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De como os clássicos aumentam a fruição da literatura: uma proposta didática

Pimentel, Maria Cristina, 1954-

Abstract

Neste estudo, sugerem-se algumas estratégias didácticas concertadas com o objectivo de levar os alunos a verificar que o conhecimento da história, da mitologia e dos autores clássicos é imprescindível para uma completa e mais profunda compreensão de uma muito significativa parte da literatura portuguesa de todas as épocas.

Full text

A na egação consul a e desca egamen o dos í ulos inse idos nas Biblio ecas Digi ais UC Digi alis, UC Pombalina e UC Impac um, p essupõem a acei ação plena e sem ese as dos Te mos e Condições de Uso des as Biblio ecas Digi ais, disponí eis em h ps://digi alis.uc.p /p -p / e mos. Con o me expos o nos e e idos Te mos e Condições de Uso, o desca egamen o de í ulos de acesso es i o eque uma licença álida de au o ização de endo o u ilizado acede ao(s) documen o(s) a pa i de um ende eço de IP da ins i uição de en o a da sup amencionada licença. Ao u ilizado é apenas pe mi ido o desca egamen o pa a uso pessoal, pelo que o emp ego do(s) í ulo(s) desca egado(s) pa a ou o im, designadamen e come cial, ca ece de au o ização do espe i o au o ou edi o da ob a. Na medida em que odas as ob as da UC Digi alis se encon am p o egidas pelo Código do Di ei o de Au o e Di ei os Conexos e demais legislação aplicá el, oda a cópia, pa cial ou o al, des e documen o, nos casos em que é legalmen e admi ida, de e á con e ou aze -se acompanha po es e a iso. De como os clássicos aumen am a uição da li e a u a: uma p opos a didá ica Au o (es): Pimen el, Ma ia C is ina Publicado po : Imp ensa da Uni e sidade de Coimb a URL pe sis en e: URI:h p://hdl.handle.ne /10316.2/42967 DOI: DOI:h ps://doi.o g/10.14195/978-989-26-1340-6_2 Accessed : 14-Ap -2018 02:21:16 digi alis.uc.p pombalina.uc.p Cláudia C a o e Susana Ma ques (Coo ds.) O Ensino das Línguas Clássicas: e lexões e expe iências didá icas IMPRENSA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA COIMBRA UNIVERSITY PRESS ANNABLUME 35 De como os clássicos aumen am a uição da li e a u a: uma p opos a didá ica De como os clássicos aumen am a uição da li e a u a: uma p opos a didá ica (How classical s udies enhance app ecia ion o li e a u e: a didac ic p oposal) Ma ia C is ina Pimen el (mpimen [email protected] )1 Faculdade de Le as - Uni e sidade de Lisboa Resumo – Nes e es udo, suge em-se algumas es a égias didá icas conce adas com o obje i o de le a os alunos a e i ica que o conhecimen o da his ó ia, da mi ologia e dos au o es clássicos é imp escindí el pa a uma comple a e mais p o unda comp eensão de uma mui o signi ica i a pa e da li e a u a po uguesa de odas as épocas. Pala as-cha e: eceção, mo i os e au o es clássicos, li e a u a po uguesa Abs ac – This s udy p oposes some combined eaching s a egies which aim o con ince s uden s ha a knowledge o his o y, my hology and he classical au ho s is essen ial o a comp ehensi e and deepe unde s anding o a e y signi ican pa o Po uguese li e a u e om all pe iods. Keywo ds: ecep ion, classical subjec s and au ho s, Po uguese li e a u e Há uma e dade, que, ainda que i e u á el, hoje em dia já soa a luga -comum: a de que a cul u a clássica é ma iz da cul u a ociden al. Luga -comum, po que pa ece que odos o dizem e a i mam con ic amen e, embo a, na p á ica, não sejam mui os os que ma e ializam a ce eza de que o que hoje somos se de e em decisi a pa e ao que nos deixa am os nossos an epassados g egos e omanos. Lou e-se quem ema con a a ma é de um modelo de educação empob ecedo a, oda i ada pa a a