scieee Open visual document viewer

Foucault e a filosofia

Gonçalves, Victor

Abstract

Michel Foucault foi um leitor perseverante, embora sui generis, de Kant, e é essa apropriação que iremos analisar. Começaremos pela longa introdução que fez para a sua tradução de Anthropologie in pragmatischer Hinsicht, mostrando aí o insucesso da antropologia pragmática kantiana. Prosseguiremos com o estudo da Crítica kantiana em Les Mots et les Choses, condição que definiu a transição da episteme Clássica para a Moderna, autorizando no entanto, e simultaneamente, a constituição de uma nova metafísica fora das representações e constituindo uma filosofia obcecada pelo homem, ao reduzir o seu campo de saber às “empiricidades” da vida, da linguagem e do trabalho. Nietzsche virá em seu socorro oferecendo com o “desaparecimento do homem” a promessa do renascimento da filosofia. Finalmente, num terceiro ponto, pensaremos a maneira como Foucault se inscreve mais directamente na recepção kantiana, prolongando-a e renovando-a através do destaque que deu ao “diagnóstico da actualidade” e à “ontologia de nós mesmos”, em vez da “analítica da verdade”, bem como à axiologia da revolução; presentes nos textos que escreveu já na década de 80 sobre Was ist Aufklärung? e Der Streit der Facultäten, definindo aí muito da sua própria condição de pensador, público e privado.

Full text

FOUCAULT E A FILOSOFIA Vic o Gonçal es (Cen o de Filoso ia da Uni e sidade de Lisboa) Apesa de a amen e se ap esen a como ilóso o, de mui as ezes ecusa a é aze pa e dessa adição1, cujo es udo pe mi i ia um a igo bem di e en e des e aliás, que emos discu i , numa ce a me odologia genealógica, o que Michel Foucaul o mulou eo icamen e sob e os luga- es e uncionamen os da iloso ia, cu iosamen e quase semp e sob a in luência de Immanuel Kan , embo a na década de 60 con ocasse F ied ich Nie zsche pa a esol e os impasses em que aquele pa ecia cai . 1 Não que Foucaul igno asse o mundo ilosó ico, em consequências se -se no malien na ua Ulm e ob e uma Licence de philosophie na So bonne (1948), ou o seu Diplome d’é udes supé ieu es de philosophie e sido sob e Hegel, di igido po Jean Hyppoli e, e ainda, pa a inaliza mos es a pequena demons ação cu icula , e ob ido a Ag egação em iloso ia (1951, embo a ep o ando no ano an e io ). Mas no con ex o dos anos 60-80 Foucaul escolheu o campo de pensamen o que ques iona a a iloso ia do sujei o, desen ol ida em o no da igu a quase he óica de Sa e, ou os disposi i os ideológicos e ilosó icos do pa ido comunis a ancês, que p e endia se a “consciência au ên ica do p ole a iado” a pa i de uma lei u a mui o pa icula de Hegel. Rejei ou ambém a enomenologia mais depu ada, neoca esiana, do p ojec o husse liano. E mesmo a ap oximação ao es u u alismo não eliminou a descon iança sob e o seu penden e ahis ó ico. Po udo is o, acilmen e se comp eende que, po exemplo, enha di o: “Je ne me suis jamais occupé de philosophie” (“De la na u e humaine: jus ice con e pou oi ” (1974), in Di s e éc i s II, nº 132, Pa is: Gallima d-Qua o, 2001, p. 1361). E “je ne suis ni un éc i ain, ni un philosophe, ni une g ande igu e de la ie in ellec uelle: je suis un enseignan .” (“Vé i é, pou oi e soi” (1982/1988), in Di s e éc i s II, ci ., nº 362, p. 1596). Philosophica, 40, Lisboa, 2012, pp. 125-142 126 Vic o Gonçal es 1 – “In oduc ion a L’An h opologie”: do p agmá ico ao Übe mensch Na “In oduc ion à l’An h opologie”2, Foucaul an ecipou alguns dos enunciados de Les Mo s e les Choses. Foucaul de ende aí que o p ojec o an opológico kan iano se desen ol eu em ês campos discu si os: 1 – na An opologia3, 2 – in odução ao ex o sob e a lógica4 e 3 – Opus pos umum5. A An opologia p olonga-se naqueles dois, assim como dia- loga com as C í icas pu a e p á ica.6 Apesa do í ulo, ela não cons i ui uma no a cen alidade ilosó ica, que a le a ia a des ia -se da me a ísica (das condições de possibilidade de conhecimen o me a ísico) e da mo al pa a a an opologia, do “Que posso sabe ?” e “Que de o aze ?” pa a “Que é o homem?”