D.F. Delirante. Narrativas do Caos pela Praxis Urbana
Abstract
"O caos é uma ordem por decifrar" é o que motiva a presente dissertação. Esta pretende analisar uma viagem no Distrito Federal, México, elaborada através de narrativas da praxis urbana. A análise de momentos da praxis permite a aproximação a uma cidade delirante. O anedótico e a incerteza permitirão navegar o caos da cidade e compreender a vida e construção desta.
Full text
D.F. DELIRANTE Narrativas do Caos pela Praxis Urbana Francisco Crisóstomo Calheiros Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto Orientador: Professor Doutor Joaquim Moreno
Rodrigo Dessa 1986-2014
A minha Mãe A Inês A Tiago A Florent A Joaquim Moreno e A todos que viajam comigo
Resumo “O caos é uma ordem por decifrar” é o que motiva a presente dissertação. Esta pretende analisar uma viagem no Distrito Federal, México, elaborada através de narrativas da praxis urbana. A análise de momentos da praxis permite a aproximação a uma cidade delirante. O anedótico e a incerteza permitirão navegar o caos da cidade e compreender a vida e construção desta.
viivi Abstract “Chaos is a order we have not yet discerned” is what encourages the present dissertation. It aims to analyze a journey in the Federal District, Mexico, through urban praxis’ narratives. The analysis of these moments of praxis allows closeness to a delirious city. The anecdotal and the uncertainty will allow browsing through city’s chaos and comprehend its life and formation.
Índice Introdução Ferramentas para a Descoberta da Cidade 1 Centro Pós-terramoto ‘85 (e) Pós-apocalíptico Direito à Cidade e Sociedade Civil Estratégias para a Vida no Caos 2 Metro Construção da Cidade Imaginária O Inquietante O Espaço da Memória Rituais do Caos ¡Viva México! Distopia e Utopia O Delírio do Corpo 3 Segundo Piso Construção da Cidade do Futuro O D.F. e a Cidade Genérica Sintomas da Praxis Urbana Conclusão Bibliografia Índice de Imagens 19 31 39 47 50 54 57 59 67 71 81 93 103 111 3 11 116 120
Por outro lado, a cidade subterrânea é um lugar onde os espaços mental e físico constantemente se tocam e se confundem, pois de outra forma ninguém permitiria situar-se a uns meros milímetros de outro. Esta permissão é feita através de um fascínio pelo caos, neste é possível compreender comportamentos típicos dos habitantes das megalópoles e a sua capacidade de se adaptarem a esta sociedade cada vez mais plural. Nesse sentido será também analisada a capacidade de autonomia dos utilizadores do metro num momento onde comportamentos automatizados são cada vez mais comuns e perceber o papel daqueles que constroem o submundo da cidade. A afinidade entre os habitantes e o caos é levada ao exagero do promíscuo nas carruagens e estações do metro. O Metro representa para a cidade um lugar sem julgamentos, um lugar onde tudo pode acontecer, onde todos se encontram num estado de perturbação e inquietação. Este perturbado estado mental típico dos esquizofrénicos é motivo para tentar compreender os movimentos nas estações e o nível de estimulação nervosa que todos sofrem até à anestesia total. Colectividade e individualidade entram em confronto diariamente no subsolo. Algo transversal a todo o trabalho é o papel do anedótico na construção de uma narrativa para a cidade, os eventos que marcaram para sempre a cidade foram encarados sempre de forma peculiar pelos habitantes da Cidade do México. Esta pareceu condenada a partir da segunda metade do século XX a ser o futuro das megalópoles, pelo seu desenvolvimento acelerado ou pelos seus números e dados que por serem inexplicáveis foram assumidos como a posteridade. Perante esta classificação, o D.F. sofreu grandes transformações no sentido de não a perder. A construção do Segundo Piso do Periférico apresenta-se assim como uma dessas medidas. Este será a última parte da proposta de secção da cidade, aquela que flutua ou que se eleva tentando fugir de si mesma. É através do Segundo Piso que é possível a reflexão sobre a tentativa de construção, sempre utópica, da cidade do futuro. Num momento onde muitas cidades tentam
98 Introdução combater a perda de espaço público, o D.F. parece dirigir-se no sentido oposto com a construção deste tipo de estruturas. Desde o seu primeiro momento como cidade colonial que esta se apresenta como que extasiada pelo seu próprio desenvolvimento. Serão então explorados os paradoxos e dicotomias de uma cidade tanto subterrânea como elevada, os falhanços constantes dos projectos mexicanos para a urbanidade e as ideologias por detrás destes. A Cidade Genérica marcou inevitavelmente o quadro de confrontação para as metrópoles do futuro. Esta comparação é feita na tentativa de compreender as implicações do caminho para a uniformidade típica da Cidade Genérica, através dos novos bairros que ganharam importância significativa na vida – principalmente económica – da Cidade do México. O caminho para a ausência da identidade é o esquecimento da origem da modernidade, espírito intemporal que nasceu na agitação de ruas, becos e praças. Antagonicamente à Cidade Genérica entrará também nesta fase do trabalho a obra do artista Francis Alÿs. As suas representações da praxis urbana de certa forma sustentarão a resistência do D.F. às transformações no sentido da uniformidade. De certa forma, o estudo da prática social é um retorno à origem da cidade – o Centro – e tal como este trabalho, a possibilidade de reaparecimentos e de regressos é constante, permitindo a aproximação caleidoscópica pretendida.
1110 A construção teórica sobre a delirante Cidade do México exige ferramentas que, de certa forma, sejam também delirantes. “Vaguear pelas ruas permanece a melhor estratégia para compreender a complexidade cultural da Cidade do México: a sua natureza delirante, as suas infindáveis contradições (...), as suas imagens surreais (...), e a sua mistura de períodos históricos.”8 Rubén Gallo percebe na sua compilação de textos, The Mexico City Reader, que a melhor forma de dar a conhecer o D.F. é através de “flâneurs ávidos” pois são estes os com coragem suficiente para conhecer uma cidade caótica e imprevisível. 8 Rubén Gallo (ed.), The Mexico City Reader (Winsconsin: University of Wisconsin Press, 2009). p.3 ”Strolling through the streets remains the best strategy for understanding the cultural complexities of Mexico City: its delirious nature, its endless contradictions (it is a place of extreme poverty and extreme wealth), its surreal images (André Breton famously called it the most surreal place on earth), and its jumbling of historical periods (modernist high-rises next to eighteen-century palaces are a common sight).”
3. Guia Psicogeográfico de Paris, Guy Debord 2. Tanya Billboard, Learning from Las Vegas 4. Flagrant Délit, Delirious New York 5. Breton, Rivero e Trotsky no México
1312 Ferramentas para a Descoberta da Cidade. O Flâneur: A experiência urbana atingida através da personagem do flâneur, que se move no meio da multidão mas sem nunca fazer parte dela, foi um dos comportamentos utilizados para compreender a modernidade. No entanto, esta experiência traduz-se normalmente numa forma boémia e erótica, de consumo individual da beleza encontrada no banal. A postura do artista, segundo Charles Baudelaire, era a compreensão de que “a dualidade da arte é uma consequência inevitável da dualidade do Homem”9. É nesta lógica de procura e interesse pelas contradições presentes na vida quotidiana que é relevante a atitude do flâneur na construção teórica da Cidade do México. A Deriva: A deriva Situacionista é por definição um “modo de comportamento experimental ligado às condições da sociedade urbana; técnica da passagem brusca através de ambientes variados.” 10 Também na deriva o corpo se move na multidão sem nunca fazer parte dela, sendo neste distanciamento que se atinge o nível de perceção desejado. No entanto, na deriva, é rejeitada a passividade perante o conhecimento adquirido e são previamente compreendidas as transformações nas cidades agora industrializadas. É neste sentido que Guy Debord se afasta tanto da prática do flâneur como dos exercícios surrealistas: “Nos antípodas destas aberrações, o carácter principalmente urbano da deriva, no contacto com centros de possibilidades e significados como são as grandes cidades transformadas pela indústria, vai de encontro à frase de Marx: os homens não conseguem ver nada para além deles, tudo fala deles próprios. A própria paisagem está viva.”11 9 Charles Baudelaire (1964), The Painter of Modern Life (London: Penguin Books). p.13 “The duality of art is an inevitable consequence of the duality of man.” 10 I.S. n.º1, Junho de 1958 in Internacional Situacionista – Antologia. Ed. Júlio Henriques. Edições Antígona. Lisboa. 1997. p. 27 11 Guy Debord, ‘Théorie de la Dérive’, Internationale Situationnist, (Paris, 1958). “Aux antipodes de ces aberrations, le caractère principalement urbain de la dérive, au contact des centres de possibilités et de significations que sont les grandes villes transformées par l”industrie, répondrait plutôt à la phrase de Marx: “Les hommes ne peuvent rien voir autour d”eux qui ne soit leur visage, tout parle d”eux-mêmes. Leur paysage même est animé.”
A capitalização do espaço público muda o paradigma da vida nas cidades, chegando ao ponto em que encontramos o que Guy Debord define como Sociedade do Espectáculo, sendo o espectáculo “capital acumulado até ao ponto em que se torna imagem.” 12 Numa Sociedade do Espectáculo as relações sociais são mediadas por imagens, são estas imagens que vieram mudar os limites da relação entre espaço público e privado. “O interior nos finais do século XIX oferecia refúgio do exterior, da cidade, do público. Por outro lado agora o público invadiu o interior, já está dentro.” 13 Estas transformações são perceptíveis de forma clara na vida da capital mexicana, segundo Carlos Monsiváis, “o controlo remoto é o princípio e o fim da democratização.” 14 A deriva Situacionista é então capaz de compreender os novos paradigmas da cidade pós-moderna, mas acima de tudo e “mediante encontros furtuitos ou desvios deliberados, as suas excursões pretendem revelar uma cidade potencial na cidade existente, a praia debaixo da calçada.” 15 O Método Paranóico-Crítico: “Qualquer processo de colonização – o enxerto de uma cultura particular para um local estranho – é em si mesmo um processo paranóico-crítico, quanto mais se este ocorre no vazio deixado pela extirpação da cultura prévia.” 16 O processo de colonização é a tentativa de “formação de um outro espaço, um outro espaço real, tão perfeito, meticuloso, e bem organizado como o nosso é desordenado, mal concebido, e num estado de 12 Guy Debord (1967), Society of the Spectacle, trans. Donald Nicholson Smith (New York: Zone Books, 1994). p.10 “The spectacle is capital accumulated to the point where it becomes image.” 13 Beatriz Colomina (2006), La Domesticidad en Guerra (Barcelona: Actar). p.298 “El interior de finales del XIX ofrecía refugio del exterior, de la ciudad, de lo público. En cambio ahora lo público ha invadido el interior, ya está adentro.” 14 Carlos Monsiváis, ‘El Vigor de la Agonía: la Ciudad de México en los albores del siglo XXI’, Letras Libres, (México: Editorial Vuelta, S.A. de C.V., 2002). “En estos años, el control remoto es el principio y el fin de la democratización.” 15 Enrique Walker (ed.), Lo Ordinario (Barcelona: Gustavo Gili, 2010). p.7 “La capacidad de lo ordinario de volverse extraordinario en virtud de su escrutinio y de hallazgos constituye posteriormente premisa del deambular surrealista y de la deriva situacinista. Mediante encuentros fortuitos o desvíos deliberados, sus excursiones se proponen desvelar una ciudad potencial en la ciudad existente, la playa bajo los adoquines.” 16 Rem Koolhaas (1978), Delirious New York: A Retrospective Manifesto for Manhattan (New York: Oxford University Press). p.245 “Any process of colonization – the graft of a particular culture onto an alien site – is in itself a PC process, the more so if it occurs in the void left by the extirpation of the previous culture.”
