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O processo como circunstância do desenho. Contributo para o estudo de modelos experimentais de processo

Joaquim Jorge da Silva Marques

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D 2014 A UT OR JO A QUIM JORGE D A SIL V A MARQUE S TE SE DE DOUTORAMENT O APRE SENT AD A À F ACULD ADE DE BEL AS AR TE S DA UNIVERSID ADE DO PORT O EM 2014 ÁREA CIENTÍFIC A DE SENHO O PROC ES SO COMO CI RCU NS T ÂNCIADOD ESE N HO CON T R IBUIÇ ÕES P AR A O EST UDO DE MO DEL O S E X PERIME N T AIS DE PROCES S O  Joaq ui m Jorge d a Si l va Ma rques T Í T U LO DA T ES E O PROCES S O COMO CI RCUNST  NCIA DO DESE NHO CON TR IBUIÇÕES P A R A O ES T U DO DE MO DELO S E X P ER IME N T A I S DEP RO CE S S O ORIENT ADOR Professor Doutor P au lo Lu ís F erreira d e Alme ida Aos me us p a is 5 AG R A DE C IMEN TOS G os t a r i a de a g radecer a o P rof essor Pa u lo Lu ís A l mei da , meu co leg a e a m ig o pela or ie ntação dest a i nv est igação . A s suas contr ib u ições f ora m f u nda men t a i s pa r a o desf ec ho da tese . O m eu si ncero a g radec i men to pela ded icação , pelo e mpen ho e d i s pon i bi l idade na pa r ti l h a dos seus v a l iosos con hec i m en tos. G os t a r i a de a g radecer a o Di rec tor da Fa c u ldad e de Be las A r tes da Un iv ers idad e do Po r to , P rof essor Fra n c i sco L a ra nj o, a o Di rec to r da Sub u n idad e Or gâ n i c a de Desen ho da Fba up , P ro f essor Má r io Bism a rc k , aos m eus col egas d a S ubu n idade pela poss ibi l idad e dest a i nv est igação e pela d i s pon ibi l idad e con ced ida pa ra qu e p ud esse desen v ol v er este t raba l ho a te mpo i n teg ra l d u ra n te do is a n os lec t iv os . Um a g r a dec i m ent o t a m bém à Fu n dação Ca r mona e Cost a, ao I ns t ituto d e A r te Co nte mporâ nea d o s Aço res, à Ga le r i a Quad rado A z u l, p ela colabora ção e apoi o à bib l i og r a fi a. Um agr ad ec i me nt o esp ec i a l aos a r t i st a s : Ca rl os Nog ueir a , Rui Mo rei ra , Ped ro A . H . Pa i xão , L eon el Mo u ra , Pa u lo B r ig hen t i , Ped ro G om es , M ig ue l L ea l , Fer na n do J osé Pereir a, C lá ud ia A m a nd i , A n tón io Qua d ros Fer rei r a , Da n i el Ba r roc a , Ped ro V aldez Ca rdoso , F r a nc i sco Ca rdoso L i ma , Ped ro T u dela, F ra nc i sco T ropa, João Fi a dei ro, pela d i sp on ibi l idad e e i nter esse com qu e acede- ra m colabo ra r nest a i n vestigação . Aos m eus a m igos pel o apoi o e i ncen t iv o, ob r igad o ao P ed ro, a o Fer na n do , à Cláu d ia , à Pa u la , ao J org e , à Lú c ia , à Adél ia. Um ag rade c i men to t a m bém M a r t a, à T eresa , ao J oão e a t odos os me us a lu nos q ue sã o semp re u ma motiva ç ão pa ra a p r e n d e r. À m i n ha m u l her e a o meu fi l h o, a o meu i r m ão , aos me us sog ros e à res t a nte fa m í l ia pelo a poio i nco nd ic io na l. A t o do s ag r ad eç o prof u nd a ment e. 7 R ES UM O Est a tese reflec te sobre os fu n da m ent os e em ergê n c ia do p rocesso como co nd ição da v is ibi l idad e do d esen ho . A pa r ti r de u m con junto a la r ga do d e desen hos cen tr ad os sobr et ud o no per íodo en t re 1 9 90 e 2 0 1 0, i n v est iga-se o pa pel f u nc io na l do processo com o me io e m oti- v ação p r i nc ipa l do pensa m ent o e con cepç ão d o desen ho ; a n a l is a m-se as m uta- ções e questiona men tos qu e o concei to d e processo sofreu nesse per í odo , em pa r tic u l a r a i mpo r t â nc ia do con tex to e da c i rc u n s t â nc ia do desen ho , p on do em ev idên c ia os model os de en v olv i m ent o do co r po e os esqu ema s c r iativ os i mpl i- c a dos na sua prod ução . O recon he c i men to destes mode los e esqu em as c r iativ os coloca o processo n u m lu ga r centr a l d a i nv est igação e m desen ho , a fi r ma n do- o si m u lt a nea me nte co mo est ratég ia de aborda ge m de u m c or pu s a la r gad o do desen ho con temporâ neo , bem com o na defi n ição de um a es tr a tég ia v iáv el pa ra a prá t ica e ens i no do d esen ho . Neste sen t ido , a tese const it u i as c h a v es, os ele men tos i n ter pretativ os e u m a ter - m i no log i a opera t iv a baseada nos m o de los de p ro cesso, n u m a pers p ec t iv a a n a l í- t ic a , ex p e r i ment a l . A pr i mei ra pa r te da tese a n a l isa a s defi n ições e poss ibi l ida des i nd u z ida s pel os processos de p rodu ç ão , n u ma per sp ec t iva f en om en ol óg ica do dese n h o . A seg u nda pa r te dese n v olv e h ipót eses i nt er pret a t iv a s dos p rocesso s – a pa r t i r da s ac tuações do cor po, da tempora l idade e da maté r i a – basea n do-se na a ná l ise c r í- t ica de ca sos pa rad igm áticos de dese n hos em erge nt es da s ua con d ição processua l. Na t ercei ra pa r te a va l i a m-se as qu estões su sc it adas p el o tema na defi n ição de mod elos e x p er i m en t a i s de p rocesso, centrad os no co nte x to por tug uês a pós os a nos 90, e p ropõe-se u ma t ipol og ia de a n á l ise : model os perceptiv os, a ut ón omos, ded u t iv os , de tra ns f erên c ia , de mat ér ia , de a cç ão e d e tempo . Est a t ip ol og i a é cen t rada na a ná l ise prot ocola r de testem u n hos p r á t icos e d i rec- tos de ar t is t as qu e reflec tem a con d ição p rocessua l do se u t raba l ho , contr ib u i n do pa ra a ac t ua l idad e da reflexão e m to r no da ideia de p roc esso no d esen ho con - te mpo râ ne o po r tu g u ês. 15 ANEX OS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 001 Leonel Moura . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 003 Rui Moreira . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 011 Carlos Nogueira . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 028 P aulo Brighenti . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 037 Miguel Leal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 040 Cláudia Amandi . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 047 F ernando José Pereir a . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 050 Daniel Barroca. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 052 P edro V aldez Cardoso . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 055 António Quadros F erreira . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 057 P edro A. H. Paixão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 061 P edro T udela . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 067 F rancisco Cardoso Lima . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 068 16 17 INTRODUÇà O ÂMBIT O E T EMA D A IN V ESTIG A Çà O Num ac róst ico de Jo h n Cag e, elabora do com o p eça pa ra lela a o seu en s a io C ompo sition in R etros pec t, 1 o composito r s u ma r io u u m as pec to con c reto do se u mét odo de traba l ho a q ue se re f er iu com o c irc u n s tâ n - c ia . No te x to en t rela ç a do n est a pa la v r a, p ode le r -se : Ac t in ac c ord with o bstac les, using them to fi nd or defi n e the pr o - c es s you ’ re about to be invo lved in, t he questions you ’ ll ask . If y ou don ’t have enough time to ac c omplish w hat you have in mind, con - sider the wor k fi nished . 2 Nest a br ev e desc r ição d o seu p rog r a m a de traba l ho , Cag e c onsi- dera o d om í n io sob re o qua l o seu m étodo opera com o u ma c i rc u ns- t â nc ia ond e mate r i a l , cont ex to e i nt en ç ão se d efi n em n o dec u rso do pró pr io pro c e s so, c omo c ond iç ão d a pr ópr i a o br a . Est a tese reflec te sobre essa con d i ç ã o da obra qu e rem ete pa ra os f u nda men tos e em ergên c ia do processo com o c on d ição da v is i- bi l i dade d o desen ho . I nv est iga-se o pa pel c r iativ o do processo com o me io e m otiva ç ão p r i n c ipa l do pensa me nt o e con cepç ão do d esen ho . A i nv est igação assen t a n os prob le ma s eme rge nt es d as cond ições pr o - cessua is en v olv idas nos desen hos n u m a pers pec t iv a fen ome no ló - g ica , con side ra ndo as m utaç ã o e qu est iona men tos qu e o con ceito d e processo so f reu a pa r t i r da a r te p rocess ua l , f oc a ndo p r á t icas es p ec í fi - c as desen vo lv i da s na a r te por t u g uesa en t re a década de 90 do séc u lo X X e a pri meir a década do séc. X X I . Na d efi n ição i n ic ia l do tema – O proc es so c omo c irc unstânc ia do de s e nh o – e st abelecem -se d iv er sa s lei tu r as que i mpor t a c la r i fi - c a r . A pr i mei ra decor re do e nt en d i men to do papel d o desen h o en qua nt o rela ç ã o ge rada na i nt erd epend ên c ia com o p rocesso, qu e recon h ece a sua hi stór ia com o na r ra t iv a late nt e qu e é 1. C AG E , Joh n , Composition i n Retro spec t , Ca mbr idge M A , E x ac t Ch a nge, 20 0 8 . 2 . “ Ag e de a c ordo c om o s obs tá c ulo s, u san do - os pa ra en c on t rar ou de fi n ir o pro c e ss o no qu al te e st ás p re st es a e nv olve r , a s pe rgu nta s que va is c ol oc ar . S e não t e ns t e mpo pa ra c on cluir o qu e te n s em m e nt e, co n sid e ra o trabalh o te r mi nad o ” C f . BROW N , K at h a n – Joh n C age V i sua l A r t : To Sobe r a nd Q u iet t he M i nd , C row n Poi nt P re ss , 2 0 0 0. Not a de T r adução : por c omod id ade de leit u ra , opt a mos p or t r a n s c r ever o tex to n a s ua for m a l i nea r. A i m agem c or re s p ondente enc ont r a-se no i n íc io do c apít u lo 1 des t a te se 18 ÂMBITO E TEMA D A INVE STIG AÇ ÃO si m u l t a nea me nt e rev elada no p la n o da i mag em. A seg u n da refe re- se aos d esen hos de p ro cesso qu e não compo r t a m u ma i nt en ç ão pro jec t ua l – como a p repa ração de o utr a obra o u a c onst r ução de u m obj ec to – e se assu m em , por isso, n u m es paço pr óprio de rea - l i zação . Ado pta-se a desig nação g en ér ica de pr ocesso p a ra refe - r i r o con junto d e acções e a lte rações qu e ocor rem dos d iv er sos mod elos d e en vo lv i men to do cor po c om a ma tér ia , o tem po e o con texto da rea l i z ação . Ess as acções i nsc rev em -se n o do m í n io da v is ua l ida de com o m a rc as g r á fic as e tempora is , com o si n tomas de a c t uações cog n osc itiv as, s i mp les o u c omp lexas , en v ol v idas no fa zer do dese n ho . Ao d esig n a r , no títu lo dest a tese, o p ro cesso como « c i rc u n s - t â nc i a » qu erem os desloca r o ên fa se do qu e sucede na i m ag em do desen ho par a as pa r t ic u la r idad es qu e env ol v em a sua produ ç ão ( c irc um = à vo lt a + ins tantia = pr e se nç a ) , a ssi m com o p a ra a i n flu ên - c i a qu e o s a cont ec i me nt os qu e o compõem, n a sua d i mens ã o mate - r i a l e tempora l , têm n o p ensa me nt o c r iativ o A s con v en ç ões do desen h o são em g ra nde m ed ida baseadas em con ceit os qu e deco r rem da s poss ibi l ida des i nd u z ida s pelo q u e se obser va na i m ag em , a pa r t i r de mode los oc u locentr i st as f or tem en te or ie ntad os pelo d om í n io da v is ua l i dade na i nv est igação . S ã o, po r isso t a mbém , con v en ç ões qu e se fi xa m no comp rom i sso d aq u i lo qu e o desen h o repres ent a e qu e remete par a a lgo e x ter io r a o pró pr io desen ho , gera nd o, por consequ ênc ia u m d i st a n c i a men to d a a cç ão e do s s eu s mo de lo s e x p er i me nt a i s . Co mo i mage m , o desen ho rev ela -n os u m a cont ec i me nt o ao q ua l c hegamos semp re demasi ad o t a rde . M as es t a con d i ç ã o, l ong e de ser u m obst ác u lo, ca rac ter i za u ma da s m a rca s d ist i ntiv as do desen ho : o ser u ma i mag em on de o processo se reconst it u i com o ex per iê n c ia f en o - me no lóg ica , s i m u lt a neamen te t ác t i l e v is ua l , empá t ica e cog n it iv a. Desen h a r será , por v en tu r a , o m odo ma is d i rec to de saber sobre o pró pr io d esen ho . I sto a cont ece porq u e o a r ti st a ex per i me nta em tempo real a s ocor rênc ias e e sp ec i fic idad es de cada desen ho , da sua d i sc ipl i n a e o t ipo d as acções qu e est ão en v ol v ida s. O papel do d ese- n h ad o r é, co n v en c iona l men te , u m papel a c t iv o e c r ítico, q u e dec ide a todo o t empo o qu e o desen ho é o u pode ser , enq ua nto con ju nto de ref erên c i as ex ter io res a el e na relação qu e se es t abele ce entre o assu n to e a rep resen t ação . No con texto ma is a la rgado d o saber , dese- n h a r é u m processo contí n uo d e recon hec i men to e a pre nd i z ag em de n o vas rela ções e con fl itos n o sen t id o de defi n i r os l i m ites d o con he- c i me nt o en t re as pa la v r as e a s cois as . O desen h o, co mo espaço a nte - r ior à l i ng uag em é on de se ex plo r a, p ela acção e pel o g esto, o espaço semâ nt ico q ue a pal a v r a a i n da ( o u já) nã o compo r t a . 19 Desen h a r é u m a operação q u e ex pa n de e con centr a o eco e a son or idade da l i ng uag em , m as t a mbém a acção com a q ua l nos a t re- v emos a sa lt a r as c ercas , os c í rc u los qu e a l i n ha determ i n o u prev ia- me nt e pa ra c r i a r os l i m ites d e seg u ra n ç a do n o sso con hec i men to . Defi n i r o desen h o é a ntes de tud o e st abelece r u m lu ga r de desca n so pro v isór io a o nosso d esejo d e no mea r n o v os terr itó r ios ; é u m a ord em pro v isór ia desde a qua l ex pl ica m os a rea l ida de , u m mode lo d e rela- ções p ossív eis ex empl i ficadas pelo g esto. C on t rola r o desen ho é u m ac to q ue t en de i med iata me nt e a ser desd ito , quest io nad o na p er i fe - r i a do g es to , pa ra dei x a r es paço a u ma no va f or mul a ç ão . Co mo ma n i festações de u m p ensa me nt o c r iativ o qu e se fo r m u la em tem po rea l , o processo do desen h o deco r re de u m cer to n ív el de desfoque . Pa r a Mo l i n a , 3 e ste desfoque deco r re da c apac ida de da v is ão em comp reend er um c er to n ív el d e en t ropia qu e obr iga per ma n en - tem ente a rev er o q ue re con hecem os com o ev idên c ia n as coi sa s. O desen ho parece c om pree n der si m u lt a neamen te u ma c oord enação e d i ssoc iação en tre a v i são e a mão , que re mete par a os ef ei tos g erad os en t re as d i fe ren tes osc i lações do o l h a r , do con t rol e, da v ontade e d o cor po. Est a ideia col oc a o processo , en qua nt o i m ag em em pot ên c i a, qu e re fle c te sob re os seus próp r ios l i m ites, na relação com a mat ér ia , com o cor po e com o tempo , com o pro pr ieda des g erad ora s dos d ese- n hos a t ra v és dos a c tos qu e os rea l i z a m . Est a c on d ição p rocessua l é i nere nt e ao p rópr io dese n ho : con- f u nd e-se com e le , e st abelece os l i m ites da sua próp r i a on tol og i a com o i m ag em f or m u lada enq ua nto p roje cç ão d e u m cor p o qu e ac tua ; con d ic iona a sua f or m a de recepç ã o e recon hec i men to soc i a l – v emos os desenhos co mo traços, v est íg ios o utros teste m u n hos d os aco nt ec i me nt os qu e os mo t iv a ra m ; on de o sig n i fi c ad o se con fig u r a com o d i mensão i ntr í n sec a do faz er . Sob re est a c on d ição p rocessua l pr oc ur a r -se- ão ent end er a s mut a - ções que oco r rera m na f or ma como os ar t is t as c on c eptua l i z a m est a con d iç ã o. O q u e a d i f eren c ia do esp a ço operativ o da a r te p rocessua l , onde i n ic i a l me nte s e for mu l a ? Ao l on go da ú lti ma met a de do sé c. X X , a lg u m as d as m a i s i mpor - t a ntes p ubl icações e en sa ios sobre o d esen ho con tem porâ neo tê m-se centrad o na a ná l ise c r ít ica da ideia de p rocesso no dese n h o . Ess as p ubl icações su rgem assoc i adas ou ref erem um c on junto d e ex po - s iç õ es h i s tor ic a mente i m p or t a nt e s , c omo – A nti I l l usion : P ro - ced u re s / Materia l s no Wh it n ey M useu m ( 1 96 9 ) , Lu c y L ippa rd – Ec ce n tr i c Abs tra c ti o n ( 1 96 9) n a Ga le r ia F i sc h bach , New Y ork, 3. G ÓM E Z MOl I N A , Jua n Jo sé ( c oor d. ) – E l M a nua l de Dibujo – E st raté g i a s de Su E n señ a n z a en el Sig lo X X . M ad r id : Ed ic iones Cáte d r a , 2 0 0 1. I S BN 978 8 437 6 1 92 4 8 . P . 4 6. 20 ÂMBITO E TEMA D A INVE STIG AÇ ÃO F i nc h C ol le ge – A r t i n P ro cess ( 1 969) , e 9 a t L eo C a stell i ( 19 6 8 ) – qu e n ão só i mp u n ha m a noção de p rocesso n a a r te como um a c at e gor i a c r í t ica e c u r a to r i a l , como si m u lta n ea men te se ref er i a m à v i s ibi l i dade d o (fa zer ) processo na a r te . A recens ão cr í tica destes obje c tos s ig n i fico u a ntes de ma is u m ol ha r pa ra den t ro do desen h o, par a o tempo rea l do se u processo , c i rc u n sc rev en do- o n u m a tempora l idade d i rec ta , n a a fi r m ação da obj ec tua l idade q u e o or ig i n a. O desen ho é o qu e o processo rev ela. O pr i nc ipa l a rg u men to , t a lv ez aqu ele qu e mel ho r p ode su gest io na r a id eia de pr ocesso no desen ho n o conte x to da a r te p rocessua l, ten ha sido o i n teresse pela tem pora l ida de o u o mod o com o o desen ho l ida com u m mo v i men to qu e i mp l ica u m pass a do e u m f utu ro : u m dese - n ho qu e se c onst rói n u m a relação fu ndada entre a nte ceden tes e conse - qu entes, pa ra f rasea ndo A lber to Ca r nei ro . O ens a io de Pa me la M . L ee – Som e K i nds of Du ra tion : The T empo ra l ity of Dra w i ng as P ro - ces s A r t ( 1 999) 4 – reflec te as pr i n c ipa is l i n ha s or ie ntado r as pa r a u m a lei t u r a i nte r pretativ a sobre as con d ições do dese n h o na a r te p rocessua l e a sua apetên c ia pa r a en fati z a r a n oç ão d e tempo qu e subsc rev e. De le , sobr ess a i a ide ia que o q u e defi ne o p rocesso é a s ua ma rc a tempo ra l. Um o u t ro as pec to re lev a nte na i nv est igação te m com o pont o de pa r tida a reflexão sob re fo r m a e maté r i a, c om o vest íg io da f orm ação do d esen ho . S ub l i n ha-se o con t r ib ut o do te x to sem i na l de Foc i l lo n – A v ida das f or ma s, seg u i do d o E lo g io da mão ( 1 9 43) – pa ra u m a d i sc ussão ú t i l do sen t id o l itera l do dese n h o e do p ro cesso. S ubl i - n he-se ai nda a id eia qu e é n essa relação en t re f o r m a e m a tér ia qu e o desen ho se dá a v er , n o supor te on de se no meia , com o i nd icado r d a prese nça e med iação d o a r ti st a n o pr oce sso . Dest aca-se t a m bém a id eia de u ma gen ea log ia , pro post a p or L a u ra Hop t ma n na ex p osição Dra w i ng N o w : eigth pro posi tions ( 2 00 2), qu e s u rge assoc iada a o gesto d o a r t i st a c om o s i nto ma do seu processo , i ndepen den teme nt e do tip o de a cç ã o, m ei os ou supo r tes de n om eação . Ho ptm a n mon tou essa ex pos ição o rga n i z ada em oi to c at e gor i a s , 5 fa zend o depen der d essa orga n i z ação o en ten d i men to d as d i f eren tes tensõe s sob re o qu e poder ia c onst itu i r u m desen ho n o con texto dos mate r ia is e processos uti l i zados. Na v erda de , a qu est ão do p ro cesso i mpõe-se a qu i ma is pela n a t u rez a da s ob ra s ap re sen t a- da s do q ue pe lo d i sc u r so em to r no do “ fa zer ” . 4. L E E , Pa mel a M , S ome K i nd s of du ration : T he Tempora l it y of Dr a w i ngs a s P r oc es s A r t , in , A f ter I m age : Dr awi ng Th roug h P ro ces s , org . by BU T L E R Cor nel i a H ., The Mu seu m of Contem por a r y A r t , L o s A ngele s, 1 9 99 , pp. 25 a 4 8 . 5. S c i en c e a nd ar t, n at ure a nd ar t í fi c e ; O r n am en t an d c r im e : to ward de c orat i on ; D raf ti ng an d architect ure; D rawing happiness ; Mental maps and metaphysic s ; Popu lar culture and nacional c ult ure ; C o mi c s an d oth er s ubc ult ure s ; F as hio n, lik en es s, a nd alleg or y , i n , HOP T M A N , L a u r a – Dr aw i ng Now: e ig th pr opo sit ion s , p . 5. 21 Os a r g u men tos qu e têm v i nd o a ser ex p ostos cons t itue m a base pa ra u ma i n ter pretação f en om eno lóg i c a do p ro cesso. P roc urou -se f u nda men t a l men te p r iv i leg i a r na i n v es t iga ção as c a rac ter í st ica s v iv en c ia i s, a s possív eis l iga ções ou red u n dâ n c i as , as relações i nte- rac t iv as e efe c tivas en tre c or po, maté r ia e tempo ; con texto e c i rc u n s- t â nc ia de prod ução d o desen h o . Dest aca-se, co mo i n t rodu ç ão dest a pr obl emática , a obra sem i- na l de M er lea u -Po nty – Fenom enol og ia da percepç ão ( 1 9 45) – qu e desen v olv e u m a no va co mp reens ão da percepção, co n fig u ra ndo n oçõ es e con ceitos q u e comp rom etem o cor p o e o mo v i men to como fac to res dete r m i na ntes da percepç ão . De st a con cep ção sob ressa i a id eia de u m con hec i m en to a tr a v é s dos se ntidos n u m c a mp o de e x pe- r i ment aç ão do c or p o. S ub l i n h e-se a este p ropósito a cen tr a l ida de do pensa m ent o de Da v id R osa n d em Dra w i ng A c t s : Stud ies i n Grap h ic Ex pressi on a nd Re pr e s e nt at ion (20 0 2 ) , na c on fig u ração de um a v is ão f eno- me no lóg ica do desen ho , ao cons id era r o mod o com o a ex p er iê nc ia do d esen ho reiv i nd ica o processo qu e l h e de u or ig em, recon st r u i nd o na super f í c ie os mo v i m en tos do co r po, re v ela dos com o vest íg ios da s ua for m aç ão. O desen ho , n a si mpl i c i dade d os seus mei os , c r ia u m t raço v is ív el t a nto d o p rocesso de fa z er com o do pens a men to . E st a é a ideia de sí n tese de De bora h H a r t y , 6 qu e proc u r a id en t i fica r o papel esp ec í fic o do co r po com o med iad or e ntre o m u nd o e o desen ho . E nt en den do o desen ho co mo f en om en ol og ia , H a r t y , cons id era por u m lad o a c apa - c idade d o desen ha r ‘ g rava r’ a s ua pr óp r i a f ei t ura e, po r o utro lad o, a poss ibi l i dade de re g i st a r os pens a men tos do ar ti s t a. No co nte x to do d esen ho con temporâ neo po r t ug u ês a rev i são dos e lem entos ma i s sig n i fic a t iv os pa ra o en qua d r a men to prá t ico e con ceptua l do t ema , comp reen dem u m a janela tem pora l defi n ida en t re a década de 90 do sécu lo X X e 20 1 0. Es te per íod o f oi bast a nt e ma rc ad o pelo i nt eresse n o desen h o com o prá t ica es pec í fica , sen do a década de 1 9 90 atrav ess ada por um c on junto d e ex po sições e pu bl i - c a ções c r uc ia is pa r a o en ten d i m ent o do d esen ho con temporâ neo por t u g uês. Nesse per íod o f oi possív el rev is ita r o desen h o de décadas a nte r iores e m ex p osições com o : ( 1 9 9 5) O Desejo d o De sen ho ou (2 0 03 ) Mod os A fi r mativ os e Dec l i naç ões – A lgu ns a spec tos do d esen ho na d éc ad a d e oi ten t a , poss ibi l ita n do um a d ig ressão pel o t raba l h o de a r t i st a s com o :  ng el o de So u sa , A n a H a t he rly , A ntó n io 6. C f. H A R T Y , Deb ora h – Dr a w i ng / phenomenolog y / D raw i ng : a n ex ploratio n of the phenomenolog ic a l pot ent ia l of repe tit ive p ro ce ss es ; publ is hed i n T r ace y Jou r n a l : P roc e ss , Ja nua r y 2 0 12 ; [C on su lt. 1 9 Ju l . 20 1 3 ] Di s p on ível em W W W ht t p : // w w w .l b oro. ac .u k / m ic r os ite s /s ot a /t r ac ey/ jou r n a l / pro c / i ma ges /h a r t y 2 0 12 .p d f . 22 ÂMBITO E TEMA D A INVE STIG AÇ ÃO Sena, Fer na nd o Ca l ha u, Hele na A l mei d a , Jo rge Ma r t i n s, Á lv a ro l apa, Ped ro Cabr ita Reis, Ru i Ch a f es, Ju l ião Sar me nt o, J o a qu i m Brav o, A na Jota , X a na , Ped ro Ca lapez , M a n uel B ote l ho , en t re o utros. Est a ja nela te mpora l , cor res pon de a u m per íodo d e g ra n de em er - gê n c ia c r iativ a e prod utiv a con c ret i zada em ex po sições com o : ( 1 99 9) A i nd isc ip l i na do Desen ho ; (20 0 0 ) O G én io d o Ol ha r – Dese - n ho com o Dis c ipl i na 1 99 1 - 1 9 99 ; ( 20 0 1 ) D e s en ho ; (2 0 05 ) E nt r e Linh as – Desen hos na Col ecç ão da F u ndação L uso - A mer ica n a pa ra o D e s envolv i mento ; (2 0 05 ) , Da E sc r ita à F i g u ra – Desen h os da Co lecção da F u nda ç ão d e Ser ra lv es ; (20 08 ) , Atlas P ro jecto de D e se n ho ; e p roj ec tos com o : (20 08 ) Dra w i ng S pac es , on de se reu - n i ra m vá r ios a r t ist a s em ex pos ições, con fe ren c i as e deba tes, c on - t r ibu i nd o dec i siv a men te pa ra i nsc rev er o pr oce sso com o categ or i a cr ítica e au tón oma. Este fo i u m pont o de pa r t ida pa ra as pr i n c ip a i s qu es tões qu e pro - bl em a t i z a m a id eia de p rocesso no desen h o por t uguês a pa r t i r da ú lti ma déc ada d o séc u lo X X . Co mo f oi d it o, este per í odo é ma rc ad o por u ma i n tens a p rodu ção, ex ibição , deba te e reflexão cr ític a sob re o desen ho e os se us l i m ites, sobr e os seus mode los e fu n ções, sobre a sua con d i ç ã o e a u ton om i a. I mpor t a por isso rev er co mo é q ue o p roc esso se to r n a u m prob le ma do d esen ho? E m qu e med ida os desen h os, são o qu e é p ote nc ia l- me nt e ge rad o pelos p rocessos ? Co mo se ca r a c ter i za m os mode los ex per i men t a is de processo? Com o se defi ne m? E m qu e med ida o processo o u as cond ições processua i s são a c t ua l i z ada s n os desen hos e n o d isc u rso dos a r t is t as sobre os dese n h os? Q ua i s são as represen - t ações qu e os a r t i st a s fa zem do p rocesso ? É ju s t a me nte so br e e s t e e nqu ad r a mento, pr obl em at i z ado no mod o com o os a r ti st as represen t a m as cond ições processua i s no se u t raba l h o, q ue n os i rem o s cen t ra r pa r a c a rac ter i z a r e defi n i r a n ossa h ip ót ese de tr aba l h o – con t r i b ut os pa ra o es t u do de m odelos e x per i- me nta i s de processo . A con t r ibu ição d est a tese pa r a o c a mpo d a i nv est igação em d ese- n ho consi ste em comp reen der o papel d os processos na ac t iv idade do d esen ho ; av a l ia r as poss ibi l ida des i nd u z ida s pelos p ro cessos na defi n ição d e u m a est ratég ia de aborda ge m ao d esen ho por tug uês a pa r ti r da ú lt i m a década do séc u lo X X e av a n ç a r com o u m a h ip ót ese i nte r pretativ a de m odel os ex p er i men t a i s c apaz de ide nti fica r, a par - t i r de u m qu est iona men to d i rec to dos p róp r ios a r ti st as, a s d i f ere ntes con cepç ões de p rocesso. 23 ENQUADR A MEN TO ME TODOLÓGIC O O t raba l h o rev iu a bibl iogr a fi a pu bl icada sob re o desen ho n o â mbit o do c or pus d a tese – a id eia de processo n o desen ho co nt emporâ ne o por t u g uês – con f ron t a nd o -a com a p r i nc ipa l bib l iog r a fi a qu e, desde os a nos 90, se tem v i n do a co ncen t ra r sob re a con d i ç ã o processua l n o desen ho , bem com o a a ná l i se de d oc u m en tos qu e pr iv i leg ia m o d i sc ur so d i rec to e poiétic o dos a r t i st a s sobre o p roc esso . Os f u n da- me nt os met odo lóg icos pa ra o t raba l ho pa r tem de u ma abordag em f en om eno log ia , en qua nt o base fi losófi ca d a i n vestigação . Den t ro deste qua d ro teó r ico e ex per i men t a l i nc l ue m-se ob r as de a r t i st as com o : T i m K no wles, Ro ber t Morr i s, M athew Bar n ey , T om M a r io n i , W i l l i a n A nas t as i , Clau de Hea t h , R ic ha rd L ong, R ic ha rd Ser ra , Jo n h Cage , Morga n OHa r a, T om Fr ied ma n , Ósc a r Mu n oz , e o est ud o de caso s dos ar t is t as p ort ug ueses :  nge lo d e So us a, Fer n a ndo Ca l ha u, L eon el Mo u ra , João Fiadeiro, Joã o Q ue i roz , Ru i Mo rei ra , Ca rl os Nog u ei ra , Diogo P i me ntão , Da n i el Ba r roc a , L o u rdes Cast ro, Cláu d ia A ma nd i , C r i st i na At a id e , Ad r ia n a Mo ld er , A na H athe rl y , Ped ro T u dela, M ig ue l L ea l , Fer n a nd o José Pe rei ra , F ra nc i sco Ca r - doso L i ma , Ped ro G om es, F r a nc isc o T ropa, Pa u lo Brig hen t i , A n tón io Quad ros Fer rei ra , Ped ro V a ld ez Ca rdoso e Pe d ro A. H . P a i xão . O desen ho q u e não se con f or ma aos l i m ites da d is c ipl i na , com o o desen ho par a u ma pi n t u ra ou par a u m a esc u l t u ra , não cabem n a ap rec iação deste estudo d e ca sos. Refi r a-se , tod a v i a, que se i nc lue m os desen hos co r por i z ad os na m at ér ia de Ca rlos N og ue i r a o u de Fr a n- c i sco T ropa , os desen hos emer gentes de L eon el Mo u ra ou as ob ra s per fo r mativas de H el ena A l me ida e Joã o F iade i ro, const it u i ndo-se com o ex empl os l i m i te, ta nto d o pon to de v is t a f or ma l com o c on c ep - t ua l no â mbit o dest a i n v est igação . Pa r ti nd o da h ipótese d e qu e ex is tem v a r ia n tes e m ut ações na id eia de pr ocesso, elaboro u-se este est u do de casos , on de se proc u- ra r a m pis t as pa ra o en ten d i m ent o dos d iv er sos desen v ol v i men tos c r iativ o s qu e se produz i ra m em Por t u ga l n as ú lt i m as duas década s. Na d efi n ição da s opções metod ol óg ica s pa ra o e st u do de caso, cons id ero u-se qu e es te de v er ia ap resen t a r a r t is t as e obras qu e sus- ten t a ssem a id eia de pr oce sso com o ref erên c ia centra l ou em erg en te na sua produ ç ão ar t í st ica. E m qua lq ue r dos caso s, cons id ero u -se qu e 24 ENQUADRAMENT O METODOL ÓGICO as esc olh as dev er ia m const it u i r -se com o testem u n ho d e u m deter - m i nado m o do d e pens a r o desen ho – a pa r t i r da s suas cond ições processua i s – ma is do qu e no c r it ér io te mpora l /h i stór ico o u gera c io - na l. Est a opç ão p reten de ap rofu nda r o con h ec i me nt o de l i n ha s de t raba l h o já consol idadas no pa n ora ma a r t í st ico por t u g uês e a r t ic u la r esse con hec i m en to com ar t is t as e h ipóteses de traba l ho i né d itas ou m u it o d iv ers i fic adas on de o dese n ho desa fi a os seus pró pr ios l i m ites com o d i sc ipl i n a. Es t a escol ha preten de reflec t i r sobre as var ia ntes da id eia de p rocesso neste es paço con c reto , a p a r t i r de um c on junto d e a r t i st as e desen hos c uj a s est ratég ia s c r ia t iv as s ão m ot iv ada s pela sua con d iç ã o processua l . A escol ha d as obras tev e com o fi na l ida de asseg u r a r a v isua l idade poss ív el dos co nte ú dos qu e se ap resen t a m e doc u me nta r v i sua l me nt e a h ip ót ese de tr aba l h o. As obra s são o testem u n h o, q u e por m em ór ia d i rec t a – no a tel ier d os a r t is t as – fo l hea d as nos catá log o s, ou po rq ue me d iadas pela l i ng uage m v erba l e desc r it as em en t rev i st a s, con v er sa s o u textos pro tocola res on de o ar t is t a desc rev e o seu processo c r iativ o, sus ten t a m doc u men t a l men te a n ossa h ipótese de traba l ho . Fora m rea l i z adas no â mbit o da tese entrev i st as e qu est ioná r ios, t roca de cor res pon dên c ia ( ema i l) , en contros i n f orm a i s com a lg u n s dos ar t i st as que i nt eg ra m as esc ol has p a ra es tudo d e ca sos. Colabo - ra r a m com este t raba l ho os segu i ntes ar t is t as : Ca rlos N o g ue i r a, Ru i Mo rei ra , Ped ro A . H . Pa i xão , L eon el Mo u ra , Pa u lo B r ig hen t i , Ped ro G om es, M iguel Lea l , Fer n a nd o José Pe rei ra , Cl á ud i a A m a nd i , A ntó- n io Quad ros Fer rei ra , Da n iel Bar roca , Ped ro V a l dez Ca rdoso , F ra n- c i sco Ca rd oso L i m a, Ped ro T ude la , F ra nc i sco T ropa, João Fi a dei ro . Estes doc u m en tos, f u nda men t a i s na ve r i ficação d os a r g u men tos, ap resent a m-se em a n ex o. Aba i x o tr a n sc rev e-se o qu es t io ná r io cons- t itu ído po r dez perg u nt as : 1 . Podes desc rev er -m e bre v em en te o qu e fa zes (desen ho)? 2. O qu e te lev a a f a zer esse o t raba l ho? (Co mo d esc rev er ia s a t ua rela ç ã o com o desen h o? Q u e f u nções l h e a t r ibu is ?) 3 . Co mo d esc rev er ia s o processo do t eu dese n h o? ( Podes d i zer - -m e a lgu ma coi sa relativamen te à con d ição p rocessua l do t eu de s en ho ?) 4. Há qua nto t empo tens v i nd o a tr aba l ha r dessa m a nei ra? 5 . Qua l a i mpor t â nc i a do (s ) pa râ metro (s) (m at ér ia , tempo, p er c ep ç ão, ac ç ão, r e p et iç ão, t r a n s fer ênc i a , autonom i a / autó - n om o) , no te u processo de d esen ho? Qua l a i mpor t â n c i a de fac to res tempo ra i s, c om o du ração , f requ ên c ia , etc. no te u processo de d esen ho? Que rela ções se es t abele cem en t re per - cepç ão e p rocesso n a prá t ic a do d esen ho? Co mo re lac ionas o I P AR TE 33 1. O PROCES SO EM DESE NHO O processo com o objec to d e est ud o é u m tema qu e tem sid o f or - mu l ado re c or r ente ment e p or h i s tor i ador e s , c r í t ic o s , i nv e s t igador e s e a r t i st as. E u m dos pr i nc ipa is motiv os pren de -se com a p robl emática da próp r ia defi n ição do d esen ho . P ro c u ra r -se-á, neste capítu lo , com- pre en der os fu nda m en tos da eme rgên c ia do p rocesso c om o c on d ição v i s ív el do d esen ho . Est a é t a mbém u m a fo r ma de res pon de r à qu es- t ão: c om o é que o p ro cesso se torn a u m mo t iv o do desen ho? I mpor t a rá p or isso comp reend er e com pa r a r as defi n ições e i nt er - pretações do con tex to e da c i rc u n st â nc ia do p rocesso em desen ho , perce bend o -a s n o en qua d r a men to c r iado pe la s qu e stões eme rge nt es da a r te p rocess ua l. Será ig ua l men te i mport a nt e comp reen der com o est a s podem con t r ibu i r pa r a a id en t i ficação d e mode los d e desen ho basead os no p ro cesso. 34 CONTEXT O E CIRCUNST ÂNCIA DOPROCESSOEM DE SENHO Co mo é q ue um desen ho pode ser d efi n ido pel o conj u n to das s uas acções? Que n om es podem defi n i r a s a cçõe s do d esen ho? Que a fi n i- dades p rocessua is, motiva çõ es e resu lt ad o s têm v i ndo a co n fig u ra r mod elos d e ac tuação no ca mpo ab er to pela v i si bi l idade d o processo n o desen ho con temporâ neo? Est a s qu es tões são u m pon to de par - t ida essen c i a l pa r a o qu e est á n a base do con texto dest a i nv est ig ação ge n er ica m en te ref er ida com o processo. Num sentido la to , en con tr a mos el em ent os de dese n h o n os ma is v a r iad o s as pec tos da rea l idade qu otid ia n a, mesmo os qu e, on tol og i - c a men te, não sã o defi n id os como ta l – os mo v i men tos de u m cor p o, a topog ra fia de u m terreno , u m gesto , u m ol ha r ou u m pen sa - me nt o . Muitos a r t i st a s desen ha m no se ntid o de obt er u ma i mag em pre l i m i na r – os desen h os pa r a u ma pi n t u ra ou par a u m a esc u l - t u ra , os desen hos par a u ma p er for man c e ou, apenas , u m esqu ema pa ra o del i n ea men to de u m a a cç ão . O desen ho tem si do , por t a nto , f requ ente me nte e nt en d i do com o u m l ug a r de i n sc r ição , de p la n ea - me nt o, d e tr a n sfe rên c i a, de i n ter pretação de ma rca s ou d e el em en - tos, qu e se refe rem a n om e s qu e ex p ressa m o sen t id o o u a natu rez a dos dese n hos (e d as coi sa s) – ide ia , i mag i n ação , con to r no , ma n c ha , d i s p os iç ão, c on fi g u r aç ão, ge s to, mov i ment o, m a r c a , i nc i s ão, ide a l i - z a ç ão , prec i são , etc., n u ma ac t uação co mbi n ada de um a acção e a c i rc u n st â n c i a da sua ex ec ução . Outra c ois a, p or v entu ra d i fere nt e, se n os c ol o ca qua ndo a m e sma qu e st ão se ref ere a o desen ho co mo d i sc ipl i na a r t ís t ica. Aqui , o dese- n ho ref eren c i a-se co m prob lema s con ceptua is, fo r m a i s e mate r i a i s, rela t iv os à próp r ia prá t ica e relativ os a fo r m as de con hec i m en to e suas apl icações : “por ex empl o desen h o a na l ít ico , desc r itiv o, natu ra- l i st a , rea l is t a , con c eptua l, abs t rac to , esqu emático, poét i co, c ien t í fico, té c n ic o, l i nea r, a r t í s t ico, a r te s a n a l , or n a ment a l , de c or at i vo […] ” . 1 Se é v erdade q ue m u itos ar t is t as u sa m o desen h o com o me io prepar a tó r io, co mo um a fo r ma de a ntec ipação d e u m a o utra coi sa qu e n ão n ecess a r ia men te o desen h o, reco n hece-se q ue a p r á t ica do 1 . G ÓM E Z MOL I N A , Jua n Jos é ( co ord .) – L os Nom bre s del Dibujo . M ad r id : E d ic iones Cáted r a , 20 05 . I S BN 9 788 437 622 712. Cap. 1, L a s p a l abr a s y los nom bre s, p. 12 . 1.1. CONT E X TO E C IRC UNST ÂNCIA DOPROC ES SOEM DE SEN HO John Cage Visu al Ar t: T o so be r an d qu ie t the m in d , K at h an B r ow n , p . 1 1 35 desen ho t em-se co ns t itu ído com o u m espaço a u tón omo d en tro dos processos a r t í st icos e c r iativ os. E st a dup l ic idade d e act uações s ig n i fi- cou a d eter m i nada a lt u ra u m a m u da n ç a, se n ão um a i nterr upção , na l i near idad e da refe ren c iação do d esen ho en t re o a ssu nto e a represe ntação , entre o desen ho e a d isc ipl i n a, entre o desen ho e as suas fu n ções. 2 Est a é u ma r up t u r a cons id erá ve l , na med ida em qu e gera mod el os con ceptua is e operativ os d i f eren c iad os. A ideia de um desen ho a utó- n om o, pode d i z er -se , cons id era a a fi r m ação d o desen ho co mo um méd ium 3 próp r io d e ex pressão (a r t í st ica e c r i a t iv a). E , como ta l, es t a- bele ce os pa r â metro s qu e pa r t ic ipa m d aq u i lo q u e é o desen ho n os processos, nos m ei os, nos mate r ia is , na s a cçõe s e n os i nst r u me nt os. É i mpor t a nt e ref er i r a i n flu ên c i a do m odern i smo na a fi r m ação do d esen ho com o u m es paç o próp r io , a sseg u r a nd o-l he u ma c er t a centra l idad e e a u ton om i a de uso, i g no r a nd o o papel q ue lhe era tr a- d ic io n a l ment e at r ibu ído c omo d i sc i pl i n a. 4 A a fi r m a ç ão d o desen h o 2 . De sde o ap a r ec i mento d a fotog ra fi a , não é p os s ível pen s a r o d es en ho do mesmo modo. No l i m ite, a fotog ra fi a , ut i l i z a ndo as p os s ibi l idade s reai s d a téc n ica , tomou o es p aço até a í res er vado ao dese n ho do n at u r a l . Es t a o bs er vação é feit a e m c i m a de u m r ec on hec i mento, c ada vez m a ior, da nov id ade que c on st itu ía m a s i m agen s fotog r á fic as . Cont udo, a fotog ra fi a n ão seg u iu u m c a m i n ho e o dese n ho out ro. A fotog r a fia c r iou mo delo s de rel aç ão com a r ea l id ade, t a mb ém ao n ível proc es su a l , que fora m s endo i ncor por ados no de sen ho. A conex ão i nde x ic a l em que a i m agem fotog r á fic a as se nt a – u m a re laç ão de c ont ac to d i rec to ent r e o objec to e a su a re pres ent aç ão – é de p oi s a ba se d e u m a ex ploraç ão s i st em át ic a do des en ho a pa r t i r do s a no s 60 do s éc u lo X X , b a sead a no c a lco, no í nd ice e n a t r a n s p os iç ão ( c f . A L M E I D A , Pau lo Lu i s F er r ei ra – L a Di men sión Per f or m ativa de la P rác t ica P ic tór ica : A ná l i si s de los Me c a n i smos de T ra ns f ere nc ia - de - U so ent re D i st i nto s C a mpo s Per f or m ativos . Fac u lt ad de Bel la s A r tes , Un iver sid ad del P a ís V as c o, 20 08 . Tese d e doutora mento. Cap. L o s Mode los del P r oc es so. E st e model o proc e ss ua l, ba se ado na c onex ão f í s ic a ent re o d es en ho e a rea l id ade re pre sent ad a , m a s t a mb ém na e mergênc i a da t emp ora l id ade c omo co nd iç ão d a i magem pr odu z ida , p õ e em ev idênc i a a s c a r ac ter í s t ic a s fenomenológ ica s do de se n ho, m a n i fe st as , p or exemplo, nos de sen hos de c a lco d e sup er f íc ie s do a teli e r de Rob er t Overby , i nc lu ído s por Cor nel i a But ler no tex t o que acomp a n h a a ex p o siç ão A f t er i m age – Dr aw i ng Th roug h P roc ess ( BU T L E R , Cor nel i a H . ( org. ) – A f teri mage : Dra w ing Th rou g h P rocess E x h i bit ion . L ond res : M I T P r es s, 1 99 9 . I SBN 9 780262522 62 4. P . 