ecnologia e o imedia o da emp egabilidade, lou em-se os que, conscien es do alo o ma i o dos es udos clássicos, con inuam a p opo o conhecimen o da língua g ega e da língua la ina, das ex ao diná ias li e a u as que em ambas as línguas se c ia am, das cul u as que en o ma am, do manancial de mi os, emas, mo i os e o mas que a cada passo êm ao nosso encon o e nos in e pelam, cada ez mais sem eco e sem espos a, po que simplesmen e nos passam ao lado, igno ados, despe cebidos e, po isso, nem seque p essen idos, quan o mais sen idos e amados. São emas e e nos que não deixam ninguém indi e en e. Quem não se como e pe an e a e icalidade digna e in lexí el de An ígona, quando g i a a C eon e “Não nasci pa a odia mas sim pa a ama ”2? Quem não se emociona com o anco su do e obs inado de Elec a, ágil menina pos a à ma gem de 1 A au o a des e es udo disco da em absolu o do AO 90. A sua aplicação nes e ex o esul a das no mas edi o iais do olume. 2 Pe ei a e al. 2003: 330. Da peça An ígona, Episódio 2: ad. de Ma ia Helena da Rocha Pe ei a. h ps://doi.o g/10.14195/978-989-26-1340-6_2 36 Ma ia C is ina Pimen el uma co e aus osa, onde é lemb ança pungen e do c ime e da mácula da aição? Quem não cho a á com Filoc e es, há dez anos abandonado, elho e doen e, na ilha de Lemnos, asgado da espe ança à desilusão mais unda an e uma no a aição, inda de quem menos espe a a? Quem não es emece á com a do de Édipo quando se lhe e ela, em oda a sua dimensão ágica, o e dadei o sen- ido da sua ida e exclama: “Ó luz, seja es a a úl ima ez que e enca o, eu que me e elo nascido de quem não de ia, unido a quem não de ia e, de quem me e a edado, o assassino”3? Mas esses emas e e nos é p eciso conhecê-los, pois, se assim não o , pe de-se mais do que os clássicos, pe de-se ambém oda a plu alidade de lei u as dos au o es que deles ize am modelo, on e, musa inspi ado a. Lê-se um poema, uma ob a que é, ambém ou sob e udo, lei u a dos clássicos g eco-la inos. Mas que lei u a pode se a nossa, se não i e mos connosco, conhecido e in e io izado, o esou o dos mi os e emas clássicos, as linhas de e e ência dos seus au o es, as suas e lexões e modos de olha e sen i o mundo, os seus medos, as suas dú idas, o seu espan o pe an e a ida e a mo e? A nossa lei u a é, só pode se , supe icial. E, o que é pio , al ez quem lê assim ‘desmunido’, não enha consciência dessa imp epa ação. Pe an e um ex o p enhe de e e ências clássicas, mesmo que ela i a ou pa cialmen e explíci as, se não se conhece a his ó ia, a mi ologia, a li e a u a clássica, ica - -se-á numa espécie de es íbulo da comp eensão ou, an as ezes, nem a esse limia se á possí el chega . Se acei a mos que, dos cu icula, seja banida a p esença dos clássicos e os ins umen os pa a os conhece , só uns poucos, e dece o mui o poucos, descob i ão, po sua con a e isco, esse mundo ma a i- lhoso em que odas as g andes ques ões o am colocadas e pa a elas se buscou espos a, em que o homem se deu con a da sua pequenez e da sua g andeza, da ugacidade da ida e da e eme idade da aleg ia, luminosas somb as em diálogo com o sonho dos g andes ideais, com a aspi ação à conquis a do sup emo bem e à se enidade do espí i o. Assim, aos que amamos a cul u a clássica, ce os de que esse conheci- men o é undamen al e compensado , es a-nos i p o ando que assim é. Aos p o esso es, po ém, pode ab i -se uma ma gem de in e enção mais ampla e, dece o, mais e icaz, nomeadamen e no âmbi o do ensino da Li e a u a Po - uguesa. O desa io pode se o seguin e: ap o ei a odas as opo unidades em que os p og amas, do ensino básico ao ensino supe io , pe mi em a abo dagem de ex os em que a p esença dos clássicos g eco-la inos se az sen i . Se o obje i o é da a conhece e a ui a li e a u a po uguesa, en ão cabe-nos p o a que boa pa e dessa li e a u a, desde os seus p imó dios a é aos nossos 3 Pe ei a e al. 2003: 270-271. Da peça Rei Édipo, Episódio 4: ad. de Ma ia do Céu Fialho. 