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Castilho e os clássicos: tradução e bom gosto

Nobre, Ricardo Miguel Guerreiro

Abstract

Explorando o conceito de tradução e a importância do domínio da língua de chegada e de partida, este ensaio explica o ponto de vista que leva António Feliciano de Castilho e alguns teorizadores portugueses coetâneos a acreditar que, se Ovídio tivesse sido um poeta português do século XIX, as suas obras teriam sido escritas como as traduções românticas realizadas nesse período.

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eClassica I 2015 88 Rica do Nob e, “Cas ilho e os Clássicos”, eClassica 1, 2015, 88-96. CASTILHO E OS CLÁSSICOS: TRADUÇÃO E BOM GOSTO Rica do NOBRE [email p o ec ed] Cen o de Es udos Clássicos Faculdade de Le as da Uni e sidade de Lisboa RESUMO Explo ando o concei o de adução e a impo ância do domínio da língua de chegada e de pa ida, es e ensaio explica o pon o de is a que le a An ónio Feliciano de Cas ilho e alguns eo izado es po ugueses coe âneos a ac edi a que, se O ídio i esse sido um poe a po uguês do século XIX, as suas ob as e iam sido esc i as como as aduções omân icas ealizadas nesse pe íodo. PALAVRAS-CHAVE Teo ia da adução, An ónio Feliciano de Cas ilho, Júlio de Cas ilho, O ídio, Roman- ismo. Em 1859, José Ma ia La ino Coelho (1825-1891) de inia duas co en es de pen- samen o ela i amen e ao es udo da An iguidade, econhecendo as di e enças en e o seu p esen e e um passado não mui o dis an e. Enquan o à da a em que esc e e “os li e- a os e p incipalmen e os poe as” dep eciam “a con i ência amilia com as musas clás- sicas” e se “cob [e] e dou [a] a negligen e igno ância dos esou os an igos com a opu- lência exage ada das mode nas c iações”, ce ca de qua en a anos an es e a “exac amen- e opos a a endência dos espí i os”, ou seja, “a ul a a-se a penú ia da in enção pa a sujei a os engenhos mais audazes ao jugo de Ho ácio e da -lhes a odos mo adia de escudei os no Pa nasso da elha genialidade”. Quan o ao la im, “que de ia se um es u- do e um exemplo, e a en ão um cul o e uma supe s ição. Hoje é um a eísmo cómodo, que dispensa os poe as de es uda ” 1 . O adu o de Demós enes conside a, po an o, que se ia impo an e não igno a as ob as an igas e o seu alo exempla , ao mesmo empo que c i ica uma ene ação demasiado eaccioná ia. Também An ónio Feliciano de Cas ilho (1800-1875) de ende ia, em di e sas épo- cas da sua ca ei a li e á ia e c í ica, um pon o de is a análogo, cujo momen o culmi- nan e i ia a se a de esa da publicação de uma biblio eca com as aduções de odos os au o es an igos: “ ansladem-se os e e nos exempla es da G écia an iga e da an iga Ro- ma pa a a linguagem hodie na com o des elo e espei o que me ecem” 2 , esc e e, em 1 J. M. La ino Coelho, “An ónio Feliciano de Cas ilho”, Re is a Con empo ânea de Po ugal e B asil 7, 1859, 310. 2 A. F. Cas ilho, “Ca a ao Edi o ”, in M. P. Chagas, Poema da Mocidade seguido de O Anjo do La , Lisboa, 1901, 167. eClassica I 2015 89 Rica do Nob e, “Cas ilho e os Clássicos”, eClassica 1, 2015, 88-96. 1865, na Ca a ao Edi o do Poema da Mocidade 3 , de Pinhei o Chagas (1842-1895). O objec i o, de ende, é a emulação desses modelos po pa e dos jo ens alen os: “supo- nhamos que se chega a a le Vi gílio nesse guapíssimo semila im, ou la im melho ado, da nossa e a! Que o seu can a saía cá ão ácil, co en e e ha monioso, como já soa a aos ou idos de Mecenas e Augus o! (…) Que mancebo ha e ia aí ão desa inado e ão empede nido no peca con a a azão e o gos o, que, medindo os seus imp o isos po aquela poesia medi ada, se não co esse de salu a e gonha, e não pusesse desde logo pei o a muda de ida e de caminho?” 