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EHL Campus- International Aschitecture Students Workshop. Escola e casa do estudante

Hugo Barros da Costa Ferreira

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! ! UNIVERSIDADE DO PORTO ! ! ! !! EHL CAMPUS INTERNATIONAL ARCHITECTURE STUDENTS WORKSHOP Escola e Casa do Estudante HUGO BARROS 2.º 2º CICLO FAUP 2013! EHL CAMPUS INTERNATIONAL ARCHITECTURE STUDENTS WORKSHOP ESCOLA E CASA DO ESTUDANTE HUGO BARROS DA COSTA FERREIRA DISSERTAÇÃO DE MESTRADO APRESENTADA À FACULDADE DE ARQUITETURA DA UNIVERSIDADE DO PORTO EM ARQUITECTURA M 2013 ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! Dissertação de Mestrado Integrado em Arquitectura por Hugo Barros da Costa Ferreira Orientação Ana Sofia Pereira da Silva Nuno Brandão Costa ! ! ! ! ! 2 ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! 3 EHL Campus – International Architecture Students Workshop Escola e casa do estudante ! ! !! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! 4 ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! 5 ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! Nota prévia à leitura: 1) A presente dissertação foi escrita segundo a antiga ortografia. 2) Todas as traduções, apresentadas em Língua Portuguesa, são da responsabilidade do autor da dissertação. ! ! ! 6 ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! 7 ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! Agradecimentos Fica um agradecimento ao empenho incondicional dos orientadores, Ana Sofia e Nuno Brandão, aos colegas e amigos com quem me fui cruzando e a quem devo o pouco que sei e exponho, durante estes seis anos de verdadeira escola, no Porto, em Mendrisio e em Londres. E um agradecimento fora da disciplina da arquitectura, aos meus familiares e à Sara. ! 8 "#$%&' O exercício de projecto para a requalificação/ampliação da EHL (Ecole Hôtelière de Lausanne) pressupõe a transformação dos espaços do seu campus, e em primeira instância do lugar (Chalet-a-Gobet). Para além da circunstância específica do sítio da EHL, procura-se o contributo do contexto disciplinar – exemplos de edifícios ou propostas de arquitectura - que respondam a problemáticas aplicáveis. A pesquisa divide-se em quatro grupos – capítulos - espécie de conjunto de fragmentos. O primeiro formula as premissas para a transformação do lugar. Trata a dialéctica infra-estrutura/edificado, problema-chave naquele lugar. Devido, por um lado, à enorme confluência de vias (cujo carácter e calibre varia) que conformam os limites do terreno e, por outro, à presença de pré-existências construídas que a intervenção influenciará e pelas quais será influenciada. Reflecte-se tendo por base, não só esta condição urbana da EHL, a qual se procura enquadrar na contemporaneidade, como também recorrendo a exemplos que combinam residência e ensino/trabalho. O segundo capítulo procura dar sequência à pesquisa feita, considerando agora o funcionamento do organismo, sistema interno do campus, através de uma interpretação do programa e das condições de vida comunitária. Formulou-se uma tradução geométrica e volumétrica das diversas funções, distribuição que permitiu questionar a relação entre organismo e corpo na organização de órgãos. Os dois grandes grupos programáticos reconhecíveis – ensino e residência – promovem uma dialéctica constante entre a delimitação e a intersecção das suas fronteiras e actividades. A definição do desenho dos espaços, os órgãos do grande sistema do campus, promove uma reflexão agora a partir do indivíduo-usuário. O estudante interno será o mais afectado pela nova intervenção, mas considera-se uma leitura a partir de outros. O desenho da célula foi sendo feito em simultâneo com o desenho do masterplan, e muitas das premissas que assistem às reflexões sobre a compartimentação, têm nele o seu fundamento. A dialéctica interior/exterior promove a problematização dos binómios público/privado e colectivo/individual, reflexão que permite desenhar as transições como gradações de intimidades. No último conjunto confluem as reflexões dos últimos três capítulos, contributos para gerar uma interpretação sobre a atmosfera e densidade. Esta abordagem é feita sobre a paisagem e a arquitectura, como um contínuo indivisível, que produz vivências próprias. As decisões de projecto, já anteriormente explicadas, são agora vistas do ponto de vista da experiência do espaço construída pelos diversos sentidos. ! 15 Objectivo Tal como o título indicia, o projecto trata dois grandes âmbitos programáticos: Escola e Residência. E procura, portanto, na globalidade, a transformação da Escola e Casa do estudante da EHL, e consequentemente do lugar. Esta conhecida combinação entre ensino e habitação, geradora de um sem número de tipologias, variou de complexidade e propósito ao longo da História. Na actualidade temos também o conceito de campus universitário, denominação dada do complexo da EHL. Objectiva-se pois, a procura de resposta, materializada no exercício de projecto, à questão: como pode simultaneamente, e naquele lugar, escola ser casa e casa ser escola? Ainda que estejam em questão quatro âmbitos programáticos específicos, eles concorrem inevitavelmente para esta dupla polarização entre a academia, e a residência, cujo impacto é, com os 970 studios, considerável. As diferentes reflexões produzidas pretendem dar corpo à componente de desenho, se quisermos, ao produto final da arquitectura. Valorizou-se não só a sua explicação, mas sobretudo as digressões pelo processo que o construiu. Método “Não há saber de arquitectura sem prática, o que implica o reconhecimento de que a assimilação de teoria não é suficiente para o exercício da arquitectura. No tempo estudado, ‘prática’, ‘prático(a)’ e ‘praticar’ envolviam uma riqueza de sentidos que foram perdendo espaço no decurso das transformações do processo disciplinar, associadas à deposição de conhecimentos em livro, à formação de planos de mediação entre a ideia e a obra (o desenho de projecto), e à instauração de distinções de níveis de especialidade e responsabilidade, no projecto e no processo da edificação.2 A arquitectura depende de um exercício simultâneo e inseparável, gerado entre teoria e prática que também se intersectam e confundem. Pretende-se que os instrumentos disponíveis para a investigação, da escrita ao desenho, indaguem e sirvam simultaneamente o Projecto, a Teoria e a História. Procura-se, portanto, um processo !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! @!Marta Oliveira, Arquitectura Portuguesa do tempo dos Descobrimentos: assento de prática e conselho cerca de 1500 , Porto, FAUP, 2004) p. 302! ! 16 uno que reúna as diferentes formas de produção teórico-prática. Tratando-se de um exercício prático, toda a problematização gerada a partir da circunstância terá obrigatoriamente uma resposta formalizada no desenho. No processo conducente a uma resposta interagirão na produção leituras diversas sobre as realidades envolvidas, cuja subjectividade é-lhes sempre subjacente. Neste sentido, a resposta será sempre uma tentativa e aproximação a uma formulação conclusiva, permanentemente em aberto. Assim, este apontamento sobre o método define-nos uma prática instruída pela investigação, que se quer cruzada pelos diferentes instrumentos/ acções possíveis na exploração dos temas levantados. Através da aplicação e repetição de uma cadeia metodológica, que contempla a identificação de um problema despoletado pelo exercício, a reflexão que o extrapola, e o retorno à resolução prática do mesmo, se pretende construir uma trama coesa de pesquisa de projecto. Fig.2 Vista aérea do terreno da EHL ! 17 ! 18 19 I . TRANSFORMAÇÃO DO LUGAR 20 21 Enunciado A questão da transformação do lugar como exercício de arquitectura depende, não só da consideração da sua circunstância, como também do recurso a exemplares de arquitectura já produzidos, formulando um contexto histórico e disciplinar. Na problematização da realidade contemporânea do campus universitário EHL, deslocado do centro simbólico/histórico da cidade, recorre-se ao paralelo histórico do complexo praticamente auto-suficiente (igualmente excêntrico) e, nomeadamente, dentro desta grande categoria, os complexos monásticos. Desta forma, poder-se-á perceber em que medida é ou não válido o recurso a referências históricas tipologicamente comparáveis, mas que pela transformação de realidades urbanas, culturais e sociais, poderão ter perdido pontos de contacto e de comparabilidade com a realidade contemporânea. Acredita-se que esta reflexão permitirá dar um uso operativo às referências históricas, óbvias merecedoras de estudo, pois não ter em conta a herança cumulativa de um pensamento arquitectónico que se relacione com o caso de estudo do projecto pode torná-lo uma novidade estéril. Até porque, a realidade do lugar compõe-se de construções do passado, permanentemente inacabadas pelo uso, em cada instante, do presente. Em diálogo com o lugar, a nossa construção é, no presente, projecto para o futuro. E será, no futuro, mais uma construção do passado. Aldo Van Eyck explica-nos essa condição essencial em arquitectura: “Nos nossos dias, os arquitectos estão patologicamente obcecados pela mudança, considerando que se trata de um feito ao qual se pode opor, ou pelo contrário perseguir ou tolerar, mas não ignorar. Na minha opinião, por esta razão tende-se a separar o passado do futuro, com a consequência de que o presente fecha-se a qualquer aproximação emocional, perdendo a sua dimensão temporal. Detesto tanto o apego sentimental ao passado como o culto tecnocrático ao futuro. Tanto um como o outro baseiam-se numa noção estática e linear do tempo ... Parece-me que passado, presente e futuro devem actuar no espírito e formar um continuum.”1 1 Aldo Van Eyck, “El interior del tiempo” in Textos de arquitectura de la modernidad. Ed. por Pere Hereu, Josep Maria Montaner e Jordi Oliveras, Madrid, Editorial Nerea, 1994, p. 348 Tradução da versão espanhola: “En nuestros días, los arquitectos están patológicamente obsesionados por el cambio, considerando que se trata de un hecho al cual uno puede oponerse, o por el contrario perseguir o tolerar, pero que no se puede ignorar. En mi opinión, por esta razón tienden a separar el pasado del futuro, con la consecuencia de que el presente se cierra a cualquier aproximación emocional, perdiendo su dimensión temporal. Detesto tanto el apego sentimental al pasado como el culto tecnocrático al futuro. Tanto uno como otro se basan en una noción estática e lineal del tiempo ... Me parece que pasado, presente y futuro deben actuar en el espíritu e formar un continuum.” 22 Como mais adiante se desenvolverá, a transformação do lugar, pleno de factos históricos, representa um acto total do continuum de que nos fala Van Eyck; o diálogo entre os actos de preservação e destruição de um passado e o acto presente da construção. Prelúdio Perante a folha em branco inicial, assustadora e arrebatadora, ancorou-se a prática numa pesquisa da arquitectura de grandes complexos; principalmente tipologias que agregam ensino/trabalho e residência, geradas ao longo da história da arquitectura ocidental (bem como outras ocasionalmente necessárias). Neste primeiro capítulo, são interpretados exemplos para que se perceba a relação produzida com a sua envolvente urbana - edificada e paisagística. O carácter dessa envolvente é variável. Nem sempre a envolvente de um equipamento deslocado da cidade é, como se poderia pensar, uma envolvente rural. Françoise Choay fala-nos desta condição urbana contemporânea na Europa. Deduz mesmo, enfatizando a factualidade, que “talvez assistamos à proliferação, por todo o planeta, de aglomerados urbanos, indefinidamente extensos, que farão o conceito de cidade perder todo o significado”2. Choay explica uma contemporaneidade que trouxe, para grande parte da Europa, uma profunda mutação da condição urbana – “mudança da cidade” para o “urbano” – gerando lugares contínuos e híbridos, condição geralmente denominada de “peri-urbanidade”. Como podemos observar na captura nocturna de Satélite da Europa (fig.3), há uma grande intensidade urbana ocupando território, em especial na Europa Central (Norte e Oeste da Suíça, onde se situa a EHL, Este de França, Oeste da Alemanha), onde se percebe mais uma mancha do que uma série de pontos correspondentes às cidades. Na EHL, sita em Chalet-a-Gobet, a Nordeste de Lausanne, está presente este fenómeno territorial. Esta intensidade ou temperatura urbana desfizeram, segundo Choay, a clareza da dicotomia cidade/campo no território, que garantia a existência de duas condições: a centralização da vida social e urbana contida nas cidades, e o maior isolamento da vida comunitária e rural no campo. O fenómeno contemporâneo de que Choay nos fala trouxe consigo diferentes graus de isolamento, nuances mais complexas que compõem o território. Os primeiros estudos procuram questionar, em que termos será válida a interpretação de implantações mais compactas e autónomas, largamente desenvolvidas nas diversas 2 Françoise Choay, “O Urbanismo – Utopias e Realidade” (1979) in Teoria e Crítica de Arquitectura - Século XX, Coord Ed. por José Manuel Rodrigues, Lisboa, Edições OASRN e Caleidoscópio, 2010, p.740 23 tipologias de Mosteiros Cristãos, criando um ou mais espaços de claustro interiorizados. Estes espaços, no caso das ordens religiosas que construíam os seus mosteiros isolados, permitiam reforçar uma certa noção de comunidade contendo a vastidão do território desumanizado em redor. Por outro lado, estabelecia-se uma relação de domínio perante esse território. A sua eficácia enquanto resposta tipológica é assinalável. O programa organizado em volta do claustro, permitia que este se tornasse num centro da comunidade, a ordem que se isola da vasta desordem que representa a exterioridade. De facto, só compreendemos a grande autonomia expressa na simplicidade das suas implantações e na produção de uma comunidade compacta tendo em conta o grau de isolamento destes complexos. Um excerto de um texto sobre a EHL, escrito pelos seus próprios responsáveis, alertou- -nos para esta questão do isolamento: a sua relação com o carácter da comunidade e, consequentemente, dos seus espaços. Dizem-nos que dada a sua “localização relativamente isolada, os estudantes formam uma forte comunidade – força que a EHL quer preservar.”3 Depois da visita à EHL percebeu-se melhor o grau de isolamento do complexo, e o que isso poderia contribuir para esta coesão comunitária. Não há, na actualidade, um total isolamento na EHL - apesar da sua excentricidade - por manter ligações múltiplas não só com Lausanne, como com um vasto território urbano. É certo, porém, que haverá uma grande comunidade permanente no campus que aí estabelece o seu quotidiano. E esta comunidade, parece ser, pelo curto contacto que mantivemos, muito activa e coesa (esta questão será justamente retomada no segundo e terceiro capítulos). Pretendia-se perceber em que medida a condição urbana encontrada exigia uma resposta diferente daquela representada na maqueta do primeiro estudo (fig. 4), que procura interpretar a implantação eficaz desses grandes complexos, e a relação com a grande massa da escola. A ideia de grande claustro central e regular sofre, desde logo, uma deformação neste primeiro estudo. Essa deformação deve-se a uma busca de relações com a envolvente e nomeadamente a uma interpretação da condição topográfica original. A regularidade e unicidade da ideia de claustro também se questiona, já que esta deformação permite tanto ler um espaço como três, todos ligados. 3 EHL Fórum students workshop - presentation, About EHL (2013), p.5 Tradução da versão inglesa (de todo o parágrafo): “EHL is located at Chalet-à-Gobet, just north of Lausanne, between the suburban area and the countryside. Its high-up location gives it outstanding views over the Alps and Lake Geneva. Because of this relatively isolated location, students form a close-knit community – a strength that EHL is keen to preserve.” !"#$%&&'()#*(&+*&,)-./"-*&012-3401&&5&210-"0*0-*&*3416*3$ 78 31 estreitos calibres da cidade tradicional e dar resposta à nova realidade de produção industrial, que ela se tornou o principal foco do desenho. É da repetição desta nova ordem que se baseiam as novas propostas de urbanismo dos finais de século XIX, e mais tarde o questionamento dos limites da cidade e do campo. Já no conceito de cidade-jardim (fig. 6) há uma intenção clara de tornar ambígua esta dicotomia. “Na verdade, não existem, como se afirma só duas possibilidades – a vida na cidade e a vida no campo. Há uma terceira solução, na qual todas as vantagens da vida mais activa na cidade, toda a beleza e delícias do campo podem estar combinadas de um modo perfeito.”11 Howard procura um cruzamento entre estas duas realidades aparentemente opostas, objectivando uma mutação na vivência do habitante da cidade. Esse objectivo estabelece-se com uma ocupação urbana do campo, privilegiando a baixa densidade e a criação abundante de espaços verdes. Uma unidade de cidades-jardim nunca adquire uma grande dimensão. São unidades em volta da grande metrópole ligadas por um transporte rápido. Mas uma urbanização que procura por uma escala e um tipo de vivência que recupere algumas das características da vida no campo, não se pode furtar ao desenho urbano de uma infra-estrutura que responda às exigências modernas. Se observarmos as primeiras propostas de cidades-jardim de Howard (concebidas a partir de 1890) em volta de Londres, notamos imediatamente a preponderância da representação da infra-estrutura, conjunto que merece o maior detalhe e desenho (a variação de calibre das ruas, o que as ladeiam, etc). No fundo, a estrutura da nova urbanização é a própria infra-estrutura concêntrica, que define os espaços, e equilibra as áreas verdes das áreas construídas. 