37 De como os clássicos aumen am a uição da li e a u a: uma p opos a didá ica dias, se o na incomp eensí el, ou se lê em pau a minimalis a de sen ido, se o desconhecimen o da cul u a clássica, dos seus mi os, dos seus mo i os e modelos li e á ios se in e puse e in iabiliza essa uição. Há á ios anos que coo deno, na Faculdade de Le as da Uni e sidade de Lisboa, uma unidade cu icula do 1º ciclo em Es udos Clássicos, deno- minada Recepção dos Au o es Clássicos na Li e a u a Po uguesa. F equen am- -na alunos de á ios cu sos da Á ea de Li e a u as, A es e Cul u as, na sua maio ia sem qualque p epa ação em la im ou g ego e, quando mui o, com um semes e de Cul u a Clássica. O que aqui pa ilho é pa e do pe cu so a a és do qual os incen i o, a isco mesmo dize ‘os p o oco’, a e i ica em e admi i em que o desconhecimen o da cul u a clássica lhes pode eda o acesso ou, pelo menos, empob ece g a emen e a comp eensão, a uição dos au o es que man i e am diálogo, em a iadas ozes e múl iplos ecos, com os au o es g eco-la inos. Em suma: nes a unidade cu icula , impõe-se um obje i o ulc al, o de p o a a pe i ência que az com que, ansmudando-se em no os os os e com no as oupagens, os clássicos da cla a G écia e da aus e a Roma con inuem i os en e nós. Na p esen e ci cuns ância, a pa ilha da minha expe iência que, espei adas as necessá ias adequações, julgo possa se i de suges ão pa a colegas de ou os g aus de ensino, em ob iamen e de deixa de lado mui o do que se pode abalha ao longo de um semes e ou de um ano le i o, ob igando a escolhas, desde logo a omissão de ob as em p osa - e an as pode iam se ! Alinha ei, assim, algumas das ‘es a égias’, se assim lhes posso chama , com que en o consciencializa os meus alunos pa a a al a que lhes azem os clássicos4. 1. O p imei o desa io, o p imei o es e: o jogo da quan i icação Tome-se uma composição lí ica de Camões, as edondilhas in i uladas 4 Uso es as (e ou as) es a égias como mo i ação, nas p imei as duas, no máximo ês, aulas (4 a 6 ho as). T a ando-se de uma unidade cu icula de 1º ciclo uni e si á io, cen ada na impo ância dos clássicos na li e a u a po uguesa desde os seus p imó dios a é aos nossos dias, o p og ama em necessa iamen e ou os obje i os mais de inidos e me odologias de análise de ex os que ul apassam es a p imei a ase de sensibilização pa a a u gência de conhece as ob as e os au o es clássicos (cuja lei u a se ai ecomendando à medida que se abo dam os ex os da li e a u a po uguesa). T ansc e o os au o es do p og ama da cadei a no ano le i o de 2016/ 2017: Gil Vicen e, Luís de Camões, Jo ge Fe ei a de Vasconcelos, An ónio Fe ei a, Diogo Be na des, Pad e An ónio Viei a, Co eia Ga ção, An ónio Dinis da C uz e Sil a, Ma quesa de Alo na, Bocage, Almeida Ga e , Soa es de Passos, Camilo Cas elo B anco, Eça de Quei ós, Má io de Sá-Ca nei o, Fe nando Pessoa, José Régio, Miguel To ga, Sophia de Mello B eyne And esen, Fiama Hasse Pais B andão, Ruy Belo, José Sa amago, Vasco G aça Mou a, Manuel Aleg e, Má io de Ca alho, An ónio Mega Fe ei a, Nuno Júdice, Luís Filipe Cas o Mendes, An ónio F anco Alexand e, José Miguel Sil a, José Má io Sil a, Adília Lopes, Edua da Dionísio, Hélia Co eia, Manuel Jo ge Ma melo e A onso C uz. 38 Ma ia C is ina Pimen el ABC em mo os5. Dis ibuído o ex o, em que se assinala am a neg i o os nomes dos he óis e he oínas a que o sujei o poé ico