4 . Naquele ano de 1865, Cas ilho ha ia já aduzido di e sas ob as de O ídio, no- meadamen e as Me amo oses, em 1841 (que nunca chegou a sai na ín eg a, pelo que apenas emos os cinco p imei os li os), e, em 1862, Os Fas os. No ano da Ques ão Coimb ã 5 , o poe a es a a a b aços com a adução das Geó gicas, que Joaquim Lou en- ço de Ca alho conside a “in ida, p e ensiosa e obnóxia; numa pala a: in agá el” 6 . Su p eenden e classi icação, se se eco da que um es udioso como Jus ino Mendes de Almeida 7 epu a Cas ilho como “excelen e adu o de Vi gílio e de ou os clássicos” e que o classicis a F ancisco Rebelo Gonçal es, “ao e e i -se a um possí el lo ilégio das „melho es aduções em que os G egos e os La inos passa am à nossa língua‟, salien a” p ecisamen e as Geó gicas e as Me amo oses daquele poe a 8 . Po seu lado, mais de cem anos an es, e e indo-se à adução dos Fas os como “ e dadei o esou o”, José da Sil a Mendes Leal Júnio (1820-1886) lou a a-lhe a “pe pé ua in enção de lingua- gem”, econhecendo po ém que: Só se log a ia demons a oda a alia de al ob a com a aca eação minuciosa dos dois ex os; com a a e ição do seu alo in ínseco e ela i o; com a no a dos passos á duos e dos obs áculos suplan ados; com a glossa dos ca ac e ís icos, dos mimos, das sub ilezas e di e enças de ambos os idiomas; en im, com o apu amen o das pe eições, e os quila es de es ilo, e o ol amplíssimo de an as agudezas, elegâncias e sump uosida- des de elocução, de ão lus osos a a ios e galas de an asia, como as que no O ídio la ino e no O ídio po uguês se dispu am a palma. 9 Impo a, po isso, aze essa “aca eação”, impossí el sem algumas e lexões que acau elem conclusões ap essadas (como pa ece e sido a de Lou enço de Ca alho). Assim, em p imei o luga , nes e b e e es udo, dilucida-se o concei o de adução, dis- inguem-se dois (ou ês) ipos de adução e e i ica-se, nos p ecei os que oi de en- dendo, se os objec i os de An ónio Feliciano de Cas ilho o am (ou não) cump idos naquelas que são, a inal, o mas p i ilegiadas de ecepção de ex os que, pe encen es a 3 I ei ci a o ex o pela segunda edição da ob a (1901). 4 Cas ilho, “Ca a ao Edi o ”, 170. 5 Também conhecida como “Ques ão do Bom Senso e Bom Gos o”, a ou-se de uma impo an e que ela li e á ia que, em 1865, pôs em con on o abe o os ul a- omân icos com os jo ens da ge ação de 70, os quais i iam a se os ep esen an es da mode nidade li e á ia em Po ugal. 6 J. L. de Ca alho, “T aduções Po uguesas de As Geó gicas”, in Vi gílio e a Cul u a Po uguesa. Ac as do [Colóquio do] Bimilená io da Mo e de Vi gílio. Lisboa, 1981, Lisboa, 1986, 138. 7 J. M. de Almeida, “T aduções Po uguesas da Eneida”, in Vi gílio e a Cul u a Po uguesa. Ac as do [Colóquio do] Bimilená io da Mo e de Vi gílio. Lisboa, 1981, Lisboa, 1986, 27. 8 Almeida, “T aduções”, 31. 9 J. S. Mendes Leal Júnio , “No a P imei a: Tí ulo do Poema — Fas os”, in A. F. Cas ilho, O ídio. Os Fas os, omo I, Lisboa, 1862, 199. eClassica I 2015 90 Rica do Nob e, “Cas ilho e os Clássicos”, eClassica 1, 2015, 88-96. um ou o empo e espaço, são ac ualizados e ans o mados em li e a u a po uguesa, espondendo a exigências es é icas igen es 10 . Concei o e conhecimen o A dinâmica en e língua de pa ida e língua de chegada le ou Júlio de Cas ilho (1840-1919) a de ini adução como uma espécie de enca nação do ou o esc i o : “T aduzi um poe a, é medi -se com ele, é p oduzi uma ob a como a p oduzi ia o au o se esc e esse na Língua pa a a qual o ansplan am; ala como ele ala ia; sen i como ele sen i ia; segui o caminho