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A excelência heróica na luta contra o dragão: um motivo épico no romance bizantino Calímaco e Crisórroe

Fonseca, Rui Carlos Reis, 1984-

Abstract

Neste artigo, discute-se o motivo épico tradicional da luta contra o dragão como etapa necessária à legitimação do perfil heróico no romance bizantino do século XIV Calímaco e Crisórroe. Nesse sentido, comentam-se os três episódios em que Calímaco vence os dragões do castelo, mas nem sempre mediante o confronto directo: se, por um lado, age com valor à semelhança do guerreiro homérico, por outro lado, herdeiro dos modelos helenísticos, deixa-se levar pela indolência amorosa

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eClassica I 2015 82 Rui Ca los Fonseca, “A excelência he óica na lu a con a o d agão: um mo i o épico no omance bizan ino Calímaco e C isó oe”, eClassica 1, 2015, 82-90. A EXCELÊNCIA HERÓICA NA LUTA CONTRA O DRAGÃO: UM MOTIVO ÉPICO NO ROMANCE BIZANTINO CALÍMACO E CRISÓRROE Rui Ca los FONSECA [email p o ec ed] Cen o de Es udos Clássicos Faculdade de Le as da Uni e sidade de Lisboa RESUMO Nes e a igo, discu e-se o mo i o épico adicional da lu a con a o d agão como e apa necessá ia à legi imação do pe il he óico no omance bizan ino do século XIV Calímaco e C isó oe. Nesse sen ido, comen am-se os ês episódios em que Calímaco ence os d agões do cas elo, mas nem semp e median e o con on o di ec o: se, po um lado, age com alo à semelhança do gue ei o homé ico, po ou o lado, he dei o dos modelos helenís icos, deixa-se le a pela indolência amo osa. PALAVRAS-CHAVE D agão, cas elo, iagem, he ói omanesco, he ói épico. O d agão pe ence ao imaginá io olcló ico sendo uma igu a cons an e nos con os de adas adicionais e nas a en u as ca alei escas da Idade Média. O uso li e á io do d agão emon a po ém à adição épica an iga, ep esen ando aí o meio pelo qual o gue ei o des emido ê legi imado o seu es a u o de he ói. Abundam nas epopeias an igas os comba es con a d agões, se es mons uosos e en idades sob e-humanas: no Gilgamesh, o ei de U uk de o a o gigan e Humbaba; na Ilíada, Aquiles escapa ao a aque do deus- io Escamand o; na Odisseia, Ulisses e e o ciclope Poli emo; nos A gonau ica, Jasão ouba o elo dou ado ao d agão da lo es a sag ada da Cólquida; no Beowul , o he ói dos Godos ex e mina mons os, en e os quais o gigan e canibalesco G endel e um d agão e oz; na epopeia dos Nibelungos, Sieg ied iun a sob e o d agão no caminho a é à co e dos Bu gúndios. A i ó ia sob e ais c ia u as de o ça desmedida, que nenhum ou o mo al ousa ia en en a , alida o ca ác e excepcional do he ói épico ao mesmo empo que o o na imo al na memó ia das ge ações indou as, enquan o objec o de celeb ação e lou o nos can os he óicos. Nes e abalho, p e endo analisa o enquad amen o omanesco do mo i o épico adicional da lu a con a o d agão. Pa a o e ei o, comen a ei ês momen os ele an es do omance bizan ino Calímaco e C isó oe, da ado do século XIV e cuja au o ia é eClassica I 2015 83 Rui Ca los Fonseca, “A excelência he óica na lu a con a o d agão: um mo i o épico no omance bizan ino Calímaco e C isó oe”, eClassica 1, 2015, 82-90. habi ualmen e a ibuída a And onico Paleólogo 1 . Esses ês momen os co espondem a episódios em que o he ói en en a d agões – os d agões que gua dam o cas elo, o d agão senho do cas elo e o d agão de umo –, mos ando-se-lhes supe io , mas nem semp e median e a lu a di ec a. Lu a con a o d agão não é um ei o conc e izado pelos he óis do omance helenís ico, mas um mo i o épico adap ado a es e omance bizan ino em ap eço. Calímaco assume aços de he ói épico mais acilmen e do que os seus an ecesso es omanescos, nenhum dos quais en en a o e í el pe igo do d agão. Calímaco, pelo con á io, mos a-se supe io não a um mas a ês d agões, e os ês de na u eza