Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em adolescentes no Algarve
Abstract
Tese de doutoramento em Ciências do Consumo Alimentar e Nutrição apresentada à Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto, sob orientação de Professor Doutor António Pedro Soares Ricardo Graça (Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto).
Full text
Maria Palma Mateus Porto 2012 Programa Doutoral em Ciências do Consumo Alimentar e Nutrição 2009/2012 Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve
Trabalho de dissertação desenvolvido para obter o grau de Doutor em Ciências do Consumo Alimentar e Nutrição, no âmbito do Programa Doutoral em Ciências da Alimentação e Nutrição, da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto. Orientador: Professor Doutor António Pedro Soares Ricardo Graça Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto Doutoranda: Maria Palma Mateus Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve
Dedicatória À minha filha, Por ser como é, Pelo sentido que dá à minha vida, Porque foi a pensar nela que nunca desisti, Por todos os momentos em que estive ausente.
À Professora Doutora Maria Daniel Vaz de Almeida, por ter acreditado em mim desde do início, pela sua disponibilidade e apoio. Ao meu orientador Professor Doutor António Pedro Soares Ricardo Graça, pelo seu encorajamento nos momentos menos bons, pelos seus ensinamentos, pela sua visão do mundo e, pela sua amizade. À Professora Doutora Ana de Freitas pela sua amizade, incentivo, apoio e disponibilização da carrinha da Escola durante a recolha dos dados, sem os quais não teria sido possível a concretização do presente estudo. À Professora Doutora Nídia Braz pela sua disponibilidade, apoio, incentivo, paciência para aturar os meus delírios e pelas suas sábias palavras, mas acima de tudo pela sua amizade. À Professora Doutora Anna Bach da Fundación Dieta Mediterránea pelo seu caloroso acolhimento em Barcelona, pela sua disponibilidade e pelo seu apoio científico na aplicação do KIDMED. À Professora Doutora Carla Lopes pela sua amizade, por ter disponibilizado o questionário de frequência alimentar utilizado no presente estudo, e pela conversão dos dados obtidos no referido questionário em nutrimentos. Ao Dr. Ezequiel Pinto pela sua amizade, disponibilidade constante e, pelo valioso apoio no aprofundamento do tratamento estatístico dos dados obtidos, sem o qual não teria sido possível a concretização do presente estudo. À Dra. Mónica Caixinha pela sua amizade, e sacrifício pessoal numa fase delicada da sua vida, para que eu pudesse dispor do tempo que um estudo desta natureza requer. Aos meus alunos Ana Filipa Marcos, Daniela Marques, Gabriel Martins, Mariana Freitas e Marco Ferreira, pelo seu interesse, disponibilidade, empenhamento e alegria, sem os quais não teria sido possível recolher todos os dados nos prazos previstos, e aos quais ficarei para sempre grata. Aos presidentes executivos e diretores de turma da Escola Secundária de Vila Real de Santo António, da Escola EB 2,3 António João Eusébio Agradecimentos
(Moncarapacho), da Escola Integrada Dr. Aníbal Cavaco Silva (Boliqueime), da Escola EB 2,3 Dr. Joaquim Magalhães (Faro) e da Escola EB 2,3 Dr. Neves Júnior (Faro), cuja disponibilidade e colaboração foram essenciais para a realização do presente estudo. Aos estudantes e respetivos encarregados de educação cuja colaboração foi imprescindível para a realização deste estudo. Ao casal Zélia e Adelino Correia e ao meu “primo” Joaquim pela sua amizade, generosidade e caloroso acolhimento sempre que tive de ficar no Porto. Ao Victor Lopes pelo apoio na “primeira eliminatória” sem o qual “teria morrido na praia”. A todos os meus amigos e colegas que me encorajaram e acompanharam neste percurso. À minha irmã Tânia pela sua amizade, apoio, colaboração, criatividade e por me fazer rir nos momentos menos bons. À minha mãe por ser a MÃE que é, sempre presente e disponível, e sem cuja ajuda e apoio não teria chegado ao fim.
A adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico (PAM) está associada a taxas de morbilidade e mortalidade mais baixas. A nível nutricional este padrão alimentar caracteriza-se por um consumo abundante de ácidos gordos monoinsaturados, sobretudo de ácido oleico, de fibras e de substâncias de origem vegetal com elevado potencial antioxidante. Portugal apresenta características que lhe têm conferido um estatuto mediterrânico. No entanto, a alimentação dos portugueses, há semelhança do que se tem verificado noutros países mediterrânicos, tem vindo gradualmente a afastar-se da dieta tradicional tipo mediterrânica. Embora os dados disponíveis sobre a adesão ao PAM em crianças e adolescentes em Portugal, ainda sejam limitados, estudos desenvolvidos em Espanha e na Grécia, evidenciam que as crianças e os adolescentes estão a afastar-se das suas raízes mediterrânicas. A informação disponível em Portugal baseia-se sobretudo em dados recolhidos a partir dos orçamentos familiares e das balanças alimentares, o que não permite categorizar dados relativos a crianças e adolescentes. Portugal fica localizado no extremo ocidental da Europa e a região do Algarve fica localizado no sul de Portugal continental. Pela sua posição geográfica apresenta um clima temperado, com mais de 3000 horas de sol por ano e baixa pluviosidade anual. Apresenta características morfológicas e geológicas próprias que permitem dividi-lo em três regiões principais: Litoral, Barrocal e Serra. O litoral corresponde à estreita faixa junto da costa, conhecido pelas Rias Formosa e do Alvor e pelas suas praias. O Barrocal é mais interior e representa a zona de transição entre o Litoral e a Serra, também conhecido como beiraserra, é tradicionalmente a principal zona fornecedora de produtos agrícolas do Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve Maria Palma Mateus Lopes Orientador: Professor Doutor António Pedro Soares Ricardo Graça Julho 2012 Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve Maria Palma Mateus Lopes Orientador: Professor Doutor António Pedro Soares Ricardo Graça Julho 2012 Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve Maria Palma Mateus Lopes Orientador: Professor Doutor António Pedro Soares Ricardo Graça Julho 2012 Resumo
Algarve, aqui podemos encontrar as figueiras, as amendoeiras, entre outras, que têm vindo a ser substituídas por um tipo de agricultura mais intensivo, como a horticultura e a produção de citrinos, nesta zona podemos ainda encontrar o cultivo de cereais como o trigo e a cevada, e de leguminosas. A Serra, que representa 50% do território algarvio, é essencialmente formada por rochas xistosas e graníticas, são característicos desta zona os sobreiros, as azinheiras e mato de estevas, entre outros. Os principais objetivos deste estudo consistiram na caracterização dos hábitos alimentares de jovens da região do Algarve e avaliação do nível de adesão ao PAM através da aplicação do Mediterranean Diet Quality Index for children and adolescents (Índice KIDMED). Para tal, desenvolveu-se um questionário para obter informações sobre os hábitos alimentares dos jovens, entre os onze e os dezasseis anos de idade, que frequentavam as escolas do ensino público regular do 2º e 3º ciclos, no qual constava também o índice KIDMED. Obteve-se uma amostra final de 276 jovens inquiridos. Destes, 52,5% apresentaram alta adesão ao PAM, 42,0% situavam-se no nível de adesão intermédia, e 5,4% apresentaram um nível de adesão baixo. No entanto, observou-se uma ingestão energética e nutricional desadequada, tendo-se encontrado ingestões elevadas de proteínas de origem animal, de lípidos, em particular lípidos ricos em ácidos gordos saturados e de açúcares. A análise dos consumos alimentares dos inquiridos revelou que o consumo de produtos hortícolas, frutos, leguminosas e cereais pouco refinados deve ser promovido junto dos jovens algarvios, como demonstram os 47,4% de inquiridos que apresentaram um nível de adesão ao PAM intermédio ou baixo. Palavras-chave: hábitos alimentares; dieta mediterrânica; padrão alimentar; adesão ao padrão mediterrânico; crianças; adolescentes
The adherence to the Mediterranean Eating Pattern is associated to low rates of mortality and morbidity. This pattern is characterized by the abundant consumption of monounsaturated fatty acids, mainly by the oleic acid, fibres and of vegetal substances with high antioxidant potential. Portugal presents food habits and characteristics that can be classified as Mediterranean. However, the Portuguese like the majority of European mediterranean population, have gradually moved away from its traditional mediterranean eating pattern. In spite the fact that the available data related to the food habits of youngsters is scarce, studies developed in Spain and Greece, demonstrate that food habits of children and teenagers are further apart from of their Mediterranean roots. The available information in Portugal related to the adherence of Mediterranean Eating Pattern is based, mainly, in data collected from the household’s budgets surveys and food balance sheets; however this methodology does not allow to obtain information directly related with food habits of youngsters. Portugal is located in the west coast of Europe and the region of Algarve is in the south region of Portugal. Due to its geographical location, it has a temperate climate, with more than 3.000 hours of sun per year and a low annually rain rate. We can divide the Algarve into three separate regions due to its own specific geographical and morphologic characteristics: Litoral, Barrocal and Serra. The Litoral represents the narrow stripe nearby the coastline, known as Rias Formosa and Alvor and by its beaches. The Barrocal represents the middle area between the Litoral and the Serra part. It’s more into the interior of Algarve and is the main supplier of agricultural products of Algarve, such as figs and almonds, amongst others. However, through time, these products have been Abstract
replaced by other types of agricultural products, like horticulture and the production of citrus fruits, we can also find in this area the production of cereals, such as wheat, barley and dry and fresh pulses. The Serra represents 50% of the Algarve region and is formed by schist and granite soils. In this area we can find the cork trees, holm oak, rock roses, amongst others. The aim of the present study is to characterize the food habits of youngsters of the Algarve region and evaluate their compliance with the Mediterranean Eating Pattern (PAM), using the Mediterranean Diet Quality Index for Children and Adolescents (KIDMED score). An inquiry tool was developed, which included the KIDMED score together with overall food consumption habits, and applied to students from regular public schools (2nd and 3rd cycles). The inquiry field work lead to 276 valid responded forms. Among these, 52,5% showed high Mediterranean Eating Pattern compliance, 42,0% intermediate and 5,4% low PAM. The overall food consumption study showed opportunity for improvement on the consumption of vegetables, fruit, pulses and unrefined cereals, which is consistent with the 47,4% of low to intermediate compliance with the Mediterranean Eating Pattern. Key words: food habits; dietary habits; mediterranean diet; dietary pattern; mediterranean diet adherence; children; adolescents.
