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Formar professores no Ensino Superior: o caso da Formação Inicial de Professores de Geografia na Faculdade de Letras da Universidade do Porto

Martins, Maria Felisbela

Abstract

O modelo de formação inicial de professores de Geografia na Faculdade de Letras da Universidade do Porto inseria-se num quadro de formação mono-disciplinar de Licenciatura ao qual se lhe seguia inicialmente uma Formação Integrada e mais tarde um Curso de Especialização em Ensino. Este modelo vigorou, em meio universitário, desde 1987 a 2008. O modelo que se lhe seguiu, organizado à luz do Processo de Bolonha, resulta numa formação académica agora correlacionada com a formação em História dando origem ao Curso de Mestrado em Ensino da História e Geografia. Ao longo destes anos tratou-se de promover uma formação inicial que fomentasse o desenvolvimento de capacidades e atitudes conducentes a um desempenho profissional reflexivo, problematizador crítico e em formação permanente. Neste estudo pretendemos dar a conhecer como professores de Geografia formados por esta Faculdade se apropriaram das concepções curriculares e modos de trabalho pedagógico desenvolvidos e que sentidos e significados foram desencadeados ao nível das práticas. Pretendemos contribuir para uma reflexão e desenvolvimento da formação de professores de Geografia desenvolvida nesta Faculdade, agora que se encontra ligado à formação de professores de História e novos desafios e constrangimentos se nos colocam nesta modalidade de formação.

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Ensino Superior Inovação e qualidade na docência Carlinda Leite e Miguel Zabalza (Coords.) Ficha Técnica Título da obra Ensino Superior: Inovação e qualidade na docência Coordenação Carlinda Leite e Miguel Zabalza Design da obra, coordenação editorial e revisão Ana Caldas, Sara Pinheiro e Ana Sofia Faustino Edição CIIE – Centro de Investigação e Intervenção Educativas ISBN 978-989-8471-05-5 Data de edição Julho 2012 Depósito legal 347308/12 Comissão Científica Afonso Pinhão Ferreira, Albertina Lima Oliveira, Alicia Rivera Morales, Amélia Lopes, Américo Peres, Amparo Martines March, Ana Mouraz, Antonio Bolivar, António Magalhães, Ariana Cosme, Aurélio Villa, Bento Silva, Carles Monereo, Carlos Moya, Carolina Silva Sousa, Cleoni Fernandes, Corália Vicente, Cristina Rinaudo, Danilo Donolo, Elisa Lucarelli, Elisabete Ferreira, Fátima Pereira, Fátima Vieira, Fellipe Trillo, Fernando Remião, Flávia Vieira, Gisela Velez, Helena C. Araújo, Jesus Maria Sousa, Joan Mateo, Joan Rué, Jorge Bento, José Alberto Correia, José António Ramalheira Corujo Vaz, José Augusto Pacheco, José Brites Ferreira, José Caldas, José Carlos Morgado, José Manuel Martins Ferreira, José Maria Maiquez, Kátia Ramos, Liliana Sanjurjo, Luísa Neto, Manuela Esteves, Maria Amélia Ferreira, Maria do Rosário Pinto, Maria Isabel Cunha, Maria Teresa Fonseca, Marília Morosini , Mario de Miguel Diaz, Miguel Valero, Nilza Costa, Pedro Moreira, Pedro Teixeira, Preciosa Fernandes, Rui Alves, Rui Trindade, Sebastian Rodríguez Espinar, Uldarico Malaspina, Valeska Fortes de Oliveira Capa Manuel Francisco Costa Contactos CIIE – Centro de Investigação e Intervenção Educativas Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto Rua Alfredo Allen, 4200-135 Porto, Portugal Tel. +351 220 400 615 | Fax. +351 226 079 726 | [email protected] Nota: O conteúdo dos textos reunidos nesta obra é da total responsabilidade dos seus autores. 7870 FERNÁNDEZ ENGUITA, Mariano.( 1998). O magistério numa sociedade em mudança. In: VEIGA, Ilma Passos A. (Org.). Caminhos da profissionalização do magistério.Campinas: Papirus, p. 11-26. HARGREAVES, Andy. (1998). Os professores em tempos de mudançaO trabalho e a cultura dos professores na idade pós-moderna. Alfragide: McGraw-Hill. LEITE, Denise; MOROSINI, Marília (Orgs.). (1997). Universidade futurante: produção do ensino e inovação. Campinas: Papirus. SÃO PAULO. (2001). Secretaria de Estado de Educação. Programa de Educação ContinuadaProjeto Básico do ProgramaPEC-Formação Universitária. SÃO PAULO. (2006). PECFormação UniversitáriaProjeto Executivo. