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Os English Studies e a “missão” da Universidade

Faria, Luísa Leal de

Abstract

Tendo como ponto de partida a obra Education and the University (1943) de F. R. Leavis, pretende-se reflectir sobre o ensino da literatura e cultura inglesa no meio universitário.

Full text

Os English S udies e a “missão” da Uni e sidade 1 Luisa Leal de Fa ia* * CEAUL / Uni e sidade Ca ólica Po uguesa 1 O ex o que se segue cons i ui a segunda pa e da “Lição de Ag egação” in i ulada “De “O Con li o das Faculdades” às Gue as de Cul u a””, ap esen ada em Ab il de 2004 à Faculdade de Le as da Uni e sidade de Lisboa. Se, a é aos anos 20 do séc. XX, poucos ou nenhuns pe cebiam ainda quais se iam as an agens de es uda li e a u a inglesa, e mui o menos se es a se pode ia cons i ui como disciplina académica, dez anos mais a de English e a a disciplina po exce - lência na Uni e sidade de Camb idge e pa ecia ep esen a a essência espi i ual da sociedade. A ans o mação icou a de e -se a F. R. e Queenie Lea is, a I. A. Richa ds, William Empson ou L. C. Knigh s. Embo a mui o hou esse a dize sob e os aspec os especi icamen e li e á ios des es c í icos, é mais ele an e, no con ex o des a lição, de e -me sob e uma das ob as de F. R. Lea is em que ele desenha o p ojec o de uma English School. Publicado pela p imei a ez em 1943, Educa ion and he Uni e si y insis e na “ideia” de uni e sidade, aliada à concepção de uma o mação humane, que a li e - a u a es á em posição p i ilegiada pa a con e i . Não se pode igno a que Lea is decidiu ac escen a , como a gumen o adicional às suas p opos as de eno ação da Uni e sidade, o papel a desempenha no uni e so angló ono do u u o pela cul u a inglesa, de inido em e mos que hoje di icilmen e encon a íamos no discu so académico poli icamen e co ec o: um papel de p eponde ância, o exe cício desejá - el de uma p epo ência como en oque do e inamen o de uma adição cul u al; e que as uni e sidades e iam um papel essencial nessa missão de sobe ania, de senio pa ne cul u al. Pa a an o, e iam que essusci a a “Ideia de Uni e sidade” (Lea is: 1961, 11). Lea is es á, assim, a indica uma unção cul u al pa a a Uni e sidade, que ex a asa a e lexão sob e a disciplina de li e a u a que o i ia ocupa na con inuação do seu ex o. Como Newman, que ecusa a conside a o mações p o issionais pa a emp egos especí icos, mas con empla a a o mação de uma eli e ce amen e ocacionada pa a ocupa pos os de che ia e decisão, nomeadamen e no apa elho do es ado na sua dimensão impe ial, Lea is isa uma o mação “libe al”, den o daquilo a que chama humane adi ion (pa a a dis ingui da adição “humanis a”). “A SCHOLAR FOR ALL SEASONS” Pa a quem enha lido com a enção o conjun o das con e ências de Newman sob o í ulo The Idea o a Uni e si y (embo a exis am ou as edições com í ulos di e en es, como The Na u e and Scope o Uni e si y Educa ion), a ideia ge al que p eside ao ex o de Lea is não ap esen a no idade. De uma o ma mui o mais desen - ol ida e sus en ada po uma a gumen ação in o mada, já Newman oca a alguns pon os a iculados po Lea is. En e eles, a impo ância de si ua a Uni e sidade numa adição que a anscende e lhe con e e uma au o idade maio do que a de cada um dos sabe es. Mas, enquan o Newman es á p eocupado em ca ac e iza uma no a Uni e sidade Ca ólica, a se c iada na I landa, embo a den o de uma ma iz co esponden e à da Uni e sidade de Ox o d no quad o do Anglicanismo, Lea is e oca a esponsabilidade ac escen ada de uma uni e sidade an iga, Camb idge, como condição a o á el pa a a inaugu ação de um no o ipo de Faculdade — uma English School: uma Faculdade onde iessem con e gi , como pa a um cen o, os di e en es sabe es a ados no âmbi o das