Quadro 24 - Frequência de consumo de azeite e de óleos 68 Quadro 25 - Frequência de consumo de margarina e de manteiga 69 Quadro 26 - Frequência de consumo de pão branco e de pão de mistura 70 Quadro 27 - Frequência de consumo de arroz e massa 71 Quadro 28 - Frequência de consumo de outros alimentos 72 Quadro 29 - Frequência de consumo de hortícolas 74 Quadro 30 - Frequência de consumo de fruta 74 Quadro 31 - Frequência de consumo de bebidas 75 Quadro 32 - Ingestão energética e nutricional dos estudantes 78 Quadro 33 - Ingestão energética e nutricional dos estudantes, por sexo 79 Quadro 34 - Correlação entre a ingestão energética e nutricional dos estudantes, por idades 80 Quadro 35 - Comparação entre as recomendações das DRI´s e a ingestão média diária dos nutrimentos analisados 81 Quadro 36 - Nutrimentos e categorias de classificação de pressão arterial dos estudantes 83 Quadro 37 - Correlação entre os nutrimentos analisados e os valores de arterial sistólica e diastólica dos estudantes 83 Quadro 38 - Respostas dos estudantes ao KIDMED 85 Quadro 39 - Nível de adesão ao Padrão Alimentar Mediterrâneo pelo KIDMED 85 Quadro 40 - Nível de adesão ao KIDMED e o aporte energético e nutricional dos estudantes 88 Quadro 41 - Correlações entre as frequências alimentares e o KIDMED 89 Quadro 42 - Níveis de adesão ao KIDMED por idades 92 Quadro 43 - Níveis de adesão ao KIDMED por sexo 92 Quadro 44 - Níveis de adesão ao KIDMED pelas categorias de IMC_Cole 94 Quadro 45 - Níveis de adesão ao KIDMED por escolas 96 Quadro 46 - Níveis de adesão ao KIDMED pela localização sociodemográfica das escolas 96
Quadro 47 - Modo de deslocação casa/escola 97 Quadro 48 - Frequência da prática de desporto 98 Quadro 49 - Outras atividades realizadas durante a semana e ao fimde-semana 99 Quadro 50 - Prática de atividade física fora da escola e valor médio do KIDMED 99 Quadro 51 - Prática de atividade física fora da escola e relação com a variável KIDMEDCAT 100 Quadro 52 - Prática de atividade física fora da escola e relação com a variável IMC_Cole 101 Quadro 53 - Produção própria de alimentos 102 Quadro 54 - Alimentos mais produzidos pelos agregados familiares 102 Quadro 55 - Motivos que mais influenciam a compra dos alimentos no dia-a-dia 103 Quadro 56 - Produção própria e motivos que mais influenciam a compra dos alimentos no dia-a-dia 104 Quadro 57 - Frequência de compra de alimentos do agregado familiar 106 Quadro 58 - Frequência do local de compra de alimentos do agregado familiar 107 Quadro 59 - Refeições diárias realizadas em família 108 Quadro 60 - Produção própria e ingestão energética e nutricional 110 Quadro 61 - Produção própria e as variáveis KIDMED e KIDMEDCAT 111 Quadro 62 - Produção própria e a variável IMC_Cole 112 Quadro 63 - Frequência de adultos inquiridos que cozinhavam pratos tradicionais algarvios 115 Quadro 64 - Adultos inquiridos que cozinhavam pratos tradicionais algarvios, em meio urbano e meio rural 115 Quadro 65 - Adultos inquiridos que cozinhavam pratos tradicionais por naturalidade 116 Quadro 66 - Influência do tempo de residência no Algarve na confeção de pratos tradicionais 116 Quadro 67 - Número de pratos tradicionais confecionados pelos adultos inquiridos 116 Quadro 68 - Categorias de pratos tradicionais mais confecionados pelos adultos inquiridos 117
Quadro 69 - Frequência da confeção de pratos tradicionais 118 Quadro 70 - Principais motivos para não confecionar pratos tradicionais 119 Quadro 71 - Produção própria e confeção de pratos tradicionais 119 Quadro 72 - Frequência de consumo de alimentos/produtos alimentares tradicionais do Algarve 120 Quadro 73 - Distribuição das respostas obtidas sobre os benefícios dos para a saúde 121 Quadro 74 - Motivos que limitam o número de vezes que se cozinha em casa 122 Quadro 75 - Produção própria e motivos que limitam o número de vezes que se cozinha em casa 122
Índice de figuras Figura 1 – Variação da população residente, por município – Região do Algarve (2001 e 2011) 11 Figura 2 – Densidade populacional, por município – Região do Algarve (2001 e 2011) 12 Figura 3 – Etapas do método de amostragem 25 Figura 4 – Principais fases do procedimento para a recolha de dados 40 Figura 5 – Distribuição da idade dos estudantes por sexo 44 Figura 6 – Região de origem dos estudantes 45 Figura 7 – Escolaridade completa dos pais dos estudantes por sexo 46 Figura 8 – Idade dos pais dos estudantes por sexo 46 Figura 9 – Nacionalidade dos pais dos estudantes por sexo 47 Figura 10 – Distribuição por sexo dos inquiridos responsáveis pela compra e/ou preparação dos alimentos 47 Figura 11 – Distribuição das categorias de IMC por sexo 51 Figura 12 – Distribuição dos percentis do perímetro da cintura por sexo 53 Figura 13 – Classificação da pressão arterial dos inquiridos por sexo 57 Figura 14 – Frequência de consumo de leite meio-gordo 61 Figura 15 – Frequência de consumo de iogurte 61 Figura 16 – Frequência de consumo de queijo 62 Figura 17 – Frequência de consumo de ovos 63 Figura 18 – Frequência de consumo de frango 63 Figura 19 – Frequência de consumo de peru e coelho 64 Figura 20 – Frequência de consumo de vaca, porco e cabrito 65 Figura 21 – Frequência de consumo de fiambre, chouriço, salpicão e presunto 65 Figura 22 – Frequência de consumo de peixe gordo 67 Figura 23 – Frequência de consumo de peixe magro 67 Figura 24 – Frequência de consumo de cereais de pequeno-almoço 70 Figura 25 – Frequência de consumo de água 76 Figura 26 – Frequência de refeições cozinhadas em casa 112 Figura 27 – Frequência de compra de refeições prontas a servir ou de “take away” 113
Figura 28 – Frequência de compra de refeições pré-cozinhadas 113 Figura 29 – Frequência de refeições realizadas fora de casa 114
Lista de abreviaturas Ác. gordo – Ácido gordo col. – Colaboradores CPLP – Países de expressão portuguesa DGIDC – Direção Geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular DREAlg – Direção Regional de Educação do Algarve DRI´s – Dietary Reference Intakes FAO/WHO – Food and Agriculture Organization of United Nations/World Health Organization HBSC/OMS – Health Behavior in School-aged children/Organização Mundial de Saúde IMC – Índice de massa corporal IMC_cole - Variável que categoriza o peso, de acordo com os critérios da International Obesity Task Force IOFT – International Obesity Task Force WHtR – Waist-to-Height ratio (Quociente entre o perímetro da cintura e a estatura) KIDMED – Mediterranean Diet Quality Index for children and adolescents (Índice KIDMED) KIDMEDCAT – Variável que categoriza os níveis de adesão à dieta mediterrânica através das respostas obtidas na aplicação do índice KIDMED PAM – Padrão Alimentar Mediterrânico PA_Grupo_Dicot – Variável que categoriza os graus de pressão arterial PAL – Physical Activity Level (Nível de atividade física) PC – Perímetro da cintura Peq. Almoço – Pequeno-almoço QFA – Questionário de frequência alimentar
UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura VRSA - Vila Real de Santo António 2ªf – segunda-feira 3ªf – terça-feira 4ªf – quarta-feira 5ªf – quinta-feira 6ªf – sexta-feira Sab. - sábado Dom.- domingo
1. INTRODUÇÃO
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 1 2012 1.1. O Padrão Alimentar Mediterrânico O Padrão Alimentar Mediterrânico (PAM) tem a sua origem nas tradições e na cultura dos países que circundam o Mar Mediterrânico ou que dele sofreram influências, como é o caso de Portugal (Durão, C. R., Oliveira, J. F. S. & de Almeida, M. D. V., 2008). Podemos encontrar variantes deste padrão alimentar nos países da Europa meridional, na zona ocidental da Ásia e na orla costeira do Norte de África. A par da diversidade de costumes e hábitos alimentares destes povos, é possível identificar uma matriz alimentar comum que assenta na produção e no consumo de azeite (Fidanza, F.,1991; Nestle, M., 1995; Reguant-Aleix, J.,2012; Willett, W.C. et al., 1995). Foi construído e apreendido ao longo de séculos e representa um legado de diferentes culturas e civilizações. Os hábitos alimentares dos povos que se fixaram ao longo da costa do Mar Mediterrânico são o resultado de fatores climáticos e geográficos muito característicos desta região, que condicionaram não só a flora e fauna naturais, mas também a produção agrícola, a pesca e a disponibilidade alimentar destes povos. O PAM está intimamente ligado à paisagem simultaneamente austera e generosa, que oferecia até ao limite das suas potencialidades os recursos alimentares que eram habilmente utilizados pelos povos mediterrânicos, conscientes da fragilidade desses recursos. Este mar interior serviu de veículo de transmissão de cultura, de costumes e de práticas agrícolas entre povos, das quais se destacam o cultivo de cereais, da vinha, e a criação de gado caprino e ovino, que contribuíram para o desenvolvimento de uma identidade mediterrânica (Reguant-Aleix, J., 2012). O padrão alimentar mediterrânico está ligado ao conceito de “Dieta Mediterrânica”, que teve por base o estilo de vida e os hábitos alimentares tradicionais da Grécia e do sul de Itália, nas décadas de cinquenta e sessenta do século XX (Fidanza, F., 1991; Nestle, M., 1995). Estes dois países integraram o conhecido estudo “International Cooperative Study on the Epidemiology of Coronary Heart Disease”, também conhecido como o Estudo
