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Caminhos cruzados: os portugueses e Portugal na ficção brasileira

Chaves, Vania Pinheiro,Lisboa de Mello, Ana Maria,Penjon, Jacqueline,Pereira, Évelin Guedes

Abstract

Caminhos cruzados: os portugueses e Portugal na ficção brasileira inova ao estudar as personagens portuguesas na ficção brasileira oitocentista e novecentista. Os 24 ensaios que constituem o e-book são o fruto complementar do Dicionário de personagens portuguesas da ficção brasileira. Este dicionário, que integra o projeto «Portugueses de Papel», dirigido pela Prof.ª Vania Pinheiro Chaves (CLEPUL – Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), pode ser consultado em https://portuguesesdepapel.com. Iniciado em 2015, o dicionário conta hoje com uns 146 pesquisadores de diferentes nacionalidades, pertencendo a 63 centros universitários distribuídos entre o Brasil (43 universidades de 14 Estados), a Europa (Portugal, França, República Tcheca, Alemanha, Espanha, Itália, a Inglaterra) e os Estados Unidos. O corpus, ainda em formação, compreende romances, novelas e contos. Os ensaios deste volume foram apresentados em diversos eventos realizados no Brasil (2017, Rio de Janeiro e Belém do Pará; 2018, Rio de Janeiro e São Paulo; 2019, Salvador; 2020, Niterói), na Europa (2015, Lisboa; 2016, Lisboa e Bordeaux; 2017, Lisboa; 2018, Lisboa; 2019, Paris) e nos Estados Unidos (2018, Boulder). Divide-se o livro em três capítulos: «Aberturas», «Portugueses e Portugal na ficção oitocentista» e «Portugueses e Portugal na ficção novecentista».

Full text

Caminhos C uzados Os po ugueses e Po ugal na icção b asilei a O ganizado as: Vania Pinhei o Cha es (coo denação ge al) Ana Ma ia Lisboa de Mello Jacqueline Penjon É elin Guedes Pe ei a Ficha écnica Ob a Caminhos c uzados: os po ugueses e Po ugal na i cção b asilei a O ganizado as Vania Pinhei o Cha es (coo denação ge al) Ana Ma ia Lisboa de Mello Jacqueline Penjon É elin Guedes Pe ei a (edi o a execu i a) Design G áfi co Capa: Alexand e Gomes de Sousa Paginação: Jo ge Viei a Conselho Cien ífi co Al a Ma inez Teixei o Al a o Simões Junio Cláudia Poncioni F ancisco Topa Ma ia Célia Leonel Ma ia Eunice Mo ei a Mi hiane Mendes de Ab eu Ma ilene Weinha d Pe a Pe o Ša ka G auo á ISBN 978-989-8577-39-9 P oje o CLEPUL - Po ugueses de Papel, Vania Pinhei o Cha es (In es igado a Responsá el) Es a publicação oi i nanciada po undos nacionais a a és da FCT – Fundação pa a a Ciência e a Tecnologia, I.P., no âmbi o do P ojec o “UIDB/00077/2020” Es a é uma ob a em acesso abe o dis ibuída sob a Licença In e nacional C ea i e Commons - A ibuição 4.0 (CC BY 4.0). Lisboa 2021 Caminhos C uzados: os po ugueses e Po ugal na i cção b asilei a O ganizado as Vania Pinhei o Cha es Ana Ma ia Lisboa de Mello Jacqueline Penjon É elin Guedes Pe ei a 5 Ap esen ação Jacqueline Penjon1 His o iado es, sociólogos, es udiosos semp e se deb uça am sob e a igu a do Po uguês emig ado pa a o B asil, dos empos da colônia a é a a ualidade, ou sob e as elações luso-b asilei as. En e as publicações mais ecen es, só pa a da um exemplo, encon amos O Rio de Janei o dos ados, minho os e al acinhas – O an ilusi anismo na P imei a República (2017), de Gladys Sabina Ribei o, ou Po ugal segundo o B asil (2020), de Robe o Acízelo de Souza e José Luís Jobim. Caminhos c uzados: os po ugueses e Po ugal na icção b asilei a, po sua ez, ino a ao es uda as pe sonagens po uguesas na icção b asilei a oi ocen is a e no ecen is a. Os 24 ensaios que cons i uem o e-book são o p imei o u o do Dicioná io de pe - sonagens po uguesas da icção b asilei a. Es e dicioná io, que in eg a o p oje o «Po ugueses de Papel», di igido pela P o .ª Vania Pinhei o Cha es (CLEPUL – Cen o de Li e a u as e Cul u as Lusó onas e Eu opeias da Faculdade de Le as da Uni e sidade de Lisboa), pode se consul ado em h ps://po uguesesdepapel.com. Iniciado em 2015, o dicioná io con a hoje com uns 146 pes- quisado es de di e en es nacionalidades, pe encendo a 63 cen- os uni e si á ios dis ibuídos en e o B asil (43 uni e sidades de 14 Es ados), a Eu opa (Po ugal, F ança, República Tcheca, Alemanha, Espanha, I ália, a Ingla e a) e os Es ados Unidos. O co pus, ainda em o mação, comp eende omances, no elas e con os. Já cons am do dicioná io 125 e be es, as e e ências de 226 ob as sem pe sonagens po uguesas e as e e ências de 328 com pe sonagens po uguesas; a ualmen e, 965 li os es ão em p ocesso de lei u a. 1 So bonne Nou elle. 6 Os ensaios des e olume o am ap esen ados em di e sos e en os ealizados no B asil (2017, Rio de Janei o e Belém do Pa á; 2018, Rio de Janei o e São Paulo; 2019, Sal ado ; 2020, Ni e ói), na Eu opa (2015, Lisboa; 2016, Lisboa e Bo deaux; 2017, Lisboa; 2018, Lisboa; 2019, Pa is) e nos Es ados Unidos (2018, Boulde ). Di ide-se o li o em ês capí ulos: «Abe u as», «Po ugueses e Po ugal na icção oi ocen is a» e «Po ugueses e Po ugal na icção no ecen is a». «Abe u as» eúne dois a igos in odu ó ios: um sob e as designações da «p osa de icção» oi ocen is a, ou o sob e as imagens li e á ias da imig ação po uguesa no B asil no ecen is a. Assim, Má cia Ab eu analisa as ambiguidades e oscilações das designações dos ex os iccionais na Eu opa e no B asil do século XIX ( omance, con o, no ela, ábula, lenda, his ó ia), a im de e i a anac onismos e incoe ências na seleção do co pus do Dicioná io. Má io Luís G angeia concen a-se em ob as de au o es que mig a am pa a o B asil no século XX, de o ma pe manen e ou p o isó ia: João Sa men o Pimen el, Fe ei a de Cas o, Miguel To ga, Ru h Escoba e Leono Xa ie . Des a o ma, analisa cinco imagens da mig ação: a espe a, a ma u ação, a mi agem, a alma di idida e a ein enção. O segundo capí ulo, «Po ugueses e Po ugal na icção oi ocen is a», ap esen a onze ensaios que o e ecem múl iplas abo dagens, na maio ia, a pa i de au o es consag ados. A pe sonagem Pad e An ónio Viei a é is a na icção li e á ia b asilei a, no es udo de José Edua do F anco e Vanda Figuei edo, como um po uguês-b asilei o en e dois mundos. Ma ia Apa ecida Ribei o se dedica às ob as de José de Alenca , onde mos a como su gem pe sonagens po uguesas conside adas como ances ais dos b asilei os. Analisando pa icula men e O Gua ani e I acema, em que eles são ca ac e izadas como nob es e alen es, Alenca az da o mação do B asil, um a o de amo . Na análise das elações com Po ugal e os po ugueses, Hélio de Seixas Guima ães pe co e a ob a machadiana desde a colabo ação de ju en ude do au o no jo nal luso-b asilei o O Fu u o (1862-1863) a é o úl imo omance, 7 Memo ial de Ai es (1908), ao passo que Ca los Paulo Ma ínez Pe ei o examina os Papéis a ulsos (1882) pa a se de e no «Seg edo do Bonzo. Capí ulo inédi o de Fe não Mendes Pin o». And eia Al es Mon ei o de Cas o se deb uça sob e os Mis é ios da Tijuca (1882-1883) – omance bas an e in luenciado po Eugène Sue e seus Mis é ios de Pa is –, que Aluísio Aze edo ans o ma em Gi ândola de Amo es (1900). O submundo ca ioca, a cidade pa adisíaca e pe igosa o e ecem mui as opo unidades a po ugueses imig ados e b asilei os que sem esc úpulos abandonam mulhe es e ilhos. São as pe sonagens emininas que chamam a a enção de Angela Ma ia Rod igues Lagua dia nas ob as de Aluísio Aze edo, pa icula men e em O homem (1887) e O co iço (1890). Madalena com a sua c iada Jus ina, po uguesa das ilhas, é a he oina «his é ica» de O homem (Luís, o ped ei o); o des ino de Piedade de Jesus abandonada pelo ma ido Je ônimo que se «ab asilei ou» e de sua ilha em igualmen e desc i o em de alhes... Essa eia na u alis a culmina no omance O c omo – es udos de empe amen o (1888), de Ho ácio de Ca alho, jamais eedi ado, que despe ou o in e esse de F anco Bap is a Sandanello. A jo em Es e de A aíde Pai a so e e í eis a aques de his e ia cujo ca alisado , Zé No a o, é o dono po uguês da loja de azendas e a ma inhos A Flo do Chiado onde a moça se depa ou com um c omo, numa es ampa de caixa de lenços. O esc i o e jo nalis a pe nambucano Joaquim Ma ia Ca nei o Vilela publicou em 1886, A empa edada da Rua No a que inspi ou uma no ela da Globo em 2014. Sayona a Ama al de Oli ei a examina nes e omance o compo amen o das pe sonagens po uguesas, as elações con li uosas en e icos e pob es e a hos ilidade dos b asilei os no me cado de abalho. No declínio (1898), omance do Visconde de Taunay que caiu no esquecimen o, Síl ia Ma ia Aze edo analisa a p esença po uguesa, numa época em que os imig an es lusi anos cons i uem o quin o da população ca ioca e mos a como impe a uma isão p econcei uosa e o an ilusi anismo. Dois au o es esquecidos pela his o iog a ia li e á ia – Lou enço da Sil a A aújo Amazonas e An ônio Dias F ei as – pe mi em a Ma ine e Luzia F ancisca de Souza pa a o p imei o e a Edua do 8 da C uz pa a o segundo, dois es udos sob e as elações coloniais. Simá (1857), omance his ó ico de Lou enço A aújo Amazonas, desc e e a Re olução de Caboquena, na egião amazônica; An ônio Dias F ei as, po uguês imig ado, o na-se esc i o no Rio de Janei o, onde publica A hon a de um caixei o e Amb osina (1879). Seguindo o modelo do omance his ó ico, o au o alo iza as pe sonagens po uguesas nesse B asil, país das opo unidades. O e cei o capí ulo, «Po ugueses e Po ugal na icção no ecen is a», dá oz a omancis as emininas mui as ezes exluídas dos egis os li e á ios. Comp eende ambém 11 ensaios elabo ados a pa i da lei u a de ob as de 6 esc i o as e de 5 au o es. Re isi amos assim Ana Ribei o de Goes Bi encou (1843-1930), Júlia Lopes de Almeida (1862-1934), Amélia de F ei as Be iláqua (1863-1946), Ma ia Cecília Monco o Bandei a de Melo Rebelo de Vasconcelos (1870-1948), sob o pseudônimo de Madame Ch ysan hème, Cla ice Lispec o (1920-1977), Luzilá Gonçal es Fe ei a (1936-) e en e os au o es, Xa ie Ma ques (1861-1942), Simões Lopes Ne o (1865-1916), Coelho Ne o (1864-1934), Jo ge Amado (1912-2001) e An ônio To es (1940-). Nancy Ri a Fe ei a Viei a se deb uça sob e a ob a da esc i o a baiana Ana Ribei o: seu li o de memó ias, Longos se ões do campo (só edi ado em 1992), os omances O anjo do pe dão (1883), Helena (1901) e Suzana, inédi o, esc i o na década de 20. Ela egis a as ensões en e po ugueses e b asilei os. Os po ugueses, a en u ei os ou deg edados, são is os como ilões c uéis, seden os de dinhei o. Anna Faed ich examina a p esença po uguesa nos úl imos qua o omances de Júlia Lopes de Almeida: Memó ias de Ma a, A alência, O unil do diabo e Pássa o on o. A au o a e a a uma época, ugindo dos clichês sob e os po ugueses, embo a mos ando a di e sidade dos pe is. Ana Ma ia Lisboa de Mello escolheu o omance Angús ia (1913) na olumosa ob a de Amélia de F ei as Be iláqua que, em 1930, po se mulhe , iu ecusada a sua en ada na Academia B asilei a de Le as. A na ado a cap a os ges os, os comen á ios: Alzi a i ia casa com um «po uguês es úpido» pa a e es abilidade inancei a. 15 não ha imas mas oan es, ou imão-se os e sos, e minando as duas ogaes ul imas delle semelhan es» (SILVA, 1789, ol.1: 320 e ol. 2: 120 e 355 espec i amen e). Na edição de 1813, no a de inição de omance oi ac escen ada: «no ellas, con os abulosos de amo es, os quaes começa ão em e sos em lingua omance, ou ulga , como o ão» (SILVA, 1813: 641). Romance é no ela, con o abuloso. No inal do século XIX, o G ande dicciona io po uguez ou Thesou o da lingua po ugueza, de D . F . Domingos Viei a, epe e, ipisis li- e is, a mesma explicação pa a o e mo « omance»: «no elas, con os abulosos de amo es, os quaes começa am em e so ou língua o- mance ou ulga » (VIEIRA, 1874: 327). A c e no que in o mam os dicioná ios, no ela, con o e omance e am equi alen es, endo odos ca á e abuloso, ou seja, dedica am- -se a «con a abulas, con os, successos men i osos dos empos das Fabulas do gen ilismo, ou semelhan es a esses, e pos e io es; in en a , e na a qualque his o ia, que não em a e dade po undamen o»5 (SILVA, 1813, ol. 2: 2). Sem p eocupação com ques ões o mais que pudessem p ecisa di e enças in e nas aos gêne os, o que de ini ia essa p odução se ia seu ca á e ic ício, ou seja, « ingido, abuloso». A designação é p ecá ia em á ios luga es do mundo. Mesmo no be ço do que conhecemos como omance mode no, a designação «no el» não é hegemônica, con i endo com o uso de « omance», « ale» e «s o y», além de ou as o mas menos comuns como «ch oni- cal», « able» e «nou ele e»6. Si a de exemplo, o p e ácio esc i o po Ma ia Edgewo h pa a Belinda: Todo au o em o di ei o de da o nome que acha adequado ao seu abalho. O público ambém em o di ei o de acei a ou ecusa a clas- si icação ap esen ada. 5 De inição p opos a pa a o e be e « abula ». 6 O le an amen o das designações a ibuídas a ob as de p osa iccional no século XIX oi ealizado po meio do banco de dados CiT Im (Ci culação T ansa lân ica dos Imp es- sos) no qual são cadas adas in o mações ela i as a ob as em ci culação en e Ingla e a, F ança, Po ugal e B asil no Oi ocen os. Na F ança, o uso do e mo « oman» é majo i á io, mas ambém se no a o emp ego de ou as designações, como «con e», « able», «ch onique» e «nou elle». Disponí el em h p://www.iel.unicamp.b /p oje os/ci culacao/login.php 16 O abalho a segui é o e ecido ao público como um Con o Mo al [Mo al ale] – a au o a não deseja econhecê-lo como um Romance [No el]. Se odos os omances [no els] ossem como os de Madame de C ousaz, de M s. Inchbald, de Miss Bu ney ou do D . Moo e, ela ado- a ia o nome de omance com delei e: Mas an a olice, e o e ício são disseminados em li os classi icados sob essa denominação, que se espe a que o desejo de assumi ou a designação seja a ibuído a sen imen os lou á eis e não a um cap icho7. [T adução minha] Assim como nos dicioná ios oi ocen is as, a e minologia é imp ecisa e a designação pa ece e pouco a e com aspec os o - mais, baseando-se, no caso de Edgewo h, em ques ões de mo alida- de – elemen o cen al nas e lexões sob e omances no século XIX, mas de pouca se en ia quando se a a de de ini um gêne o. A im de en a en ende os usos dos e mos emp egados pa a designa ob as de icção em p osa no século XIX, eco e ei a ês on es di e sas: a ecepção das na a i as (conside ando ex os c í i- cos, ob as de e ó ica e documen os de censu a), a come cialização (examinando ca álogos de li ei os e anúncios de li a ias) e a edição ( e i icando í ulos e sub í ulos das ob as). In e essa obse a como edi o es, au o es, li ei os e c í icos esc e e am, em po uguês, sob e as na a i as, independen emen e de elas e em ou não sido p o- duzidas o iginalmen e nessa língua. Meu obje i o é e i ica se, em alguma dessas on es, há um pad ão pa a a de inição da p osa de icção oi ocen is a. 7 No o iginal: E e y au ho has a igh o gi e wha appella ion he may hink p ope o his wo k. The public ha e also a igh o accep o e use he classi ica ion ha is p esen ed. The ollowing wo k is o e ed o he public as a Mo al Tale – he au ho no wishing o acknowledge a No el. We e all no els like hose o Madame de C ousaz, M s. Inchbald, Miss Bu ney, o D . Moo e, she would adop he name o no el wi h deligh : Bu so much olly, e o , and ice a e dissemina ed in books classed unde his denomina ion, ha i is hoped he wish o assume ano he i le will be a ibu ed o eelings ha a e laudable, and no as idious. (EDGEWORTH, 1821: III-IV). O ex o é pa e do p e ácio elabo ado em 1801 pa a a 1ª edição. 17 Recepção das na a i as Nos séculos XVIII e início do XIX, a e lexão c í ica sob e ob as de icção, p oduzida em po uguês, e a escassa em pe iódicos e li os, mas abundan e no in e io dos o ganismos de censu a, onde se euniam á ios homens de le as com o p opósi o não apenas de au o iza a ci culação de de e minados li os, mas ambém de dis- cu i sua qualidade li e á ia8. Há á ios casos in e essan es, mas, pa a o nosso p opósi- o aqui, bas a á olha o que acon eceu com a ami ação do li- o Os soli á ios de Mú cia pela censu a lusi ana. A his ó ia, da au o ia de Jean F ançois Ma mon el, oi o iginalmen e publica- da em ancês como um dos Nou eaux con es mo aux, em 1792, mas ecebeu á ias edições pos e io es como ob a au ônoma. Em 1802, José Luiz de Ca alho solici ou au o ização pa a publica a adução do «con o mo al» pa a o po uguês, azão pela qual seu manusc i o oi examinado em á ios ibunais censó ios. A ami ação jun o aos ó gãos de censu a e ela que os e mos «con o», «no ela» e « omance» podiam se in e cambiá eis. Ma- noel Co ea da Fonseca, censo do San o O ício, iniciou sua a a- liação in o mando que examinou «a No ella in i ulada = os So- li a ios de Mu cia =» e comen ou que o «c iminozo deli io dos dois Aman es, q’ igu aõ n’es e omance, me ece hum pa icula epa o». Apesa de suas c í icas, o T ibunal do San o O ício deci- diu ap o a «o Con o de que az menção es e eque imen o». Es a decisão, acompanhada do pa ece de Fonseca, oi encaminhada ao Desemba go do Paço, ó gão esponsá el pela censu a ligada ao po- de eal. Apesa das c í icas ei as pelo p imei o a aliado , o censo João Guilhe me Ch is iano Mülle elogiou a ob a, à qual se e e iu como «con o mo al», e ap o ou sua publicação9. 8 Pa a um es udo sob e os o ganismos de censu a como locais de deba e li e á io, e Má cia Ab eu 2008a; 2008b. 9 Documen o conse ado pelo A qui o Nacional da To e do Tombo, no undo Real Mesa Censó ia, Caixa 45, 1802 – se – 2. G i os meus. 18 Como es e pequeno exemplo mos a, não ha ia aco do quan o ao alo das ob as e, mui o menos, sob e sua designação, já que uma única na a i a, a aliada em um mesmo momen o e em um mesmo con ex o, pode ia se denominada como «con o», «con o mo al», «no ela» e « omance». Nas décadas seguin es, a u ilização dos e mos não se o nou mais consis en e. Conside ando 105 ex os c í icos p oduzidos em po uguês e publicados em pe iódicos na p imei a me ade do século XIX, pe cebe-se que 79 deles u ilizam uma única designação pa a e e i a ob a comen ada, com p e e ência pa a o e mo «no e- la». Nos ou os, oco e algo semelhan e ao que se passou nos o ga- nismos de censu a, em que di e en es designações o am usadas pa a e e i uma mesma ob a. As combinações são di e sas, com des aque pa a «no ela» e « omance» (10 ezes), « olhe im» e « omance» (6 e- zes), «con o» e «no ela» (5 ezes), «con o» e « omance» (5 ezes)10. Possi elmen e, os au o es desses ex os c í icos conco da iam com o comen á io ei o po ocasião do lançamen o do «A qui o Român ico», cuja p opos a e a publica uma coleção de ob as iccio- nais b asilei as. O eda o de endeu a opo unidade da publicação alegando que ha ia se desen ol ido «em nossos lei o es um excessi o gos o pela lei u a de omances, ou no ellas, o que alle o mesmo»11. Já F ancisco F ei e de Ca alho, um dos p incipais au o es de a ados de e ó ica e poé ica, ac edi a a que ha ia dis inções en- e no elas e omances his ó icos. Ele ese ou uma seção de suas bem-sucedidas Lições elemen a es de eloquência nacional (1856) pa a a a do ema. Ele ac edi a a que os e mos se dis inguiam pois, nas no elas, os assun os se iam «ex ahidos do simples undo da imaginação do au o , sem que elle enha elação algüa com o 10 In o mações ex aídas do banco de dados DLNo es2 – Digi al Lib a y No es – de- sen ol ido pelo Núcleo de Pesquisas em In o má ica, Li e a u a e Linguís ica (NUPI- LL) e pelo Labo a ó io de Pesquisas em Sis emas Dis ibuídos (LAPESD), ambos da Uni e sidade Fede al de San a Ca a ina. O DLNo es oi alimen ado com ex os c í icos ace ca da p osa de icção oi ocen is a po pesquisado es ligados ao p oje o Ci culação T ansa lân ica dos Imp essos. Ve Má cia Ab eu e Adiel Mi mann 2017a; 2017b. 11 «Ob as publicadas: A qui o Român ico B asilei o», Diá io do Rio de Janei o, 20/02/1847, p. 3. 19 que se em passado, ou se es á passando no mundo das ealidades» (CARVALHO, 1856: 295), enquan o os omances his ó icos de e- iam « e po undamen o um ou mais ac os consignados na His- o ia, echeados po em de ci cuns ancias e de acciden es ingidos» (CARVALHO, 1856: 295). Essa ênue dis inção (no elas são u o da imaginação; omances êm las o his ó ico) o na-se ainda mais ágil com o comen á io que se segue a essas de inições, no qual Ca alho a alia que a denominação « omance-his ó ico» «pa ece en ol e um con a-senso, ou uma con adição de pala as» (CARVALHO, 1856: 295), mos ando que ele não pe cebia g ande di e ença en e omance e no ela, pois ambos, segundo ele mesmo obse a a, eco e iam à imaginação. Pa a con a ia o e o , mui os inse iam os e mos «no ela his- ó ica», «con o his ó ico» ou a é mesmo «lenda his ó ica» nos í u- los de suas na a i as, es umando de ez a ênue de inição esboçada po F ei e de Ca alho. Bas a e que o Jo nal do Reci e, publicou, em 1875, no espaço do olhe im, uma «no ela his ó ica» e que, em 1882, oi publicado o li o Pala a de Cas ellano (Lenda his o ica), sem ala na já mencionada na a i a Anna de G enwill. Es e «con o his ó ico, 3 olumes» igu a em p imei o luga no «Ca álogo das no ellas e omances que se endem na loja de Paula B i o»12 o que deixa e iden e a inde inição. Come cialização das na a i as O li ei o Paula B i o não e a o único a ba alha os e mos. A obse ação de anúncios de ob as à enda e de ca álogos de li os disponí eis em li a ias pe mi e pe cebe que a classi icação apu ada não e a a maio p eocupação desses come cian es. Po exemplo, a loja de Campos Bellos e Po o anunciou, em 1821, que endia «his ó ias e no elas»13. T in a anos mais a de, 12 Ca álogo publicado em O G á is, n. 20. Quin a- ei a, 27 de junho de 1850. Disponí el em h p://memo ia.bn.b /DocReade /719676/37. G i os meus. 13 Diá io do Rio de Janei o, 10 de se emb o 1821. 20 o leiloei o Ca los Tanie e in o mou que leiloa ia «no ellas, omances»14. Já as amosas «Folhinhas Laemme », uma espécie de almanaque com in o mações e lei u as pa a o ano, o e eciam, em um olume com pouco menos de 200 páginas, «lindos con os, com uma g inalda de no elas e omances»15. Na década de 1870, a Li a- ia Ma ins, chama a a enção pa a a enda de «Romances, No ellas, e c»16, indis inção que pe du a a é o inal do século, como se ê no anúncio da casa de encade nação de Sa y o Ve çosa, no Cea á, onde e a possí el encon a «no ellas e omances» jun o a um a iado so - imen o de «linhas, pennas, in as, lapis, cane a, in a pa a ma ca oupa, ca ei a pa a algibei a». Den e odas as designações possí eis, duas se des acam no mundo dos anúncios, «no elas e omances», usadas de manei a ão gené ica como linhas e in as, como se ê no anúncio da loja de Sa y o Ve çosa. A menção a dois ou mais e mos (his ó ia, con o, no ela, omance) pode ia le a a supo que ha e ia alguma especi- icidade nes es p odu os, mas o a o de eles i em associados e sem qualque ou a especi icação le a a c e que os e mos e am in e - cambiá eis e en endidos como equi alen es. Os ca álogos o ganizados po li ei os pa a anuncia seu es o- que ampouco azem algum escla ecimen o pa a o p oblema das designações. Como bem obse ou Juliana Maia de Quei oz em seu es udo sob e um dos ca álogos publicados po Ga nie , na década de 1870, a p osa de icção ap esen a-se em seção dis in a daquela ese ada à Li e a u a, que aba ca a a poesia e os li os de c í ica li- e á ia (QUEIROZ, 2008). Analisando a seção in i ulada «Roman- ces, No ellas, Va iedades, E c», ela con abilizou a exis ência de 190 í ulos, ul apassando em mui o os 82 a olados na seção ese ada à Li e a u a. A sepa ação en e Li e a u a e «Romance e No ela» pode se de e an o à ainda p esen e des alo ização dos esc i os em p osa iccional, não conside ados dignos de se em en endidos como 14 Diá io do Rio de Janei o, 10 de agos o 1852. 15 Diá io do Rio de Janei o, 4 de ou ub o 1842. 16 Jo nal do Comme cio, 13 de agos o de 1873. 21 li e a u a, mas pode ambém e ela o in e esse come cial em des- aca a a ia mais a aen e pa a os clien es, com uma seção p óp ia, em que se eunia oda a icção em p osa. De qualque o ma, essa olumosa (e, possi elmen e, luc a i a) seção é ma cada pela inde i- nição, exp essa não somen e na jus aposição dos e mos « omance» e «no ela», mas, p incipalmen e, pelo e mo « a iedades» a que se ac esce um sin omá ico «e c». A mesma con usão es á p esen e em ca álogos elabo ados pelos li ei os Edua do e Hen ique Laemme , que p oduzi am b ochu as especí icas pa a anuncia «no elas, omances e his o ie as», às quais se jun a am as «comédias, d amas e en emezes», além de «ou as ob as de en e enimen o e ec eio» à enda em sua loja. Não bas- asse a inde inição dos e mos («no elas, omances e his o ie as»), os í ulos a olados o nam udo ainda mais obscu o. Os Laemme ap esen a am, já na p imei a página de seu ca álogo, um e dadei o po -pou i de e mos: Adelaide de Clin e «no ella o iginal», Adolpho «anecdo a allemã», Ad iana «his ó ia da Ma queza de B ian ille», além de O a ependimen o p emiado, «his o ia e dadei a». Edição das na a i as Au o es e edi o es não mos a am maio disce nimen o quando e am esponsá eis po de ini í ulos e sub í ulos pa a as na a i as. Em um ou o ca álogo, p oduzido pela Li a ia B. L. Ga - nie na década de 1870, há uma p eocupação de indica o gêne o a que pe ence iam as ob as. A essa al u a, ele e a o edi o de José de Alenca e não hesi ou em ad e i que A iu inha e Cinco mi- nu os são « omances», Ubi aja a e I acema são «lenda» ( upi e do Cea á, espec i amen e), enquan o O Gua ani e As minas de p a a são «episódios da his ó ia do B asil». Assim, b e es na a i as são quali icadas como omance, enquan o as a en u as de Pe i são clas- si icadas como ela os da his ó ia pá ia. José de Alenca não es a a sozinho quando decidiu designa I acema como «lenda», associando-a a uma localidade – «do Cea á». A mesma ideia i e am di e sos edi o es, que publica am adu- 22 ções de li os como As maldi as bo as, «lenda japonesa»; His ó ia dos se e mo cegos, «lenda á abe»; ou ainda Os amo es do bas a do, «lenda da Escócia». A associação de pa onímicos a designações de gêne os pa a o ma sub í ulos e a um p ocedimen o mui o comum, sendo ácil encon a as mais di e sas combinações: Colas, «Con o suisso», de Hen i Zschokke; Ma ga e ha. «Con o alemão»; As mil e uma noi es, «Con os á abes». Ha ia ambém «no elas» das mais a iadas nacio- nalidades: Ca los e Ma ia (no ela inglesa); Adelaide, No ela a icana; Ped o, no ela alemã; P incezinha (No ela eneziana). E omances de oda p ocedência: Os Pu i anos da Ame ica ou o Valle de Wish on- -Wish. Romance ame icano; O Hé cules P e o (Romance po uguês); Inglês e Chim (Romance das noi es inglesas). Não de e ia causa es- pan o, po an o, que omances b asilei os i essem sub í ulos desse ipo: O onco do ipê: omance b asilei o, de José de Alenca ; Ma abá – omance b asilei o, de Sal ado de Mendonça; Gab iela – omance b asilei o dos empos coloniais, de José Ma ia Velho da Sil a; ou ainda Angelina de Naza e h (Romance o iginal b asilei o), de M. A. da Sil a Junio . Nes a, como em ou as ma é ias, se nacional e a uma en- dência in e nacional17. O adje i o «his ó ico» ambém e a mui o equen e e podia acompanha odo ipo de designação de gêne o, ao con á io do que ac edi a a F ancisco F ei e de Ca alho. Assim, é possí el encon- a lendas his ó icas (como Pala a de Cas ellano, «lenda his ó ica»; G acia ou a Ch is ã do Japão «lenda his ó ica»), no elas his ó icas (Ma ia, a ilha de um jo nalei o. No ela his o ica e o iginal), con os his ó icos (como o já mencionado Anna G enwil. «Con o his ó ico do século de C omwel») e, ob iamen e, omances his ó icos, como D. Ma ia Telles de Menezes: omance his ó ico. Chama a a enção so- b e a dimensão his ó ica da na a i a, p o a elmen e e a o ma de en a a ai lei o es, na oga do omance his ó ico cujo expoen e oi Wal e Sco . 17 Segundo Anne-Ma ie Thiesse (2001), «nada pode se mais in e nacional do que a o mação das iden idades nacionais». T adução minha. 23 E a comum ambém e e i inalidades mo alizan es nos sub í- ulos, ecoando um dos g andes emas em deba e no XIX: o e ei o da lei u a sob e o compo amen o. Esse ipo de sub í ulo pa ece que e apazigua as p eocupações de lei o es e c í icos que, seguidamen e, denuncia am os pe igos do con a o com omances (ABREU, 2010). Assim, é possí el encon a sub í ulos como A Boa Mãe. Con o mo- al; O menino pe dido: omance ins uc i o, ci il, e c is ão pa a se - i de boa educação; A camponesa exal ada, ou a i ude pe seguida e co oada po si mesma: no ela mo al e ins u i a; Nossa Senho a dos Gua a apes ( omance his ó ico, desc i i o, mo al e c í ico); O A a en o ou os Má i es de Saumu ( omance ec ea i o e de mo alidade) Fo a do âmbi o mo al há combinações ainda menos p e isí- eis como O Pilo o. No ela ma i ima; A Salamand a. Romance ma- i imo; A 1002ª noi e (no ela an ás ica); Óculos da elha ou Len e ma a ilhosa: omance c í ico; A c uz e a olha, no ela popula ; René, omance sen imen al; O pe igo das paixões indisc e as. Con o alegó ico; Elyxi mis e ioso. Con o phan as ico; O doido. Con o neg o; His ó ia d’um allado (con o humo ís ico); Idyllio à ingleza: Con os mode nos; Gab iella en enenada ou a P o idência ( omance con empo âneo); A mo e mo al – omance inédi o; O amo de um anjo. Romance de cos umes; O pad e Esme a i ( omance mili a ); O casamen o de um comilão ( omance cômico); Os dep a ados. Romance de cos umes con- empo aneos. Em alguns casos, é ácil pe cebe que o sub í ulo e- me e ao ema (mili a , po exemplo), à ambien ação (ma í imo) ou ao en edo ( an ás ico). Mas, em ou os, a designação pa ece opaca, como em « omance c í ico», ou pouco p o ei osa, como em « o- mance inédi o». Pe cebe-se, assim, que a ca ego ização da p osa iccional e a bas an e dis in a da que emp egamos hoje. Po um lado, há uma indis inção en e con o, no ela, lenda, omance; e, po ou o, há um conjun o de subgêne os hoje in ei amen e igno ados. Di o de ou o modo, o que pa a nós é dis in o (con o x omance x no ela), pa a eles e a uno (a p osa iccional, cuja designação e a luída e in e cam- biá el); e o que pa a nós é uno ( omance, po exemplo), pa a eles e a dis in o ( omance mo al, omance ma í imo, omance c í ico e c.). 24 Conclusão Tendo em is a a al a de uni o midade das ob as e e idas como omance, a dispe são das designações e subca ego ias, bem como a ausência de consenso sob e o uso dos e mos, como en- en a o p oblema da de inição de um co pus de omances pa a o p oje o Po ugueses de Papel? Penso que não ha e á elemen os ex uais ou o mais que pe mi am seleciona algumas na a i as e exclui ou as. Assim, uma hipó ese se ia inclui a o alidade da p osa iccional oi ocen is a no conjun o de ob as conside adas, se- guindo suges ão de Sand a Vasconcelos, que aconselha denomina odas essas mani es ações como «p osa de icção». Segundo ela, Tal ez p osa de icção osse uma exp essão mais adequada pa a denomi- na e engloba a a iedade de publicações daqueles momen os iniciais que, es ampando í ulos como «A his ó ia de...», «As memó ias de...», «As a en u as de...», «A ida de...», pa eciam p e ende da alguma e ossimilhança aos ela os e o ná-los mais acei á eis pelo público lei o que coloca a sob suspei a udo o que con i esse um con eúdo iccional. […] A p óp ia ins abilidade do e mo «no el», que só i ia ixa -se na língua inglesa pa a denomina o omance já no inal do século XVIII, pode se mais um mo i o pa a usa mos a exp essão «p osa de icção» pa a nos e e i mos a mui as das p oduções des es momen os iniciais. (VASCONCELOS, 2002) O e mo «p osa de icção» e e i amen e elimina o p oblema da ins abilidade das designações emp egadas no século XIX, mas não ajuda na de inição de um co pus que o ne o p oje o exequí el, endo em is a o olume de pequenos ex os em p osa publicados nos inúme os pe iódicos que ci cula am no século XIX. Po isso, minha suges ão se ia segui a lição de Roge Cha ie (1990), em seu es udo sob e a li e a u a popula dos séculos XVII e XVIII. Pe cebendo que não ha ia qualque uni o midade em e mos de elabo ação ex ual, de público ou de au o es naquilo que se denomina a como biblio hèque bleue, ele p opôs uma de ini- ção baseada na ma e ialidade desses imp essos, en endidos po ele 31 Cinco imagens se des acam em ex os daqueles imig an es lusos no B asil do século XX: • Espe a: mig ação como empo à espe a de no as condições de o a a Po ugal; • Ma u ação: mig an es são idos como sujei os ao amadu ecimen o na no a e a; • Mi agem: mig ação como us ação da expec a i a com o não acúmulo da o una; • Alma di idida: mig an es se di idiam en e Po ugal e B asil, passado e p esen e; • Rein enção: mig ação sen ida como opo unidade pa a eno a a ida po in ei o. Essas imagens li e á ias es ão no oco das p óximas seções, que abo dam como a imig ação po uguesa no B asil do século XX oi e a ada po João Sa men o Pimen el (espe a), Fe ei a de Cas o (ma u ação ou mi agem), Miguel To ga (ma u ação ou alma di idi- da), Ru h Escoba ( ein enção) e Leono Xa ie ( ein enção). Essa sequência c onológica de au o es e suas imagens p opicia uma in- e essan e pe spec i a compa ada. Po im, e isa-se b e emen e al imaginá io da imig ação lusa no B asil do século XX. Mig ação como espe a em Memó ias do capi ão O esc i o João Sa men o Pimen el i eu seis décadas de seus quase 99 anos em São Paulo, de 1927 a é alece em 1987. A uou no le an e epublicano de 1910 ainda aluno da Escola do Exé ci o, lu ou em Angola e, na I Gue a Mundial, em Fland es. De endeu a República con a mona quis as do Po o em 1919 e oi capi ão a é se expulso do Exé ci o po ade i ao con agolpe malsucedido con- a a di adu a. Re ugiou-se na Galícia a é se exila no B asil, onde oi um dos c iado es do jo nal an issalaza is a Po ugal Democ á ico e da Casa de Po ugal de São Paulo. Pa e desse pe cu so es á em Memó ias do capi ão (1963, ed. b asilei a; 1974, ed. po uguesa, ac escida com uma segunda pa e). 