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D. Luís da Cunha e a Carta da África Meridional de Bourguignon d’Anville (1725)

Mota, Avelino Teixeira da

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AGRUPAMENTO DE ESTUDOS DE CARTOGRAFIA ANTIGA SECÇÃO DE LISBOA D. LUÍS DA CUNHA E A CARTA DA ÁFRICA MERIDIONAL DE BOURGUIGNON D'ANVILLE (1725) A. TEIXEIRA DA MOTA JUNTA DE INVESTIGAÇÕES DO ULTRAMAR LISBOA • 1962 Sepa a a da REVISTA PORTUGUESA DE HISTÓRIA Tomo x / D. Luís da Cunha e a Ca a da Á ica Me idional de Bou guignon D'An ille (1725)* Em 17'2i2 oi publicada em Pa is a impo an e disse ação que Guillaumie Delisle le a em 27 de No emb o de 17>20 na Academia Real das Ciências, in i ulada «De e minação geog á ica da si uação e da ex ensão dais di e en es pa es da Te a». Baseando-se em ecen es de e minações de longi udes po obse ações das ocul ações de um sa éli e de Júpi e , mos a a Delisle no seu abalho que o no des e b asilei o e as ilhas de Cabo Ve de se encon a am exces- si amen e ap oximados em longi ude nas ca as da época. O e o se ia de pe o de seis g aus, o que equi alia a aze passa nessas ca as o me idiano di isó io de To desilhas po uma zona da Amé- ica do Sul a ce ca de seiscen os quilóme os a ociden e do que de ia se . O ala me p o ocado na co e po uguesa po al disse ação le ou D. João V a impulsiona o desen ol imen o dos es udos geo- g á icos e da ca og a ia em Po ugal, como magis almen e demons- ou Jaime Co esão (*). Pa a esse e ei o, logo em 172-2 ecebeu o embaixado po uguês na co e da F ança, D. Luís da Cunha, ins uções pa a en a em con ac o com Delisle. Pouco depois, essas ins uções ala ga am-se no sen ido de p ocede à encomenda e aquisição de ins umen os as onómicos, do que oi especialmen e enca egado, em 1725, o geóg a o Jean-Bap is e Bou guignon d'An- ille, en ão apenas com 28 anos de idade e que i ia se o maio geóg a o do século XVIII. Os objec i os de D. João V com ais medidas isa am essencial - (*) Es udo ei o sob os auspícios do 'Ag upamen o d'e Es udos de Ca og a ia An iga da Jun a de In es igações do Ul ama . (*) Alexand e de Gusmão e o T a ado de Mad id, Rio de Janei o, l!95,2-4. 4 MOTA, A. Teixei a da — D. Luís da Cunha e a ca a men e a Amé ica do Sul, mas D. Luís da Cunha soube ap o ei a -se da ci cuns ância pa a, po sua inicia i a, enca ega D'An ille de •es uda os undamen os geog á icos de um p ojec o que The :e a especialmen e ca o, a a essia en e Angola e Moçambique. Esse es udo oi e ec uado p ecisamen e em 1725. No deco e de pesquisas em cu so, com is a a um abalho de sín ese sob e a his ó ia da ca og a ia da Á ica Cen al, e i icámos que o p ojec o de D. Luís da Cunha e o es udo de D'An ille desem- penha am um impo an e papel na e olução ca og á ica e nos planos de a essia do con inen e du an e o século XVIII. Embo a essas pesquisas; ainda não enham chegado ao e mo, pa ece-nos de in e esse di ulga desde já, 'mui o esumidamen e, alguns dos esul- ados ob idos. AS INSTRUÇÕES DE D. LUÍS DA CUNHA A MARCO ANTÓNIO DE AZEVEDO COUTINHO Como é sabido, es as Ins uções o am edigidas po D. Luís da Cunha em 1736, com o p opósi o de as en ia a Ma co An ónio de Aze edo Cou inho, sucesso do Sec e á io de Es ado dos Negócios Es angei os Diogo de Mendonça Co e Real. Desis indo do in en o, D. Luís da Cunha eio a inal a eme ê-las ao seu sob inho D. Luís da Cunha Manuel. Delas se conhecem á ias cópias, uma das quais, pe encen e ao D . Sil a Amado, oi publicada po Ped o de Aze edo e An ónio Baião (2). No co po des as Ins uções, e e e-se a D. Luís da Cunha po duas ezes ao p ojec o da a essia de Á ica e à 'Colabo