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 2 2012 dos Sete Países, desenvolvido pelo investigador norte-americano Ancel Keys, na década de cinquenta, do séc. XX (Fidanza, F., 1991; Kromhout, D., Keys, A., Aravanis, C., Fidanza, F., Giampaoli, S., et al., 1989; Nestle, M.,1995). Este estudo que abarcou países do norte e sul da Europa, os Estados Unidos e o Japão, pôs em evidência taxas de mortalidade por doença cardiovascular consideravelmente mais elevadas nos países do norte da Europa, bem como nos Estados Unidos e mais baixas nos países do sul da Europa e no Japão, diferenças estas que este investigador atribuiu aos diferentes hábitos alimentares observados nestas populações, sobretudo ao consumo de gorduras e, em especial, ao elevado consumo de ácidos gordos monoinsaturados em detrimento do consumo de ácidos gordos saturados (Kromhout, D., et al., 1989). Mas o conceito de “Dieta Mediterrânica” não se confina ao “modo de comer” tradicional dos povos do mediterrâneo, representa muito mais, basta analisarmos a origem da palavra “dieta” que tem as suas raízes no termo grego “díaita” que significa “um modo de vida” que engloba um conjunto de hábitos, costumes, valores, crenças, símbolos, gostos e estados de alma, do qual os hábitos alimentares são parte integrante. Representa uma filosofia de vida e um modo de sentir, baseados na partilha, na sociabilidade, na criatividade, na celebração e na hospitalidade, moldados por uma paisagem agreste e um mar que contribuiu para o estabelecimento de uma dinâmica cultural complexa, que está em permanente movimento e evolução, mas que perpetua um património histórico imaterial comum entre os povos que o circundam (Reguant-Aleix, J., 2012). Por conseguinte, a valorização e promoção do PAM, não assenta apenas nos prazeres da cozinha mediterrânica, nas suas qualidades organoléticas e nutricionais. O seu valor vai mais além, pressupõe também o reconhecimento e o respeito por um património cultural e histórico imaterial, tendo por base a preservação das tradições e paisagens a ele associadas (Castells,M., 2008; Reguant-Aleix, J., 2012).
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 9 2012 Nesse sentido, foram desenvolvidos estudos epidemiológicos que estimaram a relação entre o modelo alimentar mediterrânico e o risco de mortalidade ou morbilidade (Trichopoulou, A. et al, 1995 a, Trichopoulou, A et al., 2003; Trichopoulou, et al., 2005 c) através da utilização de índices ou escalas alimentares que permitiam fazer a avaliação global da qualidade dos hábitos alimentares, utilizando um conjunto de critérios definidos “à priori” tendo por base as características alimentares do PAM (Bach, A., Serra-Majem, L., Carrasco, J. L., Blanca, R., Ngo, J., Bertomeu, I. et al., 2006). Estes índices ou escalas alimentares são desenvolvidos em função de diferentes componentes como alimentos, grupos de alimentos ou uma combinação de alimentos e nutrimentos. Estes componentes são selecionados com base em conhecimentos ou evidências científicas prévias (Bach, A. et al., 2006). Esta metodologia tem sido apoiada por vários investigadores que defendem que os alimentos e os nutrimentos neles contidos não são consumidos isoladamente e que o seu efeito no organismo tende a ser cumulativo, senão mesmo sinérgico (Hu, F. B., 2002; Kant, A. K., 2004). É exemplo deste tipo de índices o Mediterranean Diet Score que foi desenvolvido por Trichoupolou A. e colaboradores (1995) com o objetivo de avaliar a adesão ao PAM grego. Originalmente, este índice variava entre o nível zero de adesão ao nível oito (máxima adesão) para uma escala de oito componentes (Bach, A. et al., 2006; Trichopoulou, A. et al., 1995 a). Esta metodologia tem sido extensivamente usada devido à simplicidade da sua aplicação e muitas variantes têm sido desenvolvidas (Bach, A. et al., 2006). Uma destas variantes é o Mediterranean Diet Quality Index for children and adolescents (Índice KIDMED), originalmente desenvolvido para avaliar os hábitos alimentares de uma população de 3850 crianças e adolescentes espanhóis, com idades compreendidas, entre os dois e os vinte e quatro anos, no âmbito do estudo EnKid (Bach, A. et al., 2006; Serra-Majem, L. et al., 2004 a). A partir deste estudo, outros foram realizados (Kárlen, J. et al., 2008; Kontogianni, M. D. et al., 2008; Lazarou, C., Panagiotakos, D. B. & Matalas, A.
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 10 2012 L., 2009 a), demonstrando que esta metodologia permite avaliar a adesão dos jovens ao PAM. 1.6. O Algarve A região do Algarve localiza-se no extremo ocidental da Europa, a sul de Portugal continental. É limitado a norte pela província do Alentejo, a leste pela província espanhola de Huelva, a sul e a oeste pelo Oceano Atlântico. Tem uma área de 4996Km2, o que corresponde a 5% do território nacional continental e uma costa com cerca de 150 km. Pela sua posição geográfica apresenta um clima temperado, com mais de 3000 horas de sol por ano e baixa pluviosidade anual. Apresenta características morfológicas e geológicas próprias que permitem dividi-lo em três regiões principais: Litoral, Barrocal e Serra (ANEXO 1) (CCDR Algarve, 2007). O litoral corresponde à estreita faixa junto da costa, conhecido pelas Rias Formosa e do Alvor e pelas suas praias. Pela sua proximidade do mar as principais atividades que se desenvolvem nesta zona, são a pesca, a aquacultura e a produção de sal marinho; no entanto podem-se encontrar também solos agrícolas, com boas condições para a hortofruticultura (CCDR Algarve, 2007; Qualigénese - Globalgarve, 2008). O Barrocal é mais interior e representa a transição entre o Litoral e a Serra, também conhecido como beira-serra, esta zona é constituída por rochas calcárias e xistosas e é tradicionalmente a principal fornecedora de produtos agrícolas do Algarve, são características desta zona as figueiras, as amendoeiras e as alfarrobeiras, que têm vindo a ser substituídas por um tipo de agricultura mais intensivo, como a horticultura e a produção de citrinos, nesta zona podemos ainda encontrar o cultivo de cereais como o trigo e a cevada, e de leguminosas (CCDR Algarve, 2007; Qualigénese - Globalgarve, 2008). A Serra representa 50% do território algarvio e é essencialmente formada por rochas xistosas e graníticas, pobres para a agricultura, mas favoráveis à pastorícia, são característicos desta zona os sobreiros, as azinheiras, os medronheiros, os tojos e o mato de estevas. Apesar das condições desfavoráveis à agricultura os seus habitantes sempre praticaram uma
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 11 2012 agricultura de subsistência, no fundo dos vales, onde se encontravam solos férteis, muitos deles construídos pelo homem e protegidos por muros, sebes ou valados (Adragão, J. V., 1985; CCDR Algarve, 2005). O Algarve é constituído por um único distrito (Faro), por dezasseis municípios, distribuídos em igual número pelas zonas do Barlavento, zona ocidental (Vila do Bispo, Aljezur, Lagos, Portimão, Monchique, Silves, Lagoa e Albufeira) e pela zona do Sotavento, zona leste (Faro, Loulé, Olhão; S. Brás de Alportel, Tavira, Vila Real de Santo António, Castro Marim e Alcoutim) e por oitenta e quatro freguesias, dos quais se apresenta uma breve caracterização no anexo 2. (CCDR Algarve, 2007). De acordo, com o Censos 2011, o Algarve foi a região do país com maior crescimento populacional, nos últimos dez anos. A população residente é atualmente de 451.005 habitantes, o que corresponde a um aumento de 14,1%. Os municípios que apresentaram maior crescimento populacional (superior à média da região) foram Albufeira, Portimão, Lagos e Loulé, com tendência contrária registaram-se três municípios, Vila do Bispo, Monchique e Alcoutim, que apresentaram decréscimos populacionais, este último foi o município que a nível nacional apresentou maior decréscimo (- 22,6%) (Figura 1) (CCDR Algarve, 2011). Figura 1 – Variação da população residente, por municípioregião do Algarve (2001 e 2011) Fonte: INE – Resultados Provisórios – XV RG População e V RG Habitação (www.ine.pt)