1514 Ferramentas para a Descoberta da Cidade. esboço.” 17 A compreensão de que a colonização é uma construção heterotópica leva a que uma vez mais o estudo da Nova Espanha seja feito através de associações delirantes na construção de factos. O Método Paranóico-Crítico desenvolvido por Salvador Dalí e utilizado por Rem Koolhaas na definição do Manhattanismo aplica-se ao D.F. no sentido de um turismo paranóico, capaz de criar souvenirs ou snapshots deste. “O MPC é tanto produto de, como o remédio contra a ansiedade: este promete que, através de uma reciclagem conceptual, os gastos, consumidos, conteúdos do mundo possam ser recarregados ou enriquecidos como o urânio, e que as sempre novas gerações de fatos falsos e evidências fabricadas possam ser criadas simplesmente através do ato da interpretação.” 18 Numa altura em que as megalópoles são uma representação da pósmodernidade e também do Homem pós-moderno, as patologias, no sentido de desvio da normalidade, são o ponto fulcral do estudo que permitem chegar a novos caminhos na prática da arquitectura. Em 1978, com o Manifesto Retroactivo para Manhattan, Rem Koolhaas vê a metrópole como um sítio comandado pelo desejo; nesta data a Cidade do México tinha cerca de 10 milhões de habitantes, tendo nos dias de hoje aproximadamente 22 milhões que, movidos pelo desejo criaram uma das maiores megalópolis do mundo. “A Metrópole luta para atingir um ponto mítico em que o mundo é completamente fabricado pelo Homem, até ao ponto que coincide absolutamente com os seus desejos. A Metrópole é uma máquina viciante, de onde não há fuga, a não ser que 17 Michel Foucault (1948), ‘Of Other Spaces: Utopias and Heterotopias: Architecture/Mouvement/ Continuité’, in Joan Ockman (ed.), Architecture Culture 1043-1968 (New York: University Graduate School of Architecture, Planning and Preservation, 1993). p.425 “On the other, they have the function of forming another space, another real space, as perfect, as meticulous, and well-arranged as ours is disordered, illconceived, and in a sketchy state. This heterotopia is not one of illusion but of compensation, and I wonder if it is not somewhat in this manner that certain colonies have functioned.” 18 Rem Koolhaas (1978), Delirious New York: A Retrospective Manifesto for Manhattan (New York: Oxford University Press).p.241 “The PCM is both the product of and the remedy against that anxiety: it promises that, through conceptual recycling, the worn, consumed, contents of the world can be recharged or enriched like uranium, and that ever-new generations of false facts and fabricated evidences can be generated simply through the act of interpretation.”
ofereça isso também...”19 André Breton viajou ao México em 1938 descrevendo-o como “o lugar mais surrealista do mundo”, é assim natural a utilização das práticas surrealistas para observar o D.F. A cidade parece ser o derradeiro cadavre exquis descrito por André Breton, ridículo na sua essência e apenas capaz de ser visto com sentido de humor e com a “suspensão do intelecto crítico.” 20 Aprendendo com o Pop: Ainda antes do lançamento do livro, Learning from Las Vegas, Denise Scott-Brown e Robert Venturi começaram a alertar para uma nova atitude perante o estudo das cidades, uma atitude de permissividade e de não julgamento perante o banal ou a chamada cultura popular, na busca de uma melhor compreensão do que nos rodeia. “Aprender da paisagem existente é a melhor maneira de ser um arquitecto revolucionário. E não de um modo óbvio, como o de arrasar Paris para começar de novo, sugerido por Le Corbusier nos anos vinte, mas um outro, mais tolerante: ou seja, questionando a nossa maneira de ver as coisas.”21 Esta parece a única forma de poder analisar a Cidade do México, de outra forma, qualquer análise seria uma crítica negativa constante; “a cidade tornou-se num monstro, um desastre urbano, o pesadelo do urbanista.”22 Reyner Banham afirma no seu documentário, Banham Loves L.A., que “a forma interessa muito pouco, pode-se construir de qualquer forma desde que funcione”23; já Denise Scott-Brown tinha afirmado que “Os 19 Ibid. p.293 “The Metropolis strives to reach a mythical point where the world is completely fabricated by man, so that it absolutely coincides with his desires. The Metropolis is an addictive machine, from which there is no escape, unless it offers that, too…” 20 André Breton (1984), ‘Le Cadavre Exquis: son exaltation Catalog’, in La Dragonne (ed.), (Paris: Galerie Nina Dausset).“Finally, with the Exquisite Corpse we had at our command an infallible way of holding the critical intellect in abeyance, and of fully liberating the mind”s metaphorical activity.” 21 Denise Scott-Brown, Robert Venturi, and Steven Izenour (1972), Learning From Las Vegas (Cambridge: MIT Press). p.3 “Learning from the existing landscape is a way of being revolutionary for an architect. Not the obvious way, which is to tear down Paris and begin again, as Le Corbusier suggested in the 1920s, but another, more tolerant way; that is, to question how we look at things.” 22José Joaquín Blanco (2009), ‘Cuauhtémoc’, in Rubén Gallo (ed.), The Mexico City Reader (Winsconsin: University of Wisconsin Press). p.5 “The city has become a monster, an urban disaster, a planner”s nightmare.” 23 Reyner Banham Loves Los Angeles (BBC, 1972), Julian Cooper (dir.). “The form matter very little, you can build it on any form as long as it works.”
1716 Ferramentas para a Descoberta da Cidade. arquitectos que compram Op Art deveriam comprar Los Angeles. Trata-se do mesmo sistema uniforme e aberto com possibilidades múltiplas para a definição e redefinição do foco, dependendo de onde esteja o observador; às vezes brilham mais os amarelos, às vezes brilham mais os azuis.”24 A análise do D.F. passará por uma aproximação caleidoscópica percebendo sempre “que há um padrão na dispersão urbana, e ordem no caos.” 25 24 Denise Scott-Brown (2010), ‘Acerca del Pop, La Permisividad y la Planificación’, in Enrique Walker (ed.), Lo Ordinario (Barcelona: Gustavo Gili). p.64 “Los arquitectos que compran Op Art deberían comprar Los Ángeles. Se trata del mismo sistema uniforme y abierto con múltiples posibilidades para la definición y la redefinición del foco, dependiendo de dónde esté uno; a veces brillan más los amarillos, a veces más los azules.” 25 Ibid. “No se la barrerá bajo la alfombra, a pesar de Lady Bird Johnson; en su lugar necesita un nuevo Patrick Geddes para entrar donde “ni un brahmán ni un británico” penetraría, para documentar y analizar con consideración y para prescribir una cirugía conservadora basada en la creencia que hay un patrón en la dispersión urbana, y orden en el caos.”
13. Centro 14. Plaza Garibalid, Centro 15. Centro 16. Centro
17. Palacio de Bellas Artes,Centro
18. Mercado de la Ciudadela, Centro22. Distrito Federal 23. Distrito Federal19,20, 21. The Holy Mountain
2726 Pós-Terramoto 85 (e) Pós-Apocalíptico muitas outras cidades, o Centro começa a ser um museu, negando o seu carácter de cidade. A objectualização da cidade é a sua declaração de óbito, “a cidade historicamente formada já não se vive, não se pode apreender pela prática. Ela já só é um objecto de consumo cultural para o estetismo, para os turistas ávidos de espectáculos e do pitoresco. Mesmo para aqueles que a procuram compreender afectivamente, a cidade está morta.”34 Em 1973, no filme The Holy Mountain, o realizador chileno Alejandro Jodorowsky representa uma sátira do centro da Cidade do México como um lugar de consumos burlescos, onde turistas assistem a uma peça teatral e violenta da história da cidade através das suas câmaras fotográficas. A perda do Centro para o consumo turístico acontece ainda de forma superficial, a centralidade capitalista tem um carácter duplo, cria tanto um “lugar de consumo como um consumo do lugar.” 35 Porém, a dimensão e variedade deste permite uma vida alternativa ao mundo comercial, fazendo com que os verdadeiros habitantes do Centro logrem em encontrar o seu espaço em becos ou largos onde os turistas receiam ir. A importância da memória colectiva na construção do Centro é no sentido de o preservar e enaltecer como história, como um arquivo, mas ao mesmo tempo relembrar as questões sociais existentes em todas as cidades, “das classes dominantes e das classes dominadas, lutando pelo poder ou pela vida, pela sobrevivência ou pela promoção.”36 Neste sentido, apesar da perda dos estudantes, o Centro Histórico da Cidade do México é um espaço em que as contradições continuam a ser cada 34 Henri Lefebvre (1968), O Direito à Cidade, trans. Rui Lopo (Lisboa: Letra Livre, 2012). p.108 35 Ibid. p.131 “A cidade capitalista criou o centro de consume. A produção industrial não se constituiu como uma centralidade própria, com excepção de alguns casos privilegiados – se assim podemos designar – como a importante empresa em torno da qual uma cidade operária se edifica. Já conhecemos o duplo carácter da centralidade capitalista: um lugar de consumo e consumo do lugar.” 36 Jacques Le Goff (1984), ‘Memória’, in Fernando Gil (ed.), Enciclopédia Einaudi (1; Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda). p.44 “A evolução das sociedades na segunda metade do séc.XX clarifica a importância do papel que a memória colectiva desempenha. Exorbitando a história como ciência e como culto público, ao mesmo tempo a montante enquanto reservatório (móvel) da história, rico em arquivos e em documentos/monumentos, e a aval, eco sonoro (e vivo) do trabalho histórico, a memória colectiva faz parte das grandes questões das sociedades desenvolvidas e das sociedades em vias de desenvolvimento, das classes dominantes e das classes dominadas, lutando pelo poder ou pela vida, pela sobrevivência ou pela promoção.”
24. Torre Latinoamericana, Centro
2928 Pós-Terramoto 85 (e) Pós-Apocalíptico vez maiores e enquanto uns visitam o “museu” outros procuram a cidadania a que têm direito ou o concretizar dos desejos sem julgamento: É apenas preciso caminhar pelo Centro Histórico para encontrar ruas a transbordar com vida e lotadas de flâneurs, estudantes provocadores, bailarinos Índios, vendedores de comida, adivinhos, activistas políticos, e camponeses a protestar. Juntos formam um improvável elenco de personagens que transformam a cidade num vasto palco para imprevisíveis dramas diários: uma caótica, vibrante e delirante cidade.37 Parece claro que o D.F. insiste em ignorar a sua morte anunciada numa descrença imprudente perante o óbvio, ou como diz Carlos Monsiváis, “o centro ou centro Histórico nem se deixa modernizar nem admite o envelhecimento.”38 Será difícil encontrar uma cidade mais contraditória que esta, que dê tanto e que ao mesmo tempo exija tanto. O Centro responde assim a todas as características que Henri Lefebvre define como necessidades sociais: “As necessidades sociais possuem um fundamento antropológico; opostas e complementares, elas compreendem a necessidade de aventura, a necessidade de organização do trabalho e a necessidade de jogo, as necessidades de previsibilidade e de imprevisto, de unidade e de diferença, de isolamento e de encontro, de trocas e de investimentos, de independência (leia-se, de solidão) e de comunicação, de imediatez e de perspectivação a longo prazo.”39 Estas necessidades sociais parecem funcionar no D.F. de forma totalmente instável e no limite do disfuncional, fazendo com isto que seja reflectido nos comportamentos dos seus habitantes onde são permitidos desvios da normalidade na adaptação à cidade onde tudo ou quase tudo é permitido. 37 Rubén Gallo (ed.), The Mexico City Reader (Winsconsin: University of Wisconsin Press, 2009). p.6 “One has only to walk through the Centro Histórico to find streets brimming with life and crowded with flâneurs, flirtatious students, Indian dancers, food vendors, fortune tellers, political activists, and peasant protesters. Together they form an unlikely cast of characters that turn the city into a vast stage for unpredictable everyday dramas: a chaotic, vibrant, delirious city.” 38 Carlos Monsiváis, ‘El Vigor de la Agonía: la Ciudad de México en los albores del siglo XXI’, Letras Libres, (México: Editorial Vuelta, S.A. de C.V., 2002). p.15 “Al cabo de hazañas y demoliciones, el centro o centro Histórico ni se deja modernizar ni admite el envejecimiento.” 39 Henri Lefebvre (1968), O Direito à Cidade, trans. Rui Lopo (Lisboa: Letra Livre, 2012). p.107
Direito à Cidade e Sociedade Civil É num cenário de grande densidade demográfica e de uma cidade fragmentada que se dá o terramoto de ‘85 na Cidade do México. As zonas mais afectadas são precisamente o Centro e as Colónias adjacentes como Roma ou Juarez onde os edifícios de carácter habitacional são os que menos resistem. A Capital da República era até este momento símbolo do desenvolvimento acelerado e o terramoto vem questionar as vantagens de viver no D.F. e consciencializar a condição humana, impotente perante a catástrofe: No dia 19 de Setembro de 1985 a Cidade do México experimenta um terramoto de magnitude considerável causando um grande número de mortes (os números divulgados pelas autoridades não são estabelecidos de forma séria, as vítimas aproximam os números a vinte mil falecidos). No dia seguinte, outro terramoto (ou tremor de terra) de menor intensidade retoma o pânico e revigora o ânimo solidário.40 No entanto, é também neste momento que a sociedade se torna independente mental e politicamente percebendo a incapacidade do Estado perante a tragédia. Devido à ineficácia do Estado os habitantes da Cidade do México deixam de ser passivos no que toca às decisões sobre a cidade e assumem uma mentalidade a que Carlos Monsiváis chama de Sociedade Civil: “Sem debates prévios, sem precisões conceptuais, em quatro ou cinco dias impõe-se o termo Sociedade Civil, o que, pelo tempo que dure, garante aos seus usuários um espaço de independência política e mental. (...) Esta é a grande certeza de 1985: a descoberta que a colectividade apenas existe 40 Carlos Monsiváis (2005), No Sin Nosotros (México D.F.: Era). “El 19 de septiembre de 1985 la Ciudad de México experimenta un terremoto de consideración que causa un gran número de muertos (las cifras de las autoridades jamás se establecen con seriedad, los damnificados acercan el número a veinte mil fallecidos). Al día siguiente, otro terremoto (o temblor) de menor intensidad reanuda el pánico y vigoriza el ánimo solidario.”