11 Ebenezer Howard, “A ideia da cidade – Cidade Jardim”, (1902) in Teoria e Crítica de Arquitectura - Século XX, Coord Ed. por José Manuel Rodrigues, Lisboa, Edições OASRN e Caleidoscópio, 2010, p.37 !"#$%&&&'()*+)&,& #)-./*,0"+1 2&34/*/5/-&678)-.2&9:;< !"#$=&&&'()*+)&,& 0"+>&"*.?@+-"/((/ &2&A7*1&B)-*"/-2&9C9= D< 33 Tony Garnier, na sua Cité Industrielle (1917), estrutura a malha através do desenho da infra-estrutura, privilegiando uma saudável circulação e um forte zonamento. Ainda assim, ao contrário do organicismo de Howard que fragmenta em pequenos núcleos a nova urbanização, Garnier propõe uma grande unidade. Ou melhor, duas grandes unidades: uma zona residencial e uma zona industrial. É interessante observar uma particularidade de representação no desenho de Garnier (fig. 7): a cidade antiga está representada como um núcleo coeso de massas edificadas, e a nova cidade proposta representa-se ao contrário, através do desenho de linhas, correspondentes à infraestrutura. Apenas alguns edifícios importantes são representados pela sua forma. Esta representação diz-nos muito sobre o entendimento da nova cidade, predominantemente infra-estrutural. Esta proposta de Garnier produz grande influência sobre o que Le Corbusier propõe como princípios urbanísticos. O terreno da EHL é o resultado, ou sobra, do traçado infra-estrutural, sendo o chalet o elemento pertencente a um outro espaço/tempo: o da ruralidade. Mas, ao contrário das propostas modernistas, em que se propõe um planeamento integrado e hierarquizado da infra-estrutura, num só plano, este foi o resultado de sucessivas intervenções múltiplas e anónimas sobre o território. Rem Koolhaas fala-nos da condição caótica, da impossibilidade de planearmos desde a ordem urbana até à ordem arquitectónica, sendo, para ele, a expressão e a forma do edifício, o último reduto de actuação do arquitecto. “O problema, portanto, não consiste em pensar como as cidades devem ser, mas antes definir ao que as cidades chegaram, pois não é a razão quem as constrói, mas o caos anónimo”12 Eduardo Prieto caracteriza deste modo o pensamento de Koolhaas. Coloca mesmo em oposição clara a ordem modernista e o caos contemporâneo: “Falanstério ou Koolhaas. Ordem ou caos. Funcionalismo ou formalismo. Entre o dilema de garantir o controlo dos espaços – sacrificando a espontaneidade da vida – ou dar rédea solta aos imprevistos caóticos da vontade humana – sacrificando então o controlo – o planeador moderno escolhe a ordem; Koolhaas, por seu lado, aposta o azar. O que a crítica anti-moderna ataca, por tanto, não é a ideia de ordem em si (pois, como veremos, o próprio caos acaba constituindo uma ordem de outra índole), mas antes a ordem que necessariamente deve parecer ordenado, a ordem dogmática que se 12 Eduardo Prieto, La arquitectura de la ciudad global – Redes, no-lugares, naturaleza, Madrid, Editorial Biblioteca Nueva, 2011, p.58 Tradução da versão espanhol: “El problema, por tanto, no consiste en pensar como las ciudades deben ser, sino en definir cómo las ciudades son o han llegado a ser, pues no es la razón sino el caos anónimo quien las construye.” 34 mostra refractária aos impulsos do acontecer diário, que sacrifica tudo pela estabilidade aparente da forma.”13 Não nos podemos furtar do facto de que não podemos intervir sobre a ordem infraestrutural (apenas podemos influenciá-la com o posicionamento dos acessos), e tão pouco existe uma ideia de planeamento estruturado para o sítio, de onde se possa extrair princípios. Resta-nos obviamente aceitar a realidade urbana que visitámos e a qual nos propomos a transformar (como propõe Koolhaas, segundo Prieto). Ao visitar a EHL (fig,6), uma descrição de Koolhaas sobre a extensão urbana normalmente denominada, provavelmente erroneamente, de periferia, parece adequada. Sobretudo tendo em conta a importância simbólica ou identitária que se dá crescentemente ao centro histórico da cidade. “A identidade centraliza; insiste numa essência, num ponto. A sua tragédia é dada em termos geométricos simples. À medida que se expande a esfera de influência, a área caracterizada pelo centro torna-se cada vez maior, diluindo irremediavelmente tanto a força como a autoridade do núcleo; inevitavelmente, a distancia entre o centro e a circunferência aumenta até ao ponto de ruptura. Nesta perspectiva, a descoberta recente e tardia da periferia como zona de valor potencial – uma espécie de condição préhistórica que pode ser finalmente digna de atenção arquitectónica - é apenas uma insistência dissimulada na prioridade e na dependência do centro: sem centro não há periferia; o interesse do primeiro compensa presumivelmente a vacuidade do segundo. Conceptualmente órfã, a condição de periferia é agravada pelo facto da sua mãe continuar viva, roubando o espectáculo, enfatizando as insuficiências da sua descendência. As últimas vibrações que emanam do centro esgotado impedem a leitura da periferia como uma massa crítica. Não só o centro é por definição demasiado pequeno para cumprir as obrigações que lhe estão consignadas, como também não é já o centro real, antes uma miragem empolada em vias de implosão; contudo, a sua presença ilusória nega legitimidade ao resto da cidade.”14 13 Eduardo Prieto, La arquitectura de la ciudad global – Redes, no-lugares, naturaleza, Madrid, Editorial Biblioteca Nueva, 2011, p.61 Tradução da versão espanhol: “Falansterio o Koolhaas. Orden o caos. Funcionalismo o formalismo. Entre el dilema de garantizar el control de los espacios – sacrificando la espontaneidad de la vida – o dar rienda suelta a las imprevisiones caóticas de quehacer humano – sacrificando entonces al control – el planificador moderno escoge el orden; Koolhaas, por su parte, apuesta el azar. Lo que la crítica antimoderna ataca, por tanto, no es la idea del órden en si misma (pues, como veremos, el propio caos acaba constituyendo un orden de otra índole) sino el orden que necessariamente debe parecer ordenado, el orden dogmático que se muestra refractario a las pulsiones del acontecer diário, que lo sacrifica todo a la estabilidad aparente de la forma.” 14 Rem Koolhaas, “A cidade genérica”, in Três Textos sobre a Cidade, Barcelona, Gustavo Gili, 2010, p.33-34 35 Esta dependência do centro, este excesso de preocupação sobre o centro (que parte do pressuposto ilusório de que ainda só há um), vota o resto da urbe para a indiferença. No terreno da EHL sente-se essa condição ingrata; tudo parece cumprir apenas o seu desígnio, na urgência da necessidade, sem grande interesse por uma construção comum identitária e organizada. Também Choay nos fala desta condição: “Com, efeito, a maior parte das realizações urbanísticas actuais estão relacionadas com o que os neuropsicólogos chamariam de ‘comportamento reduzido’: a necessidade de remediar de imediato o afluxo demográfico e o drama dos não abrigados impede uma planificação global e bem cuidada. Cogita-se do que é mais urgente, segundo esquemas preestabelecidos.”15 Esta espécie de remedeio que substituiu as pretensões da ordem modernista, expressou- -se com particular força na Europa central numa urbanização dita extensiva, que ocupa o território em rede (correspondente à infra-estrutura e sua colonização), e não propriamente através de pontos correspondentes às cidades mais importantes ou densas. Este fenómeno, que podemos observar com eficácia na imagem de satélite nocturna (fig. 3), faz Choay questionar-se sobre a “morte da cidade”16, ou pelo menos a sua dissolução num contínuo urbano. À medida que este processo de reflexão se foi desenrolando, um processo de fragmentação da forma inicial prosseguiu (ver fig.8). A imposição de uma ordem que vinha essencialmente de uma organização interina, pareceu-nos demasiado alheada da complexidade de realidades do lugar, e da envolvente mais alargada. O modelo inicial formava um quarteirão e poderia ser interpretado como uma espécie de procura nostálgica por um qualquer resquício da cidade canónica, fundada sobre princípios totalmente diferentes dos que geraram este território urbano. Para além disso, uma zona densa de edifícios de residência pioraria as condições de cada um dos quartos, a muitos níveis, e particularmente, no que à exposição solar. Num clima como o da Europa central, a proximidade entre edifícios que obstaculize a entrada de luz directa, prejudica imediatamente a qualidade do espaço, em grande parte do ano. Curiosamente, o processo de fragmentação é precedido por uma maqueta em que se procura apenas associar aquele monólito com dupla frente a toda a volta, uma espécie de grande massa topográfica que preenche o terreno. 15 Françoise Choay, “O Urbanismo – Utopias e Realidade” (1979) in Teoria e Crítica de Arquitectura - Século XX, Coord Ed. por José Manuel Rodrigues, Lisboa, Edições OASRN e Caleidoscópio, 2010, p.738 16 termo usado no título de Francoise Choay, Le régne de l’urbain et la mort de la ville in La Ville, arte et architecture en Europe, 1870 – 1993. p.26-35, Paris, éditions du Centre Pompidou, 1994 !"#$%&&&'()*+),(&-.&./,+-(/$ )LJ)RWRJUD¿DGD]RQD&GHVGHD5RXWH&RMRQQH[GHL[DGDSUDWLFDPHQWHDRDEDQGRQR 01 37 Mesmo antes da fragmentação, há intenções de estabelecer relações do que era um volume simples com a topografia, para ambos formarem um só corpo. Este processo que leva ao abandono de um volume compacto único, quase monolítico, que contivesse e centralizasse todo o programa, poderia conduzir-nos por diversos caminhos. O seu arranque trouxe-nos duas abordagens possíveis e cruzáveis, que se começaram a propor em desenho (como se pode ver no anexo1) , na relação com o terreno: considerar alterá-lo, e continuar a compor, geometrizar, espaços escavados, agora de forma mais fragmentada; ou recompô-lo ao seu estado natural (demolindo os actuais edifícios da residência) e procurar que a construção fosse uma entidade claramente distinta e contrastante. Esta última parece-nos ser bem representada por algumas das propostas de Le Corbusier, nomeadamente o bloco livre sobre os imensos espaços verdes que propunha. Já tivemos oportunidade de perceber algumas diferenças importantes entre a circunstância a que nos sujeitamos e aquela a que se sujeitava uma tradição de construção de complexos monásticos na Europa. Mas até que ponto nos poderão ser úteis os princípios do urbanismo modernista, de raiz funcionalista? O caminho que apontava por um maior contraste e divisão entre terreno e edificado, entre natural e artificial, com que nos deparámos no arranque do processo de fragmentação, leva-nos para a reflexão sobre uma outra condição de autonomia, estabelecida em moldes diversos daquela encontrada nos complexos monásticos, produzida através do bloco funcional modernista. A ideia de agregação que expressa, permitiu-nos reflectir sobre um possível descongestionamento da zona B (ver a divisão de zonas fig.10). Dada a ocupação massiva que o edifício existente da escola faz do terreno, seria uma equação lógica a hipótese de libertar ao máximo o terreno dispondo blocos livres que contivessem as funções a projectar. Observou-se, no entanto, uma dificuldade gerada pela agregação numa área apenas, deixando outras completamente desocupadas, e por isso, crescentemente ao abandono (como de resto acontece hoje em dia com grande parte da zona C que não é utilizada – ver fig.9). Mas, ainda assim, descongestionar poderia não significar necessariamente não construir nessa área de maior conflito na contiguidade da actual escola. Ou seja, poder-se-ia ter em atenção a maior conflituosidade da zona B, mas considerar a existência de construção em toda essa área envolvente da escola. Se nos propuséssemos ao isolamento da residência na zona C estaríamos bem perto dos conceitos de zonamento modernista. E interessou-nos indagá-lo, sobretudo a partir de Le Corbusier. 38 Se falamos de formas de residência, teremos obviamente de considerar este período, em que estas questões foram, por várias razões históricas, mais estudadas e experimentadas. O discurso urbano modernista aproveita as condições de infraestruturação rodoviária prévia à construção (problema supra referido), tornando mais livre a implantação de edifícios perfeitamente autónomos. Centra o pensamento arquitectónico numa linguagem moderna e universal, e mesmo sob uma propaganda de novidade, ao projectar um futuro, o modernismo nunca produziu uma ruptura com o passado clássico. E, ao contrário do que se possa pensar, não só aos sistemas de proporção clássica procuraram dar continuidade com base na sua interpretação. Atentemos no discurso de Corbusier sobre o mosteiro cartuxo de Ema (fig.11), na Toscana: “A célula à escala humana está na base. Permitam-me que vos mostre por que caminhos e através de vinte anos de curiosidade atenta, se chegaram a algumas certezas. A origem destas indagacões remontam à visita à “Charteuse d’Ema”, nos arrededores de Florença, no ano 1907. Naquela paisagem musical da Toscana, vi uma cidade moderna, que coroava uma colina. A mais nobre silhueta na paisagem, a coroa ininterrupta das células dos frades; cada célula tem vista sobre a planíci e tem saída para um pequeno jardim com pendente e completamente cercado. Creio não poder encontrar nunca mais uma interpretaçãon tão alegre da vivenda. O tardoz de cada célula abre-se por uma porta e un postigo e dá para uma rua circular. Esta rua está coberta por um arco: é o claustro. Aí funcionam os serviços comuns –a reza, as visitas, a comida, os entierros. Esta “cidade moderna” é do século XV. A visão radiante ficou-me para siempre.”17 17 Le Corbusier, Precisiones, Respecto a un estado actual de la arquitectura y el urbanismo, Barcelona, Ediciones Apóstrofe, 1999, p. 113 Tradução da versão espanhola: “La célula a la escala humana está en la base. Permítanme que les muestre por qué caminos y a través de veinte años de curiosidad atenta, han llegado unas certidumbres. El origen de estas indagaciones, por mi cuenta, se remonta a la visita de la “Charteuse d’Ema”, en los alrededores de Florencia, en el año 1907. En aquel paisaje musical de la Toscana, vi una ciudad moderna, que coronaba una colina. La más noble silueta en el paisaje, la corona ininterrumpida de las celdas de los frailes; cada celda tiene vista sobre la llanura y tiene salida a un jardincillo en pendiente completamente cercado. Creí no poder encontrar nunca más una interpretación tan alegre de la vivienda. La parte trasera de cada celda se abre por una puerta y un portillo y da a una calle circular. Esta calle está cubierta por un arco: es el claustro. Por ahí funcionan los servicios comunes –el rezo, las visitas, la comida, los entierros. Esta “ciudad moderna” es del siglo XV. La visión radiante me quedó fijada para siempre” !"#$%&'''(")"*+,'-.