di e sa. Rode ick Bea on chega mesmo a a i ma que Calímaco “is a mo e man o ac ion han any G eek omance he o since Chai eas (who dis inguishes himsel in wa be o e he can be euni ed wi h his wi e Calli hoe)” 2 . Calímaco é o p íncipe mais no o de ês i mãos e dos ês o mais ousado e des emido. O seu pai, um ei bá ba o, de en o de uma iqueza imensa, amando os seus ilhos po igual mas não sabendo qual deles nomea o sucesso do eino, en ia os jo ens p íncipes em campanha, a im de cada um pode demons a o seu alo . Aquele que segui a condu a mais digna de um ei e alcança o maio o éu de gló ia o na -se-á o p óximo mona ca do impé io. É es a a si uação que ab e o omance. O p imei o episódio de Calímaco con a o se e oz não inclui uma lu a e ec i a no sen ido adicional das lu as con a o d agão. Não há, na e dade, um encon o bélico en e o he ói e o mons o e oz. Não deixa de ha e , po ém, a sup emacia do p imei o em elação ao segundo. Depois de a a essa em nume osas e as e de subi em mon anhas que lhes pa eciam inacessí eis, os ês jo ens chegam ao ma a ilhoso cas elo do d agão, onde Calímaco, dis inguindo-se dos dois i mãos mais elhos, não eme os d agões a e ado es que gua dam a en ada do cas elo. O espan o emanado pelo esplendo do ou o e das ped as p eciosas que ado nam o cas elo é, na e dade, p opo cional ao emo p o ocado pelas e as mons uosas que igiam, sem descanso, es e local assomb oso. O cas elo seduz com o seu ou o esplandecen e ao mesmo empo que a ugen a com os seus po ei os e í icos. Os d agões de gua da aos po ões do cas elo são mencionados no início da ex ensa éc ase, que se p olonga do ex e io pa a o in e io da o aleza dou ada, a é à câma a do d agão, onde Calímaco ê pela p imei a ez C isó oe suspensa do ec o, como pa e in eg an e da pin u a que embeleza a abóboda. En e os e sos 189-193, lê-se que as gigan escas po as da en ada es ão p o egidas po e as p odigiosas, d agões assus ado es que ma am alguém de medo só de os e . Καὶ δῶληεο ὄθεηο εἰο αὐηὰο ηὰο θεθιεηζκέλαο πύιαο, ὄθεηο κεγάινη, θνβεξνὶ θαὶ ζῆξεο παξὰ θύζηλ, ἄγξππλνη θύιαθεο ὀμεῖο ηνῦ ηειηθνύηνπ θάζηξνπ ὀξκῶζη, δξάθνληεο θξηθηνὶ θαὶ ππισξνὶ ζεξία, ἅ ηηο ἰδὼλ ἀ‹πέ›ζαλελ ἀπὸ η‹νῦ› θόβνπ κόλ‹νπ›. 1 Sob e a au o ia e a da ação des e omance, ide M. Picha d, “In oduc ion”, Le Roman de Callimaque e de Ch yso hoé, Pa is, 1956, x -xxxi; J. B. Be gua, “No icia P elimina ”, La no ela bizan ina: Las E iopicas, A en u as de Leukippé y Klei o ón, La No ela de Kallimachos y Ch iso oé, Mad id, 1965, 525-527; G. Be s, “In oduc ion o Kallimachos and Ch yso oi”, Th ee Medie al G eek Romances, New Yo k-London, 1995, 33-36; R. Bea on, The Medie al G eek Romance, 2nd ed., London-New Yo k, 1996, 104-105; R. Bea on, “The Byzan ine Re i al o he Ancien No el”, in G. Schmeling (ed.), The No el in he Ancien Wo ld, Bos on-Leiden, 2003, 723-724. 2 Bea on, “The Byzan ine Re i al...”, 725. eClassica I 2015 84 Rui Ca los Fonseca, “A excelência he óica na lu a con a o d agão: um mo i o épico no omance bizan ino Calímaco e C isó oe”, eClassica 1, 2015, 82-90. Ha ia se pen es i as dian e dos po ões ce ados, se pen es gigan escas, a e ado as, de aspec o mons uoso, gua das igilan es de ão imponen e cas elo, sem nunca p ecisa em de descansa , semp e p on os pa a o de ende . E am pois d agões e í icos es es po ei os e ozes: uma pessoa mo e ia de medo só de os e . 