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. SAVIANI, Dermeval.(1997) A nova lei da Educação.Campinas: Papirus. VINCENT, Guy; LAHIRE, Bernard; THIN, Daniel. (2001). Sobre a história e a teoria da forma escolar. Educação em Revista, Belo Horizonte, n. 33, jun/2001, p. 7-47. 8.69. Título: Formar professores no ensino superior: o caso da formação inicial de professores de Geografia na Faculdade de Letras da Universidade do Porto Autor/a (es/as): Martins, Felisbela [Faculdade de Letras da Universidade do Porto] Resumo: O modelo de formação inicial de professores de Geografia na Faculdade de Letras da Universidade do Porto inseria-se num quadro de formação mono-disciplinar de Licenciatura ao qual se lhe seguia inicialmente uma Formação Integrada e mais tarde um Curso de Especialização em Ensino. Este modelo vigorou, em meio universitário, desde 1987 a 2008. O modelo que se lhe seguiu, organizado à luz do Processo de Bolonha, resulta numa formação académica agora correlacionada com a formação em História dando origem ao Curso de Mestrado em Ensino da História e Geografia. Ao longo destes anos tratou-se de promover uma formação inicial que fomentasse o desenvolvimento de capacidades e atitudes conducentes a um desempenho profissional reflexivo, problematizador crítico e em formação permanente. Neste estudo pretendemos dar a conhecer como professores de Geografia formados por esta Faculdade se apropriaram das concepções curriculares e modos de trabalho pedagógico 7871 desenvolvidos e que sentidos e significados foram desencadeados ao nível das práticas. Pretendemos contribuir para uma reflexão e desenvolvimento da formação de professores de Geografia desenvolvida nesta Faculdade, agora que se encontra ligado à formação de professores de História e novos desafios e constrangimentos se nos colocam nesta modalidade de formação. Palavras-chave: Formação Inicial de Professores de Geografia, modos de trabalho pedagógico, práticas pedagógicas. Introdução Desde os finais do século XX que a formação inicial de professores de Geografia tem vindo a ser desenvolvida em meio universitário. Desde 1987, o modelo de formação na Faculdade de Letras da Universidade do Porto inseria-se no quadro de uma formação mono-disciplinar de licenciatura com a duração média de cinco anos. Nos primeiros anos dava-se ênfase a uma formação centrada nos saberes geográficos e à medida que a formação avançava, centrava-se numa formação educacional geral e especializada, que tentava articular a teoria com a prática, para no final ser realizada em contexto de inserção profissional. Tratava-se de se promover uma formação inicial onde se pretendia desenvolver capacidades e atitudes conducentes a um desempenho profissional reflexivo, problematizador, crítico e em permanente aperfeiçoamento. Ou seja, se o tornar-se professor é um longo processo, pretendia-se dotar a formação inicial de mecanismos que conduzissem ao desenvolvimento de aspectos evolutivos do processo de aprender e ensinar e preparar pessoas para uma aprendizagem eficiente ao longo da vida. Segundo esta perspectiva a linha condutora que nos guiou para a formação de professores de Geografia orientou-se no sentido de serem gerados modos de trabalho pedagógico e de conduzir os professores iniciantes a saberem conceber e gerir um currículo, nomeadamente o do ensino básico, que lhes permitisse adoptarem uma atitude investigativa de modo a pensarem nas suas ações e nos modos de trabalho pedagógico a serem concretizados e a refletirem sobre eles. Na Faculdade de Letras da Universidade do Porto geraram-se interpretações do próprio currículo nacional do ensino básico e secundário, que foi amplamente divulgado junto dos alunos, futuros professores e junto dos orientadores de estágio que nas escolas os acompanhavam. Tendo como pano de fundo esta problemática, questionamo-nos: como se apropriaram professores de Geografia das concepções curriculares e modos de trabalho pedagógico desencadeados e que sentidos e significados foram incorporados ao nível das práticas? 