*/0-1/-'2'2*34256/"1-'7,'/20028,$ 9: 40 Note-se que Le Corbusier cita incessantemente, em diferentes períodos da sua vida, este Mosteiro. Aprecia a autonomia do sistema funcional, como se de uma cidade se tratasse, como o próprio deixa claro. É impressionante como a leitura das construções do passado clássico consegue, através de um processo interpretativo próprio, projectar- -se na concepção do futuro, grande alvo de preocupação modernista. Ao mesmo tempo que cita um Mosteiro de arquitectura clássica do século XV, Le Corbusier cita constantemente objectos simbolicamente conectados com o progresso e com o futuro, como por exemplo o navio, o avião, entre outros objectos de design industrial. Não podemos deixar de notar as semelhanças entre um interior de um navio visto em corte (fig.12) e o mesmo tipo de desenho proposto para os blocos habitacionais de Le Corbusier. Para além de ambos serem repetíveis como modelos, há sempre uma intenção de agregação compacta e funcional dentre de um perímetro regular. O navio transmite essa ideia de autonomia que lhe permite viajar, não estando preso a nada; apenas flutua em movimento. Nos seus blocos habitacionais, Le Corbusier propõe, não só uma variada colectânea de funções comuns, como também um semelhante suspender da terra, através do rés do chão sobre pilotis. A fórmula urbana modernista para desenhar a nova paisagem urbana baseava-se, portanto, na repetição do bloco livre agregador de funções (alavancada pela emergência da standarização) sobre um manto verde só interrompido e cruzado pela infra-estrutura (propondo modelos de cidade compatíveis com os novos padrões da vida urbana intensificada). Como já pudemos observar no exemplo da Cité Industrielle de Tony Garnier, o desenho da infra-estrutura é estrutura para organizar espaços, o verde e o construído. Como já observámos também, a necessidade moderna da infraestrutura prévia à construção influencia esta abordagem. É dentro de uma estrutura desenhada pela infra-estrutura que Le Corbusier se propõe a dispor os blocos habitacionais, libertando espaço para as confrontações com as vias, que ficam rodeadas de vegetação. Se observarmos as propostas de cluster urbano da dupla inglesa Alison e Peter Smithson e a compararmos com as propostas do primeiro período modernista, apercebemo-nos de uma subtil diferença. Enquanto que as propostas modernistas (essencialmente no pré-guerra) se baseiam no estabelecimento de uma infra-estrutura que estabelece uma ordem sobre a qual se dispõe blocos funcionais, o cluster urbano, como se vê no desenho (fig. 13), sobrepõe e enfatiza a linha edificada como um contínuo ramificado e desenhado. Em vez das unidades compactas modernistas, que propositadamente libertam o espaço desconfinado em volta, apresentam uma linha desenhada para criar diferenças e espaços próprios sub-divisores e fragmentadores da imensidão em que a cidade moderna imergiu. No desenho, esse grande contínuo 47 perímetro da mesquita, esta não teria mais significado ou importância para os católicos, e provavelmente, não teria chegado como chegou aos nossos dias. Mas também a própria catedral estando isolada expor-se-ia demasiado a ataques muçulmanos, e encontrou assim uma forma de se proteger. A mesquita passou a funcionar como antecâmara do espaço da catedral, e foi inteiramente integrada no seu sistema, ao ponto da catedral ter cumprido a métrica previamente estabelecida. Formaram um sistema único. Não foi através de um simples restauro que esta preservação foi possível, mas pelo contrário implementou-se uma maior radicalidade que exigiu enorme interferência e contaminação, construção e destruição simultaneamente. Também Rem Koolhaas retoma, num projecto para o Museu de arte contemporânea de Riga (fig.17), esta problemática. O edifício industrial existente é cintado pela nova intervenção. Koolhaas parece-nos querer dizer que preservação não significa mostrar o passado como ele era, colocando o restaurado numa espécie de vitrina em que é exibido. O seu conceito de preservação envolve pois construção, que pode anular antigas vistas ou leituras do existente, mas cria outras formas de o interpretar através da relação com o novo, que não disfarça a sua presença. Voltando ao caso da EHL, percebeu-se a importância de fixar estratégias para a preservação dos edifícios mantidos, e no caso do grande edifício da academia mais do que a preservação da sua arquitectura (que não tem interesse patrimonial), interessava a fixação da sua posição no masterplan - já que a sua deslocalização futura, completamente gratuita, tendo em conta a sua dimensão, desregularia as inteções do masterplan. Colocou-se à prova deste questionamento sobre a preservação, algumas possibilidades de implantação, já referidas, e estratégias do masterplan. Apesar da intenção inicial de manter a zona B descongestionada, limitando a residência na zona C, para não gerar conflitos com o edifício da escola e o chalet, ela deixava uma grande área entregue, sem restrições, à total especulação - que poderia alterar o espírito do masterplan. No masterplan interpretou-se a intenção de preservar estes dois edifícios como a fixação dos seus espaços de implantação e acção. Por isso conduziu-se o desenho da linha edificada que percorre o terreno, no sentido de estabelecer os espaços da escola, sem com ela conflituar. Com essa estratégia, mesmo que o edifício da escola seja mais tarde demolido, o seu substituto terá um espaço próprio para ressurgir, e assim não desvirtuar as intenções do masterplan. Procurou-se por isso uma preservação do espaço da escola, mais que do edifício da escola propriamente dito. O desenho da linha edificada começou a interagir com os edifícios a preservar, como que cintando-os (fig.15). Também nesta zona B a edificação tem só uma frente para Sul e encaixa-se no terreno, criando na sua cobertura espaços exteriores para os dois edifícios da escola (corte - fig.18). Através desta estratégia de intervenção topográfica, )LJ(VTXLVVRGHSURMHFWRRHGL¿FLRSDVVDDFLQWDUDVH[LVWrQFLDV !"#$%&'''()*+,'-,./'0,123"+/','(/+,4*/.'4,'(5*4)6/$ !"#$%7'''0/23,+/'4)'-*)8,9+)'-/*/'/:-."/;<)','*,/6"."+/;<)'4)'031,3'4,'=*+,'()>+,:-)*?>,/' GH5LJD20$ @A )LJ&RUWHWUDQVYHUVDOzRQD% )LJ&RUWHWUDQVYHUVDOzRQD& !" +862.0 +856.70 +860.28 +856.68 +849.48 +848.56 +849.48 +853.10 +845.88 +853.40 +864.60 +840.00 +841.00 +842.00 +843.00 o 2o m o 2o m 50 mesmo construindo nesta zona de potencial conflito com a escola e o chalet, conseguimos não só evitar obstaculizar a cota alta, como também prolongá-la. Construindo mais do que o correspondente aos edifícios demolidos da zona B, libertouse ainda assim mais espaço exterior de relação com os edifícios da escola, que tanta área interior ocupa. A estratégia de mutação topográfica, pretende também atenuar o excessivo condicionamento de futuras construções (consequência que a intenção anteriormente exposta poderia causar), não comprometendo totalmente o desenvolvimento desta zona B. Dotamo-la apenas da organização necessária para um desenvolvimento futuro, através da definição clara de duas grandes cotas: a cota alta correspondente aos espaços da escola e relacionada com a entrada da instituição já existente, e a cota baixa, virada a sul, relacionada com as actividades da residência. A relação desta área do campus com a via rápida começou a ser estudado em corte (fig.18), propondo-se um rebaixamento do espaço, protegendo-o. E, em parte, a subtracção e modificação topográfica a que sujeitamos este espaço, representa demolição, anulação de matéria. E essa anulação de matéria nos permite a construção como a projectamos na zona B, encaixada e com uma só frente para Sul. Esta depressão é provocada e desenhada a partir da interpretação planta topográfica do sítio, e trata-se pois de enfatizar uma depressão já existente (fig.10) . Pela impacto que provoca no campus e para perceber a sua relação com as sua envolvência, começou-se a propor a localização e o desenho do pavilhão polidesportivo. Pesquisa-se ao longo do processo, o seu posicionamento na grande depressão topográfica (ver no anexo 1). Também na zona C se procedeu a uma mutação topográfica, mas de menor dimensão daquela produzida na zona B. Procurou-se enfatizar também a condição de vale que se regista no corte transversal original (zona C). Definiu-se uma espécie de canal rebaixado sobre o qual se implanta a linha edificada. Como se percebe no corte transversal (fig.19) o edifício, mesmo com 6 pisos. encaixa-se na depressão topográfica, permitindo à via de calibre menor na cota alta não ficar estrangulada pela sua presença. O bosque já existente na encosta a Norte prolonga-se até à linha edificada que assim o protege da via rápida. 51 Circunstância O que se retirou da reflexão produzida para a prática, submeteu-se a uma influência da condição específica do terreno da EHL. Apesar de ter estado considerada já em termos genéricos, descreve-se agora, mais concretamente, a realidade física do sítio. Instruídas as primeiras ideias em comparativos históricos e teóricos, pretende-se abordar o problema concreto, ainda que vasto, que a localização do terreno nos dá. Ainda que no seu passado rural, o terreno onde se instala a EHL tenha sido claramente desligado da lógica de cidade intramuros de Lausanne - fazendo-se notar a dicotomia cidade/campo - torna-se importante perceber que na contemporaneidade este se inclui - ainda que no limite - no sistema urbano que entretanto se formou em torno da cidade. Como é corrente nas cidades centro - europeias, a infra-estrutura regionalmente muito desenvolvida potenciou esta colonização fora do antigo burgo de Lausanne, em plena área rural, da qual sobram ainda alguns resquícios paisagísticos. A qualidade da infraestrutura e o espaço desafogado, oposto da concentração e densidade encontradas na cidade consolidada, permitiu a atracção de equipamentos como o Aeroporto, o Estádio Olímpico, o Hospital de Prilly, o parque de Sauva Bellin, o Clube de Golfe, a própria EHL. Obviamente essa perda do monopólio da infra-estrutura (estradas, ferrovia, autoestrada, aeroporto, entre outros), e consequentemente do equipamento público por parte da cidade consolidada, resulta numa colonização também residencial destas áreas, catalisadas pelas peças urbanas mais pesadas supra referidas. Sendo a cidade consolidada de Lausanne composta pela antiga área intra-muros medieval (dividida entre duas imponentes colinas) e as intervenções urbanas modernas, com avenidas mais largas e arborizadas que se estendem para sul até ao lago, todas as áreas exteriores entretanto rasgadas por estradas para norte formaram novos centros, impulsionados por áreas industriais e pelos equipamentos já referidos, que ao colonizarem o campo, promoveram e continuam a promover a fixação de áreas residenciais alargadas. Essa lógica de crescimento urbano bem conhecida e documentada, forma um alargado mosaico de realidades urbanas cujo limite a Nordeste coincide com os terrenos onde se instala a EHL. Para lá desta conurbação em que se insere a EHL, e que embate directamente no Bois de Benenté e no Bois du Grande Jorat a Norte e Nascente respetivamente, é clara a inexistência de mais urbanização ligada à lógica metropolitana de Lausanne. 53 II. ORGANISMO 54 55 Enunciado Procuramos respostas nos diferentes níveis de problematização levantados pelo exercício. Por acreditarmos que a forma, por transportar consigo irremediáveis sentidos e imposições, realmente interessa na resposta final (em conjunto com o processo), interagimos, no primeiro capítulo, com os problemas que influenciam o seu embrionário aparecimento – a relação com a circunstância do sítio. Essa busca resultou, no primeiro capítulo, do estabelecimento de relações geométricas e métricas com o sistema externo, que proporcionaram, nomeadamente, a delineação dos diferentes grandes espaços de mediação com a infra-estrutura, construção e habitares circundantes. Procura-se incidir agora sobre a relação obtida entre os espaços do sistema interno – campus, tendo em conta a distribuição das suas funções. Detemo-nos pois sobre a constituição de um organismo, como uma organização de órgãos. As suas formas de agregação estudaremos neste capítulo, mas os órgãos em si, e o trabalho espacial das suas transições, será tema do terceiro capítulo. Estamos seguros que este nível de problematização, surgido pela necessidade de organização do programa sob forma de masterplan, nos irá proporcionar uma revisão de conclusões retiradas no exercício do primeiro capítulo e, consequentemente, ajustamentos da forma. “Em meados do século vinte, a maior parte das comunidades com uma atitude responsável perante o seu meio ambiente, adoptaram, ou tentaram adoptar, um instrumento de política urbana chamado “Plano geral”, com o fim de controlar os actos construtivos que se desenrolam no lugar”1 Afinal que exercícios se podem conter no masterplan? O exercício anterior procurou, através de variados estudos e hipóteses iniciais, encontrar uma transformação topográfica do sítio, à escala territorial. Consequentemente, essa transformação transporta consigo novas relações com os espaços urbanos contíguos. Pareceria redutor que o conceito de masterplan estivesse confinado a esta tarefa. Falharia uma completa compreensão da transformação urbana do sítio, sem a articulação da distribuição precisa das novas funções no campus com o território. O planeamento de uma composição territorial passa agora pelo crivo do seu futuro real – a relação com o uso da comunidade. As funções a que se destinam as 1Christopher Alexander, Urbanismo y participación – El caso de la Universidad de Oregón. Barcelona, Gustavo Gili, 1978, p.15. Tradução da versão espanhola: “A mediados del siglo veinte, la mayor parte de las comunidades con una actitud responsable hacia su médio ambiente han adoptado, o intentan adoptar, un instrumento de politica urbana llamado “Plan Gereneral”, con el fin de controlar los actos constructivos individuales que se están desarrollando en lugar” 56 formas, a vivência da arquitectura, moldada por aqueles que a usam, representam a “co-criação” da obra. “Se a arte é a origem da obra, então isso significa que ela permite que o que está em essencial co-pertença na obra – os que criam e os que resguardam – tenha origem no seu estar-a-ser.” 2 O masterplan, como primeiro acto da longa peça – projecto de arquitectura - não só não é confinável ao exercício do primeiro capítulo, como também ao que desenvolveremos neste segundo, por ser algo que transcende o tempo de projecto ; só acaba na vivência e na transformação que ela confere aos espaços. Esta ideia de arquitectura como organismo vivo, parte de um ecossistema maior que a suporta, não teve, ao longo da história, uma interpretação linear. Algumas posições contraditórias, que no primeiro ponto expomos, denotam a forma como se foi interpretando a necessidade, entretanto surgida com a disciplina urbanística, de um masterplan. Ele regula as necessidades do todo e das partes, e aponta, ao mesmo tempo, para a definição de um organismo dotado de um funcionamento próprio. Procura-se reflectir a relação de uma comunidade (através de exemplos deste binómio viver/trabalhar) com as leis, constrangimentos, definições ou possibilidades em aberto que o organismo feito arquitectura e corpo permita promover. Firma-se a construção de um sistema de espaços, associados às respectivas funções, por detrás dos estudos iniciais de massa, um tanto amorfa e abstracta, que procuravam estabelecer relações com o universo exterior, para que lhe pertencesse e vice-versa. Pretende-se, de certo modo, domesticar a liberdade encontrada no exercício anterior, dissecando um sistema interno – espaço e comunidade – para então redefinir a relação com a exterioridade. Este será o layer de problematização acrescentado ao exercício, que pretende reduzir algum do esquematismo da anterior fase de estudo. “Ordem orgânica” O exercício de projecto encontra-se agora num limiar, entre o desenvolvimento de organigramas que estudem as articulações funcionais, e o desenvolvimento de desenho dos espaços propriamente ditos, que estudem a sua caracterização (medida, proporção e luz). Obviamente, esta dualidade cruza-se, e procura, nesse cruzamento, uma espécie de organização orgânica comum, que disseque o todo e faça conviver as partes numa 2 Martin Heidegger, “A origem da obra de arte” in Caminhos de Floresta, coord. cient. da edição, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2002, p. 75. 63 Colquhoun referia-se a algumas influências recebidas pela “Escola de Chicago”, nomeadamente Louis Sullivan e Frank Lloyd Wright. Fala-nos desta força interior que faz nascer a obra de arte. O nascimento da forma está sujeito a uma constante adaptação condicional , vindo do teor da circunstância, em vez da aplicação a priori de um conjunto de princípios. Esse foi o condutor dos iniciais estudos no primeiro capítulo, e pretende-se, ao passar do desenho da condição urbana e territorial para o desenho da condição comunitária e individual, mantê-lo. Organismo e Corpo Durante o século XX, foi crescente a necessidade de um masterplan para a maioria das acções construtivas, sobretudo no panorama das sociedades ocidentais. Multiplicaram- -se, naturalmente, as ideias de arquitectura para os resolver. Por detrás dessas ideias, e imprescindível para entender a relação do todo e das partes, esteve sempre que relação atribuir ao corpo e ao organismo. Teyssot explica-nos em que termos essa noção está constantemente presente na arquitectura: “ (...) por um lado, um corpo sem órgãos, isto é, uma noção do corpo que não se articula sobre a singularidade e autonomia de cada órgão, mas onde os órgãos seriam indeterminados; por outro lado, numa noção baseada numa organização orgânica de órgãos, chamada o organismo, que corresponde à noção standard do corpo e seria concebida como uma hierarquia fixa organizada por uma lógica funcional interna.” 8 should, as in plants and animals, be the product of an inner force or essence rather than being mechanically imposed from without, as they judged to be the case with classicism.” 8 George Teyssot, Da Teoria de Arquitectura: doze ensaios, Lisboa/ Coimbra, Edições 70 e Departamento de Arquitectura da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, 2010, p.260 )LJ6HFomRHVTXHPiWLFDGRSURMHFWRGD%LEOLRWHFDGH6HDWOH20$ !" !"#$%&''()*+,-./01'23'4.,5".+'6.718'975)3"23:';<3+3:=1)=">3:,1'23'*>'?@++.-1AB'CDEF$ EG 66 Teyssot nota que estas duas realidades, apesar de serem diametralmente opostas, não se excluem mutuamente. Deleuze explorou largamente a primeira: corpo sem órgãos. Vai contra a concepção do corpo como um vazio, e propõe “o corpo como superfícies múltiplas, ou como pele enrugada”.9 "É a pele como envolvente ou anel, a peúga como superfície reversível.”10 Para Deleuze o Corpo sem órgãos é como um ovo, cujo corpo exterior permite todas as mudanças sucessivas no interior, um processo de gestação (fig.23). “O ovo é o Corpo sem Órgãos. O corpo sem órgãos não existe ‘antes’ do organismo, ele é adjacente, e não pára de se fazer.”11 “Pode ser uma casa, ou compartimento, e tantas outras coisas ainda, qualquer coisa(...)” 12. A biblioteca de Seattle (fig.22), de Rem Koolhaas (OMA), é uma tradução clara desta perspectiva. Como se pode observar no corte, “ o interior transforma-se num exterior, enquanto, vice-versa, o exterior se desdobra em superfícies.