que ele segui ia; como e como ele como e ia” 11 . No p e ácio das Me amo oses, An ónio Feliciano de Cas ilho ha ia de endido um pon o de is a semelhan e, eclamando que “não são as pala as, as que hão-de e e , mas os pensamen os, concei os, e a ec os”. Po isso, o adu o é um “in é p e e” do o iginal, que az pa a a língua de chegada um ex o de ou a p o eniência espacial e empo al: “O osso Au o só p ocu ou, e escolheu ocábulos, e ases, em sua língua, pa a log a esse im; se ou o an o izes es na ossa, e ou o an o conseguis es, izes es an o, e ão bem, senão melho , e mui o mais açanha, do que ele” 12 . Na mesma o dem de ideias, e diminuindo a impo ância da idelidade o mal ao enunciado de pa ida, Inácio F ancisco Sil ei a da Mo a (1836-1907) a gumen a ia que aduzi é “[ ]ep oduzi ielmen e já não a língua, que é o menos, mas o pensamen o, a o ma, a ha monia e a ida dos g andes poemas, é emp esa ão a iscada, que a os po- de ão en á-la com êxi o eliz” 13 . Assim, o desconhecimen o da língua o iginal em que um ex o oi p oduzido não inibe a e são de ex os, aduzidos a pa i de ou as adu- ções. An ónio Feliciano de Cas ilho, sem sabe g ego 14 , aduziu ex os como os epi- g amas “A In enção da Azenha” e “A In enção do Cálamo” ou a A Lí ica de Anac eon- e.. Na e dade, es a p á ica i á desencadea uma polémica quando da adução do Faus- o, ag a ada pelo ac o de os ge manó ilos se em alguns dos agen es da Ques ão Coim- b ã. Tipos de adução Consoan e os objec i os com que se aziam as aduções do la im (e em meno núme o, do g ego), os ex os ecebiam um a amen o di e enciado na língua de chega- da, ou seja, uma adução publicada pa a “auxílio dos es udan es” se ia necessa iamen e di e sa de uma ou a di igida ao lei o egula . Es a di e ença oi sen ida po Júlio de Cas ilho, que iden i ica um ipo de adução didác ica (a que chama “ adução”) dis in a de uma li e á ia (que ecebe o nome de “c iação”). De ine-se aquela po e “um im p á ico”, encon ando a sua “ alia” na “essência” e “dou ina”; sendo “cien í ica”, 10 No âmbi o da ap esen ação de esul ados ela i os à in es igação desen ol ida no deco e do meu dou o amen o, algumas das conside ações aqui expos as e omam, po ezes ex ualmen e, in o mações de R. Nob e, A Li a Clássica do T o ado Român ico: Rep esen ações Poé icas da An iguidade G eco- Romana no Roman ismo Li e á io Po uguês. Disse ação de Dou o amen o ap esen ada à Faculdade de Le as de Lisboa, Lisboa, 2014, 170-186. Ainda assim, es e a igo em um enquad amen o di e en e da- quele es udo, sob e udo no que compe e à análise da p á ica de adução de Cas ilho. 11 J. de Cas ilho, Memó ias de Cas ilho, omo IV, Coimb a, 19302, 22-23. 12 A. F. Cas ilho, “P ólogo”, O ídio. As Me amo oses ( ad.), Lisboa, 1841, xi . 13 I. F. Sil ei a da Mo a, “Bibliog a ia: adução dos Fas os de O ídio, po A. F. de Cas ilho”, Re is a Con empo ânea de Po ugal e B asil 5, 1864, 241. 14 J. de Cas ilho, Memó ias de Cas ilho, omo I, Coimb a, 19262, 79. eClassica I 2015 91 Rica do Nob e, “Cas ilho e os Clássicos”, eClassica 1, 2015, 88-96. “pouco em que e com a e”. Quando uma adução se limi a a “ epe i as pala as” de um poe a “ emos as aduções escola es, li e ais, se is, que não são aduções, são cal- cos, e os calcos não são a e” 15 . Jus i icadas pela dou ina escola , es as aduções são da esponsabilidade de p o- esso es ou es udan es de la im, e anuncia am-se como auxílio e a enuan e das di icul- dades na ap endizagem dessa língua. Nesse sen ido, podem ci a -se os abalhos de João Félix Pe ei a (1822-1891), ou de Manuel Be na des B anco (1832-1900). P óximo do im do século XIX, dá es e “P o