26. Monumento a la Revolución, Centro, ‘85 27. Centro, ‘85 28. Av. Insurgentes, Centro, ‘85
29. Torre Latinoamericana, Centro, ‘85
34. Capa de Jornal sobre Chupa-Cabras 35. Cartaz Informativo , SuperBarrio 36I. Publicidade do Museu Salinas 37. Altar à Santa Muerte
4140 Estratégias para a Vida no Caos demográfica como um auspicioso sinal de modernidade”51 ou da extrema poluição sentida na cidade. A verdade é que nos anos ‘80, momento da consciencialização do apocalíptico, as experiências na vida urbana tornaramse um aspecto confuso, sem perceção clara dos limites do real ou do onírico, “rumores passaram a factos e vice-versa, e a exageração passou a norma.” 52 Apesar desta atitude enganadora, a verdade é que esta foi a forma encontrada pelos mexicanos para lidar com a catástrofe de que fazem parte, assumindo a criação de mitos como um guia para a vida na cidade. Rubén Gallo afirma que “os habitantes da Cidade do México frequentemente lidam com eventos traumáticos transformando-os em elaboradas narrativas,”53 como é o caso da batalha épica entre os dois “luchadores”, Superbarrio e AIDS, numa tentativa de alertar e educar a população para os problemas da SIDA. A utilização da cultura popular como veículo para informar o maior número de pessoas revela-se eficaz devido aos extremos e discrepâncias das zonas e habitantes da cidade. A mitificação de problemas foi também utilizada pelos mexicanos como instrumento de luta ao poder de um governo corrupto, como é o caso do mito de chupa-cabras criado durante a crise económica de 1994, “como imagens de um sonho, este monstro pós-moderno era um rápido apontamento dos múltiplos medos e ansiedades experienciadas por aqueles afectados pela crise económica”; tal e qual a forma como “o ex-presidente lidou com a situação económica do país. 51 Salvador Novo cit. in Rubén Gallo (ed.), The Mexico City Reader (Winsconsin: University of Wisconsin Press, 2009). p.20 “but most residents interpreted the population explosion as an auspicious sign of m o de r ni t y.” 52 José Castillo (2007), ‘After the Explosion’, in Ricky Burdett and Deyan Sudjic (eds.), Endless City: The Urban Project by the London School of Economics and Deutsche Bank’s Alfred Herrhausen Society (London: Phaidon Press). p.176 “The 1980s inaugurated an absolute blurring of the distinctions between perception and actual experiences within the city: rumors became facts and vice-versa, and exaggerations became norm.” 53 Rubén Gallo (ed.), The Mexico City Reader (Winsconsin: University of Wisconsin Press, 2009). p.17 “Superbarrio”s ritual defeat of AIDS is not an isolated event but a representative instance of how Mexico City”s inhabitants often deal with traumatic events by transforming them into elaborate narratives.”
38. Missa a San Judas Tadeo, Centro 39. Missa a San Judas Tadeo, Centro 40. Missa a San Judas Tadeo, Centro
4342 Estratégias para a Vida no Caos Salinas tinha literalmente sugado todo a vida do México.”54 Embora não se possa ligar concretamente a saída do presidente com o mito do chupacabras, a verdade é que a instabilidade e o pânico causados pela criatura levaram a uma descrença total nos organismos institucionais. Outra das características da vida na capital é o culto a uma religião paralela, no sentido de não negar o catolicismo são aqueles com uma vida marginal, ligada muitas vezes a ilegalidades ou crimes que se viram obrigados a procurar outra salvação. A adoração de San Judas Tadeo ou da Santa Muerte, revela-se a única possibilidade para aqueles que pensam já não ter salvação, a própria Igreja teve que mudar a sua atitude perante estas novas tendências no sentido de aproximar os fiéis à sua ideologia base. Por causa destas crenças a igreja católica realiza agora missas em homenagem a estes santos, independentemente de os reconhecer como oficiais. O Centro da cidade nos dias destas cerimónias apresenta-se inundado de gente e as missas são realizadas em praças de forma a permitir que toda a multidão assista. Esta postura por parte dos habitantes da Cidade do México revela-se importante pois é hiperbolizada a um ponto onde se deixa de questionar e se perde o discernimento para saber o que é real ou não. Edward Eigen escreveu no seu ensaio sobre o Acidente, que “o objectivo aqui não é nem enterrar a prática do Novo Historicismo nem elogiá-lo. Mas sim sugerir que as questões sobre o papel do anedótico na história da arquitectura continuam não só sem resposta, mas mais importante, também sem pergunta.”55 Compreender a complexidade da praxis na Cidade do México passa por analisar os seus momentos anedóticos, as suas construções de narrativas do quotidiano, os seus mitos e o seu misticismo. Será 54 Ibid. p.18-19 “Like dream images, this postmodern monster was a shorthand notation of the manifold fears and anxieties experienced by those wrecked by the economic crisis; like dream, salinas the chupacabras could be analyzed to reveal a complex representation of reality, since the features that the popular imagination attributed to the chupacabras - its surreptitious, nighttime blood-sucking excursions - were eloquent metaphors for the ex-president”s handling of the country”s economy. Salinas had quite literally sucked the life-blood out of Mexico.” 55 Edward Eigen, ‘On Accident’, Log 5(New York: Anyone Corporation, 2005). p.138 “The point here is neither to bury the practice of New Historicism nor to praise it. Rather it is to suggest that questions about the role of the anecdote in architectural history remain not only unanswered but, more importantly, also un as ked.”
41. La Adoración de la Virgen, Diego Rivera
4544 Estratégias para a Vida no Caos talvez a construção de uma sensibilidade capaz de perceber que num território caótico e disfuncional os seus habitantes já encontraram como lidar com estas características de forma que os arquitectos ainda não compreenderam.
2. METRO Construção da Cidade Imaginária A apreensão do território da Cidade do México é uma tarefa impossível, não só devido à sua exagerada dimensão mas também devido aos comportamentos automatizados na cidade. O D.F. parece ter a capacidade de se reinventar diariamente, “estamos num fenómeno insólito: a metrópole nómada. Sem nos movermos de sítio trocamos de cidade; por convenção continuamos a falar de “México D.F.” mas é óbvio que a paisagem anda solta e se transfigura em outra e outra.”56 As mutações na Cidade do México têm sido constantes e o seu território tem sofrido alterações que o fazem crescer, construções e destruições que o transformam numa paisagem animada. É numa lógica de 56 Juan Villoro, ‘La Ciudad de México: Mujer Barbuda’, Luna Córnea, 8 (Ciudad de México: Educal, 1995). “Estamos en un fenómeno insólito: la metrópoli nómada. Sin movernos de sitio, hemos cambiado de ciudad; por convención seguimos hablando de “México D.F.” pero es obvio que el paisaje anda suelto y se transfigura en otro y otro.”
43. Rede Metropolitana no Distrito Federal 2,5km 5km
4948 Construção da Cidade Imaginária que a geografia “não é uma coisa imutável. É feita, é refeita, todos os dias; a cada instante, é modificada pelas acções do Homem,”57que se pode caracterizar o objecto urbano como enigmático, tão disperso que não pode ser percebido na sua totalidade. A dificuldade desta perceção leva a que o campo de possibilidades da megalópolis nunca se esgote mas ao mesmo tempo que nunca se consiga um sentimento de presença em relação a ela. ““A cidade é de todos” rezava algum slogan governamental, populista e certo, se penso agora que essa dissolução entre os muitos, é a única relação de pertença praticável, e desejável: porque de contrário, de quem em particular? Quem se atreve a tão ansiosa e descabelada ideia? Sou da Cidade do México porque não posso inverter a ordem da frase.”58 O comportamento dos habitantes do D.F. é marginal à cidade, vivem em microcidades, fazem percursos diários de casa ao trabalho num estado alucinado que resulta numa falta de perceção do território urbano e num leque de ambiências conhecidas reduzido. Este processo automatizado da vida quotidiana já havia sido identificado por Henri Lefebvre: Basta abrir os olhos para compreender a vida quotidiana daquele que corre da sua habitação para uma estação próxima ou distante, para o metro apinhado, para um escritório ou uma fábrica, para regressar ao fim do dia pelo mesmo caminho e em casa recuperar as forças para recomeçar o dia seguinte. O quadro da miséria generalizada não se traça sem o quadro de “satisfações” que a dissimulam e se tornam meio de dela se evadir ou mascarar.59 É através da automatização de comportamentos que é possível dissolver a angústia do dia-a-dia, como se a automatização fosse o ponto médio entre o sucesso e o falhanço. 57 Tom Mcdonough (2002), ‘Situationist Space’, in Tom Mcdonough (ed.), Guy Debord and the Situationist International Texts and Documents (London: The MIT Press). p.250 “…geography for Reclus is “not and immutable thing. It is made, it is remade, everyday; at each instant, it is modified by men”s actions.” 58 Victor Alcérreca, ‘Inapreensível’, In Sistu, 1 (Porto: Associação Cultural Insistu, 2001). p.43 59 Henri Lefebvre (1968), O Direito à Cidade, trans. Rui Lopo (Lisboa: Letra Livre, 2012). p.220
Rituais do Caos Não é por ignorância que os habitantes do D.F. continuam a vivê-lo indiferentes às condições apocalípticas encontradas, de certa forma ninguém as percebe melhor que eles próprios. Para Juan Villoro, escritor e jornalista mexicano, os chilangos acabaram “enamorados” pela mulher barbuda do circo.71 A cultura pós-apocalíptica explica este fascínio pelo horrível: Porque vivemos aqui? Não nos prende a ignorância. Os capitalinos estão muito ao corrente dos horrores ecológicos (são especialistas na urticária que vem da contaminação, o perigo dos terramotos, as taxas de chumbo no sangue); no entanto, desafiando francamente a evidência, consideramos que nenhuma destas ameaças é para nós. Bem vindos à cultura do pós-apocalíptico! Na nossa peculiar percepção do que nos rodeia julgamos que somos o resultado (nunca o enunciar) de uma tragédia.72 A lógica para debater as megalópoles terá de ser uma de não julgamento, percebendo que a crítica distante não salvará a cidade e que apenas interiorizando as reais vivências e comportamentos urbanos se consegue estar envolvido nesta cultura de fascínios desmedidos e comportamentos dos habitantes do caos. A obra de Denise Scott-Brown e Robert Venturi fica inevitavelmente marcada pela postura permissiva perante o entorno e a capacidade de compreender o ordinário como algo relevante para a arquitectura: “esta é uma técnica heurística excitante mas também perigosa pois gostar de toda a cultura pop é tão irracional como detestar o seu todo, e apela por uma visão geral e indiscriminada num salto na onda do pop, onde tudo é bom e o julgamento é abandonado em vez de adiado. No entanto, artistas, 71 Juan Villoro, ‘La Ciudad de México: Mujer Barbuda’, Luna Córnea, 8 (Ciudad de México: Educal, 1995). 72 Ibid. “¿Por qué vivimos aquí? No nos retiene la ignorancia. Los capitalinos estamos muy al tanto de los horrores ecológicos (somos expertos en las ronchas que salen con la contaminación, la peligrosidad de los terremotos, las tasas de plomo en la sangre); sin embargo, en franco desacato de la evidencia, consideramos que ninguna de estas amenazas es para nosotros. Bien venidos a la cultura del postapocalipsis! En nuestra peculiar percepción del entorno juzgamos que somos el resultado (nunca el anuncio) de una tragedia.”
Metro arquitectos, atores, devem julgar, ainda, espera-se, com um suspiro. Depois de um decente intervalo, uma forma criteriosa adequada deve crescer a partir da nova fonte. O julgamento é apenas adiado para realizar julgamentos posteriores mais sensíveis.”73 O comportamento dos habitantes da Cidade do México não é justificável pelo caos ou pela condição apocalíptica, mas interessa um adiar do julgamento sobre uma cidade à partida disfuncional de forma a compreender que há rituais no caos e que da aparente ausência de planeamento urbano há ilações a tirar. O metro da Cidade do México, e talvez de todas as grandes metrópoles, assume-se como o objecto de estudo mais significativo na compreensão da vida na megalópoles, como um raio-x da cidade, “Bastião da economia informal do país, lugar de exposições, concertos, e feiras de livros, terra de descobridores do sexo, suicídios, e nascimentos prematuros, o metro é a cidade em movimento. Tal como no (filme) “Brazil,” ou nas passagens subterrâneas de Moscovo, tudo contribui para uma confusão temporal.”74 A vida subterrânea do D.F. revela-se das mais delirantes pelo carácter fantástico implícito do metro, pois, “Apesar do metro ser parte da realidade da metrópole, continua a existir no espaço do fantástico; a sua totalidade pode ser concebida mas nunca experienciada.” 75 É numa ideia do metro como subconsciente da cidade que é relevante percepcionar os comportamentos individuais na sua colectividade, para Carlos Monsívais: “No D.F. a obsessão 73 Denise Scott-Brown (1971), ‘Learning from Pop’, in K. Michael Hays (ed.), Architecture Theory Since 1968 (New York: Columbia Books of Architecture). p359–360. “This is an exciting heuristic technique but also a dangerous one since liking the whole of pop culture is as irrational as hating the whole of it, and it calls for the vision of a general and indiscriminate hopping on the pop bandwagon, where everything is good and judgment is abandoned rather than deferred. Yet artists, architects, actors, must judge, albeit, one hopes, with a sigh. After a decent interval, suitable criteria must grow out of the new source. Judgment is merely deferred to make subsequent judgments more sensitive.” 74 Juan Villoro (2009), ‘The Metro’, in Rubén Gallo (ed.), The Mexico City Reader (Wisconsin: University of Wisconsin Press). “Bastion of the country”s informal economy, hall of exhibitions, concerts, and book fairs, land of sex-cruisers, suicides, and premature births, the metro is a city on the move. As in Brazil, or in the subterranean passageways of Moscow, everything contributes to temporal confusion.” 75 Ibid. “Though the metro is part of the reality of the metropolis, it continues to exist in the realm of the fantastic; its totality can be conceived but never experienced.”