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 12 2012 Estes dados revelam um claro contraste entre os municípios do litoral meridional, mais densamente urbanizados e povoados, e os municípios do interior, nomeadamente Monchique e Alcoutim, que apresentam índices de despovoamento crescentes (Figura 2) (CCDR Algarve, 2011). Figura 2 – Densidade populacional, por municípioregião do Algarve (2001 e 2011) Fonte: INE – Resultados Provisórios – XV RG População e V RG Habitação (www.ine.pt) Segundo dados provisórios do Censos 2011, a estrutura demográfica da população do Algarve, quando comparada com o conjunto das outras regiões portuguesas, não é muito positiva, sobretudo nas faixas etárias dos zero aos catorze anos e dos quinze aos vinte e quatro anos. A região do Algarve ocupa a sexta posição, a nível nacional, para as idades dos zero aos catorze anos, que representam 14,9% da população residente, valor que coincide com a média nacional para estas idades; para as faixas etárias dos quinze aos vinte e quatro anos, a região do Algarve, ocupa a sétima posição a nível nacional, com 10,1%. As idades dos vinte cinco aos sessenta e quatro anos representam 55,5% da população residente, ocupando a quarta posição, e as faixas etárias a acima dos sessenta e cinco anos representam 19,6% da população, o que lhe atribui a terceira posição a nível nacional. Entre 2001 e 2011, o Índice de
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 13 2012 Juventude (número de jovens dos 0 aos 14 anos por cada 100 indivíduos acima dos sessenta e cinco anos) da região passou de 149,0 para 127,2, o que revela uma tendência de envelhecimento da população residente na região do Algarve (CCDR Algarve, 2011; www.ine.pt, 2012). 1.6.1. Enquadramento económico da região A economia do Algarve assenta sobretudo em três setores: o turismo e as atividades ligadas ao turismo como o alojamento e a restauração, a construção civil e o comércio por grosso e a retalho. Sendo estes três setores os maiores geradores de riqueza da região assumem ainda lugar de destaque, outras atividades como a agricultura, a pesca e a indústria, embora tenham vindo progressivamente a perder relevância na economia regional (CCDR Algarve, 2006). À semelhança do que se verifica noutras regiões e países mediterrânicos ou de influência mediterrânica, o Algarve tem atualmente no turismo, sobretudo no turismo balnear, a sua maior fonte de rendimentos. Este cenário tem como consequências uma elevada densidade populacional na região, na época do ano em que os recursos hídricos são mais baixos, o que contribui para alguma degradação e destruição dos ecossistemas naturais, para a diminuição do caudal das águas subterrâneas e aumento da poluição, o que, associado à crescente proliferação urbanística junto ao litoral exerce uma forte pressão sobre os ecossistemas naturais, levando ao desequilíbrio dos mesmos, ameaçando a biodiversidade da região (Scoullos, M. & Malotidi, V., 2007; Vandecandelaere, E. & Abis, S., 2012). No entanto, o turismo tem muitas potencialidades e vantagens, cuja importância pode ser fulcral para a sobrevivência económica do Algarve. Muitas regiões mediterrânicas começam a ver as potencialidades do turismo mais ligado à cultura, à história, à natureza, à ruralidade e aos hábitos alimentares tradicionais, entre outros aspetos. Esta forma mais sustentada de turismo poderá contribuir para uma melhor gestão dos recursos hídricos, para a preservação dos ambientes naturais e para a revitalização das zonas mais
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 14 2012 interiores, que terão mais condições económicas para se desenvolverem (Scoullos, E et al., 2007; Vandecandelaere, E. et al., 2012). A promoção do PAM no Algarve pode dar um contributo importante para o desenvolvimento de um turismo mais cultural, mais virado para o conhecimento das tradições e das zonas mais interiores, na medida em que a culinária tradicional do Algarve, de cariz mediterrânico, pode contribuir para promover o consumo dos produtos locais e impulsionar a agricultura, a pesca e a indústria alimentar de produtos derivados, através da prática de um turismo mais sustentável, apoiado na sinergia entre turismo, mundo rural e alimentação, reforçando o que cada zona (litoral, barrocal e serra) tem de mais genuíno para oferecer (Sampaio, D., 2007; Vandecandelaere, E. et al, 2012). 1.7. A cozinha algarvia A cozinha tradicional algarvia tem na sua base os produtos da região combinando os recursos que a terra e o mar oferecem. Apresenta similitudes com a cozinha alentejana, na medida em que, tal com esta se caracteriza pela frugalidade e parcimónia, nomeadamente no que concerne ao consumo de alimentos de origem animal, que nunca representam o elemento principal na alimentação quotidiana. É uma cozinha familiar, de carácter rural, que faz uso dos recursos alimentares locais, os quais rentabiliza com criatividade, respeitando a sazonalidade e a biodiversidade, proporcionando uma alimentação saudável e nutricionalmente adequada (Valagão, M. M., 2011; Vila, J., 2001). Muitos destes alimentos e formas de os combinar estão intimamente ligados às várias civilizações, a maioria oriundas de países mediterrânicos, que se fixaram no Algarve, e que aqui deixaram um vasto legado cultural e histórico (CCDR Algarve, 2005; Saramago, A., 2001; Vila, J. 2001). Na história da alimentação algarvia é possível definir quatro períodos fundamentais: o período orientalizante, com marcada influência fenícia e cartaginesa; o período de domínio Romano; o período de influência árabe e o
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 15 2012 período das Descobertas (Saramago, A., 2001). Os fenícios e os cartagineses introduziram novas técnicas de exploração dos recursos marinhos e de transformação e conservação de pescado, nomeadamente a pesca do atum, a secagem e a salga de peixe. Contribuíram também para o desenvolvimento da agricultura, da produção do vinho e do azeite (CCDR Algarve, 2005). Durante o período de ocupação romana foram introduzidas novas técnicas de cultivo. A alimentação desta época tinha por base os cereais, o azeite, o vinho, o peixe, a caça, o queijo, os frutos frescos e secos, as leguminosas frescas e secas e o mel. Os cereais, as leguminosas secas e a caça eram mais consumidos nas regiões do barrocal e da serra: O peixe, as leguminosas frescas e as frutas, no litoral (CCDR Algarve, 2005). A influência de cinco séculos de domínio muçulmano está bem patente na palavra “Algarve” que tem origem no termo árabe “al-Gharb al-Ândalus”. Os árabes terão sido aqueles que cuja influência ficou mais enraizada na cultura e cozinha desta região. Foram estes que introduziram o uso de especiarias e ervas aromáticas condimentares, a doçaria, as compotas e os licores, os citrinos e a cana-de-açúcar. A maneira de preparar e combinar os alimentos também reflete esse legado, são exemplos, os ensopados que encontram semelhança no “tarid” ou “tarida” árabe e o uso de cereais e de leguminosas para dar consistência aos pratos, prática culinária tradicional do Alentejo e do Algarve, que consiste na adição de pão ou grão a quantidades modestas de carne, conhecida como “avultar” (CCDR Algarve, 2005; Saramago, A., 2001). Com as Descobertas foram introduzidas as especiarias e novos alimentos, como o milho-grosso que veio substituir o milho-miúdo e o milho-painço; o tomate e o pimento, este último deu origem à massa de pimentão usada para o tempero e conservação das carnes de porco e dos enchidos, e a batata que rapidamente foi integrada na alimentação algarvia, embora o arroz já fizesse parte dos hábitos alimentares da época (CCDR Algarve, 2005; Saramago, A.,
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 16 2012 2001). As raízes mediterrânicas da cozinha algarvia estão evidentes nos seus elementos fundamentais, dos quais se salientam o pão, o azeite, as leguminosas, os produtos hortícolas, os frutos, o alho, o peixe, as ervas aromáticas condimentares e o vinho (Saramago, A., 2001; Vila, J., 2001). O pão e o azeite, dois dos elementos presentes na tríade mediterrânica, à qual se acrescenta o vinho, são alimentos bem presentes na alimentação tradicional do Algarve, sendo os principais ingredientes das açordas e das migas, que em conjunto com o alho e com a adição de ervas aromáticas ficam completas. Estas podem ser consumidas como prato principal, no caso da açorda; à qual se pode juntar tomate, ovo ou peixe, entre outros alimentos, ou como acompanhamento, no caso das migas (Saramago, A., 2001; Vila, J., 2001). Tradicionalmente o fabrico do pão era semanal e era feito a partir de vários cereais, o pão de trigo era considerado o de melhor qualidade, mas também se fazia “pão de rolão”, com maior conteúdo em farelo e pão de centeio e de milho: O pão, juntamente com as azeitonas e os figos secos, permitia complementar a alimentação nos tempos de menor abundância, e a sua importância era tal, que a oferta de um pão era sinal de grande apreço e simpatia por alguém (Saramago, A., 2001; Vila, J., 2001). O consumo de pão, preparado a partir dos diferentes tipos de farinhas, de azeitonas e de figos secos, continua presente nos hábitos alimentares dos algarvios, sobretudo do pão, cujo consumo faz parte da alimentação do dia-adia. Os figos secos são consumidos mais esporadicamente, sobretudo nas variedades de estrelas de figo e amêndoa e figos cheios, tradicionalmente associadas a datas mais festivas (Qualigénese - Globalgarve, 2008). As papas de milho ou xarém (como é conhecido no litoral) constituem também um elemento fundamental dos hábitos alimentares da região, às quais se pode acrescentar pequenas quantidades de carne de porco, rodelas de chouriço ou
