
eduziu as amplas p o eções dos inquilinos, a-
cili ou os despejos em caso de ob as e ans-
o mou habi ações em alojamen os u ís icos
(Alojamen o Local). O obje i o do NRAU, em
suma, e a de acaba com os con a os exis en-
es de enda con olada, esul an es dos “con-
gelamen os” de endas aplicados nas décadas
an e io es. Esses congelamen os, num con ex o
nacional no qual o supo e ao a endamen o
nunca oi p io i á io, e ão sido a única polí ica
di ecionada aos inquilinos nos me cados não
sociais, em con ex os polí icos e económicos
ob iamen e cheios de con adições. Com o
empo, os congelamen os das endas c ia am
si uações al amen e pa adoxais, com inquili-
nos a paga alo es ex emamen e eduzidos
(ainda exis em con a os de poucas dezenas
de eu os mensais) sem qualque compensa-
ção aos p op ie á ios. Os congelamen os das
endas êm sido apon ados, po mui os, como
a azão p incipal da p og essi a deg adação
do pa imónio edi icado nos cen os u banos
po ugueses. Uma na a i a c escen emen e
sólida e, po sua ez, inc emen almen e ag es-
si a, c iando-se, assim, uma ampla jus i icação
pa a as polí icas de libe alização do me cado
de a endamen o. De uma ou a pe spe i a, é
ambém possí el in e p e a os congelamen os
de endas an igas como uma componen e de
es a égia mais ampla que e á omen ado, a
pa i dos anos 1970/1980, uma acumulação
de capi al pa a a subu banização e i o ial –
es a égia complemen ada, jus amen e, a a és
dos subsídios pa a a aquisição de habi ação.
Essa b e e desc ição mos a como o sis-
ema po uguês de habi ação se em ca ac e i-
zado po sé ios desequilíb ios his ó icos – dese-
quilíb ios que, a inal, o am em algumas pa es
mi igados, mas, em ou as, acen uados com as
polí icas aus e i á ias. Assim, conside amos que
uma e lexão igo osa sob e esses emas enha
que pa i da comp eensão das necessidades
de
e o ma
das polí icas que, a inal, molda am
esses desequilíb ios. Ve emos a segui como a
conjun u a das ans o mações socioeconómi-
cas e as no as p essões sociais e económicas
êm paula inamen e despole ado uma po en-
cial no a e a nas espec i as agendas polí icas.
De ac o, en e os p og amas de in e enção
pública, a p opos a de uma Lei de Bases de Ha-
bi ação e ou os diplomas em discussão sob e
emas elacionados (alojamen o local, descen-
alização adminis a i a), podemos al ez is-
lumb a uma pe spe i a de ans o mação do
“sis ema” de habi ação po uguês. Se á essa
no a le a de polí icas – u o de uma sua dis-
cussão c í ica, embo a em mo imen o – o úl i-
mo obje o de discussão des e ensaio. Pa a che-
ga a essa discussão, se á necessá io desc e e
as condições que le a am a habi ação pa a o
cen o das agendas polí icas, começando pelas
ans o mações em cu so em Lisboa.
Lisboa em ansição p o unda e desequilib ada
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Lisboa e o seu no o
mains eam
me opoli ano
Lisboa é uma cidade que, nos úl imos anos,
em se dis inguido po um i mo mui o ace-
le ado de mudança; sendo pa icula men e
isí eis, nes e pe íodo quase e iginoso, as
di e enças e os con li os – mas ambém as am-
bi alências – en e os elemen os de ino ação
e de ans o mação e os de omen o de no os
ipos de desigualdade e de seg egação. Ao nos
ap oxima mos do inal des a segunda década
do século XXI, a capi al po uguesa eme ge
como cada ez mais cosmopoli a e in eg ada
nas endências globais de angua da (Seixas,
Magalhães e Cos a, 2013; Cos a e al., 2017;
Rossi e Tulumello, 2018).
A cidade em p ocu ado o ja no as
pe spe i as pa a a qualidade de ida u bana,
assim como pa a o emp eendedo ismo, al e-
ando de o ma pa adigmá ica suas polí icas e
in es imen os – em espaços públicos, in aes-
u u as e se iços ambien ais, bem como nas
suas p óp ias es u u as de go e nação e i-
o ial. De ac o, a cidade e o mulou de o ma
bas an e adical suas es u u as polí icas e
adminis a i as nos ní eis mais p óximos dos
cidadãos, no ní el das suas eguesias,15 p e-
pa ando-se, po sua ez ago a, pa a uma no a
aga de e o ço dos seus pode es e ecu sos –
g aças a um p ocesso de ac escida descen ali-
zação do Es ado cen al, em que se p e ê uma
al e ação ela i amen e impo an e do
s a us
quo
da adminis ação e i o ial po uguesa
nos p óximos anos.
Essa e olução, que e le e uma a i ude
signi ica i a e delibe ada de ans o mação,
em esul ado no omen o de um go e no
u bano com maio es compe ências e espon-
sabilidades, assim se cons i uindo uma sé ie
de no as dinâmicas sociais e polí icas; consi-
de a elmen e pe u bado as pa a a cul u a de
um Es ado com p o undas adições cen alis-
as. No en an o, é ambém em Lisboa que se
man ém um di ícil legado polí ico e cul u al
que du an e décadas desconside ou os alo-
es da ida u bana. E onde, hoje, es ão a se
es abelecidos no os pad ões de desigualdade
e de seg egação socioespacial, em pa icula
no acesso às necessidades básicas, ais como
a habi ação. Po conseguin e, e apesa das
endências de ino ação polí ica, de e minadas
ince ezas pe manecem, em ace das no as
necessidades
e sus
capacidades de go e -
nação u bana, em ace da edis ibuição dos
ecu sos e capi ais da no a economia e em a-
ce da de esa dos bens comuns e dos di ei os
undamen ais na cidade.