.7 Mas há uma ce a no idade ao exo a o se humano a abalha o seu p óp io ape eiçoamen o den o das ci cuns âncias cul u- ais e na u ais.8 2 “In oduc ion à l’An h opologie” [do a an e IA], in Kan , An h opologie du poin de ue p agma ique (1961-62), ad. Michel Foucaul , Pa is: V in, 2008. O jú i ( a a a-se da ese secundá ia de dou o amen o, com o í ulo: Genèse e s uc u e de l’an h opologie de Kan ), Jean Hyppoli e e Mau ice Gandillac, ins ou Foucaul a publica a “In odução” au onomamen e (a adução oi-o na V in, com uma cu a in odução, em 1964/1970 e em li o de bolso 91, 94 e 2002; a “In odução” apenas em 2008, ambém na V in), iam aí um caminho de in es igação a segui . Foucaul acabou po azê-lo, mu a is mu andis, em Les Mo s e les Choses. Une a chéologie des sciences humaines (1966), Pa is: Gallima d-Tel, 1990/2010 [do a an e MC]. Pode consul a -se, embo a osse ú il e ê-la, a ad. po . de An ónio Ramos Rosa pa a as Edições 70, Lisboa, 1991. 3 An h opologie in p agma ische Hinsich , 1798, Akademie-Ausgabe, Bände VII [do a an e AK.]. Quando hou e ad. po . acessí eis op a emos po elas. 4 Manual des inado a apoia os es udan es do cu so de lógica, p epa ado e publicado po Go lob Benjamin Jäsche, memb o do cí culo de amigos de Kan em Königsbe g: Logik, ein Handbuch zu Vo lesungen, 1880, Ak. IX. 5 Ak. XXI-XXII. 6 Podemos e a “In odução” como um abalho de gené ica, c uzando a co espon- dência (Ak. XII) que acompanhou a es a égia edi o ial da An opologia, o Nachlass (Ak. XV) p e e ido mas impo an e e os diálogos com ou os ex os dos pe íodos p é- -c í ico e c í ico. Bem como o desen ol imen o de alguns p incípios na Lógica e no Opus pos umum. Além disso, po que a An opologia esul ou de um longo pe íodo de cu sos, Foucaul ambém a ende ao que inco po ou e discu iu com o seu empo. 7 São conhecidas as ês pe gun as que Kan o mula quase no inal da C í ica da Razão Pu a: “Was kann ich wissen? Was soll ich un? E Was da ich ho en?”. Que, diz ele, concen am “Todo o in e esse da minha azão ( an o especula i a como p á ica)” (A804-805/B832-833). A pe gun a “Was is de Mensch?” su gi á apenas na Lógica (Einlei ung, III), onde de ende a pe ença das ês p imei as à úl ima: “Im G unde könn e man abe alles dieses zu An h opologie echnen, weil sich die d ei e s en F agen au die le z e beziehen.” 8 José Ba a a-Mou a ealça o sen ido p agmá ico des a an opologia, con apondo-o Foucaul e a Filoso ia 127 Toda ia, a p agma icidade a enua-se mui o quando Kan na Einlei ung da lógica e e e que a me a ísica, a mo al e a eligião de em se subsumi- das pela ques ão “Was is de Mensch?”9, já não se a a e dadei amen e, a é pela sua ausência no co po do li o, de an opologia p agmá ica, mas de um p ojec o pós-c í ico assen e numa iloso ia anscenden al. Toda ia, mesmo es e p ojec o da á luga a uma ou a p eocupação na Opus pos u- mum: in e oga -se sob e Deus e o mundo,10 onde o homem i esse a un- ção de mediado . Assim, Kan acumulou, du an e os mais de in e anos em que ensi- nou a an opologia, a iados conhecimen os empí icos pa a analisa e jus i ica uma ini ude que não passasse pela on ologia do in ini o (Des- ca es) nem po uma iloso ia do absolu o (me a ísica dogmá ica). Mas es a ques ão, apesa de eme gi na An opologia e de se p olonga na Lógica e na Opus pos umum, ica á suspensa, Kan não conseguiu elabo- a um conhecimen o da ini ude que eplicasse, embo a nou os e mos, as condições de possibilidade epis emológicas mais impo an es da C í i- ca pu a, e que pe mi i am o Selbs denken p og amá ico da Au klä ung. Em consequência, Foucaul e e e que só Nie zsche e o seu “ iloso- a à ma elada” consegui am eno a uma e lexão ap op iada “sob e o a p io i, o o iginá io e a ini ude.”11 É jus amen e nesse pensamen o que ê a mo e da iloso ia aze a possibilidade de con inua a iloso a .12 E is o não po que uma e olução me odológica