(...)”13 A segunda realidade é a do organismo, “concebendo o corpo apenas na sua interioridade, no seu regime de distribuição interna, onde os órgãos autónomos decompõem o todo em múltiplas parte, quebrando a sua integridade. É também este tipo de funcionalismo que jaz na base de toda a arquitectura ‘moderna’, que não era mais senão uma aplicação de organicismo.”14 Considerar a envolvente urbana como parte de uma estrutura orgânica total, que é simultaneamente organismo e corpo, leva-nos a concluir que o sistema interno (retido na massa construída) é uma sua extensão, e não uma outra estrutura orgânica. O desenho do corpo da arquitectura nos estudos iniciais da EHL comportavam já a integração e transformação de um organismo, pensado no território. De outra forma, este capítulo e estudo basear-se-iam numa mera introdução do sistema de órgãos, do organismo, num corpo já cristalizado. Como vimos pelo discurso de Teyssot, há uma aparente intersecção entre organicismo 9 George Teyssot, Da Teoria de Arquitectura: doze ensaios, Lisboa/ Coimbra, Edições 70 e Departamento de Arquitectura da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, 2010, p.260 10 Gilles Deleuze e Félix Guattari apud George Teyssot in George Teyssot, Da Teoria de Arquitectura: doze ensaios, Lisboa/ Coimbra, Edições 70 e Departamento de Arquitectura da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, 2010, p.260 11 Gilles Deleuze e Félix Guattari, Mil Platôs, Capitalismo e esquizofrenia, (Vol.3), Editora 34, São Paulo, 1996, p.25 12 George Teyssot, Da Teoria de Arquitectura: doze ensaios, Lisboa/ Coimbra, Edições 70 e Departamento de Arquitectura da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, 2010, p.260 - 261 13 George Teyssot, Da Teoria de Arquitectura: doze ensaios, Lisboa/ Coimbra, Edições 70 e Departamento de Arquitectura da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, 2010, p.261 14 George Teyssot, Da Teoria de Arquitectura: doze ensaios, Lisboa/ Coimbra, Edições 70 e Departamento de Arquitectura da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, 2010, p.260 67 e funcionalismo. Sobre a apetência funcionalista do organicismo, Montaner alerta-nos que autores como Alvar Aalto ou Frank Lloyd Wright, normalmente associados a esse movimento, “demonstram algo que pode parecer paradoxal: o funcionalismo não é exclusivo do racionalismo, Senão que existe uma interpretação fenomenológica da funcionalidade que conduz ao organicismo”.15 Há, neste entendimento, um cuidado por desenhar cada espaço, parte de uma estrutura orgânica, numa espécie de funcionalismo atento à condição humana e à dimensão psicológica em particular. “Na arquitectura moderna, em que a racionalidade da ossatura estrutural e as massas edificadas ameaçam dominar, há regularmente um vácuo arquitectónico nas ‘sobras’ geradas no sítio. Seria bom se, em vez de preencher esse vácuo com jardins decorativos, o movimento orgânico de pessoas pudesse ser incorporado no desenho do sítio, para criar uma relação íntima entre o Homem e a arquitectura.”16 Para moldar o que denomina de “movimento orgânico do Homem”, utiliza mecanismos formais de fragmentação, sempre associados e justificados pela circunstância. Aalto constrói um entendimento do organismo do edifício, como parte um organismo maior, da cidade, de todo o ambiente construído envolvente. Observemos, para voltar à tipologia da residência de estudantes, o edifício que Aalto desenhou para Boston, em 1946. Já o masterplan da EHL se fixava e se revelava o final, e surgiu, num folhear da monografia do autor, a inevitável comparação com a residência de estudantes Baker House de Aalto (fig.26 e 27). Apesar de todas as diferenças, quanto à circunstância física e cultural e à mestria inatingível do autor, não se pode deixar de notar alguma similitude nos princípios de organização dos espaços, como mais à frente se poderá observar. 15 Josep Maria Montaner, As formas do século XX, Barcelona, Gustavo Gili, 2002, p.32 16 Alvar Aalto apud Steven Groák in Companion to Contemporary Architectural Thought. Ed. por Ben Farmer e Hentie Louw, Londres, Routledge, 1993, p.110 Tradução da versão inglesa: “In modern architecture where the rationality of the structural frame and the building masses threaten to dominate, there is often an architectural vacuum in the letf-over portions of the site. It would be good if, instead of filling this vacuum with the decorative gardens, the organic movement of people could be incorporated in the shaping of the site in order to create an intimate relationship between Man and Architecture” )LJ3ODQWDVGH5pVGRFKmRSLVRWLSRHSLVRGHFREHUWXUDUHVSHFWLYDPHQWHGHEDL[RSDUD FLPDGR !"#$%%$&'()*$++, (-,(.,(/&01*+$,02(3453 67 )LJ)RWRJUD¿DGR !"#$%%$&'()*$++,( -,(.,(/&01*+$,0 )LJH3ODQWDGHUpVGRFKmRHIRWRJUD¿DGD%DNHU+RXVHGH$OYDU$DOWR 23 70 O lote que lhe foi atribuído, possuía uma frente virada ao Charles River, e uma outra contígua à rua a ele paralela e que lhe providenciaria o acesso principal. Perante isto, Aalto cria uma regra simples: a grande parte das células voltam-se para o Charles River, espécie de grande espaço público da cidade, e para o lado contrário desenham-se serviços, espaços comuns e células colectivas. Ora se contraí a circulação, e se alarga espaços de estadia, ora se alarga o corredor formando átrios. Interessar-nos-á, também no projecto da EHL, este aparente paradoxo: os espaços individuais voltarem-se para o espaço público mais extenso (remetente para uma ampla comunidade urbana), enquanto os espaços comuns contiguarem com uma rua pacata (muito mais ligada à escala da comunidade universitária). Aalto desenha um serpenteado que aumenta objectivamente a superfície de fachada voltada ao rio, permitindo encaixar mais quartos por piso. Como já vimos, os pisos tipo, ao contrário do que podemos observar na residência de estudantes Pavillon Suisse (fig.24 e 25) de Le Corbusier, contém, no seu limite oposto, programa que lhe atribui uma morfologia própria. Essa diferença entre as duas fachadas é aproveitada para diferenciar e complexificar o limite com a rua, que não repete simplesmente o limite da fachada contrária. Como podemos notar pela planta, no Pavillon Suisse (1931), Le Corbusier sectoriza muito claramente os espaços individuais e os espaços comuns por piso. Os pisos tipo com as células individuais têm apenas a circulação comum através do corredor, mas todos os espaços de estadia comum localizam-se num volume de piso térreo, autónomo do bloco residencial e num piso de cobertura que se torna excepção. A preferência clara pela sectorização funcional do organismo interno, reflecte-se na imposição de uma caixa suspensa e pura como corpo, exceptuando-se apenas a pontual caixa de escadas a meio articulada com o volume térreo da entrada e espaços comuns. As partes são submetidas a uma ordem total expressa pela simplicidade volumétrica. Como é hábito em Le Corbusier, o rés do chão é livre e não contém células. Ao contrário, a retracção perante a via pública que promove o serpenteado da Baker House, permite a Aalto a criação de uma distância em relação à via pública e a disposição de células no rés do chão. Há também na Baker House, algumas subtis mutações tipológicas das células, acompanhadas de nuances morfológicas perceptíveis em planta. É deste funcionalismo com base fenomenológica que fala Josep Maria Montaner, de que se compõe o organicismo de Aalto, cujos princípios de intervenção se revertem e resultam numa busca geométrica muito própria, que confere ao edifício uma enorme complexidade. A expressão de uma complexidade de organização das partes é totalmente perceptível no corpo exterior, que contribui para integrar no mesmo sistema orgânico os espaços exteriores que afinal se desenham em simultâneo. 71 Distribuição A proposta de programa pedido é ambivalente e variada, e a organização dos seus componentes é resposta imprescindível nesta fase. Caminhou-se com a opção de desenhar uma espécie de muro de contenção, expressando a condição topográfica do sítio e organizando-o em duas cotas principais, correspondentes aos espaços da escola e aos espaços da residência. Já no capítulo anterior, se abriu igualmente a porta a uma volumetria mais alta na zona A e na zona C. Permitiu-se pois, e desde cedo, a possibilidade de haver um tratamento diferente nas extremidades desta espécie de linha transversal ao terreno, remate para as condições físicas e funcionais especificas dessas áreas. Dada a dimensão do programa da residência de estudantes (970 quartos) percebeu-se a necessidade irremediável de preencher toda esta linha com as células e espaços comuns afectos à residência. Variaria, ao longo do terreno, o desenho dessa linha e o corte vertical, que haveria de ditar as relações estabelecidas entre os quartos e espaços comuns com o exterior, o hotel, as salas start-up, a área desportiva, e com o restante programa existente e novo. Como já foi referido, assumimos a existência de três momentos diferentes no terreno (zonas A, B e C), tendo em conta a envolvente próxima e preexistências. A reflexão sobre eles produziu uma forte influência no projecto no que concerne à variação de desenho da linha edificada. Agora a sua evocação será também imprescindível para perceber como esta caracterização dada à linha edificada pode ser traduzida do ponto de vista volumétrico e programático, nas relações altimétricas e planimétricas produzidas com o terreno. Em esquema propôs-se, na zona A, a presença do hotel de treino. A presença do edifício da escola nesta zona permite uma relação mais directa com o hotel que é afinal também escola, apesar da sua vertente comercial e da sua abertura ao público. Com a utilização da zona A para a construção do hotel de treino, garantimos a resposta a esta dualidade programática: por um lado, estabelece-se uma relação de proximidade com o edifício da escola, e por outro este situar-se-á num quadrante do terreno mais autónomo (dada a posição do edifício existente no terreno), usufruindo as zonas B e C de uma relação de continuidade. Essa autonomia era favorável para a hotel, já que ela significa no caso deste terreno uma relação visual privilegiada com a paisagem mais longínqua, ao fugir do sistema de vale mais comprimido e protegido, característica das outras duas zonas (B e C). Também lhe era favorável a proximidade com a nova entrada desde a via rápida a Sul. Tomando por certa a decisão de implantar o hotel de treino na zona A, este foi tendo um processo próprio, no que à posição e forma diz respeito. A solução que prevaleceu estabelece, através da posição da torre no limite Nordeste da zona A, !"#$%&''()*+")),'-'.")/0"1+"23, 4% 79 exclusiva de “fontes públicas com água potável e blocos sanitários nos quatro cantos de cada piso junto da escada”20. Depois da longa tradição dos grandes complexos monásticos auto-suficientes da arquitectura ocidental, a revolução industrial trouxe-nos outras tipologias como esta de Godin, com características semelhantes no que respeita à agregação programática necessária por se encontrarem fora da cidade, ligados aos sítios industriais (normalmente indústrias pesadas que não poderiam integrar uma densa malha urbana). Não foi só a componente social dos espaços considerada para a organização do viver de uma comuna socialista industrial. Também se pode tratar esta obra como um exemplo da “ligação entre a arquitectura e a ciência”, recorrente no século XIX, como foi já referido acima neste texto. Teyssot explica-nos este lado do pensamento de Godin: “Godin pensava que as necessidades humanas tinham um lugar preciso nos órgãos do corpo. Por exemplo, podia encontrar-se na parte esfenoidal do crânio a localização para as necessidades de espaço livre, luz e ar puro. Porque o Familistério respondia aos requisitos da vida humana, também contribuía para o progresso dos seus habitantes. “A inteligência é proporcional ao modo como a luz ilumina a casa! De certa forma o Familistére de Godin, que passa a ser assunto de romance americano, era uma construção frenológica.”21 Estes pátios encerrados recebem um tecto em vidro, tecnologia recente que permite uma iluminação homogénea do espaço, importante não só para a relação com a saúde pensada por Godin, como também para a fruição verdadeiramente pública do espaço como se de um exterior se tratasse. Esse carácter público do espaço do pátio pode ser comparado com o espaço exterior exposto à paisagem. Apesar de ser menor e mais confinado, este espaço do pátio aumenta um controlo colectivo entre os habitantes, enquanto que o espaço paisagístico exterior é desconfinado e dá lugar à liberdade individual. 20 George Teyssot, Da Teoria de Arquitectura: doze ensaios, Lisboa/ Coimbra, Edições 70 e Departamento de Arquitectura da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, 2010, p.76 21 George Teyssot, Da Teoria de Arquitectura: doze ensaios, Lisboa/ Coimbra, Edições 70 e Departamento de Arquitectura da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, 2010, p.77 !"#$%%&'&%(&&&)*+,-+&'&./-/#0+À+&1/&!+2"*"3-40"/&1'&5/1",6&789: 8; !"#$%&''()*+,*'-.')/0*)"1*23/'-/'4/+5.+,/'-.'46"7,/$ )LJ5R\DO&UHVFHQW%DWKGH-:RRGH-1DVK 89 82 Para além do confinamento, e já no caso do edifício proposto da EHL (tanto no tramo da zona B como da zona C), deve ter-se em conta a geometria do que é interior e o que é exterior, como nos alerta Herman Hertzberger através do exemplo do Royal Crescent em Bath (J. Wood, J. Nash, 1767 – fig.36). Admitindo que não seria intencional, ele nota que o ângulo côncavo de uma fachada ou espaço interiorizado (com cantos interiores apenas) apela ao “sentimento de comunidade” , já que todas as aberturas se olham mutuamente, existindo um reforço do sentido colectivo. Dá o exemplo de um comboio : “É o mesmo efeito de quando estamos num trem e os trilhos descrevem uma curva: por um momento podemos ver os outros vagões cheios de passageiros, cuja presença não tínhamos notado ainda. Uma fachada curva com as casas voltadas para a mesma área contribui para a natureza comunitária da área (...) Pelo contrário, a fachada que cumpre um ângulo convexo ( e cantos exteriores) aumenta a privacidade já que “ as casas , por assim dizer, se distanciam umas das outras”.22 Este exemplo é-nos dado apresentando o edifício do Royal Crescent, mas é perfeitamente aplicável ao caso da EHL, tanto no tramo da zona B como da zona C. Na zona B, como forma de colmatar o excesso de controlo colectivo do pátio encerrado (fig.37), opta-se por só ter quartos nas alas exteriores que se abrem sobre a paisagem, e colocar as áreas comuns nas alas interiores do pátio (equilibrando a liberdade individual e controlo colectivo). O excesso de vigilância sobre os espaços individuais que quatro lados preenchidos com quartos traria, tornava-se num problema. Para além disso, a condição topográfica do edifício nesta zona (B), obrigaria os quartos das alas interiores a voltarem-se exclusivamente para o pátio, ficando prejudicados não só em termos de qualidade da luz do seu espaço interior, como também na possibilidade de criação de um espaço de maior intimidade. Como tal, estipulou-se ocupar apenas o limite exterior para a disposição dos quartos. Na zona C, o serpenteado do edifício permite esta sensação constante de presença comunitária, explicada com o exemplo dado por Hertzberger. 22 Herman Hertzberger, Lições de Arquitectura, São Paulo, Martins Fontes, 1999, p.56 83 Apesar da linearidade da zona C, em contraste com a centralidade da zona B, optou-se por manter um serpenteado suficientemente articulado (em três braços) para manter essa sensação. Deixaram-se para trás as propostas de desenho (fig.38) desta extremidade que anulavam, por exemplo o último braço a Nordeste. Por outro lado, o programa de hotel, desenvolvido na vertical, não permite um controlo visual entre os hóspedes, que mantém apenas relação com a paisagem. Estes são os remates, os tentáculos de uma centralidade, uma cabeça que se organiza na zona B. Os pátios da zona B têm sempre a mesma função, de transição, e apesar de serem todos quadrados, todos têm especificidades, variando no tamanho e no desenho, proveniente das condicionantes encontradas no local específico da sua implantação. Partilham todos uma mesma característica: as duas alas exteriores (com frente edificada dupla) do pátio são quartos, e as duas alas interiores (com frente apenas para o pátio) são espaços comuns - de estudo e convívio da residência (requisitadas no programa: por cada 20m2 de quarto dever-se-á garantir 9m2 de espaço comum). Estes claustros, todos ligados internamente, remontam a tipologias combinatórias de residência e educação, imensamente experimentadas na arquitectura ocidental ao longo dos séculos, nomeadamente em Mosteiros. O Convento de Cristo (fig.35) é um poderoso exemplo, ao criar um interior/exterior sempre percorrível entre os claustros, cuja escala varia, tornando esse percurso mais rico, como se de uma cidade interiorizada se tratasse. As ruas são neste caso cobertas, e os quarteirões, pátios. Também Le Corbusier na explicação já citada sobre o Mosteiro de Ema, nos remete para esta ideia de urbanidade. Recordemos, de novo, o seu discurso: “Creio não poder encontrar nunca mais uma interpretaçãon tão alegre da vivenda. O tardoz de cada célula abre-se por uma porta e un postigo e dá para uma rua circular. Esta rua está coberta por um arco: é o claustro. Aí funcionam os serviços comuns –a reza, as visitas, a comida, os entierros. Esta “cidade moderna” é do século XV. A visão radiante ficou-me para siempre.”23 23 Le Corbusier, Precisiones, Respecto a un estado actual de la arquitectura y el urbanismo, Barcelona, Ediciones Apóstrofe, 1999, p. 113 Tradução da versão espanhola: “Creí no poder encontrar nunca más una interpretación tan alegre de la vivienda. La parte trasera de cada celda se abre por una puerta y un portillo y da a una calle circular. Esta calle está cubierta por un arco: es el claustro. Por ahí funcionan los servicios comunes –el rezo, las visitas, la comida, los entierros. Esta “ciudad moderna” es del siglo XV. La visión radiante me quedó fijada para siempre” )LJ(VWXGRVSDUDGLVWULEXLomRHPUHGRUGRVSiWLRV]RQD% )LJ(VWXGRVGHSURMHFWR]RQD& !" 