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Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo:Estudo de Cas

Lúcia Cristina Gomes Paiva

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FACULDADE DE LET R A S UNIVE RSIDADE DO PO RTO Lúcia Cristina Gomes Paiva 2º Ciclo de Estudos em História, Relações Internacionais e Cooperação Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 2014 Orientadora: Professora Doutora Natália Maria Azevedo Casqueira Classificação: Ciclo de estudos: Dissertação/relatório/ Projeto/IPP: Versão definitiva Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 1 Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 2 Resumo O volunturismo tem tido um interesse crescente em todo o mundo, em que cada vez mais um maior número de pessoas troca as suas férias de lazer por um contributo mais pessoal, mais íntimo e por um turismo mais consciente e sustentável ao se voluntariarem fora do seu país. Este trabalho pretende averiguar de onde surgiu o volunturismo, em que moldes se encontra e as diferentes perspetivas daqueles que observam o volunturismo mais de próximo, assim como analisar as críticas feitas ao volunturismo por investigadores e pelos meios de comunicação social. A pesquisa empírica oferece um olhar de dentro daqueles que se voluntariam nas suas diversas formas, desde vários pontos de partida a variados destinos. Palavras-chave: volunturismo; turismo de voluntariado; turismo solidário; turismo sustentável; imersão cultural; intercâmbio cultural; globalização Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 3 Abstract Voluntourism has been getting a growing interest worldwide, in which, more and more people exchange their leisure holiday plans for a more personal, more intimate contribution and for a more conscious and sustainable tourism by volunteering abroad. This project aims at finding out where voluntourism has emerged from, in which forms can be found and the different perspective of those who observe it closely, as well as analyzing the criticism made to voluntourism by researchers and social media. The empirical research offers a look inside the world of those who volunteer in different ways, from several departure points to various destinations. Keywords: voluntourism; volunteer tourism; volunteer vacation; sustainable tourism; cultural immersion; cultural interchange; globalization Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 4 Résumé Le volontourisme a eu un intérêt croissant dans le monde entier, où de plus en plus de gens échangent leurs vacances de loisirs pour une contribution plus personnelle, intime et un tourisme plus conscient et durable au bénévolat à l'étranger. Ce projet vise à trouver où volontourisme a émergé, dont les formes peuvent être trouvés et le point de vue différent de ceux qui l'observent plus proche, ainsi que d'analyser les critiques de volontourisme par les chercheurs et les médias sociaux. La recherche empirique offre un regard à l'intérieur de ceux monde qui se portent volontaires de différentes façons, à partir de plusieurs départs vers des destinations diverses. Mots-clés: volontourisme; tourisme équitable; vacances humanitaire; tourisme solidaire; tourisme durable; immersion culturelle; mondialisation Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 5 Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 6 Agradecimentos Ao olhar no tempo, desde o início deste projeto até este momento, vejo um percurso de golf, com muito terreno e dunas de areia e lagos e arbustos quase que impenetráveis e é de uma satisfação imensa chegar a este ponto em que a 18.ª bandeirinha verde acena um olá reconfortante… Este percurso não poderia ser percorrido sem o apoio da Prof.ª Natália Azevedo que sempre mostrou prontidão em ajudar, oferecendo-me uma visão clara e direta dos caminhos possíveis e o que seria o resultado final. Estou imensamente grata pelos momentos Eureka! resultantes das contribuições feitas pela Professora. Um agradecimento muito especial a todos os entrevistados que me deram um bocado do seu tempo e me coloriram as horas com histórias de aventura, de vida e de coragem, espero vos representar bem neste trabalho que também vos pertence. À minha filha, a quem roubei horas de dedicação, espero que este projeto de desenvolvimento pessoal se reflita em ti e no relacionamento que temos. Se me esforço por empurrar além dos meus limites pessoais é para tu veres que os teus próprios limites não são aqueles que vês, mas aqueles que estão muito além daquilo que te está agora disponível ver… Gostaria de agradecer também à minha família e amigos que de uma maneira ou outra deram um pouco da sua paciência e apoio para a concretização deste projeto. Aos meus colegas de curso mais próximos, pelas horas de discussão que tivemos, as partilhas de frustração e o intercâmbio de informação e técnicas. Aos meus professores que me proporcionaram horas de inspiração. À Faculdade de Letras e a sua incrível biblioteca, assim como todos os assistentes, muito obrigada! Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 7 Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 8 Índice Índice de Tabelas 10 Introdução 11 I – Do volunturismo: quadro conceptual do fenómeno 13 1.1 – Enquadramento temporal do volunturismo - a origem 13 1.2 – Breve análise conceptual do volunturismo 16 1.3 – Quadro crítico do fenómeno do volunturismo 18 1.4 – Contextualização do crescimento do volunturismo observado nas últimas décadas 21 II – O fenómeno global do volunturismo: enquadramento do problema científico e procedimentos metodológicos 24 2.1 – Questões, objetivos e pertinência do objeto de estudo 24 2.2 – Procedimentos metodológicos 25 III – O volunturismo em estudo de caso 31 3.1 – Caracterização Sociodemográfica dos Entrevistados 31 3.2 – Experiências sociais de volunturismo 34 Considerações Finais 58 Referências Bibliográficas 63 Anexos 70 Anexo I – Mensagem do Anúncio de Pedido de Participação no Estudo 71 Anexo II – Lista de Entrevistados Previstos 72 Anexo III – Lista de Datas das Entrevistas 73 Anexo IV - Guião de Base das Entrevistas aos Voluntários Internacionais (em Português) 74 Anexo V – Guião de Base das Entrevistas aos Voluntários Internacionais Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 15 2004). A indústria de turismo num esforço de se adaptar aos interesses em mutação dos turistas cria um novo nicho de turismo, o turismo de experiências, onde se pretende destacar os valores e as experiências do turista (Lew, 2008; Stanis, Barbieri, 2013). Por outro lado a crítica antropológica do turismo que afirma que este traz perigos porque corrompe a cultura, transforma o que é sagrado no meramente profano, banaliza a ritualística, transformando o que é autêntico em espetáculo (Shepperd, 2002), além dos impactos ambientais do turismo de massas, cria um grupo de turistas conscientes que pretendem, nas suas viagens, minimizar os resultados negativos do turismo de massas (Manea et al., 2013). Nasce assim o turismo alternativo, um turismo em pequena escala que se focaliza nas pessoas, liderado pela comunidade, que busca o benefício dos hóspedes, hospedeiros e o ambiente social e cultural circundante. Um género de turismo alternativo é o turismo de voluntariado, no qual os indivíduos combinam viagem, lazer e recreação com trabalho voluntário (Lyons & Wearing, 2008; McGehee & Andereck, 2009; Raymond & Hall, 2008; Singh, 2002, 2004; Wearing, 2001; Barbieri, Santos e Katsube, 2012). Foi então que, desde a década de 1990 foi criado um nicho para pessoas que gostam de voluntariado com ofertas de férias e viagens de voluntariado. Se por um lado, existem autores que defendem que o turismo de voluntariado tem sucesso porque se encaixa à mudança de interesses dos turistas (Stoddart e Rogerson, 2004), outros defendem que a promoção do turismo de voluntariado com os mesmos moldes do turismo de massas é que lhe deu o sucesso que tem nos dias de hoje (Ellis, 2003; Manea et al., 2013). No sentido de simplificar a trajetória pelas origens do volunturismo até à forma em que se apresenta hoje, desenvolvemos um esquema resumindo o que apresentámos até ao momento, que pode ser consultado na tabela abaixo. Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 16 Origens do Volunturismo Vertente Humanitária Vertente Turística Serviço Civil Internacional Herbert Faith Turismo - atividade de luxo Voluntary Service Overseas Serviço Peace Corps Globalização do Capitalismo Avanços na Área dos Transportes Tecnologias de Comunicação Modernas Serviço de Aprendizagem Turismo de Massas Programas de Estudo Impactos Negativos Saturação do Turismo no estrangeiro Turista Informado/Consciente Turismo de Experiência Turismo Alternativo / Ecológico / Sustentável / Comunitário / Rural / Cultural / Pró-pobre VOLUNTURISMO Tabela 1.1 – Origens do Volunturismo 1.2 - Breve análise conceptual do volunturismo O termo volunturismo foi utilizado pela primeira vez em 1998 pelo Conselho de Turismo de Nevada num esforço de atrair residentes locais a apoiar o desenvolvimento do turismo rural em locais remotos do Nevada. No ano 2000 a empresa Catalyst Marketing Inc. foi a primeira empresa no mundo a oficialmente formar uma ponte entre o segmento de negócio e lazer da indústria do turismo e a indústria das organizações sem fins lucrativos ao que chamaram de VolunTours™ 7 . Desde então, surgiram muitos operadores turísticos e organizações com e sem fins lucrativos com o objetivo de atender a este grupo de turistas que se interessam por estas 7 ‘History of VolunTourism’, VolunTourism, disponível em http://www.voluntourism.org/inside-history.html, consultado a 15 de agosto de 2014 Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 17 experiências, cujo interesse em tradições folclóricas, costumes, arquitetura e bem-estar das comunidades locais se entrelaçam com o desejo de investir tempo de lazer e dinheiro em voluntariado, principalmente para a proteção e a preservação da cultura e/ou o ambiente (Stanis e Barbieri, 2013; Manea et al., 2013). Durante as últimas décadas de estudo e investigação nesta área, a definição e compreensão deste fenómeno foi alargando. No entanto, não existe uma definição única que seja aceite e utilizada universalmente (Barbieri, Santos e Katsube., 2012). A definição mais comumente utilizada foi desenvolvida por Wearing, cujo termo ‘turismo de voluntariado’ aplica-se “àqueles turistas que, por várias razões se voluntariam de maneira organizada para realizar umas férias que possam envolver auxílio ou redução da pobreza de alguns grupos da sociedade, a restauração de certos ambientes ou a pesquisa sobre aspetos da sociedade ou ambiente” (2001, p.1). Neste sentido, o turismo de voluntariado envolve a componente de lazer e recreação associado ao turismo, juntamente com o desejo de contribuir na resolução de malestares sociais profundos, tais como pobreza, desigualdade de género e infância sem pais (Barbieri, Santos e Katsube, 2012). Enquanto Guttentag (2009) inclui aqueles viajantes para os quais o trabalho de voluntariado foi ou não a razão principal da viagem, ele próprio e também Tomazos e Buttler (2009) consideram apenas aqueles que se voluntariam até um período máximo de um ano (Higgins-Desbiolles, Whyte e Tedmanson, 2013). Outra definição fornecida por Singh e Singh (2004) vê o turismo de voluntariado como “sendo mais uma prática de consciência de turismo correto – de tal forma que chega muito perto da utopia” (cit. in Tomazos e Butler, 2012, p.177). No melhor caso, pode ser considerado uma forma altruísta de turismo, que tem a capacidade de defender os mais altos ideais, intrinsecamente interlaçados no fenómeno do turismo (Singh, 2004). Já McGehee e Santos definem o volunturismo como “usar tempo e dinheiro discricionário para viajar fora da esfera da atividade regular para assistir outros que necessitem” (2005, p.760). Enquanto muita da investigação feita se concentra nos benefícios do volunturismo, existem muitas obras científicas e artigos dos meios de comunicação social que levantam críticas a este tipo de turismo e aos seus possíveis impactos negativos. Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 18 1.3 - Quadro crítico de desvantagens ao volunturismo Existem várias críticas ao volunturismo, uma das críticas mais encontradas nas várias obras e meios de comunicação social é este poder ser interpretado como uma nova colonização. Com base no conceito de contemplação turística de John Urry (1990) que usa como uma metáfora para descrever como o poder controla os encontros turísticos, Mostafanezhad (2013) desenvolve o conceito a que chama de contemplação humanitária em que o encontro é dominado por discursos que criam hierarquia binária e implícita entre doador e recetor, assim como identifica quem é o benfeitor da ajuda (Butler, 2004). A autora continua por dizer que de acordo com “o legado do impulso missionário do Ocidente, estas hierarquias binárias também sugerem que algumas vidas existem para salvar enquanto outras existem para ser salvadoras”. Desta maneira a contemplação humanitária contribui para perpetuar a dinâmica de poder entre ‘nós’ e ‘eles’ (Mostafanezhad, 2013) e o imaginário do desenvolvimento, como sendo algo que pessoas educadas de países ricos fazem para ajudar os povos pobres que não sabem melhor (Brodie, 2006). Ao mediar ambos o passado e o presente dos encontros humanitários, o discurso do sentimentalismo é central ao projeto colonial e pós-colonial (Stoler, 2002; Lester, 2002; Rojek, 2001). Ann Stoler refere-se ao ‘colonialismo sentimental’ para descrever aspetos do período moderno colonial da forma como os estados coloniais têm interesses afetivos. Ela realça “como a política da compaixão não era um ataque de oposição ao império, mas fundamental” (cit. in Mostafanezhad, 2013, p.493). Estas experiências refletem a complexidade de relacionamentos durante o período colonial (Hafen, 1997), assim como ao que Stoler chama de ligações ‘tensas e ternas’ entre colonizado e colonizador (Stoler, 2002; Mostafanezhad, 2013). Da mesma maneira Mostafanezhad (2013) afirma que o turismo de voluntariado ‘empacota’ e vende desenvolvimento na forma de um autêntico produto e que é através de discursos de sentimentalidade que o turismo de voluntariado é ‘empacotado’ como uma experiência aparentemente mais ‘real’ que vai além da visita de passeio do turismo normal e acentua encontros afetivos e empáticos com comunidades locais que mobiliza trocas emotivas e afetivas, percetíveis como autênticas. Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 19 Wearing avisa que, “um perigo fundamental é que os voluntários podem reiterar o etos do ‘perito’, promovendo assim diferença na comunidade local ao conhecimento externo, contribuindo então para a restrição da auto-suficiência” (2004, p.211). Berlant (2004) explica que “não gostamos de ouvir que as nossas boas intenções podem por vezes ser consideradas agressivas, embora qualquer pessoa versada em, digamos, a história do amor ou do imperialismo conhece volumes sobre as maneiras em como as intenções genuinamente boas envolveram formas de terror vulgar... e controle” (cit. in Mostafanezhad, 2013, p.495). O seu desejo de fazer ‘o bem’ facilita a articulação e a normalização do discurso do Mundo Desenvolvido dar e do Mundo em Desenvolvimento receber e cria relações de poder pós-coloniais em termos de género e sentimento (Mostafanezhad, 2013). O imaginário e as perceções de destinos tropicais têm sido criados e reforçados durante um grande período de tempo com representações semelhantes a áreas que foram anteriormente colonizadas onde os colonizadores eram os responsáveis pela representação coletiva do ‘Outro’ (Said, 1994, Pratt, 2013). Esta representação apoia uma visão exótica de culturas indígenas, primitivas, servis, dependentes do Ocidente para apoiar o seu progresso e modernização (Gius, 2010). Palacios (2010) menciona como as organizações de voluntariado em países em desenvolvimento perpetuam esta ideia do neocolonialismo e promovem um sentimento de superioridade por parte dos voluntários ocidentais através de tratamento privilegiado eurocêntrico. Outra crítica é a utilização da associação do volunturismo a uma atividade controlada, não-evasiva com o objetivo de preservar o ambiente natural e cultural, em que estes valores culturais se tornam numa técnica de vendas de um produto de turismo, logo, tudo tais como as produções culturais tornam-se produtos turísticas (Appadurai, 1986; Manea et al., 2013). Este tipo de turismo naturalmente que atrai turistas a áreas pobres, pelo que existem grandes questões sobre se o volunturismo promove um certo ‘voyeurismo da pobreza’, ou se as experiências de viagem fazem contribuições consideráveis ao desenvolvimento e como se pode esperar que uma indústria motivada pelo lucro como o turismo, poderá alguma vez dar prioridade aos interesses dos pobres e à responsabilidade social (Sin, 2009; Scheyvens, 2010). Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 20 Uma crítica com base na comunicação social defende que existem cada vez mais voluntários, especialmente mulheres, a tirar fotografias em poses semelhantes a outras tiradas por celebridade como Madonna e Angelina Jolie (Fitzpatrick, 2007). Brakham (2006) e Brown (2003), da mesma maneira, atribuem o aumento de estudantes a tirar o Gap Year no Reino Unido às imagens que circularam pelos meios de comunicação social exibindo o Príncipe William a ajudar crianças no Chile e o Príncipe Harry a trabalhar num orfanato em Lesotho. Mostafanezhad (2013) considera que a ação humanitária destas celebridades alimenta o crescimento do turismo de voluntariado, especialmente para mulheres, em que existe o foco dominante da criança como o recetor da ajuda do benfeitor. As crianças são geralmente usadas em campanhas de desenvolvimento por causa da associação implícita da infância com a inocência e independência (Manzo, 2008). A este tipo de representação constante já foi chamado de ‘pornografia de desenvolvimento’ (Manzo, 2006). Também é neste contexto que a imagem da criança torna natural a intervenção ocidental (Repo & Yrjola, 2011). Segundo Nancy McGehee, “o voluntário, Anglo-Europeu, jovem e vigoroso, mostra-se em poses protetivas com as crianças, com os braços à volta delas, dando-lhes presentes materiais ou presentes intelectuais” (2012, p.96). Eles incorporam aquilo que Chris Rojek chama de estatuto de “notoriedade” ou a “distinção informal de um indivíduo dentro de uma rede social” (2001, p.12). Quando os turistas publicam fotografias suas com crianças do mundo em desenvolvimento o turista de voluntariado, por vezes, toma proveito de um estatuto de notoriedade ou pseudo-celebridade. Esta experiência de “fama localizada” influencia aqueles dentro da rede social do turista de voluntariado (Mostafanezhad, 2013) Uma nota interessante de Jakubiak (2012) defende que o volunturismo na forma de propagar o ensino da língua inglesa pelo mundo em desenvolvimento recria um discurso ao que Dicken (2003) chama de hiperglobalismo, a representação de um futuro no qual os países estão igualmente interconectados por uma única economia global e no qual o principal papel do estado-nação é de dar assistência à rede global económica em vez de fornecer serviços de bemestar social. Através desta lente hiperglobalista, apenas a proficiência na língua inglesa tornase na solução proposta a uma miríade de problemas complexos e estruturais no mundo em desenvolvimento. Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 21 Mostafanezhad (2013) comenta como os turistas de voluntariado tendem a condenar a desigualdade económica global e os objetivos políticos neoliberais, enquanto, ao mesmo tempo participam no turismo de voluntariado, que é provavelmente um projeto neoliberal de economia privatizada e de desenvolvimento social (Vrasti, 2012; Conran, 2011; Palacios, 2010). Existem também críticas sobre quem no fundo beneficia do volunturismo e de que maneira é que a exposição de certos povos ao estrangeiro rico poderá afetar o seu estado de bem-estar psicológico e de vida social (Guttentag, 2009; Higgins-Desbiolles, Whyte e Tedmanson, 2013). Apesar desta posição ter vários prismas de limitação, considerando apenas a influência do fenómeno da globalização, torna-se difícil compreender as barreiras fronteiriças entre o local e o global (Azevedo, 2014). Por muito que estas críticas possam ser válidas, a própria ação humanitária internacional foi dada como vencida por não ter conseguido inverter os padrões globais de pobreza e desigualdade nas últimas 5 décadas (Palacios, 2010), o volunturismo pode não resolver problemas de ordem mundial, mas existe um esforço por compreender, numa aproximação do outro. 1.4 - Contextualização do crescimento do volunturismo observado nas últimas décadas Butcher e Smith (2010) atribuem o crescimento do volunturismo à associação da presente política de “vida” na qual indivíduos, especialmente jovens adultos, procuram a sua identidade individual procurando fazer uma diferença no mundo. A internet promove o turismo de voluntariado como uma combinação entre os dois mundos do voluntariado e do turismo, que integra o melhor de uma experiência de viagem: arte, cultura, geografia, locais históricos, ambiente natural, recreação, a capacidade de adicionar um valor extra ao destino turístico e para apoiar comunidades locais e a natureza (Manea et al., 2013). Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 22 Em geral os turistas de voluntariado são retratados como sendo conduzidos por mais além das distrações agradáveis e experiências alternativas; dedicando-se à redução da pobreza e para melhorar as condições sociais e ambientais dentro das comunidades locais que visitam (Lyons & Wearing, 2008; McGehee & Santos, 2005; Barbieri, Santos e Katsube, 2012). Sem qualquer ganho monetário envolvido ou qualquer imposição, os turistas de voluntariado são conduzidos por razões de interesse pessoal e pelo altruísmo (Bailey e Russell, 2010). Segundo Brown e Lehto (2005) existem quatro características principais nas motivações dos turistas: imersão cultural; dar de volta e fazer a diferença; procura de camaradagem com outros voluntários, acabando por ficar com um vínculo de família; e a educação. Outros autores enunciaram a importância da sustentabilidade e a necessidade que os países desenvolvidos têm de ajudar (Anderson, 2007) ou o desejo de “fazer a diferença” (Butcher & Smith, 2010). Pode ser dito que o turismo de voluntariado vai ao encontro das necessidades dos turistas que preferem viajar com um propósito (Brown e Lehto, 2005) e fazer a diferença durante as suas férias (Coghlan, 2006), de forma a aproveitar uma experiência de turismo com o benefício de contribuir para com os outros (Tomazos e Butler, 2012). Além do interesse dos turistas de viajar com um propósito e servir uma causa nobre, existe um interesse geral e tendência atual para fazer com que a experiência de viagem seja perdurada, oferecendo à viagem uma diversidade cultural (Fullagar, Markwell e Wilson, 2012). Esse interesse por uma mobilidade mais lenta no plano de visita dos turistas apoia e promove o volunturismo, ambos à procura de contar com uma experiência partilhada, uma absorção mais intensa do ambiente em redor e da comunidade (Manea et. al, 2013). É difícil poder avaliar o volume do turismo de voluntariado devido à dificuldade em reunir dados estatísticos, uma vez que os voluntários geralmente entram no país com um visto de turismo que depois vão renovando, caso seja necessário, com viagens de curta distância além-fronteiras para renovarem o visto (Tomazos, 2009; Tomazos e Butler, 2012). Vários esforços foram feitos até ao momento no sentido de encontrar uma estimativa de quantos se voluntariam internacionalmente (Lonely Planet, 2007; TRAM, 2008; Jones, 2004; Tomazos e Butler, 2009). A TRAM (2008) descobriu que apenas 35 organizações publicaram estatísticas de participação, e o total anual fornecido por estas organizações chega aos 70545 voluntários Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 23 anuais em 2007. Considerando este número como referência para uma estimativa de 300 organizações listadas pode-se estimar que a participação anual em turismo de voluntariado estará nos 600 mil voluntários anuais, de acordo com dados recolhidos em 2007 (TRAM, 2008; Tomazos e Butler, 2009). Jones (2004) mostrou que apenas no Reino Unidos até 2003 havia cerca de 120 mil voluntários que participavam em atividades de voluntariado por ano, sem contar com voluntários que o faziam sem a organização prévia destas viagens. Com base nestes valores, poderemos estimar que o valor de mercado deste tipo de turismo estará entre os 290 e os 500 milhões de libras esterlinas, dependendo do tamanho do mercado (TRAM, 2008). Este cálculo só leva em conta a taxa simbólica de participação (TRAM, 2008; Tomazos e Butler, 2009). Se o montante dos gastos medianos dos turistas forem considerados, então os valores aumentam para entre os 832 milhões e os 1,3 biliões de libras esterlinas anuais tomando em consideração os dados recolhidos em 2003 e 2007 (TRAM, 2008; Tomazos e Butler, 2012). Muitos investigadores afirmam que o turismo de voluntariado beneficia todos os atores sociais envolvidos, e apesar dos voluntários dedicarem muito tempo, dinheiro e trabalho para ajudar uma comunidade estrangeira, têm o benefício intrínseco da gratificação recebida no terreno, através da experiência de interação com a comunidade local. Esta gratificação transforma-se numa maior consciência do próprio, causando mudança nos valores e consciência pessoal que pode inevitavelmente alterar o estilo de vida de uma pessoa (Wearing, 2002; Zahra e McIntosh, 2007). Este argumento tem origem no princípio de que ao viver e ao aprender sobre outras pessoas e culturas em primeira mão num ambiente de abertura e cooperação, uma pessoa entra numa transformação e desenvolvimento do próprio (Wearing, 2001). Alguns autores concluem que os turistas de voluntariado são diferentes de outros turistas porque eles pretendem uma interação mais próxima com a comunidade acolhedora, assim como permite experiências que vão ao encontro dos seus valores sociais (Singh, 2002, 2004; Stoddart e Rogerson, 2004). Por exemplo, num estudo feito a várias comunidades em Tijuana, no México, McGehee e Andereck (2009) descobriram que os volunturistas não são vistos como turistas pelos residentes ou por outros turistas. Este estudo também revelou que os voluntários agem de maneira diferente no que diz respeito às suas necessidades de estadia, transporte e comida, de uma forma bem mais sustentável do que os turistas de massas. (Barbieri, Santos e Katsube, 2012). Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 24 II – O fenómeno global do volunturismo: enquadramento do problema científico e procedimentos metodológicos 2.1 – Questões, objetivos e pertinência do objeto de estudo Quando começámos a explorar o tema do volunturismo uma questão que nos despertou o interesse foi a origem desta nova tendência. Queríamos perceber se este era um fenómeno atual ou se era uma atividade que já existia, mas com outro nome. À medida que fomos procurando resposta a esta questão em obras científicas, apercebemo-nos que era realmente um campo que ainda não estava muito aprofundado por investigadores. Os poucos autores que mencionavam as origens do volunturismo, exploravam a parte comercial do turismo ou a parte de interesse humanitário. Um dos objetivos a que nos propusemos neste trabalho foi encontrar ambas as vertentes das origens do volunturismo, a vertente de produção turística e a vertente humanitária e encontrar o ponto onde ambas se cruzam, assim como, perceber qual o valor que cada vertente tem para o voluntário internacional. Outro fenómeno que encontrámos no estudo do volunturismo foi a tendência para os voluntários se movimentarem de Norte, ou seja, o mundo desenvolvido, para Sul, o mundo em desenvolvimento. Questionámo-nos se este movimento era o único que existia no âmbito do voluntariado internacional e caso existissem outros movimentos, questionámo-nos se as motivações, expectativas e procedimentos do voluntário seriam as mesmas. Daí o nosso interesse em ter uma amostra de pesquisa que refletisse movimentos variados de vários pontos de partida a vários destinos. Não podíamos chegar a uma resposta completa a esta questão sem compreender aquilo que leva cada vez mais indivíduos a voluntariar-se internacionalmente e a fazer desta atividade uma tendência em crescimento. Por essa razão estabelecemos importante tentar perceber quais os fatores que pesam mais nas decisões dos voluntários e de que maneira é que a dimensão pessoal de voluntário pesa nas suas decisões. Durante a nossa pesquisa, tivemos também a oportunidade de observar as várias críticas que são feitas ao volunturismo, pelo que decidimos analisar estas críticas numa parte teórica e Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 31 III – O volunturismo em estudo de caso 3.1 – Caracterização Sociodemográfica dos Entrevistados À medida que fomos recebendo ofertas de participação ao estudo, o primeiro contacto que fizemos diretamente serviu para agradecer a oferta de participação, informar quando iriam começar a ser marcadas as entrevistas, e, no intuito de perceber a caracterização sociodemográfica dos entrevistados, pedimos que preenchessem os seus dados relativos à idade, etnia, nacionalidade, país de residência permanente, profissão e educação. Na tabela seguinte podemos encontrar as informações sociodemográficas dos entrevistados, recolhidas anteriormente à entrevista. Tabela 3.1 – Lista de Entrevistados Efetivos Ref. Sexo Idade Nacionalidade País R.P. Educação Profissão 1 M 38 Norte-Americano China Mestrado Diretor de Escola 2 M 54 Britânico Espanha 12º ano Coordenador desenhista 3 M 28 Indiano Argentina MBA Marketing Marketing 4 F 28 Norte-Americana E.U.A. 5 M 28 Argentino Brasil Universidade Contador Público 6 F 31 Norte-Americana Austrália Universidade Relações Públicas 7 M 35 Português Não tem Mestrado em Gestão Gestor Logístico / Bartender 8 F 29 Portuguesa Não tem Licenciatura Farmácia Farmacêutica/Cocktail waitress 9 F 28 Norte-Americana E.U.A. Bacharelato Viajante/Escritora 10 M 29 Norte-Americano E.U.A. Mestrado Viajante/Escritor 11 M 36 Chinês de Hong Kong Alemanha Mestrado em Gestão Analista 12 F 32 Italiana Alemanha Mestrado Rec. Humanos Gestora Reposição Materiais 13 F 36 Norueguesa Noruega PhD Biotecnologia Investigadora Científica 14 M 40 Colombiano Colômbia Universidade Professor Universitário 15 M 36 Búlgaro Bulgária Mestrado Antropologia Freelancer 16 M 37 Egípcio Egito Mestrado Ass. Globais Consultor Político 17 F 52 Italiana Bélgica Universidade Coordenadora T. Comunitário 18 F 23 Francesa Dinamarca BA Cinematografia Desempregada 19 M 50 Australiano Austrália Vários Mediador Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 32 Etnia Em termos de caracterização étnica decidimos que não havia a necessidade de ser mencionado, uma vez que no caso dos entrevistados neste estudo, a etnia não fornece qualquer vantagem adicional ao resto da informação recebida. O grupo de entrevistados possui as etnias representadas pelas suas nacionalidades, em que por exemplo, o indivíduo Indiano entrevistado é de etnia asiática; e os indivíduos Norte-Americanos entrevistados são todos caucasianos. Sexo Os elementos que formam a população deste estudo são maioritariamente do sexo masculino com 58%, em que 42% dos entrevistados são do sexo feminino. Idade Os entrevistados têm idades compreendidas entre os 22 e os 54 anos. Dividimos o grupo entre três faixas etárias distintas: 22-30 anos de idade; 31-40 anos de idade; e 40-54 anos de idade. A primeira faixa etária, ou seja voluntários até aos 30 anos de idade compreendem 37% dos entrevistados, com a maior percentagem de 47% a pertencer à faixa etária entre os 31 e os 40 anos de idade e os restantes 16% na faixa etária dos 41 aos 54 anos de idade. Nacionalidade Quanto às nacionalidades, a que mais prevalece é a nacionalidade Norte-Americana com 5 entrevistados (26%), seguida da Portuguesa e Italiana com 2 entrevistados cada, as outras nacionalidades têm representação única e são: Britânica, Indiana, Argentina, Chinesa de Hong Kong, Egípcia, Norueguesa, Colombiana, Búlgara, Francesa e Australiana. Os entrevistados representam os seguintes continentes: América do Norte (26%); América do Sul (11%); Europa (42%); África (5%); Ásia (11%); e Oceânia (5%). País de Residência Permanente Apenas 8 (42%) dos entrevistados têm como local de residência permanente o seu país natal. Os restantes (58%) não estão a viver no país de onde são naturais. Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 33 Profissão Os entrevistados têm diversos campos profissionais, 3 (16%) desenvolvem atividades relacionadas com o ensino, 2 (11%) são escritores de viagem, e os demais têm profissões distintas em Marketing, Relações Públicas, Farmacêutica, Logística, Reposição de Materiais, Analista, entre outras. Escolaridade A maior parte dos entrevistados (84%) têm frequência universitária, entre os quais 50% destes têm escolaridade ao nível de mestrado, e um dos entrevistados (6%) tem escolaridade ao nível do doutoramento. As entrevistas foram todas feitas por Skype, gravadas em .mp3 através da aplicação iFreeSkypeRecorder para apenas ser usadas pela investigadora como apoio à recolha de dados. As entrevistas foram marcadas entre o dia 24 de julho e o dia 16 de agosto, entretanto, mais dois entrevistados ficaram disponíveis para a entrevista pelo que fizemos uma entrevista adicional no dia 26 de agosto e outra no dia 4 de setembro, contando com um total de mais de 950 minutos. Previu-se que cada entrevista durasse certa de 20 a 60 minutos, dependendo do número de experiências dos entrevistados e da própria eloquência e abertura de respostas dos entrevistados. Na realidade, a entrevista mais curta durou cerca de 17 minutos e a mais longa quase 2 horas e meia. Nos Anexos VII e VIII disponibilizamos transcrições de duas entrevistas, uma em Português, a outra em Inglês em que ambas são exemplos de entrevistas diferentes, em que numa entrevista as informações foram facultadas com base no guião, na outra entrevista, a entrevistada tomou a iniciativa de descrever livremente os projetos em que participou. Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 34 3.2 – Experiências sociais de volunturismo No seguimento da proposta que fizemos ao iniciar esta investigação, a recolha de dados serve-nos para analisar individualmente os processos pelos quais os voluntários passam numa experiência de voluntariado. Após essa análise individual, procedemos à desfragmentação das informações e categorizámo-las de forma a podermos encontrar pontos em comum entre entrevistados, assim como identificar situações singulares. No Anexo VI inserimos os testemunhos de todos os entrevistados. Apesar de resumidos, os testemunhos tentam manter um relato fiel das informações que nos foram transferidas. Fizemos um esforço por manter o discurso de cada um dos entrevistados, com a intenção de inserir o leitor no seu contexto e nas suas experiências. Por este motivo, por vezes o discurso poderá parecer menos coeso com o resto do documento, ideológico e com juízos de valor que não são da autoria da investigadora, mas que foram exprimidos pelos entrevistados. Ao todo considerámos 43 experiências divididas entre os 19 entrevistados, no entanto, não considerámos as experiências dos dois casais de entrevistados duplamente, uma vez que foi um relato conjunto, cada experiência feita em casal foi considerada apenas uma vez, apesar de ter dois voluntários a vivê-la. De forma a seguir o objeto de estudo, dividimos a recolha do conteúdo de acordo com as dimensões de análise estruturadas no guião de entrevistas. Nesse sentido, as dimensões de análise são:  a descrição do tipo de projeto em que o entrevistado esteve inserido;  a duração do projeto;  o tipo de movimento feito pelo entrevistado entre o país de origem e o país de acolhimento;  os métodos de procura dos projetos;  os critérios de escolha das experiências;  as motivações dos entrevistados para participar num projeto de voluntariado internacional;  as expectativas em relação ao projeto; Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 35  a visão do outro voluntário pela perspetiva dos entrevistados;  o ganho que a comunidade teve pela participação dos voluntários;  as opiniões dos entrevistados sobre as críticas feitas ao volunturismo;  as opiniões dos entrevistados sobre a razão pela qual o volunturismo tem cada vez mais popularidade;  sugestões feitas pelos voluntários a outros voluntários e às organizações;  o processo de aprendizagem pelo qual os entrevistados passaram durante a experiência de voluntariado internacional. De forma a melhor identificar os entrevistados em termos sociodemográficos, iremos referir-nos aos entrevistados como entrevistado ou entrevistada de acordo com o seu sexo e à frente do seu número de referência iremos também adicionar, entre parêntesis, os seus dados etários e país de origem desta forma: Entrevistado 1 (38, E.U.A.). Tipo de projeto de voluntariado Os tipos de projeto de voluntariado estão divididos em nove categorias, de acordo com a organização e como o entrevistado contacta a organização. O tipo de voluntariado que estes entrevistados escolheram em maior quantidade (>50%) é o tipo de voluntariado ‘livre’, em que o entrevistado procura e/ou encontra e contacta a organização do país de acolhimento diretamente. Logo a seguir encontra-se o tipo de projeto com um Intermediário, onde o entrevistado contacta uma agência no seu país de origem que depois facilita o contacto com a organização no país de acolhimento. De seguida listamos as experiências de voluntariado dos entrevistados de acordo com os tipos de projeto. Estudante Este é um tipo de voluntariado onde o voluntário se insere como parte dos créditos do curso, entre ou durante a sua educação. Apenas dois entrevistados estiveram envolvidos neste tipo de voluntariado. O entrevistado 1 (38, E.U.A.) teve uma experiência de voluntariado Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 36 durante dois meses e meio na Tanzânia onde teve a oportunidade de dar formação a formadores. O entrevistado 3 (28, Índia) teve uma experiência de voluntariado durante dois meses na Indonésia através de um programa desenvolvido pela AIESEC onde esteve envolvido em várias atividades com a universidade local. Peace Corps O Entrevistado 1 (38, E.U.A.) é o único indivíduo neste estudo que teve uma experiência de Peace Corps, mas o serviço Peace Corps foi mencionado em mais quatro entrevistas. O Entrevistado 1 (38, E.U.A.) considera que o Peace Corps faz um trabalho de Relações Públicas para os Estados Unidos da América e considera que isso não é mau, mas também não quer dizer que seja necessariamente bom. Da mesma maneira, os entrevistados 7 e 8 (M 35 e F 29, Portugal) mencionaram que o serviço Peace Corps tinha uma intenção de marketing americano, que não é propriamente bem visto globalmente, como a iniciativa nasceu da intenção do governo de espalhar a boa imagem dos americanos pelo mundo e que os projetos em que estão envolvidos são discutíveis. O Entrevistado 1 (38, E.U.A.) menciona que teve uma experiência anterior ao Peace Corps na Tanzânia, é curioso comparar este relato ao relato da Entrevistada 6 (31, E.U.A.) que passou pelo processo de candidatura ao Peace Corps em que menciona lhe terem dito em conferência que, uma vez que a sua área de interesse não é algo que a Entrevistada tivesse experiência ou formação, seria considerada em último caso e aconselharam-na a ter uma experiência de voluntariado noutro lado nessa área de interesse antes de se candidatar outra vez ao Peace Corps. Com base nesta informação é possível que, o que o Entrevistado 1 (38, E.U.A.) fez na experiência Peace Corps e o facto de ter sido aceite para África tenha sido influenciado pela primeira experiência que fez enquanto estava na Universidade. Tanto o entrevistado 1 (38, E.U.A.) como a entrevistada 6 (31, E.U.A.) não concordam com a nova reforma do serviço Peace Corps, no que diz respeito ao tempo de duração do serviço, ou seja, concordam com os tempos de dois anos para serviço Peace Corps e um ano para o serviço Action Response. Já uma pessoa amiga da entrevistada 6 (31, E.U.A.) que fez o serviço Peace Corps considerou importante fazer um serviço de voluntariado internacional de longa duração, mas achou os dois anos do serviço Peace Corps longos demais. Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 37 A entrevistada 6 (31, E.U.A.) gosta do facto da candidatura ao Peace Corps ser simplificada nesta reforma, acha que isso vai atrair um maior número de pessoas. A entrevistada 18 (23, França) comentou que esteve em contacto com voluntários do serviço Peace Corps e considera o serviço e o programa Peace Corps superior ao que estava a servir, pela preparação, pela organização, pelo apoio, pela formação e pelas considerações comunicacionais tomadas antes de enviar os voluntários para a comunidade de acolhimento. Também achou que eles não eram tão ativos, mas acha que se deve ao facto de terem mais tempo para poderem fazer tudo a que se tinham proposto fazer. O entrevistado 1 (38, E.U.A.) considera que as principais diferenças entre o Peace Corps e o volunturismo são: o tempo e a estrutura do programa; a formação que se recebe antes de ir para o país de destino; e que, enquanto no volunturismo a maior parte das vezes os grupos vão juntos para o país de destino e trabalham juntos, no Peace Corps, após a formação, cada um está por si só. Houve, no entanto, um comentário curioso do entrevistado 14 (40, Colômbia) sobre este aspeto. Comentou que era comum receberem voluntários em serviço Peace Corps na Colômbia e que depois esses voluntários quando voltavam aos Estados Unidos passavam a ter um relacionamento muito próximo a partidos políticos de esquerda. Alternativo O tipo de voluntariado alternativo considera-se algo mais experimental, o desenvolvimento de um projeto fora do comum. Apenas o entrevistado 2 (54, Reino Unido) desenvolveu um projeto de voluntariado alternativo em que ele próprio voluntaria o seu tempo e aceita outros artistas que se juntem a ele para irem de comunidade em comunidade, entre 6 a 9 meses, desenvolver programas de arte. ‘Livre’ Considerámos o tipo de projeto de voluntariado livre quando o voluntário por acaso ou por procura pessoal encontra o projeto de voluntariado sem necessidade de intermediários, em que a organização final no país de acolhimento é contactada diretamente. A entrevistada 4 (28, E.U.A.) trabalhou num centro para crianças estilo internato nos arredores de Siem Reap no Camboja em 2010 durante 4 semanas. Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 38 O entrevistado 5 (28, Argentina) participou em duas experiências de voluntariado internacional, ambas em Oaxaca, no México entre julho e setembro de 2013 e ambas na área do microcrédito. A primeira experiência numa organização Mexicana de microcrédito e turismo local onde dava formação de negócios a mulheres beneficiárias dos microcréditos. A segunda experiência numa organização internacional de microcrédito, filial local da Grameen, como observador onde acompanhou as diferentes fases do processo de atribuição de microcrédito fazendo um relatório final e um manual de procedimentos. A entrevistada 6 (31, E.U.A.) teve 3 voluntariados deste tipo. Primeiro esteve no Vietname a voluntariar-se com uma organização chamada Action for Ha Long Bay, era suposto ficar num campo de trabalho de 10 dias, mas foi nomeada líder do acampamento pelo que acabou por ficar um mês e meio. As atividades consistiam em organizar workshops, conferências, visitas às escolas e ações suaves de ativismo para chamar a atenção para a poluição na Baía de Ha Long. Depois voluntariou-se no Camboja, numa organização chamada Marine Conservation Cambodia, onde fazia pesquisa e estudos marítimos, assim como limpezas de praia e o ensino do Inglês. Planeou ficar durante um mês, mas acabou por ficar durante sete meses. Depois voluntariou-se por três meses num museu na Austrália a tempo parcial enquanto trabalhava para poder suportar os seus custos de vida. No museu passeava na praia com crianças e ensinava-as a identificar aquilo que encontravam na praia assim como falavam sobre a ameaça da poluição. Os Entrevistados 7 e 8 (M 35 e F 29, Portugal) tiveram como primeira experiência de voluntariado internacional a Cruz Vermelha nas Ilhas Caimão durante um ano a assistir as operações de logística, comunicação e atividades variadas assim como angariação de fundos. Depois estiveram a voluntariar-se num projeto de escola na selva em Belize durante um mês onde o entrevistado trabalhou em construção civil e a entrevistada desenvolveu kits de primeiros socorros. Depois seguiram para a Nicarágua onde se voluntariaram em dois projetos, o primeiro durante três meses no Peace Project em Laguna de Apoyo onde ajudavam crianças num centro tipo ATL e a entrevistada deu apoio na abertura de um posto de saúde. O outro na ilha de Ometepe, onde participaram num projeto de permacultura chamado Bona Fide durante 1 semana. De seguida foram para a Costa Rica e participaram no Projeto Cloudbridge onde ajudaram na medição de uma nova plantação de árvores durante três semanas. Os entrevistados 9 e 10 (F 28 e M 29, E.U.A) tiveram 3 experiências de voluntariado internacional conjuntamente nos últimos dois anos. Na primeira experiência participaram na Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 39 construção de um ashram em Berlim, depois ajudaram uma família a tomar conta de uma criança na Turquia e de seguida numa organização que dava apoio a jovens numa favela no Quénia. Além destas três experiências, o entrevistado 10 (29, E.U.A) também participou num projeto para estudantes universitários no Vietname durante 2 semanas. A entrevistada 13 (36, Noruega) na altura da entrevista estava a ter a sua primeira experiência de voluntariado internacional na Índia, numa organização com vários projetos em que a voluntária estava a desenvolver um projeto rural de biogás com a duração total de 3 meses e meio. O entrevistado 14 (40, Colômbia) planeou com a esposa uma viagem de 3 meses ao Brasil em 2011 onde organizaram um programa intercultural entre eles próprios e 3 organizações, 2 em Recife e 1 em Salvador, onde dedicaram 1 mês em cada cidade. Em Recife as duas organizações eram juvenis e em Salvador a organização organizava atividades com meninos de bairros pobres. O entrevistado e a esposa preparam atividades colombianas para partilhar a sua cultura e os jovens e crianças das organizações faziam o mesmo. O entrevistado 16 (37, Egito) participou até ao momento em 2 projetos de voluntariado internacional, o primeiro em 2012 numa plantação em França durante 10 dias e o outro na Alemanha a ajudar a pintar uma casa durante 3 dias, ambos eram projetos de ajuda pessoal. O entrevistado 19 (50, Austrália) durante uma viagem à Tailândia teve a oportunidade de se voluntariar em duas organizações. A primeira era numa escola onde o entrevistado teve a oportunidade de jogar e fazer atividades com crianças como também dar aulas de inglês e cultivar uma pequena horta. Na segunda organização, havia várias atividades e áreas de ação da organização mas o entrevistado esteve também a dar aulas de inglês para as crianças. ‘Lifestyle’ Este tipo de experiência de voluntariado tem origem na obra de Daldeniz e Hampton (2010) onde identificam o volunturista ‘Lifestyle’ como alguém que se voluntaria na indústria de turismo. A entrevistada 6 (31, E.U.A.) voluntariou-se numa pousada da juventude durante 1 mês e meio na Islândia, onde, em troca do seu trabalho, tinha estadia e alimentação gratuita. As atividades com que contribuía eram as lides diárias da pousada, tais como, preparação de pequeno-almoço, tomar conta dos hóspedes, limpeza, entre outras atividades. Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 40 Intermediário Este tipo de volunturismo, como o nome indica, implica uma organização intermediária entre o voluntário e a organização de acolhimento. Desde 2003, o entrevistado 11 (36, China/HK) tem tido experiências de voluntariado internacional quase todos os anos. Primeiro num campo de trabalho de exploração arqueológica na Alemanha, no ano seguinte num campo de refugiados na Palestina, depois num projeto de conservação de monumentos em Espanha, de seguida a organizar um festival de música na Croácia, depois a organizar um campo de juventude na Lituânia, mais tarde como líder de um grupo de estudantes universitários num centro de assistência social no Vietname, e por último, na evacuação de emigrantes na Dinamarca. Estas atividades duraram entre 2 semanas a 1 mês. A entrevistada 12 (32, Itália) participou até ao momento em 3 projetos de voluntariado internacional, um a plantar árvores em Atenas durante 2 semanas, depois esteve na Alemanha num projeto com cidadãos com deficiência física e mental por 2 semanas e por último esteve em Nova Iorque durante 10 dias também a tomar conta de cidadãos com deficiência física e mental. O entrevistado 14 (40, Colômbia) participou com a esposa num projeto de voluntariado internacional em 2002 em Gana perto de Kumasi, onde tiveram a oportunidade de ajudar a construir uma biblioteca na escola local e participaram numa campanha de prevenção contra a sida. A entrevistada 18 (23, França) teve a primeira experiência de voluntariado internacional na Zâmbia, em África durante 3 meses em 2012, através da organização intermediária chamada International Citizen Service no Reino Unido. Através desta organização inscreveu-se numa organização local chamada Restless Development. O programa era gratuito, patrocinado pelo governo Britânico. Na Zâmbia dava orientação de planeamento familiar, campanha de prevenção do VIH e dava aulas de empreendorismo. Organização Internacional Este tipo de organização tem várias filiais à volta do mundo, pelo que o voluntário poderá inscrever-se diretamente na organização no seu país de origem, que depois é a mesma organização que está presente no país de acolhimento para receber o voluntário. Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 47 o segundo projeto com expectativas muito mais baixas, o que faz com que a probabilidade de satisfação desse programa seja muito superior. Ao mesmo tempo, com a satisfação das expectativas num programa é possível que cheguem ao próximo projeto com expectativas mais altas do que anteriormente, o que automaticamente pode afetar a sua satisfação pelo projeto. Reparamos no ajuste das expectativas também durante a experiência em que os entrevistados ajustam aquilo que podem contar com o programa e focam a sua atenção mais nessa área. Quando havia uma recomendação pessoal, era mais comum ver que as expectativas correspondiam àquilo que o entrevistado esperava ou antecipava do programa. Um critério que também geriu a satisfação e expectativas dos entrevistados era o impacto que a sua participação de voluntariado tinha para o projeto a que se voluntariavam e também a continuidade do projeto em que trabalhavam. Visão do outro Em visão do outro, pretendemos identificar as motivações dos voluntários com quem os entrevistados se voluntariaram ou qualquer outro comportamento que os entrevistados identificaram. Em linhas gerais, os voluntários que também serviram com os entrevistados eram maioritariamente jovens, estudantes universitários ou entre o secundário e a universidade, ou no final dos estudos universitários. Estes voluntários mostravam menos seriedade pelo trabalho de voluntariado, dedicavam menos tempo à organização, mostravam desmotivação para contribuir e o seu maior interesse era a viagem e as atividades de turismo. No entanto, vamos usar os mesmos grupos de motivações utilizadas nas motivações dos entrevistados para podermos analisar melhor os relatos recebidos. No grupo das Motivações de desenvolvimento profissional e pessoal, existem alguns relatos de voluntários que após a sua experiência estavam prontos para encarar a vida profissional, relatos de procura de experiência, exposição internacional, aprender (línguas), enriquecer o currículo e participação como parte de estágio de final de estudos. No grupo das Motivações de viagem, podemos encontrar relatos de voluntários que queriam passar umas férias diferentes, mais interessados em viajar a baixo custo. Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 48 No grupo das Motivações de cariz altruísta, houve relatos de voluntários, na qual a sua dedicação era completamente altruísta, outros que queriam dar a sua contribuição, ajudar. No grupo das Motivações ao nível cultural, os entrevistados relataram que os voluntários queriam estar em contacto com outra cultura e ter um intercâmbio cultural. Outras motivações que foram mencionadas foram pessoas que procuravam uma mudança, pessoas que tinham sido obrigadas pelos pais a participar, pessoas que procuravam um namorado ou namorada. Vários entrevistados consideram que o motivo pelo qual as pessoas se voluntariam tem sempre uma dimensão pessoal e egocêntrica, que podem querer dar o seu contributo, mas que o fazem também por si próprios. O entrevistado 14 (40, Colômbia) quando foi para Gana com um grupo de Europeus dividiu o grupo de voluntários Europeus entre “caritativos” e “aventureiros”. Em que aqueles que considerava ser voluntários “caritativos” eram muito bondosos, mas talvez em demasia, em contraste com os voluntários “aventureiros” que tinham interesse em fazer apenas uma única experiência dessas. O entrevistado 14 (40, Colômbia) relatou que também havia um grupo de voluntários locais que se aproveitavam da bondade dos voluntários “caritativos” e talvez por essa razão é que se tinham juntado ao grupo, na expectativa de serem presenteados. O entrevistado também mencionou que havia alguns voluntários muito conscientes como ele próprio, que procuravam um relacionamento horizontal com os locais. Ganho para a comunidade Na maioria dos casos os entrevistados consideram que a comunidade beneficiou com a presença dos voluntários. O Entrevistado 1 (38, E.U.A.) considera que o ganho para a comunidade depende muito da competência do voluntário, mas que independentemente dessa competência, a comunidade ganhava sempre em termos de exposição a uma nova cultura desde que não existisse uma imposição do estrangeiro a sobrepor-se aos costumes locais. O entrevistado 10 (29, E.U.A) também comentou que a exposição a uma nova cultura era uma das vantagens mais importantes do programa que participou no Vietname. O entrevistado 5 (28, Argentina), por exemplo, mencionou que o voluntário era quem fazia toda a diferença na organização onde se voluntariou porque a organização dependia a Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 49 100% de voluntários, também tinha contacto com a comunidade que recebia e pôde verificar que estavam todos muito gratos pela contribuição dos voluntários. Já a entrevistada 4 (28, E.U.A.) questiona-se sobre a contribuição que se faz quando se voluntaria num projeto dedicado a crianças, acha que as crianças necessitam de estabilidade e talvez ter sempre voluntários a chegar e a partir não é o melhor para as crianças. Considera que talvez o melhor seria se dedicar a um projeto de elefantes, por exemplo, onde é necessário apenas um par de mãos. Já um par de mãos foi um dos benefícios mais presentes nas experiências dos entrevistados, como os entrevistados 7, 8, (M 35 e F 29, Portugal) 9 e 10 (F 28 e M 29, E.U.A). Os entrevistados 7 e 8 (M 35 e F 29, Portugal) sentiram mais o seu contributo na organização Peace Project onde o projeto estava todo virado para a comunidade, não só sentiram que contribuíram mais, como foi aquele pelo qual se sentiam mais próximos e mais satisfeitos pelo trabalho feito. A entrevistada 6 (31, E.U.A.) comenta como o voluntário se deve adaptar às necessidades da organização. Em ambas as suas experiências tanto no Camboja como no Vietname, entrou para as organizações com o intuito de fazer uma coisa e ambas se tornaram diferentes daquilo que esperava. Também porque a entrevistada permitiu que assim fosse, pela sua flexibilidade e adaptação ao que era necessário fazer. As entrevistadas 12, 13 e 18 (32, Itália, 36, Noruega e 23, França) foram as que duvidaram do impacto que o seu serviço teve para a comunidade, a entrevistada 12 (32, Itália) achou que as árvores que plantou na Grécia não iriam vingar; a entrevistada 13 (36, Noruega) acha que um projeto tecnológico demora mais a beneficiar a comunidade do que outros projetos em que o ganho é imediato e o facto do seu projeto talvez não ser continuado poderá não trazer qualquer benefício à comunidade; a entrevistada 18 (23, França) achou que o que lhe foi pedido fazer na Zâmbia, não ia ao encontro das necessidades da comunidade local. Ambas as entrevistadas 13 e 18 (36, Noruega e 23, França) consideram que talvez um contributo monetário para pagar a um profissional de desenvolvimento fosse mais útil do que os contributos e esforços que foram feitos nos projetos em que participaram. A entrevistada 17 (52, Itália) tem tido a oportunidade de ver contributos para a comunidade local através da dinamização do comércio local e turismo comunitário, em que a comunidade pode não beneficiar de imediato, mas num futuro próximo. Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 50 O entrevistado 19 (50, Austrália) considera que a comunidade local em ambas as experiências recebeu parte daquilo que necessitava e acha que os pontos positivos superam quaisquer pontos negativos que possam haver. Em particular, acha que o valor nutritivo do cultivo da sua horta oferece uma vantagem às crianças mas que, sem dúvida que a interação dos voluntários com as crianças foi o que as crianças receberam de mais valioso. Dimensão Voluntário 79% dos entrevistados responderam que costumavam voluntariar-se na sua comunidade antes da primeira experiência de voluntariado internacional, apenas 21% nunca o tinha feito antes. Já quando perguntamos sobre se têm planos de voltar a voluntariar-se internacionalmente 89% responderam que sim e apenas 11% disseram que não têm qualquer plano de o fazer num futuro próximo. É curioso ver que aqueles que não costumavam fazer voluntariado na sua comunidade local dizem que o voluntariado agora faz parte da sua vida e que planeiam continuar a voluntariar-se na sua própria comunidade. A entrevistada 6 (31, E.U.A.) sempre teve o costume de se voluntariar, desde criança com a atividade dos escuteiros, depois também na escola secundária, o que lhe permitiu receber ajuda nos estudos universitários por ter contribuído para a sociedade. Quase sempre esteve envolvida em atividades de voluntariado na sua terra natal. Os entrevistados 7 e 8 (M 35 e F 29, Portugal) pretendem continuar a voluntariar-se nas suas viagens. No entanto, é interessante ver as dimensões daquilo a que consideram ser aceitável pedir do voluntário e como cada entrevistado, dependendo de onde vem encara o trabalho de voluntariado. Os entrevistados 7 e 8 (M 35 e F 29, Portugal) tinham a ideia que voluntariar-se seria trabalhar sem receber algo em troca, mas nunca teriam conceptualizado a possibilidade de se pagar para se ser voluntário. Os entrevistados 5 (28, Argentina) e 14 (40, Colômbia) são da mesma opinião. Foi interessante ver os entrevistados 7 e 8 (M 35 e F 29, Portugal) fazer construções do voluntariado, por um lado o entrevistado 7 (35, Portugal) intitulou de “voluntários hardcore’” e “voluntários ‘hippies hardcore’” àqueles que se dispõem a condições de voluntariado mais extremas, como, longas horas de trabalho e a pagar. Também intitulou de “voluntários mais ‘puros’” àqueles que pagam 3 mil dólares por semana. A entrevistada 8 (29, Portugal) chamou Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 51 de “voluntariado num sentido mais ‘puro’” ao voluntário que vai de projeto em projeto, apresenta as suas habilidades e em troca de trabalho pede estadia e alimentação. Uma vez que os entrevistados 7 e 8 (M 35 e F 29, Portugal) são Portugueses, foram feitas comparações entre os voluntários que encontraram e o que é considerado comum em Portugal. Por um lado acham que por muitas críticas que se possam fazer aos Americanos pela maneira como se voluntariam, acham que é bem mais produtivo ter uma experiência dessas do que as férias Portuguesas no Algarve. Comentaram também que se se vê outras nacionalidades a fazer isso e não Portugueses e como isso tem também a ver com o facto dos seus governos patrocinarem essas experiências e pela falta de patrocínio ou qualquer tipo de crédito dado a essas experiências pela parte Portuguesa. O entrevistado 11 (36, China/HK) sempre que tem oportunidade voluntaria-se onde quer que esteja. Agora reside em Berlim e voluntaria-se em organizações de apoio social e com os sem-abrigo, desde 2009 desenvolveu também uma organização que organiza projetos de voluntariado internacional com base em Hong Kong. A entrevistada 13 (36, Noruega) pretende voluntariar-se internacionalmente, mas depois das desilusões do projeto em que participou, investiria mais tempo a investigar melhor a organização de acolhimento antes de fazer a escolha final. O entrevistado 14 (40, Colômbia) é voluntário primeiro e turista depois, voluntaria-se desde os 14 anos e para ele é muito natural que se voluntarie onde estiver. A esposa costuma viajar a trabalho e o entrevistado onde vai voluntaria-se. Gostava de organizar um encontro entre voluntários de bairros pobres entre África e América do Sul ou África e Ásia. Quando falamos sobre a pré-disposição dos povos para ajudar o outro, o entrevistado falou que nas suas viagens com estudantes a comunidades indígenas na Colômbia visitaram uma comunidade indígena nasa em que tinha como tradição fazer a minga. Explicou que a minga é uma palavra quéchua, que quer dizer dedicar um dia por semana a trabalhar para toda a comunidade, mas de forma obrigatória e que quando falavam com os locais indígenas, estes não concordavam identificar a minga como trabalho voluntário pois era obrigatório fazer a minga. O entrevistado 15 (36, Bulgária) pretende voluntariar-se outra vez, mas acha que desta vez vai tentar equilibrar o voluntariado com um emprego para poder garantir a sua segurança financeira. O entrevistado conflitua-se com o facto de poder fazer a sua contribuição na sua comunidade em vez de ir tão longe, mas diz que não pretende devotar-se apenas a ajudar, que quer também viajar e visitar aqui e ali, “unir o útil ao agradável”. Diz que outros virão de outros Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 52 países fazer a sua contribuição na Bulgária, fazer, supostamente, o seu trabalho. O entrevistado fala também do que era o voluntariado no regime comunista em que as pessoas tinham que trabalhar um dia em cada mês de forma gratuita para a empresa, diz que as gerações mais jovens já não sabem o que isso é mas isso também não lhes dá qualquer interesse em ajudar. Popularidade do Volunturismo Quando questionados sobre o que acham que faz com que o volunturismo tenha tanta popularidade os entrevistados deram uma miríade de respostas que agrupámos em 4 grupos principais: fatores de produção turística, fatores da evolução do mundo de hoje, fatores sociais e culturais, e fatores altruístas. Os fatores mais elevados quanto à opinião dos entrevistados foram os de produção turística, contando com as diferentes motivações dos voluntários, as experiências variadas / de viagem autêntica / de vida, viagem com um propósito, exotismo, o volunturismo estar na moda, produto turístico atrativo e o equilíbrio entre férias e voluntariado. Em segundo ficam os fatores da evolução do mundo de hoje, estes fatores contam com a globalização, a facilidade, a internet, a informação e a educação; quanto mais educada e informada a população, mais curiosidade existe para haver uma aproximação ao estranho distante. De seguida ficaram os fatores sociais e culturais, que contam com o interesse da imersão e intercâmbio cultural, a consciência dos problemas sociais, a responsabilidade social e o interesse em conhecer novas pessoas. Por último ficam os fatores altruístas que englobam ajudar, dar o seu contributo e a gratificação pessoal. O relato do entrevistado 3 (28, Índia) foi muito interessante porque mencionou que a popularidade deve-se à facilidade acrescida nos trâmites de viagem. Como o visto de visita que se torna mais fácil tirar quando se viaja com o propósito de se voluntariar. A entrevistada 18 (23, França) também comentou o facto de ser voluntária em Israel tornou a sua visita ao país e à Palestina mais simples. A entrevistada 4 (28, E.U.A.) considera que a popularidade do volunturismo deve-se à procura pelas pessoas de algo além do turismo, adicionam aos seus planos uma atividade mais Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 53 significativa, educativa, uma experiência que não só fique bem no currículo mas que também contribua com alguma experiência de trabalho e reflita algo sobre a pessoa. Já o entrevistado 14 (40, Colômbia) considera que volunturismo é um fenómeno dos países do Norte e considera que há muito volunturismo porque existem muitas organizações que oferecem ‘produtos’ muito atrativos, considera muito atrativo os cursos pagos com experiência de voluntariado (apesar de não sabermos ao certo quais são os programas a que se refere, é possível que sejam os mesmos em que o entrevistado 15 (36, Bulgária) participou. De acordo com o entrevistado 15 (36, Bulgária), por um lado, este tipo de projetos têm voluntários que não pagam para se voluntariar, mas têm que angariar outros voluntário que pagam um custo bastante elevado. Existe um link e uma descrição na secção seguinte – críticas ao volunturismo). O entrevistado 19 (50, Austrália) considera que a popularidade do volunturismo deve-se a “um desejo humano inato em querer algum tipo de reconhecimento e fazer algo para ajudar pessoas (…) então se puderem encontrar uma entidade que lhes pode fornecer tudo isso de uma só vez e ainda possam divertir-se ao mesmo tempo, é simplesmente ideal”. Críticas ao Volunturismo Entre as críticas ao volunturismo vamos agrupar as críticas mencionadas em 2 grupos distintos de acordo com o sujeito responsável pela crítica. Ou seja, críticas que têm a ver com a contribuição do Voluntário e depois críticas que têm a ver com a contribuição da organização. As críticas mais mencionadas têm o voluntário como sujeito responsável, que, por não tomar seriedade pelo serviço de voluntariado ou dedicarem pouco tempo ao projeto fazem com que a sua contribuição na organização seja débil, tornando-se num fardo para a organização. Outras críticas que foram mencionadas têm a ver com o interesse do voluntário para apenas usar a experiência do voluntariado para embelezar o currículo, ter uma atitude de superioridade perante a cultura e os costumes locais, resultando num desrespeito pela comunidade de acolhimento e pela exibição constante dos voluntários nas páginas de comunicação social. As críticas que têm como sujeito responsável as organizações são: o facto de se ter que pagar para voluntariar ou a organização ter lucro às custas do voluntário; organizações duvidosas; a exploração (variada) do voluntário; e a distribuição de recursos não ser feita de acordo com as necessidades. Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 54 O entrevistado 14 (40, Colômbia) acha curioso o facto dos Europeus passarem por um processo tão violento como a profilaxia contra a Malária. Diz que por um lado os Europeus querem aparentar ser fortes e aventureiros, por outro lado, vão para África muito protegidos. E é também a partir dessa proteção e segurança que considera que os Europeus acham normal pagar para se voluntariar. O entrevistado 15 (36, Bulgária) acha que há organizações que se tornam negócios, e que possivelmente a organização onde se voluntariou é uma delas, enviou links que mencionam que o diretor de uma organização afiliada à organização com a qual se voluntariou está a ser procurado pela Interpol por fraude relacionada com extravio de dinheiros 14 . Não é claro até que ponto é que as organizações estão envolvidas, mas tendo apenas como base o relato do entrevistado, a organização tem uma posição menos correta perante os voluntários por omissão de tudo aquilo que esperam dos voluntários. A entrevistada 18 (23, França) já ouviu críticas ao volunturismo tais como: não provoca um grande impacto; não ajuda a população porque criam dependência; que é uma solução a curto prazo e não é sustentável; e que as pessoas que vão para lá não sabem nada. A entrevistada considera que algumas críticas são verdadeiras e outras não são. A entrevistada acha que é sempre bom ir a um país estrangeiro e fazer algo, concorda que provavelmente o que se faz não é sustentável, também concorda que as pessoas que vão são muito jovens, acabam de sair do secundário, e possivelmente não terão grande utilidade. Acha que, por exemplo, enviar um grupo de jovens do Reino Unido para dar aulas de Inglês ou abrir um centro de apoio para depois das aulas faria mais sentido, pois podem assistir os jovens, sem tentar resolver os seus problemas, tais como o VIH e a educação sexual. Considera estes assuntos mais complexos que devem ser tratados por alguém com mais experiência. Acha também que as populações não podem estar à espera dos voluntários para fazer tudo ou não se tornarão auto-suficientes. Refletindo um pouco sobre possíveis críticas ao volunturismo, o entrevistado 19 (50, Austrália) considera que possivelmente essa crítica poderá vir da indústria do turismo, alguns comércios locais poderão sofrer quando mão-de-obra qualificada entra no país e a possibilidade de haver empregos de locais que poderão ser ocupados por estrangeiros. Achava que havia muitos locais que se sentiam fora do lugar rodeados por ocidentais a entrar no seu país e a desafiá-los. 14 ‘Wanted by Interpol – Amdi Petersen, founder of Humana People to People, Planet Aid and USAgain’, Tvindalert, disponível em http://tvindalert.com/, consultado a 21 de Agosto de 2014. Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 55 Sugestões As sugestões também dividimos em dois grupos, aquelas que são sugestões dirigidas aos voluntários e as sugestões que estão dirigidas às organizações. As sugestões que os entrevistados têm para os voluntários são:  os voluntários devem manter mente aberta e alguma flexibilidade;  devem ter cuidado a procurar as organizações, tentando investigar e falar com outros voluntários;  antes de irem para o país de acolhimento, não devem levar consigo estereótipos e ‘bagagem’ cultural desnecessária;  quanto mais tempo tiverem para dedicar à organização e para visitar melhor;  a utilização dos sites workaway e helpx é recomendada;  ser responsável perante o trabalho;  respeitar os costumes locais. As sugestões que os entrevistados têm para as organizações são:  maior claridade de informação na descrição do programa;  quanto mais estruturado e organizado o programa estiver melhor;  dar formação aos voluntários antes de ir para o país de acolhimento, assim como dar formação à organização de acolhimento sobre como receber e apoiar os voluntários;  maior presença entre os jovens, informando os estudantes na universidade ou secundário dos programas existentes;  maior e melhor divulgação da organização pela internet, para ficar acessível ao voluntário e aumentar as hipóteses de ser encontrada;  ter consciência dos custos de vida dos voluntários que permanecem durante muito tempo, quanto menor for o custo de vida, mais tempo o voluntário será capaz de se dedicar à organização;  utilização eficiente dos recursos humanos. Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 56 O entrevistado 16 (37, Egito) sugere que as organizações devem abrir as suas portas aos voluntários, por outro lado aconselha os voluntários a cumprir com as suas obrigações, ao fazerem-no estão a apoiar e a preservar o seu direito de se voluntariar. Aprendizagem Aquilo que os entrevistados mais ganharam foi o seu desenvolvimento pessoal e a compreensão dos outros. Muitos dos relatos tiveram um nível alto de sentimentalidade e consideram que estas são experiências que mudam as suas vidas, no sentido de que, a partir daquele momento, certas decisões são tomadas de acordo com a aprendizagem que tiveram nas experiências de voluntariado. O que a entrevistada 4 (28, E.U.A.) aprendeu mais com a experiência de voluntariado foi que as pessoas nem sempre precisam daquilo que cada um pensa que elas precisam e que é muito difícil avaliar a necessidade por causa do preconceito cultural, que lidar com uma cultura diferente é uma área muito cinzenta, muito ambígua, e que não existe apenas uma maneira certa de fazer seja o que for. O entrevistado 5 (28, Argentina) diz que, depois da sua experiência no México, divide a sua vida entre o antes e o depois de se voluntariar. Antes tinha uma ideia do que seria ajudar, mas depois de o fazer e de ver como as pessoas agradecem, fica motivado para fazer outro projeto idêntico e que passa a ser algo que se quer fazer mais. Ao mesmo tempo considera que a própria consciência social muda e mesmo que uma pessoa não volte a voluntariar-se ganha uma visão diferente sobre a sociedade e sobre o seu próprio comportamento. Diz também que quando se voluntaria o que se dá é muito menos do que aquilo que se ganha. A entrevistada 6 (31, E.U.A.) fez amizades duradouras e sente que a sua experiência no Vietname fechou o ciclo da história de décadas entre duas famílias, como se de um pacto de paz se tratasse. Os entrevistados 9 e 10 (F 28 e M 29, E.U.A) e a entrevistada 18 (23, França) saíram de África com uma lição valiosa que as coisas são mais complicadas do que as pessoas pensam e que não existe uma solução simples para um problema. O entrevistado 11 (36, China/HK) menciona que na sua experiência no campo do refugiados na Palestina aprendeu o que é viver num país onde se vive sem qualquer liberdade, a situação era de tal maneira crítica que alguns voluntários entraram em depressão. Diz também Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 63 Referências Bibliográficas ‘About Herb Feith’, Australian Volunteers International, disponível em http://www.australianvolunteers.com/about-us-/who-we-are/our-story/herb-feith.aspx, consultado a 15 de agosto 2014. Andereck, K.L., Valentine, K.M., Knopf, R.C., Vogt, C.A. (2005). ‘Residents' perceptions of community tourism impacts’. Annals of Tourism Research, 32(4),1056-1076. Anderson, T. (2007). Making international tourism markets work for the poor in South Africa, Paper presented at the M4P Conference, 12–14 March, Spier Estate, Cape Town. Appadurai, A. (1986). Introduction: Commodities And The Politics Of Value. In Appadurai, A. (ed.). The Social Life of Things: Commodities in Cultural Perspective, Cambridge: Cambridge University Press. Ayobami, O. K., Bin Ismail, H. N., Eluwa, S. E. 