ou uma iluminação in eligí el ecupe assem o igo há mui o e anescen e da iloso ia, an es na exac a medida em que “O emp eendimen o nie zscheano pode ia se comp een- dido como o pon o de pa agem en im dado à p oli e ação da in e ogação sob e o homem.”13 Po quê? O inal da “In odução à An opologia” é e iginoso na passagem que az da expe iência an opológica kan iana balbucian e à edenção epis émico- eológica nie zscheana. Só o iandan e ao uni e sal da mo al. (C . “Kan ou le sens p agma ique d’une An h opologie”, in AAVV, Was is de Mensch? Que é o homem?. An opologia, Es é ica e Teleologia em Kan , o g. Leonel Ribei o dos San os, Ubi aja a Piaia, Ma co Sga bi e Ricca do Pozzo, Lisboa: CFUL, 2010). 9 Em Kan und das P oblem de Me aphysik, 1929, Heidegge , no §37, já inha discu ido o alcance des a úl ima ques ão, mas mos ou-se ese ado quan o à possibilidade de a pa i dela se aze uma an opologia ilosó ica que unda- men asse a me a ísica. 10 A ilogia do p ojec o an opológico kan iano mos ou a necessidade do uni e sal se his o iciza , o seu acasso apenas p o ou a ex empo aneidade da genialidade kan iana. (C . IA, p. 54-55). 11 IA, p. 68: “su l’a p io i, l’o iginai e e la ini ude.” 12 C . IA, p. 68. 13 IA, p. 80: “L’en ep ise nie zschéenne pou ai ê e en endue comme poin d’a ê en in donné à la p oli é a ion de l’in e oga ion su l’homme.” 128 Vic o Gonçal es de Sils Ma ia e ia e dadei amen e p o ado que a mo e de Deus ( an as ezes suge ida, a é po Kan ) conduzia ambém à mo e do homem, “Vis- o que o homem, na sua ini ude, não é sepa á el do in ini o de que é simul aneamen e a negação e o he ói; é na mo e do homem que se cum- p e a mo e de Deus.”14 Assim, nes e im que é começo acon ece ia um ou o pensamen o da ini ude libe o an o do homem como do in ini o. A pe gun a sob e o homem e ia en ão uma espos a abe a à absolu a no i- dade: “A ajec ó ia da ques ão Was is de Mensch? no campo da iloso- ia e mina na espos a que a ecusa e a desa ma: de Übe mensch.”15 2 – Les Mo s e les Choses: o sono an opológico kan iano Em Les Mo s e les Choses, Foucaul es uda espaçadamen e as elações que a iloso ia man e e com as ciências humanas, o e i ó io e as a icula- ções que ela cons i uiu na época Mode na e como se dis inguiu da Clássica. No limia da ansição en e essas épocas, inal do século XVIII, coexis i am a Ideologia e a Filoso ia C í ica (Des u de T acy16 e Immanuel Kan ), que Foucaul oma á como pa adigmas da al e ação epis emológica. As duas habi am ainda o domínio das ep esen ações, mas p ocu am supe á-lo cada uma à sua manei a. Enquan o a Ideologia se cons i ui co- mo uma “ciência das ideias” com p e ensões à desc ição ge al das ep e- sen ações, a Filoso ia C í ica sac i ica o empí ico pa a busca o a p io i uni e sal da elação en e ep esen ações. Des a o ma, Ideologia e Filoso ia C í ica assemelham-se po ambas se deb uça em sob e as ep esen ações como solo do sabe da época Clás- sica (já em secessão), mas ao mesmo empo a C í ica kan iana i ma á a en ada na Mode nidade: 14 IA, p. 80: “Ca l’homme, dans sa ini ude, n’es pas sépa able de l’in ini don il es à la ois la néga ion e le hé au ; c’es dans la mo de l’homme que s’accompli la mo de Dieu.” 15 IA, p. 80: “La ajec oi e de la ques ion: Was is de Mensch? dans le champ de la philosophie s’achè e dans la éponse qui la écuse e la désa me: de Ube mensch.” Es e desapa ecimen o de um homem ab icado, en e ou as, pela iloso ia kan iana e mais a de pelas ciências humanas pe mi i á a elabo ação de um pensamen o ou o, o a do sujei o. Foucaul p ocu a-o essencialmen e na li e a u a, sob e udo na esc i a na a i a de Blancho , demons ação de que a linguagem só apa ece po si mesma no desapa ecimen o do sujei o. (C . “La pensée du deho s” (1966), in Di s e éc i s I, ci , nº 38, pp. 546-567). 