3 As di e en es eacções dos i mãos sepa am-nos em e mos de excelência: enquan o os dois p íncipes mais elhos se decidem pela a i ude mais p uden e (a as am-se des a o aleza, pois conside am desnecessá io comba e con a ais mons os e ozes, julgando pe dida qualque en a i a de a aque), Calímaco, pelo con á io, esol e en en a o pe igo a é ao qual a So e o conduziu. Ele a ança assim pa a o in e io do cas elo, esol ido a ma a o emí el ad e sá io (seja ele que mons o o ) ou a se des uído po ele, qual gue ei o homé ico que pa e pa a o campo de comba e pa a ma a ou mo e às mãos de um ad e sá io melho . Os con o nos épicos da igu a de Calímaco e elam-se, an es de udo, pela sua in ansigência na elação com os i mãos. Essa é a qualidade p óp ia do e a o de um he ói épico, como mos a o exemplo de Aquiles, in lexí el na sua decisão de não ol a a comba e pelos Aqueus, no can o 9 da Ilíada. Além disso, nes e episódio, o i mão mais no o supe a os ou os em co agem, não eceando a emí el isão dos d agões po ei os, nem as ad e sidades que a Fo una lhe ese a ao ê-lo azido a é ao cas elo 4 , local que é is o ao mesmo empo com espan o e com pa o . O compo amen o he óico do mais no o dos p íncipes mani es a-se ambém pelo seu ca ác e de excepção. Calímaco p o agoniza um ei o único, pois nenhuma ou a pe sonagem do omance consegue supe a o medo dos d agões de gua da à o aleza e anspo as mu alhas p odigiosas do cas elo. Num momen o mais a ançado do omance ( . 950-999), um ou o ei, nob e e pode oso, acompanhado po um séqui o de soldados e conselhei os de gue a, ê-se ob igado a oma a mesma a i ude que os dois i mãos de Calímaco de não a aca o cas elo, po causa do e o que os d agões das mu alhas inspi am nos homens. A imponência do cas elo, ado nado de ped as p eciosas e p o egido po mons os e ozes, é a sua p incipal de esa con a os in aso es. Apenas pa a Calímaco o cas elo não é inexpugná el. O eceio da mo e p i ada de es emunhas, que impede a ama de se espalha en e os homens, cons i ui igualmen e um elemen o adicional da épica an iga. Tan o Aquiles (no episódio da lu a com o deus- io Escamand o, em Ilíada 21.265-283) como Ulisses (no episódio da empes ade de Posídon, em Odisseia 5.297-314) conside am ul ajan e a mo e pelo ma , de ido ao ac o de essa si uação oco e sem acesso a es emunhas que possam depois p opaga o enome do he ói mo o. A gue a que se az no umul o do campo de ba alha en e companhei os e ad e sá ios é, po isso, mui as ezes designada θπδηάλεηξα [“glo i icado a dos homens”] 5 , po que concede no o iedade a quem a ela se en ega. Os dois i mãos mais elhos aconselham o mais no o a não en a na mo ada de mons os que o cas elo apa en a se , pois, mesmo na hipó ese emo a de ele consegui 3 Pa a as ci ações de Calímaco e C isó oe, sigo a edição de C. Cupane, Romanzi Ca alle eschi Bizan ini, To ino, 1995. A adução é da minha esponsabilidade. 4 Sob e o pode da Fo una e os seus mo imen os incons an es nes e omance bizan ino, ide G. Van S een, “Des ined o be? Tyche in Cha i on‟s Chae eas and Calli hoe and in he Byzan ine Romance o Kallimachos and Ch yso oi”, L’An iqui é Classique 67, 1998, 203-211. 5 Il. 4.225, 6.124, 7.113, 8.448, 12.325, 13.270, 14.155, 24.391. eClassica I 2015 85 Rui Ca los Fonseca, “A excelência he óica na lu a con a o d agão: um mo i o épico no omance bizan ino Calímaco e C isó oe”, eClassica 1, 2015, 82-90. iun a sob e algum oponen e sob e-humano, a sua p oeza ica ia po celeb a : a beleza do ges o não se mos a ia aos homens (ἄδεινλ ηὸ θαιόλ, . 258), a sua en u a não se ia es emunhada (ἀκάξηπξνλ ηὴλ ηύρελ, . 258). Calímaco não hesi a em a isca a ida ace à iminência do pe igo, enquan o os seus dois i mãos p e e em a uga numa a i ude que na adição épica da gue a deno a a e gonhosa coba dia. Cu iosamen e, ao abandona em o local p odigioso onde se sepa am do i mão, eles p óp ios p esenciam a alen ia e a b a u a que o ca ac e izam, es emunhando po conseguin e esse he oísmo incógni o de Calímaco. Realizando um ei o ex ao diná io, que o dis ingue dos homens comuns, na medida em que mais ninguém se a e e a en en a as a e ado as c ia u as das mu alhas, Calímaco iguala-se, nes e episódio, aos no á eis he óis da epopeia an iga. A sua eme idade em con udo enquad ada po aços omanescos, que o azem des ia -se das no mas épicas de comba e. Os mu os e as o es do cas elo são ão al os que a ingem os pínca os do céu (Τὸ ηεῖρνο ἦηνλ ὑςειόλ, . 