eco e, peço aos alunos que con em esses nomes e, com plena hones idade, egis em quan os e quais são do seu conhecimen o, um conhecimen o oda ia não apenas ao ní el do ‘já ou i ala ’, mas que implique en ende a azão po que são con ocados pa a p o a o que o sujei o poé ico que a i ma : que, pa a odos eles, o so imen o de amo oi la gamen e in e io à “agonia” que ele expe imen a me cê da c ueldade, impassí el e indi e en e, com que a amada, Ana, esponde à sua dedicada en ega. Elencadas al abe icamen e, encon amos, po ezes em mais do que uma oco ência e eme endo pa a aspe os di e en es dos espe i os mi os, in a e duas pe sonagens mí icas e ocadas indi idualmen e (Aquiles, Cassand a, Dejani a, Fed a, Febo, Hé cules, Mino au o, Mine a / Palas, Medeia, Na ciso, Plu ão, Si ena) ou em pa es (Dido e Eneias; Eu ídice e O eu; Gala eia e Poli emo; Leand o e He o; Nin as e Faunos; Pá is e Helena; Pi o e Políxena; Diana e Ac éon; Tisbe e Pí amo; Vénus e Pá is), e qua o igu as his ó icas do mundo g eco- omano: o pin o g ego Apeles; A emísia, a amada i mã e esposa de Mausolo, sá apa da Cá ia; Cleópa a; Júlio Césa . A es a p o usão de e e ências clássicas, con apõe-se a escassíssima e ocação de um pa bíblico, Judi e e Holo e nes, e de uma pe sonagem da mi ologia li e á ia anglo-saxónica, Geneb a (a ainha Guina e e), mulhe do ei A u e amada de Lancelo e6. O es e ou desa io quan i a i o pe mi e i a signi ica i as conclusões. Ainda que, com uma ou ou a exceção - como é o caso de Aquiles em que é necessá io conhece as na a i as pos e io es aos Poemas Homé icos pa a en ende a alusão de Camões7 -, as e e ências p essuponham as e sões mais comuns dos mi os, os lei o es de hoje, mesmo uni e si á ios da á ea de Humanidades, cos umam ob e um esul ado diminu o em e mos de conhecimen o dos mi os: uma média de 5 Ainda que alguns es udiosos enham le an ado dú idas quan o à au o ia camoniana. Reco o à edição de Pimpão 1953: 43-47, onde cons am os qua en a e um e ce os. 6 Há, ainda, a e e ência a pe sonagens de iden i icação ince a, como: 1. Hébis: al ez Hebe, ilha de Zeus e He a, que se ia o néc a aos deuses, depois subs i uída nessas unções po Ganimedes. Se es a mudança pode e le i -se no que Camões diz nos p imei os dois e sos do e ce o ( .46-47: “Hébis e Dido mo e am / com o igo da mudança”), não há oda ia no ícia de que Hebe enha pos o e mo à ida. Bem pelo con á io, aquando da apo eose de Hé acles, oi dada em casamen o ao he ói. 2. Xan opeia e Apónio ( .121-123), pa não iden i icado, queb a-cabeças pa a os es udiosos de Camões. 7 V .7-9: “Aquiles mo eu no emplo, / con emplando de giolhos; / eu, quando ejo esses olhos”. Como é sabido, a Ilíada não con a a mo e de Aquiles e, na Odisseia, a alma do he ói, que Ulisses encon a no mundo dos mo os (Can o 11), não con a o seu im. É p eciso conhece as na a i as pos e io es aos Poemas Homé icos que con am que Aquiles i a Políxena, a mais no a das ilhas de P íamo e Hécuba, e se apaixona a. Te á en ão p ome ido a P íamo que ai ia os G egos e passa ia pa a o lado dos T oianos se ele consen isse no enlace. O elho ei acedeu e ma cou-se como local pa a i ma o a ado o emplo de Apolo Timb eu. Aquiles eio pa a o emplo, sem a mas, e aí oi su p eendido po Pá is que, escondido a ás da es á ua do deus, o a ingiu com uma se a no calcanha , a única pa e ulne á el do seu co po. 39 De como os clássicos aumen am a uição da li e a u a: uma p opos a didá ica ês a cinco. Con on ados com a pe gun a: ‘en ão pa a en ende mos es e poema o que é possí el aze ?’, quase semp e a ançam a espe ada espos a: ‘Vou à ne ’. Mas ninguém nega que i à ne p ocu a uma a uma as mais de ês dezenas