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 17 2012 toucinho frito (na serra e no barrocal) ou bivalves provenientes das rias (no litoral). No passado, permitiam assegurar a subsistência das populações nas alturas de menor abundância alimentar, atualmente continuam presentes na mesa dos algarvios mas o seu consumo é mais ocasional e associado a datas festivas (Saramago, 2001; A., Vila, J., 2001). Das leguminosas destacam-se o grão, a ervilha, a fava e o chícharo, este último que se assemelha a uma ervilha, com uma forma mais quadrangular e achatada, sendo conhecido como “ervilha chata”, é hoje em dia pouco conhecido e consumido. Na culinária algarvia encontram-se muitos pratos de grão, favas e ervilhas, enriquecidos com produtos hortícolas, arroz ou pão (Qualigénese - Globalgarve, 2008; Saramago, A., 2001). No que concerne ao consumo de carnes, podemos encontrar na cozinha algarvia muitos pratos à base de produtos obtidos a partir das carnes de porco, de borrego e de galinha/galo. Tradicionalmente, o consumo de carne era modesto e, cabia sobretudo ao porco fornecê-las. A matança ou matação do porco realizava-se em Dezembro e, era um momento de festa e celebração, propício ao convívio e à camaradagem entre vizinhos e familiares. A partir das carnes e da gordura do porco obtinham-se a banha, as chouriças e outros enchidos que asseguravam a subsistência na época das ceifas. As aves de capoeira eram criadas sobretudo para garantir a postura dos ovos, e só eram usadas como alimento, em dias especiais, como o Natal ou o Entrudo (Carnaval) ou por motivo de doença, para reforçar a alimentação de um convalescente. O borrego, embora sendo uma carne muito apreciada, também só era sacrificado em dias de festa; a cabra, muito característica da região serrana era criada para a produção de queijo, fabricado a partir do seu leite (CCDR Algarve, 2005; Vila, J., 2001). O peixe, os moluscos, os bivalves e os crustáceos também estão bem presentes na alimentação dos algarvios, principalmente dos que vivem na zona do litoral. Tempos houve, no entanto, que o peixe só era consumido fresco nas alturas de maior abundância, quando o tempo não permitia ir ao mar, era
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 18 2012 consumido seco ou salgado. São exemplos a sardinha amarela (sardinha salgada), a muxama de atum (lombo de atum seco e salgado) também conhecido como presunto do mar e o litão na zona de Olhão. Hoje em dia, ainda se pode encontrar a muxama de atum em vários pratos tradicionais algarvios, e o litão é presença obrigatória na mesa da consoada muitas famílias olhanenses. (Qualigénese - Globalgarve, 2008; Vila, J., 2001; www.cmolhao.pt, 2012). São também características da alimentação algarvia, para além das azeitonas e dos figos, as amêndoas e os citrinos. As amêndoas e os figos são consumidos, no dia-a-dia, na sua forma mais simples, mas nos dias de festa são usados para o fabrico da famosa doçaria algarvia, de influência marcadamente árabe, que incorpora a utilização de açúcar trazido pelos árabes que introduziram o cultivo da cana-de-açúcar no Algarve, prática que entretanto desapareceu e que não chegou aos nossos dias, mas também os produtos que chegaram com as Descobertas de que são exemplo algumas especiarias como a canela (Saramago, A., 2001). Estas práticas alimentares evidenciam, uma distinção clara entre a alimentação frugal e simples do quotidiano e a alimentação mais rica e elaborada dos dias de festa (CCDR Algarve, 2005; Qualigénese - Globalgarve, 2008). O vinho também está presente com frequência às refeições algarvias, sendo castas tradicionais da região a casta “negra-mole”, a “trincadeira” e a “cratobranco”. O vinho obtido a partir destas castas é, regra geral, um vinho frutado, de baixa acidez e elevada graduação (Adragão, J. V., 1985; RegiãoTurismo Algarve, 2008). O consumo de tisanas e de infusões preparadas a partir de espécies arbustivas ou herbáceas como o poejo, a erva-doce, a “lúcia-lima” e hortelã, entre outras, são outra prática alimentar tradicional da região. No passado, o consumo de vinho às refeições e destas infusões, ao longo do dia, garantia uma hidratação mais segura, do ponto de vista microbiológico (Sheth, N. K., Wisniewski, T. R. & Transon, T. R., 1988).
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 25 2012 distribuição do número de turmas por escola correspondia a nove turmas, o que significava que 25% das escolas tinham até nove turmas. Caso se procedesse a uma seleção aleatória simples de um número reduzido de escolas, a amostra poderia ser composta por escolas com poucas turmas, comprometendo o número de inquiridos necessários. Assim, decidiu-se selecionar um total de cinco escolas na primeira etapa do processo de amostragem, esperando que o número de turmas para seleção na segunda etapa não fosse inferior a oitenta turmas. Na segunda etapa da seleção da amostra final, considerando novamente o número médio de alunos por turma, verificou-se que deveria inquirir-se um número mínimo de dezasseis turmas para alcançar a dimensão preconizada para a amostra. De maneira a proceder à estratificação das turmas por ano de escolaridade, verificou-se que a distribuição de turmas do 6º, 7º, 8º e 9º ano de escolaridade nas escolas do Algarve correspondia a 28%, 27%, 24% e 21%, respetivamente, do total de turmas. Decidiu-se aumentar o número de turmas a selecionar para vinte e quatro, de maneira a garantir um número suficiente de participantes, antevendo imprevistos na recolha de dados. O processo de seleção, tendo em conta a metodologia usada em cada etapa, resultou nas seguintes escolas e número de turmas por ano de escolaridade, apresentadas no quadro 1: Quadro 1 – Distribuição das turmas selecionadas por escolas Escola Número de turmas e ano de escolaridade Total Turmas 6º Ano 7º Ano 8º Ano 9º Ano Escola Secundária de Vila Real de Sto. António ------- 1 2 1 4 Escola EB 2,3 António João Eusébio (Moncarapacho/Olhão) 1 1 ------- 1 3 Escola Integrada Dr. Aníbal Cavaco Silva (Boliqueime/Loulé) 2 2 3 1 8 Escola EB 2,3 Dr. Neves Júnior (Faro) 2 1 1 1 5 Escola EB 2,3 Dr. Joaquim Magalhães (Faro) 1 2 ------- 1 4 Total turmas 24
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 26 2012 3.4. Caracterização das freguesias onde se localizavam as escolas estudadas Duas das escolas selecionadas situavam-se em freguesias predominantemente rurais, e as restantes três escolas em freguesias predominantemente urbanas, com características distintas entre elas. 3.4.1. Vila Real de Santo António A Escola Secundária de Vila Real de Santo António situa-se na localidade do mesmo nome, que corresponde à maior freguesia do concelho, e administrativamente representa a sede do concelho. Esta freguesia tem uma população residente de 12.076 habitantes, e é predominantemente urbana. A sua economia assenta sobretudo no comércio a retalho, na restauração e no turismo (www.cm-vrsa.pt, 2012). 3.4.2. Moncarapacho A Escola EB 2,3 António João Eusébio situa-se na freguesia de Moncarapacho no concelho de Olhão. Moncarapacho fica na zona do barrocal e é a freguesia mais antiga do concelho de Olhão. Tem uma população de 7.717 habitantes, tendo registado um crescimento populacional entre 1991 e 2011, de acordo com o Censos 2011, entre os 20% e os 50%. É uma freguesia predominantemente rural, cuja economia assenta na agricultura, sobretudo no cultivo de hortas e pomares de sequeiro (www.cm-olhao.pt, 2012). 3.4.3. Boliqueime A Escola Integrada Dr. Aníbal Cavaco Silva situa-se na freguesia de Boliqueime, no concelho de Loulé. Boliqueime é a sede de uma freguesia predominantemente rural, com uma população de cerca de 5.000 habitantes. No sentido nascente-poente confina com o litoral, no sentido sul-norte, estende-se para o interior, abrangendo uma grande extensão de barrocal. Tem como principais atividades económicas a agricultura de sequeiro e regadio, e o comércio que se desenvolve no aglomerado urbano, na Fonte de Boliqueime e ao longo da Estrada Nacional 125 (www.cm-loule.pt, 2012). 3.4.4. Faro A Escola EB 2,3 Dr. Joaquim Magalhães situa-se na cidade de Faro na freguesia da Sé. Esta freguesia tem uma população de 28.975 habitantes.