esso o icialmen e habili ado das Línguas G ega e La- ina” 16 à es ampa as Geó gicas no Tesou o Vi giliano. Ve são Li e al das Ob as de Vi - gílio pa a Uso dos Es udan es: edição bilíngue, onde se ap esen a a adução ao lado do ex o la ino, co espondendo a cada exp essão o iginal uma po uguesa. Mas o abalho de educado des e docen e ica a sensí el em 1862, na Selec a P imei a La ina e ida em Linguagem pa a Auxílio dos Es udan es de La im. Na “Ad e ência”, escla ecia que as “colecções de ases, subsídios, e, numa pala a, udo quan o possa poupa empo ao es udan e, é u ilíssimo. E é po isso que, com ais meios, em dois anos, ap oximadamen- e, qualque pode es a habili ado pa a aze os ês exames de la im, a que po lei é ob igado, como p epa a ó ios pa a es udos supe io es”. Ques iona a-se ainda sob e a u ilidade de “emp ega mui os anos no es udo de la im, quando a maio pa e, ou odos os es udan es des a língua, não se des inam a p o esso es dela, nem pa a nela esc e e- em, e apenas pa a es a em habili ados a pode em en ende as ob as esc i as nes a lín- gua” 17 . Po seu lado, a adução li e á ia, p e endendo disponibiliza em po uguês um ex o es angei o, esul a mui as ezes de exe cícios linguís icos e es é icos, que os en- am não só o conhecimen o que o adu o em da língua de pa ida, mas sob e udo da língua e adição li e á ia po uguesa. No caso da poesia, is o implica ambém a capaci- dade de adequa um o iginal g eco-la ino à mé ica do po uguês, sendo sensí el o cui- dado de man e no ex o e ido o modo li e á io do o iginal. Pa a Júlio de Cas ilho, a adução li e á ia se e “pa a egalo da ina lo dos espí i os” e o seu “me ecimen o (…) eside na o ma, no colo ido, no calo , na in enção poé ica”, o que a o na “al a- men e a ís ica” 18 . Es as “ aduções li e á ias” são uma o ma de aze à publicidade as ob as e ex os clássicos que mais se ap oximam do gos o omân ico 19 . Vic o Jabouille iden i ica, além das aduções escola es e “li e á ias”, aquelas que cons i uem “exe cícios académicos” e “se em pa a e i ica o g au de conhecimen o e o eco da in es igação eu opeia” da época, “sendo algumas delas su p eenden es como e lexo de e udição cien í ica ac ualizada”: são as “ aduções e udi as”. Tal ez se possa ci a como exemplo dessa a enção os abalhos de An ónio José Viale (1806-1889) ou de Júlio Mo ei a (1854-1911). Es e deu a lume, em 1885, a adução das Ob as de Vi - gílio, “em obediência aos conhecimen os a é en ão adqui idos e com espei o pelas exi- gências c í icas do empo” 20 . 15 Cas ilho, Memó ias, omo IV, 22. 16 Foi ambém adu o da His ó ia Uni e sal, de C. Can u, ob a que o Conde de Gou a inho, pe sonagem de Os Maias, “le a (como odo o homem de ia le ) (…) com a enção, echado no seu gabine e, abso en- do-se na ob a. Pois, senho es, escapa a-lhe udo — e ali es a a sem sabe his ó ia!” (E. Quei ós, Os Mai- as: Episódios da Vida Român ica, Po o, 1888, 189). 17 M. B. B anco, Selec a P imei a La ina e ida em Linguagem pa a Auxílio dos Es udan es de La im, Po o, 1862, 5 e 6. 18 Cas ilho, Memó ias, omo IV, 22. 19 Assim o en ende V. Jabouille, “T aduções da An iguidade”, in H. C. Buescu (coo d.), Dicioná io do Roman ismo Li e á io Po uguês, Lisboa, 1997, 550-551. 