Morto em combate : a figura do soldado em Legende vom toten Soldaten, de Bertolt Brecht, e O menino da sua mãe, de Fernando Pessoa
Abstract
Não só correspondências no modo literário, na configuração temático-motívica, ou na organização estrutural, também a semelhança do seu estatuto nos respetivos contextos de receção aproximam Legende vom toten Soldaten e O menino de sua mãe. Difere, obviamente, o contexto vivencial e a orientação ideológica dos dois autores. Todavia, quer as marcas paralelísticas que acercam, quer os traços contrapontísticos que distanciam o poema alemão e o poema em língua portuguesa convidam à abordagem comparatística dos dois textos, suscetível de evidenciar o diálogo estético-literário que entre ambos se estabelece e a problematização histórico-cultural que ambos sustentam.
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N.º 31 – 12/ 2014 | 43-62 – ISSN 1645-1112 Morto em combate: a figura do soldado em Legende vom toten Soldaten, de Bertolt Brecht, e O menino da sua mãe, de Fernando Pessoa Ana Isabel Boura Universidade do Porto - CITCEM Resumo: Não só correspondências no modo literário, na configuração temático-motívica, ou na organização estrutural, também a semelhança do seu estatuto nos respetivos contextos de receção aproximam Legende vom toten Soldaten e O menino de sua mãe. Difere, obviamente, o contexto vivencial e a orientação ideológica dos dois autores. Todavia, quer as marcas paralelísticas que acercam, quer os traços contrapontísticos que distanciam o poema alemão e o poema em língua portuguesa convidam à abordagem comparatística dos dois textos, suscetível de evidenciar o diálogo estético-literário que entre ambos se estabelece e a problematização histórico-cultural que ambos sustentam. Palavras-chave: Bertolt Brecht, Fernando Pessoa, Lírica de guerra, Figura do soldado Submeter Legende vom toten Soldaten [Lenda do soldado morto] 1 , de Bertolt Brecht, e O menino da sua mãe, de Fernando Pessoa, a uma abordagem comparatística induz, decerto, alguma perplexidade, considerando, antes de mais, o dissemelhante perfil dos dois autores, um atraído, já na adolescência, por problemáticas de escopo político-social, que lhe moldaram a cosmovisão anti-burguesa e lhe estimularam o gesto interventivo, o outro 43
Ana Isabel Boura N.º 31 – 12/ 2014 | 43-62 – ISSN 1645-1112 deslumbrado, desde muito cedo, pelas dinâmicas identitárias que lhe desvendaram a fragmentação e a multiplicidade do eu. Acresce a impossibilidade de datar com exatidão os dois poemas. Situado por Brecht em 1917 (Brecht 1993: 138) – indicador contradito pelo texto, pela dedicatória e pela pretensa fundamentação histórica do poema, que apontam para o ano de 1918, se não de 1919) –, Legende vom toten Soldaten veio a público em 1922, apenso ao quinto ato do drama Trommeln in der Nacht [Tambores na noite]; em 1926, incluído no volume de edição exclusiva Taschenpostille [Breviário de bolso]; no ano seguinte, a rematar a Fünfte Lektion [Quinta lição] da coletânea Hauspostille [Breviário doméstico]; e em 1934, a abrir o ciclo Lieder, Gedichte, Chöre [Canções, poemas, coros]. Todavia, já antes de ter sido patenteado ao grande público teatral e de haver merecido versão tipográfica, Legende vom toten Soldaten fora disponibilizado, pela voz de atores ou do próprio autor, 2 a círculos culturais mais restritos, justificando-se, também assim, as subtis variantes lexemáticas, morfológicas, sintáticas, ortográficas e de pontuação que distinguem as referidas versões editadas. 3 Diferentemente do poeta alemão, Pessoa furtou-se à fixação cronológica de O menino da sua mãe. Originalmente publicado em maio de 1926, no número 1 da 3ª série da revista mensal Contemporânea, o poema veio de novo a público na edição de 11 de novembro de 1928 do jornal semanário O Notícias Ilustrado, e em 1930, integrado no Cancioneiro do I Salão dos Independentes (Zenith 2006: 480). 