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 27 2012 Geograficamente é constituída por duas áreas distintas: a zona continental, predominantemente urbana, e a zona marítima que compreende a Ilha da Culatra, do Farol e a ilha Deserta ou da Barreta, situadas na reserva natural da Ria Formosa, e representa 5/6 da área total desta freguesia. Como principais atividades económicas distinguem-se o comércio, o turismo e a prestação de serviços (www.cm-faro.pt, 2012; www.jf-se.pt, 2012). A Escola EB 2,3 Dr. Neves Júnior situa-se na cidade de Faro, na freguesia de São Pedro. Esta freguesia tem uma população de 14.553 habitantes. Embora esta freguesia seja predominantemente urbana, apresenta ainda uma pequena componente rural, dai que para além do comércio, do turismo e da prestação de serviços, a horticultura, nomeadamente a citricultura, represente uma atividade económica importante nesta freguesia (www.cm-faro.pt, 2012; www.jfsaopedro.pt, 2012). Dadas as diferentes características das freguesias onde se localizavam as escolas selecionadas, considerou-se que o estudo da amostra obtida poderia representar o Algarve, no que respeita à evolução dos hábitos alimentares dos adolescentes da região. 3.5. Questões éticas Foi solicitada previamente a autorização da Direção Geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular (DGIDC), a qual foi concedida (Anexo 3). Esta entidade tem por missão “assegurar a concretização das políticas relativas à componente pedagógica e didática da educação pré-escolar, dos ensinos básico e secundário e da educação extraescolar (…), cabendo-lhe ainda prestar apoio técnico-normativo à formulação daquelas políticas, designadamente nas áreas de inovação e desenvolvimento do currículo (…) e dos apoios e complementos educativos, bem como acompanhar e avaliar a respetiva efetivação” (http://sitio.dgidc.mindu.pt/QuemSomos.aspx, 2012). Posteriormente foi enviado um ofício a solicitar parecer à Direção Regional de Educação do Algarve (Anexo 4), o qual foi também favorável (Anexo 5). Não foram solicitados pareceres às comissões de ética do Algarve (Comissão
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 28 2012 de Ética do Hospital de Faro E.P.E e da Administração Regional de Saúde do Algarve I.P.), uma vez que esclareceram informalmente a autora, que dado que o estudo não se realizava em ambiente hospitalar nem nas unidades de cuidados de saúde primários, o seu parecer não era necessário. Os jovens que participaram neste estudo eram portadores de um consentimento informado previamente assinado pelos respetivos encarregados de educação (Anexo 6), e voluntariamente manifestaram vontade em participar, podendo no entanto, desistir a qualquer altura se assim o desejassem. A confidencialidade dos dados foi assegurada através da atribuição prévia de um código a cada questionário, garantindo-se desta forma, o anonimato das respostas, assim como através da recolha de todos os dados através da realização de uma única entrevista a cada inquirido, requisito exigido pela DGIDC. A privacidade dos jovens durante a recolha dos dados antropométricos foi assegurada, garantindo-se que foi feita individualmente, por um inquiridor do mesmo sexo do inquirido. 3.6. Apoios Apoio científico da Fundácion Dieta Mediterránea, sediada em Barcelona, na pessoa da consultora científica, Prof. Doutora Anna Bach. Apoio e colaboração da Direção Regional de Educação do Algarve e dos Conselhos Executivos das escolas e dos Docentes cujas turmas foram selecionadas, cuja disponibilidade foi fundamental na operacionalização da recolha dos dados. Apoio da Unidade de Epidemiologia Nutricional - Serviço de Higiene e Epidemiologia – Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, na pessoa da Prof. Doutora Carla Lopes, que facultou e deu autorização para a utilização do questionário de frequência alimentar semi-quantitativo desenvolvido por esta investigadora, no âmbito desta Unidade, e que se encontra validado para a
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 29 2012 população portuguesa. Assim como, na conversão dos dados obtidos no questionário de frequência alimentar em nutrimentos, com recurso à versão portuguesa adaptada do software de análise nutricional Food Processor Plus (ESHA Research Inc., Salem OR, USA). 3.7. Instrumentos de recolha de dados Para o presente estudo foram desenvolvidos dois questionários, questionário A, que foi aplicado aos estudantes selecionados, e um outro questionário de autopreenchimento (questionário B), para ser enviado para casa dos inquiridos juntamente com os consentimentos informados, dirigido ao responsável pela compra e/ou preparação dos alimentos do agregado familiar. 3.7.1. Questionário A O questionário A foi desenvolvido para ser aplicado aos estudantes das turmas selecionadas, era constituído por cinco partes (A,B,C,D e E), com um total de 154 questões, composto por oito páginas A4 (Anexo 7). Parte A – Hábitos alimentares e questionário de frequência alimentar; Parte B – Mediterranean Diet Quality Index for children and adolescents (Índice KIDMED); Parte C – Atividade física; Parte D – Dados sociodemográficos; Parte E – Dados antropométricos e pressão arterial. Parte A – Dados referentes aos hábitos alimentares dos jovens (101 questões) Modificações na alimentação nos últimos 12 meses Adoção de algum tipo de alimentação especial Número de refeições diárias, local e horário das refeições Questionário de frequência alimentar (QFA) semi-quantitativo Este questionário foi por desenvolvido por Lopes, C e col. (Lopes, C., 2000; Lopes, C., Aro, A., & Azevedo, A., 2007) e está previamente validado para a população portuguesa. A escala de frequências deste questionário apresenta nove opções: Nunca ou ‹
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 30 2012 1 mês; 1 a 3 vezes por mês; 1 vez por semana; 2 a 4 vezes por semana; 5 a 6 vezes por semana; 1 vez por dia; 2 a 3 vezes por dia; 4 a 5 vezes por dia; mais de 6 vezes por dia. A lista de alimentos está organizada por grupos (I – Produtos Lácteos; II – Ovos, Carnes e Peixes; III – Óleos e Gorduras; IV - Pão, Cereais e Similares; V – Doces e Pastéis; VI – Hortaliças e Legumes; VII – Frutos; VIII – Bebidas e Miscelâneas) e uma opção para acrescentar outros alimentos de consumo frequente, nesta última opção acrescentou-se água, uma vez que não constava do questionário original. Os questionários de frequência alimentar têm-se revelado como um instrumento muito usado em estudos epidemiológicos que têm como objetivo analisar o consumo alimentar habitual de grupos populacionais específicos, durante um período de tempo relativamente extenso (Willett, W. C., 1998). Têm como principais vantagens a rapidez de aplicação, a possibilidade de serem preenchidos pelos próprios inquiridos e o baixo custo, quando comparados com outros tipos de questionários, como por exemplo, os registos de consumos alimentares, método gold standard (Willett, W. C., 1998). O recurso a QFA já existentes e validados é frequente e, embora esta opção, não dispense estudos de validação para a nova população em estudo, a concordância entre os dados obtidos não apresenta diferenças significativas entre os questionários adaptados e os questionários construídos propositadamente para o efeito (Cade, J., Thompson, R., Burley, V. & Warm, D., 2002; Willett, W. C., 1998), motivo pelo qual, se optou pela utilização de um QFA já validado para a população portuguesa. Parte B – Mediterranean Diet Quality Index for children and adolescents (Índice KIDMED) O índice KIDMED é um questionário composto por dezasseis questões, que pretendem analisar o consumo diário e a frequência de consumo de alguns alimentos, e foi originalmente desenvolvido para avaliar o nível de adesão ao
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 31 2012 Padrão Alimentar Mediterrânico de crianças e adolescentes espanhóis, entre os dois e os vinte e quatro anos de idades. A estas questões está atribuída uma pontuação de +1 ou -1, em função da sua concordância com o PAM. A soma dos valores obtidos varia numa escala entre 0 e 12 e permite classificar a adesão ao PAM em três níveis: nível 1 – alta adesão (› 8); nível 2 – adesão intermédia (4 - 7) e nível 3 – baixa adesão (≤ 3) (Bach, A. et al., 2006; SerraMajem, L. et al., 2004 a). No quadro 2, apresenta-se a tradução para a língua portuguesa do índice KIDMED, utilizada no questionário. Quadro 2 – Tradução final do índice KIDMED para a língua portuguesa Índice KIDMED +1 Consomes uma fruta ou sumo de fruta todos os dias +1 Consomes uma segunda fruta todos os dias +1 Consomes produtos hortícolas frescos ou cozinhados regularmente, pelo menos uma vez por dia +1 Consomes produtos hortícolas frescos ou cozinhados regularmente, mais de uma vez por dia +1 Consomes peixe regularmente (pelo menos, 2 a 3 vezes por semana) -1 Frequentas, mais de uma vez por semana, restaurantes de “fast-food” (hambúrguer) +1 Consomes leguminosas, mais de uma vez por semana +1 Consomes massa ou arroz, quase todos os dias (5 ou mais vezes por semana) +1 Consomes cereais ou produtos derivados de cereais (pão, etc) ao pequeno-almoço +1 Consomes frutos oleaginosos (nozes, amêndoas, etc) regularmente (pelo menos, 2 a 3 vezes por semana) +1 Usas azeite em casa -1 Costumas tomar o pequeno-almoço +1 Consomes lacticínios (leite, iogurte, etc) ao pequeno-almoço -1 Consome produtos confecionados ou pastelaria ao pequeno-almoço +1 Consomes 2 iogurtes e/ou queijo (40g) diariamente -1 Consomes doces ou guloseimas várias vezes por dia Adaptado de: (Serra-Majem, L. et al., 2004 a) Para a tradução do Índice de Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico (KIDMED), utilizou-se a versão inglesa do referido índice (Serra-Majem, L. et al., 2004 a) (Anexo 7), uma vez que este foi nesta língua que o artigo original foi redigido pelos respetivos autores, seguindo uma recomendação da Prof. Doutora Anna Bach, uma vez que se verifica existirem várias traduções livres em castelhano. Para este efeito, contou-se com a colaboração de três docentes da Escola