32 A imig ação no B asil oi a ada após memó ias do e úgio na Galícia e ligada à expec a i a de jo ens idealis as como ele de não a da em a ol a a Po ugal. «Aqueles moços pensa am que a e olução não es a a pe dida, e que den o de pouco empo eg es- sa íamos a Po ugal com odas as hon as e di ei os» (PIMENTEL, 1974: 225-226). Com os con li os locais, não imaginou ol a logo após depo ações em massa e p isões. Na a essia a lân ica, em ma ço e ab il de 1927, no Highland Pipe , e iu amigo jo nalis a e polí ico e as eminiscências desde a in ância nu iam diálogos a é a chegada no Rio de Janei o. Planeja a espe a o im da di adu a pa a ol a a Po ugal a é que, em con e sa com o a iado Gago Cou inho, mudou seu olha sob e o exílio. Saudades mil da e a e da amília. E já íamos no nono mês daquela ida de u ismo ou de eino pa a anda ilhos, quando numa daquelas manhãs de sol que azem da Guanaba a o cená io ma a ilhoso duma luminosi- dade e co que mudam a água da baía em me al undido, o Almi an e, endo-me ex asiado dian e daquele espe áculo su p eenden e, me disse: – Es ás a caminha pa a ze o. […] – Nada disso, poe a. Eu es ou- e p e enindo, como ma emá ico que sou. Caminhas pa a ze o po que só gas as e não ganhas um in ém. E iden- emen e que acaba ás passando p i ações no dia em que esgo a es os úl imos ecu sos de que dispões. An es de chega es a esse ze o, ai dei- ando os olhos pa a uma possibilidade de ganha es o pão do exílio, pois ica es na dependência dos ou os, eu sei que é con á io ao eu ei io. (PIMENTEL, 1974: 227-228) Pa a não mais «caminha pa a ze o», buscou emp ego e, no Jo nal do Comme cio, encon ou aga de abalho no a mazém de um inglês. No inal da edição b asilei a (ou no décimo qua - o dos 40 capí ulos da edição po uguesa), lê-se o diálogo en e esses eu opeus sob e as condições de um a ende à demanda de abalho do ou o. Bas ou o a ibu o de sabe le e esc e e pa a se admi ido: «E naquela p óp ia ho a o nei a p incipia a minha ida de abalho, com a qual eduquei os ilhos e pude sus en a a minha casa num ní el ap oximado daquele que inha em Po ugal» 33 (PIMENTEL, 1974: 228). Na p e isão do memo ialis a, i ia een- con a em b e e a amília e a emig ação e ia sido p o isó ia. A expec a i a e a de a di adu a, mo i o de seu exílio, acaba logo e sua ol a se ap oxima . A ideia obcecada de ol a pa a Po ugal, não só o inibia de ambiciona uma si uação es á el no B asil, como o le a a a es abelece planos que conc e izassem essa p emen e on ade, e pensa nos enca gos e di icul- dades de uma no a a en u a, pois o eg esso implica a ambém a es au- ação da República. (PIMENTEL, 1974: 228) Em uma isi a a Po ugal em 1950, o pa io ismo e a sauda- de não o p i a am de «imp essões escla ecedo as de uma si uação que só não e e a sensibilidade de quan os igno am a dignidade de seu semelhan e o endida pela injus iça social e pelo egoísmo boçal e os ensi o dos icos, dos op esso es, dos alsos cle cs» (PIMENTEL, 1974: 368). Fixou-se de ez com a amília em São Paulo e a ol a à pá ia oi empo á ia, após a es au ação da democ acia em 1974 – ano da edição po uguesa. Nes a, João Sa men o Pimen el di ia que o caudal emig an e já não desagua a na cos a do B asil, op ando po ou os des inos. Sua linguagem, que ansi a en e his ó ia e li e a u a, ic- ção e documen o, sonho e ealidade, eminiscência e an asia ez Jo ge de Sena de ini o li o (p imei a edição) como «ob a magna de um g ande esc i o que há mui o se adi inha a nos seus dispe sos» (SENA, 1974: 16) e um caso de documen o his ó ico, memó ias p i adas, c iação a ís ica, igo do es ilo e «exemplo de idelidade aos ideais de independência de um po o, e de po uguesa dispe são pelo mundo» (SENA, 1974: 13). Nessa lei u a, a mig ação oi is a como uma espe a sem im à is a pa a pode e o na a Po ugal. A julga pelo im da edição de 1974, Pimen el deseja a um dia esc e e a e cei a pa e das memó ias – «Homens e documen os» – des acando b asilei os e lusos cujo abalho na cul u a ele admi ou de pe o. 34 Mig ação como ma u ação e mi agem em Emig an es e A sel a Au o de omances sociais, José Ma ia Fe ei a de Cas o (1898-1974) in eg ou a massa de po ugueses que emig ou no im do século XIX e início do XX. Após chega a Belém em 1911, aos 12 anos, e não encon a abalho no comé cio, oi abalha em um se ingal na Amazônia e ez da memó ia dos qua o anos na egião uma ma é ia-p ima pa a seus omances A sel a (1930), com a lo es- a como cená io, e Emig an es (1928). Fe ei a de Cas o an o ia a mig ação como sinal de ma u a- ção que a ibuiu sua ida ao amo não co espondido po uma moça mais elha e a seu desejo de se alo iza dian e dela e compensa al di e ença de idade. Eu que ia i . Um homem é um homem e eu, jus amen e po que ain- da não e a um homem, mais me empenha a em que e pa ecê-lo. [...] supo ei a p imei a hesi ação. [...] Eu pa ia pa a o desconhecido, pa a o abuloso, sem sabe quando ol a a, sem sabe a é se ol a ia (CASTRO, 2017b: 243). O desconhecido do ou o lado do A lân ico lhe e a on e de eceio e exci ação (« udo se ia inédi o») e o esc i o na ou e chega- do «sem sabe onde pô os b aços e onde pousa os olhos dian e das pessoas g andes – e mui o menos qual se ia o meu des ino» (CAS- TRO, 2017b: 246). O au o ab ia o omance a ibuindo-o, na in odução «Pó ico», ao desejo de a a da condição emig an e: «Os homens ansi- am do No e pa a o Sul, de Les e pa a Oes e, de país pa a país, em busca de pão e de um u u o melho » (CASTRO, 2017a: 15). O an i-he ói Manuel da Bouça inha mui o em comum com á ios con e âneos: la ado aspi an e a possui e as, se iu impelido a busca o una no B asil, mas i eu uma saga a essa à idealiza- ção o a co en e. Anal abe o, deixou a esposa e a ilha no ale do Caima e emig ou desejando e o na e comp a e as na izinhança, o nando-se pa ão. 35 No desemba que, a angús ia e a desc i a como um azio que unia expec a i a, al o oço e medo. A mig ação e a ada como mi- agem su ge no eencon o de Manuel com um emig an e de sua e a (Cip iano) que lhe con aindicou emig a em ca a que não chegou a empo. Ele chocou-se ao ou i do ou o que quase não se ganha pa a i e . – Mas lá na e a odos e dão po es abelecido... Cip iano co ou ligei amen e: – Isso ui eu que mandei dize ... Todos nós mandamos dize que es amos aqui mui o bem, que é pa a a nossa amília não se a ligi e pa a não a- ze mos má igu a jun o dos conhecidos… – En ão, a casa onde es ás?... – É do senho Fe nandes, aquele homem que o senho Manuel lá iu. E eu ainda enho a so e de es a emp egado. Mas há an os po aí à boa ida! Passam meses e meses sem a anja abalho... (CASTRO, 2017a: 104) O descompasso en e a mig ação eal e a idealizada oi omi ido na p imei a ca a à amília, em que ele dizia es a mui o con en e. Emp egou-se em azenda e seu salá io paga a ca o po ede e u en- sílios domés icos usados, di icul ando poupa . A inal, onde es a a odo esse dinhei o que ele não o ia, nem pa a si, nem pa a os i alianos, nem pa a os b asilei os que abalha am de sol a sol? O que ele enxe ga a e a mui a ambição e mui os pob es, como em Po ugal, como em oda a pa e (CASTRO, 2017a: 154). Na segunda das duas pa es de Emig an es, a imagem da de- silusão subs i ui de ez a da ma u ação, mais legí el no pos ácio au obiog á ico. Come ciá io em São Paulo, Manuel lamen a ia que a desg aça de não acumula iqueza a e asse mais gen e. E se ama - gu a a. A iu ez o ez cogi a não ol a a Po ugal, onde a ilha lhe de a um gen o indesejado e onde não que ia se is o como um e o nado que não en iqueceu no B asil. Quando eclodiu uma e olução, alegadamen e con a a co - upção, Manuel oi ins ado a se posiciona e decla ou não e nada com aquilo po se po uguês e não e emig ado pa a se me e em 36 con usão. Sua p esença na cena do con li o guinou a ama, pois, ao e o co po de um mani es an e ao chão, ecolheu seus anéis de ou o e o elógio. Decidiu u a após hesi a po lhe pe mi i paga logo a ol a ao país na al, e não dali a dois anos, con o me planejou. P es es a ol a , apiedou-se de emig an es desemba cados. «Aqueles diabos imagina am que pa a se en iquece bas a a i po aí o a, com ga- nas de abalha . Ele ambém pensa a assim, mas depois é que i a» (CASTRO, 2017a: 206). De ol a à aldeia, Manuel ocul ou seu in o únio no B asil da ilha, amigos e conhecidos, que o imagina am ico e igno a am o modo como log ou e o na . «P e e ia udo a subme e -se ao exame de expo ali a sua des en u a – ali onde os homens se sen iam dimi- nuídos se eg essa am pob es do B asil» (CASTRO, 2017a: 232). Tal p e e ência o ez, após conhece o ne o e o gen o e se lamu ia po não pode paga a co a à mulhe , ugi de no o da e a de o i- gem – des a ez pa a Lisboa, onde se julgou poupado de um exa- me de ido ao anonima o. Po e nu ido a mi agem do ou o an o empo, sen iu a desilusão. Em A sel a (1930), a disposição do esc i o a uma li e a u- a engajada se e elou desde o cu o «Pó ico», onde indicou o li o como um egis o da « emenda caminhada dos dese dados a a és dos séculos, em busca de pão e de jus iça» (CASTRO, 1972: 21). Tendo i ido no e anos na Amazônia, epu ou a ob a como débi o com desb a ado es como ele, que abalhou en e cea enses e ma anhenses num se ingal. «Se é e dade que nes e omance a in iga an as ezes se a as a da minha ida, não é me- nos e dadei o ambém que a icção se ece sob e um undo i ido d ama icamen e pelo seu au o », no ou em «Pequena his ó ia de A sel a» (CASTRO, 1972: 27). Mais aduzido omance de língua po uguesa de seu empo, A sel a oi saudado como um clássi- co, uma eap oximação de B asil e Po ugal pelo p e aciado Jo ge Amado: «são esses homens [como Cas o], indos de Po ugal e aqui azendo-se b asilei os aman íssimos, os mes es da amizade luso-b asilei a, aqueles que es abelecem os laços de comp eensão e amo » (AMADO, 1972: 18). 37 Na ama, Albe o se exila pelos ideais an i epublicanos e, aos 26 anos, se ixa num se ingal nos con ins da lo es a. De ido ao al o alo da bo acha, «e a, en ão, a Amazônia um ímã na e a b asilei a e pa a ela con e giam copiosas ambições dos qua o pon os ca - deais, po que a iqueza se ap esen a a de ácil posse, desde que a au- dácia se an epusesse aos esc úpulos» (CASTRO, 1972: 41). Saído de Belém num «cu al lu uan e» (CASTRO, 1972: 55), se o nou se inguei o após paga mil éis pa a emba ca a é o Rio Madei a, quase p e e ido po cea enses pelo aliciado . Ci a-se a oca da imi- g ação po uguesa na Amazônia u al, isando à explo ação e de esa e i o ial, pelas cidades. Menos p esen e do que em Emig an es, a mig ação su ge como s a us na menção à o una inda da bo acha – « o a assim que seu io en iquece a e inha já duas quin as em Po ugal» (CASTRO, 1972: 41) – e ao bem-sucedido comendado po uguês. Mais do que os po ugueses, A sel a ocou a mig ação de no des inos que na Amazônia ugiam da seca. Mig ação como ma u ação e alma di idida em A c iação do mundo e T aço de união T abalhado na azenda do io em Leopoldina (MG) en e 1920 e 1925, Miguel To ga (pseudônimo de Adol o Co eia da Rocha, 1907-1995) ol ou a Po ugal, o nou-se médico e a ou da mig ação no omance au obiog á ico A c iação do mundo (1937) e nos ensaios de T aço de união: emas po ugueses e b asilei os (1955). Na pa e in i ulada «O segundo dia» de A c iação do mundo, o na - ado chega a à « e a onde es a a a minha elicidade» ou «o B asil que me ia en iquece como a oda a gen e» (TORGA, 1996: 92), conhecia espécies como inhame, jaca andá e ucano e concluía que «nada do que ap ende a em Aga ez [ e a na al] me se ia ali. Nem os ninhos e am iguais» (TORGA, 1996: 92). O na ado , de aco do com Do a Ma ia Nunes Gago, é um adul o que dá oz à c iança que oi e pa a quem «a emig ação assume-se como expe iência de amadu ecimen o, de con ac o com um espaço no o, 38 di e en e, ma cado pela du eza da ida e, simul aneamen e, pela descobe a» (GAGO, 2008: 219). O país não e a esponsabilizado pelos e ezes na es ada. O p o agonis a oi disc iminado como imig an e e, em me- nino, iu o ensas como algo canino: «Não azia mal que lad asse. Con an o que não se a e esse a can a ao pé de mim que 'As des- g aças do B asil / e am duas, ago a são ês: / A o miga cabeçuda, / o i aliano e o po uguês', não azia mal que espumasse peçonha na i is a» (TORGA, 1996: 152). Após cinco anos e a enda da azenda do io, o p o agonis a ol a ia pa a seu país. Seu eg esso ao B asil, pa a um cong esso de esc i o es em São Paulo em 1954, ge ou con e ências e discu sos na cidade e no Rio, além do echo de «O sex o dia» que ci ou a ma ca do país nele: Nenhuma imp essão de ou o a se pe de a. Cada es ímulo apenas azia à memó ia en o pecida a espos a já dada na p imei a ho a. O B asil a- ua a-se ealmen e na minha alma como uma in a indelé el. A longa au- sência não lhe desbo a a seque o b ilho o iginal (TORGA, 1996: 596). Eis a mig ação ela ada como ma u ação. Ao i e ol a de São Paulo, To ga e e seu nome e ado pela censu a na lis a de passagei os do na io publicada em jo nais (TORGA, 1996). No e en o pa a esc i o es, em éplica ao sociólo- go Roge Bas ide, ad ogou que juízos sob e as Amé icas e a Eu o- pa não pa issem só de dados li e á ios; duas i ências se soma am no seu caso: a in elec ual e de ex-imig an e, «in il ada no sangue» (TORGA, 2016: 40). No ou que lusos sonha am com o No o Mundo e iaja am a é ele, ao con á io de ou os eu opeus, com sonho nunca conc e izado. Ele alo iza a o emig an e dispos o a pisa e apalpa a e a. To ga di ia e p ocu ação pa a ala po emig an es, pois de- semba cou no B asil após e descobe o um ma «in e miná el» e o na io pa ecendo «p esídio de gale ianos». A e a na i a lá con inua a ainda a acena . Mas a alma dele ia-se di idin- do, epa ida en e o passado e o p esen e, escanchada sob e o oceano. 39 O No o Mundo e a ago a uma no a pá ia embu ida nos sen idos. Nada de aciocinado, de cons uído, de olun á io. Assimilação, apenas. Im- p egnação indelé el de a uagem. (TORGA, 2016: 39-40) Despon a a a imagem de uma alma di idida en e passado e p esen e, Po ugal e B asil, e omada adian e. A é en ão, To ga inha compa ado a mig ação com uma acina que deixa ma ca na pele mesmo após a imunização e enal ecia sua ida não apenas in elec ual na Amé ica – i ência de quem se inco po ou nela, não só a pensou, e que, e o nado, in luenciou com ideias e hábi os a Eu opa e os olha es sob e o No o Mundo. O esc i o alegou se exp essa ali como an igo emig an e que i eu cinco anos de «con adi ó ias sensações»; no início, pela na u- eza hos il e a i os humanos e sociais; depois, sen iu a nos algia da exube ância na e a na al, ao con a a elhos companhei os. A imagem da alma di idida e e ou os e mos: «dualismo in e io mo i ica-me o co ação» e «esse desní el in e io , esse de- sequilíb io do espí i o» (TORGA, 2016: 89 e 91). Esse dualismo, que mis u a a U sa Maio ao C uzei o do Sul, lo es do ipê e do osmaninho, águas do Doi o e do Pa aíba, azia do imig an e, em sua lei u a, alguém insegu o e ulne á el. E con i em na mesma ca caça dois se es opos os. Um, eu opeu, de medidas g eco-la inas; ou o, ame icano, aná quico e ansbo dan e. E nenhum ence o ad e sá io, iun a de ini i amen e do incómodo companhei o. Caminham ambos a pa , negando cada qual o izinho (TORGA, 2016: 89). A seu e , emig an es se iam a u ados como c is ais ompidos po um golpe de en o c uel. A di isão da alma a e a a é a aliações mo ais das pessoas – condição a que To ga a ibuiu o silêncio li e á- io sob e emig an es. Se emig an e é se condenado a uma excepção biológica. É ecebe da ida a ma ca indelé el da pe manen e inquie ação. Enquan o que os ou os mo ais são como a bus os humanos plan ados no chão onde nas- ce am, que o en o da excomunhão não a anca e o impe a i o da ome não anspo a, o emig an e em asas em ez de amos, que não ac eiam 40 apenas o espaço limi ado pelo pe il da copa, mas oda a imensidade possí el. E is o sepa a-os i emedia elmen e. De um lado, os gale ianos elizes da quie ude; do ou o, os con abandis as da linha equa o ial da ida, e e nos in elizes de passapo e na mão. (TORGA, 2016: 98) To ga concluía enal ecendo emig an es, ca ac e izados como inquie os ocupando espaços sem im, po isso, ca ece iam da elici- dade da quie ude dos ou os. Com al elogio que ela i iza a elici- dade disponí el ao emig an e, deu ainda mais ma gem à lei u a da sob eposição en e as imagens da ma u ação e alma di idida desc i- as a é aqui. Mig ação como ein enção em Ma ia Ru h A a iz e p odu o a cul u al Ru h Escoba (1935-2017) nasceu e i eu no Po o a é os 16 anos, quando sua mãe e ela, nascida de uma elação ex aconjugal do pai, se muda- am pa a São Paulo em busca de u u o melho o a de Po - ugal. Na au obiog a ia Ma ia Ru h (1987), abo dou a e/imi- g ação quando ainda e a expec a i a e após i ê-la. Da e apa an e io , ci ou o desc édi o a essa p e ensão na oz da p o es- so a de inglês, que não gos a a dela po in e ompe a aula com desmaios encenados: «pois sim, no dia em que ol a D. Sebas ião» (ESCOBAR, 1987: 29). A emig ação e a is a como uma possibilidade ão emo a que a a iz eco da ia mais de ês décadas e meia depois: «emig a pa a a Amé ica ou pa a o B asil e a epe i a açanha dos na egado es no século XX» (ESCOBAR, 1987: 29). A pa ida ge ou nela um mis o en e do e exci ação: Quando emba quei pa a o B asil no Se pa Pin o, com minha mãe, le a a ambém a ce eza de um des ino, pois sen i que udo quando sucede a em minha ida, mesmo an es do nascimen o, es a a moldado po uma o ça uni e sal, cósmica, anscenden e. A cena do adeus no cais do po o oi digna de qualque ilme de Lana Tu ne , eco de mundial de lág imas. Minha mãe se debulha a ao meu lado. Meu pad as o, pela p imei a ez, inha os olhos e melhos de cho- 47 SENA, Jo ge de (1974) – «P e ácio». In PIMENTEL, João Sa men o, Memó ias do capi ão. Po o: Edi o ial Ino a, p. 11-16. TORGA, Miguel (1996) – A c iação do mundo. 2ª ed. Rio de Janei o: No a F on ei a. TORGA, Miguel (2016) – T aço de união: emas po ugueses e b asilei- os. Lisboa: Glacia . XAVIER, Leono (1980) – A mos e as. Rio de Janei o: Nó dica. XAVIER, Leono (2018) – Casas con adas. Al agide: Bis. 49 Po ugueses e Po ugal na i cção oi ocen is a José Edua do F anco / Vanda Figuei edo Ma ine e Luzia F ancisca de Souza Ma ia Apa ecida Ribei o Hélio de Seixas Guima ães Edua do da C uz And eia Al es Mon ei o de Cas o Ca los Paulo Pe ei o Sayona a Ama al de Oli ei a Angela Ma ia Rod igues Lagua dia F anco Bap is a Sandanello Sil ia Ma ia Aze edo 51 Um po uguês/b asilei o en e dois mundos: o Pad e An ónio Viei a, pe sonagem da icção em p osa do B asil1 José Edua do F anco2 Vanda Figuei edo3 A li e a u a é um jogo combina ó io que explo a as possibili- dades implíci as no seu p óp io ma e ial [...] mas é um jogo que em ce a al u a se e es e de um signi icado inespe ado, um signi icado que não es á pa en e no plano linguís ico [...], mas que se in oduziu a pa i de ou o ní el, a i ando algo que nesse segundo ní el é mui o impo an e pa a o au o e pa a a sociedade em que ele i e. I alo Cal ino A esc i u a enquan o supo e de memó ia, memó ia a qui- ada, mani es a sob e udo a dimensão es emunhal do docu- men o. [...] Cada ex o anspo a consigo a his ó ia da sua p óp ia his ó ia con li ual de eceção. José Augus o Mou ão O campo da c iação li e á ia é ecundo no p ocesso de c is aliza- ção das imagens do passado, não só no plano da a aliação, mas ambém no plano da e idenciação de pe spe i as de comp eensão, condiciona- das po in e esses que mo i am escolhas pa a ilumina o p esen e da esc i a cons uído pelo c iado . A eceção de igu as e de acon ecimen- os his ó icos em na c iação li e á ia uma especial e mui o pe inen e ele ância pa a o es udo da o ma como o passado é econs uído. 1 Es e a igo e oma a comunicação ap esen ada na III Con e ência In e nacional Po ugueses de Papel (Uni e si y o Colo ado, Boulde , se . 2018), adap ada e ape ei- çoada ambém em pesquisas e análises publicadas nou os luga es, ais como as e is as B o é ia e Fénix (c . Bibliog a ia). 2 Cá ed a CIPSH de Es udos Globais, da Uni e sidade Abe a; CLEPUL. 3 Cen o de Es udos Humanís icos da Uni e sidade do Minho; Cá ed a CIPSH de Es udos Globais, da Uni e sidade Abe a. 52 Sabendo que a eceção ope a uma ans igu ação, a eceção li- e á ia cons i ui-se como um e eno pa icula men e é il pa a esse e ei o. Sendo a li e a u a o luga onde o humano se dá plenamen e pelo pode pe o ma i o e ans igu ado da linguagem, as igu- as his ó icas o nam-se pe sonagens, ganhando uma no a ida e no as i ualidades, com ins es é icos ou de comba e ideológico e dou iná io, ou simplesmen e com a unção pedagógica de eme- mo a e de a ualiza uma boa ou má memó ia. Daí a pe spe i ação lapida de José Augus o Mou ão, segundo a qual «a li e a u a em po unção essencial aze memó ia, es emunhas, c ia mundos, ala daquilo que não se pode dize , nem que seja com o ecu so do eu emismo. A li e a u a é o melho es emunho, o mais as- o espaço da memó ia e o melho emédio pa a o esquecimen o» (MOURÃO, 2017: 428)4. Po conseguin e, a c iação é um exe cí- cio de econs ução, de ans igu ação, mas igualmen e de ins au- ação de signi icados. A icção li e á ia su ge da imaginação dos ma e iais eais em que se inspi a, ou seja, i e da imaginação sob e o eal em un- ção do ideal que cons ói. É, no undo, a idealização do possí el e do impossí el, mas semp e a pa i do possí el expe imen ado. Daí que, no exe cício he menêu ico das ob as, de a conside a - -se o con ex o, as ci cuns âncias cul u ais, o pa imónio iden i á- io do au o , bem como os alo es que p o essa e o seu p og ama de ida indi idual e social, os quais, po ezes, pe mi em o na anslúcidas pala as e ases, ex aindo-lhes os sen idos segundos, maquilhados pela sua inocência cono a i a. Assim, se é ce o que a li e a u a b o a da o ça da imaginação, e undindo o passado, ans o mando o p esen e e an ecipando u u os, ambém de e mui o ao que podemos chama a ideologia do c iado , que englo- ba a sua cosmo idência, deco en e das suas con icções p o undas (ISER, 2000: 14). No quad o des e abalho de Penélope que é a li e a u a, há ac os, acon ecimen os e igu as his ó icas que se o nam mais 4 Ve ambém I alo Cal ino (1995: 354). 53 a a i os ou mais popula es pa a po oa em o uni e so da icção. O pad e An ónio Viei a é uma dessas igu as, pe sonagem eco - en e, p incipal ou secundá ia, de mui as ob as b asilei as e po u- guesas5. Que a is as de nomeada e de p imei a linha, que a is as menos conhecidos, de um modo ou de ou o azem apa ece Viei a em campos de c iação, não só na poesia, na p osa e na d ama u gia, mas ambém na pin u a, no cinema, na música e na his o iog a ia. Viei a é ão popula como o o am Nun’Ál a es Pe ei a, In an e Dom Hen ique, Camões, Dom Sebas ião, ou como as ba alhas de Ou ique e de Aljuba o a, a chegada à Índia, a desilusão de Alcáce - -Quibi , a Res au ação, ou episódios como o de Inês de Cas o ou de So o Ma ia da Visi ação. Desde Machado de Assis a Nélida Piñon, desde Fe nando Pessoa a José Sa amago, An ónio Viei a ma ca p esença em á ios esc i os, consubs anciando-se o enómeno da a ação e comunhão dos g an- des au o es que dialogam ans empo almen e na casa comum que é a li e a u a. Disso mesmo é signi ica i o o ascínio que um au o insuspei o como Sa amago inha po Viei a. Além de o elogia como poucos e de le os seus ex os como uma escola da língua po uguesa, José Sa amago planea a, an es de mo e , dedica -se à esc i a de um omance biog á ico sob e es e céleb e jesuí a. O pe cu so biog á ico, as causas e a o iginalidade do pensamen- o p ecu so do pad e An ónio Viei a, na sua ida longa que a a essa odas as décadas do o men oso século XVII (1608-1697), o nam- -no, com e ei o, uma pe sonagem inspi ado a e suges i a, que como p o agonis a de um en edo bem- alhado eple o de in igas e de d a- mas, que como in e enien e com um papel signi ica i o no cu so na a i o. Aliás, a g andeza de Viei a jun a-se à de ou as igu as que o seu século deu, como poucos, à humanidade, con o me esc e e Anne- -Lau e Angoul en , em L’esp i ba oque: 5 Além dos que amos analisa , podemos, apenas ilus a i amen e, lemb a alguns au o- es e í ulos que azem de Viei a uma pe sonagem: João And ade Co o, Um ano na Co e (1850); Pinhei o Chagas, A másca a e melha (1873) e O ju amen o da duquesa (1873); Má io Domingues, O d ama e a gló ia de Pad e An ónio Viei a (1952); Seoma a da Veiga Fe ei a, An ónio Viei a. O ogo e a osa (2008); Miguel Real, O sal da e a (2008). 54 Po isso, a g ande o ça do ba oco eside numa concen ação no á el de g andes espí i os. O p incípio do século XVII é, sem dú ida, o úl imo g ande momen o da his ó ia indi idual da humanidade em que os mes- mos homens comp eendem e ap eendem odas as g andes disciplinas. Com e ei o, eles podem, se não domina odos os conhecimen os, pelo menos comp eende -lhes o uncionamen o. Um au o pode, ao mes- mo empo, domina , a a és do conhecimen o do g ego, do la im, do pensamen o judaico e pelo que pode conhece do pensamen o á abe, as línguas que são eicula es do pensamen o ociden al (com algumas in luências á abes). Es e mesmo au o possui, po an o, os ins umen os linguís icos de ap eensão das es u u as in e p e a i as do homem e do uni e so. (ANGOULVENT, 1996: 12) An es de en a mos p op iamen e no abalho analí ico dos ex os li e á ios escolhidos, impo a da con a dos g andes aços da biog a ia de Viei a e p oblema iza o p ocesso complexo das pe ceções e da lei u a da sua ação eligiosa e polí ica, assim como sublinha o ac o de es e p egado maio do ba oco luso-b asilei o se e o nado, ele p óp io, um pa adoxo in e p e a i o ma cado, na sua eceção, po um e dadei o con li o de in e p e ações que se es endeu desde o seu empo a é ao século XX6. De algum modo, Viei a enca na plenamen e aquilo que é, em g ande medida, a pe - ceção an opológica da cul u a ba oca, ma cada pelo pa adoxo e pelo excesso das paixões e das con adições, como conside a uma das suas g andes especialis as: o ba oco ca ac e iza-se po uma sensibilidade às paixões, em odas as suas o mas, e mesmo uma sensualidade das paixões a ep esen a po in e médio da ou das elações de o ça que exe cem no caso da ligação passional, a p oblemá ica da a ação, que seja humana (pessoal), ou uni e sal ( e es e e/ou celes e). (ANGOULVENT, 1996: 15) An ónio Viei a nasceu em Po ugal, na cidade de Lisboa, ao lado da Sé, mas cedo ogou pa a a Bahia, o mando-se no Colégio 6 Sob e a eo ia da eceção nes e sen ido, eja-se Richa d E. Palme (2006: 20); e Paul Ricoeu (2009). 55 dos Jesuí as daquela en ão capi al de Te as de Ve a C uz, como Pad e da Companhia de Jesus. Vi eu mais de me ade da sua ida no B asil, onde a uou como p o esso , missioná io e líde de expe- dições missioná ias e de cons ução de edes de aldeamen os pa a e angeliza e educa os ame índios. Ou a pa e da sua ca ei a, que lhe deu mui a no o iedade, ê-la na co e po uguesa, como p ega- do eal e diploma a na Eu opa, ao se iço do ei D. João IV, no quad o do es o ço pa a ob e o econhecimen o da es au ação da independência po uguesa en e a Espanha, a pa i da década de 40 do século XVII. Al e nou e complemen ou, pois, o seu abalho eligioso (de missioná io, con esso e p egado ) com o cump imen- o de unções polí icas. Viajou di e sas ezes en e dois mundos, o elho con inen e eu opeu e o chamado No o Mundo. Expe imen ou, como pou- cos, a ida em si uações ex emas e ex emamen e opos as: an o calco eou os co edo es dos palácios mais luxuosos das co es eu- opeias, como i eu com os ame índios na sel a amazónica, em condições inóspi as pa a alguém não nascido em meio sel agem (c . FRANCO, 2009). Con i eu e e e amigos e simpa izan es que en e os po os indígenas b asilei os, que en e memb os das al as eli es eu opeias e dos mais di e sos se o es da sociedade, en e os quais se des acam eis e ainhas, p íncipes e p incesas, pad es e bispos, na egado es, go e nado es, come cian es e co sá ios. Conside ado genial pelos seus admi ado es e amigos, que o ap ecia am com quase de oção, o seu ca á e ogoso e on almen e c í ico ela i amen e às injus iças e ao que exigia e o ma e melho- amen o social e polí ico, ale am-lhe a mul iplicação de di e sos inimigos, que não deixa am de o incomoda se iamen e, e a é de pô em causa a sua p óp ia ida. Assim sendo, Viei a é uma daque- las g andes igu as da cul u a po uguesa que, em i ude da o ça, do signi icado e do choque c í ico que a sua ação e ideias ep esen- a am, p o ocou co en es de lei u a di e gen es e mesmo an agó- nicas, nas quais apenas coincide o econhecimen o do seu alen o: pa a uns uma bênção, pa a Po ugal e pa a a Ig eja; pa a ou os um «génio demoníaco», ebelde e pe igoso. 56 Os admi ado es conco e am com os de a o es na ap eciação do papel e do alo da ob a de Viei a. Empenha am-se em publi- ca , de ende e di ulga os esc i os e a sua boa ama, con ando-se seguido es dedicados den o e o a da sua O dem. Rela i amen e a c í icos e ad e sá ios a i os, eng ossa am uma co en e que e e o seu apogeu no empo do Ma quês de Pombal e du an e o an i- jesuí ico século XIX. A essa co en e c í ica podemos chama an- i iei ismo, pela dimensão polémica e pela p odução de uma ima- gem nega i a, e pelo om dou iná io do julgamen o de Viei a, enquad ado numa a aliação nega i a mais ab angen e do seu pa- pel associado ao dos Jesuí as no seu odo. O an i iei ismo já inha ido uma exp essão conside á el du- an e a ida des e jesuí a, que pela en a i a de limi a a sua ação, que pela c í ica e condenação das suas ideias e do seu pensamen o sob e o p esen e e u u o de Po ugal, na elação com a sua eologia da his ó ia de ma iz c is ã. Iden i icamos na segunda me ade do sé- culo XVII, que co esponde à ase em que ganha ama como p ega- do ao se iço do ei D. João IV, a eme gência de um an i iei ismo ísico e polí ico e, pos e io men e, eológico- eligioso. Desde logo, egis a-se o an i iei ismo in e no à p óp ia Companhia de Jesus, que começa pela aposição e c í ica de alguns con ades ao seu modo de es a , pensa e a ua poli icamen e, ma e ializado na p imei a de- núncia à Inquisição, em 1649, po um con ade seu. Além disso, impo a des aca as c í icas de memb os de ou as o dens eligiosas e a é a de So o Joana da C uz a uma ese eológica ap esen ada num se mão. De ac o, a elação com o uni e so eminino ambém oi al o de mo a e de ap eciações in undadas. Depois eio o século XVIII, o da c í ica iluminis a à Com- panhia de Jesus, que edundou na sua expulsão e ex inção. Nes e domínio, Pombal e e um papel undamen al e undan e de uma isão o nada ma iz pa a o mo imen o an ijesuí ico. Viei a oi des- acado pelo es o ço da p opaganda an ijesuí ica pombalina, desde logo naquela que podemos conside a a Bíblia do an ijesui ismo, a Deducão c onológica e analí ica, e no compêndio documen al, de se e olumes, mandados o ganiza pelo p imei o-minis o de 63 do , como o comp o am as suas a i mações: «O que o B aço de P a a que é a mim. Sou eu quem o ameaça» (MIRANDA, 1989: 151). Apesa de conscien e des a pe seguição e da en a i a pa a o de o a , e de se sen i incapaz, como exp essa, de «con ence a um go e nado colonial de meio b aço sob e a inu ilidade de seu ódio» (MIRANDA, 1989: 152), de ido, essencialmen e, ao seu aba imen- o e cansaço, An ónio Viei a diz: «Já que a gue a começou, a a ei mais uma ba alha» (MIRANDA, 1989: 152). Na e dade, o amo pela amília az o pad e jesuí a empenha -se a incadamen e na sua p o eção e de esa, ado ando, pa a isso, uma «posição conciliado a» (MIRANDA, 1989: 19) e paci icado a. Es a a i ude deno a, eal- çando-os, o ca á e humano, p o e o e ole an e de Viei a, bem como a sua a gúcia e in eligência, em nome da lu a «pelas suas ideias de jus iça e e dade» (MIRANDA, 1989: 341). Es e modo de se e de agi é igualmen e pos o em e idência em Manuel de Mo aes – C ônica do século XVII, nomeadamen e pela e e- ência ao en ol imen o e ao empenho de An ónio Viei a (emissá io e agen e diplomá ico po uguês em Haia) no p ocesso de econ e são do p o agonis a Manuel de Mo aes à eligião ca ólica e no seu consequen e eg esso à o dem eligiosa inaciana (depois de es e jesuí a e abandona- do a Companhia de Jesus e de, po amo , se e con e ido ao p o es an- ismo). Pa a isso, Viei a dedica-se à delineação de uma es a égia: além de aconselha Manuel de Mo aes a esc e e uma His ó ia da Amé ica Po uguesa, p epa a, ele p óp io, ca as de ecomendação des inadas ao «p o incial dos Jesuí as em Po ugal, [a] alguns uncioná ios impo an- es e idalgos dis in os em Lisboa, e pa icula men e [a] Dom F ancisco Manuel de Melo» (SILVA, 1866: 22812), missi as pa a o p o agonis a en ega aquando da sua chegada a Lisboa, endo em is a a sensibili- zação dos des ina á ios e a consequen e admissão de Mo aes na Com- panhia, bem como a ob enção do pe dão eal. Ainda que os obje i os não enham sido alcançados, es e episódio e idencia a pe spicácia, a sensibilidade e a dedicação de Viei a – designadamen e po e com- p eendido a since idade do a ependimen o e o desejo de econ e - são de Manuel de Mo aes, endo decidido auxiliá-lo –, assim como a 12 G a ia a ualizada. 64 sua agudeza de espí i o e capacidade es a égica. Deno ando, uma ez mais, a en ega e de oção plenas, o e dadei o amo ao p óximo. Es a é apenas uma de en e as á ias ace as de An ónio Viei a sob ele adas nas ob as em análise, o que deno a uma ca ac e ís ica ans e sal às ês: o lou o e a exal ação da pe sonalidade e da ida do jesuí a, bem como da sua ação polí ica, diplomá ica e eligiosa. Na e dade, es e lado iei iano acaba po despe a mais in e es- se, cons i uindo-se como ópico eco en e nas ob as em que Viei a su ge como pe sonagem, nomeadamen e na li e a u a b asilei a e, mais conc e amen e, nos ex os em análise. Em Manuel de Mo aes – C ônica do século XVII, o elogio é mui o cla o e ob iamen e sublinhado. Viei a é desc i o como um «Jesuí a celeb izado, p egado excelso» (SILVA, 1866: 199), um «missioná- io magis al» (SILVA, 1866: 206), um « e dadei o e olucioná io polí ico e eligioso» (SILVA, 1866: 215). Uma Alma g ande, sublime espí i o, eloquência supe io , co po a ei o a a- balhos e a igas, indi e en e a pe igos [...] um dos homens mais ex ao - diná ios que em o mundo p oduzido [que] legou à pos e io idade um nome de engenho sele o, g andioso e admi á el. (SILVA, 1866: 217) No e-se que a excecionalidade de Viei a apa ece en a izada pela men- ção à sua ex ema dedicação e en ega à de esa, educação e e angeliza- ção dos índios, ca ac e ís ica igualmen e e e ida em Boca do In e no, e amplamen e e a ada no ex o «Ma iana Pin a», no qual, aliás, é e- má ica cen al. A en emos, a p opósi o, no seguin e exce o do con o: Sem con emplações a in e esses humanos, como supe io que e a a odos eles, o missioná io po oda pa e expande ené gico os sen imen os de seu co ação: o a con oca os p incipais do país pa a ad oga a causa dos indígenas, o a emb enha-se pelas lo es as a den o, egene ando as almas na água mis e iosa do ba ismo, anunciando aos gen ios uma eligião pu a, cheia de bondade e de espe ança. (SILVA, apud MARQUES, 2017: 82) Po sua ez, no omance de Ana Mi anda, Viei a elemb a a sua es ada no Ma anhão. Diz ele: «E a p eciso con e e os gen ios do Ma anhão. Faze com que aumen asse a é daqueles po ugue- 65 ses e com que ac edi assem em Deus os índios na u ais da e a» (MIRANDA, 1989: 44-45). E lê-se ainda que Viei a «Lu a a pa a ce a os se ões e p oibi que não hou esse esga es, e pa a que os- sem decla ados li es odos os esga ados» (MIRANDA, 1989: 45). Nes e con ex o, cump e-nos no a o ac o de o ex o de Fi mino Rod igues da Sil a salien a o desag ado desencadeado pela lu a de Viei a con a a esc a ização dos indígenas, mais conc e amen e po pô em causa os in e esses e as p e ensões dos colonos do Ma anhão, o que desencadeou a p isão do jesuí a e a sua depo ação pa a a ca- pi al po uguesa. Con ém ab i mos aqui um pa ên esis pa a lemb a mos o cé- leb e caso do se mão de San o An ónio aos peixes, p ecisamen e pelo descon en amen o p o ocado pela denúncia das p á icas escla a- gis as dos colonos ma anhenses. De ac o, como bem sabemos, a emá ica dos índios é cen al na ob a iei iana. As linhas que Viei a dedica ao ema pe mi em-nos pe cebe a sua genialidade na u iliza- ção da pala a, ex ensí el, aliás, ao a amen o de qualque assun o, não só a a és da esc i a, mas ambém do discu so o al. Um alen o sublinhado nos omances de Pe ei a da Sil a e de Ana Mi anda. Daquele, podemos le um exce o bas an e signi ica i o: emp ega a a pena esc e endo cons an emen e e publicando umas sob e ou as ob as p imo osas, e não poupa a a pala a, alando dos púlpi os aos eis, aos nob es, ao cle o, e ao po o, que se apinha am nos emplos pa a ou i-lo p ega , e admi a -lhe a po en osa eloquência, e a ins ução a iada e in e essan e. [...]. Consegui a aze essoa os emplos da Bahia, de Lisboa e de Roma sob os ecos ag adá eis e ha moniosos de sua oz admi á el, e geme os p elos ipog á icos com a a e a in e ompida de manu ac u a os seus li os. [...] Despedia a sua pala a o ogo sag ado. Queima a como incêndio, e ia como punhal a iado e agudo. Seduzia, a as a a, ca i a a, e enchia ao mesmo empo de encan os os ou in es odos. Mani es a a a sua pena uma lógica ce ada, um es ilo pomposo e co e o, uma cópia espan osa de e udição, e imagens ap op iadas, in e- essan es e a eba ado as. (SILVA, 1866: 215-217). Já em Boca do In e no, além do mencionado elogio de G egó io de Ma os, des aca-se o seguin e episódio con ado pelo judeu Samuel da Fonseca: 66 En ão es ou dian e do ilus e jesuí a de quem an o ala meu amigo – e osso i mão – Be na do Ra asco. [...]