178; εἶρελ γὰξ πύξγνπο ὑςεινύο, νὐξαλνκήθεηο ηνίρνπο, . 202), pelo que o acesso ao in e io só é possí el po ias secundá ias. Na e dade, es e he ói omanesco não eceia os d agões igilan es, mas ambém não os de on a. Ao con o na o cas elo, Calímaco encon a uma pequena een ância onde p ende a sua lança que lhe pe mi e balanço su icien e pa a anspo a mu alha e assim cai em pleno á io do cas elo ( . 269-279). Es e es a agema de en en a o pe igo, e i ando o pe igo maio (a ameaça de lu a con a os d agões das mu alhas), p e igu a o con ex o omanesco em que deco e a mo e do d agão an opó ago no in e io des a mo ada de mons os. O senho absolu o do cas elo, o mona ca c uel que man ém C isó oe p isionei a, não é senão um d agão. Tal como no p imei o episódio, ambém nes e segundo a lu a do he ói com o mons o não se az da manei a mais adicional, uma ez que Calímaco pa ece pe de a in epidez que o ca ac e izou na elação com os i mãos. À is a des e d agão, o he ói ica desa mado de odo o seu alo , esconde-se pa a não se descobe o e, no momen o opo uno pa a o a aque, sai do esconde ijo a eme de medo ( . 558), sendo apenas capaz de ma a o d agão g aças às ins uções da donzela ca i a. Já Ca olina Cupane e e i a a me amo ose ope ada em Calímaco: jun o dos i mãos, p e e e a mo e a enuncia à a en u a, mas mal ê C isó oe a co agem dá luga à agilidade amo osa, à hipe sensibilidade omanesca que é he dada em linha di ec a dos modelos helenís icos 6 . É Calí oe quem ala pela p imei a ez do senho do cas elo a Calímaco, an es de o he ói o encon a . A donzela ca i a ap esen a-o como um d agão de o ado de homens (Ὁζπήηηλ ηνῦην δξάθνληνο, νἶθνο ἀλζξσπνθάγνπ, . 489), de o ça desmedida como é p óp io dos d agões que de o am homens (Δξάθνο ηὴλ ἰζρύλ, ἀλζξσπνθάγνπ ῥῖγκα, . 492). O d agão, insu lado de sen imen os desumanos e com um co ação imune às chamas de E os, chega à câma a onde o u a a jo em ca i a pelo simples p aze de a a o men a . Calímaco nada az pa a libe a C isó oe do suplício de que é í ima, man endo-se escondido num ecan o dos aposen os. Além de e pe dido a sua co agem, o he ói não demons a possui sen imen os nob es, ao pe mi i que a jo em bela seja mu ilada e a ada de o ma ão c uel. 6 C. Cupane, “Il mo i o del cas ello nella na a i a a do-bizan ina”, Jah buch de Ös e eichischen Byzan inis ik 27, 1978, 241, n. 42. Sob e o mesmo ema, c . ambém H. Hunge , “Un oman byzan in e son a mosphè e: Callimaque e Ch yso oè”, T a aux e Mémoi es 3, 1968, 409-411; P. Agapi os, “Gen e, S uc u e, and Poe ics in he Byzan ine Ve nacula Romances o Lo e”, Symbolae Osloenses 79, 2004, 28. eClassica I 2015 86 Rui Ca los Fonseca, “A excelência he óica na lu a con a o d agão: um mo i o épico no omance bizan ino Calímaco e C isó oe”, eClassica 1, 2015, 82-90. Da cena de o u a, a que o d agão se dedica com “sádico e inamien o” 7 , passa-se pa a o sump uoso banque e, con apos o à ação ugal que é dada a C isó oe (um pedaço de pão de má qualidade, acompanhado apenas po um so o mínimo de água – . 521-529). O d agão, pelo con á io, come em abundância (a mesa apa ece-lhe magicamen e cheia de igua ias exó icas) e mos a-se insaciá el na bebida, a pon o de cai encido pelo sono. Ga cía Gual e e e-se a es a igu a como um “lamen able d agón, sin nomb e ni p es ancia” 8 . Só mais a de, es ando já mo o o mons o c uel, o lei o ica a conhece a ligação que exis ia en e o d agão e a jo em e ém, bem como o mo i o de amanha a ocidade pa a com ela. C isó oe con a ao seu sal ado que e a ilha de ilus es impe ado es, e de en o a de uma beleza ex ao diná ia, que causou a de as ação do eino e a mo e da amília e dos habi an es. Po e semp e ejei ados os seus pedidos de casamen o, o d agão con olou o cu so do io que abas ecia as e as do eino deixando-as es é eis; engoliu odos os animais do impé io; po im, de o ou odos os habi an es sem deixa nenhum sob e i en e, e ap ou a p incesa le ando-a pa a o cas elo ( . 