20 Almeida, “T aduções”, 19. eClassica I 2015 92 Rica do Nob e, “Cas ilho e os Clássicos”, eClassica 1, 2015, 88-96. Toda ia, apesa da pe inência em dis ingui aduções “li e á ias” das “e udi as”, as on ei as en e elas são énues e não unânimes. Nos p ólogos de ob as como Me a- mo oses ou Fas os, An ónio Feliciano de Cas ilho e ela exube an emen e que conhece os abalhos es angei os, e udição e iden e sob e udo nos comen á ios que az às edi- ções c í icas disponí eis. Na e dade, admi indo a possibilidade de disco da dela em alguns momen os p e e indo uma das suas a ian es, Cas ilho iden i ica como edi- ção-base pa a a sua adução das Me amo oses “a de Bo cha do Cnipíngio 21 ; que, den- e mui os, e mui o an igos códices das ob as de O ídio, acu adamen e compa ados, soube escolhe , e quase semp e com ace o, a sua lição, que ap esen ou cas igada, e, quan o possí el, limpa de e os ipog á icos” 22 . Além disso, demons a conhece as a- duções es angei as e po uguesas, e sem modés ia a i ma: “pa a a minha consciência enho, que de odas as aduções, que des e Poema i a é hoje, nenhuma excede, nem iguala, a minha, em pon ualidade, e cons an e es o ço, pa a da o Au o e a ado pelo na u al” 23 . Em pa alelo, pode eco da -se que, sem que jun e aos seus cuidados o de adu o de clássicos, Manuel Pinhei o Chagas demons a conhece a eo ia de Ka l O ied Mül- le (1797-1840), segundo a qual “as poesias conhecidas pelo nome de canções de Ana- c eon e não pe encem ao elho de Téos, e são apenas imi ações ei as pelos poe as sub- sequen es” 24 . Apesa de não sabe g ego, Chagas acei a es e pos ulado (ainda hoje unâ- nime), mas o om encomiás ico que usa na ap eciação do abalho do amigo jus i ica algum excesso: “es ou que po mais con encido que O ied Mülle es i esse de que e am apóc i as as canções de Anac eon e, hesi a ia de no o se as pudesse le na magní- ica e são do s . Cas ilho” 25 . Não deixa de se signi ica i o que o au o alemão seja assim e ocado em po uguês, dois anos depois de publicada a adução ancesa da His- oi e de la li é a u e g ecque. Jusqu’a Alexand e le G and 26 . Cas ilho- adu o Ao con á io do que se e i ica ela i amen e à língua de pa ida, a pe inen e dou- ina sob e adução dada a lume po Cas ilho le an ou mui as ques ões conce nen es às qualidades da língua de chegada. Na “Ad e ência” a O Ou ono (1863), o poe a mos- a-se con encido de que a língua po uguesa a ingiu a ma u idade su icien e pa a ece- be as ob as esc i as nou as línguas: “podemos anslada pa a” po uguês, “sem queb a nem en aquecimen o, udo quan o essoa en e gabos e aplausos nos mais bem do ados idiomas pe eg inos” 27 . Anos an es, no p e ácio das Me amo oses, econhecia: “É (…) mis e , que, onde se não pode, ou se não sabe, da , in ei a, e pon ual, co espondência, se descon e, e escu eça, a al a do nosso idioma, com ou as iquezas, que ele mesmo pa a isso nos subminis a; assim que en e o adu o , e o au o , se dá uma con ínua lu- a” 28 . E, de o ma os ensi a, decla a o seu “empenho” em “da es a ob a em ão pu a, cas iça, e co en e, linguagem”, uma ez que o adu o em a ob igação de “sabe , 21 Bo cha d Cnipping, cuja edição da ob a comple a de O ídio da a de 1670. 22 Cas ilho, “P ólogo”, x -x i. 23 Cas ilho, “P ólogo”, xx . 24 M. P. Chagas, No os Ensaios C í icos, Po o, 1867, 112-113. 25 Chagas, No os Ensaios, 114. 26 T aduzida po K. Hilleb and. Pa is: A. Du and, 1865; 2.ª ed., 1866. A e são o iginal (pós uma) é de 1841. 27 A. F. Cas ilho, O Ou ono, Lisboa, 1863, xxx . 28 Cas ilho, “P ólogo”, x ii. eClassica I 2015 93 Rica do Nob e, “Cas ilho e os Clássicos”, eClassica 1, 2015, 88-96. quan o possí el, e emp ega , opulen amen e, na sua adução, a língua e nácula” 29 . O sucesso des e pos ulado sen e-se em algumas soluções que o poe a encon ou na adu- ção de O ídio. Com e ei o, nas Me amo oses, algumas exp essões esul a am em e - dadei as ases idiomá icas po uguesas: “em ânsias | De o pô em ob a” é a locução a que co esponde o la im e ue bis aue ipsa suis (O . Me . 