4 É certo que Legende vom toten Soldaten e O menino da sua mãe se assemelham no grau de reconhecimento público – ambos figuram entre as obras mais conhecidas dos respetivos autores – e se aproximam no alegado pretexto compositivo: o poema alemão foi apresentado por Brecht como homenagem ao soldado de infantaria Christian Grumbeis, pretensamente nascido em 11 de abril de 1897, na cidade alemã de Aichach, e morto na Semana Santa de 1918, na Rússia meridional; 5 o texto português foi inspirado, conforme declaração de Pessoa a Carlos Queirós, sobrinho de Ofélia Queirós e seu amigo, por uma litografia avistada em pensão onde jantara (Zenith 2006: 480). Refira-se, a este propósito, que a crítica brechtiana vincula insistentemente Legende vom toten Soldaten ao desenho satírico de Georg Grosz, com data de 1918 e vindo a lume em 44
Morto em combate: a figura do soldado em Legende vom toten Soldaten, de Bertolt Brecht, e O menino da sua mãe, de Fernando Pessoa N.º 31 – 12/ 2014 | 43-62 – ISSN 1645-1112 1919, sob o título Die Gesundbeter, 6 no número 3 da revista berlinense Die Pleite, que delineia uma cena interior de diagnóstico clínico: na presença de uma comissão composta por membros de alta patente militar, a que se juntam um membro das forças policiais e um soldado-enfermeiro, um médico declara, durante a examinação, um esqueleto humano apto para o serviço militar, cumprido supostamente em hoste alemã, a avaliar pelo capacete de modelo prussiano ostentado pela sentinela policial. Não deve, porém, excluir-se a possibilidade de a caricatura do artista alemão ter origem posterior à criação do poema brechtiano, ou, como pretende Rüdiger Bernhardt, de as duas obras haverem sido concebidas sem influência recíproca (Bernhardt 2012: 61). Do mesmo modo, não pode escamotear-se a probabilidade, aventada por Edgar Marsch, ou Fritz Hennenberg, de que a dedicatória ao soldado suábio constitua mero ato de fingimento poético (Marsch 1974: 141; Hennenberg 1985: 363). 7 Mais pertinente para um cotejo dos dois poemas será a correspondência isotópica de Legende vom toten Soldaten e O menino da sua mãe: ambos convocam o tema da guerra; ambos focam privilegiadamente a figura do soldado morto em combate. E, contudo, já o título distancia os dois poemas: se Bertolt Brecht cita literalmente o motivo do soldado morto, insinuando, pela designação subgenérica Legende (lenda de mártires e santos), uma experiência de bravura, sofrimento e redenção, Fernando Pessoa referencia uma relação de afinidade consanguínea, evocando, pelo substantivo masculino e pela locução genitiva, um território de salvaguarda e aconchego familiares. É verdade que, logo na estrofe inicial do texto pessoano, o sujeito poético faz assomar, com crassa frontalidade, o motivo da vitimização fatal, ao encadear as imagens do duplo alvejamento, da perfuração transversal e da falência orgânica; não fica, porém, de imediato evidente no poema português a motivação bélica do sucumbimento. Só na estrofe seguinte, a referência à indumentária militar permite inferir o estatuto e a circunstância da personagem focalizada. Pelo contrário, a primeira estrofe do texto alemão entrelaça explicitamente os motivos da guerra e da morte, apresentando a claudicação da figura titular como ato apoteótico de incondicional heroísmo. 45
Ana Isabel Boura N.º 31 – 12/ 2014 | 43-62 – ISSN 1645-1112 Distinta, se manifesta, igualmente, a configuração temporal em Legende vom toten Soldaten e O menino da sua mãe. Assim, os eventos diegéticos apresentados no poema de Brecht distribuem-se por um segmento temporal relativamente demarcado: à morte do soldado alemão, na estação primaveril, sucedem, na subsequente fase estival, a exumação do cadáver, para avaliação clínica da sua aptidão militar, e o transporte do defunto para o palco de batalha. De função expositiva, as três primeiras quadras de Legende vom toten Soldaten sumariam eliticamente os acontecimentos ocorridos entre a morte do soldado e a deslocação da comissão médico-militar ao seu túmulo. Termo da história prévia, a terceira estrofe marca concomitantemente o início da ação, proporcionando o sujeito lírico, nas dezasseis quadras seguintes, o relato da exumação, apreciação e remoção do cadáver. Ao leitor fica