648-693). Tendo em con a o his ó ico des a c ia u a mons uosa, que de o a odos e que ninguém consegue de e , de que meios se se e en ão Calímaco pa a a de o a ? Incen i ado pela p incesa, cujas o ien ações hesi a em cump i , o jo em es angei o pega na espada do p óp io d agão e com ela o ma a, co ando-o em dois, enquan o es e do mia, encido pelas g andes quan idades inge idas de comida e de inho. O massac e do d agão não em desen ol ido com apa a o ou g andeza, nem da pa e do execu o , nem da pa e do execu ado, sendo o ac o de adei o ela ado com in o mação mui o b e e. No a Cas illo Ramí ez que es e comba e não é desc i o com de alhe, apenas se mencionando o momen o em que se acaba com a ida do d agão 9 . A e dade é que não chega a ha e um comba e e ec i o em que uma pe sonagem a aca e ou a se de ende. Con a iamen e aos d agões e se pen es que gua dam as en adas da o aleza em igília pe manen e, o senho absol o do cas elo mo e du an e o sono, endo-se abandonado a um pe íodo de descanso, depois de um lau o banque e. Calímaco pe de a g andeza he óica que demons a a possui na companhia dos i mãos (ao se o único dos ês a que e en en a o cas elo inexpugná el), mas nes e segundo episódio com um d agão é C isó oe quem ica eng andecia, de ido à sua al i ez e p esença de espí i o, mesmo que a ligida po condições ad e sas, como a exposição co po al e a o u a. Ela não é me a adju an e do es angei o que a libe a, mas a esponsá el p imei a pela mo e do d agão. Apesa dos aços omanescos na ca ac e ização dos jo ens p o agonis as, econhecem-se oda ia nes e episódio eminiscências de mo i os épicos. A manei a como o d agão pe de a ida az lemb a a ceguei a do ciclope homé ico, enquan o es e do mia, subjugado pelo inho que Ulisses lhe o e ece a, no can o 9 da Odisseia 10 . Po ou o lado, não é incomum na adição dos can os épicos a i ó ia do he ói conseguida pelo apoio de um companhei o ou a é mesmo pela ajuda de uma mulhe . Sem os ei iços de Medeia Jasão não e ia conseguido ouba o elo dou ado ao d agão que o gua da a, no can o 4 dos A gonau ica. Ulisses e ia pe ecido na empes ade le an ada po Posídon, não ossem a nin a Ino e a deusa A ena i em em seu auxílio, pa a o p o ege em da iolência das águas, no can o 5 da Odisseia. G aças à p o ecção da ilha de Zeus, Diomedes e e duas di indades no campo de ba alha, no can o 5 da Ilíada, e a é Aquiles 7 C. Ga cía Gual, “In oducción”, Calímaco y C isó oe, Mad id, 1990, 26. 8 Ga cía Gual, “In oducción”, 24. 9 E. Cas illo Ramí ez, “El Calímaco y C isó oe a la luz del análisis del cuen o de V. P opp”, E y heia 21, 2000, 109. 10 C . Cas illo Ramí ez, “El Calímaco y C isó oe...”, 109. eClassica I 2015 87 Rui Ca los Fonseca, “A excelência he óica na lu a con a o d agão: um mo i o épico no omance bizan ino Calímaco e C isó oe”, eClassica 1, 2015, 82-90. con a com a in e enção di ina no con on o com o deus- io Escamand o, no can o 21 da Ilíada. Na epopeia mesopo âmica, Gilgamesh de uba o gigan e Humbaba num a aque conjun o com o seu iel amigo e companhei o de iagem, Enkidu. C isó oe ep esen a, sob es e pon o de is a, a igu a ípica que, nos can os épicos, cos uma p es a auxílio ao he ói no momen o decisi o da lu a con a d agões ou se es sob e-humanos 11 . Ao ence o d agão do cas elo, Calímaco ganha pa a esposa C isó oe, que acaba po pe de depois de des ui o úl imo d agão. Um ei es angei o, enamo ado pela jo em p incesa, pede ajuda a uma elha b uxa pa a ap a C isó oe do cas elo, cujos d agões de gua da o seu exé ci o eceia comba e . A b uxa se e-se de uma maçã dou ada pa a causa a mo e empo á ia de Calímaco (a maçã en enenada