de e e ências ma a odo o in e esse e oda a uição do poema. Es a abo dagem, de o oda ia con essá-lo, não os abala demasiado. In o- cam que o poema é exceção, que nem é dos mais conhecidos, que o Camões de que eles gos am nem é aquele. Aí aplico-lhes no a es a égia, p ecisamen e indo a ou as composições de Camões, pa a p o a que: 2. Toda a ob a de Camões p ecisa de que se conheçam os Clássicos Em ge al, são os sone os que mais colhem o ap eço dos alunos, o que me le a a ap esen a -lhes ês, sequenciais na edição de Cos a Pimpão (1953: 163- 164): o ac o de pode em p essupo uma lei u a seguida po pa e de um ap e- ciado de sone os de Camões se e o nosso p opósi o, pois os alunos al ez sejam le ados a admi i o descon o o que lhes causa ia e de, passe o plebeísmo, ‘sal a ’ ês poemas8 po pouco ou nada os en ende em e, consequen emen e, os não ap ecia em. O p imei o desses sone os (61), depois da necessá ia explicação dos mi os a que se e á p ocedido a p opósi o de ABC em Mo os, já em a sua cha e de in e p e ação des endada: a a-se do mi o de He o e Leand o9, e o oco incide sob e a igu a do jo em, pouco an es de as ondas o aga em, cheio de p eocupação com a amada, a o mula um o o: que, ao menos, He o se sal e e não eja o co po mo o do amado. Aos alunos, açamos no a que só quem co- nhece o episódio sabe que al o o não se á sa is ei o. Po isso, só de posse desse conhecimen o se en ende á a subjacen e no a ágica do sone o: o ma cuspi á o cadá e jus amen e jun o à o e de He o, a ida dela ambém se pe de á, pois a ‘en eja’ que o ma i e a do amo pleno, da elicidade pe ei a dos dois aman es, não o a ainda sa is ei a. Os sone os 62 e 63 ocupam-se da his ó ia de Cé alo e P óc is. O mais na u al - o que da á o ça à nossa e i icação - é que os alunos, uma ez mais, desconheçam o mi o. Po isso, não pode ão senão admi i que ambos os sone os se lhes o nam opacos, incomp eensí eis. Camões segue de pe o a p imei a pa e do mi o, desen ol ida em O ídio Me . 7.688 sqq., e pa a no momen o em que ma ido e mulhe ence am odas as ad e sidades: o desejo da Au o a, que que ia Cé alo; a ciumen a dú ida que le a Cé alo a pô à p o a a mulhe ; a acilação dela; a zanga e a sepa ação. Apaziguados, nada pa ece já ameaçá-los. 8 Ou qua o, se quise mos documen a essa p esença com o sone o 64 (“Os es idos Elisa e ol ia”), que exige o conhecimen o de Ve gílio e do sobe bo episódio da mo e de Dido, no can o 4 da Eneida. 9 Sob e a pe i ência des e mi o, em pa icula em au o es po ugueses ou de língua po uguesa, c . Pimen el 2012, em cujas pp. 188-189 se eme e pa a bibliog a ia especí ica. 40 Ma ia C is ina Pimen el Se con a mos aos alunos as linhas do episódio a é esse momen o de eunião e elicidade, eles dece o ica ão sa is ei os, c en es de que já pe cebe am o sen ido dos sone os. O a, há que mos a -lhes que só o lei o que conhece O ídio sabe que, po que os deuses a amen e consen em a elicidade pe ei a, a his ó ia de amo de Cé alo e P óc is não e e um inal eliz. Le emo-los a le em a sequência da his ó ia nas Me amo oses e, ambém, na A e de Ama (3.683-746), e dece o os poemas ganha ão em p o undidade, em iqueza de signi icado. E, pa a não deixa mos esquecidos Os Lusíadas, poema épico cujo es udo os alunos associam a um ace o imenso de mi ologia que só desb a a ão, em penosa e desmo i an e a e a, com a ajuda das p o usas no as de edições es- cola es, abalho he cúleo que diminui á se o em sabendo um pouco mais de cul u a clássica, aça-se, apenas, um es e, que cons i ui em ap esen a duas es o es, 31 e 32, do Can o 3 de Os Lusíadas, incluídas na longa analepse em que Vasco da Gama con a a his ó ia de Po ugal ao ei