claro que as tarefas de desenterro e examinação corporal se realizam em período noturno, enquanto o trajeto de retorno à base militar ainda se desenrola ao alvorecer. Não que aos informantes temporais de incidência atmosférica se juntem em Legende vom toten Soldaten indicadores cronológicos precisos. Apenas o conhecimento pré-textual e extratextual permite ao recetor vislumbrar no atributo numérico anteposto à designação da estação do ano que remata o verso introdutório (im fünften Lenz (Brecht 1988: 112) [na quinta primavera] uma alusão à I Guerra Mundial. Para o reforço de tal ilação concorre, na segunda estrofe, o substantivo axionímico Kaiser (Brecht 1988: 112) [imperador], que, em conjugação com o motivo da mágoa imperial pela baixa do soldado e com o motivo da morte heroica, remete para a figura histórica de Wilhelm II. Surpreende, ainda assim, a locução im fünften Lenz (Brecht 1988: 112), considerando que a Grande Guerra eclodiu no verão de 1914. Significativamente, Brecht preferiu, na versão editada em 1934, a expressão im vierten Lenz (Brecht, 1988: 199) [na quarta primavera], contrariando, pela opção de verosimilhança, o anterior efeito de estranhamento. Não assim em O menino da sua mãe, que não identifica o momento da baixa militar, deixando apenas supor, pelo motivo do arrefecimento corporal, um curto lapso de tempo entre o acontecimento diegético e a ocorrência do relato autoral. À ausência de informantes cronológicos junta-se a imprecisão do indicador atmosférico: o motivo da brisa amena não 46
Morto em combate: a figura do soldado em Legende vom toten Soldaten, de Bertolt Brecht, e O menino da sua mãe, de Fernando Pessoa N.º 31 – 12/ 2014 | 43-62 – ISSN 1645-1112 possibilita rigorosa identificação temporal. Tão pouco logra o leitor definir a amplitude das analepses que sustentam a referência a objetos oferecidos ao jovem soldado pela mãe e pela velha ama, pois que, se a integridade da cigarreira, ou a brancura do lenço possibilitam a presunção de parco uso, tal suposição não permite, ainda assim, a inferência de uma oferta recente. Também na composição espacial se distinguem Legende vom toten Soldaten e O menino da sua mãe. Assoma no poema de Bertolt Brecht, primeiro, um cenário funéreo, anunciado, no termo da exposição, pelo motivo das sepulturas e esquematicamente delineado, nas estrofes que relatam o início da ação: à metáfora Gottesacker (Brecht 1988: 112) [campo de cultivo divino] juntam-se, em notação metonímica, os motivos da escavação e da pá sagrada. Com o palco heterotópico do desenterramento e da peritagem contrasta a área atravessada pela comitiva militar no seu percurso regressivo: em vez da estreiteza circunscrita e da quietude contristada que tipificam o recinto fúnebre, avultam a amplidão heterogénea do troço percorrido, que alterna zonas rurais e áreas urbanas, e a agitação eufórica dos agregados populacionais. Não que o eu poético proceda à caracterização paisagística dos espaços interlocal e local. Pelo contrário, o sujeito lírico assinala reiteradamente o dinamismo cinésico e sensorial do coletivo multitudinário que emoldura a passagem da comitiva institucional, combinando notações de gestualidade descomedida e movimento enérgico com exuberantes imagens óticas, acústicas e olfativas e prescindindo, quase por completo, de informantes topográficos. Só os lexemas generalizantes Chaussee (Brecht 1988: 114) [estrada], Feld (Brecht 1988: 114) [campo], Dörfer (Brecht 1988: 114) [aldeias] e Bäume (Brecht 1988: 114) [árvores] aludem ao cenário territorial da travessia militar. Na constelação dual de espaço físico e espaço humano, como na tensão contrapontística de espaço sepulcral e espaço de gáudio popular, Legende vom toten Soldaten alia os motivos do termo existencial e da exuberância vital. Fica, todavia, ausente do poema brechtiano o palco de guerra, apenas proleticamente instaurado como meta da deslocação militar. Ritmado pelo compasso marcial que, a abrir o desfile, seduz e adestra os 47