. Nosso po o só em a os ag adece . [...] há mui o anos, es i e con osco, em Rouen, quando lá os es os encon a com judeus po ugueses ugidos à Inquisição [...] Em Ams e - dão, con inuou o abino, – i e o p aze de assis i à p édica do a amado Manasseh ben Is ael, à qual, com mui a co dialidade, os es ambém ou i . Sabendo do ou in e que inha na assembleia, Manasseh p ocu ou exibi seus do es de o ado e en ou p o a a supe io idade da an iga lei. Soube que ós p ocu as es o hakham Manasseh à saída e que se deu uma dispu a e ó ica que du ou longo empo e à qual, in elizmen e, ui p i- ado de assis i . Dois mes es de eologia, dois sábios. Ambos possuíam igual o ça de a gumen ação, igual amo pela dispu a de idéias, ambos e sados na Esc i u a e, encidos pelo cansaço, saí am sem um pode con ence ao ou o. (MIRANDA, 1989: 176-177). De ac o, a beleza e a o ça da pala a iei iana, p egada e esc i a, a aía mul idões, e ainda hoje colhe o in e esse de mui os, que con i- nuam a lê-lo com g ande p o ei o li e á io e i encial (c . FRANCO, 2018). Sa amago, que lhe de o a a con essada admi ação, a i mou que «a língua po uguesa nunca oi ão bela como quando oi esc i a po aquele jesuí a». O pad e An ónio Viei a é, incon o na elmen- e, uma das igu as maio es da li e a u a po uguesa e b asilei a, e a mais «impe ial» na sua exímia essi u a de uma p osa complexa do ba oco, o nando-se esse es a u o mais inequí oco com a ex e- ma alo ização de Fe nando Pessoa na Mensagem, onde o denomina «Impe ado da Língua Po uguesa», e no Li o do desassossego, onde o o na seu mes e da língua, a sua pá ia li e á ia. A p opósi o, ecupe emos mais uma passagem signi ica i a do dis- cu so an e io men e e e ido do P esiden e da República Po uguesa, Jo ge Sampaio, aquando o icen ená io da mo e de An ónio Viei a: Em Viei a, no p incípio, e a o e bo e, no im, se á ainda o e bo. Ele habi a á semp e esse po o de pala as com as quais con undiu a ida e ez a ob a. É nelas – e não na o dem do polí ico, como alguns pensam – que as suas pala as se cump em. Esse impé io discu si o, essa ca ed al e bal, esse ea o de eloquência, esse p odígio de ‘engenha ia sin á ica’, essa ‘g ande ce eza sin ónica’, como disse Fe nando Pessoa/Be na do Soa es, pe manece á como um monumen o de pala as que desa ia á o empo e a passagens dos homens. (SAMPAIO, 1997: 3555). 67 Em conclusão: é es a g andeza de Viei a que explica o ascínio sen ido pela sua igu a e o om de lou o en usiás ico com que ele é ec iado pe sonagem nas ob as analisadas. A mesma g andeza az de Viei a pe sonagem eco en e e he oica na his ó ia e em á ias mani es ações a ís icas. Uma igu a ca i an e e enal ecida ou, pelo menos, e e ida, equen e na memó ia ecebida e cons uída. Bibliog a ia ANGOULVENT, Anne-Lau e (1996) – O Ba oco. Lisboa: Publicações Eu opa-Amé ica. CALDEIRÓN, F ancisco Jiménez (2010) – Imagem e discu so: os ex os de An ónio Viei a e a linguagem cinema og á ica, Cáce es: Faculdade de Fi- loso ia e Le as da Uni e sidade da Ex emadu a [ ese de dou o amen o]. CALVINO, I alo (1995) – Pun o y apa e. Ba celona: Tusque s. FRANCO, José Edua do; REIS, B uno Ca doso (1997) – Viei a na li- e a u a an i-jesuí ica. Lisboa; Roma: Fundação Ma ia Manuela e Vasco Albuque que D´O ey. FRANCO, José Edua do, coo d. (2009) – En e a sel a e a co e: no os olha es sob e Viei a. Lisboa: Es e a do Caos. FRANCO, José Edua do; LEMOS, Aida; PEREIRA, Paulo S., coo d. (2016) – Viei a, «Esse po o de pala as». Lisboa: Es e a do Caos. 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Romance his ó ico do Al o Amazonas (18572), de Lou enço da Sil a A aújo e Amazonas, é, como I acema e O Gua ani, de José de Alenca ou Inocência, de Visconde de Taunay, um dos omances omân icos que az à luz elações colo- niais, assim como elações en e cen o e pe i e ia. Na In odução, o au o a i ma que buscou in o mações no Diá io da iagem que em isi a, e co eição das po oações da capi- ania de S. Jozé do Rio Neg o ez o ou ido e in enden e ge al da mesma F ancisco Xa ie Ribei o de Sampaio, no ano de 1774 e 1775. Ao longo do omance, que con a não só a his ó ia de Simá, como ambém um a o eal – a Re olução de Caboquena –, as ques ões aciais, cul u ais e coloniais ganham ele o. Simá nasceu da p á ica de um c ime, o es up o da indígena Del ina – ilha de Ma cos, ambém indígena (um manau) –, consumado po Régis, um ega- ão po uguês. Des e i o ializado e nômade, ele nu e sen imen os posi i os po sua e a na al – Po ugal – ou, no mínimo, que se comp az po es a na posição de ep esen an e do colonizado . Em unção do es up o da ilha, que mo e deixando Simá, Ma cos le a uma ida e an e pelo Amazonas, a é encon a um no o local pa a se es abelece com Simá, e muda de iden idade, passando a dize -se Se e o. Di idida em in e e dois capí ulos e um epílogo, a na a i a aça uma ce a ca og a ia do Al o Amazonas, já que se desen ola em o no dos deslocamen os do manau Ma cos/Se e o po luga es habi ados pelos po os indígenas, com des aque pa a Tape a e Re- 1 Uni e sidade Fede al de Ma o G osso (UFMT). 2 Publicado pela Typog a ia F. C. de Lemos e Sil a, de Pe nambuco, em 1857, o omance e e sua segunda edição em 2003 e a e cei a, em 2011. 70 manso. Em meio a uma insu eição manau, Ma cos e a ne a een- con a ão Régis. Num p imei o plano, Simá coloca em pau a o modelo po - uguês de colonização da Amazônia, que o iginou an os p ocessos de e ol as e le an es popula es, como a de Lamalonga, obje o do capí ulo XVI do omance. O undo his ó ico da na a i a é a colo- nização, e essa su ge pela oz do na ado , das pe sonagens Régis, Loiola e dos P incipais do po o manau. Embo a o na ado consi- de e a e olução de 1835 – quando a aldeia colonial de Lamalonga oi des uída pelo ogo deco en e de uma insu eição dos manaus – como o a o his ó ico p incipal, a na a i a se es ende pelo im do pe íodo colonial e início do B asil Impé io. T ês g upos an agônicos dispu am espaço no al o Solimões: os colonos, os manaus que se opõem à colonização e os manaus que se in eg am à sociedade colonial. Ma cos/Se e o – a ô de Simá – az pa e des e úl imo g upo. Como Simá é mameluca e Domingos, seu noi o, um manau, os po ugueses Loiola e Régis se opõem ao casamen o, conside ando que ela não de e ia casa -se com um au- óc one e, sim, com um po uguês, já que, segundo as no mas colo- niais, as mamelucas de e iam casa -se com po ugueses. Em meio às dispu as, oco e o oubo da moça e são des uídas as po oações de Lamalonga, Caboquena e Ba a oá. Compa ando Simá a Helena de T oia, o na ado mos a uma in iga inspi ada na mi ologia g ega. Con udo, há á ias e e ências à his ó ia da egião em ou as pa es do ex o: na «In odução», no capí ulo «Uma ques ão de limi es» e no «Epílogo». Na «In odução», o au o a i ma: «passemos ago a a soco e -nos da His ó ia, que nos diz que oi aquela a época de maio mo imen o e animação do Al o Amazonas...» (AMAZONAS, 1857: 6). Ele menciona a lei de abo- lição da esc a a u a dos índios de 6 de julho de 1755, que o nou o indígena igual a odo assalo po uguês em e mos «de ob igações» e «cump imen o de eg as», «além da ele ação do país», o Al o Rio Neg o, à ca ego ia de Capi ania. No capí ulo «Uma ques ão de limi es», Régis e o na à egião acompanhado de seu amigo, o ambém po uguês Loiola. Eles con emplam os limi es e i o iais dos «domínios po ugueses» e o 71 na ado usa desse ecu so pa a a a dos li ígios coloniais oco idos du an e aquele pe íodo na Amazônia. A deg adação social da egião ambém é e a ada, po meio da menção à dema cação das on ei- as e i o iais. O na ado a i ma: «O san íssimo Pad e Alexand e VI e e a gene osidade de epa i odo o es an e do mundo [....] en e as co oas de Po ugal e Espanha» (AMAZONAS, 1857: 46). Apesa da i onia em elação ao papa, o na ado oma o pa ido dos po ugueses em elação a acon ecimen os ecen es: a missão do pa- d e Samuel F i z no Al o Amazonas, numa localidade que os jesuí- as espanhóis chama am Missão dos Cambebas, den o da qual i- iam qua o po os e, al ez, «os caudados3 Uginas» ( AMAZONAS, 1857: 48); e a iagem de Ped o Teixei a de Belém a Qui o, oco ida em 1736, e, em 1737, de Qui o à oz do Amazonas. O na ado conside a que a iagem de Teixei a «no maio io do mundo» co es- pondeu à de Vasco da Gama no Oceano (AMAZONAS, 1857: 48). Esses são apenas alguns exemplos de con endas e i o iais ci adas. Além dos a os his ó icos, es ão p esen es ambém pe sona- gens his ó icas como o cabo José An unes Fonseca, o Go e nado An onio Rolim de Mou a, o Capi ão Ignácio Co ea de Oli ei a e o indígena Paco ilha, que e ia lu ado a a o dos po ugueses em lu a con a os espanhóis. Paco ilha é lemb ado po que Del ina deseja a casa -se com seu ne o po se ele um au óc one como ela e po que ele gua da a a memó ia do a ô. No amos aqui que a cul u a indí- gena oi colonizada, pois Del ina e Ma cos o gulham-se do a ô de Paco ilha po seus se iços p es ados ao colonizado , embo a es e ambém enha p o egido os manaus dos espanhóis, já que, ao a aca o lado po uguês, es es ambém dizima iam os p óp ios manaus, en ão aliados dos po ugueses. Reco de-se que Lou eço Amazonas se essen e do a o de Cha - les Ma ie deLa Condamine e omado pa ido dos espanhóis no diá io que publicou sob e sua iagem à egião e que elogia os indí- genas que e iam lu ado jun o com os po ugueses em expedições 3 O au o g a a a pala a da manei a como es á aqui ci ada pa a aze e e ência a homens com cauda; con udo es a pala a não es á diciona izada. 72 con a os espanhóis nas on ei as amazônicas. Apesa da g ande incidência nos a os his ó icos, Lou enço Amazonas a i ma que «a pa e omân ica encon a-se ão en elaçada à His ó ia, que não se pode se de ou a manei a» (AMAZONAS, 1857: 7). A colonialidade da cul u a do Al o Amazonas não deixa de es- a p esen e na his ó ia ágica de Simá. Ge ada, como já se disse, po um po uguês e es up ado uma na i a, ela i e em um lo- cal onde as polí icas de colonização e dema cação de e i ó ios po meio de o ças mili a es se impõem dia iamen e; e é educada numa missão ca ólica (embo a naquele cená io isso lhe pudesse sal a a ida), em deco ência da cul u a de sua mãe. Po se mes iça e edu- cada segundo os pad ões ociden ais e c is ãos, es a ia ese ada ao casamen o com um po uguês. No en an o, Simá desen ol e um in enso sen imen o amo oso pelo na i o Domingos de Da y. Régis, que desconhece que é pai dela, julga-se no di ei o de casa -se com a moça. Po isso, ele e o amigo Loiola se en u ecem com o a o de os missioná ios acei a- em o casamen o en e o indígena e a mes iça e os denuncia po supos amen e e em ealizado i os eligiosos indígenas no noi ado de Simá. Isolada pelos missioná ios pa a se ( e)e angelizada, Simá é esga ada pelos manaus. Du an e a lu a, Régis ê o medalhão que deixou no pescoço de Del ina em Simá e descob e que ela é sua ilha. Lamalonga é eduzida a cinzas. Simá, Ma cos e Régis mo em. Os líde es da insu eição são execu ados e, empos depois, Domingos em o mesmo im. Simá i encia a do de se mes iça numa sociedade colonial e seu im me a o iza sua si uação. Não apenas a hib idização es á em causa, mas ambém o eminino, con o me seu a ô exp essa em con e sa com Régis: «Que eis uma se a pa a ossa casa? A eba ais uma mulhe ao seu ma ido, uma ilha ao seu pai» (AMAZONAS, 1857: 22). A oz da pe sonagem Ma cos/Se e o é, ao mesmo empo, con- ciliado a e c í ica de si uação colonial, enquan o Régis se coloca em si uação de pode , embo a não seja um ep esen an e do es ado co- lonial como, po exemplo, go e nado es, mili a es (e como o p ó- p io au o da ob a, Lou enço da Sil a A aújo e Amazonas). 79 José de Alenca e os ances ais po ugueses dos b asilei os Ma ia Apa ecida Ribei o1 Esc i o possi elmen e en e 1845 e 1847, Os con abandis as é o p imei o omance de Alenca . Dele, queimado po um hóspede que, quando que ia uma , u iliza a as olhas do cade no onde es- a a esc i o, es a am, segundo p óp io au o , apenas agmen os, inédi os du an e longo empo. Ab angia o ex o, como diz o esc i o em Como e po quê sou omancis a, uma a iedade dos gêne os que ia desde o idílio a é a epopeia. No omance apa ece uma pe sonagem po uguesa: Manuel Roque, homem calado quebebia como uma es- ponja (ALENCAR, 1965a: 1142) na abe na de Joaquim Al es, que ica a à bei a-ma e e a equen ada po ma inhei os. Nada, po ém, o apon a como ances al de b asilei os. Em 1856, sob o pseudônimo de Ig, José de Alenca , que naquele ano publica a Cinco minu os, es ampa no Diá io do Rio de Janei o, uma sé ie de ca as, c i icando o ecém-lançado poema épico A Con- ede ação dos Tamoios de Gonçal es de Magalhães. Quando, logo na p imei a dessas ca as, conco da, com a época de que é i ado o as- sun o de A Con ede ação dos Tamoios, e a ele ac escen a que de e ia se ealçado pela «g andeza da aça in eliz e pelas cenas da na u eza esplêndida da nossa e a», diz ambém que o ema da ia «uma di ina epopeia se osse esc i o po Dan e» (ALENCAR, 1994b: 157) Tais obse ações ence am ao mesmo empo ecomendação e c í ica, delineando o om p og amá ico e de insa is ação, pe an e a al a de gênio de Magalhães po que odas as Ca as se ão pau adas. O saldo, po ém é de que, no poema, há con usão, ana quia, deso - dem e abundância de de alhes e si uações insigni ican es. Resumindo: Magalhães nem conse ou a simplicidade an iga, a simplicidade p imi- i a da a e g ega; nem imi ou o ca á e plás ico da poesia mode na: 1 Uni e sidade de Coimb a. 80 desp ezando ao mesmo empo a singeleza e o colo ido, quis, às ezes o na -se simples e ez-se á ido, quis ou as ezes se desc i i o e al a- am-lhe imagens. (ALENCAR, 1994b: 181). Se ia, assim, a causa do insucesso d’A Con ede ação dos Tamoios não só um an ilusismo inadequado ao público da época, mas ambém a al a de alen o de seu au o . O p incipal con eúdo das Ca as é, sem dú ida, o p oje o que Alenca aça pa a um e dadei o poema épi- co nacional e que a pouco e pouco i á cump indo, azendo mesmo que se possa le a sua ob a indianis a desde en ão, nomeadamen e O Gua ani e I acema, como espos as às ques ões que ele põe a Magalhães e a si p óp io. En e um e ou o omance, ele en a em 1863 um poema épi- co: Os ilhos de Tupã, cuja ábula, planos e no as o am publicadas pos umamen e e do qual o esc i o jamais deu à es ampa nenhuma pa e. Nele, ainda esc e endo em e sos (con a iando o que disse a nas Ca as a Magalhães), segue a linha de Gonçal es Dias e mos a os b ancos como esponsá eis pela ex inção dos índios. Se, na p imei a ca a sob e A Con ede ação dos Tamoios, Alenca lemb a que «A adição dos índios do No e ala a de uma g ande pe eg inação ei a pela aça apuia quando a no a aça in aso a dos upis se assenho eou de suas e as; al ez a in asão dos po ugueses enha p oduzido o mesmo esul ado» (ALENCAR, 1994b: 157), Os ilhos de Tupã e sa iam sob e a c iação da Te a e do céu po Tupã, que ge a ia numa palmei a dois ilhos: um de cabelos escu os – Tupi; ou o de cabelos co de sol – A a. Tupã ambém c iou Abaci, com a qual os dois de e iam po oa a e a. Tupi, po ém, com ciú- mes da mulhe , ma a A a e é amaldiçoado po Tupã, que a icina a discó dia en e os descenden es daquele ilho, a des uição que eles p óp ios i ão impo -se e a sua ex inção o al pelos descenden es de A a, com quem se c uza iam ge ando o maio po o da e a. Aliás, a ex inção de um po o e conquis a de um país (ALENCAR, 1994b: 160), e a o ema que o esc i o inha em men e. Numa p oposição mal o mulada, Magalhães diz: «Pa a aca- ba com os a aques ei e ados dos lusos / uni am-se os amoios» (MAGALHÃES, 1994: 10). E ab e a po inha a e sa mencionada 81 po Alenca : a mo e de um simples gue ei o índio, assassinado po dois colonos (ALENCAR, 1994b: 160). Daí que es e c i ique a al a de g andiosidade da abe u a da Con ede ação e sugi a que o poema de Magalhães se inicie pelo conselho dos che es amoios. Tal ez o poema abo ado Os ilhos de Tupã es i esse no pensa- men o de Alenca quando dizia nas Ca as que «o esboço his ó ico dessas aças ex in as, a o igem desses po os desconhecidos, as adi- ções p imi i as dos indígenas, da am po si só ma é ia a um g ande poema, que al ez um dia alguém ap esen e sem uído, nem apa a- o, como modes o u o de suas igílias!» (ALENCAR, 1994b: 159). É que, além da na a i a de o igem da no a aça, a sua ábula, como se pode e no plano po ele açado, inclui ia as lendas de Sumé e Tamanda é, es a úl ima ap o ei ada n’O Gua ani. Ainda nesse echo das Ca as é de obse a que a designação usada pelo au o é poema, g ande poema, mas que, logo a segui , ele a subs i ui po lenda, e mo pelo qual designa á I acema – lenda do Cea á. Con usão de gêne os p óp ia do Roman ismo? Ou apenas indecisão de Alenca ? O inal de Os ilhos de Tupã mos a a chegada dos homens de cabelos co de sol, que acaba am de aniquila os dos cabelos da co da empes ade. Mis u a am, po ém, com os úl imos deles, o seu san- gue. Mas se esse poema abo ado não sa is azia os desejos do au o de esc e e uma epopeia em p osa ambém não mos a ia o nasci- men o pací ico de uma nação, não se ia uma epopeia do co ação (c . ALENCAR: 1994a: 96), como quis José de Alenca , ao esc e e O Gua ani e I acema. Em Os ilhos de Tupã, os ances ais po ugue- ses dos b asilei os, descenden es lou os de Tupã, se iam ex e mina- do es dos homens de cabelos co de empes ade. O Gua ani e mina com o índio e a b anca na egando em di e- ção ao u u o, pa a uma nação onde ele não seja esc a o e seus des- cenden es não enham a se olhados com desp ezo po e em a pele co da e a. O inal de I acema ap esen a o nascimen o de Moaci , a undação da mai i dos c is ãos e a subs i uição do ugi do ma acá pelo soa do b onze. Ten ando alo iza o índio, ão dep eciado pelos nossos c o- nis as, como diz o p óp io Alenca , ele ha ia esc i o, em 1857, 82 an es po an o de Os ilhos de Tupã, o omance O Gua ani. Aí az de Pe i, um supe -he ói, como odos sabemos: li a Ceci das lechas dos índios, de ende-a da concupiscência de Lo edano e, inalmen e, sal ando-a das chamas, a anca uma palmei a, e na ega com a moça pa a uma no a ida. Com isso, epe e a lenda de Tamanda é, numa mise-en-abîme colocada no ex o do omance, ou seja, unda com Ceci uma no a aça, p omessa que ica no a . O a como Ceci é ilha de uma paulis a – D. Lau iana – com um po uguês – D. An ônio de Ma iz –, ambos se ão ances ais dos u u- os b asilei os, da no a aça inda de Pe i e Ceci. D. Lau iana é ce - amen e ilha de po ugueses e em ho o a índios, mesmo de Pe i. Mas D. An ônio, e e exis ência his ó ica, pois é mencionado po Bal haza da Sil a Lisboa, nos seus Anais do Rio de Janei o, como um dos undado es dessa cidade. Em 1567, ele acompanha o go e nado Mem de Sá, e, em 1578, pa icipa da expedição de An ônio de Salema. Foi p o edo da Real Fazenda e da Al ândega do Rio de Janei o, e ambém p es ou se iços nas descobe as e explo ações do in e io de Minas e Espí i o San o. Quando Filipe II é aclamado sucesso da mona quia po uguesa, e i a-se do se iço. Ju a gua da idelidade a Po ugal e es abelece-se na sesma ia que lhe concede a Mem de Sá. Além dessa lealdade ao ei po uguês, D. An ônio de Ma iz é ap esen ado como e dadei o senho eudal em sua elação com os a en u ei os. O des emo , a dignidade, o amo à amília e a c ença em Deus ma cam sua pe sonalidade. Lemb emo-nos que ele en en a os índios e os aido es, p e e e mo e no luga de sua amília e ba iza Pe i, pa a que possa se a mado ca alei o e acompanha Ceci. A pa dessas qualidades, D. An ônio ap esen a um aço ípico dos po ugueses: a miscibilidade. Não é à oa que em uma ilha com uma índia – Isabel, a mo ena que con as a com a lou a Ceci. Isabel, po ém, não é ap esen ada como ilha, o que mos a a ma ginalidade do mes iço en e os b ancos. N’O Gua ani há ou os po ugueses, embo a não sejam oca- dos como ances ais dos b asilei os. Quem são eles? Ai es Gomes, escudei o e companhei o, há in a anos, da ida a en u ei a de Dom An ônio de Ma iz. Ai es Gomes não gos a de 83 índios (incluindo Pe i, a quem a a de o ma i ônica, chamando-o, po exemplo, D. Cacique) nem da na u eza b asilei a, suspi ando pelos « ojos e cha necas de sua pá ia» (ALENCAR, 1994a: 45). Tem cinquen a e no e anos, é mag o, esguio e possui aços isionô- micos de aposa. Essa semelhança acen ua-se pela indumen á ia que es e e pelo uso das bo as da pele do animal. A obediência cega a D. An ônio c ia si uações ca ica as. Ai es Gomes p o a sua co agem e alen ia, lu ando b a amen e com os indígenas e pe manecendo jun o à amília Ma iz quando do incêndio pe pe ado pelos índios Aimo és. Além dele, há os a en u ei os, uns com nome ou os não. En e os p imei os es á João Feio, a en u ei o «dos mais audazes e u bulen os» (ALENCAR, 1994a: 130), que se o e ece a Lo edano pa a i como pa lamen á io a D. An ônio de Ma iz, pedindo-lhe que en egue o assassino de Ben o Simões. Sabendo, po ém, pela boca de Mes e Nunes, da e dadei a iden idade do i aliano, in ima-o a en ega -se a D An ônio de Ma iz e ob e o pe dão dos a en u ei os e ol osos. O que ma ca sua pe sonalidade é o sen ido de jus iça. Ou o po uguês é Mes e Nunes, eligioso que es emunha a mo e de Fe não Aines, assis ido po F ei Ângelo de Luca. Um ano depois desse acon ecimen o, econhece-o em Lo edano. Choca- do com a descobe a, di ulga o seg edo que se espalha e concen a ódios con a o a san e. To na-se aliado de Dom An ônio de Ma iz e de Pe i nas lu as que a am con a os a en u ei os ebeldes lide a- dos po Lo edano e con a os Aimo és. Mas O Gua ani é uma espécie de ascunho de uma segunda en a i a de Alenca em esc e e o seu poema épico nacional: I ace- ma, onde um po uguês, Ma im, se á pai – e omemos pala as do p óp io omance – do «p imei o b asilei o». Alenca usa em I acema um a gumen o his ó ico, mas dele se a as a, pa a c ia a lenda. A pe sonagem Ma im Soa es Mo eno é ap esen ada apenas como Ma im o que a az pe de a e e enciali- dade his ó ica; su ge não como po uguês (não se ha iam passado cinquen a anos da Independência e no poema de Magalhães, que o esc i o cea ense condena a, ecoa a o an ilusismo), mas como um 84 jo em gue ei o cuja ez não co a o sangue ame icano em oposição a uma c iança e um a ei o, ilhos ambos da mesma e a sel agem; é e a ado como um b anco que em acilidade de adap ação (não in e essasse ao esc i o con a a his ó ia de uma no a aça). Ca ac- e izando a sua o igem, seus olhos possuem o azul is e das águas p o undas, colo e suas aces o b anco das a eias que bo dam o ma . Como epí e os ele ecebe os de gue ei o do ma , gue ei o b anco, gue ei o da esposa e do amigo e es á em pe manen e comba e ao b anco apuia ( ancês). A esses p edicados associam-se uma a i ude co ês e o c is ianismo, mos ando não só o medie ismo omân ico de Alenca , como imbuindo o lei o de que a p esença po uguesa e o seu con a o com os índios oi ei a de o ma pací ica. O simbolis- mo esba e mais uma ez os con o nos da His ó ia e a conquis a da e a passa a se na u al. Tão na u al, que Ma im, ap esen ando-se, diz a I acema: «– Venho de longe, ilha das lo es as. Venho das e - as que eus i mãos já possuí am e hoje êm os meus» (ALENCAR, 1994b: 41). O que es a ase obli e a é a lu a en e po ugueses e índios pelo domínio da e a, na qual mui os sel agens o am ex e minados, ou cap u ados e subme idos ao abalho esc a o nas azendas da Pa aíba e de Pe nambuco. O massac e dos abaja as, i mãos de I acema, é ei o pelos pi- igua as, seus inimigos e amigos de Ma im (no caso, po ugueses e anceses, espec i amen e). Desloca-se, assim, pa a uma i alidade indígena, a i alidade en e eu opeus. É o mesmo p ocesso que usa- am alguns dos c onis as po ugueses pa a jus i ica em o ex e mínio: os índios ecupe á eis e, po an o, amigos, e os indígenas i ecupe á- eis, consequen emen e inimigos, e que de em se eliminados. Um aspec o do poema épico que Alenca ap o ei a em I a- cema é o uso do símile. Apesa de as suas co es não se em as da e a b asilei a, Ma im em como compa an es elemen os de sua lo a e de sua auna, como odas as ou as pe sonagens indígenas, o que a enua o seu pe il de colonizado . São p incipalmen e á o es: «Como o imbu na á zea e a o co ação do gue ei o b anco na e a sel agem» (ALENCAR, 1994b: 129); «assim como a abelha ab ica o mel no co ação neg o do jaca andá, a doçu a es á no pei o do mais 85 alen e gue ei o» (ALENCAR, 1994b: 114). Ca alcan i P oença mos ou que, às ezes, os compa an es u ilizados pa a I acema, são ambém usados pa a Ma im e ice- e sa. Um úl imo aspec o a e em con a: du an e oda a na a i a da lenda da o igem nacional Alenca busca esmaece a a u a causada pela colonização. Nes a linha es á a ase p o e ida po Ma im, in- o mando a I acema, da o ma o mais na u al possí el, que, como já aqui oi mencionado, eio de e as que ou o a os i mãos dela já possuí am e hoje êm os dele. Si ua-se ambém nesse campo de ideias uma espécie de ecu so ao ma a ilhoso (cujo mau ap o ei- amen o Alenca c i ica em Magalhães): não que endo a ibui a Ma im a iolação de um código é ico – i a a i gem dos abaja as –, o esc i o c ia o episódio do sonho, no qual o gue ei o b anco possui I acema inconscien emen e, depois de e omado o e de lico que es a lhe o e ece. Assim ambém, essa ase do elho índio – uma ala p o é ica de sabo clássico – signi ica a ex inção da sua aça pela b anca, o que se ai aduzi , no inal do omance, pela mo e de I acema e pelo «Tudo passa sob e a e a» com que o na ado echa sua ala. Po ém, que a a i ude de Po i, que a ase de Ba ui e- é, que ainda a mo e de I acema com o consequen e cala da jan- daia – que es ão na aiz do signi icado do nome de Moaci , ilho de I acema e de Ma im –, simbolizam o silencia do índio, aduzido po Alenca 2, (e não pelo na ado ) em no a ma ginal à ase do a ô de Po i. Es a simbologia passa quase despe cebida, po que diz espei- o à his ó ia da conquis a, diluída na na a i a pela his ó ia de amo . Nesse e ela elando, es á o g ande seg edo de Alenca , que não caiu nas con adições de Magalhães que delineia no sonho de Aimbi é o u u o esplendo oso do B asil, mas cul i a o ódio con a os po ugueses; que de ende o C is ianismo, mas põe os índios a mos a a aqueza dos que o p egam. Em 1862, Alenca publicou em ascículos, os dezeno e p imei- os capí ulos de As minas de p a a, com a in o mação: «con inuação 2 Diz o au o : «Ba ui e é chama assim o gue ei o b anco, ao passo que a a o ne o po na ceja; ele p o e iza nesse pa alelo a des uição da sua aça pela aça b anca» (ALENCAR, 1994b: 112). 86 de O Gua ani». Em 1865, a Ga nie edi ou As minas de p a a em li o: ês pa es dis ibuídas po seis olumes. Em 1877, com á ias al e ações, su giu uma no a edição, em ês olumes, que oi epubli- cada no segundo olume da Ob a comple a, em 1964, pela Aguila . Vá ias são as pe sonagens po uguesas que apa ecem no ex o; algu- mas his ó icas, ou as c iadas po Alenca ; umas omando pa e na na a i a, ou as não. En e as his ó icas, D. Diogo de Meneses, que chega à Bahia pa a go e na o B asil; F ancisco de Sousa, que am- bém oi Go e nado Ge al do B asil e inha po obje i o encon a as minas de p a a; Fe não Ca dim, Luís Figuei a, F ancisco Soa es, Domingos Rod igues – jesuí as; D. Cons an ino Ba adas, bispo da Bahia; Ál a o de Ca alho, que e a alcaide-mo quando D. Diogo de Meneses chegou à Bahia, e que oi ambém P o edo -mo da Fazen- da; o desemba gado Bal aza Fe az; Ba olomeu Pi es, p op ie á io da Ilha da Ma é, con o me no ícia de Gab iel Soa es de Sousa. Das pe sonagens po uguesas c iadas po Alenca apa ecem no omance, po exemplo, Vaz Caminha, «uma bela alma echada num co po g o esco, uma pé ola ina escondida em uma casca ude e g os- sei a» (ALENCAR, 1951a, . V: 73) . Nascido no Alen ejo e ilho de aldeões, o mado em Di ei o pela Uni e sidade de Coimb a, é um homem que, segundo o na ado , se ap esen a sob ês aspec os: co ação, de e e in eligência. Falando de ou os po ugueses, mas de endendo a aça, ele se di ige a Es ácio Co eia, ilho de Robé io Dias e seu ilho ado i o, nos seguin es e mos: «Não conheceis um po uguês, Es ácio! Com es a sede de ou o que az ao B asil an- os a en u ei os, os cos umes dos nossos maio es se pe de am; mas en e es es ainda há ca alhei os que sabem o que de em à sua hon a e aos seus b ios» (ALENCAR, 1951a, . V: 76). Também pe sonagem c iada po Alenca , Euqué ia, emp egada de Vaz Caminha, é po uguesa como ele. Ap esen a-se saudosa dos igos de A aiolos, ípicos do empo da Páscoa. O núme o dessas pe sonagens po uguesas ainda pode ia se aumen ado. Não su ge, po ém, no omance nenhuma pe sonagem po uguesa que seja pai de um b asilei o. Apa ecem mencionados ou mesmo como pe sonagens, sim, descenden es de po ugueses. É o caso de D. Diogo de Ma iz, i mão de Ceci, cujo pai, D. An ônio, 87 é mos ado como homem nob e e co ajoso n’O Gua ani. D. Diogo de Ma iz su ge como he dei o das qualidades do pai, nes e no o omance, que Alenca desejou osse uma con inuação de O Gua ani. Também C is ó ão Ga cia d’Á ila, apaz nob e de sen imen os, a- len e, leal e ico, descende de Diogo Dias, ne o de Ca amu u que se casou com Isabel Ga cia, ilha na u al de Ga cia d`Á ila Já Es ácio Co eia – ilho de Robé io Dias, o Mu ibeca (caça- do de gen e), ne o de Pa aguaçu e de Diogo Ál a es Co eia, po - uguês de Viana que ez pa e da His ó ia b asilei a, a é lou ado num poema épico po F ei José de San a Ri a Du ão – em ou o a amen o. E po quê? Robé io Dias, depois de lhe ha e em oubado o o ei o das minas de p a a, en a a es abelecê-lo a pa i da memó ia, sem no en an o o consegui . Mo eu no se ão, deixando iú a sua mulhe , ainda g á ida de Es ácio, e e e con iscados odos os seus bens, i- cando a amília na pob eza. Es ácio oi en ão educado po Vaz Caminha. É um apaz de g ande in eligência, alen e e leal. Mesmo com essas qualidades e apesa de se descenden e de Diogo Ál a es Co eia, o pai de Inesi a, moça po quem Es ácio é apaixonado, se opõe a seu casamen o. Nes e caso, se Alenca e oma as qualida- des po uguesas nos descenden es dos lusi anos (embo a o esc i o não deixe cla o se a in eligência e a alen ia do moço se de am a Ca amu u ou a Pa aguaçu), ambém ol a a imp imi ao mes iço a do que insc e eu no nome de Moaci (c . ALENCAR, 1994b: 90), ilho de Ma im e I acema, e no a o de D. An ônio de Ma iz não ap esen a Isabel como sua ilha. D. F ancisco de Aguila , o espa- nhol pai de Inês, além da pob eza de Es ácio, lemb a-lhe seu sangue índio, ao ecusa -lhe a mão da ilha: «D. Inês de Aguila pe ence à melho nob eza das Espanhas pa a se alia com a descendência bas- a da de um simples ca alhei o po uguês, em cujas eias co e uma mis u a de sangue gen io» (ALENCAR, 1951a, . VII: 787). Em A Gue a dos Masca es: c ônica dos empos coloniais, esc i a en e 1873 e 1874, é na u al, pelo p óp io assun o do omance, que apa eçam á ias pe sonagens po uguesas: umas são os p óp ios masca es; ou as, pessoas do go e no; ou as ainda, pe sonagens his- ó icas. Pe encen e ao que o p óp io Alenca , em «Bênção pa e na» 88 chamou de pe íodo his ó ico, po ep esen a «o consó cio do po o in aso com a e a ame icana, que dele ecebia a cul u a, e lhe e- ibuía nos e lú ios de sua na u eza i gem e nas e e be ações de um solo esplêndido» (ALENCAR, 1965b, . I: 495), a ob a mos a, como diz seu p óp io sub í ulo – c ônica dos empos coloniais –, o pe íodo da «ges ação len a do po o ame icano, que de ia sai da es i pe lusa, pa a con inua no no o mundo as glo iosas adições de seu p ogeni o , pe íodo que e minou com a independência» (ALENCAR, 1965b, . I: 495). Apesa de o au o dize que «os a o es da comédia, que se cha- mou a Gue a dos Masca es são an es de udo his ó icos; ou po que os anais do empo azem a eles especial menção ou po que ep esen- am as ideias e os cos umes da época» (ALENCAR, 1951b: 151), aqueles a que os anais do empo azem menção — os his ó icos po an o — odos eles po ugueses, p a icamen e não pa icipam da ação: Sebas ião de Cas o Caldas, Diogo de Caldas Ba bosa, io do go e nado ; Je ônimo de Mendonça Fu ado, o Xumb egas, go e - nado depos o 40 anos an es; Jo ge de Albuque que, o dona á io da capi ania; José Inácio de A ouche, ou ido ge al da capi ania; Luiz de Valenzuela O iz, subs i u o do D . A ouche na ou ido ia; Ped o Ribei o da Sil a, capi ão-mo esponsá el pela esis ência e pelo le- an e dos donos de engenho. Sebas ião de Cas o Caldas é desc i o como de aspec o nob e e i il, especialmen e em epouso; mas desde que se pu- nham em ação suas aculdades, desp endia-se delas um p u ido de a i- idade sô ega e olúbil, que desconce a a a compos u a do semblan e, como do alhe. Fala a ápido, com a pala a di usa e a oz es iden e; de- masia a-se no ges o; e em odos os seus modos punha al alac idade, que de ia-lhe algumas ezes o espí i o i ubea , enleado naquela meada de idas e indas, de passos e ol as, em que se comp azia o seu gênio in a igá el. Casaca de eludo cas anho com mangas de bo a e gua necida, como o chapéu, de cai el de ou o; ol a de enda, laçada ao pescoço, e da qual lhe caíam as duas pon as la gas sob e o pei o da és ia de ce im azul com amagens b ancas es ampadas; alim de eludo que suspendia a ica espada; b oches de ped a ia na p esilha do chapéu, nos punhos do cami- so e e na a adu a dos calções de b ocado ama elo: assim es ia o ca alei o. 95 Po ugal e po ugueses em Machado de Assis: D’O Fu u o ao Memo ial Hélio de Seixas Guima ães1 A p esença po uguesa na ob a de Machado de Assis é mui o mais disseminada e decisi a do que nos azem c e dois p ocessos impo an es da ecepção da ob a e da igu a de Machado de Assis oco idos no século XX. O p imei o deles consis iu na negação de Po ugal e do passado po uguês, que es á na base do Roman ismo nacionalis a e oi e omada na década de 1920 pelos p imei os mo- de nis as, que echaça am o que ha e ia de demasiado lusi ano na li e a u a p oduzida no B asil oi ocen is a e nos esc i os de Machado em pa icula 2. O segundo p ocesso, pos e io e complemen a ao p imei o, se deu a pa i da década de 1930, com a ans o mação do esc i o em mi o nacional e in é p e e do B asil, numa ope ação que, ao essal a a b asilidade, ebaixou as ma cas lusi anas em sua esc i a. Ao pe co e o conjun o dos esc i os nos á ios gêne os que Machado de Assis p a icou, no amos que a e e ência luso-b asilei a é eco en e em oda sua aje ó ia. Ela se az p esen e de á ias manei- as, desde a p esença de ce a dicção lusi ana na sua esc i a, acusada po seus con empo âneos, a é a ema ização das ligações en e B asil e Po ugal, indissociá eis das elações coloniais e pós-coloniais, o que se az sem o ecu so a simpli icações, maniqueísmos ou ca ica u as. Vale lemb a aqui o que Ca los Fe ei a esc e eu sob e Macha- do de Assis po ocasião de sua es eia como omancis a, em 1872: «Machado de Assis goza de uma bela epu ação li e á ia no B asil e em Po ugal. Tem-se di o, e eu não sei a é que pon o é e dade, que o au o das C isálidas é um esc i o mais po uguês que b asilei o» 1 Uni e sidade de São Paulo (USP). 2 A p opósi o desse assun o, e Abel Ba os Bap is a que, em «De inição do mode nis- mo b asilei o», a i ma: «desde o momen o em que, po ia do pode polí ico e académico, o mode nismo se no maliza, a desc ição dominan e do mode nismo é necessa iamen e desc ição da exclusão po uguesa» (BAPTISTA, 2010: 92). 96 (FERREIRA, 1872: 1). Po ocasião da publicação de Esaú e Jacó, 32 anos mais a de, Oli ei a Lima di ia: «É o mesmo po uguês limpo e cas iço, sem somb a de pedan e ia nem es o ços de pu ismos, ão pouco c i ado de neologismos, uma língua co en e e co ec a, cuja al a de a i ícios e olun á ia simplicidade lemb am imedia amen- e Ga e , sendo em ambos o esul ado de mui a p á ica e mui o abalho. É a mesma eição de na a i a mais concei uosa do que desc i i a, mais espi i uosa do que colo ida, mais g aciosa do que ib an e» (LIMA, 1904: 1). Cabe ambém eco da que ao longo da sua aje ó ia, ale lem- b a que Machado oi colabo ado impo an e e assíduo do jo nal luso-b asilei o O Fu u o no início da década de 1860, quando e- quen a a cí culos e associações lide adas po po ugueses emig ados, en e eles F ancisco Ramos Paz, E nes o Cib ão e F ancisco Gon- çal es B aga. Na década de 1880, quase ao mesmo empo em que publica a B ás Cubas, esc e eu sone os dedicados a Camões e uma peça de ema camoniano, Tu só, u, pu o amo . Em 1885, publicou nada menos que 14 sone os, in i ulados «A de adei a injú ia», num li o em homenagem ao cen ená io da mo e do Ma quês de Pom- bal. E o úl imo li o, o Memo ial de Ai es, de 1908, é o omance em que os ânsi os en e B asil e Po ugal dominam a cena. Nas quase semp e oblíquas a i mações que ez sob e sua con- cepção de a e, dispe sas em seus ex os c í icos, Machado de Assis eco en emen e a i ma a adição luso-b asilei a elegendo como e- e ências Basílio da Gama, Almeida Ga e , Alexand e He culano, além de Alenca e Gonçal es Dias. Quando oma posições i - mes, ele as oma em elação a José Feliciano de Cas ilho e Faus ino Xa ie de No ais, quando po exemplo se posiciona a a o dos e sos alexand inos, e a Eça de Quei ós na p osa, quando polemiza a p o- pósi o da adesão de O p imo Basílio às dou inas de Émile Zola. Pen- so que Machado se iu e se cons i uiu como esc i o luso-b asilei o, mas, como disse, isso oi bas an e apagado ao longo do século XX3. 