Es e ex o ai, nos pon os seguin es,
p ocu a aça esses pad ões, com e e ência
pa icula ao sis ema habi acional, a pa i da
dinâmica c ise/pós-c ise, en e o início des a
década e os empos p esen es.
Quando Po ugal ecebeu o seu esga-
e inancei o em 2011, a cidade de Lisboa –
unidade adminis a i a cen al de uma á ea
me opoli ana com quase 3 milhões de habi-
an es – inha 552.700 habi an es e 322.865
unidades habi acionais, das quais 50.289 es-
a am agas (Minde , 2018) e quase 5.000 em
condições de abandono (Figu a 1). No inal de
2014, Lisboa e a sua egião me opoli ana es-
a am a so e os mais pesados impac os da
c ise económica nacional e das polí icas de
aus e idade (Seixas e al., 2015).
João Seixas, Simone Tulumello, Gio anni Alleg e i
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ambém nas suas pe cepções polí icas. São
múl iplos os exemplos, dos quais se pode ão
des aca os seguin es: a) a p og amação cul-
u al no espaço Te aço26 num edi ício ocupado
comunalmen e; b) o apoio ala gado à Ho a do
Mon e e a c iação da ho a da ua das Ba acas
numa socialização en e a i is as e a popula-
ção local, p i ilegiando a cul u a o gânica e a
pe macul u a; c) as a i idades do Cen o Social
RDA 69 com deba es, ciclos de cinema, e ei-
ó io popula e biblio eca; d) a Ciclo icina dos
Anjos, que a anja bicicle as a a és de olun-
á ios que ensinam os u ilizado es nas p á icas
mecânicas; e) a Coope a i a Zona F anca, no
bai o das Colónias, com uma can ina popula ,
e úlias, lançamen os de li os, e c.
É de e e i que o conside á el inc emen-
o da a i idade cí ica nesses e i ó ios, bas an-
e cen ais em ace da geog a ia me opoli ana
de Lisboa, não se de e apenas à ação desses
g upos de base. Na e dade, deco eu de um
delibe ado e es a égico in es imen o munici-
pal em oda a zona. Con i ma-se, assim, que
a combinação en e in es imen o público de
base municipal e inicia i as de base local pode
unciona numa pe spec i a de mú uo omen o.
Mas ambém, e de o ma ela i amen e espe a-
da, como on e de no os ipos de disco dâncias
e de con li os de base polí ica. Sob e udo pe-
an e os esul ados da conjugação de ele an-
es in es imen os públicos com uma abe u a
cla amen e libe al aos in es imen os inancei-
os ex e nos; p o ocando acen uados e ei os
de gen i icação.
É igualmen e ele an e eco da que os
mo imen os de cidadania não se esumem à
cidade mais his ó ica. Exis em, nomeadamen-
e, múl iplos bai os sociais no seu sis ema u -
bano e que cons i uem ce ca de um sé imo27
da população da cidade; eme gindo, po sua
ez, nesses e i ó ios uma no a ge ação de
mo imen os u banos. Ao con á io das asso-
ciações su gidas após a e olução de 1974, e
sob e udo dedicadas ao di ei o à habi ação, a
no a ge ação de associações p eocupa-se mais
com as ques ões do
habi a
e com o su ágio
dos di e sos di ei os cons i ucionais; em ques-
ões como a ep esen a i idade polí ica (em
especial nos bai os onde habi am descenden-
es de imig an es); os di ei os das mulhe es e
das c ianças; a qualidade dos equipamen os e
dos espaços públicos; os anspo es públicos
e a p óp ia in eg ação na ida u bana. Po seu
lado , os mo imen os que pa em das pe i e-
ias – sociais e geog á icas – da cidade am-
bém se ag egam em ede e ão pa a além da
dimensão de “bai o”. De aco do com Cos a e
al. (ibid., pp. 204-208), a espacialização des-
sas o mas de exp essão, sob e udo de índole
cul u al, di e e conside a elmen e das dos mo-
imen os do cen o u bano, sendo aqui desen-
ol idas em espaços de es e as mais p i adas,
mas que ab igam espaços de abalho em ede
e com ac i idades comuns.
Es a b e e discussão em mos ado co-
mo as ápidas ans o mações em cu so em
Lisboa o am acompanhadas pela eme gência
de no as edes p eocupadas com habi ação e
além dessa. Mais em ge al, essa no a onda de
a i ismo apos ou em ês es a égias p inci-
pais: 1) o ganiza ações com di e en e ca iz,
mas semp e capazes de a ai cobe u a da
comunicação social; 2) dialoga com os a o es
polí icos ecen emen e elei os, ap o ei ando,
em ce as ocasiões, ambém da p oximidade
de alguns polí icos com os p óp ios mo i-
men os; e 3) p oduzi conhecimen o a a és
de p á icas de in es igação-ação e, assim,
Lisboa em ansição p o unda e desequilib ada
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o alece o diálogo en e a i is as e ins i ui-
ções académicas.