Humanidades. Pa a Lea is, a educação libe al p oblema izada po Newman e ia sido de o a - da e dissipada pelo a anço da especialização (Lea is, 1961: 25). Uma no a Facul - dade, cen ada no es udo da li e a u a inglesa, pode ia i con a ia essa endência desin eg ado a do que e a, pa a Newman, a unidade do sabe . Mas, como Newman, Lea is en endia a o mação académica den o de uma concepção de o mação indi - idualizada — o gen leman, de um lado, o educa ed man, do ou o — embo a Lea is p e en desse concilia essa o mação com a especialização: o p oblema se ia p o duzi especialis as que es i essem em con ac o com um cen o humane, e p oduzi um cen o com o qual eles es i essem em con ac o (28), p opo cionando o desen ol - imen o da in eligência, da capacidade de escolha e da on ade, numa uni e sidade cuja aison d’ê e de e ia se cons i ui um oco de humane consciousness, um cen o onde a in eligência, con on ada com as especializações e dispe sões que dissol em os p opósi os humanos, mobilizasse um sen ido de alo es amadu ecido e se aplicasse aos p oblemas da ci ilização (30). Segundo Lea is, e a undamen al que a Uni e sidade econhecesse, den o de si mesma, um cen o ag egado de odas as possí eis dispe sões; só a anco agem dos di e en es sabe es na es abilidade de um cen o comum a odos, c ia ia as condições pa a o desen ol imen o de no os campos cien í icos, nomeadamen e no âmbi o das ciências humanas, como as ciências sociais. Uma “Escola de Inglês” se ia a espos a. O es udo c í ico da li e a u a e ia, en e ou as, a i ude de cons an emen e exigi conhecimen os em ou as á eas cien í icas, e con oca esses conhecimen os, a a és do eino da in eligência e da sensibilidade, com a p ecisão da análise do conc e o, pa a os in eg a e elaciona de o ma con olada. Es a disciplina men al de e ia e uma unção social: inicia a os es udan es na na u eza e signi icado da adição (35). O objec i o inal se ia p oduzi uma men e capaz de abo da os p oblemas da ci ilização mode na en endendo as suas o igens, do ada de ma u idade, não iciada pela nos algia ela i amen e ao passado, com um sen ido das possibilidades humanas di íceis de cump i , de que as cul u as passadas dão es emunho e que se ia desas - 552 “A SCHOLAR FOR ALL SEASONS” oso, numa up u a de con inuidade, pe de de is a pa a semp e (56). Uma men e que sabe o que é a p ecisão e o sabe especializado, que pa a an o eque eino espe cial, ené gica e imagina i a, que se aplica á aos p oblemas da ci ilização, que con inua á ene gicamen e a desen ol e os seus ins umen os e a explo a no as abo dagens (58-9). A me odologia ecomendada po Lea is é a do deba e em seminá io, coo de - nado com lei u as o ien adas e com a p odução de pequenos abalhos. A cons ução do cu ículo de Inglês, pa a se i es es p opósi os, impôs a Lea is escolhas cla a - men e assumidas. É sobejamen e conhecida a sua opção po pa i do es udo do séc. XVII, e as explicações que a ançou. Pa a ele, o séc. XVII oi a “época cha e na his ó ia da ci ilização”. Po um lado, é um pe íodo que es á ainda em con ac o com a época de Dan e e, po ou o, e ela um mundo que ompeu de ini i amen e com a o dem medie al e se comp ome eu com o p ocesso de desen ol imen o da mode - nidade: o capi alismo e a co esponden e é ica acei e como lei, mo al e con ole do meio económico; a e a do pa lamen a ismo; o con on o com ques ões c uciais na elação en e a Ig eja e o Es ado, o espi i ual e o secula , a eligião e o indi íduo, deci didas ago a num espí i o con á io às secula es adições, es abelecendo o p incí pio da ole ância e do “negócios são negócios”; a subs i uição de um concei o o gâ nico de sociedade po um concei o de sociedade anónima, compos a po accio - nis as; o desen ol imen o, em acele ação cons