3 Sob e esse assun o, e Hélio de Seixas Guima ães, «O pa adigma po uguês nas de inições de Machado de Assis sob e a a e». 97 Es e a igo concen a-se em dois momen os da ida do esc i- o nos quais as elações e ep esen ações luso-b asilei as incidem de modo bas an e agudo. No ex emo da ju en ude, elas es ão documen adas nas colabo- ações de Machado de Assis pa a o pe iódico O Fu u o, edi ado en- e 1862 e 1863, no Rio de Janei o, pelo poe a po uguês Faus ino Xa ie de No ais, i mão da sua u u a mulhe , Ca olina. Abs aindo os ínculos mais imedia os da amizade com Faus ino, Machado deu ou a dimensão à publicação d’O Fu u o: ao anuncia a publicação no no o pe iódico, conside ou-o mais um laço de união en e a nação b asilei a e a nação po uguesa. Mui as azões pedem es a in imidade en e dous po os, que, esquecendo passadas e a ais di e gências, só podem, só de em e um desejo, o de eng andece a língua que alam, e que mui os engenhos êm hon ado. (ASSIS, 1862) No ex emo da elhice, es á o úl imo omance, o Memo ial de Ai- es, cuja publicação coincide com os úl imos dias e a mo e do esc i o , em se emb o de 1908. Nele, Po ugal apa ece li e almen e como pon- o de uga, des ino de Fidélia e T is ão, es e o pe sonagem (na u aliza- do) po uguês mais desen ol ido em oda a ob a de Machado de Assis. A a essas duas pon as da aje ó ia de Machado de Assis em o no das elações com Po ugal e com os po ugueses, que lhe o- am ão ca as ambém na ida pessoal, é o obje i o aqui. O passado colonial nas páginas d’O Fu u o Em O Fu u o, do qual saí am 20 núme os, Machado colabo- ou com 16 c ônicas, 6 poemas e 1 con o e meio – a explicação do «meio con o» i á mais adian e – em que ep esen ou publicamen e sua inse ção num g upo de po ugueses le ados, que emig a am pa a o Rio de Janei o na década de 1850. As c ônicas de 1862 saem em 15 de se emb o, 1º e 15 de dezemb o; as de 1863, nos dias 1º e 15 dos meses de janei o a junho e no dia 1º de julho; os poemas publicados são: «Aspi ação» (1º de ou ub o de 1862), «A es ela do poe a» (1º de dezemb o de 1862), «Fascinação» (1º de janei o de 98 1863), «O aco da da Polônia» (15 de ma ço de 1863), «As en oi- nhas» (1º de ab il de 1863) e «Sinhá» (15 de ab il de 1863); o con o é «O país das quime as» (1º de no emb o de 1862). Nessas páginas4, edi adas po Faus ino Xa ie de No ais e equen adas po Camilo Cas elo B anco, Reinaldo Ca los Mon o o, E nes o Cib ão, Ra- malho O igão, en e ou os, Machado egis ou sua condição de esc i o em si uação de colônia e buscou o mas de exp essa essa si uação, deixando em ascunho alguns dos seus u u os esc i os. A p imei a c ônica publicada no pe iódico, da ada de 15 de se- emb o de 1862, começa com um longo p ólogo em om apologal, no qual o c onis a con e sa com sua pena, aconselhando-a a ado a as meias- in as e a não se en ol e «em polêmicas de nenhum gêne o, nem polí icas, nem li e á ias, nem quaisque ou as» (ASSIS, 15 se . 1862: 36). A pena logo desobedece a ins ução, pois o c onis a, de- pois desse p eâmbulo, começa a a a da o ação do o çamen o e do ence amen o ecen e das a i idades da Assembleia Legisla i a. An- es de esco ega de ez no assun o polêmico, suspende-o com no o comen á io i ônico, a i mando se aquela uma «ce imônia sob e a qual nada há que dize » (ASSIS, 15 se . 1862: 37). Em seguida, des ia o assun o pa as as le as e as a es. En e- an o, a descon e sa e os negaceios iniciais já deixa am o lei o de sob ea iso pa a a impo ância das ques ões polí icas do momen o. Machado a a en ão de D. Jaime5, conside ado po ele «o maio acon ecimen o li e á io da quinzena». Ao a a do amo de um descenden e de nob e cas a po u- guesa com uma ilha de Cas ela, sob cujo domínio es á Po ugal, 4 A Biblio eca B asiliana Gui a e José Mindlin em uma coleção comple a d’O Fu u o, que pode se consul ada em h ps://digi al.bbm.usp.b /handle/bbm-ex /2260. Es e pe iódico em uma ca ac e ís ica inusi ada, pois e e uma segunda edição apenas qua o anos depois que pa ou de ci cula . Na coleção exis en e na Biblio eca da Uni e sidade do Po o, em Po ugal, obse a-se que a segunda edição não ap o ei ou os clichês da p imei a. Apa en emen e hou e uma no a composição, uma ez que capi ula es desapa- ecem de uma edição pa a ou a, e as queb as das linhas nas duas edições não coincidem. Eis aí algo a se des endado po u u os pesquisado es: po que o pe iódico, que deixou de ci cula em 1863 po al a de ecu sos, e e uma segunda edição in eg al já em 1867? 5 RIBEIRO, Tomás. P e . An ónio Feliciano de Cas ilho. Lisboa: Typ. da Sociedade Typog aphica F anco-Po uguesa, 1862. 99 o poema e e e-se ambém às ensões ibé icas e se coloca con a a união ibé ica na passagem do século XVI pa a o XVII. Esse an asma da uni icação ha ia sido aco dado po ol a de 1855, po causa da uni icação i aliana em pleno cu so. Assim, as ensões eu opeias e- cen es aziam aco da elhas dispu as. O imenso sucesso do D. Jaime, que se o na ia um di iso de águas na li e a u a po uguesa, ce a- men e elaciona a-se ao a o de aciona a ecla de ap eensões p o un- das dos po ugueses que en ão i iam nos dois lados do A lân ico. Vale egis a a elocidade com que o D. Jaime chegou ao Rio de Janei o: o li o começou a ci cula em Lisboa em agos o de 1862, po an o apenas um mês an es da publicação da c ônica em O Fu u o, o que dá medida da linha di e a e exp essa a liga o Po o e o Rio de Janei o àquela al u a. A ama que p ecedeu sua chegada ce amen e es a a associada ambém ao a o de e saído com um p ólogo assinado po An ónio Feliciano de Cas ilho, que en ão go- za a de mui a nomeada e p es ígio. Na «Con e sação p eambula », que em jun o com a p imei a edição, Cas ilho ap esen a o poema e apad inha seu au o es ean e. Cas ilho põe Tomás Ribei o en e os g andes poe as de odos os empos e la i udes, sucesso di e o de Camões. Chega a suge i que D. Jaime enha a subs i ui Os Lusía- das nas escolas, po eicula alo es cí icos mais condizen es com o empo p esen e do que a epopeia de Camões, que a inal a i ma a al os alo es an igos, do século XVI. Po an o, ao a a do D. Jaime, as páginas d’O Fu u o e a pena de Machado egis a am, a quen e, um dos a os li e á ios que azia em emb ião as g andes con endas en e omân icos e ealis as, que começa am a e men a em Po ugal e poucos anos depois explodi- iam na amosa Ques ão Coimb ã. De a o, a publicação do D. Jai- me, sob os auspícios de An ónio Feliciano de Cas ilho, passa ia a se econhecida pelas his ó ias li e á ias como ma co inicial da «Ques ão do bom senso e bom gos o», polêmica que agi a ia, e di idi ia, os esc i o es e in elec uais po ugueses em meados da década de 1860. De um lado, che iados pelo elho poe a An ónio Feliciano de Cas ilho, que ep esen a a o s a us quo, ligado ao oman ismo pa ió- ico, es a am Pinhei o Chagas, Mendes Leal, Rebelo da Sil a, Tomás Ribei o, Júlio Césa Machado, La ino Coelho; de ou o, em o no 100 dos e olucioná ios An e o de Quen al e Teó ilo B aga, mais com- ba i os e in e nacionalis as, ligados ao oman ismo em suas aízes in e nacionais, es a a Ramalho O igão, que con es ou a opinião de Cas ilho sob e Tomás Ribei o. E a ambém uma espécie de lu a en e a la inidade de endida po Cas ilho e a in luência alemã de endida pelos jo ens de Coimb a, que demoliam odo o passado omân ico po uguês, do qual es a a, al ez, a con ibuição de Ga e . Machado de Assis cla amen e omou o pa ido de Cas ilho, apoiando-o publicamen e. Coloca a-se, po an o, na con amão do que passa a a se is o como eno ação da poesia pelos eno ado es da Ques ão Coimb ã. Pa a além da sin onia ina com o que se passa a na ida li e- á ia do ou o lado do A lân ico, chama a a enção a p eeminência e p io idade dadas po Machado à poesia e à ma é ia po uguesas nessa sua p imei a c ônica d’O Fu u o. Só depois de a a do poema po uguês, a a á da p osa b asilei a lançada ecen emen e, nada menos do que o p imei o olume de As minas de p a a, de José de Alenca , en ão p imei o nome das le as nacionais. Essa hie a quização – an es a ma é ia po uguesa, depois a ma é- ia b asilei a –pa ece se ges o e le ido, já que a mesma disposição se man ém nas c ônicas subsequen es. Alguns exemplos: o comen á io sob e o omance Agulha em palhei o, de Camilo Cas elo B anco, an- ecede o da peça A única de Nessus, de Sizenando Nabuco de A aújo (ASSIS, 15 jan. 1863: 305-308); as e e ências ao José Es e ão: esboço his ó ico, de Jacin ho Augus o de F ei as Oli ei a, e ao omance Luz coada po e os, de Ana Plácido, an ecedem o comen á io sob e a peça de Ma ia Ribei o, Gab iela (ASSIS, 15 ma . 1863: 434-436). Essa o ganização das ma é ias em O Fu u o es á em aco do com o p o undo sen ido de adequação que o esc i o equen emen- e mos ou em elação aos pe iódicos dos quais oi colabo ado . En- e an o, como ambém cos uma acon ece com Machado, e mesmo com esse Machado mui o jo em, a adequação ao en o no em mui os casos podia se maliciosa, ou mesmo sub e si a, na medida em que equen emen e a a a de manei a i ônica e co osi a a ma é ia ci - cundan e, como sabemos que ez nas c ônicas e em mui os con os publicados no Jo nal das Famílias e em A Es ação. Em O Fu u o, 101 que inha como obje i o a ap oximação de li e a os de B asil e Po - ugal, ele az eme gi quase que a cada esc i o algum assun o do passado colonial, des acando as elações en e Po ugal e B asil. Na c ônica inaugu al, po exemplo, o passado colonial é ma é- ia an o do poema de Tomás Ribei o quan o do omance de Alen- ca , cuja his ó ia se passa na Bahia do início do século XVII, am- bém du an e o pe íodo em que a Espanha domina a Po ugal e, po ex ensão, o e i ó io do B asil. Nas c ônicas seguin es, o passado colonial luso-b asilei o es- su ge nas ques ões ace ca da na egação do Amazonas nas egiões de on ei a do Pe u com o B asil, que ensiona am as elações en e o B asil e aquele país, azendo eme gi ixas an iquíssimas6. A p opó- si o das ques ões amazônicas, Machado c ia uma imagem ão pode- osa quan o enigmá ica sob e a condição impe ial: Não é a o aze mos is e igu a nas nossas pendências in e nacionais; anda nis o uma a alidade, que o c ê-lo; a ideia de um impé io engui- çado é menos desanimado a que ou a, ácil de comp eende , e que eu deixo ica anquilamen e no in ei o. As lições do passado se em de espelho ao p esen e e ao u u o, e o nosso eceio é des e modo na u al. (ASSIS, 1 jan. 1863: 266) O echo nos az pe gun a o que se ia a ou a ideia ela i a ao Impé io, mais desanimado a que a do impé io enguiçado, e que o c onis a p e e e cala , deixando-a no in ei o. A ideia de um Im- pé io decaído, decaden e, acassado? E de onde i iam as lições do passado pa a o p esen e e o u u o? De Po ugal? Tudo isso o c onis a deixa es a no in ei o, dizendo pelo não di o, pala as em po ência, em es ado de in a, numa écnica que Machado de Assis le a ia à pe eição em u u os esc i os. Também enigmá ica é a ideia do passado como espelho pa a o p esen e e o u u o. Um passado que pa ece li e almen e eme gi no 6 A espei o das p ojeções do Pe u sob e o e i ó io b asilei o, eja-se boa pa e da ca og a ia dos séculos XVI e XVII, em que o Pe u ocupa a maio pa e do e i ó- io sul-ame icano. Veja-se ambém o que diz Se gio Bua que de Holanda no capí ulo «O ‘ou o Pe u’», em Visão do pa aíso. 102 p esen e, como suge e a c ônica na qual a a da exumação dos ossos de Es ácio de Sá, undado do Rio de Janei o, numa esca ação en ão pa ocinada pelo Ins i u o His ó ico e Geog á ico B asilei o. O c o- nis a mos a-se bas an e inc édulo sob e a au en icidade dos ossos, dizendo que os museus ingleses es ão cheios dessas «an iguidades», con o me e ia decla ado um «ca asco de ilusões» com o qual o c o- nis a pa ece se iden i ica . (ASSIS, 1 dez. 1862: 202-203) O passado colonial su ge ambém nas ep esen ações alseadas dos indígenas obse adas numa isi a à Academia de Belas-A es. Lá, o c onis a desolado com o abandono do luga , encon a, jun- o à ela A p imei a missa no B asil, de Vic o Mei elles, o quad o Pa aguaçu e Diogo Ál a es Co eia, sob e o qual comen a: quis-lhe o pin o espalha pelo co po umas go as, mas ão in eliz se hou- e no abalho, que, azida a igu a ao amanho na u al, icam aque- las go as do amanho de g andes o os, sendo que já o seu aspec o é o de eno mes pé olas; disse a-se que, ao sal a -se no bo e de Co eia, Pa aguaçu ompe a um cola de pé olas que lhe ão olando pelo co po abaixo. (ASSIS, 15 e . 1863: 94) Mais adian e, encon a a es á ua Uma amília de sel agens a a- cada po uma se pen e, de Léon Dep ez de Cluny, na qual ê o mes- mo ipo de mis i icação: «Os animais mo os que jazem no chão são o que há de mais no á el nes e g upo: o mais ou é egula ou also; na o dem do also es á o indígena, cuja ca a com uma le e co eção ica pu o caucasiano» (ASSIS, 15 e . 1863: 94). Como se ê, não é só nos assun os que as ensões eme gem. Nes- sas suas « e lexões sob e ossos e uínas» – a exp essão é do p óp io c o- nis a –, Machado e ela sensibilidade aguda an o pa a as di iculdades de ep esen ação do passado colonial como pa a a inadequação dos modelos, nesse caso modelos pic ó icos – mais exa amen e caucasia- nos –, que não da iam con a de igu a a ealidade ou a his ó ia nem com p op iedade écnica nem com um mínimo de e ossimilhança. A di iculdade e a inadequação es a am indicadas de ou o modo já na p imei a c ônica, em que o c onis a, que começa a em om auspicioso, e mina com uma no a melancólica: «Di o is o po- nho pon o inal a es a c ônica, e passo a alha com a minha pena, 103 que ão espe ançosa me su giu da ga e a, e ão desalinhada e sensa- bo ona se hou e nes as páginas» (ASSIS, 15 se . 1862: 40). O mo imen o aí obse ado, do en usiasmo inicial à du a cons- a ação da al a de assun o, passando pelos emas a se em e i ados, pelos in e di os, desc e e uma aje ó ia comum no conjun o das c ônicas de O Fu u o. O c onis a, à ca a de assun os, mui as ezes exp essa á desânimo em elação à escassez e à necessidade de descon- e sa sob e mui os deles. Dian e desse pano ama, a adoção de expedien es e ó icos, como o da con e sa com a pena, ou o do discu so do ab aço a uni B asil e Po ugal (p opósi o decla ado de O Fu u o), ou o da ans o mação dos ossos de Es ácio de Sá em elíquias, à imi ação do que oco e em ou as pa agens, ou o da ep esen ação alseada dos indígenas, que se- guem modelos que não co espondem minimamen e à expe iência lo- cal, udo isso é ap esen ado pelo c onis a como en a i as de aplicação de modelos pa a p eenche azios ou pa a cons ui silenciamen os. São as á icas di e sionis as de Machado em ope ação, que ele imi a, como suge e numa c ônica, dos p ocedimen os da Assem- bleia Legisla i a, onde «os o ado es cansam-se, ele am-se, lu am, azem p odígios da língua, sob e udo, menos o obje o da discussão» (ASSIS, 15 dez. 1862: p. 235). Mo imen os e ó icos que ele com- pa a aos da sua c ônica: A imagem diminuída, mas ap oximada des e a o anual, que ia eu ac escen a , acha-se nes a pales a de hoje com meus lei o es, na qual pode emos a a de udo, menos do obje o p incipal que nos eúne. Vê o lei o que, apesa de usado po boas au o idades, is o é um luga - -comum pe ei amen e comum. Ti e azão em e ai a pena. [...] Em míngua de no ícias o ja-se, ou enche-se o papel com qualque cousa. (ASSIS, 15 dez. 1862: 235) A al a de assun o ce amen e não em a e com a eal ca ência de assun os – po que ob iamen e a ealidade e a e é semp e as a, p oblemá ica e dinâmica. O jo em c onis a pa ecia pe cebe e dei- xa a ano ado que os assun os não se adequa am e nem cabiam na es ei eza do que e a pe mi ido pelos cos umes polí icos e li e á ios do seu empo e luga , com seus modelos ex uais es i os – e isso 104 aba ca a an o o no iciá io quan o a poesia e o omance, gêne o so- b e o qual Machado az o seguin e comen á io: «O omance, de que emos apenas dois mais assíduos cul o es, os s s. Macedo e Alenca , espe a po no os po que em ainda mui os ecan os não in es iga- dos e al ez on es de boa iqueza» (ASSIS, 15 dez. 1862: 235). Dez anos an es de se lança ao gêne o, o que só oco e ia em 1872 com a publicação de Ressu eição, Machado ano a a as es- ições do omance b asilei o e ambém as suas po encialidades – «mui os ecan os não in es igados e al ez on es de boa iqueza». Na impossibilidade de se , naquela al u a, on almen e comba i o aos modelos, o jo em de apenas 23 anos pa ecia di e i -se com a implosão disc e a e silenciosa dos modelos igen es e com a ci cuns- c ição e exposição dos silêncios e in e di os, quem sabe já an e endo uma saída pa a os ecan os não in es igados. Os esc i os de O Fu u o pa ecem indica que a saída possí el pa a a al a de assun o, e pa a dize melho sem p ecisa dize di e amen e, es a á na icção. Numa das úl imas c ônicas que publicou no pe iódico, mais uma ez a li o com «o des alque de assun o pa a a c ônica des a quinzena» (ASSIS, 1 mai. 1863: 531), Machado ep oduz uma ca a con endo a no ícia de um... omance. A ca a assinada po S., mui o p o a elmen e esc i a pelo p óp io Machado, dá con- a de uma his ó ia in i ulada «Um pa ên esis na ida», da qual oi publicado um agmen o na mesma edição de 1o de maio de 1863 de O Fu u o. O agmen o, que e mina a com uma p o- messa de «Con inua», nunca cump ida, em pa es idên icas às de um con o que Machado publica ia em 1866 no Jo nal das Fa- mílias com o í ulo «Felicidade pelo casamen o»7. Pa a além das coincidências com o «meio con o» publicado em 1863, a eb e que oma a pe sonagem e o es ado limí o e de 7 Du an e mui o empo hou e con o é sia a espei o da au o ia de «Um pa ên esis na ida» e «Felicidade pelo casamen o», que Magalhães Júnio a ibuiu a Machado de Assis, a ibuição não co obo ada po Jean-Michel Massa e Galan e de Sousa. Recen emen e, em Machado de Assis: ex os inédi os em li o, Mau o Rosso az o co ejo dos echos das duas na a i as, mos ando echos e ases igo osamen e idên icas e de endendo a au o ia de Machado, o que pa ece mui o plausí el. 111 em que se assen a a a desc ição de 1872, a ase de 1908 pode se omada como sín ese da imensa gale ia de pe sonagens masculinos machadianos, cujas olubilidades e e sa ilidades inalmen e dissol- em as ca ego ias es anques, incluindo as ca ego ias nacionais. Não há qualque aço de ca ica u a em T is ão, po se po - uguês, algo a íssimo em oda a li e a u a b asilei a. Como oco e na ob a de Machado de Assis de manei a ge al, ambém em elação aos pe sonagens po ugueses, Machado aciona e dissol e os clichês. T is ão, simul aneamen e b asilei o (o g i o é da edição de 1908) e po uguês, apa ece á pa a Ai es como igu a di idida en e o apaz saudoso e cheio de memó ias da e a em que nasceu e o «na u alizado e polí ico». É assim que se e e e a ele ao na a , na en ada de 19 de agos o. Dian e da ala de T is ão «– A gen e não esquece nunca a e a em que nasceu», Ai es comen a: Tal ez o in ui o osse compensa a na u alização que ado ou, – um modo de se dize ainda b asilei o. Eu ui ao dian e dele, a i mando que a adoção de uma nacionalidade é a o polí ico, e mui a ez pode se de e humano, que não az pe de o sen imen o de o igem, nem a memó ia do be ço. Usei ais pala as que o encan a am, se não oi al ez o om que lhes dei, e um so iso meu pa icula . Ou oi udo. A e dade é que o i ap o a de cabeça epe idas ezes, e o ape o de mão, à despedida, oi longo e o íssimo. (ASSIS, 1977a: 128) Mais a de, dian e da suposição de que T is ão é capaz de dis- simula e men i , Ai es az o seguin e comen á io: «– E andam c í i- cos a con ende sob e oman ismos e na u alismos!» (ASSIS, 1977a: 206). Machado de Assis mais uma ez, e ago a pela úl ima ez, já que em poucos meses es a á mo o, ques iona os undamen os e as eses baseados no e iche da o igem, que sus en a am e ainda sus en- am oman ismos e na u alismos. Na con amão de á ios dos seus con empo âneos, omân icos e/ou na u alis as, Machado suge e que a pe ença de um indi íduo em menos a e com a o igem e a na u eza do que com a língua, pensada numa dimensão eminen emen e polí ica: são polí icas as elações que pe mi em, di icul am e in e di am os luxos das pes- soas, das ideias e dos li os mesmo en e luga es que «na u almen e» 112 se iam p óximos. Há embus e na na u alização das elações, calcada na ilusão de pe encimen o en e os de cá e os de lá, de ex ensão en e o cá e o lá, embus e e na u alização que o Memo ial a a de demoli . Vale no a que ambém nes e úl imo omance, como oco - e equen emen e no conjun o da ob a de Machado de Assis, os e mos «na u al», «na u almen e», «na u alizado» são emp egados de manei a i ônica ou no mínimo ambígua. No Memo ial de Ai es são pelo menos 50 oco ências. Assim, quando as elações apa ecem na u alizadas pelo na a- do , isso é acompanhado de uma no a bas an e co osi a, como se obse a nes e echo: A idade, a companhia dos pais, que lá i em, a p á ica dos apazes do cu so médico, a mesma língua, os mesmos cos umes, udo explica bem a adoção da no a pá ia. Ac escen o-lhe a ca ei a polí ica, a isão do pode , o clamo da ama, as p imei as p o as de uma página da his- ó ia, lidas já de longe po ele, e acho na u al e ácil que T is ão ocasse uma e a po ou a. Ponho-lhe, en im, um co ação bom, e comp eendo as saudades que a e a de cá lhe despe a, sem queb a dos no os ínculos a ados. (ASSIS, 1977a: 128-129) À enume ação inicial da o igem, educação, língua e cos umes segue-se em i mo acele ado a sequência do que de a o pa ece e mo ido o apaz: polí ica, pode e ama. Em seguida êm as a enuações, que insinuam o ho o do apaz pe an e «uma página da his ó ia», quem sabe o ho o dian e de uma página da his ó ia b asilei a, ão cheia de páginas ho o osas. O «na u al e ácil» que sus en a iam a opinião de Ai es sob e a decisão de T is ão de ica em Po ugal e na u aliza -se po uguês não êm nada de na u al, na medida em que êm jus amen e depois da enume ação dos a o es his ó icos e polí icos que e iam conco ido pa a a decisão do apaz. Assim, a menção ao bom co ação, ei a no úl imo pe íodo do pa ág a o, ica bas an e ela i izada po odos os mo i os a en ados an e io men e. Com isso, Machado e i a qualque essencialismo da naciona- lidade, deslocando o p oblema pa a os modos de p odução dos dis- cu sos e exe cício do pode , o que equi ale a um deslocamen o do 113 in e esse pa a as dinâmicas in e pessoais e, po an o, pa a elações p op iamen e polí icas. Essa mis u a das azões a e i as com in e esses mui o conc e os ganha exp essão concisa na en ada de 21 de agos o: «a exp essão dos olhos, o a admi a i o e ap o ado , um so iso eimoso, quase cons an e, udo isso alia po um capi al de a e o. Papel-moeda am- bém é dinhei o» (ASSIS, 1977a: 129). «Um capi al de a e o». Condensam-se aí as no as modalidades de elações in e pessoais e as no as dinâmicas do capi al e da emp esa (pós-)colonial que a a essam odas as elações do Memo ial de Ai- es, apon ando pa a ecan os que o omance machadiano passou a in es iga com o máximo de complexidade e o mínimo de mis i ica- ção, con o me anunciado nas elhas páginas d’O Fu u o. Bibliog a ia ASSIS, Machado de (1862) – «Comen á ios da Semana». Diá io do Rio de Janei o, Rio de Janei o, 24 de ma ço. ASSIS, Machado de (1977a) – Memo ial de Ai es. Rio de Janei o: Ci i- lização B asilei a; B asília: INL. [1ª edição 1908] ASSIS, Machado de (1977b) – Ressu eição. Rio de Janei o: Ci ilização B asilei a; B asília: INL. [1ª edição 1872] BAPTISTA, Abel Ba os (2010) – «De inição do mode nismo b asilei- o». In De espécie complicada. Coimb a: Angelus No us, p. 81-94. BOSI, Al edo (2000) – «Uma igu a machadiana». In O enigma do olha . São Paulo: Á ica, p. 127-148. CURVELLO, Má io (1982) – «False e à poesia de Machado de Assis». In BOSI, Al edo e al., o g., Machado de Assis. São Paulo: Á ica, p. 274. FERREIRA, Ca los (1872) – Co eio do B asil. Rio de Janei o, 12 de mai., p.1, apud GUIMARÃES, Hélio de, Os lei o es de Machado de As- sis – o omance machadiano e o público de li e a u a no século 19, 2ª ed. São Paulo: Nankin/Edusp, 2012, p. 272-277. (O) FUTURO. Pe iodico Li e a io (1862-1863). Rio de Janei o: Tipog a ia de B i o & B aga; Tipog a ia do Co eio Me can il, 20 asc. Disponí el em <h ps://digi al.bbm.usp.b /handle/bbm-ex /2260> 114 GUIMARÃES, Hélio de Seixas (2016) – «O pa adigma po uguês nas de inições de Machado de Assis sob e a a e». Re is a de Es udos Li e á- ios, ol. 6. Coimb a: CLP, p. 115-133. Disponí el em <h ps://impac- um-jou nals.uc.p / el/a icle/ iew/2183-847X_6_5> HOLANDA, Sé gio Bua que de (1992) – «O ‘ou o Pe u’». In Visão do pa aíso. 5ª ed. São Paulo: B asiliense, p. 67-107. LIMA, Manuel de Oli ei a (1904) – «O úl imo omance de Machado de Assis». Gaze a de No ícias, Rio de Janei o, 21 no ., p. 1. ROSSO, Mau o (2014) – «Labo a ó io de c iação iccional». In Machado de Assis: ex os inédi os em li o. Rio de Janei o: Academia B asilei a de Le as, p. 39-49. 115 Um esc i o po uguês no Rio de Janei o: os omances his ó icos de A. Dias F ei as Edua do da C uz1 O meu in e esse po A. Dias F ei as su giu po eu e encon a- do, no ace o do Real Gabine e Po uguês de Lei u a, dois oman- ces desse esc i o : A hon a de um caixei o e Amb osina: omance luso- -b asilei o, ambos publicados no Rio de Janei o em 1879. Eu es a a em busca de p oduções de imig an es po ugueses no B asil, uma ez que já ha ia pe cebido a exis ência de um conjun o de «caixei os li e a os»2. A inal, mui os jo ens lusos que se es abeleciam nas cida- des b asilei as, no século XIX, pa icipa am de associações cul u ais da colônia, como o G êmio Li e á io Po uguês no Rio de Janei o, o Re i o Li e á io Po uguês ou ou as de meno epe cussão. Eles de- sen ol iam suas habilidades li e á ias jun o a seus pa es e publica am suas ob as, sob e udo na imp ensa pe iódica, de modo a se des in- cula da isão pejo a i a que a sociedade b asilei a inha sob e eles3. En e an o, eu não sabia nada sob e esse au o , nem mesmo o nome po de ás do A. Cu iosamen e, o olume A hon a de um caixei o az ambém um poema, «Na cinda», comemo ando o nas- cimen o da ilha do esc i o em 1876. O mesmo poema, com al e- ações em alguns e sos, oi publicado no No o Almanach de Lem- b anças Luso-B asilei o pa a 1897 (FREITAS, 1896: 272). Buscas na Heme o eca Nacional Digi al e em si es com li os digi alizados 1 Uni e sidade do Es ado do Rio de Janei o (UERJ). CNPq - Conselho Nacional de Desen ol imen o Cien í ico e Tecnológico. 2 O epí e o é do esc i o po uguês esiden e no Rio de Janei o, J. Coelho Lousa- da, i mão do ambém esc i o An ônio Coelho Lousada que, no pe iódico Album do G emio Li e a io Po uguez no Rio de Janei o, de 1858, publicou o poema in i ulado «O caixei o li e a o», sob e a con usão das duas a i idades dis in as. 3 Pa a comp eende esse mo imen o, sugi o a lei u a do meu a igo «Ob as ão dig- nas de memó ia: os pe iódicos do G êmio Li e á io Po uguês do Rio de Janei o», publicado na e is a Moa a, em núme o de comemo ação aos 100 anos do G êmio Li e á io de Belém (c . CRUZ, 2019). 116 de ca ó ios do Rio de Janei o e egis os pa oquiais po ugueses me le a am à iden i icação do nome comple o do au o e a alguns ou os dados biog á icos. En ão, oi localizado o egis o de óbi o de Na cinda Dias de F ei as Soa es, em 25 de dezemb o de 1899, in o mado po seu pai, An ônio Ra ael Dias Pe ei a de F ei as, po - uguês, ipóg a o. Em seguida, localizei o ba ismo de ou a ilha desse An ônio Ra ael, chamada Amb osina, e me con enci de que se a a a do au o dos dois omances. O esc i o po uguês An ônio Ra ael Dias Pe ei a de F ei as (São Miguel de Caldas de Vizela, Guima ães, 15/02/1849) eio pa a o Rio de Janei o em 1870 (o egis o de seu passapo e em a da a de 07/11/1870), onde i eu a é alece , em sua esidência, na ua Lau a A aújo n.º 94, em 25 de ma ço de 1903. Apesa de se i mão do poe a Domingos Ma ia Dias Pe ei a de F ei as, que se assina a Domingos Dias F ei as (1852-1905), sua ca ei a li e- á ia b asilei a pa ece e sido limi ada: dois omances edi ados no mesmo ano de 1879, no Rio de Janei o, na Tipog a ia e Li a ia de A. T. de Cas o Dias, na ua de Teó ilo O oni n.º 154: Amb osina e A hon a de um caixei o; um olhe im n’O Po o, em 1873, apa- en emen e inacabado e in i ulado A pe dição dos insensa os, sob pseudônimo; alguns poemas dispe sos em jo nais e colabo ações no Almanaque de Lemb anças. A hon a de um caixei o mos ou-se o mais bem sucedido dos seus esc i os. Além da p imei a edição, cujo exempla exis e no ace - o do Real Gabine e, há anúncios de uma segunda edição4, endida e p o a elmen e edi ada pela Li a ia C uz Cou inho, do li ei- o e edi o Jacin ho Ribei o dos San os, na ua de S. José n.º 76, Rio de Janei o, e na ua de S. João n.º 4, São Paulo, e de uma «T a- dução especial», assinada po A. F ei as, no olhe im do pe iódico O Gi a-Sol5, sem se possí el a e igua se es e jo nal oi publicado além do p imei o núme o. O au o ainda publicou, no Co eio do Dia6, 4 C . «Publicações ecebidas». Gaze a de No ícias n.º 11. Rio de Janei o, 11 janei o 1899, p. 2. 5 C . O Gi a-Sol n.º 1. São Paulo, 7 se emb o 1901, p. 4. 6 C . Co eio do Dia n.º 3. Rio de Janei o, 14 no emb o 1880, p. 3. 117 um poema de ês quad as – «A osa e a i gem» –, cuja p imei a es o e é eci ada pela pe sonagem Adelina, no capí ulo XVII do omance A hon a de um caixei o. An ônio Dias F ei as oi ipóg a o, memb o da Impe ial As- sociação Tipog á ica Fluminense7 e desempenhou á ios ca gos no Cen o Tipog á ico T eze de Maio8. Foi p esiden e da Associação de Soco os Mú uos en e os emp egados da emp esa do Jo nal do Comme cio9. Também pa icipou, no B asil, de associações li e á io- -cul u ais, como a Pales a Li e á ia Lau indo Rabelo, undada em 188510 e, como ou os pa ícios seus, do Liceu Li e á io Po uguês11, epe indo o que mui os ou os caixei os li e a os ize am. O omance A hon a de um caixei o, dedicado «à b iosa e nob e classe caixei al», passa-se quase odo en e casas come ciais do Cen- o do Rio de Janei o, en e come cian es, caixei os e suas amílias. Tal ez po o au o se po uguês, de o igem pob e e do Minho, como a maio ia dos imig an es que chega am ao Rio de Janei o, ao longo do século XIX, essa ambien ação enha sido a escolhida. A na a i a começa ap esen ando o pe sonagem p incipal, um apaz de apenas 14 anos – Guilhe me –, que chega a dois dias an es de Po ugal e p ocu a a um pa en e a quem inha ecomendado. Sem o encon a , ele acabou po se acolhido po um come cian e po u- guês, S . F ancisco, sua esposa Josephina, e a ilha de dez anos, Ida- lina. Uma década depois, Guilhe me já ocupa a o luga de p imei o caixei o na casa de F ancisco12. A in iga su ge po mo i o de hon a e ida en e dois emp e- sá ios. O ilho de um a acadis a com mui o c édi o na p aça que ia 7 C . Almanak Laemme pa a 1874. Rio de Janei o, p. 434. 8 C . Re is a Typog aphica n.º 16. Rio de Janei o, 23 junho 1888, p. 4. 9 C . Cidade do Rio n.º 260, Rio de Janei o, 19 no emb o 1888, p. 2. 10 C . O Paiz n.º 137. Rio de Janei o, 19 maio 1885, p. 1. 11 C . Gaze a de No ícias n.º 307. Rio de Janei o, 8 no emb o 1879, p. 4. 12 «Casa», ao longo da na a i a, em o duplo sen ido desses es abelecimen os onde i iam mui os po ugueses no Oi ocen os, a i ma come cial e a esidência do p op ie- á io, no sob ado, onde esidiam sua amília e seus caixei os, «quase semp e ins alados nas águas- u adas ou nos anda es mais al os dos sob ados dos a mazéns ou das lojas» (FREYRE, 2004: 389). 118 a mão da jo em Idalina desde que a conhece a num baile no Clube Ginás ico Po uguês. Mesmo ejei ado pela moça, con enceu seu pai – o S . Felisbe o – a aze a p opos a de casamen o ao S . F ancisco. O p imei o p opôs o ma imônio como um negócio que pode ia sal- a a i ma do pai de Idalina de qualque p oblema inancei o, uma ez que a sua emp esa p ecisa a de c édi o. F ancisco espondeu que consen i ia apenas no caso de sua ilha que e ealmen e a união, sem a o ça , o que deixou Felisbe o o endido. A si uação se ag a a po Idalina e espondido ispidamen e ao pedido. Felisbe o oi i a sa- is ações. Seguiu-se uma sé ie de injú ias en e os dois negocian es a é F ancisco empu a o ou o come cian e pa a o a de sua loja. Pa a se inga de sua hon a e ida, Felisbe o a mou si uações na p aça pa a deixa F ancisco à bei a da alência, p ocu ando adqui i e cob a le as da dí ida do pai de Idalina. Como Guilhe me e a apaixonado pela ilha do pa ão e g a- o pelo acolhimen o que ecebe a, p ocu ou meios de sal á-lo da deson a inancei a. Foi en ão em busca de ou o come cian e po - uguês, o s . San os, pois es e ha ia lhe o e ecido c édi o pa a que ab isse o p óp io negócio. Guilhe me p e endia u iliza esse dinhei- o pa a sal a o pa ão. Pa a su p esa do jo em, San os e elou que es a a mesmo pa a i encon á-lo, pois inha a endido ecen emen e um ico azendei o po uguês que ie a aze comp as na cidade e que, ao con e sa em sob e Po ugal e a saudade que sen iam de suas amílias, es e lhe con a a que há anos p ocu a a um sob inho que inha indo ao B asil. O sob inho e a jus amen e o Guilhe me, a quem o al io – chamado Manoel – ha ia deixado um c édi o de 30 con os pa a emp ega no negócio que quisesse, uma ez que i- nha sido bem ecomendado pelo San os. O jo em acabou emp egando seu capi al pa a comp a uma pa cela da dí ida do pa ão, mas ez udo em seg edo, pois e a apai- xonado po Idalina e emia que o s . F ancisco pensasse que suas ações deco iam apenas do seu in e esse pela jo em e não da g a i- dão pelos anos de bons a os e acolhimen o que i e a. Felisbe o descob iu os ei os de Guilhe me e eceu uma sé ie de a imanhas pa a, mesmo assim, consegui cob a pa e da dí ida do i al, le an- a suspei as des e con a o emp egado po meio de ca as anônimas 119 com in o mações alsas e ainda en ol e o jo em po uguês num escândalo de dinhei o e le as alsos. Na busca incessan e po uma o ma de ajuda em seg edo o S . F ancisco a se li a dos p oblemas inancei os, Guilhe me suge iu a San os que, caso pe gun ado, indi- casse que a maçona ia e a a esponsá el po suas boas ações. No omance, desen ol e-se, en ão, uma discussão sob e essa i - mandade, o emen e de endida po San os, que a conside a a dig- na ealmen e de ajuda pessoas hon adas como o jo em po uguês e seu pa ão, mas que p ecisa ia expu ga i mãos que agiam con a o bem de ou o se humano, como Felisbe o, que e a um memb o impo an e da associação. Esse deba e az ainda mais sen ido po A. Dias F ei as se maçom, inculado à Loja União Escocesa13 e pos- e io men e à loja Amo e O dem14. Com as a mações de Felisbe o, Guilhe me acabou p eso, mas, po so e, o che e de polícia e a Alexand e Joaquim de Siquei a, ap esen ado como aquele que semp e encon a a os e dadei os culpados. Na casa de F ancisco, apenas Idalina, apaixonada po Guilhe me, seguia ac edi ando na inocência do jo em. Ela en ou no an igo qua o do po uguês e encon ou lá as le as esga adas, bem como ca as de Po ugal en iadas pela amília de Guilhe me e um cade no manusc i o onde leu que ele ambém a ama a, mas que se con inha po espei o ao pa ão. O S . F ancisco, ainda abalado com as no ícias, e i ou-se com a amília pa a a oça. O che e de polícia ambém descon iou de an as denúncias con a o caixei o e in es igou udo a é descob i que Felisbe o e a o e dadei o alsi icado e que agi a po ingança. O io de Guilhe me ol ou à capi al com a amília quando o sob inho es a a pa a se sol o. Hou e uma ecepção es i a na p isão, com á ios come cian- es e suas amílias, seguida de um almoço no qual á ios con i as, sob e udo po ugueses, inci a am Guilhe me a pedi a mão de sua p ima Amélia em casamen o. Ainda no Rio de Janei o, o jo em conco dou com a ideia, uma ez que não conseguia descob i pa a 13 C . Bole im do G ande O ien e do B asil n.