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My name is Lucia and I am currently doing a thesis on “Voluntourism” as part of my Masters Degree in History, International Relations and Cooperation at the Faculty of Arts of the University of Porto. I need your help for my research, if you’d be so kind to offer your time and answer a few questions about your international volunteering experiences I’d be ever so grateful. Ideally, this would take the form of a Skype call of about 30 minutes, but if you are not available through Skype, we can find a better method that suits you. In return, if you’re interested, I can share with you the results of the research and/or the final work by the end of the year. Please feel free to contact me through this post or through a personal message. Wishing you a wonderful day! Lucia Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 72 Anexo II – Lista de Entrevistados Previstos Ref. Sexo Idade Nacionalidade País R.P. Educação Profissão 1 M 50 Australiano Austrália Vários Mediador 2 M 33 Norte-Americano China Universidade ops/medic/certificate pastoral care - hospitality / TESOL Cert / Wildersness First Aid / LEEDS green associate / IECC2009 20012 / LEED inspector Formador de Professores 3 M 35 Português Não tem Mestrado em Gestão Industrial Gestor Logístico / Bartender 4 F 29 Portuguesa Não tem Licenciatura Farmácia Farmacêutica/Cocktail waitress 5 M 54 Britânico Espanha 12º ano Coordenador desenhista 6 M 24 Sérvio Tailândia Universidade Estudante 7 M 22 Bósnio Sérvia 12º ano Estudante 8 F 28 Norte-Americana E.U.A. Bacharelato Viajante/Escritora 9 M 29 Norte-Americano E.U.A. Mestrado Viajante/Escritor 10 F 52 Italiana Bélgica Universidade Coordenadora T. Comunitário 11 M 37 Egípcio Egito Mestrado Ass. Globais Consultor Político 12 M 28 Indiano Argentina MBA Marketing Marketing 13 M 30 Indiano Índia MBA 14 M 38 Norte-Americano China Mestrado Diretor de Escola 15 M 28 Indiano Índia BA Medicina Ayurveda Médico 16 F 32 Italiana Alemanha Mestrado Rec. Humanos Gestora Reposição Materiais 17 F 28 Norte-Americana E.U.A. 18 M 36 Chinês de Hong Kong Alemanha Mestrado em Gestão Industrial Analista 19 F 31 Norte-Americana Austrália Universidade Relações Públicas 20 M 28 Argentino Brasil Universidade Contador Público 21 F 23 Francesa Dinamarca BA Cinematografia Desempregada 22 F 23 Polaca 23 F 36 Norueguesa Noruega PhD Biotecnologia Investigadora Científica 24 M 36 Búlgaro Bulgária Mestrado Antropologia Freelancer 25 M 40 Colombiano Colômbia Universidade Professor Universitário 26 F 32 Alemã Alemanha Mestrado Biologia Química Estudante PhD Biologia 27 M 30 Paquistanês Qatar Engenharia Civil Engenheiro Civil Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 79 como o estava a fazer em Londres anteriormente, em que ia a espaços comerciais e comunitários propor um evento. Apesar do projeto não ter tido um começo ideal, o entrevistado tem a esperança que em breve as coisas comecem a tomar o seu rumo e ele possa fazer aquilo que ambiciona: “trabalhar para a comunidade”, com base no que defende “Ninguém deveria ter que pagar pela arte”. O entrevistado decidiu fazer este projeto com base em donativos, porque dedicando-se a um projeto destes a tempo inteiro teria que suportar os seus custos de vida. Reconhece que existem pessoas que podem ter dificuldades financeiras que as impede de poder pagar um workshop e não pretende que essa razão seja um impedimento para não participarem. No entanto todos aqueles que tenham possibilidades e tenham gostado de participar, podem contribuir com o que quiserem. Outra alternativa seria uma comunidade suportar esses custos de vida e convidar o entrevistado a fazer workshops gratuitos para a população em que a comunidade é que criaria os eventos. Este tipo de programa era o que o entrevistado estava na espectativa que acontecesse em Granada. O entrevistado ao revisitar uma altura particularmente difícil na sua vida, que se reflete um pouco na pressão financeira que está agora a passar pela Europa, lembrou um provérbio Português “Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão” e adicionou que “são nestas alturas que é importante fazer este tipo de atividades de lazer que dão esperança para continuar o dia-a-dia e ironicamente é exatamente a altura quando pensamos que não podemos fazê-lo e por isso mesmo é importante para mim fazer estes eventos com base em donativos para que todos possam participar.” O entrevistado foi convidado para ir para a Rússia durante o verão, mas houve uns problemas com o número de participantes inscritos na organização de acolhimento que impediu que o projeto fosse para a frente este ano. De momento, o entrevistado pretende juntar-se a uma comunidade chamada Rainbow Gathering que dura um mês lunar em cada local, recentemente iniciado na România. Ao mesmo tempo o entrevistado pretende publicitar mais o projeto nas redes sociais para ganhar mais adeptos e divulgação. Diz que é muito comum as pessoas se aproximarem do entrevistado quando está em algum sítio a desenhar e dizerem-lhe: “Eu gostaria imenso de desenhar, mas não sou muito bom nisso.” Os workshops do entrevistado incentivam as pessoas “pois não interessa se são os melhores a desenhar ou os piores, simplesmente façam-no e divirtam-se” e continuou por dizer Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 80 que “havia muitas pessoas que participavam nos workshops que estavam simplesmente a divertir-se a desenhar.” Os livros que o entrevistado preparou em Granada dão, àquelas pessoas que não o costumam fazer e que se tenham divertido com o workshop, formas como podem continuar a desenhar mesmo que estejam a fazê-lo sozinhos. Ajudam-nos também a juntar-se a comunidades de desenho à volta do mundo. O entrevistado pretende que exista a possibilidade de uma continuidade da atividade após o workshop. Esta atividade além do prazer de desenhar, dá a possibilidade às pessoas de se socializarem e sair um pouco da rotina diária de dormir, ir trabalhar, voltar do trabalho e ir ao pub beber uma cerveja ou sentar-se a ver televisão. Entrevistado 3 (28, Índia) Em 2010 o entrevistado foi para a Indonésia para se voluntariar em Marketing durante 2 meses, com uma organização chamada AIESEC, que é uma organização que organiza programas para estudantes. Durante o período de voluntariado, o entrevistado estava a trabalhar com a segunda maior universidade da Indonésia no Departamento de Marketing, fez recolha de dados dentro do universo do VIH, deu aulas a crianças e deu formação a outros voluntários. O entrevistado já conhecia o programa há algum tempo e decidiu participar para ganhar experiência, para poder estar em contacto com outra cultura e ter uma experiência que lhe desse exposição internacional. Quando o entrevistado se voluntariou era o único Indiano, no entanto, havia outros voluntários no seu grupo oriundos, de diversos países. De entre as pessoas que se voluntariaram todos tinham motivações semelhantes às suas, exposição internacional, viajar e aprender com a experiência. Na maior parte, o entrevistado tinha uma certa curiosidade sobre como as pessoas locais iriam interagir com ele e com os outros colegas advindos de diferentes culturas. Tinha curiosidade sobre como iriam comunicar, os laços que se iam fazer e também pretendia aprender mais sobre as viagens daqueles que já tinham viajado. O entrevistado não esperava ter tantas dificuldades de comunicação como realmente teve durante o período de voluntariado. Verificou-se também algumas dificuldades em termos de choque entre culturas, o que considera ter sido causado pelo facto de ser a primeira vez a viajar fora da sua terra natal. De momento o entrevistado está a fazer outro programa com a mesma organização, que o levou à Argentina. Mas no programa atual o entrevistado está a ter uma remuneração pelos Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 81 serviços prestados. O entrevistado está a voluntariar-se localmente a tempo parcial. Neste momento, mas não tem intenções de voltar a dedicar-se a tempo inteiro ao voluntariado num futuro próximo. Em termos da experiência de voluntariado do entrevistado, considera que o relacionamento de trabalho foi muito bom. Considera que sempre que precisava de assistência em alguma área, as pessoas prestavam-se a ajudá-lo. Gostou muito das conversas que teve com os locais e colegas, estes sempre se interessaram em ouvir o entrevistado falar sobre a sua cultura e o seu país. Da mesma forma o entrevistado também se interessava muito pela cultura dos elementos locais e dos colegas. Considera que foi verdadeiramente um intercâmbio entre culturas. Na perspetiva do entrevistado o volunturismo tem cada vez mais adeptos pela facilidade de viajar. Na sua opinião o mais importante é “viajar, então a melhor maneira de viajar é se voluntariar, de forma a poder ter visto” diz que é mais fácil obtê-lo e continua por dizer “entretanto pode-se viajar”. O entrevistado considera que nem todas as pessoas participam em programas de voluntariado porque preferem o lado luxurioso de viajar, gostam de ficar em hotéis de 5 estrelas, comer em bons restaurantes, estar bem-vestidos, em modo relaxado. O entrevistado prefere viajar de maneira diferente. Para o entrevistado viajar é ter uma verdadeira experiência de viagem “é viver com os locais, é interagir com os locais, comer à sua maneira, como os locais comem e viajar e conversar com os locais”, voluntariar-se, andar à boleia… Considera que, independentemente, do país de origem das pessoas com quem já teve a oportunidade de comunicar, 70% das pessoas têm a mesma ideia que o entrevistado sobre o que é uma verdadeira experiência de viagem, enquanto considera os outros 30% pessoas que preferem a parte luxuosa da viagem. Quando lhe questionamos se o que fez durante o voluntariado poderia ter sido feito por um residente local, o entrevistado respondeu ambos sim e não. O entrevistado admitiu que em parte isso poderia ser feito por um local, mas a grande diferença que fez o trabalho que o entrevistado ofereceu de mais valioso foi a dimensão cultural que só alguém de outra nacionalidade poderia oferecer. O entrevistado considera que a sua experiência na Indonésia contribuiu para a sua autoconfiança e para o desenvolvimento da sua personalidade, competências de comunicação e linguagem. Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 82 Entrevistada 4 (28, E.U.A.) A entrevistada trabalhou num centro para crianças estilo internato nos arredores de Siem Reap no Camboja em 2010. As crianças não eram órfãs, eram crianças de aldeia, de famílias carenciadas. O centro de acolhimento decidia sobre as necessidades das crianças de acordo com a capacidade financeira da família para mandar as crianças para a escola, se tinham o suficiente para viver. Se os pais ou guardiões concordassem enviavam as crianças para o internato que geralmente ficava relativamente perto das suas casas. No ano anterior (2009), a entrevistada em visita ao Camboja pela primeira vez conheceu três turistas britânicos que se estavam a voluntariar numa organização semelhante. A entrevistada visitou essa organização e planeou voltar no ano seguinte para se voluntariar nessa organização. No entanto, os turistas que a entrevistada conheceu, descobriram que essa organização era fraudulenta, tinham lá crianças e convenciam os turistas a ir lá dar coisas e dinheiros que eram apropriados pelos donos da organização. Isso fez com que uma das voluntárias (uma senhora Britânica professora de jardim de infância reformada) se inspirasse em criar a sua própria casa para crianças necessitadas. Através de um membro do parlamento, a senhora conseguiu um terreno e iniciou o centro. A entrevistada juntou-se ao centro para se voluntariar durante 4 semanas. Na primeira semana quando a entrevistada chegou, ainda não havia crianças, ainda estavam a preparar o centro com os primeiros empregados, A entrevistada diz que agora o centro é muito maior e devido à mudança da lei (estão a tentar fechar todos os orfanatos no Camboja) as crianças voltam às suas casas no final do dia. Mantêm o centro aberto como um centro comunitário, onde podem ter aulas grátis e os estudantes mais necessitados podem ficar, de acordo com a avaliação de um assistente social. O centro tem como diretora a senhora Britânica, mas todos os empregados são locais e recebe voluntários de todo o mundo. O casal de Britânicos que a entrevistada conheceu no ano anterior juntamente com a senhora que dirige o centro no Camboja, tratam da administração do centro no Reino Unido, uma vez que o centro está registado como organização de caridade Britânica. A entrevistada considera que apesar do casal ter emprego e família, ainda conseguem dedicar algum tempo para a organização. Quando a entrevistada chegou ao Camboja em 2010 chegou também outra voluntária ao centro que contou à entrevistada que se tinha voluntariado noutra organização em que doou algum dinheiro e que no dia seguinte ao donativo chegou à organização e havia várias garrafas de álcool vazias. O que a fez suspeitar que o dinheiro teria sido utilizado para comprar álcool e Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 83 não para ajudar a organização. A mesma voluntária também tinha trazido roupas para as crianças mas os donos da organização tinham-se apropriado das roupas. O que as fez acreditar que os donos destas organizações aceitam as roupas para depois vendê-las no mercado. A entrevistada relatou que o Sudoeste da Ásia tem esse problema, há muitas pessoas desesperadas, muitos burlões, pessoas a aproveitarem-se de crianças, muito tráfico de sexo e de humanos. Mencionou que gostava também de participar numa organização contra o tráfico de humanos. A entrevistada comentou que nesta região é comum ver crianças e jovens a trabalhar e que o primeiro impulso é pensar: ‘tu deverias estas na escola’ mas que não se sabe ao certo se isso seria o melhor para eles, se estão a ser pagos, se são forçados a trabalhar pela família e se realmente vão à escola de manhã, pois a escola no Camboja só lhes ocupa a parte da manhã. A entrevistada confrontada com a questão se o voltaria a fazer, questiona-se sobre se ir lá por um mês ajudaria a eles ou a ela própria. Diz que agora se sente um pouco diferente nesse assunto, questiona-se se realmente eles são ajudados mais por terem toda a ajuda que possam ter ou “prejudica as crianças ter pessoas a vir e a ir a toda a hora?”; “Será benéfico para mim, no sentido que, me fará sentir melhor sobre mim mesma? Ou estarei disposta a fazer seja o que for para ajudar estas pessoas, independentemente das dificuldades que eu possa ter que enfrentar? Então, tenho agora todos estes dilemas éticos acerca disso”. A entrevistada voltou em 2011, mas só para visitar o centro e as crianças que tinha conhecido no ano anterior. Diz que poderia lá voltar ou arranjar outro sítio onde se voluntariar, mas também diz que é muito difícil saber se a organização é legítima, se está a fazer a diferença. A entrevistada diz que quando visitou o Camboja pela primeira vez sentiu uma ligação forte à cultura e teve uma ótima experiência. Gostava de passar mais tempo com a população local, diz que sentiu uma afinidade bem diferente com as pessoas e crianças do Camboja do que com o resto do Sudoeste Asiático. Considera o Camboja o seu país preferido no Sudoeste Asiático e foi esse o motivo pelo qual decidiu voltar, voluntariar-se e contribuir de maneira positiva. No início, quando a entrevistada se preparava para ir para o Camboja em 2010, pensou que iria dar aulas de Inglês, tomar conta de crianças, fazer atividades educativas com elas e fazer o que fosse preciso. No entanto, quando contactou a senhora Britânica sobre voluntariarse no centro e lhe foi dito que ainda não havia crianças no centro, ficou sem saber ao certo o que esperar. Durante o período de voluntariado, a entrevistada não deu muitas aulas, mas teve Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 84 a oportunidade de se envolver em atividades com as crianças e ajudar a preparar o centro para receber crianças. A entrevistada costuma voluntariar-se na sua própria comunidade quando tem a oportunidade de o fazer. Agora pretende envolver-se com organizações que tomem conta de cães em Buenos Aires, onde mora, porque existe um grande problema com maus-tratos e cães vadios. Tentou contactar uma organização, mas só estavam a pedir veterinários voluntários, mas diz que se a oportunidade se apresentar, gostava de se envolver. A entrevistada acha que mais pessoas se voluntariam internacionalmente porque procuram uma maior variedade de experiências quando terminam a universidade ou mesmo antes de entrar na universidade. “Existe uma tendência para viajar com um propósito e não apenas viajar para diversão, porque as pessoas pensam, vai ser divertido, mas não nos vai fazer sentir realizados e não aprendem nada em apenas ir ver os sítios de interesse turístico e andar em festas”. Adiciona que as pessoas continuam a viajar para ver sítios de interesse e para ir para festas, mas pretendem adicionar algo mais significativo, educativo, uma experiência que não só fique bem no currículo mas também que contribua com alguma experiência de trabalho e reflita algo sobre a pessoa. A entrevistada menciona que uma coisa que aprendeu com esta experiência foi: “as pessoas nem sempre precisam daquilo que nós pensamos que eles precisam (…) é muito difícil avaliar necessidade por causa do preconceito cultural, é sempre um desafio trabalhar com uma comunidade que é diferente da nossa própria comunidade e tentar tornar esse trabalho benéfico (...) e é uma área muito cinzenta, muito ambígua, é que não existe apenas uma maneira certa de fazer seja o que for”. A entrevistada considera que a crítica ao volunturismo tem a ver com o facto da maioria das experiências serem relacionadas com crianças e com experiências curtas de máximo 6 meses a 1 ano. Pessoas que não trabalham para a organização, que só pretendem fazê-lo durante um curto período de tempo e que o fazem por si, estão a contribuir, a dar de volta, mas entram nessa experiência para eles próprios e considera isso “delicado”. Depois também depende do tipo de organização e o que se está a fazer. Considera que se se for trabalhar num campo de elefantes e estiver a ajudar a lavar elefantes ou a tomar conta de animais, eles não sentem quando os voluntários se vão embora e assim estão a ajudar as pessoas nessa organização. Se estiver num escritório a fazer um serviço administrativo numa organização que está a tentar acabar com o tráfico de humanos está-se a ajudar a organização, não se está a afetar diretamente Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 85 as pessoas. De qualquer maneira, diz que se torna difícil definir qual das contribuições têm um maior impacto. A entrevistada adicionou que é complicado para as crianças lidar com despedidas constantemente e que quando voltou em 2011 as crianças lembravam-se dela. A entrevistada sentiu-se mal por não ter ficado mais tempo. Uma criança perguntou-lhe quanto tempo ia ficar e quando disse que só ia ficar 2 semanas a criança mostrou-se muito desanimada. A entrevistada ficou na dúvida se teria sido bom visitar por pouco tempo ou passar pela cidade sem visitar o centro. No ano seguinte pensou em visitar outra vez, mas decidiu não o fazer. A entrevistada falou que um amigo lhe chamava a rapariga missionária, que queria mudar o mundo, mas para a ela era só uma maneira de estar mais tempo a conviver no Camboja. A entrevistada terminou por dizer que há sempre 2 lados em cada história e que há várias maneiras de olhar e ver as coisas. Entrevistado 5 (28, Argentina) O entrevistado participou em duas experiências de voluntariado internacional, ambas em Oaxaca, no México entre Julho e Setembro de 2013. Na primeira experiência o entrevistado trabalhou numa organização de microcrédito e turismo local onde dava formação de negócios a mulheres beneficiárias dos microcréditos. Na segunda organização, como não tinham o hábito de receber voluntários, quando o entrevistado pediu para se voluntariar aceitaram-no como um “passante” ou observador. Esta é também uma empresa de microcrédito, mas desta vez uma filial internacional da Grameen. Na organização teve a oportunidade de acompanhar as diferentes fazes do processo. No final fez um relatório e um manual de procedimentos. O entrevistado fez uma participação em ambas as empresas paralelamente tendo primeiro começado na organização Mexicana. O entrevistado soube de ambas as experiências por acaso, apesar de já ter lido sobre a primeira organização anteriormente no guia turístico Lonely Planet. Foi quando se hospedou num hostel onde estava também hospedada uma rapariga que se estava a voluntariar na primeira organização a dar aulas de Inglês e informática que soube da organização. Decidiu visitar e oferecer os seus serviços. O entrevistado soube da Grameen através de uma pessoa que conheceu através de um turista Americano com quem visitou os Pueblos Mancomunados. Quando falava com essa pessoa disseram-lhe que naquele momento o Dr. Mohammed Yunus, diretor da Grammeen internacional estava a dar uma conferência em Oaxaca, pelo que se dirigiu Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 86 imediatamente ao local onde a conferência estava a decorrer e foi aí que entrou em contacto com a organização filial da Grameen. O entrevistado já tinha interesse no microcrédito e quando a oportunidade se manifestou decidiu participar em ambas as organizações. Diz que se interessa pelo desenvolvimento económico e pela redução da pobreza. Não tinha pensado antes em voluntariar-se no México, mas tinha considerado voluntariarse algures durante a viagem. Diz que se pretende voluntariar outra vez, mas desta vez numa quinta orgânica, no âmbito da ecologia. A sua maior motivação para se voluntariar foi a aprendizagem mas queria também ajudar e dar o seu contributo. Antes de pensar em se voluntariar na área do microcrédito já tinha pensado em se voluntariar numa quinta orgânica através do site WWOOF. Quando começou a sua participação nas duas organizações esperava retirar disso uma maior perspetiva ou conhecimento do tema, o que aconteceu mas a uma dimensão muito superior do que esperava. Aquilo que o surpreendeu mais sobre as experiências foi ver que na realidade o programa de microcrédito funciona. Acha que as motivações das pessoas que se voluntariaram com ele na primeira organização eram diferentes, uns queriam ter umas férias diferentes, outros dar a sua contribuição. O entrevistado considera que o contributo dos voluntários na primeira organização faz muita diferença, sem esse contributo a organização não conseguiria operar, pois depende inteiramente de voluntários. Comenta como as pessoas que mais beneficiavam do trabalho dos voluntários manifestavam a sua satisfação pelo trabalho dos voluntários. O entrevistado diz que não pode dizer que seja um hábito se voluntariar, mas que já o fez em São Paulo, onde reside. O entrevistado gostaria de se voluntariar internacionalmente num outro projeto numa quinta orgânica ou noutro projeto de redução e pobreza noutro país. Se tivesse que escolher hoje a organização diz que consideraria o impacto, diz que independentemente do nome e do lugar o que mais lhe interessa é o impacto que teria na sociedade. O entrevistado considera que a popularidade do volunturismo se deve a uma maior consciência por parte dos jovens pelos conflitos sociais, injustiça social. Considera que o Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 87 volunturismo procura endereçar estes problemas. Acha também que as pessoas o fazem quando estão em viagem porque é quando dispõem de mais tempo livre. O entrevistado está a par da crítica dirigida ao volunturismo pago, acha que ao dar o seu contributo de tempo e trabalho não deve ter que pagar. Declara que até ao momento não pagou para se voluntariar e que não pretende pagar para se voluntariar, apenas aceita pagar a subscrição no site WWOOF porque contribui para os custos administrativos da organização. O entrevistado sugere que as organizações deveriam ter uma maior presença entre os jovens que estão na universidade ou na escola secundária para terem conhecimento dos programas disponíveis Após a sua experiência no México o entrevistado diz que divide a sua vida entre o antes e o depois de se voluntariar. Antes tinha uma ideia do que seria ajudar, mas depois de o fazer e de ver como as pessoas agradecem, fica motivado para fazer outra coisa e que passa a ser algo que se quer fazer mais. Ao mesmo tempo considera que a própria consciência social muda e mesmo que uma pessoa não volte a voluntariar-se ganha uma visão diferente sobre a sociedade e sobre o seu próprio comportamento. Concluiu por dizer que quando se voluntaria o que se dá é muito menos do que aquilo que se ganha. Entrevistada 6 (31, E.U.A.) A entrevistada decidiu deixar o seu emprego e começar a viajar em vários países a partir de 2012. No período de 2 anos teve a oportunidade de ter 4 experiências de voluntariado internacional. A primeira experiência foi na Islândia, soube desta oportunidade no site helpx em que o voluntário oferece o seu trabalho em troca de estadia e alimentação. A entrevistada voluntariou-se numa pousada da juventude na costa Sul da Islândia durante mês e meio a ajudar com as lides diárias da pousada, preparar o pequeno-almoço, tomar conta dos hóspedes, limpezas, entre outras atividades. Apesar de ser um trabalho que nada tinha a ver com os projetos que queria fazer, deu-lhe a oportunidade de “desligar” do seu emprego, foi uma maneira de fazer algo que não necessitasse de muitas das suas competências e também que reduzisse as suas despesas de viagem. Acha que esta experiência deu-lhe a oportunidade de poder fazer algo produtivo e de se desprender da vida que deixara nos Estados Unidos da América. O próximo país foi o Vietname onde tinha uma pessoa amiga a viver. Esteve lá durante 3 meses e passou 1 mês e meio a voluntariar-se. Quando chegou não tinha nenhum projeto em Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 88 mente mas após conhecer algumas pessoas através da sua amiga e de procura no terreno encontrou uma organização chamada Action for Vietnam Heritages que tinha um projeto chamado Action for Ha Long Bay. Quando se voluntariou tinha decidido ficar no projeto durante 10 dias, no que era chamado de um campo de trabalho ecológico, onde iriam acontecer várias apresentações e atividades de intercâmbio cultural e algumas ações muito suaves de ativismo tipo Flash mob para atrair atenção para a poluição marítima na Baía de Ha Long – Património Mundial pela Unesco. Uma vez que a entrevistada era mergulhadora e se interessa muito por conservação marítima, este projeto era ideal. Quando a entrevistada se inscreveu havia a opção de tomar uma posição de liderança e como se identifica com esse tipo de competência preencheu a ficha de inscrição com essa disposição. Dois dias mais tarde foi-lhe dada a posição de líder de acampamento, a liderar 120 voluntários oriundos de todo o Sudeste Asiático. A sua experiência nesta organização foi algo que nunca antes tinha experienciado, não eram muito organizados e tudo era feito no último minuto. Os 120 voluntários eram, na sua maioria, oriundos do Sudeste Asiático, mas depois vieram também pessoas das Filipinas, do Japão, da Tailândia, da Indonésia, do Camboja e também de países ocidentais, mas a entrevistada era a única Americana. Quando se voluntariou pensou que iria aprender muito sobre conservação marítima, mas na realidade não havia muito a ser feito pelo ambiente e aquilo que mais aprendeu foi sobre cultura. As noções básicas que tinha sobre conservação marítima e preservação do meio ambiente foi algo que teve a necessidade de ensinar. Acha que a maior lição que aprendeu nesta experiência é que não se deve ter muitas expectativas numa experiência destas, pois o mais provável é nunca ser aquilo que se espera. Considera que é bem melhor ter mente aberta, ser flexível e simplesmente preencher a posição que a organização necessita que seja preenchida. O campo de trabalho consistia em workshops, conferências, visitas a escolas de forma a haver bastante divulgação. Infelizmente, a entrevistada afirma que depois desta ação e após sair do Vietname nada mais foi feito. Isso deixa a entrevistada triste pois tanta energia foi investida no projeto para não haver uma continuação. Mas conclui que se nada contribuiu para a Baía de Ha Long, ao menos sabe que mudou algo nas vidas das pessoas que partilharam aquela experiência com ela, com quem ainda se mantém em contacto. Depois foi para o Camboja onde viveu na ilha de Rong Sanloem a trabalhar num projeto chamado Marine Conservation Cambodia. Quando se voluntariou sabia que iria haver pesquisa e estudos marítimos e comprometeu-se com a organização por um mês. A organização cobrava Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 95 contacto com os líderes da comunidade e com o centro de saúde da localidade, conseguir gerir a equipa de voluntários para conseguirem abrir o posto de saúde no prazo estabelecido. No início tinham consultas pelo menos 2 vezes por mês com perspetiva em aumentar o número de dias de consultas e diversificar as consultas. Escolheram este projeto entre os outros em termos de custo era interessante e era o projeto mais focado na comunidade. Por exemplo, o projeto que viram antes deste era uma escola de línguas que tinham