16 1754-1836, polí ico, mili a e ilóso o. Ensaios sob e a mo al, eligião, pedagogia; comen á ios sob e Mon esquieu e Kan ; co espondência com Bu ke. Foucaul ci a Élémen s d’Idéologie, 1803-15 (3 ols.: “I Idéologie p op emen di e”; “II G ammai e”; “III-IV De la logique”). Foucaul e a Filoso ia 129 Em ace da Ideologia, a c í ica kan iana ma ca, em con apa ida, o limia da nossa mode nidade; ela in e oga a ep esen ação, não segundo um mo imen o inde inido que ai do elemen o simples a odas as suas combinações possí eis, mas a pa i dos seus limi es de di ei o. Ela sanciona assim pela p imei a ez esse acon ecimen o da cul u a eu opeia que é con empo âneo do inal do século XVIII: a e i ada do sabe e do pensamen o pa a o a do espaço da ep esen ação.17 Com is o, a Filoso ia C í ica denuncia e comba e a me a ísica que se inha cons i uído em o no do campo da epis emologia ep esen a i a, exis indo num dogma ismo ingénuo que nunca ques ionou as suas condi- ções de possibilidade. Embo a não enha e i ado a eme gência de uma ou a me a ísica: de objec os jamais objec i á eis, po que undamen o da ealidade que se dá à isibilidade, como o são a “po ência do abalho, a o ça da ida, o pode de ala .”18 Mas o seu g ande legado oi a ia c í ica que ques iona as condições de elação en e as ep esen ações e o que as o na possí eis, azendo eme gi um campo anscenden al onde o sujei o (não empí ico, po que não se dá na expe iência, mas ini o, po que não há in uição in elec ual) “de e mina na sua elação com um objec o = x odas as condições o mais da expe iência em ge al”19, é o sujei o anscenden al que cons i ui o un- damen o de uma sín ese possí el en e ep esen ações. Es a no a iloso ia em um aspec o nega i o e um posi i o: 1 – nega i amen e, acili ou o desen ol imen o de o mas pu as do conhe- cimen o, com au onomia quase sobe ana em elação a odo o sabe empí- ico, p i ilegiando ciências que ga an issem a o malização do eal. 2 – Posi i amen e, ce os domínios do empí ico insc e e am-se nas e le- xões sob e a subjec i idade, o se humano e a ini ude, “ omando alo e unção de iloso ia, bem como de edução da iloso ia, ou de con a- - iloso ia.”20 17 MC, p. 255: “En ace de l’Idéologie, la c i ique kan ienne ma que en e anche le seuil de no e mode ni é; elle in e oge la ep ésen a ion non pas selon le mou emen indé ini qui a de l’élémen simple à ou es ses combinaisons possibles, mais à pa i de ses limi es de d oi . Elle sanc ionne ainsi pou la p emiè e ois ce é énemen de la cul u e eu opéenne qui es con empo ain de la in du XVIIIe siècle: le e ai du sa oi e de la pensée ho s de l’espace de la ep ésen a ion.” 18 MC, p. 257: “puissance de a ail, la o ce de la ie, le pou oi de pa le .” 19 MC, p. 256: “dé e mine dans son appo à un obje = x ou es les condi ions o melles de l’expé ience en géné al”. 20 MC, p. 261: “p enan aleu e onc ion de philosophie, aussi bien que de éduc ion de la philosophie ou de con e-philosophie.” 130 Vic o Gonçal es Mas, pa adoxalmen e, es e domínio posi i o acaba á, no pa oxismo em que caiu, po se e ela o g ande óbice da epis eme Mode na: a “sono- lência an opológica”. Kan quis sepa a o anscenden al do empí ico, mas a con usão eg essou sob a pe gun a Was is de Mensch?21. Me gu- lho obcecado no conhecimen o do homem, na sua duplicidade de sujei o anscenden al e de se na u al, que abalha e ala como undamen os da sua p óp ia ini ude. E eis que nessa Dob a [en e o anscenden al e o empí ico] um no o sono se apode ou da iloso ia; não já o do Dogma ismo, mas o da An opologia. Todo o conhecimen o empí ico, desde que conce ne o homem, ale como um campo ilosó ico possí el, onde de e desco- b i -se o undamen o do conhecimen o, a de inição dos seus limi es e, inalmen e, a e dade de oda a e dade.22 Des a o ma, a iloso ia, apesa de supe a a análise p é-c í ica sob e a essência do homem (esse se do objec o homem), não conseguiu cum- p i o que p ome ia de posi i o no limia do século XIX: aze pa a si a análise de alguns domínios empí icos. Po isso se o nou i ele an e, do mi ando num banho-ma ia an opológico. Felizmen e, a a és de uma c í ica ilológica, a a és