conhecida dos con os da adas 12 ) e eco e à igu a do d agão pa a o na possí el a sua en ada no cas elo e a consequen e en ega de C isó oe ao ei es angei o. O d agão da b uxa é o único dos ês que nes e omance ai ao encon o do he ói, uma ez que não eside no cas elo esplandecen e, indo do ex e io . É Calímaco que decide a ança pa a o cas elo e nesse sen ido é ele que se ap oxima dos d agões que igiam as mu alhas e do d agão que i e na o aleza dou ada, encendo-os, ainda que não os de on ando num encon o bélico. Fo am es es mons os que o le a am a conhece C isó oe. Quando lhe apa ece o d agão da b uxa, o jo em p o agoniza a sua p imei a lu a e ec i a, depois da qual, embo a encedo , se ê a as ado da mulhe 13 . Es e e cei o episódio consis e no encon o on al en e o he ói e o d agão, quase assumindo con o nos de um e dadei o comba e do ipo épico ou ca alei esco, não osse o ac o de es e e cei o mons o não se eal, mas o mado po a i ícios mágicos da b uxa. No momen o em que Calímaco lhe co a a cabeça, o mons o des anece-se no a . Não é senão “un me o an asma” 14 . Não deixa de se cu ioso no a a cons ução habilidosa des e omance, que ap esen a o mas di e si icadas de lu as con a d agões: quando os d agões são eais, o comba e não chega a conc e iza -se ou deco e de manei a ma ginal, com o he ói a des ia -se da ob igação da a e a; quando po ém o d agão não em uma exis ência ma e ial, o comba e ealiza-se num encon o di ec o ma cado pelo desempenho excepcional do he ói. 11 Con á ia é a posição de Ga cía Gual: “No hay, pues, esonancias épicas en es e en en amien o. El audaz Calímaco sale de su escondi e y descua iza de un iolen o ajo al mons uo, mien as és e se halla sumido en los sopo es de la sies a, una sies a an pesada que ni siquie a pe cibe el p ime golpe que nues o hé oe la ases a con la espada que no log a aspasa la piel paquidé mica. Los consejos de C isó oe le han sido de la mayo u ilidad al hé oe pa a an ápida ic o ia. Es amos an e una ic o ia de un cuen o abuloso, no an e una secuencia épica, e iden emen e.” Ga cía Gual, “In oducción”, 27. 12 “The omance Callimachus and Ch yso hoe is he mos abulous o he p ese ed [Byzan ine e nacula ] omances”, W. J. Ae s, “The „En üh ung aus dem Se ail‟-Mo i in he Byzan ine (Ve nacula ) Romances”, in S. Panayo akis, M. Zimme man, W. Keulen (eds.), The Ancien No el and Beyond, Leiden-Bos on, 2003, 385. 13 Es e omance bizan ino ence a com o adicional happy ending das na a i as de amo e a en u as da época helenís ica. O p esen e abalho incide po ém nos acon ecimen os na ados du an e a p imei a pa e da his ó ia, sensi elmen e a é ao e so 1326, com a mo e empo á ia de Calímaco. É nessa pa e que o he ói en en a d agões, o que já não acon ece na segunda pa e, cuja acção deco e na co e do ei es angei o a mando do qual C isó oe oi ap ada. Nessa úl ima pa e da na a i a, os d agões são subs i uídos pelos c iados e conselhei os do ei. São eles que ep esen am o no o pe igo que o pa p o agonis a e á de en en a . Sob e a es u u a bipa ida des e omance, ide Agapi os, “Gen e, S uc u e, and Poe ics...”, 28-29; Bea on, “The Byzan ine Re i al...”, 722-723; Bea on, The Medie al G eek Romance, 119-121; Cupane, “In oduzione”, Romanzi..., 47-48; Ga cía Gual, “In oducción”, 33- 35; R. Bea on, “The G eek No el in he Middle Ages”, in R. Bea on (ed.), The G eek No el AD 1-1985, London, New Yo k-Sydney, 1988, 140-141. 14 Ga cía Gual, “In oducción”, 27. eClassica I 2015 88 Rui Ca los Fonseca, “A excelência he óica na lu a con a o d agão: um mo i o épico no omance bizan ino Calímaco e C isó oe”, eClassica 1, 2015, 82-90. Nes e úl imo episódio, Calímaco ecupe a a sua au onomia he óica. Ce o dia em que passeiam pelas mu alhas do cas elo de que ago a são senho es, os jo ens apaixonados icam pe u bados ao ou i ugidos es ondosos. Apesa de não conhece a o igem de ais sons que mui o a inquie am, C isó oe não em dú idas de que pe encem a um d agão, p o a elmen e da amília daquele que a ha ia ap ado e ei o p isionei a e que ago a p e ende inga -se do jo em casal ( . 