ação que lhe p es a a D'An ille no seu es udo (3). No seu en ende , essa a essia de ia se con iada à Companhia de Comé cio da índia e Á ica, cuja c iação ad oga calo osamen e: «... o nando ao meu p opósi o da c iação da Companhia, a sex a u ilidade que sua Mages ade dela de ia i a , se ia que ela (2) Ins uções inédi as de D. Luís da Cunha a Ma co An ónio de Aze edo Cou inho, e is as po Ped o de Aze edo e p e aciadas po An ónio Baião, Aca- demia das Ciên eias de Lásibo'a, 1'9'30. (3) Ob. cií., pp. 154-5, 181-2. da Á ica me idional de Bou guignon D'An ille (J 725) 5 mesma po segu ança e maio acilidade do seu comé cio aba- lha ia pa a ab i um caminho en e Angola e Moçambique, sem se necessá io dob a o pe igoso Cabo da Boa Espe ança, de que iz um p ojec o com CMJ . ID'An ille, geóg a o de El-Rei de F ança, o qual o e eci a Sua Mages ade po .mãos do Conde de Ta ouoa, que dele desejou enca ega -se, quando passou po Pa is, ecolhendo-se pa a Lisboa; po que ia com ideia de en a no Conselho Ul ama ino, mas nunca i e no ícia do uso que de ez do al p ojec o e po isso o ajun o a es e papel. Oes e descob imen o, que mie pa eceu p a icá el, à is a do mapa que ez o di o geóg aío, se segui ia a sé ima e g ande u ilidade, a sabe , que a Companhia i a ia sem compa ação pelos Rios de Sena 'mui o mais ou o do que se cos uma, po que, segundo a comum opinião, Soíala e a o O i , de que aia a Esc i- u a, e que dali i a a Salomão a g ande u ilidade e quan idade, que nos ep esen a; e ambém esga a ia .mui o maio núme o de den es de ma im...». «... Como ulga men e dizemos se indo-nos do p o é bio espanhol: Cada loco con su ema, yo con Ia mia, es a é, segundo já disse, a da c iação de uma companhia da índia e Á ica, po - que não só sus en a íamos o que ainda emos naquelas duas pa es do mundo, mas al ez es au a íamos o que pe demos, e a íamos no os descob imen os. Já apon ei o de ab i a comuni. cação en e Angola e Moçambique, que V. Ex.a acha á po apên- dice no im des e papel com o seu mapa pa icula , po se acaso o Conde de Ta ouca nunca o p oduziu. Bem ejo que es e des- cob imen o não nos poupa ia a pe igosa na egação do Cabo da Boa Espe ança pa a o Comé cio das g assas azendas que na e- gamos pa a a índia; mas o ânsi o que p oponho, semp e da ia g ande comodidade pa a le a as d- ogas necessá ias pa a negocia com aqueles ca es o cou o e ma im de que êm an a abun- dância». No inal das Ins uções, diz D. Luís da Cunha jun a -lhes, como apêndice, «o p ojec o de que alei, com a ca a, que esc e i ao Exmo. Ca deal da Cunha, po que em o 'mesmo objec o de se pode aumen a o comé cio de Po ugal, que já se não pode es ende , senão pelo que de no o se descob i ». 6 MOTA, A. Teixei a da — D. Luís da Cunha e a ca a Nesse apêndice, com o í ulo «Ca a. 17'25», explica D. Luís da Cunha como lhe nasceu a ideia: «... me pa eceu que no caso de se pode ab i o caminho de uma e ou a cos a se ia o comé cio mais es endido, ica iam os 'es abelecimen os mais segu os pelos ecíp ocos soco os que se pode iam da e se poupa ia a pe igosa na egação de dob a o Cabo da Boa Espe ança pa a i mos a So ala e Rios de Sena». Re e indo-se depois à colabo ação que Ine deu D'An ille: «E comunicando es a manha ideia a M . Dan ille, geóg a o o diná io de El-GRei de F ança, lhe pa eceu não se impossí el, quan o mais que pelo es udo que inha ei o sob e a ex ensão daquele país, supunha que e a mui o mieno do que a que lhe da am o:s mais geóg a os... Nes a is a abalhou MT. Dan ille em aze um mapa daquela pa e da Á ica mais co ec o, de pon o mais la go e mais comp eensí el pa a o nosso objec o, ajun ando-lhe pa a