8 1 e se g u i nte s. 3. E m R a nc ièr e, a noç ão de m édium , c a so de s ig ne a lgo d i ferente de u ma m atér i a ou sup or te, deve des dobr a r -s e. “ Por u m lado, o méd iu m é o c onju nto de me ios m ater ia i s d i s p on ívei s pa r a u ma ac t iv idade t éc n ic a . ‘Conqu i st a r ’ o méd iu m s ig n i fic a ent ão : l i m it a r -s e à ex i s tê nc i a des se s meio s m ater i a i s . M a s , p or outr o lado, a i n si s tênc i a é po s t a n a prec i sa r el aç ão ent re fi m e meio. Conqu i s t a r o méd iu m quer a ss i m d i z er o i nver so : apropr i a r-se de ss e meio pa ra f a z er dele u m fi m em s i , ne ga r e ss a re laç ão ent re mei os e fi n s em que re si de a es sênc ia d a té c n ic a.” R A NC I È R E , Jacques – O De st i no das I m agen s . O r feu Neg r o, 20 1 1 . I S BN 9 7898983 271 78. P . 98 . 4. U m a moder n i dade q ue se con s t r ói em re s p os t a à s muda nç a s d a s cond içõ e s so c i a is , c u lt u r a i s e ec onóm ica s pr ov oc ad a p elo c r es c i mento d a s c idade s e ex pa ns ão e i m por t â nc ia d a m áqu i n a – a mode r n idad e a fi r m a u m e s t ado de t r a n s iç ão per m a nente e a g ra nde veloc idade, onde o s a r t i st as a nul a m pr oc e sso s e m ater ia is t rad ic i ona i s e i nvent a m u ma s ér ie d e nov a s téc n ic a s e novas ex pe r i ment açõ e s. A i nt r oduç ão de novos meios , novos mater i a i s , a i nvenção de novas e s t raté g i a s e téc n ic a s , mu it a s a i nda hoje c on sid erad a s d a s ma iore s rea l i z açõ es mo der n i s t a s c omo : a t ra n sfor m aç ão do e s paç o, d a for m a e da e s t r ut u r a p elos c ubi s t a s , a i nt r oduç ão de nov os m ater ia i s na c ol agem e o i nte re sse n a geome t r i a e a bs t r acç ão. O la b oratór io Richar d Serra “D r aw in g is a ve r b” 36 CONTEXT O E CIRCUNST ÂNCIA DOPROCESSOEM DE SENHO pass a v a ag ora por se centra r no qu e l iga o ar t is t a com a qu i lo qu e se pass a na fo l ha de papel, m a i s do qu e qua lqu er o utra coi sa. De a lg u m mod o, aler t av a o a r t is t a pa ra os va lo re s e possi bi l idades d o qu e est á a aco nt ecer sob re a super f íc ie de pa pel e qu e of erece u ma v is ão v ív ida do d esen ho , i ndepen den te d a sua f u nção o u fi na l idade . Est a foi um a a ltera ção cons id erá ve l rela t iv a men te ao m odo de en ten der o desen h o. P roc u ra v a-se co mp reen der o d esen ho a pa r - t i r do m odo com o o s a r t i st a s ex plo r a ra m (as i n fi n ita s) poss ibi l ida- des da d isc ipl i n a. Os a r t i st a s con cen t ra m a s ua refle xão estét ica em n ív eis de abst r a cç ão e d e reflexã o f orm a l i st a asso c i adas às qua l ida- des i ntr í n sec as dos el em en tos v i sua is e plás t icos. Este é o pren ú nc io de u ma vast a ex plo ração de co ne x ões e a ssoc iações en t re con ceit os, i m ag ens e cont ex tos. T o do este per íod o mod er n ist a dese ncad eia u m progress iv o i n tel ec t ua l is mo e ra c iona l is mo da a r te, q ue é e x tensiv o ao d om í n io d o desen h o . […] c omo c on sequênc ia das teoria s abstracioni stas do iníc io do séc ulo , de W orr inger , 5 dos n eo- plastic ist as, dos c on st rut iv ista s e do mov imento dádá, […] dá-s e uma oc upação da act ividade art íst ica pelo acto project ual, q ue vai ter nos ano s 50 e 60, […] e e m s eguid a na minima l arte e no c onc e ptualismo , nas suas diversa s variantes, a sua maior expres são . 6 Est a s obser va ções de Joa qu i m V iei ra coloca m u m pon to de an á- l i se i mpo r t a nt e na refe rên c i a ao p roc esso por v ia do pro je c to na s a r tes plást ica s. Por u m lad o, pela a l us ão a o processo, con t ida n a pró pr ia id eia de pr oj ec to ; p or o utro l a do , porq u e, a o descentra r o desen h o dos se us c a mp os con ve nc io na i s, tor na o ac to de dese n ha r u m ac to poiétic o (ou e x p er i men t a l) n a sua con d i ç ã o de saber e con hec i m en to . Dea n na Pet he rbridg e, n o seu tex to N ailin g the Limina l : Dif fi c ulties of D e fi ning D raw ing , ap resent a as pr i nc ipa is r a zões que t êm est ad o per feito pa ra a ex p er i ment aç ão ava nt- gard e , de sen hos que oferec em u ma v i s ão v í v id a do t ra ba l ho do s a r t i st as e à pró pr i a for m aç ão do mode r n i smo. Ao re con s ider a r o pap el d a l i n ha e d a m ão pe la r ejeiç ão ou a lt eraç ão do s méto dos c onvenc ion a i s de el ab oraç ão, c ontes t a m a po s iç ão do a r t is t a , r ejeit a m a ex pres s ão pa r a a ss u m i r a s op eraç õe s d a m áqu i na , tom a m a sup er f íc ie do pap el de a ss a lto enqua nto col agem e mont agem d a m atér i a t r ad ic ion a l , r epud ia m o sujeito e m favor da ab s t rac ç ão. Es t a s con s ider aç õe s vêm na s equênc ia d a ex po s iç ão i n aug u ra l Dr aw i ng s fr om MoM A ´ s Col lec t ion : D raw i ng f rom t he Moder n , 18 8 0 -1 9 4 5 , The P aul J. S ac h s Dr aw i ng s G a l ler ie s, 3rd flo or, MoM A , Novemb er 20 , 20 0 4 – M a rc h 7 , 2 0 05. h tt p:/ / www . mom a.or g / [ C on su lt. 1 6 de M a r. 20 1 0 ] 5. C h a ma- se a atenç ão p a r a W o rrin g e r , Wilh e lm, A b st r acc ión y N atu ra le z a . Méx ico : Fondo de Cu lt u r a Ec onóm ic o, 1 983. 6. V I E I R A , Jo aqu i m – O De sen ho e o P r ojec to s ão o mesmo ?, Out ro s tex to s de Desenho . Por to : FA U P P u bl ic aç õ es , 1 9 95. ISBN 97 8972948 3 1 3 2. Cap. O P rojec to n as A r te s Pl á s t ic a s, p. 27 . 37 prese nt es no d i sc u r so em to r no d o desen ho , n em semp re c onsen - sua i s, n a ten t at iv a de esc l a recer […] al go que é esc or rega dio e irresoluto no seu estado fl uido co mo ac to per for mativo e ideia ; c omo s ina l, e símbolo e si gnifi c ante ; c omo diag rama co nc ept ual , be m c omo meio , proc es so e téc nica . C om mui - tos, muitos uso s, mani festaç ões e apli ca ç ões. […] Nos úl timo s tempos, os ar ti sta s, os ar qu itec tos e des igners ten - deram a co nsiderar o dese nho na sua p rática, de for ma br us ca e ráp ida c omo a batida de um som, s egui ndo a c or rente de val ori - zação da e sc ol ha individual e a po lític a do eu s ob re os si ste mas ac adémic os. 7 Depree nd e-se , p or isso, q u e est a s n o va s e s t ra t ég ia s do de s e n ho est ão , por u m lad o, ma i s pró x i ma s de se to r na rem um a “fi na l i - dade e m si” , qu e cons t itu i aqui lo q ue é o u po de rá ser o desen ho . Po r ou t ro lado , ser v em t a m bém pa ra c la r i fic a r o pró pr io d esen ho com o d isc ipl i n a ; são est ratégi as au to - ref eren c ia i s, qu e reen v ia m pa ra a s con d i ções d a sua prod ução , a fast a nd o -se prog ressivamen te de u m desen ho q u e rem ete pa ra fo r ma s de con he c i men to e pa r a a s s ua s ap l ic aç õ e s . O conj u n to de fa c tos em qu e se i nsere o prob lema do p rocesso em dese n h o dete r m i n a de cer to m odo o seu v a l or e sen t ido . A noção qu e temos h oje d o p rocesso em desen ho de r iva da d icot om ia entre o con texto e a c i rc u n st â n c ia da sua rea l i z ação . O con texto reg ist a o s c asos em qu e u ma acç ão pode oco r rer junt a men te com ou t ros ele - me nt os per ten centes a o mesmo a mbien te. A c i rc u ns t â nc ia , por sua v ez , rep resenta a poss ibi l idad e de q ue ce r tos elem ent os oc o r r a m em con exão co m o utra s con d ições , den t ro do m esmo p rocesso, o u em de ter m i n ado moment o 8 . I sto é, a qu i lo q u e desen cadeia e qu e es t á na ba se de d eter m i nada s acções em qu e se en v olv e u m qua lqu er aco nt ec i me nt o ou d esen ho ; aqui lo q u e se to r n a mo t iv o e on de se pode f u nda men t a r todo o con ju nto d e a c tuações. E m qua lqu er dos 7. I n at te mpt i ng to c l a r i f y some t h i ng wh ic h i s sl ipp er y a nd i r res olute i n it s flu id s t at us a s p er for mat ive ac t a nd idea ; as s ig n , a nd s y m b ol a nd s ig n i fier; a s conc ept u a l d i ag r a m a s wel l a s me d iu m a nd pro ce ss a nd tec h n ique. Wit h ma ny use s, m a n i fes t at ion s a nd appl ic at ion s . […] I n re ce nt t i me s , a r t is t s , a rc h it ec t s a nd des ig ner s have tended to f avo u r t he br is k sou nd-b ite ab out t he i m por t a nc e of d r aw i ng i n t hei r prac t ice, fol low i ng t he c u r rent va lor i z at ion of i nd iv idua l c hoic e a nd t he p ol it ics of sel f ov er of ac adem ic s sy st em s . P E T H E R BR I DG E , D ea n n a – N ailin g t h e Limin al : Di f fic u lt ie s of De fi n i ng D raw i ng . P p. 27 e 2 8 in GA R N E R , Steve (ed . ) – Wr it i ng on Dr aw i ng : E ss ays on Dr a w i ng P rac tice a nd Rese a r ch . Br i st ol , C h ic ago : I ntel lec t B ook s , 2 0 0 8 . I S BN 978 1 8 41 502 0 0 7 . 8. E C O, U m b er t o – L eit u r a do T ex t o L iterá r io : L e c tor i n Fabu l a , 2 .ª ed . L i sb o a : Ed itor ia l P r es enç a ( 1 9 79 [1 9 93]) . I SBN 9 78-9 72- 23 - 1 62 2- 2 . P . 1 9 . 38 CONTEXT O E CIRCUNST ÂNCIA DOPROCESSOEM DE SENHO c asos, o c on tex to e a c i rc u n st â nc i a são os fac to re s dete r m i n a ntes de u ma m utação na lóg ica processua l do desen ho q ue p reten dem os rastrear . Os prob le ma s do p rocesso, t a l como h oje os e nt en dem o s, decor - rem d o nosso ma io r ou m eno r env ol v i men to com as con d i ções i nt er - post as pelo reco n hec i me nt o de qu e os desen hos en v ol v em fa z er ma rc as , ma s t a m bém a ex i stên c i a da pro jecção tác it a do co r po qu e as fa z . A i deia de d esen ho, ta l c om o d a noção de p roc esso ne le i mpl i- c a da , fo r m u la-se n o recon h ec i me nt o do co nte x to em q ue se p rodu z e da c i rc u n s t â nc ia que o d esp ol et a. E m cer to sen t id o, o d esen ho defi ne-se d en t ro de um quad ro de ref erên c i as on de se reco n h ece u m esqu ema ge ne rativ o en tre o c on texto (o seu ca mpo de a cç ão) e as con d ições d a sua rea l i z ação e as con fig u r ações resu lta nt es. Po r u m lado , n as c on d ições do p rocesso m a n i fest as no con ju nto de a con tec i m en tos qu e f a zem a narrativa do desenho – aq u i lo qu e se rev ela ao m esmo tem po qu e se fa z ; por o utro lad o, o p rocesso n a rela ç ão co m o con texto e c i rc u n st â n c ias d a prod u ç ão d o desen ho . Est a s ituação a pa rece defi n ida no con junto de d esen hos “ B l i n d Da te Draw i ngs” (20 07) , rea l i zados po r W i l l i a m A nas t as i e Lu c io Po z z i , n u m d ue lo d e ol h os fe c h a dos, no espaço W hite B ox 9 . Pa ra es tes dese- n hos, A n ast asi e Poz z i en f renta ra m-se dura nt e oit o h oras fa zend o desen hos ceg os, desa fia ndo a n o ção e i mpor t â n c i a de “v er” na a r te. O con texto de pr odu ção dos dese n hos con d i c iona dete r m i n ad os as pec tos d e ord em perceptiv a e opera t iv a – n os gestos, na d i mens ã o dos dese n hos, na p ost u ra do a r ti st a, na dec is ã o de te r m i na r o dese- n ho – qu e vã o fo r m a nd o no d esen ho a sua v i sua l idad e (de ol h os f ec hados). Es tes desen h os est ã o depen den tes do f u nc io na me nt o deste esqu em a ge ne rativ o, ma is do qu e qua lqu er ou t ra c oisa . Muito po r f orça da a l tera ç ão das reg r as e con v enções d isc ipl i n a res, bem com o da a l tera ç ão da rela ção do ar t is t a com a ob ra (que fa c i l it a - ra m d iv ersos n ív eis de ex plo ração d os processos e c r iação a r t í st ica s) , o desen ho f oi f ortemen te m a rcado pela refl exão c r ít ica em to r no da a r te processua l e d as relações qu e se est abelecem re lativamen te à f or m a e à d i sc ipl i n a. O a r ti st a ex pri me -se sem const r a ng i me nt os desde o seu n ív el ma i s i n consc ien te at é à ma is c on t rolada e rac io na l i z ada repre - sen t ação . “ Foi n a époc a mode r n a e em esp ec ia l époc a conte mporâ nea qu e ao desen ho f oi con f er ida a cond ição d e ex per iên c ia c u lt u ra l do Eu. [… ] Até a í a soc ie dade i mp u n ha a s reg ra s, os mode los, os cód ig os. ” 10 9. P OZ Z I , Luc io – U ntit le d ( F r om t he Bl i nd Se r ie s ) [ E m l i n ha ] . 20 07 [C on su lt. 16 de Ju n . 2 0 1 4 ] D i s p on í vel em W W W: ht t p : //w w w . a r t s p ac e.co m /luc io _ po z z i /u nt it led _ fr o m_th e_b lin d _se ri es ; F I NC H , E l i z a be t h . New Y ork / New Dr aw i ng s , 1 94 6 - 2 0 0 7 ( Cat . E x p.) . S egóv ia : Mus eo E s teb a n V ice nte. 10 . V I E I R A , 1 9 95. Op. C it ., p. 4 0. W il li am A na s t a si (es qu er d a) e Lu ci o Pozzi, com ass istentes, durante a realiz ação dos desenhos http:/ /w w w .ar tnet .com/ magazi neus/ reviews/robinson/robinson1 - 8- 07 _det ail . asp?picnum= 5 [con s ult a d o em 5 d e Ma io d e 2 0 1 1] W . Anas ta si Pozzi “Untitled” (Bli nd Series ) 39 A lg u m as d as m a i s i mpo r t a nt es pu bl icações sobre o d esen ho con - tempo râ neo tê m-se cen tr ad o n os prob lema s em erg en tes com a ar te dos a n os 6 0 e 7 0 do séc u lo X X , em con c reto, d o processo na a r te e , por v ia deste, sob re a i mpor t â n c ia e o lu ga r do desen ho n o conte x to e na prob le mát i c a da a r te p rocess ua l. Pa r te i mp o r t a nt e deste en qua - d r a men to po de se r comp reen d id o a pa r t i r do con junto d e ex p osições e ens a ios c r íticos qu e s ão ai nda h oj e u ma refe rên c i a pa ra a i n v e st i- ga ç ão sob re o desen ho con tem porâ neo . S ão e x empl o “ A nt i- I l lusion: P rocedures /M at er ia ls” ( 1 96 9 ) no Wh itney M useu m , “ Ecc en tr ic Abs- t rac t io n ” ( 1 969) de L u c y L ippa rd , na G a ler ia F i sc hbac h , em No va Io rq ue , “ A r t i n P roc ess” ( 1 96 9) de F i n c h Col leg e, e “9 a t L eo Cas te l l i” ( 1 96 8 ) na L eo Ca stel l i W a reh ouse 11 , que nã o só con fig u r a m a noção de p rocesso n a a r te como um a c a teg or ia c r ític a e c u rato r ia l, como si m u l t a nea me nt e ref eren c ia m a i mpor t â nc i a e v i s ibi l i dade da ex e- c ução com o obra e não apenas com o mei o. A n oç ão d e processo em desen ho , no con texto da a r te p rocess ua l , é fe ita a pa r t i r d a ên fa se na a u sên c i a de regr a , em qu e as c onsidera ções de ord enação e co mposi- ç ã o são , qua nd o ex is tem, necessa r ia m en te f ort u i t as . A f or ma é u ltr a- pass ada o u subest i mada p el os mei o s, qua nd o n ão pela a pa rênc ia d a pró pr i a m atér i a . O processo to r na-se u ma a nt i-f or m a , pa r a reto ma r a ex p ressão do e n sa i o sem i na l de R ober t Mor r i s, esc r ito em 1 968 12 , ou an t i - ilu - são 13 , ter mo q u e i nt itu lo u o pro jec to com i ssa r iado po r Ja mes M on te e M a rc i a T u c ke r em tor n o da ên fase dos a c tos d e con ceber e m o st ra r sobr e a qua l idade mat er ia l dos ob jec tos prod u z id os. E st a concepção do p ro cesso como um a ref racção da fo r ma m a n i fest a-se n o desen ho com o u m c a mpo de opos i çõe s : entre o t raço fi xo e a i mper ma n ên c i a do g e sto ; entre o es paço l i m it ad o do supo r te e o es paço i l i m itado do m u nd o rea l ; entre o es t í mulo óp t ico e o est í m u lo háptico ; entre a maté r i a e o pr oce sso . 14 Os mei os to r n a m-se me nos os v eícu los d e u m a a dequ ação a f or m as es t á t icas prév ia s, m as a n tes poss ibi l ida des de a c t uação aber t as ao p róp r io a r ti st a. 15 M a i s recent em en te , Pa m ela M . L ee, C ornel ia H . Bu t le r ou Laura Ho ptm a n c on t r ibuí ra m pa ra a cons tr u ç ã o de u m d isc ur so c r ít ico sobr e o desen ho e sob re o processo, não a pena s const r u íd o na eme r - gê n c ia h i stór ica do p robl em a e da sua refe ren c i ação , m as t a mbém a 11. BU T L E R , 1 9 9 9 , O p. Cit ., p. 2 6. 12 . MOR R I S , Rober t – C onti nuous P rojec t A lt ere d D a i ly: T he Wr iti ngs of R ob e rt M orris . C a m br idge, M a ss ac hus et t s : The M I T P re ss , 1 9 94 . I SBN 02621 3294 X . Cap. A nt i-For m , pp . 4 1 -46. 13. MON T E , Ja mes ; T UC K E R , M a rc ia – A nt i- I l lu sion : P ro cedu r es / M ater ia l s . New Y ork : W h it ney Mus eu m of A mer ic a n A r t, M ay 1 9 - Ju ly 6 1 9 69 , pp. 4 - 1 7 . 14 . A L M E I D A , 20 0 8 , O p. C it . 15. MOR R I S, 1 9 94 , O p. C it . , p p. 71 -93. Richar d Long “ A lin e ma de b y wal k in g” , 1 9 67 40 CONTEXT O E CIRCUNST ÂNCIA DOPROCESSOEM DE SENHO pa r ti r de u ma t a x on om ia do desen ho , ba seada em n omes e cat ego- r i as. Foi ass i m qu e Hop t ma n orga n i zo u a ex pos ição “Dr a w i ng No w : Eig ht P ropos itions” ( 20 02) , fa z en do d epend er dest a o rga n i z ação o en ten d i m en to da s d i f ere nt es tensõe s sob re o qu e poder ia con st itu i r u m desen ho n o c on texto dos mat er ia is e processos uti l i zados. Co n - t u do , a quest ão do p rocesso i mpôs-se a qu i ma is pela n a t u rez a da s obras ap re sen t adas do qu e pelo d i sc u r so em to r no do faz er . Pa ra L a u r a Ho ptm a n , o desen ho tem um a ge nealog i a 16 , tem um a or ig em . Est a a fi r mação é sustentada no re con hec i m en to e i mpor - t â nc ia dos mei o s, maté r i as , téc n ica s e proced i me nt os, e no pa pel t ra n sfo r mado r que estes tiv era m pa ra os a r ti st as e pa ra o s con textos de m uda nça na produ ç ão a r t í st ica. I sto m esmo se perce be qua nd o a a r te conceptua l e o m i n i ma l is mo troux era m o desen ho pa ra a f rente do se u d isc ur so c r ít ico . O desen ho f oi v a lo r i z ad o pela sua relativa ef em er idad e, q uase sempr e asso c i a da c om o g es to d o a r ti st a – com o fa zer ou, pa ra us a r u m ter mo ca r rega do , com o “p roc esso” , 17 i nde - pend en tem ente d e a acção d o a r t i st a ser ma rcada na ter ra ou n u m papel, com t i nt a, c om lá pis ou com f ogo . E st a ên fa se dada à s maté - r i as e aos mat er ia is p ossibi l ito u aos a r t i st a s ex plo r a r e acen tua r a sua p u rez a e o seu ca r ácter ex per i men t a l. M a s est a a fi r mação é ta mbém u m a ten t ativa d e del i m it a ç ão d e u m c a mpo m a i s compl ex o . L a u ra Hop t ma n sug ere essa gen ea log ia com base no p rocesso com o u m a categ or i a ex pa n s iv a : Há a lgum tempo , o c r ític o de art e B enj amin Buc hlo h de sc re veu c o m al guma apreensão o re ssurgimento do dese nho na década de 9 0 c omo uma inc es sante e se mpre ex pansiva exi bição de manual idade ( draught s man shi p ) 18 . Est a demo ns t ração da ma n ua l idad e, mas t a mbém da s maté r i as e dos m eios, i n sc rev e-se co mo cat ego r ia n a a fi r m a ç ão da n oç ão d e processo na a r te e d o est atuto cr ítico e c u r a to r i a l do pr óp r i o desen ho . 16 . A ide ia d e u m a genea log ia e st á pres ente no tex to i nt r odutór io “ Dr aw i ng i s a Nou n” ( in HOP T M A N , L au r a – D raw i ng Now: E ig ht P ropo sit ion s . New Y ork: Mus eu m of Mo der n A r t , 2 0 02 . I S BN 9 780 87070362 1 ) e n a de sc r iç ão d a e st r ut u ra c u r ator ia l da ex p os iç ão ( p. 1 1 ) . É u m a idei a que ap ont a pa ra u m des en ho c om or i gem nos meio s e m ater i a is , que em te r mo s gera i s se re fere a to d as a s qual ida de s e nvol v id a s na s ua pr oduç ão. E st e entend i mento pr iv i le g i a o a r t i s t a e o t r aba l ho m a n ua l , d i rec to e sem me d i aç ão, a su a n atu rez a e x p er i ment a l e o seu c a rác ter de n o n fi n i t o, qua l id ades t a m b ém re con hec ida s n a de sc r iç ão do pro c es so do de sen ho. 17. ht t p : // fi nda r t ic le s.c om /p /a r t ic le s / m i _ m02 6 8 / i s _ 5 _ 41/a i _9 62 23 236 / ? t ag = c ont ent ; co l1 18 . A s i mpl ic açõ e s t ra z id as p a r a o de sen ho por L aur a Hopt ma n , nes te c a so, apl ic a m- se me smo à n at u re z a d a s obr as . A lg u m a s d as o bra s apre se nt ada s n a ex po s iç ão não era m de sen hos . HOP T M A N , L au r a – D raw i ng Now: E ig ht P r opo sit ion s . Ne w Y ork : Mus eu m of Mo der n A r t , 2 0 02 . I S BN 9 780 87070362 1, p. 1 67 . 47 Deste modo , p oder ía mos est ab el ecer u ma relação com a n oç ão l itera l do p rocesso, pela qua l o desen ho d ecorre de u m c on junto de ope rações, “ ac tos o u ev ent os pelo q ua l se tor na ser o u si mpl e s - ment e é ” . E m si mesm a, c om o men c iona Pa mela L ee , est a noç ã o é opost a ao sen t i do h i stó r i co do p rocesso, c r itica m en te mo ldado n o con texto da a r te processua l como d esm at er ia l i z ação o u ref racção do con ceito d e fo r ma. 35 Com eça r pela n oç ão l ite ra l do processo per m ite co mp reen de r de qu e modo o d esen ho aparece no d i sc u r so c r ítico da a r te p rocess ua l , ma s t a m bém com o os f u nda men tos c r íticos da a r te p rocess ua l recod i fic a m u ma qu est ão cen t ra l do desen ho: o processo p ode ser e nt en d i do com o u m con junto de ac tuações sepa radas do desen h o? O u a i n da : a ex p ressão D e s e nh o P roces sua l não é u ma t a ut ol og ia? Podem os men c io na r o desen ho f ora d o conj u nt o de a c t uações qu e h i stór ica e fe n om en ol og ica - ment e o c a r ac t er i z a m? Num sentido la to , o pr oce sso é tud o aq u i lo q u e est á ou é en v ol - v ido n o mod o com o u m a cois a é f eita e qu e comp reen de u m a sér ie de etapas e e st ad os. Comp reend e m u itas vezes u ma deter m i n a da d i sc ipl i n a o u mét odo qu e p er m i te u m a a va l i ação e refl exão e x p er i - me nta l sobre u m conj u nt o sequ enc ia l de a cç ões ou a c on tec i men tos. Estes p odem se r ma is ou m en os pre c isos ao pon to d e se cons t itu i r com o u m todo seq u en c i a l . Se assi m acon tecer , o processo com - pre en de o m odo com o é ou est á con st itu í da u ma deter m i nada rea - l idade , m at er ia l o u não . T ra t a-se , n este sentido , de u m a rea l i dade qu e se apresen t a n a sua con d i ç ã o de p rocesso. 36 No d esen ho , poder -se-ia ex pl ica r como um a es péc ie de p roj ec - ç ã o sob a f or ma de u m a i m ag em , num a a lusão de um a cer t a au to - g ra fia do desen ho e nt en d i da nos t raços g erad o s pelo g es to f ís ico (do a r t i st a) em co nsonâ n c ia com as acções e dec i sões toma da s dura nt e o tempo de fazer o desen ho . Por o utro lad o, essa id eia de pr oj ecção pode ser v a r iáv el na med ida em qu e se tor na (ou não) v i sív el n o fasea m ent o o u sequ ênc ia de u m qua lqu er a c to o u processo, com o : desen ha r, pensa r , desc rev er , etc. E o desen ho , qu er com o ex erc í c i o pré v i o de ap rend i z ag em , qu er com o ex erc íc io ex per i me nta l, t au to - lóg ico o u i nt en c i ona l , per m ite o rde na r os m ec a n ismos de resp ost a a t rav és de a cções g rá fic as qu e fo r ma m a sua v i sua l idad e. 35. L E E in BU T L E R , 1 9 9 9 , O p. C it ., p. 25. 36 . Di ze mos mu it a s vez es “vejo o que quere s d i ze r ” , “ es tou a ver” , quere ndo refer i r que se ente ndeu c l a r a me nte, que se p erc ebeu u m pen s a mento ou u m a de sc r iç ão. Es t a s ex pre ss õe s com bi na m projec ç õe s de n atu rez a s en s or i a l d i st i nt a s . E x i s te, p or as s i m d i z er, u m a es p éc ie de v i su a l i z aç ão do pro c es so ( do pe n sa mento ) . V er é, a ss i m , mui t a s veze s us ado c omo si nón i mo de re con hec i mento ou ent end i mento d a s nos sa s ou outr a s ex p er iênc i a s , que são apr es ent ad as s ob u ma for ma d iver sa d a for m a v i su a l . 48 DA DEFINIÇ ÃO DE PROCES SO E DA SU A INTERPRET AÇ ÃO “ O desen ho e x i ste, n o sen t id o em qu e ex i ste o desen h a r . ” 37 E o fa zer to r n a-se e le p rópr io d esen ho, na l i nguag em de M el Boc h ner , sig n i fica recon he cer u m a aber t u ra à s ocor rên c i as do p rocesso. É u ma m a nei ra de ext ra i r o con hec i m ent o t á c it o qu e foi i n t roduz i do pel o a r ti st a . O desen ho t orn a-se um a pro va, u m v est íg io, pel o qua l se podem reti ra r o u a v a l ia r i mpl icações da s a cçõ es e t ipos de acções, “ de u ma pra x is qu e c on v oc a u m a sér ie d e sab eres e u ma sér ie de com petên c ias” 38 . É t a m bém , por o utro l ad o, r econ hec id o qu e o desen h o deco r re de u m comp le x o processo men t a l qu e ac t iva si m u lt a neamen te u m conj u n to de re c u r sos e ac t uações pró pr ias , qu e se rev ela m n a sua l igação co m o pen sa m en to e , em g era l , com a f u nção d e v isua l i- z a r – “v er pelo d esen ho” . Desen ha r é, assi m , u m lu ga r de i n sc r ição de a cções c om o pla nea r , o rga n i z a r ou p roj ec t a r . M as este processo me nta l d i st i ng u e-se d o processo do d esen ho . O pr oce sso do d esen ho é a pr esença (no desen ho) de um a v isua l idade q u e or ie nta e é or ien - t ada pel o pen sa m en to a te r lu ga r . Frequ ent em en te o p rocesso é o qu e m a ntém o ar t is t a den t ro do desen ho , a desen h a r , e apenas dese- n h a r , at é en con t ra r u m a re prese ntaç ão ( u m ac ont ec i mento, mu i t a s v ez es i nesp erad o ) qu e faça em erg i r a comp le x idade o u s i mpl ic idade dos se us p ensa me nt os. O processo é o qu e per m ite g er i r o g rau d e i ncer tez a, em sit uações de bi l men te es t r utu rada s. 39 I sto ma n i f est a-se f requ ent eme nt e na s ma rc as dos gestos qu e n ã o con fig u r a m nen h u m ref eren te (re) con hec id o. U m ou t ro ol ha r des - cobr i rá que o d esen ho ta mbém se compõe de m u it os o utros gestos, m u itas ou t ra s ma rc as , g estos i n úte i s m u it as vezes, qu e pa rasitam a i m ag em. Es t ão lá, apa recera m lá , toma ra m con t a do d esen ho e a go r a fa zem pa r te de le , sem qu e, n o essenc ia l, o a r t i st a dec id i sse sobre el es. Por qu e fa zem , então , pa r te d o desen ho? De qu e s ão t estem u- n ho? Pa r a qu e ser v i ra m? A res pos t a a est a s qu estões resu m e-se a mostr a r qu e ser v i ra m pa ra m a nte r o a r ti st a dentro da s tensões do desen ho . Com o u ma fo r m a de ga n h a r tempo, a d ia r o fi m do dese- n ho (at é ao l i m ite), m a nte nd o-se a desen ha r , m u ita s v ezes, apena s 37 . BI SM A R C K , M á r io, E nt rev i s t a p or RODR IGU E S, Lu í s F i l ip e S. P ., in RODR IGU E S , Lu í s F i l i pe S . P . – D e sen ho, C r i aç ão e C on s c iênc ia . L is bo a : Bon D – Bo ok s on Dem a nd , 20 1 0. I SBN 9 789898 6 0 1 12 . P . 3 69 . 38 . Nu m a a lus ão àqu i lo que Fede r ic o Zucc a r o re fer i a como dis egno interno e di s eg n o ester no , d i z M á r io B i sm a r c k , “ […] o que ex i s te n a mente n ão é de sen ho ; po de ser i nte nç ão, des íg n io, pl a no, ide ia tout c ourt , m a s n ão é des en ho. A sua ex i st ênc i a pa ss a p el a nec es sid ade do ac to de fa zer, d a su a conc ret i z aç ão. Da í eu con s ider a r que as q ues tõe s do de sen ho se p õe m sem pre n ão t a nto a n ível d as pr é-i nt ençõ es , d a s pret en sõ e s, m a s nu m c a m po mu ito e s pe c í fic o du m a pr a x i s que convoc a u m a sé r ie de s ab ere s e u m a sé r ie de c omp e tênc ia s” . BI SM A RC K in R O D R I G U E S , 2 010 , O p . C it. , p. 369 . 3 9. G OL DS C H M I D T, Ga br ie la – C aptu r i ng I ndet er m i n i s m : Repres ent ation i n the D e sig n P roble m Sp ace in V VA A – Desi gn Stu dies , 4.ª ed ., V ol . 1 8, E l s ev ier, 1 9 9 7. Pp . 44 1 - 44 5 . 49 is to . A lg u n s g estos torn a m-se por v ezes i n sig n i fic a ntes, ser v i nd o apenas pa r a ma rc a r a tempora l idade d o d i sc ur so. 40 Est a aten ç ão d i r ig ida à tempo ra l idad e da acç ão é fu nda men t a l pa ra p erce b er a const r ução do se ntido d os desen h os, com base nos ac tos qu e o rea l i z a m . Muit as vezes, com o ref ere G omb r ic h em Ple a - sures of B oredo m 41 , a lg u ns gestos i n sig n i fic a ntes, de re la xa men to , de gast a r tem po, f ora m ga n h a nd o i n flu ên c i a na a r te . N ão que essa infl uênc ia se po ssa fazer se ntir em todo s os mom ento s e em todos o s est il os : q uando as c onve nç ões ar tís tic as são bas eadas numa disc ipl ina rigorosa e a apl icaç ão de fór mul as r ígidas, a prá - tic a da arte vai exclui r qu aisquer pad rões de relaxam ento lúdico. So mente quando estes padr ões são deli be radamente alar gados é que a pr átic a art íst ica s e tor na per meável ao li v re jogo da c aneta a que chamamo s r abiscar . 42 É f u nda men t a l , a i n da , pa r a comp reend er o dese n h o com o u m a sequ ênc ia de fases e e st ad os qu e con fig u r a m o processo como o l ugar de i n sc r i ç ão das acções e ev entos e m tempo rea l. Ao m esmo tem po, recon he ce-se aq u i l o qu e é t ão cl a ra m en te ex presso pel o desen ho: a sua natu rez a – aqui lo q u e são as sua s pro pr ie dades e qu e no essen - c i a l o defi n em com o “ obj ec to” re lativamen te à sua prá t ic a. Enten demos q u e, assi m , n os po de rem os ap ro x i ma r d as prop r ie - dades d o desen ho a par t i r dos ac tos q ue o re a l i z a m e p or q u em os rea l i z a. Ao m e smo t empo, re con hece-se a q uase i ne v i t abi l idad e de , em a lg u n s c asos, a i nt er pret ação d os processos acaba r por de r ivar de con t í nuas n eg oc iações, entre saberes e competên c i as con v o cados n o desen ho . Não é por isso l i near ou ob je c t iv o . 43 4 0. O pr oblem a do s ges tos i n s ig n i fic a nte s tem s ido t r at ado no c a mp o d a te or i a dos ges tos d e Dav id Mc Nei l l. Mc Nei l l r efere- se a el es c omo beat s , ou bat i mentos , e que cont r ibuem s obre t udo pa r a m a r c a r a tem por a l id ade do d is c u r so, se m nen hu m a f u nç ão s i m b ól ic a . MC N E I L L , Dav id – H a nd a nd M i nd : W hat G est u r e s Rev ea l ab ou t T houg ht . C h ic ago : The Un iver sit y of Ch ic ago P r es s, 1 9 92. I SBN 02 26 56 13 4 8 . 41. G OM BR IC H , E . H – The U se s of I mages – S t ud ies i n the S oc i a l F u nc tion of A r t a nd V i su a l C om mun icat ion . L ond res : Ph a idon , 1 9 99 . I S BN 071 4 83969 1. Cap. 8 – Ple a su r es of Bor edom : Fou r Cent u r ies of D o od les , p. 21 3. 4 2 . “ W h i le it i s e ss ay to show t hat do od le s tend to owe a g reat de a l to t he s t yle a nd convent ion s of t hei r t i me, we shou ld not forget t he r ever se pro c es s t he i n fluence wh ic h t he ga me of dood le s ha s h ad t he a r t of t he ma s ter s . Not t h at t h is i n fluence c a n h ave made it se l f felt at a l l t i me s a nd on a l l s t yle s : where a r t i st ic convention s a re g r ou nded i n st r ic t d i sc ipl i ne a nd t he appl ic at ion of r ig id for mu l a s, t he pr ac t ice of a r t w i l l exc lude a ny play f u l r el a x at ion of s t a nd a r d s. I t i s on ly w hen t hes e st a nd a rd s a re d el i b erate ly loo sene d t h at a r t i s t ic pr ac t ic e b ec omes p er me able to t h at f r ee pl ay of t he pe n we ca l l do od l i ng. T here i s one m a st er ab ove al l who c u lt ivated t h is rel a x at ion , L eon a rdo d a V i nc i , i n whos e oeuv re t he s k i l l of d raw i n g a l so r eac he d a n u nprecedented c l i ma x . ” G OM BR IC H , 1 9 99 , O p. Cit. , p . 215. 4 3. Ac res ce nte-s e ap en as q ue est e não é u m exerc íc io de t r adução, – ent r e des en hos e pa lav r a s – p oi s u lt r apa s sa l a r ga mente o dom í n io de st a i nvest i gaç ão ; na a fi r m ação 50 DA DEFINIÇ ÃO DE PROCES SO E DA SU A INTERPRET AÇ ÃO de Um b er to E c o, “ c om a mu d a nç a d a m atér i a n ão se c or r e só o r i sc o de d i ze r ma i s do que o or ig i n a l. Cor re- se t a mb ém o de d i z er meno s” ( ECO, Um b er to – D i z er Q ua se a Mes ma C oi s a – So bre a T radução . Di fel , 20 05 . I S BN 9 78972 29 0 7293, p. 34 2. ) E st e é u m c a m i n ho ( a r r i s c ado) q ue se fa z por aprox i m açõ e s suce ss iva s e nu nc a defi n it ivas às c ond içõ es pr oc es su a i s do de se n ho e que f a z em pa r te d a s ua v i su a l idad e. 51 1.3. O PROCE S SO E O DESE NH O Sà O O ME SMO? No espaço aber to pela rela ç ão d o desen h o com a a r te processua l , qu e a t rav essa es te capí t u lo , a i nterrogação i mpõ e-se: 44 o desen ho e o p ro - cesso s ã o o mesmo? R econ he cend o na relação en t re mei os e fi n s no processo u m c a m i n ho co m u m , a res post a tor na-se ev ide nte . Q ua l - qu er desen ho de cor re de u m qua l qu er p rocesso, qu e se po de i den t i fi - c a r , sequ enc ia r ou d efi n i r . E m qu e med ida , então , as coi sa s, t a l c om o os desen hos, são o q ue é po ten c ia l men te g era do pel os processos? Não é exac t a men te como respond er às perg u nt as – Com o se fa z ? Co mo f oi f eit o? – m as o qu e do p rocesso pa r t ic ipa da s ua defi n ição . É pre c i so, por t a nto , p erce b er as t ra n sfe rên c i as que oco r rem qua n do , ol ha ndo um desen h o, se co mp reen de as pr opriedades da maté r i a, do gesto (com o proj ecç ão d o cor p o) , do tempo e o utr as qua- l idades ob je c t ivas, qu e deco r rem do fa zer . Qua ndo , c om o nos dese- n hos de R ic ha rd Se r r a, o processo é o seu poder essen c ia l e o seu poder ex pressiv o, Se r ra most ra a p er t i nên c i a dest a pro pos i ç ão . M a is do q ue e x ibi r t a is prop r iedades, o dese n h o é u ma refe rên c i a obj ec- t iv a à s ua con d ição processua l. Não v a mos d et a l ha r, par a a lém d o qu e já f oi en u nc iado , os a s pec- tos m etodo lóg icos qu e têm est ad o na base do d isc u rso c r ít ico sob re o desen ho e a ar te p ro cessua l. Co ncen t r a mos sob ret u do a n oss a at en - ç ã o na questão em te r mos el eme nta res entre o desen ho e o p rocesso. 4 4 . E s t a i nter r og aç ão as su me a l ig ação c om a ques t ão c oloc ada p or Joaqu i m P i nto V iei ra ( V I E I R A , Jo aqu i m – O De sen ho e o P r ojec t o s ão o Mes mo ? O utr os Tex to s de De sen ho . Por to : F AU P P ubl ic aç õ es , 1 9 95. IS BN 9 729 4 83 13 2 ) – u m con hec i mento p or a n a log ia – s obre a for m a de r e flec t i r ac erc a d a s cor res p ondênc ia s ent re o de se n ho c omo projec to e o fa zer do de se n ho, o pro c es so. O c ont r i buto meto dológ ico r ad ica l i z a u m p ouco aqu i lo que nem se mpre é c la r o e de fi n ido. O que é des en ho e o que é proc es so, ou a mb os ? A i nda a s si m apre sent a- se c omo u m a v ia po ss ível pa ra a c la r i fic aç ão de conc eito s ou pa r a o a la rga mento d a ex per iênc i a do des en ho. A ss i m cont i nua na de fi n iç ão do s dom í n ios ou i ns t â nc i a s do des en ho e do pro ce ss o. É por t a nto u ma o pç ão met odoló g ic a . 52 O PROCE SSO E O DE SENHO Sà O O ME SMO? 1.3 .1. OS DOMÍNIOS OU INST ÂNCIAS DO DES ENHO A defi n ição d os do m í n ios o u i ns t â nc ia s do d esen ho i mpl ica m , com a c i rc u n sc r ição d o desen h o, um c on tex to esp ec í fico , sig n i fi c a nd o, po r conseg u i nte , recon h ecer as c a rac ter í st icas que o t or na m d i fere nt e. Joa qu i m V ieir a, no seu e n sa i o O dese nho e o pro jec t o são o mesm o ? col oc a a h ip ótese d e t rês i n st â n c ias ou d om í n ios do d esen ho on de se redefi ne a sua con d ição p rocessua l. Es t as i ns t â nc ia s são desig nadas : concept ua l , p erce pt iva e oper ativa. 45 Estes dom í n ios, conj uga dos com o utros f a c to res de vár ia ord em – i ntu itiv os , rac iona is , f í sicos, m a ter ia i s, tempora i s – , com n ív eis e i nt en - sidades d iv er sa s, são dete r m i n a ntes na c a rac ter i z ação dos d esen hos. Quem d esen h a comp reend e o sig n i fic ad o do qu e to r n a u m desen ho d i f eren te de o utro . Quem d esen h a aper cebe-se d os fac to res qu e est ão i mpl icados q ua nd o desen ha do natu r a l 46 ou quando faz os desen hos de pro jec to, o u u m desen h o da i mag i nação , por e x emp lo . P a ra f r asea n do Luí s Rod r ig ues, “ o desen ho , por consequ ênc ia , m u da , p ois desen ha r depen de da i ntera cç ão (ma i s o u me nos d i rec t a) daq ue les fa c tores” . T o dos a que les fa c tores e con d ições rea l i z a m-se n o desen ho e pera nt e o pró pr io a u to r dos desen h os. E m sí nt ese os desen hos deco r rem em cer to sen t id o de u ma d is p osição com pl exa entre pens a r, o r ga n i z a r e fa zer , n u ma a lusão a o qu e en v ol v e cada u m d os do m í n ios d o desen ho . A con d iç ã o con cept ua l do dese n h o l iga o a r t i st a com o pensa- me nt o, co m a c apa c idad e qu e (se) recon hece de “ pens a r ” . O saber e o con hec i men to i ne ren tes à con d ição con ceptua l ex is tem des l igad os da sua rea l i z ação . É , por t a nto , u ma c on d ição qu e es t á den t ro do do m í n i o dos p rocessos men t a i s e cog n it iv os . Nesta c a r ac ter i z ação est á i mpl íc it o u m conj u nt o de g en era l i z ações qu e se p odem ref er i r a obj ec tos rea is, idea is , meta f ís icos o u a x iol óg icos, bem como co ncei - tos ob ject iv os e f or ma is. A con d iç ã o perceptiva d o desen ho d ecorre d a i n st r u ção e v on- t ad e de est a r – “ desen h a r é ter o p resente” 47 . Ess a conce ntração do tempo n o presen te , esc rev e Joa qu i m V iei ra , é u m a con d ição da não 4 5. V I E I R A , 1 9 95, O p. C it. , p. 39 . 