an e, da ciência (48-9). A impo ância que Lea is a ibuiu à up u a epis emológica ope ada no séc. XVII e e consequências de g ande alcance: eliminou, como no ou Raymond Williams, a ilologia, o es udo dos clássicos e da li e a u a medie al, e lançou as semen es de uma sé ie de con li os subsequen es. Segundo Williams (1983: 182) ao in e p e a uma e en ual “escola de Inglês” p óp ia da Uni e sidade de Camb idge, a ob a de Lea is empenhou-se em ede ini o concei o de Li e a u a e de Englishness. Os ex os de Lea is de 1943 de em, po ém, se pe spec i ados no con ex o de um abalho p osseguido em Camb idge nas duas décadas an e io es que, ainda segundo a e isão ei a po Williams, de ini a duas ias de es udo al amen e in luen es no u u o: uma, a da c í ica li e á ia (c i icism), ou a, a da “ ida e pensamen o” (li e and hough ). A ia da c í ica li e á ia, p o agonizada po I. A. Richa ds, p opunha, sob a designação de P ac ical C i icism, uma aliança en e a p á ica e a eo ia: a análise de ex o, p osseguida pa a de e mina a sua o ganização e bal e pe mi i depois a sua a aliação, ou a descobe a do seu mé i o, e ia que se unda não apenas em eo ias da li e a u a, mas ambém no conhecimen o de p ocessos undamen ais de lingua - gem, signi icado, composição e comunicação. A p opos a de Richa ds supunha um lei o einado e com capacidade de disc iminação, que se empenha a no es udo da li e a u a en endida como um ace o de alo es “in incadamen e abalhados”, que se iam in eg ados e cla i icados pelo “compos u a” do lei o , que es a a no cen o de uma eo ia de alo . Lea is pa iu do mesmo concei o de lei o einado e espe - cia lizado, pa a a p opos a de que o close eading e a análise da li e a u a consis em na descobe a e animação dos alo es humanos cen ais, e a pa i daqui desen ol eu 553 LUISA LEAL DE FARIA um a aque ce ado ao es udo daquilo a que Williams chamou cul u e and socie y (185) e que na ob a com o mesmo í ulo, de 1958, lança os undamen os de no as pe spec - i as no es udo da li e a u a e da cul u a. A escolha do séc. XVII como época p i ilegiada pa a começa o es udo da li e a u a em undas implicações in e p e a i as. A “dissociação de sensibilidade” que T. S. Elio diagnos ica a na li e a u a desse pe íodo dá o igem a uma e são cul u al da his ó ia, em que a li e a u a cons ói uma g ea adi ion, pa a usa a exp es são de Lea is, que se e gue con a um p esen e deso denado e des u i o, ma cado pela eme gência da indus ialização e da cul u a de massas. A escola de c í - ica li e á ia assume o es a u o de uma mino ia, enca egada de sus en a e p o e ge os alo es do passado, cons i uindo um bas ião de esis ência con a a in asão da cul u a das massas. A i ma, assim, uma ideia de uni e sidade que Williams, usando a e minologia de Lea is, e e e como humane, mas in e p e a como uma es u u a p i ilegiada den o de uma o dem adicional, já minada po ou a o dem social eal, que su giu com o séc. XIX, e não com o XVII: um mundo de pa en e lu a de classes, inclusi amen e na educação, de e ozes p io idades do capi alismo indus ial, com ideias mui o di e en es daquilo que a uni e sidade de e se (187); um mundo onde ou as uni e sidades, no Reino Unido, se ab iam à educação de adul os e a um no o uni e so eminino in e essado nos es udos de li e a u a, desa iando o es a u o mino i á io e eli is a do p ojec o de Lea is. Nas p imei as décadas do séc. XX, a Uni e sidade de Camb idge ilus a um con li o pela dema cação dos es udos de inglês que acen ua a cen alidade da li e a - u a, a ibui ao seu es udo a o mação de compe ências in elec uais e o desen ol i - men o de aculdades humanas, p esume a o mação de um sen ido de alo que se á, ele p óp io, a medida pela qual o alo da ob a li e á ia se á