maio cla eza uma memó ia em que mos a que os es abeleci- men os po ugueses da pa e de Angola e de Moçambique o p od e iam acili a ». Ad oga D. Luís da Cunha que, pa a a ealização da a essia, se de iam o ganiza duas expedições pa indo, ao encon o uma da ou a, dos pon o-s ex emos a ingidos no Quanza ('Ilhas Quindangas) e no Zambezis (Sacumbe), e ocupa-se da ex ensão da pa e desco- nhecida a pe co e : «A espei o da dis ância que pode ha e en e os con ins do Reino de Angola e o de Mo-nomo apa, a im de a a essa es e país desconhecido e es abelece a comunicação, não é possí el dize -se p ecisamen e qual ela possa se . Con udo, M . Dan ille na ep esen ação do seu mapa, só az um pon o capi al de busca a e dadei a la gu a daquela pa e de Á ica, e depois de emp e- ga odas as ope ações que podiam con ibui pa a es e e ei o, supõe que al dis ância não pode excede a cem léguas po ugue- sas, bem en endido em linha di ei a po se necessá io que haja da Á ica me idional de {Bou guignon D'An ille (J 725) 7 mais pelas ol as que se de e ão aze , p incipalmen e quando pela p imei a ez se ' ai a de se anquea um no o cami- nho. Também em po coisa 'ce a que a 'dis ância igno ada ou o caminho que es a po descob i não é a e ça pa e do espaço que se con ém en e uma e ou a cos a, podendo caminha -se o es o pela® e as equen adas e sujei as aos po ugueses». E a conclui : «Supõe-se que o Reino da Bu ua se es ende desde os con ins de Angola a é aos con ins de Monomd aipa e que nele há mui o gado e minas de oi o, como mais la gamen e sie ê na memó ia de M . Dan ille, o qual c ê que um semelhan e descob imen o con ida á aos po ugueses a emp eendic em a na egação do g ande lago, que começa jun o de Ma a i, 60 léguas ao no e de Te e, sob e cujas ci cuns âncias se ala ga na sua memó ia, e ê e iden e que pelo lago se pode ia ab i uma comunicação com odas as pa es que es ão no co ação da Á ica. De so e que em consequência dos ais es abelecimen os, que se a iam no mesmo empo que se execu asse a comunicação das duas cos as, a nação po uguesa es ende ia o seu comé cio e a sua dominação em oda a E iópia, desde a Abissínia a é ao Cabo da Boa Espe ança» (4). Ve i ica-se, po an o, que D'An ille esc e eu uma memó ia especial sob e o assun o, e açou um mapa que é nela desc i o. Nem uma nem ou o se con inham na cópia das «Ins uções» pe - encen e ao D . Sil a Amado, ou, se lá se encon a am, não o am publicados po Ped o de Aze edo e An ónio Baião. Deles nos amos ocupa seguidamen e. (*) Ob. ci ., pp. 220-5. MOTA, A. Teixei a da—'£>. Luís da Cunha e a ca a A «MÉMOIRE OÙ L'ON TRAITE DE LA COMMUNICATION D'UN CÔTÉ DE L'AFRIQUE À L'AUTRE», DE BORGUIGNON D'ANVILLE No A qui o da Casa Palmeia localizemos uma ou a cópia das «•Ins uções» de D. Luís da Cunha, adqui ida no século passado no leilão da Casa Cas elo-Melho (5). Nes a cópia, a segui a-o apên- dice «Ca a. 17<2'5», encon a-se a memó ia do geóg a o ancês e e ida nas passagens an e io men e ansc i as de D. Luís da Cunha. Dada a sua ex ensão (90 páginas), não nos é possí el da aqui mais que umas b e es no as, ese ando o seu es udo adequado pa a abalho em que se aça a sua ep odução in eg al, con o me ece. Ao í ulo ge al «Desc ip ion Géog aphique de l'A ique», segue-se o sub- í ulo «Mémoi e où l'on ai e de la communica ion d'un ô ie de l'A ique à l'au e» (6 pp.). Ai se diz que, com o im de es uda es a comunicação, oi o ganizada po D'An ille uma g ande e po meno izada ca a da Á ica ao sul do equado . A pene ação dos po ugueses: no Quanza se ia de 100 léguas, a é às ilhas Quin- dangas, e no Zambeze a ingi ia 150 léguas, a é ao eino de Sacumbe; al