de uma ce a o ma de biolo- gismo, Nie zsche eencon ou o pon o em que o homem e Deus pe en- cem um ao ou o, em que a mo e do segundo é sinónimo do desapa- ecimen o do p imei o, e em que a p omessa do sob e-homem signi ica em p imei o luga e an es de mais a iminência da mo e do homem.23 Nie zsche o sal ado , como nas agédias clássicas sal ando a ida pela mo e, o homem, no o homem, pelo desapa ecimen o do homem, mo o que es á o pa dialéc ico eológico. E is o, diz Foucaul , de ine o pa ama a pa i do qual a iloso ia con empo ânea pode ecomeça a 21 Não pe mi indo des aze -se o nó empí ico- anscenden al que impossibili ou a sobe ania de um cogi o à manei a de Desca es ou um empi ismo ma e ialis a cada ez mais p óximo das ciências na u ais. (C . MC., p. 333). 22 MC, p. 352: “E oilà qu’en ce Pli la philosophie s’es endo mie d’un sommeil nou eau; non plus celui du Dogma isme, mais celui de l’An h opologie. Tou e connaissance empi ique, pou u qu’elle conce ne l’homme, au comme champ philosophique possible, où doi se décou i le ondemen de la connaissance, la dé ini ion de ses limi es e inalemen la é i é de ou e é i é.” 23 MC, p. 353: “à a e s une c i ique philologique, à a e s une ce aine o me de biologisme, Nie zsche a e ou é le poin où l’homme e Dieu s’appa iennen l’un l’au e, où la mo du second es synonyme de la dispa i ion du p emie , e où la p omesse du su homme signi ie d’abo d e a an ou l’imminence de la mo de l’homme.” Foucaul e a Filoso ia 131 pensa . O econhecimen o do E e no Re o no compele ao im dos huma- nismos e an opologismos, e pe mi e o enascimen o da iloso ia: Nos nossos dias só podemos pensa no azio do homem desapa ecido. Po que esse azio não ca a uma ca ência; não p esc e e uma lacuna a p eenche . Ele é nada mais nada menos que o desdob amen o de um espaço onde en im se o na no amen e possí el pensa .24 3 – Uma no a iloso ia a pa i de Kan Depois de um longo in e alo, onde quase só em en e is as ousou ala sob e iloso ia, sob e udo pa a dize que não se conside a a um ilóso o, an es um his o iado , ou a queólogo, ou geneólogo, Foucaul eg essa em 1982 a Kan e à iloso ia, dis anciando-se bas an e das e le- xões an e io es sob e o pensado de Königsbe g. Po que de alguma o ma Kan se man e e como ese a de sen ido, pe mi indo-lhe, a pa i de uma c í ica da ini ude, da sag ação da libe dade e da au onomia do sujei o, pensa um abalho ilosó ico de si sob e si, uma axiologia das condições de ans o mação, e ao mesmo empo de elabo ação de si mesmo. Subs i- uindo o li ismo nie zscheano da Selbs übe windung sem pe de as i u- des das p á icas de libe dade. Pa a isso, compôs a sua in e p e ação de Was is Au klä ung,25 expos a em ês luga es dis in os:26 o p imei o numa cu a passagem de um ex o 24 MC, p. 353: “De nos jou s on ne peu plus pense que dans le ide de l’homme dispa u. Ca ce ide ne c euse pas un manque; il ne p esc i pas une lacune à comble . Il n’es ien de plus, ien de moins, que le dépli d’un espace où il es en in à nou eau possible de pense .” Cla o que podemos encon a aqui ecos da con o é sia en e os humanismos heidegge iano e sa eano: L’exis en ialisme es un humanisme e Le e su l’humanisme, mui as ezes simpli icadas quase a é ao slogan, aziam escola, mais Sa e po en u a, cí culo de ogo onde Foucaul não que ia habi a . 25 Esc i o po Kan em Se emb o de 1784 e publicado no Be linische Mona ssch i de Dezemb o de 1784. T ad. po . de A u Mo ão, “Respos a à pe gun a: Que é o Ilu- minismo?”, in A Paz Pe pé ua e Ou os Opúsculos, Lisboa: Edições 70, 1995/2008. A edição o iginal es á disponí el em á ios sí ios on-line, aconselhamos: h p://de.wikisou ce.o g/wiki/Bean wo ung_de _F age:_Was_is _Au klä ung#ci e _no e-0 Reco demos que a espos a kan iana se man ém abe a, ela não de e minou a de inição de uma essência, mas a delimi ação das a e as, indi iduais e colec i as, de escla ecimen o e de emancipação, no undo da “saída do homem da meno idade”. 