º 9. Rio de Janei o, 1876. 14 C . Bole im do G ande O ien e do B asil n.º 4. Rio de Janei o, 1892. 120 onde o S . F ancisco ha ia se e i ado e não se acha a à al u a do ma imônio com Idalina. Ele seguiu com seu io e amília pa a a azenda em Minas Ge ais, enquan o co iam os p oclamas do seu enlace com Amélia. F ancisco ha ia se ecolhido em uma azenda ambém em Minas, coinciden emen e izinha daquela onde es a a Guilhe me. Idalina con inuou en ando con ence seu pai da inocência do an- igo caixei o, mas F ancisco só ac edi ou em suas pala as quando ela ju ou que não ama a o apaz, nem pensa a em se casa com ele. A moça, is e, imaginando epe idamen e o encon o com o ama- do, iu, em meio a um bosque, Guilhe me, que lhe e elou que ia se casa com Amélia. Idalina icou doen e de is eza. Amélia es a a enciumada e p eocupada com mudanças em Guilhe me sem sabe o mo i o, a é que o su p eendeu com um bilhe e de F ancisco pedindo ao apaz pa a i isi a Idalina que es a a p es es a mo e e que, deli ando, epe ia o seu nome. Amélia oi a ás do noi o e, jun o ao lei o de Idalina, dispensou o p imo do comp omisso pa a que ele e Idalina ossem elizes. A jo em se es abeleceu e eles se casa am. O omance e mina anunciando que alguém implicado em acusações de alsi i- cação, p es es a se p eso pela polícia, suicida a-se. Há, na na a i a, uma sé ie de pe sonagens p a icamen e igu- an es, ou com uma única ala, ou os caixei os e come cian es, que pode iam bem se omados ambém como po ugueses, mas cuja o igem não é e e ida. É ambém omi ida a nacionalidade da esposa de F ancisco e de ou os come cian es. O mesmo acon ece com a de Felisbe o. Como a imig ação de po ugueses na época e a p edomi- nan emen e de jo ens apazes, que se casa am com b asilei as, não é possí el a i ma se po uguesa a S a. Josephina. Po ou o lado, mesmo sendo um negocian e como os ou os, po se o an agonis a da his ó ia e po não ha e nenhuma e e ência explíci a à naciona- lidade, supõe-se que Felisbe o seja b asilei o. Assim, no omance, os po ugueses apa ecem como pessoas hon adas que en iquecem de seu p óp io abalho no comé cio ou em in es imen os, depois de chega em bem jo ens, pob es, is es e com ome ao B asil. 127 assassino de sua mãe, acabou mo o pelo sal eado , que não espei- a a as eg as ca alhei escas que le a am Domingos a p opo duelo con a Ha milhazes pela hon a da amília. Ao inal, Amb osina se casou com An ônio. Sancho icou su p e- so e eliz ao e chega o sob inho i o. O médico en egou ao apaz, como do e, a p omissó ia da dí ida de ezen os con os, e e en e ao a o que ize a com o mo gado e um documen o indicando An ônio como seu he dei o. O ilho mais elho de Amb osina e An ônio c es- ceu conscien e de que sua he ança se ia epa ida pelos i mãos. Esse omance, com en edo um an o quan o ocambolesco, ípico de olhe im, ap esen a uma es u u a cu iosa. A p imei a pa - e assemelha-se a um omance omân ico no qual os jo ens p o a- gonis as não podem ica jun os po uma imposição social, no mal- men e de cunho inancei o. O lei o é le ado a c e , ao inal dessa pa e, que An ônio não mo e ia, emig a ia pa a o B asil e ol a ia pa a desposa Amb osina, com dinhei o conquis ado pelo abalho no no o país ou com o que o médico ecebe ia de Sancho pelo pac- o deco en e da sua supos a mo e. A segunda pa e, po sua ez, começa como um omance policial ípico do inal do século XIX, com algumas ca ac e ís icas de na u alismo gó ico. Po um lado, az passagens cien i icis as, já anunciadas no inal da p imei a pa e, numa con e sa en e Sancho e o médico sob e os e ei os da mo ina e desen ol idas na análise do co po de deli o e no inqué i o policial e ju ídico pa a a descobe a do assassino e da iden idade do cadá- e . Po ou o, ap esen a inúme as cenas no u nas, homens embu- çados, encon os às somb as, pe seguição, espionagem e assassina o. No en an o, Dias de F ei as não oi capaz de segui es e modelo a é o inal, esol endo pa e da in iga a a és do na ado e e minando o omance com casamen o e inal eliz. Quan o aos acon ecimen os iolen os e ao ca á e du idoso de alguns pe sonagens, o na ado sen iu-se na ob igação de uma explicação, pois essas coisas acon ece iam em qualque luga , mesmo em Po ugal: O lei o há de acha as cenas que es ou desc e endo pouco p óp ias dum omance po uguês, onde a na u alidade é um dos p incipais p e- 128 cei os do omancis a. Decla o ao lei o que e e i amen e sin o-me sob e b asas, mas não é po julgá-las pouco po uguesas, pois essa nesga de e a que ex ema ao sul a península Ibé ica, esse pequeno pon o que mal se di isa numa ca a geog á ica, endo uma his ó ia glo iosa como nação nenhuma, depois de e dado lições ao mundo, em uma socie- dade ão cheia de i udes ou de c imes, o diná ios ou ex ao diná ios como ou o qualque eino ou impé io; sin o-me sob e b asas po me e ob igado a e de desc e e a os que ho o izam po qualque lado que sejam enca ados. (FREITAS, 1879b: 103). Apesa de nenhum pe sonagem chega a i ao B asil, é pos- sí el pe cebe , na ala de alguns, o que se pensa a sob e os po u- gueses que iam esidi na ex-colônia. Em p imei o luga , essal a a ideia de que o B asil se ia um luga pa a se ganha dinhei o. An- ônio p e endia emig a po esse mo i o, pensando em i p ocu a um io ma e no «que goza ama de ico» (FREITAS, 1879b: 50). O mesmo acon ece a com o i mão do médico, que ica a «adinhei- ado» (FREITAS, 1879b: 128). Po ou o lado, a p opos a de se o B asil um des ino possí el pa a Domingos, quando odos ainda o conside a am um assassino, mos a que a emig ação ambém se ia uma o ma de ugi da jus iça, le an ando dú idas sob e o ca á e de alguns po ugueses que a a essa am o A lân ico, al ez po isso a necessidade da explicação do au o sob e ícios e i udes. A ecepção de Amb osina oi ainda meno do que a do ou- o omance. Sabe-se, con udo, que o li o oi o e ecido como p ê- mio, «um belo omance», ao encedo duma cha ada publicada no Co eio do Dia n.º 8 (Rio de Janei o, 19 dezemb o 1880: 3)21. O pe- iódico Cea ense, de Fo aleza, comunica que «com es e í ulo [Am- b osina] publicou o S . A. Dias F ei as um omance que oi edi ado pelos S s. A. Pon es & Y u i, do Rio de Janei o» (Cea ense n. 198. Fo aleza, 16 se emb o 1881: 2). Como esses não são os edi o es do olume consul ado no Real Gabine e Po uguês de Lei u a, ou hou e um e o na in o mação do jo nal do Cea á ou, dado que a no ícia saiu dois anos depois da p imei a publicação do omance, 21 C . Co eio do Dia n.º 9. Rio de Janei o, 26 dezemb o 1880, p. 4. 129 e á ha ido uma segunda edição de Amb osina, al como acon eceu com A hon a de um caixei o. Duas cu iosidades acompanham os olumes publicados po Dias F ei as. A p imei a é a ques ão do espaço pa a esc e e . Tan o em A hon a de um caixei o quan o em Amb osina, quando o li o es á se ap oximando do im, o na ado indica ao lei o que es á acabando o papel e que p ecisa adian a a na a i a, como acon ece no capí ulo XV, no qual ele p ecisa ainda da con a do que acon e- ceu com Domingos. Sem consegui liga na u almen e esses acon e- cimen os, o na ado desmon a o p ocesso de e i esco e, ompendo com o suspense, explica: «Não podemos despe diça espaço, mas da emos oda ia ao lei o uma sucin a in o mação desse luga e des- sa quad ilha» (FREITAS, 1879b: 203). A segunda é mais uma ez a p eocupação com os nomes dos pe sonagens. Em Amb osina, uma no a sob e o «Ba ão de Esca elhos» elucida a ques ão. O au o expli- ca que começa a um omance em olhe ins e de a a uma pe sona- gem um nome idalgo – Conde de Ro iz –, sob enome que igno a a ha e nas p oximidades de Guima ães. A pa i dessa in o mação oi possí el localiza um e cei o omance de Dias de F ei as; o olhe im A pe dição dos insensa os, publicado n’O Po o, em 1873, sob o pseudônimo Ona ino Said, anag ama de An ônio Dias. T a a-se ambém de um omance his ó- ico, ambien ado no no e de Po ugal, em 1828, pouco depois de D. Miguel e e o nado ao país e assumido o pode como ei abso- lu o, pe seguindo os libe ais. Dele o am publicados apenas dois ca- pí ulos. Como o na ado op ou po aze a ação se desen ol e nos a edo es de Guima ães, p óximos a Vizela, são ci ados alguns e sos sob e a egião, incluindo os do li o Inspi ações do Vizela (1871), de Domingos Dias F ei as (1852-1905), i mão do esc i o . Embo- a só enha sido possí el localiza o início do olhe im, pe cebe-se que ele na a ia uma sé ie de amo es p oibidos: o de Albe o com F ancisquinha; o de Ma celino com Izabel; e o do Conde de Ro iz com Ma ga ida. É ambém uma na a i a his ó ica com c imes e mis é ios, com um pe sonagem esponsá el po gua da seg edos, c ia in igas e alsi ica documen os e p o as, o abelião Sil ei a. 130 Esse é um modelo que Dias F ei as ep oduziu, mais a de, em Amb osina e em A hon a de um caixei o. Apesa de a his ó ia se localiza em Po ugal, num empo bem de inido, o na ado explica que isso não é impo an e, pois as do es, as a lições, as desg aças, e os gozos, as aleg ias e as en u as que se depa am nos con os, se não êm em si o p es ígio de c ia in e esse no lei o , não é a na u alização que se lhes dá que ai sup i essa al a. Passados na Amé ica ou na Eu opa são semp e con os, coisas de omance. (O Po o n.º 6. Rio de Janei o, 8 no emb o 1873: 2). Como o p óp io au o explica, é possí el a i ma que pouco impo a o espaço da na a i a na a ibuição da «nacionalidade» do omance. An ônio Dias F ei as, ao que udo indica, apesa de e nascido em Po ugal, desen ol eu sua ca ei a li e á ia no B asil, des inando seus esc i os pa a lei o es b asilei os ou po ugueses imi- g an es. A ecepção c í ica de seus ex os oi ambém ela b asilei a. Não é, po an o, di ícil de explica o «luso-b asilei o» no sub í ulo de Amb osina, que ambém pode ia se o de A pe dição dos insensa os. Apesa de as his ó ias se passa em em Po ugal e se em esc i as po um au o nascido em Caldas de Vizela, sua composição oco eu no B asil e nes e país oi publicado e lido. Impo an e, ambém, essal a que, apesa de segui em o mo- delo do omance his ó ico, pode-se no a cla amen e uma isão de masculinidade já a as ada do ideal do An igo Regime e mais p ó- xima da isão bu guesa. A «hon a» do p imei o omance es á in i- mamen e elacionada com o p es ígio na p aça, uma ques ão inan- cei a, bem dis an e da o ça da espada. Além disso, em Amb osina, o modelo de manu enção dos ínculos é a causa do con li o, esol- ido com a o ma mode na de dis ibuição da he ança. Inclusi e, Domingos acei ou não e esol ido a ques ão de hon a com as p ó- p ias mãos depois que seu duelo com Ha milhazes e sido impac- ado pela in omissão de José das Fu nas. E a iolência de algumas ações é du amen e c i icada pelo na ado . Au o , po an o, de ês omances his ó icos e de alguns poemas, A. Dias F ei as oi esquecido pela his o iog a ia li e á ia. 131 O pouco econhecimen o e á sido ob ido apenas po seu he ói épico: Gilhe me, o hon ado caixei o po uguês emig ado pa a o Rio de Janei o. Es e jo em caixei o po uguês segue o modelo de hon a do pe sonagem Eu ico na enúncia inicial ao seu amo pa a sal a a hon a inancei a, sua e de seu pa ão. No en an o, é uma masculinidade bu guesa que se pe cebe de endida nos omances de Dias F ei as, sem impo a se a sua ambien ação é em Po ugal ou no B asil. Des aca-se, con udo, nos dois li os publicados, a alo i- zação dos pe sonagens po ugueses e uma isão do B asil como luga de opo unidades. Bibliog a ia CRUZ, Edua do da (2019) – «Ob as ão dignas de memó ia: os pe- iódicos do G êmio Li e á io Po uguês do Rio de Janei o». Re is a Moa a, n.º 52. Belém, jan.-jul. Disponí el em h ps://pe iodicos. u pa.b /index.php/moa a/a icle/ iew/7809. FREITAS, A. Dias de (1871) – «A Fu na dos moi os». 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SAID, Ona ino [A. Dias F ei as] (1873) – «A pe dição dos insensa- os». O Po o: hebdomadá io do Clube Li e á io Qua o Es ado n.º 9. Rio de Janei o, 29 no ., p. 2-3. SAID, Ona ino [A. Dias F ei as] (1873) – «A pe dição dos insensa- os». O Po o: hebdomadá io do Clube Li e á io Qua o Es ado n.º 10. Rio de Janei o, 6 dez., p. 2-3. SAID, Ona ino [A. Dias F ei as] (1873) – «A pe dição dos insensa- os». O Po o: hebdomadá io do Clube Li e á io Qua o Es ado n.º 11. Rio de Janei o, 13 dez., p. 2-3. SAID, Ona ino [A. Dias F ei as] (1873) – «A pe dição dos insensa- os». O Po o: hebdomadá io do Clube Li e á io Qua o Es ado n.º 12. Rio de Janei o, 20 dez., p. 2-3. 133 SANTOS, J. dos (1899) – «Ch onica li e a ia». A No ícia n.º 17. Rio de Janei o, 20 jan., p. 2. SISSON, Sebas ien Augus e (1861) – Gale ia de b asilei os illus es (os con empo aneos). Re a os dos homens mais illus es do B asil, na poli ica, sciencias e le as, desde a Gue a de Independencia a é os nossos dias, copiados do na u al e li hog aphados po S. A. Sisson acompanhados das suas espec i as biog aphias. Publicada sob a p o ecção de Sua Mages ade o Impe ado , ol. II. Rio de Janei o: Li hog aphia de S. A. Sisson edi o . 135 Mis é ios po ugueses no B asil: a Gi ândola de Aluísio Aze edo And eia Al es Mon ei o de Cas o1 No Oi ocen os, os cen os u banos se consag a am não só como o luga do p og esso e da opo unidade, mas ambém da de- so dem e da insegu ança. Nes e ambien e, a igu a do c iminoso se delineou e ganhou g ande des aque e o c ime se o nou mo i o de cons an e p eocupação e de in ini a cu iosidade. A popula ização da imp ensa ambém con ibuía pa a isso. Os jo nais no icia am os acon ecimen os mais ex ao diná ios ou mais iolen os, de o ma omanceada, o e ecendo aos lei o es uma g ande dose de isco, de pe igo iminen e, de ulne abilidade. Pa a Rosa Ní ea Ped oso, a popula idade do ai di e s es a ia elacionada a sua ca ga de an asia, de impac o, de a idade e de espe áculo, que p o oca a «uma ênue sensação de algo i ido no c ime, no sexo e na mo e» (PEDROSO, 2001: 106). As uas, ão ameaçado as pa a a «boa sociedade», e am peças undamen ais na es a égia de sob e i ência pa a aqueles que não inham um modo ce o de ida (c . PECHMAN, 2002: 309). Desse modo, o su gimen o da «cidade g ande» impingia aos go e nos a necessidade de in e i no espaço, no ma izando a socie- dade e o denando a ida: uma «exis ência con olada e desna u ali- zada» (BENJAMIN, 2000: 38). Nesse pe íodo, a cidade se o na a al o de uma e e i a egula ização, que p ocu a a con ola dos g an- des aos pequenos de alhes da ida social e do co idiano das pessoas. O « e inamen o dos cos umes» e o «deco o» unciona am como medidas pa a ga an i a ha monia e o o denamen o social. O «go e no de si» se con igu a a como uma e dadei a é ica com- po amen al, se indo como mais um elemen o da ascensão so- cial. Ce os impulsos e desejos de e iam se e eados a odo cus o. 1 Uni e sidade Es adual do Rio de Janei o (UERJ) 136 Des ios e/ou descuidos e am comba idos, no mínimo, com a exe- c ação pública dos «in a o es». En e an o, ha ia pessoas que, po mo i os de na u eza a ia- da, de a o, não conseguiam se encaixa nesse o denamen o u bano: p os i u as, maland os, la ápios, ó ãos, enjei ados, lad ões, assassi- nos, e c. Os « ipos humanos» o mados na cidade chama am a a en- ção de quem inha po o ício a esc i a. Se as no ícias emp ega am a i ícios li e á ios pa a conquis a o lei o , o con á io, igualmen e, oco ia com equência. Mui os esc i o es de icção pa i am de impac an es acon ecimen os di ul- gados na imp ensa pa a desen ol e ou inc emen a os seus en edos, que ambém passa am a se di undidos nos jo nais. De aco do com Alessand a El Fa (2004: 113), embo a, de al- guma o ma, es e ipo de omance ea i me a impo ância de alo es mais ca os pa a aquela sociedade, como o eca o, o casamen o e a amília, nos seus momen os de maio ação, cu iosamen e, odos es- ses p ecei os pe dem sua e icácia e i am pelo a esso, despe ando sensações em quem lê. O « omance de sensação», mos a a in enção de «subme e os lei o es a expe iências es anhas, su p eenden es e con usas», a im de «en ol ê-los em uma caçada men al pela solução de um mis é io, em ez de induzi-los à con emplação elaxada do desen ola de uma ação» (SKILTON, 2012: XX). Mui os lei o es da época acaba am po es ingi unicamen e aos jo nais o seu in e esse de lei u a, po se um meio de comunicação mais ágil, não demons ando o mesmo empenho pela lei u a de li os, mais equin ados e de di ícil acesso. Sob e is o A nold Hause a i ma: O omance em olhe ins signi ica uma democ a ização sem p eceden es da li e a u a e uma quase comple a edução do público lei o a um só ní el. Nunca uma a e oi econhecida ão unanimemen e po camadas sociais e cul u ais ão di e en es e ecebida com sen imen os ão seme- lhan es. (HAUSER, 2003: 743). Des e modo, o omance de olhe im possibili a a que o lei o comum conhecesse á ias ob as li e á ias – e a um p eço eduzido – 143 Olímpia e a de e minada e iú a Júlia Gu ie ez. O jo em, que se dizia epublicano e abolicionis a, mas, que, na p á ica, se ba ia mes- mo em nome das libe dades de seu co ação, não é o único po uguês a expe imen a , a al gi ândola de amo es, a qual o í ulo da segunda edição do omance menciona. Leão Ve melho, «pai o icial» de G egó io e de a o de Clo in- da, e a casado com Cecília em Po ugal e com Helena no B asil. O ma inhei o, que es a a de passagem no Rio de Janei o com o in- ui o de chega ao Rio da P a a pa a mui o luc a com o comé cio de gêne os de p imei a necessidade e obje os de uso ulga nas inchei- as da Gue a do Pa aguai, se en ol e com a b asilei a e com ela em uma ilhinha, pensando nunca mais em e o na a sua e a na al. No en an o, a si uação judicialmen e ilegal e socialmen e indeco osa de Leão Ve melho é descobe a, e, pa a não esponde po seus a os, ele alsamen e mo e no B asil e enasce como o abas ado João B asilei o em Po ugal, sem nunca mais e con a o com Cecília ou Helena. As múl iplas elações amo osas de G egó io e a bigamia e o pos e io abandono das duas amílias come idos po Leão Ve melho pode iam esul a em um elacionamen o inces uoso, caso o apaz não osse, na e dade, ilho de Ped o Rui o, «co po de deli o» do es up o que Cecília so e a an es do casamen o com o ex-capi ão da ma inha po uguesa. A iolência sexual, a bigamia e o inces o, que podem se en- ca ados como luga es comuns nes e ipo de omance, ao se em azidos à baila, ine i a elmen e, p o ocam uma e lexão sob e a con o mação das amílias b asilei as naqueles idos. Imig an es que pe co iam odo o e i ó io do país, que equen emen e a a essa- am o A lân ico, que, como Gilbe o F ey e apon a em Sob ados e mucambos (1936), po ezes, expe imen a am uma conjugalidade sem ínculo, abandonando e, a é mesmo, desconhecendo a sua p o- le ou que man inham duas amílias, uma aqui e ou a em seu país de o igem, ce amen e, não da am chances pa a que meios-i mãos omassem conhecimen o de sua si uação e assim se econhecessem. Des e modo, longe de se em pu a icção casos inces uosos e am eal- men e uma p eocupação pa a quem pensa a sob e a con igu ação da sociedade b asilei a, es ão, po exemplo, em Rosau a, a enjei ada 144 (1883), de Be na do Guima ães e no con o O especialis a (1969), de Lima Ba e o. Ademais, em Mis é io da Tijuca, o ideal da amília bu guesa, al ez denunciando que aquela não e a a ealidade de boa pa e dos b asilei os, não se aplica a quase nenhum caso. Em odo o oman- ce, somen e um g upo amilia ilus a al pad ão com pe eição. A amília elegan e, e inada, aus e a e po uguesa do meio i mão de Cecília, o Conde de São F ancisco. O la do conde, de sua esposa Ma ga ida e de sua ilha Ma ia Luísa é ca ac e izado como um em- plo. Na calma daquela casa, a cena mais signi ica i a é a do Conde no esc i ó io de abalho, obse ando a condessa sen ada jun o à mesa, lendo um g osso olume de capa azul à luz elada de um candeei o de alabas o, ao lado da ilha que, em uma cadei a mais baixa, bo da a, oda p eocupada com o seu abalho. Essa cena é ão a a na ob a que chega a causa o e imp essão no p o agonis a que passa a sonha pa a si aquela exis ência. De al modo que G egó io, ao oma conhecimen o da sua e dadei a si uação, ilho na u al do acino oso Ped o Rui o e sem di ei o à he ança do p e enso pai que lhe ab i a ecen emen e as po as pa a aquele mundo no o, acaba po se suicida . Já em elação aos casos de ascensão e iginosa de alguns magna as da inança e do comé cio, seguindo ainda o as o luso- -b asilei o, emos o caso do comendado Fe ei a, po uguês, e o comendado Po ela, b asilei o, ambos an igos simples caixei os que en iquecem a pon o de pode comp a um í ulo de nob eza. Essa p ospe idade inancei a se de e não apenas ao abalho du o, não esul a da me i oc acia, é, sob e udo, o iunda das elações es- cusas com capi alis as e polí icos in luen es, a quem, a odo empo e de odo modo, p es am e de em a o es. Como a i ma Mé ian, o compo amen o dos comendado es ambém é, ao seu modo, egido pela iolência, pois, se ia equen emen e «di ado pela on ade de des o a das us ações e dos exames que i e am de aguen a na época em que e am obscu os esc i u á ios» (MÉRIAN, 2013: 442). A a és dessas duas pe sonagens, Aluísio Aze edo ilus a algumas noções que, ainda hoje, azem pa e do senso comum, de que a al a 145 de esc úpulos, a desones idade e a é mesmo o c ime e am os meios mais usados pelos pode osos pa a aumen a em as suas o unas. Os dois bu gueses no abilizados, além de dispu a em as opo - unidades de negócios líci os e ilíci os, suges i amen e, ambém dis- pu a am os amo es da mesma mulhe , Te esa e a esposa de Fe ei a e aman e de Po ela. Se o co po eminino e a en endido como e i ó- io, é signi ica i o que, naquele momen o, se es abeleça al con enda en e um elho po uguês e um jo em b asilei o. Assim como az com o es up o, com a bigamia e com o inces o, no omance, o caso de adul é io pa ece apon a que Te esa, moça pob e p a icamen e endida pelo pai a um homem que lhe pa ecia epulsi o, é mais í ima do que culpada daquela si uação. Aluísio Aze edo ainda coloca nas pala as da adúl e a a única solução pos- sí el, mas ainda ju idicamen e inexis en e e socialmen e ep o ada, pa a aquele ipo de impasse, o di ó cio: Não é de mim que me enho de queixa ; é do senho que nunca de ia e sido meu ma ido; é de meus pais que consen i am nes e casamen o imo- al e dispa a ado; é da sociedade que não sabe aze jus iça a ninguém; e é inalmen e das leis que não nos acul am o di ei o de des aze -nos lici a- men e de um ma ido, quando es e nos sai e ado e se o na incompa í el conosco (AZEVEDO, 1882: 152). Te esa em o mesmo inal dado a quase odas as pe sona- gens emininas do Mis é io da Tijuca, assim como Cecília, Helena, Clo inda, Olímpia e Júlia Gu ie ez, ambém é abandonada po aquele que lhe ju a a amo e e no. O comendado Po ela que, en- iquecia in es indo o dinhei o alheio, não podia e o nome man- chado po um escândalo do ipo. Quando pe cebe que o caso adul- e ino o a descobe o e que a aman e não e ia mais se en ia, ele planeja a que Te esa en enenasse o ma ido, não só o li ando do ad e sá io come cial, mas somando a sua iqueza a dele, se des az da massada que se o na a aquele elacionamen o. Unindo odas as pon as do omance, é possí el pe cebe que aos homens e a possí el mig a , iaja , ugi , deixa mulhe es e ilhos pa a ás, sem a ependimen os, sem cob anças, sem culpa. Como 146 Te esa a i ma ao se deixada pelo aman e b asilei o e pelo ma ido po uguês, mesmo nessa si uação, eles não deixa am de equen a suas elações, de joga seu ol a e e, de ou i o seu bocado de música em casa dos amigos, de e , às mãos, a chá ena de chá como d’an es, con inua am espei ados, ou idos e galan eados pela sociedade. Longe de se luso óbico, se con on ado com a ealidade his- ó ica do país, o e a o açado pelo nosso g ande ca ica u is a da adicional amília b asilei a dos oi ocen os, eple a de po ugueses de a o e não no papel, não é assim ão an asioso e olhe inesco. Anexo: Manuel Congo. Gale ia dos Condenados. B asiliana Fo og á ica (FBN) 147 Bibliog a ia ALENCAR, José de (2008) – «Ca a a Machado de Assis de 18 de e e ei o de 1868». In ASSIS, Machado de. Co espondência de Machado de Assis, omo I: 1860-1869. Rio de Janei o: Academia B asilei a de Le as. AZEVEDO, Aluísio (1882) – Mis é io da Tijuca. Rio de Janei o: Folha No a. 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B uxelles: Meline Cans e Compagnie. 149 Me a ísicas da e dade: um machadiano capí ulo inédi o do pomadis a Fe não Mendes Pin o Ca los Paulo Ma ínez Pe ei o1 ...se uma coisa pode exis i na opinião, sem exis i na ealidade, e exis i na ealidade, sem exis i na opi- nião, a conclusão é que das duas exis ências pa alelas a única necessá ia é a da opinião, não a da ealidade, que é apenas con enien e... Machado de Assis Como pode obse a acilmen e qualque a isado (e a en o) lei o da ob a machadiana, po ia de eg a, a p esença das pe so- nagens po uguesas nas suas di e sas ob as é mui o – mas mui o – escassa. No en an o, po assim dize , a sua p esença in absen ia e- sul a ela i a e pa adoxalmen e no ó ia, dada a ingen e enciclopédia cul u al que possui e de que usu ui Machado de Assis, a a és das epe idas e e ências e alusões à his ó ia e à cul u a po uguesas – mul iplex e a ia, e não apenas à p eponde an e somb a da li e a u- a clássica e omân ica (e, em conc e o, de Camões e o camoniano). Não de ou a manei a acon ece com os di e sos esc i os coli- gidos em Papéis a ulsos que, como ad e e o au o em ou ub o de 1882, ano em que se publica po p imei a ez esse olume, pode le a a pensa que apenas são «con os e não con os» a ulsos, po desconexos, e que não são uni á ios, po di e sos... E, com e ei o, a i ma, em modo machadiano, que «A e dade é essa, sem se bem essa» (ASSIS, 2008: 236) – coisa, aliás, que pode íamos aduzi po uma algo menos pa adoxal ca a e ização ab angen e de «unida- de na di e sidade», eunindo uma amálgama de discu sos c í icos e modos di e sos, mas com linhas ansi i as e ecíp ocas de elação. 1 Uni e sidade da Co uña. 150 A p esença dessa discu si idade esul a no ó ia e di e si icada, pois, en e ou os possí eis, o a se e es e de eo é ico-mo al ou de in en- ção iden i á ia (a espei o da pessoa e/ou, pa abolicamen e, da nação b asilei a), o a adqui e um om sa cás ico- ilosó ico ou um acen- uado jei o humo ís ico-pa ódico, semp e ingido de um elegan e ce icismo i ônico – ce icismo diminuído e i onia aumen ada, em não poucas ocasiões, na e dade, pois, como (bem) a i ma a Philip Ro h a es e espei o: Ele [Machado de Assis] é um g ande i ônico, é um comedian e ági- co. Em seus li os, nos momen os mais cômicos, ele ep esen a o so i- men o azendo-nos i . Como Becke , que é i ônico com o so imen o. Ele p o oca compaixão no lei o , mas seu co e é du o e p eciso (ROTH, 2008: s.p.). Mas, a inal, no lúcido e lúdico magma iccional desses «pa- péis a ulsos» – ma non oppo –, qual é o papel das pe sonagens po uguesas? Na e dade e como e a de espe a a causa do a é ago a comen- ado, cons a a-se que dos eze ex os do olume, apenas em dois há e e ências a Po ugal e aos po ugueses e, apenas em «O seg edo do bonzo», de que logo ala emos em conc e o, há ealmen e pe - sonagens po uguesas. Não há, po an o, e e ências «po uguesas», nas dez na ações seguin es: nem na «Teo ia do medalhão», em que, cé ico e desabusado, Machado esboça a i ônica g andeza «dessa a e di ícil de pensa o pensado» (ASSIS, 2008: 272) num ágil diálogo en e um pai e um ilho; nem na «Chinela u ca», com as des en- u as e os « enômenos espan osos» do bacha el Dua e, p o ocados pela impos a (e inopo una) lei u a do mau li o de « oman ismo desg enhado» (ASSIS, 2008: 277), do majo Lopo Al es; nem nos e sículos pa ódicos de «Na a ca. T ês capí ulos inédi os do Gêne- sis», em que os ilhos de Noé discu em pela e a a epa i após o di- lú io; nem nos qua o capí ulos de «D. Benedi a. Um e a o»; nem n’«O anel de Políc a es», com o seu diálogo do se e do pa ece do ansmu ado e eimosamen e cíclico anel; nem n’«O emp és imo» minguan e, conseguido do abelião Vaz Nunes po um con o mis- a Cus ódio que « inha o a o das ca ás o es» (ASSIS, 2008: 313); 151 nem n’«A se eníssima epública (Con e ência do cônego Va gas)», comunicando a descobe a de «uma espécie a aneida que dispõe do uso da ala» (ASSIS, 2008: 318); nem no dis o cido episódio espí- i a d’«Uma isi a de Alcibíades. Ca a do desemba gado X... ao che e da polícia da co e»; e ambém não, inalmen e, em «Ve ba es amen á ia», onde, da mo e ao nascimen o, assis imos à his ó ia de Nicolau, um homem de posses de compo amen o pa ológico e, como B ás Cubas, com g ande «desejo de nomeada». Po ou o lado, nos con os dispos os em p imei o e décimo p imei o luga , há menções a po ugueses e e e ências po uguesas. Nessa ímpa sá i a desc ida e desc en e da ciência e do posi i ismo que é «O alienis a» – onde as e e ências po uguesas ão edi icando a p esença de Po ugal como imagem de undo e e encial de um B asil colônia que, como e e imos, não apa ecem em «Ve ba es a- men á ia», apesa de os acon ecimen os ansco e em en e 1787 e 1855 – emos: (1) pa a quali ica hipe bolicamen e o p o agonis a, o D . Simão Bacama e, já no início da no ela: As c ônicas da ila de I aguaí dizem que em empos emo os i e a ali um ce o médico, o d . Simão Bacama e, ilho da nob eza da e a e o maio dos médicos do B asil, de Po ugal e das Espanhas. Es uda a em Coimb a e Pádua. Aos in a e qua o anos eg essou ao B asil, não podendo el- ei alcança dele que icasse em Coimb a, egendo a uni- e sidade, ou em Lisboa, expedindo os negócios da mona quia [...] a ciência, disse ele a Sua Majes ade, é o meu emp ego único; I aguaí é o meu uni e so (ASSIS, 2008: 237); (2) pa a essal a , ainda no p imei o capí ulo, «o ecan o psí- quico, o exame da pa ologia ce eb al», dado que «Não ha ia na colônia, e ainda no eino, uma só au o idade em semelhan e ma é ia, mal explo ada, ou quase inexplo ada. Simão Bacama e comp eendeu que a ciência lusi ana, e pa icula men e a b asilei a, podia cob i -se de ‘lou os ima cescí eis’» (ASSIS, 2008: 237-238); (3) pa a e e i , no e cei o capí ulo, «um pad e que o alienis a conhece a em Lisboa» (ASSIS, 2008: 242), sob inho do bo icá io 152 C ispim Soa es, que pa icipa na comi i a da iagem da esposa do p o agonis a, D. E a is a, pa a o Rio de Janei o; (4) pa a menciona , no capí ulo quin o, «uma ode à queda do Ma quês de Pombal, compos a pelo moço Ma im B i o, em que dizia que esse minis o e a o ‘d agão aspé imo do Nada’, esmagado pelas ‘ga as ingado as do Todo’; e assim ou as, mais ou menos o a do comum; gos a a das ideias sublimes e a as, das imagens g andes e nob es...» (ASSIS, 2008: 250); (5) pa a, no capí ulo sé imo, Sebas ião F ei as insinua o me- lho modo pa a «se i à co oa e à ila» e o na ado lemb a que «os amigos do ba bei o p opuse am-lhe que assumisse o go e no da ila, em nome de Sua Majes ade» (ASSIS, 2008: 256); (6) pa a, no capí ulo décimo e cei o, «o ilus e alienis a» cu a a um poe as o, com a ideia de «manda co e ma aca, pa a o im de o ap egoa como um i al de [Co eia] Ga ção e de Pínda o» (ASSIS, 2008: 266) e o na ado menciona «o inado ei D. João V», «o go e no de Lisboa» e «os domínios ul ama inos de Sua Majes ade» (ASSIS, 2008: 267 e 268). (7) pa a, no inal, nas «No as do au o », apon a , como au- o ic as no emp ego e náculo do ocábulo « ep oche» e a sua des- conside ação como galicismo, Mo ais que «ci a, pa a o e bo, es e echo dos Inéd., II, l. 259: «hum non inha que ep ocha ao ou- o» e apon a os luga es de Fe nando de Lucena, Nunes de Leão e d. F ancisco Manuel de Melo, em que se encon a o subs an i o ep oche (ASSIS, 2008: 340). No an epenúl imo ex o – «O espelho. Esboço de uma no a eo ia da alma humana» –, apa ecem apenas mais duas e e ências camonianas em boca do p o inciano e cáus ico p o agonis a Jacobi- na: no início da na ação, quando ele se e e e à exis ência de ce as «almas abso en es, como a pá ia, com a qual disse o Camões que mo ia» (ASSIS, 2008: 323) e, na al u a em que, inalizando a na a- i a, Jacobina se encon a numa e í el si uação mo al, quando diz que eci a a, en e ou os e sos, «oi a as de Camões». O sex o ex o do olume – «O seg edo do bonzo. Capí ulo inédi o de Fe não Mendes Pin o» – é o único em que exis e uma 255 A mes içagem ambém se a igu a de o ma decisi a nas úl i- mas páginas do omance, quando o idalgo ca alei o é su p eendido com os dois mancebos que a on osamen e p o ana am as a mas eais, des azendo o seu o éu. Reconhece-os como ilhos seus e de Indayá, designando-os como «o ing a o sangue do seu sangue» (MARQUES, 1907: 296) O inal do omance pode su p eende , mas é coe en e com o- das as implicações explíci as ou subjacen es. Ao mesmo empo em que o idalgo iden i ica seus ilhos mes iços, ele é le ado a com- p eende que os dois mancebos não e am submissos dian e das a - mas e insígnias eais. Tal cons a ação acaba po ques iona , de ce o modo, os meios e os esul ados de oda a missão, com seus ideais e ealizações. Bibliog a ia BOSI, Al edo (1994) – His ó ia concisa da li e a u a b asilei a. 32ª ed. São Paulo: Cul ix. CARVALHO, José Mu ilo de (1999) – «A imagem omân ica do país». 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De ascendência po u- guesa2, pe ence à amília de posses, e as e p op iedades, endo seu a ô – João Simões Lopes Filho (1817-1893), Visconde da G aça – ampliado he anças ecebidas, as quais lega a seus mui os ilhos. Den- e eles, Ca ão Boni ácio (1838-1896) que, ao enlace ma imonial com The esa Coelho de F ei as (?-1876), ge a Eu ázia (1862), João, o nosso esc i o (1865), Sil ana (1868) e Ma ia Izabel (1869). O pe- queno João c esce na Es ância da G aça, e ali con i e com ag egados e se içais, ap endendo a lida do campo, no a o com os animais. Aos onze anos, pelo alecimen o da mãe, o menino ai pa a a cida- de de Pelo as e equen a o Colégio F ancês de A is ides Guidony (DINIZ, 2003: 48-49). Dois anos depois, no p opósi o de com- ple a os es udos, é le ado pa a o Rio de Janei o sob os cuida- dos do io ma e no João Augus o Belchio e do io-a ô Ilde onso Simões Lopes (1829), igu a eminen e da polí ica nacional. Ing es- sa, en ão, no mesmo educandá io em que, po adição da amília, 1 Uni e sidade de É o a. 2 Hilda Simões Lopes, em Tuia ã (2017), dá-nos a elação genealógica do au o , com aízes em Po ugal, sendo João isne o do casal José Simões Lopes (1746-?), na u al de A ei o e de The eza Ma ia de Jesus (1756-1783), de Alenque ; e bisne o de João Simões Lopes (1779-1853), na u al de Pa aíso, a quidiocese de Lisboa que, endo indo pa a o B asil, es abelece-se no po oado que i ia a o na -se Pelo as. 258 já equen a am amilia es seus3: o Colégio Abílio, imo alizado po Raul Pompeia como «A eneu». Cons a que se ma icula ambém na Faculdade de Medicina4 e que, po en e midade, in e ompe o cu - so. Em 1884 es á de ol a à e a na al e con alesce na Es ância da G aça. No o ainda, ob i e a expe iências opos as: a da ida do cam- po e a da g ande capi al. De saúde es abelecida, a ende aos apelos da al a sociedade. De sublinha , na pau a da amília ilus e do a ô Visconde da G aça, a ecepção p omo ida à P incesa Isabel que, em Fe e ei o de 1885, é homenageada na Es ância. Nas p e e ências do apaz, incluem-se p oje os li e á ios, cí icos e emp esa iais. É o empo em que se o na assíduo em odas sociais, no ea o, es eando nas le as e nos me cados5: «pe íodo isonho e anco, em que João i e ainda sus en ado pelo pai, em boa casa de Pelo as e sob as asas do a ô» (CHIAPPINI, 1988: 30). Nas Le- as, seu en ol imen o inicia-se pela ap oximação ao jo nal A Pá ia (1888-1891), con inua no Diá io Popula (1891), segue no Co eio Me can il (1893) e em A Opinião Pública (1896). Como jo nalis a, p o issionaliza-se, sendo di e o de Co eio Me can il e eda o de A Opinião Pública a é aos seus de adei os dias. Em 1888, en- ia pa a A Pá ia, os sone os «Rê e» – em ancês só o í ulo – e «Dú ida», publicados espec i amen e a 14 e 26 de ma ço. Nesse pe iódico pelo ense, a pa i de 2 de julho de 1888, a colabo ação de João o na -se-á egula . Inaugu a a seção «Balas de Es alo»6, 3 Familia es: An onio (1861) e Ilde onso (1866) Simões Lopes, ilhos do segundo casamen o de João Simões Lopes Filho, o Visconde da G aça, com Ze e ina (DINIZ, 2003: 55). 