7872 Nesta comunicação pretendemos dar conta das interpretações ao nível do Currículo encetados junto destes docentes e as (re)interpretações feitas por estes. Assim no ponto um fazemos uma breve apresentação dos diferentes modelos de formação inicial de professores de Geografia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto realçando, nos pontos seguintes, os referenciais teóricos que sustentam o papel do professor enquanto profissional num quadro de uma formação qualificante e, em traços gerais, as ações desenvolvidas no Departamento de Geografia. Traçamos de seguida o caminho metodológico percorrido e ouvimos as vozes dos orientadores de estágio e de jovens professores recém-formados sobre as suas interpretações do currículo nacional de Geografia e as interpretações efectuadas na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Finalmente terminamos com considerações gerais sobre este estudo. 1 - A formação inicial de professores de Geografia na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Na Faculdade de Letras da Universidade do Porto a formação inicial de professores de Geografia para o Ensino Básico (3º ciclo) e Ensino Secundário iniciou-se no ano de 1987. O primeiro modelo de formação denominou-se Formação Integrada 90 e nele os estudantes frequentavam, desde o 3º ano de licenciatura, disciplinas de formação educacional geral e específica 91 . Em Geografia, a unidade curricular de formação educacional específica denominavase Metodologia do Ensino da Geografia e nos dois últimos anos foi configurado um novo plano de estudos, em que esta disciplina foi substituída por outras quatro, das quais os alunos escolhiam duas, a saber: Gestão Curricular em Geografia ou Ensino da Geografia em Portugal e na Europa, Metodologias Didáticas em Geografia ou Análises das Aprendizagens em Geografia. Nestas unidades curriculares os alunos entravam em contacto com a pertinência e especificidade de educação geográfica, com as problemáticas ligadas à gestão do currículo, com as metodologias de ensino e avaliação das aprendizagens. Tomavam contacto com os programas e orientações curriculares de Geografia do 7º ao 12º ano. Concebiam situações educativas, elaboravam documentos pedagógico – didáticos decorrentes das interpretações dos documentos oficiais e da sua implementação nas salas de aula. A iniciação à prática profissional era efectuada no 5º ano e correspondia ao Estágio numa escola de ensino básico (3º ciclo) e /ou secundário, ao longo de um ano e com duas turmas próprias. Além do 90 - Nos primeiros quatro anos esteve em vigor uma situação de transição com uma Licenciatura de quatro anos à qual se seguia uma formação pedagógico-didática e iniciação à prática profissional pós-licenciatura de 2 anos. 91 - Introdução às Ciências da Educação, Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem, Organização e Desenvolvimento Curricular e Metodologias de Ensino. 7873 Estágio, os alunos frequentavam uma unidade curricular leccionada na Faculdade denominada Seminário. Este ciclo de formação inicial de professores terminou em 2005 entrando em vigor, até 2008, a formação inicial através do Curso de Especialização em Ensino. Mais uma vez os estudantes ao longo da sua licenciatura desde o 3º ano frequentavam disciplinas de formação educacional geral e específica 92 e no final da licenciatura inscreviam-se no Curso de Especialização em Ensino, neste caso de Geografia. Com a duração de um ano ele traduzia-se numa iniciação à prática profissional na forma de Estágio numa escola básica e/ou secundária e na unidade curricular de Seminário. Porém, a prática destes alunos não era realizada em turmas próprias, mas, sim, nas turmas atribuídas aos seus orientadores. A formação na escola, à semelhança do modelo anterior, incidia sobre diferentes dimensões