programas de voluntariado para a comunidade. Mas o programa de voluntariado para a comunidade servia para entreter quem lá estava a tirar o curso de línguas, o foco não era o voluntariado. O foco era ensinar o Espanhol, mas como está na moda fazer voluntariado eles ofereciam isso para atrair mais estudantes. Quem quisesse participar no voluntariado era obrigado a ter aulas de Espanhol. Este projeto em termos de custo era razoável mas entenderam que não tinha o enfoque correto. Enquanto que o projeto que acabaram por escolher era para a comunidade, não havia nenhum tipo de obrigação, ajudavam no que podiam e também era um sítio bonito. Houve uma série de vantagens que os fizeram escolher este projeto. Adoraram as pessoas com quem estiveram, ainda se mantêm em contacto com elas e tinham sido contactados recentemente para lá voltarem. Sentiram que era um projeto mais puro e mais dentro daquilo que procuravam. Ainda na Nicarágua participaram num projeto de permacultura na ilha de Ometepe, chamado Bona Fide. A entrevistada mencionou que neste projeto foram um bocadinho turistas porque só ficaram uma semana mas o entrevistado reiterou que trabalharam por pouco tempo, mas que o trabalho voluntário foi bastante pesado. Dizem que foi uma experiência muito interessante pelo conceito e pelo que aprenderam. Em termos de custos consideram ter sido bastante acessível (€100/mês). Depois foram para a Costa Rica onde participaram num projeto de reflorestação e proteção ambiental numa reserva natural durante 3 semanas – o Cloudbridge Project. Deram apoio ao projeto científico que estava a decorrer na altura, que era a medição de uma plantação nova de árvores para testar se elas se davam às condições ou não. No entanto, a plantação estava numa encosta e o processo era um pouco delicado. Também ajudaram nos viveiros e na parte informática, a montar a rede, fizeram um pouco de tudo. Trabalhavam de manhã e a tarde tinham livre para estar na natureza. Apesar do início da atividade de voluntariado nas Ilhas Caimão ter sido por acaso, através de um colega de trabalho, já tinham falado sobre voluntariarem-se algures durante a viagem. Como queriam também ter uma experiência de mobilidade lenta para conhecerem bem os países Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 96 que queriam visitar, através do voluntariado podiam estar mais próximos da comunidade e dos locais, pelo que dizem que tem sido uma vivência muito rica sobre o que são os países. A primeira experiência de voluntariado foi mais a oportunidade que surgiu, a possibilidade de conhecer mais pessoas na ilha. Depois passou a ser para poupança de dinheiro e cresceu para um gosto e uma forma de viajar que os atrai. Sempre que seja possível juntam-se a projetos locais para viajar e ajudar a comunidade local. Depois do projeto da Nicarágua em que viram em primeira mão o que podiam fazer pela comunidade cresceu o gosto por voltar a fazê-lo. O Entrevistado explica, “A motivação já é um misto de tudo, ok poupamos dinheiro, ok viajamos melhor, ok ajudamos toda a gente.” À medida que foram de projeto em projeto tentaram sempre ter experiências novas, em países novos. Uma das coisas que mais surpreendeu o entrevistado foi o número de projetos de volunturismo na região. Por causa do voluntariado estar na moda, entidades que não tinham nada a ver com o voluntariado criam essa oportunidade para poderem atrair mais clientes. Acham que esse fenómeno tem muito a ver com os jovens americanos em que se criou esse mercado para atraí-los. O entrevistado ficou surpreso porque voluntariado supostamente é grátis e trabalhar por nada e para nada e aperceberam-se que a realidade é muito diferente. Não encontraram um projeto onde não se pagasse nada. O entrevistado mencionou que acha aceitável pagar os custos de estadia e alimentação mas a preço de custo, não fazer negócio disso e mesmo esses projetos é muito difícil de encontrar. Quase todas as entidades têm voluntariado e considera que usam também os voluntários para o seu sustento o que acha incorreto, deveria ser opcional, só se os voluntários quiserem doar. Por exemplo, os entrevistados ofereceram material para a escola na Nicarágua de livre vontade, ninguém lhes pediu que o fizessem. Mas como o entrevistado mencionou, se estas organizações existem é porque há procura. Quem estiver disposto a pagar por isso, muito bem, mas para o entrevistado e para a entrevistada que não têm essa motivação, custa-lhes aceitar um projeto desses. A entrevistada mencionou que quando estava no projeto da Nicarágua apareceu-lhe um Espanhol que fazia um voluntariado num sentido mais “puro”, ou seja, ia de organização em organização e dizia: “eu sou especialista nisto…” mostrava o currículo dele e oferecia-se para ajudar no projeto e em troca do trabalho pedia estadia. Diz que relatou ter conseguido fazer isso em alguns lugares, mas nem todos os lugares o aceitaram. Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 97 O entrevistado mencionou que tem que se ter cuidado com alguns projetos, pois não se percebe para onde vão os fundos. Alertou também para o facto de aqueles projetos que são mais publicitados são aqueles que cobram mais. Por receberem mais fundos têm maiores possibilidades de investir em sites e divulgação. A entrevistada disse que quem procura deve ter cuidado em escolher a organização e investigar um pouco para ter mais certezas sobre para onde vão os fundos, algumas publicam os relatórios financeiros anuais. Muitas organizações salientam a possibilidade de oferecer dedução fiscal a turistas americanos, mencionaram que todas as organizações onde trabalharam por muito inseridas na comunidade e no serviço comunitário local que estivessem eram todas organizações americanas. O entrevistado adiciona: “Aliás, naquela região, tudo o que é instituição, o zoo, os museus, são todos estrangeiros, os locais não fazem nada, a não ser viver à custa, no fundo, dos investimentos, know-how e dinheiro dos estrangeiro, aliás é uma região que vive de donativos, de projetos de voluntariado, de boa vontade dos estrangeiros e está muito, muito, muito encostada a isso.” Em relação aos outros voluntários, os entrevistados disseram que geralmente, eles eram os voluntários com mais idade que apareciam nos projetos. Havia alguns alemães a fazer o gap year apoiados pelo governo alemão que paga aos jovens alemães projetos de voluntariado e havia também muito jovens americanos. Até ao momento não encontraram ninguém a fazer voluntariado da maneira como os entrevistados estavam a fazer, de maneira contínua. Mencionaram também que, por exemplo, no projeto da Nicarágua, enquanto os entrevistados ficaram 3 meses, a maioria ficava o mínimo do tempo, que eram 3 semanas e era uma adição que faziam à viagem. Os entrevistados acham que, em geral, os projetos iam de encontro com as necessidades das comunidades, especialmente na Nicarágua, havia uma grande interação com a comunidade e os líderes locais, tanto que um dos diretores da organização era local e fazia questão de envolver a comunidade. Afirmaram também que o projeto nasceu quando a comunidade deu voz ao que necessitava que fosse feito. Os entrevistados mencionaram que o projeto Bona Fide nasceu do aproveitamento do terreno fértil vulcânico para produzir mais alimentos além daqueles que a população estava habituada a produzir que era o milho e o feijão. Depois da ilha ser afetada por um furacão houve bastante fome e então o aproveitamento do solo iria trazer uma alimentação mais rica à população local. O projeto tornou-se numa escola para a população local aprender a cultivar outros alimentos além do milho e o feijão. O projeto também testava Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 98 outras espécies a ver se se davam na região e caso se dessem, davam as sementes à população para eles também poderem cultivá-los nas suas terras. Por enquanto estão no Brasil devido à necessidade dos entrevistados de trabalhar e receber algum dinheiro para poderem financiar o resto da viagem. Estão de momento à procura de trabalho no Brasil para depois continuarem pela América do Sul, Chile, Colômbia, Equador, Peru, entre outros, onde irão procurar outra vez um misto de viajar e trabalhar em projetos de voluntariado. Quando os entrevistados terminarem de percorrer a América do Sul pretendem ir para África. Mencionaram que o Peace Project tem um projeto também no Malawi, mas além disso ainda não procuraram mais informação sobre projetos em África. Os entrevistados consideram ser importante as organizações estarem na internet para os voluntários conseguirem encontrá-las mais facilmente. E que estas devem ter o máximo de informação possível, acham que algumas vezes a informação é muito vaga e não especificam o projeto, não dizem o que fazem exatamente, que tipo de horários, entre outros. A entrevistada completou que “um site organizado revela um projeto que está organizado”. O entrevistado comentou que estão dispostos a contribuir para a comunidade mas que as organizações não podem esperar que os voluntários estejam a trabalhar 6 dias por semana das 8 da manhã às 8 da noite, especialmente quando se tem que pagar. Mencionaram que havia muitos projetos que eram assim, acham que existe um grande desequilíbrio. O entrevistado chamou ‘voluntário hardcore’ aos voluntários que se dispõem a esse tipo de condições e eles próprios não estão dispostos a isso. Consideram que o ideal tem sido os projetos onde têm participado, onde trabalham de manhã, têm a parte da tarde para explorarem a região e pagam a estadia. Como o Entrevistado articula, “Gostamos de dar uma parte da nossa vida ao voluntariado, não a vida toda.” Então sugeria que as organizações fossem bastante claras daquilo que pretendem dos voluntariados, que há projetos que os voluntários não sabem o que podem esperar e que depois é uma chatice, porque se é algo que não gostam, cria-se uma situação muito desconfortável. Viram isso acontecer em alguns casos. Dizem que os voluntários que se veem agora não são ‘voluntários hippies hardcore’, como antigamente, são voluntários sofisticados, da cidade que não se sujeitam a qualquer coisa. São a favor das certificações desde que não se tornem negócio. Se for uma certificação bem feita, acham que seria útil, em que um projeto certificado cumpre normas, tem transparência financeira, clareza nos projetos e garantia de favorecimento da comunidade. Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 99 A entrevistada diz que “cada vez mais as pessoas querem uma experiência de viagem autêntica, querem contacto com a cultura local, não querem ir por uma agência com um guia turístico em que só veem os pontos turísticos que já toda a gente viu, eu acho que a questão de fazer voluntariado é para trazer esse condimento à viagem do contacto com a cultura local, para adicionar um pouco mais de exotismo, acho que é isso que atrai as pessoas que procuram o volunturismo.” E o entrevistado adiciona “também chegam a casa e podem dizer, embora na maior parte dos casos não seja verdade, que ajudaram uma comunidade.” Os entrevistados dizem que adicionaram a experiência de voluntariado aos currículos, como muitos voluntários o faze. Em tom de brincadeira mencionaram que a foto que muitos voluntários tiram com o menino pobrezinho de rua vende muito nos facebooks, tem muito sucesso. Consideram que o voluntariado é uma forma de gratificação pessoal, participar num projeto e ver que de alguma forma ajudou o outro fá-los sentirem-se bem e consideram que “para a maior parte dos americanos é bem melhor sair do país e fazer isto (voluntariado), do que as nossas férias no Algarve.” Comentaram que não se vê Portugueses a fazer voluntariado desta forma, nem Portugueses de 18 anos a fazer voluntariado, que os alemães se vê mais porque têm o apoio do governo. Discutimos a ideia Portuguesa da educação como meio de tornar o indivíduo produtivo rapidamente, como não existe a cultura ocidental de se tirar tempo livre para se voluntariar e que talvez adicionar uma experiência dessas ao currículo em Portugal não dá qualquer crédito ao indivíduo, pelo contrário é considerado que andou a “vadiar”. O entrevistado perguntou se durante a investigação houve volunturistas “puros” que considera ser aqueles que pagam 3 mil dólares por uma semana de voluntariado. Falaram que acham que o peace corps tem uma intenção do marketing americano, que não é propriamente bem visto globalmente e que os projetos em que estão envolvidos são discutíveis. Mencionaram também que a iniciativa nasceu da intenção do governo de espalhar a boa imagem dos americanos pelo mundo. Os entrevistados dizem que o que os marcou mais, a área em que tinham uma grande expectativa e algum receio, foi dar aulas a crianças, ter “aquelas cabecinhas todas a olhar” para eles e mantê-los motivados para aprender uma língua estrangeira. Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 100 A entrevistada comentou que a imposição do ocidente e/ou de técnicas ocidentais no mundo em desenvolvimento mais parece uma nova colonização pelo tom de superioridade que empregam. A entrevistada lembrou-se de uma história que lhe contaram na Guatemala fizeram uma avaliação das condições dos indígenas e disseram à população, “vocês são pobres, vocês vivem em condições muito difíceis”, ao que o povo respondeu: “a gente nem sabia que era pobre!”. E concluiu que muitas vezes as pessoas carregam os seus próprios conceitos e ideias quando viajam e querem-nas impor às outras culturas, mas dessa forma não se respeitam os costumes locais. Entrevistada 9 (28, E.U.A.) e Entrevistado 10 (29, E.U.A) Os entrevistados tiveram 4 experiências de voluntariado internacional nos últimos 2 anos. O primeiro foi na construção de um ashram em Berlim, depois voluntariaram-se na Turquia com uma família a tomar conta de uma criança. A terceira experiência é aquela que os entrevistados acham ser a mais gratificante e com quem ainda trabalham remotamente. Numa organização local sem fins lucrativos nos arredores de Nairobi no Quénia, fundada por um indivíduo local que ajudava na educação dos jovens de uma favela. Estas três experiências ambos os entrevistados fizeram parte, a quarta experiência apenas o entrevistado participou. Consistiu em duas semanas no Vietname a ensinar o Inglês e outras capacidades profissionais a estudantes universitários considerados minorias étnicas com baixas posses financeiras e vítimas de discriminação de grupos. Os entrevistados encontraram as organizações através do site WorkAway, exceto o ashram, que foi através de amigos. Eles consideram que foi muito difícil encontrar um sítio em África, mas acham que tiveram sorte com a organização que encontraram. Talvez o facto de se pagar para anunciar projetos possa filtrar organizações menos fidedignas. Apesar do site WorkAway ser destinado a projetos em que não existe uma transação monetária entre ambas as partes e que seja uma troca de trabalho e/ou serviço por alojamento e alimentação, os entrevistados admitem que pagaram 5 dólares americanos por dia de estadia para ajudas de custo de vida, alojamento e alimentação no projeto Africano. Os entrevistados admitem que se quisessem ficar no Quénia pagariam muito mais se não ficassem com a organização e que quando procuravam um sítio para se voluntariar viram que outras organizações cobravam cerca de 1000 dólares americanos por semana ou 2000 dólares americanos por mês para se Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 101 voluntariar, o que acham exagerado e dizem que estas organizações concentram-se apenas em atrair voluntários ocidentais. Tentaram manter as expectativas bastante baixas, porque não faziam ideia o que esperar, algumas organizações descreviam as suas atividades em apenas algumas frases e também descreviam brevemente o que necessitavam. A entrevistada esperava poder fazer algo para contribuir de alguma forma, o que às vezes não é o caso em que os voluntários aparecem e não há ninguém para os orientar. Considera que tiveram muita sorte nas três experiências que partilharam pois todos os dias tinham atividades onde podiam contribuir de alguma forma. O que os fez voluntariar-se foi o facto de estarem a viajar a longo termo e dizem que por muito que seja ótimo viajar existe aquela necessidade de se sentirem úteis e usarem as suas capacidades e conhecimentos para fazer algo. Também o desejo de contribuir para algo mais significativo os motivou para se voluntariarem. O entrevistado continuou a dizer que especialmente quando se viaja para partes do mundo mais pobres e se vê as várias necessidades que existem. Considera que é muito simples dar esmola a um pedinte mas isso não contribui para resolver quaisquer problemas. Como estrangeiro, deparar com fome e esse tipo de problemas nas comunidades faz com que se queira contribuir, procurando uma organização ou um sistema de modo a que se possa contribuir de maneira a que a riqueza possa ser distribuída mais eficazmente e contribuir para melhoramentos mais sustentáveis. Acha que é uma experiência muito gratificante. Para o entrevistado, faz mais sentido voluntariar-se do que dar uma esmola a um pedinte. A entrevistada continuou, dizendo que o dinheiro também é importante, mas que tem essa inclinação para ajudar. As experiências que tiveram é que lhes mostraram que é assim que se compreende a complexidade de algumas situações, e compreendem que a solução não é tão simples como às vezes as pessoas de fora da situação dizem que é. Essa perceção foi mais um elemento positivo que retiraram das experiências que tiveram. Os entrevistados escolheram as organizações com as quais se sentiam mais relacionados ou por uma causa que os apaixonasse, foi esse critério que definiu o tipo de organizações e experiências que foram procurando. Também levaram em conta aquilo que achavam que eles próprios tinham como pontos fortes e como poderiam oferecer esses pontos fortes às causas. Os entrevistados acharam que todas as experiências tinham sido boas, a grande surpresa foi em África porque nunca imaginaram que pudesse ser tão boa. Talvez por terem lido o quão Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 102 difícil é encontrar uma boa organização talvez as expectativas fossem menores em contraste com o que foi oferecido. Já a experiência do entrevistado no Vietname foi um pouco diferente. O entrevistado comentou em como se voluntariou com uma organização que tinha bastante sucesso em atrair voluntários de todo o mundo para ensinar o Inglês. Mas o entrevistado pensou que iria ajudar a população local em diferentes áreas, tal como usar os seus conhecimentos para ajudar no programa, além do ensino do Inglês. No entanto, não foi o que esperava que fosse e comentou em como às vezes existem surpresas durante o projeto de voluntariado, tais como, às 22h chegarem mais 4 pessoas do aeroporto em que todos foram “empacotados” no mesmo quarto a dormir em fileiras no chão em tapetes. O que é algo que como voluntário pesa, mas o entrevistado comenta que em “retrospeção isso adiciona algo mais à experiência. Na cultura deles todos os homens dormiam em tapetes nesse quarto portanto isso não interessava mesmo, era mais espaço para mais um corpo, portanto tudo faz parte da experiência”, mas como os entrevistados mencionavam antes, às vezes o que está anunciado, não quer dizer que seja o que se vai encontrar. Situações do dia-a-dia que surgem que talvez tomam uma grande parte do tempo, o que não se leva em consideração antes de começar o projeto de voluntariado. Todas as organizações onde os entrevistados se voluntariaram foram fundadas por locais. Os entrevistados mencionaram que 2 das organizações onde se voluntariaram eram muito ativos no que diz respeito a pedir comentários dos voluntários para o site de internet deles para que outros voluntários pudessem aceder a esses comentários. E que a organização do Vietname estava a receber tantos voluntários que o diretor da organização não tinha disponibilidade suficiente para poder rever o que poderia ser feito para melhorar a experiência do voluntário. No projeto de África, quando se voluntariaram eram os únicos a voluntariarem-se na altura. Costumam receber mais voluntários durante o verão, mas os entrevistados tinham-se voluntariado durante o outono. Apesar dos entrevistados não se terem voluntariado com outros voluntários os organizadores comentaram que durante o verão recebem muitos estudantes universitários que se voluntariam para adicionar algo ao seu currículo, que não têm motivação para contribuir e que às vezes a organização tinha dificuldade em tentar retirar algo benéfico do trabalho dos voluntários. No Vietname o entrevistado achava que os outros voluntários estavam muito envolvidos no projeto e queriam ajudar. Outros permaneciam por pouco tempo e entusiasmavam-se mais em ver a nova cidade, em contraste com as pessoas que permaneciam por mais tempo, como entrevistado, que distribuíam melhor o tempo entre contribuir e depois Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 103 então, no dia de folga iam explorar. O entrevistado acha que os estudantes Vietnamitas que estavam a ajudar promoviam o envolvimento dos voluntários porque tinham uma ‘sede’ por aprender. Os entrevistados consideram que as comunidades receberam o apoio que necessitavam. Nos dois primeiros projetos eles precisavam de um par de mãos extra. Em África puderam oferecer competências de informática à organização, ensinaram-lhes a fazer um orçamento. Ajudaram também o fundador da organização a fazer um plano estratégico, que era algo que ele queria fazer já há algum tempo, mas não sabia como. A entrevistada comenta que uma coisa que gostou mesmo muito do projeto em África foi que “os quenianos locais, membros da equipa da organização tinham uma grande vontade para aprender, queriam aprender a usar o excel e queriam aprender de modo a usar o tempo de maneira mais eficiente e a usar as ferramentas que lhes foram disponibilizadas” portanto umas vezes o que era necessário era apenas mais um par de mãos para ajudar e outras vezes eram outros tipos de competências, de gestão e informática. O entrevistado mencionou que no Vietname o diretor da organização insistia em ‘abrir os olhos’ dos jovens para o governo comunista que tinham, não necessariamente de uma maneira anticomunista, mas mostrar-lhes a corrupção, e como para criar estabilidade o seu governo tentava limitar a maneira como a população pensava sobre as coisas. Por essa razão o diretor da organização queria que os voluntários mostrassem aos jovens outras maneiras de fazer as coisas e de ver o mundo. Os voluntários passavam muito tempo com os estudantes a ter conversas casuais que por um lado fazia-os praticar e melhorar o inglês mas também tentavam mostrar que havia outras maneiras de se viver além de trabalhar para o governo ou grandes empresas internacionais, mostrar que havia muitas maneiras de viver uma vida feliz e de sucesso. O diretor considerava que esta era a maneira como este programa podia contribuir para criar a mudança na geração seguinte, além de lhes dar competências e a oportunidade de um melhor futuro através do ensino do Inglês. Os entrevistados ainda continuam a trabalhar com a organização do Quénia remotamente e pretendem voltar, embora ainda não sabem quando o poderão fazer. Talvez possam voltar dentro de um ano e desta vez gostariam de estar lá pelo menos 2 meses. Tencionam fazer mais voluntariado durante as viagens de longa duração que fizerem no futuro, por várias razões, gostam muito da parte da comunidade, conhecer as pessoas e dá uma imagem muito diferente do sítio para onde se vai. Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 104 O que aprenderam com estas experiências foi que quanto mais tempo ficarem numa organização melhor. Irão levar isso em consideração ou planear ficar mais tempo ou não planear uma altura específica de quando devem ir embora. O entrevistado adicionou que o melhor seria ser flexível, por um lado dedicar-se a uma organização e se não resultar ou ver que não estão a ser úteis para a organização sair e procurar outra, mas se resultar tentar ficar o maior tempo possível. Acham que o valor da subscrição que pagaram no Workaway de 20 dólares americanos por 2 anos de utilização valeu muito a pena. Dizem que se tivessem feito uma investigação mais profunda em sites gratuitos talvez tivessem encontrado uma organização que oferecessem o alojamento gratuito, mas consideram que o que pagaram valeu a pena e voltavam a fazê-lo da mesma forma. Costumam fazer voluntariado na própria comunidade em causas e movimentos pelos quais se sentem mais inclinados. Os entrevistados aconselham qualquer volunturista a utilizar os sites do workaway e helpx para encontrar sítios para se voluntariar, vale o valor da subscrição. Acham que o couchsurfing também tem muitos grupos bons e acham que o volunturista deve confiar no próprio instinto quando está a escolher uma organização. Quando não tiverem a certeza da organização e para qualquer questão que se possam ter, devem tentar entrar em contacto com outros voluntários que já passaram pela organização e ver os comentários no site do workaway e helpx, Os entrevistados acham que o volunturismo está a ganhar cada vez mais adeptos porque viajar torna-se mais acessível e fácil em geral, pelo menos para o mundo ocidental. Dizem que se vê muitos jovens a viajar e com a internet torna-se mais fácil entrar em contacto com as pessoas em qualquer parte do mundo. Acham que a possibilidade de se voluntariar internacionalmente está ao alcance da ponta dos dedos, enquanto no passado era mais complicado encontrar as organizações. Já leram algumas críticas sobre o volunturismo, especificamente sobre como às vezes os volunturistas vão para um sítio, usam os recursos escassos do sítio e não são úteis à organização, tornando-se num fardo para as organizações. Por essa razão interessaram-se por encontrar uma organização onde possam usar as suas próprias competências. Também comentaram que quando há desastres naturais, muitas vezes aparecem muitas pessoas para ajudar e que isso causa voluntários em excesso. Consideram que às vezes é difícil saber se se vai adicionar ou detrair à situação. Descreveram também situações em que comunidades no mundo ocidental Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 111 pudessem usar detritos domésticos e esterco para produzir metano que, por sua vez, poderia ser usado para cozinhar nas casas da população. Existiam cerca de 30 voluntários a trabalhar nas diferentes áreas da organização. A entrevistada era a única voluntária a trabalhar no projeto de biogás. A entrevistada chegou à Índia em meados de maio de 2014 e ficou até ao final de agosto. A entrevistada estudou biotecnologia e tem trabalhado com genética e com uma organização na Noruega que trabalha com energias renováveis. Interessa-se especialmente em utilizar fontes de energia alternativas em áreas rurais e de desenvolvimento. Por essa razão pensou que este voluntariado seria uma boa maneira de ter uma experiência mais prática. Começou a procurar organizações que tinham projetos em energias renováveis e como não existem muitos projetos nesta área, encontrou apenas dois projetos. Além do projeto que a entrevistada escolheu, havia outro no Peru que só trabalhava com energia eólica. Como a entrevistada se interessa mais por bioenergia decidiu escolher o projeto na Índia. A par da experiência técnica que a levou a voluntariar-se queria também ter uma experiência numa cultura completamente diferente da sua, então esta oportunidade conseguia fazer com que pudesse explorar a parte da bioenergia e poderia viver num país completamente diferente por algum tempo. A entrevistada diz que estava à espera que fosse uma maneira muito diferente de viver daquela a que estava acostumada, o que se evidenciou. Esperou que a organização estivesse mais preparada para a chegada da entrevistada, esperava que tivessem uma infraestrutura já feita, o que não foi o caso. A maior surpresa para a entrevistada foi aperceber-se que são muito menos organizados do que pareciam ser, comparando com as conversas que teve antes de chegar. A entrevistada pensou que iria continuar um projeto que já tinha sido começado, mas quando chegou ao local viu que não havia qualquer projeto de biogás a ser feito. Isto fez com que a entrevistada tivesse que começar o seu próprio projeto. Se a organização tivesse explicado a realidade à entrevistada, ela provavelmente teria escolhido o outro projeto no Peru. Devido a ter um curto espaço de tempo para dedicar ao projeto, considera que três meses e meio não é o suficiente para iniciar um projeto destes. Outra coisa que se apercebeu foi que não existia um planeamento a longo prazo na organização, logo, depois da entrevistada ir embora não haverá ninguém para continuar o seu trabalho. Ainda pensou em permanecer mais tempo, mas devido às circunstâncias em que vivia decidiu não o fazer. Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 112 A entrevistada vivia com três voluntários e apesar de não ter discutido com eles as motivações que os fizeram voluntariar-se ela considera que eles o fizeram porque queriam aprender, queriam ter uma experiência cultural diferente. A entrevistada disse que também havia alguns elementos, não no grupo com o qual interagia, mas noutro grupo, que estavam a voluntariar-se porque a universidade lhes exigia um estágio de projeto. Disse que esses voluntários eram Americanos, um deles estava a tirar o curso de saúde pública. A entrevistada considera que talvez a comunidade não recebe muito dos projetos tecnológicos porque demoram muito tempo até dar resultados, mas dos projetos educacionais a entrevistada acha que as comunidades recebem muito deles. A entrevistada tem o costume de se voluntariar na comunidade onde reside, diz estar envolvida em algumas atividades. Voltaria a voluntariar-se outra vez, mas desta vez investiria mais tempo em investigar a organização antes de fazer a sua escolha final. A entrevistada considera que o volunturismo tem cada vez mais adeptos porque acha que as pessoas querem sentir que estão a contribuir de alguma maneira, já não se quer umas férias que só tenham a componente de relaxamento, mas que tenham uma componente na qual possam fazer algo construtivo. A entrevistada acha que algumas críticas a projetos de volunturismo são válidas e que “muitos projetos de volunturismo não valem mesmo a pena, e dinheiros e esforços poderiam ser gastos mais sabiamente para ter um impacto real, de forma que acaba apenas por fazer algo que o faça sentir-se bem consigo mesmo, mas que não tem qualquer efeito positivo na comunidade ou o efeito teria sido maior se tivesse feito um donativo a profissionais”. A entrevistada acha que quando voltar não vai sentir satisfação porque acha que não irá ter realizado aquilo que queria ter realizado, não conseguirá terminar o projeto. Segundo a experiência da entrevistada, a organização onde se está a voluntariar permite que cada voluntário trabalhe naquilo que deseje trabalhar. A entrevistada acha que, de forma a utilizar o tempo e os recursos de forma mais eficiente, a organização deveria decidir os projetos que está a fazer e dar apenas essas opções aos voluntários. Mostrar aos voluntário em que podem trabalhar e se eles pretendem fazer outra atividade deverão ir para outro lado fazê-lo. “Todos nós, no mundo ocidental, podemos beneficiar em passar algum tempo a viver numa verdadeira comunidade rural num país em desenvolvimento porque nos dá uma Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 113 perspetiva de quanto nós desperdiçamos, quanto tempo e recursos usamos em coisas que, na realidade, não necessitamos.” A entrevistada diz que a maioria dos voluntários no seu grupo escreviam blogs, mas como não gosta de escrever, não tem o hábito de escrever qualquer blog ou artigo. Entrevistado 14 (40, Colômbia) A primeira experiência de voluntariado internacional do entrevistado foi em Gana em 2002 com a organização VOLU. Soube da existência da organização através do Serviço Civil Internacional de Barcelona. Diz que uma vez que a ligação é feita entre organizações tudo depende da organização de acolhimento. No caso do entrevistado, a pessoa de contacto em Gana era um pastor evangélico. Comentou como a organização tinha muitas pessoas a voluntariar-se em diferentes obras, que nas pequenas povoações faziam bibliotecas, ajudavam a população local a construir uma escola e também faziam campanhas de prevenção contra a sida. Essa organização cobrava mas era das organizações com um custo mais baixo, acrescentou que era das organizações que faziam menos negócio com o voluntariado. O entrevistado voluntariou-se com a esposa e o que fizeram foi ajudar a construir uma biblioteca para a escola de uma povoação perto de Kumasi e também participaram numa campanha de prevenção contra a sida. Em Barcelona, onde viveu entre os anos de 2000 e 2007, organizou em 2003 um campo de trabalho para irem à Colômbia fazer um intercâmbio de voluntariado, diz que cada participante pagou o seu bilhete de avião e foi algo muito informal. Em 2006 o entrevistado e a esposa viveram na Namíbia durante um ano porque a esposa estava a trabalhar com as Nações Unidas num projeto com voluntários que apoiavam casas de mães que adotavam crianças órfãs como resultado da sida. Enquanto que a esposa do entrevistado estava lá pelas Nações Unidas os voluntários eram enviados por agentes internacionais. Trabalharam com três organizações locais, a organização das mães que adotavam crianças, uma igreja evangélica que fazia atividades de tempos livres com crianças de bairro. Trabalharam também com os voluntários de uma outra organização que tinha o patrocínio da cooperação internacional dos Estados Unidos. Depois de se mudarem de volta para a Colômbia em 2008 planearam uma viagem ao Brasil em 2011 durante 3 meses onde fizeram voluntariado independente, contactando as organizações diretamente através do couchsurfing. Contactaram 2 organizações juvenis em Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 114 Recife e no Salvador da Baia. Uma das organizações fazia atividades com crianças de bairros pobres em que combinaram que o entrevistado organizava atividades colombianas e as crianças, em troca, desenhavam os sítios da cidade que achavam mais bonitos para um colombiano ver. Estiveram um mês em Recife, um mês em Salvador e um mês no Rio. O mês no Rio já foi um projeto pessoal do entrevistado. O entrevistado onde está voluntaria-se sempre, é voluntário desde os 14 anos, considerase primeiro voluntário e se estiver a viajar, sente que é natural para ele participar em atividades de voluntariado também em viagem. O critério de escolha que levou em conta para a primeira experiência de voluntariado internacional foi o facto de quererem algo em África, desde que chegaram a Barcelona em 2000 que tinham o sonho de irem voluntariar-se em África. Outro critério que aplicam sempre é não pagar por experiências de voluntariado, mas descobriram que para ir para África isso torna-se muito difícil. Também porque ser voluntário internacional na Europa é muito diferente de ser voluntário internacional de bairro popular na Colômbia. Diz que na Europa é muito comum as pessoas quererem fazer voluntariado e consideram normal pagar. Então quando procuraram experiências em África descobriram que a única forma de o fazerem era pagando, mas acrescentou que depois da experiência de Gana, nunca voltaram a pagar. Acha que o que é difícil é confiar e que a razão pela qual os voluntários internacionais Europeus pagam é pela segurança. Quando foi para Gana esperava conhecer a cultura local, a comida local e diz que queria comparar a alegria dos africanos com a alegria dos colombianos. Acha que encontrou a alegria dos africanos e acha que a comunidade Ganesa é muito parecida com a comunidade Colombiana. O que não esperava era a sujidade de Gana, tudo se tornava um risco de saúde, de apanhar alguma doença, diz que no campo de trabalho metade dos voluntários tiveram Malária. Achou interessante que muitos dos voluntário queriam ter uma aventura e que quando voltavam falavam da aventura que tinham tido, mas que nunca queriam voltar a fazê-lo. No Brasil sentiam uma proximidade cultural e queriam conhecer o Nordeste Brasileiro para conhecer melhor a cultura Brasileira. O que surpreendeu mais o entrevistado no Brasil foi a cozinha brasileira, acha que os Brasileiros têm uso de certos ingredientes que não se encontra no resto da américa latina, especialmente o uso da farinha de mandioca e das diferentes farinhas de milho. Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 115 A única experiência em que participaram em grupo foi na experiência de Gana e entre as pessoas havia muitas motivações diferentes. O entrevistado alcunhou dois tipos de voluntários: os aventureiros e os caritativos em que os caritativos eram em maior número que os aventureiros. Havia também os voluntários locais que tinham motivações muito diferentes dos voluntários internacionais. Diz que os voluntário locais tinham algum interesse em conhecer a cultura dos visitantes e o interesse de vender alguma coisa. Também como os voluntários tinham o hábito de se livrarem de muitos dos seus pertences antes de voltar aos seus países os voluntários locais tinham interesse em ficar com essas coisas, o entrevistado diz que os voluntários internacionais “doavam tudo a qualquer pessoa, depois nos últimos dois dias era como um festival do presente”. Diz que os voluntários locais procuravam entre as melhores coisas e instrumentos tipo explorador, mosquiteiros, colchões, entre outros. Acharam que esse tipo de atitude dos voluntários internacionais era uma ação muito caritativa que ele próprio e a sua esposa não possuíam. A ambos lhes interessava fazer um voluntariado internacional muito responsável, muito consciente dos impactos dos comportamentos internacionais de modo a fazer uma participação de igual a igual. Não se sentiam como voluntários do Norte, sentiam que tinham muito em comum com os voluntários africanos. Diz que com eles estavam alguns voluntários muito conscientes que procuravam ter uma relação horizontal com os locais. Diz também que os voluntários locais mantinham contacto com os voluntários internacionais após o campo de trabalho para pedir favores. Às vezes considera organizar mais campos de trabalho na Colômbia como fez anteriormente, mas como é professor universitário, não tem tido oportunidade para organizálos, teria também interesse em fazer um encontro de voluntários de bairros pobres, entre África e América do Sul, ou entre Ásia e América do Sul. Acha que o volunturismo é um fenómeno dos países do Norte, há muito volunturismo porque as organizações de volunturismo são muito organizadas e oferecem ‘produtos’ muito atrativos, considera muito atrativo os cursos pagos com experiência de voluntariado 19 . A primeira crítica ao volunturismo dirige-a aos voluntários encararem a experiência como uma aventura, de fazerem-no uma vez e não o voltarem a fazer. Alguns voluntários caritativos também dizem que não querem voltar porque as condições de salubridade são muito más. Não lhe agrada também o facto dos voluntários locais estarem a aproveitar-se da boa vontade dos 19 Apesar do entrevistado não ter especificado quais os cursos com experiência de voluntariado que considera atrativos, suspeitamos que se refere aos programas semelhantes ao qual o entrevistado 15 (36, Bulgária) relatou. Mais informação pode ser encontrada no seu testemunho. Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 116 voluntários internacionais, diz que no fundo ninguém conhece ninguém, cada um depois volta para o seu país reforçando as barreiras que já tinham previamente. Diz que a África é especial, particularmente a África tropical que é o símbolo do selvagem, do perigo e acha que essa atrai alguns voluntários. Considera que os voluntários por um lado procuram algo desta natureza, por outro vão muito protegidos, passam pela profilaxia contra a Malária que acha que é uma loucura, porque é um veneno que provoca efeitos secundários graves, mas que passam pela profilaxia contra a Malária por pressão social. Falámos sobre a pré-disposição dos povos em ajudar o outro e sobre povos que devido a uma ou outra razão poderão não ter essa pré-disposição. Como o exemplo dos países que tiveram um regime comunista em que a atividade de voluntariado não era propriamente voluntária, mas obrigatória. O entrevistado descreveu que nas suas viagens com estudantes a comunidades indígenas na Colômbia visitaram uma comunidade indígena nasa em que tinha como tradição fazer a minga. E a minga que é uma palavra quéchua que quer dizer dedicar um dia por semana a trabalhar para toda a comunidade, mas de forma obrigatória e que quando falavam com os locais indígenas, estes não concordavam identificar a minga como trabalho voluntário pois era obrigatório fazer a minga. Falámos também sobre o Peace Corps e o entrevistado disse que era comum receberem voluntários em serviço Peace Corps na Colômbia que depois quando voltavam aos Estados Unidos passavam a ter um relacionamento muito próximo a partidos políticos de esquerda. Entrevistado 15 (36, Bulgária) O entrevistado fez apenas um projeto de voluntariado internacional que durou quase 1 ano e meio com início em 2010. O projeto estava divido em partes, primeiro trabalhou na organização de origem, na Noruega para angariar os fundos da viagem durante 3 meses, depois teve um tipo de estudo, mas ainda continuou a trabalhar para a organização por 6 meses, só depois é que fez o projeto per se, também por 6 meses. A organização não tinha fins lucrativos, era uma organização muito grande internacional com vários centros educativos e cada centro com um programa específico. O entrevistado esteve na Índia por 6 meses. A organização tinha vários projetos e o projeto em que o entrevistado participou era misto, o que considera ser uma vantagem porque quase todos os projetos estavam envolvidos naquele em que trabalhou. Os programas em geral eram de educação, saúde, controlo de epidemias, academia de crianças trabalhadoras, projeto de luta contra a sida, entre outros. O projeto do entrevistado tinha como Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 117 base os sem-abrigo em que fez várias atividades, tais como aulas de Inglês para algumas crianças sem-abrigo, construíam abrigos temporários, distribuição de preservativos e organizavam campos médicos. O entrevistado trabalhava 6 dias por semana. O visto de entrada na Índia era único, ou seja, apenas podia entrar e sair uma vez em todo o período do projeto. O entrevistado comentou como esta era uma maneira de controlar as viagens dos voluntários, também por motivos de segurança. O entrevistado soube da organização quando estava à procura de emprego na Bulgária e viu uns anúncios sobre o programa. Depois começou a trabalhar no Chipre como animador e aí conheceu uma rapariga que fez o mesmo programa numa escola nos Estados Unidos. Disse-lhe que não levavam dinheiro para participar no projeto, que não enganavam as pessoas, mas o entrevistado depois de participar acha que isso não é bem verdade. A organização não abusava dos voluntários mas considera que as condições em que foi administrado o programa continua a ser uma exploração das pessoas. Na altura, o entrevistado gostou da ideia de poder viajar para a Índia com um projeto de voluntariado sem ter que pagar, diz que para a maioria das pessoas de Europa de Leste este tipo de viagens não estão facilmente acessíveis em termos financeiros, que a maioria das pessoas do resto da Europa podem mais facilmente juntar o dinheiro e fazêlo independentemente. Mas acha que no final o programa torna-se ainda mais dispendioso pelo tempo e esforço que dedicam. O entrevistado já tinha vontade de fazer trabalho voluntário antes de saber deste programa e o programa veio materializar esse desejo. As expectativas do entrevistado não foram completamente satisfeitas, uma vez que achou que a organização tirou partido das pessoas. O entrevistado pensou que ia trabalhar 8 horas por dia, 5 dias por semana, mas não foi assim que aconteceu, trabalhava mais de 8 horas por dia, 6 dias por semana. Diz que havia dias que chegava a trabalhar 16 horas por dia. Compreende que a organização teria que angariar o dinheiro para os mandar para a Índia, mas as horas que o entrevistado dedicou, se estivesse a ser pago um ordenado daria para viajar pela Índia, África, China por talvez dois anos. A parte de estudos do projeto deu-lhe direito a um certificado, mas não tem qualquer credibilidade, o entrevistado acha que agora existem outros projetos que fornecem um diploma credível, talvez de bacharel. O entrevistado diz que na parte da angariação de fundos fazia parte do trabalho deles encontrar mais pessoas para participar no programa e que existem várias organizações que estão Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 118 ligadas e que a organização principal tem base na Dinamarca. Disse que no início do programa o grupo dele era de 16 pessoas e que depois só 7 é que ficaram o que dificultava ainda mais o processo porque depois tinham que cobrir a angariação de fundos dos outros que tinham desistido. O entrevistado comentou como durante alguns dos cursos havia voluntários de outras escolas que vinham ter formação com eles e que cerca de 200 pessoas estavam a frequentar aquele programa na altura do entrevistado e que algumas pessoas estavam a gostar do programa. Mas considerando isso e depois o projeto em que trabalhou na Índia tem sentimentos mistos porque por um lado sentiu-se explorado no início, mas depois gostou de se ter voluntariado na Índia, diz que foi o que o satisfez mais. Acha que se for um jovem que tenha tempo, se calhar poderá fazê-lo e tirar mais proveito, pois tudo é experiência. O entrevistado acha que fez a sua contribuição na Índia, quando compara com os outros projetos, acha que o projeto em que trabalhou era bastante ativo e isso o satisfez. Diz que infelizmente o tempo não é muito para tudo o que se gostaria de fazer, mas acha que deu o seu melhor e que algo permanecerá. Não tem como hábito voluntariar-se na própria comunidade. O entrevistado tem uma memória longínqua do que era o serviço de voluntariado durante o regime comunista. De acordo com aquilo que se lembra, na altura as pessoas tinham de trabalhar um dia a mais num mês na fábrica onde trabalhavam sem ser pagos. Mas que costumava ver os pais a ajudar seja quem fosse, com o que pudessem. Diz que as gerações mais novas já não sabem o que isso é e não associam uma conotação negativa ao voluntariado. O entrevistado considera também que apesar disso acha que os jovens na região não têm como hábito ajudar os outros, considera-os ‘estragados’, por ainda viverem na euforia do sentido de liberdade falsa que vem do Oeste. Diz que os voluntários da Europa de Leste que participam neste programa estão lá porque querem viajar, não tanto porque querem ajudar. O entrevistado na altura da entrevista estava a preparar-se para viajar para a Rússia, espera encontrar um emprego, mas também tem planos de se voluntariar, se tudo correr como espera. Sentiu uma lacuna bastante grande quando esteve mais de um ano a trabalhar naquele programa e quando o terminou tinha gasto todas as suas poupanças. Então diz que desta vez quer ver se equilibra melhor um emprego que lhe dê um ordenado antes de se voluntariar outra vez para não se encontrar na mesma situação. Concluiu que seria irónico ir-se voluntariar tão longe e por Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 119 tanto tempo para voltar e ser ele próprio o recetor de voluntariado, não ter dinheiro para comer, nem onde dormir. O entrevistado diz que existem Europeus de Leste que se voluntariam, mas não são muitos, que não é algo comum e que muitos desconhecem os programas de voluntariado. O entrevistado voltaria a voluntariar-se mas teria muito cuidado e uma vez que já o fez e sabe como as coisas são, acha que o faria por si só, não se agregava a nenhuma organização, apenas no local ou até criar o próprio projeto de voluntariado. Conhece algumas pessoas que colocam os projetos em certos sites para angariar fundos e que faria o mesmo. Disse que conhece uma pessoa que angariava fundos nas ruas de Oslo, introduzia o projeto às pessoas e pedia dinheiro. O entrevistado diz que conseguiu angariar o dinheiro para o projeto e que agora está em África a executá-lo. O entrevistado se fizer um projeto próprio ainda não tem ideia onde seria, diz que em todo o lado há pessoas com necessidades e até lhe perguntaram porque é que não ficou na Bulgária e ajudou alguém na terra natal onde também há sem-abrigo e ele disse que quer ajudar mas também quer viajar, que existem outras pessoas que virão de outros sítios ajudar na Bulgária, então o entrevistado prefere juntar o útil ao agradável. “E gostaria imenso de ir talvez ao Nepal, talvez outra vez à Índia, à China, a África, a todo o lado, claro que parece ser um pouco estúpido, em vez de ficares e ajudares o teu próprio país, porque quando é o teu próprio país fazes da maneira como queres, e supostamente irás pôr mais energia no projeto e o fazeres melhor, vais para outro lugar e esperas que alguém venha fazer o teu trabalho aqui” diz que nesta situação pensa-se em si próprio, quer-se ajudar mas também se quer viajar, não se é devotado apenas a ajudar, também se quer visitar aqui e ali. Diz que as pessoas são preguiçosas em todo o lado e contou que quando estava a trabalhar com os sem-abrigo na Índia numa favela, estavam a limpar as poças de água para não ganhar mosquitos por causa da malária e da febre do dengue. Então, prometeram aos indianos que se os ajudassem iriam jogar uns jogos e os indianos ainda os ajudaram a fazer o trabalho por uns 10 minutos, mas depois sentaram-se debaixo das árvores e disseram que estava demasiado calor para continuar. O entrevistado perguntou-lhes se eles achavam que o calor também não o afetava a ele. O entrevistado teve que continuar o trabalho que eles próprios, para o seu próprio benefício não o fizeram. Escusado será dizer que não houve jogos depois de terminar. O entrevistado ficou bastante desanimado porque numa área de 100 metros quadrados se fossem bastantes podia ser terminado em muito menos tempo. Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 120 A sugestão que o entrevistado faz a futuros voluntários é que estes tentem entrar em contacto com várias pessoas (2 ou 3) que já se voluntariaram nessa organização, mas depois de terem terminado o serviço, não durante. Embora ache que seja difícil saber se a pessoa realmente já não está lá a voluntariar-se. Diz que muitas destas organizações se transformam em empresas e os empregados têm que ser leais à empresa mesmo que exista algo que não gostem sobre a empresa. O entrevistado concluiu que antes de se voluntariar com alguma organização se deve investigar bem a organização primeiro. Em relação à organização com quem se voluntariou, o entrevistado enviou um site sobre diretor de uma organização afiliada à organização com a qual se voluntariou estar a ser procurado pela Interpol por fraude relacionada com extravio de dinheiros 20 . Entrevistado 16 (37, Egito) O entrevistado voluntariou-se pela primeira vez numa plantação tipo WWOOFing em França em 2012 durante 10 dias e depois voluntariou-se para ajudar a pintar uma casa na Alemanha em 2013 durante 3 dias. O entrevistado encontrou as oportunidades através do couchsurfing e ambos foram projetos pessoais, na altura estava a viajar na Europa e aproveitou para fazê-lo como parte da sua viagem. O entrevistado comentou como a seleção foi muito simples para ele porque diz que gosta de conhecer pessoas, aprender algo de novo e aproveitar o tempo, ter um sítio para dormir e alimentação. A parte mais difícil foi a viagem, geralmente estes projetos não estão numa cidade grande e torna-se complicado lá chegar. As motivações que o levaram a tomar parte foi para conhecer pessoas novas, fazer coisas novas e aproveitar algum tempo fora da rotina. 