Es a úl ima linha é e iden e no e o no
da habi ação no cen o dos es udos u banos, e
especialmen e po ob a de no as ge ações de
in es igado es. Po exemplo, o ecém-c iado
“U ban T ansi ions Hub”, do Ins i u o de Ciên-
cias Sociais da Uni e sidade de Lisboa, ecebeu
inanciamen o po ês p oje os da Fundação
Nacional pa a a Ciência e Tecnologia,28 o gani-
zou dois Fó uns da Habi ação29 e c iou edes
com g upos a i is as, incluindo Habi a, asso-
ciação a i a desde os meados dos anos 2000,
e com mui as edes nacionais e in e nacionais.
Ou os g upos académicos nessa á ea o am o
Ges ual (Uni e sidade de Lisboa), o Cics.No a
(Uni e sidade No a de Lisboa) e o Dinâmia/CET
(Ins i u o Uni e si á io de Lisboa), que uni am
o ças na c iação do g upo U banologis a; o
Cen o de Es udos Sociais da Uni e sidade de
Coimb a (que alo iza a p odução de dados no
seu “Obse a ó io de C ises e Al e na i as”); e
o LAHB (Labo a ó io de Habi ação Básica Pa i-
cipa i a de Po o).30
Os no os a o es êm indo a colabo a
com a o es de longa da a e, especialmen e,
nas en a i as de cons ui um “conhecimen o
ausen e” sob e as in e ações en e habi ação
e ou os campos de ação. Nesse campo, a
ação da associação Habi a oi c ucial. Ela em
es ado na o igem de campanhas impo an es,
como #Que emosO çamen o (denúncia do in-
su icien e o çamen e dedicado à habi ação), a
“Ca a ana pelo Di ei o à Habi ação” (que em
indo a pe co e o país pa a ecolhe in o ma-
ção sob e o es ado da habi ação p ecá ia) e no
nascimen o da pla a o ma S op Despejos (g u-
po de ação di e a con a os despejos).31
Um dos aspec os mais impo an es isí-
eis na panóplia de inicia i as a i is as e polí i-
cas – apesa da abo dagem adical de algumas
delas – em sido uma c escen e capacidade de
ab i e man e o diálogo com as au o idades
polí icas, po meio de con e sas di e as e da
pa icipação em e en os e deba es públicos,
assim como ambém em o mas cada ez mais
p o issionalizadas de en a i a de in luência na
o mação de polí icas públicas.
Abe u as, ausências,
con adições: o campo
das polí icas
O e ei o mais e iden e da mul iplicação de e-
des e de a o es c escen emen e in e en i os
em o no das ques ões do di ei o à habi ação
em Lisboa e á sido segu amen e o posiciona-
men o do ema no cen o do deba e polí ico.
Embo a esse posicionamen o enha a iz glo-
bal nas causas e, sob e udo, nas consequên-
cias da c ise económica global desencadeada
desde 2008 (Madden e Ma cuse, 2016), em
Po ugal podemos obse a algum lapso em-
po al – e pe cepcional – a esse espei o. De
ac o, em mui os países, as elações en e as
causas e as consequências da c ise o am sen-
idas de o ma mui o incada com as p essões
habi acionais, endo le ado à c iação de im-
po an es eações sociais e polí icas e, desde
logo, a no os mo imen os sociais – sendo o
caso mais e iden e a “Pla a o ma de A ec a-
dos po la Hipo eca” em Espanha.32 Em Po -
ugal, essas endências sucede am-se, sob e-
udo, alguns anos após a eclosão da c ise e
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pe an e os p imei os esul ados das p opos as
de e omada económica.
Esse des asamen o inci a a uma necessá-
ia in e p e ação mais especí ica, não somen e
das suas azões, mas ambém sob e as o mas
mais especí icas de como as no as p essões so-
ciais que inalmen e se ins alam nos anos mais
ecen es es a ão a se ansmi idas ou assimi-
ladas pa a os campos da polí ica – e das polí i-
cas, em e mos mais conc e os. Podemos iden-
i ica ês momen os c uciais, a esse espei o.
O p imei o momen o coincide com os e-
sul ados das eleições nacionais de 2015 e com
a o mação do no o go e no socialis a e a sua
maio ia de cen o-esque da na Assembleia da
República, como acima já mencionado. Não
obs an e, nessa p imei a ase, o no o go e no
igno ou em conside á el medida o ema da
habi ação, p io izando, sob emanei a, as ei-
indicações cen ais dos sindica os bem como
de e minadas o mas de polí ica económica de
ca ác e neokeynesiano – a a és do es ímulo
na p ocu a in e na po ia de co es nos impos-
os e de e omada dos salá ios dos uncioná ios
públicos. En e an o, começa a a se po demais
e iden e que o o íssimo impulso do me cado
u ís ico nacional p io iza a o aquecimen o dos
me cados imobiliá ios nos e i ó ios mais cen-
ais e simbólicos do país. Assim, um segundo
momen o de ansição sucede-se no e ão de
2017 – no escaldo da publicação do ela ó io
da ONU pelo Di ei o à Habi ação Adequada ( e
secção “Con inuidades e ans o mações: no-
as sob e o sis ema de habi ação po uguês”)
e enquan o c esciam as p essões sociais. Nesse
pe íodo, o go e no assumiu inalmen e a habi-
ação como “p io idade polí ica” (Lusa, 2017).