Ana Isabel Boura N.º 31 – 12/ 2014 | 43-62 – ISSN 1645-1112 circunstantes, o cortejo militar reconduz o soldado, em reposta mobilização, a nova intervenção bélica, com previsível desfecho de mérito acrescido, porquanto, na segunda morte heroica, o soldado, relembrado dos códigos institucionais, não violará, porventura, o imperativo do prazo oportuno. À concertação tétrica que sustenta a exumação do cadáver, como à dissonância vocal e gestual que preenche o trajeto da comitiva militar contrapõe-se a serena harmonia da moldura atmosférica. Indiferente ao desregramento de actantes e figurantes, a noite não se fecha em disfórica negrura, antes se abre à claridade da lua cheia e à luminosidade cintilante das estrelas, apresentando-se azul e bela (blau und schön, Brecht 1988: 113). Reciprocamente, a lua e as estrelas ancoram-se na limpidez noturna, para mitigarem, com brilho cósmico, a escuridão humana. Sobranceiras, lua e estrelas testemunham a frieza alienatória da guerra, até que o cromatismo tépido da aurora esparja promessas de regeneração. Bem diferente o quadro cénico de O menino da sua mãe, que o sujeito lírico delineia na estrofe inicial, antes de orientar o foco perspetívico para a personagem central: uma planície banhada por suave aragem, mas sem ocupação humana – apenas um corpo abatido por arma de fogo se avista na planura. Adequado, pela abertura, extensão e geomorfologia, a exercícios militares, para que os motivos do ferimento por balas e da farda ensanguentada parecem remeter, o plaino deixa supor, no seu despovoamento, manobras de retirada após batalha campal. Ao recinto natural esboçado nos versos de abertura contrapõe-se, na última quintilha, o espaço doméstico-familiar, signo de ternura, amparo e proteção: no lar distante, se entretecem matizes de relação consanguínea e afinidade eletiva, se esbatem incongruências de vinculação biológica e não biológica, se convoca, em crença uníssona, o transcendente, na ilusão de juntar à oferta da cigarreira e do lenço a oferenda da providência divina. E, contudo, a casa parental acentua pela lonjura – que o heterodeítico e a anteposição do adjunto adverbial enfatizam –, como o plaino realça pela vastidão, pela abertura e pelo esvaziamento, a solitude e o desaconchego do soldado morto. Ponto de 48
Morto em combate: a figura do soldado em Legende vom toten Soldaten, de Bertolt Brecht, e O menino da sua mãe, de Fernando Pessoa N.º 31 – 12/ 2014 | 43-62 – ISSN 1645-1112 partida na trajetória sem retorno do jovem soldado, o círculo familiar responde ao estertor do conflito bélico com a harmonia da devoção religiosa, sem intuir que o membro ausente jaz em mudez sepulcral. E na simultaneidade de espaços cénicos, que traveja a cena dupla, se modula o truncamento do corpo familiar. Na composição da sintagmática diegética divergem ainda Legende vom toten Soldaten e O menino da sua mãe. De facto, enquanto a voz poética do texto alemão apresenta ao leitor uma ação de progressão linear e de lógica concatenação, dinamicamente suportada pela personagem titular, principal motivadora e recetora dos eventos, o sujeito lírico do poema português faculta ao recetor uma situação instantânea, o estádio final de uma história prévia elidida, a imagem estática de um protagonista que invisivelmente arrefece, para só depois apodrecer. Diferencia-se assim também a constelação figural de Legende vom toten Soldaten e O menino da sua mãe: com a movimentação extravagante do cadáver exumado e a exuberância cinésica e sonora dos circunstantes urbanos contrasta a imobilidade do soldado desacompanhado e a contenção gestual e vocal da família em oração. Por entre a massa anónima move, em Legende vom toten Soldaten, a comitiva militar o cadáver, dissimulando-lhe as marcas orgânicas de degenerescência, para melhor hastear a supremacia do poder institucional. Amortalhado nas cores da bandeira imperial, precedido por clérigo a espargir fragância sacra e por alto-burguês em traje cerimonioso, escorado por tropas socorristas e adornado por mulheres prostituídas, o cadáver centraliza um cortejo que desvirtua a matriz ancestral do rito fúnebre e profana o defunto. De facto, condenando, por ágil inversão valorativa, a morte heroica do combatente como delito de cobarde deserção, a comissão de recrutamento militar sujeita o cadáver a uma rota humilhante que o afasta do recinto funerário e o confronta com a alienação popular. Punição corretiva, ao invés de homenagem glorificante, a remoção e mumificação do defunto furtam-lhe a derradeira dignidade humana: desfigurado pela putrefação, manipulado pelos oficiais e ignorado pelos espetadores, o cadáver em movimento já não evoca coreografias de excelência militar, antes esboça figurações de degenerada 49