4 6 . Joaqu i m V ie i r a a ss u me aqu i a r el aç ão objec t iva da r epr es ent aç ão c om o objec to de ob ser vaç ão. “Quem de sen ha do n at u r a l , is to é, mot ivado p el a pres enç a d a n atu rez a hum a na , a n i m a l , vege t a l ou m i ner a l , não é mot ivado p elo de sejo de a lter aç ão. ” ( V I E I R A , 1 9 95 , O p. C it ., p. 52 .) 4 7. V I E I R A , 1 9 95 , O p. C it ., p. 49 . 53 ac ç ão 48 – a con tem plação – o l ha r muito te mpo e com a ten ç ão , i nte- ressada men te , cons id era r . A p er cep ção é obj ec t iv o ma io r, é aber tu r a, é ex plo r a ç ão d e u m do m í n io a fi m ao da p er cep ção da s cois as. O dese nho responde à vontade (a e ssa vontade ) de v iver o mundo . Viver c or responde à valorizaç ão da perc epç ão sobre as outras funç õ es psic ológi ca s. V er (v ive r) só s e c on segue verdadei ramente quan do se de i xa de pe nsar , de desejar ou de esperar q ue o mundo nos sat i sfaça. 49 Depos ita mos, por isso, n o desen ho , em cada desen ho , o sec reto desej o qu e c on ten ha em si a c h a v e pa ra as res pos t as que p ro c u ra mos. “ A con d i ç ão o perativ a essen c i a l do desen ho re a l i z a-se pera nte o pró pr io autor . ” 50 É a con d ição da con c ret i z ação, da a cç ão , d as opera- ções , do faz er . É o redu to ma i s ele men t a r do desen ho . É t a mbém u m fac to r d i f eren c iad or das competên c ia s qu e c ada u m ac t iva q ua nd o desen ha. A c on d ição ope rativa co r res pon de , por t a nto , a u m a a c tiv i- dade p r á t ica , v isív el, gera l m en te ma nual , em qu e se v ão d i sp on ibi- l i za n do resu ltados co m os qua is o a r t i st a av a l ia a c onsequ ênc ia e o ef eit o da s suas acções. 51 1 .3.2 . OS DOMÍNIOS OU INST ÂNCIAS DO PROCESS O Qua l qu er processo poderá ser considera do , em ter mos el emen t a res, com o a ex pressão d i rec ta dos mei os, m a tér ias e i n st r u men tos i mpl ica - dos n o f a zer do d esen ho . O pr ocesso p oderá t a m bém ser co n side rad o pela sua ade qua ç ã o aos m om entos d o sen t i r , do pens a r , de p rob lema t i - z a r e de rep resen t a r, na p roc u r a de so l uções qu e p ossa m le v a r o a r t is t a ao d om í n io d o seu pro je c to . É , por t a nt o , do â mbito das operações qu e t ra n sfo r ma m o seu v a lo r, q u e se ha r mo n i za m ou ra d ica l i za m seg u nd o os fac to res qu e ev iden c ia m . Cada maté r i a, c ada i n s tr u men to ou mei o 4 8 . V I E I R A , 1 9 95, Op. C it ., p. 49 . 4 9. V I E I R A , 1 9 95, Op. C it ., p. 47 . 50. V I E I R A , 1 9 95, Op. C it ., p. 4 3. 51. A M A N DI , C láud i a – F u nçõe s e Ta r efa s do De sen ho no P r oc es so C r i at ivo . Por to : Fac u ld ade de Be la s A r tes d a Un iver sid ade do P or to, 2 0 0 9 . Tes e de Doutor a mento. P p. 4 , 5, 6, 2 2 e 23. 54 O PROCE SSO E O DE SENHO Sà O O ME SMO? de dese n ho, i mplic a u m resu lt ad o. O resu ltado é um elem ento fu nda - me nta l p a ra se compr een der a e v i dên c ia e o sentido d o desen ho , o seu con hec i men to , a v isua l i z ação e o ef eito de cada opera ç ã o. O ef eit o de c a da operação tr aça o iti ne rá r io da a cç ão sob re o supor te, desenhando com o qu e u ma rede de con ex õe s possív eis em qu e c ada resu ltado t em em si a poss ibi l ida de do d ev i r e da m u da n ç a. Ess as sol u ções s ão e me rgen tes de u m a ex per iên c ia c i nestésica, a t rav és da qua l se va i d i m i n u i n do o gr a u de i n cer tez a i n ic ia l do p ro - cesso. Isso mesmo desc rev e Mol i n a : Quando o eleme nto gr afi ante dei x a os pr imeiros r ast os v isívei s sobre o suporte inicia- se par a o des enhador uma exper iênc ia c inesté sica de difíc i l de fi nição mas que abre u m ca min ho de analogi as muitas vezes de sintere ssada s, […] que av ançam até um hor izonte inc er to , enquanto o bs er vamos que no pape l s ur gem m arcas que deter mi - nam o vest ígio da nossa ac ç ão . 52 Pa ra que m se i n ic ia no dese n h o, est a ex per iên c i a c i nestésica f u nc io na como sis tema de o r ien t ação e ntre as acções e o seu resu l- t ad o. H á, p o r t a nt o, um a relação e ntre o processo e aq u i lo qu e de r iv a do se u pr i nc ípio , aqu i lo qu e es t á na or ige m do d esen ho : as acções . O processo é , por t a nto , u m es paço em per ma n en te a just a men to , f eit o por su cessivas ap rox i m ações a u m a id eia conti nuamen te ref or - m u lada pelo ar t is t a na sua relação com as téc n ica s e os mei os do de s en ho, i nte r pr et a ndo os d i fer ent e s in put s ge rad os pela sua acção, ada pta n do-se ao p robl em a qu e proc u r a resol v er . 53 A decl a ração de M el Boc h ner , “ Eu en ten do t odos os m eus desen hos co mo fr ag m en tos, es pec u lações sob re a poss ibi l ida de de n u nca desc ob r i r o qu e o desen h o é” 54 , é a a fi r m ação desse la do d o processo qu e se es t á per m a nen teme nte a d efi n i r . Este é u m dese - n ho qu e se i ns t a l a n o ter r itó r io da dúv ida, que é ta mbém a sua f or ç a f u nda men t a l , g u iado pela consc iê nc ia da i mposs ibi l ida de de en con t ra r res pos t as s i mples o u i med iata s pa ra a m a ior ia da s sua s perg u nt as . É por isso qu e , pa r a Me l Boc h n er , o desen ho “t or n ou - se u m v eí c u l o atrav és do qual se p ode obt er respo st as t ã o v i s ív eis qu a nto o p e n s a me nto” 55 . 52 . G ÓM E Z MOL I N A , 2 0 05, O p. Cit . , p. 1 3, 1 7 . 53. V e r t a m b ém RODR IGU ES , 2 010 , O p. C it ., Cap. 8 . 2 . – E nt re o P ro c es so F í s ic o e o P roc e sso M ent a l do D e sen ho, pp. 4 6 -50. 5 4. M el Bo c h ner, Dec l a r aç ão Cat á logo “ U nt it led ” , de M el Bo c h ner [e xb. c at ., F re der ic h Ja n h Ga l le r y] , Mu n ique 1 9 9 0, (n . a ) , in Mel Bo c h ner: “ Dr aw i ng ” [ Un brac ke ted ] , by Rut h F i ne, 20 0 6 . ht t p : //a b out d r aw i ng .or g /e s s ay /v i ew / 6 , [ Co n su lt . 1 4 Nov . 2 0 1 1] 55. M el Bo c h ner: “ Dr aw i ng ” [ Un brac ke ted ] , by Rut h F i ne, 20 0 6 , p. 2 . 55 A i n da que o in íc io d o desen ho possa ter o u t ra or ig em , o p ro - cesso será semp re o qu e , a todo o m omen to, l igar á o a r t i st a, o qu e aco nt ece ou a c on teceu naqu ele d esen ho , com o resu ltado das sua s a cções. O i mpul so qu e o r ienta o processo ocor re, po r isso, com o u m a percepç ão d e u m acon tec i men to, q ue d epend e não só d o mo me nt o prese nt e, mas d a f orm a como o co mpa ra m os com a recor dação do qu e o a nt ecede u, e p a ra on de sus peita mos q u e ele se d i r ig e 56 . É en qua nt o p rocesso que o con teú do d o desen ho se i denti fica com o aq u i lo qu e aco nt ece no t empo rea l do desen h o, co mo e x p e- r iên c i a c i nestésica : a sua rea l i z ação . ht t p : // a b out d r aw i ng .or g /e s s ay /v ie w / 6 , [ Co n su lt . 1 4 Nov . 20 1 1 ] 56 . A L M E I DA , Pau lo Lu ís – Desen h o P rot oc ola r : I n s c revendo a Acção, a P a r ti r de Gu nter B r u s . P S I A X , 2 , s ér ie I I , P or to, 2 0 13. 56 OS MODELOS DO DE SENHO A id eia de mod el o do dese n h o ref ere-se , neste con tex to , en qua nt o id eia asso c i ada a o desen ho , que re mete o traba l ho d o desen ho ; u m pret ex to pa ra qu e desen v ol v a o desen ho ; qu e deter m i n a d i recções o u relações pr esent es no p ro cesso. É ta mbém u m a ma n ei ra de asse- g u ra r qu e deter m i nadas dec isões p ossa m ser repet idas pelo a r t i st a , com d i f eren tes g raus de i n tensidade re lativa me nt e aos co nte ú dos (ao c a mpo) c om q ue traba l ha. É , p or t a nto , u ma desig n a ç ão , que co n fi- g u ra u m p roced i men to re lac iona l , model i zador , entre processo e con - teú do , entre con ceit os e fo r ma s, no d esen ho . T o dav ia , en ten demos q ue a i deia de mode lo (de d esen ho) dev a ser en ten d ida t a mb ém com o u m p retexto, ma i s do qu e u m a subord i- nação . O mod el o ex i ste, n es te sen t id o, par a qu e o processo do dese- n ho se desen v olv a e se p ossa m ext r a i r a s rela çõe s qu e con fig u ra rem d i fer ent e s mo d elo s de ac t uaç ão. 1.4. 1. OS MODELO S DE C ONHE CIMEN TO E DEF INIÇÃO DO DES ENHO O desen ho é se mp re represen t at iv o de a lg u m a cois a. A sua defi n i- ç ã o est á muit as vezes l iga da ao qu e é (re) produz ido . No essen c i a l , o desen ho é um a f u nção , id eac io na l ou com u n ica t iv a, obje c tiva o u subj ec t iv a , m as sempre na p roc u r a de u m sen t id o qu e res p on d a às ma is d iv er sa s i nquiet ações da men te : O que faz er? Co mo fa zer? Por - qu ê f a zer? Rep resen tar s ig n i fica aqu i qu e o desen ho é a ex pressão d e u m a repr esentação m en t a l de obj ec tos e id eia s qu e ex i s tem, t a m- bém com o esqu emas , na men te ou na i m ag i n ação d o a r t i s t a. Co mo v erbo, o desen h o é en ten d i me nt o, co mpre ens ão e e x pl ic a ç ão: Este e ntendime nto forma um c on c eito [ c o nc et to ] , uma razão , gerada no espírito pel o ob jec to , c u ja expressão manual é chamada 1.4 . OS MODE L OS DO DE SEN HO 63 con hec i men to . Est a sobreposiç ã o do v er , “ a pura v i sibi l idad e” rela- t iv a me nte a o utra s ocor rên c ias do fa zer - desen ho , prod uz u ma cer ta n eu t ra l i z ação das questões i mpl icadas n a sua acção . É a c on c epç ão da acção com base na represen t ação v i sua l , sus ten t ada pel o f u nc io- n a ment o do ol ho. I mpor t a v a v er . E st a d is p osição sustentada pelo fu nc iona men to do ol h o não n os d is põe p a ra nada de i ndete r m i n ad o, d e i ndefi n id o, pa ra a lém d o ol ha r . Não n os d i z m a i s sobre as i n fi n it as p ossibi l idad es de ponto s de v i sta . N ã o comp reen de o cor po na ex p er iên c ia percept iv a do desen ho , c om o se a v i são est iv esse “ sus pen sa do mo v i men to ” . “Só se v ê aq u i lo pa r a qu e se ol h a ” , 76 e, p or pr i nc íp io, c o nt i nua Me rleau-Pont y , o qu e se vê est á a o nosso a lca nce ; est á , pelo m en os, ao a lca nce do n osso ol ha r, e d i ficado sob re o pla n o do “ eu posso” . 77 Bast a que e u v ej a qua l - qu er coi sa pa r a poder a pro x i m a r -me d ela. 78 I me rso no v i sív el, “ aq u ele qu e vê nã o se ap rop r ia d aqui lo q u e v ê : apenas se abei ra com o o l h a r ” . 79 Que s er ia da vi são se m qua lquer mov ime nto dos olhos, e com o não c onfundiria o seu mo v imento a s c oisa s se ele pr óprio fos se re fl exo ou c ego , se não t ivess e a sua se ns i bi lidade , a sua c lariv idênc ia, se a v isão não s e antec ipas se nele ? 80 O ol h o to r n a-se , t a mbém , s i nó n i mo de um a cer t a “h u m a n i z a- ç ã o” d o desen ho . Um a pr esença do co r po den t ro do esp a ço do dese- n ho . L iga o desen ho co m o ass u nt o da sua represen t ação . H abit a - o . O ol ha r de qu em dese n ha é por isso u m ol h a r i mp l icado , desde log o, com o qu e v ê, co m aq u i lo qu e est á d ia n te dos se us ol hos e co m as m ão s op era m o ol ho ju lga” . ( M ig uel  ngelo, c it ado in O Des ej o d o Des enho . A l mad a : C as a d a Cer c a , Cent r o de A r t e Contem por â ne a , 1 9 95 .) 76 . M E R L E AU-PON T Y , M aur ice – O O l ho e o E spí r ito , 6.ª ed . L is bo a : V eg a , 20 0 6. I S BN 9 7897269 93 520. P . 1 9 . 7 7. M E R L E A U-P ON T Y , 20 06 , O p. C it ., p. 2 0. 78 . E s t a aprox i m aç ão con s ub s t a nc ia u ma e x p er iênc i a p erc ept i va e de des en ho com plex a de u m ac to de co n hec i mento ou de ex plor aç ão dos vá r ios n ívei s /es c a l a s de ob ser vação. “ U m a á r vo re vê-s e à d is t a nc i a de 1 qu i lómet r o c omo u m a for m a ú n ic a e g lob a l . Vê-s e a 1 0 0 me t ro s como u ma c oi s a c on st it u íd a p or t rês for ma s . Vê-se a 1 0 met ros c omo co n st i t u íd a p or 3 g r up o s de for m a s que contê m dez en a s de out ros g r upo s. À d i s t â nc ia d e 1 met ro, e e m c ada g r up o, se vêem a s for m a s c a r ac ter í s t ic a s de c ada u m d as de z en as d e for m as q ue con s t it uem e que se p erc e pc ion a m i sol ad a me nte. A 1 0 c ent í met ro s de d i st â nc i a , d a á r vore como i mage m , n ada r es t a . H á e st r ia s va r i ad a s, p equeno s pont os e t r ace jados , m a nc h a s l íq u id a s e sec a s . A de sorde m em mu it a s del a s e, em a lg u m a s, u ma or dem d iver sa pr ópr i a , que n ão reme te apa renteme nte pa ra a for m a d a á r vore. M a s a á r vo re, a i m agem verdade i r a d a á r vore, aquela que t r a n s p or t a mos em t er mo s c i nes té s ico s, t ác tei s e mu lt i- se n sor ia is é con s t it u ída p or to dos e s tes e lemento s.” V I E I R A , 1 9 95, Op. C it ., p. 1 1 0. 7 9. M E R L E AU-P ON T Y, 20 0 6 , O p. C it. , pp. 1 9 , 2 0. 8 0. M E R L E AU-P O N T Y, 20 06 , O p. C it ., p. 2 0. 64 A JANELA E A ARENA se nt ido d a ( s u a) r e pre s ent aç ão. 81 “M a is do qu e a s luzes , as sombras, os reflex os, a i mag em esp ec u la r esboç a na s cois as o t raba l ho da v i s ã o .” 82 Esse desen ho é port a do r de u m deter m i nado g ra u de eq u iv a lên - c i a en t re o qu e aprese nta e o qu e ser ia s uposto ap resenta r -n os . Nessa re l aç ão re pr e s ent aç ão /r e pr es e nt ado, id ent i fic a mos u m t i p o d e c or - resp on dên c ia qu e ref ere a m e sma rea l idade , a i nda qu e apa rent e. De aco rd o (a i nda) com u ma cer t a i deia const r u ída sobre o par a d igm a m i mético, o d esen ho represe nta a rea l idad e com o aparênc ia v is ív el e est áv el. Est a n ão d ei x a de se r u m a quase represen t ação pa rado xa l de u ma rea l idad e qu e ad m it i mos i n st á ve l , pera nte a possibi l idad e de se to r na r no ut ra cois a a qua lq ue r mo men to . Com o ref ere R ola nd Ba r t hes, bas t a r ia m u da r o s n ív eis de percepç ão e “N ico la s de S t ä el est á em 3 c m 2 de C é z a n ne ” 83 . Est a rea l idade q u e to ma mos co mo pon to de pa r t ida é u ma rea l i- dade q u e se nos a fig u ra como “ lu ga r i ncer to” d ia n te da prec is ão e da c la re za dess a v i sua l idade , que nã o pode ser d i ssoc iada da m ão , que a to r n a v i sív el, no tr aço , e qu e mu d a t a m bém a cada acção rea l i zada. Nesta inter ferênc ia e ntre o objecto obs er vado ( ou imaginado) e a ação real izada, joga-s e a relação ent re duas v isuali dades, a ótic a e a háptica, e a ex pe riê nc ia sen sitiva singu lar q ue cada uma c onvoc a no ato do dese nho . Ent re as duas, ex iste ape nas uma diferenç a de gra u, num mov imento dialétic o ent re a pro ximidade e a distânc ia, ent re uma cau sa formal e uma cau sa mater ial. Com o refere Laur a M ar k s (20 0 0 : 2 1 7 ) , é di f íc i l perc eber a pele da pessoa amada c om uma v i são ótic a ; é impos síve l guia r um car ro apena s c om uma v isão háptic a. 84 81. Jos é Gi l ( G I L , Jo sé – A I m agem Nua e a s Pe quen a s Per cepçõ e s , 19 9 6 , c i t ado in M A RQU ES , Jor ge – A s I m agen s do De sen ho. Per cepç ão e spe c ia l e repr e sent ação , P or to : Fac u ldade d e Bel a s A r te s d a Un ivers id ade do Por to, 20 0 6. T ra ba l ho de Sí ntes e, i nte g r ado na pr ova de apti dão p ed agóg ic a e c apac id ade c ie nt í fi c a. Cap. 1, p. 29) ide nt i fica e m Merleau-Pont y u ma d i fic u ld ade r el at iva mente a d i s t i n g u i r o ol h a r d a v i são : “Con f u nde- os i nce ss a nte mente, ou ent ão pu x a o pr i mei r o pa ra o lado d a s eg u nda , ou de sc reve a i nda o ol ha r como u m si mple s as p ec to d a v is ão. ” ( p. 47) A ques t ão aqu i é p er t i nent e na me d id a em q ue se pro c u r a ent ender a d i ferenç a ( s e ex i s te ) , no c a mpo fenomenoló g ic o. Es t á no ent a nto cont ida ne st a refle xão u ma ide ia que nos pa rec e út i l e c l a r a , pa r a quem de se n h a : “O ol h a r i mpl ic a u m a at it ude. ” ( p. 4 8 ) Não e s t a mo s ape na s nu m a p os iç ão de ver, ma s de pa r t ic ip a r no es p ec t ác u lo tot a l d a i m agem . “O ol ha r n ão s e l i m i t a a ver, i nter r og a e es p er a re s po st as , e sc r ut a , p enet r a e des p o sa a s c oi s a s e os s eus mov i mento s . ” A r efle xão d a v i são d a fenomenolog ia s up õe a re flex iv id ade do ol h a r. V er é s er v is to p orque ol h a r é s er ol hado. 82 . M E R L E AU-P O N T Y, 20 06 , O p. C it ., p. 3 0. 83. BA RT H E S, Rol a nd – O Óbv io e o O btu so . L i sbo a : E d içõ es 70, 20 0 9 . I S BN 97 2 4 4 05 1 92 . P . 2 25 . 8 4 . A L M E I D A , P au lo Lu í s , G e st os L íqu idos : D ua s P rop osiçõ es s obre I m ag i na ç ão Ma te rial in QU A DROS F E R R E I R A , A ntón io ; COR BE L L A , Domen ic (e d. ) – A I G UA / ÁG UA . Por to / Ba rcelon a : Fac u ld ade de B ela s A r tes d a U n iver sid ade do P or to / I 2 A DS e Fac u lt ad de Bel la s A r tes de l a Un iver si dad de B a rc elon a , 2 0 13 (no prelo ) . 65 Qua n do Gia com et t i d i z i a qu e “ en t re os do is ol hos há u m a d is t â n- c ia de u m des er to” , 85 es t a v a de a lg u m mod o a cons id era r o desen - v olv i m ent o do d esen ho a té u n idad es de percepç ão cada v ez m a i s pequ en as e por men or i zada s, ma is pro f u ndas , a té on de “ o es paço c i r c u l a ”. 86 A abso rç ão das l i n ha s e dos traços no d esen ho de um a c abeça , por ex empl o, é de ta l or dem qu e a defi n ição das l i n ha s em to r no d os ol hos isola cada u m dos ol h os e “ deser t i fi c a ” a d ist â n c ia qu e o s sepa ra , at é qu e u m a n o v a est r u tu r a su r j a e a oc upe . É t a m bém d i a nte d est a apa rent e pre c is ã o qu e Mo l i na recon hece u m cer to n ív el de “ desf oc ag em” p resen te n o desen h o, “ dem onst r a do pela c apa c idade da v i s ã o em se ada pta r e comp reend er um c er to n ív el de e ntropia, que o br iga a u ma i n ter pretaç ã o i n s t a ntâ n ea e per - m a nent ement e n a ( r e) -i nter pr et aç ão do que re c on he c emo s c o mo evid en te das co isas” . 87 O desen ho passa a ser con t rola do po r u m a es péc ie de desagregação en t re a v i são e a mão , que re mete par a os ef eit os ge rad os pela s osc i lações do o l h a r , do con t rolo , d a v ontade e do e n v olv i me nt o do co r po no fazer do desen h o. C om o se, fi n a l- me nt e, n os v í ssem os l iv res do q u e é abra ng ido pel o nosso ol ha r e p ud éssem os pa ssa r a s mãos sob re as c oisa s, ten do consc iên c ia do n osso cor po na fo l ha de papel. Chega dos a es te sis tema de con v ersões – l iv res do qu e é abra n- g ido pel o o l ha r – , o desen ho to r na-se j á cená r io e tea t ro de ope- rações na acepç ão d e Jua n Mo l i na , on de “ a est ratégi a do ar t is t a é semp re u ma acção qu e ordena, qu e escol he o l uga r com o e on de i r á oc or rer o c on fl ito” 88 , n u ma i mage m c la r i ficad ora da acção d o a r t ist a c onte mp or â ne o : T odo o art is ta está diante de um “te atro de ope raçõe s ” , mas para poder iniciar a sua ac ção , o des enhador tem a nec es sidade prev ia - mente de de se nha r- se ele mesmo , c omo protagonista deste e ve nto simbó lico par a poder de fi nir , mais tarde , a s elecç ão dos m ate - riais e m f unção da sua ac ç ão . Uma “ repres entaç ão ” que a dqu ire tal fo rça, que é em si me sma “ e m parte ” uma dec lar ação. U ma 85. C it ado em G I L , Jo sé – A I m agem Nua e a s Pe que na s P ercep çõe s , 2 .ª ed. L i s bo a : Reló g io d ’ Á g u a , 20 05. IS BN 9 78972 70829 95. P . 53. 8 6. Refer e Jea n G enet , s obre o s de sen hos de G i acome t t i : “ Nos de sen hos a q ue me re fi r o, como d i z er?… o es paç o t a mb ém c i rc u l a. Ta mb ém a lu z . S em a m í n i m a op os iç ão de va lore s c onv enc io na l – som bra /lu z – a lu z i r rad ia e u n s pouco s t r aço s esc u lpem-na. ” ( G E N E T, Jea n – O Es túd io d e A lb er to G i acomet t i . L i sb oa : A ss í r io & A lv i m , 1 98 8. I SBN 9 72370052 2 . P. 4 7. ) 87 . G ÓM E Z MOL I N A , Jua n Jos é (c o ord .) – E l M a nua l de D ibujo – Es tr atég ia s de Su E n señ a n z a en el Sig lo X X . M ad r id : Ed ic i ones Cáte d r a , 2 0 0 1. I S BN 978 8 4 37 6 1 92 4 8 . P. 4 6 . 8 8. G ÓM E Z MOL I N A , Jua n José ( c oor d. ) – E st raté g i a s Del D ibujo en E l A r t e Con tem porán eo . M ad r id : Ed ic ione s Cáte d r a , 1 9 9 9 . I S BN 8 437 6 1 694 8 . P . 4 6. 66 A JANELA E A ARENA c onfi ssão real izada diante de si mes mo , na solidão do seu silênc io , mas també m uma “ c on fi s são púb lica ” a partir da qu al justifi c a a s u a a c ç ã o. 89 Pa ra cada dese nho , o proce ss o nunca variou, os dese nhos são todos baseados na mes ma est r utura técnica . Morr is, planeou uma ta refa, est imando o tempo nec e ssár io pa ra a re al izar , fechou os olhos, c obriu as mãos c om grafi te ou c om grafite e m pó mist ur ada c om óleo ( ou tinta, c omo no c as o das duas últimas s ér ies ) e c ome ç ou a dese - nha r , esf rega ndo as m ãos, tocando a s uperf íc ie do pape l, a fi m de c ompleta r a taref a, c omo pre v isto. U ma vez t er minado , c alculou a dif ere nça e ntre o te mpo est imado par a o de se nho e o tempo rea l que le vou a co mpl etar o dese nho . Anotava em s egu ida es sa inf or maç ão no dese nho , juntamente c om a des c r ição da taref a plane ada. 90 O i mpul so deste desen ho est á f u nda men t a l me nt e na s ma rc as qu e nos lev a m a p er ma n ecer d i a nte d e u m abis mo e ntre a percepç ão ( v i sua l) e a i n sc r ição (gr á fic a). Es t a não é ma i s do qu e u ma fo r ma de prese nça (do desen h o) , que se re v ela en qua n to desen ha m os. Apesar da aparente ar bit ra riedade , o proc es so req uer um ol har atento na des or dem da ac ção , que se rec onhec e na s “figur as ” que de fin em a razão da sua proc ur a . Este m ome nto caót ic o da ac ção de dese nhar é o tra bal ho que re quer mais sabedo r ia e q ue exige uma maior tomada de dec isõe s. É a est ran h eza do s resul tados que gera, que o f a zem avançar , os que deter minam o seu valo r inovador . 91 É est a a bata lha dec isiva de qu e fa la Mo l i na , e qu e no l i m ite é desen c adea d a pelo p ro cesso (do desen ho). Só o processo per m ite resol v er os con fl itos e as relações qu e ex istem pa r a a lém d o “p ro- cess a men to l i near de ad ições : enca i x e , est r u tu r ação , de l i neamen to , pre c i s ão d o det a l he , preen c h i me nt o do v ol u m e, a val iação do cl a ro - e s c u r o ”, 92 na proc u ra do sen t id o do dese n h o . Um desen h o qu e se fica pelos l i m ites do q u e “já se co n hece” o u pelos l i m ites qu e l h e f ora m determ i nad os pelos se us t raços i n ic ia is , é “ u m desen ho m or to ” . 93 É u m desen ho sem co nti n u idade , sem con - 89 . G ÓM E Z M OL I NA , 1 9 9 9 , O p. C it ., p. 2 0. 9 0. T S OU T I -SC H I L L I NG E R , Nen a – B et ween W orld a nd I mage : the B i nd T i me Dr awi ngs of Rob er t Mor r i s . A prel i m i n a r y vers ion of t h is t ex t app ea red i n t he ex h ib it ion c at a lo g ue R ob e rt M or r i s : B lind T im e D raw i ng s. New Y ork , 20 03 . h t t p : / / r o b e r t- mor r i s .en s-l yon. f r/ I MG /p d f /s it e _ mor r i s _ Bet ween Word.p d f ,p.3 , [C on su lt. 1 1 Nov . 20 1 1 ] 9 1 . G ÓM E Z MOL I N A , 1 99 9 , O p. Cit. , p. 4 6 . 92 . G ÓM E Z MOL I N A , 1 9 99 , O p. Cit. , p. 4 6. 93. G ÓM E Z MOL I N A , 1 99 9 , O p. C it. , p. 4 6. Rob e r t M o rr i s “Blind Time Drawings ” , 1973- 200 0 Rob e r t M o rr i s “B l ind T im e I ” , 1 97 3 C ar vã o em p ó s/ p a pe l 8 9,2x1 17 , 2cm 67 fl ito . É u m desen ho qu e não conseg u iu d eterm i na r a s suas f ronte i r as e, po r conseg u i nte , os mo v i men tos e as acções próp r i as do desen h o podem-se t orn a r i mp rodu t iv os. N ão a vança m , não tr a n sf or ma m. Um desen h o qu e v ê a s con ve nções com o rest r ições , não as v ê c om o desa fios, c om o “l i m ites” qu e p ossibi l ita m m uda nça s rea i s. 68 ANDAR SOBRE O MAP A. O CHÃO E O HORIz ONTE. 1.6 . AND A R SOBRE O M AP A . O CHà O E O HORIZ ON T E . Est a ex p ressão, “ A n da r sob re o mapa. O c h ã o e o ho r i zont e” , pre - ten de dest aca r o en v ol v i men to e pos ic io na men to do ar ti st a com o desen ho . O qu e prete n dem os subl i n ha r é a c on exão en tre o dom í- n io v isua l e as poss ibi l ida des i nte r post as pelos p rocessos do desen ho rela t iv a men te à ex p er iên c ia do cor po. Na sua d i m ens ão ma i s el em en t a r, o en vo lv i men to d o a r t ist a c om o desen ho está presen te na cond ição o perativ a do dese n h o, na rela - ç ã o en t re cor po e m ão . A t a refa ma nual é c on d ição essen c ia l pa ra con t rolar todo o processo do d esen ho : “ A mão não é só u m fac to r de d i f eren c iação d o suj eit o” , aqu i lo qu e c ada u m é c apa z de fa zer , a sua habi l idad e o u per íc i a, m as é atr a v és dela qu e pass a m s i n a i s d iv ersos e se cons trói u m a relação se n so r i a l m a i s comp leta . 94 É p or t a nt o f u n - da m enta l (re) considera r e (re) a v a l ia r “ o qu e é d i st i n t iv o no sen t ido d o t a c t o ”, 95 na percepç ão háp t ica, relativa me nt e ao q u e é prob lema- t i z ad o no do m í n io o u pelo sen t ido da v is ã o. Sob re i sto, K ev i n Robi ns ref ere qu e : A v isão tec nologicame nte mediada desenvolveu-se c om o o modo dec isivamente moderno de gar antir distância relativ amente ao que se e nc ontra à nos sa vol ta, de nos ret ir ar mos e is ola r mo s re lativa - mente à a ssu stador a pro ximidade ime diata do m undo do contac to. O que a gora está em dis c us são são as c on sequênc ias ( usualmente designadas c omo “ pós -moder nas ” ) deste proce sso histór ic o de r ac io - nal izaç ão no c ampo da v i são . 96 No m es mo se ntido , em qu e cons id era qu e “ a v is ã o est á a fic a r separa da da exper i ên c ia ” , 97 pa rece qu e podemos obse r v a r t u do o q ue 94 . V I E I R A , 1 9 95, Op. C it ., p. 4 3. 95. ROBI NS , Kev i n , The Touc h of t he Un k now n in ROBI NS , Kev i n – I nto t he I mage : C u lt u r e a nd Pol itic s i n t he F ield of V i sion . Londres : Ro utledg e, 1 996. Cap. 1 – The Touc h of t he Un k now n , p. 4 7 . E st e a r t igo foi publ ic ado em p or t ug uês com o t ítu lo O T oque do D esc onhecido em GI L , José ; C RU Z , M a r ia Tere s a (or g. ) – Rev i st a C omu n icaç ão e L i ng uagen s . V olu me 3 – I m agem e V id a. L i sb oa : C ent ro de Es t udo s de Comu n ic aç ão e L i n g uagen s , U N L , 20 03 . P . 4 7. 96. ROBI NS , 1 9 96 , O p. C it ., p. 29 . 9 7. ROBI NS , 1 9 96 , O p. C it ., p. 29 . 69 est á a acon tecer o u acon teceu no d esen ho , sem n u nca ser mos toc ados pelo a c on tec i men to, c r i a nd o ass i m u ma v isão sepa rada d a ex per iên - c i a (do fa zer ) . Ou ou tr a cois a a i n da , como se , u ma v ez ter m i nad o o desen ho , os efei tos da acção se n eu t r a l i z assem ; c om o se n u nca l h e t iv éssemos tocad o. C om o se t ud o aq u i lo q u e o desen ho é f osse es tr a- n ho à mão . Com o se t iv é ssem os c hega do a u m mo me nt o qu e cor res- pon de a o fi m de alg u ma coi sa ou a o c om eç o de o utr a. Di st i ngu i nd o e sepa ra nd o o t r aba l h o da m ão d o t r aba l h o da v is ão ; o gesto d o mo v i men to d o cor po ; o processo e a sua represen t ação . Uma e sp éc ie de fi xaç ã o de u m sen t id o do dese n h o, estr a n h o à sua gé nese . Cons i- derar que e le pode a pena s ser en tend id o de u ma m a neir a. Defi n i r o desen h o com base “na bi d i mensiona l i dade , na s m on o- c rom i as, no uso de mat er ia is e supor tes concretos, n a l i near ida de , n o c a rác ter ma nual , n as f u nções m i mét icas , pro jec t iv as ou i lust ra- t iv a s é semp re u m a a v a l iação i nco mpl e t a ” . 98 É um a a v a l iação qu e não i nte r roga o qu e é pote nc ia l men te ge rado pel o processo, a qu i lo qu e, com o ref ere M ig ue l Copón, se con st itu i c om o ex per iên c ia , u m a mist ur a ent re ac ção e de pósito . Dos v est íg ios do dese n ho, d o s g estos, d as m a rc as – “ o De sen ho já co n v er tido em d esen ho” 99 – est ab el ece-se o se u poder absol uto . O processo , ag o ra con v er t id o em desen h o, aspi r a à t ra n s pa rênc ia da sua subst â n c ia, ex p ressão e per fo r mativ ida de de f or ma a p er m iti r a ma io r leg ibi l idad e poss ív el do se u esqu ema fo r mativ o. Em c er to sen t i do , t ransfere- s e pa ra os desen hos não a pena s o qu e tem qu e v er com os pró pr ios m eios, téc n icas e m at ér ia s do desen ho , c om o t a mbém o qu e a pa r t i r do p róp r io processo v a i d a r fi sica m en te a m om en tos d i f erent es do dese n ho . T ra n sfe re-se pa ra o desen ho i t i nerár ios d o cor p o, co mo f or ma de u m a presen ç a fe no - me no lóg ica ac t ua nte e qu e n ão se li m it e a v er . Nem o olh a r se subtra i ao h or i z on te, n em o cor po fica pa r ad o . A reg ra é, em cer to sen t id o, o utr a – re bat e o pla no d o “ qua d ro” sob re o c hão e v ê nel e to do o mu ndo projec t ado. 98. NO G U É , À lex ; DESC A RGA , Jo a n – L í m its del Di bu i x : T ret z e E xerc ic i s de Dibu i x , Même = L í m ite s del Dibujo : T re ce E jerc ic ios de Di bujo, Même. Ba r cel ona : P u bl ic ac ion s i Ed ic io n s Un ivers it at de B a rc elon a , 20 05. P . 13 . 9 9 . P I N H E I RO, Jorge – A per m a nênci a do De sen ho nos D es en hos do De sen ho in O s D es en ho s do De sen ho. Na s Novas Pe rsp ec t iva s sobr e E n si no A r tí st ico . Por t o : Ac t a s do sem i ná r io, Fac u ld ade de P s icolo g i a e de C iênc ia s d a E ducaç ão d a Un ivers id ade do Por to, 20 0 1. I SBN 9 72 8 56 0 1 6 8 . P . 1 15 . 70 II P AR TE 72 79 mod o ma is d i rec to de saber sobre o p rópr io d esen ho, a sua d isc ipl i n a e o t ipo da s acções qu e n ele estão en vo lv idas. A ssi m , qu em desen h a não se l i m it a a reflec t i r sobre o qu e se abre pel o ol ha r, mas o qu e se dá a ve r d a ex p er iên c ia de fa zer . Es t a é t a m bém u m a d i f ere nça rel ev a nte e m ter mos m etodol ó g icos pa ra a i n v e st iga ç ã o. O q u e se dá a ve r abre ao o l ha r o c a m i n ho da sua próp r ia ac t iv ida de e m os- t ra os v est íg ios do dese n h o, e n qua nt o o desen ho se faz , en qua nto o a r t i st a est á d ia nte de t oda s as tensõ es en t re a qu i lo qu e v ê e aqui lo qu e o ol h a, ao mo men to qu e con st rói a i m ag em , dei x a nd o flui r o seu co r po n u m f u nd o i l i m it ad o. É o tem po em qu e todo o co r po flui e em qu e toda u ma c ad eia de sen t id os e de sen t i r quase qu e a n u la a c ap ac id ade de no s “ver mos a de sen h a r ” . 2. 1. 2. O QUE NOS OLHA Est a i m ag em (dup l icada) de a lg u m a cois a , qu e s i mult a nea m ent e v emos e n os ol ha , ser ve co mo m et á f ora pa r a a reconst r ução de u ma ex per iên c i a qu e comp reend e u m conj u nt o de f rag men tos u n i fic ad o s n o desen ho . E st a remos por v entu r a a ol ha r o desen ho com o se de u m es pel ho se trata sse – ao m om ento e m qu e o obser v a mos, dev ol v e- nos os t raços, as m a rc as, o s g estos, a s pressões e i nte n sidad es como se est iv esse dem orada men te refle c tido n u m es pel h o e n os dev olv esse essa s ma rcas pa ra qu e n os record em os del e pa ra sempre . Daqu ela super f íc ie (desen ho) pa rece em erg i r toda a en cenação qu e nos per - m ite (re) con st r u i r a qu i lo qu e l he dá or ig em . O lad o subm erg ido d o ic eb e rg . A super f íc ie (i n v i sív el) qu e per m ite q u e aq ue la ma ssa de gel o flu t ue e q ue ab re o ol ha r pa ra a l ém da i mag em m i mética . P rob le mat i z a nd o a pa r t i r dos ex emp los de Ra usc henberg e F r ied- ma n, most ra mos q ue nã o há relação si métr ica entre o pla no da i m a- ge m e o pla no p roc essua l . A s c onsequ ênc ia s podem ser i g ua i s em processos de const r ução rad ica l me nt e d is t i ntos ; de qu e fo r m a o qu e perce bemos n o desen h o é semp re u m ex erc íc io de m ed iação d i rec t a do co r po com o m u ndo a t rav és do traço (mesmo q ua nd o esse t raço é a ev idên c ia de u m c a ncela men to – como n o c aso de R a usc henberg – o u de u m a fa st a m en to – com o no ca so de Fr ied ma n. Desc rev en do o p rocesso de Er as ed D e Kooning D rawing, nu m a e n t r e - v i st a com o cu r ad or da Me n i l Co l l ec t ion, W a lte r Hop ps, e o Di rec tor do SFMoM A , Da v id R oss, Robe r t R ausc h enberg d i z o seg u i nt e : 80 mE Canismos intErprEt a tivos DosproCE ssos Ele [ D e Ko on i ng ] de u-me al go que tinha car vão , óleo , gr afi te, c rayon. P as s ei um mês a apaga r uma c oisa a ssim, des te tamanho . E no outro lado está um outro ( dese nho) que resul tou daqu ele q ue apaguei. 14 R a u sc he nberg que r i a (apenas) f a zer u m desen ho a pagando um desen ho . T erá R a u sc he nberg p en etr ad o nas profu ndezas ( esse lado subm erg id o) de qu e é fei to o dese n ho? Saberá m a i s sobre a que le desen ho d epois de o ter a paga do? E n ós, o qu e sab em os sobre a que le desen ho? Em qu e sentid o poderem os, t a mbém nós, a va l i a r a ex pe- r iên c i a de Ra usc h enberg (de apa ga r o dese n h o) como um meca n i smo i nte r pretativ o do p roc esso desen cadea do a pa r t i r daqu ela acç ã o? R a u sc he nberg , presu me -se, se mpre estev e i nte ressado em co n- c lui r o seu d esen ho , con fo r me o ti n ha pla n ea do . Pod i a a té n u nca fa zê-l o . Real i zou a lg u m as ex p er iên c ia s a pa r t i r dos se us desen hos, apa ga nd o- os , ma s não e ra m a m esm a coi sa , não con t i n ha m o es t a- t u to qu e ele p ro c u rav a de a lg u m m odo . No esse nc ia l não d ei x a va m de ser um R a usc henberg , e não e ra i sso qu e pr oc ur a v a. Repare-se qu e o p rocesso é semel ha nte – a pagar o s desen h os – ma s isso n ão l h e era su fic ient e pa ra most ra r o sentido d o desen ho . Em p a r te, por qu e n ão ti n h a m nada que d escon hecesse . Er a m seus. O qu e preten d ia , então , R a u sc he nberg , v erdad ei ra me nt e com a qu ele desen ho? Não n os d i z obj ec t iva m ent e, mas qua nd o l he perg u nta- ra m o qu e sig n i fica v a pa r a el e aq u ela acção , n aq ue le d esen ho , res- pon deu: “ É po esi a. ” No essen c ia l , a ac ç ão de apa ga r t ra nsfo r mo u -se n u ma acção mod i ficad ora d o sen t id o do d esen ho, da qu ele desen h o em pa r t ic u- la r . Q ua ndo d esen h a mos, apa ga mos pa r tes do desen ho , que re cons- t r u í mos e a p agamos de seg u ida n u m comp le x o jogo d e dec isõ es qu e ten dem a est abi l i z a r qua nd o o desen ho (r e) prod u z o ef eit o dese- ja do. P odem os por isso apag a r pa r a desen ha r, d esen h a r e apag a r e desen ha r de no v o. N e ste cená r io , a acç ã o de “ apa ga r ” é u m a acção n eu t ra , i nteg rada na d i n â m ica do p rocesso, pois empresta apena s o es paço n ece ssá r io par a qu e ou t ra s est r utu r as se fo r me m no d esen ho . Qua n do Ra usc henberg dec id iu fa zer o dese n h o, t oda s as c on ot a- ções nega t ivas daqu ela acção f ora m a c t iva d as ( qu er porq ue pensa sse n elas ou por qu e presu m i sse qu e p ens assem ne las ) 15 p orque o que 14 . R A USC H E N BE R G , Robe r t – A r t i st Rob er t R au sc henb erg D e sc r ib e s the P r o ces s of C re ati ng H is E rased d e Kooning D rawing (re g i s to v ideo ) . São F r a nc i sc o : S F M o M A , 19 5 3 ( 3 m i n. 25 se g. ) [ Con su lt. 1 7 Ju n. 2 0 1 4 ] Di s p on í vel em W W W: ht t p : //w w w . s f mom a .or g / ex plore / mu lt i med ia /v ideo s /2 4 . 15. “ E le s pen s ava m que foi u m ge st o, u m prot es to c ont ra o ex pre ss ion is mo a bs t r ac to. Porque es t a é u m a h i s tór ia c ompl icad a . Eu n ão pe n so que a m a ior ia d a s p es so as p en s a ss e as s i m . M as n ão er a d i f íc i l p a r a ele s pen s a rem i ss o. Ou e nt ão ape na s u m pur o ac to d e Rober t Rauschenb erg “E r as e d de K o oni ng D ra w ing”, 19 5 3 T r aç o s de t in ta e l á pi s de c o r s/ p ap el , et iquet a manus cr it a, mo ldura do urada 4 8 ,5 x 3 6 cm 81 ev entua l me nte estav a em c a usa era o “peso” do lad o subm er so do desen ho , o que v u lgar me nte fi c a oc u lto n o pla no da i mag em. Er a u m desen ho de De K o on i ng e do qu e ele rep resen t a v a no co nt ex to da a r te do se u tempo . 16 É ta mbém es te deta l he q u e pro va v el men te con f ere i mpor t â n c i a a todas a s qu estões em to r no deste dese n ho e dest a acção . Com o pode u m desen ho fa zer -se do apa ga men to de o utro e con t i n ua r a ser u m desen ho? Co mo pode u ma acção sob re- por -se ao d esen ho e ser e la o próp r io d esen ho? T ome mos a go r a com o ex empl o u m o utro desen ho: 1 0 0 0 Hours of Star ing State on Paper de T om Fr i ed ma n . Est a ob ra não é u m desen ho apag ado d e Tom F r ie d m a n 17 , não é u ma fo l ha de papel b ra nca , m as pod ia ser t u do isso. Fr ied ma n f a z m u itas vezes as coi sa s pa ra serem v i st as, e v is t as em relação a tud o o qu e ela s não são . 18 É em todo o c aso u m desen ho m u ito p ró x i mo , n a apa rên c ia , do desen h o de R a u sc he nberg. O qu e nos l ev a a ol h a r est a obra como um desen ho é em pa r te o qu e o en u nc iado d o desen ho d e R a u sc he nberg dei x a transpare ce r . 19 Uma e sp éc ie de ab i smo o nd e pa rece sus pen sa a n oss a percepç ã o, resu m i da em cer to se ntido , n a i nterrogação de Um ber to Ec o : Se o objecto c u ja imagem apreendo t ives se propriedades dif ere ntes das da image m que a preendo , c ontinuaria a se r o mes mo ob jec to ? 20 T u do a qu i lo q u e poderá ser a qu ele desen h o est á n a leg enda do pró pr io traba l ho , “ 1 0 0 0 Horas de Ol ha r F i x o sobre Papel, 1 992- 1 997” . Ac red ita m os, p ort a nt o, q u e T om F r ied m a n terá ol hado dem orada e fi xa men te pa ra aq ue la fo l ha de papel, “ a tr a ído pela gé n ese do p róp r io desen ho , que v iv end o no t empo, co mo q ua lq ue r o utra rea l idad e, ( re-) na sce a c ada o l h a r qu e o ac t ua l i z a ” 21 . Est a é va nd a l is mo, de de s t r u iç ão, é out r a a lter n at iva. ” ( R AUSC H E N BE R G , 1 953, Op. C it .) 16 . “ E é c l a ro que i s to c r iou i me n so e sc â nda lo ! Como p o d i a ap aga r e st a obr a de a r te? Não s ó re t i r ava, pr es u m ivel ment e, a lgo à h is tór ia d a a r te, m a s t a m b ém e st r agava u m t ra ba l ho de out ro ” . ( R A USC H E N BE R G , 1 953, Op. C it .) 17. Tom F r ie d m a n rea l i zou Erased P layboy Ce nterfold (19 9 2 ) . ( F R I E DM A N , Tom – Tom F r i e d m a n , Nova Iorque : Ph a ido n P r es s, 2 0 0 1. IS BN 0 71 4 83 98 6 8. P . 