5958 Rituais do Caos permanente (o tema inevitável) é a multidão que rodeia a multidão, a maneira em que cada pessoa, ainda que não o saiba ou não o admita, se proteja e se defenda no mínimo lugar que a cidade lhe concede. (...) O repouso dos citadinos chama-se tumulto, o turbilhão que implementa harmonias secretas e limitações públicas.” 76 Este encontro de paz no caos é uma das características mais comuns nas megalópoles, na Cidade do México o medo do silêncio é constante, este horror vacui como forma de viver. “Sonhei que ia sozinho numa carruagem do metro, e ninguém empurrava, nem me vendiam nada, nem me contavam estupidezes. Acordei angustiadíssimo do pesadelo.”77 A inquietação de imaginar a cidade vazia é natural, não é por acaso que quase todas as representações do fim do mundo mostram imagens de uma cidade deserta e destruída. A cidade é feita de comportamentos e relações entre os seus habitantes, a ausência destes é algo fácil de compreender por todos e nesse sentido o assombrar desta familiaridade leva a uma espécie de pesadelo universal. Juan Villoro destaca as muitas semelhanças da construção do metro da Cidade do México em relação à do metro de Moscovo, ambos contribuem para uma “imaginação colectiva”78 que no caso mexicano é também característica do chauvinismo da catástrofe já descrito. Ainda sobre a comparação das duas redes de metro, o autor revela uma não coincidência: 76 Carlos Monsiváis, ‘Los Rituales del Caos’, (Kindle edn.; Mexico: Era, 1995). “Pero en el D.F. la obsesión permanente (el tema insoslayable) es la multitud que rodea la multitud, la manera en que cada persona, así que no lo sepa o no lo admita, se precave y atrinchera en el mínimo sitio que la ciudad concede. Lo íntimo es un permiso, la “licencia poética” que olvida por un segundo que allí están, nomás a unos milímetros, los contingentes que hacen de la vitalidad urbana una opresión sin salida. El reposo de los citadinos se llama tumulto, el torbellino que instrumenta armonías secretas y limitaciones públicas.” 77 Ibid. “- Soné que iba solo en vagón de metro, y nadie empujaba, ni me vendían nada, ni contaban estupideces. Desperté angustiadísimo de la pesadilla. “ 78 Juan Villoro (2009), ‘The Metro’, in Rubén Gallo (ed.), The Mexico City Reader (Wisconsin: University of Wisconsin Press). “…Moscow subway, which played the same role in the Soviet collective imagination as the metro did for Mexico City.”
47. Metro Universidad 48. Metro Tacubaya 49. Metro Copilco
6160 Rituais do Caos Ambos estão lotados de símbolos de revoluções falhadas e funcionam numa clara forma de compensação como “céus subterrâneos.” Talvez não seja coincidência que ambos foram inaugurados no ano a seguir ao cair de movimentos dissidentes. O metro de Moscovo abriu em 1935, um ano depois de todos as organizações de artistas e intelectuais Soviéticas serem desmembradas e forçadas a reunir sobre um só corpo controlado pelo Estado; o metro da Cidade do México, abriu em 1969, foi a primeira grande obra pública apresentada depois do massacre estudantil de Tlatelolco em 1968. Estados totalitários criam uma zona intemporal “impossível” para substituir as liberdades perdidas.79 A rede metropolitana na Cidade do México funciona assim como um evocar de passados distantes e como um espaço de liberdades cedido pelo Estado, sempre nesta dicotomia do terrestre e do subterrâneo e sempre neste território imaginário e indefinido que são as linhas de metro. A importância desta comparação não se deve a uma mera tentativa de um paralelismo de utopias, o que é relevante compreender é que existem outras cidades para além da Cidade do México que sofreram transformações passíveis de interesse na construção de um discurso crítico sobre esta, não analisando esta simplesmente através de uma forma solipsista das suas antigas versões. O passado é então banalizado de forma repetitiva sendo encontrado em qualquer estação com um nome Azteca - Tacuba, Mixcoac, Tezozomoc ou Iztapalapa - que contam a história de uma cidade através de imagens nas paredes, numa coexistência da modernidade funcional com o seu passado enaltecido. A construção de uma rede metropolitana tem sempre um fundamento utópico, onde num lugar - o subterrâneo – tudo funciona em harmonia no sentido de um bem comum. A representação do passado nas 79 Ibid. “The subways of Moscow and of Mexico City display some odd similarities. Both are packed with the symbols of failed revolutions and perform a clear compensatory function as “underground heavens.” Perhaps it”s not a coincidence that both were inaugurated on year after the crushing of dissident movements. The Moscow metro opened in 1935, a year after all Soviet artist” and intellectuals” organizations were disbanded and their members forced to regroup under a single state-controlled body; the Mexico City metro, opened in 1969, was the first major public work unveiled after the Tlatelolco student massacre of 1968. Totalitarian states create an “impossible,” atemporal zone to replace lost freedoms.”
50. Arbatskaya, Metro Moscovo 51. Arbatskaya, Metro Moscovo 52. Arbatskaya, Metro Moscovo
6362 Rituais do Caos estações de metro do D.F. é uma exposição de todas as utopias fracassadas pelos Mexicanos na construção da cidade, sendo o mais recente falhanço a Revolução do início do século XX: No México, a Revolução de 1910-20 foi seguida por uma era iluminada por optimismo e sonhos utópicos. Num caso com vários paralelismos à história antiga da União Soviética, o novo governo “revolucionário” tentou ultrapassar todos os aspectos da sociedade Mexicana: desde a educação à arquitectura, e desde a agricultura ao planeamento urbano. Muitos destes projectos ambiciosos resultaram em desastrosos pesadelos que continuam a assombrar o país como espectros de uma era distante.80 Esta representação distante das utopias fracassadas parece ser uma tentativa falhada de revigorar o espírito individual de cada um na busca por uma vida melhor. No entanto, este enaltecimento histórico parece funcionar apenas como a dose diária involuntária de uma droga que impede o cessar da busca, que continua o sonho. Numa análise mais racional e fora do campo da ideologia utópica por detrás das construções do metro de Moscovo e da Cidade do México é possível encontrar tanto semelhanças como diferenças funcionais. Em termos numéricos será possível compreender que as linhas de metro de ambas apresentam números quase idênticos em muitos aspectos, ambas com 12 linhas, ambas com cerca de 190 estações e ambas capazes de transportar em média à volta de 7 milhões de passageiros por dia. As divergências começam a surgir no ano de inauguração do metropolitano, em Moscovo inaugurou em 1935 e no D.F. mais de 30 anos depois, em 1969; sendo assim não parece estranho que a linha russa apresente 325km de extensão contra 225km da linha 80 Rubén Gallo (2010), ‘Tlatelolco. Mexico City’s Urban Dystopia’, in Gyan Prakash (ed.), Noir Urbanism: Dystopic Images of the Modern City (USA: Princeton University Press). p.53 “In Mexico, the Revolution of 1910-20 was followed by a bright era of optimism and utopian dreams. In a case that has many parallels to the early history of the Soviet Union, the new “revolutionary” government attempted to overhaul all aspects of Mexican society: from education to architecture, and from farming to urban planning. Many of these ambitious projects resulted in disastrous nightmares that continue to haunt the country like the specters of a distant era.”
Metro mexicana. O problema da comparação surge quando se observa que Moscovo tem 12 milhões de habitantes e no Distrito Federal vivem 8,7 milhões, também de referir é que Moscovo tem uma área de 2,511km2 e o Distrio Federal tem 1,484km2 e que portanto a densidade populacional é maior no último. Estas diferenças e semelhanças têm fortes implicações naquilo que é a vida nas redes metropolitanas das duas cidades. Apesar das aparentes diferenças não parecerem significativas através de uma pesquisa superficial conseguese rapidamente perceber que a característica mais importante das estações de metro da capital Russa é a sua própria arquitectura. Pelo contrário, as da capital Mexicana, são a quantidade de gente exagerada, a falta de espaço, a violência e os mercados de vendas ilegais tanto dentro das carruagens e das estações como no exterior destas. Qual o passageiro do metro na Cidade do México que tem capacidade para admirar os murais ou a arquitectura das estações? Viajar neste exige tanta concentração, que chega ao ponto de ser anestesiante, o objectivo é entrar e sair o mais rápido possível tentando escapar ao mar de gente que se encontra. Embora a ideologia na construção do metro seja uma de colectividade e acessibilidade a todos os habitantes, a verdade é que a segregação social é por demais evidente a partir do momento que se descende, tal como quase tudo no D.F., os extremos entram em jogo nas viagens subterrâneas. Para todas as classes que não sejam a baixa, é impensável viajar no metro, fazendo com que a população que utiliza este meio de transporte seja marginalizada e que a vida nas estações de metro seja uma vida na informalidade. As estações de metro, tanto no seu interior como na sua superfície, são centros de comércio amorfos, fazendo que na vida superior da cidade sejam facilmente reconhecidos. Porém, nestes marginais a colectividade ideológica é atingida:
6564 Rituais do Caos A proximidade a tantos corpos gera – e atenua – pensamentos impuros. No metro, o legado da corrupção institucionalizada, da destruição ecológica, e da repressão dos direitos humanos é formalmente passada a cada passageiro e à legião que ele ou ela provavelmente contêm (cada passageiro vai gerar uma carruagem cheia). São eles que mantêm a herança viva: é o “humanismo do apertão.”81 Não será de estranhar que nos dias de hoje o metro seja também um veículo de difusão de informação, sendo utilizado não só para publicidades comerciais como para activistas políticos passarem a mensagem Zapatista.82 As carruagens do metro são como um circo ambulante, com direito a espectáculos que mudam em cada estação, vendas absurdas com o discurso ambicioso que faz de canetas a descoberta do século. No entanto, esta vida informal que ao começo parece hilariante e capaz de captar atenções banalizase com o tempo, “Com efeito, é mais fácil andar ao som da música do que sem ele, mas é também mais fácil andar ao ritmo de uma conversa animada quando a acção de andar escapa à nossa consciência. Assim o ritmo prosaico é importante como factor automatizador.”83 Os utentes do metro na Cidade do México parecem já imunes a qualquer mensagem que queira ser passada no interior das carruagens. Existe nas paredes das estações de metro do D.F. uma publicidade que afirma que é o estado que se encarrega de uma grande percentagem do preço dos bilhetes. A garantia de preços acessíveis que permitam a utilização deste por todos, parece providenciar a dose diária da anestesia e controlar a viagem de uma forma constante. 81 Carlos Monsiváis (2009), ‘The Metro - A Voyage to the End of the Squeeze’, in Rubén Gallo (ed.), The Mexico City Reader (Wisconsin: University of Wisconsin Press). “The close proximity to so many bodies breeds – and cushions – impure thoughts. In the metro, the legacy of institutionalized corruption, ecological devastation, and the repression of human rights is formally passed on to each passenger and to the legions he or she potentially contains (each rider will engender a carriage-full). They keep this heritage alive: it”s the “humanism of the squeeze.”” 82 Emiliano Zapata foi líder na Revolução Mexicana de 1910 e é ainda símbolo na tentativa de revolução no México. 83 Viktor Chklovski (1917), ‘Art as Technique’, in Hazard Adams (ed.), Critical Theory Since Plato: Revised Edition (Connecticut: Wadsworth Publishing, 1971). p.94
Metro existirá sempre. O corpo é representado hoje em dia na mesma forma que as cidades em que habitamos, “estamos contorcidos, destroçados, rasgados, feridos, dissecados, com as entranhas expostas, empalados, imolados; estamos suspensos num estado vertiginoso, ou fomos empurrados para uma confusão entre as crenças e a percepção.” 90 Se o corpo é hoje em dia interpretado e representado nesta forma fragmentada e partida só fará sentido que a própria cidade seja um reflexo destas características, a ordem na cidade é o caos: Este velho humanismo clássico encontrou a sua morte nas guerras mundiais, aquando da explosão demográfica que acompanhou os grandes massacres, perante as exigências brutais do crescimento e da competição económica, e sob o impulso de técnicas mal dominadas. Ele nem sequer é uma ideologia, mas um tema para discursos oficiais. Como se a morte do humanismo clássico se identificasse com a morte do próprio homem, lançaram-se recentemente altos grito. “Deus está morto e o Homem também.”91 A morte do humanismo está relacionada com o crescimento das cidades na sua forma capitalista, aqui, o individualismo é promovido mas os comportamentos devido à sua mecanização são feitos em forma colectiva. A explosão demográfica na Cidade do México continua a existir e todos são movidos pelo mesmo, a busca de melhores condições de vida. O metro é o veículo para esta busca contínua e inquestionável, para Juan Villoro, o elemento mais impressionante do metro não é a sua arquitectura na esfera do fantástico, mas sim “os homens e mulheres a viajarem com caras sem expressão, como se tivessem sido subornados para andarem nele,” 92 e para Carlos Monsívais “há tanta gente que já se acabaram os rostos familiares.” 93 90 Ibid. p.78-79 “We are contorted, racked, cut, wounded, dissected, intestinally revealed, impaled, immolated; we are suspended in a state of vertigo, or thrust into a confusion between belief and perception.” 91 Henri Lefebvre (1968), O Direito à Cidade, trans. Rui Lopo (Lisboa: Letra Livre, 2012). 92 Juan Villoro (2009), ‘The Metro’, in Rubén Gallo (ed.), The Mexico City Reader (Wisconsin: University of Wisconsin Press). “But it”s not the metro”s architecture that makes the deepest impression; it”s the men and women traveling with expressionless faces, as though they had been bribed to ride it.” 93 Carlos Monsiváis, ‘El Vigor de la Agonía: la Ciudad de México en los albores del siglo XXI’, Letras Libres, (México: Editorial Vuelta, S.A. de C.V., 2002). “- Hay tanta gente que ya se acabaran los rosto familiares.”