Ana Isabel Boura N.º 31 – 12/ 2014 | 43-62 – ISSN 1645-1112 animalidade – em vez da postura firme e do andar uniforme, a deslocação cambaleante e o arremesso descontrolado das pernas. 8 Diferente, conquanto não menos aviltante, tratamento aufere o soldado recémabatido em O menino da sua mãe: enjeitado ou esquecido pelos companheiros em fuga, revela sinais de descompostura na posição corporal – tombado, de braços estendidos – e no traje – maculado de sangue, com o lenço a descair do bolso –, mas conserva ainda os traços eufóricos do seu perfil nórdico – a pele alva, o cabelo louro – e as marcas felizes da sua pertença familiar e da sua integração doméstica – a cigarreira oferecida pela mãe, o lenço ofertado pela criada –, aparentando, na orientação ascendente do seu olhar fixo, incondicional fervor religioso. Signo de inoperância e vulnerabilidade, pela lassidão do gesto, pela posição jazente e pelo esvaziamento hemorrágico, a imagem do soldado morto emblematiza a impotência do indivíduo ante a perversidade existencial: alvo, mesmo quando distante, da dedicação familiar-doméstica – que material e espiritualmente zela pela sua sustentabilidade –, o soldado sucumbe, em remoto palco de confrontação, à ofensiva anónima que lhe viola a dignidade e lhe saqueia a existência, sem lhe conferir a distinção de morte heróica. Nem as oferendas maternais, sacralmente depositadas, quais amuletos, nos interstícios da farda militar, lhe impediram a claudicação; nem a aragem tépida obsta ao sucumbimento vital. E tão ironicamente inútil como a cigarreira intacta, o lenço imaculado, ou a brisa amena se revela o olhar que, langue / E cego (Pessoa, 1926: 47), só paradoxalmente fita (Pessoa, 1926: 47) o transcendente providencial. No implacável abandono – que a hipálage acentua –, o cadáver irreversivelmente inerte segue o trajeto inexorável da decomposição que o há de desfigurar e desagregar, assim o despojando da identidade. No final do poema, o sujeito lírico recupera justamente o motivo inicial da prostração, para substituir a imagem do esfriamento corporal pela notação da degeneração orgânica, que realça através de dupla virgulação, sobrepondo à aparente ciclicidade textual a inescapável evolução natural. Não permanece, todavia, sobre o protagonista o foco perspetívico: citando literalmente o título e o final da terceira estrofe, o verso que remata a última quintilha 50
Morto em combate: a figura do soldado em Legende vom toten Soldaten, de Bertolt Brecht, e O menino da sua mãe, de Fernando Pessoa N.º 31 – 12/ 2014 | 43-62 – ISSN 1645-1112 retoma, em jeito de refrão, o vínculo filho – mãe, concedendo ao lexema mãe o estatuto de derradeiro e, portanto, sobressaliente elemento textual. Motivo frequente da lírica de guerra, a figura materna assoma, também em O menino da sua mãe, como signo de aconchego parental, objeto da saudade filial e sujeito sofredor. Destaca-se, porém, o texto pessoano na modelização do sofrimento materno. Com efeito, por um lado, o estatuto de progenitora de um só ser exacerbara na mãe o sentimento de dedicação, levando-a, em segundo ato batismal, não apenas a testemunhar a sua resiliência afetiva, mas também a enunciar a sua pretensão de posse exclusiva, deste modo mais a vulnerabilizando ao impacto das circunstâncias existenciais do filho. Por outro lado, à figura da mãe junta-se outra personagem de multissecular tradição literária: a criada velha, que acumula o papel de antiga ama. Em dupla ocorrência, o motivo do amor materno duplica