medido, pe mi indo a inclusão e a exclusão, no cânone li e á io. As posições mais adicais de Lea is não en am em con li o abe o com ou as inicia i as o iundas da mesma escola, como a ob a de Basil Willey, cujos es udos sob e o backg ound dos sécs. XVII e XVIII sus en a am ainda, nos p imei os anos da década de se en a, os p og amas de li e a - u a inglesa do cu so de Filologia Ge mânica da Faculdade de Le as de Lisboa, ao lado de es udos de Tillya d ou de Mu iel B adb ook, p oduzidos no mesmo con ex o de de inição dos es udos de inglês. As análises e as sín eses ap esen adas po es es au o es e am al amen e in o ma i as, e ansmi iam uma ideia de con inuidade na cul u a inglesa, onde a li e a u a casa a com o con ex o das ideias, e con ida a à p odução de espos as, ou lei u as, cen adas na subjec i idade do lei o . As ob as de Raymond Williams, começando com Cul u e and Socie y, con i - nuan do com The Long Re olu ion, ie am despe a a a enção pa a ou as manei as de le : como o p óp io Williams as de iniu, não como um backg ound pa a se p oduzido pa a ano ação, onde pa eça se ele an e, em lei u a pessoal — o ex o a nu, dian e do lei o a nu — mas uma lei u a em que as condições de p odução possam se en endidas em elação ao ex o e ao lei o ; um sen ido ac i o e social da esc i a e da lei u a, a a és das ealidades his ó icas ma e iais da linguagem, num mundo onde es a é conhecida com p ecisão, em cada ac o de esc i a e lei u a com que es as 554 “A SCHOLAR FOR ALL SEASONS” p á icas se elacionam e se e elam insepa á eis do conjun o de p á icas e elações que de inem os esc i o es e os lei o es como se es humanos ac i os, dis in os dos “au o es” e “lei o es einados” que se p esumia lu uando, em p i ilégios exclusi os, acima do mundo ude, di idido e di e si icado de que possuíam, não obs an e, o seg edo essencial (189). O que me impo a sob e udo ele a nes a ap eciação dos es udos de inglês p oblema izados na Uni e sidade de Camb idge é jus amen e isso: a sua p oble ma - ização. Embo a já se possa an e e , no séc. XIX, em ex os de Newman e de A nold, um alo iden i á io a ibuído à li e a u a inglesa, que a desloca pa a um campo de es udo e ap eciação es ei amen e ligado a uma in e p e ação do ca ác e nacional e da cul u a nacional, é a sis ema ização des a ideia e a sua ans o mação numa disciplina académica em Camb idge que me pa ece e um signi icado impo an e quando se e lec e sob e o con eúdo dos Es udos de Inglês. Na opinião de Bill Readings (1999: 79) as p opos as de Lea is sin e izam uma pe spec i a que designa po “Uni e sidade da Cul u a”, na exp essão que es a assume em Ingla e a e se dis ingue da si uação pa alela obse ada nas uni e sidades alemãs. Nes as, o p o - ces so de emancipação da eligião aduz-se numa ên ase na iloso ia, como disciplina aglu i nado a da dispe são mode na dos sabe es, e guida como exp essão de iden i - dade nacional. Em Ingla e a es e papel se ia assumido pela li e a u a inglesa, chamada a de ini um p ojec o cul u al que hos iliza a as ciências e as ecnologias e p ocu a a in e p e a a cul u a nacional. Essa unção in e p e a i a elege Shakespea e como a o igem da cul u a inglesa, ou como diz Readings, ele e gue-se como o caso em que o es ado-nação encon a a sua o igem, como a usão en e uma na u eza é nica e um es ado acional, um pon o em que uma na u eza é nica se exp essa na u - al men e como uma cul u a nacional e Shakespea e ans o ma-se, pa a a Ingla e a, na mesma coisa que a iloso ia g ega o a pa a a Alemanha: a o igem pe dida de uma comunidade au ên ica, a se econs uída po meio da comunicação acional en e sujei os nacionais, mediada a a és das ins i uições do Es ado. As mudanças oco idas na segunda me ade do séc. XX i iam impo e isões