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 32 2012 Superior de Saúde da Universidade do Algarve. Duas destas docentes são de nacionalidade portuguesa com bons conhecimentos de inglês, uma delas é certificada pelo Instituto Britânico e outra é nutricionista, estas duas docentes fizeram a tradução para a língua portuguesa, depois contou-se com a colaboração de outro docente de nacionalidade inglesa com bons conhecimentos da língua portuguesa, que verificou a tradução para a língua portuguesa e que voltou a retraduzir a versão portuguesa para a língua inglesa, os três docentes e a autora procederam à verificação das duas versões (original e retraduzida) que se revelaram semelhantes, tendo-se dado por concluído o processo. Parte C – Prática de atividade física dos jovens (dezanove questões) Modo de deslocação para escola Tempo de deslocação Distância de casa à escola Prática de atividade física na escola (estruturada e de lazer) Prática de atividade física fora da escola (estruturada e de lazer) Número de horas de ecrã (televisão, computador, consolas) A prática regular de atividade física está positivamente associada a uma melhor capacidade cardiorrespiratória e a maior força muscular, em crianças e adolescentes. Por outro lado, também contribui para manter um balanço energético adequado, fator importante no controlo do peso e na prevenção do excesso de peso e obesidade (Kosti, R. I., Demosthenes, B. & Panagiotakos, B., 2006; World Health Organization, 2010). A prática de atividade física é uma componente importante para a manutenção de um bom estado de saúde, em todas as idades, mas nas crianças e nos adolescentes o seu papel é ainda mais relevante, na medida em que está associada a efeitos positivos na autoestima, na formação óssea, e na prevenção de diabetes tipo 2, hipertensão e doenças cérebro e cardiovasculares na vida adulta, até porque, quando esta prática se inicia cedo na vida tende a ser continuada na vida adulta (Krebs, N. F. et al., 2007; World Health Organization, 2010). Parte D - Dados sociodemográficos dos jovens e do agregado familiar (treze
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 33 2012 questões) Data de nascimento Sexo Nacionalidade Naturalidade Escolaridade Zona de residência Agregado familiar Profissão dos pais/encarregados de educação Parte E – Dados antropométricos e pressão arterial (cinco questões) Peso Estatura Perímetro da cintura Pressão arterial sistólica e diastólica O estado nutricional reflete se o fornecimento de nutrimentos é adequado às necessidades fisiológicas do organismo e a sua avaliação pode servir de medida preventiva para várias complicações de saúde. É um indicador da necessidade de educação alimentar e de intervenção nutricional (Hammond, K. A., 2002), e pode ser estudado através de medidas antropométricas simples como o peso e a estatura, entre outras (World Health Organization, 2005). A antropometria representa a forma mais simples, económica, não-invasiva e universalmente aceite de avaliar o peso, a estatura, o perímetro da cintura e a composição corporal. No entanto, devido às alterações da composição corporal e ao rápido crescimento característicos da adolescência, a avaliação do estado nutricional de adolescentes com recurso à antropometria torna-se mais difícil de aplicar e, os dados disponíveis são poucos (Moreno, L. A., Mesana, M. I., Gonzalez-Gross, M., Gil, C. M., Fleta, J., Wamberg, J. et al., 2006), pelo que a Organização Mundial de Saúde considera uma prioridade o desenvolvimento de estudos que tenham nos seus objetivos a avaliação do estado nutricional dos adolescentes (World Health Organization, 2005). A partir das medidas antropométricas é possível calcular o Índice de Massa
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 34 2012 Corporal (IMC), obtido através do peso do indivíduo, em quilogramas, dividido pelo quadrado da altura, em metros. Este indicador é usado para avaliar a obesidade e o excesso de peso devido ao seu valor prático, em contexto clínico ou epidemiológico (Malina, R. & Katzmarzyk, 1999). Está correlacionado com a adiposidade corporal total e é usado frequentemente para estimar a prevalência de obesidade numa população (Cole, T. J., Bellizzini, M. C., Flegal, K. M. & Dietz W. H., 2000 a; Moreno, L. A. et al., 2006). No entanto, nos adolescentes apresenta algumas limitações relacionadas com a variação do nível de adiposidade corporal que nesta população, é influenciada por fatores como a idade, o sexo e o desenvolvimento pubertário. No sexo masculino, ao contrário do que se verifica no sexo feminino, a adiposidade corporal diminui com a idade e o desenvolvimento pubertário (Rodriguez, G., Moreno, L. A., Blay, M. G., Blay, V. A., Garagorri, J. M., Sarria, A. et al., 2004 a). No que se refere aos riscos para a saúde associados ao excesso de peso e à obesidade, a distribuição intra-abdominal de gordura parece estar a associada a uma maior ocorrência de fatores associados ao desenvolvimento de síndrome metabólico (dislipidemias, hipertensão e resistência à insulina) do que a adiposidade total e a risco aumentado de desenvolvimento de doenças metabólicas não transmissíveis, na vida adulta, sobretudo se começa a manifestar-se na adolescência (McCarthy, D. H., 2006 b; Moreno, L. A. et al., 2006; Rodriguez,G. et al., 2004 a). O perímetro da cintura (PC) tem vindo a revelar-se uma medida adequada para a avaliação da adiposidade intra-abdominal, sendo cada vez mais utilizada na identificação de indivíduos jovens em risco de desenvolver morbilidades associadas ao excesso de peso e à obesidade (McCarthy, D. H., 2006 b; Moreno, L. A. et al., 2006; Rodriguez,G. et al., 2004 a). A partir do perímetro da cintura é possível calcular outro índice antropométrico que se obtém a partir do quociente entre o perímetro da cintura e a estatura (Waist-to-Height ratio - WHtR). Este índice inicialmente usado em adultos, para avaliar o risco de desenvolvimento de doenças metabólicas relacionadas com o excesso de adiposidade abdominal, calculado a partir do perímetro da cintura em função da
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 41 2012 4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 42 2012 4.1. Amostra A De um total de 536 estudantes que frequentavam as vinte e quatro turmas selecionadas para o presente estudo, responderam 282 estudantes, o que corresponde a uma taxa total de respostas de 52,6%, valor abaixo do esperado, o qual era aproximadamente de 80%, de acordo com a literatura consultada (Arvaniti, F., Prifitis, K. N., Papadimitriou, A., Papadoulos, M., Roma, E., Kapsokefalou, M. et al., 2011b; Chatzi, L. et al., 2007; Farajian, P., Risva, G., Karasouli, K., Pounis, G. D., Kastorini, C. M., Panagiotakos, D. B. et al., 2011; Kontogianni, M. D., Vidra, E., Farmaki, A. E., Koinaki, S., Belogianni, K., Sofrona, S. et al., 2008; Martínez, E. L., del Mar Bibiloni, M. P., & Tur, J. A., 2010). Da análise da taxa de respostas obtida, em cada uma das escolas, em que se encontravam as turmas selecionadas, a Escola Integrada Dr. Aníbal Cavaco Silva, em Boliqueime/Loulé, foi a que apresentou a maior taxa de respostas com 67,6% e a Escola EB 2,3 Dr. Neves Júnior, em Faro, foi a que apresentou a menor taxa de respostas com 8%, como se pode observar no quadro 3. Quadro 3 – Taxa de respostas dos estudantes por escola Escolas Total de estudantes Total de estudantes que responderam Taxa resposta Escola Secundária de Vila Real de Sto. António 97 61 62,9 % Escola EB 2,3 António João Eusébio (Moncarapacho/Olhão) 65 36 55,4 % Escola Integrada Dr. Aníbal Cavaco Silva (Boliqueime/Loulé) 179 121 67,6 % Escola EB 2,3 Dr. Neves Júnior (Faro) 100 8 8 % Escola EB 2,3 Dr. Joaquim Magalhães (Faro) 95 56 58,9 % A amostra final foi composta por 276 estudantes, depois de se aplicarem os critérios de exclusão previamente definidos (quatro casos por fazerem alimentação especial e/ou terem alterado a sua alimentação nos últimos doze meses, e dois casos com mais de dezasseis anos de idade), o que representou uma taxa de exclusão de aproximadamente 2,1%. 4.2. Amostra B O questionário B era dirigido ao responsável pela compra e/ou preparação dos
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 43 2012 alimentos do agregado familiar. No quadro 4, apresenta-se a taxa de respostas por escolas, sendo que no conjunto das cinco escolas, esta taxa foi de 58,0%. Quadro 4 – Taxa de respostas do questionário B por escola Escolas Total de questionários B Total de respostas questionário B Taxa resposta Escola Secundária de Vila Real de Sto. António 97 62 63,9 % Escola EB 2,3 António João Eusébio (Moncarapacho/Olhão) 65 38 58,5 % Escola Integrada Dr. Aníbal Cavaco Silva (Boliqueime/Loulé) 179 125 69,8 % Escola EB 2,3 Dr. Neves Júnior (Faro) 100 35 35,0 % Escola EB 2,3 Dr. Joaquim Magalhães (Faro) 95 51 53,7 % 4.3. Caracterização das amostras A e B 4.3.1. Caracterização da amostra A Dos 276 estudantes que constituíram a amostra final, 50,2% (n= 139) eram do sexo masculino e 49,8% (n= 137) eram do sexo feminino. A idade média dos estudantes que constituíram a amostra foi de 13,3 ± 1,3 anos, apresentando uma distribuição relativamente homogénea para as faixas etárias entre os doze e os catorze anos sendo, que a maior parte da amostra se situava na faixa etária dos catorze anos (25%), como se pode observar no quadro 5. Quadro 5 – Idade dos estudantes Idade Frequência (n) Frequência relativa (%) 11 25 9,1 12 60 21,7 13 64 23,2 14 69 25 15 47 17 16 11 4 Total 276 100 Da análise da distribuição das idades por sexos (Figura 5), verificou-se para o sexo feminino que as idades dos doze e catorze anos apresentavam a mesma distribuição (23,4%); quanto ao sexo masculino, os estudantes distribuíam-se maioritariamente pelos treze (28,1%) e catorze anos (26,6%).