a manifestação de desvelo – à cigarreira agrega-se o lenço zelosamente cuidado – e intensifica a experiência do sofrimento: mãe biológica e mãe social partilham a angústia da espera pelo filho combatente, como compartilham a prece benfazeja, e hão de comungar na dor dilacerante pela perda irremediável do seu menino. Não surpreende pois que o protagonista seja, no paratexto, metonimicamente anunciado pela indicação do seu estatuto filial; nem espanta que quinze dos trinta versos se refiram à intervenção da(s) figura(s) materna(s); ou que os dois momentos textuais de discurso citado se reportem à fala da(s) mãe(s). Com a relevância do motivo maternal combina, aliás, a predominância da rima feminina e o facto de as duas únicas ocorrências de rima masculina se ficarem a dever à intenção do eu poético de rematar dois versos do poema com o lexema monossilábico mãe. Que a expressão titular surja entre aspas na terceira, mas não na sexta, estrofe obedece, sem dúvida, à circunstância de só no primeiro caso se sinalizar uma réplica figural, mas adequa-se, concomitantemente, à situação do protagonista, que, pela morte em combate, perde a condição de filho, retirando às duas figuras femininas o estatuto materno. Interventiva, ainda que sem prescindir do estatuto heterodiegético que lhe facilita o anonimato, a voz narrativa de Legende vom toten Soldaten desmascara, com implacável ironia, o impulso hegemónico dos dirigentes políticos, a cumplicidade interesseira das 51
Ana Isabel Boura N.º 31 – 12/ 2014 | 43-62 – ISSN 1645-1112 Bibliografia Bernhardt, Rüdiger (2012), Erläuterungen zu Bertolt Brecht. Das lyrische Schaffen, Hollfeld, C. Bange Verlag. Brecht, Bertolt (1988), Werke. Große kommentierte Berliner und Frankfurter Ausgabe, Band 11: Gedichte I. Sammlungen 1918-1939, bearbeitet von Jan Knopf e Gabriele Knopf, Berlin, Weimar, Aufbau-Verlag; Frankfurt am Main, Suhrkamp Verlag. -- (1989), Werke. Große kommentierte Berliner und Frankfurter Ausgabe, Band 1: Stücke I, bearbeitet von Hermann Kähler, Berlin, Weimar, Aufbau-Verlag; Frankfurt am Main, Suhrkamp Verlag. -- (1993), Werke. Große kommentierte Berliner und Frankfurter Ausgabe, Band 22: Schriften II. Teil1, bearbeitet von Inge Gellert und Werner Hecht, Berlin, Weimar, Aufbau-Verlag; Frankfurt am Main, Suhrkamp Verlag. Hennenberg, Fritz (1985), Brecht-Liederbuch, Frankfurt am Main, Suhrkamp Taschenbuch Verlag. Hesterberg, Trude (1971), Was ich noch sagen wollte. Autobiographische Aufzeichnungen, Berlin, Henschelverlag. Knopf, Jan (1984), Brecht-Handbuch. Lyrik, Prosa, Schriften. Eine Ästhetik der Widesprüche, Stuttgart, Weimar, Metzler Verlag. Marsch, Edgar (1974), Brecht-Kommentar zum lyrischen Werk, München, Winkler Verlag. Pessoa, Fernando (1926), “O menino da sua mãe”, Contemporânea, nº1, 3ª série, maio, 47. -- (1930), “O menino da sua mãe”, in Cancioneiro. I Salão dos Independentes, Lisboa, Imprensa Libanio da Silva, 21. Quadros, António (1986) (org.), Portugal, Sebastianismo e Quinto Império. Obra em prosa de Fernando Pessoa, Lisboa, Publicações Europa-América. 58
Morto em combate: a figura do soldado em Legende vom toten Soldaten, de Bertolt Brecht, e O menino da sua mãe, de Fernando Pessoa N.º 31 – 12/ 2014 | 43-62 – ISSN 1645-1112 Schumann, Klaus (1974), Der Lyriker Bertolt Brecht 1913-1933, zweite Auflage, München, Deutscher Taschenbuch Verlag. Schumann, Klaus (1977), Untersuchungen zur Lyrik Brechts. Themen, Formen, Weiterungen, Berlin / Weimar, Aufbau-Verlag. Silva, Manuela Parreira, Ana Maria Freitas, Madalena Dine (2005) (orgs.), Fernando, Fernando. Poesia 1918-1930, Lisboa, Assírio & Alvim. Simões, João Gaspar (1945) (org.), Poesias de Fernando Pessoa, 3ª edição, Lisboa, Editorial Ática. Zenith, Richard (2006) (org.), Obra Essencial de Fernando Pessoa. Poesia do Eu, Lisboa, Assírio e Alvim. Ana Isabel Gouveia Boura é Professora Auxiliar da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Doutorou-se em Letras, na Especialidade de Literatura Alemã, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. É membro do Centro de Investigação