62. ) 18 . F R I E DM A N, 2 0 0 1, Op. C it ., p. 62 . 19. “ Ra uschenbe rg’ s E ras ed D e Ko oni ng D raw i ng . Not t he O ed ipa l m ac h i n at ion s be h i nd it, but the s i ng le er a si ng ges t u r e it sel f a l lows more t h a n t wo th i ngs to ex i s t : t he idea of t he Koon i n g Dr aw i ng i n memor y ( t he sit e of mos t see n t h i ng s) ; t he ac t u a l it y of it s ab senc e ; a nd t he pre se nce of it s ab se nce a s a R aus c hen ber g.” (F R I E DM A N, 2 0 0 1, O p. Cit . P . 62 . ) 20. E CO, Umb er to – Sobr e os E s pel ho s e Out ro s E n s a io s . L i s bo a : D i fel , 1 9 89 . I S BN 9789 72 29 0 0 058. P . 2 6. 21. P I N H E I RO , Jorge – A P er m a nê nci a do De se n ho nos D e sen hos do De se n ho . O s De sen hos do D es en ho : N as Novas P er spe c t ivas sobr e o E n si no A r t ís tico (ac t a s do se m i n á r io) . Por to : F P C E U P / E sc ol a Es p ec i a l i z ad a de E n s i no A r t í st ico So a r es dos Rei s , 2 0 0 1 . P . 1 1 6. T om Friedman “1 0 0 0 ho ur s o f st a r ing ” , 1 9 9 2- 97 Papel 82,5 x 82,5 cm Ha inl e y , Br u c e , C o op e r , D enn is , S e a r le , A dr ia n , T om F riedman , Ph ai d on , 2 0 0 1 , p. 4 3 82 mE Canismos intErprEt a tivos DosproCE ssos u m a con d ição det er m i n a nte par a qu e a ex per iên c ia deste desen ho se faça. Es t a presen ç a i n v is ív el da m at ér ia – ol har fi xo sobre pape l – aparece c om o u m ex erc íc io d e superação da pr óp r ia f en om eno log ia da p er cep ção v i sua l. A percepç ão v is ua l é u m a da s f or ma s ma is el em enta res de cons tr u i r mos o m u nd o, e T om Fr ied ma n s u ge re qu e o n osso ol ha r reconst r ua aqu ele d esen ho com o n ão-i mage m , u m a i m ag em esvaz i ada pelo p rópr io o l h a r . Este é u m jogo ret ór i co e i l usór io , on de a per cepç ão da obra se t ra n sfo r ma n a pró pr ia maté r i a da obra. Som os lev ad os pa r a a p ro - f u nd idad e da fo l h a de pa pel t ra n sfo r m ada ag ora em desen h o. U ma es péc ie de desen h o i nv i sív el qu e dei xa su sp enso o tempo con t ad o ao m i nu to e em cada ol ha r fi x o (t a m bém do obse r v ado r), a c o r - pora l i z ação e co ncret i z a ç ão d o desen h o naqu ela fo l ha de papel. Aq ue le d esen ho ex is te n o papel co mo coisa t ra ns f o r m ada pelo n osso ol ha r . 22 Estes dois ex empl os i n t rodu tór ios rep resenta m acções c om pl et a - me nt e d i f eren tes , qu e vã o pr og ress iv a men te con v erg i ndo na m era aparênc ia dos seus resu lt a dos, com o se de u m es paço co m u m se t ratasse – o e spaço on de são l id os com o obras. E nq ua nt o i mag em, a m bos os desen hos se a pro x i m a m pela c on d ição de e l ipse qu e ex i - bem : o qu e mostr a m é u m ex erc íc io d e sus pen são e ca n cela men to da i mag em. Com o pr oce sso , rev ela m esp essu ra s tempo ra is, i nt en - ções , mod os de a g i r e mate r ia l idades d i st i n t as . É n este es paço de a n a log ia s v á r ias que p roc u ra remos en t r a r , fa zend o pa r te desse jog o de sem el ha nça s, de v i r t ua l idad es, on de ta mbém se i ns t a la m i nter - roga çõe s v á r i as e sobre as qua is se va i cons t r u i n do a i m ag em. Aq u i lo q u e comp reen demos n os desen h os t ra n s por t a a con sc iên - c i a de u ma es péc ie d e (re) su r g i me nt o, um a ma n ei ra de fa z er a pa re- cer de n ov o, das acções or ig i ná r ias do desen ho e a possibi l idad e de as reord ena r . 22 . E m G I L , 20 05, O p. C it ., pp. 23 - 59 . J os é Gi l esb o ç a a po ss i bi l id ade de de svel a mento do i nv is ível no v is ível a pa r t i r do pe n sa mento de Merle au-Pont y . P od emos ver i fic a r como “ […] o v i s ível e o i nv i sí vel são c ategor ia s ontoló g ic a s à s qua is s ó temo s ace ss o g r aç a s à v i s ão que co nt i nua , ap es a r d e t udo (ap es a r da i nv enç ão de c onceit os ) , dep ende nte de de sc r iç õe s fenomenológ ic a s” . ( p. 25) No pl a no f enomenológ ico, a s obr a s Era sed D e Ko oni ng D raw ing e 10 0 0 Hours of S t ar ing S ta te o n Pape r , do bra m-s e num a e s p éc ie de re vers ib i l id ade (v i s ível ou i nv i s ível) , “ dei xa ndo- a s su s p en s as n a pre se nça pr i mord i a l do v i s ível” , n a l i ng u agem de Jo sé G i l ( p. 26 ) . E m s u m a , to do o modo de pr oc ede r de Merleau-Pont y , e sc reve Jos é Gi l ( p. 25) , “ conv ida-no s a ‘ver ’ o que não p od e ser v i st o […] ” m a s que p or outr o lado envolve todo o v i s ível . T om Friedman “E r as e d P l ay bo y c en te r f ol d”, 199 2 5 6x2 8x0, 01c m C or t e si a do a r ti s t a , C on wa y M A eFe at u reI nc .N Y 83 2.1 .3 . UMA F ENOMENOL OGIA DO PR OCES SO Co mo se ca rac ter i za , então , a f en om eno log ia do p rocesso no dese - n ho? Com o defi n i-la? A qu est ã o tem sid o tr a t ada f u nda men t a l- me nt e a pa r t i r de u ma c onsc iê n c ia c a da vez ma i s i nteressa da em comp reend er o dese n h o com o u m a ex per iên c i a do co r po ; na l i n- g uag em de M er lea u -Po nty , u m cor po l iga do aos sen t idos e a o mo v i - mento – v isível e móvel. 23 A id eia de u m desen ho f eno men ol óg ico reto ma a s oposições en t re o óp t ico e o háp t ico , en tre o ve r e o fa zer , e o utros ei xos co mo percepç ão /ra z ã o ; v i são pró x i ma e v i são d i st a n te ; en vo lv i men to sensor ia l e d i st â n c ia rac iona l 24 , dentro da s d i nâ m ica s do p rocesso. Est a s oposições ser v em pa ra s u m a r i a r as d i fe ren ç as operativ as entre o óp t ico e o háp t ico 25 n a tr a n sição pa ra o fen om en ol óg ico, d esc re- v end o este ú lt i mo com o “ est a nd o p er to das c oisa s, c om e n v olv i- me nt o f í sico e perceptiv o, se m d ist i nção cl a ra entre suj eit o e obj ec to de p erc ep ç ão” 26 . Seg u nd o H a r t y , a pers p ec t iv a de Me rl ea u- Pon t y proc u rou id en t i- fica r o papel esp ec í fico do co r po com o me d iad or e ntre o m u n do e e le mesm o : “ o me u cor po é u ma coi sa entre as coi sa s” 27 , qu e se prol onga na relação qu e com elas m a nté m , como um a equiva lê nc ia i n tern a : u m cor p o qu e a f ec t a e é a fec t ad o pela presen ç a d as coi sa s. Não a pe- na s do q u e ex i ste com o mo t iv o do desen ho à d is t â nc ia do ol ha r, ma s qu e e st á pró x i m a e u n i da ao cor p o a tr a v é s da m ão , n as acções e n os gestos, com o cor p o qu e p erce b e e desen ha. E st a con sc iên c i a f en om eno lóg ica do d esen ho, q u e con voca em si u m a c r ítica ba seada n os ac tos e não nas i mag ens , tem e m Da v id Rosa nd um a d as m a i s per t i n en tes f or m u l ações. Pa r a R osa n d , o gesto é percepção na acção e a fi r m a-se , no desen h o, co mo p rojecção d o cor po. 23. H A R T Y , Deb ora h – Dr aw i ng Th roug h Touch : A P henome nolog ica l A ppr o ac h . 2 0 12 . [ Co n su lt . 1 7 Ja n. 2 0 13] D i s pon ível em W W W: ht t p : //pro c es s . a r t s. ac .u k / c onte nt / d r aw i ng-t h r oug h-touc h-pheno menolo g ic a l-ap pro ac h . 2 4. C A S T E L LO - BR A NCO , Pat r íc i a Si lvei r i n ha – A V i sua l idade H áptic a e os Neu r ón io E sp el ho . L is bo a : I n s t it uto de F i lo sofi a d a L i ng uagem , F ac u ld ade de C iênc i as So c i a is e Hu ma na s , Un ivers id ade Nova de L i s bo a , 20 1 4 . Tese de doutor a mento. 25. “ […] O adjec t ivo h ápt ico p o de e tem v i ndo r ec entement e a ser ut i l i z ado pa r a defi n i r u m t ip o de pe rce p ç ão que subver t e a org a n i z aç ão es p ac ia l ópt ic a , […] c om o seu p onto de v i st a ex ter ior e fi x o : o ol h a r à d is t â nc i a. O adje c t ivo hápt ic o quer f re quentement e sig n i fic a r a e x plor aç ão do se nt ido do t ac to. A ss oc i ado ao t ac to, i s to é, ao ges to e à p ele, o hápt ico te m sido c on s ider ado u m s ent ido de prox i m id ade, de si mp at ia e de emp at i a com o o bjec t o. O sent ido h ápt ic o com pree nde a idei a de c ont i nu id ade, cont ac to d i re c t o e re sson â nc i a” . ( C A S T E L L O -BR A NCO, 20 1 4 , O p. C it. P . 1 7 . ) 26. C A S T E L LO -BR A NCO , 20 1 4 , O p. C it . P . 1 7 . 2 7. M erleau-Pont y , c i t ado em H A R T Y, 20 12 , O p. C it . 84 mE Canismos intErprEt a tivos DosproCE ssos O dese nho re gista o que foi vi sto e é c onhecido , mas não de pois do facto – é simul tâneo c om, e, p ar a o des enhador , idênt ic o à perc epç ão . 28 É o desen ho pensado e n qua nt o i mag em f or m u lada como resu l - t ad o de u m c or po que a c tua . 29 Pa r a R osa nd, essa imagem é u m fac to r de com pree ns ão e reco n hec i me nt o de u ma relação est rei t a entre perce ber , f a zer e v er . Uma i mag e m que e v id en c i a o cor po e a p er - cepç ão i nco r pora da. O s gestos d o desen ho sã o, na essên c i a, u ma proje c ç ão do c or p o 30 n o mo men to em q u e se t rad u z em i m ag em. Este é o deba te aber to por R osa n d – sug er i nd o que o d esen ho é u m processo f eno me no lóg ico porq ue é possív el ra st rea r as m a rc as do se u pr ópr io f a z er. A rela ç ão e ntre o cor p o e os v e st íg ios dei xad os sobre a su per - f íc ie desv ela m a m ã o, i nd ica m u ma fo r ma de cor p o reida de , com o u m a percepç ã o e u m a ma n ua l idad e qu e pens a. Des t a f orm a , com - pens a m a s lac u n as do pens a men to : “ At rav és do a c to de dese n ha r ” , ref ere A n it a T a yl or , “nã o só dei xa m os o ra sto de u m ac to f ís ico , m a s u m t raço do p ro cesso de pens a men to . ” 31 Ret oma nd o as qu estões de aber t u ra des te pon to, não e x i ste u m mét o do fenomenoló g ic o, m a s u m a p o s t u r a / at it ude fenomenoló g ic a – u m a a t itud e de aber t u ra , pa ra c om pree nd er o q ue se m os t ra , a pa r ti r da s pr óp r ias ex p er iên c ia s. Es t á rela c i onada com o q ue a dv ém da nossa percepç ão co r pora l ; c om o m odo com o a fe c ta mos e so mos a f ec t ados pelas c i rc u n st â n c i as do processo ; e com a f or ma como , a t rav és do d esen ho , ex pa n d i mos a n ossa c om pree ns ão d o m u n do . 28 . “ D raw i ng r ec ord s wh at ha s b een s een a nd is k now n , but not af ter t he fac t – it i s si mu lt a ne ous w it h , a nd , for the d ra f t sm a n , ident ic a l to pe rce pt ion . ” ( RO SA N D , Dav i d – D raw i ng Ac t s : St ud ie s i n G raph ic E x pre ss ion a nd Repre se nt at ion . Ca m br i dge : Ca mbr idge Un ivers it y P r ess , 2 0 02 . I S BN 052 1 7 7 3 3 0X . P . 1 1 0. ) 2 9. “ Res p ond i ng to d raw i ng s , we ma ke ou r way bac k , t h roug h l i ne, to t he or ig i n a r y i m pu l se of t he d ra f t sm a n. I nte r pr et at io n i nvolv es a c on nec t i ng ac t of re- c r eat ion , t he sel f-projec t io n of t he v ie wer rei mag i n i ng t he proc e ss of d raw i ng ” . ( ROSA N D, 20 02 , O p. C it . P . 1 6. ) 30. “ The ges t u r e of d r aw i ng i s , i n e ss ence, a proje c t i on of t he bo dy , a nd , e s pe c i a l ly when v iew i ng a d raw i ng of t he h u m a n fi g u r e, we a re i nev it ably re m i nded of t h at. T he conv ic t ion of s uc h a re pre sent ation a l i m age de pe nds u pon a k i nd of tr a n s ferenc e of ener g ie s felt ” . ( ROSA N D, 20 02, O p. Cit . P . 1 6. ) 31 . T AY L OR , A n it a – F wd : R E : Po sit ion i ng D r a w i ng in G A R N E R , Steve (e d .) – Wr iti ng on D raw i ng : E s says on Dr a w i ng P rac t ice a nd Res ea rc h. B r i s tol , C h ic ago : I ntel le c t B ook s , 20 0 8. I SBN 9 78 1 8 41 5 020 0 7 . P p. 9 - 12 . 85 2. 2. E XE GE SE DO PROCE S SO – TR ADUZIR OS DE SENHOS 2. 2.1 . O PROCESS O COMO UMA FORMA DE E XEMPLIFICAÇ ÃO Aq u i lo q u e con hecem os sobre o d esen ho é a a c t ua l i z ação , n u m dete r m i n ad o tempo e l uga r , da sua in sc r iç ão . A s acções ge ra l me nte en vo lv i da s no p ro cesso, a nt es de sere m u m a com u n icação i nt en - c iona l , são ge rad oras de a c iden tes /acon tec i men tos g r á ficos on de , poten c ia l me nte , se con fig u ra u m desen ho . É nesta pro x i m idade a o processo e a o tempo de faz er , de v er , de pens a r e i nter preta r 32 , que os pro pós it os do dese n h o se v ão re con fig u r a nd o e i nv enta ndo . E st a ac tua l i z ação do d esen ho – o m om en to em q u e o fa zer e o pen sa- me nt o se orga n i za m – é t a m bém o mo men to em q u e o a r ti st a se con f ron t a com as i mag ens do qu e rea l i z o u ou q u er rea l i z a r . Est a s i mag ens s ã o a u to-ref eren c ia is – ou sej a, i nt er pret a m a s c i r - c u n st â nc ias d a sua próp r ia produ ç ão – mas refe rem-se t a m bém a m ú l t ipl os as pec tos do cont ex to e x ter io r em qu e o desen ho se fa z . Po r u m lado , reve la m-se nos d i sp osit iv os qu e o no meia m ; por o utro, i ncor pora m os e spaços f í s i cos ond e se rea l i za m , as fo rça s qu e o deter - m i na m e os obj ec tos qu e o mo t iv a m . Estes d i sp osit iv os s ão a e x pres- são ma i s obj ec t iva d o que podem os c onsiderar no pla no da i m ag em : 1 . Supe r f íc ie / s u p or te – or ient aç ão, d i me n s ão, t ex t u r a , r ig i de z , p o s iç ão, o pac id ad e. 2. M a tér ia – con si stên c i a, p er ma n ên c i a, flu idez, opac idad e, t ra n s pa rênc i a, du rez a , cor . 3 . Mei o s e i n st r u me nt os – abrasiv os, flu id os, per m a nen tes, i m p er m a nent e s . 4. Desempen h o – cor p o, mã o, o l ho . Co n side ra r o desen ho a pa r t i r dos d i sp osit iv os ond e se n om eia per m ite q u e se con heça m a i s do q u e a sua apa rên c i a. O qu e ap reend e - mos n u m desen ho é o con junto d e qua l idades e x p ressivas das m at é - r i as, dos mei o s, dos supo r tes , qu e i n flu en c ia m a s ca rac ter ís t i c as do 3 2 . A s d i fer ente s for m as d a te mp ora l id ade no de sen ho ser ão aprof u ndad a s no c apít u lo 3 d es t a te se. 86 ExE gEsE Do proCE sso – traDUzir os DEsEnhos desen ho e o m o do d e desen ha r . M as es tes d i s pos itiv os são t a mb ém a ex pressão ma i s d i rec t a on de o con tex to de p rodu ç ão d o desen ho se ex empl i fic a com o es paço , c or po ou ob jecto. Pera nt e a ide ia gen era l i z ada qu e o desen ho a p enas i nt er pret a este cont ex to e x ter io r com o represen t ação – com rec u rso a c om - petên c i as desc r itivas, do m í n io d e cód ig os e con ve nções em re lação à f orm a como o m u nd o pode ser con v er t id o em l i n h a o u ma n c h a 33 – , o processo abre um es paço de ex p ressão on de a rea l idad e não se desc rev e, ma s ex empl i fic a-se . Pa ra c om pree nd er este espaço to ma r -se-á com o p on to d e pa r - t ida os mod os de ref erên c ia de N elson G ood m a n 34 – em pa r t ic u la r o de exem pl i fi c aç ão – e nte ndendo - o s c o mo e s t r atég i a s i nt er pre t at iva s i mpl íc it as aos pr ocesso s do d esen ho . Co n side re-se , pa ra o efei to, d ois ex emplos, a mbo s rea l i zados a pa r - t i r de u m a mesma ref erên c ia – u m a por t a – e mei os si m i la re s – papel e g ra fite . E ste obj ec to com u m , a ssi m com o o s me ios, ca rac ter i z a m o con texto da produ ç ão do d esen ho na rela ç ão q u e o u ne a o desen ha - do r . M as c ada desen ho com por t a u m modo d i st i n to de e x pressão . 33. SA R DO, De l fi m – Desenha r o V en to in Romão, A nd ré ( e t al. ) – A TLAS Pr o j e c t o de Desen ho. L i s bo a : A sso c iaç ão A va l a nc he, 20 0 8 , I S BN 9 78 9 8 92 01 1 4 93 . P . 4 3. 3 4 . “ A de not aç ão, a exempl i fic aç ão, a re pre sent ação, a de sc r iç ão, a ex pre ss ão, a a lu são e a c it aç ão, ent r e outr a s for m as d e refer ênc i a , s ão c a so s de u m a d a s dua s pr i nc i pa is for m a s de r eferênc ia : denot aç ão e exempl i fic aç ão” . (A L M E I D A , A i re s in G O ODM A N, Nel s on – L i ng uagem d a A r te , Um a Ab ord agem a Um a Teor i a dos Sí mbolos . L i sb o a : Gr ad iva, 2 0 0 6 . I S BN 9 789896 1 6 1 0 8 8 . I nt ro duç ão, p. 3 1.) Ant ónio López “E s t u dio c o m tr ê s pu er a s” , 1 9 6 9 - 70 L áp is s / pa p el c ol a do e m ma dei ra 9 8x1 1 3 cm Fund ación Sor igué, Lérida Anna Bar ribal “ D o o r ”, 2 0 0 4 L áp is s / pa p el , 2 0 8, 5x8 8x6c m 87 O desen ho Estudio c on Tres P ue rta s , de A nt on io López , v i sit a o es paço e o t empo n u ma es péc ie d e sus pen são da rea l ida de . T u do naqu ele d esen ho pa rece não te r sido t oc ad o . Pa rece ter sid o dei xado com o sug es t ão d e en t rada pa ra u m esp a ço t r i d i mensiona l , m as, ao co ntrá r io de Do or de A n na Ba r r iba l l , aqui c on ju ga m -se fac to res de rep resen t ação d o es paço e de o bj ec to com u ma fo r te ref erên c ia óp t ica. A sug est ão do espaço é dada pela represen t a ç ão d o c on texto e a m bi en te de um i nte r io r ref or ç ad o p el o uso d a pers p ec t iv a. A nto- n io L ópez percorre c ada m i l í metro do desen ho co m o ol ha r e com o t raço – as ma n c h as e o flu x o de maté r i a são de c i d id o s sob re u m a es péc ie de mapa qu e se sobrepõe à próp r ia rea l idad e com o represe n- t ação d e u m i n ter io r com po r t a s. Cada ped aço d e desen ho d en ota a s pro pr ie dades daq u i lo q u e represen t a e c om o represen t a. Cada ma rca de l u z rev ela a tex tu r a da s d i f eren tes super f í c ies, m a rc as med idas ao m i l í metro, qu e se pren dem g rad ua l me nte à pro f u n d i dade d o ol ha r . O desen ho nã o sofre por isso a s sequ ela s da s pressões do g es to qu e, com o ocor re no d esen ho de A n na Ba r r iba l l , i n cor p ora a po r t a na f ol ha de papel. A nt on io López dei x a- nos u ma i mage m qu e mostr a u m processo de desen h o len to e prec iso, em q ue a mã o opera no sen t id o da t ra nsc r ição da s pro pr ie dades v i sua i s pa r a as g r á fic as, do v i s ív el pa ra o t raço desen hado . Ta l pr ocesso c onst it u i u m a con d i ç ã o da fidel ida de da represen t ação a o c on v er ter na mat ér ia m i n era lóg ica da g ra fite as prop r ieda des i m at er ia is d a l u z , pois se o s rai os de luz são t udo o que o o lhar pode captar q ue r da imagem quer do ob jec to , a ide ntidade do s pad rões de rai os de luz tem de c on st ituir a identidade da apa rênc ia . 35 Na t entativ a de capta r a i nt ens idad e o u qua l idade da luz , o dese- n ho repr esenta o qu e est á à d is t â nc ia do ol ha r, co mo se o d esen ho t iv esse a apa rên c ia do assu nto , m as o a ssu nto nã o t iv esse a apa rênc ia do d esen ho . O desen ho d e A nt on io Lópe z den ot a o esp a ço porqu e represen t a, sem possu i r , a s pro pr ie dades qu e o relac io na m com o i nt er io r com t rês por t as – o c on t r aste d a l u z el éc t r ica e da esc u r idão a o f u nd o, a pro f u n d idade , a d i me ns ão e a esca la. Num ou tro modo est á o desen ho d e Ba r r iba l l , u m desen ho c uj o processo não só ref ere , como co nt ém , cer t a s p rop r iedades da 35. G O ODM A N, 2 0 0 6 , O p. C it . P . 4 3 : COL DRON, J. – A C r itic a l E x po sit ion of Nel son G oo d m a n ’ s C oncept of Met ap hor ic a l E xe m pl i fi c at io n . Shef fie ld : Un ivers it y of Shef field , D ep a r t ment of Ph i lo sophy , 19 8 2 . Tese d e mes t rado : D ’OR E Y , Ca r mo – A E xempl i fi c ação n a A r t e : Um E st udo sobr e Nels on G o o d m a n . L i s bo a : F u ndaç ão Ca lous te Gu lb en k i a n , F u nd aç ão pa r a a C iênc ia e Tec nolo g i a , 1 9 9 9 . I S BN 9 789723 1 0 8305. 88 ExE gEsE Do proCE sso – traDUzir os DEsEnhos por t a. Col oc a nd o u m papel sob re u ma p or t a e esf rega ndo co m o lápis, o desen ho D oor , de A n n a Ba r r iba l l, c apta e a ssu me todas as qua l ida des da m a tér ia. A super f í c i e ( pol ida) de g ra fite ad qui re todos os d et a l hes, a té os m a i s subt is , do ob jec to orig i na l , a t ra v és da m a n ip u lação dos fl u x o s da m a tér ia , en qua nt o o papel gan ha u m a so l i dez p róp r i a. Cen t ra l ao tr aba l h o de Ba r r iba l l, o processo, t a l como o t empo e o esfo rço en v ol v idos na rea l i z ação d o dese - n ho , f u nc iona com o med i a ç ão poét ica pa ra encon t ra r o fasc í n io em ob jec tos com os q ua i s est a mos tão fa m i l ia r i z ad os qu e se tor - na m i n v is ív eis . O desen ho é o co nj u nt o de ma rc as do obj ec to q ue ref ere . Sig n i fica a sua esc a la , e os seus l i m ites são as l i n h as de u m a est r utu r a f or ma l de e nca i x es p el os qua i s o supor te ga n h a densi - da de mat er ia l. A ex empl i fic ação é , em D o or , l it era l. Ba r r i ba l l ex emp l i fica c er - t as prop r iedad es da p o r t a com a p rópr ia por t a , i n cor p o rada no desen ho po r u m processo de f rot t age . O pr i nc ípio g era l da ex empl i - ficação pode ser a preen d ido , neste desen ho , c om o u ma ex pressão qu e c on tém as prop r iedades d o ob jec to , ma s t a m bém as prop r ie - dades d o pró pr io p roc esso com qu e a a r t i st a est ab el ece a sua rela - ç ã o com o m u ndo . Desen ha r, e nq ua nto p roc esso, é co n st r u i r essa me d iação co m o m u nd o . O qu e o desen h o ex ibe no pla no da i m a - ge m con tém as pro pr ie dades do o bj ec to a qu e se refe re, mas t a m - bém as prop r ieda des da relação da a r ti st a com ob jec to : a pressão , a i n s i s tê nc i a , a op ac i d ade. Ba r r iba l l ex pl ora este mod o de ref erên c i a em o utros t r aba l h os, com a m esm a i ntensidade . Unt itle d ( Front D o or) , é ou t ro desen ho com u ma refe rên c ia semel ha nte o nd e, d e u m a o utra m a neir a, se conj uga m as qua l idad es qu e o desen ho si m u lta n ea men te tem e ref ere . O desen ho Untitle d ( Front D o or) c intila entre es tados e natureza s do des enho , é dese nho e esc ultu ra, que tem qu ali dades de abst racç ão e minima lismo , ao mes mo te mpo que per manec e fi el à represe ntação. A s suas for ma s são simp les, não - orgâni c as, “ ente s ” geomét r ic os que pr ofundame nte se refere m ao c orpo humano , é um p lano bidi me nsional que su gere uma e ntrada par a o es paço t r idimen sional. É o p as sado e o prese nte. Os “ rec t ân - gul os ” e sc uros são neg ativo s do mater ial transparente q ue lhes deu forma e a o invés de dei xar pas sar a luz, e les re fl ec tem a luz de volta par a nó s, através das sua s super fíc ies br il hantes e impe net ráveis. 36 36 . GR AYSON , R ic h a rd – D o or W i ndow Draw . Cop en h aga : G a l ler i Bo Bjer g ga a rd , 20 07 . [ Co n su lt . 29 d e Nov . 20 1 1] Di s pon ível em W W W: ht t p : //w w w . a r t net .com / ga l ler ies / E x h ibit ions . a s p? g id = 4 23 94795 5 & c id = 124 4 89 . 95 per m a nên c ia – c a n a l i z ada a tr a v é s da i mag em – do retrat o ou a ut o r - retr at o – n u m processo que se faz n u m jog o de a con tec i me nt os on de esboç a a sua v is ibi l ida de . O desen ho , c om o processo, “ u ne o a c to de fab r ica r ao de da r v i s i bi l id ad e” c o mo s uger e R a nc i ér e 53 . É o jog o de da r a con hecer p ubl ica men te u ma cois a e de n os rev ela r o u t ra coi sa , e o desen ho “to r na-se o pr i nc ípio d e u m a n o va par t i l ha do sensív el” 54 . É o poder de tra ns f orm ação da maté r i a sens ív el na v is ibi l idad e do a c to qu e c r ia , qu e gera e qu e propo rc iona o seu p rópr io sen t ido . A v i sibi l idad e do traba l ho d o desen ho co n st rói u m pa lco de pa r t i l h a dest a dua l i- dade – faz er e v er , e i sto ao m esmo te mpo. No essen c ia l , es tes ex empl os reve la m que os p rocessos têm do i s t ipos de desen v ol v i men to : u m p rocesso que t em o r ig em no interior do desen ho , motiv ad o por fa c tores i nte r nos com o o s upo r te, os m eios, a maté r i a, o desempen ho o u a duração ; ou t ros, pelo con t r á r io, tê m a sua or ig em f ora do dese n h o, m ot iv ados por i mp u lso s ext r í n secos , sej a por obser va ç ão d i rec t a, i mag i nação o u id ea l i z a ç ão . Est a d i fe - ren ça s ig n i fica recon h ecer q ue há u m desen ho cujo d esen vo lv i- me nt o é a l i men t ad o p el os acon tec i men tos g r á ficos qu e em erge m na super f íc ie do d esen ho e u m o utro desen ho , c uj os acon tec i m ent os g rá ficos são , o u est ão, re f eren c iad os fo r a do d esen ho – n u m obje c to, n u ma fo r ma , n u ma pa is ag em ou n u m cor p o – on de se es t abel ecem os f u nda men tos de um a si nta xe gr á fic a e defi nem as rela ções de ref erê nc ia pa r a o processo . 53. R A NC I È R E , Jaques – A P a r ti l h a do Sen sível : Es tét ic a e Pol ític a . S ão Pau lo : Ed itor a 3 4 , 20 05. IS BN 9 788573 2 6 3 2 13 . P . 52. 5 4. R A NC I È R E , 2 0 05, O p. Cit . P . 5 1. d i s pu t a t r id i mens io na l de c r u z a men tos de l i n h as que se sob rep õem em ca madas e em vár ias d i recçõ es sobre um supor te pla no , n o qua l “ a l i n ha é en rolada e pass ada fi r mem ent e em to r n o de m i l h a res de pi nos p rega dos n u m a pla c a pla na” . 49 Est a c onst r u ç ão tr id i m ens io na l da l i n ha é, poster io r me nte , ate - n uada pela i mage m f ot og r á fica , como ref ere Sa nd ra Plum mer e m St ring, S pace and Sur f ac e in the P hotogra phy o f Vik Moniz . V i k Mu n i z fa la sobre o con fl it o en t re a “p rofu nd idade d e per - cepç ão” na sér ie d e pr isõe s ; a p ers pec tiva e o re lev o qu e ex is te na super f íc ie com o qu e elev a m o desen h o – ac i m a do pla no – d o solo . A con ve rgê nc ia de me ios – o rel ev o t r id i mensiona l c r iad o com a p res- t ação d esse ef eit o qu e sug ere a pers p ec t iv a l i ne a r – pro voca con f u são n o es pec tado r . Est a con f usão é exace rbada pela ap resen t ação d o tr a- ba l h o com o u m a f ot og r a fi a bi d i mensiona l e o es paço tr id i m ens io na l rea l colapsa ass i m (n a pass ag em) como espaço i lusór io . A a mbigu i- dade na i m ag em pro voca fa sc í n io e va c i l ação d e mod o qu e o e sp ec- t ad or fica preso na i m ag em. 50 Ta m b é m o P ro yec to Memorial de Ósc a r Muñoz – u m desen ho a pi ncel co m água sobre u ma placa de c i men to aq ue c i do – tr a n sf or ma- se n u ma reflexã o poet ic a men te c a r rega d a de rev elações ou d e per - cepç ões qu e en v ol v em qu es tões rela t ivas à ex i stên c i a e sig n i ficado da s i m ag ens na c u ltu ra – “i mag ens e mem ór ia , i m ag ens e ide ntidade o u a usên c i a e mo r te” 51 . Ósc a r M u ñoz parece rec uperar a c ada i ns- t a nte da super f íc ie de c i m en to a i m ag em qu e se ev apo ra e qu e a todo o c us to te nta res t a u r a r – “n u m a me d itação consi stent e sobre a vu l- n erabi l ida de h u m a n a ” 52 . Neste ex empl o, o p ro cesso rev ela-se com o mod o de ex emp l i fica r os a s pec tos conceptua i s da obra na sua relação com a m em ór ia. O a r t is t a ex plo r a o c a rác ter tra ns itó r io da maté r i a – a ev apo ração da ág ua sob re c i men to aq ue c ido – com o met á fo r a da pró pr i a memór i a . Est a i m ag em represen t a o c on junto d e t ra n sfo r m ações qu e se ex per i men t a m desde o i n í c io a té a o desen vo lv i men to ple n o do qu e se deseja fa zer – on de se rec r ia ou inv enta toda a s ituação . Este ex empl o m ost r a -n os u ma l iga ç ão v u l n erá v el – entre a prese nça e a 4 9. P LU M M E R , Sa nd ra – St r i n g , Spac e a nd Su r f ac e i n t he Photo g r aphy of V i k Mu n i z . Tex t i l e. V olu me 5, n.º 2 (20 0 7) . [ Con s u lt . 2 1 Ju n . 2 0 1 4 ] D i s p on í vel em WWW : ht t p : //v i k mu n i z .net /l i bra r y/s t r i ng-sp ace-a nd-s u r fac e-i n-the-photog raphy - of- v i k -mu n i z-by-s a nd r a- plu m me r . 50. P LU M M E R , 20 0 7 , O p. Cit . 51. V E J BR I N K , He len a – Po et ic Co nceptua l W ork on D i splay a t Bi ld Mu se e t (c omu n icado de i mpre n sa s obr e a ex p o siç ão ) . Ume å : Bi ld Mus ee t, 2 0 0 9 . [ C on su lt. 21 Ju n . 20 1 4 ] D i s p on ível em W W W: htt p : // w w w .u m u.se /sok/eng l i sh/news-and-p ress- rele ases /newsdeta i l /poet ic-conceptua l- wo rk -on-d is play -at -bild museet.cid6 328 5 . 52 . V E J BR I N K , 2 0 0 9 , O p. C it . Ósc ar Muñoz “P r oje c t fo r a M em or ia l ” Água s/ ci mento aquecido 96 ExE gEsE Do proCE sso – traDUzir os DEsEnhos 2. 2. 2. PROCESS O E E XPR ES SÃO Quanto mais nos conscienci aliz am os da enorme imp ulsão qu e mov e o homem n o sent ido de rep etir o que aprendeu, tant o mais admiramos aqueles seres excepc ionais que co nseguiram quebrar o en canto e reali zar um significativo av anço em c ima do qual ou tr os pudessem c onstruir . 55 E. H .Go mbr ic h — A a rg u me ntação rela t iva a o processo i n c lu i t a m bém a lg u m as con si- dera ções sobre o qu e, n o desen h o, se pode ref eren c ia r pa ra a lém dos as pec tos pessoa i s – de persona l idad e, das emoções, d a i m ag i n ação e da p er cep ção – pr óp r i os de qu em rea l i z a os desen hos, com o dem on s- t ração e reco n hec i me nt o do q u e de “ ma is p essoa l e i r reprod u z í- ve l ” 56 d efi n e a a u to r i a. Por o utra s pa l a v r as, o que resu lta d a ma n ei ra com o c a da u m ma n i fest a a acção f ís ica de desen ha r – a ex pressão . A ex pressão nã o é u m a qu es t ão la tera l aos p ro ced i men tos, à s téc n i c as o u aos ma ter ia is. E m cer to se ntido , es tes são a est r utu ra ond e se cons troem a s bases d a sua ref erên c ia. Por ex pres são ent en de-se o a c to o u efei to d e ex pr i m i r , aqui lo qu e to r n a ma n i festo e perceptív el ou i nt el ig ív el o qu e a té en t ão nã o o era 57 . Es t a defi n ição g ené r ic a v er i fica-se em t odos os processos qu e i mpl iqu em u m a qua lq ue r fo r m a de rep resentação . I sto é, co mo par te ma n i f es t a e i nd ic a t iv a de a lg u ma coi sa n a a cep ção do t er mo “ repre- se nt a r ”: mo s t r a r, re vel a r, re pr o du z i r, apr e s ent a r, fig u r a r, ex pr i m i r, si m u la r , i m it a r , pr oj ec t a r . A ex pressão pode , a ssi m , cons id era r -se com o u m i n d ic a t iv o entre aq u i lo q u e ex pr i m e e o qu e é ex presso rela t iv a men te ao qu e é represen t ad o. T r a t a-se de um aj us t a men to en t re a ob jec t iv idade q u e se ref ere a o objec to q ue su pos t a men te des- c rev e a té a o qu e resu lta d a a fec t ação se n sív el qu e o pode to r n a r i n de- mo ns tr á v el. A relação en tre a ex p ressão e a represe ntação é , por isso, v a r iá v el , podend o d i m i n u i r a té se a n u la r n a ma n i f est ação – “ que 55. G OM BR IC H , E . H . – A r te e I lu s ão, Um E st udo da P sicolog i a da Repre se ntaç ão P ic tór ic a . 1.ª ed. S ão Pau lo : M a r t i n s F onte s, 1 9 86 . I SBN 9 788560 1 563 1 3. P . 2 0. 56 . “ Fa l a r d a ‘m ão’ do a r t i s t a é u m a ex pre ss ão que re con hec e es t a ev idênc ia . ” E no sent i do que refere a lgo que não s ó é “ o m a is p e sso a l ” m as t a m bé m “i r re produt ível” ao mes mo temp o que a fi r ma u ma e s p éc ie de t ra n s po s iç ão pa r a o de sen ho d a pre senç a do c or po. ( G ÓM E Z MOL I NA , Ju a n Jo sé ( c oord . ) – E l M a nua l de Dibujo : E st raté g ia s de Su E n s eñ a n za e n el Sig lo X X . M ad r id : E d ic ione s Cáted r a , 20 0 1 . I S BN 9 788 437 6 1 92 4 8 . P . 4 2 0. ) 5 7. C on for me d efi n iç ão do t er mo “ Ex pre ss ão” ( C . Fer r uc c i ) . ( GI L , F er n a ndo [c oord . ] – E i naud i , E nc ic lopé d i a . V ol s . 25 V i s ão : 41 Con hec i mento, L is bo a : I NC M , 2 0 0 0. P . 1 77 . ) 97 cons t itu i u m fi m em si mesm a – da es tr u t u ra e d as poten c ia l idades dos m eios e mp reg u es” 58 . E st a var iabi l ida de , recon hec ida na relação en t re “ aq u i lo q u e ex pr i m e ( ex pr im ente ) e aqu i lo qu e é ex p resso” , é o qu e p er m it e d ist i ng u i r a ex p ressão da represen t ação . C om efeito , ao pas so que esta úl tima impli c a se mpre um distanc ia - me nto do re pres ent ante relativame nte ao re pres ent ado , no se ntid o em que o primeiro co nst rói as suas referê nc ias ao s egundo com bas e em regras autónomas e c onc e ptualmente ela bor adas, a ex pressão surge f req uent em ente motivada pela nat ureza daqui lo que expr ime […] ; por outras palavras, aque la é su sc e ptível de mani festar c om um carácte r mais imediato os t raços pe rt ine ntes, as ‘ marcas s em ân - tic as ’ de c omportam ento s diversos e ade rir mais es treitam ente a ele . 5 9 Da qu i deco r re a i n ter pretação de qu e, n u m sentido g ené r ico, a represe ntação compo r t a u m cer to g ra u de i nte nc io na l idad e. A e x pres - são , pelo con t rá r io , pode ser i nte nc io na l, m as p ode t a mb ém resu lta r de u m i mp u lso i r repr i m ív el e m a n i f esto de f orm a d i rec t a e e sp on t â ne a. M as ex iste ex pressão sem rep resen t ação? Não é a e x pressão u ma f orm a de represe ntação? É a ex pressão a nt er io r à ex ec ução? Com o ref er ia Hube r t Da m i sc h , c ita n do R oussea u , “ se p odem o s te r a ex pres- são a nt es d a ex ec ução , não se pode te r a l i n ha qu e se est av a a dese- n ha r” 60 . Pa ra Da m i sc h , a ex p ressão é i ner ent e à p róp r i a ac t iv idade de dese n ha r , qu e pode o u não ser i n v es t ida de u ma i nt en ç ã o cons- c ien te . A ex pressão pode resu lta r da ord enação d e u m conj u nto d e el em ent os m í n i mos, si mpl e s – l i n h a, t r a ço, ma nc ha – c om o m a n i- f est ação de um ordena me nt o super io r na ac t iva ç ão de um c on junto de con he c i men tos qu e con duzem à represen t ação . No p ro cesso, o u atr a vés d o processo, a ex pressão é o m o v i men to, u m gesto i nau g u r a l su scept ív el de p roduz i r u m ef eit o qu e o to r n a ma n i f es to ; u m g esto qu e é s i mult a nea me nt e ex pressão e p rocesso. Se a ex pressão pode se r u m a ma n i f es t ação i nt en c iona l , m as t a mbém resu lt a r de u m i mpu lso – acon tecend o com o a lgo q u e não est á pre - defi n id o, nã o é pre v is ív el n em ex is te padron i z ad o – es t á comp leta - me nt e aber to ao p roc esso pa r a qu e “poss a ter a l i n ha que se estav a a desen ha r […] ” com o ex pressão d e u m cor p o em “posição de ab r i r o 58. E s te n ível de i nd ic aç ão rel at iva mente ao que “ ex pr i me” e o que é “ e x pr ess o” é a demon s t r ação de u m pla no que a lg uém defi n iu como a s “ auto - ex pres sõ es ” de mui t a a r te cont emp orâ nea , ou seja d e objec tos e s tét icos q ue tendem a e sgot a r - se n a m a n i fes t aç ão – que c on st it u i u m fi m em s i me sm a – d a es t r utu ra e d a s pot enc i a l id ades do s meio s empr eg ue s” . (G I L , 20 0 0, O p. C it . P . 1 7 7 .) 5 9. G I L , 2 0 0 0, O p. C it. P . 1 7 7 . 6 0. D A M I S C H , Huber t – T ra it e du T ra it . Seu i l : Di f f u si on , 1 9 95. IS BN 271 1 8293 9 1 . P. 152 . 98 ExE gEsE Do proCE sso – traDUzir os DEsEnhos jo go” 61 . T rat a-se d e u m cor p o qu e e st á em pos i ç ão d e rev ela r aqui lo qu e é apree n d id o p el o processo e ens a ia c om o a s ua p róp r i a ex pressão . Est a relação en t re ex pressã o e téc n i c a f or ma o es paço de a c t ua - ç ã o do p rocesso enq ua nto d esen ho , com o o sug ere Deb u f f e t: É verdade q ue os t raço s não estão exec utados c om o c uidado e minú - c ia, antes pe lo c ont r ário , dão a impressão de des c uido de q ue de rep ente s e pode de sc o mpor , porq ue os m eio s utilizados aparec e m mais pe rsonifi c ados do que é usual. Vê- se que trab al hei c om o me u dedo e mais c om uma c ol her ou c om a ponta de um ras pado r . É e v i - dente que al gun s poderiam ve r nisto uma inte nção provoc atória . No entanto , o facto é que qu ando eu me s into co mpel ido a expres - sar- me ne s se s proc edime nto s inc omuns […] pod e r ia c on s t r u ir u ma lingua ge m ex t raor dinar iament e ric a. 62 É aq u i qu e o desen ho r ev ela pa r te da p ot ên c i a da s ua natu rez a processua l , como um conj u nto d e ac tuações e operações vá r i a s “d e fi - n i nd o u m má x i m o de corres p on dên c ias de ex pressão ” 63 . A escol h a do p ro cesso est abel ece d i f eren ç a s desde l o g o com a v i si bi l idade d o compo r t a me nt o ex pressiv o do a r t i st a , den u nc i a do na acção , or ien - t ada o u g ratu it a , est r utu r ada o u desl iga d a , defi n itiva o u t ra ns it ór ia , rac iona l o u emoc io na l, p ens a da ou i ntu it iv a. 61 . DA M I SC H , 1 9 95 , O p. C it . P . 15 2 . 62 . C A BEZ A S, L i no – T é c n ica , P ro ce d i m iento s y M ater i a les in G ÓM E Z MOL I NA , Ju a n Jo sé ( c oord . ) – L a s L e cc ione s del D ibujo . M ad r id : E d ic iones Cáted r a , 1 9 95 . I S BN 9 788 437 6 13 7 6 5. P . 33 7 . 63. C A R N E I RO , A lb er to – C a mpo S ujeito e Repre sent aç ão no E n si no e na P rát ica do D e sen ho / P roje c to . Por to : FA U P P u bl ic aç õe s, 1 9 94 . I SBN 9789 729 4 83 124 . P . 57 . Je an D eb u f f e t a t ra ba lh ar no s eu e s t ú dio w w w .all -ar t.org /20 ct _phot o/brandt 1 .htm 99 T É CNICA Quando o pensamen to se apro xima demas iado da coisa, esta t orna -se estr anha c omo ac ontece a qualquer objecto do quotidiano sob o mic roscópio. 64 T . W . Ado r no — A t éc n ic a 65 é o qu e res u me a par te mate r ia l do d esen ho e , n u m sen - t id o ge ra l , a pa r te mate r i a l de u ma a r te. C om o a fi r ma L i no Cabez as : N ão exi stem téc nic as ne utras, toda a técnic a está v inc ulada com a intenç ão ex pressiva, o co nhecime nto que temos da real idade e as pa lav ras que geram os disc ursos s ob re a arte. 66 T o da s as téc n icas decor rem da ma n ipul ação d e mei o s e mat ér ia s de reg is to em fu nção de u ma i n ten ç ão ex pressiv a. E ssa m a n ip u lação de m eios e ma ter ia i s decorre tod a v i a de u m conj u n to de re g r as, de con hec i men tos p rév ios qu e dev em a dapta r -se às ex ig ênc ia s ex pres- siv as do desen ho n u m sentid o ge ra l. A s téc nicas lineares , as aguadas, o bor rão , a c or , são ins eparáveis das inte nç ões ex press iv as que explicam. 