1275-1277). Pela segunda ez, C isó oe dá ins uções a Calímaco sob e como p ocede pe an e a ameaça iminen e do d agão, ins uções que, no en an o, ao con á io do que acon ece a an es, o he ói não cump e. A jo em, a e o izada pelos o es ugidos, pede pa a que o ma ido não se a as e nem a deixe só (Σηέθνπ ζηκά κνπ, θξάηεη κε, ἔμσ κεδὲλ ὑπάγῃο, . 1278). Calímaco az exac amen e o con á io: co e pa a o in e io , em di ecção aos aposen os, pa a i busca a espada com que já ma a a o an igo sobe ano do cas elo ( . 1279-1280). A mado, ai à p ocu a da o igem dos b amidos a é que encon a um d agão a e ado , sem sabe que é na e dade o p odu o conju ado pelas a es mágicas de uma elha b uxa ( . 1283-1285): Τξέρεη, πεδᾷ πξὸο ηὴλ θσλὴλ θαὶ ζπξηζκὸλ ἀθνύεη˙ ἐθβαίλεη δξάθσλ θνβεξόο ἔζσζελ ἐθ ηνῦ δάζνπο, ηὸλ ἔθακελ ἐθ κεραλῆο ἡ γξαῦο κεηὰ καγείαο Julgando a a -se de um mons o eal, Calímaco lança-se co ajosamen e con a ele e co a-lhe a cabeça com a espada ( . 1289-1291). A ilusão des az-se e o d agão desapa ece. O he ói consegue assim a sua e cei a i ó ia nes e omance no comba e con a d agões. Ma a o d agão cons i ui uma g ande açanha nas adições épica e ca alei esca. T a a-se, po no ma, de um ei o cuja ealização se mos a impossí el pa a os homens comuns, es ando po isso apenas ao alcance dos que demons am co agem excepcional e ânimo alo oso. Con encionalmen e e a ado como um ép il gigan esco, um mons o a e ado que oa e cospe ogo, p o ec o de um esou o imenso ou des uido de einos, o d agão ep esen a um pe igo que es á pa a além da o ça humana, azão po que a i ó ia sob e um d agão cons i ui um ei o p odigioso, sinal da excelência do he ói. Nes e omance bizan ino do século XIV, Calímaco consegue ence um g upo de d agões sen inelas, o d agão senho do cas elo e um d agão an asma, embo a nem semp e pelo con on o di ec o, ou seja, es e jo em p íncipe nem semp e p ecisa de comba e pa a iun a sob e os d agões. Os ês inspi am e o nos homens, mas os ês possuem ca ac e ís icas que os di e enciam, podendo inspi a esse mesmo e o de manei as di e en es. Os d agões de gua da às mu alhas do cas elo a emo izam po causa do aspec o ísico e da igilância semp e a en a. A isão é pa a eles o pon o basila da sua o ça – essa ca ac e ís ica é con udo supe ada quando Calímaco escapa à igília dos po ei os e anspõe os mu os pa a o in e io da o aleza. O d agão que i e no cas elo a e o iza de ido à o ça b u a e ao ape i e o az. A sua imensu á el o acidade pe mi e-lhe engoli quan idades ilimi adas de comida e de bebida – de o ou odos os animais e odos os habi an es do eino de C isó oe 15 –, mas é ambém po causa dessa o acidade 15 Ao lamen a a desg aça que sob e eio à sua amília e ao seu eino, C isó oe admi a-se de o es ômago dis o me do d agão não se e asgado, depois de e engolido um ão g ande núme o de pessoas e de animais (ἔθαγελ, ἐθαηέπηελ, ἐθάληζελ ηειείσο, . 681 [“De o ou-os, engoliu-os, consumiu-os po in ei o”]; Ὢ θξῖκα, πῶο νὐθ ἔζρηζελ, πῶο νὐθ ἐξξάγελ ηόηε| ηνῦ παληνθάγνπ δξάθνληνο ἡ δπζεηδὴο θνηιία; . 686-687 [“Oh c ime! Como é que não se dilace ou, como é que não se ompeu logo o es ômago dis o me do insaciá el d agão?”]). eClassica I 2015 89 Rui Ca los Fonseca, “A excelência he óica na lu a con a o d agão: um mo i o épico no omance bizan ino Calímaco e C isó oe”, eClassica 1, 2015, 82-90. que ele sucumbe ao sono que lhe se á a al, pois é mo o enquan o do me. O d agão da b uxa deixa os p o agonis as num a li i o es ado de inquie ação apenas po se aze ou i . A iolência que o ca ac e iza eside no som – são os seus ugidos que assus am o jo em casal e que le am Calímaco