p o undas a es a concepção de cul u a e de uni e sidade. Tan o Newman como Lea is inham em men e a ibui uma “missão” à uni e sidade, e aduzi essa missão num co po disciplinado de ac i idades académicas. Em ambos, p edomina a a p eocupação com a o mação indi idualizada, que le a a Newman a e e i a uni e - sidade como uma Alma Ma e , que conhece os seus ilhos um po um e que em Lea is acen ua a a dimensão da espos a indi idualizada à lei u a da li e a u a, en a izando ambos a dimensão humana e libe al da uni e sidade. Nos meados do séc. XIX, Newman pe spec i a a es a o mação em o no de uma dimensão ilosó - ica do sabe , que pode se um im em si mesmo, e no en a anos mais a de Lea is pe spec i a a-a em o no da li e a u a inglesa, com a unção de de ol e unidade à cul u a nacional. Em F ança, Geo ges Gusdo (1964: 9) in e oga a-se sob e “a ques ão das uni e sidades” e p oblema iza a a decadência das uni e sidades ancesas lamen - ando o “ azio in elec ual e espi i ual” que e idencia am, a ibuindo-o ao modelo 555 LUISA LEAL DE FARIA napoleónico de escolas supe io es, dependen es exclusi amen e do Es ado, c iadas e o ien adas pa a a o mação p o issional. Assim se des i ua a a p óp ia ideia de uni e sidade, de que Pa is o a, no séc. XIII, o p o ó ipo exempla . T ans o mada numa genda me ie de in elec uais (73), a uni e sidade ancesa deixa a de se uma “escola de humanidade”, um luga onde se p ossegue uma in es igação ao mesmo empo “ undamen al e desin e essada”. Com e iden es a inidades com o ideal de Newman, Gusdo acen ua a o ca ác e “comuni á io” e “in e disciplina ” da uni e sidade, pa a salien a a ob igação comum, de p o esso es e es udan es, a uma obediência à libe dade de pensa e à de esa solidá ia da au onomia uni e si á ia. Con a o sabe enciclopédico, de ini i amen e ul apassado, Gusdo inha a i ma o alo da in e disciplina idade como a o ma ac ualizada do ideal medie al do s udium gene ale, da uni e si as scien ia um (91-3). A c í ica de Gusdo di ige-se à es u u a da ca ei a docen e uni e si á ia em F ança, ao es a u o dos ei o es como uncioná ios públicos, dependen es de nomeação minis e ial, à sujeição de planos de es udo a cadei as p opedêu icas com es a u o liceal e não uni e si á io, à p io i - dade a ibuída à o mação de p o esso es pa a o ensino não supe io , à sepa ação a i icial en e Faculdades de Le as e de Ciências ope ada logo em 1808 e nunca mais esol ida. Todas es as condições inham des i uado a uni e sidade, e a si uação de Pa is o na a-se pa adigmá ica: o seu gigan ismo anula a qualque p e ensão à exis ência de uma comunidade académica, des i ua a as elações en e p o esso es e es udan es, a o ia a as uni e sidades de p o íncia, impossibili a a o cul i o da “al a cul u a” que de e ia se a missão da uni e sidade. Qua o anos mais a de, os es udan es das uni e sidades ancesas i iam o na e iden es as insu iciências do sis ema. A c ise de Maio de 68 em sido objec o de a ia das in e p e ações, nomeadamen e de ca iz sociológico e ideológico, jus i icadas po condições especí icas da c ise es udan il desses anos, como a in enção minis e ial ancesa de 1967 de diminui o núme o de en adas pa a a Uni e sidade de Pa is, ou a ap op iação pelos es udan es de um discu so de lu a de classes e de iden i icação en e os es udan es e as classes abalhado as. Pie e Bou dieu eduziu a “c ise” dos anos sessen a a uma in e p e ação polí ica, no sen ido em que os p o esso es das disciplinas adicionais, como as ilológicas, emp eende am uma de esa co po a i a dos seus in e esses pela p ese ação de um me cado p o egido, que lhes assegu a a um público escola es ei amen e con olado, con a a in asão de no as disciplinas, como a Linguís ica ou as Ciências Sociais, desen ol idas