20 ‘Wanted by Interpol – Amdi Petersen, founder of Humana People to People, Planet Aid and USAgain’, Tvindalert, disponível em http://tvindalert.com/, consultado a 21 de Agosto de 2014. Não é claro até que ponto é que as organizações estão envolvidas, mas tendo como base o relato do entrevistado, a organização tem uma posição menos correta perante os voluntários por omissão de tudo aquilo que esperam dos voluntários. De acordo com o que pudemos apurar esta organização e as suas filiais têm programas de estudo e de voluntariado. Os preços são bastante elevados para quem paga, por outro lado recrutam elementos de países que não têm possibilidades económicas para estes fazerem a angariação de fundos e tentarem encontrar elementos que paguem as taxas elevadas. Existem vários nomes de organizações que estão interligadas: Humana, DRH Movement, One World Institute, One World Center, entre outras. Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 127 A entrevistada ajudou o grupo de jovens a criar o jornal, mas quando o primeiro número saiu já estava de volta à Europa, mas sabe que pelo menos durante 1 ano eles imprimiram o jornal, o que acha que foi a única coisa positiva saiu deste projeto. Acha que as coisas são mais complicadas do que as pessoas pensam, como na mentalidade europeia em que pensam que se querem que as pessoas usem o preservativo basta lhes dar o preservativo, mas é mais complicado do que isso. Por exemplo, uma mulher casada não pode pedir ao marido para usar o preservativo ou ele vai pensar que a mulher o anda a trair e diz que esta mentalidade é muito forte. É muito difícil explicar isto às pessoas e não se pode esperar uma mudança do dia para a noite. Talvez alguém com maior conhecimento da cultura e do país poderia ter mais impacto nas comunidades, a entrevistada acha que o grupo de voluntários eram demasiado novos e não conheciam as implicações culturais para o fazer. A entrevistada acha que para ela foi muito bom ter esta experiência para o seu próprio desenvolvimento pessoal porque aprendeu sobre muitas coisas e sobre os seus próprios limites. Acha que esta experiências a fez aceitar que existem algumas coisas que não podem ser mudadas “e que muitas coisas são culturais e que as pessoas foram educadas nisto e isso, de certa maneira, faz-te questionar os teus próprios valores, talvez aquilo que te foi ensinado em criança pode não ser necessariamente verdade, então tornas-te mais flexível e mais aberta e ficas mais disposta a mudar e a experimentar coisas novas porque nesse momento apercebes-te que talvez não é aquilo que pensas que é”. Quando a entrevistada voltou para Inglaterra achou que havia uma grande lacuna entre ela e os seus amigos, de repente achou que era uma coisa incrível ter um frigorífico, tinha vivido numa casa sem eletricidade, nem águas durante três meses, não havia quase nenhuma mobília. Tinham que fazer uma fogueira e fazer tudo à mão, então quando voltou para a Inglaterra achou que tinham tantas coisas e também teve a sensação que tudo era tão rápido à sua volta. Acha que alguns dos seus amigos não compreendiam isso, mas depois também não ficou muito mais tempo na Inglaterra e voltou para França. Acha que foi muito interessante viver numa cultura diferente mas acha que os voluntários não ofereceram tanto quanto deveriam, espera que não tenham prejudicado com a sua presença, pois afinal, também tiveram a oportunidade de conhecer os voluntários e aprender sobre uma outra cultura, mas considera que a comunidade local não recebeu muito da presença dos voluntários, porque acha que aquilo que eles tinham para dar não era aquilo que eles precisavam. Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 128 Em 2013, a entrevistada voluntariou-se em Israel e nesse programa aquilo que foi explicado no papel sobre o programa era exatamente aquilo que os esperava em Israel, adiciona que neste programa não estavam a tentar aparentar nada. A entrevistada teve que pagar a viagem até ao país, depois foi tudo gratuito. A entrevistada soube sobre o programa através de um voluntário, em que basicamente os voluntários poderiam voluntariar-se num kibutz entre 3 a 9 meses, dependendo de quantas vezes queriam renovar o visto. A entrevistada ficou 3 meses, trabalhava entre 6 a 8 horas por dia e em troca recebia comida e estadia gratuita. Vivia com outros voluntários de todas as partes do mundo e pôde descobrir o país, diz que é como umas férias de voluntariado. A entrevistada acha que é um programa honesto, pois existe uma troca justa. Os voluntários têm grandes vantagens em ir porque é barato viver e os locais gostam de receber os voluntários. As atividades em que cada voluntário participa depende da escolha do kibutz. O processo passa pela inscrição, enviar o pedido de visto e assim que o visto é aceite o entrevistado pode marcar o voo. Quando chega a Israel, o voluntário apresenta-se no escritório do programa que se chama Kibbutz Program Center e aí eles veem onde têm espaço e para quais kibutz podem ir. O voluntário pode escolher entre ir para o Norte ou para o Sul, para uma localidade grande ou pequena. A entrevistada foi para o Norte de Israel, perto do Líbano e o kibutz onde a entrevistada se voluntariou era bastante grande, tinha várias áreas em que podia trabalhar. Durante a primeira semana a entrevistada trabalhou em vários sítios e depois escolheu trabalhar na cozinha. Trabalhava entre as 6h da manhã e às 2-3h da tarde, com intervalos. Havia cerca de 5 voluntários na cozinha a ajudar o cozinheiro. Via-se que no kibutz tinham muita experiência a receber voluntários. Quando a voluntária chegou ao kibutz o voluntário com que ela iria partilhar o quarto estava à sua espera. No dia seguinte foi ao escritório onde lhe foram explicadas todas as regras, quantas folgas tinha, as viagens que iam ser feitas, era tudo muito claro. No dia seguinte esteve de folga e depois começou a trabalhar. Acha que o sistema funcionava muito bem. No kibutz onde a entrevistada ficou era suposto receberem entre 30 a 50 voluntários, dependendo da altura do ano e as nacionalidades mais presentes eram dos países escandinavos, Coreia, África do Sul e América do Sul. A entrevistada diz que teve a oportunidade de ir à Palestina, mas que teve que dizer que queria ir ver os sítios cristãos para não lhe fazerem muitas perguntas. Conta que quando atravessou a fronteira lhe revistaram a mala e encontraram um pin que tinha uma bandeira da palestina e questionaram-na sobre isso. Diz também que é comum os guardas na fronteira Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 129 abrirem os computadores aos turistas e inspecionar os ficheiros e os emails, por isso decidiu não levar o seu computador pessoal. Depois da entrevista a entrevistada enviou um ficheiro sobre breves detalhes estatísticos do projeto do kibutz que declarava ter recebido 1035 voluntários de 45 países em 36 kibutzes diferentes durante 2013. O mesmo documento mostrava que as cinco nacionalidades com o maior número de voluntários, por ordem decrescente, eram: a Coreia do Sul (com cerca de 150), Alemanha, África do Sul, Estados Unidos da América e Índia (com cerca de 70 voluntários). A entrevistada gostaria de ter ficado em Israel mais tempo mas foi aceite para o programa de EVS – European Voluntary Service e teve que voltar à Europa para poder juntar-se ao programa uma semana mais tarde. A entrevistada começou o projeto de EVS em agosto de 2013 durante 10 meses. O procedimento de candidatura é bastante longo e o programa é bastante específico. O voluntário tem que passar pela organização que envia o voluntário e a organização que recebe o voluntário, depois tiveram uma reunião onde a entrevistada teve a oportunidade de ver uma lista de todos os projetos disponíveis com os contactos e as descrições dos projetos. A entrevistada estava interessada em ir para os países da Escandinávia então recolheu informação de projetos e enviou emails. Tentou procurar projetos relacionados com a sua educação audiovisual, estava interessada em fazer algo criativo. Entre os projetos para onde enviou a candidatura um projeto na Dinamarca respondeu a dizer que tinha sido selecionada, isso aconteceu mesmo antes da entrevistada ir para Israel. O voluntariado era num liceu e na informação de projeto a descrição dizia que o voluntário faria atividades com estudantes, documentando a vida da escola, mas que era livre para poder criar algo novo. Na sua mente pensou que iria poder fazer um workshop audiovisual, mas quando chegou descobriu que a descrição do programa já tinha 3 anos e aquilo que necessitavam dela era algo diferente, não era para trabalhar com os estudantes, mas tirar fotografias e vídeos para promover a escola. A entrevistada ficou muito desanimada porque não era isso que queria fazer, especialmente depois da experiência que teve em Israel. Não sentiu uma boa ligação com o mentor do projeto, o que tornou o primeiro mês bastante difícil de suportar, só queria ir embora. Com a entrevistada havia apenas mais uma voluntária de Espanha no mesmo projeto, mas nas formações que teve conheceu todos os 18 voluntários EVS que estavam na região. Explicou que durante o programa EVS há 2 formações no país de acolhimento sobre diferenças culturais, sobre a Dinamarca, como lidar com os Dinamarqueses e como lidar com os problemas dos próprios voluntários e com o choque cultural. Foi na Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 130 formação, que chegou à conclusão que talvez o problema de integração tivesse a ver com ela própria e não com o projeto e descobriu que estava a passar por um choque cultural devido à experiência que tinha tido anteriormente e de repente estar noutro país. A entrevistada pensou que talvez pudesse ainda ter um impacto e fazer o seu melhor para que funcionasse e foi assim que decidiu ficar. A entrevistada acha que o que tornou a sua integração inicial tão difícil foi o facto de não conseguir fazer ligações mais próximas com os Dinamarqueses e só ter uma voluntária Espanhola com ela, em contraste com a experiência que tinha tido em Israel em que era tão fácil fazer amizades com os voluntários e com os locais. Na Dinamarca precisou de 3 meses até se poder integrar e sentir que tinha criado amizades. Diz que também foi complicado ajustar-se ao modo de fazer as coisas. Tinham liberdade para fazer certas coisas, mas era constrangedor estar sempre a perguntar “posso fazer isto ou aquilo” e no início foi complicado ajustarem-se à situação. Decidiram fazer um blog para a escola e acha que depois do Natal, tudo se tornou mais fácil, já se tinham adaptado a uma rotina e o pessoal da escola também já sabia o que elas estavam a fazer e já confiavam mais nelas para o fazer. A entrevistada já terminou o programa há dois meses e decidiu ficar na Dinamarca mais algum tempo, esteve a trabalhar num trabalho de verão e agora voltou à escola onde se voluntariou e talvez continue a trabalhar com a escola, fora do programa. Na primeira experiência de voluntariado a entrevistada tinha razões pessoais para o fazer, na segunda experiência a entrevistada não queria ficar na França durante muito tempo e como tinha disponibilidade achou que era a altura certa para fazer a experiência Israelita, queria conhecer pessoas e visitar o país. Na experiência EVS tinha mais razões profissionais e achou que poderia contribuir com algo, achou que poderia retirar algo das suas próprias competências, queria passar algum tempo noutro país e talvez ficar nesse país por mais tempo. Quando a entrevistada se candidatou ao programa EVS podia escolher entre os países Europeus, Europa de Leste e os países Mediterrânicos no norte de África, mas agora o programa mudou para integrar no programa Erasmus+ e abriram o programa a outros continentes, mas a entrevistada não sabe ao certo a abrangência do programa em termos geográficos. A entrevistada tem algumas sugestões sobre como melhorar a experiência EVS mas considera que é complicado ter um programa que se adapte a todos. Levando isso em consideração acha que seria útil ter a formação sobre diferenças culturais antes do voluntário chegar ao país de acolhimento e talvez também iniciar a formação na língua antes. A entrevistada acha que também seria benéfico para a organização de acolhimento ter formação Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 131 sobre o tipo de problemas e dificuldades que os voluntários possam ter durante a adaptação ao país de acolhimento. A entrevistada acha que os outros voluntários tinham motivações diferentes das suas, em África a rapariga que se estava a voluntariar com ela tinha estudado política e acha que ela pensou que isso fosse lógico fazer para a sua carreira profissional. Os voluntários que estavam com ela em Israel tinham outras motivações, em geral acha que as pessoas têm um momento nas suas vidas em que precisam de uma mudança, de um intervalo daquilo que estão a fazer, quer seja estudar, trabalhar ou o fim de um relacionamento e querem sair do seu ambiente por algum tempo e estar em algum lado novo para começar de novo e talvez encontrar uma nova solução. A rapariga Espanhola com quem a entrevistada se voluntariou na Dinamarca não estava a conseguir encontrar emprego durante o último ano e achou que ao ir para a Dinamarca conseguiria melhorar o Inglês e estaria a fazer algo que poderia depois ajudá-la a encontrar emprego quando voltasse. A entrevistada reparou que existiam bastantes Espanhóis a fazer EVS porque não encontravam emprego. Por enquanto, a entrevistada gostaria de se estabelecer algures e encontrar emprego e ganhar alguma estabilidade antes de poder viajar outra vez. Idealmente seria ótimo se conseguisse encontrar um emprego que lhe permitisse viajar. A entrevistada não se vê a ter um emprego estável num sítio e depois viajar durante o mês de férias e voluntariar-se porque gosta de viajar durante mais tempo. A entrevistada não tinha como hábito voluntariar-se em França, e curiosamente quando disse à sua prima que se iria voluntariar em África a prima disse-lhe que nunca a tinha visto como alguém tão inclinada a algo desse género. Mas agora que se voluntariou internacionalmente vai tentar fazê-lo nas comunidades onde está integrada e até pensou em contactar a organização EVS para lhes dizer que ainda está na Dinamarca e que estaria disponível para falar com novos voluntários e partilhar a sua experiência. Acha que é algo importante, que depois de se voluntariar é algo que está sempre a surgir e diz que também tiver a oportunidade de poder ter voluntários internacionais quando estiver a trabalhar, faria questão de os receber. A entrevistada diz que na Dinamarca o voluntariado internacional é muito popular que é normal depois de fazer 18 anos ir para África ajudar crianças, mas acha que é algo diferente, acha que a razão é o facto de ser ‘fixe’. “É fixe ir a um sítio muito diferente e isso mostra que se é tão aberto, então eu acho que quando se é muito novo talvez seja essa a razão pela qual se Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 132 faz isso, (...) é como quando toda a gente andava a viajar com a mochila às costas nos anos 80, agora isso não é o suficiente, também tens que mostrar que és alguém tão humano e tão aberto e também isso dá-te tantas fotografias porreiras no Facebook, não é? Eu acho que existe muito ego nisto e eu acho que nós na Europa ainda acreditamos que as pessoas em África são indefesos e precisam que que nós os vamos lá salvar, o que é completamente errado. Eu acho que nós devemos simplesmente pensar que eles têm uma cultura própria diferente e sim, são um povo em desenvolvimento, e sim podemos ajudar-nos uns aos outros, mas não podemos ir lá e dizerlhes o que devem fazer. Devemos ir e perguntar, o que precisam? Como posso ajudar? E depois ver o que podemos fazer uns com os outros, mas não podemos ir lá mandar neles, é muito condescendente, mas também eu acho que também é a falta de informação, as pessoas não conhecem muito destes povos, acham-nos exóticos…” A entrevistada acha que as pessoas são motivadas para se voluntariar porque não querem apenas ser turistas. A entrevistada também acha que talvez se os programas em África forem idênticos ao que participou não têm um grande impacto e talvez até sejam prejudiciais à comunidade. Acha que talvez os programas devessem ser mais semelhantes ao programa Peace Corps. Pode ser um programa bem intencionado mas não o sabem executar em condições. Existe a crença de “quero salvar o mundo, ajudar os pobres, sou uma boa pessoa”. Mas a entrevistada acredita que a base está sempre em motivos pessoais, não acredita que as pessoas vão apenas lideradas pelo altruísmo, esperam sempre receber algo em troca, por exemplo, a entrevistada admite que estava interessada em ver o que seria viver de uma maneira simples. A entrevistada acha que algumas pessoas pensam que se forem turistas que irão sempre passar ao lado e talvez queiram passar o tempo num país mas não sabem como, então se calhar não podem trabalhar, mas podem voluntariar-se. A entrevistada conhece algumas críticas ao volunturismo tais como: não provoca um grande impacto; não ajuda a população porque criam dependência; que é uma solução a curto tempo e não é sustentável; e que as pessoas que vão para lá não sabem nada. A entrevistada considera que algumas críticas são verdadeiras e outras não são. A entrevistada acha que é sempre bom ir a um país estrangeiro e fazer algo com eles. Concorda que provavelmente o que se faz não é sustentável, também concorda que as pessoas que vão são muito jovens, acabam de sair do secundário, não terão grande utilidade. Acha que se deve encontrar o programa certo, a altura ou a idade certa e a comunidade certa. Acha que por exemplo, enviar um grupo de jovens do Reino Unido para dar aulas de Inglês ou abrir um centro de apoio para depois das Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 133 aulas faria mais sentido pois podem assistir os jovens, sem ter que resolver os seus problemas, tais como o VIH e a educação sexual, porque é muito mais complicado e é necessário alguém com mais experiência. Talvez seja muito simples para alguém de fora pensar que é tão fácil resolver certos assuntos, mas isso é porque não se está dentro do problema. E também as populações não podem estar à espera dos voluntários para fazer tudo ou não se tornarão autosuficientes. A entrevistada partilhou que o momento mais incrível para ela foi quando um dia decidiu ir sozinha até à próxima cidade para ir ao mercado. Andavam sempre em grupo, foi a primeira vez que ia algures sozinha. Teve que ir a pé até à paragem de autocarro durante 30 minutos e depois apanhar o autocarro para chegar à cidade. Quando lá chegou teve uma sensação tão estranha de completa liberdade porque estava num sítio onde normalmente nunca teria ido sozinha e estava completamente fora da zona de conforto. Conta que foi uma sensação incrível, que as pessoas vinham ter com ela para falar porque não veem pessoas brancas todos os dias e que estavam curiosos. A entrevistada gostou desse tipo de inocência e acha que isso mostra que tudo pode ser tão simples e que no ocidente as pessoas tornam as coisas mais complicadas uns com os outros. Entrevistado 19 (50, Austrália) Em 2013 o entrevistado viajou pela Tailândia durante 1 ano onde fez o curso CELTA. Após o curso soube de um projeto chamado Hilltop Volunteers no Norte da Tailândia que um indivíduo Tailandês, que tinha vivido vários anos na Austrália tinha desenvolvido para voltar a dar de volta às pessoas desprivilegiadas do seu país natal. No projeto, o entrevistado teve a oportunidade de ensinar Inglês e fazer várias atividades e jogos com as crianças durante o dia. No final do dia e durante a manhã, onde estavam hospedados havia outras crianças que não iam à escola, então desenvolveram algumas atividades e aulas para essas crianças. Teve também a oportunidade de cultivar uma pequena horta na escola para poder oferecer mais nutrição à alimentação das crianças. Esteve no projeto cerca de dois meses e diz que não era uma organização bem gerida, mas manteve-se em contacto com as pessoas da escola e visitou várias vezes a escola após o projeto ter terminado. A segunda experiência foi no Este da Tailândia durante um mês com umas pessoas que tinham muita experiência e que queriam começar a sua própria organização. Pediram ao entrevistado que trabalhasse com eles, mas apesar do entrevistado estar lá apenas de visita teve a oportunidade de dar aulas na escola local. Tinham Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 134 também outros projetos, um centro para tomar conta de crianças, tinham voluntários a ajudar nos hospitais em diversas atividades, um povoado de elefantes onde os voluntários recolhiam comida para alimentar os elefantes. O entrevistado comentou que os voluntários que estavam a trabalhar no hospital eram estudantes de medicina e achava que eles tomavam parte em atividades que se estivessem na terra natal não lhes seria permitido fazer por ainda não estarem formados. Mas o entrevistado considera que a população geral da Tailândia não tem noção do que se deve fazer para cuidar de alguém que está a passar mal, coisas básicas como pôr uma compressa numa ferida. Conhecimento que nós, no mundo ocidental achamos que é supostamente um conhecimento geral, lá as pessoas não têm esse conhecimento básico e não sabem o que fazer perante uma situação de emergência. Por essa razão acha que qualquer pessoa com algum conhecimento de primeiros socorros poderá ajudar e fazer a diferença entre vida e morte em certas partes da Tailândia. O entrevistado soube do primeiro projeto através do indivíduo local e depois encontrou a segunda organização internacional durante a viagem. Diz que, antes de sair da Austrália ainda não sabia que iria voluntariar-se, mas imaginou que o ia fazer. O facto de ambas as organizações onde o entrevistado se voluntariou serem escolas tem a ver com o interesse do entrevistado em praticar a dar aulas após ter tirado o curso CELTA e gostou também de trabalhar a horta. Comenta que o que mais o impressionou foi ver as crianças sempre a ansiar a atenção dos voluntários. Acha que a parte da nutrição foi uma mais-valia para as crianças, mas a interação com as pessoas foi o que de mais valioso aquelas crianças receberam. Após passar alguns meses na Tailândia apercebeu-se do nível baixo da língua inglesa que os próprios professores de inglês possuíam, em que ensinavam as crianças muitas coisas erradas e isso foi um pouco frustrante. Na primeira experiência de voluntariado eram cerca de 10 a 12 voluntários, na segunda havia grupos de cerca de 20 voluntários que chegavam cada 3 semanas. O entrevistado teve a oportunidade de interagir com muitos dos voluntários e comenta como a maior parte deles eram jovens estudantes ou jovens que terminaram os estudos. Acha que as suas motivações para viajar eram ver uma parte do mundo. O entrevistado acha também que ao irem com uma organização lhes dava alguma segurança, o facto de talvez poderem viajar com alguns amigos ou terem tido outros amigos que já teriam experimentado e recomendaram- Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 135 lhes o mesmo também poderá ter muito a ver, o entrevistado costumava ouvi-los comentar: “o meu amigo veio para aqui e gostou muito”. O entrevistado considera que as comunidades receberam parte daquilo que necessitavam, acha que os pontos positivos são muito superiores a quaisquer pontos negativos que possam haver. O entrevistado costumava voluntariar-se na sua comunidade local há uns anos atrás, ultimamente não o tem feito. O entrevistado considera que a popularidade do volunturismo deve-se a “um desejo humano inato em querer algum tipo de reconhecimento e fazer algo para ajudar pessoas, então exploram um requisito humano de base (…) então se puderem encontrar uma entidade que lhes pode fornecer tudo isso de uma só vez e ainda possam divertir-se ao mesmo tempo, é simplesmente ideal”. O entrevistado acha que uma fonte de crítica ao volunturismo poderá advir da própria instituição do turismo que desafia a sua posição de domínio na indústria. Considera que alguns comércios locais poderão sofrer com o fluxo de mão de obra qualificada, pressionando as pessoas locais para fora dos seus empregos. O entrevistado não presenciou nenhum destes fenómenos enquanto esteve na Tailândia, porque diz que era difícil receber uma reação autêntica, mas achava que havia alguns locais que se sentiam fora do lugar com ocidentais a entrar no seu país e de certa forma a desafiá-los, assim como acontecia com os professores de Inglês quando às vezes o entrevistado os corrigia. O entrevistado pretende voluntariar-se internacionalmente outra vez, começou um projeto seu na Tailândia e irá voltar para continuá-lo, mas estaria aberto a ir voluntariar-se noutros países também. O entrevistado aconselha os voluntários a terem mente aberta e para não se ficarem por apenas uma organização, acha que para os voluntário terem uma experiência mais satisfatória será melhor chegar e visitar um pouco se tiverem tempo porque alguns voluntários ficam desanimados com o montante de voluntariado que fazem. Quando veem a informação na internet aumentam de tal forma as expectativas que quando lá chegam a perceção que tinham antes não condiz com aquilo que é na realidade. O que serve como sugestão para as organizações também, acha que estas não se devem representar como algo que não são, que devem descrever uma imagem realista daquilo que o voluntário poderá esperar do projeto. Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 136 O momento mais especial da sua viagem foi quando visitou umas tribos nas montanhas em Laos e ia parando nas aldeias aqui e ali, onde fazia uma aula de Inglês improvisada quando as crianças o rodeavam e isso era incrível. Acha que muitas daquelas crianças provavelmente nunca teriam visto um estrangeiro. Comenta como a sua experiência mais preciosa foi algo que criou ele próprio sem planear, surgiu assim no momento. Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 143 sociedade, sobre o teu comportamento. Então eu fiquei muito feliz de ter feito isso e como muitos dizem o que você dá é muito menos do que você ganha, você recebe muito mais daquele tempo que você deu ou o dinheiro que gastou, o que você ganha é muito mais. Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 144 Anexo VIII – Transcrição da Entrevista com a Entrevistada 6 (31, E.U.A.) (em Inglês) 1. I’d like to ask you to describe your international volunteer experience. Well, I’ve actually had a couple. What happen was, back in 2012 I left the United States with the goal of travelling and volunteering in different countries around the world. I had been working really hard in a job that was very much focused on making money and career advancement and it gotten really burnt out and so I wanted to go and do something simply because I loved it and I was passionate about it. So I’ve actually had quite a few experiences over the past two years since I left the united states, because I left in September of 2012. The first experience that I had was in Iceland and that volunteer experience was an interesting one, it was done through the website called Help Exchange – it’s HelpX.net - and Help Exchange is like WWOOFing in the sense that as a volunteer you provide your time and your labor and then, in return, they provide you with accommodation and/or food, so my first volunteer experience was actually working in a youth hostel on the south coast of Iceland and I did that for about a month and a half and I was volunteering in the hostel, so helping, like prepare breakfast and take care of the guests, do housekeeping and that sort of stuff and that was kind of, to me, that wasn’t volunteering like any other projects that I did but it was kind of an opportunity for me to unplug from how intense my job gotten back in the United States and just kind of just do a job that didn’t require a lot of skills from me but still helps me reduce my travel expenses because I wasn’t having to pay to stay somewhere but I wasn’t in a job that was requiring a lot from me that would cause me stress and everything, so that volunteer experience to me, that one was just kind of a way of like, spending some of my time and feeling productive but also taking a break from real life back home, what I had left. The next country I went to was Vietnam, and I was there for three months and it was about a month and a half of that that I was volunteering. I was in the northern part of the country, in Hanoi, the capital city. When I first got to the country I did not have a project set up, I had a friend who lived there and she had been there for quite a few months at that point and she was able to introduce me to a couple of people and just stuff started to kind of pan out so that was interesting, kind of going there and looking, looking, and looking, I spent quite a few weeks just trying to find a project I could be involved in and I ended up volunteering with, the organization was called Action for Vietnam Heritages and the project itself was called Action for Ha Long Bay and when I applied to Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 145 volunteer on the project it was just to be a volunteer in a 10-day, what was described as an ecowork-camp and so there were going to be a lot of like presentations and like cultural exchange things going on but also doing kind of some light activism, doing big, what do they call it, Flash mob kind of thing do draw attention to the marine pollution that’s going on in Ha Long Bay, which is a Unesco World Heritage Site. I’m really interested in marine conservation, I’m a scuba diver, so that was really important to me. So, when I applied to volunteer, one of the option on the application asked if you would be willing to take on leadership roles within the camp and I said absolutely because I’m naturally a leader, I just have the personality for it and I’m comfortable leading groups and talking in front of people and so I had an interview with them and they took me on as a volunteer and then a couple of days later they asked me to be the camp leader to actually lead the 120 volunteers that we had from all over Southeast Asia, so I went from going into the experience thinking that I was just thinking I would be one of many and then within a weeks time of being accepted on to the project suddenly I was going to be in charge of leading the experience, which was really interesting, the cultural differences between what I was used to organizationally in the United States compared to what I experienced in Vietnam was probably one of the big things that I was challenged with during my time working with them, a lot of it was quite unorganized until like the final hours leading up to the beginning of the 10-day camp, but we had, like I said 120 volunteers primarily from Southeast Asia but we had people from the Philippines, and Japan, Thailand, Indonesia, Malaysia, Cambodia, and then as far as western cultures, there were less than 10 people, like we had a couple of Australians, a couple of people from Ireland, I was the only American, so it was primarily Asian culture involved in the group. It was interesting because to me I had gone into the project thinking that I was going to be learning a lot about marine conservation and about what was going on in Vietnam as far as the action that was taken to preserve their environment. Essentially what I learned is one to none, there’s not very much happening there to take care of the environment. But anyways, I gone in expecting one thing, I was expecting to learn about the environment and instead I ended up learning about the culture and granted I had the opportunity because as the leader for the camp I ended up sharing a lot of the knowledge I already had just from having grown up in the United States and having experienced a lot of what I consider as common knowledge that was just presented in school or presented by my parents, my family, I shared a lot of the basic knowledge that I had with the other volunteers who, to them it’s just a different culture there and they’re just catching on with the “green Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 146 movement”, you know, recycling and reducing your waste and using products that are more gentle on the environment, so I think that’s probably, that was the big startling thing about that project, was that I went in to it expecting that I was going to be learning a lot about marine conservation, instead I was learning a lot about the culture and then I was also sharing and teaching just the knowledge that I had from the resources that had always been available to me throughout my life. And I think that that’s probably, that’s a very valuable lesson I learned as a volunteer to go in, you know, don’t go in with expectations, because chances are like it’s never going to be what you’ve expected to be and then as a volunteer to really be open minded, being flexible, to fill the position and fill the role that the organization needs you to fill, even if it doesn’t fit in what you were expecting to do, because obviously when you get there and they’re asking you: ‘We need your help with this’, like as a volunteer, unless it’s a task that is not appropriate or something or you know, or illegal, of course you shouldn’t do it, but in most cases it’s like, just everyone has to do what needs to be done to get the project to work. So, anyway, we had this 10-day work camp, you know, we lead workshops, we had speakers, we did a couple of big talks in the public, we went to a couple of schools and spoke with them, having our Vietnamese volunteers doing translations for our western volunteers, so that we could speak to everybody, just trying to get a lot of attention from the media to draw some focus on the issue at hand. However, the continuity of the project, cause I remained friends with a lot of people who were involved in it, following my departure from Hanoi and like leaving the organization behind, I don’t believe that they continued to do work on those efforts and to me, I guess I feel a little sad about it because there’s, you know, we put so much work into that 10day camp and in really increasing everyone’s awareness and teaching so many people about it, but then a bunch of us who weren’t Vietnamese, like the people who left and moved on, you know, whether they were travelers, a lot of students that came to that work camp and that was it but to know that they didn’t continue with the project it seems like all the work that we did may have just, sort of, just kind of fell into oblivion. It’s like it didn’t… It makes you wander like what we did, did it even matter? And maybe not necessarily locally for action for Ha Long Bay and for the area, but I know that through the other volunteers that I worked with and the friendships that I made and the people that I continued to work with and speak to now, primarily through facebook and be in touch with, I know that I impacted their lives and I taught them and I shared with them, something about my life and that they did the same for me and so, even if, you know, we didn’t change and save Ha Long Bay from the marine pollution that they’re Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 147 facing, I know that I was able to change the lives of some other people who continue to hopefully pay that forward and share that message with others in their communities, so… So, that was Vietnam, then I went to Cambodia. In Cambodia I was living on an island called Koh Rong Sanloem and the project that I was working on is called Marine Conservation Cambodia and when I went into that project initially I just knew that there was going to be marine research and surveys being done and I had initially committed to be in on the project for a month time and essentially they collected a small fee from volunteers to pay for the maintenance of the diving equipment and the purchase of the dive equipment and also their food and accommodation but we were living in really basic housing, they were bungalows out on this island. Within the first week and a half I fell in love with the work that we were doing. We were doing what is called reef check methodology for coral reefs and so we were collecting data and doing surveys just to monitor the coral reefs in this area and then we were also doing deeper water seahorse research in the seahorse habitat that was near the island. I really enjoy scuba diving and the location that we were in was just this little village on this island and it was just really beautiful and it was welcoming and I loved it and so after just being there a couple of weeks I started saying – I want to stay longer. And it turned out that the volunteer coordinator was actually going to be finishing there and she was going to be going home to Denmark and so I told them that I would be interested in committing for a longer term, to work with them on a longer term and so I stepped into the role as their volunteer coordinator and when I did that, I no longer had to pay to volunteer, which was great, so my accommodation and my food was covered and I received a small stipend from them to help cover my costs, like when I had to go back to mainland to pick up the new volunteers and things like that. So that was a really enjoyable experience, just being away in a tiny little island and away from city life, and away from cars and traffic and you know it wasn’t overcrowded and we had volunteers that we literally from all over the world, primarily though a lot of Europeans and Australians and North Americans. We didn’t have very many people who wasn’t from there, we only had one girl who was from South Africa, we had one girl who was from South America and we only had probably three Asian volunteers during that time. When we had approximately like 25 to 30 volunteers on the project at any given time and they were coming and volunteering with us for, it was a required minimum of two weeks because of the time it took to train them to do the marine surveys before they could actually start helping us do the surveys themselves, but the volunteers would come from anywhere between two weeks up to several months, I ended up staying there Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 148 for a total of 7 months so it was just funny because it was those things where I went in expecting – oh you know, maybe I will stay a month or two and then I really liked the work and I really enjoyed it. But the work that we did, we also did beach clean-ups around our village and going to different beaches and picking up rubbish off the beaches and collecting it in little landfill that we had on our project site. We also taught English to the kids in the village and a lot of the volunteers, so yeah it wasn’t just a marine conservation project, they also kind of integrate the village as well. For the most part we were welcomed by the people who were there and I think that primarily the volunteers were a source of income for them, you know, we would go to their little, they had tables in front of their houses selling food and fruit and things and we would go and buy snacks from them and on the weekends and in the evenings we would go and have like beers in the village and you know like drink it in like the bar that was also someone’s house. So, it was like, I think they received us well because we were income to them, but additionally the kids really enjoyed hanging out with us and learning English with us and so even if we only had like one hour of English teaching a day, they would still stop us in the village and talk to us and we could go and like, you know, just hang out with them and play with them and at the same time it was kind of known that there were families in the village that weren’t happy we were there because they, primarily so the focus of the marine conservation project was to not only protect the coral reefs that were around there through basically having them turn into what are called marine protected areas, so we were working with the Cambodian government to get these areas sanctioned as marine protected areas but also trying to work to get laws passed about how the locals could fish on and around the reefs because some of the fishing methodology that they would use was damaging to the reef or was fishing in areas where they were considered nurseries so was where all the small fish were and so instead of taking the larger fish that have already reproduced out of the water they’re taking young fish that had in so it just wasn’t sustainable fishing and so we were trying, we did a really good job there, from what I understand during the first three years of the project being there, there had been a significant change in like teaching the locals about that and that the catch that the fisherman were bringing in was much bigger, the families were healthier, the children were healthier. At that point, I was there from March 2013 until October 2013 and during that time the project had been there for just over five years and so it was pretty well established. The village knew who we were, what we were doing but still there were a couple of families who didn’t, who felt we were intruders who were coming in and trying to change their ways and you know, their traditional ways of fishing. Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 149 Anyway, when they used the traditional way of fishing with the wooden traps and things, that would be sustainable fishing but the guys who would use what are called trawling nets would damage coral and plant life and the habitat on the bottom of the ocean and just that wasn’t good, the way the way that they were doing it wasn’t good. Anyways, that was the only pushback that we received but that was nothing that the volunteers day to day really experienced, I think I was more aware of it because I was there longer and I was working closely with the founder of the organization and a couple of other staff members who had been there for quite some time and they were able to tell me stories about the kind of things that they’d encountered over the years, so I don’t think the average volunteers were very well aware of that and we decided not to, well not me, I didn’t make the decision personally, I think it was just an unspoken thing between the staff members to not share those negative aspects of the project with the volunteers that were there for a shorter time. So, anyway, that project was really interesting, engaging and I met and worked with so many people from around the world and I think that in itself was a really awesome experience because having the opportunity to work alongside people from other cultures, with different beliefs and different values and literally work with them and eat all your meals with them and live with them day in and day out, day in and day out for weeks if not months, you kind of, you have this opportunity to really get a good understanding about other people’s cultures, like I made friends with a couple of Danish girls, I’m still very close with, like we skype all the time, I worked with quite a few Dutch people who I have such a respect for Dutch people now, because of like the work ethic that, you know, experience with them and a few people from France and it was great working with them because as an American I had these like ideas and stereotypes of what French people were like and it was really great to have a chance to work with them and learn from them and just kind of do away with all the stereotypes that I had formerly had. So the project was about marine conservation but for me again it was about like learning about other cultures and getting a better global understanding of people who come from different countries and different parts of the world. 2. How did you find the second institution? The second one I had actually found them on an internet search before I had even left the United States and I had made initial contact towards them and then had actually forgotten completely all about them until I was getting ready to leave Vietnam and I was going through Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 150 my emails and I came back across this email and I didn’t find them from whatever call I was just doing basic like google searches like marine conservation and then using different country names or marine conservation in south east Asia to see like what projects were available out there but it wasn’t through anything but they are connected with a program called Project Abroad and Projects Abroad is actually based in the UK and they are a sending organization that young people can go to Projects Abroad and say I want to work on a conservation project and this is the part of the world I want to go to and Projects Abroad helps them get setup and it can be, well the fees that the volunteers pay cover to pay for all the administration costs and the people, the people who are on the ground, the staff, you know, pick these volunteers from the airport and get them transported to their accommodation and then transport them to the project site and all of that and Project Abroad does a really wide variety of different projects of everything from like care and teaching and political and journalism sort of stuff and they have a whole conservation branch that they do so volunteers can come to the project either through Project Abroad, which is a sending organization or they can connect directly with Marine Conservation by contacting them directly and just saying I want to come in and work with you guys and they can just work with the organization direct and that what I had done initially, I wasn’t even aware of the Projects Abroad aspect of it until I had arrived there and that caused an interesting dynamic between volunteers, because volunteers who came through Projects Abroad they came through with a lot of support and they were also paying a higher fee to be there than the people who set up directly through Marine Conservation Cambodia. 3. What was the age range of the volunteers in both organizations? So for Action for Ha Long Bay the age range was primarily, they were primarily university students, the youngest volunteer we had there was aged 17 but mostly they were between the ages of like 18 and their early 20’s. The oldest volunteer though that we had on the project was, I think he was 41 or 42 and he was one of the men from Ireland, but primarily I would say like 80 to 90% were in their late teens / early twenties. At Marine Conservation Cambodia it was a lot different, it really ranged in age from 16 year olds all the way up to people who were on career breaks and people who were coming there with their families like in their 40’s and 50’s. The average range tough was again like gap year students, you know, between high school and university or between university and work but the project in Cambodia saw a Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 151 lot of people who were taking time off from their career to do a bit of travelling and do volunteer work to be there. I think with a lot of the younger people that I saw in Cambodia, a lot of them did it because it was a chance for them to travel and be away from home and be in a different country but also be supervised. Specially with the students who were you know 17, 18, 19 years old, like a lot of them, their parents were paying for the trip and so their parents were like, well, you’re going to do it this way and then that way they know that their child is going to be picked up from the airport and transported from place to place and that they would be like supervised and that they would have that support staff on the ground in case they got sick or anything happened to them and that was all, you know, through the Projects Abroad process whereas straight through Marine Conservation Cambodia we were seeing people who were more independent travelers like myself who found the organization on their own and contacted them directly and with Marine Conservation Cambodia we would get a lot of volunteers who were making their way travelling through Asia and they would just stop by and just stay for like, you know, maybe 3 or 4 weeks max before they move on, which was the route that I was going down but then I ended up staying a lot longer because I enjoyed it so much. 4. Do you usually volunteer back home or in the community you’re residing? Yeah, I had, I grew up, like, I started with Girl Scouts when I was little and volunteering was part of Girl Scouts, so that’s where it kind of begins for me and then when I got into high school I joined several clubs but I ended up sticking with interact club and interact club is a Junior Rotary International and so we were working a lot with Rotary Clubs locally and my work with them actually really helped me when I went to University I ended up getting some scholarships and stuff because I’ve done a lot of community work and so I was able to pay for a lot of my University through the scholarships and the tuition that I received because I had been active in my community and then again when I was in University, that was actually the peak of my volunteering, I was like working on the student orientation team, I was working on our Hall Council, I was writing for my student paper, just doing a lot of different things, at the American Cancer Society, I did a benefit concert for them and did fundraising for them every year, so just doing a lot of things there and the thing was though when I left University and graduated, I didn’t have like an outlet for that, the pre-existing clubs and organizations around Questões Essenciais Para Uma Análise Global do Fenómeno do Volunturismo: Estudo de Caso 152 me, I didn’t have that when I first began my professional career, you know, it wasn’t as easily accessible to find groups to be a part of to volunteer with and so I kind of lost touch with it for a few years and started to get back involved in my community a couple of years before I left so, for about two years, from 2010 to 2012 I was volunteering with a local organization, just doing a couple of hours per week, which I guess is probably more than the average American but anyways when I left home though I was considering going into Peace Corps and actually committing the two years to Peace Corps. So I was considering volunteering for them but when I was looking into doing my application I had had a conference call with a representative and then an ex-volunteer from the Peace Corps and I was telling them about how I was having a lot of interest in sustainable living and marine conservation and that sort of stuff and that I would like to work in a community where I could help, you know, share that with people and teach people about it and essentially what they told me was because my educational background isn’t in that, you know I don’t have a teaching degree, I don’t have a marine biology degree, but I studied communication, I studied Public Relations and Advertising, so I know how to speak to people, I know how to get a message across but I didn’t have the particular skills in what I wanted to do and so at the Peace Corps at that point, I’m a willing volunteer, I’m willing to commit two years to you if I can work on a project like this and the Peace Corps told me before I would be considered as a competitive candidate for the program that I would need to have at least six months of work or volunteer experience in that direction, in that field where I wanted to go into with them, which was really funny to me, wait a minute, I’ve got to volunteer for someone else before I can volunteer for you? That doesn’t make any sense at all. 5. Are you aware that Peace Corps are changing the application? Yeah, I actually just saw that on the BBC probably within the last week or two that they are changing the process and making it a lot easier to do and it can be done online now, they’re trying to attract a broader background of people with broader skills and interests, I’m actually considering that for something I might do to finish this world tour that I’m on right now. 6. Also they’re giving the possibility of shorter volunteering service instead of two years, there are programs for 1 year and they are even considering 6 and 3 months projects.