85 Esta ideia de funcionamento do mosteiro como se de uma cidade se tratasse, é perseguida no exercício de projecto da EHL. Desenvolve-se um grande sistema, uma espécie de cidade interior com todas as funções agregadas, ainda que distribuídas pelo terreno. Com a introdução destes claustros, o projecto adquire um novo nível de complexidade no limite interior, não se limitando a repetir o limite exterior da linha edificada (como vimos na Baker House), mas começa a reagir às preexistências que encontra, ligando-se às funções de cada uma delas como uma espécie de “polvo” que se expande pelo terreno. Foram também importantes estes claustros na preparação de condições para o desenho das células (detalhado no terceiro capítulo), que se jogam sempre numa dualidade de escalas, e não apenas na escala dos seus interiores - já que o carácter do espaço contíguo influenciá-las-á fortemente. 87 III – ÓRGÃOS 88 Enunciado Se no capítulo anterior se procurou estabelecer os princípios gerais para a surgimento dos principais espaços, as relações entre as suas funções e a sua distribuição no terreno, agora entende-se necessária uma interpretação particular sobre o que significam essas decisões no habitar total do campus, representado por usuários, nomeadamente aquele que mais lidará com a nova intervenção – o estudante interno.1 O que era mancha sobre uma estrutura, névoa sem medida precisa ou contacto definido, deve ser agora espaço e medida. Da definição de um sistema que é corpo, passa-se agora a um entendimento detalhado sobre o desenho dos vazios dentro do vazio, os órgãos, a sua compartimentação, os habitares interiores e exteriores, enfim, a definição dos limites ou, se quisermos, dos limiares. Se quisermos, das considerações produzidas a partir da comunidade, passa-se agora para um entendimento do individuo e os espaços da sua intimidade perante os espaços da comunidade. Os binómios interior/exterior, opaco/transparente, público/privado, colectivo/individual estão pois constantemente presentes. A escala do desenho dos espaços é agora aproximada. Se na fase anterior estávamos num limiar entre o organigrama e o desenho de espaço, o exercício exige agora a ancoragem no segundo. Uma aproximação da escala de desenho permite a compreensão do corpo no espaço, e por isso, do habitar. Essa aproximação permitirá um leitura sobre os quotidianos, variáveis entre usuários. Acreditamos ser necessária uma certa compreensão sobre esse “conteúdo” para poder desenhar o “continente” para a vida. Já distinguimos, dentro da linha edificada da residência, dois tipos de relação que o edifício mantém com o terreno. Na zona B, o edifício encaixa-se no terreno e apresenta uma frente apenas, enquanto que na zona C adquire duas frentes e autonomiza-se da topografia. Estas características promovem diferentes modos de organização dos espaços comuns, e formulam imediatamente a mais forte condicionante para desenhar duas tipologias – uma para cada uma destas situações descritas. Essencialmente, a regra é criada pela tipologia B - aquela que mais se repete. Na confrontação com a excepcionalidade circunstancial da zona B (espécie de área comum central da residência) adapta-se, e gera-se a tipologia A. A resposta que cada uma das tipologias dá às condicionantes identificadas em cada uma delas, encontra-se na resolução da articulação dos espaços da célula com a exterioridade, ou seja, com os espaços comuns e a paisagem, e entre os próprios espaços que compõem a célula. Apesar de conter duas 1 Parte-se agora sobretudo desde o indivíduo para perceber a sua relação com a orgânica colectiva. 95 Por isso, perseguiu-se a estratégia de demarcação de sub-comunidades, organicamente pertencentes à comunidade total. Essa pesquisa foi sendo realizada em ambas as tipologias, como se pode ver nas plantas apresentados (fig.39). Há uma busca pela criação de espaços para as subcomunidades, transições entre o espaço da grande comunidade e a célula da individualidade, tema que mais à frente aprofundaremos. Como tal, poder-se-ia dizer que esta comunidade poderá, (dividida em subcomunidades) corresponder a uma série de grupos, análoga à domesticidade familiar, apesar da vinculação social não estar, à partida, estabelecida e ter um factor de transitoriedade constantemente presente. A condição de transitoriedade exige da comunidade processos próprios de relação com o novo, que é permanente. Nesse processo de relação social e cultural e a sua respectiva espacialização, dois conceitos podem ser destacados como essenciais. Ao conceito de hospitalidade, largamente explorado por Derrida, opõe-se um outro: hostilidade. “ A hostilidade e a hospitalidade partilham a raiz (host-). Aquele que chega ou está para chegar, o hóspede, pode ser (quem sabe?) um inimigo, um agressor, alguém que vem para pôr em causa a ordem, o conforto, o recolhimento do anfitrião.”4 Esta dualidade parece poder comprometer o conceito universal de hospitalidade. Como explica Fernanda Bernardo: “… a hospitalidade passa inevitavelmente pelo endereçamento à singularidade do outro numa cena de dualidade assimétrica, e porque um tal endereçamento compreende já sempre os outros, como magnificamente «Envois» o põe em cena, ela revela-se imediatamente hos-ti-pitalidade - neologismo forjado por Derrida para dizer a hospitalidade incondicional interrompida e contaminada, pervertida', pela hostilidade.”7 Devemos ter em conta que a condição do habitar na residência é, apesar de tudo, temporária, e que os seus usuários são hóspedes (os quartos podem ser igualmente utilizados para professores e alunos visitantes). Também no Hotel e na Escola, há uma constante entrada de novos hóspedes e visitantes. Há, por isso, uma reconstrução permanentemente das estruturas comunitárias, cujas condições básicas devem ser garantidas pelo próprio desenho dos espaços comuns e individuais, e das suas transições. Numa estrutura social tão mutável, poder-se-ia dizer que a base desenhada de espaços será ela própria a anfitriã. A relação de uso do habitante com o quarto, enquanto continente, pode constituir algo como o que Habraken denomina de live 4 Nuno Higino, Álvaro Siza - Desenhar a hospitalidade, Matosinhos, Casa da Arquitectura, 2010, p.53 7 Fernanda Bernardo, “A Ética da Hospitalidade ou o porvir do cosmopolitismo por vir – A propósito das cidades – refúgio, re-inventar a cidadania”, Revista Filosófica de Coimbra nº22, Coimbra, IEF/ FLUC, 2002. p.422 96 configuration.8 Na acção constante produzida pela organização da vida no espaço, podemos denotar a especificidade de uma residência colectiva: o controlo do agente sobre as coisas não significa que ele detenha a sua propriedade. “Controlo não implica propriedade. A mobília do escritório pode ser do empregador, mas os livros poderão ser do empregado. Talvez o computador na secretária é alugado. No entanto, para a configuração composta de secretária, livros e computados como um todo, isso não faz diferença. Cada item está sob o controlo do empregado; e isto por si explicará a sua presença e transformações no ambiente.”9 Esta situação pode constranger ou condicionar, de certa forma, a acção do agente, já que ela deve obedecer a um sistema de regras: “Naturalmente o controlo de uma cadeira emprestada é limitado: não se pode quebrála, por exemplo. Mas pode ser trocada, oferecida a um visitante, ou substituída à vontade. Em geral, um objecto que não é possuído pelo agente que tem o seu controlo pode submeter-se a uma transformação um pouco diferente da que poderia ocorrer caso fosse da sua posse ”10 Todos os estudantes hospedados têm controlo sobre o espaço mas não a sua propriedade, que é da instituição EHL. O proprietário não vive com o hóspede lado-alado. Não é uma clássica situação de hóspede/anfitrião, em que o que chega se integra no espaço que é propriedade dos anfitriões, e está a ser recebido porque sobre ele existem referências. Derrida diz-nos: “(...) hosptitalidade absoluta requer que abra a minha casa, e isso não só ao estrangeiro, (referenciado com um nome de família, com um estatuto social de ser estrangeiro) mas ao desconhecido, ao outro anónimo, e que lhes dê lugar, que lhe permita vir, que lhes permita chegar, e tomarem lugar no lugar que lhes ofereço, sem pedir reciprocidade (fazendo um pacto), sem lhes perguntar os seus nomes.”11 8 termo usado por Habraken: “Configurations actively under unified control of a single agent – like the things in the above example – we will call live configurations” - John Habraken, The structure of the ordinary, Cambridge Massachusetts, MIT press, 2000, p. 18 9 John Habraken, The structure of the ordinary, Cambridge Massachusetts, MIT press, 2000, p. 19 Tradução da versão inglesa: “Control does not imply ownership. Office furniture may be owned by the employer, although the books may be the employee’s. Perhaps the computer on the desk is leased. Nevertheless, for the configuration composed of desk, books, and computer as whole, that makes no difference. Each item is under the employee’s control; and this alone will explain its presence and its transformations in the environment.” 10 John Habraken, The structure of the ordinary, Cambridge Massachusetts, MIT press, 2000, p. 19 Tradução da versão inglesa: “Of course, control of a borrowed chair is limited: one may not shatter it, for instance. But it may be shifted, offered to a visitor, or replaced at will. In general, an object that is not owned by the agent in control may undergo somewhat different transformation than would occur if it were owned.” 11 Jacques Derrida, Of Hospitality – Anne Dufourmantelle invites Jacques Derrida to respond, Stanford, California, Stanford University Press, 2000, p.25 97 Este abrir de porta universalizante pretende quebrar a convenção em que a hospitalidade se inscreve segundo Derrida. A hospitalidade absoluta de que nos fala Derrida dependeria, em última análise, de uma omissão da propriedade pelo anfitrião12, para que todo o desconhecido se pudesse receber mutuamente e então a hospitalidade pudesse ganhar uma dimensão universal. A EHL, que recebe cerca de 90 nacionalidades na sua comunidade, pode ser terreno fértil para uma aproximação a uma hospitalidade incondicional e cosmopolita, na escola em que se ensina a receber o individuo. Hospitalidade é enfim, a par da casa, um projecto inacabado e infinito, e “escreve-se sob o risco, longe das leis que calculam, estabelecem e regulam fluxos (...)”13 A hospitalidade pode também ser desenhada, porque a arquitectura, o tecto e as paredes, constituem elementos de defesa; “(...) o quadro, os objectos sobre a cómoda, a porta entreaberta. Chão, paredes, tecto, tranquilidade”.14 “Elementos de defesa, juntamente com o chão constituem a casa, o bastião da própria segurança e da propriedade segura. E a porta entreaberta: não totalmente fechada, não totalmente aberta (...) As leis ético -políticas da hospitalidade recomendam uma porta entreaberta: por um lado, deve-se deixar entrar até certo ponto: porque a economia necessita, a ética impõe e os acordos internacionais regulam. Por outro lado, deve-se fechar, também até certo ponto, porque a identidade pode correr perigo.”15 O conceito de hospitalidade estará instalado na EHL independentemente de qualquer arquitectura, como conceito basilar na recepção do indivíduo. Como Escola de Hotelaria deve constituir um valor transversal a toda a comunidade académica. Por isso o destacámos aqui. A hospitalidade assistiu aos desígnios primordiais da escola e da sua primeira construção - o chalet fundacional, espécie de albergo acolhedor e isolado, na estrada vinda de Bern. A arquitectura do novo complexo deve ter em conta, apesar da circunstância contemporânea, o espírito de acolhimento do outro, constantemente diferente e novo, como primeiro bastião de uma hospitalidade universal. Tradução da versão inglesa: “(...) absolute hospitality requires that I open up my home and that I give not only to the foreigner (provided with a family name, with the social status of being a foreigner, etc.), but to the absolute, unknown, anonymous other, and that I give place to them, that I let them come, that I let them arrive, and take place in the place I offer them, without asking of them either reciprocity (entering into a pact) or even their names.” 12 Esta condição é-nos salientada por Jack Reynolds numa leitura sobre a hospitalidade de Derrida: “unconditional hospitality, or we might say ‘impossible’ hospitality, hence involves a relinquishing of judgement and control in regard to who will receive that hospitality. In other words, hospitality also requires non-mastery, and the abandoning of all claims to property, or ownership. If that is the case, however, the ongoing possibility of hospitality thereby becomes circumvented, as there is no longer the possibility of hosting anyone, as again, there is no ownership or control.” – Jack Reynolds, Jacques Derrida -7.b Hospitality in Internet Encyclopedia of Philosophy, 2002 (iep.utm.edu) 13 Nuno Higino, Álvaro Siza - Desenhar a hospitalidade, Matosinhos, Casa da Arquitectura, 2010, p.53 14 Álvaro Siza (2003) apud Nuno Higino in Nuno Higino, Álvaro Siza - Desenhar a hospitalidade, Matosinhos, Casa da Arquitectura, 2010, p.98 15 Nuno Higino, Álvaro Siza - Desenhar a hospitalidade, Matosinhos, Casa da Arquitectura, 2010, p. 98/ 99 98 Circuitos (...) Saúdo todos os que me lerem, Tirando-lhes o chapéu largo Quando me vêem à minha porta Mal a diligência levanta no cimo do outeiro. Saúdo-os e desejo-lhes sol, E chuva, quando a chuva é precisa, E que as suas casas tenham Ao pé duma janela aberta Uma cadeira predileta Onde se sentem, lendo os meus versos. (...) Alberto Caeiro16 Como já percebemos, a noção de hospitalidade está sempre ligada às dinâmicas da comunidade, e à territorialização dos binómios público/privado, colectivo/individual. Num complexo como o da EHL, a permanente chegada e partida de pessoas (facto gerador de diferentes proximidades e graus de permanência), gera inevitavelmente uma espécie de cadeia de hospitalidade. A comunidade de alunos estará sempre a renovar-se. Haverá uma comunidade base de docentes e funcionários com um período maior de permanência. Essa utiliza, sobretudo, a Escola. Assim sendo, a residência é usada e controlada por uma comunidade sempre renovável de estudantes, quase em exclusivo. Ainda assim, a primeira e mais permanente comunidade terá uma importante missão de manutenção, cuidado e supervisão, concernente à pertença do edifício da residência, permanentemente alugado, pela instituição. Essa comunidade base representa, em primeira instância a própria ideia de instituição. A hospitalidade começa, portanto, por via dessa comunidade, na recepção e acolhimento do outro, variações possíveis do que Simmel chama de estrangeiro e do outro que foge a essa definição, nomeadamente o hóspede do hotel. Simmel encara o estrangeiro, não como “o viajante que chega hoje e parte amanhã, porém mais no sentido de uma pessoa que chega hoje e amanhã fica. A sua posição no grupo é determinada, essencialmente, pelo facto de não ter pertencido a 16 Fernando Pessoa, O Guardador de rebanhos de Alberto Caeiro, Lisboa, Editorial Presença, 1994, p. 12/13 99 ele (grupo) desde o começo, pelo facto de ter introduzido qualidades que não se originaram nem poderiam originar no próprio grupo.”17 O estrangeiro pode ser considerado na EHL, todo aquele que vai chegando, nas condições descritas por Simmel, mas que não faz parte da comunidade base de que falámos. A primeira variação na EHL do que Simmel chama de estrangeiro pode ser exemplificado com o professor visitante e o usuário regular dos equipamentos da EHL. Ele mantém, segundo Simmel uma “distância” para o grupo, fazendo ainda assim parte dele, porque a sua colaboração prolonga-se. Para Simmel ele torna-se um membro especial da comunidade: “A objectividade do estrangeiro é outra expressão desta constelação. O estrangeiro não está submetido a componentes nem a tendências peculiares do grupo e, em consequência disso, aproxima-se com a atitude especifica de ‘objectividade’. Mas objectividade não envolve simplesmente passividade e afastamento; é uma estrutura particular composta de distancia e proximidade, indiferença e envolvimento”.18 A segunda variação corresponderia ao residente