O P imei o Minis o An ónio Cos a menciou
explici amen e os iscos de exclusão das no as
ge ações, especialmen e dependen es de um
me cado de a endamen o em explosão de p e-
ços (Tiago, 2017). O a o cen al dessa no a ase
polí ica coloca-se na c iação da Sec e a ia de
Es ado da Habi ação em julho de 2017. Assume
o ca go uma pe i a em egene ação u bana e
imobiliá ia33 que em demons ado in e esse e
capacidade pa a ab i deba e com a sociedade
ci il, sendo o núme o de encon os o ganiza-
dos nos p imei os meses do seu enca go sem
dú ida signi ica i o. Essa a i ude da no a Se-
c e á ia de Es ado demons ou, pelo menos, um
econhecimen o da complexidade dos agen es
e dos p oblemas em ques ão e a e iden e ne-
cessidade de uma melho a iculação en e os
ní eis nacional e local; bem como en e agen es
públicos, p i ados e associa i os. Po ém, não
deixa de se uma Sec e a ia de Es ado num go-
e no sob emanei a p eocupado em consegui
ansmi i a mensagem – em ní el nacional,
mas ambém Eu opeu – de que as polí icas de
aus e idade pode iam se al e adas sem coloca
em causa a consolidação o çamen al e inancei-
a do país. Ou seja, a no a Sec e a ia de Es ado
da Habi ação de e ia, à pa ida, um ele an e
di e encial en e on ade pa a agi e uma eal
capacidade – desde logo polí ica, mas ambém
inancei a – pa a o aze .
Finalmen e, o e cei o momen o sucede-
-se com as eleições au á quicas de ou ub o
de 2017, quando habi ação se o na, de o -
ma assumida, o ema p incipal do p og ama,
da campanha e, po consequência, da u u a
ges ão da Câma a Municipal de Lisboa. Nes-
sas eleições, o Pa ido Socialis a, que go e -
na a Lisboa há já uma década – em coligação
com pequenos, mas ele an es mo imen os
de cidadãos –, ganha o os em p ac icamen-
e odo o país, po e ei o do clima posi i o e
Lisboa em ansição p o unda e desequilib ada
Cad. Me op., São Paulo, . 21, n. 44, pp. 221-251, jan/ab 2019
239
ela i amen e pós-aus e i á io. Mas em Lisboa
pe de a maio ia absolu a que de inha, o man-
do, assim, uma coligação de maio ia com o Blo-
co de Esque da, numa dinâmica que da á mais
isibilidade aos e eado es mais p eocupados
com a habi ação. Po ém, man em-se, nos p i-
mei os meses pós-eleições, sob e udo no ní el
nacional, uma conside á el de asagem en e os
ní eis discu si os e ope a i os. Tal de asagem
pode á se comp eendida a a és dos concei os
de abe u a, de ausência e de con adição.
O concei o de
abe u a
, que u ilizamos
aqui pa a isa uma no a a i ude de possibi-
lidade pa a e o ma, não se aplica somen e ao
diálogo p omo ido pela no a Sec e á ia de Es-
ado. O úl imo ano em sido ca a e izado pelo
sis emá ico posicionamen o de uma panóplia
de p opos as de no os ins umen os legisla i-
os. O p imei o paco e, a é a da a pa cialmen e
ap o ado, cons i ui a chamada No a Ge ação
de Polí icas de Habi ação (NGPH).34
A NGPH p e ende cons i ui -se como
uma polí ica holís ica, ab angendo á ias di-
mensões e, p incipalmen e, a p omoção de
soluções públicas pa a amílias em es ado de
g a e p eca iedade habi acional e o es ímu-
lo ao a endamen o de longa du ação – mais
in e enções especí icas pa a da soluções u -
gen es em caso de calamidades na u ais e pa a
es imula a coesão e i o ial. En e an o, a As-
sembleia da República encon a-se a abalha
sob e uma p opos a de Lei de Bases de Habi a-
ção,35 cujo obje i o decla ado é de a ua de o -
ma ans e sal e com base no p incípio cons i-
ucional do di ei o à habi ação (a . 65) a a és
de p o isões como a p o eção de despejo em
caso de p imei a habi ação, uma melho de ini-
ção da unção social da habi ação (que de e ia
simpli ica , po exemplo, a exp op iação de ha-
bi ações man idas de olu as po longo empo)
e o es abelecimen o de es a égias plu ianuais
nacionais pela habi ação.
Em ní el municipal, e ol ando a Lisboa,
a Câma a Municipal em econhecido especial-
men e a necessidade de ixa esiden es.36 Con-
sequen emen e, a Câma a lançou um ambicio-
so P og ama de Renda Acessí el que en ol e a
ealização de pa ce ias público-p i adas pa a a
cons ução de complexos de uso mis o, em que
se p e ê ealiza 7.000 unidades de habi ação
acessí eis em 15 lo es e a é ao ano de 2021.
Nesse p og ama, o município pa icipa, sob e-
udo, a a és da cedência dos e enos.
Nesse pano ama, o concei o de
ausên-
cia
é, po sua ez, comp eensí el pe an e uma
cul u a polí ico-adminis a i a que, em Po ugal,
nunca colocou o desen ol imen o das cidades
e dos e i ó ios, de o ma explíci a, como ob-
je o cen al das suas polí icas nacionais (Seixas
e Ma ques, 2015). O p óp io P imei o Minis o,
quando decla ou a habi ação uma no a p io i-
dade (Lusa, 2017), con i mou não es a em cau-
sa a libe alização do me cado. Sucessi amen e,
a p óp ia Sec e á ia de Es ado em epe ido
que a egulamen ação não é pa e cen al da
es a égia do go e no nessa á ea. Como men-
cionamos acima, as e o mas c uciais ap o adas
du an e os anos da aus e idade não es ão a se
modi icadas ou e ogadas na sua essência, e o
mesmo se aplica a ou os emas ele an es pa-
a a ans o mação do pano ama habi acional.