no es angei o ou em ins i uições ancesas ma ginais, como a École des Hau es É udes ou o Collége de F ance, ou mesmo nas uni e sidades de p o íncia, ou ainda o iundas de disciplinas menos concei uadas no quad o académico, como as línguas i as. Bou dieu (1984: 165-7) compa a o p ocesso de decadência das disciplinas adicionais e do p es ígio dos espec i os p o esso es e a omada de espaços de pode das no as disciplinas às elações en e a a is oc acia e a bu guesia na al o ada do capi alismo. As es a égias de econ e são adop adas po p o esso es de disciplinas li e á ias adicionais e p o egidas, como a his ó ia da li e a u a, as línguas an igas ou a iloso ia, cons i - uí am, pa a Bou dieu, a e idência do iun o das no as disciplinas e o inexo á el 556 “A SCHOLAR FOR ALL SEASONS” declínio das an igas. T a a-se, na sua in e p e ação, de um e ei o que se obse a sem p e que os luga es de duas posições, no espaço social, se in e em de manei a insensí el ou b u al, ao longo do empo: os an igos dominan es da posição an e io - men e dominan e são, pouco a pouco, e sem se da em con a, le ados a uma posição dominada, e con ibuem pa a o seu p óp io declínio ao obedece em ao sen ido de ele ação es a u á ia que os impede de ope a a empo as con e sões necessá ias. Mas, pa a lá da in e p e ação sociológica ou polí ica dos acon ecimen os de Maio de sessen a e oi o, é de e e a posição a ançada po Bill Readings a es e p opó - si o: 1968 ma ca a en ada do co po es udan il na es e a da Uni e sidade, uma en ada que signi ica que a Uni e sidade já não pode se en endida em e mos da his ó ia da passagem, po ela, de um sujei o indi idual. Segundo a in e p e ação de Readings (1999: 144) os acon ecimen os de Maio de 68 queb a am a na a i a da educação uni e si á ia enquan o expe iência indi idual de emancipação, de passa - gem do es udan e de um es ado de igno ância pa a o sabe , de dependência pa a a au onomia e compe ência. Nes es discu sos sob e a uni e sidade pe spec i a-se, de um lado, a alência de um modelo, o nado desajus ado pelas ci cuns âncias, en e ou as, do c escimen o das uni e sidades, bem como da unda ans o mação do quad o polí ico e ideoló - gico que enquad a a a ideia omân ica de uni e sidade. Do ou o lado, a ecusa de subs i ui uma ideia po ou a ideia, a impossibilidade de, endo omado consciência da complexa eia de elações en e os sabe es na sua o ganização cien í ica, das dependências ins i ucionais da uni e sidade ace ao Es ado e às p essões económicas, da imp escindí el a iculação en e a uni e sidade e as sociedades, encon a uma espos a pa a as pe gun as “o que é a uni e sidade” e “pa a que se e”. A segunda me ade do séc. XX eio coloca em causa os dois p incípios o ien a - do es des as pe spec i as: um, o p incípio da au onomia do es udan e, ou o, o da unidade da cul u a. As lu as es udan is dos anos sessen a ie am desmen i a ideia de que o es udan e pe co e ia, na uni e sidade, um ciclo de es udos que o le a ia à ma u idade e à independência. Como no ou Lyo a d em 1979 (80-1), o es udan e já não é apenas o jo em o iundo das “eli es libe ais”, p eocupado com a g ande missão do p og esso social, en endido como emancipação. A democ a ização do aces so à uni e sidade eio c ia duas no as ca ego ias de es udan e — os que buscam uma p o issionalização, den o das disciplinas adicionais (“in elligen sia p o is sio - nal”), ou nas no as ecnologias (“in elligen sia écnica”); e um conjun o de desem p e - gados, não con abilizados nas es a ís icas do desemp ego, em excesso ela i amen e às “saídas p o issionais” dos cu sos em que se insc e em, que são os de le as ou de ciências humanas. A p o issionalização em, como consequência global, a subo di - nação das ins i uições de ensino