4 Ca los F ancisco Sica Diniz encon ou as a aliações de An ônio e de Ilde onso no Colégio Abílio. Não ha endo egis o do nome de João, nem no e e ido Colégio Abílio e nem na Faculdade de Di ei o, a ibui ex a io de p o as a essas insc ições de João Simões Lopes Ne o. (DINIZ, 2003: 56-59). 5 De e e i os p oje os emp esa iais que João Simões Lopes Ne o inicia e ence a, como Vid a ia Pelo ense, Ob as de saneamen o, Des ila ia Pelo ense, Venda de segu- os, Ca é C uzei o, Explo ação de p a a, Sociedade Ag ícola Pas o il, Ciga os ma ca Diabo, Tabacina. 6 Tí ulo copiado duma coluna da Gaze a de No ícias, do Rio de Janei o, em que nos anos 1884 e 1885, com a assina u a Lélio, pa icipa am á ios au o es, incluindo Machado de Assis. 259 compondo iolés7, o ma ixa em oga na época. Essas «balas» co espondem a ês ases: as duas p imei as no jo nal A Pá ia, de 1888 a 1890 e a e cei a ase, em 1895, no Diá io Popula . Ca los Re e bel, em Um capi ão da gua da nacional, comen a que Lopes Ne o esc e ia «como quem se di e e» glosando os acon ecimen os do dia-a-dia de o ma humo ís ica e «bulindo de modo i e e en e com as pessoas nele en ol idas» (REVERBEL, 1981: 44). A con- i ma , ano a-se sequência de Joões isonhos que assinam as «ba- las» da p imei a ase, como João Ri o e, João Ri aco, J. Rimiudo, J. Ripianíssimo, Job Rigago, Job Ri ossindo e ou os. Lígia Chiappini asse e a que é possí el pe cebe uma ce a i e e ência pa a com as au o idades polí icas e eligiosas, uma libe dade de espí i o, uma ce a iden i icação com o que chama a ‘Zé Po inho’ e seus p oblemas. Sá i a le e aos a os co idianos, ipos e ins i uições da «P incesa do Sul». E, num ce o sen ido, um eino pa a seus con os de humo (como «O ma e de João Ca doso», «De e um queijo», ou mesmo os «Casos de Romualdo»), onde o iso co ige os cos umes. (CHIAPPINI, 1988: 29) Na segunda e e cei a ases, quem assina é Se a im Bemol, pseudônimo ap o ei ado ambém pa a sua p osa de jo nal e compo- sições pa a o ea o. En e os iolés da segunda ase, des aca-se o do dia 26 de Agos o de 1889 a con oca e sos de Camões pa a e o ça sua c í ica a con ex os municipais, como se lê: «Alma minha gen il que e pa is e» Enganchada nas colunas do DIÁRIO, Te á no NACIONAL no o sac á io, Alma minha gen il que e pa is e!... Da -lhe-ei no a o ma e o mesmo ho á io E e ei se a anemia ainda esis e, Alma minha gen il que e pa is e 7 Poema de o ma ixa, o iginá io da F ança no século XIII, mas em desuso no século XVI, em no a oga no Pa nasianismo. É cons i uído po es o es de oi o e sos, sendo o 1º, o 4º e o 7º epe idos; e o 8º epe ição do 2º (c . CHIAPPINI, 1988: 29). 260 Enganchada nas colunas do Diá io… «As a mas e os ba ões assinalados» Que das BRECHAS do ou o se ausen a am, P ’as mamadei as d’es e se jun a am As a mas e os ba ões assinalados, As eleições, he óis, não se inda am: Chamemos aos seus pos os a ançados, As a mas e os ba ões assinalados Que das BRECHAS do ou o se ausen a am. «A aca, Felipe, a aca:» O NACIONAL saiu à luz; Po emos penas de uz, A aca, Felipe, a aca! Se libe al ou — p ’a c uz!... ( epublicanos é p’ a maca) A aca, Felipe, a aca, O NACIONAL SAIU à luz. Valendo-se da lí ica e da épica de Luís Vaz de Camões – o p i- mei o e so do sone o à amada Dinamene, e ocando o pesa ; e o início de Os Lusíadas, nomeando o he oísmo – p esume-se que o au o sinaliza, jocosamen e, acon ecimen os i idos. Em e - dade, Sica Diniz, na biog a ia de João Simões Lopes Ne o, ano- a a oco ência de p o ocações de um g upo de mona quis as aos simpa izan es epublicanos, que esul am em ag essões ísicas, es- ando João e seu io Manuel en ol idos no inciden e. O a o su- cede após a con e ência de Alcides Lima no dia 17 de agos o de 1889, episódio que Lopes Ne o ap essa-se a jus i ica em A Pá ia («Diá io»), a 19 de agos o. Esses dados es ão suben endidos no iolé, des acando-se o nome «Felipe», pe sonagem do quo idiano, que o esc i o ado a em ou as composições, como na peça O boa o (DINIZ, 2003: 70-71). Escla eça-se ambém que a p oclamação con- ida no e so «O NACIONAL saiu à luz» anuncia o nascimen o do pe iódico que se inaugu a em 1889. Sica Diniz desenha o ambien e in o mando que «há poucos meses da P oclamação da República em meio às edições dos iolés, dessa segunda ase da sé ie, os ânimos 261 andam agi ados» e que «mui os pelo enses de des aque nacional, es ão engajados na causa epublicana» (DINIZ, 2003: 70). Con udo, nem só de c í ica ci cunsc e e-se a pa icipação de Lopes Ne o na imp ensa pe iódica. Sob o í ulo «O Rio G ande à ol d’oiseau»8, Se a im Bemol ece comen á ios a pa i de iagens a Rio G ande e São José do No e, assinalando suas p imei as mani- es ações em p osa. E, delas, Ca los Re e bel p e ê: Nessas c ônicas, já se pe cebe a o iginalidade e o alen o do u u o esc i- o …Se é e dade, como se ac edi a, que as p imei as colabo ações de J. Simões Lopes Ne o pa a a imp ensa pelo ense saí am na «A Pá ia», em 1888, en ão o ex o des as seis c ônicas é de a o sua es eia jo na- lís ica com p imícias de seu colo ido e pe sonalíssimo es ilo li e á io. (REVERBEL, 1981: 45) O ea o oma a a enção de João Simões Lopes Ne o po mui- os anos. Em 1889 cons i ui-se um co po cênico do Clube Caixei al do qual João Simões Lopes Ne o az pa e, sendo ele, o au o de inúme as peças, como O boa o, Os bacha éis, Mixó dia, con ando-se O bicho, como a melho comédia do ace o simoniano. Sabe-se que educação e ci ismo e êm o des elo do esc i o . Pa a celeb a o ani e sá io da cidade de Pelo as, di ige e con ec- ciona a Re is a do 1º Cen ená io, ins i uindo ambém a «Semana Cen ená ia», com a p e ensão de e e i as comemo ações anuais. Pa a di ulga as os da His ó ia (DINIZ, 2003: 148), c ia a Coleção B asiliana, o mada po ca ões que ap esen am bandei as, b asões, insígnias, selos pos ais, imb es, oques mili a es, dados geog á icos e his ó icos, a mas o iciais e o p imei o monumen o à República. Inaugu a-se esse p imei o conjun o de in e e cinco imp essos com a bandei a de Po ugal nos seus domínios ul ama inos: a p imei a has eada no B asil, de 1500 a é 1649. A segui desc e em-se cada um dos ca ões pos ais9. 8 A Pá ia, 16, 17, 22, 28 de no emb o e 6 e 7 de dezemb o de 1888 (apud MOREIRA, 1983: 26-38). 9 C . a desc ição da Coleção B asiliana, na sua segunda ase, em DINIZ, 2003: 167. 262 Lendo as publicações de Simões Lopes Ne o, obse am-se sinais de ob a de a e li e á ia em ges ação: Te a gaúcha, em p opos a edu- ca i a; ex os na imp ensa pe iódica local e na Re is a da Academia de Le as do Rio G ande do Sul; na ado a se ap esen ado, na con- e ência «Educação Cí ica» de 1906. Nes e caminho, su gem as len- das «O neg inho do pas o eio» e «Boi a á», os con os «O g ingo das linguiças» e «O neg o Boni ácio». E é o Diá io Popula que, de 31 de ma ço a 5 de maio de 1912, publica, igo osamen e às quin as- ei as e aos domingos, as na a i as do li o Con os gauchescos. Quan o aos o iginais de Casos do Romualdo, ão pa a as mãos de seu amigo Pin o da Rocha pa a a edação do P e ácio e desapa ecem (MOREIRA, 1983: 63). Do ex a io do segundo olume10 de Te a gaúcha am- bém eclama Dona F ancisca, a iú a de Lopes Ne o. E é Ca los Re e bel quem, na pesquisa eque ida pela Edi o a Globo, em a so e de, no só ão de elha sede de jo nal, encon a «no único o- lume encade nado do Co eio Me can il ali exis en e, o ex o com- ple o de Casos do Romualdo, publicado em olhe ins» (REVERBEL, 2000: 11). É a edição que inicia a 1º de junho de 1914 e desdob a- -se em capí ulos diá ios, ao longo de in e e um núme os daquele jo nal. Os í ulos p ome idos Peona e Dona, Jango Jo ge, P a a do Taió e Pala as iajan es icam no in ei o; os que es a am na pau a êm pós umos, como Casos do Romualdo (1952) e Te a gaúcha (1955). Em 1910, João Simões Lopes Ne o lança Cancionei o guasca, ob a de compilação que se inco po a pa a semp e no olclo e e no gos o popula . Dois anos depois eúnem-se os Con os gauchescos, su- cedidos em 1913 po Lendas do Sul. Ao Cancionei o são a ibuídos alo es da cul u a, na exp essão de Augus o Meye , « ixando em le a de o ma boa pa e da adição o al ameaçada de esquecimen o» (apud DINIZ, 2003: 178). Opinião di e sa expõe A Fede ação, de Po o Aleg e, a 9 de agos o de 1910, ao a i ma que os ex os si- monianos não pe encem ao ace o li e á io e nem dizem espei- o à pesquisa his ó ica, sendo assim «Ou o caminho não há pa a 10 Lígia Chiappini e e e Pin o da Rocha e Alcides Maya e esc e e: «con iado a Alcides Maya e po ele ex a iado» (CHIAPPINI, 1988: 51 e 108). 263 o Cancionei o Guasca, senão cai no esquecimen o» (ARENDT e RAMOS, 2003: 90). À di ulgação de Con os gauchescos, esme am-se o Diá io Popula (11 se . 1912) e A Opinião Pública (13 se . 1912) a enal ece a ob a do con e âneo. Con a iamen e, A Fede ação de 1ºde ou ub o de 1912, insis e em a gumen o nega i o: disco damos da opinião de que a ulga ização de al li e a u a enha qualque im de u ilidade eal, que quan o ao conhecimen o dos cos- umes da época, que quan o ao en iquecimen o de nosso insigni ican e pa imônio in elec ual (apud ARENDT e RAMOS, 2003: 92) Dado o silêncio da época sob e Con os gauchescos, Sica Diniz en en- de que nessa al u a, «a in elec ualidade gaúcha e, especialmen e, da cidade na al do esc i o , ainda não es a a p epa ada pa a le Simões Lopes co e amen e. Es a a ol ada pa a a cul u a eu opeia, nos cos umes e nas lei u as» (DINIZ, 2003: 193). Guilhe mino Césa , po sua ez, ano a que o ul o mais ascinan e do egionalismo, João Simões Lopes Ne o, i ia quase anônimo em Pelo as. Seus li os ob inham uma acei ação ela i- a, ou quase nenhuma em compa ação com ou os que lhe são in e io- es, mas e am mui o mais lidos e ambém mais es ejados pela c í ica. (CESAR, 1994: 42) Sal am-se os nomes de Januá io Coelho da Cos a e de An ônio de Ma iz, pseudônimo de José Paulo Ribei o. No Diá io Popula de 2 de no emb o de 1912, Januá io mos a a impo ância de e i e o passado his ó ico e ixa pela li e a u a o ipo do gaúcho. An ônio de Ma iz edige ensaio de consis ência11, egis ando-se como a «p imei- a» e dadei a c í ica e a de maio ele ância edi ada em ida do esc i- o (CHIAPPINI, 1988: 59-60). Tan o assim que Re e bel dis ingue Ma iz como «o descob ido do gênio li e á io de J. Simões Lopes Ne o» (REVERBEL, 2004: 7-9). O ensaio oi publicado no Co eio do Po o, de Po o Aleg e, a 7 de no emb o de 1913, e ep oduzido a 11 «Fo una c í ica – p imei os ex os – Con os Gauchescos», ex o epublicado em 2002, na edição dos Con os gauchescos, da Ma in Cla e . 264 17 do mesmo mês e ano, em A Opinião Pública, de Pelo as, seguin- do o cu so em no a ansc ição, no Almanaque Globo pa a 1924, de Po o Aleg e, en ão di igido po Mansue o Be na di e João Pin o da Sil a empenhados na alo ização de Simões Lopes Ne o, ao di ulga sua ob a12. Os li os Cancionei o guasca, Con os gauchescos e Lendas do Sul publicam-se pela Echenique & C., de Pelo as. Em 1917, o Cancio- nei o ob ém segunda edição ampliada po Lopes Ne o, mas de im- p essão pós uma. Anos deco endo, os di ei os au o ais dessas ob as passam à Edi o a Globo, de Po o Aleg e, que eúne os li os de 1912 e de 1913 e publica, em 1926, Con os gauchescos e Lendas do Sul. Mesmo assim, a p osa de João Simões Lopes Ne o demo a a «deco- la » (DINIZ, 2003: 194), começando a alça oo nas p e e ências dos lei o es, g aças a Augus o Meye em P osa dos pagos (1943), com o capí ulo in i ulado «Simões Lopes Ne o». Pensando pode econs i ui a «poesia a isca» , do momen o da p imei a lei u a, Meye a i ma: «Relendo ago a João Simões Lopes Ne o, sin o que a ob a dele é mais do que nunca um manancial de poesia e e dade» (MEYER, 2002: 139). Reconhecendo que «Foi ele em essência o nosso poe a e o momen o culminan e do nosso egionalismo» (MEYER, 2002:143), ac escen a: «o mis é io maio : a poesia que não pá a como água de uma e en e, a poesia que se eno a na oz de um poe a e ans igu a a le a mo a de um ex o em pu o espí i o de ida» (MEYER, 2002:139). E, sob e Con os gauchescos, elemb a: Pob e oluminho desajei ado! Dois g ampos eno mes, cheios de e u- gem. O on ispício, uma ob a-p ima de mau gos o. O í ulo compos o num a emedo de gó ico. E um ímido sub í ulo: Folk-lo e egional. E a a edição Echenique, de 1912, ei a em Pelo as, e que ainda me acompanha, com a ma ca amilia dos li os lidos e elidos.(MEYER, 2002: 139) 12 Re e bel ano a ambém: João Pin o da Sil a, Fisionomia dos no os (1922) e His ó ia li e á ia do Rio G ande do Sul (1924); Mansue o Be na di, na eedição de 1926, dos Con os gauchescos e Lendas do Sul (REVERBEL, 2004: 7) 271 Eu enho de lá bem longe, Da banda do Pau Fincado: Melancia, coco e de Te manda mui o ecado! (LOPES NETO, 1953: 196) Todos iem e ba em palmas, o Ilhéu explode na ga galhada, o elho Se e o g i a: «gos ei, chi u!21 ou a ez» (LOPES NETO, 1953: 196). É, en ão, que a noi a põe-se de pé e já não cho a. Recob a as co es, os olhos b ilham. Blau Nunes comen a: «Lindaça icou como uma Nossa Senho a!» (LOPES NETO, 1953: 197). O declamado ap o ei a-se e sol a mais e sos: Na pol adei a da es ada O eu amo em da gue a: … Melancia desbo ada!... Coco e de es á na e a!... (LOPES NETO, 1953: 197) Talapa g i a, cai desno eada, p eocupando a odos e indam-se as sal as. O Ilhéu culpa Reduzo po e assus ado a moça e o ag ide. Enquan o a con usão aumen a, o emp egado esconde-se, oge e de- sapa ece das is as de Se e o. Des az-se a es a: odos que em acudi a donzela. De ol a do campo de ba alha, dali a dois dias, Cos inha pede a mão de Talapa e o pai da jo em inalmen e cede. Casados já, Reduzo o na-se o capa az de Cos inha. No con o há apenas uma pe sonagem decla adamen e po u- guesa que é o Ilhéu. Con udo pai a a dú ida sob e a nacionalidade de Se e o, io do apaz. Te ia ele imig ado? Te ia nascido no B asil? E i- dencia-se, en e an o, o empenho do pai em e o ça laços de amília – p á ica adicional nas Ilhas –, casando a ilha com o sob inho aço- iano de si uação econômica es á el. P op ie á io bem sucedido, ele « inha um boliche em pon o g ande» (LOPES NETO, 1953: 189). De ano a as obse ações do na ado Blau Nunes, quando explica: 21 C . Au élio Bua que de Hollanda: «Chi u, s. m. índio, caboclo». (HOLLANDA, 1953: 373). 272 Galego22, naquele empo, e a gen e, ancê c eia! Es ância, e a dele; negó- cio, e a dele; o icial, e a só ele; e a a ema an e das sisas, ele; su gião23, ele; pad e- igá io, ele; e p a bo a a milicada em cima dos con inen is as …e a ele!...(LOPES NETO, 1953: 190). Enquan o o gaúcho Blau Nunes dedica-se a ela a o papel deci- si o que o índio Reduzo desempenha a pa a a ealização de um ma- imônio eliz, o aqueano aça o quad o da sociedade de uma ila da on ei a do Rio G ande do Sul, ma cada pela imig ação po uguesa. O Ilhéu é a única pe sonagem po uguesa de «Melancia – Coco Ve de», sendo nomeado pelo pa onímico, sem lhe se a ibuído um nome p óp io. É o gen o que o Senho Se e o escolhe pa a a ilha Talapa. Dele não se desenha e a o ísico ou psicológico que o pos- sa iden i ica . Ligação de amizade só possui com o io. Esse noi o in e ém pessoalmen e uma única ez nos acon ecimen os e em um único minu o sua oz é ou ida: ao e a noi a ans o nada pelos e sos do con i a, b ada u ioso: «Foi esse neg o, com an a a ma, que es a eceu a menina» (LOPES NETO, 1953: 197). Exce uando- -se essa acusação indignada, em nenhuma ou a ocasião o Ilhéu ma - ca á di e amen e a sua p esença. Se á o na ado Blau Nunes quem, apon ando as isi as que o po uguês az ao io, ap esen a á os hábi- os dele em compa ação com os usos e cos umes da e a. Cen ado nas o mas de locomoção e nas p e e ências culiná ias do es an- gei o: mon a em pe iço mui o manso, anda de ca e inha, come bacalhau e sopa de e du as. O locu o es ende-se em comen á ios dep ecia i os24, exal ando os ing edien es que compõem a mesa 22 Pa a Luís Augus o Fische , Galego é o po uguês aço iano (FISCHER, 2000: 120). Flá io Lou ei o Cha es az ano ações sob e a p esença do galego em Con os gauchescos. (CHAVES, 1982: 62). 23 Fo ma popula , emp egue pelo na ado , pa a «ci u gião». 24 Flá io Lou ei o Cha es es uda o p ocesso « egionalis a» que Simões Lopes Ne o desen ol e em Con os gauchescos, pela oz do na ado Blau Nunes, pa icula men e em «Melancia-Coco Ve de» e «Chasque do Impe ado », demons ando que Blau Nunes p ocu a idicula iza o homem da Co e ou o po uguês, pa a « ealça sub ep iciamen- e sua an í ese, o gaúcho. (CHAVES, 1982: 62) 273 gaúcha – um chu asco esco endo sangue e go du a e salmou a, uma ipa g ossa, e mais – pa a conclui que « udo isso que é do bom e do melho , pa a o ilhéu não alia nem um sabugo!» (LOPES NETO, 1953: 190). Ainda na sua c í ica à p e endida boda, Blau ponde a: E a mesmo uma pena, lhe digo … casa uma b asilei a mimosa com um pé-de-chumbo, como aquêle desg açado daquele ilhéu… só po que ele inha um boliche em pon o g ande. (LOPES NETO, 1953: 189). Embo a zombando dos ademanes do isi an e – «cama com lençóis de c i o» (LOPES NETO, 1953: 190) –, o na ado eco- nhece o sucesso de seu abalho e elogia os a anços que êm de Po ugal, no cul i o da e a, no a o dos ecidos, na c iação de bens. Salien a o ap eço da amília po aquelas núpcias, obse ando que «e am os pais dela; a pa en alha; izinhos elhos, canchei os da es ância… udo a dize , a gaba , a acha a é boni o o ilhéu» (LOPES NETO, 1953: 192). Essa explanação e o ça o modo como, naquele empo, os po - ugueses conseguem ocupa o opo da pi âmide social, com êxi o nos se o es a que se dedica am. Adminis a am suas p op iedades, ob inham luc os nos negócios, in e agiam em di e si icados se i- ços, an o come ciais como eligiosos, médicos e mili a es. Po oda a conside ação que lhes da am, os einóis25 e am impo an es e a - ogan es. Queixa-se Blau: «Gen e da e a não alia nada.» (LOPES NETO, 1953: 190). Em oda a ob a li e á ia de João Simões Lopes Ne o – seus Con os, as Lendas e Casos – encon a-se a pa icipação de uma única pe sonagem po uguesa que é o Ilhéu, einol, imig an e do Reino, indo de uma das ilhas dos Aço es, e i ó io de Po ugal. Em con- apa ida, no con o «Pena de elhos», Blau Nunes menciona «um pad e g ingo que apa eceu pelos pagos» (LOPES NETO, 1953: 230); Romualdo az a his ó ia do «O g ingo das linguiças». Nessas na a i as, a denominação «g ingo» é a ibuída ao descenden e do 25 Reinóis: os que ie am do eino, is o é, de Po ugal. – no a de Luís Augus o Fische , em Con os gauchescos (FISHER, 2000:122). 274 colono i aliano (FISCHER, 2001: 138), sem co espondência com a cul u a aço iana. A in es igação, con udo, descob e ano ações signi ica i as so- b e a lenda do neg inho do pas o eio, elabo ada de modo como en e po Lopes Ne o e que ele a o menino esc a o a al a es de de oção26. São inúme as as e sões, mas somen e em uma delas essal a a igu a dum po uguês. É no ex o do u uguaio Ja ie F ey e, «El neg i- o del pas o eo», publicada no Almanaque Peuse , de Buenos Ai es, pa a 1890 e que inicia assim: «Allá po los años 1784, esidia en el depa amen o de Paisandu un ico es ancie o po uguês» (MEYER, 2002: 105). E a pesquisa ai-se en iquecendo. A lei u a da ob a de João Simões Lopes Ne o cons i ui-se em con inuada uição do p aze es é ico. A o ma supe io da com- posição, na onalidade singula da oz de um campei o, pin a cená ios, na a ações, expõe sen imen os. Os singelos e a os de alma en e necem pelas linhas sublimes da a e. Bibliog a ia ARAUJO FILHO, Luiz (1987) – Reco dações gaúchas. 3 ed. Po o Aleg e: APLUB/CPL/ PUCRS/IEL. ARENDT, João Claudio; RAMOS, Flá ia B ocche o (2003) – «No p incípio ez-se a ob a: o descomeço de con os gauchescos». Cade no de Le as: João Simões Lopes Ne o. Pelo as: Uni e sidade Fede al de Pelo as, p. 88-105. CESAR, Guilhe mino (1994) – No ícia do Rio G ande: li e a u a (o g. e in od. Tania F anco Ca alhal). Po o Aleg e: IEL/UFRGS. CHAVES, Flá io Lou ei o (1982) – Simões Lopes Ne o: egionalismo & li e a u a. Po o Aleg e: Me cado Abe o. CHIAPPINI, Lígia (1988) – No en e an o dos empos: li e a u a e his- ó ia em empos de João Simões Lopes Ne o. São Paulo: Ma ins Fon es. DINIZ, Ca los F ancisco Sica (2003) – João Simões Lopes Ne o, uma biog a ia. Po o Aleg e: AGE/UCPEL. 26 Augus o Meye e e e a bea i icação popula : «un muñeco pin ado de neg o… ep esen aba al Neg i o del Pas o eo, y le se ia como amule o con a cie as ad e sida- des de la ida» (MEYER, 2002: 106) 275 FISCHER, Luís Augus o (2000) – «In odução e no as». In: LOPES NETO, Simões, Con os gauchescos. 2.ed. Po o Aleg e: A es e O ícios, p. 7-29. FISCHER, Luís Augus o (2001) – Dicioná io de Po o-Aleg ês. 12 ed. Po o Aleg e: A es e O ícios. HOLLANDA, Au élio Bua que de (1953) – «Glossá io». In: LOPES NETO, J. Simões. Con os gauchescos e Lendas do Sul. Edição c í ica. 3. ed. 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Amélia publicou mui os a igos em jo nais de Reci e e na Re is a do B asil, de São Paulo. A uou, ambém, como eda o a-che e o icial do pe iódico mensal O Ly io, dedicado ao público eminino, o qual ci culou no Reci e, de 1902 a 1904, sendo Cândida Dua e Ba os eda o a-sec e á ia (COSTA, s.d.). Já com onze li os publicados e impo an e con ibuição jo na- lís ica, a esc i o a candida ou-se à Academia B asilei a de Le as, em 1930, pa a a aga abe a pelo alecimen o de Al edo Pujol. Amélia en iou ca a ao p esiden e da Casa, Aloísio de Cas o, p opondo sua candida u a. Essa des emida candida u a eminina causou g an- de agi ação en e os «imo ais». O egulamen o da Casa p e ia que «b asilei os» pode iam pa icipa da con a ia de le as e, segundo a in e p e ação da maio ia dos memb os da ABL, o adje i o não incluía as mulhe es. Fundamen ado nesse a gumen o, o pedido oi negado po onze o os a se e. 1 Uni e sidade Fede al do Rio de Janei o (UFRJ); Conselho Nacional de Desen ol i- men o Cien í ico e Tecnológico (CNPq). 278 Wil on Ca los Lima da Sil a, em a igo publicado na Re is a In e hesis, da Uni e sidade Fede al de San a Ca a ina (UFSC), ob- se a o seguin e a espei o da esc i o a: Amélia de F ei as Be iláqua, que e e a co agem de desa ia p econ- cei os, de ende maio libe dade, ei indica plena cidadania pa a as mulhe es e plei ea a en ada em uma ins i uição misógina como a Academia B asilei a de Le as, demons a a uma pos u a eminis- a em que sua li e a u a e sua posição social se con e em em ins- umen os á icos ei indica i os e in en i os, e naquele con ex o, capazes de o igina alguns de seus es igmas. (SILVA, s.d.: 156-157) O omance Angús ia, lançado em 19132, ino a no que se e e e ao p ocesso na a i o e ao deba e sob e a si uação das mulhe es no âmbi o do casamen o. Amélia de F ei as Be iláqua já ha ia publica- do, no campo da icção, dois li os de con os Alcyone (1902) e Silhou- e es (1906) e dois omances A a és da ida, (1906) e Ves a (1908). Cons i uído de doze capí ulos, Angús ia chama a a enção po ap esen a uma es u u a mais complexa do que ob as an e io es da au o a e de mui as na a i as de época, seguidamen e linea es e com p edomínio de um único pon o de is a, bem como é ino ado a na o ma de a a a si uação da mulhe casada, de classe média ou al a, no início do século XX. Em Angús ia, há isões que se con apõem e se al e nam no de- sen ola dos acon ecimen os. No início do omance, su ge uma na - ado a homodiegé ica, pe sonagem secundá ia na ama, a qual em isão ex e na dos acon ecimen os, ou seja, um eu- es emunha (C . GENETTE, s.d: 242-251). A é o inal da na a i a não sabe emos quem é essa na ado a, apenas que i e e ci cula no Rio de Janei o e conhece o p o agonis a do omance A hu Lou enço. É o p óp io p o agonis a que assume a pala a e ela a à na ado a- es emunha a sua his ó ia amo osa, núcleo do omance. Mas e emos que, na se- quência, a na ação se á assumida po um na ado he e odiegé ico 2 As ci ações do omance se ão e i adas des a edição, com a ualização da g a ia das pala as. 279 e oniscien e, um na ado ex e no à his ó ia e com conhecimen o de udo, das ações no ambien e público ou p i ado, dos pensamen os e sen imen os das pe sonagens. En e an o, em Angús ia, a na ado- a-obse ado a do início da na a i a ol a a con a a his ó ia como es emunha no capí ulo VIII, a o que con i ma a al e nância de pon os de is a, de modo su il e mui o bem a iculada. No início do omance, a na ado a ci cula pelo Cen o do Rio de Janei o, como um lâneu , e az um ela o do cená io e do compo a- men o das pessoas, as suas es es e as suas eações, assim que desaba um empo al na ua do Ou ido . No exce o a segui , há obse ações da na ado a sob e a su p esa da população dian e da chu a inespe ada: E a ainda cedo, al ez uma ho a, nessa a de aleg e do mês de agos o, acompanhada po um es o de io, que adoça a a empe a u a. En e- an o já en ei a a as uas a g ande mul idão de senho as e senho i as cobe as com os mode nos chapéus desabados, ge almen e odeados de endas, i as e lo es, que se balouça am ao mais simples mo imen o. Ninguém pensa a em chu a, debaixo do aspec o adioso que esse dia os en a a. Repen inamen e, po ém, udo empalideceu. Imensas manchas escu as, que pa eciam mon anhas, e ela am-se no al o, es umadas, is es, esquisi as que apa o a am. [...] A con usão aumen a a a cada ins an e, e, assim, a enchen e da ua e os encon ões. Todos es on eados, num des ai amen o de pássa o pe dido, que p ocu a o ninho, anda am aos bandos, de somb inhas abe as, homens e mu- lhe es, en ando em lojas, omando ca os, co endo pa a o pon o dos bondes, uns ca egados de emb ulhos, ou os le ando pela mão c ianças pequenas, que g unhiam e cho a am, acompanhando, a o e la go, a e igem da ca ei a, em que os conduziam. [...] A ua ans o mou-se num io de lama. (BEVILÁQUA, 1913: 7-9) A sua a i ude de mulhe soli á ia, a caminha pela cidade e a olha a en amen e os anseun es lemb a um pouco a cu iosa pe sonagem- -na ado de «O homem da mul idão», de Edga Allan Poe, analisado po Wal e Benjamin, que obse a a mul idão no im de a de, a pa i de um ca é de Lond es, e «lê» a exp essão dos os os, as eações das pessoas e indícios de suas idas p o issionais, pa a depois segui um es- anho «homem da mul idão» e, nessa caminhada, descob i uma Lon- 280 d es pe i é ica e pob e. Benjamin conside a que, pa a Poe, «o lâneu é acima de udo alguém que não se sen e segu o em sua p óp ia socie- dade. Po isso busca a mul idão; e não é p eciso i mui o longe disso pa a acha a azão po que se esconde nela» (BENJAMIN, 1994: 45). A na ado a de Angús ia segue desc e endo o pânico dos an- seun es, aos bandos, a lama que esco e pelas calçadas, a co e ia e iginosa em busca de ab igo. Quando a chu a pa a, ela oma um bonde, sen a-se em um dos p imei os bancos e, pouco de depois, à al u a da ua dos And adas, um conhecido ca alhei o sen a-se ao seu lado. T a a-se de um jo em chamado A hu Lou enço, elegan- e, bem es ido, que emig ou com a amília, aos seis anos, da I ália pa a o B asil, in o mações que se ão de alhadas no capí ulo IX. Relemb a, ainda, a na ado a, que o jo em é conhecido pelas o mas «biza as» com que se di ige às senho as: Mui as ezes, conse ando, en e as suas, as mãos delas, le an a a-as como o éus de gló ias, e azia a dama gen il acompanhá-lo nessa cu a eco ada de g aciosas mesu as, como se es i esse ma cando uma igu a de pas de qua e, a é azê-la se assen a de no o. (BEVILÁQUA, 1913: 14). Depois de ce a hesi ação, cump imen am-se no bonde. Embo a pa eça ha e uma al a de in imidade en e os in e locu o es, Lou en- ço esol e con a , à na ado a, a sua his ó ia de amo e a o ma como se apaixonou po uma jo em cuja conquis a inha sido mui o di ícil. A his ó ia de Lou enço é longa e ele assume a na ação, ans- o mando empo a iamen e a na ado a em na a á ia, que ou e em silêncio os acon ecimen os i idos pelo companhei o do bonde. De início, A hu passa a de alha como conheceu The eza, cuja alcunha é Tessa, e suge e que o amo en ou na sua ida e p oduziu um ca aclismo. A hu des aca que, an e io men e, ele nunca ha- ia pensado em casamen o, que isa a apenas a uma ca ei a polí i- ca, ou a ís ica ou a iquezas. Comen a com a in e locu o a as suas posições a espei o do ca olicismo, a sua simpa ia pelas eo ias e olu- cionis as, depois e ela sua adesão a ideias socialis as. Nesse diálogo, con essa se ambém um «a e ado an i eminis a», a i mando que a mulhe não em ou a missão, senão «espa gi encan os e ado - na , ainda mais, a bela na u eza» (BEVILÁQUA, 1913: 16 e 17), 287 Mamãe. Não di ei jamais que ocê não i esse azão de me aconselha a se boa pa a meu ma ido, p e enindo odas as decepções, po que eu e ia de passa , no co e dos p imei os anos de casada. Pa a escapa a udo, que a so e me de e mina a, é que eu enho enca a- do, pacien emen e, a si uação de minha ida. Tenho mesmo ei o es udos especiais, mas acabo de me con ence de que o peso é mui o o e pa a a aqueza dos meus omb os. Não há b a u a que supo e as esquisi ices de um neu as ênico. Ul imamen e não posso mais e meu ma ido sem ica omada de uma sensação penosíssima. Às ezes, me pa ece que a é a casa diminui, e o a se acaba. Tenho semp e a espi ação como a de um doen e de asma. Sin o-me p esa a um g ilhão de e o que me i a odos os mo imen os. C uel exis ência! A passeio não saio sem co e o isco de me sujei a a so e mil decep- ções. Todos os homens, na opinião do A hu , são meus apaixonados. Diz semp e que aço deles coleção. Quando, uma ez po ou a, nos alamos, é somen e pa a b iga . [...] Não que que eu chegue à janela, que leia omances, que equen e bailes e ea os; não posso can a nem oca piano. Ou o dia a eba ou-me das mãos um li o o e ecido pelo p imo An onio, e o espa i ou comple a- men e. (BEVILÁQUA, 1913: 94-96) No início do capí ulo VII, o na ado simula e sabido de oda a discussão ha ida den o de casa po pessoas que ou i am as ep imendas em al os b ados den o da casa e dissemina am a no ícia, passando depois a aze e lexões sob e os desen endi- men os humanos e sob e a cu iosidade e o p aze que más no ícias despe am nas pessoas que, «nos encon os uei os», expandem as no ícias e ac escen am mais de alhes. Se o lei o em dú ida sob e esse na ado , pensando se a oz da na ado a inicial e não no na ado oniscien e, essa dú ida se dissipa em seguida, po que o capí ulo e mina com um monólogo in e io de A hu . Mas, no capí ulo seguin e, essu ge a na ado a- es emunha que, sen ada na Con ei a ia Colombo, lag a a p esença de Tessa en ando sozi- nha ali; depois, a na ado a encon a A hu pelas uas, mas e i a con e sa com ele. 288 A hu e Tessa con inuam a i e na mesma casa, embo a sepa- ados, a é que ce a noi e um amigo ai à sua casa do casal e con a a A hu que já se comen a a na cidade que o ilho do casal, Ma cos, e a u o de um adul é io: «A iança am que Ma cos não é seu ilho, e, sim, de Filguei as...» (BEVILÁQUA, 1913: 147). Lou enço ica em es ado de choque p imei amen e, desno eado, com a sensação de que pa e da peça em que es ão desaba sob e sua cabeça. No início, en a se con e , mas suas exp essões mos am uma g ande comoção. Pe cebendo a sa is ação do ou o po seus o men os, em uma eação iolen a e empu a o supos o amigo pa a o a de sua casa, chamando-o de «in ame», «assassino», «men i oso». Mas a dú- ida ica e, no dia seguin e, mos a o e a o de Filguei as a Tessa e pe gun a-lhe se o Ma cos e a ilho desse amigo. Na sequência, pe - gun a à Tessa se isso é e dade e ela, com mui a ai a, con i ma que o ilho não é dele, nem de Filguei as, mas de ou o cujo nome se nega a decla a . Na e dade men e, e sua men i a em do ódio que sen e dele po conside á-la uma mulhe adúl e a. No elacionamen o dos dois, que já se inha de e io ando pelo ciúme doen io de A hu , com a acusação de adul é io, e- c udesce o mal-es a . Ela já se ecolhe cada ez mais, deixa de in- e agi com ele e passa a se dedica ao que gos a de aze : oca piano, le , sob e udo li os de Filoso ia, e caminha só pelas uas do Rio. As lei u as e o piano dão à Tessa condições de en en a a sua solidão e o con li o. Po sua ez, ele desen ol e um anco em elação ao silêncio e ieza de Tessa e acusa a sog a de p o egê- -la. A pe gun a sob e o pai da c iança (que de a o e a ilho dele) oi a go a inal que al a a pa a ansbo da o copo e se sepa a em de a o. De ini i amen e, não conseguem mais ecupe a a eli- cidade inicial, nem en en a os p oblemas a a és de con e sas e aco dos. Sepa ados, embo a sem legaliza , es a am os dois em plena libe dade e e i am encon a -se, mas, segundo o na ado , con inuam a so e : «Cada qual se sen ia mais deslocado e ia i- endo, somen e, po i e , pa a acompanha a pe eg inação da ida» (BEVILÁQUA, 1913: 182) Quem so e mui o ambém é D. Ri a, cujo gen o não que mais ê-la, e ela medi a sob e isso: 289 Que culpa e a a sua, pa a que dissesse po oda pa e que o a ela a au o a da desdi a, e anda , ambém ju ando que não pe doa ia a quem an o mal lhe ha ia ei o? Que pode ei aze a essas duas almas, que es ão a pena e a se a o men a , unicamen e, po que se amam? (BEVILÁQUA, 1913: 183) A hu Lou enço muda-se pa a uma casa em ou o bai o mais pob e e mais dis an e (Vila Isabel), po que em eceio de eencon a Tessa em algum luga . Ao lado de sua no a casa, i e um casal de po ugueses simples, Angelina e Manoel, que são ei an es: Quando não saía à ua, ica a ap eciando um casalzinho de po ugueses pob es, que habi a a ao lado de sua casa. Do qua o, em que do mia, de assa a odo o in e io da aleg e i enda dos jo ens abalhado es. O ma ido cul i a a a e a, azendo ex ensas plan ações de e du as e lo es, que, às ezes, endiam jun os pela manhã; em casa, a mulhe azia os se iços domés icos, la a a oupas, que ecebia de o a. Quando o ma ido chega a cedo do abalho, que uidosos beijos ecebia, que e usões de ag ado! (BEVILÁQUA, 1913: 185) Ele obse a que, quando o Manoel chega cedo do abalho, é ecebido com mui o ca inho. Mas A hu , ago a uma espécie de oyeu da ida do casal po uguês, descob e a p esença do ciúme nas elações deles: In eliz dele, po ém, quando se demo a a! Da aspe eza das pala as, ia a e o çada po uguesa, no seu u o de ciú- mes, a é da -lhe emendas pancadas, nos omb os, com a mão papuda, pequenina e boni a, que encan a a olha . O es o do dia descompunha, b iga a e p agueja a; ala a an o, como uma elha ei icei a; a a a mal a odos os egueses, que iam à qui an- da, à p ocu a de e du as; udo que azia e a, a eba adamen e, e dizen- do semp e, en e den es, con a o ma ido, as coisas mais impossí eis de se pensa , não da am mui o: aquele cabelo de cão! O bandido, o uim ! ... Como eio ensaiado na pinga! Que e gonha! Quase caia na calçada, com an o opeço! Cachacei o! Indigno! (BEVILÁQUA, 1913: 185) 290 Segundo o na ado , no bai o, e am mui o conhecidas as em- pes ades de Angelina, quando ica a i i ada e mal humo ada com Manoel. Passada a ai a, semp e ad e ia o ma ido pa a que não epe isse o ei o. No dia seguin e ol a am ao no mal e aziam decla- ações de amo . Angelina demons a a seus sen imen os po Manoel espon aneamen e: Seus modos es ou ados, suas manei as de beija o ma ido de on e de quem que que osse, à ezes, escandaliza am os egueses; en e an o, o Manoel, odo baboso, sob p essão das ca ícias, mui as ezes se como ia an o, que lhe enchiam os olhos de lág imas. (BEVILÁQUA, 1913: 189) A hu , acima de udo, admi a a a capacidade de b iga em po ciúmes e se econcilia em no momen o seguin e. E ê nes- sas pessoas simples uma o ma de i e jun os e man e i o o amo e o companhei ismo, que é in ejá el compa a i amen e à p og essi a ieza e ao silêncio que oi pouco a pouco ins alando-se no seu casamen o com Tessa. P e e i ia a discussão e a supe ação subsequen e, como cos uma e no casal de po ugueses, do que «o absolu o da calma que Tessa mos a a nos momen os mais me- lind osos da ida» (BEVILÁQUA, 1913: 190). Há, implíci a, a compa ação en e os modos de ida da classe média al a, le ada, e a ida das pessoas simples que lu am dia a dia pelo sus en o da a- mília e pensa a: «Como a Angelina, e a que ele deseja a que osse a The eza» (BEVILÁQUA, 1913: 190). Lei o a de Machado de Assis, Amélia de F ei as Be iláqua es abelece diálogos e con apon os com as na a i as iccionais machadianas. No omance Angús ia, po exemplo, há pon os de con a o e de oposição com Dom Casmu o (1899), como o ciú- mes, a dú ida sob e a pa e nidade do ilho, a compa ação que uma pe sonagem az en e A hu e a ciumen a pe sonagem O elo, da peça de mesmo nome de Shakespea e, mas des aca-se aqui uma in e são dos acon ecimen os: é Tessa que que Lou enço o a de sua ida e oma a decisão, ao con á io da a i ude da pe sonagem machadiana que manda embo a Capi u e o ilho Ezequiel pa a Eu opa, de onde nunca mais ol am, de e minação acei a po ela. Como Ben inho não con ia em Capi u, Lou enço não con ia na 291 hones idade de Tessa. Es á em pau a no omance de Be iláqua, como e e imos acima, a ques ão da legi imidade do ilho do casal, que Lou enço descon ia se ilho de um amigo, ideia insu lada po ou o amigo e en en ada po Tessa com al i ez. I onicamen e, ela a i ma que é ealmen e ilho do ou o, apenas pa a e i o ma ido, exp essando mui a ai a pela al a de con iança na sua hones ida- de. Essa in e são dos acon ecimen os do omance Dom Casmu o é uma espécie de espos a da esc i o a eminis a ao domínio pa- ia cal, às limi ações impos as às mulhe es de pa icipa da ida cul u al do país. Po ou o lado, essa p esença de Machado de Assis na sua es- c i a su ge ambém nas dig essões sob e a loucu a das pessoas, ei as po A hu , as quais lemb am o con o «O alienis a», de Machado de Assis, quando, no capi ulo IX, o na ado e ela os pensamen os da pe sonagem de Angús ia a espei o da sanidade e da loucu a e das ideias ixas de ce as igu as humanas: Sabia que o mundo in ei o não e a mais do que um as o hospício. De dez em dez, dos in ini os g upos de pe eg inos, i a a-se um equilib ado. Obse assem; nem p ecisa a um g ande abalho pa a se des aca o qua- d o de desmiolados, cada qual com a sua ideia ixa, mas pensando sem- p e que é o mais ajuizado... Um passa o melho do empo, a sonha com esou os, ou o, pob e diabo ca egado de es ei as elhas, a iba a cabeça pa a o impossí el, e, depois dos pulos mo ais, pelas ba ei as de espinhos, mo e de adiga. (BEVILÁQUA, 1913: 136-137) Mas, na sequência dessas e lexões sob e a insanidade, A hu ol a a se pe gun a o po quê de a mulhe eima em se e gue , «quan- do sabe, pe ei amen e, que é encida?! Que que iam as en a uadas, além dos ado nos e o luga de impe a izes, em casa dos ma idos» (BEVILÁQUA, 1913: 140). Todas essas e lexões, di as a Censa – a cacho inha da amília que ele le a pa a a no a mo adia – demons am como o seu pensamen o a espei o da mulhe é conse ado , esis en- e à mudança, ao mesmo empo que explicam as aízes de suas mo- i ações pa a se i i a com o gos o po lei u a e po música de Tessa. Não e a essa a sua expec a i a pa a o pe il da esposa desejada. 