a i busca a espada de que se se e pa a co a a cabeça des e d agão ei o de umo e a es mágicas. A na u eza di e sa des es d agões encidos po Calímaco apenas enal ece a igu a des e he ói, o qual, não ac uando num cená io épico, mos a con udo possui a inidades com o gue ei o da epopeia an iga. A li e a u a bizan ina, enquan o espaço aglome ado de di e en es adições e modalidades li e á ias, ecupe a mui as das con enções épicas, adap ando-as aos no os pa âme os es é icos de Bizâncio. O jo em p íncipe si ua-se, como p ocu ei mos a , en e o he ói omanesco e o he ói épico, sem pe ence po comple o a um ou a ou o. Ao pa ilha ca ac e ís icas de ambos (aliando ao isco de en en a o pe igo a indolência do ges o pe an e a ameaça a e ado a), o he ói da li e a u a omanesca bizan ina cabe numa no a classe de pe sonagens he óicas, o mada pela mis u a de di e sos ing edien es 16 . BIBLIOGRAFIA W. J. Ae s, “The „En üh ung aus dem Se ail‟-Mo i in he Byzan ine (Ve nacula ) Romances”, in S. Panayo akis – M. Zimme man – W. Keulen (eds.), The Ancien No el and Beyond, Leiden-Bos on, 2003, 381-392 P. Agapi os, “Gen e, S uc u e, and Poe ics in he Byzan ine Ve nacula Romances o Lo e”, Symbolae Osloenses 79, 2004, 7-101 R. Bea on, “The Byzan ine Re i al o he Ancien No el”, in G. Schmeling (ed.), The No el in he Ancien Wo ld, Bos on-Leiden, 2003, 713-733 R. Bea on, “The G eek No el in he Middle Ages”, in R. Bea on (ed.), The G eek No el AD 1-1985, London, New Yo k-Sydney, 1988, 134-143 R. Bea on, The Medie al G eek Romance, 2nd ed., London-New Yo k, 1996 J. B. Be gua, “No icia P elimina ”, La no ela bizan ina: Las E iopicas, A en u as de Leukippé y Klei o ón, La No ela de Kallimachos y Ch iso oé, Mad id, 1965, 525- 530 G. Be s, “In oduc ion o Kallimachos and Ch yso oi”, Th ee Medie al G eek Romances, New Yo k-London, 1995, 33-36 E. Cas illo Ramí ez, “El Calímaco y C isó oe a la luz del análisis del cuen o de V. P opp”, E y heia 21, 2000, 73-118 C. Cupane, “Il mo i o del cas ello nella na a i a a do-bizan ina”, Jah buch de Ös e eichischen Byzan inis ik 27, 1978, 229-267 C. Cupane, Romanzi Ca alle eschi Bizan ini, To ino, 1995 C. Ga cía Gual, “In oducción”, Calímaco y C isó oe, Mad id, 1990, 7-40 16 A endendo ao ca ác e mis o do omance g ego an igo, La s Nø gaa d explo a a adap ação de ou os elemen os épicos nes e géne o bizan ino, p opondo “an app oach o a li e a y e alua ion o he omances by discussing a cen al aspec , iz. he cohe ence o mo i es common o his kind o li e a u e and i s impac , as essen ially an epic quali y, upon he in e p e a ion and he p ope app ecia ion o he li e a y me i s o he gen e”. L. Nø gaa d, “Byzan ine Romance – Some Rema ks on he Cohe ence o Mo i es”, Classica e Mediae alia 40, 1989, 273. Sob e a ca ac e ização omanesca do he ói e o mo i o do comba e no omance bizan ino, ide H.-A. Theologi is, “Pou une ypologie du oman à Byzance. Les hé os omanesques e leu appa enance géné ique”, Jah buch de Ös e eichischen Byzan inis ik 54, 2004, 207-233. eClassica I 2015 90 Rui Ca los Fonseca, “A excelência he óica na lu a con a o d agão: um mo i o épico no omance bizan ino Calímaco e C isó oe”, eClassica 1, 2015, 82-90. H. Hunge , “Un oman byzan in e son a mosphè e: Callimaque e Ch yso hoè”, T a aux e Mémoi es 3, 1968, 405-422 L. Nø gaa d, “Byzan ine Romance – Some Rema ks on he Cohe ence o Mo i es”, Classica e Mediae alia 40, 1989, 271-294 M. Picha d, “In oduc ion”, Le Roman de Callimaque e de Ch yso hoé, Pa is, 1956, x -xl G. Van S een, “Des ined o be? Tyche in Cha i on‟s Chae eas and Calli hoe and in he Byzan ine Romance o Kallimachos and Ch yso oi”, L’An iqui é Classique 67, 1998, 203-211 H.-A. Theologi is, “Pou une ypologie du oman à Byzance. Les hé os omanesques e leu appa enance géné ique”, Jah buch de Ös e eichischen Byzan inis ik 54, 2004, 207-233