7372 O Delírio do Corpo Numa época em que todos querem fazer a diferença, sem qualquer preocupação colectiva, acabam por fazer parte da Sociedade do Espectáculo descrita por Guy Debord. “Enquanto a espaço das necessidades continuar um sonho social, sonhar continuará uma necessidade social. O espectáculo é o pesadelo da sociedade moderna acorrentada, expressando nada mais que o seu desejo de dormir. O espectáculo é o guardião desse dormir.”94 As redes metropolitanas acabam por representar este mundo onírico movido pelas necessidades sociais, “é tudo o mesmo no final. O metro anula a singularidade, anonimato, castidade, desejo – meras reacções individuais que se tornam insignificantes numa escala mais larga das coisas, onde o antigo “muitos” é o único precedente para o actual “demasiados”. É tudo o mesmo quer se entre ou se saia.”95 Todos os dias no metro da Cidade do México os utentes entram esperançados para uma luta por um lugar, os mais habituados não se importarão de ser empurrados ou de viajar esmagados, os com algum receio esperam em vão por uma nova carruagem que virá vazia. Georg Simmel, explicava sobre a metrópole esta espécie de submissão, “a vida na busca do prazer sem limites dá um sentimento de blasé pois esta estimula os nervos até à sua mais forte reactividade durante tanto tempo que finalmente deixam de reagir de todo.” 96 No entanto, quando se discute a Cidade do México, deixa-se de discutir a metrópole e passa-se à escala da megalópole, onde o blasé já é inato. Para Georg Simmel a cidade desenvolvia-se de uma forma mais rápida do que 94 Guy Debord (1967), Society of the Spectacle, trans. Donald Nicholson Smith (New York: Zone Books, 1994). “So long as the realm of necessity remains a social dream, dreaming will remain a social necessity. The spectacle is the bad dream of modern society in chains, expressing nothing more than its wish for sleep. The spectacle is the guardian of that sleep.” 95 Carlos Monsiváis (2009), ‘The Metro - A Voyage to the End of the Squeeze’, in Rubén Gallo (ed.), The Mexico City Reader (Wisconsin: University of Wisconsin Press). p.144 “It”s all the same in the end. The metro abolishes singularity, anonymity, chastity, desire – mere individual reactions that become insignificant in the larger scale of things, in which a former “many” is the only precedent for the current “too many.” It”s all the same whether one enters or exit.” 96 Georg Simmel (1903), ‘The Metropolis and Mental Life’, in Donald N. Levine (ed.), Georg Simmel on Individuality and Social Forms (Ilinois: The University of Chicago Press, 1971). “A life in boundless pursuit of pleasure makes one blasé because it agitates the nerves to their strongest reactivity for such a long time that they finally cease to react at all.”
58. Metro Pantitlán 59. Metro Tacubaya 60. Metro Constitución
7574 O Delírio do Corpo o corpo conseguia acompanhar, uma cidade no auge da evolução tecnológica, mas a cidade que se discute aqui é uma cidade ainda mais acelerada que a metrópole do início do século XX, é a cidade do desenvolvimento do capital elevado ao máximo. Já não se trata de viver alienado da multidão trata-se precisamente do oposto, a multidão é necessária para que o sonho social continue. Na lógica de Georg Simmel era na metrópole possível, através do sentimento de blasé, tolerar estar a milímetros de outro sem o conhecer ou sem algum dia vir a recordar o seu rosto, de certa forma, nesta, a proximidade dos corpos aumentou em sentido inverso à intimidade entre os mesmos. Era então completamente normal que se pudesse passar toda uma vida sem conhecer os vizinhos ou sem criar qualquer tipo de relação com aqueles que nos estão espacialmente mais próximos. Esta atitude, típica dos habitantes das metrópoles é definida por Georg Simmel como “reserva.” 97 Devido ao sentimento de blasé, existe um afastamento dos corpos ou objectos que nos rodeiam, no entanto, “isto não significa que os objectos não são percebidos, como acontece com os imbecis, mas sim que o significado e os diferentes valores das coisas, e como tal as coisas em si, são experienciadas como insubstanciais.” 98 A relação espacial e mental dos indivíduos na metrópole era ambígua, dois corpos que se apresentavam juntos estavam ao mesmo tempo distantes e vice-versa. Nunca juntos, “os objectos mantêm-se enfeitiçados na impiedosa separação do espaço, nenhuma parte material pode comummente partilhar o seu espaço com outra, a união real de diversos elementos não existe no espaço.” 99 No entanto, esta definição de espaço parece desactualizada quando se observam os 97 Ibid. “This mental attitude of the metropolitans toward one another we may designate, from a formal point of view, as reserve.” 98 Ibid. “This does not mean that the objects are not perceived, as is the case with the half-wit, but rather that the meaning and differing values of things, and thereby the things themselves, are experienced as insubstantial.” 99 Georg Simmel (1909), ‘Bridge and Door’, Theory, Culture, and Society, Explorations in Critical Social Science (11; New York: SAGE Publications, 1994). “Objects remain spellbound in the unmerciful separation of space, no material part can commonly share its space with another, a real unity of diverse elements does not exist in space.”
61. Cena Quotidiana no Metro 62. Metro Pantitlán
7776 O Delírio do Corpo comportamentos no D.F.. No metro de forma incessável testa-se e questionase a flexibilidade do espaço, “em todo o mundo, não há nada mais flexível que o espaço; há sempre espaço para mais um, e mais um e mais um, e no metro, a densidade humana não é um sinal da luta pela vida, mas o oposto. Quem disse que dois objectos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo?(...) O metro dissolve os limites entre corpos; há espaço para todos, afinal.” 100 Este desaparecimento dos limites do corpo é um sintoma da vida nas megalópoles e não é só a flexibilidade do espaço físico que interessa questionar. Parece haver uma ideologia comum a todos os passageiros que durante os minutos do apertão encontraram conforto na multidão. Para Carlos Monsiváis é como se todas as patologias da cidade tivessem sido ironizadas pelos habitantes do D.F., “a claustrofobia cresceu – a fome de ar fresco, de uma vida que nunca poderia ser subterrânea e nunca poderia ser comparada a uma descida ao inferno – e a vida nas ruas prosperou. E depois veio o metro, e a agorafobia ficou na moda.”101 É neste sentido que parece impossível não manter uma identidade colectiva quando todos se empurram e todos permitem todo o tipo de promiscuidades, todos partilham um medo do vazio que agora é costume. Não é só em relação a outros que o nosso corpo se fragmenta na tentativa de uma união na diversidade. Actualmente somos constantemente bombardeados com imagens contínuas que são apreendidas de forma irreflectida, projectamos o nosso corpo em várias imagens ao mesmo tempo, fragmentamo-nos para poder responder ao máximo de imagens na menor quantidade de tempo possível: 100 Carlos Monsiváis (2009), ‘The Metro - A Voyage to the End of the Squeeze’, in Rubén Gallo (ed.), The Mexico City Reader (Wisconsin: University of Wisconsin Press). p144. “In all the world, there is nothing so flexible as space; there”s always room for one more, and another and another, and in the metro, human density is not a sign of the struggle for life, but of the opposite. Who said two objects cannot occupy the same space at the same time? (…) The metro dissolves the boundaries between bodies; there is room for everyone, after all.” 101 Ibid. p144. “Claustrophobia rose – hunger for fresh air, for a life that could never go underground and could never be compared to a descent to hell – and street life prospered. Then came the metro, and agoraphobia became fashionable.”
63. Mercado de la Merced, Estação de Metro 64. Mercado de la Merced, Estação de Metro
7978 O Delírio do Corpo Os objectos já não são mercadorias: não são sequer sinais de significado e mensagem que podemos decifrar e apropriarmo-nos, são eles que nos interrogam, e somos convocados a responder-lhes, e a resposta está incluída na pergunta. Desse modo todas as mensagens nos media funcionam numa forma semelhante: nem informação nem comunicação, mas um referendo, um teste perpétuo, uma resposta circular de verificação do código.102 Nas megalópoles parecem existir novas condicionantes na forma como os corpos se relacionam mas ao mesmo tempo uma maior abertura para comportamentos desviantes e é nessa lógica que Jean Baudrillard no seu texto “Ecstasy of Communication” descreve este estado sentido nas cidades da pós-modernidade, “Não mais histeria, não mais paranóia projectada, falando francamente, um estado de terror próprio do esquizofrénico; demasiado grande a proximidade de tudo, a suja promiscuidade de tudo o que se toca, realiza investidas e penetra sem resistência, sem um halo de protecção privada, nem mesmo o seu próprio corpo, para protegê-lo nunca mais!”103 Embora não esteja descrevendo a Cidade do México a verdade é que Jean Baudrillard acaba por narrar de forma energética a vida subterrânea desta, a esquizofrenia natural de quem todos os dias utiliza o metro para se movimentar e assim fazer parte do tumulto. 102 Jean Baudrillard (1981), Simulacres et Simulation (Michigan: Universtiy of Michigan Press). “The objects are no longer commodities: they are no longer even signs whose meaning and message one could decipher and appropriate for oneself, they are the ones that interrogate us, and we are summoned to answer them, and the answer is included in the question. Thus all the messages in the media function in a similar fashion: neither information or communication, but referendum, perpetual test, circular response verification of the c o d e.” 103 Jean Baudrillard (1991), ‘Ecstasy of Communication ‘, in Hal Foster (ed.), The Anti-Aesthetics. Essays on Postmodern Culture (Seattle: Bay Press). “No more hysteria, no more projective paranoia, properly speaking, but this state of terror proper to the schizophrenic; too great a proximity of everything, the unclean promiscuity of everything which touches, invests and penetrates without resistance, with no halo of private protection, not even his own body, to protect him anymore!”
3. SEGUNDO PISO Construção da Cidade do Futuro Durante a segunda metade do século XX a Cidade do México sofreu transformações exageradas tanto no seu funcionamento, com a fragmentação da cidade e a construção das linhas de metro, como no carácter emocional dos seus habitantes, que tiveram que lidar com eventos traumáticos como terramotos, massacres ou crises económicas. O que para muitos representava a metrópole do futuro começa a ser vista como uma enorme anedota sobre o desenvolvimento, mas como qualquer anedota, ao longo dos tempos foi ganhando mais e mais elementos de forma a não ser ultrapassada pelo tempo. Para Jorge Ibargüengoitia:
72. Segundo Piso 73. Segundo Piso
8988 Construção da Cidade do Futuro Obras públicas que tiveram a não pretendida consequência de fazer a vida quase impossível a todos os que não têm carro. Os pedestres já não podem caminhar mais do que alguns quarteirões sem ir de encontro a formidáveis obstáculos tais como muros de contenção para auto-estradas elevadas ou rampas de betão. O fraco planeamento faz com que atravessar vias-rápidas omnipresentes seja uma experiência de vida ou de morte: os pedestres ou correm subitamente para o outro lado da rua, correndo pela vida e desviando-se de carros que circulam a 130km/h (não é uma vista incomum no Periférico), ou sobem variados pisos para alcançar uma ponte pobremente planeada...110 Esta tentativa de construção de progresso, de imagem cinematográfica, parece não passar disso, em termos funcionais os engarrafamentos continuam a existir no D.F., a diferença é que agora existem em dois pisos. Estas estruturas viárias acabaram por aniquilar qualquer hipótese de espaço público através da mecanização extrema da cidade. A mecanização da cidade remete a Cidade do México para o exemplo do filme Metropolis de 1927 onde a dicotomia existente entre extractos da cidade é clara. Esta tendência é no D.F. clara, com projectos por um lado subterrâneos (Metro) por outro elevados (Segundo Piso Periférico). A tentativa de construção da cidade do futuro como um programa utópico que leva a uma distopia extrema é óbvia no filme, “se a cidade é uma máquina gigante (com os trabalhadores como as parte dispensáveis tal como os soldados na frente), perdas e desastres não são razão para o desespero. A dimensão distópica das megacidades futuristas não podia ser expressada mais claramente.” 111 A construção de obras 110 Rubén Gallo (2004), New Tendencies in Mexican Art (New York: Palgrave Macmillan).“public works that have had the unintended consequence of making life nearly impossible for anyone without a car. Pedestrians can no longer walk more than a few blocks without running into formidable obstacles like retaining walls for elevated highways and concrete ramps. Poor planning makes getting across ubiquitous expressways a lifethreatening experience: Pedestrians either dart across these roads, running for their lives and dodging cars racing at 80 mph (not an uncommon sight on the Periférico), or they climb several stories to reach poorly planned bridges…” 111 Anton Kaes (2010), ‘The Phantasm of the Apocalypse’, in Gyan Prakash (ed.), Noir Urbanism: Dystopic Images of the Modern City (USA: Princeton University Press). p20. “If the city is a giant machine (with workers as expendable parts just like the soldiers on the front), losses and disasters are no reason for despair. The dystopian dimension of the futurist mega-city could not be expressed more clearly.”