26 Em boa e dade há um qua o (“Qu’es -ce que la c i ique? C i ique e Au klä ung” [con e ência do 27 de Maio de 1978 na Socié é ançaise de philosophie], Bulle in de la Socié é ançaise de philosophie, . 84, nº 2, Ab il-Junho 1990, pp. 35-63), mas não oi incluído pelos edi o es (Daniel De e e F ançois Ewald) nos Di s e éc i s 132 Vic o Gonçal es ela i amen e longo sob e o pode , em Michel Foucaul : Beyond S uc u a- lism and He meneu ics.27 Os ou os dois o am publicados em 1984 como eesc i a do início do cu so do Collège de F ance de 1983.28 Naquele co- meça po e e i o amanho eduzido e o pouco in e esse que causou, e ainda causa, o a igo de Kan . No en an o, espan a-o que pela p imei a ez um pensado a ibua à iloso ia a análise não só dos undamen os me a ísi- cos do sabe como dos “acon ecimen os ecen es da ac ualidade”: Quando Kan pe gun a, em 1784: ‘Was heiss Au klä ung?’, ele que dize : ‘O que se passa nes e momen o? O que nos acon ece? Que mundo é es e, es a época, es e p eciso momen o em que i emos?’ Ou, nou os e mos: ‘Quem somos?’ Quem somos nós enquan o Au klä e , enquan o es emunhas des e século das Luzes? Compa- emo-lo com a ques ão ca esiana: que sou eu? Eu, enquan o sujei o único, mas uni e sal e não his ó ico? Eu? Já que pa a Desca es ele é oda a gen e, em qualque lado e momen o. […] O ou o aspec o, o da ‘ iloso ia uni e sal’, não desapa eceu. Mas a análise c í ica do mundo em que i emos cons i ui cada ez mais a g ande a e a da iloso ia. Tal ez o p oblema mais exac o da iloso ia seja o p oblema do empo p esen e, do que somos nes e exac o momen o.29 Na e dade, Kan não é ão p o ícuo ace ca de uma analí ica da ac u- alidade.30 Mas Foucaul ê nessa p odução apa en emen e meno um po se o almen e pós umo. Pode, oda ia se impo an e pa a segui o nascimen o do ema da Au klä ung em Foucaul . 27 “The Subjec and Powe ”, in D ey us e Rabinow, Michel Foucaul : Beyond S uc u alism and He meneu ics. Second Edi ion Wi h an A e wo d by and an In e iew wi h Michel Foucaul , Chicago: The Uni e si y o Chicago P ess, 1983, pp. 208-226. 28 Finalmen e edi ado em 2008, Le Gou e nemen de soi e des au es. Cou s au Collège de F ance. 1982-1983, Pa is: Gallima d/Seuil. 29 “The Subjec and Powe ”, ci ., p. 216: “When in 1784 Kan asked, Was heiss Au lä ung?, he mean , Wha ’s going on jus now? Wha ’s happening o us? Wha is his wo ld, his pe iod, his p ecise momen in which we a e li ing? O in o he wo ds: Wha a e we? As Au klä e , as pa o he Enligh enmen ? Compa e his he Ca esian ques ion: Who am I? I, as a unique bu uni e sal and unhis o ical subjec ? I, o Desca es is e e yone, anywhe e a any momen ? […] The o he aspec o ‘uni e sal philosophy’ didn’ disappea . Bu he ask o philosophy as a c i ical analysis o ou wo ld is some hing which is mo e and mo e impo an . Maybe he mos ce ain o all philosophical p oblems is he p oblem o he p esen ime, and o wha we a e, in his e y momen .”. 30 Em Was is Au klä ung apenas na página 491 há um islumb e do que pode ia se esse diagnós ico da ac ualidade, egozijando-se Kan , num om quase p opagan- dís ico, de no seu empo a ança a libe dade iluminis a, diminui o es ado de Foucaul e a Filoso ia 133 g ande des io em elação a odo o seu sis ema C í ico, ou melho , um ou o pon o de in es igação que a ende à pa icula idade do p esen e. Po isso, nos dois ex os mais longos, e i ados do cu so do Collège de F ance, Foucaul ecidi a. Um se á publicado no Le Magazine Li é ai e nº 207 de Maio de 1984 (“Qu’es -ce que les lumiè es”, p. 35- -39), o ou o no The Foucaul Reade de Rabinow do mesmo ano (“Wha is Enligh enmen ?”).31 Po an o, en e 1982 e 1984 Foucaul a ina a sua concepção de iloso ia como diagnós ico do p esen e e “on ologia de nós mesmos” (on ologie de nous-même).32 Naquilo que se pode designa como uma on ologia p á ica onde o que azemos de nós, na nossa ci cuns ância his ó ica, é mui o mais impo an e do que o que “de íamos aze ”, os jogos de e dade33 do que as condições de possibilidade