Ou seja, po ago a não se p e ê a e ogação ou
modi icação das egulamen ações e e en es
aos Vis os Gold bem como ao egime iscal de
Residen es Não Habi uais; ambos cen ais pa a
as dinâmicas de inancei ização globalizada da
habi ação (Ma ujo, 2018) ou a libe alização do
sis ema de o denamen o do e i ó io.
João Seixas, Simone Tulumello, Gio anni Alleg e i
Cad. Me op., São Paulo, . 21, n. 44, pp. 221-251, jan/ab 2019
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As únicas excepções, que dizem espei-
o a mudanças a é ago a con i madas, encon-
am-se em pequenas – mas não obs an e al-
amen e simbólicas – al e ações ao Regime de
A endamen o U bano, ais como a p o eção
dos despejos de pessoas com mais de 65 anos
ou com de iciência (lei n. 30/2018). Também se
legislou no sen ido de da às au a quias mu-
nicipais a capacidade de pô limi es aos es a-
belecimen os u ís icos. Ausen e es á, ainda, a
in o mação de alhada sob e os in es imen os
p e is os pa a as no as polí icas ap o adas
não complemen adas com do ações o çamen-
ais no O çamen o de Es ado de 2019).
Nas pe spe i as de in e p e ação po nós
p opos as em e mos de “ empos longos”, con-
side amos mui o ú il esse concei o de ausência,
po que ajuda a in e p e a melho a in e seção
en e a ausência de uma obus a polí ica de
habi ação desen ol ida nos anos an e io es
(Tulumello e al., 2018) com as libe alizações
“aus e i á ias” do sis ema de o denamen o e a
ausência de uma es a égia complexi a e mais
in eg ada com as ealidades socio e i o iais,
sob e udo pa a os undamen ais se o es do u-
ismo e do imobiliá io.
Como epe idamen e denunciado po as-
sociações como a Habi a (Sil a, 2017), os no os
p og amas go e namen ais, embo a po en-
cialmen e capazes de esol e algumas si ua-
ções especí icas, não se ocam em en en a
as aízes e as ambiguidades das dinâmicas de
me can ilização e de inancei ização da habi a-
ção e da p óp ia ida u bana (Rossi, 2017). Em
pa icula , a gene alizada ansição da o e a
imobiliá ia pa a a o e a u ís ica e pa a a espe-
culação imobiliá ia de escala, en e an o globa-
lizada, pode di icilmen e se in e ida ou, pelo
menos, melho ge ida com oco em obje i os
públicos, sem uma o e capacidade de egu-
lação e – em de e minados casos – sem in e -
enção di e a de base es a al. Is o é e dade
especialmen e no momen o em que o país ain-
da se encon a, apesa da g adual ecupe ação
econômica, em empos de “pós-aus e idade”,
com o ad en o de uma no a economia, mas de
endimen os ainda ins á eis e com as capaci-
dades inancei as da maio ia das amílias ainda
ela i amen e acas. Assim, a “compe ição”
en e in es ido es com o e capacidade de
despesa – e com ele an es bene ícios iscais
ao in es imen o – e os (aspi an es a) esiden es
esul a ainda mui o desequilib ada. Aliás, essas
endências desequilib adas não se êm limi ado
a Lisboa, sendo c escen emen e e iden es nas
ou as cidades, desde logo o Po o, e ainda em
cidades médias (Es e es, 2016; Lopes, 2017),
endo-se, assim, essa ques ão se o nado um
p oblema de escala nacional.
Finalmen e, os desequilíb ios e as en-
sões en e os elemen os de abe u a e de au-
sência pa ecem esul a num pano ama de
con adições
, especialmen e e iden e pa a a
cidade de Lisboa. Desde logo, o P esiden e da
Câma a e di e sas en idades municipais não
cessam de insis i na necessidade de con inua
a a ai mais u is as,37 ao mesmo empo que
explici am a p eocupação com as di iculdades
de acesso à habi ação e ao a endamen o. O
p óp io P og ama de Renda Acessí el, colocado
como cen al pa a as es a égias municipais de
apoio à habi ação e com me as ambiciosas, pa-
ece se um bom exemplo dessas con adições.
Po um lado, o ele ado in e esse despole ado
en e os ges o es de undos imobiliá ios38 su-
ge e que o p og ama pode co e o isco de se
o na mais uma componen e do p ocesso de
inancei ização do pa imónio habi acional da
Lisboa em ansição p o unda e desequilib ada
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cidade a a és da cons ução de pa ce ias pú-
blico-p i adas. Po ou o lado, o go e no muni-
cipal de Lisboa em p e e ido a é ago a apos a
em no as cons uções (conside adas á ea de
a uação quase exclusi a dos a o es p i ados.
Ve Tulumello, 2016) em ez de concen a-se
em p oje os de equali icação e econ e são u -
banís ica cen ada na
mixi é
social. Essas con-
adições êm sido e iden es na ges ão do am-
plo pa imónio imobiliá io de ido pela Câma a.
Po exemplo, no p og ama “Reabili a P imei o,
Paga Depois”, em unção do qual o go e no
municipal em endido (quase exclusi amen e
a in es ido es p o issionais) edi ícios habi a-
cionais em localizações p i ilegiadas da cidade
(Bi a e al., 2017), mos ando a in enção de
cede – no médio p azo – pa e ele an e de
habi ações de p op iedade municipal (U ban-
Gu u, 2011).