67 A con v icção g en era l i z a da , como ref ere L i n o Cabez as , qu e c on - side ra qu e, “ em gera l na s a r tes, a s obras são o resu lt a do da ap l ic a- ç ã o d o s c o nh e cim e n t o s t é cni c o s ” 68 e que i mpl i c ita men te supõe qu e ex i ste u m a rela ç ã o d i rec t a e obje c t iva en t re as téc n ica s e os resu l- t ad o s, rec la ma a necessidad e de u m do m í n i o téc n i co prév io . Nesta obser va ç ão est á i mp l íc ito o recon h ec i men to de qu e ex i ste u m a rela- ç ã o en t re as téc n icas e os re su ltados ob t id os e qu e estes são de cer t a for m a c ond ic ion ado s p elo m a ior ou menor c on hec i mento, c apac i - dade t éc n ica e per íc i a do ar t is t a. Co meça r u m desen ho é f requ ent eme nt e en t ra r n u m es paço sem u m a est r utu r a pr év i a ou o rdenação q ue i mpon ha a s suas reg ras , 6 4 . BE N JA M I N, W a lt er – Sobr e A r t e, Téc n ica , L i ng uagem e Pol ític a . L i s bo a : Relóg io D’ Á g ua , 2 0 12 . I S BN 9 789896 412708 . P . 2 4 . 65. Téc n ic a ( der ivado de “té c n ico” , “rel at ivo a u m a a r te” ) c onju nto de reg ra s pr át ic a s de que se s er v e u m a c iênc i a ou u m a a r te. | | Per íc i a ou h abi l id ade p a r a u sa r ess a s reg ras . (D o g r ego tekhné , “ a r t e, i ndú st r i a , ha bi l id ade ” ) . G OM E Z MOL I NA , 2 0 05 , Op. C it. P . 453. 6 6. C it ado in G OM E Z MOL I NA , 1 9 95, Op. C it . P . 338. 6 7. Ca be z a s c it ado in G OM E Z MOL I N A , 1 9 95, Op. C it . P . 3 39 . 6 8. C it ado in G OM E Z MOL I NA , 1 9 95, Op. C it . P . 336. 100 ExE gEsE Do proCE sso – traDUzir os DEsEnhos “ sem as qua i s o desen ho poderi a ser i leg ív el ” 69 , com o aco nt ece com a esc r ita. Ta mbém é cer to q u e podemos p rees t abelece r u m conj u nt o de “ reg ras prática s” qu e ser ve m a obte nção d e u m deter m i nado resu lt a do , embora ca m i n h os d iv ersos p ossa m ser su g er idos pelas c i rc u n st â n c i as do p róp r io processo . A i nv en ç ã o da reg ra no d esen ho ab re u m es paço de e x p er i m en - t ação o n de o p rocesso se c on c ebe co mo j o g o. A re g r a, ao con tr á r i o da i mposição da lei, é sempre fa c u lt a t iv a – “ u m encad ea men to i ma- n ent e de sig nos arbitr á r ios – , como re corda Ba ud r i l la rd : O jogo , a esfera do jogo , ao c ont rário , rec orda-nos a paixão da regra, a ver tige m da regr a, a força que provem de um c e rimonial e não de um des ejo . 70 De f or ma a ná loga a o jog o, d i zemos qu e a s reg ra s qu e se refe ren - c i a m ao desen h o poss ibi l ita m a o a r t i s t a : ( 1 ) abrir o jogo – mostr a r ou rev ela r o que qu er e co mo q ue r fa zer; (2) ent rar no j ogo – no sen t ido de en t ra r na acção , com o ex per i ên c i a de p resen ç a ; e por fi m , ( 3) estar em jogo – que sign i fica jogar, esta r em r isc o, e po r isso, est a r entre a poss ibi l i dade de pe rder o u ad ia r a perda no co ntrol o sob re o qu e fa z e como faz , o mesmo r i sco qu e terá l ev ad o Dub u f f et a “ senti r -se com p el ido” 71 a ex pressa r -se daqu ele m o do , p a ra con st r u i r u ma l i n- g uag em ma i s r i c a. A s téc n icas adapta m -se às ex ig ênc ia s ex pressiv a s do dese n h o, não com o ex ped ien te i n st r u me nta l , m as c om o e st rat ég i a epis tem o - lóg ica e id eac io na l. O a r t i st a da rá ou não o sig n i ficad o den tro d as i nten çõ es qu e o ex pl ica m . I s to é , a n ecessidade d e u m con h ec i me nt o téc n ico prév io não t erá f or ços a men te qu e der iv a r na ou co mo so lu - ç ã o do d esen ho . À s vezes é m esmo p rec i so m u da r , pa ra qu e p os- sa m os conti n ua r den t ro do d esen ho , n u ma es tr a n ha con v icç ão d e qu e p or v ezes será necessá r i o m u da r a lg u ma c ois a pa ra qu e t u do con t i nu e na mesm a. Ao con t rá r io d o qu e poss a pa recer , conti n ua r na mesma n ão é n ecess a r ia men te u m i mpa sse, antes u ma m a nei ra de reso lv er o con fl it o, est a r den tro do desen ho , e st a r a desen h a r , u m a f o r m a de ga n ha r tempo e en con t ra r a s ra zõe s pa ra conti n ua r a desen ha r . Di sto m esmo n os pa rece d a r conta V a n G og h , n u ma c a r ta en v iada ao se u i r mão Th eo em 1 882, e sc rev en do o seg u i nte: 6 9. RODR IGU E S , A n a L eonor M ade i r a – O Q ue É De sen ho . L i sb oa : Qu i mer a , 2 0 03. I S BN 9 789 7 2589 10 25. P . 39 . 70. BAU DR I L L A R D, Jea n – D e l a Se ducc ió n . M ad r id : C áted ra , 1 989 . I SBN 8 4 37 6 0277 6. “ L a P as ión de l a Reg la” , p. 126 . 71. C ab ez a s c it ado in G OM E Z MOL I NA , 1 9 95, Op. C it . P . 33 7 . 101 Mauve diss e-me : D e ve ria s tentar t ra ba lha r c om c ar vão e a giz, ou a pinc el e mancha ; tive uma grande dific uldade em t ra ba lhar com ess e mater ial. Fui paciente ma s parecia não me aj udar em nada, por vezes fi cava ansio so ao ponto de es magar o car vão e e le pe rder toda a sua util idade . Nou t ra p ar te da c arta exclam a : Por vezes sinto profundamente a ne c es sidade de me ex pressar c om um dur o lápis de car pinteiro ou u ma pe na e não co m um pincel fi no . 72 Este con fl ito pa rece a l h eio a o que , n a prá t ic a, s ig n i fica a orga n i- z a ç ão p rév ia do con he c i men to d as téc n icas , dos ma ter ia i s e proced i- me nt os, c apa zes de se a dapta rem a q ua lqu er c i rc u n st â n c i a. M as n ão o é na v erdad e. A relação e ntre con ceitos, téc n ica s, proced i me nt os, m at er i a i s , é i n sepa r á ve l da s i nten ç ões ex pressiv as e do qu e é produ - z ido pe la ex p er iên c ia , sem ren u nc ia r a u ma determ i nada d i sc ipl i n a. A téc n ic a resu lta de u m ac to de en ten d i men to d i r ig ido , logo i nt en - c ion a l , r el at iva ment e àqu i lo qu e se pla n eo u o u se pret en de fa zer . 72 . Ca be z a s c i t ado in G OM E Z MOL I NA , 1 9 95, Op. C it . P . 33 7 . 102 o proCE sso Como rEprE sEnt aç ão D arEprEsEnt aç ão. o DE sEnho ComoCorpo visívEl. A ar te não reprod uz o v isív el, torna visí vel. Paul K le e — O desen ho t em sid o, reco n hec ida m en te , u m a ref erê nc ia essen - c i a l n a “ ma rcação ” da ac t iv idad e h u m a n a. Es t a ma rcaçã o n ão ref ere apenas a represen t a ç ã o da rea l idad e, mas t a mbém o modo co mo a cons tr u í mos e a to r n a mos v i síve l. A represen t ação é, n es te sen t ido , o prod u to de um a prá t ica si mból ica. Mu ito d o que te mos d ito v a i no sen t id o do en ten d i men to qu e fa zemos do d esen ho com o u ma fe r ra- ment a e leme nt a r, a p a r t i r d a qu a l i mp lement a mo s d iver s a s r e pr e - sen t a ções, só possív eis pela du c t i l i dade d os seus processos. Ex i ste n o desen ho um a t ra ns pa rênc ia entre aq u i l o qu e cons i- dera e “ qu e to r n a prese nte” e o co n hec i me nt o qu e nos dá. D i z-se c omu m mente o ar ti sta está lá , já est á n o desen ho , n a super f íc ie do desen ho . No papel d esen vo lv e-se um a lu t a i n v isíve l e si l en c ios a de g ra n de i nte n sidad e, da qua l o desen ho surge com o consequ ên c i a, af t e r m ath . I sto mesmo parece es t a r t rad u z ido na ex pressã o de Pa u l K lee : “ A a r te nã o reprod u z o v isív el, tor na v is ív el . ” E m pa r te essa t ra n s pa rên c ia é dada pela v i sua l ida de do p roc esso do dese n ho . O processo é o qu e , em cer to sen t id o, perm ite a c r i ação d e u m es paço s i mu lt a nea me nte t ác t i l e ó pt ico , a qu i lo q u e at é cer to pon to “to r na v i s ív el” , qu e most ra , “ qu e c aptu ra e d á a v er as f or ç as” , no se ntido a t r ibu íd o por Fr a nc i s Ba con , da “f u nção d i agr a m á t ica ” . 73 O processo com o repres enta ção da re pres entaç ão é, n este sen t id o, o c a m i n ho par a u ma re fle xão qu e a ssen t a na presen ç a de u m cor po 73. O d iag ra ma é, e m sí ntes e, “ o c onju nto o per atór io da s l i n ha s e d a s z ona s , dos t r aç os e d a s m a nc h a s a-s ig n i fic a nte s e n ão re pres ent at ivos . E a ac t uaç ão do d i ag ra ma , a s ua f u nç ão, d i z F ra nc i s B acon , é ‘suger i r ’ . O u , ma i s r igor os a me nte, é i nt r odu z i r ‘ po ss i bi l id ades de f ac t o’” . ( P . 1 72 ) T êm que ser ac t ivados , “ u tiliza d o s ” de modo a p o dere m con s t it u i r e t r aç a r p os si bi l id ade s e a ss i m s e co nv er t erem e m fac to. Del leu z e d i s t i ng ue doi s e st ados i ntr í n s ec os à id ei a de d iag r a ma q ue po dem ser ide nt i fic ados c omo“pré-pic tór ico, a c at á st r ofe – ger me ( pap el do d i ag r a m a) e o fac to pic t ór ic o. ( P . 20 ) “O pré- op er atór io é t udo aqu i lo que pree nc he a tel a a nte s do pi nt or i n ic i a r o s eu t r aba l ho e que s ão, em s í nt es e, tod a a i n for m aç ão v is ua l , to dos os d ados , to dos o s c l ic hé s, to d a s as i ntenç õe s que po ss a m povoa r o e s paç o pic t ór ic o e que são o ex ac to op os to d a emer gênc i a do a i nd a-não -p en s ado em pi nt u r a.” ( DE L E U Z E , Gi l le s – F r a nc i s B acon : L óg ic a d a S en s aç ão . R io de Ja ne i ro : Z a ha r, 2 0 0 7 . I S BN 9 78 85378 0 025 6 . ) 2.3 . O PROCE S SO C OMO REPRE SENT A Çà O D AR EPRESE NT A Çà O. O DE SEN HO COMOCORPO V ISÍ V EL. 103 qu e ac t ua. Um cor p o v isív el, n a l i ng uag em de Mer lea u-P on t y 74 , u m cor po que se en contra no l ug a r de o utra c oisa e que si m u lta n ea- me nt e con voca e rev oc a o sig n i fic a do daq u i lo q u e est á n a or ig em . Um cor po c apa z , t a m bém , de resi st i r à f ac uldade mimétic a de qu e nos fa l a W . Ben ja m i n 75 se apro x i m a r do real , ma s u m cor p o compel id o a t ra n sfo r ma r e a a t r ibui r sen t i do às suas re p resentações. Um cor p o qu e não fi qu e pr is io n ei ro dos dad os fig u rativ os e d a o rga n i z ação óp t ica , c apaz de “ sug er i r ” , como d i z F ra n c i s Bacon 76 e desencad ea r poss ibi - l idades (de fa c to) em todo um jogo ( rev er sív el) d e t ra n sfo r m ações. Pa ra que ha ja d esen ho é n ecessá r io qu e h aj a u m cor po ( capa z de c ap t a r as fo rç as ). E em ú lt i m a i n st â nc ia , u m cor p o – ou t ro – qu e sej a c apaz de o recon hece r com o desen ho . E nte nd em os, p o r t a nt o, q u e o desen ho é a rep resentaç ã o da s acções (desse cor p o em a cç ão), d as t ra n sfo r mações, d as dec isões , de tod os os acon tec i men tos qu e, pas- sa n do pel o c or po, fa zem pa r te d o desen ho . O processo, por sua v ez , to r n a v i sív el qualqu er coi sa qu e – presu m e-se – não o e ra , o u era, ma s não daq ue la fo r ma. At rav és do processo so mos l ev ad o s a v er o efei to do mov i mento s en sór io -motor m a n i fe s to no c or p o. Est a ideia apon t a pa ra u m a categ or i a de rep resen t ação d e or i- ge m sens ív el. E nt en dem os p or o r ig em sensív el a qui lo qu e decorre da recept iv idade , d a sens ibi l idad e e da es ponta n ei dade cog n itiv a do su je ito . A ssi m, enten de-se a rep resen t ação , na relação com um obj ec to , não a pena s com o poder de re -ap resenta r mas c om o u m pro dut o do s ujei to. 77 “ A rep resentação é , por t a nto , u ma refe rênc ia e tem o s qu e nos ap rox i m a r dela pa ra nos ap rox i m a r m os do fa c to” 78 , do a c on tec i men to qu e refe re , com o cois a rea l i z ada. Pa ra f rasea n do G ombr ich , “ es pera mos (na represen t ação) rece ber u ma cer ta nota- ç ã o, cer tos sí m bol os, e temos q u e nos p re pa ra r p a ra ent en dê- los” . 79 Co m ef eit o, a rep re sen t ação da rep resentação ref ere o desen ho / processo por m eio da c a usa l idade est í mulo /res post a p ela qua l se ap reend e /rev ela u m d a do ob je c to . A represen t ação é , em ú lt i m a i nst â nc ia , u m a i mag em d o processo, na m ed ida em qu e todo o jog o d a represen t ação pass a pelo t empo e pelas acções con v er t idas 74 . M E R L E A U-P ON T Y , M a u r ice – O Ol ho e o Es pí r ito . 6 .ª ed. L i sb oa : V e ga , 2 0 0 6 . I S BN 9 726993 52 0. P . 1 9 . 75. BE NJA M I N , W a lter – S obr e A r te, Té c n ic a , L i ng uagem e Pol ít ic a . L i s bo a : Relóg io D’ Á g ua , 2 0 12 . I S BN 9 789896 412708 . P . 59 . 76 . DE L E U Z E , 2 0 0 7 , O p. C it . P . 1 72 . 7 7. GI L , F er na ndo (c oor d. ) – E i naud i , E nc ic lopé d ia . V ol s . 25 V i s ão : 41 Con hec i mento, L is bo a : I NC M , 20 0 0. V ol . 41 , p. 1 4. 78 . M A K OW I EC K Y , Sa nd r a – Repre se nt aç ão : A P a l av r a , a Idei a , a Co i sa . C ader no s de Pes qu i s a I nter d i sc ipl i na r em C iênc ia s Hu ma na s , n.º 57 (20 03) . P . 4 . 7 9. G OM BR IC H , E . H . – A r t e e I lus ão, U m E st udo da Ps icolog ia d a Repre se nt aç ão P ic t ór ic a . 1. ª ed . São P au lo : M a r t i n s Font es , 1 98 6 . I S BN 978 8560 1 56 3 13. P . 5 1 . 104 o proCE sso Como rEprE sEnt aç ão D arEprEsEnt aç ão. o DE sEnho ComoCorpo visívEl. em p rocesso de desen ho , susce pt í ve i s de serem ex per ien c iadas ou ap reend idas n a sua con d i ç ão d e i m ag em . 2. 3.1 . O PROCESS O COMO R EPRESENT AÇà O D A ACÇà O [Um gesto do corpo ] tem o s entido do pensamento , co mo uma peg ada significa o m oviment o e esforço d e um corp o. Maur ic e Mer leau -P ont y — Pa ra c om pree nd er as acções do ar t is t a no d esen ho , to r n a-se i mpor - t a nte per ceber o p ro cesso como p rolo nga me nt o do (seu p rópr io) c or p o. É neste sen t id o qu e p ot en c i a l me nt e poderem os perce ber , n as v a r iações ex pressiv a s da s ma rcas , as pausas e i nt er r upções , es paça - me nt os e r it mos, tensões e d is p osições qu e pa recem t rad u z i r o es t ad o em otiv o do ar t is t a , as c i rc u n st â n c ias e c on tex tos do faz er . Não é d i f íc i l c hegar a es t as cor relações si mpl es. Es t ão n o desen ho , no m ov i m ent o e ex pressão d os tr aços, da s acções com qu e se fa z . E ste recon hec i - mento é u ma toma da de pos ição sob re o que parece ser “um t raço de u ma acção e u m est ado co r póreo q u e pode ser rea l o u si m u lad o, del i be rado ou i ncon sc ient e” 80 , nas pa l a v ra s de Dea n na Pet he rbr idg e. Po r ou t ro lado , n a f en om eno log ia d a percepç ão d e Me rl ea u- Pon t y , o con ceit o de m o v i men to é c ent r a l no ent end i me nt o da ex per iên c ia do co r po com o c a mpo c r i a do r de sen t idos. 81 I s to p orqu e a perc e p - ç ã o, segu n do M er lea u -Po nty , não é u ma represen t ação menta lista (no sen t id o de u ma represen t ação p u r a men te men t a l) , m as u m acon te- c i me nt o da c or porei dade . A p ercepção est á , ass i m , rela c ionada com o cor po e c om a a t it u de d o cor p o . A nossa percepç ão está i nte ns a- me nt e relac io nada com o m odo com o o cor po nos dá a con h ecer a re a l id ade, n a ex p e r iênc i a . 82 8 0. P E T H E R BR I D G E , De a n n a – The P r i m ac y of D r aw i ng : H i st or ie s a nd The or ies of P rac t ic e . New H aven : Y a le Un ivers it y P r es s, 2 0 1 0. I S BN 9 78030 0 126 4 6 4 . P . 1 03. 81. Po demo s encont r a r o c once ito de mov i mento e out r as d er ivaç õe s , como c i ne st es i a , d i s t â nc i a , ou prof u nd id ade, como r eferênc ia c ent r a l d a fenomenolog i a de Merleau- -Pont y , em M E R L E AU-P ON T Y, Mau r ice – Feno menolog ia d a P erc epç ão . 2 .ª ed. S ão Pau lo : M a r t i n s F onte s, 1 99 9 . I SBN 85 3 36 1 03 3 5. I Pa r te – O Cor p o : C apít u l os 2 ( p. 1 1 1) , 3 ( p. 1 45 ) e 4 ( p. 205 ) ; I I P a r te – O Mu ndo Per cebido : Cap ít u lo 2 ( p. 27) . 82 . O utr a p er s p ec t iva sobr e a pe rce p ç ão e o pen s a mento i nc or por ado tem s ido 111 A pa r ti r dos e x emp los a prese ntados, i den t i fica mos a cç ões e usos d i f eren tes do m o v i men to d i sp on ív el no co r po . A s acções s ão respos- t as (i med iata s) como a fi r ma m os atrá s, compost a s de m o v i men to e c apaze s de i n fl u i r ou dete r m i n a r o sentid o da re p resentação . Reco - n hecem os qu e o mo v i men to d is pon ív el n o cor po é o que n os p er - m ite dec id i r o que faz er e com o fa zer . É u ma ab er t u ra pa r a e sob re aq u i lo qu e represe nta o efe ito d i rec to i me d iat o da s a cçõe s. Se g u ndo A ntón io Da m á s io 101 , est ud os ne u rofis io lóg icos tê m mos - t rad o u m ou t ro pont o de v i st a. A re sp ost a ne u ra l não resu lta do si m - pl es est í m u lo , ma s do re con hec i m ent o de q ue há d i f eren tes con d i ções de respo st a. H á u m a c i rc u la r idade e ntre aco nt ec i men tos i n ter n os e ex te r nos e não a pena s u m a cor resp on dênc ia do tip o est í m u lo- res - post a qu e é gera do pela a daptação a o me io e às c i rc u n st â n c i as. Não se trat a apenas de comp reend er o co r po como um meca- n i smo isolad o, mas comp reen de r o cor p o qu e emerg e da s i nte racções sensór io-m oto r as, que asseg u ra a reg u lação fl ex ív el com o m eio e as acç õ e s ( mov i mento p ot enc i a l ) . 102 E , t rata n do-se da s pró pr ias acções do ar t is t a , perce bemos q u e o desen ho se t or na pro lo nga me nt o do seu p róp r io cor po, com o ma rc a de u ma vo ntade e p ropós it o. U m d ia o seu co r po estev e lá , g ra fad o, na super f í c ie on de h oje é d esen ho . É qu e o a r t i st a , perce bend o o seu cor p o, per cebe o m odo com o e qua is a s ex per iên c ias qu e se to r n a rão sig n i ficat iv a s. Des te m odo , recon he cer o cor p o é da r testem u n h o sob re as acções do a r t ist a no desen ho – respon den do aos m o v i me nt os do cor po – test a nd o os seus l i m it es f í sicos no d esejo d e a t i ng i r o sentido da qu i lo qu e o seu pró- pr io co r po perce be e aqui lo q u e conseg u e fa zer . Com o e sc rev e Pa u l V a lér y , “ o a r t i st a av a n ç a, rec ua, deb r u ça-se, fr a n z e os ol h os, c om - por t a-se co m todo o co r po (m u it as v ezes) c om o u m acessó r io do st r uc t u r es , a s a ‘fore shor t en i ng of a l l t hes e ex per ienc es i nto one flat i mage.’ It is Heat h’ s ‘ pe r for m a nc e of d is ju nc t u re ’ w it h wh ic h I s t a r ted , t he v er y ac t of d r aw i ng i n t i me a nd s p ace, t h at a l lows ex per ienc e to be come fore shor t ened i nto i m ages . […] Con se quent ly , Heat h’ s d r aw i ngs a re su rely b et t er con s ider ed a s p er for m a nce s a nd not merely a s i n for m at ion gat her i n g. For a s t a r t , t he du r at ion a l a s pe c t i s v it a l – t he ex te nded moment b et ween s t a r t i ng t ho se fi r st s t roke s on t he pap er to de c id i n g t h at t he t i me is r eady to lo ok at t he re su lt s ” . ( P AT R I Z IO, A nd r ew – P er spic uou s by The i r A bse nce : The W i m bledon D raw i ng s of C l aud e Heat h in W hat I s D raw i ng ? L ond r es : Blac k Dog P ubl i sh i ng , 2 0 03. [C on su lt. 23 S et . 2 0 0 9 . ] Di s p on ível em W W W: ht t p : //w w w .c laudeheat h .com /tex ts /a r t ic le2 .php ) 101. DA M Á S I O , A ntón io – O Sent i mento de Si – O C or p o, a E mo ç ão e a Neu r obiolo g i a da Co n sc iênc ia , 7 .ª ed. Me m M a r t i ns : P ubl ic aç õ es Eu rop a A mér ic a , 20 0 0. I SBN 9 721 0 47 570. P . 1 6 1. 10 2 . “ Es t udos s obre p erc e pç ão, apre nd i z agem e memór i a , e l i ng uagem dei x a m- nos a ntever como o c érebro pr oc es s a u m obje c to, e m ter mos sen s or i a is e motor es , e d ão-no s u m a idei a s obre c omo o co n hec i mento de u m o bjec to p o de se r memor i z ado, c ategor i z ado em ter mos c once pt ua i s e l i ng u í st ic o s, e r ec u per ado at r av és do r ec ord a r e do rec on hece r . ” ( D A M Á S IO, 20 0 0, O p. C it . P . 1 62 . ) 112 o proCE sso Como rEprE sEnt aç ão D arEprEsEnt aç ão. o DE sEnho ComoCorpo visívEl. ol ho” 103 , como se a d i n â m ica do a c to de desen ha r se t iv esse defi n it i- v a men te a poderad o del e, con f u nd i n do-se com o cor po. É essa d i n â- m ic a qu e em cer to sentido lhe possi bi l i t a a mem ór i a do a c to . Co mo se em cada g esto sobre o pa pel l he fi c asse u m a i mp ressão (u ma mem ór i a) p rofu nda sobre essa resp ost a elem enta r do a c to d e desen ha r . Uma es péc ie d e fenóme no do órgão f anta sma , u m a memó - r i a do m ov i me nt o qu e se f a z sen t i r no dese n h o e em cada desen ho se g u i nt e. É por t a n to u ma fo r m a de l embra r , de se reco rda r, ai nda qu e o a r t i st a po ssa res pon der d e mod o d iv erso, da ndo se qu ên c i a o u não às ex per i ên c ias que sã o sig n i fic a t iv as pa r a el e. O traço g rá fico , ma rc ad o sobre a su per f íc ie, é o t estem u n ho pr ec i so do g esto, o u seja, mov i ment o mu sc u l a r e i nt enç ão ao me s mo t em p o. Cada mom ento do mo v imento abar ca toda a sua ex te nsão , e e m partic ular o p r imeiro momento , a inic iação c inét ica, inaugu ra a li gação e ntre um aqui e um a li, ent re um agor a e um fut uro , que os outros mom ento s se limitar ão a de se nvol ver . 10 4 O mov i me nto tor n a- s e, p or t a nto, nu m a for m a de lem br a r e re c o - n hecer a e x per iên c ia de desen ha r atr a v és d a presen ç a f í sic a da s ma r - c as prod u z ida s. Cada desen ho é po r t ado r deste en u n c i ad o do cor p o qu e emerg e (qu e sa i de u m meio q u e a t rav esso u) na opac ida de da sup er f íc ie de p apel . 2.3 .3. O PROCESS O COMO E XPER IÊ NCIA DE PRESENÇA Fa la r do cor po no desen h o é testem u n ha r , recon hecen do cert as pa r - t icu la r ida des, a prese nça do a r t i st a no resu ltado d e u m a dete r m i- nada acção e n o encade a men to d os pró pr ios a con tec i m en tos. É u m a fenome nolo g i a . P a ra Mer lea u -Po nty , “ el e (o a r t is t a) represe nta o seu pró pr io c or p o” . E st a relação é i ntr í n seca ao pró pr io d esen ho , n u ma lóg ica qu e l iga o tr aço à a c ção (p er f o r m ativ a) o u u m es t a do cor póreo qu e o a n i ma . 10 3 . V A L É RY, Pau l – Degas D a nça Desen h o . São Pau lo : C os ac & Na i f y , 2 0 03. I SBN 9 7 8 85 4 0 5 0 21 2 3. P . 7 1. 10 4 . M E R L E AU-P ON T Y, 1 9 9 9 , O p. C it . P . 1 9 4 . 113 A id en t i ficação d o mo v i men to ou v eloc idad e de u ma m a rca com u m tr aço , o u o t raço com a vi sualidade 10 5 , é u ma fo r ma de i nc or p or aç ão, no se nt ido d e d a r c or p o (l igar u m cor po com ou t ro c or p o ) e que M erle au -P ont y de s c r eve c omo “i nter c or p or eid ade” . I sto sig n i fica recon he cer qu e a c ada v is ão co r res pond e u m toqu e ú n i co e u m a v isua l idade ún ica , e de cada v e z qu e a m ão t oc a a super f íc ie do d esen ho e a v i são toca a coi sa obser v ada , to r n a-se e le pró pr io , o desen ho, um a es péc ie de v is ualidade tác t il . Qua lqu er coi sa en t re a qu i lo qu e ve mos n o desen ho e q u e si m u l t a nea me nte n os dei xa perceber a se n sação f ís ica do con t ac to de u m cor p o o u co rp o riscado r com a super f íc ie do d esen ho . Ex is te com o qu e u ma es péc ie de c ont ág io mo tor 10 6 que r elac io na a s ma rc as do desen ho co m as sens a çõe s f í sica s de as desen ha r . Este elo f eno men ol ó g ico en tre v i são e toqu e po de rev ela r u m a sens a ç ão d e prese nça o u estar-a í , qu e i n duz u m a ceg uei ra pa r a com a h i stor ic idad e do p ro cesso e cod i ficações i nten c io na is de sig n i fic ad o s . 10 7 A s m a rc as qu e cons t itue m o desen ho ca r rega m a v it a l idad e da s acções, v ol u nt á r ias ou i n v olunt á r i as, d aq u i lo q u e o a r ti st a p reten de e não pode con c ret i z a r sem o seu cor po. Uma v e z qu e, n o en ten - d i men to de Me rl ea u- Pon t y , é o mesm o cor p o qu e vê e (se) toca , o v i s ív el e o t a ng ív el per ten c em por isso a o mesmo m u nd o f en om e- noló g ic o. É ele , o a r ti st a , que dá sen t ido à te n são d ia léc t ica en t re as ma rc as e a s uperf íc ie o nd e se reprod u z , na l i ng uag em de W . Benj a- m i n , com o cor p o e com o desen ho . O que parece ser ev iden te nest a con d iç ã o de p resen ç a é o recon he c i men to do desen h o (atrav és do processo) com o a ex pressão d o mo v i men to e d o tempo com o pa r te ma n i f es t a da d i nâ m ica entre o desen ho e o a c to de d esen h a r . Desen h a r é, assi m , const r u i r a sen sação de d u r ação e t empo no espaço f í sico do su por te. E esse se ntido d e dur a ç ão é d o dom í n io do p ro cesso. Atrav és d a ex per iên c i a f í sica dos el eme nt os g rá ficos do desen ho so mos lev ad os ao co r po, a u ma deter m i nada presen ç a qu e c a r rega a sens ação da me mó r ia d as acções (a h i stó r ia do p ro cesso) , com o sig n i fic ad o d a sua presen ç a. 10 5 . P E T H E R BR I DG E , 20 1 0, O p. C it . P . 1 0 4 . 10 6 . Por c ont ág io motor entende- se u m “pro ce ss o de i m it aç ão i nter n a d a acç ão, que des enc adei a u m a r epr es ent aç ão des s a mes m a acç ão, at ravés d a qua l os o bjec t ivos e i nte nçõ es s ubjac ente s se p ode m i n fer i r a pa r t i r do q ue os nos so s objec t ivos e i ntençõ es ser ia m n as me sm a s c i rc u n s t â nc ia s ” . ( Bl a kemor e F r it h , c it ados in A L M E I DA , P aulo Lu í s – D es en ho P r oto cola r : I n s c revendo a Acção, a P a r ti r de Gu nter B r u s in P S I A X , 2 , sér ie I I . P or to : F AU P P ubl ic aç õ es , 20 13 .) 1 0 7. P E T H E R BR I D G E , 20 1 0 , O p. C it. P . 1 0 4 . 114 aCç ão E gEs to Como objEC to E sint axE Do proCEsso V er desenho é e m cer to sentido captar o proces so criativ o em ac ção. 108 Je an F ishe r — A rela ç ão d o a r t i st a com o desen ho é ca rac ter i zada gen er ica me nt e pela prog ra m ação p rév ia de deter m i nadas acções rea l i z ada s n u m per íodo d e tempo , n u m p rocesso i nt erac t iv o entre a mão, a v is ão e o pens a men to ; a s acções são reg u ladas p el o c a rác ter per f orm ativ o do a r t i st a fa ce à s c i rc u n st â nc i as pla nea da s. Ess as c i rc u n s t â nc ia s não só con d ic iona m a s acções do d esen ho , com o se to r n a m deter m i na nt es pa ra o seu desf ec ho . 10 9 Neste con tex to , a relação e ntre a acção e o g esto ad qu i re con to r - n os deter m i na n tes na c a rac ter i z ação de d ois mom ent os do p rocesso : o mo men to qu e a n tecede o faz er – as i nte nções do ar t is t a – e o fa zer pro pr ia men te d ito . S ão d oi s mo men tos qu e c on cor rem pa ra aqu i lo qu e é f u n da me nta l n a c a rac ter i z ação de um a ex pressão c r i ad ora qu e o c or re mu it a s vez e s e nt r e autom at i smo s , de s c ont rolo, a leat or ied ade, e v ontades consc ien tes. Obser va mos qu e a relação f eno me n ol óg ica en t re a cç ão e g es to ma n i fest a-se a par t i r de pr i nc ípios básicos de u m a causa l ida de d i nâ m ica em qu e d i f eren tes es t í mulos ge ra m d i f e- ren tes possi bi l idades de respos t a. Es t a é , por t a nto , u m a ma n ei ra de comp reend er as d i coto m i as entre percepç ão e pens a men to, en t re cor po e gesto, e ntre acção e m o v i men to, e ntre i n ten ç ão e resu ltado , en t re a ex pressã o e o qu e é ex presso . Pa ra Ba rba ra T revsky , as acções e os gestos “tra ns m i tem u m r ico conj u n to de sign i ficad os e sen t id os recor ren do à pos ição , e mo v i men to n o es paço ; podem m ost ra r o ta ma n ho , f or ma , pad rão , p o s iç ão, ord em , q ua nt id ad e, l i ter a l e met a for ic a ment e ” . To d a v i a , con t i nua Barba r a T revs k y , o s g estos, c om o o d i sc u r so, são fugaz es ; rapi da m en te desapa recem. Es t ã o l i m itados pel o que pode se r pro- duz ido e com pre en d id o em tempo rea l. É prec i so v ê-l os no pa pel , i nc or p or ado s no f u ndo o nde s ão p e r m a ne nte s . 10 8 . N EWM A N , Av i s ; DE Z EGH E R , C at her i ne – The S t age of Dr a w i ng : G e st u r e a nd Ac t . Nova Iorque : Tate, 2 0 03. I SBN 1 8 5 437 4 885 . P . 21 9 . 10 9. A M A N DI , Cl áud i a – F u nçõe s e Ta r efa s do De sen ho no P r oce ss o C r i ativo . Por t o : Fac u ld ade de Bel a s A r t es d a Un iver si dade do P or to, 2 0 0 9 . Tes e de doutor a mento. P . 290. 2.4 . A CÇà O E GEST O C OMO O B JE CT O E SINT A X E DO PROCE S S O 115 A s v i sual izaç ões s obre p apel […] são mais per manentes ; podem se r examinadas e reex aminadas. Por que persiste m, podem s er sujeitas a uma miríade de proc ess os pe rc eptivo s : c ompar ar , c ont rastar , ava - lia r se mel hanç as, distânc ia, direcç ão , for ma e tamanho , re ver - ter fi gur a e fundo , roda r , agrupar e re agrupar; isto é, podem ser me ntalment e analisados e reorganizados e m for ma s múltiplas que c ontr ibuam p ar a o ente ndimento , inferênc ia e dis c er nime nto . A s vi sua lizações po dem se r vista s como t ra ç os per manentes dos gestos ; ambos inc or por am e são inc or por ados. 110 Pa ra S a ra Sc h neck lo t h , o gesto pode se r en ten d ido n o dupl o sen t id o qu e a p a lav ra compor t a : “ como ma rca c i nét ica resu lt a nte do d esloca m en to f í sico do co r p o qu e desen h a , ma s t a m bém com o ac to o r ien t ado pel o desej o de t ra ns m it i r u ma i n ten ç ão esp ec í fica” 111 . Estes dois sentidos ca rac ter i z a m d i f ere nças operativas d i st i nta s : o pr i mei ro, l iga do a u m a ex pressão p r i m á r ia qu e assenta n u m aba n- do n o f í sico e emoc io na l a o cor p o qu e desen ha – “um gesto so lt o e c one c t ado” 11 2 ; o seg u n do , c om o fo r m a consc ien te de “p ô r e m mo v i- me nt o u m conj u nt o de rela ções colaborativ as e c r i a t iv as qu e se desen v ol v em e ra m i fica m ” . A mb os são essen c i a i s pa ra p er m i t i r u ma consc iê nc ia m a i s a mpla da i nco r pora ção ( e mbodi me nt ) no desen h o : “ a c apa c idade d o gesto [l oc a l i z a-se] em e so bre a pel e do d esen ho – ao l ong o da membra na – u ma a rena es pac ia l pa ra a m a n ip u lação tempor a l” 11 3 . O desen ho é , pa r a Sc h n ec k lo t h , o l ugar qu e cont ém o poten c ia l de u m gesto com u m , u m g esto qu e tr a n s por t a a v on t ade e a acção da esfe r a i nd iv id ua l do a r t i st a pa ra a com u n idad e, a t rav és de c or p o s em mov i ment o, f a z endo e re s p ondendo de for m a c ompr ome - t ida com u ma pa r t i l ha sen sor ia l . É esse desen ho da mão , en ten d ido co mo um a es péc i e de si smo- g ra fia , c apaz de med i r a s osc i lações “ d as pu lsõe s do co r po” que c on - v er te o g es to na apa rên c ia e no “ mo v i men to e x p ressiv o da s id eias . O gesto resume e si mbol i za o m a n ua l c om o p ossibi l idad e, co mo có d igo” 1 14 . O gesto é o testem u n ho d o rac io na l, i nt el ig ent e, i n ten - c iona l , n u ma dua l idad e en tre c or po e con sc iên c i a , e t a m bém com o testem u n ho da qu i lo qu e de m a i s ha r mo n ioso tem na con ju gação das 110 . TVER S KY , Ba rba ra – V i s u a l i z i ng T houg ht . Topics i n C og n it ive Sc ience . V ol . 3, n.º 3 (20 1 1), p p . 4 9 9 -5 35 . 111. SCHN E CK LOT H , Sa ra – M a rk i ng T i me, F ig u r i ng Spac e : G e s t u re a nd the E m bo d i ed Moment . J o urnal of Vis ual Cul tur e , V ol. 7 , n .º 3 (20 0 8 ) . 7 : 2 7 7. 11 2 . S C H N EC K LO T H , 2 0 0 8 , O p. C it . 7: 27 7 . 11 3 . S C H N EC K L O T H , 20 08 , O p. C it . 7: 277 . 114 . DE L V A L L E DE L E R S U N DI , G ent z – E n Au senc i a Del D ibujo : E l Dibujo y Su E n señ a n z a t ra s la C r i si s de la Academ ia . Bi lb au: U n i vers id ad del P a i s V a s co, 2 0 0 1 . I S BN 9 788 4 8373 3 07 3. P . 6 6 . 116 aCç ão E gEs to Como objEC to E sint axE Do proCEsso in te li gências na t u r a i s e a r t i fic i a i s e se tr a n sfo r ma no desen h o, par a- f r a s e a ndo de novo L er su nd i . 11 5 Na co ncepç ã o f en om en ol óg ica da p ercepção e do d esen ho , rad i- c a da em a ut ores co mo M er lea u -Po nty 116 e Dav id R o sa nd 117 , o co n h e- c i me nt o fa z-se pel o cor p o, e mpr est a nd o o seu cor p o ao m u nd o : o pi nt or “ of erece o seu co r p o” , d i z V a le r y 118 , atrav és do qual o mund o se t ra n smu t a em desen ho . Na l i ng uag em de Mer lea u-P on t y: Pa ra c ompreender estas transubstanciaç ões, é neces sário reencon - trar o cor po ope ran te e ac t ual , aque le que não é um pedaço de es paço , um fei xe de funç õe s, q ue é um ent rançado de v isão e mov im ento . 119 Re lac io na n do o co r po com o mo v i men to, o co r po qu e v ê e se mo v e, ma nté m as coi sa s à sua v ol t a , s ã o u m seu a nex o o u pro lon - ga me nto. 12 0 É prec iso, por t a nto , seg u n do Me rl eau -Po nty , con v iv er com est a rea l ida de cor pórea qu e red i mensiona a comp reen são d o suj eito n o pr oce sso do faz er e n o processo de con hec i m en to a cada momento. É u m p roced i men to q ue j u n t a pa r tes n o v as qu e não se es pera m de a lg u m modo e reo rga n i z a per m a nen tem ente o sis tema com o u m todo . I sto sig n i fica , seg u n do M er lea u- Ponty , que a per cep - ç ã o não é u m processo l i n ea r de descod i ficaç ã o de est í m u los, a n tes u m a u n idade senso-mo to r a d i nâ m i c a 121 qu e c ombi na cor po e gesto n u m i n st a n te qu e n ã o pode ser d iv id id o. É o m ov i me nt o e a f u nção do m ov i me nt o (na fe no men ol o g ia d a percepç ão em Merleau - Pont y) qu e f a z em erg i r a ex per iên c ia do c or po fenom enal qu e recon h ece o es paço em q u e opera com o ex pressiv o e si mb ólico. 12 2 N a pintur a de Mati ss e ou C ézanne, o mu ndo não está diante do art ista por repres entaç ão , m as c omo ac o ntecim ento febril , uma 115 . O ges to, s eg u ndo L er s u nd i, c onver te- se nu m eleme nto po ss ível de se or den a r, objec t iva r, i st o é, “ c l a ss i fic á-lo e t radu z i-lo em l i ng uagem d a comu n ic aç ão rea l. A s si m tor na- se t a mb ém o bjec to, e como t a l , é co d i fic ado n a s ua r epro duç ão. ” O ge st o conver te- se nu m ele mento que ga r a nte u m a c er t a autent ic id ade a r t í st ic a e q ue por si me s mo refere o q ue é ma is p e ss oa l e i nd iv idu a l c omo m a n i fes t aç ão do c or po no de se n ho. ( DE L V A L L E DE L E R S U N DI , 20 0 1, O p. Cit . P . 6 6 .) 116 . M E R L E AU-P ON T Y, Mau r ice – Fe nomenolo g i a da P er cepç ão . 2 .ª ed . São Pau lo : M a r t i n s F onte s, 1 99 9 . I SBN 85 3 36 1 03 3 5. 1 1 7. RO S A N D , D av id – D raw i ng Act s : S tud ie s i n Graph ic E x pre ssion a nd Repr e s e nt at i on . Ca mbr idge : C a m br id ge Un i vers it y P r es s, 2 0 02 . I S BN 052 1 7 7 3 3 0X . 118 . M E R L E A U-P ON T Y , M aur ice – O O l ho e o E spí r ito . 6.ª ed . L i s bo a : V eg a , 20 0 6. I S BN 9 726993 52 0. P . 1 9 . 119. M E R L E A U-P ON T Y, 20 0 6 , O p. C it . P . 1 9 . 120 . M E R L E AU-P ON T Y, 20 06 , O p. C it . P . 21 . 1 21. E s t a s ques tõ es , p el a su a relevâ nc i a na e mergênc i a da d i men são pr oc es su a l , s er ão des envolv id a s na s ec ç ão P ro c es s o e Pe rc e p ç ão. 12 2 . M E R L E AU-P O N T Y , 20 09 , O p. Cit . P . 49 7 . 117 enc r uz il hada onde o chão , a ss im co mo as linhas, os c ontor nos des - lizam sobre os noss os pé s. 123 Do mesm o mod o, per cor rer os dese n h os de Se u rat real i z ad os na década de 80 do séc u lo X I X a lápis c ont é sobre pa p el – com os o l hos, ma s t a m bém respi r a nd o e dei xa n do e ntra r o co r po sem cons tr a ng i- me nt os – pro v oc a u m a i ncessa n te v ontade d e pen et ra r no “ a r qu e aq u i lo tem ” , n a ex pressão d e Ro l a nd Bar t h es 12 4 . O mesm o a r qu e Seur a t tev e a determ i nada a ltu r a con densad o n u ma ba r ra de c onté e no g rã o d a f ol ha de papel. Não e x i ste apa ren tem en te nada t ão e le - me nta r nestes desen hos. Nascem naq u ela super f íc ie, par a Seurat pr i mei ra m en te pelas sua s mãos, e em seg u ida pa ra nós, n o papel d e obser va dores, n u m a rev elação per m a ne nte , m as t a mbém n u ma des- cober t a do qu e re su lta nel es. Estes desen hos fa zem eme rg i r , do espaço em q ue o pera m , a n o v i - dade e ntre o qu e ex i ste e o qu e e st á prestes a a con tecer . N u m pr i m ei ro momento, n a m ate r i a l i z aç ão at m osfér ic a d as acções, tor na n do-as n íti - da s de u ma fo r ma muito pa r t ic u la r e , n u m seg u nd o mo men to , per - m it i n do a rea val iação d o processo pelas h ipóteses sug er ida s. Obser va m os na a fi r mação de M erl eau -Po nty – “ d as coi sa s ao pensa - me nt o da s cois as , red u z-se a e x p er iên c ia” 125 – a ev id ên c i a, a d i m ens ão (da ex per iên c ia) do cor po, situa n do-n os p era nte as cois as e d is pos tos a habitá-las. É u ma es péc ie d e ad erên c ia do cor po (do a r t is t a, m as t a m - bém o n osso, com o suje ito obse r va do r ) àqui lo q ue é o fe rec ido pel o olho es p ir it ual . A s m ú ltiplas acções g r á fic as do a r t i st a p ersc r uta m o s l i m i - tes d a p erce pç ão, do c on he c i ment o, da o rg a n izaçã o e es tru tura çã o das opera ções , qu e l he per m i tem reo rga n i z a r o processo. Est a ideia en con tr a u m pa r a lel is mo na d i nâ m ica operativa dos processos a uto poiéticos 12 6 , processos qu e são a uto r ref eren c ia i s e 123. NÓ BR EG A , Terez i n ha P et r uc i a – Cor po, Pe rce p ç ão e Con hec i mento em Merle au- - P o n t y, E st udos de P s icolog ia . R io Gr a nde do Nor te, Nat a l , 1 3 (2 ) (20 08 ). P . 1 4 2 . 12 4 . So bre o de sen ho de C y To w mbly , Ba r t he s menc ion a que “p erc or r er a obr a de T ., c om os ol hos e c om os l áb ios , é p oi s i nc es s a nteme nte ad i v i n h a r o a r que aqu i lo tem” ( BA R T H ES , Rola nd – O Óbv io e o Obt u so . L i s bo a : E d iç õ es 70, 20 0 9 . I S BN 97 2 4 4 05 1 92 . P . 15 9 .) 125. M E R L E A U- P ON T Y , 1 9 9 9 , O p. C it . P . 49 7 . 126 . Autop oies e ou autopoie s is ( do g rego auto – “ própr io” , poiesi s – “ c r iaç ão” ) – Cond ição de u m ser v ivo ou de u m s is te m a que se pro du z c ont i nua mente a s i própr io . ( D efi n iç ão r et i r ad a do D ic ion á r io P r ib era m da L í ng ua P or t ug ues a . 20 08 - 20 1 3, [c on s u lt . 1 7 M a i . 2 0 1 1]. D i s p on í vel em W W W: ht t p : //w w w .pr i be ra m . pt/d lpo / .) “ O c onceit o de autopoie se já u ltr ap as sou em mu ito o dom í n io d a biolo g i a . […] A pa lav ra ap a re ceu p el a pr i mei ra vez n a l iter atu ra i nter n ac iona l em 1 9 7 4 , nu m a r t igo publ ic ado p or V a r el a , M at u r a n a e Ur ib e, em que os s ere s v ivos são v i s tos como s i s tem a s que se pro du z em de for m a i nce ss a nt e. A s si m , p od e-s e d i zer q ue u m si s te ma d e au top o ét ic o é, ao mes mo temp o, o pro dutor e o pro duto” . ( M A R IO T T I , Hu m b e r t o - Autopoie s i s , C u lt u re a nd So c ie t y . [ Con s u lt . 