292 Amélia de F ei as Be iláqua em uma ob a olumosa, que eú- ne con os, omances, con e ências, c ônicas, ensaios. Há, nas lei u as da pe sonagem Tessa, de iloso ia, p e e ências da esc i o a, como se pode e nas con e ências eunidas no li o Alma uni e sal, de Amé- lia de F ei as Be iláqua, publicado em 1935. Po se uma eminis a conscien e, a esc i o a, ao se ejei ada pela ABL po se mulhe , publicou em seguida, em 1930, um li o de denúncia con a a po- lí ica da Academia em elação ao ing esso das esc i o as, in i ulado A Academia B asilei a de Le as e Amélia de F ei as Be iláqua. So- men e em 1977, Rachel de Quei oz conseguiu ompe essa ba ei a e oi a p imei a mulhe a ing essa na ABL. Bibliog a ia BENJAMIN, Wal e (1994) – «O lâneu », ad. José Ca los M. Ba bosa. In Ob as escolhidas, ol. III São Paulo: B asiliense, p. 33-65. BEVILÁQUA, Amélia de F ei as (1913) – Angús ia. Rio de Janei o: Tipog a ia F è es. COSTA, Ma ie I one Case da Cos a – O Ly io: Re is a Mensal. Disponí el em h ps://bndigi al.bn.go .b /dossies/pe iodicos-li e a u- a/ i ulos-pe iodicos-li e a u a/o-ly io- e is a- mensal GENETTE, Gé a d [s.d.] – O discu so da na a i a. Lisboa: Vega. MALUF, Ma ina & MOTT, Ma ia Lúcia (1998) – «Recôndi os do mundo eminino». In SEVCENKO, Nicolau, o g., República: da Belle Époque à e a do adio. São Paulo: Companhia das Le as, p. 388-421. PEREIRA, Ma ga e h da Sil a (2010) – «A exposição de 1908 ou o B asil is o po den o», Re is a A q ex o, ol. 16. Po o Aleg e: Faculdade de A qui e u a e U banismo (UFRGS), p. 6-27. Disponí el em h ps://www.u gs.b /p opa /publicacoes/ARQ ex os/pd s_ e is- a_16/01_MSP.pd . SILVA, Wil on Ca los Lima da (2014) – «Amélia Be iláqua que e a mulhe de e dade: a memó ia cons uída da esposa de Clo is Be iláqua». In e hesis. Re is a do P og ama de Pós G aduação In e disciplina em Ciências Humanas, ol. 11, n.º 2. Flo ianópolis: UFSC, p. 132-161. 293 Uma paixão, Madame Ch ysan hème: ep esen ação eminina e es ado ci il Elisabe h Fe nandes Ma ini1 Ma ia Cecília Monco o Bandei a de Mello Rebello de Vascon- cellos (Rio de Janei o, 1870 - 1948) – a Madame Ch ysan hème das c ônicas semanais ca iocas nas décadas iniciais do século XX – e e a quem puxa , quando seguiu o caminho da li e a u a. Como sua mãe, a jo nalis a e esc i o a Emília Monco o Bandei a de Mello (Rio de Janei o, 1852 - 1910), mais conhecida como Ca mem Dolo es, Ma- ia Cecília ab açou a esc i a, pa a a qual se sen ia na u almen e o- cacionada, como ganha-pão ão logo en iu ou, em 1907 e, uma ez che e de amília, esme ou-se em plani ica a p óp ia independência. Sua audácia pa a se lança em meio ão es i o le ou Ma ia de Lou - des da Sil a, Helena Ma ia Al es Mo ei a e Luciana Ma ia da Concei- ção Viei a a e le i em sob e as escolhas de Madame Ch ysan hème, em um uni e so dominado po homens, boa pa e deles alojada na ad- minis ação pública, o que lhes ga an ia sus en o a a és do e á io nacio- nal [...] Casou-se cedo, iniciou na esc i a li e á ia a de e, sendo ilha de ninguém menos do que Ca mem Dolo es, he dou o amo e os dissabo es de i e da esc i a, endo ma cado com ce o cap icho e o gulho es e úl- imo aspec o.[...] Po o a iquemos com a in o mação de que nossa esc i- o a encon a-se p a icamen e esquecida e que não igu a nas an ologias li e á ias esc i as no século passado, sal o algumas den e as dedicadas às mulhe es [...] Ela es á, po an o, o a dos cânones da li e a u a nacional, esc i os, não podemos deixa de dizê-lo, com a colabo ação de A ânio Peixo o. Nem mesmo as e isões ace ca da li e a u a esc i a po mulhe es daquele pe íodo consegui am al e a a si uação de Ch ysan hème. Quem a conhece não lhe nega pe sonalidade aos seus esc i os, mas seu alen o, po ou o lado, ainda es á sub judice. (SILVA e al., 1996: s.n.º) 1 G upo de Pesquisas Li e á ias Luso B asilei as-Real Gabine e Po uguês de Lei u a (Rio de Janei o); Sec e a ia Municipal de Educação do Rio de Janei o. 294 Debu ando p o issionalmen e aos 37 anos, a esc i o a se ôdia inspi ou-se em Madame Ch ysan hème – omance publicado em Pa is, em 1887 – e ado ou o í ulo da ob a de Pie e Lo i como o pseudônimo que eio a ma cá-la po oda a ida. T aduzida pa a in a e seis línguas, inclusi e pa a o po uguês, a ob a de Lo i mos- ou-se um sucesso edi o ial e disseminou a imagem de um Japão exó ico, segundo a ó ica ancesa, pelo mundo ociden al. Nes a, um o icial ancês em passagem pela Te a do Sol Nascen e ela ou a sua es ada, pe íodo no qual con aiu «núpcias empo á ias» com uma gueixa. Os ca ac e es de exo ismo e de submissão com que o au o compôs a pe sonagem- í ulo o am inco po ados à igu ação emi- nina o ien al e e e be a am no uni e so das a es. Ma ia Cecília, ao ado a como pseudônimo um nome p óp io popula izado em odo o mundo, conseguiu chama pa a si a a en- ção de g ande pa cela do público. O sub e úgio que, em p incípio, se p es a a à p ese ação das mulhe es em um uni e so ocupado majo i a iamen e pelos «Homens de Le as», ganhou nas mãos da esc i o a ou a uncionalidade, como salien am as ês es udiosas acima e e idas E a p á ica in e nacional as esc i o as ado a em nomes masculinos pa a depois p o a em que o exe cício da esc i a li e á ia ambém cabia às mu- lhe es. Cecília op a po um nome que não con a ia sua iden idade de gêne o. Ao ado a como pseudônimo o nome do li o de Pie e Lo i, «Ma- dame Ch ysan hème», ela já mos a sua disposição pa a polêmicas media- das pela pena, p o ocando os con empo âneos. (SILVA e al., 2016: s.n.º) Ao ap esen a em suas na a i as «mulhe es insubmissas, inde- penden es, que se ecusa am a acei a os papéis adicionais que lhes são impos os pela sociedade» (SILVEIRA, 2020: s.n.º), a Ch ysan hè- me b asilei a ob e e epe cussão jun o ao con ingen e eminino al a- be izado que não chega a, no B asil, a 30% do uni e so de lei o as, compondo pe sonagens que unciona am como con apon o à Ch y- san hème o iginal. Consequen emen e, apesa da no o iedade quase ins an ânea que ob e e, Ma ia Cecília oi mui o a acada pela c í ica. Isso po que, como a en am José Ped o Toniosso e Ma iângela Alonso 295 no Rio de Janei o da Belle Époque con i em endências li e á ias conse ado as e eno ado as. O aspec o conse ado localiza a-se no código da linguagem que, com algumas poucas ousadias, con inua a iel aos modelos acadêmicos. Po ou o lado, despon a a ce o aspec o eno ado , mais p eocupado com a ealidade social eme gen e no iní- cio do pe íodo epublicano. [...] Ch ysan hème ap esen a uma no a o ma de na a a condição eminina, comba endo o discu so pa ia - cal ao c ia espaços pa a o egis o de cenas e pe sonagens de seu em- po. (TONIOSSO; ALONSO, 2009: 48) A p imei a inse ção jo nalís ica da esc i o a oco eu no Na al de 1907, no jo nal A Imp ensa, onde começou de o ma in e mi- en e a publica na a i as cu as pa a adul os e c ianças, a é assi- na , en e agos o e ou ub o de 1911, o olhe im «Almas emininas». A pa i de 1914, passou a esc e e egula men e pa a O Paiz que, po décadas a io, ize a cons a ao cabeçalho das edições o slogan: «O Paiz é a olha de maio i agem e maio ci culação da Amé i- ca La ina»2. Essa colabo ação se es endeu po in e anos inin e - up os, indo a se e omada em 1937. A pesquisado a Ma ia de Lou des Melo Pin o, em sua ese de dou o amen o, con abilizou, só nes e jo nal, o mon an e de 878 c ônicas de sua au o ia, o que nos pe mi e dimensiona a capacidade labo al e c ia i a de Madame Ch ysan hème e a boa ecepção de seus esc i os3. O sucesso de público opo unizou-lhe a publicação de 16 ob as, den e peças de ea o, omances e con os com emá icas con em- po âneas, em que o uni e so eminino e a no abilizado. De posse da pena, Ma ia Cecília não ez po menos; mos ou-se des emida, ao joga luzes sob e o ambien e domés ico, cujos con li os ica am ci cunsc i os às qua o pa edes. 2 Como B uno B asil salien a, «após a P oclamação da República, o jo nal eio a lança algumas edições especiais com i agem de mais de 60 mil exempla es». (BRASIL, 2015: s. n.º) 3 Mme Ch ysan hème ambém publicou no Co eio Paulis ano, en e 1920 e 1934, no Diá io de No ícias, en e 1936 e 1943, na Gaze a de No ícias, en e 1938 e 1941, e ez pa icipações pon uais nas e is as O Mundo Li e á io, O C uzei o e Única. (PINTO, 2006: 204-239). 296 Um ano depois de Ene adas (1922), omance que causou sen- sação na capi al da República, alçando-a à condição de jo nalis a mais lida do país, Madame Ch ysan hème ouxe à luz Uma paixão4 (1923), onde ap esen a a, em ês pa es bem dema cadas, o p incí- pio, o auge e o im de um en ol imen o assaz delicado. Ao ocaliza o a ai e en e Ma ia Luíza, moça sol ei a, e Mau ício, casado com a meia-i mã da moça, o li o a ingiu em cheio a mo alidade bu guesa. Enquan o desdob a a o imb óglio que se cons i uía na azão de se da na a i a, a au o a desco inou os di e sos campos de o ça, assim como as ensões subjacen es, no seio de uma amília da al a bu guesia. Ma ia Luíza e a a ilha do D . Ola o Azambuja – um senho al o e co pulen o, de olhos in an is e boca sem ene gia. Cu - a a os omb os dian e da mulhe despó ica e i ascí el, sem co agem pa a de ende -se e de ende con a ela a sua doce Ma ia Luiza que, en e an- o, ele ado a a! (CHRYSANTHÈME, 1923: 300) – e en eada de D. Ma ga ida, uma « obus a senho a de amplos quad is b asilei os e olhos pes anudos» (CHRYSANTHÈME, 1923: 300). Es ando os ês há um ano em ou pela Eu opa, o am os ins ados a in e ompe a iagem e ol a pa a o B asil imedia- amen e, po que Luci, a ilha mais no a do casal e meia-i mã da moça, anunciou po eleg ama a sua p imei a g a idez, exigindo a mãe ao seu lado. Luci encon a ia «em b e e no os obs áculos na ia da ealização sexual: a g a idez é de longe o mais pesado.» (KNIBIEHLER, 2009: 370) Ao in és das espe adas demons ações de júbilo com a no ícia, o que se iu logo às p imei as cenas oi a ensão c escen e, dada a pos u a in ansigen e de D. Ma ga ida e a subse iência do ma ido que, pa a con emplá-la, en idou odos os es o ços pa a ga an i o e o no da amília ao Rio de Janei o em ca á e de u gência. O po- de io pa ia cal, nesse episódio e em ou os em que ec udesciam os con on os en e os conso es, esbo oa a a olhos is os. 4 P ocedemos à a ualização das ci ações, de aco do com a no ma o og á ica igen e. 303 Acompanhado de Luci e do sog o, Mau ício pene a a, como ido e e- men e, no qua o de Ma ia Luiza. [...] Mau ício encos a a no pei o de Ma ia Luíza a sua cabeça de cabelos o es como os de uma esco a, mas du an e um minu o, o seu co ação, ba endo o e, causa a-lhe um al zunido nos ou idos que ele não ou ia nada. Às suas na inas subia o chei o daquele co po ado á el e ao alcance dos seus b aços. Colada à sua ace, ele sen ia a moça eme , queb a -se, amolece -se oda na sensação que expe imen a a assim ape ada no seu amplexo másculo e in olun a- iamen e amo oso. (CHRYSANTHÈME, 1923: 32-35) Os co pos colados suge iam uma comunhão e ó ica, endo os amilia es e a c iada como pla eia ca i a. Desde o século XIX, a casa bu guesa se di idi a en e os espaços de sociabilidade e os ese ados à in imidade dos mo ado es. «As alco as, espaço do seg edo e da in- di idualidade, o neciam oda a p i acidade necessá ia pa a a explo- são dos sen imen os» (D’INCAO, 2013: 229). E a é mesmo o e bo «pene a » chama a à imaginação com uma mensagem sub- ep icia- men e sexual. Mau ício emia, po que inha a consciência de que, ao aden a o qua o de Ma ia Luiza, o na a-se ainda mais ín imo, embo a i essem ambos de lida com o oyeu ismo dos p esen es. Além das casadas, sol ei as e sol ei onas, o omance dispunha ambém sob e as iú as, ampliando a gale ia de pe sonagens ca e- go izada segundo o es ado ci il. Nos es a os mais baixos, a iu ez aca e a a ans o nos que não compa eciam à na a i a em ques ão, po que a iú a Hen ique a Lemos encima a os mais al os es a os da sociedade b asilei a. Tia e mad inha de Ma ia Luiza, ela mo a a na Gá ea, em um palace e que, com a mo e de He ácli o, o ma ido, passou a lhe pe ence , assim como oda a gene osa o una. D. Hen ique a goza a de o al independência pa a ge i a p ó- p ia ida. Acolhe a D. Bela, colega de ju en ude que, endo pe dido o ma ido, passa a a ag egada no palace e da Gá ea. A mad inha en a a aze Ma ia Luiza pa a mo a consigo, o que a moça em p incípio declina a. Mas a paixão po Mau ício, cada ez mais e i- den e pa a os demais amilia es, o nou a sua pe manência em casa dos Azambuja insus en á el. A in e pelação da mad as a, ao inal do pa o de Luci, exace bou a humilhação: 304 – Você não! Minha ilha não a que e . E eu lhe pe gun o: e á co agem de con inua a ouba um pai a seu ilho? A apa iga i a-a esgazeada. A a on a o a ão di e a que ela não podia ingi não a comp eende . Seus olhos ala gados p ocu a am Mau ício. Es e, ligei o e ap essado, sem que e olha pa a ás, sumia-se já en e os epos ei os, onde a espe a am a esposa e o ilho... [Ma ia Luiza] chamou Benedi a e em poucas pala as como que su ocasse e não pudesse ala , ogou-lhe que a anjasse dep essa a sua mala. I ia pa a a casa da mad i- nha com a in enção de nunca mais ol a àquele palace e maldi o. [...] Benedi a con empla a-a es upe a a sem, en e an o, indaga o mo i o daquela decisão. (CHRYSANTHÈME, 1923: 212-213) Após ou i a e são da moça sob e os desdob amen os do a ai e que culmina am no seu exílio, D. Hen ique a passou a di e- ciona odas as ene gias pa a a emissão da a ilhada. Sen indo ce o alí io, en endeu que não exis ia naquela his ó ia «nada de i eme- diá el. Uma paixão in ensa la ada ce amen e naqueles dois pei os ma i izados sem cessa e isolados po o gulho e dignidade, mas a paixão cu a-se hoje como qualque ou a molés ia não demasiado g a e da alma e do co po». (CHRYSANTHÈME, 1923: 220) As ideias da mad inha e am con e gen es com o pensamen o cien i icis a amplamen e di undido no B asil, nas décadas iniciais do século XX. «A inal, pa a di e sos se o es da eli e polí ica e in elec ual na i a, nosso jo em país p ecisa a segui , após a abolição da esc a- idão e a p oclamação da República, os umos do ‘p og esso’ e da ‘ci ilização’ sinalizada na Eu opa» (SCHMIDT, 2001: 114). Alinhada com concei os ges ados ainda no século XIX, como o posi i ismo e o da winismo social, D. Hen ique a enxe ga a na mu- lhe apaixonada uma doen e, ainda que passí el de a amen o e ecu- pe ação. Vol ando o olha pa a si, a mad inha de Ma ia Luiza eme- mo ou o desa io que se impôs pa a esis i à paixão que assal a a a ela p óp ia e ao cunhado, quando cuida am ambos de He ácli o – es- pec i amen e esposo e i mão – , quando g a emen e en e mo. Com a pe da do pa cei o, um núme o signi ica i o de mulhe es pe manecia enlu ado po oda a ida. D. Hen ique a seguiu o mesmo caminho. No en an o, a enúncia saiu-lhe ca o, a pon o de e de ocul a 305 à sob inha o mo i o po que, ao con empla as lo es pú pu as da sua mesa uma onda de saudade lhe empana a semp e o olha e, sob e udo, desejou p o a à moça que udo se ol ida nes e mundo, mesmo a g ande paixão de que, en e an o, ela não cu a a nunca! (CHRYSANTHÈME, 1923: 231) A e cei a e úl ima pa e do omance disco e sob e o longo e so ido p ocesso de sepa ação po que passa am os aman es. Ma ia Luiza p incipiou a se de ende do assédio do cunhado, ao isualiza «o abismo em que es i e a ameaçada de cai » (CHRYSANTHÈME, 1923: 243). Quan o a Mau ício, não mais se encon ou como ma- ido, pois a mulhe o epudia a, nem como pai, pois não podia se ap oxima de A onsinho, o ilho ecém-nascido, sem azê-lo cho a . A é no exe cício da p o issão, o ou o a médico idealis a pe cebeu-se en e diminuído e alijado. Quando Luci decidiu pela mudança em de ini i o pa a a casa da mãe, coube ao con o mado ma ido lamen a a pe da de espa- ço, enquan o con e sa a com os p óp ios bo ões: «Que admi á el a is a a Luci! Como é possí el que moças inexpe ien es e no e - do dos anos possam engana , isando o casamen o, a homens que a inal conhecem mais do que elas o mundo e as suas c ia u as?» (CHRYSANTHÈME, 1923: 250). Mau ício ainda en ou, pela úl ima ez, econquis a Ma ia Luiza, mas D. Hen ique a man e e-se i me no p opósi o de a e e- ce os a oubos dos aman es. An e a nega i a da moça e a sua de e - minação em cindi po comple o a elação, Mau ício se a as ou em busca de isolamen o, mas encon ou pelo caminho: A iu inha La ínia Soa es, que há mui o demons a a po ele ape i e e ca inho [...] acei a, insis ia em ala e ia-se mui o, inclinando pa a ele, semp e de pé, o seu os o, que o desejo de ag ada co a a e o na a a aen e. Vendo-o, po ém, mudo e ese ado, ela le an ou-se, escalan- do um a oma o e que o on eou, como se inge isse uma gol ada de álcool. (CHRYSANTHÈME, 1923: 302) O jogo de sedução que La ínia maneja a com maes ia pa a a ai o médico le a a a c e que nem odas as mulhe es es a am 306 dispos as a ab i mão da sa is ação sexual pa a sal agua da as apa- ências. In enso aos encan os da iu inha, Mau ício se p epa ou pa a en en a a sua ia c ucis amo osa. Pensou em mo e , mas em p incípio declinou «po eceio dos escândalos que despe a ia al suicídio e do comp omisso que ecai ia sob e a cunhada, acusada al ez pela amília de se a causa de ão is e des echo» (CHRY- SANTHÈME, 1923: 309). Nesse ín e im Ma ia Luiza adoeceu, após enuncia em de i- ni i o à paixão po Mau ício. Mas o D . Claudio Teixei a, médico pessoal de D. Hen ique a, enca egou-se pessoalmen e do es abe- lecimen o da a ilhada de sua clien e e passou a equen ado con- umaz do palace e da Gá ea. Os in e esses comuns pa ilhados po ambos esul a am no pedido de casamen o, acei o po uma Ma ia Luiza algo insegu a, a busca na escu a ca inhosa da ama – a quem chama a de «Didi a» desde a in ância – o apoio decisi o: – Coça-me a cabeça, Didi a, como quando eu e a pequena e eu e di ei o que esol i aze da minha ida. [...] Escu a, ama, decidi casa -me com o D . Claudio. Que achas? Benedi a, que muda e ese ada, descob i a o amo pecaminoso da sua menina pelo ma ido da i mã, sol ou a cabelei a pe umada de Ma ia Luiza, ba endo as mãos de con en e. – B a os! G i ou ela no silêncio do qua o. B a os! Como eu es ou con- en e! O D . Claudio é um apaz e an o! Você se á mui o eliz com ele! – Não sei, espondeu a moça, suspi ando e i ando um pon o do qua o docemen e iluminado, se o se ei, mas ambém não cogi o mais dessas his ó ias de elicidade. Pa a mim, es a não exis e mais no mundo! – Que olice, que bobagem, menina. Sou uma pob e mulhe sem ins u- ção, assegu o-lhe, po ém, minha ilha, que o de e de uma moça con- sis i á semp e em casa -se com um apaz mo ige ado, simpá ico, com meios pa a sus en á-la, e depois e ilhos, que c ia á com des elo e amo . O es o, Ma ia Luiza, são babosei as e coisas de omance ancês. Benedi a pôs nessa úl ima ase odo o seu desdém pelas pal- pi ações pe u bado as da paixão sem mo al e sem eligião. (CHRYSANTHÈME, 1923: 271-272) Di e en emen e do en usiasmo exp esso pela c iada, alinha- da com os pa âme os mo ais da classe bu guesa, pouco ânimo 307 es a a a Mau ício que, endo pe dido o in e esse pela ida e pela amília, engend ou um meio de se despedi desse mundo, sem impingi maio es cons angimen os aos pa es: E assim quando na an e éspe a do enlace de Ma ia Luiza, Mau icio oi descobe o mo o com a lexí el agulha da se inga de P a as ainda incada no b aço esque do, odos o julga am í ima da sua eimosia em que e descob i alguma coisa, ele, inábil, inex- pe ien e, médico ulga , sem as luzes necessá ias pa a um in en o qualque que eng andecesse a classe a que pe encia. Somen e um dos colegas, en e os nume osos médicos chamados pa a o soco - e , ousou ala baixinho em suicídio. Os ou os cala am-se e a amília não o ac edi ou. (CHRYSANTHÈME, 1923: 313-314) Quan o a Ma ia Luiza, uma ez o alecida pa a sob epuja as pulsões que, segundo o pensamen o co en e, pode iam pe dê-la, e sen indo-se isen a de culpa, seguiu o seu caminho «embebida nas delícias de um no o amo e ol idada da osa e melha o e ada po Mau ício [...] nem seque lhe passou pelo espí i o que o cunhado se i esse ma ado po ela. Assim e minou mais uma paixão, en e lo es de la anja e lo es mo uá ias» (CHRYSANTHÈME, 1923: 314). Embalde os discu sos libe á ios em a o da mulhe nas pá- ginas iniciais de Uma paixão, o que se iu, ao seu é mino, oi o e o no ao adicionalismo da amília b asilei a, com um pedido de casamen o a edi eciona pe cu sos e sal a epu ações. Ainda que Ma ia Luiza, pelas mãos de sua mad inha, não se sen isse co- b ada ou ilipendiada po seus a os, deu os passos espe ados po D. Hen ique a em di eção ao enal ecimen o da amília que, malg a- do os essen imen os e os pequenos anco es ep esados, eme giu da expe iência amo osa solidi icada enquan o ins i uição. As ques ões le an adas no omance e sa am sob e si uações con empo âneas que palpi a am na Belle Époque ca ioca e ainda ecoam no B asil do século XXI, como a ele ância da exp essão eminina e as elações de pode que se es abelecem no seio das amílias. Ainda que a oca de papéis na diegese des inasse às mulhe es o luga de mando e aos homens um luga subal e no na in imidade dos la es, não se e i ica a uma ans o mação 308 e e i a nos núcleos amilia es, po que a de esa dos in e esses indi i- duais só ez acen ua a desigualdade de gêne o e ec udesce os con li os domés icos. As sol ei as, casadas e iú as que habi a am a na a i a, o e- ecendo uma gale ia de igu ações a iegadas, possibili a am, ain- da que iccionalmen e, de ec a uma la ência do público eminino, pa a ocaliza seus desejos e e le i sob e as possibilidades de in e - enção, numa cidade que apidamen e se mode niza a. No uni e so iccional, a c iada inha mais possibilidades de ex- p essão que as pe sonagens masculinas, en e dissimuladas e impo- en es. Apesa de, à p imei a is a, unciona como uma pe sonagem secundá ia, a po uguesa Benedi a ganhou ele o, dado o núme o equen e de inse ções7 na na a i a. Em suma, a c iada e a quem mais inha acesso aos seg edos amilia es. Uma paixão possibili a a nós, lei o es con empo âneos, g a as su p esas, po aze da au o ia eminina um di e encial em meio à in elligen sia b asilei a, p edominan emen e machis a e misógina. As colocações e as a i udes de Ch isan hème no campo iccional e na ida eal causa am con ulsões no público e na c í ica, o que pode e con ibuído pa a o seu i ual apagamen o. No en an o, enquan o consumidos a idamen e po um uni e so c escen e de lei o as, seus omances e c ônicas ab i am en es pa a as esc i o as que ganha am p ojeção na sea a li e á ia b asilei a, nas décadas subsequen es. As poucas ob as da au o ia de Madame Ch ysan hème que pe du am acessí eis pe mi em que pe cebamos as mulhe es en- quan o se es singula es, com pe cu sos e opções de ida plu ais. Desse modo, ge minam possibilidades á ias de lei u a, inclusi e a de julga «uma paixão» algo passí el de expe imen o e supe ação. 7 A po uguesa Benedi a in e age com os demais pe sonagens às páginas 11, 33, 34, 47- 48, 49, 53, 76, 86, 124, 131, 212-213 e 271-272 do e e ido omance. (CHRYSANTHÈME, 1923: 314 pp.). 309 Bibliog a ia BRASIL, B uno (2015) – O Paiz. Rio de Janei o, 1884-1930. Biblio- eca Nacional Digi al. 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E a comum naquela época li os b asilei os se em edi ados em Po - ugal ou na F ança. Alguns au o es, como Lima Ba e o, po exem- plo, i e am p imei o seus li os publicados po edi o as po ugue- sas e só, pos e io men e, po edi o as nacionais. No caso, deu-se o con á io, com uma edição b asilei a an e io a uma luso- ancesa . O li o ap esen a algumas, eu di ia mui as, cu iosidades. Na página em que apa ecem í ulo, au o , edi o a, encon a-se ambém a epíg a e do li o, uma ase do esc i o ancês Mon aigne: «Ce son icy mes an asies, pa lesquelles je ne asche poin de donne à cognois e les choses, mais moy...», cuja adução pode se p óxima a «es ão aqui minhas an asias a pa i das quais eu não me es o ço em aze conhece as coisas, mas eu…». A epíg a e ajus a-se ao con ex o ge al dos con os, com his ó ias que se a as am da 1 Colégio Ped o II (Rio de Janei o) 2 A o og a ia do í ulo (Balladilhas) e de inúme as pala as usadas na cole ânea oi a ualizada segundo as no mas o og á icas igen es. 312 e ossimilhança, em o ma de lendas, de na a i as eligiosas ou mí- icas, de his ó ias de amo ágicas ou de amizades des ei as, e quase odas ambien adas em luga es exó icos e dis an es da ealidade do lei o e do p óp io au o , como assinala ei mais à en e. Na edição u ilizada, o au o emi e uma «no a explica i a» escla ecendo que os ex os publicados em Baladilhas são u o dos «olhos límpidos e cu iosos» da mocidade (COELHO NETO, 1924: 3). Po essa azão, o esc i o essal a que eles não so e am nenhum ipo de al e ação e/ou e isão, pa a não con amina o que ali ha ia da pu eza do momen o de sua p odução. A no a é da ada de 1920, pos e io , po an o, à p imei a edição e an e io à de 1924 (3ª edi- ção), com que abalho. P o a elmen e oi ac escen ada à 2ª edição da ob a, de 1922, chamada de «de ini i a». Na página a segui do olume em análise, há um dís ico com os seguin es dize es: O espí i o, como o empo, em as suas es ações. Com es e li o indou a p ima e a da minh’alma. (COELHO NETO, 1924: 5) Es e dís ico já apa ece na edição de 1894, ou seja, e le e o es ado de espí i o em que oi p oduzida a edição p inceps da ob a que, pelo que se pode pe cebe , não so eu al e ações pos e io es, a im de man e o espí i o da época de sua p odução. De o ma ge al, os 27 con os que compõem o li o ap esen am um clima que oscila en e o gó ico, o mi ológico, o eligioso, o pagão, o omân ico, o mís ico. O con o «Memen o», po exemplo, cujo í ulo é uma pala a de o igem la ina, elacionada com a exp essão Memen o mo i, que signi ica «lemb a- e da mo e», como uma o - ma de apelo aos i os pa a que lemb em dos mo os, ap esen a, em seu início, o que pode se conside ado um esumo do con eúdo dos con os em ge al. O pa ág a o inicial explici a o clima de i ealidade, a opção po ambien es exó icos, bem ao gos o da li e a u a omân ica: De que p o ém essa is eza neg a que, às ezes, po longo espaço, à noi e como nas ho as cla as, subjuga minh’alma ao desespe o? De que epassado ama go é ei a essa nos algia? Em que penso? 319 que busca e de cuja ausência se essen e. O clima de o gia, de sensua- lidade é queb ado pela impo ência de He culano. Tal qual no «suplí- cio de Tân alo», odos os p aze es es ão ali, à sua disposição, mas ele não os pode alcança : «He culano ga galha, anseia e cho a. Fal a-lhe a o ça an iga» (COELHO NETO, 1924: 73). Po isso, impinge a odos a mesma o u a a que es á subme ido, impedindo, po ódio, po in eja, que ou os enham os p aze es que lhe são negados. Sua impo ência o az odia os que podem des u a do gozo da ca ne, os que possuem po ência sexual, le ando-o, po exemplo, a ma a um casal que p a ica sexo no momen o exa o de seu gozo: «Aqui, ope- ça num casal obus o. Pa a, escu a os gemidos e as pala as, i louca- men e, aplaude, espia, agacha-se e, pa a sacia o seu despei o, c a a o es ile e nas ca nes dos que gozam» (COELHO NETO, 1924: 74). Pe de a po ência sexual, do co po, co esponde a mo e . Como ele a i ma algumas ezes ao longo do ex o, «An es mo esse a alma!» (COELHO NETO, 1924: 74-75), po que eis, deuses, ho- mens pode osos e de alo sup emo se azem de sua o ça e i ali- dade ísicas, no que en a sua po ência sexual. A ausência de ape i e ca nal o ans o ma em um homem aco pe an e aqueles que de e- iam admi á-lo. In e essan e como um ex o com an o apelo ca nal pos- sa e sido esc i o po um au o que equen a a os salões da al a bu guesia de inais do século XIX, início do século XX. No en an o, o eo sexual, lúb ico, é, de ce a o ma, des iado pela di iculdade em acompanha as inúme as e e ências mi ológicas, em deci a o ocabulá io complexo, o que pode ia a as a o lei o do con eúdo ex emamen e e ó ico que pe passa a pequena his ó ia. É no con ex o do suplício de Tân alo a que es á subjugado He culano que su gem os «lusi anos». Embo a não se aça no con o uma alusão explíci a ao e mo «po ugueses», «lusi anos» são os po- os ibé icos p é- omanos que habi a am a egião oes e da Península Ibé ica desde a Idade de Fe o. Em 29 a. C., na sequência da in asão omana a que esis i am po longo empo oi c iada, nos seus e i ó- ios, a p o íncia omana Lusi ânia, co esponden e à g ande pa e do a ual e i ó io de Po ugal. Os po ugueses conside am-se descen- den es de Vi ia o, a igu a mais no á el en e os lusi anos e um dos 320 seus líde es no comba e aos omanos. Logo, pode-se in e i que os lusi anos ci ados eme em aos po ugueses em sua o mação inicial10. Em um de e minado momen o, «He culano manda i os p isionei os: lusi anos e gauleses, omados em Ca ago» (COELHO NETO, 1924: 72). Po an o, os lusi anos apa ecem na na a i- a como de o ados, p isionei os à me cê do pode e do desejo de He culano. E o p o agonis a deseja aquilo que o aba e, o mesmo «suplício de Tân alo» que o az so e . Assim, az os p isionei os e- em a beleza da ca ne e a sua impossibilidade: Ab em-se as lo es da sensualidade! Plena nudez! Cada mulhe um io de olúpia onde b incam dois sá i os: os seios. Os bá ba os, o egan es de lascí ia, pedem com e nos olhos, angem os den- es e ugem como leões no empo cálido. (COELHO NETO, 1924: 72). Não é a a és da o ça ísica, da o u a dos co pos que o ei az ale sua i ó ia; é a a és da humilhação da ca ne, da impossibilidade de e o co po que o a se o e ece, de e conc e izados os desejos ca nais. He culano, capaz de ence odas as limi ações da ma é ia, é incapaz de supe a sua impo ência, e deseja que odos ao seu edo enham o mesmo des ino. Aos bá ba os lusi anos cabe a pena de pedi «com e nos olhos» o que não podem e ; de ange os den es e ugi como leões dian e do desejo que se az do na sua impossibilidade. Como disse He culano, «An es mo esse a alma». O li o ainda me ece dois comen á ios ace ca de ques ões de o dem es u u al. Sob o í ulo de qua o con os, há uma mesma ase, «Dos manusc i os de Ka ma, poe a do amo ». Todos os con os gi am em o no de ques ões / e lexões amo osas, com o amo como cen o das ações, a maio ia de inal ágico. Não descob i a azão de esses ex os especi icamen e –no caso, os con os (10) «O ilho de Faus o», (11) «Canção is e», (16) «So o dolo ida» e (21) «Rumi- nan e» – ap esen a em essa e e ência bibliog á ica. Uma hipó ese é, 10 Disponí el em h p://his o ia-po ugal.blogspo .com/2008/02/quem-e am-os- -lusi anos.h ml. 321 como disse, o ema do amo associado à mo e, da busca da essência do amo pu o, ou da mo e po amo , assim como o amo ge ando iolência e mo e. O poe a ic ício Ka ma pode se aquele que se en- con a subjugado a alguma ação an e io , da qual não pode escapa , associada à inexo abilidade do amo , da ida, da mo e11. Po sua ez, o con o «In an e» ap esen a uma pa icula idade. O í ulo apa ece com um as e isco que le a a uma explicação ace ca de sua publicação. É di o que o ex o oi «P imi i amen e esc i o em ancês, apa eceu n’A Vida Mode na assinado com o pseudônimo Cha les Rouge » (COELHO NETO, 1924: 207). Fui em busca de A Vida Mode na. Encon ei olumes de uma Re is a Mode na12, que, endo sido lançada em 15 de maio de 1897, oi uma das mui as publicações ilus adas e de a iedades que começa am a ci cula na Eu opa nas úl imas décadas do século XIX. A e is a e a edigida em Pa is e publicada quinzenalmen e. Ci cula a em Po ugal e no B asil sob a di eção de Ma inho Ca los de A uda Bo elho. Pela edição ancesa, ac edi ei que al ez aqui encon asse o ex o o iginal de Coelho Ne o, mas ambém não ob i e sucesso. Não se ia mais uma das iccionalizações do au o , assim como a do poe a Ka ma? É uma explicação plausí el. As Baladilhas de Coelho Ne o são uma ag adá el su p esa. A despei o das di iculdades de lei u a encon adas em deco ência das mui as e e ências in e ex uais com uni e sos a as ados do lei- o comum e mesmo do lei o mais so is icado, as his ó ias nos en- ol em em suas excen icidades, assim como as lendas, nas quais mui os con os se inspi am, en ol em a é os dias de hoje lei o es po odos os luga es. Se ha ia ali mui o de «sensualismo e bal», como des acou o c í ico li e á io, ha ia ambém mui a imaginação, mui a pesquisa, mui o conhecimen o, em um p oje o de p odução li e á ia que le ou o au o a dezenas de li os e a uma popula idade ímpa na 11 «Na iloso ia e nas eligiões indianas, o ka ma é uma espécie de lei uni e sal de causa e e ei o. Ele di a que oda ação em consequências u u as, que dependem de sua na u eza». Disponí el em: h ps://supe .ab il.com.b /mundo-es anho/o-que-e-ka ma/ 12 Re is a Mode na. Disponí el em: h ps://bndigi al.bn.go .b /a igos/ e is a-mode na 322 his ó ia da li e a u a b asilei a. Tal ez seja a ho a de ecupe a esse g ande esc i o e de ea alia sua impo ância na o mação de um público lei o no B asil do início do século XX. Bibliog a ia AULETE, Caldas (1964) – Dicioná io con empo âneo da língua po u- guesa em 5 olumes. 