Transdisciplinar Cultura Espaço e Memória (CITCEM) e da Associação Portuguesa de Estudos Germanísticos (APEG) e colaboradora do Centro de Investigação em Estudos Germanísticos (CIEG). Tem lecionado diversas disciplinas dos Cursos de Licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas, Línguas, Literaturas e Culturas, Estudos Europeus, Línguas Aplicadas e Línguas e Relações Internacionais, bem como do Curso de Mestrado em Estudos Alemães, do Curso de Mestrado em Ensino do Inglês e do Alemão / Espanhol / Francês no Ensino Básico e do Curso de Doutoramento em Estudos Alemães da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. As suas áreas preferenciais de investigação científica são os Estudos sobre Espaço, os Estudos sobre a Família, as Literaturas de Expressão Alemã e Portuguesa do Século XIX e a Literatura Infanto-Juvenil. 59
Ana Isabel Boura N.º 31 – 12/ 2014 | 43-62 – ISSN 1645-1112 NOTAS 1 As propostas tradutórias apresentadas neste artigo são da minha responsabilidade. 2 Em janeiro de 1922, Brecht apresentou, à guitarra, o poema no cabaré literário berlinense Wilde Bühne (Hesterberg, 1971, 108). 3 Ancoro a minha abordagem crítica na versão inserida em Hauspostille – preferencialmente utilizada pela crítica brechtiana –, não sem assinalar, quando pertinente, as opções desviantes que a demarcam das versões integradas em Trommeln in der Nacht e em Lieder, Gedichte, Chöre. 4 Note-se que à revista lisbonense confiara Pessoa, já em 1922, O banqueiro anarquista, António Botto e o ideal estético em Portugal, Mar português, Natal e Soneto já antigo, cedendo, no ano seguinte, Trois chansons mortes, Lisbon revisited, Carta ao autor de ‘Sáchá’ e Spell, para disponibilizar em 1926, além de O menino da sua mãe, Lisbon revisited e Rubiyat. Alicerço o meu estudo analítico-interpretativo na versão dada à estampa em 1926, também preferida por João Gaspar Simões (Simões 1945: 219-220) e Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas e Madalena Dine (Silva 2005: 252). Richard Zenith segue preferencialmente a versão editada em 1930 (Zenith 2006: 180-181). Apontarei, quando oportuno, os raros, porém significativos desvios de morfologia e pontuação que apartam as duas versões. 5 A dedicatória surge, primeiro, a rematar o poema integrado em Trommeln in der Nacht (Brecht 1989: 232) e, depois, no texto introdutório de Hauspostille, intitulado Anleitung zum Gebrauch der einzelnen Lektionen (Brecht 1988: 39-40) [Orientação para o uso de cada uma das lições], não coincidindo, todavia, os dois passos textuais: enquanto, na edição de 1922, Brecht aduz aos dados pessoais do homenageado (nome, datas de nascimento e morte, local do falecimento) o comentário laudatório Friede seiner Asche! Er hat durchgehalten! (Brecht 1989: 232) [Paz às suas cinzas. Ele manteve-se firme!], na edição de 1927, o autor acrescenta à identificação do homenageado o local de nascimento, mas elide a declaração encomiástica. 6 Sem termo correspondente na língua portuguesa, o substantivo Gesundbeter referencia aqueles que, através da oração e de práticas religiosas afins, intentam diligenciar a cura de enfermos. 7 Nos registos de nascimento de Aichach não consta, como afirma Hennenberg, o nome do referido soldado (Hennenberg 1985: 363). Contrariamente, Klaus Schuhmann argumenta que a morte em combate do homenageado, apenas um ano mais velho do que Brecht, terá despertado a empatia do autor e, assim, constituído ensejo concreto da criação poética (Schuhmann 1974: 67). 8 Ganha aqui acrescida pertinência a suposição de que a dedicatória de Legende vom toten Soldaten ao soldado suábio não assente em facto verídico, antes constitua artifício estético, porquanto, se é incontestável que 60