27 Ju n . 2 0 1 4 ] D i s p on ível e m WWW : ht t p : //w w w .oi kos .org /m a r iot t i . ht m . ) “ A preo c upaç ão ce nt ra l da Geor ges Seur at “ T r ee T r unk s Re fl e c te d in Wa te r ” , c .18 8 3 - 8 4 L áp is c o nt é s/ p ap el 2 2 x 32 c m Ge o rg es S eu rat T he D ra win gs , M oM a , p . 9 6 Geor ges Seur at “ Al on g th e Pa t h ” , c . 1 8 8 3 L áp is c o nt é s/ p ap el 31x2 3c m Ge o rg es S eu rat T he D ra win gs , M oM a , p . 16 1 118 aCç ão E gEs to Como objEC to E sint axE Do proCEsso qu e se au to -c onst roem. E st a d i n â m ica , porq u e proc u ra a mel h or ma n ei ra de obte r resu lt a dos, não rest r i ng e , apesa r de t ud o, a i nte - racção do co r p o com o m ei o. O co r po est á p er ma n en tem en te a situa r -se e a cons t r u i r -se a todo o i ns t a nte , qu er em termos percep - t iv os , qu er em te r mos opera t iv os . I na ugu r a , por t a nto (n o desen ho) , u m si stema de ref erên c ia d i n â m ico de gr a nde a u ton om i a e susce p - t ív el de se m od i fic a r . À med ida qu e o desen ho se v a i f a zen do , o fi m pode t ra n sfo r m a r -se. É est a c apa c i dade de se r eorga n i za r const a nt em en te , a u to r re- g u l a nd o-se, e o fac to de a sua o r ga n i z ação d epend er das relações c r iadas entre os seus ele me nt os cons t itu i nt es, que j u st i fica a sua per - t i nên c ia n a ca rac ter i z ação d e cer tos processos do dese n h o basead os em p rática s a utó no m as ou em erg en tes. É essa c apa c ida de de m o d i fica r que faz emerg i r tod a a com - pl ex idad e do m o v i men to e do g esto por qu e rela c i ona o organis m o c om o entor no (que é se mp re d iv erso ). E st a noção é fu n da me nta l pa ra c om pree nd er a d i nâ m ica do cor po em mo v i m en to . É o mo v i - me nt o qu e p er m it e a m u da n ç a de l uga r o u de posição, d est aca n do- se, assi m , a com u n i c ação e ntre sen t id os. É o mo v i me nt o qu e n os per m ite a pro x i ma r do f en óm eno e podermos ass i m c o mbina r , atrav és dos sen t idos, com o e o qu e o c or po i n fo r ma ; c om o e o que re la- c iona e o qu e “po ssu i” (no se ntido hápti c o 127 , d e de s a r t ic u l aç ão do óp t ico o u i n subord i nação d os sen t id os) ; c om o ol h a r ou se r olh ad o, toca r o u ser toc ad o, agar ra r ou se r agar rad o, n u ma proc u ra sempre i nquiet a qu e se en con tr a i mpl icada e compro met ida com tud o. M er - lea u -Po nty ref ere-se à co m u n icação en tre sentidos com o aqui lo qu e per m ite d i fe ren tes possi bi l idades pa ra a percepç ão . Est a é u ma con - d iç ã o essenc ia l n a defi n ição f eno men ol óg ica d a percepç ão e co mo ref erê n c ia aos si stemas au topoiéticos : “ É p rec i so comp reen der com o comp reend emos, o u seja, c om pree nd er o m odo pel o qua l fa zemos uso de n ossa próp r i a comp reen são . ” 12 8 Autopoiesi s não é exc lus iva ment e a rea l id ade e a ex i st ênc i a do mu ndo, m as a for ma como i nter pret a mo s o mundo e c ompre endemo s a rea l id ade, p a r t i ndo do pr i nc ípio de que é prec i so c ompr eender c omo com pree ndemos , ou seja , c ompr eender o mo do pe lo qua l fa z emo s us o de nos sa pr ópr ia c ompre en s ão, enqua nto sere s hu m a nos e ob ser vadores ” . ( C A S T RO DE A N DR A DE , Cl aud i a – A Fenomenolo g i a d a Perc e pç ão a Pa r t i r da Autop oie s i s de Hu m ber to M at u r a n a e F r a nc i sc o V a rel a , Gr iot – Revi s t a de F i los o fi a . A m a r gos a , Ba h i a . V ol. 6 , n . º 2 (20 12 ) . [ Con su lt. 1 0 De z . 2 0 12 ] D i s pon ível em W W W: u f rb.edu. br/g r iot ) 1 2 7. Re fer i mos hápt ico, n o modo e m que é ex p o sto p or D eleu z e, “ sem pre que t iver dei xado de h aver sub ord i n aç ão d i re c t a n u m s ent ido ou no outr o, qua ndo não houver nem su bord i naç ão m it igad a nem c onex ão v i r t u a l , m a s qu a ndo a própr ia v i s ão des c obre em s i me sm a u ma f u nç ão de toque que l he é própr i a , que s ó a ela p er tenc e e que é d i s t i nt a d a f u nç ão ópt ic a” . ( DE L E U Z E , Gi l le s – F r a nc i s B acon : L óg ica d a Se n s aç ão. R io de J a nei ro : Z a h a r, 20 07 . I SBN 9 7885 37 8 0 0256. P . 256. ) 128 . A N DR A DE , 2 01 2 . Op. Cit. 119 C onside ra r o c or po em mov im ento c omo um si stem a autopoié tic o é rec onhec e-lo c omo fenóm eno que não se reduz à causali dade linea r; é c onside ra r que o ser humano não seja um ser deter minado , mas uma c r iação c ont ínua. É por fim, uma te ntativa de abor dar a c orporeidade não c omo algo abstracto , é rec usar a s dicotomia s, é en saiar atitudes c omplexas par a c ompreende r o humano e a sua c ondição de ser c orpóreo e m inc e ssante m ov ime nto , admit indo dife - rentes inter pretaç ões, p autadas na circularidade ou rec ursividade dos fe nóme nos. 129 Pa r ti nd o de M er lea u -Po nty , podem os a fi r m a r qu e o sen t id o fe n o - me no lóg ico do dese n ho est á n a a t itud e com o podem ser en tend id os “ o con hec i me nt o do co r po, da percepç ão e a r ec us a de dete r m i n i s- mos de qua lqu er ordem” . 13 0 N ã o será ma is do qu e u m autom at is mo bas t a nte si ng u l a r qu e c ol oc a o cor po n a rota de dois mo v i men tos con t rad itó r ios, con t i nua ç ão e r up t u ra , e na s f ron teir as i nce r t a s do pass iv o e do a c t iv o. Pa ra Merl eau -Po nty , o cor po fen ome no lóg ico é o qu e est á per - ma n en tem en te em m ov i me nt o e capa z de i nterroga r a s acções. E é t a m bém , por si mesm o, capa z de p roduz i r os seus p róp r ios ele men - tos, as sua s pró pr ias acções . Em s u m a, u m cor po den t ro de u m si s- tem a autopoiét ic o qu e é t a m bém a uto r ref eren c ia l é u m c or po que se a utoconst rói n u m sis tema den t ro do qua l act ua t a mbém como e le - me nt o a pa r ti r da s suas acções. Um processo autopoiét ic o po de repre - sen t a r -se com o a lg o “ a ut ón omo ” on de o cor p o se (re) defi n e na acção c omo r el aç ão e nt r e c or p o / o bjec t o ( out ro c or p o ) . A ex per iên c i a do t raç o 1 31 sob re a super f íc ie (como d esen ho) en fa- t i z a o c a rác ter autopoiétic o ( com o acção v i sív el) , ond e v i slum bra mos a ev ol u ç ão das qu estões fo r ma is e p oét icas , da s i nten çõ es e mate - r i a l i z ações dura n te o p rocesso de produ ç ão d o desen ho . M a s pa rece semp re u m v islum bre i nacabad o porq u e é f eit o em c i ma de u m qua lq u er ob je c to , de u m a qua lq u er rea l idade e m v ias de se fo r ma r, de se red efi n i r . Me rl ea u-P on t y dest aca no se u ens a io “ A dú v ida de Céza n ne” com o u ma es péc ie d e qu est iona men to (operativ o) en t re a sens a ç ão e o pensa m ent o : 1 2 9. NÓBR E G A , 20 08 , O p. C it . P . 1 45. 13 0 . NÓBR E G A , 20 0 8 , O p. C it . P . 1 4 2 . 1 31 . D es env olveremo s es te tem a c om m a i s de t a l he no c apít u lo 3 d es t a te se. 120 aCç ão E gEs to Como objEC to E sint axE Do proCEsso C ézanne quer pintar a matéria e m v ias de se for mar , afi r ma Mer - leau -Pont y . 132 N ão quer se par ar a s c oisas fi x as que nos apa rec e m ao ol har de uma maneir a f ugaz de aparece r […] 133 É a mesma ex p er iên c ia qu e pa rece resu lt a r d a obser va ç ão d os des en hos de G iaco mett i , n u m a es péc ie de rep resentação de um ol ha r que nã o se fi x a e qu e pen et ra na topog r a fi a dos ob jec tos, dos es paços e d o cor p o . Ou dos desen hos d e De Koon i ng , o u da s pi ntu- ras de F ra n c is Bacon, qu e pa recem dei xa r -se toc a r pela i nsu sten t á v el rela ç ão d o c or po c om o a conte c i men to. A mã o não se l i m i t a som en te ao co r p o, e x pr i me e con t i n ua o p ensa me nt o qu e é p rec i so ap ren der e prod u z i r, q u erer saber o q ue a c on teceu e com o aco nt eceu. Na obse r v ação de R o la n d Ba r t hes sobre a o bra de Cy T w omb ly , est a relação com o acontec imento é cont ex tua l i zada no sen t ido d e u m a d i st i nção , r ica de sig n i ficado , que d ecor re da fo r ma c om o os Greg os a defi nem n o seu v oc abulá r io : “ Pa ssa-se u m fac to (prag ma) , u m aca so (t y c hé) , u ma s a ída (telos) , u m a su r p resa ( apodeston ) e u m a ac ç ão ( d r a m a) . ” 13 4 Ao obser va r a c or , o de senho , o s c ontorno s, as proporções do c or po , as dist orções da s for mas podem os c ompree nder a tes e segundo a qua l o s se ntidos não produzem um dec alq ue do mundo ex ter ior . 135 Podem os a ssu m i r e st a a rg u men t ação t a nto na i nte r p ret ação da pi nt u ra de Céza n ne , com o n os desen hos o u n as pi n t u ras de Giacom e tt i, ou n o tr aba l h o de Fr a nc i s Ba con. É em cer to sen t id o u m a g en era l ida de qu e recon hecem os do uso da s i m ag en s. A s cois as não são coi n c i den tes c om a sua i mage m ret i n ia na , com a i mage m me nta l , e em ú lt i m a i nst â nc ia , com a i m ag em prod u z ida. E ste é o terreno da subj ec t iv idade po r ex celên c ia , en fati za n do a d i ssoc i a - ç ã o progre ssiv a en t re o rac io na l e o i r r a c i ona l , entre o obj ec t iv o e o subj ec t iv o, en t re o f ís i co e o men t a l , en t re o óp t ico e o háp t ico , en t re o v emos e o qu e produz i mos, com o opos ições aparente men te i r reconc i l iáv eis. M as é este ter ren o qu e, ao m es mo t empo, fa v ore ce a ex per iên c i a do dese n ho e qu e defi ne as rela ções p ossív eis entre os l i m ites d est as oposições. 132 . NÓ BR EG A , 20 0 8, O p. Cit . P . 1 4 3. 133 . V er “ A Dúv id a de Cé z a n ne” in M E R L E A U-P O N T Y , 20 06 , O p. C it . P . 1 1 7 . 13 4 . BA RT H ES , 2 0 0 9 , O p. C it . P . 1 7 7 . 135 . NÓBR EG A , 20 08 , O p. C it . P . 1 4 3. 127 as co isas p a recem c la r as : há u m a prá t i c a qu e d i s põe aqui lo q u e as acções ex ec uta m e aq u i l o qu e se rev ela na s uper f íc ie com o u ma f orm a de desdob r a men to on de de se e f ec t ua a “ dem onst r a ç ão ” com o desen ho . Es t a dem onst ração é ma n i fest a na m at er ia l idad e dos m eios e do supo r te. T o dav ia , é semp re n ecess á r io mostr a r qu e a maté r ia ( g r á fic a) es pa l hada sobr e a super f íc ie é desen ho . E qua nd o este desejo se co n - c ret i za , “ o t raba l ho to r na-se pens a men to q ue pensa a s i p róp r io atra- v é s do ma ter ia l” 15 3 , nos termos de F ishe r – desen ha r/desen ho . Est a proposição fa z coi nc id i r a sua em ergê nc ia e recon hec i- me nt o com a con qu i st a do seu médium . R a n c ière m ost ra c om o que u m es paço d i sc u r s iv o qu e cons trói u m olh ar n a a r t ic u l aç ão e nt r e ma n ei ra s de fa zer , fo r m as de v isi bi l i dade e m odos de i nt el ig ibi l idad e : o mé d i u m n ão é um mero ma ter ia l , m as u m sis tema de con v ers ão . Um médi um não é um meio ou um material “ próprio ” . É uma super fíc ie de c onve rsão : uma super f ície de equi va lênc ia ent re maneir as de fazer da s di ferente s artes, um espaç o idea l de art ic ula - ção e ntre e ssa s maneir as de fazer e c e rta s for mas de v i sib il idade e de inteli gib il idade deter minantes par a a maneira co mo elas podem ser olhadas e pen sadas. 154 Faz em os os desen hos qu e já v i mos. Este i nconsc ie nte gr á fico ma n i f es t a-se na em erg ên c i a e v isi bi l i dade da super f íc ie n o pla no da i mag em , semp re qu e nos con f ron t a mos com u m desen ho . Do mesm o mod o, d i z em os qu e n ão ha ve rá desen ho sem um ol h a r qu e o v eja com o desen ho . São du as fo r m as de ac t ua l i z ação o u de con ve r - são . Ja cques Ra n c ière esc rev e que essa a c t ua l i z ação tem d e “ ga n h a r a f orm a de u m a a uto-demostr ação ” 155 . A super f íc ie on de se i ns t a la o desen ho cu mp re a t a refa de ser o que é e de demonst r ar o desen ho , com o u m mei o e com o u m fi m. É u ma fo r ma de dem onst ração tr a n s- f orm ada pelo p rocesso e pela s con d i ções do pró pr io pensa me nt o e qu e ga n h a sen t id o na obser va ç ão d e R a nc iè re a pro pós it o da pi n - t u ra : “ Pa ra qu e a pi n t u ra seja v otada à pla nura , há que dá- l a a v er c om o pl a n a” 156 . Pa ra que os d esen hos sejam v i stos com o desen hos, há qu e mostr á - los como d esen hos. Henr i Foc i l lo n , no seu estudo sobr e “ A s Fo r m as n a M at ér ia” , d i z que: 153 . F I S H E R in N E W M A N ; DE Z EG H E R , 20 03, O p. C it. P . 22 0. 15 4 . R A NC I É R E , Jacq ues – O D e st i no da s I m agen s . L i sb oa : O r feu Neg r o, 20 1 1. I S BN 9789898 327 1 78. P . 1 03 . 155 . R A NC I È R E , 20 1 1, Op. C it . P . 98 . 15 6 . R A NC I È R E , 20 1 1, O p. Cit . P . 1 02 . 128 aCç ão E gEs to Como objEC to E sint axE Do proCEsso […] um valo r , um tom, [ uma m arca ou uma lin ha ] , não depen - dem unicame nte das propriedades e das re laç ões e ntre elemento s que os co mpõem, ma s també m da maneir a c omo são apl icado s, ou seja, tocado s. 157 O toqu e é o mom ent o qu e desper ta a fo r m a na m at ér ia , pa r a f ra- sea nd o de n ov o Foc i l lo n 158 , o desen ho é ext r a íd o à maté r ia na ev i- dên c ia do tr aba l h o, das acções qu e o fa zem. E esse toque é estr u tu r a , na l i ng uag em de Foc i l lon, “ sobrepõe à do ser o u do obj ec to a q ue l h e é pró pr ia , a sua f or ma , qu e não é a pena s v a lor e co r, mas (mesmo em pro p orç õ e s í n fi m a s ) p e s o, den s id ade, mov i me nto” 159 . V er naqu ela epide r me as m a rca s qu e per m a necem pro f unda s , mesm o qua nd o o t r aba l h o, “ n as pa la v r as de Wh is t le r , apa ga os v es- t íg ios de traba l ho , pa ra fa z er rec ua r a obra a té à s reg iões sol en es, ret i ra n do-l he o q ue possa hav er de d i scorda nte , de a rden te, na ev i- dên c ia do labor” 16 0 , é recon h ecer toda a potên c ia oc u lta do desen h o, qu e c on t i n ua a ser um a rea l ida de v i sua l. H á, p ort a nt o, q u e ex t ra i r o desen ho d esse “pa lco” o n de ex ibe a s suas prop r iedad es com o maté - r ia v isív el. Em “ Pei ntu re et Grap h i sme : De la Pei n t u re o u le S ig n e et la M a rque ” 161 , W a lter B enj a m i n esc rev e sobre a t ens ão d ia léc t ica entre a l i n h a e a super f íc ie on de ela se i nsc rev e, co n side ra n do q u e o dese- n ho mat er ia l i za a s ua ex is tên c ia qua nd o com u n ica com a super f í- c ie na qua l se i ns t a la , como um a f or ma de em ergê nc ia. A l i , on de o a r t i st a ext ra i a sua f or ç a, nesse con fl ito abe r to qu e rela c io n a u m cor po, o i n st r u me nt o qu e desen ha e u m s upo r te que r ecebe o dese - n ho . Pa ra Benj a m i n , o desen h o é c onsidera do na sua to t a l ida de , na rela ç ão d ia léc t ica do t raço com o supo r te qu e o con temp la e como u m desa fio à re a l idad e f í sica do supor te . C omo se a part ir da insc r iç ão da lin ha, se c r ias se uma es pes sur a outra ; onde o ol har pudess e então s egui r e ssa in sc r ição para a lé m da e v idênc ia fí sica d ess e plano . D es sa forma, e ste f undo do dese nho é den so e profundo , c apaz de gerar a pro f undida de que é de f ac to a abert ur a onde o ol har pass eia. 16 2 1 5 7. F OC I L L ON, 2 0 0 1, Op. C it . P . 6 6 . 15 8 . F O C I L L ON , 20 0 1, O p. Ci t. P . 6 6 . 1 5 9. FO C I L LO N, 2 0 0 1, O p. C it . P . 6 6. 16 0 . FO C I L LO N, 2 0 0 1, O p. C it . P . 1 1 9 . 161 . BE N JA M I N, Wa lter – Pei nt u re e t Gr aph is me : D e l a Pei nt u re ou le Sig ne et l a M a rque . L a P a r t de l ’O ei l . Br u xela s. N . º 6 ( L e De ss i n) ( 1 9 9 0 ) . P p. 1 1, 1 5. 16 2 . GU N Z I , El i s a K iyok o – E nt re o Cor p o e o De sen ho. Rev i st a C ie ntí fic a / F A P . Cu r it i ba . V olu me 6 (20 1 0 ) . P . 1 82 . 129 Nest a obser va ç ão reco n h ece-se a capacidade do a r t i st a em mar - c ar e a s pro pr ieda des da s acções em rev ela rem a sua t raj ec tó r i a. A f or ç a da s ma rc as g rá fic as (que se i ns c rev em atrav és do desen h o) rev ela m a est r utu ra d as c oisa s e dei xa m t ra n s pa recer u m pou c o a sua gé nese . De c er t a ma ne i ra , o desen ho dá-nos a ver , n a sua es pes - su ra , o por de trás da s c oisa s , as entra n ha s, o den t ro da super f í c i e e qu e, ma is do qu e o res u ltado , remete par a o qu e o gero u e que o faz em erg i r de certo modo . W a l ter Be nj a m i n d á- nos a perce ber o desen h o a pa r t i r de u ma es péc ie de v i sua l idad e mate r i a l. Q ua lqu er cois a qu e é e qu e se mos- t ra do m esmo m odo , com o rea l ida de ta ng ív el a u m ol h a r qu e o entende como des en ho. Es t a s ques tõ es , to d av i a , n ão pode m ser l ida s de f or m a sepa rada , como q u e c hega dos a este p on to, a o pon to em qu e se tor na m a tér ia , ao pon to em qu e se tor na v is ív el se se p ud esse ref ere nc ia r ex c l us iv a me nt e na es pess u ra d a maté r ia ou na mate r i a l i - dade d o g esto. É po r t a n to n ecessá r io (re -) en con t ra r o lu ga r do co r po. Não n o exac to sentid o no q ua l o ou t ro se fa z esp el ho (e q ue refl ec te i m ag em de si m esmo) , m as no sen t ido e m qu e a mate r i a l i z ação n o desen ho co n st itu i , t a mbém , o c a mpo on de o a r ti st a perce be o seu pró pr io co r po, re v end o -o nos resu lt a dos das s uas próp r ia s a cçõe s. K iy ok o Gu n z i sug ere i sto mesm o qua nd o refe re qu e : Aqu i o art ista c oloc a-s e c omo obse r vador da sua pr odução , c ompar - tilhando o lha res e di sc ut indo pontos p er tine ntes que não hav iam sido anal isados ante s. D este modo , a obs er v ação c o nstante do s tra - ba lhos f az parte de um exerc íc io atento e dis c ip linado , uma prá tic a diária ; é na expe riê nc ia do ol har que se aprende a ver , a pe rc eber partic ularidades e a tornar v isívei s as questões que o próprio tra - bal ho aponta. 163 É est a v is ua l ida de mat er ia l qu e p er m i te ao ar ti st a com pree nd er as relações t ão pec u l ia res entre a acção e a i nt en ç ão d e desen ha r e qu e ao mesm o tempo o con du z a u m a ma i or co mpre ens ão da sua prá t ic a. Este recon hec i m en to é o qu e, m u it as vezes, i mpu ls io na o a r t i st a a refle c t i r sobre a d ec i são c i rc u n st a nc i a l de te r de te r m i na r o desen ho o u , pelo co ntrá r io , reflec t i r sobre as poss ibi l ida des em er - ge nt es do p rocesso e que o l eva m à p rodu ção de n ov os desen hos. T rata-se n o f u n do , de en contra r sen t ido na acção e i nt en ç ão a par t i r do q ue fi c a v i sív el pa r a o qu e o próp r io tr aba l h o apo nta. 16 3 . G U N Z I , 2 0 1 0, O p. C it . P . 1 86 . 130 aCç ão E gEs to Como objEC to E sint axE Do proCEsso “ Const r u i r ess a equivalên c i a é i n st aura r a so l ida r iedad e de u ma prá t ic a e de um a fo r ma de v isi bi l i dade” 16 4 . O que v em os (na rela- ç ã o qu e se est abelece en t re a acção e mate r i a l i z ação) é a a fi r mação de u m “tr aba l h o” q ue par te à con qu i st a d a super f íc ie , qu e a to r na v i s ív el de um modo d i f erent e, q u e con ve r te as “fig u r as d a represe n- t aç ão em t ropo s d a ex pressã o” , e qu e con st itu i, em cer to sen t id o, um reg i me d e pr esença e v isua l idad e do dese n h o . Di z er isto é ag enc ia r de o utr a ma n ei ra a relação en tre a acç ã o e a mate r i a l i z ação n u m a quase rela ç ão e ntre o v isív el (qu e se p ode v er ) e o d i z ív el (qu e p ode ser d ito) , sobr e a v is ibi l ida de daq u i lo q u e o desen ho faz . Di z er o q u e pode ser d ito , sobre a ma ter ia l idad e dos g ra fi s mos qu e ve mos na ob ra de Cy T wo mbly , nasce no f u nd o, “j á e s t á s ujo, a lte rado , du ma lu m i nosidad e i nc la ssi ficá v el” 16 5 , qu e retém as acções e gestos d e toda u m a esc r it a sem a l fabe to . “ Nen h u m a super f íc ie , por ma is qu e se proc u re, é v i rgem : t u do é se mpre , já á s pe ro, de s c ont í nu o, des ig ua l , r it m ado p or qua lqu er ac idente ” 16 6 , refe re R ola nd B a r t h es a pro pósito dos d esen hos de Cy T w omb ly; há por t a nt o qu e c on t a r com o qu e é invo cado pe la su perf ície . Est a c on v ergê n c ia de ca us a l ida de n os desen hos d e Cy T w ombly defi ne a sua f orm a nos a ca sos d a maté r ia , a m ã o ex plo r a os poss ív ei s or dena men tos d aq u el e est ado caó t ico , on de ex t ra i o s seus ma i s su r - pre ende nte s s ent ido s . C omo uma inter venç ão c irúrgi ca d e ext re ma subti leza, t udo se joga ( na ob ra de T W ) ness e mom ento infi nitesimal em que a c era do lápis se aproxima do grã o do pape l. A c e ra, su b stânc ia doc e, adere às mínimas a spere zas d o campo gráfi c o , e é o t raç o deste ligeir o voo de abe lhas que f az o t raç o de T W . Aderê ncia singular , por que e la c ontradiz a própria ideia de aderênc ia : é c omo um c ontac to a que só a lembrança daria fi nalmente o va lor; ma s este pas sado do t raço pode ser tão de fi nido c omo o se u f uturo: o lápis, meio gordo , meio aguçado ( não se sabe c omo ele ro dar á ) vai tocar o pape l : tec nic a - mente a obra de T W parece c o n ju gar-s e no passado ou no f uturo , nunca verdadeir amente no pres ente ; dir- se-ia que nu nc a há se não a rec or daç ão ou o anúncio do traç o : sobre o pape l – por cau sa do pape l – o t empo está e m per p étua inc er te za. 167 16 4 . R A NC I È R E , 20 1 1, Op. C it . P . 1 1 1 . 16 5 . BA RT H ES , 2 0 0 9 , O p. C it . P . 1 6 8. 16 6 . BA RT H ES , 2 0 0 9 , O p. C it . P . 1 6 3. 16 7. BA R T H E S, 2 0 0 9 , p. 1 69 . C y T wo mb ly (1 9 2 8 - 2 01 1 ) “U nt it le d” , 1 97 2 C ar imb o d e bo r r ac ha , l áp is d e c or , gr afi teet int a s / p ap el 5 6, 2x1 99 ,4cm ht tp:/ /w w w.moma.org/collection / object . php ?object _ id= 8 4126 131 2.4 .3. FÍ SICO/SUBJE CT I VO /IR R ACIONAL Não sei o que isso tem a v er co migo. B er nar d Ré quich ot — Ex i ste n o desen ho d e Cy T wo mbly , de B er na rd Réq u ic h ot, em He n r i M ich a u x , ou A nto n i n A r tau d , De Koon i ng e ta mbém em Ja c kson Po l loc k u ma fo r ma não in st r uída de d esen h a r . H á u m a i ncer tez a qu e aparece. Não se trata apena s de a pa recer , ou faz er a pa recer , del i - berada men te, u m desen h o qu e não te n h a u m a i nten ç ão ar t ís t ica. Um desen h o qu e aparece, “ n u ma es péc ie d e a fi r m ação d o ca rác - ter p rodutiv o d a conti ng ênc ia , do a c aso, da i mp robabi l idade e da i nde te r m i n aç ão ” 16 8 . T rat a -se m u ita s v ezes de ma n i fest ações pura s de ex p ressão l iv re e qu e sig n i fica m aqui lo qu e remet e pa ra o c or - póreo , o n atu ra l, que nã o é obj ec t iv o, con t r á r io ao ra c iona l. Com o v eremos, est a conti ng ênc ia n ã o é “um merg u l h o n u ma a m á lga m a c a ótica , m as a descober t a de u m a en t idad e prod utiv a e o pr i nc ípio de a lgo novo” . 169 Este desen ho não inst r uído , que re v ela descontrol o ou alea to r ie- dade , p ode ser e nte n d id o num quad ro de te ntativas qu e proc u ra m con t ra r ia r a r ig id ez do det er m i n is mo , m as t a mbém como um a f or ma de supera ção dos m odel os óp t icos da represen t ação . A id eia de p rocesso emerg e com o con d ição id ea l pa r a qu e t a is i mpul sos i n controla dos ga n hem sen t ido . N ã o se t rata de u m sen - t id o qu e ex pl ora o i n consc ien te ps í qu ico , ma s o qu e v iabi l i z a “ o qu e ou t ro ra foi um a c a rac ter í st ica natu r a l do desen h o, o fa c tor m an u al ” 17 0 , a sua i r reprod utibi l idad e e poten c ia l idad e er rática , com o se não ex is t isse nen h u m fi lt ro qu e obs tr u í sse todas a s opera - ções do processo . O natu ra l, aqu i lo qu e V a l le de Ler su nd i i n ter preta c om o refe - rên c i a a o fa zer m a n ua l , dev e t a mbém “ adq u i r i r u m s ig n i ficado den t ro d a a r t ic u l ação ra c iona l is t a (ide a l)” 17 1 , on de possa defi n it i - 16 8 . L EA L , M ig uel – A I mag i naç ão Ce g a : Mec a n i smo s de I ndet er m i n ação na P rát ica A r t í st ic a C ont emp orâ nea . P or to : Fac u l dade d e Bel as A r te s da Un ivers id ade do Por to, 20 1 0. Tes e de doutora mento. P . 70. 16 9 . L E A L , 20 1 0, O p. C it . P . 6 8 . 17 0 . DE L V A L L E DE L E R S U N DI , 20 0 1, O p. C it. P . 62 . 17 1 . “ L o n at u r a l , d es ig nado p or la m a no, se i nt er pret a c omo opues to a ide a l , y deb e por t a nto adqu i r i r u n s ig n i ficado d ent ro de l a a r t ic u lac ión rac ion a l i st a (idea l) , que la t r a nqu i l ice. E s te s ig n i fic ado es el de i r r ac io na l id ad . ” ( DE L V A L L E DE L E R S U N DI , 132 aCç ão E gEs to Como objEC to E sint axE Do proCEsso v a men te est abi l i z a r e ga n ha r sentido . Mu ita s v ezes enco ntra sen - t ido c omo re fer ê nc ia a u m a cer t a i r rac iona l i dade a t r ibuída ao qu e se ma n i f es t a atrav és da ex p ressão ma n ua l . A ex pressão ma n ua l é com u m men te refe r ida como o pos ição a o t raba l ho i nte lec tua l, do pens a men to , com o ex pressão ra c iona l de u m t raba l ho qu e se con - cebe pela ra z ão . Toda v i a est a c a r ac ter ís t i c a f u nda men t a l , recon he - c ida p or V a l le d e L ersu n d i , res t r i ng e o desen h o no j ogo do p roc esso ao q u e pa rece der iv a r com o u m a f or ma , ou par a u ma fo r m a , de a ce s si b ili d a d e cri a ti v a . Quanto mais c a sual p areça o grafi sm o , mais adequado resu lta o carác ter manual do desenho . 17 2 Ora , o fac tor ma n ua l não se resu me apenas a u m fac tor d e aces- sibi l idad e c r iativa; ele const itu i -se com o u m fac tor d e em ergê nc ia e v i s ibi l i dade d o cor p o . Um cor po que re v ela qua lq u er coisa de i n cons- c ien te – o qu e a r a z ão d escobre f ora do seu co ntrol o – qu e é p or ele t radu z ido ou c ont r a r iado. 17 3 É u ma ou tr a der iv a , u m a desl oc ação não con t rolada, que v a i p el o ef eit o da m ão . “O dese n ho com o ag ente s ubje c t ivo e p or t a nt o p a rc i a l ment e r ac i on a l” 174 es pel h a o cor p o, n o sen t id o em qu e es te assu me es pon t a nea me nt e o fluxo (psico-mo tor ) da ene rg ia de qu e po de d i sp or . Ac resc en t a a i n da a au tora qu e : C orre ndo o ri sc o de le var este par ale lism o dema siado longe , pode - ríamo s avent ur ar-nos a c on siderar a semelh anç a ent re esta ideia de c orpo e o fac tor cor pora l do dese nho , que se mani festa agora como uma inde fi nível inc o modid ade. 175 A i ncom o d idade qu e recon hecem o s da ex pressão de B er na rd Réq u ic ho t – “ Não se i o qu e isso tem a v er com igo ” – rea fi r m a essa a m biv a lên c i a do qu e per tence a o cor po e o que est á f ora d o con t rol o d a 20 0 1, O p. Cit . P . 62 . ) 17 2 . DE L V A L L E DE L E R S U N DI , 2 0 0 1, Op. C it . P . 58 . Con s ider a-s e, com Pe t her br idge, que o de sen ho é hoje rad ic a l mente mold ado pelo que a autora de T h e P r im ac y of D raw i ng des ig na d e “ a l i a nç a r eg r es si va” , u m s ig no d a c as ua l id ade v i sí vel [n ] “ a s apr opr i açõ e s sedutor a s que g r av it a m em tor no de noç õe s de autent ic i dade e pr i m it i v i s mo que va lor i z a m a i noc ênc ia , e s po nt a neid ade e i r rac iona l id ade de u ma pr át ic a l iv r e des em ba raç ad a de re g r a s e m a rc ad a por u ma d ec l a r aç ão re tór ic a d a nov id ade e / ou reg re ss o a va lore s pr i mord ia is ” . ( P E T H E R BR I DG E , 2 0 1 0, O p. C it . P . 41 4 .) 17 3 . “ E l c uer po del at a el i ncon s c ie nte, es de c i r, que lo que la ra zón de sc ubre f uera de su c ont rol y que é st a debe t r aduc i r y dom i n a r, o sea , c onver t i r e n ra zon able p a r a no ser t r ac ionad a p or el lo.” (DE L V A L L E DE L E R S U N DI , 2 0 0 1, O p. C it . P . 6 4 . ) 174 . DE L V A L L E DE L E R SU N DI , 2 0 0 1, Op. C it . P . 65 . 17 5 . DE L V A L L E DE L E R S U N DI , 2 0 0 1, O p. C it . P . 6 5. 133 ra z ão e qu e apa rece bru sc a men te ; relac iona o qu e p ode ser l id o e d i f e - ren c i a do com o fac t or c or poral – qu e é cor p o e o qu e depen de d o cor p o . T u do o q u e cons t itu i aqu ela u n idad e e o qu e pote nc ia l men te pode prod u z i r, n o sentido em q u e o fac tor c or poral ref ere o co r po rela t iv a men te aqui lo q u e fa z ou e x ec uta. O desen ho pa rece fa l a r d i rec t a m en te desde o subconsc i en te , e qu e cons t itu i o quad ro con - ceptua l on de o processo se to r n a v i sív el, ba sea nd o -se nas d i fere n- ç as qu e sepa r a m o cor po, o fa c to r cor p ora l do d esen ho , da i mage m reprod u z ida , com o se o or dena men to e toda s as operações próp r ias da r a z ã o perdessem essas c a r a c te r í st ica s em detr i men to d e u m a v ita- l idade p r i m it iv a e n atu ra l. A tese qu e ente nd e o desen ho co mo um a a utog ra fia – u m a ex pressão d i rec ta de u m a pul são o u i mag em m en t a l atrav és do g esto – baseia-se na s rela ções de con exão en t re o gesto e o traço, o co r po e a i m ag em. No l i m ite , é a capac idad e de en tend er o en u nc iad o com o o í nd ice do su je ito . 2.4 .4. O ESPER ADO E O E X PERIME N T ADO Cons ider ev er ything an ex periment . 17 6 Joh n Ca ge — Co n side ra n do e m ter mos la tos qu e o obj ec t iv o de e x per i m en t a r é me d i r a res post a a u m cer to est í m u l o, est a mos pera nte con je c t u r as pro v isór ia s qu e , atrav és de u ma sequ ên c i a de a t itud es ou a cç ões prá - t icas , per m it em a f er i r sen sibi l idades o u p er cep ções, pr i nc ipia nd o o u recom eç a ndo este c iclo, ta n t as vezes qua n tos as necess á r ias . 17 7 Podem os ve r , t a nto e m Jo h n Cage , como e m Joseph B eu ys, o mod o com o o desen ho é u t i l i zado co mo i ns t r u men to pa ra es pec u la- ç ã o e ex per i men t aç ã o ; a mb os, de d i f eren te ma ne i r a, ag em na rela- ç ã o en t re as sua s acções no d esen ho e os seus p roj ec tos. 176 . C A GE , Joh n – Ten R u le s for St udent s a nd Teac her s in K E N T, C o r it a – L ea r n i ng by Hea r t : Teac h i ngs t o F r e e the C r eative Spi r it . Nov a Iorque : A l l wor t h P res s , 20 08 . [ Con s u lt . 1 4 M a i. 2 0 1 1 ] Di s p on ível em W W W: h tt p: / / www . w r it i ngc l as se s .com / I n for m at ion P ages /i ndex.ph p / Page I D / 9 0 8 17 7. A M A N DI , 2 0 0 9 , O p. Cit . P . 9 0. 134 aCç ão E gEs to Como objEC to E sint axE Do proCEsso A s operações baseada s n o acaso, na s possi bi l idades da i mp ro v i sa- ç ã o ou da ex per i me ntação são em Ca ge u ma preoc upação m u ito pre s ent e c omo di sc iplina c r iat iva . Cag e c r io u d i f eren tes n ív ei s de i mpro v i sação , qu e ser v ia m , s i mult a nea me nt e, ta n to a c r i ação , c om o dete r m i n a vam o que po r el e era rea l i z a do . Os desen hos R y o a nji , que e le f ez como um a for m a de medit aç ão – rola n do ped ra s sobre pa pel – , são u m ex empl o dessa d isc ipl i n a c r ia - t iv a. Nos t ít u los desses desen hos est á desc r it o o esqu ema qu e ser v e pa ra rep et i r ou a lt era r . R s ig n i fica R o y a nji , 1 5 p ed ra s e o n ú m ero a nt e - r ior R i n d i c a qua ntas vezes el e desen ho u em to r no de cada ped r a. O n ú m ero qu e se seg ue à l i n ha obl íqua é o n ú me ro de d i fere nt es lápis (de m u i to sua v e a muito d u ro) us ad os pa ra f a zer o desen h o” . 17 8 No se u t raba l h o v isua l e n os seus desen hos, Cag e l ida com o pera- ções de acaso, da s qua is d i z s aber ma i s ou m enos o u n iv erso com qu e est á a l ida r , en qua n to qu e, com a i nd eterm i nação , g ost a de pen sa r qu e e st á fo r a do c i rc u lo, d e u m u n iv er so con hec id o, e a l ida r com cois as sobre as qua is n ão sabe l itera l m en te nada. 17 9 Co nti n ua m os, de súbit o, na i ncer teza – entre operações sobre as qua i s se pen sa sab er a lg u ma c oisa e ou t ras sobre as qua i s nada se sabe. O pa ra le l i smo en tre o es perado e o e x p er i m en t ad o reto ma a lg u m as questões qu e der iv a m d a acção , i nte nção e ma ter ia l i z ação , 17 8 . B ROW N , K at h a n – Joh n C age Vi s ua l A r t : To So ber a nd Qu iet the M i nd , São F r a nc i sc o : C r ow n Po i nt P re ss , 20 0 0. I SBN 1 89 130 0 1 6 4. P . 1 02 . 17 9. “ I n t he c as e of c h a nc e op er at ion s, one k nows more or le ss t he eleme nts of t he u n ivers e w it h wh ic h one i s dea l i ng , wherea s i n i nde ter m i n ac y , I l i ke to t h i n k (a nd per hap s I fool mys el f a nd pul l t he wool over m y eyes ) t h at I’m outs ide t he c i rc le of a k no w n u n ivers e, a nd dea l i ng w it h t h i ng s t h at I l it era l l y don’ t k now a ny t h i ng a bout . ” ( BROW N , K at ha n ; SA N DL E R , I r v i n g ; M I L L A R , Jer emy – Ever y D ay Is a G oo d Day : The V is ua l A r t of Joh n C age . L ond res : H ay wa rd P ubl i sh i ng , 20 1 0. I SBN 1 85 3 3 2 2830. P . 6 5.) John Cage ( 7 R) / 1 5 (em qu e R = r yo a nj i ) de A go s to d e 19 8 3 L áp is s / pa p el ar t e sa nal j ap on ê s 135 com o ex pressão da qu i lo qu e o a r t i st a ac t iv a e o qu e o próp r io pro- cesso deter m i na. É o processo do d esen ho na sua v ers ã o de “ ca mpo de p ro v as” . Est a des ig nação p ropost a p o r V a l le d e L ers u nd i , assi m como a “ ba t a- l h a d e c i s i va” sug er ida por Mo l i n a , pa rece seg u i r o sen t id o do d ese- n ho qu e es t á l igad o t a nto a o dev i r , com o a o qu e aparece reg is t ad o na super f í c ie. É, p o r t a nt o, o re con hec i m en to de um es t ad o con t í nu o da acção, q u e se ma n i f e st a per m a nen tem ente co mo i nacabado , pro- v i sór io , sus pen so, e m reser va. Enten de-se , ass i m , o desen h o n esse es t a do “i nacabad o, (qu e p ode ser con t i n uado) com o r as to d e d i f eren tes ex per iên c ias em processo, ma s t a m bém com o f orm a de pens a men to a c t iv o” 18 0 . Nat u r a l me nte qu e e ste est ad o em qu e apa rece o desen ho , e em qu e se m a ntém aber to e i n acabad o, é o qu e s u s tent a à super f íc ie os pens a men tos e o qu e se m o st ra desses pen sa m ent os. M a s mostr a t a mb ém o qu e nel e est á en v olv ido e , send o acção , o que a g e den tro e fo ra del e. Qu er d i z er , aco nt ece no d esen ho mas tem i mpo r t â nc ia ou i n flu ê nc i a na sequ ên - c i a da s id eias e d as s uas relações, n a sua con t i nuidade o u t ra ns f o r m a - ç ã o, n u m a su cess ão d e aco nt ec i men tos qu e se f orm a m a o desen ha r . A tudo eu chamo d esenho. 181 Jo se ph B eu ys — O desen ho d e Josep h Beu ys é pa rad ig mát i co dest a relação en tre o que resu lt a de u ma i n ten ç ão p rév i a e o qu e resu lta de fac tores e me rgen tes ao p rópr io p ro cesso. Par a Josep h Beu ys, “ os p ens a men tos fo r ma m-se a o des en ha r ” 18 2 . É ta mbém es te d i á logo en t re o desen ho e o pensa me nt o que f a z emer g i r “u m a met a mor fos e p er m a ne nte do s p en s a mento s” 183 , e qu e m a ntém à supe r f í c i e do dese n h o a ex pressão d e u m a p resen ç a mo men t â nea. Ex is te assi m , naqu ele m om ento . Pa r a Beu ys , o desen ho é “ma n i f est ação per m a nen te da mu d a nça” 18 4 , aber to e var iáv el. 18 0 . DE L V A L L E DE L E R S U N DI , 20 0 1, Op. C it . P . 4 6. 181 . BE U YS, Jo se ph – The S e c ret B loc k for a Sec r et P ers on i n I r ela nd (c at á lo go de ex po siç ão ) . M ad r id : Mus eo Nac iona l Cent ro d e A r te Re i n a S ofi a , 1 9 94 . P . 2 02 . 18 2 . BE U YS , 1 9 9 4 , O p. C it. P . 202 . 18 3 . BE U YS, 1 99 4 , O p. C it . P . 2 02. 18 4 . BE U Y S, 1 9 9 4 , O p. C it . P . 202 . 136 aCç ão E gEs to Como objEC to E sint axE Do proCEsso O es perad o e o ex per i me ntado rev ela m , por t a nto , o sen t id o do desen ho co mo p roc esso e pen sa m en to , i nt u ição o u i nt en ção mate r i a - l i zada. Cr u z a-se co m as qu estões que d er iv a m de u m a i nte racção v it a l n o processo – a to mada de dec i são e a qui lo qu e é deter m i nado p el a i nten ç ão e pela ex ec ução d o desen ho . G o mbr ic h col oc a- nos na mesma rota em “ comp rom i sso e i mpro v i sação” o nde , sug ere o a uto r , “ o a r t i s t a dev er ia a f ast a r -se d a sua i nten ç ão o r ig i na l o u (i n ic ia l) , si mpl e smen te aba nd oná- l a ” 185 . – pa r a qu e o c a m i n ho, n o desen ho , se poss a fa zer ent re o s mov i me nto s e d e se nv olv i me nto s de s t a s i nt er ac ç õ e s . O processo (n o desen ho) de i x a em aber to o espaço pa r a qu e t a l c i rc u n st â n c i a poss a ser tida em con t a. A es te p ropósito , a c res cen t a- se o g rau d e comp rom isso qu e o a r ti s t a tem, ou ma ntém, com a i nten ç ão i n i c i a l do seu traba l ho , com o fac to r dete r m i n a nte n e st a i nte racção . O c a rác ter de i nt eracção e ntre a i nten ç ão e ex ec ução (n o processo) dete r m i na dec i siv a men te a p rodu ç ão do d esen ho . Da í da r - mos a ten ç ão a o qu e pode ser considera do co mo a c ide nta l, i mp rev i- sív el , i n es perad o e qu e p er m ite a i n da a ssi m real im e n tar o processo. G ombr ich ac rescenta a i nda , n u ma es péc ie d e sí n tese : “ A nossa i nten ç ão fu n c iona com o reg ra m a i s pa ra o qu e e n ão ta n to pa ra o c omo .” 18 6 ( Que faz er . Co mo faz er .) E stes de síg nios podem coi nc id i r (sobretud o em m étodos qu e se apoia m n a ap rend i z ag em) , o qu e não aco nt ece em mét odos de i mp ro v is a ç ão l iv re ou e m mod elos e me r - ge nt es (os qua i s se desen vo lv em de f or ma a ut ón oma). É por t a n to n este sentido q u e G ombr ich a fi r ma : “O que , pode ser pla ne ad o ; o c omo , n u nca é to t a l me nte esperad o (prev i sto) . ” 18 7 O processo dei xa ao ar t is t a u ma der iva par a o jog o (e st a r em r isco, por t a nto) , do q ue pode resu lt a r de u m desv io i nt en c iona l , ou de um a “f el i z c a u sa l i- dade” das sua s acções. Qua n do isto aco nt ece é prec iso, com o ref ere Mo l i na , est abel ecer u m a est ratégi a ad equa d a ao m om ent o. U ma e st raté g i a c apaz de re ali - me nt ar o processo, com o refe r i mos a t rá s, pa ra qu e p ossa mos a val ia r dec isõ es e proc u ra r c a m i n hos a lte r n a t iv os : Pese a aparênc ia de ar bitrariedade , o proc es so ex ige um o lha r v igi - lante na desordem da ac ç ão […] . E ste mome nto caótic o da ac ç ão de dese nhar é a que o briga a trab al har com maior sabedoria, a qu e preci sa de uma maior tomada de dec is ões. 18 8 185 . G OM BR IC H , E . H . – Tem as de Nue st ro T iempo : P ropuest as del Sig lo X X acerc a del Sa ber del A r te . M ad r id : D ebate, 1 9 9 7 . I SBN 9 788 4 83 06 0 67 4 . P p. 9 4, 95. 