a ia aos po ugueses pe co e o máximo de 100 léguas en e es es pon os, ou seja um e ço da dis ância en e as duas cos as. Ve i ica-se po an o comple a semelhança com as ideias exp essas po D. Luís da Cunha no «Apêndice» das «Ins uções». Seguem-se 81 pp. com a «Desc ip ion Géog aphique de la pa ie d'A ique si uée au sud de la Ligne Equinoxiale, e ep ésen ée dans la Ca e d essée pa o d e e con o memm^n au dessein de -Son Excellence M . D. Luís da Cunha Bmbassadeu de Po ugal». Deduz-se que o geóg a o ancês começou po elabo a uma ca a da cos a eco endo a ca as hid og á icas holandesas e à ca a de João Teixei a I de 164'9 que Me'lchisédec Thé eno ha ia publicado • m 1663 no li o «Rela ions de di e s oyages cu ieux» (6). A des- (5) N.° 1'0'S do Ca alogo dos p eciosos manusc ip os da biblio heca da Casa dos M<a quezes de Cas ello Melho , Lisboa, 1878. (6) Localizámos o o iginal em pe gaminho da da a de João Teixei a de 1'64'9, ac ualmen e na Biblio hèque Na ionale de Pa is (Dépô . 213.3.2) (V. A. Co esão e A. Teixei a da Moi a, Po ugaliae Monumen a Ca og aphica, Vai. IV, pp. 147-9, PI. 513 e 515). da Á ica me idional de Bou guiênon D'An ille $1725) 9 c ição de D'An ille baseia-se nas ca as e li os do seu empo (en e es es ci a a «E iópia O ien al» de F ei João dos San os). Segundo ele, a Bu ua se ia um ex enso eino que se es ende ia desde o Monoimo apa a é aos coni ins de Angola, e pe co ê-la-ia um g ande io, que se ia o Cunene. P opõe ambém D'An ille (de aco do com o que já imos no apêndice das «Ins uções» de D. Luís da Cunha) que se p oceda à explo ação do lago Ma a i, que se es ende ia desde 60 léguas ao no e de Te e a é à la i ude de Mombaça. Re e e D'An ille ainda uma memó ia que se p opunha subme e à Aca- demia Real de Po ugal e em que iden i ica a a lendá ia O i com o Mon e Fu a (ac ual M . Da win, Rodésia do Sul), e e mina de manei a signi ica i a : «C'es ainsi que j'ai c u de oi éc i e su la Ca e que j'ai d essée. J'a ais pensé qu'il con enai de end e comp e des connoissances su lesquelles j'ai en même emps supplée à la Ca e en plusieu s choses, e la end e (sic) plus in é essan e: j'ai c u 'enco e qu'un mémoi e join e da an age à la eche che des connoissanc s qui se i en (sic) nécessai es pou end e un pa eille ou age plus pa ai e plus u ile: heu eux, si en a- aillan pa les o d es e su les... d'un g and e habile Minis e, j'ai éussi dans une occasion, ou j'ai é é animé pa le puissan mo i de plai e à un g and Roi in inimen éclai é, e qui con ibue si o au p og ès des Sciences, pa la p o ec ion don il les hono e». A es a Desc ipçao, seguem-se 3 pp. de «Rema ques de M. D. su le p ojec géog aphique», con endo indicações de dis âncias e de minas de ou o e de p a a, e conselhos sob e a manei a de e ec ua a a essia ( ). (7) Na Sociedade de Geog a ia de Lisboa exis em duas memó ias de D'An ilie, manusc i as, que são apa en emen e semelhan es à que em no códice da Casa Palmeia. Uma delas em aspec o de se au og a a, o que não nos oi dad'o ainda comp o a , e cons i ui legado do Almi an e Gago Cou inho. Fig. - *— Sé ie de 4 ca as 'manusc i as de Bou guignon D'An ille, 1725' — Do Cabo Neg o à Baía de Lou enço Ma ques (Biblio hèque Na ionale de Pans, GeDD^2987, n.° 8269) Fig. 3 —, S'é ie de '4 ca as manusc i as de Bou guignon D'An ille, 1725 — Zambézia e Monomo apa (Biblio hèque Na ionale de Pa is, GeDD 2987, n.° 8322) Fig. 4— Sé ie de 4 ca as manusc i as de Bou guignon D'An ille, 1725 — Cabo Delgado ao equado (Biblio hèque Na ionale de Pa is, GeDD 2987 n.° 8323) Fig. S — «Ca e de l'E hiopie O ien ale», de DBaunguigmoii Wâas íB*, 17I27, g a ada