3.388). Des e modo, na dou ina de Cas ilho pouco pa ece impo a o conhecimen o da língua o iginal. São essencialmen e pa âme os linguís icos e mé icos que legi imam os mé i os da adução “mais igo osamen e iel, que do la im-la im, pa a po u- guês-po uguês, e de e sos- e sos pa a e sos, ambém e sos, se podia aze ”, como diz a espei o das Me amo oses o idianas 30 . Po isso, eme e pa a os e dadei os co- nhecedo es do la im, aqueles “que a undo sabem o la im, e o po uguês”, a possibilida- de de ajuiza sob e o abalho ap esen ado, nomeadamen e na a aliação da “pouquidade, e ape o, do hendecassílabo” em ace da “amplidão, e ensanchas do hexâme o” 31 . Na adução dos Fas os, podem ci a -se casos em que o espei o pela mé ica impede o a- du o de e e odas as pala as do o iginal. Logo no início da In ocação a Ge mânico, os e mos em ealce não êm co esponden e em po uguês (O . Fas . 1.3-6): excipe paca o, Caesa Ge manice, uol u hoc opus e imidae de ige nauis i e , o icioque, leuem non aue sa us hono em, en ibi deuo o numine32 dex e ades. Acolhe-os33 u, Ge mânico, so i-lhes! a ímido baixel sê no e, ó Césa ! p o eja eu a o a humilde o ‟ enda. Apesa de pa ece à p imei a is a pouco conco dan e com o o iginal, na adução não se pe de mui o do alo semân ico dos e sos o idianos: o e bo p o ege e os no- mes a o e o e enda já cons oem em o no da igu a de Ge mânico a desejada au a de di indade que é suge ida po numine e, mais adian e, em dex e ades. Po que uma adução li e al se o na ia impe cep í el em po uguês, e dado que “p imei a ob igação, de quem esc e e” é “ aze -se en ende ; e dos lei o es, não se há-de exigi , nem espe a mais, do que eles êm, ou podem e ” 34 , Cas ilho ac edi a que “a maio , e pio , de odas as in idelidades, é a idelidade se il; é deixa inin eligí el, o que o au o ha ia que ido aze , e ha ia ei o, pa a se en ende ; é ouba -lhe as suas g aças, e galas” 35 . Na e dade, sem se li e al, a o ma como manus complexibus au e su ge na e são das Me amo oses — “ilude o ab aço” 36 — con i ma que a mensagem essencial se man ém com con o nos ca egados, ao e oma o campo lexical da ilusão, que em la im inha já de imagine (O . Me . 3.385), e mo que não ha ia sido aduzido e bal- men e. 29 Cas ilho, “P ólogo”, x iii. 30 Cas ilho, “P ólogo”, xiii. 31 Cas ilho, “P ólogo”, xxi . 32 Na edição dos Fas os de Cas ilho, mune e. 33 Tendo em conside ação o con ex o, o p onome “-os” e e e-se a “ e sos” (com que o adu o e e canam, . 2: “di ão meus e sos”), que são igualmen e o e e en e de “-lhes”. 34 Cas ilho, “P ólogo”, xiii. 35 Cas ilho, “P ólogo”, xi . 36 A. F. Cas ilho, O ídio. As Me amo oses ( ad.), Lisboa, 1841, 141. eClassica I 2015 94 Rica do Nob e, “Cas ilho e os Clássicos”, eClassica 1, 2015, 88-96. Es ão jus i icados no p e ácio das Me amo oses os momen os em que oi neces- sá io come e algumas aições ao ex o o iginal, sob pena de o na impe cep í el o ex o de chegada. Encon a-se nes e caso “a escusá el escu idade, que p o ém, de, mui- as ezes, se não designa em os pe sonagens pelos seus nomes p óp ios, mas pelos pos- sessi os de pais, a ós, e mais emo os ascenden es; pelos de suas e as, ou ios; e, al- guma ez, pelos de suas açanhas, ou algumas ou as ci cuns âncias pessoais”. O adu- o en ende se es e um “an igo cos ume, mui con o me com o espí i o, indubi a elmen- e, a is oc á ico, desses empos”, ap esen ando-se adequado à época, “pois que odas es as his ó ias, e ábulas, que hoje emos nos dicioná ios, como em museus, anda am i as, e co en es, na no ícia de odos” 37 . No episódio de Eco e Na ciso, no li o III das Me amo oses, algumas di e enças en e o la im e o po uguês podem jus i ica -se pela in enção de ca ac e iza as pe sonagens po meio de a ibu os, em ez da nomeação: se “Na ciso” oma as ezes de pue no e so 379, no seguin e, Echo su ge em po uguês como “aman e Nin a”, acen uando essas ca ac e ís icas da pe sonagem. Rele an es são ainda os exemplos, no mesmo episódio das Me amo oses, em que se e i ica um adensa sensi i o ou uma mudança senso ial en e o o iginal e o aduzi- do. Enquan o a pe gun a ecquis ades ? e a espos a ades (Me . 