2ª edição b asilei a. Rio de Janei o: Edi o a Del a. COELHO NETO (1924) – Baladilhas. 3ª ed. Po o: Li a ia Cha d on. LIMA, Alceu Amo oso (1996) – «Coelho Ne o». In P imei os es udos. Es udos li e á ios. Rio de Janei o, Aguila , p. 78-80. MORAES, Ma cos An onio de (2004) – «Coelho Ne o en e mode - nis as». Li e a u a e sociedade, ol. 9, n.º 7, p. 102-119. Disponí el em h ps://doi.o g/10.11606/issn.2237-1184. 0i7p102-119. 323 As pe sonagens po uguesas em Jubiabá, de Jo ge Amado Zuzana Bu iano á1 In odução Jubiabá (1935), o qua o omance do esc i o baiano Jo ge Amado, pe ence à ase inicial da sua ob a, em que o jo em au o , inspi ado pela ideologia comunis a, publicou uma sé ie de omances de cunho p ole á io. Sob a in luência das es é icas do neo ealismo e do ealismo socialis a, mas já pe meado po aços olclo izan es e oman izan es que ie am a acen ua -se nas suas ob as pos e io es, a na a i a o e ece um as o painel da ida das classes popula es da cidade de Sal ado e do Recônca o baiano da época. O omance ma cou signi ica i amen e a cena li e á ia, p in- cipalmen e po ap esen a , na opinião da c í ica, o p imei o he ói neg o da li e a u a b asilei a, «um pe sonagem que eme ge legi- imamen e do seio do po o e o ep esen a» (GOMES, 1982: 56). Oswald de And ade, po exemplo, des acou «um pasmo an e esse li o logo conside ado o maio omance de neg os que se conhecia», com o qual o au o « i ma a pa a semp e o seu nome de mes e» na li e a u a nacional (ANDRADE, 1976: 120). Simul aneamen e, Jubiabá chamou a a enção pelo a o de e- p esen a um dos p imei os omances p ole á ios no B asil. Apesa de a c í ica e epe idamen e apon ado pa a as de iciências li e á- ias das ob as amadianas, nomeadamen e daquelas publicadas na década de 30, conco damos com a obse ação de Luís Bueno de que mesmo nos p imei os ês omances que seguem as no mas do omance social p ole á io, Cacau, Suo e Jubiabá, mani es a-se uma 1 Uni e sidade Palacký Olomouc (República Checa). Es e a igo oi concebido no âmbi o do apoio do Minis é io da Educação Tcheca à Uni e sidade Palacký em Olo- mouc (IGA_FF_2020_023). 324 p eocupação com aspec os o mais: «A ansição de um omance pa a o ou o mos a um esc i o inquie o, em busca de nada menos que uma solução o mal pa a a li e a u a social que o in e essa a» (BUENO, 2012: 32). Se em Cacau Amado cap ou o amadu eci- men o ideológico de um abalhado u al na egião cacauei a do sul da Bahia, passando em Suo , ambien ado em Sal ado , pa a o e a o de um he ói p ole á io cole i o, em Jubiabá ele ol ou a um p o a- gonis a cen al, indi idualizado, e a ando a sua aje ó ia desde a maland agem a é ao engajamen o na lu a p ole á ia (c . BUENO, 2012: 31-35). A na a i a, que le a aços do omance de o mação, desc e e em e cei a pessoa di e en es e apas da ida pica esca de An ônio Balduíno, chamado de Baldo, menino neg o e pob e que nasceu, num mo o, em Sal ado . Ó ão de pais, c iado pela ia, ap esen a-se como che e de um g upo de moleques do mo o, ag egado na casa de um comendado , maland o de ua, boxeado , sambis a, abalha- do nas plan ações de umo no Recônca o baiano, a is a de ci co e, inalmen e, como es i ado que se o na líde g e is a. Simul anea- men e, o omance na a a his ó ia da sua paixão po Lindinal a, a ilha do comendado , e o des ino ágico da moça, em consequência da decadência econômica e social da amília. Além de e a a o co- idiano e o imaginá io do uni e so a o-baiano, com as suas igu as, ambien es ípicos e elemen os cul u ais, a linha na a i a cen al cap a o p ocesso de conscien ização polí ica do p o agonis a. O li o le a o nome de um pe sonagem secundá io – Jubiabá –, um cen e- ná io pai-de-san o do candomblé, que goza de um g ande p es ígio na comunidade neg a e ep esen a uma espécie de guia espi i ual de Balduíno, a é o momen o em que os dois se desen endem quan o à impo ância da g e e, cujo signi icado Jubiabá não comp eende. Os po ugueses na ob a de Jo ge Amado Apesa dos o es laços de Jo ge Amado com Po ugal, das isi- as equen es a esse país, sob e udo depois da queda do egime sala- za is a, e das elações de amizade com á ios in elec uais e esc i o es 325 neo ealis as po ugueses (LOPES, 2015), nos seus omances não apa ecem equen emen e e e ências a Po ugal, nem se encon am mui as pe sonagens po uguesas (c . CHAVES, 2015: 76). Como o p óp io au o explicou, esse a o e le ia a si uação demog á ica da Bahia da época. Embo a o sangue lusi ano co esse nas eias do po o baiano, al como no de odo o po o b asilei o, a p esença po - uguesa no No des e oi diminuindo depois de a Bahia e deixado de se o cen o da colônia, a a o das egiões do Sul e Sudes e. Na es ima i a do esc i o , no seu empo i iam na Bahia pouco mais de mil po ugueses, sendo a maio ia deles de classes abas adas (c . AMADO, 1992: 161-162). Essas, como sabido, não pe encem ao ambien e p e e encialmen e e a ado pelo au o , ocalizado p e- dominan emen e nas classes popula es do uni e so baiano. Os po ugueses que es ão p esen es nos omances amadianos são na sua maio ia pe sonagens secundá ias, poucas ezes mencio- nadas ao longo da na a i a e, em ge al, de sexo masculino, embo- a ambém haja mulhe es, como mos a emos em seguida. Os ho- mens po ugueses abalham p incipalmen e no se o do comé cio e se iços, como donos de ba es (Manuel Po uguês, em Tie a do Ag es e) e es au an es (Seu Mo ei a em Dona Flo e seus dois ma i- dos), masca es (o caixei o- iajan e em Te as do sem- im), come ci- an es icos (o ma ido de Rosa em Tenda dos milag es), banquei os e expo ado es (Comendado Celes ino em Dona Flo e seus dois ma idos) e c. A sua p o issão na á ea come cial não é alea ó ia e co - - esponde à ealidade, cujas aízes é p eciso p ocu a na his ó ia da imig ação po uguesa no B asil. No B asil colonial, os po ugueses cons i uíam a g ande maio- ia da população b anca do país; mui os deles abalha am na ad- minis ação colonial ou possuíam g andes p op iedades. O luxo de imig an es po ugueses con inuou mesmo após a independência. De ido à c ise econômica em Po ugal, no século XIX começa am a i pa a a an iga colônia ambém pessoas pob es, do no e do país ou dos Aço es, que ob inham abalhos mal emune ados e equen- emen e i iam em condições p ecá ias. Como a i ma Rosana Ba bosa, o B asil pe maneceu a p incipal des inação dos po ugueses 326 a é aos anos de 1960, quando oi subs i uído pela F ança. Po ugal oi ambém o país que, ao longo da his ó ia, o neceu ao B asil o maio núme o de imig an es li es (c . BARBOSA, 2003: 195). Na segunda me ade do século XIX, embo a uma pa cela dos po ugueses osse ec u ada pelo go e no b asilei o pa a a la ou a ca eei a nas egiões sulinas, a maio ia dos imig an es, sob e udo os le ados, di igia-se pa a ambien es u banos onde p ocu a a emp ego no se o come cial. Os imig an es lusos con ibuí am p incipalmen- e pa a o desen ol imen o do comé cio a ejis a u bano, não apenas no Rio de Janei o, onde p incipalmen e se es abeleciam, mas am- bém o a, em Sal ado , São Paulo, San os, e c. Eles e am a aídos po aquela á ea p o issional «não apenas po con a do c escimen o signi ica i o desse sec o , mas ambém po que o comé cio a ejis a dos cen os u banos do B asil es a a sendo con olado pelos po u- gueses desde o pe íodo colonial» (BARBOSA, 2003: 185). Em compa ação com as egiões me idionais do país e a é com Pe nambuco, o Pa á ou o Amazonas, a Bahia oi, na segun- da me ade do século XIX, bem menos p ocu ada pelos po ugueses (c . SERRÃO, 1976: 102). A imig ação na egião concen a a-se nos ambien es u banos, sob e udo em Sal ado , de ido à decadên- cia da ag icul u a baiana, dependen e da p odução cana iei a, e à elu ância dos po ugueses em se sujei a em ao abalho du o nos cana iais (c . GANDON, 2010: 63). Assim, os imig an es po u- gueses e am, na maio ia esmagado a, come cian es, sob e udo cai- xei os, embo a uma po cen agem deles, na u almen e, se dedicasse ambém a ou as a i idades, po exemplo ma í ima (c . GANDON, 2010: 74). Segundo Joel Se ão, a imig ação po uguesa na Bahia inha um ca á e adicional, o ien ado pa a negócios, e o seu ob- je i o oi conse a a comunidade po uguesa lá exis en e desde os empos coloniais (c . SERRÃO, 1976: 102). Os come cian es po - ugueses na Bahia p ocu a am, equen emen e, os seus emp egados em Po ugal, o que o na a a comunidade lusa bas an e echada, como es á documen ado no ex o seguin e: A maio ia dos po ugueses cujos es amen os o am abe os em Sal a- do en e os anos 50 e 90 do século XIX, po ém e a de come cian es. 327 O eo de ais es amen os indica que ha ia oda uma eia de pa en escos e apad inhamen os en e os elemen os lusos nes a cidade, e que, de um modo ge al os es amen ei os e am da mesma nacionalidade dos es a- do es (GANDON, 2010: 93). As elações en e pa ões e emp egados nas casas come ciais po - uguesas inham o ca á e de «co po ações medie ais no que diz espei o ao con ole pa e nalis a e au o i á io do «‘amo’ sob e seus subo dinados, e quan o às condições de ascensão social des es úl i- mos» (GANDON, 2010: 173). Como a i ma Ba bosa, e a cos u- me os emp egados es a em sujei os a du as condições, do mindo na loja, abalhando po longas ho as du an e se e dias po semana, às ezes sem ecebe em nenhum salá io. Eles acei a am esse egime de semi-esc a idão com a espe ança de se o na em sócios ou a é he dei os dos pa ões abas ados, po exemplo a a és de casamen os com as suas ilhas (c . BARBOSA, 2003: 186). Em «O compad e de Ogum», na a i a que az pa e do o- mance Os pas o es da noi e, Jo ge Amado inse iu uma his ó ia lú- dica que e a a uma elação pa ecida àquela acima desc i a, en e dois po ugueses – um pa ão de meia idade e um caixei o jo em: Jose a, casa a-se, já após a abolição, com um moço de a mazém, lusi a- no b anco e boni o, doido pela mula a de ancas al as e den es limados. […] Pa a o apaz al casamen o pa ecia signi ica o im de suas melho es espe anças, pois seu pa ão e compa io a, dono do a mazém onde ele abalha a, po uguês iú o e sem ilhos, o ha ia des inado a uma p ima, udo quan o lhe es a a de amília numa aldeia de T ás-os-Mon es. […] O ideal e a casa seu emp egado iel com a pa en a, deixa pa a eles, quando mo esse, o p óspe o a mazém. Jose a eio ompe al combi- nação (AMADO, 2009: 161). Os dois po ugueses acabam o nando-se «sócios no comé cio e na cama» (AMADO, 2009: 163). A mula a sensual, usando o seu cha me e in eligência, consegue ganha a simpa ia do pa ão po - uguês que começa a apoia a jo em amília, p omo endo o ma i- do dela a sócio e, depois, a he dei o. Após nasce o p imei o ilho do casal, ha ia inclusi e boa os de o pa ão se o pai da c iança 328 e, se não osse, « e ia sem dú ida, no en an o, colabo ado na ei- u a e no acabamen o do menino» (AMADO, 2009: 162). As pe sonagens po uguesas em Jubiabá Em Jubiabá, encon amos cinco pe sonagens de p ocedên- cia explici amen e po uguesa, das quais ês es ão elacionadas com a amília do Comendado Pe ei a que, du an e ês anos, c ia An ônio Balduíno em sua casa. São elas o p óp io comendado , dono de uma casa come cial, a sua esposa Ma ia, e a cozinhei a Amélia. Des as pe sonagens, apenas o comendado e a cozinhei a desempenham um papel signi ica i o na ação p incipal que cap a a o mação da pe sonalidade do p o agonis a. A esposa do comen- dado p a icamen e não age na na a i a, ep esen ando uma a- dicional mulhe casada da al a bu guesia, passi a e obedien e em elação ao ma ido. No que se e e e a Lindinal a, ilha do casal, icamos sem sabe ao ce o se nasceu em Po ugal ou já no B asil. Sabemos apenas que, no momen o em que Balduíno en ou na amília do comendado , ela inha po ol a de quinze anos, sendo um pouco mais elha do que ele, e que o seu pai «mo a a ali há mui os anos, desde que co- meça a a en ica » (AMADO, 2008: 51). Na nossa análise, po ém, não podemos deixa de eco e a es a pe sonagem, po ela e uma unção essencial na ama omanesca. Além disso, a sua pe sonali- dade e aje ó ia ep esen am bem o uni e so social e cul u al da bu guesia decaden e que o au o p e ende e a a no omance. Ao lado da amília Pe ei a apa ecem, no omance, ainda ou as duas pe sonagens po uguesas, de ca á e secundá io: Seu An ônio, dono de um bo equim, e Manuel das Almas, p op ie- á io de uma con ei a ia. Desde já podemos obse a que odas as pe sonagens masculinas de o igem po uguesa, que apa ecem na ob a, abalham, embo a em di e en es pa ama es sociais, como donos de es abelecimen os come ciais. 335 po uguesa de cabelos comp idos ( azia duas anças que ica a a admi a no espelho) e da a-lhe língua quando ela es a a de cos as» (AMADO, 2008: 54). É de ido à maldade da cozinhei a que a exis ência do p o agonis a, encaminhada pa a ele se o na um emp egado do comendado , oma ou a di eção, umo à maland agem. Depois de ugi da casa do comendado , ele começa a i e na ua com um bando de adolescen es, come endo pequenos deli os. Mais a - de passa po di e en es emp egos mal pagos e á ias a en u as. Po algum empo Amélia deixa na memó ia do jo em uma imagem p o- undamen e nega i a: Balduíno pensa que mulhe é bicho uim e aiçoei o. Toda ez que ele pensa em mulhe uim, se lemb a da Amélia, a emp egada da casa do comendado . Amélia men ia cinicamen e, com a mesma ca a de quem es á a dize a maio e dade do mundo (AMADO, 2008: 236). Não obs an e, ele p óp io se ape cebe que essa expe iência dolo osa ambém con ibuiu pa a ele se o na um se mais li e, po que, se i esse icado a abalha pa a o comendado , « e ia sido um esc a o» (AMADO, 2008: 272). A pe sonagem de Amélia, po ém, passa po uma ce a ans- o mação ao longo da na a i a, pois a deg adação econômica e so- cial, que ela expe imen a jun o com os pa ões, pa ece o ná-la mais humilde e since a. Depois da mo e dos pa ões, Amélia cuida de Lindinal a, ajuda-a no pa o, oma con a do seu ilho quando ela ai abalha no p os íbulo e, após Lindinal a alece , jun o com Balduíno c ia o ilho dela. Apesa de não pedi explici amen e des- culpa ao p o agonis a, ela econhece a sua condu a indigna: «Eu iz in iga… Anda a com ciúmes dos pa ões gos a em an o de ocê» (AMADO, 2008: 276). Amélia assim ep esen a uma pe sonagem ambi alen e, um ipo de « ilã edimida». Po um lado, pode íamos colocá-la ao lado de pe sonagens de emp egadas domés icas cujo obje i o é p e- judica os seus pa ões ou pessoas p óximas des es, que encon a- mos nas li e a u as lusó onas, equen emen e na na a i a ealis a. 336 Como exemplos podemos menciona a igu a de Juliana em P imo Basílio, de Eça de Quei ós, que chan ageia a sua pa oa po lhe in- eja o seu es a u o social, ou M s. Oswald, a go e nan a inglesa em A mão e a lu a, de Machado de Assis, que az in igas con a a a ilhada da pa oa. O compo amen o condená el des as pe sona- gens é ap esen ado p incipalmen e como deco en e dos de ei os do seu ca á e , embo a pa cialmen e ambém osse in luenciado pela sua condição social, que as ob iga a se i oda a ida pessoas mais a o ecidas. Po ou o lado, na pe sonagem de Amélia podemos no a- men e no a o obje i o do au o de sublinha sob e udo o ca á- e desumanizan e do capi alismo. Amélia, mulhe sol ei a de o igem humilde, não em mui as opções de ida na sociedade do seu empo: ou en a na p os i uição, como aliás azem mui- as pe sonagens emininas pob es na ob a amadiana, ou, se que le a uma ida «hones a», é ob igada a sujei a -se à classe domi- nan e. Embo a goze de uma elação boa com os pa ões, como emp egada ela é explo ada ao pon o de quase não e a sua p ó- p ia ida, endo que i e a ida dos seus pa ões. A sua condição é esumida po uma única ase: «Amélia en elhecia na cozinha» (AMADO, 2008: 262). A sua de oção e abnegação são ap ecia- das, mas simul aneamen e omadas como na u ais. A p oximida- de en e ela e os pa ões es á longe de signi ica igualdade, como ica pa en e do simples a o de ela come sepa adamen e na co- zinha (c . AMADO, 2008: 54). Os laços en e Amélia e a amília do comendado podem se desc i os pelas mesmas pala as que Gandon usa pa a ca ac e iza a elação en e pa ões e emp egados na comunidade po uguesa em Sal ado , na segunda me ade do século XIX: Em esumo, di íamos que a dependência mú ua en e pa ões e emp e- gados imig an es po ugueses em Sal ado con ibuía pa a a sob e i ên- cia do g upo como um odo. A de esa dos in e esses especí icos da sua eli e implica a em que osse man ido um clima de solida iedade g upal com base em elações pa e nalis as que e o ça am a explo ação da classe abalhado a pela dos pa ões (GANDON, 2010: 104-105). 337 São es as as azões que nos le am a c e que o jo em esc i o , se bem que de uma manei a um an o esquemá ica, ez passa a pe sonagem de Amélia po uma mudança isí el no omance, ap esen ando-a mais como uma í ima do sis ema explo ado do que como uma pessoa de mau ca á e . Pe sonagens po uguesas secundá ias Ou a pe sonagem de o igem po uguesa que apa ece na na a- i a, embo a seja bem menos impo an e do que as já mencionadas, é Seu An ônio. É p op ie á io da Lan e na dos A ogados, bo equim popula em que se oca iolão, can a-se can igas popula es e dança- -se samba, luga equen ado po ma inhei os, es i ado es, gen e po- b e e p os i u as, mui o ap eciado ambém po An ônio Balduíno e os seus amigos. O po uguês comp ou o bo equim de uma mu- la a, iú a de um ma inhei o que o cons uí a, a qual con inuou a abalha lá como cozinhei a. Como Seu An ônio não gos ou do nome o iginal, mudou-o pa a Ca é Vasco da Gama, mas os egueses descon ia am do nome suspei o e deixa am de equen a o luga . Po se supe s icioso, o po uguês acabou po coloca no ba a an i- ga abule a com o nome o ignal: Com a abule a de Lan e na dos A ogados ol ou ambém a mula a es- cu a que o a aman e do ma inhei o e que con inuou a aze a oz-doce pa a os egueses e bóia pa a os es i ado es, e a do mi na mesma cama que an igamen e. Só que ago a do mia com um po uguês con e sado , em ez de um ma inhei o silencioso. Quando seu An ônio mon asse um ca é no cen o da cidade e bo asse nele o nome de Vasco da Gama e uma abule a com ca a elas descob ido as, ela ica ia na Lan e na dos A oga- dos, azendo a oz-doce pa a os egueses, bóia pa a os es i ado es e do - mi ia na mesma cama com o no o p op ie á io (AMADO, 2008: 86). Seu An ônio não em no omance um papel impo an e pa a o desen ol imen o da ama omanesca, se e, po ém, pa a en iquece o e a o dos ipos humanos do ambien e popula de Sal ado . Con- udo, na sua passagem da pe i e ia pa a o cen o da cidade, ambien- es simbolizados pelos nomes dos dois es abelecimen os come ciais, 338 podemos obse a a sua on ade de ascensão social, assim como o apego aos elemen os cul u ais elacionados com a sua o igem. Com ele con as a a mula a, que se o na aman e de á ios donos de um mesmo es abelecimen o, lemb ando a já mencionada his ó ia de Jose a, em Os pas o es da noi e. Na sua desc ição, ausen e de quais- que endências mo alizan es, sublinha-se a lealdade da pe sonagem ao uni e so popula do qual ela p o eio, jun amen e com a sua libe - dade sexual. A úl ima pe sonagem po uguesa que apa ece no omance é Manuel das Almas, ico dono de uma con ei a ia, pa a quem Amélia, a pedido de Lindinal a, ai abalha depois da alência do comendado . Ele é apenas uma ez mencionado, sem qualque ou a ca ac e ís ica, con ibuindo apenas pa a acen ua a es a i i- cação social e econômica da comunidade po uguesa, em Sal ado . Conside ações inais Em Jubiabá, omance ma cado pelo a i ismo polí ico do jo em Jo ge Amado, podemos ep o a uma sé ie de limi ações na cons u- ção das pe sonagens, p incipalmen e em elação à ca ac e ização e ao desen ol imen o das suas pe sonalidades, em que anspa ecem os obje i os ideológicos do au o . Não obs an e, a es a na a i a, que ap esen ou um he ói neg o como um po a- oz da sua aça e do seu po o, assim como da classe p ole á ia, não se pode nega o a o de e c iado algumas igu as inesquecí eis, ex aídas do uni e so baia- no das p imei as décadas do século passado. A ele pe encem ambém as igu as dos po ugueses que, embo- a não sejam nume osas, con ibuem pa a o e a o da comunidade lusa, es abelecida em Sal ado à época. Não su p eende que as ês pe sonagens po uguesas masculinas do li o es ejam ligadas ao se o come cial, po que, de aco do com es udos his o iog á icos ace ca da imig ação po uguesa no B asil, o comé cio ep esen ou a p incipal á ea p o issional dos imig an es po ugueses, após a independência do país. Os come cian es po ugueses no omance são odos p op ie- á ios de es abelecimen os come ciais, embo a pe ençam a di e en es 339 camadas sociais: encon amos um memb o da al a bu guesia que possui um g ande a mazém, um ico p op ie á io duma con ei a ia no cen o da cidade, e um dono de um bo equim popula , si ua- do no cais. Po ém, a posição econômica e social deles não é es á el. Expos a a con adições imanen es da p odução capi alis a, ela é ma - cada pela mobilidade, an o no sen ido ascenden e, como oco e com Seu An ônio, quan o no da decadência, como acon ece no caso do comendado . As igu as emininas de p ocedência po uguesa ambém e- p esen am di e en es polos sociais. Po um lado, emos uma em- p egada domés ica, que dedica a ida in ei a ao se iço dos icos, po ou o, uma ilha de amília adicional bu guesa, cuja aje ó ia pessoal acompanha a decadência da sua amília. Enquan o os ho- mens da classe bu guesa se ealizam, p o issionalmen e, a a és das suas capacidades in elec uais, ambas as mulhe es, a despei o da sua di e ença social, são ob igadas a sus en a -se com o seu co po: a- balhando manualmen e, casando e p oc iando, ou p os i uindo-se, quando acassa o p oje o ma imonial. As pe sonagens po uguesas emininas em Jubiabá es ão, assim, sujei as a uma dupla op essão: pelo sis ema capi alis a, al como as pe sonagens do sexo opos o, e pela ideologia pa ia cal. A expe iência de ag egado na casa do comendado po uguês, pela qual passa o p o agonis a do omance, não é apenas essencial pa a a sua o mação sen imen al, mas con ibui conside a elmen e pa a a conscien ização da sua condição acial e de classe. O au o desmasca a os p econcei os aciais que, sendo ine en es à classe do- minan e, descenden e do colonizado b anco, es ão encobe os po elações de co dialidade e p oximidade co idiana e só se mani es am plenamen e, como des aca Lilia Mo i z Schwa cz, na es e a ín ima, pois, «em uma sociedade ma cada his o icamen e pela desigualdade, pelo pa e nalismo das elações e pelo clien elismo, o acismo só se a i ma na in imidade» (SCHWARCZ, 2004: 182). A aje ó ia das ês pe sonagens po uguesas às quais o au o dedica a maio a enção po desempenha em um papel impo an e no amadu ecimen o do p o agonis a – Comendado Pe ei a, Lindinal a 340 e Amélia – é uma aje ó ia ágica, sob e udo no caso do comen- dado e da sua ilha, que passam pela alência econômica e pela de- g adação social, mo al e ísica. Es as pe sonagens o nam-se í imas do imaginá io e dos alo es da sua classe e aça, se indo ao au o pa a denuncia , den o do p oje o de li e a u a engajada, ês g andes males do seu empo: o acismo e a dominação pa ia cal, en aizados po séculos na sociedade b asilei a, e o sis ema capi alis a, is o como injus o, co up o e ins á el, incapaz de ga an i o bem-es a e a eli- cidade ao se humano. Bibliog a ia AMADO, Jo ge (1992) – Con e sas com Alice Railla d, ad. Annie Dyme man. Lisboa: ASA. AMADO, Jo ge (2008) – Jubiabá. São Paulo: Companhia das Le as. [1ª ed. 1935] AMADO, Jo ge (2009) – Os pas o es da noi e. São Paulo: Companhia das Le as. [1ª ed. 1964] ANDRADE, Oswald de (1976) – Tele onema. 2ª ed. Rio de Janei o: Ci ilização B asilei a. BARBOSA, Rosana (2003) – «Um pano ama his ó ico da imig ação po - uguesa pa a o B asil». A quipélago. His ó ia, 2ª sé ie, ol.7, p. 173-196. Disponí el em h ps:// eposi o io.uac.p /handle/10400.3/387. BUENO, Luís (2012) – «Romance em ans o mação». 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En usiasmado com a «descobe a» e com o e i ó io que o imp essiona, hesi a nomeá-lo como ilha ou como e a, em i ude da dimensão que ele apa en a possui . Num docu- men o de exal ação, a iança que «da -se-á nela udo» (CAMINHA, 1999: 58). E, assim, o po uguês nomeia quem somos sem, oda ia, nos da oz. P ossegue suas no ícias dizendo «seguimos nosso cami- 1 Uni e sidade Fede al Fluminense (UFF). 344 nho po es e ma de longo a é a oi a a da Páscoa», des acando que « opamos a es. E hou emos is a de e a» (CAMINHA, 1999: 32). Nes as linhas êm início dois pa adigmas (« e a à is a» e «ma à is a») que, po mui os séculos, nos acompanha am e ainda, mui as ezes, nos acompanham, no olha de nossas eli es: o da e a à is a, o de um B asil olhado de o a, sob pa âme os es angei os, na de- mons ação de que um obs áculo e nog á ico e e nocên ico no eia o olha pa a o ou o, asu ando sua al e idade e espelhando nele seu p óp io os o e, não, a ace do se a quem ê, po não consegui con e i ao ou o, nem lhe admi i , uma exis ência au ônoma. A es e obs áculo só o século XX, no ex o, po exemplo, no poema «3 de maio», de Oswald de And ade, consegui á esponde e eagi à al u a: Ap endi com meu ilho de dez anos Que a poesia é a descobe a Das coisas que eu nunca i (ANDRADE, 1974: 104). Es e a o de olha , e e nomea , com os olhos li es a e a e seus pe - sonagens, habi an es e isi an es, sem o cu elo da colonização, le a á séculos pa a se alcançado. Desde a amosa iagem da descobe a, no amanhece do século XVI, a é o século XIX, o po uguês aqui se es abelece como língua, es ilo e ideologia que pa a cá se anspôs, numa imposição que su ocou com au o i a ismo mani es ações au- óc ones, como é usual em p ocessos de colonização. Pensando com An onio Candido, conside amos que uma li e a u a só se ins ala e dadei amen e quando se esboça o concei o de nacionalidade, al como o concebe am os omân icos, além de se es abelece , no con ex o social, a coope ação e a exis ência ipa i e do conjun o au o , ob a e público, o que apenas no século XVIII i á oco e en e nós, du an e o a cadismo, quando podemos começa a pensa em uma li e a u a b asilei a, que, de modo incipien e, ai se compondo. Ao con á io do que disse Ha oldo de Campos (2011), em O seques o do ba oco, o Ba oco, e nis o me si uo na posição de endida po An onio Candido (1975), é uma mani es ação li e á- ia no B asil, mas não do B asil. E, ainda que en e nós enha ido 351 abe a de concebe a iden idade e os p ocessos de iden i icação que ai pe mi i que o ex o ome con igu ação his ó ica e li e á ia. A insis ência em compo a pe sonagem em um ex o que soa de modo esquisi o, no con ex o linguís ico dos demais con os do li o, se jus i ica pela con igu ação de uma nacionalidade na lingua- gem e não mais na e e ência a uma acialidade, já que em nenhum momen o se diz que es a pe sonagem é po uguesa. O con ex o geog á ico do con o é odo ca ioca: Rua do Riachuelo, bai o do Riachuelo, Rua Mem de Sá, P aça Ti aden es (e udo is o eme e pa a o mundo u bano cosmopoli a do cen o da cidade do Rio de Janei o), embo a ainda apa eça uma «quin a» no bai o de Jaca epaguá (zona mui o dis an e do cen o, nos anos de 1950-60 con empo âneos à esc i a do con o) es a se e à guisa de paisagem u al em con as e com o ala ido dos elé icos do cen o e do cosmopoli ismo do p egão do endedo do jo nal A noi e). Indo além, é p eciso dize que, no en an o, no odo do con o, nem o con ex o impo a po si mesmo, nem a lusi anidade do es ilo e do ocabulá io se ão o oco da cons i uição da pe sonagem, que ai oscilando en e o se mulhe e o se da exis ência colhida em si mesma, na in es igação do que é o exis i , que esul a uma ques ão não a se espondida com um sim ou não ou com um is o ou aqui- lo, mas a se pos a como ques ão, como algo a in es iga po que é p eciso se , in ansi i amen e, numa linguagem em que o eu e as iden idades são declinadas, se is o az sen ido. Escla ecendo, pa a que não iquemos num jogo de pala as, de ino aqui o «pe sonagens declinadas», numa nomencla u a que eu mesma c iei, como as pe sonagens que eme em ao mo imen o de dob a -se sob e si mesmo, dos se es que, num p ocesso de e lexão, lançam-se num me gulho p o undo pa a den o de si, num mo imen- o de, desculpe-se a con adição, espelhamen o pa a den o, ou seja, são pe sonagens que ansmi em ao lei o a o ça de uma in es igação mais plena, mas semp e insu icien e e sem undo, da iden idade como algo po oso e em me amo ose, uma conquis a que Lispec o inaugu a desde suas p imei as ob as e que a acompanha á a é o ex o que, ainda em ida, inalizou an es de mo e , A ho a da es ela, em 1977. 352 Relemb ando a epig a e sob e o con a o – em ca a esc i a a Thie s Ma ins Mo ei a, (en ão di e o do Ins i u o de Es udos Lusó onos em Lisboa e ambém i ula de Li e a u a Po uguesa da UFRJ, da ada de 21 de ab il de 1961, 460 anos depois de nossa «descobe a») –, emos que Cla ice Lispec o não emp ega pala as em ão. E que as pi ue as que dá no es ilo, log ando po ezes con- o ce a g amá ica, azendo o lei o ica desno eado, udo isso em jun o com uma eno me consciência linguís ica da língua po ugue- sa. E, lemb ando um de seus melho es in é p e es, Robe o Co eia, sua ase é simples, é cla a, embo a suas cons an es dob as le em o lei o a e que e le i , num es o ço que exige um de e minado ipo de lei o , um lei o que gos e de pensa e de i e ol a na a e a p aze osa, di ícil e mui as ezes cansa i a, da lei u a e da elei u- a. Is o pa a dize que « apa iga», «miúdos», «quin a», «elé icos» e ou os elemen os da no ma dia ópica po uguesa de Po ugal são uma o ma de na a in encional e não de ma ca egionalismo ão simplesmen e. Tudo is o o ma um sis ema com ou os elemen os de que ainda ou a a . Es a « apa iga», do con o «De aneio e emb iaguez duma a- pa iga» – ex o com o qual Lispec o ab e a ob a-p ima, Laços de amília, de 1960 – es a «po uguesa de papel» é po uguesa na e da linguagem e se desnacionaliza nas mu ações do ex o e se ans o - ma em alego ia do eminino no sen ido de Wal e Benjamin, em O d ama ba oco alemão, ou seja, a alego ia no sen ido do que az ala o ou o ep imido pela his ó ia do encedo . Es a po uguesa «da» e «na» linguagem é uma das alego ias do mulhe io que habi a Laços de amília, em que encon amos as magis ais pe sonagens Pe- quena lo , Lau a e Ana, dos con os «A meno mulhe do mundo», «A imi ação da osa» e «Amo ». Cada uma delas é a igu ação de um eminino ep imido po cen enas e milha es de anos de um ho izon e pa ia cal de iolência e de op essão sob e a mulhe , que as az assen a no luga c is alizado que es inge ao ou o as possibilidades de se no mundo o a do p es- c i o e consabido espaço da obediência, da submissão e do não-se . A « apa iga» é alguém que só pode se desloca da alienação cos- umei a quando, li e dos ilhos e do ma ido, e con emplando sua 353 imagem no espelho ipa ido, descob e que pode se múl ipla na mesma imagem de um espelho que aça e le i , como uma mul ipli- cidade, os seios dela, que pa eciam «os seios en eco ados de á ias apa igas» (LISPECTOR, 1965: 5), como o ex o diz. Os olhos da pe sonagem, nes e i a em abandono e solidão, ib am nos espelhos o a escu os, o a luminosos, en e o clamo do den o do qua o e do o a do qua o, na ocalização emb iagan e do na ado que, mui o de p opósi o e de modo alsamen e inocen e, desloca o olha do lei- o , cons uindo nele ambém a emb iaguez da pe sonagem. Quando o ma ido en a, ela nem lhe dá impo ância e ol a a do mi , nem ai p epa a -lhe, na manhã seguin e, o «pequeno almo- ço» e, quando ele que aca inhá-la, al ez desejando algo mais, ela o ep eende e o ecusa: «– Ai que não me maces! não me enhas a onda como um galo elho!» (LISPECTOR, 1965: 7). Des e momen o em dian e, o con o se con amina do discu so indi e o li e, azendo o de aneio se in il a no ex o po es a éc- nica ão ca a a Lispec o pa a nos dize do jogo en e a consciência, o ní el da p é- ala e as dimensões do inconscien e que, sem que a pe sonagem nem o na ado possa con olá-los, ão su gindo de den o dela. Assim como de den o da apa iga, o ças an es p esas, a é que, pa a ica mos ao pé da le a do ex o, nela se ejam libe adas «as capacidades que não lhe al a am» (LISPECTOR, 1965: 9). Acompanhando um pouco mais a magia des e ex o, a p é- - ala da pe sonagem lança no discu so do na ado a exclamação: «Ai, que esquisi a es a a» (LISPECTOR, 1965: ), em que o es a a pode se uma exp essão da e cei a ou da p imei a pessoa do dis- cu so ou, mesmo, ambém das duas pessoas do discu so, a é que, «No sábado à noi e a alma diá ia pe dida, e que bom pe dê-la» (LISPECTOR, 1965: 9), a pe sonagem, an es domés ica e domes- icada su ge com «os co o elos sob e a oalha de xad ez e melho e b anco da mesa como sob e uma mesa de jogo, p o undamen e lan- çada numa ida baixa e e olucionan e» (LISPECTOR, 1965: 9). Es a expe iência de sua p óp ia al e idade ai se ex inguindo, ugidia, como nos ou os con os da mesma sé ie, num a igan e e belíssimo exe cício de se , o a da pau a p é ia do luga de gêne- o que não pode mais se is o como um luga cul u al p on o, 354 c is alizado e ixo. No inal do con o, no en an o, essu ge, como p oje o e memó ia, uma o ça que se ab iga, ou pode se eins ala , numa esc i a em me amo ose e ou da me amo ose que se ins a- la a na pe sonagem. O con o se echa com a pe sonagem sen a- da no bo do da cama, ago a me a o izada como se o a uma nau, quem sabe, mas a pes aneja esignada: «A lua. Que bem se ia A lua al a a desliza ... Al a e ama ela a desliza pelo céu, a coi adi a. A desliza , a desliza ... Al a, al a. A lua. En ão a g osse ia explodiu-lhe em súbi o amo ; cadela, disse a i » (LISPECTOR, 1965: 9). Quando o con o e mina, a apa iga, a po uguesa de papel, a mulhe como alego ia – ainda se sen e essoa sob e ela, num in- e ex o que eu al ez es eja que endo enxe ga e não es eja ali, mas a ianço que es á, su ge-me o eco de um ex o de Fe nando Pessoa, na e são do he e ônimo Rica do Reis, publicado p imei amen e na Re is a P esença, no qual podemos le : Pa a se g ande, sê in ei o: nada Teu exage a, ou exclui Sê odo em cada coisa. Põe quan o és No mínimo que azes Assim, em cada lago a lua oda B ilha, po que al a i e. (Re is a P esença n. 37) E a con aminação ine i á el se dá, en e o b ilho da lua do ex o da- quele poe a maio de Po ugal, que b ilha ago a na lua des e ex o de Lispec o , na expe iência in e ex ual da descobe a de se mulhe , mais uma ez ep imida, mas ainda ali, al a como a lua, al ez quase inalcançá el, mas i ida na expe iência enquan o ex o, e nela í i- da, sim, a mulhe que an es se que ia cas a essu ge su ge a i com a imagem de si mesma como «cadela», no cio de um se mulhe que lhe e a e lhe é ainda negado. Tendo começado sua na a i a po um in e ex o com o con o de Eça de Quei ós «Singula idades de uma apa iga lou a», publicado no olume Con os, de 1902, e examinado no es udo compa a i o de Nádia Ba ella Go lib (1995), que o abo da em elação ao con o 355 de Lispec o , nossa au o a e mina seu ex o com uma e e ência à memó ia de Fe nando Pessoa, no he e ônimo Rica do Reis, e nada mais a p opósi o, pois Pessoa oi o poe a po uguês que, mais do que qualque ou o, examinou, esc e eu e i eu na ca ne o es ilha- ça das iden idades. En e dois g andes ma cos da li e a u a lusi ana, Eça de Quei ós e Fe nando Pessoa, se inse e, com igual g andeza, a singula idade de Cla ice Lispec o e o p aze com que imp ime, em nossa li e a- u a b asilei a, es a magní ica pe sonagem, uma legí ima po uguesa de papel. Bibliog a ia ANDRADE, Ma io (1978) – Macunaíma: o he ói sem nenhum ca á e . Rio de Janei o: Li os Técnicos e Cien í icos; São Paulo: Sec e a ia de Cul u a, Ciência e Tecnologia. 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