que tinham o sentido de promover a responsabilidade deontológica, a organização, a gestão e realização do processo de ensino-aprendizagem, nas suas componentes científica e pedagógico-didática bem como a iniciação ao desenvolvimento profissional ao longo da vida, de modo a favorecer a valorização e o empenho, a responsabilidade, o rigor, a reflexão, a sistematicidade, a progressão, a criatividade e a autonomia. Também, e como no modelo anterior, no Curso de Especialização em Ensino, os estudantes frequentavam a unidade curricular leccionada semanalmente na Faculdade - o Seminário. Este visava aprofundar competências científicas e pedagógicas, estabelecer uma articulação entre teoria e prática, entre as Ciências da Educação, as áreas disciplinares de Geografia e a prática docente. Para além disto, pretendia-se desenvolver capacidades e atitudes conducentes a um desempenho profissional reflexivo, problematizador, crítico e em permanente aperfeiçoamento. Recorria-se à discussão e análise de experiências implementadas em cada núcleo de estágio e ainda à realização de um trabalho de pesquisa susceptível de ser aplicado na área da disciplina de docência. Estes alunos eram então acompanhados nas escolas por professores, orientadores de estágio aos quais eram atribuídas funções de acompanhamento no desempenho das atividades de formação e a quem competia proceder à sua análise numa perspectiva reflexiva, formativa e de forma continuada, de modo a promover uma cultura e atuação pedagógico-didática dos estagiários, quer de forma individualizada quer de forma coletiva. De um modo geral, quer a Formação Integrada, quer a formação através do Curso de Especialização em Ensino pautava-se por uma formação centrada nos primeiros anos, na formação científica dos saberes geográficos, e, à medida que a formação avançava, centrava-se numa formação educacional geral e especializada, que no caso da Geografia tentava articular a teoria com a prática, para no final ser realizada em contexto de inserção profissional. 92 - No caso da formação específica de Geografia as quatro disciplinas iniciais foram progressivamente diminuindo e nos dois últimos anos foram apenas leccionadas Gestão Curricular em Geografia e Metodologias Didáticas da Geografia. 7874 A partir de 2008-2009 e de acordo com o Processo de Bolonha a formação inicial de professores de Geografia resulta numa formação académica interligada com a formação de professores de História – o Mestrado em Ensino da História e Geografia. A formação de professores de Geografia passa a ter a obrigatoriedade de se realizar conjuntamente com a formação de professores de História fundindo-se numa mesma formação profissional de docentes. Para ingressar neste curso de Mestrado os alunos desta Faculdade podem possuir uma Licenciatura em Geografia com minor em História ou possuir uma Licenciatura em História com minor em Geografia. Para isso no 1º caso têm que possuir 120 ECTS em Geografia mais 54 ECTS em História aos quais se juntam 6 ECTS de uma disciplina de opção e, no segundo, 126 ECTS em História mais 54 ECTS em Geografia. No caso da Licenciatura em Geografia com minor em História os alunos frequentam no 2º (2º semestre) e 3º ano um leque de 9 unidades curriculares 93 . Por seu turno, no caso da Licenciatura em História com minor em Geografia os alunos podem escolher 9 unidades curriculares de um leque de 14 unidades curriculares, nos dois semestres dos 2º e 3º ano da Licenciatura 94 . Terminadas estas duas Licenciaturas os alunos ingressam no Mestrado em Ensino. Este curso pósgraduado é composto por dois anos: o 1º ano integra disciplinas das áreas de formação educacional geral e das didáticas distribuídas por dois semestres 95 ; o 2º ano é dominado pela unidade curricular de Iniciação à Prática Profissional (IPP). Esta compreende as componentes de Prática de Ensino Supervisionada, que se realiza na escolas básicas e secundárias, e de Seminário Integrador de História e Geografia, que semanalmente e de modo alternado entre