3.380) sinalizam o eco- nhecimen o da p esença de alguém que Na ciso não conhece, a e são cas ilhiana “Olá! Ninguém me escu a?” e a consequen e espos a “Escu a” 38 apon am pa a essa mesma p esença, mas a pa i da audição. Se á p ecisamen e pelo ou ido que se ai acumulan- do um conjun o semân ico que con igu a a possibilidade de comunicação (dixe a | “b ada”, “escu a”, esponde a | “ esponde”, clama | “g i a”, inqui | “clama”, ecepi | “ esponde”, uocis | “ oz”, pe s a | “insis e”), pois que a é Eco sai de en e os a bus os, a con i e de Na ciso (huc coeamus | “jun emo-nos aqui”), es e não a ê (“não endo ninguém”, “nada ê” são exp essões sem co espondência no la im). Em Ab il de 1841, num ex o d‟ O Pano ama 39 não assinado em que anuncia a a adução das Me amo oses, Alexand e He culano (1810-1877) aça a algumas linhas dou iná ias de um p og ama li e á io omân ico (sem usa es e e mo), elogia a a poe- sia mode na e ecomenda a o im da e e ência que a An iguidade goza a em e mos a ís icos. No en an o, alguns au o es clássicos me eciam con inua a se lidos e aduzi- dos, como O ídio, “o mais pe ei o modelo da poesia omana” 40 . Como o ex o é um anúncio de uma ob a po i , e endo em conside ação que o seu con eúdo é gene ali- zan e e pouco igo oso, ica-se com a ideia de que Cas ilho e a pa a o en ão seu amigo Alexand e He culano 41 um “digno” adu o , “poe a que pode en ende não só a língua, mas a co do o iginal”. Impo a, oda ia, ealça que as ases declama ó ias sob e Me- amo oses denunciam que o au o não conhece bem a ob a o idiana, pois que a con- unde com os Fas os. Assim, aquele poema não é “um quad o que ence a oda a ida an iga” ou “Roma in ei a”; ambém não é e dade que aí se compilem “C enças, i e domés ico, iloso ia, ciências, leis, his ó ia” 42 , ca ac e ís icas des e ou o poema, que Cas ilho i á aduzi daí a ce ca de in e anos. Po ou o lado, é p eciso aze no a que o elogio das qualidades es é ico-li e á ias da ob a do poe a la ino é uma o ma de a ibui à adução ap esen ada as mesmas p o- p iedades. Assim, se O ídio e a, pa a Júlio de Cas ilho, o “poe a mais ecundo e mais 37 Cas ilho, “P ólogo”, xiii. 38 Cas ilho, O ídio. Me amo oses, 141. 39 Jo nal “Semaná io de Ins ução e Cul u a”, de que oi di ec o Alexand e He culano, é conside ado um “ó gão” da “p imei a ge ação omân ica”. Foi publicado, com in e upções, en e 1837 e 1868. 40 A. He culano, “T adução das Me amo oses pelo S . Cas ilho”, O Pano ama 207, 1841, 128. 41 São ince os os mo i os po que ompe am a o e amizade que liga a es es dois in elec uais. 42 He culano, “T adução das Me amo oses”, 128. eClassica I 2015 95 Rica do Nob e, “Cas ilho e os Clássicos”, eClassica 1, 2015, 88-96. mode no da an iguidade clássica”, o “mais imaginoso”, o “mais ecundo” e o “mais g acioso dos omancis as do Impé io”, cujo es ilo se dis inguia po “a ojados de anei- os”, “a abescos da an asia” e “imaginosas concepções”, só o abalho do pai e ia o dom de comp o a que e a possí el “exp essa em po uguês de lei” al ob a-p ima 43 . Com e ei o, a adução das Me amo oses e a uma p odução “das mais o iginais que lhe saí am do es o”, sendo de assinala as suas qualidades “como ansplan ação de poema es angei o; como exe cício p op iamen e linguís ico; e en im, como en a i a pa a a es au ação do gos o público em assun os de a e” 44 . Na sua “No a P imei a” aos Fas os, sob e o “Tí ulo do Poema”, José da Sil a Mendes Leal Júnio 45 assegu a que “pa a o aslada , mais, pa a o ans e i pa a uma língua di e sa” “[é] p eciso se um segundo O ídio”. Te á sido essa, du an e anos, a con icção de An ónio Feliciano de Cas ilho. Ao longo do século XIX, quando se ala a de adução, não a as ezes se associ- a a es e p ocesso a um enómeno de na u alização ou nacionalização, p óximo da acção de pa amen a à po uguesa um ex o es angei o. No meu en ende , e pela adequação des a ac i idade às eo ias de adução igen es, es as Me amo oses e es es Fas os po- diam pe ei amen e e sido esc i os po alguém que, jo em poe a omân ico, com olhei- as e a é pálido do lua , ai le , a é po ecomendação do p óp io Cas ilho, poesia pa a o “ o moso passeio da Es ela 46 , com as suas cu as an asiosas, a sua i egula idade apa- en e, os seus ou ei inhos e os seus ecônca os inespe ados” 47 : en im, um O ídio o- mân ico, ou seja, “um poe a opulen íssimo, que bem podemos cognomina O ídio- Cas ilho” 48 . BIBLIOGRAFIA J. M. de Almeida, “T aduções Po uguesas da Eneida”, in Vi gílio e a Cul u a Po u- guesa. Ac as do [Colóquio do] Bimilená io da Mo e de Vi gílio. Lisboa, 1981, Lis- boa, 1986, 17-34. M. B. B anco, Selec a P imei a La ina e ida em Linguagem pa a Auxílio dos Es u- dan es de La im, Po o, 1862 M. B. B anco, Tesou o Vi giliano. Ve são Li e al das Ob as de Vi gílio pa a Uso dos Es udan es, Lisboa, 1889 J. L. de Ca alho, “T aduções Po uguesas de As Geó gicas”, in Vi gílio e a Cul u a Po uguesa. Ac as do [Colóquio do] Bimilená io da Mo e de Vi gílio. Lisboa, 1981, Lisboa, 1986, 135-141 A. F. Cas ilho, O ídio. Os Fas os ( ad.), Lisboa, 1862 A. F. Cas ilho, O ídio. As Me amo oses ( ad.), Lisboa, 1841 A. F. Cas ilho, O Ou ono, Lisboa, 1863 A. F. Cas ilho, Lí ica de Anac eon e ( ad.), Pa is, 1866 A. F. Cas ilho, “Ca a ao Edi o ”, in M. P. Chagas, Poema da Mocidade seguido de O Anjo do La , Lisboa, 1901, 159-198 J. de Cas ilho, Memó ias de Cas ilho, Coimb a, omo I 19262, omo IV 1930 2 43 Cas ilho, Memó ias, omo IV, 21. 44 Cas ilho, Memó ias, omo IV, 19. 45 Leal Júnio , “No a P imei a”, 194. 46 Ac ualmen e, é o Ja dim Gue a Junquei o ( ulga men e designado po Ja dim da Es ela), em en e à Basílica da Es ela, em Lisboa. 47 Cas ilho, “Ca a ao Edi o ”, 190. 48 Leal Júnio , “No a P imei a”, 197. eClassica I 2015 96 Rica do Nob e, “Cas ilho e os Clássicos”, eClassica 1, 2015, 88-96. M. P. Chagas, No os Ensaios C í icos, Po o, 1867 J. M. La ino Coelho, “An ónio Feliciano de Cas ilho”, Re is a Con empo ânea de Po - ugal e B asil 7, 1859, 297-312 S. G een, O id. Fas i 1: a Commen a y, Leiden, 2004 A. He culano, “T adução das Me amo oses pelo S . Cas ilho”, O Pano ama 207, 1841, 127-128 V. Jabouille, “T aduções da An iguidade”, in H. C. Buescu (coo d.), Dicioná io do Ro- man ismo Li e á io Po uguês, Lisboa, 1997, 550-553 J. S. Mendes Leal Júnio , “No a P imei a: Tí ulo do Poema — Fas os”, in O ídio. Os Fas os, omo I, Lisboa, 1862, 177-200 I. F. Sil ei a da Mo a, “Bibliog a ia: adução dos Fas os de O ídio, po A. F. de Cas i- lho”, Re is a Con empo ânea de Po ugal e B asil 5, 1864, 236-242 R. Nob e, A Li a Clássica do T o ado Român ico: Rep esen ações Poé icas da An i- guidade G eco-Romana no Roman ismo Li e á io Po uguês. Disse ação de Dou o- amen o ap esen ada à Faculdade de Le as de Lisboa, Lisboa, 2014 E. Quei ós, Os Maias: Episódios da Vida Român ica, Po o, 1888