de Melinde. Eis o ex o (Camões 1972: 85): De Guima ães o campo se ingia Co’o sangue p óp io da in es ina gue a, Onde a mãe, que ão pouco o pa ecia, A seu ilho nega a o amo e a e a. Com ele pos a em campo já se ia; E não ê a sobe ba o mui o que e a Con a Deus, con a o ma e nal amo ; Mas nela o sensual e a maio . Ó P ogne c ua, ó mágica Medeia, Se em ossos p óp ios ilhos os ingais Da maldade dos pais, da culpa alheia, Olhai que inda Te esa peca mais! Incon inência má, cobiça eia, São as causas des e e o p incipais: Cila, po uma, ma a o elho pai; Es a, po ambas, con a o ilho ai. Aos alunos podemos pe gun a o que sabem das ês pe sonagens mí icas aqui e ocadas: P ocne, Medeia, Cila. Dece o iden i ica ão apenas a segunda, mas al ez já seja menos p o á el que saibam jus i ica com exa idão o uso do adje i o ‘mágica’ pa a a ca ac e iza . Pa indo do p incípio de que sabem quem oi D. Te esa e qual o con li o que a opôs a D. A onso Hen iques, bem como o papel do galego Fe não Pe es de T a a, pe gun e-se po que é pe inen e o pa alelo com as ês igu as mí icas e que aços das suas his ó ias con ibuem pa a deneg i a imagem da ainha e aze dela uma mãe mais exec anda que as pio es mães ilicidas da An iguidade. 41 De como os clássicos aumen am a uição da li e a u a: uma p opos a didá ica 3. A impo ância de um í ulo ou de uma epíg a e Ou o caminho, nes a mo i ação, é p o a aos alunos que a emissão pa a um a qué ipo clássico econhecido nos guia numa lei u a mui o mais p o unda do que aquela que ica ao alcance de quem o igno a. Ao con á io do que acon ece hoje em dia, os lei o es do séc. XVI e seguin es não p ecisa am da epíg a e A ma ui umque cano pa a iden i ica o modelo épico e giliano no p imei o e so de Os Lusíadas, “As a mas e os ba ões assinalados”. Mas, pe an e O Can o e as A mas de Manuel Aleg e, publicado em 196710, ao en- con a mos em epíg a e a exp essão A ma i umque cano, seguida do egis o da au o ia de Ve gílio e da inclusão na Eneida, guia que Manuel Aleg e nos dá pa a a somb a u ela a que se acolhe, que eco aco da hoje em dia essa e e ência? Em que nos ajuda à in e p e ação da es u u a de O Can o e as A mas e de cada poema em si? Ou quando lemos, do mesmo poe a, o í ulo Um Ba co pa a Í aca, com duas epíg a es de Home o11, isso se á su icien e pa a en ende mos o que signi ica a igu a de Ulisses e o seu a o men ado pé iplo na ob a do poe a nosso con empo âneo? Ainda assim, as epíg a es são, como disse, pa a quem as soube ap o ei a , um guia p ecioso pa a uma p imei a in e p e ação. Em ou os casos são os í ulos que, a simili, desempenham essa unção e é ácil p o a que, sem eles, há poemas (ou con os, ou ecolhas poé icas, ou omances...) que podem se li- dos e en ende -se, mas, a edados desse e e en e clássico, somen e a um ní el demasiado linea e imedia o de sen ido. O exemplo po que enho o hábi o de começa é o de um poema de um au o injus amen e quase já esquecido, Egi o Gonçal es, de que ap esen o os p imei os e sos, sem da o í ulo: Amanhã de manhã le eis no jo nal uma no a gue a e o mula eis o desejo de i ó ia de um dos lados… amanhã deseja eis uma no a mulhe , echa eis um negócio, comp a eis bilhe e pa a o cinema, passa eis em e is a as ossas ambições, sua eis, e eis cóle as, joga eis o b idge… amanhã a Mo e olha - os-á um passo mais de pe o; amanhã o Amo olha - os-á um passo mais de longe. (…) A análise lui, ligei a, da pa e dos alunos: ‘a ida desen ola-se a um i mo cons an e e p e isí el; a mo e é inelu á el; o homem não muda as suas am- bições; udo acaba, a é o amo ...’. É o que enho ou ido, en e ou as ouxas 10 Aleg e 22000: 163. 11 Aleg e 22000: 251. Publicado em 1971.