temporário no campus. Considere-se o estudante interino que chega e que também será recebido, em segunda instancia, por uma outra comunidade menos permanente, a dos seus pares. Mais do que a instituição escolar EHL, que o recebeu como estudante, importa firmar, na residência, ligações que o permitam ser rapidamente parte da comunidade. A residência será, para o recémchegado, o território menos institucionalizado, mais informal, e onde a integração dependerá da interacção e harmonização de hábitos muito diversos. A condição descrita por Teyssot como “tédio”19 do ambiente doméstico da família canónica, pode ser aqui posta de parte. Essa repetição de hábitos, culturalmente imersos, não está fixada no habitar de uma residência de estudantes. Tal como Baudelaire, que “era já incapaz de desenvolver hábitos fixos; por exemplo, teve imensas moradas em Paris ao longo da sua vida”.20 A cadeia da hospitalidade, numa escola de Hotelaria, rapidamente se desdobra e multiplica. Da mesma forma que é acolhido pelas duas comunidades supra referidas, deve preparar-se para receber imediatamente depois, o hóspede do Hotel, do qual será 17 Georg Simmel, “O Estrangeiro”, in Florestan Fernandes (coord.), Simmel – Sociologia, São Paulo, Ática, 1983, p.182 18 Georg Simmel, “O Estrangeiro”, in Florestan Fernandes (coord.), Simmel – Sociologia, São Paulo, Ática, 1983, p.184 19 Georges Teyssot, Da Teoria de Arquitectura: doze ensaios, Lisboa/ Coimbra, Edições 70 e Departamento de Arquitectura da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, 2010, p.164 20 Georges Teyssot, Da Teoria de Arquitectura: doze ensaios, Lisboa/ Coimbra, Edições 70 e Departamento de Arquitectura da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, 2010, p.164 100 funcionário e aluno. Esta última condição também o faz ser recebido, noutra instância, pela instituição Hotel e os seus representantes, aquando da sua entrada. Como podemos transpor tudo isto para o desenho de cada um dos novos equipamentos, quer aqueles que constituem escola, como aqueles que constituem residência? Como podemos fazer com que o habitar seja diverso e atento a todas estas sobreposições? O programa do Hotel de treino, como já foi explicitado no segundo capítulo, é ambíguo e situa-se num território difuso. Por um lado, o Hotel é Escola. Por outro, parte de uma experiência real do ensino, tornando-se, para os estudantes, verdadeiramente trabalho ou realidade profissional. Os estudantes são, nesse papel, anfitriões do hóspede do hotel. O Hotel é hotel de treino, treino do bem receber, e num sentido mais lato, de hospitalidade - esse conceito infinito segundo Derrida. “ A lei incondicional da hospitalidade, aquela que manda acolher incondicionalmente todo o recém-chegado (arrivant absolu) - e todo o recém-chegado porque, para Derrida, ‘tout autre est tout autre’ - inscreve-se necessária e imediatamente na condicionalidade - na mediação, no instituído, numa palavra, nas leis da hospitalidade.”21 Este outro é, na EHL, não só o novo elemento da comunidade estudantil da residência, mas também o professor visitante, o hóspede, ou simplesmente um usuário de algum equipamento do campus, como, por exemplo, o desportivo. Simmel fala-nos da figura do estrangeiro, admitindo que, “a despeito de não estar organicamente anexado ao grupo, o estrangeiro ainda é um membro orgânico do mesmo.”22 Como já vimos, na definição de Simmel, não caberia o hóspede corrente do hotel, porque “chega hoje e parte amanhã”. E embora sempre renovável, a estrutura comunitária tem que contar com a presença do outro, do viajante, do estrangeiro. Para a comunidade residente será novidade a sua presença. Assim como ele próprio é atingido desde logo por essa especificidade em relação ao resto da comunidade: ser novidade. Os espaços, as pessoas, os ritmos, tudo será, para ele, novo e interessante.23 Teyssot conta-nos a história uma curiosa história a este respeito: 21 Fernanda Bernardo, “A Ética da Hospitalidade ou o porvir do cosmopolitismo por vir – A propósito das cidades – refúgio, re-inventar a cidadania”, Revista Filosófica de Coimbra nº22, Coimbra, IEF/ FLUC, p.422 22 Georg Simmel, “O Estrangeiro”, in Florestan Fernandes (coord.), Simmel – Sociologia, São Paulo, Ática, 1983, p.188 23 Simmel fala-nos dessa sensação de novidade constante e o que ela pode trazer na relação com a comunidade estabelecida: “Em Relação ao estrangeiro, assim me parece, esta constelação tem uma preponderância fundamental e extraordinária sobre os elementos individuais que são exclusivos daquela relação em particular . O estrangeiro está próximo na medida em que sentimos traços comuns de natureza social, nacional, ocupacional, ou genericamente humana, entre ele e nós. Está distante na medida em que estes traços comuns se estendem para alem dele ou para além de nós, e nos ligam apenas porque ligam muitíssimas pessoas.” - Georg Simmel, “O Estrangeiro”, Florestan Fernandes (coord.), Simmel – Sociologia, São Paulo, Ática, 1983, p. 186 !"#$%&'()*&$+,$-,.&$+/$0i12,$ 3/4($5.$6*&.41&(5/. $+,$7/À&$%/'/1&8$"99:# ;9; 102 “ Uma das minhas histórias favoritas é a que tem lugar em MisteryTrain (1989) de Jim Jarmush. Trata-se de um turista japonês nos Estados Unidos da América que só fotografava as habitações dos motéis em que se aloja. Ao perguntar-lhe porque fotografava isto e não as cidades, a paisagem...respondia: Faço fotos do que esquecerei facilmente. Lembro-me com facilidade dos monumentos, da paisagem; não me recordo de cada uma das habitações dos distintos hotéis em que estive neste país.”24 Também no filme de Sofia Copolla Lost in Translation, se focaliza a acção no quotidiano do hotel, que aloja o viajante na transitoriedade da viagem. A captura que podemos ver (fig.42) mostra uma leitura a partir da personagem do viajante no seu quarto, uma personagem que se senta no parapeito da grande janela perante a imensidão de Tóquio. Não se mostra uma escala intermédia (a rua do hotel ou um prédio próximo) entre a do ser humano e a penumbra do seu habitar e a imensidão da escala da metrópole. Há uma relação panorâmica e constante entre indivíduo abrigado e metrópole caótica. O hotel é uma torre e essa projecção céu adentro permite explorar esta condição de enorme distância. A personagem está cruamente perante o lugar que visita, e o hotel parece ser o bastião da sua defesa, o grande garante de hospitalidade. Na EHL procurou-se distinguir, por completo, o habitar do hotel em relação ao habitar da residência. Como vimos no segundo capítulo, os quartos do hotel são desenvolvidos numa torre junto à entrada pela via de Berne, via rápida de maior importância e tráfego, evitando uma maior relação com a primeira entrada à cota alta, mais sedimentada como espaço urbano de uma pequena comunidade: EHL e parque residencial de baixa densidade ao longo do mesmo. Na zona A, poder-se-ia estar mais desligado desta lógica e relacionado com a paisagem mais longínqua. Procurou-se, no desenho do quarto de hotel, uma menor articulação entre os espaços do que aqueles desenvolvidos nas células de residência. Apesar de atender a diferentes critérios de privacidade, parte exactamente do mesmo princípio das células da residência com três lados opacos e um transparente. Mas o seu interior projecta-se na paisagem , sem qualquer transição, sendo o lado transparente totalmente amovível, tornando o quarto numa grande varanda projectada na paisagem. Apenas dois móveis se dispõem no espaço, sem que nenhum toque no tecto: a cama e o sanitário. Há uma total liberdade para desenvolver o quotidiano pretendido no espaço, mas, como já se enunciou 24 Georges Teyssot (1995), Disgustos del Domicilio, (reprodução da conferência a 23 de Janeiro às 16h30 em Valência) Tradução da versão espanhola: “ Una de mis historias favoritas es la que tiene tugar en Mistery Train (1989) de Jim Jarmush. Trata de un turista japonés en los Estados Unidos de América que sólo fotografiaba las habitaciones de los moteles en los que se aloja. Al preguntarle por qué fotografiaba esto y no las ciudades, el paisaje...respondía: Hago fotos de lo que olvidaré fácilmente. Me acuerdo con facilidad de los monumentos, del paisaje; no me acuerdo de cada uno de las habitaciones de los distintos hoteles en los que he estado en este país.” 103 anteriormente, a geometria da torre não facilita a comunicação visual entre os hóspedes nos quartos, ao contrário do que acontece na residência. Há apenas uma comunicação directa e franca entre o hóspede e o lugar. Ao contrário da residência de estudantes, não se intenciona aqui formar uma comunidade entre os hóspedes. Este é também o local de trabalho para os estudantes internos. O projecto propõe-lhes uma espécie de libertação do seu quotidiano doméstico. Estes devem pressentir imediatamente uma diferença para as suas células, mais domesticadas, ligadas à terra e à comunidade, paisagem acessível e percorrível. Os quartos de hotel, de um lado, como já dissemos, confrontam directamente a paisagem, e do outro um curto corredor, que permite apenas a circulação. Aqui, o próprio espaço do quarto é, em si, única transição entre o interior e exterior comuns e a paisagem. Ao contrário, nas células da residência, há sempre um trabalho de articulação nas suas transições, quer para a paisagem, como para o interior comum. Ora através de galerias comuns, ora através de jardins de inverno, ora através de outros espaços comuns que dissimulam a circulação. Estes são dispositivos que enfatizam a noção de comunidade, para além da própria geometria desta extensa linha edificada. Como foi explicado no capítulo anterior, a geometria procurou equilibrar os conceitos de individualidade e comunidade. O sentido do percurso dentro da residência é essencialmente horizontal, escavado e encastrado, ao longo dessa grande linha contínua. Todos os dispositivos para uma domesticidade e morada comunitárias, são eliminados no hotel. Para além de desenhar o habitar para o hóspede de hotel, procurou-se, no hotel (fig.40, 41 e 43) e seus quartos, marcar um forte contraste com o habitar da residência e respectivas células. O sentido é aqui vertical, numa torre compacta, e ligada à lógica do lugar do cosmopolitismo, junto ao corredor urbano da via rápida. O aparecimento da torre como tipologia urbana, está ligada a um certo eclodir da vida cosmopolita, com grande impacto no boom das cidades americanas. A sua multiplicação também se deve à invenção do elevador, dispositivo que se banalizou com o século XX, e por isso se instalou em cada vez mais edifícios. A ideia de sobreposição de pisos e de complexidade organizada verticalmente é de certa forma oposta à ideia de continuidade da cidade tradicional horizontalmente percorrível. “A ética da hospitalidade, a que faz a cena d' A lei da hospitalidade sem condições, é então a véspera e a vigília inquieta e inquietante que vela pelo porvir do cosmopolitismo.” 25 25 Fernanda Bernardo, “A Ética da Hospitalidade ou o porvir do cosmopolitismo por vir – A propósito das cidades – refúgio, re-inventar a cidadania”, Revista Filosófica de Coimbra nº22, Coimbra, IEF/ FLUC, p.441 104 Derrida entende o cosmopolitismo (por vir) como condição essencial para o florescimento de uma hospitalidade universal. A ligação entre estes dois conceitos conduz-nos inevitavelmente à condição do hotel. O grau de conhecimento entre os hóspedes e os funcionários do hotel será sempre muito baixo, e será, por isso, no hotel onde se poderá aproximar mais a essa hospitalidade universal (que não olha ao nome, à nacionalidade, ao estatuto social, etc.). Na EHL, as nuances apontadas parecem-nos importantes para que, num campus tão compactador de funções no espaço (também pela exigência de ligação interior), se consiga introduzir diversidade, e demarcar diferenças no habitar, nomeadamente entre o residir e o trabalhar/estudar. A possibilidade permanente de encontro com o outro é promovida pela ligação interior de todos os programas, através dos tentáculos que a residência distribuiu pelo terreno. A recepção do outro, o que transita ou permanece, num destes espaços, depende também da forma como se desenham as transições. Porque para haver ligação entre dois espaços, significa que de alguma forma eles estão separados, e tem de se abrir uma porta, uma transição. “Não há lar sem portas e janelas. Mas, mal existam portas e janelas, isso significa que alguém detém a chave e consequentemente controla as condições de hospitalidade. Deve haver uma soleira. Mas se houver uma soleira, não mais existe hospitalidade. Esta é a diferença, a distancia entre hospitalidade por convite e a hospitalidade da visita. Na visita não há porta. Qualquer um pode vir a qualquer hora e pode entrar sem precisar da chave da porta. Não há controlos regulares com a visita. Mas há controlos policiais e regulares com o convite. A hospitalidade torna-se, portanto, a soleira e a porta ”26 É sobre estas transições, que assistem à definição do público/privado, colectivo/individual e, por isso, à própria hospitalidade, que nos debruçaremos a seguir. 26 Jacques Derrida, “Hospitality”, Angelaki, Journal of the theoretical humanities, volume 5, número 3, London, Routledge, Dezembro de 2000. p.14 Tradução da versão inglesa: “ There is no house without doors and windows. But as soon as there are a door and windows, it means that someone has the key to them and consequently controls the conditions of hospitality. There must be a threshold. But if there is a threshold, there is no longer hospitality. This is the difference, the gap, between the hospitality of invitation and the hospitality of visitation. In visitation there is no door. Anyone can come at any time and can come in without needing a key for the door. There are nocustoms checks with a visitation. But there are customs and police checks with an invitation. Hospitality thus becomes the threshold or the door.” 111 escala da sub-comunidade, cuja organização colectiva se faz num espaço de escala mais reduzida - como acontecia com os pátios da tipologia A. Questionou-se então a espessura e o que podem conter as paredes divisórias entre módulos. Desta reflexão, salientar-se-á um excerto do texto El sistema pared-profunda de Christopher Alexander, publicado em 1968: “ Se se toma como referência qualquer habitação – departamento ou casa - independentemente do número de habitantes, resulta que cada parede, (seja interior ou exterior) deve ser de um metro a um metro e meio de profundidade, e materializada por uma estrutura espacial – moldável. (...) Para que se faça paredes que possam albergar a riqueza da adaptação pessoal de que diferentes pessoas são capazes, estas paredes devem ser extremamente profundas. Para conter estantes, janelas embutidas, nichos individuais, assentos fixos e pequenos cantos, as paredes devem ser pelo menos de noventa centímetros de espessura.”32 Alexander confronta-nos com a necessidade de utilizar a parede, não só como simples divisória de espaços, mas como geradora de espaços ela mesmo. Neste sentido, desenharam-se a todo o comprimento do quarto, como que grossas paredes, contendo uma casa de banho mínima e um armário embutido, com secretaria e estante. Também não poderia haver obstáculos transversais à luz, para que a área mais desfavorecida e recuada do quarto fosse, ainda, iluminada. O sistema de paredes/ contentor permitia desenhar uma espécie de túnel livre de obstáculos em que a luz pudesse penetrar, e em que, à imagem da célula do Convento de La Tourette (fig.52) se estabelecesse um percurso sequencial em direcção à luz e ao espaço da varanda. Radicaliza-se a ideia de vazio, e para isso a posição da casa de banho desempenharia um papel importante, já que de alguma forma teria de ser fechada. Para além disso, sabemos da dificuldade que é manter um espaço da célula totalmente desimpedido, com o manancial de objectos que a vida individual exige. Estes verdadeiros contentores de vida pessoal (a cama também rebate para a parede), permitem a libertação eventual de todo o espaço do quarto para uso colectivo, suprime-se o problema de falta de espaços comuns nos pisos-tipo (como se pode observar pela planta – fig.53). Se esta recolha for simultânea a várias células, liberta-se área 32 Christopher Alexander, “El Sistema Pared-profunda” in Christopher Alexnder, Sistema de muros gruesos, Madrid, Ministério de la Vivienda (Secretaria General Técnica), 1968, p.23/27 Tradução da versão espanhola: “ Si se toma como dato cualquier vivienda – departamento o casa - independientemente del numero de habitantes, resulta que cada pared, (ya sea interior o exterior) debe ser de un metro a un metro y médio de profundidad, y materializada por una estructuraespacial –tallable.(...)A fin de hacer paredes que puedan albergar la riqueza de la adaptacion personal de la que diferentes personas son capaces, estas paredes deben ser extremadamente profundas. Para contener estantes, ventanas embutidas, nichos individuales, asientos fijos y rincones, las paredes deben ser por lo menos de noventa centímetro de espesor.” !!" #$%&'())*+,-.)./01.23-$4+)5.)6.)*+,71/$., #$%&89))*+,-.)-,:;/<.,/:=)>.=:)?