Segundo Piso desta dimensão num país onde a segurança dos trabalhadores é no mínimo questionável levou também a que muito fosse posto em causa em relação à qualidade de vida dos trabalhadores e dos habitantes das zonas por onde passa o Periférico. No sentido de não apresentar apenas um discurso derrotista e saudosista perante a perda de espaço público é relevante a análise de outros projectos que parecem pertinentes ao tema. O Segundo Piso do Periférico é uma das obras de arquitectura mais impressionantes que alguma vez vi, a sua escala, o seu poder e a sua agressividade na forma como se movimenta pela cidade. Estas sensações lembraram-me imediatamente o discurso de Rem Koolhaas no seu texto “Berlin Wall as Architecture,” onde este descreve o Muro de Berlim como uma das obras de arquitectura mais bonitas que alguma vez viu, notando que: “o muro sugeria que a beleza da arquitectura era directamente proporcional ao seu horror”112 A verdade é que o mais triste no Segundo Piso não eram as consequências já descritas mas sim o tremendo potencial perdido. Rem Koolhaas viu no Muro de Berlim o que poucos ousavam ver, “em cada lado, o muro tinha gerado o seu próprio sideshow/parafernália,” 113 o muro funcionava independente da sua ideia original - embora esta fosse conseguida - e era também capaz de “provocar e manter um incrível número de eventos, comportamentos, e efeitos.”114 Esta potencialidade vista por Rem Koolhaas no Muro de Berlim será o que talvez falta ao Segundo Piso do Periférico, convém mencionar neste raciocínio uma obra semelhante no seu carácter formal e nas suas implicações, o Elevado Presidente Costa e Silva em São Paulo. O também conhecido como Minhocão tem uma extensão de 3,4km 112 Rem Koolhaas (1995a), ‘Field Trip’, in Rem Koolhaas and Bruce Mau (eds.), S,M,L,XL (New York: Monacelli Press). p.226 “The wall suggested that architecture”s beauty was directly proportional to its horror.” 113 Ibid. p.221 “On each side, the wall had generated its own sideshows/paraphernalia; on the Western side, a regular series of viewing platforms (early models for Hejduk”s masques?) brought the public as close as possible to the wall. Sometimes these rickety wooden structures were all that remained of a former urbanistic apotheosis like Alexanderplatz; sometimes their positioning seemed utterly random, dissociated from any recognizable point of the city.” 114 Ibid. p.222 “And there was more: in spite of its apparent absence of program, the wall – in its relatively short life – had provoked and sustained an incredible number of events, behaviors, and effects.”
9190 Construção da Cidade do Futuro em pouco comparável com o Segundo Piso do Periférico, no entanto a sua proximidade dos edifícios – 5 metros – apresenta uma relação demasiado forte entre a cidade viária e os residentes da zona. Porém, na tentativa de reconciliar os habitantes com a cidade, o tráfico não é permitido durante a noite devido ao ruído e nos domingos e feriados este encontra-se totalmente fechado aos veículos, estando apenas aberta aos peões na tentativa de que estes façam também parte de uma parte da cidade aparentemente desumanizada. O Elevado foi também palco para inúmeros projectos artísticos tornandose uma plataforma de divulgação acessível a todos devido à sua dimensão e posicionamento. Obviamente que este tipo de políticas não resolve todos os problemas que estruturas deste género implicam, mas parecem ser práticas interessantes no sentido de diminuir a nocividade destas obras cada vez mais comuns num cenário de urbanidade contemporânea. No caso do D.F., parecem ainda não existir tentativas de reconciliação desta parte da cidade roubada com os habitantes, mas numa lógica de subversão daquilo que é a base ideológica da estrutura esta pode também representar um palco de oportunidades e uma tentativa de devolver espaço público aos habitantes da cidade.
O D.F. e a Cidade Genérica A discussão sobre as megalópoles parece hoje ser sempre uma discussão sobre a cidade do futuro, e a cidade do futuro no campo da arquitectura ficou inevitavelmente marcada pela “Cidade Genérica”, de Rem Koolhaas. Parece impossível actualmente, pensar as novas metrópoles sem as comparar com a Cidade Genérica, perceber em que ponto estão estas cidades no caminho para a uniformidade. Claramente a Cidade do México tem sofrido modificações neste sentido, as grandes avenidas da capital serão em muito semelhantes a outras avenidas do mundo, as infra-estruturas viárias ou o próprio metro são sinais de modernização mas que levam as cidades a serem entre si muito mais iguais. A Cidade Genérica é actualmente representação de progresso. Para Carlos Monsiváis, já em 1967, a “tendência era no sentido da uniformidade,” 115 o que para Rem Koolhaas: É possível apenas à custa do despojamento da identidade (...) É a cidade sem história. É suficientemente grande para toda a gente. É fácil. Não necessita de manutenção. Se se tornar demasiado pequena simplesmente expande-se. Se ficar velha, simplesmente autodestrói-se e renova-se. É igualmente emocionante – ou pouco emocionante – em toda a parte. É “superficial” – tal como um estúdio de Hollywood pode produzir uma nova identidade todas as manhãs de segundafeira.116 Esta descrição podia ser uma descrição da Cidade do México, uma cidade em que a história é naturalmente renovada, catedrais construídas sobre templos, inundações, terramotos, automatizada e vibrante, com capacidade de se reinventar da noite para o dia. Segundo Rem Koolhaas, a história é impeditiva do desenvolvimento, exemplificando com cidades como Paris, presas à sua própria história e que agora apenas se podem tornar mais Paris: uma hiper115 Carlos Monsiváis cit. Salvador Novo (1967), Nueva Grandeza Mexicana (Mexico: Era). “The reigning tendency is towards uniformity.” 116 Rem Koolhaas (1995b), ‘The Generic City’, in Rem Koolhaas and Bruce Mau (eds.), S,M,L,XL (New York: Monacelli Press).
Segundo Piso realidade para consumo turístico, um pouco à imagem do que tem acontecido no Centro “Histórico” da Cidade do México. O afastamento do centro para zonas periféricas na fuga ao caos e poluição encontrados neste levou à construção de novos bairros como Santa Fé, Satélite, Interlomas ou Herradura. O exemplo mais marcante é o bairro de Santa Fé, criado num dos maiores depósitos de lixo da cidade, para agora ser um novo centro económico e luxuoso da capital: Hoje em dia Santa Fé é uma zona residencial e de negócios rica que contém dezenas de condomínios altíssimos, um dos maiores centros comerciais do país, uma prestigiosa universidade privada – Universidad Iberoamericana – e uma autoestrada de oito faixas que liga o bairro ao centro da Cidade do México. Conduzir por Santa Fé – só se pode chegar lá por carro – é uma experiência estranha: as ruas estão desertas, e não há nada que distinga este subúrbio dos seus congéneres em Atlanta, Caracas ou San José. Santa Fé não tem história nem identidade; é a típica Cidade Genérica.117 Esta desertificação das ruas é um dos pontos mais importantes na comparação da Cidade Genérica com a Cidade do México, naturalmente a construção destes novos bairros tende à homogeneidade da cidade, mas não são ainda a totalidade da megalópole. Para Marshall Berman no seu livro “All That Is Solid Melts into Air” a condição do homem moderno é encontrada nas ruas, e no seu comentário aos exercícios modernistas em Brasília este nota que “existe uma deliberada ausência de espaço público no qual as pessoas se podem encontrar e falar, ou simplesmente olhar umas para as outras e deambular. A grande tradição do urbanismo Latino, no qual a cidade era organizada à volta de 117 Rubén Gallo (ed.), The Mexico City Reader (Winsconsin: University of Wisconsin Press, 2009).“Today Santa Fé is a wealthy residential and business district featuring dozens of high-rise condominiums, one of the country”s larges malls, a prestigious private university - Universidad Iberoamericana - and eight-lane highways linking it to downtown Mexico City. Driving through Santa Fé - one can get there only by car - is an eerie experience: the streets are deserted, and nothing at all distinguishes this suburb from its counterparts in Atlanta, Caracas or San José. Santa Fé has no history and no identity; it is typical generic city.”
9594 O D.F. e a Cidade Genérica uma Plaza Mayor, é explicitamente rejeitada.”118 Karl Marx e Friedrich Engels afirmam no Manifesto do Partido Comunista de 1848 que “tudo o que é sólido se dissolve no ar, tudo o que é sagrado é profanado, e o homem é finalmente obrigado a enfrentar com serenidade as suas reais condições de vida e as suas relações com a sua espécie.”119 Obviamente esta característica não se aplica à Cidade Genérica onde tudo é calmo e nada se dissolve, as coisas que estão instituídas são imutáveis. A escolha do título por parte de Marshall Berman terá que ver em relação ao Homem Moderno o mesmo que Marx e Engels diziam sobre a burguesia, “a burguesia não pode existir sem constantemente revolucionar os instrumentos de produção, e portanto as relações de produção, e com elas todas as relações da sociedade,” 120 a consciência moderna nasceu nesse sentido em ambientes de constante regeneração. Também segundo Marshall Berman, a rua é o local do início de todas as revoluções e é nessa lógica que Rubén Gallo afirma que “quando as cidades se tornam mais genéricas, também se tornam fortificadas contra revoluções: a sua arquitectura e planos directores são desenhados para manter os seus habitantes isolados e longe das ruas.” 121 Rem Koolhaas na sua descrição da Cidade Genérica tinha previsto a perda do espaço público, numa ideia de que: 118 Marshall Berman (1982), All That Is Solid Melts into Air (New York: Simon & Schuster, inc). “There is a deliberate absence of public space in which people can meet and talk, or simply look at each other and hang around. The great tradition of Latin urbanism, in which city life is organized around a plaza mayor, is explicitly rejected.” 119 Karl Marx and Friedrich Engels (1848), ‘Manifesto of the Communist Party’, Marx/Engels Selected Works (1; Moscow: Progress Publishers, 1969). “All that is solid melts into air, all that is holy is profaned, and man is at last compelled to face with sober senses his real conditions of life and his relations with his kind.” 120 Ibid. “The bourgeoisie cannot exist without constantly revolutionizing the instruments of production, and thereby the relations of production, and with them the whole relations of society.” 121 Rubén Gallo (ed.), The Mexico City Reader (Winsconsin: University of Wisconsin Press, 2009). “As cities become more generic, they also become fortified against revolutions: their architecture and master plans are designed to keep their inhabitants isolated and away from the streets.”
75.Avenida de la Reforma 76.Localização Santa Fé 100m 250m 1000m
9796 O D.F. e a Cidade Genérica A sensação mais dominante da Cidade Genérica é uma calma misteriosa: quanto mais calma for, mais se aproxima do seu estado puro. (...) A serenidade da Cidade Genérica consegue-se através da evacuação do domínio público, como na emergência de um simulacro de incêndio. A superfície urbana agora só alberga o movimento necessário, fundamentalmente os carros; as auto-estradas são uma versão superior das avenidas e praças, ocupando cada vez mais espaço; o seu traçado que aparentemente procura a eficácia automobilística, é de facto surpreendentemente sensual, uma pretensão utilitária que entra no domínio do espaço liso.122 A perda de espaço público em bairros como Santa Fé ou tantos outros é uma realidade não imaginável para quem observe o Centro Histórico da Cidade do México, aí as ruas ainda conservam o seu carácter revolucionário, aí ainda se pode encontrar o que define o homem moderno: Ser moderno é encontrar-nos num ambiente que nos prometa aventura, poder, alegria, crescimento, uma transformação de nós mesmos e do mundo – e, ao mesmo tempo, que ameace destruir tudo o que temos, tudo o que conhecemos, tudo o que somos. Ambientes modernos e experiências rompem com todos os limites da geografia e etnia, classes e nacionalidade, religião e ideologia: neste sentido, a modernidade pode dizer que une toda a espécie humana. Mas é uma união paradoxal, uma união da desunião: leva-nos a todos a um turbilhão de desintegração e renovação perpétua, de luta e contradição, de ambiguidade e angústia. Ser moderno é fazer parte de um universo no qual, como Marx disse, “tudo o que é sólido se dissolve no ar.”123 122 Rem Koolhaas (1995b), ‘The Generic City’, in Rem Koolhaas and Bruce Mau (eds.), S,M,L,XL (New York: Monacelli Press). 123 Marshall Berman (1982), All That Is Solid Melts into Air (New York: Simon & Schuster, inc). “To be modern is to find ourselves in an environment that promises us adventure, power, joy, growth, transformation of ourselves and the world – and, at the same time, that threatens to destroy everything we have, everything we know, everything we are. Modern environments and experiences cut across all boundaries of geography and ethnicity, of class and nationality, of religion and ideology: in this sense, modernity can be said to unite all mankind. But it is paradoxical unity, a unity of disunity: it pours us all into a maelstrom of perpetual disintegration and renewal, of struggle and contradiction, of ambiguity and anguish. To be modern is to be part of a universe in which, as Marx said, “all that is solid melts into air.””