Os cená ios desenhados a é ago a (que
po encialmen e pode iam muda , embo a não
haja se ias indicações de que uma mudança de
umo es eja a oma o ma em b e e) pa ecem
e ela a inexis ência de uma isão in e escala
(que conec e medidas de âmbi o local, nacio-
nal e mesmo Eu opeu) pa a en en a os sé ios
undamen os da c ise de habi ação na p inci-
pal cidade po uguesa. Ao mesmo empo, a
ecen íssima adesão da Câma a de Lisboa ao
mani es o da ede Ci ies o Adequa e Housing
( e in odução) pode á assinala a assumpção
de uma ce a mudança de a i ude. Se essa a i-
ude local se ma e ializa em ações conc e as,
conjun amen e com as e o mas nacionais em
cu so, é possí el que as
abe u as
que men-
cionamos possam consolida -se numa no a
dinâmica polí ica e da o ma a polí icas con-
sequen es capazes de diminui as
ausências
–
bem como eequilib a as
con adições
– que
acima ealçamos. Nesse quad o, o u u o da
si uação habi acional de Lisboa pa ece es a ,
assim, “ adicalmen e abe o”.39
Conclusões, em mo imen o
Pe an e a c escen e ees u u ação plane á ia
deco en e da no a e a digi al, em-se acele-
ado um pa alelo mo imen o de c is alização
de uma sociedade u bana, com as suas no as
ealidades e p oblemá icas – um mo imen o
já anunciado há décadas, na e dade, po pen-
sado es como Hen i Le éb e, Manuel Cas ells,
Edwa d Soja ou Da id Ha ey.
Tal mo imen o de ca ác e his ó ico – ou
de “ empos longos” – em p o ocando a ne-
cessidade i al de uma epoli ização das a e-
nas u banas e do eposicionamen o dos seus
desa ios, de o dem mui o mais ans e sal
(Me i ield, 2013; Moulae e al., 2013). Pa a
os sis emas u banos que já e idencia am di i-
culdades econômicas e polí icas de o dem es-
u u al, e que hoje ap esen am ele ados dese-
quilíb ios nessa ansição – como são, de o ma
e iden e, mui as cidades e me ópoles do Sul
da Eu opa, incluindo o caso de Lisboa (Seixas
e Albe , 2012) –, essa ans o mação his ó ica
em-se sucedido em simul âneo com os im-
pac os de uma p o unda c ise económica e de
um delibe ado edi eccionamen o dos capi ais
p i ados e públicos e das polí icas edis ibu i-
as. O que em esul ado em paisagens socioe-
conómicas u banas c escen emen e ambíguas,
nas quais, a pa de in e essan es dinâmicas de
ansição econômica e ecológica, sucedem-se
no as ince ezas na sus en ação da qualidade
de ida e mesmo di e sos ocos de aumen o
das desigualdades socioespaciais e dos di ei os
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u banos. O se o da habi ação, em pa icula –
e na e dade, como semp e, dado o seu ca ác-
e de a i o p imo dial an o em ní el sociou -
bano como econômico- inancei o – coloca-se
como uma á ea ex emamen e sensí el pe an e
essas ans o mações e pe an e, sob e udo, os
e iden es desequilíb ios na capacidade polí ica
de go e nação nes a e a de ansição.
Tal e ei o, en endido de o ma inc e-
men al pela sociedade u bana, em sob ele a-
do uma c escen e eação social e o posiciona-
men o de no os mo imen os sociais u banos
com p opos as cada ez mais consis en es de
al e ações de polí icas e a i udes ins i ucio-
nais. Sob e udo nas escalas mais locais, em-
bo a sus en ados em p incípios ans e sais
de de esa do pa imónio u bano cole i o e dos
bens comuns (Blanco e Gomá, 2016; Fos e e
Iaione, 2016).
Po seu lado, as mudanças em cu so na
ida u bana não poucas ezes sen idas pelo ci-
dadão de o ma pa adoxal ou mesmo ubíqua
(Rossi, 2017); si uam-se igualmen e na ees-
u u ação das p óp ias pe cepções sociais e
polí icas de coesão, de inclusão e de qualida-
de de ida e, en im, da p óp ia pe cepção dos
di ei os e do exe cício de cidadania (Ma ei,
2011; Subi a s, 2016). A conjugação dessas
endências em acen uado as ambi alências da
ida u bana e a e iden e agilização do capi al
social “clássico”.
Essa agilidade é isí el na es u u ação
dos no os mo imen os sociais de ca iz u bano.
Mas apenas se in e p e ada à luz das noções
mais clássicas de capi al social. Pois, na e -
dade, o espaço público da polí ica u bana em
sido c escen emen e ocupado – nas p incipais
cidades eu opeias, e com alguma de asagem
ambém em Lisboa – po no os pe is de capi al
social, de cidadania e de in e enção; sob e u-
do nas classes mais jo ens e mui o mais digi a-
lizadas, num in e essan e “e ei o-u banidade”
la en e nas exp essões cí icas.