da e dade, i.e., em ez de um humanismo uni e sal que unda no mas de acção me a ísicas e uma epis emologia anscenden al que de ine a p io i a subjec i idade cogni i- a, emos a cons ução de subjec i idades no seio da con ingência his ó ica. Em “Wha is Enligh enmen ?”, começa po dize que de Hegel a Habe mas, passando po Nie zsche, Max Webe ou Ho kheime , odos se con on a am com a ques ão sob e o que é die Au klä ung. A pe gun a a que Kan espondeu ob iga a a ala do p esen e, já que pa a uma ce a in elec ualidade aquele e mo designa a a época que deco ia. Mas em ez de con inua a expo o p esen e como uma idade do mundo (Pla ão), de o usa pa a desen ol e uma he menêu ica his ó ica que e elasse os signos anunciado es de acon ecimen os u u os (S o Agos inho) ou de o analisa como um momen o de ansição em di ecção à au o a de um no o mundo (Giamba is a Vico); Kan pensou a di e ença en e o “hoje” e o “on em”: No ex o sob e a Au klä ung, a ques ão conce ne a pu a ac ualidade. Ele [Kan ] não p ocu a comp eende o p esen e a pa i de uma o al- dade ou de uma ealização u u a. Ele p ocu a uma di e ença: que di e ença in oduz o hoje em elação ao on em?34 meno idade acional e polí ica que du an e mui os anos inha sido o e hos do homem em sociedade. (C . Kan , “Respos a à pe gun a: Que é o Iluminismo?”, ci ., p. 16). 31 New Yo k: Pan heon Books, pp. 32-50; em ancês no Le Magazine Li é ai e 309 (Ab il 1993) [sob e “Kan e a mode nidade”], pp. 61-74, “Qu’es -ce que les Lumiè es?”. Ci a emos a pa i do ex o ancês (Michel Foucaul , “Qu’es -ce que les Lumiè es?” (1984), in Di s e éc i s II, ci ., nº 339, pp. 1381-1397) po que oi o iginalmen e esc i o nessa língua ( aduzido pa a inglês po Ca he ine Po e ). 32 Po ezes ac escen a “c í ica” (“on ologie c i ique de nous-mêmes”), o que, diga- -se, não a enua mui o o seu ca ác e enigmá ico. 33 Foucaul usa es e concei o no sen ido das eg as de p odução da e dade, do que pode se conside ado ou não e dadei o num de e minado con ex o cul u al e his ó ico, com os e ei os de pode que lhe são ine en es. 34 “Qu’es -ce que les Lumiè es?” (1984), in Di s e éc i s II, ci ., nº 339, p. 1382: 140 Vic o Gonçal es a iscando uma me odologia he menêu ica p óxima do pa chwo k, ci a uma en e is a de 1982 na Uni e sidade de Ve mon e um exce o da in odução ao segundo olume da His ó ia da Sexualidade: O meu papel – e mo demasiado pomposo, aliás – é o de mos a às pessoas que elas são mui o mais li es do que pensam, que omam po e dadei o, po e iden e ce os emas que o am ab icados num momen o pa icula da his ó ia, e que es a p e ensa e idência pode se c i icada e des uída. Muda alguma coisa no espí i o das pessoas, é esse o papel do in elec ual.55 Que ale ia o a inco de sabe se apenas assegu asse a aquisição dos conhecimen os, e não, de uma ce a o ma e na medida do possí el, o pe de -se de quem conhece? […] Mas o que é a iloso ia hoje – que o dize , a ac i idade ilosó ica – se não o o abalho c í ico do pensa- men o sob e ele mesmo? E se ela não consis e, em ez de legi ima o que já sabemos, a in en a sabe como e a é onde se á possí el pensa de ou a o ma? […] O ‘ensaio’ – que é necessá io en ende como desa io modi icado de si mesmo no jogo de e dade e não como ap op iação simpli icado a de ou em pa a ins de comunicação – é o co po i o da iloso ia, se ao menos es a o ainda ago a o que e a an igamen e, is o é, uma ‘ascese’, um exe cício de si no pensamen o.56 comme il es .” (Foucaul , “S uc u alisme e pos s uc u alisme” (1983), in Di s, e éc i s II, ci ., nº 330, p. 1268). 