83. Ambulantes 84. Ambulantes
105104 um dia para o outro. O trabalho de Francis Alÿs é muitas vezes feito através de representações delirantes sobre os comportamentos dos habitantes da Cidade do México, como é o caso da obra “Paradoxis of Praxis” de 1997, onde este transporta um bloco de gelo gigante pelas ruas do Centro, para além de muito poucos dos que se cruzam com o performer repararem sequer nesta prática no mínimo estranha, esta é uma representação da vida dos “ambulantes” por parte de Francis Alÿs, “esta acção pode ser vista como uma metáfora, para a luta diária travada pelos ambulantes e outros Mexicanos pobres; em última análise, as suas deslocações diárias são tão descabidas como a performance do artista; no final do dia, depois de comprarem algumas necessidades, estes vão ver os seus escassos rendimentos evaporar – como gelo a derreter – e serão forçados a começar tudo de novo.”130 É no sentido de começar de sempre de novo que entra o paradoxo da praxis, como se o esforço fosse em vão, Rúben Gallo chama-lhe uma “versão pós-moderna da maldição de Sísifo,” onde uma tarefa está desde início condenada ao fracasso. Para Francis Alÿs “Sometimes doing something leads to nothing.” Em 2000 o arquitecto belga Francis Alÿs caminha durante dez minutos com uma arma na mão por ruas repletas de gente e encena a sua própria prisão (Re-enactments), testando todos os limites da cidade. A permissividade perante a sua acção remete a cidade para o estado esquizofrénico pertencente às megalópoles, os Mexicanos agem perante esta performance indiferentes, como se os problemas da cidade não passassem por aí, não é um desvio individual que importará. Na obra Barrenderos (2004), Francis Alÿs organiza-se com os varredores de lixo de forma a juntar todo o lixo recolhido em algumas horas e criar algo de proporções monumentais. A questão da recolha de lixo na Cidade do México 130 Ibid. “This action –a postmodern version of Sisyphus”s curse – can be read as a metaphor for the daily struggle endured by ambulantes and other poor Mexicans; Ultimately, their daily travails are as senseless as the artist”s performance; at the end of the day, after buying a few necessities, they will see their meager earnings evaporate – like melting ice – and be forced to start again at square one. (“Sometimes”, the artist has said in relation to this piece, “making something leads to nothing.”)“
85. Ambulantes 86. Paradox of Praxis
107106 Sintomas da Praxis Urbana é uma questão antiga e ainda não resolvida, o tratamento deste é ainda ineficaz perante a quantidade produzida. O papel do anedótico na obra de Francis Alÿs é de extrema importância pois só através da hiperbolização de exageros é que a obra é conseguida. O tipo de acções que o artista desenvolve na cidade parecem só ser possíveis na Cidade do México. Em que outra grande cidade alguém poderia caminhar dez minutos com uma arma na mão? A forma como Francis Alÿs se encontra e se envolve no seu objecto de trabalho apresenta-se como uma nova forma de “praticar” a cidade, ao contrário do flâneur ou da deriva situacionista, não fazendo parte da multidão interpreta-a nas suas performances tentando identificar-se com esta. Para Rubén Gallo na sua análise sobre as Novas Tendências na Arte Mexicana: “Há um tema comum em todos estes trabalhos: um interesse nas experiências dos residentes mais pobres da Cidade do México, que estão desempregados, trabalham como em vários tipos de trabalhos, vivem apenas para comer, são vítimas de violência, não possuem carros, usam o metro, estudam numa universidade disfuncional e com gente a mais, e arriscam as suas vidas sempre que têm que atravessar uma auto-estrada.”131 É desta forma que a obra de Francis Alÿs pode ser vista e analisada, como um sintoma da praxis urbana mas nunca como solução ou antídoto que resolva questões sociais. Sobre a importância da arte na construção da sociedade urbana, Henri Lefebvre afirma: Necessária como a ciência, mas não suficiente, a arte traz à realização da sociedade urbana a sua longa meditação sobre a vida como drama e fruição. Além disso, e sobretudo, a arte restitui o sentido da obra; oferece múltiplas figuras de tempos e de espaços apropriados: não sofridas e que não foram aceites por uma resignação passiva, mas metamorfoseadas em obra.132 131 Ibid. p.133 “There is a common theme running through all of these works: an interest in the experience of Mexico City”s poorer residents, who are unemployed, work as jacks-of-all-trades, live hand to mouth, are the victims of violence, don”t own cars, use the metro, study at a dysfunctional and overcrowded university, and risk their lives whenever they cross high-speed expressways.” 132 Henri Lefebvre (1968), O Direito à Cidade, trans. Rui Lopo (Lisboa: Letra Livre, 2012). p.108
87. Turista 88. Re-enactmants
109108 Sintomas da Praxis Urbana Este tipo de representações da praxis por si só pouco ajudará na resolução dos problemas mas o interesse por estas temáticas levantará com certeza perguntas sobre o papel do anedótico e a incerteza na construção dos comportamentos da cidade.
CONCLUSÃO A percepção de uma cidade como uma variedade de redes relacionáveis entre si é compreensível para todos, e na verdade, a Cidade do México não é mais que isto, simplesmente estas são testadas diariamente de forma mais intensa e extrema do que em outras cidades. A relação da cidade com o caos e com a tragédia é uma relação próxima, fazendo com que cada indivíduo se relacione da mesma forma com estes agentes. Porém, e apesar de ser a catástrofe que desenvolve o sentido histórico da narrativa, são os habitantes do D.F. que através da praxis a escrevem e a inscrevem, transformando a cidade sempre que deparados com tais eventos. Obviamente, nas megalópoles, devido aos níveis demográficos exagerados, a distância entre os mais ricos e os mais pobres é maior que na
generalidade das cidades e problemas como violência e criminalidade são reflexos da segregação social existente. Contudo, é também nas megalópoles que provavelmente se encontrará maior mobilidade social neste limbo existente entre extremos. No dia a dia, a maior parte dos habitantes da cidade é capaz de cruzar diferentes extractos sociais e dessa forma ter contacto com um maior número de vivências ainda que estas possam passar despercebidas. “A mobilidade social é o corolário da diferenciação. Aumenta muito lentamente, mas os indivíduos têm trajectórias de vida e práticas quotidianas menos determinadas pelas suas origens sociais do que antigamente.” 133 Parece assim que, na Cidade do México, a mobilidade social é realizada através da praxis e que o possível combate à segregação social também dela partirá. A prática social no D.F. já mostrou a sua capacidade de autonomia e independência e em momentos de extrema necessidade foi já solidária. Através desta o poder é questionado e novas lógicas de apropriação do espaço público são encontradas na colectividade: Trata-se de uma superação na e pela prática: trata-se de uma transformação da prática social. O valor de uso, durante séculos subordinado ao valor de troca, poderá recuperar o seu estatuto primordial. Como? Na e pela sociedade urbana, partindo dessa realidade que ainda resiste e conserva para nós a imagem do valor de usos: a cidade. Que a realidade urbana esteja destinada aos “utilizadores” e não mais aos especuladores, aos promotores capitalistas, aos planos técnicos, eis uma versão justam embora ainda ténue desta verdade.134 133 François Ascher (2001), Novos Princípios do Urbanismo, trans. Margarida De Souza Lobo and Ana Valente (2 edn.; Lisboa: Livros Horizonte, 2010).“A mobilidade social é o corolário da diferenciação. Aumenta muito lentamente, mas os indivíduos têm trajectórias de vida e práticas quotidianas menos determinadas pelas suas origens sociais do que antigamente. A sua socialização inicial pelo contacto com o meio dos seus pais perde a sua importância em relação a formas mais alargadas de socialização onde os meios de comunicação, de informação e de deslocação têm um papel cada vez mais significativo.” 134 Henri Lefebvre (1968), O Direito à Cidade, trans. Rui Lopo (Lisboa: Letra Livre, 2012).
113112 Conclusão A praxis urbana tem sido, nos últimos tempos, devido à cada vez mais complexa rede de significados e relações existente na cidade, alvo de grande reflexão no sentido de uma consciência urbanística. Existe actualmente muito mais em jogo e como tal muito mais digno de atenção. A individualidade é agora mais complexa e a urbanidade é construída por mais momentos físicos e virtuais, “A cidade fica densa ao encher-se de fantasias heterogéneas. A urbe programada para funcionar, desenhada em quadrícula, transborda e multiplicase em ficções individuais e colectivas.”135 Apenas a compreensão de toda esta parafernália citadina levará à prática de um urbanismo mais inclusivo e solidário. No caso da capital Mexicana, é inevitável compreender que esta tem “uma condição urbana que não foi precedida por uma teoria, mas que contém evidências suficientes para suportar uma.” 136 O caos não foi premeditado mas as evidências encontradas na praxis social permitem assimilar realidades muitas vezes negligenciadas por arquitectos e urbanistas. A Cidade do México na sua visão planimétrica nunca será um exemplo urbanístico, no entanto, a prática social e a sua capacidade multissensorial possibilita novas direcções neste campo. Numa certa perspectiva, os habitantes do D.F. encontraram através dos seus comportamentos soluções para a vida no caos da cidade que devem ser analisadas por aqueles que a pensam e nela actuam. Estes conciliam história e contemporaneidade mesmo quando todas as políticas e 135 Néstor Canclini (1997), Imaginarios Urbanos (Buenos Aires: Universitaria de Buenos Aires). p.109 “Ante todo, debemos pensar en la ciudad a la vez como lugar para habitar y para ser imaginado. Las ciudades se construyen con casas y parques, calles, autopistas y señales de tránsito. Pero las ciudades se configuran también con imágenes. Pueden ser las de los planos que las inventan y las ordenan. Pero también imaginan el sentido de la vida urbana las novelas, canciones y películas, los relatos de la prensa, la radio y televisión. La ciudad se vuelve densa al cargarse con fantasías heterogéneas. La urbe programada para funcionar, diseñada en cuadrícula, se desborda y se multiplica en ficciones individuales y colectivas.” 136 Enrique Walker (ed.), Lo Ordinario (Barcelona: Gustavo Gili, 2010). “En definitiva, para la arquitectura lo ordinario ha supuesto un instrumento para investigar fenómenos urbanos emergentes y, por extensión, construir una práctica de teoría de la arquitectura basada en aprender del paisaje existente. Su formato ha consistido en la selección de una ciudad aparentemente irreducible – una condición urbana que no ha sido precedida por una teoría, pero que contiene suficiente evidencia como que para sostener una – ye en un viaje y un proyecto de documentación que tienen por resultado el hallazgo o la formulación de nuevas arquitecturas.”
Squeeze’, in Rubén Gallo (ed.), The Mexico City Reader (Wisconsin: University of Wisconsin Press). MONSIVÁIS, Carlos (2005), No Sin Nosotros (México D.F.: Era). NORRA, Pierre (1989), ‘Between Memory and History: Les Lieux du Mémoire’, Representations Special Issue: Memory and Counter Memory, 26California: University of California Press). NOVO, Salvador (1967), Nueva Grandeza Mexicana (Mexico: Era). PAZ, Octavio (1950), El Laberinto de la Soledad (Mexico: Cuadernos Americanos). PORTAS, Nuno (2010) ‘Prefácio’, in François Ascher, Novos Princípios do Urbanismo, trans. Margarida de Souza Lobo e Ana Valente (2 edn.; Lisboa: Livros Horizonte). ROUVILLOIS, Frédéric (2000), Utopia and Totalitarianism in Utopia: The Search for the Ideal Society in the Western World (New York: New York Public Library). SCOTT-BROWN, Denise (2010), ‘Acerca del Pop, La Permisividad y la Planificación’, in Enrique Walker (ed.), Lo Ordinario (Barcelona: Gustavo Gili). SCOTT-BROWN, Denise (1971), ‘Learning from Pop’, in K. Michael Hays (ed.), Architecture Theory Since 1968 (New York: Columbia Books of Architecture). SCOTT-BROWN, Denise, VENTURI, Robert, e IZENOUR, Steven (1972), Learning From Las Vegas (Cambridge: MIT Press). SIMMEL, Georg (1909), ‘Bridge and Door’, Theory, Culture, and Society, Explorations in Critical Social Science (11; New York: SAGE Publications, 1994). SIMMEL, Georg (1903), ‘The Metropolis and Mental Life’, in Donald N. Levine (ed.), Georg Simmel on Individuality and Social Forms (Ilinois: The University of Chicago Press, 1971). SUDJIC, Deyan (2007), ‘Back from the Brink’, in Ricky Burdett e Deyan Sudjic (eds.), Endless City: The Urban Project by the London School of Economics and Deutsche Bank’s Alfred Herrhausen Society (London: Phaidon Press).