Po ugal encon a-se, p esen emen e,
num e iden e caminho de ansição socio-
económica.40 Vai-se si uando – apesa das
esis ências deco en es de uma en aizada
cul u a de
pa h-dependency
que na socieda-
de e econo mia, que na p óp ia adminis ação
pública – uma c escen e abe u a pa a no os
p ocessos e agen es de p og esso. Es ando o
e i ó io, e no a elmen e as cidades e a ida
u bana, a ganha posicionamen o polí ico. E
a se em c escen emen e econhecidos os im-
pac os que as polí icas económicas p o ocam
nes as. Nas ques ões mais elacionadas com a
habi ação, e num pano ama já em ce a en-
dência pós-au o i á ia da polí ica po uguesa, a
cidade de Lisboa (e seus mo imen os sociais)
em desempenhado um impo an e papel de
ca alisado pa a o na os p oblemas e as pos-
sí eis p opos as mais isí eis. As abo dagens
polí icas dos a uais go e nan es mos am se ,
inalmen e, mais abe as pa a a auscul ação
e mesmo pa a a negociação com uma gama
mais ampla de a o es do e eno. Se bem que
seja ainda mui o e iden e a a iabilidade de
a i udes polí icas nos di e en es ó uns e ins i-
uições – o que aduz mui as ince ezas, ainda
pa a mais em ace das o ças em con adição
de es a égias –, es á não obs an e já ela i a-
men e longe o echo au o e e encial que ca-
ac e izou o passado ecen e.
A mudança de a i udes em ní el nacio-
nal, paula inamen e desen ol ida desde 2015,
é sem dú ida esul ado de ans o mações
polí icas e, pa icula men e, de uma no a cen-
alidade da polí ica pa lamen a ; mas ambém
Lisboa em ansição p o unda e desequilib ada
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esul ado do c escen e posicionamen o de no-
os mo imen os sociais de ca iz u bano. Es es
êm sido mesmo ele an es pa a a p óp ia
concepção (ainda em ape eiçoamen o) da
No a Ge ação de Polí icas de Habi ação. Não
obs an e, essas polí icas pa ecem es a lon-
ge de cons i ui -se como uma obus a polí ica
pela habi ação e al a, ainda, ação em se o es
pa alelos mais igualmen e undamen ais pa a
polí icas de coesão e edis ibuição social e
u bana, ais como nos se o es do u banismo e
da ges ão dos luxos u ís icos. O que, em ele-
an e medida, az com que as polí icas públicas
es ejam ainda mui o dependen es das ( ágeis)
capacidades de in e enção das au o idades
locais (Hen iques e Pin o, 2018). Es as, po sua
ez, man êm a i udes de equen e ambiguida-
de ou mesmo con adição, sob e udo pe an e
ilei as económicas decisi as, ais como o se o
do u ismo.
Em Lisboa, po um lado, exis em cla os
elemen os que comp o am a dispe são das
comunidades, a a és da agmen ação e da
inancei ização da ida me opoli ana, bem co-
mo da a omização social azida pela dimensão
digi al, do ó ice das p essões imobiliá ias e,
ainda, dos descompassos uncionais esul an-
es da consolidação das no as es u u as de
abalho e de mobilidade. Po ém, po ou o
lado, é possí el obse a no as dinâmicas de
ea g egação comuni á ias baseadas na e iden-
e ( e) alo ização da cidade e da ida u bana
e na alo ização da ecologia humana e bio í-
sica, especialmen e isí el nas no as ge ações
(Fus e Mo ell, 2013). Especialmen e, no a-se
como o paula ino e o ço das polí icas públicas
de p oximidade em ambém despe ado um
leque a iado de eacções dos cidadãos e dos
mo imen os sociais pa a com a ans o mação
das dinâmicas económicas e o ganizacionais
dos seus e i ó ios de ida quo idiana.
Dada a ele ância da cidade-capi al na
o mação do pensamen o sociopolí ico nacio-
nal – ao que ambém se jun am os mo imen os
sociais igualmen e em i o dinamismo na se-
gunda cidade do Po o –, bem como a pa ici-
pação de agen es cul u ais de alguma ele ân-
cia, e, ainda, uma impo an e e c escen e in e -
ligação com edes in e nacionais de mo imen-
os simila es; os mo imen os sociais de Lisboa
e suas ei indicações e p opos as êm indo a
oma um papel que mos a i além das solu-
ções especí icas pa a os e i ó ios onde mais
ac uam. Tem-se de endido uma gama ela i a-
men e ampla de e o mas es u u ais; que ão
das múl iplas p opos as pa a o omen o do se-
o da habi ação; a uma mui o mais a en a ges-
ão e egulação local das ac i idades u ís icas;
a p opos as de e isão iscal nos in es imen os
inancei os e e i o iais; e, en im, à e isão dos
desequilíb ios ainda exis en es deco en es do
Regime de A endamen o U bano.
Ao mesmo empo, di e en es p opos as
con e gem no sen ido de melho es ga an ias
de que uma pa e ele an e dos ganhos eco-
nômicos elacionados com as no as ilei as
mais dinâmicas – e no a elmen e o se o u-
ís ico, mas não somen e – possa se edis i-
buída pa a bens públicos e comuns ine en es
aos e i ó ios locais e às comunidades mais
di e amen e en ol idas com as al e ações dos
seus luxos.
A necessidade de abo dagem a essas
ques ões de o ma mais polí ica le an a, po
sua ez, um ou o denominado comum im-
po an e: a necessidade de p odução de in-
o mação e de conhecimen o, de o ma mais
pe manen e e mui o mais ina, sob e as mais
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di e sas ques ões in e ligadas com a habi a-
ção, com as no as o mas de i ência u bana,
com as es a égias e egulamen os de plane-
jamen o e de uso do solo e de p op iedade.
Essas suges ões são um bom exemplo que
mos a como uma capacidade e ec i a de
en en a os no os p oblemas de habi ação
nas á eas u banas se á o emen e in luencia-
da pela capacidade de ou as e o mas mais
ans e sais, ainda conside a elmen e ince -
as no a ual quad o polí ico po uguês.