55 “Vé i é, pou oi e soi” (1982/1988), in Di s e éc i s II, ci ., nº 362, p. 1597: “Mon ôle – mais c’es un e me op pompeux – es de mon e aux gens qu’ils son beaucoup plus lib es qu’ils ne le pensen , qu’ils iennen pou ais, pou é iden s ce ains hèmes qui on é é ab iqués à un momen pa iculie de l’his oi e, e que ce e p é endue é idence peu ê e c i iquée e dé ui e. Change quelque chose dans l’esp i des gens, c’es cela, le ôle d’un in ellec uel.” 56 Michel Foucaul , His oi e de la sexuali é II. L’Usage des plaisi s (1984/1997), Pa is: Gallima d-Tel, 2001, pp.15-16 ( eco damos que es e exce o, publicado o iginalmen e na e is a Le Déba 27 (No emb o 1983), pp. 46-72, com o í ulo “Usage des plaisi s e echniques de soi”, azia pa e da in odução ge al a L’Usage des plaisi s, Le souci de soi e ao inacabado Les a eux de la chai ): “Que aud ai l’acha nemen du sa oi s’il ne de ai assu e que l’acquisi ion des connaissances, e non pas, d’une ce aine açon e au an que ai e se peu , l’éga emen de celui qui connaî ? […] Mais qu’es -ce donc que la philosophie aujou d’hui – je eux di e l’ac i i é philosophique – si elle n’es pas le a ail c i ique de la pensée su elle-même? E si elle ne consis e pas, au lieu de légi ime ce qu’on sai déjà, à en ep end e de sa oi commen e jusqu’où il se ai possible de pense au emen ? […] L’«essai» – qu’il au en end e comme ép eu e modi ica ice de soi-même dans le jeu de la é i é e non comme app op ia ion simpli ica ice d’au ui à des ins de communica ion – es le co ps i an de la philosophie, si du moins celle-ci es enco e main enan ce qu’elle é ai au e ois, c’es -à-di e une ‘ascèse’, un exe cice de soi, dans la pensée.” Foucaul e a Filoso ia 141 RESUMO Michel Foucaul oi um lei o pe se e an e, embo a sui gene is, de Kan , e é essa ap op iação que i emos analisa . Começa emos pela longa in odução que ez pa a a sua adução de An h opologie in p agma ische Hinsich , mos ando aí o insucesso da an opologia p agmá ica kan iana. P ossegui emos com o es udo da C í ica kan iana em Les Mo s e les Choses, condição que de iniu a ansição da epis eme Clássica pa a a Mode na, au o izando no en an o, e simul aneamen e, a cons i uição de uma no a me a ísica o a das ep esen ações e cons i uindo uma iloso ia obcecada pelo homem, ao eduzi o seu campo de sabe às “empi icidades” da ida, da linguagem e do abalho. Nie zsche i á em seu soco o o e ecendo com o “desapa ecimen o do homem” a p omessa do enascimen o da iloso ia. Finalmen e, num e cei o pon o, pensa emos a manei a como Foucaul se insc e e mais di ec amen e na ecepção kan iana, p olongando-a e eno ando-a a a és do des aque que deu ao “diagnós ico da ac ualidade” e à “on ologia de nós mesmos”, em ez da “analí ica da e dade”, bem como à axiologia da e olução; p esen es nos ex os que esc e eu já na década de 80 sob e Was is Au klä ung? e De S ei de Facul ä en, de inindo aí mui o da sua p óp ia condição de pensado , público e p i ado. Pala as cha e: An opologia, Filoso ia, Au klä ung, C í ica, Re olução. ABSTRACT Michel Foucaul was a pe sis en , al hough sui gene is, eade o Kan , and ha is he app op ia ion ha we will analyse. We will s a by he ex ensi e in oduc ion ha he has made o his ansla ion o An h opologie in p agma ische Hinsich , whe e he shows he ailu e o he kan ian p agma ic an h opology. We will p oceed wi h he s udy o he kan ian c i icism in Les Mo s e les Choses, which se he condi ions o he ansi ion o he Classic o he Mode n epis eme, allowing ne e heless, and simul aneously, he c ea ion o a new me aphysics ou o he ep esen a ions and o ming a philosophy obsessed by man, by means o educing his ield o knowledge o he “empi icisms” o li e, o language and o wo k. Nie zsche will come in his help by o e ing, wi h he “disappea ance o man”, he p omise o he enaissance o philosophy. Finally, in a hi d pa , we will e lec on he way Foucaul commi s himsel mo e di ec ly o he Kan ian ecep ion, by enla ging and enewing i h ough he impo ance he ga e o he “diagnosis o ac uali y” and o he “on ology o ou sel es”, ins ead o he “analy ics o u h”, as well as o he axiology o e olu ion. This was al eady p esen in he ex s he w o e in he 80’s abou Was is Au klä ung? and De S ei de Facul ä en, he e de ining much o his own condi ion as a public and p i a e hinke . Keywo ds: An h opology, Philosophy, Au klä ung, C i icism, Re olu ion.