a Geografia e a História, se realiza na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. De acordo com um regulamento específico da IPP os estudantes devem realizar um Relatório Final de estágio, que é objecto de discussão pública por um júri, e deverá articular-se com o trabalho desenvolvido na prática docente. Ao longo deste período a formação inicial de professores de Geografia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto teve sempre em vista uma análise e interpretação das políticas educativas 93 - História Económica e Social na Época Medieval; História Medieval de Portugal; História Económica e Social na Europa Moderna; História Moderna de Portugal; História Económica e Social na época contemporânea; Métodos e Técnicas de Investigação Histórica; história dos Descobrimentos e da Expansão Portuguesa; História Contemporânea de Portugal; História da Historiografia. 94 - Cartografia; Geografia de Portugal; Geografia Física de Portugal; Geografia Rural; Geografia Urbana; Mudanças Globais e Ambiente; Pensamento Geográfico; Sociedade, Território, Globalidade; Desenvolvimento e Planeamento do Território; Geografia da População; Geografia Humana de Portugal; Processos Atmosféricos e Hidrológicos; Processos Ecológicos da Biosfera; Processos Geomorfológicos. 95 - Análise Social da Educação; Didática da História; Didática ad Geografia I; ética e Deontologia; Psicologia da Educação (1º semestre); Aplicações Didáticas em História e Geografia; Didática da Geografia II; História e Cidadania; Investigação Educacional; Problemáticas Pedagógicas Contemporâneas.(2º semestre). 7875 onde se privilegiava um papel para o professor de ser um agente capaz de levar a conhecer, interpretar, compreender e refletir os fenómenos curriculares. Teve sempre em vista formar professores de Geografia que soubessem conceber e gerir o currículo e que lhes permitissem adoptar uma atitude investigativa de modo a pensarem nas suas ações e nos modos de trabalho pedagógico a serem concretizados e refletirem sobre eles. Esta linha de pensamento e ação tem sido desenvolvida e continuada no modelo de formação concebido à luz do Processo de Bolonha, embora esta seja partilhada com a disciplina de História. Continuamos a pretender contribuir para a formação de docentes que possuam saberes que lhes permitam configurar situações curriculares adequadas aos contextos que caracterizam a escola e que constroem visões reais de uma profissionalidade docente. Tem sido, assim, uma constante, a atenção às políticas educativas e a aspectos de uma formação de professores que privilegiem, acima de tudo, uma construção do currículo entendido como um processo que envolve um conjunto de atores e uma prática reflexiva. 2 – O papel do professor enquanto profissional num quadro de uma formação qualificante Em obra publicada nos anos 80 do século XX Lawrence Stenhouse defendia que os professores na condução da sua ação deviam de “adoptar uma atitude investigativa em relação aos seu próprio modo de ensinar” (Stenhouse,1987:211), designando esta atitude investigativa “como a disposição para examinar com sentido crítico e sistematicamente, a própria atividade prática” (ibidem). Na sua tese, Stenhouse afirma que “o processo de aperfeiçoamento profissional não se produz mediante a transmissão de teorias, mas questionando essas habilidades e recursos que refletem as capacidades pessoais com respeito à prática de ensino, ao conhecimento ministrado ou às pretensões educativas” (citado por Contreras, 2002:118). Ora, para tal, na opinião de Stenhouse, citado agora por Day (2001:48), “o professor tem que assumir o compromisso para questionar, de forma sistemática, o seu próprio ensino como base para o seu desenvolvimento; o compromisso e as destrezas para estudar o seu próprio ensino; a preocupação em questionar e testar na prática teorias através do uso dessas capacidades”. Esta atitude investigativa por parte dos professores permite que estes pensem nas suas ações, nos modos pedagógicos a serem