Essas agilidades – ou desequilíb ios –
são pa icula men e sen idos, no nosso en-
ende , em ace do que chamamos na secção
an e io de con adições en e os elemen os
de abe u a e, po sua ez, os elemen os de
ausência, no posicionamen o das polí icas de
habi ação e, em ní el mais global, das polí icas
u banas em Po ugal. Tais desequilíb ios são
ambém sen idos – embo a po o mas dis in-
as – nos p óp ios mo imen os sociais. Mas
es amos ac edi ando que, segu amen e, uma
c escen e capacidade, a pa de uma desejada
coe ência democ á ica, das edes de a i ismo
social na a enção c í ica e in luência polí ica
nas sé ias ans o mações em cu so, se á, no
nosso en ende , undamen al – como e elou
se nos anos mais ecen es – pa a as po enciais
ansições de e o çados dínamos de ação po-
lí ica u bana.
[I] h ps://o cid.o g/0000-0002-4948-9113
Uni e sidade No a de Lisboa, Cen o In e disciplina de Ciências Sociais. Lisboa, Po ugal.
[email p o ec ed]
[II] h ps://o cid.o g/0000-0002-6660-3432
Uni e sidade de Lisboa, Ins i u o de Ciências Sociais. Lisboa, Po ugal.
simone.
[email protected]
[III] h ps://o cid.o g/0000-0001-6234-5168
Uni e sidade de Coimb a, Cen o de Es udos Sociais. Coimb a, Po ugal.
Uni e si y o he Wi wa e s and, School o A chi ec u e and Planning. Joanesbu go, Á ica do Sul.
gio anni.alleg e
[email protected]
Ag adecimen os
Os au o es ag adecem, à P iscila Soa es, pela e isão do ex o. Simone Tulumello ag adece o supo e
da Fundação pa a a Ciência e Tecnologia (SFRH/BPD/86394/2012 e PTDC/GES-URB/28826/2017).
Lisboa em ansição p o unda e desequilib ada
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No as
(1) Ins i uição independen e de análise dos me cados do solo. Ve h ps://con idencialimobilia io.
com/.
(2) Ve h ps://www.ai dna.co/ma ke -da a/app/p /lisboa/lisbon/o e iew .
(3) Ve www.lisboa endaacessi el.p /inicio.h ml.
(4) Ve h ps://ci ies o housing.o g.
(5) A pala a é um neologismo, que sublinha a combinação de medidas econômicas e inancei as
de aus e idade com uma endência de go e no au o i á ia e pouco abe a ao diálogo com a
sociedade ci il e com ou as o ças polí icas.
(6) O P og ama de Ajus amen o Económico pa a Po ugal consis iu num paco e de assis ência
inancei a solici ado, em 2011, pelo en ão go e no socialis a de ido a uma p o unda c ise
da dí ida sobe ana, bem como num Memo ando de En endimen o ela i o a uma sé ie de
e o mas, solici adas em oca de esga e de 78 bilhões de eu os ecebidos. O p og ama
ienal oi assinado em maio de 2011 pelo go e no e pela chamada T oika, o mada pelo
Fundo Mone á io In e nacional, pelo Banco Cen al Eu opeu e pela Comissão Eu opeia. Foi
implemen ado, p incipalmen e, du an e os go e nos lide ados pelo Pa ido Social-Democ a a
(que, em Po ugal, é o nome de um pa ido de cen o-di ei a) coo denado pelo P imei o
Minis o, Passos Coelho.
(7) Ve , pa a uma discussão das espos as go e namen ais locais na á ea me opoli ana de Lisboa,
Seixas e al. (2015). E, pa a um quad o de mobilizações cí icas, e Acco ne o e Pin o (2015).
(8) Ou os au o es, como Mou y e S and ing (2017), ambém insis i am na explo ação es a égica do
esga e que oi ei a pelas eli es nacionais, pa a ganha pode sob e ou os a o es.
(9) Po exemplo, a libe alização do sis ema de planeamen o e a lexibilização dos egulamen os de
p o eção labo al.
(10) Ve h ps://ces.uc.p /obse a o ios/c isal /.
(11) Po ugal – como e idenciado pelos dados Eu os a pa a 2016 – em o in es imen o público mais
baixo em elação ao PIB em oda a União Eu opeia. De ac o, ele caiu de 2,2% do PIB em 2015
pa a 1,5% em 2016 e a ingiu 1,8% em 2017. Os gas os com saúde pública caí am de 6,9% do PIB
em 2009 pa a 5,9% em 2016. Nos gas os com educação (que se de am enquan o a população
es udan il diminuía), hou e uma queda pa a 4,9% do PIB (queda de 0,2%) no mesmo pe íodo.
(12) De aco do com o Eu os a , os ju os pagos pelo go e no caí am de 4,6% do PIB em 2015 pa a 3,9%
em 2017, enquan o – do lado da ecei a – os 25 bilhões de eu os de í ulos da dí ida pública
comp ados pelo Banco de Po ugal sob QE o am sendo de ol idos ao Tesou o como di idendos
do Banco de Po ugal (Teles, 2018). T a a-se, apenas em 2017, de 525 milhões de eu os que
ep esen am quase 0,3% do PIB.
(13) Se – con o me já imos – o in es imen o público é baixo e minguan e, algo pa ecido se pode
ambém dize do in es imen o ag egado (ou seja, público e p i ado), que ondou 16,1% do PIB
pa a 2017, ainda bem abaixo do ní el p é-c ise de 2008, que e a de 22,8% (Teles, 2018).