supe io aos pode es es abelecidos. A pa i do momen o em que o sabe já não é um im em si mesmo, como ealização de uma ideia ou como emancipação dos homens, a sua ansmissão escapa à esponsabilidade exclusi a dos sábios e dos es udan es. A au onomia das uni e sidades ica ambém limi ada pelas con enções o çamen ais, e dependen e do inanciamen o do Es ado pa a o desen ol imen o das ac i idades de ensino e in es igação (82-3). A de inição 557 LUISA LEAL DE FARIA dos con eúdos e me odologias passou a e que conside a as expec a i as de o ma - ção dos es udan es e o papel nessa o mação que o Es ado a ibui à uni e sidade. É ambém den o des e conjun o de p eocupações que se si ua a e lexão de Jacques Ba zun, po exemplo, ainda nos inais de sessen a, em The Ame ican Uni e si y: How i Runs, Whe e I Is Going, publicado em 1968. As inquie ações de Ba zun e am an e io es aos umul os es udan is acon ecidos na Uni e sidade de Columbia em Ab il de 1968; Ba zun (1993: xxx i), cujo li o es a a já no p elo nessa al u a, não en en deu se necessá io muda nada no seu con eúdo, em unção des es acon e - cimen os. E desc e ia o pa adoxo das uni e sidades ame icanas no inal dos anos sessen a como um es o ço a i icial de mode nização. Ou seja: a uni e sidade deixa a de se um espaço p o egido pa a o es udo, apenas, e decidi a en a no me ca do e esponde aos g i os de ajuda indos do go e no, da indús ia, do público em ge al, passando a se i go e nos, undações, emp esas p i adas, azendo in es i gação com objec i os nacionais e, inalmen e, inco po ando as necessidades sociais e comp o - me endo-se a educa pessoas jo ens, de meia-idade, e ainda “ he disabled, he dep i ed, he misdi ec ed and he maladjus ed” (6). 2 Se as pe spec i as sob e os es udan es muda am, ambém a concepção de cul u a e li e a u a cons uída na p imei a me ade do séc. XX começou a so e os p imei os abalos, sen idos com maio in ensidade a pa i da década de se en a, mas já an es anunciados. É hoje quase um luga -comum a ibui o apa ecimen o dos Es udos Cul - u ais a um conjun o de ob as publicadas nos anos cinquen a e sessen a po Richa d Hogga , Raymond Williams e E. P. Thompson, e in e p e a o seu apa eci men o como uma up u a insaná el no domínio dos es udos de li e a u a, p ecipi ando uma di isão den o dos p óp ios depa amen os uni e si á ios dedicados ao es udo do Inglês. Não que endo diminui a impo ância das polémicas desencadeadas no con ex o das Cul u e Wa s nos anos se en a e oi en a, gos a ia, no en an o, de e e i a posição mais sób ia adop ada po S ua Hall ao aze , em 1980, um balanço dos Es udos Cul u ais desen ol idos no Cen e o Con empo a y and Cul u al S udies da Uni e sidade de Bi mingham ao longo da década de se en a. S ua Hall analisa a impo ância de The Uses o Li e acy, Cul u e and Socie y e The Long Re olu ion, bem como de The Making o he English Wo king Class como “in e enções cul u ais de di ei o p óp io” e não como manuais pa a a undação de uma no a disciplina (Hall, 1996: 16). Obse ando o modo como cada uma des as ob as se si ua numa adição de pensamen o já exis en e, Hall acen ua a con inuidade de mé odo com as disciplinas adicionais, mas, ao mesmo empo, sublinha o ca ác - 558 “A SCHOLAR FOR ALL SEASONS” 2 “The Ame ican uni e si y has uphea ed i sel o “ca ch up” and “mode nize”, wo ds ha mean: has ceased o be a shel e ed spo o s udy only; has come in o he ma ke place and answe ed he c ies o help u e ed by go e nmen , indus y, and he gene al public; has busily pu sued he en husiasms o ou u opian leade s o hough , bo h p i a e pa ons and big ounda ions; has se ed he coun y by ca ying on esea ch o na ional goals; has, inally, ecognized social needs by unde aking o each he qui e young, he middle-aged, he