+;:)* 113 suficiente para qualquer das actividades necessárias a uma sub-comunidade: festa, convívio , estudo (já que a zona de estudo dos módulos é contígua à galeria), etc. Foi- -nos alertado, justamente no inquérito aos estudantes, sobre este espírito de partilha, presente já nas residências da EHL, da realização de festas, quer sejam de toda a comunidade escolar ou de pequenas sub-comunidades de estudantes e, por isso, da necessidade de diferentes espaços para o efeito. A configuração do reduto da individualidade torna-se flexível. Ora se estende o espaço de célula na galeria através de uma ocupação do seu usuário, ora se retrai o espaço da individualidade para dar lugar a uma ocupação colectiva da célula. As galerias de cada piso são espaços comuns, não só de circulação, mas também de estadia, de extensão do espaço da célula - que como já referido podem tomar diferentes configurações. Como espaço comum, representa uma espécie de intimidade colectiva, porque estar na galeria pode ser estar no espaço menos privado da célula e, saindo do limite de protecção das suas paredes laterais, é expor-se a toda a comunidade. Alison e Peter Smithson propuseram, em vários projectos, as chamadas streets in the air. (como por exemplo no concurso para Golden Lane – fig. 54) Esses espaços são verdadeiras ruas comunitárias, umbrais entre o público e o privado. Nas suas perspectivas vê-se sempre o primeiro plano do doméstico que se estende, mas também o edifício que dobra ao fundo. Esta presença constante do outro, proporcionada pela geometria, como nos foi explicado por Hertzberger (citado a este propósito no segundo capítulo), permite reforçar o sentido de comunidade no complexo habitacional. Com o princípio geral para o desenho da estrutura modular, partiu-se para uma compartimentação com base em painéis rebatíveis, com os mesmos pressupostos da tipologia A, no que às possibilidades de agregação espacial diz respeito. Pode-se por isso dividir o quarto em dois: espaço de relação com o corpo (casa de banho e zona de descanso/dormir) e espaço de relação com a mente (estudo). Tal como acontece na tipologia A, o espaço de estudo volta-se para o espaço comum (que aqui é galeria) - que, como já explicado, pode ganhar mais área e outras conformações, com o painel rebatível que permite abrir toda esta zona de estudo para a galeria. Enquanto se usufrui deste espaço comum, pode-se manter o módulo privado (quarto de dormir e casa de banho), funcionando, nesse sentido, exactamente da mesma forma que na tipologia A. !!" )LJ3ODQWDGHFpOXODWLSRORJLD% #$%&'())*+,-,.)/0)*0123140)/3)5.)60-734438)53)*079-:$378)!;'< o 2 m 115 Tipologia A A tipologia B que é maioritária na residência, sofreu uma adaptação quando encontra a condição de centro comunitário na zona B. Desta condição surgiu a tipologia A. Tal como tinha ficado delineado no capítulo anterior, o exemplo do colectivismo expresso no Familistério de Godin reflectido no espaço comunitário dos pátios, foi, no exercício de projecto, alvo de uma reinterpretação. Estipulou-se ocupar apenas o limite exterior para a disposição dos quartos . Os espaços comuns (de estudo e convívio), dispostos no limite interior são iluminados através de pátios como que escavados destas plataformas territoriais, e geradores de uma outra escala, transição necessária da grande e territorial linha edificada para o acesso à célula habitacional. Os pátios, encerrados sobre si mesmo, procuram promover relações de vizinhança, agregando espécies de subcomunidades, e contrastam diametralmente com o tipo de espaço paisagístico mais difuso na conformação, onde se implanta o pavilhão polidesportivo, e remetente para a escala de uso de toda uma comunidade. O problema com que nos confrontamos no desenho da célula foi, desde logo, que relação se deveria promover com cada um destes dois tipos de espaço comum criados. O segundo problema, que não se resolve sem o primeiro, consiste na relação que devem manter os espaços interiores da célula entre eles. Os espaços comuns de estudo e convívio em volta dos pátios promovem uma maior proximidade comunitária, e por isso um maior controlo social. Decidiu-se, portanto, voltar uma área de estudo da célula para estes espaços, e desenhou-se um painel opaco que permite a sua total abertura. Assim o estudante pode estar, ainda que na sua célula, perfeitamente embebido neste grande espaço social de maior pé-direito e optar pelo estudo em grupo ou individual. Como se vê na planta (fig.55), pode o estudante manter este espaço de estudo exclusivamente aberto para o espaço comum e assim continuar a usufruir da privacidade da célula habitacional – espaço de dormir e casa de banho, um todo que privilegia a relação com o corpo. Este tipo de relação, da parte com o grande sistema espacial, encontra-se expressa na pintura de Antonello da Messina (1456 - 1460) do Estúdio de S.Jerónimo (fig.57). Podemos observar na pintura uma ordem construída maior, que parece ser a de um mosteiro, cuja escala do arco em primeiro plano e do sistema de tectos interiores com um alto pé direito pretende demonstrar. É esta cenário ilustrativo da ordem que enquadra uma outra escala de uso, uma espécie de estrado/armário, representando o estúdio do eremita, a representação da sua vida individual, que se remete ao estudo, e a uma certa entrega ao sistema monástico. Existe esta representação da existência de um suporte de vida individual, ainda que submisso a uma ordem maior, a ordem monástica. !!" #$%&'()''*+,-./0'$1-+2302$45'60+'75++$8$1$606.+'6.'0%3.%09:5'73$4065;7<81$=5'>0'2$7515%$0'?&' #$%&(@''A.+.>B5'6.'C1$+5>'.'D.2.3'E/$2B+5>F'=5/7.2$9:5'6.'B08$209:5'7030'G516.>'H0>.F'!I(J& 117 Alison Smithson refere duas situações opostas em que S.Jerónimo aparece representado em diversas pinturas. A primeira é S.Jerónimo no deserto, desprotegido perante a ordem natural, e na segunda aparece normalmente abrigado num estúdio, como eremita monástico. Sobre esta segunda, muito recorrente no Renascimento (não só Messina, mas também Durer, por exemplo, representou S.Jerónimo no estúdio - 1514), A. Smithson diz-nos que há um elogio da vida individual do eremita: “Talvez a imagem do estúdio do eremita pintada no Renascimento, sustentada dentro e pela ordem urbana, fez tão atractiva a ideia de célula que a sua representação reactivou a predilecção pela vida monástica. O retrato de Jerónimo no seu estúdio dirige-se ao mundo dos estudantes através da tipologia educativa herdade dos mosteiros, que corresponde com a sua necessidade de estar tranquilo dentro da sua célula, a sua necessidade de estabelecer uma fácil relação com os seus livros e uma boa comunicação com outros intelectos apesar da distancia, e de contar com o apoio da sociedade. O estúdio de Jerónimo é uma alegoria do pensamento, da criação do objecto aperfeiçoado, da escolha deliberada.”10 Esta é também a relação de uma ordem individual com uma ordem colectiva, à qual a primeira se submete sem se constranger. A abertura da célula ao espaço comunitário foi sendo desenhada a partir do interior, tendo-se chegado a uma espécie de ilha/armário central em que tudo se condensa e que organiza o espaço da célula. Esse dispositivo promove, na tipologia A, várias possibilidades de agregação entre os seus espaços. O espaço de estudo, por exemplo, pode, em vez de se abrir ao exterior, agregar-se com o espaço de dormir, através de um painel de correr, e tem, da mesma forma, conexão com a casa de banho. A zona de dormir, que confronta o espaço natural exterior, configura-se como uma espécie de último reduto da individualidade. Encontram-se, neste grande espaço paisagístico, condições de privacidade maiores que no espaço comum voltado ao pátio, já que qualquer fachada com que confronte estará sempre a uma distância considerável. Note- -se que o espaço, apesar de maior, será menos controlado/vigiado que o pequeno mais comunitário. Perante esta enorme diferença nas características de cada um dos espaços 10 Alison Smithson, “San Jerónimo El desierto ... El estudio” in Alison y Peter Smithson : de la casa del futuro a la casa de hoy. Dirk Van Den Heuvel, Max Risselada, Barcelona, Poligrafa, 2007 Tradução da versão espanhola: “Quizá la imagen del estudio del asceta pintada en el Renascimiento, sustentada dentro y por el orden urbano, hizo tan attractiva la idea de celda que su representación reactivo la predilección por la vida monástica. El retrato de Jerónimo en su estudio se dirige al mundo de los estudiantes a traves de la tipologia educativa heredada de los monasterios, que se corresponde con su necessidad de estar tranquilo dentro de su celda, su necessidad de establecer una fácil relación con sus libros y una buena comunicación con otros intelectos a pesar de la distancia, y de contar con el apoyo de la sociedad. El estudio de Jerónimo es una alegoria de la perfección del pensamiento, de la creación del objecto perfeccionado, de la elección deliberada.” !!" #$%&'(('')*+,-./'$0,*12/1$34'5/*'64**$7$0$5/5-*'5-'/%2-%/894'62$3/54:6;70$<4'=/'1$6404%$/'>&''' #$%&'(?'')*+,$**4'5-'6-*+,$*/'6/2/'/'1$6404%$/'>& 119 comuns contíguos à célula, percebe-se a necessidade de o desenho reagir de maneira também diversa. Esta decisão considerará que a frente da célula deve ser opaca ou transparente, mais ou menos aberta para cada um destes espaços contíguos. Só se pode decidir sobre o interior da célula, percebendo o carácter da sua exterioridade (circulação pública, zona de estar comum, etc.), para melhor acomodar o habitante e adequar os graus de intimidade. Para o lado do pátio, as alterações aplicadas em relação a alguns de modelos de habitação colectivista, no sentido de melhorar o desempenho da protecção do espaço individual, passaram por uma leitura desde o interior da célula, e designadamente o questionamento das suas transições. A pesquisa sobre o binómio opaco/transparente resultou num princípio base muito simples que estrutura as duas tipologias: três lados são totalmente opacos (ainda que se possa rebater painéis, estes são opacos), e um lado é transparente. Parece haver uma relação nítida, entre a necessidade de opacidade (e penumbra) e a dotação de intimidade a um espaço privado para o indivíduo. Essa questão está implícita quando Souto de Moura descreve a contradição de Mies: “É esta contradição que me interessa mais no seu trabalho. Mies tinha um apartamento em Lake Shore Drive, todo em vidro, para o qual nunca se mudou. Viveu sempre dentro de muros, na sombra, envolvido por obras de arte. Descobrir porque Mies nunca mudou de casa é compreender o devir da arquitectura.”13 13 Eduardo Souto de Moura, “Uma autobiografia pouco científica” 2010, in Atlas de Parede Imagens de Método, ed. por Philip Ursprung, Diogo Seixas Lopes, Pedro Bandeira, Porto, Dafne, 2011, p.143 !"#$%&'(")*+,-' .-)'/",01-20')3110'4*+5"0 6'53'7)*0)3110'5-'8344")-6'9:&%;<$ 9=> )RWRJUD¿DGDSRUWDGR5XH/DUUH\0DUFHO'XFKDPS !"# 129 IV – ATMOSFERA E DENSIDADE 130 131 Enunciado “A atmosfera comunica com uma sensibilidade emocional, uma percepção que funciona a uma velocidade incrível e que nós humanos temos para sobreviver. Nem em todas as situações queremos reconsiderar durante muito tempo sobre se delas gostamos ou não, sobre se devemos ou não sair correndo dali.”1 Acabámos o terceiro capítulo tratando a relação interior/exterior e os espaços umbrais que medeiam essas relações. Mas o que podem representar as condições de interioridade e exterioridade quando falamos de atmosfera? Tanto atmosfera como densidade são termos científicos, que normalmente adaptamos e usamos para falar de outros fenómenos. A densidade associada às urbanizações, de baixa ou alta densidade, ou à demografia, por exemplo. Mas a ciência representa simplesmente a relação matemática entre o volume e a massa de um corpo. Apropriamo-nos deste termo, em arquitectura, para falar das paisagens, das cidades, dos materiais. Enfim, dos elementos que compõe a realidade construída. Atmosfera2 tem igualmente uma atribuição muito precisa na ciência : é uma camada de gases que rodeia os corpos celestes em diferentes planetas. Na Terra, é o garante da possibilidade de vida. Tudo o que está para além dela, é genericamente tratado como espaço exterior. Há uma condição de interior, do que está protegido pela atmosfera. É como se uma espécie de grande coberto tendencialmente transparente, nos permitisse manter alguma relação com a exterioridade, mas também nos protegesse dela. Atmosfera, para o espaço vivido, é tempo e lugar. A mutação atmosférica, a que um lugar está sujeito no tempo, altera a sua leitura. Mas a atmosfera, no espaço vivido e para o Homem, poderá ser antes de mais interpretação de uma combinação de fenómenos. A mesma combinação de fenómenos no mesmo lugar pode obter múltiplas interpretações, variando a época histórica mas também de usuário para usuário. Se a atmosfera depende de (e atinge) uma sensibilidade emocional de que nos fala Zumthor, também essa sensibilidade emocional depende dos referentes culturais e das características próprias de cada indivíduo. 1 Peter Zumthor, Atmosferas – Entornos arquitectónicos – Las cosas a mi alredor, Barcelona, Gustavo Gili, 2006, p.13 Tradução da versão espanhola: “La atmosfera habla a una sensibilidad emocional, una percepción que funciona a una increíble velocidad y que los seres humanos tenemos para sobrevivir. No en todas las situaciones queremos recapacitar durante mucho tiempo sobre si aquello nos gusta o no, sobre si debemos o no salir corriendo de alli.” 2 do grego ATMOS “vapor”, mais SPHAIRA, “esfera”. !"#$%&'()$#)*+",'()+,-#./(0#1)23.)+,4#)+,5(06,475#8)+0)+,-#57()7.$+4+"97.#$()+,)#:,("*7$()-(")0#)$+4+"97.#57;.)$+)0(,) OXJDUHVFRQORTXHpVWRVQHFHVDULDPHQWHDFDEDQFRQYLUWLpQGRVHHQREMHWRVFHUUDGRVGH¿QLGRVGHXQDYH]SDUDVLHPSUH /DVUHODFLRQHVGHSHUWHQFLDDXQSXHEORDXQDFRPXQLGDG±SULPDQVREUHODVGHH[WHULRULGDG±SUySLDVGHORFtYLFR ()0()%":#.()<)=("9#.$()%.)("$+9)>+"6"?%75()+.)+0)?%+)0#).#4%"#0+@#8)0#)/7,4("7#)()0(,)$7(,+,),+)$+,-07+A#.)#)0#)9#.+"#) WHROyJLFDVREUHHOTXHKDFHUGHORVKRPEUHV´ BCD )LJ,PDJHPGDFRWDEDL[D]RQD%GDUHVLGrQFLDDSDUWLUGDQRYDHQWUDGDGD(+/ !"" 134 Interioridade “(...) Odysseus Mesmo que me prometas a imortalidade voltarei para casa Onde estão as coisas que plantei e fiz crescer Onde estão as paredes que pintei de branco Há na manhã de Hydra uma claridade que é a tua Há nas coisas de Hydra uma concisão visual que é tua Há nas coisas de Hydra a nitidez que penetra aquilo que é olhado por um deus Aquilo que o olhar de um deus tornou impetuosamente presente Na manhã de Hydra No café da praca em frente ao cais vi sobre as mesas Uma disponibilidade transparente e nua Que te pertence"3 Hydra, Julho de 1970 O Homem ancestral, puxado para o centro gravitacional da Terra (e sem possibilidade de o perceber ou contestar), sem conhecer as razões dos fenómenos, procurava criar condições para a vida perante a imensidão dentro do ritmo cadente da natureza, sobre a qual criava crenças e mitos. Eduardo Prieto critica a posição tida pelo movimento fenomenológico de reacção ao movimento moderno, acusando-o, de certa forma, a voltar a este estado místico de relação do Homem com o mundo. “Nesta escolástica, o espaço indeterminado é absorvido pela determinacão dos lugares, pelo que estes acabam necessariamente por se converter em objectos fechados, definidos de uma vez para sempre. As relacões de pertença - a um povo, a uma comunidade – primam sobre as da exterioridade – próprias do cívico ou do urbano – formando uma ordem hierárquica em que a naturaleza, a História ou os deuses se sobrepõem à maneira teológica sobre a vontade do Homem.”4 3 Sophia de Mello Breyner Andersen, “Dual” in Obra Poética, Lisboa, Caminho, 2010, p.577 4 Eduardo Prieto, La arquitectura de la ciudad global – Redes, no-lugares, naturaleza, Madrid, Editorial Biblioteca Nueva, 2011, p.95 135 Prieto propõe uma clara diferença entre lugar e espaço. O homem moderno sempre procurou a conquista progressiva do espaço, não se confinando ao seu lugar. Como sabemos, Le Corbusier mantinha uma grande admiração pelo avião e por todos os artefactos modernos que permitem atravessar o espaço em movimento. Mas o Homem ultrapassou mesmo os limites do seu próprio espaço, criado pela atmosfera, e chegou ao espaço sideral ou exterior e à Lua. Prieto reforça que os fenomenologistas como Heiddegger propõem uma reidentificação do Homem com o seu lugar. Em vez do espaço universal modernista, propõem um ‘aninhar’ do Homem, recolhido (e ligado) na atmosfera que lhe é própria, ligado às suas idiossincrasias. Também Eduardo Chillida, citado mais à frente, mantém uma visão semelhante. Prieto salienta, portanto, que “a exterioridade do espaço é subsituída pela interioridade dos lugares.”5 O progresso do Conhecimento sobre o que antes era percebido como exterior, terá influenciado a forma como o pretendemos domesticar ou conquistar como interior. Por exemplo, o sonho de uma arquitectura de vidro que fabulou intensamente uma diluição dos limites do espaço do homem e do espaço exterior. O exterior passava a pertencer ao interior e a formar um só interior, espécie de espaço contínuo. Nas primeiras propostas procurámos, como referimos no primeiro capítulo, conter a exterioridade criando um grande interior, espécie de claustro. Havia uma intenção de criar um espaço de maior clausura, em que a atmosfera fosse ditada apenas por uma ordem interna da arquitectura, e a desordem do exterior não entrasse. Também no primeiro capítulo, percebemos que era este o modo de fazer dos complexos monásticos ocidentais extramuros, implantados sobre espaços naturais imensos, ou pelo menos em fases precoces de humanização. Questionámo-nos se a envolvente da EHL, o seu lugar, não seria, pois, mais um interior. Ou pelo menos, se a atmosfera do lugar proporcionasse uma interioridade, que exigisse uma tão grande interiorização como propúnhamos no primeiro estudo. Norberg-Schulz liga a construção humana com a interioridade do lugar. “ A característica fundamental dos lugares construídos pelo homem é, portanto, a concentração e a introspecção. (Os lugares) são interiores no amplo sentido do termo” (Genius Loci) (...)