concretizados e reflitam sobre eles. A ideia do professor que reflecte na e sobre a ação a do profissional que pensa refletindo, é desenvolvida por Donald Shön (1998), quando advoga que a ideia de reflexão na ação, é comum no dia a dia da prática profissional e que grande parte do conhecimento dos professores resulta da sua ação prática, resultado dos sucessivos e constantes processos de reflexão. Por outro lado, esta reflexão na e sobre a ação permite aos professores reinterpretar o seu trabalho. O professor, ao refletir sobre a sua própria prática, transforma-a em objecto de questionamento com vista à melhoria das suas qualidades educativas. 7876 Na mesma linha de pensamento, Henry Giroux realça o carácter intelectual da atividade do professor. Do seu ponto de vista, os professores devem ser capazes de “assumir responsabilidades ativas pelo levantamento de questões sérias acerca do que ensinar, como devem ensinar, e quais as metas mais amplas pelas quais estão lutando” (ibidem), com o objectivo de construir um ensino dirigido à transformação de cidadãos críticos e ativos. Desta forma, os docentes são encarados como “intelectuais transformadores” (Giroux,1997:161) que ajudam os estudantes a adquirir um conhecimento crítico sobre as estruturas sociais básicas. Reconhece-se, e na opinião de Zeichner (1993:16), que os professores devem ser profissionais que desempenhem “um papel ativo na formulação tanto dos propósitos e objectivos do seu trabalho como nos meios para os atingir”, ou seja, “professores práticos reflexivos” (ibidem). No quadro da formação inicial de professores de Geografia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto estas foram as linhas mestras que nos orientaram e nos continuam a orientar. Defendemos a ideia de que o papel para um professor deve ser o de um profissional que saiba ser um agente participado ativo e autónomo e que saiba responder às necessidades da escola em que exerce a profissão e dos alunos com quem trabalha. Consideramos haver a necessidade de pensar uma formação de professores, no sentido, e segundo Flores (2000:151), “que possibilite a aquisição e reconstrução de destrezas, conhecimentos e disposições para reinterpretar o currículo, o que requer uma maior participação dos professores no processo da sua construção e do seu desenvolvimento”. Defendemos uma formação de professores que permita a assunção por parte destes dum papel que passe por cada um possuir domínio do conhecimento do que ensina, mas também que saiba para que ensina. Uma formação que rompa com o papel de professor “com uma orientação que se baseie na reprodução de situações” (Leite,2005b:131), mas acima de tudo que seja ele próprio “um configurador de currículo”(ibidem) 96 . A formação de professores deve ultrapassar a centralização na especialização dos saberes e nas técnicas e ser alargada e dar lugar a uma formação “que socialize os futuros professores com a profissão que lhes permita desenvolver uma mentalidade curricular entendida como consciência do sistema em que se está inserido e do papel, ou papéis, que nele desempenham, ou podem vir a desempenhar (Leite,2005b:138) e que os prepare para serem “co -autores do currículo e não apenas meros receptores”(ibidem). Desta forma, as imagens de um professor que reflita sobre a ação e participe na sua formação implicam uma perspectiva de formação de professores que ultrapasse a relação “linear e hierárquica entre o conhecimento científico e a sua prática” (Flores, 2000:156). Além do mais, deve implicar, segundo Leite (2005c:372), ir mais além “dos conhecimentos disciplinares a que cada um/a se encontra veiculado/a, sem no entanto, os deixar de ter em conta” e conferir “novas 96 - O entendimento dos professores como “configuradores do currículo” pressupõe que desempenhem um papel de gestão do processo de desenvolvimento curricular, cabendo-lhes o estatuto de mediadores entre as propostas corporizadas no currículo nacional e a concretização, pelos alunos, das aprendizagens pretendidas.