Morto em combate: a figura do soldado em Legende vom toten Soldaten, de Bertolt Brecht, e O menino da sua mãe, de Fernando Pessoa N.º 31 – 12/ 2014 | 43-62 – ISSN 1645-1112 Brecht, poupado embora à ação em campo de batalha, porque alistado tardiamente e mantido como enfermeiro no hospital militar da sua cidade natal, não ficou imune aos padecimentos da guerra, tendo, aliás, testemunhado o ferimento de amigos e sofrido a morte de companheiros de escola e de tertúlia, é também inegável que a conotação religiosa do antropónimo Christian [Cristiano] e a ressonância teológica do informante temporal Karwoche [Semana Santa] se ajustam à designação titular Legende, favorecendo a iniludível alusão parodística do poema brechtiano ao motivo da Ressurreição. 9 Na exuberância festiva dos circunstantes, Brecht convoca desilusionisticamente o entusiasmo bélico partilhado, em agosto de 1914, pelos soldados alemães que, em longas colunas, partiam para a frente de batalha e pelos espectadores que, em aglomeração claustrofóbica, lhes demonstravam o apoio patriótico. 10 Em escrito de 1935, Brecht alude não apenas à mobilização, na primavera de 1918, de cidadãos do sexo masculino com idade compreendida entre os dezassete e os cinquenta anos, mas igualmente ao terror das famílias afetadas pela convocação militar, bem expresso no alegado comentário Man gräbt schon die Toten aus für den Kriegsdienst (Brecht 1993: 139) [Já se desenterra os mortos para o serviço militar]. 11 No mesmo sentido, a curvatura, aparentemente reverenciadora, das árvores que ladeiam o trajeto convoca imagens de desequilíbrio e abatimento, enquanto o brilho, potencialmente homenageante, da lua cheia introduz uma nota satânica de perdição apocalítica. 12 A Legende vom toten Soldaten se ficou em parte a dever a demorada edição de Hauspostille (Marsch 1974: 142; Schuhmann 1977: 23-24; Knopf 1984: 21, 30). 13 A apresentação, por Brecht, de Legende vom toten Soldaten, em 1922, no Wilde Bühne, terminou com escandaloso agastamento dos espectadores (Hesterberg 1971: 108). 14 Legende vom toten Soldaten propiciou, em 1923, a inclusão do nome de Brecht na lista negra dos NacionalSocialistas e, em 1935, a expatriação do autor (Knopf 1984: 21, 82; Hennenberg 1985: 364; Knopf 1986: 17, 18). 15 Na versão de 1922, integrada em Trommeln in der Nacht, o poema intitula-se Die Ballade des toten Soldaten (Brecht 1988: 230). 16 Embora apresentado a seguir ao quinto ato de Trommeln in der Nacht, o poema surge já referenciado na didascália preambular do quarto ato: depois de designar o cenário, a rubrica cénica informa que a personagem Glubb canta, à guitarra, a Moritat vom toten Soldaten. 17 Apenas trinta e seis dos setenta e seis versos apresentam pontuação, sendo que em vinte e quatro dos versos pontuados somente aflora um ponto.
Ana Isabel Boura N.º 31 – 12/ 2014 | 43-62 – ISSN 1645-1112 18 A conjunção copulativa surge a abrir o verso em quinze estrofes, ocorrendo mais do que uma vez nessa posição em seis quadras. 19 Em nove das estrofes apenas rimam o 2º e 4º versos. 20 No texto que abre Hauspostille, Brecht explicita, já no primeiro parágrafo, o escopo utilitarista da coletânea, por de mais evidente, como assinala Jan Knopf, na formulação paratextual e no capítulo introdutório, mas também na segmentação da obra em Lektionen e no recurso ao termo Kapitel para designar os poemas constituintes (Knopf 1984: 32): “Diese Hauspostille ist für den Gebrauch der Leser bestimmt. Sie soll nicht sinnlos hineingefressen werden” (Brecht 1988: 39) [Este Breviário doméstico destina-se ao uso do leitor; não deve ser devorado insensatamente.]. 21 Assim o terão entendido declamadores como João Vilaret ou Sinde Filipe e cantores como Luís Cília ou Mafalda Veiga, na respetiva receção produtiva do poema pessoano. 22 Só quatro dos trinta versos que compõem o poema não exibem sinais de pontuação. Na edição de 1930, são cinco os versos sem pontuação, pois que foram omitidas as duas vírgulas do penúltimo verso do poema. A igual propósito de aceleração rítmica parece obedecer, na mesma edição, a substituição de ponto por vírgula no penúltimo verso da quarta estrofe. 23 Assim formulou Fernando Pessoa, em maio de 1926 – mês e ano de publicação de O menino da sua mãe –, ao responder, como informa António Quadros, ao inquérito realizado pelo jornalista Augusto da Costa, no Jornal do Comércio e das Colónias, sobre o tema Portugal – Vasto Império (Quadros 1986: 165).