“Estar dentro é a intenção primordial por detrás do conceito de lugar; isto é, estar de onde se é, longe do exterior.”6 5 Eduardo Prieto, La arquitectura de la ciudad global – Redes, no-lugares, naturaleza, Madrid, Editorial Biblioteca Nueva, 2011, p.94 Tradução da versão espanhola: “La exterioridad del espacio es sustituida por la interioridad de los lugares.” 6 Christian Norberg –Schulz Apud Eduardo Prieto in Eduardo Prieto, La arquitectura de la ciudad global – Redes, nolugares, naturaleza, Madrid, Editorial Biblioteca Nueva, 2011, p.94 Tradução da versão espanhola: “ La característica fundamental de los lugares construidos por el hombre es, por tanto, la concentración y el ensimismamiento. (Los lugares) son interiores en el amplio sentido del término” (Genius Loci) (...)“Estar dentro es la intención primordial trás el concepto de lugar; esto es, estar donde sea, lejos del exterior.” )LJ)RWRJUD¿DGDH[SRVLomRGH2ODIXU(OOLDVVRQH0D<DQVRQJ !""#$%&'()*"(!)+,' %HLMLQJ -./.0 /12 143 planeamento urbano, em que aberto é melhor, se não indubitavelmente bom”11 Ao cristalizar toda aquela realidade (tudo ficou gravado ao mais ínfimo pormenor - detalhes das janelas, etc). Whiteread parece, de alguma forma, aceitar a importância do fenómeno do real , sobre o qual os fenomonologistas trabalham por excelência. Mas Vidler alerta-nos também para uma segunda interpretação possível do sentido desta obra. “Mas por outro prisma House de Whiteread But from another viewpoint Whiteread’s House, longe de enfraquecer a ideologia espacial modernista, reforça-a nos seus próprios termos. Desde o desenvolvimento da psicologia de Gestalt, espaço tem sido matéria para todas as reversões intelectuais e experimentais envolvidas na identificação do figura e fundo, assim como as ambiguidades inevitáveis entre as duas ...”12 Efectivamente, ao preencher o que antes era espaço, Whiteread, enfatiza-o e lembra da sua presença indizível. Essa palpabilidade atribuída ao espaço, sublinhada por uma representação material dos espaços, foi experimentada por vários arquitectos modernistas, entre eles Luigi Moretti ao longo da década de 50. O resultado são conjuntos de sólidos, invertendo a ordem do cheio e do vazio. Assim, em vez de representar as formas, o molde do espaço representa, de facto, o espaço. O espaço contido entre elas, o espaço por elas moldado. Esta ideia de “maqueta à escala-real” 13 é cara ao arquitecto, que nunca acede, ao longo do projecto, ao produto final da arquitectura, e à sua verdadeira escala. A nova condição que Whiteread atribuiu a esta casa, também pode levantar questões sobre o binómio símbolo/função, sempre presente na definição de uma fronteira entre escultura e arquitectura. Segundo Vidler: “Whiteread mina este binário ao confundir deliberadamente escultura e arquitectura, e desenvolvendo uma espécie de objecto mutante que não pode ser definida em nenhuma 11 Anthony Vidler, Warped Space – Art, Architecture, and Anxiety in Modern Culture, Cambridge Massachusetts, MIT press, 2001, p.144 Tradução da versão inglesa:“This cast of the interior space of a soon to be demolished terrace house was accused of standing in the way of slum clearence, of blocking the planting of healthy greenery, of making a monument to an unhealthy and claustrophobic past. On another level, that of the ‘house’, the simple act of filling in space, of closing what was once open, would naturally counter the received wisdom of a century of planning dogma that open is better if not absolutely good.” 12 Anthony Vidler, Warped Space – Art, Architecture, and Anxiety in Modern Culture, Cambridge Massachusetts, MIT press, 2001, p.145 Tradução da versão inglesa: “But from another viewpoint Whiteread’s House, far from undermining modernism’s spatial ideology, reinforces it, and on its own terms. For, since the development of Gestalt psychology, space has been subject to all the intellectual and experiential reversals involved in the identification of figure and ground, as well as the inevitable ambiguities between the two...” 13 Anthony Vidler, Warped Space – Art, Architecture, and Anxiety in Modern Culture, Cambridge Massachusetts, MIT press, 2001, p.145 Tradução da versão inglesa: “full-scale-model” 144 das formas, que pede para ser definido pela sua própria rejeição.”14 Construção do vazio Da mesma forma que House de Whiteread levanta esta dúvida através da mutação de uma forma de arquitectura, também Eduardo Chillida testa os limites desta fronteira, com esculturas de grande escala, algumas até projectadas para formar espaço público. A obra deste autor só é entendível na linhagem das teorias fenomenológicas de filósofos como Heiddeger, Bachelard e Merlau-Pointy. Tal como House de Whiteread, Chillida produziu peças (como Lurra em 1984), em que parece haver uma total ocupação dos sólidos, que se separam por uma ténue frincha. Noutras, Chillida é mais directo quanto ao material usado: o espaço. "Os trabalhadores do estaleiro retiram pedra da montanha, mas sem perceberem que preechem-na com espaço"15 Esta frase de Chillida diz-nos praticamente tudo sobre a sua concepção do espaço. Espaço é volume, definida pelas formas do mundo. É espaço, tal como no início de século modernista de que já falámos. Mas, ao contrário do espaço urbano modernista, totalmente fluído, disforme, universal e sem intenções de ser contido ou definido, Chillida fala-nos sempre de um espaço passível de ser desenhado e redesenhado, através da definição contrastante do seu limite. Ao contrário da ideia de iluminação homogénea do espaço modernista, Chillida radicaliza a heterogeneidade dos valores luz/sombra, tal como faz com o binómio interior/exterior. Por exemplo no seu espaço já no limiar da escultura e completamente interiorizado a ser aberto subterraneamente na Montanha de Tindaya (projecto não concretizado). É um espaço cuja construção requer apenas subtracção. Na EHL, o processo de fragmentação do construído, já antes mencionado, veio acompanhado de um processo de transformação da realidade topográfica do terreno, e começou por ser essa a primeira construção. A anulação de matéria como forma de arquitectura já foi, no primeiro capítulo, por nós reivindicada. Foi a forma encontrada para sair de uma busca por um grande espaço enclausurado (fig.4, cap1) e abrir todo o 14 Anthony Vidler, Warped Space – Art, Architecture, and Anxiety in Modern Culture, Cambridge Massachusetts, MIT press, 2001, p.149 Tradução da versão inglesa: “Whiteread undermines this binary problem by deliberately confusing sculpture and architecture, and by developing a kind of mutant object that cannot be defined in either set of terms, that asks to be defined indeed by this very refusal.” 15 Eduardo Chillida apud Adrian Searle in The Guardian obituary, London, Online Guardian, Quarta –Feira, 21 de Agosto de 2002 Tradução da versão inglesa: "quarry workers take stone out of the mountain, but without realising that they fill it with space.” 145 complexo ao lugar (fig.66). Abrindo-o precisávamos imediatamente de estabelecer um diálogo, mais profundo, mais perene com ele. Na obra de Chillida supra referida notam-se dois princípios basilares do exercício. Por um lado, a definição da forma do espaço, único reconhecível dentro da montanha (como se vê no corte - fig.70), e por outro a sua ligação permanente ao sítio, a impossibilidade de o mover para outro local por estar dentro da montanha e a ela pertencer. (Note-se a posição quase antagónica em relação ao desejo corbusiano de espalhar ville savoye em todo e qualquer território.) “O espaço, dentro do qual a estrutura esculpida pode ser presente como um objecto present-at-hand16; o espaço, que define o volume do cheio; o espaço, que subsiste como vazio entre volumes; (…) ”17 O segundo princípio, o da imobilidade do vazio criado, e da sua permanência na terra própria, parece ser extensível também a um reconhecimento a priori do Homem com o seu lugar, à sua terra própria, muito presente em Chillida. Falava frequentemente de uma atmosfera própria da paisagem do seu país Basco, uma luz negra. Também Pallasmaa nos fala desta relação intrínseca entre o lugar e o Homem. “A interdependência entre identidade e contexto é tão forte que os psicólogos falam de uma ‘personalidade situacional’. O conceito é basado na observação que o comportamento do indivíduo varia mais perante diferentes condições do que o comportamenteo de diferentes indivíduos perante as mesmas condições.”18 Aponta-nos também a língua como factor de relação identitária ao lugar, às pessoas, ao espaços da sua arquitectura e paisagem, enfim, à atmosfera própria de que fala Chillida. A arquitectura chega sempre depois, sobrepõe-se, e pode, por isso, transformar (e nunca eliminar por completo) essa atmosfera, se quisermos, idiossincrática. Essa sobreposição, como já vimos no primeiro capítulo, não significa, 16 Note-se a dificuldade (e opção de não o fazer) em traduzir present-at-hand, por constituir um conceito filosófico próprio de Heiddegger( 1962). Genericamente, ele só pode ser entendido em oposição a ready-to-hand. Se por exemplo um martelo poderia ser, segundo Heiddegger, um ready-to-hand, se ele se partir a meio passa a ser um objecto presentat-hand, totalmente desprovido de configuração funcional. 17 Martin Heiddeger, Art and Space, Den Haag, Nijhoff, 1973, p.5 Traducção da versão inglesa: “The space, within which the sculptured structure can be met as an object present-at-hand; the space, which encloses the volume of the figure; the space, which subsists as the emptiness between volumes; -- are not these three spaces in the unity of their interplay always merely derivative of one physical-technological space, even if calculative measurement cannot be applied to artistic figures.” 18 Juhani Pallasmaa, “Identity, Intimacy, and Domicile – Notes on the Phenomenology of Home” (1994) in Juahani Pallasmaa, Encounters: architectural essays, Helsínquia, Rakennustieto, 2005, p.118 Tradução da versão inglesa: “The interdependence of identity and context is so strong that psychologists speak of a 'situational personality.' The concept is based on the observation that the behavior of a single individual varies more under different conditions than the behavior of different individuals under the same conditions.” !"#$%&'' '()**+ ,'-."//"0+$ 12% !"#$%&''' ()*+, 5DFKHO:KLWHUHDG/RQGUHV -./ !"#$%&'''' (ORJLRGHO9DFtR (')*"++",-$ ./0 !"#$%&'''()*+,-./01'2'+23/01'42' 516,.67.'8"64.9.:' ;7"))"4.$ <=> 150 no exercício de projecto, mera adição de matéria. A subtracção, a construção do vazio, cria o espaço da permanência, impossível de mover, como nos mostra Chillida. No exercício da EHL, propõe-se a subtracção, substituição e adição simples de camadas da terra. Numa maqueta territorial construída com curvas de nível, a massa edificada representaria meras transformações no seu desenho original. Plasticamente, não se pretendeu desligar desta origem e a forma como estão marcados os pisos, como espécies de camadas sobrepostas geologicamente, reforça esse intento. Mas o primeiro acto de projecto é a demolição, a decisão de criar o espaço para a construção, como se explica no primeiro capítulo. Criou-se uma zona rebaixada em relação à via rápida, que marca um centro confinado de acção comunitária na paisagem. Se a residência se resolvesse num grande acampamento, esta bacia seria o único acto de projecto permanente e que, dentro da estratégia adoptada na relação com a pré-existência, não se poderia abdicar. Experiência total dos sentidos A estrutura orgânica de que tratamos no segundo capítulo, procurava destrinçar a distribuição das funções, na formulação de corpo e organismo do conjunto. Mas só faz sentido esse trabalho procurando perceber o que significa para o espaço vivido a contiguidade ou separação das funções. O que produz cada contiguidade ou posição relativa na atmosfera dos espaços. Só assim se poderá formular desenho arquitectónico sobre a qualidade das suas superfícies e espaços; na conjugação dos diferentes instrumentos da arquitectura. Pallasmaa alerta-nos que o acto de viver o espaço é muito mais do que o percorrer, apreciando as formas da arquitectura. Através desta incursão, o autor também questiona o real poder do arquitecto, na construção da atmosfera. Diríamos que o autor caracteriza o arquitecto como uma espécie de facilitador da vivência, criando condições para ela acontecer, mas pretende retirar-lhe a falsa ilusão que a controla. “As experiências arquitectónicas autênticas consistem, pois, em, por exemplo, aproximar-se ou colocar-se perante um edifício, mais que a percepção formal de uma fachada; o acto de entrar, e não simplesmente do desenho visual da porta; olhar o interior ou o exterior por uma janela, mais do que a chaminé como um objecto de desenho visual. O espaço arquitectónico é espaço vivido mais que espaço físico, e o 151 espaço vivido sempre transcende a geometria e a mensurabilidade.”19 É dessa riqueza que se compõe o espaço vivido, e é nela que se perdem, anulam, dissolvem muitas das intenções formais da arquitectura. Uma janela, para além do seu desenho, que pode ser apreendido visualmente, é também fonte de calor ou frio, brisa ou ventania, luz ou escuridão, silêncio ou ruído, aroma a eucalipto ou ar poluído. Se a janela puder ser aberta, todas estas fontes de sensações são passíveis de ser controladas, permitidas ou rejeitadas. A exploração das perspectivas infinitas nas cidades modernistas, requeria, em especial, um dos sentidos: a visão. Pallasmaa, no seu livro Los ojos de la piel, apoia-se em vários discursos filosóficos e fenomenológicos, como o de Maurice Merlau-Pointy20 para pôr em causa esta redução da arquitectura e da vida moderna à exploração de um sentido dominante. Este fenomenólogo rejeita a divisão de fontes sensoriais na experiência do espaço, e defende uma espécie de experiência total. “... no lugar do olho cartesiano do espectador exterior, o sentido da vista em Merleau – Ponty apresenta-se como uma visão incorporada que é uma parte corpórea da ‘carne do mundo’. ‘Nosso corpo é tanto um objecto entre objectos como aquele que os vê e os toca’. Merleau-Ponty viu uma relação osmótica entre o eu e o mundo – ambos se interpenetram e definem um ao outro – e enfatizou a simultaneidade e interação dos sentidos. Merleau-Ponty escreve: “A minha percepção não é (portanto) uma soma de dados conhecidos visuais, tactéis e auditivos. Percebo de uma forma total com todo o meu ser: capto uma estrutura única da coisa, uma única maneira de ser que fala a todos os sentidos à vez.’21 Se a visão é apenas mais um dos sentidos que nos assistem para receber e interpretar a realidade como um todo, dever-nos-emos questionar sobre os outros sentidos e a forma como eles contribuem para consolidar uma memória corporal. O quadro Les amants 19 Juhani Pallasmaa, Los ojos de la piel – la arquitectura y los sentidos, Barcelona, Gustavo Gili, 2006, p.64 Tradução da versão espanhola: “Las experiencias arquitectónicas auténticas consisten, pues, en, por ejemplo, acercarse o enfrentarse a un edificio, más que la percepción formal de una fachada; el acto de entrar, y no simplemente del diseño visual de la puerta; mirar al interior o al exterior por una ventana, más que la chimenea como un objeto de diseño visual. El espacio arquitectónico es espacio vivido más que espacio físico, y el espacio vivido siempre trasciende la geometria y la mensurabilidad.” 20 O autor cita Merleau-Ponty para esse efeito: “Maurice Meleau-Ponty crticó incesantemente el ‘régimen cartesiano perspectivo escópico’ y ‘su privilegio de un sujeto ahistórico, imparcial, acorporalizado, totalmente ajeno al mundo’.” - Juhani Pallasmaa, Los ojos de la piel – la arquitectura y los sentidos, Barcelona, Gustavo Gili, 2006, p.20 21 Juhani Pallasmaa, Los ojos de la piel – la arquitectura y los sentidos, Barcelona, Gustavo Gili, 2006, p.20 Tradução da versão espanhola: “... en lugar del ojo cartesiano del espectador exterior, el sentido de la vista en Merleau – Ponty se presenta como una visión incorporada que es una parte corpórea de la ‘carne del mundo’. ‘Nuestro cuerpo es tanto un objeto entre objetos como aquél que los ve y los toca’. MerleauPonty vio una relación osmótica entre el yo y el mundo – ambos se interpenetran y definen uno al otro – y enfatizó la simultaneidad e interacción de los sentidos. MerleauPonty escribe: “Mi percepción no es (por tanto) una suma de datos conocidos visuales, táctiles y auditivos. Percibo de una forma total con todo mi ser: capto una estructura única de la cosa, una única manera de ser que habla a todos los sentidos a la vez.’ !"#$%&'''()*+,-)'.)' /)0'12+3*0 GH5HQp0DJULWWH &45