18 6 . G OM BR IC H , 1 9 97 , O p. C it. “ L os A r t i s t a s en Su Ta rea” , p. 95 . 1 8 7. G OM BR IC H , 1 9 9 7 , O p. C it . “ L o s L i m ites d e la P la n i fic ac ión” , p. 1 0 1. 18 8 . G ÓM E Z MOL I N A , Jua n José ( c oor d. ) – E st raté g i a s del Dibujo en E l A r te Con tem porán eo . M ad r id : Ed ic ione s Cáte d r a , 1 9 9 9 . I S BN 8 437 6 1 694 8 . P . 4 6. 143 Este tex to conside ra o processo em relação à pe rcepç ão , con cen - t ra ndo-se n os modos pel os qua i s a d i n â m ica processua l do desen ho poten c ia u m a percepç ão m o da l, ond e se conj uga m i mag ens v is ua i s e mo toras. E ste ass u nt o tem sid o a mpla men te d is c utido n o â mbit o da s c iên c i as co g n itiv as e es t u dos da percepç ão . 21 2 Pa r a t a l , pa r t i m os da s poss ibi l i dades i nd u z idas p elas cone x õe s e d i sju nções qu e decor rem da s rela ções entre a s i m ag ens ret i n i a na e men t a l , d a rela ç ão e ntre a percepç ão ó ptica e p ercepção háp t ica , e da p ercepção do m ov i me nt o na comp reens ão d o c a mpo do d esen ho , com o es paço de co n fo r m a- ç ã o g r á fica de u m a acção o u c on c eit o . Co mo ref ere Ca r nei ro, este c a mp o é : entendido c omo matér ia / espaç o , na sua org anização mater ia l, simul taneame nte c on str uç ão e ex pres são ; dinâmic o na s art ic ula - ç ões da se ns i bil idade e da inte li gê nc ia, q ue obser va, esc ol he , tra - ba lha e un ifi c a, se pe rcor re c om a int uição e a c ons c iênc ia […] ; pro jec tado sobre a matér ia p lano , suporte de exe c ução , ar tic ula - ção e re prese ntação de toda s as ope rações gráfi c as e plást ica s que se dese nham […] 213 Como ex pu s emo s a nter ior ment e, no de s en ho c omo pr o c e s so, a percepç ão est á assoc iada à represen t a ç ão e m tempo rea l , e qu em desen ha ex i ste entre o desen ho , a represe ntação e a v iv ên c i a dessa represe ntação . A percepç ão estr u t u ra de i med i a to os sen t idos e o sen t id o do d esen ho , n u ma relação rec íproca entre os gestos, as acções e as m a rca s consequ ent es, qu e i n flu en c ia m os desen v ol v i men tos d a pró pr i a pr át ic a. Est a s relações de d i sju n ç ão e co ne xão en t re a percepç ão v i sua l e a percepç ão há ptica rev ela m-se i mp o r t a nt es pa r a o en ten d i m en to da p er cep ção na acção , qu e considera as m u da n ç as qu e ocor rem n o tempo rea l em qu e o desen ho se fa z , ma s t a mbém da acção na percepç ão , num es paço de i n fo r m ação par t i l hada. Col oc a mos, por - t a nto , a ên fase na a r t ic u lação do co r po, per cept iv o e operativ o, com o resp ost a ao qu e é prob lema t i z ad o pelo d esen ho e n o desen ho . 212 . KO S S LY N , Stephen M . ; GA N IS , Gior g io ; T H OM P SON , W i l l ia m L . – Mu lt i mo da l I m ages i n the Br a i n in GU I L LO T , A y mer ic ; C O LLE T , C h r i s t i a n ( ed . ) – The Neu r ophysiol og ic a l Fou ndation s of M ent a l a nd Motor I m ager y . O x for d : O x ford Un iver si t y P res s , 20 1 0. I SBN 9 780 1 9 954 625 1. 213. C A R N E I RO , A lb er to – C a mpo S ujeito e Repre sent aç ão no E n si no e na P rát ica do D e sen ho / P roje c to . Por to : FA U P P u bl ic aç õe s, 1 9 94 . I SBN 9789 729 4 83 124 . P . 3 0. 2.5. PROCE S S O E PERCEPÇà O 144 proCE sso E pErCEpçã o 2. 5.1 . PROCESS O (NA) PERCEPÇà O NA ACÇà O Quem d esen h a col oc a-se e ntre o desen ho e a v iv ênc ia do desen ho . Po rqu e t ud o o que a c on tece se ref eren c i a n ele . E es te é o pon to de pa r t ida. A ex per iên c ia do desen h o, co mo te mos v i n do a ar g u - me nta r, ab re c on t i n ua me nt e a ltern ativ as , possi bi l idades, de r iv a - ções . Po r v ez es são en u nc iados o u sequ ên c i as qu e lev a m o a r t i st a ao c u mpr i me nt o do se u pro jec to . Acon tece e desen vo lv e-se com o pla - n ead o . M as es te desen v ol v i me nt o não é sem pre l i nea r . Est as dec i - sões decorrem do recon h ec i men to do qu e m u it as v ezes acon tece no pla no da i m ag em , fa z pa r te do desen h o sem qu e o a r t i st a o ten h a desej ad o e é “ dev olv ido a o c o r po” , com o refe re Ro l a nd Bar t hes a pro pósito da obra de Cy T w omb ly , de m odo q ue o ar t is t a possa re s - t itu i r o u a lte ra r o sentido da sua acção . T ud o i sto pa rece qu e bra r a c a deia causa l dos ac tos d o desen ho . N ão sã o apenas os gestos, as ac t u aç õ e s do c or p o e a s f u nções, m as t a mbém o qu e d aqui der iv a pa ra a p ercepção na acção . A pr i mei ra cond ição resu lta da d i st i n ç ão o perativ a en t re a per - cepç ão e a percepção na acção , no d uplo se ntido d e perce ber a acção e si m u l t a nea me nt e o seu resu ltado n o desen ho . 214 D it o por o u t ra s pa l a v ra s, sig n i fica recon hece r as d i fe ren ç as na p ercepç ã o do dese - n ho : qua nd o v emos o desen h o (obj ec to /resu l t ad o) , qua nd o v em os fa zer o desen ho (con tex to e c i rc u n st â n c i a) e quando faz em os o d e s e nh o ( vi v ê n ci a d o a c o n t e cim e n t o) . De fac to , ex i ste u m a v i s ã o do dese n h o baseada n u ma relação u n ív oc a en t re a “ represen t ação” e o “ re p resentad o” , resu ltado da l ei- t u ra de u m esqu ema de con ve rsõ es qu e considera as relações qu e se est abelecem sob retudo co m a v i s ã o e com a percepç ã o v isua l. Jua n Mo l i na ref ere-o just a men te quando d i z : […] as image ns da s c oisas são t ransmit idas aos s ent idos e o s sen - tido s trans mitem ao órgão da perce pção. O sent ido q ue está mai s 2 14 . O mov i mento c omo “ acç ão ou res u lt ado de mover ou mo ver -s e, des loc aç ão, muda nç a de luga r ou pos iç ão, ges to, adem a ne” . Aqu i lo que de a lg u m mo do é op erat i vo . E a idei a de mov i mento, que s e refer e a u m c onju nto ou se quênc i a de aconte c i mento s ópt ic os que nos le va a sup or “ que vemos a s co i sa s moverem-s e p orque pro du ze m u m a i magem q ue se mov e n a ret i n a” . O s nos so s ol ho s es t ão c ont i nua mente em mov i mento, “ o q ue c r i a u ma s ér ie cont í nua de mu d a nç a s n a i m agem r et i n i a na , mes mo qua ndo es t a mos a ob ser va r u m a c en a es t át ic a . ” (G L E I T M A N, Hen r y ; F R I DLU N D, A la n J. : R E I S BE RG, D a n iel – P sicolo g i a . L i s bo a : F u ndaç ão Ca lous te Gu l be n k i a n , 2 0 1 1 . I S BN 9 789723 1 13 70 9 . P p. 295 - 29 7 . ) Es t a s a lteraç õe s s ão i m por t a nt es n a de fi n iç ão do que es t á e o que f a z re lat iva mente ao que é des enc adeado no e pelo d es en ho. 145 pró ximo do órgão da perc epç ão , f unc iona c om mais rapidez, é o ol ho , o princ ípio orie ntador de todos os outros . 215 A v i s ão ab re o c a mp o (es paço) on de o a r t is t a ag e e represen t a. Cit a nd o A lb er to Car ne i ro, “ o qu e o a r t i st a obser v a e represe nta ou represe nta e obser v a é a i m ag em on de se ar t ic u la m fig u ras p elas qua is se busc a t a m bém o con hec i men to d o qu e é ex ter ior po r ref e- rê n c i a a o qu e é i nte r i or” 216 . T odav ia , conti n ua Ca r n ei ro, est a “m obi- l idade f ís ica e me nta l, sen sór ia /percept iv a do pró pr io co r po” , va r i a m u itas vezes, “ entre o qu e se pen sa ser e o qu e se fa z pa ra ser” 2 17 . Est a c on d ição de r iva da id en t i fic ação d o qu e o a r t i st a obser va com aqu i lo que cor res ponde à i m age m me nt a l ou re pr e se nt aç ão i nter n a qu e f a z da s suas próp r i as acç ões . Es t a id en t i ficação fu nc iona, como v i mo s , c omo pr i nc íp io or ient ador do s mov i me nto s dent ro do de s e - n ho . Mo v i men tos esses qu e podem ser co n v ergen tes o u d iv erge nt es, na s i nte racções im a ge m /o b je cto /corp o , o nd e se a f erem os d esen v olv i- me nt os da s acções (g r á fica s) . Po r ou t ra s pa l a v r as, o processo per - m ite examinar os mo v i men tos e a cções e sp on t â ne as , se são o u não i nd u z idos po r acções qu e o a r t i st a p erce be (i n du ç ão percep t ua l ou i m it a ç ão i n vo lu ntá r ia) ou po r mo v i men tos e a cções que g os t a r ia de perce ber (i ndu ç ão i nt en c i ona l , gestos qu e gost a r ia de v er f eit os) . 218 Est a dua l ida de en tre acções i nt en c iona i s e acções es pon t â neas per - m ite id en t i fica r no d esen ho as for mas v i suais de on de eme rgem. Uma es péc ie de esqu em a de rev is ão const r utiva q ue o d esen ho ed i fica en t re a i m ag em men t a l e a i m ag em reti n i a n a. Este esque ma , i n e- ren te a o processo do d esen ho , con t ra r ia u m pa rad ig ma , de or ig em c a r tesi a n a, seg u nd o o qua l a i mage m ret i n ia na e a i mag em m en t a l 215. G ÓM E Z MOL I N A , Ju a n Jo sé ( co ord . ) – L a s L ec c ione s del D ibujo . Ma dri d: Ed ic iones Cáte d r a , 1 9 95. I SBN 9 788 437 6 13 7 65 . C ap. I I – L o s D ibujos de l Di bujo, p. 1 71 . A per ce p ç ão i mp l ic a u m a s ér ie de et ap a s de pro ce ss a mento de i n for m aç ão sobr e os aconte c i mento s que oc or r em no des en ho (for m a / objec to ) e no proc es so ( m atér i a / temp o ) . “ E s t a s et ap a s come ç a m c om u m a e st i mu l aç ão v i s ua l i n ic i a l ( input ) que é t ra n sfor m ad a g r adua l me nte nu m produto c o g n it ivo fi n a l : a nos sa p erc e pç ão do s objec tos no mu ndo. I s to i mpl ica u ma s ér ie de fa se s s uces s ivas d e proc e ss a me nto, du r a nte a s qu a i s o re s u lt ado ( out put ) de c ad a et apa é de novo tr a n s for m ado na se g u i nte. ” Es te mo delo de pr oc es s a mento d e i n for m aç ão ba sei a- se n a c apac id ade hum a na d e : “ adqu i r i r i n for maç ão, a r m a z en á-la em me mó ria , r ecuperá -la, classi ficá - la e t r a ns for m á-l a.” (G L E I T M A N ; F R I DLU N D ; R E I SBE RG , 20 1 1, O p. Cit . P . 3 0 1.) 2 16 . A l be r to C a r nei r o con s ider a a re pre sent ação c omo projec ç ão tot a l do cor po ( f í s ic o / ment a l , matér i a /e nerg ia ) no es p aço e de st e no pla no, no sent ido de de sc obr i r a s s ua s própr ia s re laç õe s , no pla no da r epre se nt aç ão. (C A R N E I RO , 1 9 94 , O p. Cit . P . 29 . ) 2 17. C A R N E I RO, 1 99 4 , O p. C it . P . 29 . 218 . Su s a n Hu rley de sc re ve est a mo d a l id ade op erat i va que ass ent a nu m a dua l id ade ent re a s acç õ es que o a r t i s t a p erc ebe, i ntenc ion a is , p or t a nto, e a s acç õe s es p ont â nea s ou acçõ e s que gos t a r ia d e ver serem feit as . H U R L E Y, S u sa n – Ac tive Perc eption a nd P erceiv i ng Ac t ion : The Sh a r e d C i r c u it s Model in G E N DL E R , Toma r Sz ab ó, H A W T HOR N E , Jon h (e d. ) – P erc eptu a l E x per ie nce . O x ford : C la rendon P re ss , 20 06 . I S BN 0 1 9 9289 7 6X . P . 2 13 . 146 proCE sso E pErCEpçã o são rea l idades d i st i n t as , on de a i mag em m en t a l que se f or m u la é i ndepen dent e do co r po e d a percepç ã o. Co mo re f ere Castel lo-Bra nco , D esc art es ac reditav a que a imagem ret iniana e a ima ge m mental não são a mes ma c oi sa, não são nec e ssar iame nte c oinc idente s e que as image ns me ntais e a for ma c omo a s c ompreende mo s são inde - pende ntes da res ex ten sa, is to é , do c orpo e da pe rc epç ão . 2 19 Est a p ers pec t iv a fo r m a a base de u m a posiç ã o na qua l a repre- sen t ação é um ex erc íc io d esi n cor p ora do , ond e a con cepç ão e a com - pre ens ão d o esp a ço v is ua l d is pen sa m o cor po. 220 No e nt a nt o, n ão só temos u m a percepç ão d i f eren te do m o do co mo os d esen hos são f ei- tos, com o em ú lti ma i ns t â nc ia prec i sa m os de u ma t r a n sm utação da maté r i a pa ra o p oder v er e e x per ien c ia r no pla no da rep resentação . Co mo ref ere Me rl ea u- Pon t y , tr a t a-se de saber co mo a v i são fa z , “ com o é qu e ela se fa z” 2 21 – como resolve o qu e entr a pelos o l hos ; com o cons trói o qu e reg i st a e como i n fe re o qu e n ão v ê. Ma s t a m bém aq u i lo que, n ão e ntra n do pel o s n ossos ol hos , v ê na m ão e n os mo v i men tos n o desen ho o ef eito v is ua l do pens a men to. Co mo as thinking for m s q ue Josep h Beu ys recon h ec ia nos seus desen hos. Uma esp éc ie de v i sua - l idade háp t ic a, u m pens a men to i n cor porad o qu e se fo r mula num a est reita relação en t re o fa zer e o v er , p ercepção, a cç ão e pens a men to. Não se trat a a qu i ex pl ic it a men te apenas de i n terroga r sob re a percepç ão d o c a mpo v isua l, m as o desen ho, e le p rópr io com o c a mpo , on de se i r á gr afa r o c or po. Em pa r te , est a c on ce pç ão pode se r ex pl i- c a da p ela con cepç ão d o mod elo ca r tesia no da v is ão , o qua l vê n o t ac to 222 a v idê nc ia , que n os tor na presen te não a p enas d aq u i lo q u e ag e sobre os olhos, como o q u e ocor re do qu e va i da s mãos a té a os ol h os e da s m ã os ao pensa me nt o, co mo e x pl i c a Me rl ea u- Pon t y . 2 23 O cor po adq u i re c apac idad es e con hec i men tos na ex p er iê nc ia e v iv ên c ia qu ot id ia na. O a r t i st a ac t iv a essa s ex per iên c ias e ac t uações pré v ias n a prá t ica do desen ho , com o me mó r ia i n cor p o rada. E dest a f orm a vai c onseg u i nd o p reen c he r as l a c u nas entre o pen sa me nt o 2 19. C A S T E L LO -BR A NCO , Pat r íc i a Si lvei r i n ha – A V i sua l idade H áptic a e os Neu rón io Esp el ho . L is bo a : I n s t it uto de F i los ofi a d a L i ng uagem , Fac u ld ade de C iênc i a s So c ia is e Hu ma na s , Un iver sid ade Nova de L i s bo a , 20 1 4 . Tese de doutora mento. P . 4 , 1 7 . Ta m b ém em M E R L E AU-P ON T Y, Mau r ic e – O Ol ho e o E spí r ito . 6 .ª ed. L i sb oa : V ega , 2 0 0 6 . I S BN 9 726993 520. P . 33 e se g u i ntes . 22 0. C A S T E L L O - BR A NCO, 20 1 4 , O p. C it . P . 5. 2 21. M E R L E AU-P ON T Y, 20 0 6 , O p. C it . P p. 3 3, 3 4 . 222. “O s c egos , d i z D es c a r tes , ‘vêem c om a s m ãos’ . O mo delo c a r te si a no d a v i são é o t ac t o. Ta l modelo l iv ra-nos d a ac ç ão à d i s t â nc ia e de s t a ubiqu id ade que con s t it u i tod a a d i fic u ld ade d a v i s ão ( e t a m b ém to d a a su a v i r t ude ) . ” M E R L E AU-P ON T Y, 20 06 , O p. C it . P . 3 4 . 2 23. M E R L E AU-P ON T Y, 20 0 6 , OP . C it . P . 36 . 147 e a percepç ão , entre a ex p er iên c ia v isua l e háptica , en t re cor po e obj ec to . É u ma ex p er ien c ia qu e se desen v ol v e p or si m esm a na s sucessiv a s et apas do fa zer . Co mo esc rev e Susa n Hurley , “ os rec u r sos cog n it iv os e es t r utu- ras emerg em , ca mada após c a m ada, dos esp a ços c om pa r t i l had os de i n f orm ação qu e per m item a per cepç ão na acção ” 224 . Re l ac ion a mo - n os com a percepç ão na a cç ão d esde o i n í c io , qua ndo i n ic i a mos o desen ho , e é a pa r t i r d a í que co meça mos. Não est a mos prev ia men te a obser var ou a con he cer; es t a mos n u m a sit ua ç ão o n de o facto coi n - c ide com o faz en do . 2.5 . 2. ÓPT ICO / H Á PT ICO / CINEST ÉSICO: DIS JUNÇà O E CONE X ÃO A t r avés d a a r t ic u laç ão ópt ic o /h á pt ico /c i nes t é s ic o , pro c u r a mo s de fi - n i r o qu e h á de tác t i l no d esen ho , is to é , o qu e depende da m ão, d a pele e , p or o posiç ã o, da v is ão ; como se ma n i f est a m n o desen ho ; de qu e fo r m a as var ia n tes dest a a r tic u l ação re v ela m a s si ngu la r idades dos p rocessos do desen ho . Co meça remos po r ex plo r a r as h ipóteses a pa r t i r de d uas relações si mpl es : a subord i nação da mão a o ol ho co mo par ad ig ma de u m a ac tuação essen c i a l me nt e óptica e ou t r a qu e ex pl ora u m a f or ma de ver pela mão , sem subord i n ação da mão a o ol h o, co mo um modo te n- denc i a l mente h áp t ic o . 2 25 A pa r ti r dest as h ipóteses, qu e i nclu em a v i são , a mão, o ob jec to da represen t ação e a cç ão , ex plo r a m-se as sua s v a r iações e i nte rac- ções n u m a i nter -rela ção de est í mulos, nem se mpre pe rceb id os nos mo men tos de real i z ação e qu e cond u z em à v er i ficação d o qu e é per - cepc io nado pe los o l hos. A l ber to Ca r nei ro ref ere-o qua nd o d i z : O func ionam ento mec ânic o do ol ho humano e a s suas faculdades perc e ptivas intera ge m c om as c oi sas v i síveis e deter minam fo r ma s 22 4 . HURLE Y i n G E N DL E R ; H A W T HOR N E , 2 0 0 6 , OP . C it . P . 2 0 6. 2 2 5. O t er mo “h ápt ico ” der iva do g re go (h apt ik ós , - ê, - ó n ) que si g n i fic a “to c a r ” , rel at ivo ao t ac to ou ao to que, t ác t i l . De s t a su a or i gem et i mológ ic a dedu z- se que “hápt ico” é u m adjec t ivo de ( ou rel ac ion ado c om) a se n saç ão de t oc a r . Ap l ic ado à i mage m , foi ut l i z ado pel a pr i mei ra vez p or A loi s R ieg l. ( R I EG L , A loi s – L ate Roma n A r t I nd ustry . Rom a : G iorg io Bre t sc h neider, 1 985 . I S BN 8 8 8 50 07 7 67 .) So bre es te a s p ec to, con s u lt a r t a m b ém C A S T E L L O - B R A NC O, Pa trí cia S il v e irinha – A V i su a l id ade H ápt ic a d a Telev i s ão Conte mp orâ nea. I nte rcom – Rev ist a Bra si lei r a de C iênc i a s d a C omu n ic aç ão . São Pau lo. V ol . 32, n . º 2 (20 09 ) . P . 15 . 148 proCE sso E pErCEpçã o perc ebidas, re ais e ou v irt uais nas s eq uentes ver ifi c aç õe s sobre o proce sso des enhado . 226 Quem d esen h a est á , neste caso, n u m p rocesso c uj o f u n c iona- me nt o cons trói i mag ens qu e são me d iadas e con fo r mada s à v i s ã o, em qu e a s represe ntações cor res pon dem a essa ev idên c ia operativ a. A sens a ç ão q u e a v is ã o nos tra ns m ite qua n do obser v a mos o dese- n ho é est áv el – u ma coi sa já resol v ida , por t a nto , m u it o d i f ere nte da “v i são” fr agmen t ada qu e temos q ua nd o desen ha mos ; qu e est abelece c a deias de sen t id o qu e n ão se j ust i fica m u n ica me nt e na rea l idad e, ma s qu e se encon t r a m t a mbém na con sc iên c i a cor p ora l qu e o pró - pr io a c to d o desen ho con v o ca . Co mo ref ere A lber to Ca r n ei ro, “ u m cor po que respond e às c i rc u n st â n c ias d a sua en vo lv ên c i a a f ec t iva, qu e é t r a n sfo r mad o e t ra n sfo r m a na s suas a fecções e apetên c ia s” 227 . E c o nt i nu a : O dese nho , c omo meio e for ma de c on sc iên cia c or pora l, no do mínio dos in str um entos f ís ico s, c onc ept uais e simból ic os, c onduz à rea li - zação , à invent iv a e à nec es sária adaptação ou t ransformaç ão dos uso s e das téc nicas, no c orre spondente proc es so c og nitivo . 2 28 O en ten d i m en to dos se ntidos, qu e se con st ituem n o desen ho com o “possibi l idades d e fac to” , s ão um a f or ma de ap ro x i m ação às or ien t a ções , às “regr as” , às e st rat ég i as , qu e ex p l i c a m , até ce r to pon to , a cons tr u ç ão d e u ma c onsc iê nc ia operativ a e c r iativ a. Es t as são defi n idas pelo a r t i st a , pa r a a resol ução d o seu p roj ec to . S ão m u i- t as vezes pon tos de pa r t ida, i nt en ções , p retensões , obj ec t iv os, c uj a f orm ação não é i ns t a nt â nea. R es u lta m de u ma sér ie de m o v i men tos qu e c on f ron t a m o que é possív el pre v er co m as a lt er nativas obtidas da s ex per iên c i as . Na p r á t ica , o a r t i st a respond e às c i rc u ns t â nc ia s do seu dese n ho . O ol ha r (re) con hece o resu ltad o, o nd e se con f ron t a m o v i s ív el e o (es perad o) : n o processo, na rea l idade e na “ rea l i dade” d o de s en ho, n ão sã o ne cess a r ia men te coi nc id en tes. Se g u ndo Si m mon s 2 29 , es t a d iv ergê n c ia pode ex pl ica r -se porq u e “ o t ipo de v is ão n ecess á r ia pa ra desen ha r é d i fe ren te da v is ã o qu e u s a mo s nor m a l mente ” 23 0 . Não é n ece ssá r ia , por t a nto , a m esm a v is ão 22 6. C A R N E I RO, 1 99 4 , O p. C it . P . 37 . 2 2 7. C A R N E I RO, 1 9 9 4 , O p. C it . P . 36 . 22 8. C A R N E I RO , 1 9 94 , O p. Cit . P . 4 3. 2 2 9. Si m mon s , c i t ado por C A BE Z A S, L i no _ Per cepc ión y D es c r ipc ión , Ele mentos del D ibu jo in G ÓM E Z MOL I NA , Ju a n Jo sé ( c oord . ) – E l M a nua l de Dibujo : E st raté g ia s de Su E n s eñ a n za e n el Sig lo X X . M ad r id : E d ic ione s Cáted r a , 20 0 1 . I S BN 9 788 437 6 1 92 4 8 . P . 1 4 4 . 230. C A BE Z A S in G ÓM E Z MOL I N A , 20 0 1, O p. Cit . P . 1 4 4. 149 pa ra desen h a r ou par a id enti fica r obj ec tos ou par a le r u m l iv ro o u u m m apa. A per cepç ão é a m esm a ; tod a v ia , os n ív ei s de con centr a- ç ã o, os f oc os, os tempos, a a r t ic u lação com a m emó r i a e a relação com os esq uemas ap reen d idos s ão d i f eren tes . O desen h o “ dá-n os a ve r ” 2 31 o resu l t ad o (o obj ec to do a c to d o desen ho) e qu e s ig n i fica em cer to sen t id o aq u i lo qu e c a da u m v ê, o u pens a qu e v ê, a qu i lo qu e c a da u m sabe ou pens a qu e s abe e qu e é f u nda men t a l pa ra a e scol ha do p ro cesso qu e per m iti rá est a v i sua l idad e . É ope rativ o . I sto sig n i - fica bas t a nte ma i s do qu e “ ol h a r com os ol h os” . 232 Si g n i fic a, p ort a nt o, i n c lu i r a prev is ão d os sig n i fic a dos, dos resu l - t ad o s, i nc lui r os me ios e os i n st r u m ent os, pa r a a lém da natu rez a e d o c o nh e cim e n t o e sp e c í fico do ob jec to . É abr i r o o l ha r às d ú v id a s , às reco n side rações e às reflex ões sobre a qu i lo q ue p reten dem os resol v er ou e x p er i m en t a r . “O sig n i ficado d e dete r m i n ad o ev ent o, acção o u propósito , aqu ele qu e l h e atr ibu í mos, f u nda m en t a-se sob re a nte c ede nte s e c o n s eq uente s ” 233 , esc rev e A lb er to Car ne i ro. É es te o sen t id o qu e é d ad o pelo p ro cesso – u m c on junto d e acções ord ena - da s, entre u m a a cç ão e a segu i nte . Porém, esse sentido n u nca é to t a l me nt e obj ec t iv o. Desen h a r é u m processo em qu e a relação com o m eca n i smo da v is ão pode est a r de t a l modo e ntrelaçad o qu e não podem fu n c iona r sepa r a dos, embora esteja sem pre ame açado por u m qua l qu er m o v i me nt o desest abi l i z ad or . Nu m desen ho d e obser va ç ão , o mo v i men to d o cor p o pode sig n i fic a r a lterar tod as a s coorde nadas a n ter io r men te d is p ost a s n o papel. A pi ntu ra A nt ónio e Mar ia ( 1 96 1 - 20 1 0 ) , de A nt ón io Lopez , pa rece sus pen sa n a sensi bi l i - dade n os mo v i men tos e pa rece c ombi na r p er cep ções de natu rez a (sen sori a l) d i st i nt as . A mão col oc a pera nte os o l hos a ev idên c ia , não a pena s da d i fe - ren ça fi sio lóg ica qu e es pec i a l i zou os ó rgãos e as suas f u n ções , com o aj uda a compor “ o que o o l ho v ê” . A mão p rol onga a v i são pa ra a i lusão v iv ida por cada gesto , p or cada m o v i men to q ue faz apa recer o desen ho . Hen r i Fo c i l lon ref ere-o qua nd o a fi r ma : 2 31 . Não é o de se n ho que “ d á a ver ”; é o autor que recon hec e, n u m jo go com plexo onde a c u ltu ra v i su a l pré v ia que ele t r a n s p or t a , as r epr es ent aç õe s que fa z d o própr io des en ho dent ro de u m conte x to a r t í s t ico e c u lt u r a l , e as r epr es ent açõ e s que fa z d e si mes mo enqua nto des en hador s e revel a m n a s su a s dec is õ es . 2 32 . P a r a K . N ic ola ide s, e st e sent i do atr ibu ído ao ol h a r e st á d i rec t a ment e l ig ado à aprend i z agem do de se n ho : “ A pre nder a des en ha r é na r ea l id ade u m a que st ão de aprender a ver, ver cor re c t a mente, e i s to s ig n i fic a ba s t a nte m a i s do que l i m it a r - se a ol h a r c om o s ol hos . O t i po d e ‘ ol ha r ’ que eu d igo, é como u m a ob se r vaç ão que ut i l i z a os c i nc o sent idos e que c he ga ss em at ravés do s ol hos d e u m a só vez . Mes mo que us es (ap en a s ) os teu s ol hos , t u não o s p ode s fec h a r ao s sent id os – em vez d i ss o, ret én s ( pa r a u so f utu r o ) porque to do s os s ent idos t êm u m p ap el na o bs er vação que es t á s a fa zer. “ (N ICOL A I DES , K i mon – The Natu ra l Wa y t o D raw: A W ork i ng Pla n f or A r t St udy . Nova Iorque : M a r i ner Book s , 1 9 9 0. I SBN 039 5 530 0 75 . P . 5 .) 2 33 . C A R N E I RO, 1 9 9 4 , O p. C it . P . 4 6. Ant onio López “ An t oni o y Ma r i” , 1 9 6 1 -20 10 Ól e o s/ p ain el d e ma de ira 4 6x5 6c m Col ecção do a r tista 150 proCE sso E pErCEpçã o O art ista prolong a o priv ilég io da c uriosidade da infância be m par a lá dos limites dessa idade. E le toc a, apa lp a, calc ula o peso , mede o espaç o , modela a fluidez do ar pa ra aí prefigura r a form a, acar icia a super fíc ie de toda s as c oisa s e é c om a lingua ge m do tac to que com - põe a lingu agem da v i sta – um tom quente , um tom f r io , um tom pesado , um tom profundo , uma lin ha dur a, uma linha suave . 23 4 O processo do d esen ho dese ncad eia as ex per iên c ia s hápticas i mpl icada s em cada acção – toca r, tac tea r , aga r r a r , sen t i r o pe so, me d i r o es paço . A p a r t i r dest as a na log i as qu e se est ab el ecem com a percepç ão – e ntre a mão e ol ha r, e ntre o v er e o toc a r – a ex per i ên - c i a do d esen ho é amp lia da , atrav és dos sen t idos v i sua l e t á c t i l , n u m processo de co nt í n ua compensaç ã o. A este p ropós ito , L i no Cabez as t ra n sc rev e do ma n ua l de Bet t y Edw a rd s 2 35 o qu e poderá est a r em c a us a na relação en tre p erceção v i sua l e h áp t i c a, qua nd o desc rev e a ex per iên c i a do dese n ho de con tor no ceg o : À me d ida qu e o ol ho rast reia len t a men te os con to r nos de um obj ec to , a mão m o v e o i n st r u men to de d esen ho com i dên t ica “ pre c i - são e v eloc idade , res pond en do às m esm as i r reg u l a r i dades da f or ma. [… ] H á qu e i mag i na r que , enq ua nto se d esen h a, o l áp i s o u a c a neta est ão em con t ac to rea l com o obj ec to . ” 236 Est a ex per iên c ia p ode ser co n side rada, em ter mos el emen t a res, com o o pr i nc ípio g erado r do desen ho . Ref ere-se a u m mod o de dese - n ho em pa r t ic u la r , m as n ão é d el e ex c lusiv o . E x pl ica o processo c omo u m a c ont í n ua sen sação do m o do co mo os sen t idos v i sua l e t ác t i l se adeq ua m , m u lt ipl i c a nd o sobre o pa pel si n a i s va ga ro sos, seg u ros e i n tensos, m as ao mesm o tempo á ge i s e dú c teis. A s suas c a rac ter ís t icas e p ote n c ia l ida des est ão i n sc r ita s no se u con to r no e desen ho . “ A m ão resg ata o t ac to da sua pa ssiv ida de receptiv a , o rga- n i za-o p a ra a ex p er iên c ia e pa r a a acção ” 237 , esc rev e Foc i l l ion. Est a ad equa ç ão en t re os sentidos v i sua l e t ác t i l é o pr i nc í pio d e u m a d i me n s ão c or p or a l que é dada pela ex pa n são da ex p er iê nc ia do desen ho po ten c iada por essa equa ç ão – o l ho/m ão , meio/m a tér ia. Ta l eq uaç ão é o fu n da m ent o dos p ro cessos do desen ho . É a r el aç ão m a i s el em enta r, q u e or ie nta a s acções g rá ficas n as d i fe ren ç as entre o qu e é v i sto e o qu e é pen sad o, sej a u ma fo r ma /obje c to , u ma ide ia ou u m con ceit o. O d esen ho toca a m a tér ia e dei xa u m ras to , do m e smo 23 4 . FO C I L LO N, Hen r i – A V ida d as F or m a s , Se g u ido de O Elo g io da M ão. L i s bo a : E d iç õ es 70, 20 0 1. I SBN 9 78972 4 41 0 6 1 6 . P . 1 15 . 2 35 . E D W A R DS , Bet t y – Aprender a D ibuja r con el L ado Dere c ho del Cer ebro , 3. ª ed . Ba rce lona : Ura no, 1 9 94 . I SBN 8 4 795307 4 X . 236 . C A BE Z A S in G ÓM E Z MO L I N A , 2 0 0 1, Op. C it . P . 1 4 5 . 2 3 7. F O C I L L IO N, 2 0 0 1, O p. C it . P . 128 . 151 mod o qu e toc a o pen sa me nt o e dei xa v er as f or ma s do pensa me nt o, com o a a fi r m ação d e Josep h Beu ys já recon hec e – “ o s pens a men tos f orm a m -se ao d esen h a r ” 238 . Pa ra Joseph Be uys, os pens a men tos su r - ge m da conj uga ç ão da con centração e da emoção qu e se fo r m u la m d i rec t a m en te na m a tér ia do dese n h o . A en erg i a em oc i ona l que gu i a o lápis o u o pi ncel, em Beu ys, é a ex pressão d e u m a prese nça mo m en - t â nea d e u m a moda l ida de do co r po 239 , ma i s compl exa e c omp let a aber t a no d esen ho . At rav és do d esen ho , est a mos em co ntac to rea l com o ob je c to , i nd epend en tem ente da sua natu rez a , mate r i a l ou n ão. É i sso qu e Beuys n os d á a v er . Em A V ida das For ma s , He n r i Foc i l l ion d esc rev e est a “ ap t idão m ág ic a ” qu e conj uga d i fe ren tes est ad os da m at ér ia , d a percepç ão e da emoção , on de a e x per iên c ia se t ra nsfo r m a , na seg u i nte i mag em : A s minhas mão s, diz o Ce ntau ro , se ntiram rochedos, as águas, as inumeráveis plantas e as mais s ub ti s impress ões do ar , porq ue eu a s 238 . A s for m a s do pe n sa mento s ão, pa ra Beuy s , u m a es p éc ie de i nterloc utor , que “ ac t ua c omo med iador ent r e o cor po e o e s pí r ito ” . Beuy s v ive, por t a nto, no ac to de des en ha r a sí ntes e do c or p o e do e s pí r ito e ent re ga- se ao pro c es so de c omu n ic aç ão c omo u m meio d e f u nç õe s c at a l ít ic a s, q ue a not a s i smo g r a fic a mente em “ thinking for m s ”. ( BE U YS , Jos eph – T he Se c r et Blo ck for a Se c re t Per son i n I rel a nd [ c at á l ogo de ex posição ]. M ad r id : Mu se o Nac ion a l Cent ro d e A r te Re i n a So fi a , 1 9 94 . P . 2 02 .) 2 3 9. “ E m Byeus , o cor p o ser ve de ope rador de u m dev i r - coi s a do c or po, e de u m dev i r - cor p o d a coi s a , o que f a z re ss a lt a r a forç a como m atér ia mold ável.” (P . 324 ) Es t a a r t ic u l aç ão é t a m b ém u m meio, u m a pa ss agem ent r e o i nt er ior ( não -v i s ível do cor p o) e o ex ter ior (v i sí vel do cor po ) . O c or p o é agente e mei o des sa t ra ns for m aç ão, a i nda que “só no momento d a ex pr es s ão da i m agem eles s e c onec t a m , s e a r t ic u l a m e adqu i rem re a l id ade. ” ( P . 323) . ( G I L , Jo sé – A I m agem Nua e a s Pe quen a s Per cepçõ es . 2 .ª ed . L is bo a : Reló g io d ` Á g u a , 20 05 . I S BN 9 7897270 829 95.) Jo s ep h Be u ys “U nt i tl e d (Su n St at e) ” , 197 4 Gi z e mar c a do r s/ q uad ro n e gr o c omm ol dur a d e ma dei ra 1 2 0,7x18 0 , 7cm 152 proCE sso E pErCEpçã o ergo nas noites c e r ra das e c almas par a que surpree ndam as br isas e nelas enc ontre m sinais que augu rem o meu c aminho ... O C e ntau ro e Daf ne , favo rec idos pelos deus es, na sua metamor fose ou na sua estabi lidade , não pos suíam outras arma s que as da nos sa raça par a se ntir o universo , par a o ex per imentar , mes mo naque la s c or ren - tes t ransl úc idas dest ituídas de pes o e que a visão não v i slu mbr a. 24 0 Ao d esen h a r , penetra m os pro f u n da me nt e em a lg o qu e só est á rela c i onad o com o fa zer d o desen ho , n o sen t i r, n o toqu e e qu e se rev ela (no d esen ho) com o o que não fo i v isto nunc a d aqu el a m a nei r a. Fa v orec id os, como C en t a u ro e Da f ne , n a capac idad e de sen t i r , p a ra ex per i men t a r (n o pr ocesso, toda a super f í c ie do dese n h o) e ace- der , pelo traba l ho das m ãos, à qu i lo qu e a v i s ão n ão v i slu m br a – “ a s m i n h as m ãos sen t i ra m” , d i z Centa u ro, e a í en c on t rou os si n a i s do se u c a m i n ho . A f ruição do mundo ex ige uma espéc ie de inst into tác t il. A vi sta des - liza pe la super f ície do univers o . A m ão sabe q ue o ob j ec to é habi - tado pelo peso , que é l is o ou rugo so , que não está lig ado ao f undo de c éu ou de te rra de que p arec e fazer pa rte. A ac ç ão da mão defi n e o vazio do espaç o e o che io das c oisa s que o ocupam. Super f íc ie , volu me, den sidade , peso, não são fenómeno s óptic o s . 241 O mi sté r io dessa ap t idão q u e se ma n i f est a ao dese n ha r pa rece es t a r , em pa r te, na capac idad e de m uda r o nosso est ad o f ís ico e em o c iona l e na s m uda nça s da p ercepção . O desen ho é um a rea l ida de v i sua l . T o dav ia , o qu e se i mpõe à v i são , dura nt e o processo do d esen ho , “ é u m es paço sem f or m a e u m mo v i men to sem repo uso qu e ela tem d i fic u ldades e m seg u i r e qu e, em con ju nto , desa r t ic u la m o óp t ico ” 242 . O recon he c i men to dest a desa r t ic u lação do ó ptico, d u ra nte o processo , defi ne u m mo me nt o de tra ns po sição pa ra o qu e poder ía - mos d esig n a r sentid o háptic o do d esen ho . Um sen t ido qu e é re fer ido p or D e leu ze : […] se mpre que tive r dei xado de haver s ubo rdi naç ão di rec ta num se ntido ou no outro , […] quando a própria v isão d esc obre em s i mes ma uma f unção de toque q ue lhe é pr ópria, que só a ela perte nc e e que é d ist inta da sua f unção óptic a . 243 2 4 0. F O C I L L IO N, 2 0 0 1, O p. C it . P . 1 1 1. 2 41. F OC I L L ION, 2 0 0 1, O p. Cit . P . 1 1 1. 2 4 2 . DE L E U Z E , Gi l le s – F r a nc i s B acon : L óg ic a d a S en s aç ão . R io de Ja ne i ro : Z a h a r, 20 0 7 . I S BN 9 7885 3780 0256. P . 256 . 2 4 3. D ELE UZE , 2 0 0 7 , O p. C it . P . 256 . III P AR TE 256 257 7. O PROCE S SO C OMO E S T R A TÉ GIA . A ID EIA DE PR OCE S S O NO DE SEN HO C ON T EMP OR  NEO P ORT UGUÊS . T odo o desenhar t ende a tornar -se des enho, essa é a contingência d e o fa zer . 1 Manu el Zimb ro — O “p rocesso c om o es t rat ég i a ” resu me o p ropósito da i nv est igação sobr e as c on d ições processua i s ge ra l men te en v olv idas n a prod u ç ão do d esen ho e o m odo com o a id eia de p rocesso tem est ado p resente , com o c r it ér io p rog r a m á t ico e c r í t ico , no d esen ho con temporâ neo por t u g uês. Pa r ti nd o da h ipótese d e qu e ex i stem v a r ia nt es e m u t a- ções n a id eia de p rocesso, elaboro u-se este est u do d e c aso, on de se proc u ra ra m pist as pa ra o ente nd i m en to d os d iv erso s desen v ol v i- me nt os c r iativ os qu e se produz i ra m em Po r tuga l na s ú lti ma s déca- da s, pro porc io na n do u ma lei t u ra sobre as con d i ções e i mpl icações dos p rocessos de prod u ç ão /c r iação e m to r no do d esen ho . Um est u do sob re as var ia ntes da ideia de p roc esso no d esen ho con - tempo râ neo por tug uês sur g e na sequ ên c i a do reco n h ec i me nt o e i nte - resse progr a m á t ico , c ada v ez m a ior , sobr e o desen ho , a sua defi n ição , d i sc ipl i n a e i mpl icações n as prá t icas a r t í st ica s con tempo râ neas. E st a s qu e stões têm v i n do a se r cons id eradas, a i nda qu e pon t ua l m en te , na s d iv ers as pub l icações qu e, d esde a década de 90 do séc u lo X X , doc u - me nta m as pr i nc ipa is ex p osições de desen ho re a l i z adas em Port uga l e sobr e o desen ho po r t ug u ês : os cat á log os da s ex po sições, m as t a m - bém a r t igos, textos reu n idos e l iv ros , qu e têm centrad o u m es paço h eterog én eo de reflexã o sobre o d esen ho , l i st a nd o a s suas apl icações, rev end o a s sua s bases, o s seus m étodos e p rocessos . 2 1. Z I M BRO , M a nuel i n C A S T RO , L ou rde s – Som bra s à V olt a de Um Cent ro . L i s bo a : A ss í r io & A lv i m , 2 0 03. I S BN 9789 7237 1 0373 . P . 38 . 2 . Con s ider a mo s a ja nel a tem por a l e nt re a déc ad a de 9 0 do s éc u lo X X e 20 1 0, c omo a que reú ne o s elemento s m a i s s ig n i fic at ivos p a r a o enquad ra mento conc ep t ua l d o tem a . Cor r es p onde a u m p er íodo de g ra nde emergê nc i a c r iat i va ao mesmo t emp o que ag re ga a r t i s t a s e l i ng uagen s i med i at a mente a nter iore s e con s ol i dad a s , abr i ndo pi s t a s pa r a o f ut u r o, so bret udo p a r a a s ex p o siç õ es e publ icaç õ es que de sde e nt ão aconte cer a m. D e st ac a m-s e, des s as , a s se g u i nte s ex p o siç õ es e publ ic açõ es : O De sejo do De sen ho (19 9 5 ) ; A I nd i sc ipl i na do D es en ho ( 1 999); O G én io do Ol ha r – De se n ho como D i sc ipl i na 19 91 - 19 9 9 ( 2 000); Mo dos A fi r mat ivos e De cl i n açõe s – A lg u n s A spe c to s do De sen ho na D é c ada de Oite nt a ( 2 0 01) ; Dese n ho ( 2 0 03 ) ; E nt r e L i n h a s – D e sen hos n a Cole cç ão da F u ndaç ão Lu so -A mer ic a n a pa ra o De s env olv i ment o (20 05 ) ; D a E sc r it a à F ig u r a – De se n ho s da C olecç ão da F u ndaç ão de S er r a lves (20 05 ) ; At la s P roje c to de D es en ho (2 0 0 8 ) . 258 O PrOce ssO cOmO e stra té gia. a ideia de PrOces sO nO desenhO cOntemPOrâne O POrtuguê s. Men os f requ ent es, m as de rel ev â nc i a i nq ue s t i on áv el , s ã o os depoi men tos e reflex ões dos a r ti st a s qu e pen sa m o desen h o, o d ese- n ho na ide ia e o desen ho n o papel, qu e pens a m e que r eiv i n d i c a m a a uto no m ia e c on he c i men to pró pr ios d o desen ho , que pensa m e ex plo r a m os seus l i m ites, fi n s e uti l idades. 3 Estes d i sc u r sos su r g em assoc iad os a u m c on he c i men to, cada v e z ma is si m u ltâ n eo, d o qu e se pa ssa n a Eu ropa e n o s Est ados Un id o s e dos f enó me n os a r t ís t icos em ergen tes d a década de 80 do séc u lo X X , com g ra nde i mpor t â nc ia no con texto do dese n h o con tempo râ neo p or t ug uê s . 4 Nessa s décadas fi na i s do séc u lo X X , a s defi n ições e l i m i - tes da a r te f ora m c onsidera ve l men te qu es t io nad os e subv er t id os. A s d i sc ipl i n as t rad ic iona i s com o a pi ntu ra , a esc u ltu ra ou o desen h o, dei xa r a m de ser categ or ia s rel ev a ntes e a deq uadas pa r a c la ssi fica r ou n om ea r m u ita s p ropost a s a r tí st ic as então ensa iadas. […] os ar ti stas já não se regem por regr as e c onve nç ões ditadas pela tradição , desar tic ulada ao longo de um séc ulo de ruptur as e ino va - ç ões ; ut il izam a t ra dição c omo c o nhecime nto dos modos c o mo ela f oi suc es sivamente reinventada e subver t ida . 