disabled, he dep i ed, he misdi ec ed, and he maladjus ed” (6). e ino ado das suas in e pelações. Ao ques iona em a sociedade e a cul u a inglesas após a Segunda Gue a Mundial, ie am de ini o espaço em que os Es udos Cul u ais apa ece am, com oda a ca ga engagé que ge a a uma ób ia ensão en e p eocu pa - ções polí icas e in elec uais. Po isso, desde a o igem, os Es udos Cul u ais si ua am- -se numa posição awkwa d em elação aos amos do sabe e às no mas que os legi ima am. E Hall (17-8) decla a: “Ma cados des e modo pelas suas o igens, os Es udos Cul u ais jamais pode iam se is os como o es abelecimen o de mais uma sub-disciplina académica. Is o impediu a sua ácil abso ção e na u alização na di isão social do sabe .” A elação dos Es udos Cul u ais com as ou as disciplinas académicas nasceu sob o signo da polémica. Mas es a polémica de e á, a meu e , insc e e -se num con ex o mais amplo de e lexão sob e a “c ise das humanidades”. As gue as depa - amen ais nas uni e sidades inglesas e no e-ame icanas, desencadeadas em o no dos es udos cul u ais e do mul icul u alismo, dos es udos de géne o e de e nicidade, dos es udos pós-coloniais, dos gay and lesbian s udies, e ou as a iedades de campos de análise cul u al, e lec em, sob e udo, o u bilhão de no as condições que, em poucos anos, ans o ma am as sociedades ociden ais, e, necessa iamen e, as suas uni e sidades. A pa i de inais dos anos sessen a começa a su gi um “dilú io de e ó ica de declínio e queda”, como diz Pa ick B a linge (C usoe’s: 3), sob e as ins i uições de educação. A con i ma es as pala as, bas a á lemb a alguns í ulos sobejamen e conhecidos, como The Closing o he Ame ican Mind, de Allan Bloom, de 1987, The Mo al Collapse o he Uni e si y, de B uce Wilshi e, de 1990, The Uni e si y in Ruins, de Bill Readings, de 1996, ou ainda The Rise and Fall o English, de Robe Scholes, de 1998, en e ou os. A alegada c ise das humanidades az-se sen i , desde logo, num espaço mais pe i é ico do que cen al na hie a quia de p io idades académicas, pa a onde as Faculdades de Le as o am sendo, pouco a pouco, a as adas, na segunda me ade do séc. XX. Os undos disponibilizados po o ganismos públicos e p i ados pa a a in es igação êm p i ilegiado domínios cien í icos mais di ec amen e elacionados com a isão u ili a is a do séc. XIX, e, nas g andes “mul i e sidades” ame icanas, como lhes chamou Cla k Ke , as disciplinas de humanidades são equen emen e apenas equen adas como equi emen s an es de os es udan es decidi em as suas á eas ocacionais. Mas oi den o das p óp ias ins i uições que as gue as de cul u a se a a am e não oi po que os es udan es as i essem desencadeado, ou po que os subsídios à in es igação i essem diminuído. Foi, a meu e , um complexo p ocesso de in e pelação di igido à p óp ia disciplina de Li e a u a, de Li e a u a Inglesa e de Li e a u a No e-Ame icana, que desencadeou uma as íssima e a iadíssima p o - dução de eo ia sob e a li e a u a, a que alguns já chama am heo heia (B a linge : 19), que es e e na o igem das “gue as de cul u a.” Ou seja, não só no os objec os de análise e am chamados a in eg a os es udos nos depa amen os de li e a u a, como uma a iadíssima p odução eó ica e a apidamen e in en ada, inco po ada, ques ionada, desca ada, subs i uída. As duas ma izes de análise cul u al que S ua 559 LUISA LEAL DE FARIA “A SCHOLAR FOR ALL SEASONS” 566 Bibliog a ia Ba zun, Jacques (1993). The Ame ican Uni e si y: How I Runs, Whe e I Is Going? Second edi ion, wi h a new In oduc ion by He be L. London. Chicago and London: The Uni e si y o Chicago P ess. Bou dieu, Pie e (1984). Homo academicus. Pa is: Les Édi ions de Minui . B a linge , Pa ick (1990). 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