121120 VIDLER, Anthony (1992), The Architectural Uncanny (Massachusetts: MIT Press). VILLORO, Juan (1995), ‘La Ciudad de México: Mujer Barbuda’, Luna Córnea, (8; Ciudad de México: Educal). VILLORO, Juan (2009), ‘The Metro’, in Rubén Gallo (ed.), The Mexico City Reader (Wisconsin: University of Wisconsin Press). WALKER, Enrique (ed.), (2010), Lo Ordinario (Barcelona: Gustavo Gili). Nota: Todas as citações traduzidas pelo autor excepto quando devidamente identificado.
Índice de Imagens 1. Zócalo, Centro, Delegación Cuauhtémoc, D.F., 2013 (fotografia: Tiago Ferreirinho) 2. Tanya Billboard, Learning From Las Vegas, 1972 (ed. pelo autor) 3. Guia Psicogeográfico de Paris, Guy Debord, 1955 (ed. pelo autor) 4. Flagrant Délit, Madelon Vriesendrop, Delirious New York, 1975 (ed. pelo autor) 5. André Breton, Diego Rivera, Leon Trotsky, México, 1938 (fotografia: Fritz Bach) | http://www.lajornadajalisco.com.mx/wp-content/ uploads/2012/11/Nepote6. Zócalo, Centro, Delegación Cuauhtémoc, D.F., 2013 (fotografia: Tiago Ferreirinho) 7. Zócalo, Centro, Delegación Cuauhtémoc, D.F., 2013 (fotografia: Tiago Ferreirinho) 8. Colonia Roma, Delagación Cuauhtémoc, D.F., 2013 (fotografia: Tiago Ferreirinho) 9. Centro, Delegación Cuauhtémoc, D.F., 2013 (fotografia: Tiago Ferreirinho) 10. Zócalo, Centro, Delegación Cuauhtémoc, D.F., 2013 (fotografia: Tiago Ferreirinho) 11. Localização Distrito Federal, a partir de Apple Maps, pelo autor 12. Localização Colonia Centro, Delegación Cuauhtémoc, D.F., a partir de Apple Maps, pelo autor 13. Centro, Delegación Cuauhtémoc, 2013 (fotografia: Tiago Ferreirinho) 14. Plaza Garibaldi, Delegación Cuauhtémoc, D.F., 2013 (fotografia: Tiago Ferreirinho) 15. Centro, Delegación Cuauhtémoc, D.F., 2013 (fotografia: Tiago Ferreirinho) 16. Centro, Delegación Cuauhtémoc, D.F., 2013 (fotografia: Tiago
123122 Ferreirinho) 17. Palácio Bellas Artes, Centro, Delegación Cuauhtémoc, D.F., 2013 (fotografia: Tiago Ferreirinho) 18. Mercado de La Ciudadela, Centro, Delegación Cuauhtémoc, D.F., 2013 (fotografia: Tiago Ferreirinho) 19. Frame do Filme The Holy Mountain, 1973, Alejandro Jodorowsky 20. Frame do Filme The Holy Mountain, 1973, Alejandro Jodorowsky 21. Frame do Filme The Holy Mountain, 1973, Alejandro Jodorowsky 22. Distrito Fedral, 2013 (fotografia: Tiago Ferreirinho) 23. Distrito Fedral, 2013 (fotografia: Tiago Ferreirinho) 24. Torre Latinoamericana, Centro, D.F., Arq. Augusto H. Álvarez (fotografia: Tiago Ferreirinho) 25. Monumento a la Revolución, Paseo de La Reforma, Delegación Cuauhtémoc, D.F., 2013 (fotografia: Tiago Ferreirinho) 26. Monumento a la Revolución, D.F., 1985 (ed. pelo autor) | http:// marmorinforma.mx/var/ezflow_site/storage/images/nacional/nacionales/a27-anos-del-sismo-que-devasto-la-ciudad-de-mexico/242848-1-esl-ES/A27-anos-del-sismo-que-devasto-la-Ciudad-de-Mexico_politicamain.jpg 27. Centro, D.F., 1985 (ed. pelo autor) | (http://www.elindependiente. mx/fotos_notas/despues_del_terremoto_2005_20092012.jpg 28. Avenida Insurgentes, Centro, D.F., 1985 (ed. pelo autor) | http://static. adnpolitico.com/media/2012/03/20/terremoto-1985-8.jpg 29. Torre Latinoamericana, D.F., 1985 (ed. pelo autor) | https://brodeschi. files.wordpress.com/2011/09/terremoto_1985_torre_la.jpg 30. Sociedade Civil, Terramoto, D.F., 1985 (ed. pelo autor) | http://static. animalpolitico.com/wp-content/uploads/2013/03/WORKSHOP004.jpg 31. Sociedade Civil, Terramoto. D.F., 1985 (ed. pelo autor) | http://media. impacto.mx/imagenes/large/4ff6b242b67733296400c7be.jpg 31. Sociedade Civil, Terramoto, D.F., 1985 (ed. pelo autor) | http:// ojoscuriosos.com/wp-content/uploads/2013/11/terremoto-1985.jpg
33. Cena quotidiana, Distrito Federal, 2013 (fotografia: Tiago Ferreirinho) 34. Capa de Jornal sobre ChupaCabras (ed. pelo autor) | http:// marcianosmx.com/wp-content/uploads/2014/02/chupacabras-7.jpg 35. Cartaz informativo, SuperBarrio (ed. pelo autor) | http://1.bp.blogspot. com/-avL9WQgnJDg/TiLOwC5cfrI/AAAAAAAAAVE/pjMY5G4-QA4/ s320/salud.jpg 36. Publicidade do Museu Salinas (ed. pelo autor) | https://c1.staticflickr. com/3/2490/4269653323_1d1b60941f.jpg 37. Altar a Santa Muerte (ed. pelo autor) | http://www.planetnext.net/ wp-content/uploads/2011/12/Santa_Muerte_Mexico.jpg 38. Missa a San Judas Tadeo, Centro, D.F. (ed. pelo autor) | http://www. mexplora.com/viajes-mexico/wp-content/uploads/2012/08/sh.jpg 39. Missa a San Judas Tadeo, Centro, D.F. (ed. pelo autor) | http:// fotos.eluniversal.com.mx/web_img/fotogaleria/miles_fieles_arriban_san_ hipolito.jpg 40. Missa a San Judas Tadeo, Centro, D.F. (ed. pelo autor) | http://m.oem. com.mx/dda596e7-bf13-4d76-914b-5b59f54841a8.jpg 41. La Adoración de la Virgen, Diego Rivera, 1913 42. Metro Hidalgo, D.F., 2013 (fotografia: Tiago Ferreirinho) 43. Rede Metropolitana, Distrito Federal, pelo autor 44. Biblioteca Nacional, Ciudad Universitaria, Arq. Juan O’Gorman, Sobreposição Fotográfica, D.F., 2013 (fotografia: Tiago Ferreirinho) 45. Monumento a la Revolución, Sobreposição Fotográfica, D.F., 2013 (fotografia: Tiago Ferreirinho) 46. Biblioteca Nacional, Ciudad Universitaria, D.F., Arq. Juan O’Gorman, 2013 (fotografia: Tiago Ferreirinho) 47. Metro Universidad, D.F. (ed. pelo autor) | http://static.panoramio. com/photos/1920x1280/45817375.jpg 48. Metro Tacubaya, D.F. (ed. pelo autor) | http://gringopotpourri.files.
125124 wordpress.com/2013/08/metro-tacubaya-2.jpg 49. Metro Copilco, D.F. (ed. pelo autor) | http://www.imagen.com.mx/ media/files/imagen_radio/images/metrocopilco.jpg 50. Metro Arbatskaya, Moscovo (fotografia: Catarina Queirós) 51. Metro Arbatskaya, Moscovo (fotografia: Catarina Queirós) 52. Metro Arbatskaya, Moscovo (fotografia: Catarina Queirós) 53. Manifestação Estudantil, Centro, D.F., 1968 | http://images6. alphacoders.com/374/374498.jpg 54. Localização Tlatelolco, a partir de Apple Maps, pelo autor 55. Manifestação Estudantil, Tlatelolco, D.F., 1968 (ed. pelo autor) | http://1.bp.blogspot.com/-Xljx_G5A7tk/T663vf3N47I/AAAAAAAAAC4/- XK1L-ir0_o/s640/24+de+agosto+de+1968.jpg 56. Complexo Habitacional de Tlatelolco, D.F., arq. Mario Pani (ed. pelo autor) | http://ciudadanosenred.com.mx/imagenes/imaboletin14192194.jpeg 57. Altar Dia de Los Muertos, Ciudad Universitaria, D.F., 2013 (fotografia: Tiago Ferreirinho) 58. Metro Pantitlán, D.F. | (ed. pelo autor) http://www.eluniversaldf.mx/ fotos/pantilinea91.JPG 59. Metro Tacubaya, D.F. (ed. pelo autor) | http://www.chilango.com/ media/2010/10/07/atascado.jpg 60. Metro Constitución, D.F. (ed. pelo autor) | http://www.eluniversaldf. mx/fotos/constitucion.JPG 61. Cena Quotidiana do Metro, D.F. (ed. pelo autor) | http:// aristeguinoticias.com/wp-content/uploads/2014/06/fig2.jpg 62. Metro Pantitlán, D.F. (ed. pelo autor) | http://m3m0x.files.wordpress. com/2009/11/dsc01647.jpg 63. Mercado de la Merced, Metro Merced, D.F. (fotografia: Tiago Ferreirinho) 64. Mercado de la Merced, Metro Merced, D.F. (fotografia: Tiago Ferreirinho)
65. Segundo Piso, D.F., 2013 (fotografia: Tiago Ferreirinho) 66. Mapa Segundo Piso, a partir de Apple Maps, pelo autor 67. Segundo Piso, D.F. (ed. pelo autor) | http://www.mexicanbusinessweb. mx/wp-content/uploads/2014/04/segundo_piso.jpg 68. Segundo Piso, D.F. (ed. pelo autor) | http://mw2.google.com/mwpanoramio/photos/medium/681921.jpg 69. Segundo Piso, D.F. (ed. pelo autor) | http://static.panoramio.com/ photos/large/31220973.jpg 70. Segundo Piso, D.F. (ed. pelo autor) | http://static.animalpolitico.com/ wp-content/uploads/2012/06/Segundo_Piso-2.jpg 71. Segundo Piso, D.F. (ed. pelo autor) | http://upload.wikimedia.org/ wikipedia/commons/0/06/ 72. Segundo Piso, D.F. (ed. pelo autor) | http://www.imagen.com.mx/ media/files/imagen_radio/images/peri.jpg 73. Segundo Piso, D.F. (ed. pelo autor) | http://www.publimetro.com. mx/noticias/segundos-pisos-de-marcelo-mas-baratos-que-los-de-amlo/ milp!Xf9XyVmBtXzzA/periferico-015.jpg 74. Distrito Federal, 2013 (fotografia: Tiago Ferreirinho) 75. Passeo de la Reforma, D.F., 2013 (fotografia: Tiago Ferreirinho) 76. Localização Santa Fé, a partir de Apple Maps, pelo autor 77. Skyline Santa Fé, D.F. (ed. pelo autor) | http://www.esacademic.com/ pictures/eswiki/72/HorizonteStaFe.JPG 78. Santa Fé, D.F. (ed. pelo autor) | http://ww1.prweb.com/ prfiles/2013/02/20/10451363/Santa-Fe-DF.jpg 79. Santa Fé, D.F. (ed. pelo autor) | http://static.obrasweb.mx/ media/2011/09/12/santa-fe.jpg 80. Santa Fé, D.F. (ed. pelo autor) | https://static-secure.guim.co.uk/sysimages/Travel/Pix/gallery/2013/2/8/1360339030268/Overview-of-MexicoCity-001.jpg 81. Circuito Interior, D.F., 2013 (fotografia: Tiago Ferreirinho)
127126 82. Ambulantes I e II, Cidade do México, Francis Alÿs, 2002 (ed. pelo autor) 83. Ambulantes I e II, Cidade do México, Francis Alÿs, 2002 84. Ambulantes I e II, Cidade do México, Francis Alÿs, 2002 85. Ambulantes I e II, Cidade do México, Francis Alÿs, 2002 86. Paradox of Praxis (Sometimes doing something leads to nothing), Cidade do México, Francis Alÿs, 1997 87. Turista, Catedral Metropolitana, Francis Alÿs, 1994 88. Re-enactmants, Cidade do México, Francis Alÿs, 2000 89. Torre Latinoamericana, Centro, D.F., Arq. Augusto H. Álvarez, 2013 (fotografia: Tiago Ferreirinho)