5 3. Con s ider a m-se out r a s publ ic aç õe s c omo a rev i st a PSI A X – Est udos e Re flexõe s sobr e De se n ho e I m agem ; a s publ ic açõ es d a ed itor a A s s í r io e A lv i m / F u ndaç ão Ca r nom a e Cos t a : PA I X à O Ped ro A . H . – De sen ho – A T ra n s pa r ênc i a dos Sig no s (20 0 8 ) ; BA R RO C A , Da n iel – E st i l haç o (2 0 0 6 ) ; P IME NT à O , D io go – C ous a (20 0 6 ) ; M OL DE R , A d r ia na – A M ad r ugada de W i l hel m e L e opold i ne (20 07 ) ; NOG U E I R A , C a rlos – D e se n hos , C on st r uçõ e s e O ut ro s Ac ident es (20 0 8 ) ; PA I X ÃO , P ed ro A . H . ; M O RE IRA , Ru i – A Fest a “ E d O i L ayla Y adu ra” (2 0 09 ) ; tex t os de ex p os iç ão, fol h as d e sa la , a r t i gos em jor na is e r ev i st as s obre o s a r t i st as que d ão cor po ao e st udo de ca s o. 4. U m a not a pa ra de st aca r a 1.ª E x p osiç ão Di á lo go sobre A r t e C ontempor â ne a , rea l i z ada e m L i s bo a , no Cent ro d e A r te Mo der n a da F u ndaç ão C a lou st e Gu l be n k i a n , em 1 985 . “ Ide a l i z ado p or René Ber ger no fi n a l dos a no s 70, o prog ra ma d a s ‘ E x po s içõ es- Di á logo’ v i sava c r ia r u m a a lte r n at iva c r ed ível à i m agem t r a n s v iad a d a a r t e cont emp orâ nea que o públ ic o re cebi a p or i nte r méd io d a s fei r a s de a r te (d em as i ado m a rc ad a p el as le i s do merc ado ) e da s g ra ndes bien a is ( de ma s i ado l ig ada aos ‘i nter es se s e po der es ’ daquele s que a s promovem ou sus tent a m) ” . Es t a e x p os iç ão foi i nd i sc ut ivel ment e u m dos ac onte c i mentos c u lt u r a is que m a r cou a déc ad a de 1 98 0 e m Por t ug a l , r es u lt a ndo num a e s pé c ie d e rev i s ão de momentos i m por t a nt es de u ma p a r te s ig n i ficat i va da a r te do s a no s 60 e 70 do sé c u lo X X . Por t uga l , r ec orde- se, a ss i s t ia ao c omp a ss ado pro ce ss o de v is i bi l id ade d a pro duç ão a r t í st ic a p or tug ues a , apó s u m lon go per íodo de i s ola mento c u lt u r a l , u ma dé c ad a volv id a so bre a qued a do a nti go reg i me, onde a ac t ua l id ade a r t í st ica i nter nac ion a l ra ra mente enc ont rava luga r no nos so p a í s . “ Um p ouco à i m agem do que es c r eveu na é po c a , a lei t u ra ac t ua l do c r ít ico Jo sé Lu í s Por f í r io re a fi r m a a v i r t ude des t a ex p os iç ão enqua nto op or t u n id ade í mpa r pa ra o c ont ac t o d i rec to do públ ico e de u ma e mergente ger aç ão de c r i adore s com u m a pa r te s ig n i fic at iva d a pro duç ão a r t ís t ic a c ontem por â nea . […] P or seu l ado, o c u r ador João Si lvér io enc a ra hoje es t a ex p os iç ão como u m ponto de p a r t id a pa ra eventos c ongéner es – c omo os “ Enc ont ro s Lu so -A mer ic a nos” ou a s “ Jor n ad a s de A r t e Contem por â ne a” . A rqu i vo Ler + A r te [ C on su lt. 1 4 Ja n. 2 0 1 4 ] D is p on ível em W W W: ht t p : // a rqu ivola r t e.blo gs pot .pt /2 0 08 / 03 /te s te- 1 . ht m l . 5. W A ND S C HNE ID E R , M ig uel ; F ARIA , Nuno, A I nd i s c ipl i n a do De sen ho . Li sbo a : I ns t ituto de A r te Contemporâ nea , M i n i s tér io da C u lt u ra , 1 9 9 9 . I SBN 9 72856 0 123. P . 1 3. 259 Desde os a nos 60, as con cep ções e usos do desen ho passa r a m p o r t ra n sfo r mações r a d i c a i s. Seg u ndo W a ndsc h ne ide r e Far ia , as t ransformaç õ es, e a expansão da s f ronteir a s do que ho je se ente nde por desenho , re mete m pa ra du as mudanç as f undame ntais que i mporta refer ir e que a fec tar am ter minante mente o e statuto da disc iplin a : em pr imeiro lu gar , a c onquista de finit iv a de autonomia, isto é, o reconhec imento e a ex ist ênc ia do des enho co mo obr a inde - pende nte não subordina da a out ras disc iplinas ; e m segundo lugar , e por via dest a, a c onqu ista de um es tatuto não inferior ao de outras disc iplinas. Q ualq ue r uma des tas mudanç a s deter mina o ol har q ue hoje po demo s ter s ob re o des enho . 6 E st e r e c o nh e cim e n t o é ho je assu m id o e con fi r m a do pel o ex tenso n ú m ero de ar t is t as, de d i fe ren tes g erações, qu e u sa m o desen h o com o l i ng uag em de ref erên c ia , en qua nto p rática a ut ón oma , com e s t at uto pr ópr io, no c onte x to d a s pr át ic a s a r t í s t ic a s c ont em p or â - nea s . 7 Es te é o p r i nc ipa l s i nto m a d a a uto n om ia do desen ho re lati- v a men te a o est atut o (men or ) qu e o l ig a va a u m papel pro pedêu t ico e a u x i l ia r , que e ra então reco n hec ido n o processo de con cepç ão e rea l i z a ç ão d e obras. T o dav ia , “ a a ut on om i z ação d o desen h o não sig n i ficou o aban- do n o ( por com pl eto) do estudo co mo t er ren o de v er i ficação de i deia s e de elabo ração de f or ma s” . 8 E se p oder ía mos ser le v ad os a pen sa r qu e e st a mos pera nte u ma ( d i)v i são d og m ática do desen ho , “ [ o ] est ud o con t i n uo u a ser u m proced i me nt o cor ren te em m u itos a r t i s- t as , embora l ib er tos d os cód ig os de represe ntação e da s n or ma s qu e defi n ia m a sua i n serção e fu n c iona l ida de n o processo c r ia t iv o” 9 ; e , com o ref ere m W a n d sc h n eid er e Far ia , “ est a p ers is tên c ia é rev ela- dor a , ‘mutat is mutandi s ’ , do dese n h o com o lu ga r d i n â m ico on de as id eias e a s i mag ens ga n ha m f orm a” 10 . Pode r í a mos d i zer a este p ro- pós it o qu e a au ton om i z ação d o desen ho re lativamen te às sua s con - v enções, ao a la r ga men to da s sua s f ron tei ras e ex per iên c ia s, abr iu 6. W AND S C HNE ID E R; F ARIA, 1 9 9 9 , O p. C it . P . 1 4 . 7. Temos a ss i st ido na s ú lt i m a s déc ad a s á con fi r m aç ão e re con hec i mento do de se n ho num c ontex to es p ec í fico de le g it i m aç ão, que tem p as s ado pel a “pr ol i feraç ão do des en ho nos c i rc u itos i n s t it uc ion a is e g a ler í s t ico s, i nc lu i ndo os m a is pr es t ig iado s, e con s equente mente a u m a i n fl aç ão ig ua l mente a ss i na lável da s ua pr es enç a no c a m po do cole cc ion i s mo. […] Na re a l id ade, a leg it i m aç ão do de sen ho não é s en ão o ponto c u l m i n a nte de u m mov i mento que p erc or re t odo o s éc u lo X X , em que a d i sc ipl i n a conqu is t a pl ena mente a s ua autonom i a” . ( W AND S C HNE ID ER ; F ARIA , 1 99 9 , O p. C it. P . 1 1 .) 8. W AND S C HNE ID ER ; F ARIA, 1 9 9 9 , O p. C it . P . 15 . 9. W AND S C HNE ID ER ; F ARIA, 1 9 9 9 , O p. C it . P . 1 6. 10 . W A ND S C HNE ID ER ; F ARIA, 1 9 9 9 , O p. C it . P . 12 . 260 O PrOce ssO cOmO e stra té gia. a ideia de PrOces sO nO desenhO cOntemPOrâne O POrtuguê s. c a m i n ho a um a redefi n ição e o r ie ntação p rocess ua l do desen h o com o es paço a ut ón omo . É recon he c i da a g ra nde d iv er sidade d e usos e poten c ia l idades c r iativ as a ssu m idas p el o desen ho n u m qua d ro de ref erên c ia on de as t rad ic iona i s d isc ipl i n as perdera m a sua i n flu ên c i a n or mativa. T a l s ituação c r io u con d i ções de eme rgê nc ia de u m es paço on de os desen hos se d esc rev em a t ra v és do d esen ho , u m retorno c r ítico à sua pró pr ia “ ont ol o g ia” e p rodu ç ão . Os desen hos podem desc rev er -se com o mod elos c r iat iv os aos quai s os a r t is t as d ão co r po atrav és do desen ho – o d esen ho com o desen ho . Uma d as pr i nc ipa is c onsequ ênc ia s dest a redefi n ição d e d i sc ipl i- na s e da recon hec ida a u ton om i a do d esen ho pa rece resu m ida na i nten ç ão da perg u n t a de M a n u el Cast ro Ca lda s – O que nos resta hoje do dese nh o ? 11 A perg u nt a i mpor t a , i n depen den teme nte d e ter o u não resp ost a , na prom e ssa i mp l í c it a de en u mera r as aplic a çõe s do d ese- n ho , rev er os seus f u nda men tos, os seus mét odos e p rocessos , n u m qu e st io na me nt o con t í nu o qu e, d esde as ú lt i m as déc adas do séc u lo X X , c i rc u nsc rev e a lóg ica de u m a p rática au to - reflex iv a. Como decl a ra Ca st ro Ca lda s : […] não se t rata de opina r sobre se a categoria ‘ em si’ so brev ive u às vel oc idades mediática s da imagem c onte mporâne a, mas de re fl ec t ir sobre uma pr át ica que , não podendo se r pen sada senão na his tória das sua s oc or rênc ias, c on siderando aq ui lo que no dese nho trans - bor da de si me smo [… ] 12 Nest a pr oc ur a, c h ega r -se-á a u m pont o em qu e a iden t i ficação do desen ho co m a l i n h a ou co m o gesto , c om uso d e mei os abrasiv os o u fluidos a pl icad os sobre pa p el, c om ar t i c u lação fu nc iona l entre o ol h o e a mão , a té ao v í nc u lo p r iv i leg iado q u e est ab el ece com o p rocesso me nta l e a energ ia c r iativa, na l i ng uag em de B r uce Na u ma n , a r r isc a - mos chega r a m u i tos e a m bí g uos fi n s. Já não se trat a apenas da ques - t ão , sempre p re sen te , da sua relação com o processo c r i a t iv o ou da f ormul ação d e u m lu ga r do d esen ho com o obra , ma s de te r qu e pro - c u ra r o desen h o nos i nd íc ios, n os ra stos daqui lo q ue o l iber t a , t ra n s - f orm a e or ien t a , no con tex to da s prá t ica s a r t ís t icas conte mporâ neas. O con texto de pr odu ção do d esen ho na cont empora n eidad e col oc a o desen ho co mo um a ac t iv idade e m c a mpo ex pa nd id o, a d ap t a ndo a con hec ida ex pressão d e R os a l i nd K r a u ss, comp reen d ido , p ort a nt o, 11. C A L DA S , M a nuel Ca st r o in S I L V É R IO, João – E nt re L i n ha s . D es en ho n a C olec ç ão da F u nd aç ão Lu s o -A mer ic a n a , L i sbo a : F u ndaç ão Lu so -A mer ic a na , L i s bo a , 20 05 . I S BN 9 78972 8 6 5 41 62 . P . 23. 12 . C A L DA S in SI LV É R IO, 20 05, Op. C it . P . 23. 261 pa ra l á dos l i m ites dos se us mei os e f u nções ma is com u n s, a l a rga ndo as sua s f ron tei ra s e ex per iên c i as. 13 Seg u nd o M ig ue l Cas tro Ca ldas : T odo o des enho c ontemporâneo pressupõe este mar de mest iç agem e só pode ser lido segundo a singu laridade c om que ne le navega: t raço que recorda e f a z vol tar , t raç o qu e tapa e apa ga, traço que se s ome e dei xa o vazio ou, inversam ente, se cola ao t raço já feito e ao traço ‘ qua lquer ’ , subst ituindo o agi r pel o ges to étic o de supor , ac eitar , as sumir , respond er . S obre um chão de c o mposiç ão tor nado t ranspa - rente, a ta refa de resistir , c om uma ‘ exac tidão s em res to ’ , à ‘taga - rel ic e ’ da for ma e à ‘ aproximação se m fi m ’ que esta f az do mundo , apena s pa rec e ter v indo c oloc ar sob re o des enho responsabi lidades a que este , tal c omo a s outras artes, não c on segue responder . 14 O desen ho das ú lt i m as déc a da s reflec te essa s est ratég ias c r i a t iv as e processua i s qu e a r r i sc a m o s seus l i m ites, m as t a mbém reflec te , f í sica e c og n itiv a men te u ma no va percepção sobr e o en vo lv i men to do co r po no d esen ho , recod i fic a nd o em n o v as c i rc u nst â nc ias pro- pr ie dades i ne ren tes a todo o d esen ho . D este pos i c i ona men to sob res- sa i u m i nte resse a l a rgado e m u ltid i sc ipl i n a r , qu e f u n c iona m u ita s v ez es com o u m c a mpo de e x p a n são e con t a c to, en t re ter r itó r ios de natu rez a d i fe rente , ond e o desen ho se faz e o a r t i st a proc u ra , entre o pens a r e o fa z er , a s perg u nt as e a s resp ost a s pa ra o que pot en c i a l- me nt e o desen ho pode rá ser . Embor a a eq uação e ntre o fazer e o pe nsar tenha sido tomada, du rante as úl tima s década s, co mo carac ter íst ica ontológica e parti - c ula r me nte distint iva do desenho , este é hoje um ter reno de prátic as que não relevam nec e ss ariam ente d e uma or ient açã o proc es sual, podendo dar lu gar a o bras cuidadosame nte plane adas e m que o pen same nto prec ede , e m gran de medida, a exec ução . D o mes mo modo , noç ões re c orre nteme nte as so ciada s ao dese nho , c omo a es pon - taneidade ou a si mpl icidade formal, dei xam hoje de ser operativ as quan do c onfrontada s c om o t ra bal ho de c er to s art ista s . 15 Dest a s m u t ações dá t a mbém conta Del fi m Sa rd o, q ua nd o ref ere que : 13. A sp ec to s des envolv idos no s ponto s 1 e 6 de st a tes e, re s pe c t i va mente : Ponto 1. Contex to e Ci rc u n st â nc i a do P ro ce ss o em D es en ho ; e Ponto 6 . O s Pa lco s do De se n ho. 14 . C A L DA S in SI LV É R IO, 20 05, Op. C it . P . 25. 15. W A ND S C HNE ID E R; F ARIA, 1 9 9 9 , O p. C it . P . 12 . 262 O PrOce ssO cOmO e stra té gia. a ideia de PrOces sO nO desenhO cOntemPOrâne O POrtuguê s. mui tos ar ti stas c o ntemporâneos têm v indo a des envolver perc ur - sos, no c ampo do dese nho , que se apr oximam destes univers os de repres entaç ão [ estr ut ur a s téc nica s, ar qu itec tónicas ou de projecto ] , hab itualmente dominado s por uma dimensão téc nic a. É o c aso de art ista s que usam mapas c omo mat ri z pa ra o desenvolvim ento de trab al hos que os sub jec tivam ou que p ar tem d e uma est rut ur a car - tográfi ca par a a c onver ter numa razão emo cional, afect iva ou de reorg anização de elos afect ivos. E sta pos sibi lidade do dese nho trans - ladar na metodo logia q ue per tenc e a um uni vers o de repres entaç ão rigorosa ( mai s ou meno s cie ntí fi ca ) par a um universo de ‘ mapea - mento e moc ional ’ oc upa um lug ar su bstanc ial dent ro do universo da repres entaç ão gráfi ca no inter ior da arte c onte mporâ nea . 16 É o recon he c i men to, em par te , da s poten c ia l idad es da l i ng ua- ge m do d esen ho , den tro dos pa r â metros c r ít icos qu e no sécu lo X X or ie nta r a m no vas poss ibi l i dades e so lu çõ es i mpl icada s n o fa zer do desen ho – q u e cons t itu i a s con d ições d a sua próp r ia v isua l idade – e qu e c on t r ibuí ra m pa ra em ergê nc ia de u ma c ateg or ia ond e o pro- cesso su r g e dete r m i nad o en qua nt o p robl ema do p róp r io desen ho . 16 . SA R DO , Del fi m – Dese n har o V en to in ROM à O, A nd ré ( et al. ) – A TLAS P r ojec to de De sen ho. L is bo a : A sso c iaç ão A va l a nc he, 20 0 8 , I SBN 9 78 9 8 9 2 0 11 4 93 . P. 4 2 . 263 7. 1 . OP ÇÕES ME T ODOLÓG ICAS E ENQUADR A MEN TO C ON CEPT U A L . AS R A ZÕ ES D A E S COLHA . Ao d esíg n io d idác t ico deste capí t u lo – O Proc e sso c o mo Est ratégia. A Ideia de Proc ess o no D ese nho Conte mpor âneo Port uguês – c or r e s p o nde a escol ha de u m c on junto d e a r ti st as e obras de ref erên c i a do d ese - n ho c o ntem p or â neo p or t ug uês , del i m it ad a c ronolo g ic a mente p e lo per íodo pós-década de 90 do séc u lo X X , qu e i nc ide em p r á t icas a r t í st i c as centrada s na ex plo ração d os processos e dos esqu em as c r iativ o s g era l me nt e i mpl icados na ac t iv idade d o desen h o . Est a será semp re u ma es col ha pa rc ia l , c on d ic io nada pela d i sp on ibi l ida de da i n f orm ação reco l h ida, m as sobret u do pela na t u rez a reser va d a do pró pr io d esen ho , em m u itos dos caso s recolh id os. E st a cond ição abs cen a 17 – f ora de cena – ma n tém -se com o ma rc a on to lóg ica do desen ho m es mo e m con d i ções em qu e a sua prá t ica se con f u nde com u ma prática ex p osit iv a . É u ma e scol ha desde log o l i m it ada n o / pelo t empo, se co n side ra r mos a q ua ntidade d e obras e de a r t i s - t as que , desde as década s de 80 e 90, têm col oc ad o o desen ho n o lu ga r centr a l d a sua i nv est igação ar t ís t ica e ap rofu nda men to das suas l i n ha s de tr aba l h o . M as t a mbém u m a escol h a l i m itada pelo en qua d ra me nt o con ceptua l do t ema , qu e col oc a o processo n o lu ga r centr a l d a i nv est igação e p r á t ica do dese n h o . E será semp re u m a escol ha i nco mpl et a, a rbitr á r i a com o qua lq u er c or pu s o é, e event u a l me nte prov i sór i a . 18 Não est á em causa u m ju í zo de v a lor sobr e os t raba l hos o u o s a uto res , ne m t ão po u co a coerên c ia da sua obra: p or v ezes , a opção reca i em c a sos si ngu la res de desen hos rea l i z a dos n u m proj ec to par t ic u la r, m e smo q ue o n ú c leo cen tr a l do t raba l h o do a r t i st a seja desen v olv ido n ou tr a prá t ic a. Est a c on d ição de a lt er idade é ta m bém u m a ma rc a sig n i fica t iv a do d esen ho c onte mp or â ne o. O c or pu s sele cc ion ado n ão re flec t e, p oi s , nen h u m a i nten ç ão pa no r â m ica do en ten d i men to d o processo do d esen ho na 17. B I SM A RC K , Mári o – Penti mento, ou Fa zer e Feit o, ou o D es en ho “ A b s- C eno” , ou , Ta lv e z , o E log io do E r r o in P S I A X , 6 , sér ie I . Por to : FA U P P ubl ic aç õe s , 20 08 . P p. 45 - 49 ; pp. 6 3 - 70. 18 . C it a ndo João L i m a P i n ha ra nda in Mo dos A fi r m ativos e D ec l i n açõe s – A lg u n s A spe c to s do De sen ho na D é c ada de Oite nt a . L i sb oa : I ns t it uto d e A r te C ontemp or â nea , M i n i sté r io d a C u lt u r a , 2 0 0 1. I S BN 972 8560 1 92 . P . 1 1. “ Um a es col ha é s empr e prov is ór i a – i nc ide s obre a s c a r rei ra s a nter ior es à c on s ider ada , s obr e c a r rei ra s su rg ida s ou a fi r mad a s nes se s a nos e s obr e c a r r ei ra s ( ou obra s , mu it a s veze s ) m a r g i na i s à con s ag raç ão i med i at a do te mp o. ” 264 OPçõe s metOdOl ógica s eenquadrament O cOncePtu al. as razõe s da e scOlha. a r te por t ug u esa c on temporâ nea. Nã o se prete n deu e nco ntra r pa ra - d ig m a s fi x os n u m a situação ca rac te r i z a da p ela sua l i m i n a r idade , ma s si m v i slum brar c er tos m odel os e ele me nt os t ra nsubj ec t iv os na s est ratégi as do desen ho . Em re su mo , o c or pu s sobre o qua l a i nv est igação se d eb r u çou não te m prete nsõ es en c ic lopéd icas nem v a lo r a t iv as. Cons t itu i u m es paço o nd e ev entua i s recor rên c ia s e esqu emas processua is se podem ensa ia r a pa r t i r de prá t icas es p ec í ficas . Na d efi n ição da s opções metod ol óg ica s cons id ero u-se qu e a escol ha dev er ia ap resenta r a r t is t as e obras que susten t assem a ide ia de p rocesso como ref erên c ia centr a l ou em ergen te na s ua pr odu - ç ã o (a r t ís t ica). E m qua lqu er dos ca sos, fo i ig ua l m en te considera do qu e a s escol h as dev er i a m c onst itu i r -se c om o tes tem u n h o de u m dete r m i n ad o mod o de pens a r o desen ho – a par t i r d as sua s con d i - ções processua is – m a i s do q ue n o c r itério tempo ra l /h is tó r ico o u ge rac io na l. Est a a mostr a pret en de ser , por isso, u ma reflexão sob re as var ia n tes da ideia de p roc esso neste espaço con c reto, a par t i r de u m conj u nt o de a r t i st a s e desen hos c uj a s est ratég ia s c r ia t iv as s ão mo t iv adas p ela sua con d i ç ã o processua l . T ra t a-se , p or t a nto , de u m a reflexã o e ref erên c ia ao p roc esso com o con d i ç ão v is ív el do pen - s a ment o, c omo s i nt om a d a s pro pr ied ade s ger ad or a s dos de s en hos a t rav és dos a c tos qu e os rea l i z a m . Foi assi m assu m ido q ue r na s qu e stões l igadas à produ ç ão d o desen h o, q ue r na a r t i c u lação co m as l i ng uag ens p essoa i s dos a r t i st a s, qu er na ex pressão co nti n uada o u oc as io na l – com o h ipótese de traba l ho – n o c on texto prod u t iv o e c r iativ o dos a r t is t as. A escol ha dos a r t is t as i n c lu i, p a ra a lém da s mo t iva ç ões en u n c i a - da s, a r t is t as de d i f eren tes gera ções, a r t i st a s com l i ng uage ns c onsol i - dadas e a r t i st a s e l i ng uag en s em erg ent es no pa n ora ma do desen ho c onte mp or â ne o p or t ug uês . E s t a e s c ol h a pr et ende apr of u nd a r l i n h a s de traba l ho j á consol idada s n o pa no ra ma a r t ís t ico po r t ug u ês e a r t i - c u l a r esse con hec i m ent o com ar t is t as e h ipóteses de traba l ho i né d i - t as ou m u ito d iv ersi ficadas ond e o desen ho d esa fia os seus próp r ios limi t e s co m o dis ci p lin a. A escol ha d as obras tev e com o fi na l ida de asseg u r a r a v isua l idade poss ív el dos co nte údos q u e se ap resen t a m e doc u m en t a r v is ua l - me nt e a h ip ótese d e tr aba l h o. A s ob ra s são o testem u n h o, q u e por me mó r ia d i rec ta – no atel ier dos a r t is t as – , fo l hea da s n os c atá logos, o u porq u e med iadas p ela l i ng uag em v erba l e desc r itas em entrev i s - t as , con v ers as ou te x tos pro tocola res ond e o a r t ist a desc rev e o seu processo c r ia t iv o, sustenta m doc u men t a l men te a n ossa h ipótese 271 Re v ela n do , na cond ição o r ig i ná r ia (e i n qu i r id ora) da sua obra , a comp le x idade d o seu pens a men to g r á fico, Fe r n a nd o Ca l ha u 27 pro - põe cer ta s osc i l a ções que se co n st ituem n u m c a mpo de pes qui s a – ex per i men t a l, ofic i na l e f or m a l – do desen ho , ond e f oi a ve r ig ua ndo os l i m it es e poss ibi l ida des – a repet ição , a ideia de limite , de redução e de del imitaç ão . 28 De sconst r u i ndo um a supost a l i nea r idade d i sc u r siva, os desen hos e x plo ra m d iv ersa s qu estões, n ão d ev end o ser co locada s n o mesm o pla no d e percepç ão . O s desen hos d e Fer na n do Ca l h a u pro- põem sucessiv as proc u ra s : en t re o su r g i me nt o e a per m a nên c ia do n eg ro, o n eg ro mo n oc ro mático, en t re g r a ndes e peq u ena s esca la s, en t re o f o r m at o qua d r a do e as suas der iva çõ es, a ser i a l ida de , en t re o r igo r d a ex ec ução e a a uto n om ia d a m ã o, en t re o pen sa r a m at er ia l i- dade e o g es to qu e se fa z o desen h o, mas t a mbém traçar , preenc her , c obrir , de fi nir u m espaç o ; marcar a pas sagem do tempo , marcar redondamente o tempo . Citando ainda Ví tor Sil va, estes des enhos part icipam de uma lógica de inter va los, de ten sões e de dispos içõ es da form a, em c ujos mov imento s se efec t ua a ‘trama singu lar do espaç o ’ , a aur a, a qual a t ra i par a si os sinais de o c ul ta - ção e de dis tânc ia imp licados na v is i bi lidade das próprias c oisa s . 29 Fer na n do Cal hau l evo u ao l i m ite a lg u m as dest a s qu e stões, n as d i f eren tes sér ies, como um a cons t a nte p roc u r a e de l i m itação do c a mpo do desen h o. N a rea l idade , aqui lo q ue está em jog o est á sempre em de v i r e em tr a n sfo r mação, n u ma s uperf íc ie m etod ica men te p reen - c h ida a n eg ro, “ qu e abre e a fi r ma u m pro f u nd o es paço em ab i smo ” 30 . Em relação ao p reto, d i z : “ É u ma m a neir a de ex por a i deia o ma is c l a ra me nt e poss ív el sem com entá r ios n en h u n s, sem ou t ra s coi- sa s qu e p ossa m d i st r a i r o que e u qu ero ex p o r . É u m a m a neir a de 2 7. “Como ac ontec e com mu ito s a r t i st as c ontem por â ne os , p ode mos d iv id i r a pro dução de C a l h au nest a á rea em d oi s g r upo s : o s de sen hos c la r a mente autónomos, com e s p ec i fic id ade própr ia , e o s des en hos s ubs id iá r io s de out ra s l i ng uagen s , o des en ho enqua nto esb oç o ou projec to. Cont udo, a pro dução e m des en ho tem , no conju nto da o bra d o a r t is t a , u m cor p o su fic ient e ex te n so e c obre u m léx ic o for m a l e conc ept u a l d e t a l for m a a la rg ado que o deveremos c on s ider a r c omo u m c a mp o à pa r te ” . F ARIA , Nu no in CA L H AU, Fer n a ndo – Fer na ndo Ca l h au – De sen ho 1 96 5- 20 02. L i s bo a : A ss í r io & A lv i m , 2 0 0 8 . I S BN 9 789723712896 . P . 7 . 28 . F ARIA in C A L H AU , 20 0 8, O p. C it , P . 1 7 . 2 9. F ARIA in C A L H A U, 20 0 8 , O p. C it , P . 9 ; SI L V A , Vítor – E t S ic i n I n fi n it u m . O De se n ho de Fer n a ndo C a l hau in L eit u r a s . L i sb oa : Cent ro de A r te Mo der na / F u nd aç ão Ca lous te Gu l b en k i a n , 20 0 7 . P . 1 7 . 30. F ARIA in C A L H A U, 20 0 8 , O p. C it , P . 9 . cor t a r ele me nt os qu e eu conside ro qu e não são esse nc ia is, c o r t á -l os a té fica r na e spi n ha . G osto de si mpli fica r a o má x i mo . ” 31 A repet ição desse fa zer ( v iv ido) é u m cor rela to qu e detec t a recor - rên c i as de quase i mp er cept ív el d i f eren ç a qu e pa recem eter n i za r -se, en t re as poss ibi l idad es e os l i m it es. O desen ho d e Ca l ha u dev e ser abo rdado co mo um a prese nça t a ng ív el qu e remete par a “ o lado m etód ico , obsessiv o, d e repet ição de u m mesm o gesto , de pree nch i men to por v ezes c u idad oso, ou t ra s v ez es bru sco ou po u co or todo x o de u m a super f íc ie, d e ma rc ação da pa ss agem do tempo” 32 . No e s c u r o . 31 . F er na ndo Ca l hau ent re v i s t ado p or V a ness a R ato, in Jor n a l P úbl ico , ed . 21 de Out u bro de 2 0 0 1, pp. 38 e 39 . 32 . F ARIA in C A L H A U, 20 0 8 , O p. C it , P . 1 1. Fernando Calhau “# 3 67 , # 3 6 8, # 427 , # 3 66 , # 4 2 6, # 425 , 1992” Ól e o s/ p ap el (4 x) 14,6 x 10 ,5 c m; ( 2 x ) 1 5 x 10 ,5 c m 272 alguns e xemPlOs POssíveis – cara cterístic as centrais à Prá tica Quando a L our de s [ C as tro ] diz : ‘P ous o a ja r ra com fl ores ’ , por aí j á pass ou mui to des enhar c om as fl ores que lá pôs ; c omo a s pôs, c om a jarra q ue esc olheu… Um desenhar se m traç os, se m pape l, s em ve stígios gráfi c os, é c e rto , mas… 33 Os desen hos de Lourdes Cas tro prec i sa m de a tenção . P rec i sa mos d e ol ha r pa ra el es e descobr i r pa r a on de apon t a m . “ Bas t a apenas dei x a r a a ten ç ão to ma r c on t a de nós” , e sc rev e Joã o Fer n a ndes, “par a nos da r mos con t a que tu do se rev ela, i nd i ssoc i á v el de n ós e nós i n sepa- ráv eis do qu e nel e acon tece. [ …] Os desen hos de Lourdes Cas t ro são ass i m , s i mples, i nev itáv ei s, ma s ja ma is óbv ios” 34 , acrescenta. Os desen hos são tão p resent es na l i n ha de cont o r no qu e os defi ne qu e se tor na d i f í c i l o ex erc íc io do o l ha r . Po r v ezes pa recem esqu iv os – aparecem ou d es aparecem como f or ma s- f a nta sm a resu lt a ntes d e u m ac to qu e su sp en de o ob je c to rea l pa ra se da r a p erce ber com o f orm a vaz ia. Con t ud o o qu e apa rece (e é reve lad o) cont ém desen h o. É somb ra. É c on tor no . É sombra p roj ec t ada com o cont o r no . Nas pa lav ra s de Lourdes Cas t ro en con tr a mos o sen t id o : A sombra a inda é pa lpáve l . O c ontorno já não é. O contor no sur- preende-m e por que nã o exi stia antes de e u o dese nha r: é, creio , um novo ol har sobre o q ue m e rodeia. […] A sombra p rojectada c omo c o n- torno inte ressa- me muito mais do que a sua simp les re prese ntação . 35 E n est a rev elação tud o se to r na t ã o pró x i mo , t ud o apa rece com g ra n de c la rez a , t ão si mples. Os desen hos “ n ão rep re sen t a m , s ão . Não de mo ns tr a m o es f or ço ne m a habi l idad e. A mão a p ag a-se n o seu fa zer porq u e semp re estev e l á, i n sepa ráv el do u tens í l io d o que a c on - tec e fora del a. ” 36 “ O s gestos sã o f eit os sem bru squ idã o, co m v agar, com pon derad o e c u idadoso afec to . ” 37 I sto mesmo n os pa rece qu e- rer m ost ra r o desen h o de Lourdes Cas t ro , suj eit o qu e e st á ao m o v i- me nt o do p rópr io cor po, qu e d is p õe de u m poten c ia l i n fi n it o pa r a 33. ZIMB R O i n C A ST RO , 20 03 , O p. C it . P . 1 4 . 3 4 . F E R N A N DE S , João in C A ST RO , 20 03 , O p. C it . P . 5. 35. C A S T RO, Lou rd es i n Z I M BRO, M a nuel ( e t al. ) – L ou r des C a st ro : A lé m da Som bra . L i s bo a : F u ndaç ão Ca lous te Gu lb en k i a n – C ent ro de A r te Mo der na , 1 9 92 . P . 5 1 . 36 . F E R N A N DE S in C A ST RO , 20 03 , O p. C it . P . 5. 3 7. ZIMB R O in C A S T RO, 20 03, Op. C it . P . 50 . LO URDES CAST RO (N. 1930 ) , S OMBRA S À V OL T A DE UM CE N TR O ( 1 985 / 1 986 / 1 98 7) 273 i nte r preta r, n o cont or n o, as subti leza s da s somb ra s pr oj ec t adas d as flo re s sob re a f ol ha de papel. O papel nã o recebe a pena s a somb ra , e depois o c on tor no , c om a f u nção d e mostr a r ( pa ra que o d esen ho se fa ç a e v eja). O papel fa z pa r te , en v ol v e, rev ela. Ou , como esc rev e M a n ue l Z i mbro , “ o papel é o seg redo q ue nã o esc ut a mos, se desat en tos apenas proc u ra m os o desen ho o u a sua refe rên c i a ” 38 . Estes desen hos sã o por t ad ores de si na i s qu e não se esg ot a m no sen t id o da v is ão . A v i são n u nca po de rá abra ng er a co mpre ens ão t ota l daqu eles d esen hos e “ a i n d iv is a plas- t ic id ade do mu ndo s en sí v el” 39 , com o refe re M a n ue l Z i mbro . S ão desen hos q u e, d ec id i da me nt e, e x plo ra m e se fa zem nos l i m ites da ex per iên c i a perceptiva. Segu ros m a s, ao m e smo te mpo, v u l nerá veis à pro f u n d idade d o ol ha r n as sombras pa r a dete r m i n a r o l i m ite d o c ontor no, c omo for m a de r e t a r d a r o i r re med i áv el de s ap a re c i me nto d a re a l id ade sen s ível. 38 . F E R N A N DE S in C A S T RO , 20 03, Op. C it . P . 6. 3 9. ZIMB R O in C A S T RO, 20 03, O p. Cit . P . 1 4. Lourdes Castro “S o mb ra s à vo lt a e um c en t ro” , 19 8 0 T int a - da- china 5 0 x 6 6 cm 2 74 al guns exemPl Os POssíveis – c arac terístic as centrais à Prá tica No traba l ho Swa r m Paintings – Swarm D rawing s, basea do n o mod el o de com por t a m en to das fo r m igas e na c apa c i dade de p roc essa me nt o da i n fo r mação reco l h ida pelo p róp r io robô, i n teressa a L eon el Mo u ra sobr et u do a sua ca rac terí st i c a em erg en te : O meu modelo é a eme rgênc ia, e a nov idade está e m ter int rod uz ido a em ergênc ia c omo uma no va f or ma de produção artí st ica . 40 Depoi s da abs tr acção , qu e superou a rep resent a ç ão d o rea l e qu e desvalor i zou o i nte resse pelo traba l ho ma n ua l ou a ma n u fac t u ra , podemos e nca ra r a p ossi bi l idade d e u m desen ho a r t i fic ia l o u, ex ten - siva mente, u m a c r i at iv idade a r t i fic ia l. 41 E m cer to sen t id o, os m eca- n i smos deste t ipo de desen h o não se baseia m n os mode los (c r ia t iv os ) con ve nc io na i s. O c or po, “ ou os co ncei tos qu e se apl i c a m aos h u m a- n o s ”, como po r ex empl o a p ercepção, sã o, par a L eon el Mo u ra , d is- t i nto s . 42 Os desen hos não depen dem de reg ras de compor t a men to do co r po, n em do pens a men to , não e x iste dom í n io técn ico o u u m a v i s ão co mpl et a do desen ho , “ ne m têm ‘ est ados d e a l ma’ , subj ec t iv i- d ade ou emo ç ão” 43 . O t raba l h o de L eon el Mo u r a proc u ra u m m í n i mo d e i nte r v enção h u ma n a no p roc esso, n o sentido d e conseg u i r u m a m a io r a uto no m ia dos resu ltad os, c om o p ossibi l idad e de c r i a r obras qu e depen dem d e i nte racções a le at ó r ias qu e não con t ro la , qu e podem ser d esen c ad ea- da s por el e, ma s c uj os resu lt ad o s são abso lu t a me nt e i mprev i sív eis. Os desen hos depen dem po r t a n to de m o de los p rocess ua i s a utó n om os o u eme rge nt es “ ond e a ú n i c a ma n ei ra de test a r o processo é desen- c a deá -l o e v er o qu e aco nt ece” 44 . L eon el Mo u ra ref ere-o qua n do d i z que: 4 0. MOU R A , L eonel . E nt re v i s t a no â mbit o da t es e (v er a nexo) . 41. “ A ab st r ac ç ão na a r te mo der na de sc reve- se c omo des v io que va i d a aprox i m ação com o r ea l , c as o dos pr i me i r os i mpre ss ion is t a s , até ao m a ior a f a st a mento p os s ível , com K a nd i n sk y , e u ma a r te que já n ão re fere qua lquer elemento ex ter no ou obje c t ivo . Com Duc ha mp es t a t endênc i a r ad ica l i z a-s e. O proc e sso d ei x a de s er o mec a n i s mo que condu z a u ma d es con s t r ução ou re dução for m a l , pa ra s e tor n a r no c ent ro d a pró pr i a pro dução a r t í s t ic a . ” ( MOU R A , L eonel . E nt rev i s t a no â m bito d a t es e (v er a nexo) . ) 4 2 . “ A p a r a met r i z aç ão nos pro c es so s de c r iaç ão de s tes d es en ho s a r t i fic i a i s a ss ent a so bret udo no n ível de perc e pç ão do s sen s ore s.” (MOU R A , L eonel . E nt rev i st a no â m bito d a te se (ver a nexo) . ) 4 3. MOU R A , L eonel. E nt r ev i st a no â m bito d a te se (ver a nexo) . 4 4 . MOU R A , L eonel . E nt re v i s t a no â mbi to da t es e (v er a nexo) . LE ONEL M OUR A (N. 194 8) 275 No traba l ho Swa r m Paintings – Swarm D raw ings, basea do n o mod el o de com por t a m en to das fo r m igas e na c apa c i dade de p roc essa me nt o da i n fo r mação reco l h ida pelo p róp r io robô, i n teressa a L eon el Mo u ra sobr et u do a sua ca rac terí st i c a em erg en te : O meu modelo é a eme rgênc ia, e a nov idade está e m ter int rod uz ido a em ergênc ia c omo uma no va f or ma de produção artí st ica . 40 Depoi s da abs tr acção , qu e superou a rep resent a ç ão d o rea l e qu e desvalor i zou o i nte resse pelo traba l ho ma n ua l ou a ma n u fac t u ra , podemos e nca ra r a p ossi bi l idade d e u m desen ho a r t i fic ia l o u, ex ten - siva mente, u m a c r i at iv idade a r t i fic ia l. 41 E m cer to sen t id o, os m eca- n i smos deste t ipo de desen h o não se baseia m n os mode los (c r i ativ os ) con ve nc io na i s. O c or po, “ ou os co ncei tos qu e se apl i c a m aos h u m a- n o s ”, como po r ex empl o a p ercepção, sã o, par a L eon el Mo u ra , d is- t i nto s . 42 Os desen hos não depen dem de reg ras de compor t a men to do co r po, n em do pens a men to , não e x iste dom í n io técn ico o u u m a v i s ão co mpl et a do desen ho , “ ne m têm ‘ est ados d e a l ma’ , subj ec t iv i- d ade ou emo ç ão” 43 . O t raba l h o de L eon el Mo u r a proc u ra u m m í n i mo d e i nte r v enção h u ma n a no p roc esso, n o sentido d e conseg u i r u m a m a io r a uto no m ia dos resu ltad os, c om o p ossibi l idad e de c r i a r obras qu e depen dem d e i nte racções a le at ó r ias qu e não con t ro la , qu e podem ser d esen c ad ea- da s por el e, ma s c uj os resu lt ad o s são abso lu t a me nt e i mprev i sív eis. Os desen hos depen dem po r t a n to de m o de los p rocess ua i s a utó n om os o u eme rge nt es “ ond e a ú n i c a ma n ei ra de test a r o processo é desen- c a deá -l o e v er o qu e aco nt ece” 44 . L eon el Mo u ra ref ere-o qua n do d i z que: 4 0. MOU R A , L eonel . E nt re v i s t a no â mbit o da t es e (v er a nexo) . 41. “ A ab st r ac ç ão na a r te mo der na de sc reve- se c omo des v io que va i d a aprox i m ação com o r ea l , c as o dos pr i me i r os i mpre ss ion is t a s , até ao m a ior a f a st a mento p os s ível , com K a nd i n sk y , e u ma a r te que já n ão re fere qua lquer elemento ex ter no ou obje c t ivo . Com Duc ha mp es t a t endênc i a r ad ica l i z a-s e. O proc e sso d ei x a de s er o mec a n i s mo que condu z a u ma d es con s t r ução ou re dução for m a l , pa ra s e tor n a r no c ent ro d a pró pr i a pro dução a r t í s t ic a . ” ( MOU R A , L eonel . E nt rev i s t a no â m bito d a t es e (v er a nexo) . ) 4 2 . “ A p a r a met r i z aç ão nos pro c es so s de c r iaç ão de s tes d es en ho s a r t i fic i a i s a ss ent a so bret udo no n ível de perc e pç ão do s sen s ore s.” (MOU R A , L eonel . E nt rev i st a no â m bito d a te se (ver a nexo) . ) 4 3. MOU R A , L eonel. E nt r ev i st a no â m bito d a te se (ver a nexo) . 4 4 . MOU R A , L eonel . E nt re v i s t a no â mbit o da t es e (v er a nexo) . […] em deter minados si stema s exis tem propriedades emergentes, as quais dão lug ar a um compor tame nto glo ba l que não po de se r prev is to a pa rt ir da o bser vação do simp les c omportame nto de cada agente. É a interacç ão ent re os vários age ntes que pr oduz um T odo que é mais do q ue a soma da s partes. E est e é portanto impre vi sí - vel. H oje con seguimos ente nder a ‘ mec ânica ’ dos si stem as c om pro - priedades em ergentes, ma s c ontinua a não se r poss íve l deter minar a prior i o qu e vai suceder . 45 O processo do d esen ho é de lega do n os robôs e n a capac idad e de processa men to da i n f or mação reco l h ida pelos seus sensores e a c t ua- do re s. Esse processa me nt o dete r m i n í st ico baseia-se em m eca n i smos de feedba c k e a lea to r iedade , n ão e x i st i nd o p ossi bi l idade d e dete r m i- na r nem con t rola r as acções : os robôs si mpl esmen te rea g em a est í- m u los l o c a i s – vêem o mundo e ag em sobre e le . Uma e le vada sens i bi lidade à cor e ao t raço ge ra desenhos de nso s, uma me nor sen sib il idade pro duz des enhos c om maior c onc er taç ão de mancha s. D o ponto de v ista do olhar humano os des enhos c om maior defi nição for mal, ou seja, onde se vêem ‘ c oisas ’ , produzem um efeito de maior reconhec imento c r iativo . O que se de ve à nos sa nec es sidade , me ntal, de ‘ c on st r ui r’ fo r ma s a pa r tir da c omplexi - dade e do caos . 46 4 5. MOU R A , L eonel . E nt re v i s t a no â mbi to d a tes e (v er a nexo) . 4 6 . MOU R A , L e onel. E nt r ev i st a no â mb ito d a tes e (ver a nexo) . Leonel Moura Rob ô s a tr a ba lh ar em g r up o (sw ar m) C or t e si a do a u to r 276 alguns e xemPlOs POssíveis – cara cterístic as centrais à Prá tica Pa rado xa l men te, os robôs i n sc rev em u ma c er t a cor p ore idad e ( e mbodime nt ) a o processo , baseado ta m bém na s (sua s) c apa c i dades sensor ia is e n as sua s c apa c idad es de p rocess a men to de i n fo r mação e ac t u aç ão : Os robôs age m no mundo , c riam a sua própria des c r ição do mundo (at ravés dos se ns ores ) ; os robôs alter am o mundo , no ca so c om os ac t uadores e caneta s modifi cam o des enho . P ara a lé m dis so , enquanto entidade c om c or po , o s robôs têm c omport amento s sin - gula res, er ros, pequenos defeito s mec ânic os, inabi lidades de toda a or dem , o que ger a c omplexidade e diversidade. Os robôs nunca fazem a mesm a c oisa, mes mo que as c ondiçõ es de partida s ejam exa ctamen te as mesm as . 47 Deste processo sobressa i a ide ia de u m desen ho qu e con f ro nta a s poss ibi l i dades i nd u z idas p el o qu e não é possív el d e dete r m i na r ou pre v er no p la n o da i mag em. T rata-se de u m desen ho q u e em erge d e u m a sensi bi l idade ar t i fic ia l ac t iva d a pelas c apac idad es de p rocess a- me nt o de i n fo r m ação e a c t uação d e u m cor p o pro tés ico , qu e já não é o do ar t is t a. 4 7. MOU R A , L e onel. E nt r ev is t a no â mb ito d a tes e (v er a nex o) . [Document text truncated for crawler view.]