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 44 2012 Figura 5 – Distribuição da idade dos estudantes por sexo Quanto à origem dos estudantes, 74,6% eram do Algarve, 13,7% eram de outras regiões de Portugal e 11,7 % eram de origem estrangeira (Figura 6). Figura 6 – Região de origem dos estudantes A maioria dos estudantes (55,7%) frequentava escolas situadas em meios predominantemente rurais, e 44,3% frequentavam escolas situadas em meios predominantemente urbanos, como se pode observar no quadro 6. Quadro 6 – Distribuição dos estudantes por escolas em meio urbano e em meio rural Escolas situadas em meio urbano Total de inquiridos (%) Escola Secundária de Vila Real de Sto. António 21,6 Escola EB 2,3 Dr. Neves Júnior (Faro) 2,8 Escola EB 2,3 Dr. Joaquim Magalhães (Faro) 19,9 Total 44,3 Escolas situadas em meio rural Total de inquiridos (%) Escola EB 2,3 António João Eusébio (Moncarapacho/Olhão) 12,8 Escola Integrada Dr. Aníbal Cavaco Silva (Boliqueime/Loulé) 42,9 Total 55,7 Dos 273 estudantes que responderam a esta questão, a maioria vivia com os pais (Quadro 7). 0.0% 5.0% 10.0% 15.0% 20.0% 25.0% 30.0% 10 11 12 13 14 15 16 feminino masculino 74.6% 13.7% 11.7% Algarve Portugal Estrangeiro
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 45 2012 Quadro 7 – Percentagem de estudantes que viviam com os pais Inquiridos que vivem com a mãe Inquiridos que vivem com o pai Frequência (n) Frequência relativa (%) Frequência (n) Frequência relativa (%) Não 10 3,7 55 20,8 Sim 263 96,3 209 79,2 Total 273 100 264 100 Quanto à escolaridade dos pais dos estudantes, pode verificar-se na figura 7 que a maioria completou o ensino secundário (42,7% das mães e 32,3% dos pais). Figura 7 – Escolaridade completa dos pais dos estudantes por sexo Os dados observados no presente estudo quanto à escolaridade dos pais vão de encontro aos dados obtidos no Censos 2011, que revelaram que o nível de escolaridade da população algarvia evoluiu desde do Censos de 2001, com uma diminuição da percentagem nos graus de escolaridade mais baixos (34,5% para 23,2% no 1º ciclo) e um aumento da percentagem da população que completou o ensino obrigatório, que evoluiu de 11,8% para 17,6%. A percentagem da população que completou graus de ensino mais elevados (pós-secundário) evoluiu de 9,9% para 12,5% (CCDR Algarve, 2011). Quanto à idade dos pais dos estudantes, a maioria concentrava-se nas faixas etárias entre os 36 e os 45 anos, para ambos os sexos (Figura 8). 0.0% 5.0% 10.0% 15.0% 20.0% 25.0% 30.0% 35.0% 40.0% 45.0% Mãe Pai
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 46 2012 Figura 8 – Idade dos pais dos estudantes por sexo Para as faixas etárias dos 36 aos 40 anos, e para as faixas etárias entre os 41 e 45 anos, as mães apresentaram uma distribuição de 35,4% e 30,7%, respetivamente. No que se refere aos pais, para as mesmas faixas etárias, a distribuição foi de 26,9% e 31,5%, respetivamente. Na figura 9, apresenta-se a nacionalidade dos pais dos estudantes, por sexos. A maioria era de nacionalidade portuguesa, mas 10,5% das mães e 8,0% dos pais eram originários de países da União Europeia e, 4,3% das mães e 6,1% dos pais eram originários de outros países de expressão portuguesa (CPLP). Figura 9 – Nacionalidade dos pais dos estudantes por sexo 4.3.2. Caracterização da amostra B Dos 311 inquiridos adultos que constituíram a amostra final, só 308 responderam à variável sexo; destes 87,7% (n= 270) eram do sexo feminino e 12,3% (n= 38) eram do sexo masculino (Figura 10). Figura 10 – Distribuição por sexo dos inquiridos responsáveis pela compra e/ou preparação dos alimentos 0.0% 5.0% 10.0% 15.0% 20.0% 25.0% 30.0% 35.0% 40.0% 25-30 31-35 36-40 41-45 46-50 51-55 > 55 anos Mãe Pai 0.0% 50.0% 100.0% Portuguesa UE CPLP Outra Mãe
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 47 2012 Quanto à naturalidade dos inquiridos adultos, obteve-se informação para 297 deles, sendo que 48,8% eram do Algarve; 30,3% eram naturais de outras regiões do país e 20,9% eram estrangeiros, como se pode observar no quadro 8. Quadro 8 – Naturalidade dos inquiridos adultos Naturalidade Frequência (n) Frequência relativa (%) Algarve 145 48,8 Portugal 90 30,3 Estrangeiro 62 20,9 Total 297 100 Quanto ao estado civil, apenas 303 dos adultos inquiridos responderam a esta questão, destes 83,5% eram casados ou viviam em união de facto (Quadro 9). Quadro 9 – Estado civil dos inquiridos responsáveis pela compra e/ou preparação dos alimentos Estado civil Frequência (n) Frequência relativa (%) Solteira (o) 18 5,9 Casada (o) 206 68 Divorciada (o) 23 7,6 União de facto 47 15,5 Viúva (o) 3 1 Separada (o) 6 2 Total 303 100 4.4. Estado nutricional dos adolescentes 4.4.1. Apresentação dos dados antropométricos e pressão arterial Como se pode observar no quadro 10, o peso médio dos estudantes foi de 53,45 ± 12,60 Kg. A estatura média foi de 1,59 ± 0,094 m. Quanto à variável PC o valor médio foi de 73,34 ± 10,6 cm. No que diz respeito à pressão arterial verificou-se que a pressão sistólica média foi de 110,4 ± 16,54 mmHg e pressão diastólica média foi de 66,79 ± 13,58 mmHg. Quadro 10 – Dados antropométricos e pressão arterial Mínimo Máximo Média (ẋ) Desvio padrão Total (n) Peso (Kg) 27,3 97,3 53,45 12,6 276 Estatura (m) 1,32 1,87 1,59 0,09 276 Perímetro da cintura (cm) 50 109 73,34 10,6 273 Pressão arterial sistólica (mmHg) 61 163 110,44 16,54 272 Pressão arterial diastólica (mmHg) 37 138 66,79 13,58 272
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 48 2012 Da análise da distribuição destas variáveis por sexo, pode observar-se no quadro 11, que o sexo feminino apresentava um PC médio superior ao do sexo masculino, 73,73 ± 10,33 cm e 72,97 ± 10,89 cm, respetivamente. O sexo masculino apresentou valores médios superiores para o peso (55,04 ± 13,76 Kg) e para a estatura (1,61 ± 0,107 m), comparativamente com o sexo feminino, sendo também este sexo aquele que apresentou os valores mínimos mais baixos para estas duas variáveis. Quadro 11 – Dados antropométricos e pressão arterial por sexo Sexo do inquirido Mínimo Máximo Média (ẋ) Desvio padrão Feminino Peso (Kg) 27,9 88,1 51,81 11,09 Estatura (m) 1,37 1,75 1,57 0,074 Perímetro da cintura (cm) 56 109 73,73 10,33 Pressão arterial sistólica (mmHg) 61 145 107,66 14,09 Pressão arterial diastólica (mmHg) 41 118 66,83 12,01 Masculino Peso (Kg) 27,3 97,3 55,04 13,76 Estatura (m) 1,32 1,87 1,61 0,107 Perímetro da cintura (cm) 50 107 72,97 10,89 Pressão arterial sistólica (mmHg) 79 163 113,2 18,29 Pressão arterial diastólica (mmHg) 37 138 66,74 15,03 Quanto aos valores de pressão arterial, os inquiridos do sexo masculino apresentaram valores de pressão arterial sistólica (113,2 ± 18,29 mmHg) mais elevados comparativamente com os inquiridos do sexo feminino (107,66 ± 14,09 mmHg). Os valores para a pressão arterial diastólica foram semelhantes para os dois sexos. 4.4.2. Excesso de peso e obesidade Para o estudo das prevalências de pré-obesidade e de obesidade, utilizou-se a variável IMC através da análise quantitativa numérica, com os valores reais obtidos, e a sua categorização, de acordo os critérios da International Obesity Task Force (IOFT), de acordo com as curvas de classificação de magreza, préobesidade e obesidade de Cole T. J e colaboradores (2000 a; 2000 b). O IMC médio dos inquiridos foi de 21,02 ± 3,81 Kg/m2, como se pode observar no quadro 12.
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 49 2012 Quadro 12 – Dados relativos à variável contínua IMC Frequência (n) Mínimo Máximo Média (ẋ) Desvio padrão IMC (Kg/m2) 276 13,93 34,84 21,02 3,81 No quadro 13, apresenta-se a análise do IMC por categorias, onde se pode verificar que 24,3% dos estudantes se encontrava na categoria de préobesidade e 5,1% estava na categoria de obesidade, pelo que pode afirmar-se que 29,4% do total dos casos observados apresentava excesso de peso. De realçar que 66,7% dos estudantes se encontrava na categoria de normoponderal (Cole, T. J. et al., 2000 a), e 4,0% apresentavam baixo peso, de acordo com a classificação de Cole T. J. e colaboradores para a definição de magreza em crianças e adolescentes (Cole, T. J. Fregal, K. M., Nicholls, D. & Jackson, A. A., 2000 b). Quadro 13 – Dados relativos à variável IMC por categorias Categorias de IMC Frequência (n) Frequência relativa (%) Pré-obesidade 67 24,3 Obesidade 14 5,1 Normoponderal 184 66,7 Baixo peso 11 4,0 Total 276 100 Se observarmos a distribuição do IMC por categorias e por idades, verificamos (quadro 14) que à medida que a idade aumenta, as prevalências de préobesidade e de obesidade diminuem. Quadro 14 – Dados relativos à variável IMC por categorias e idades Idade IMC_Cole (%) Pré-obesidade Obesidade Normoponderal Baixo peso 11 33,3 12,5 50 4,2 12 23,3 1,7 68,3 6,7 13 28,1 9,4 57,8 4,7 14 24,6 2,9 71 1,4 15 17 4,3 74,5 4,3 15 9,1 0 90,9 0 Total 24,3 5,1 66,7 4
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 50 2012 A distribuição das categorias de IMC, por sexo, podem ser observadas na figura 11, verificando-se uma tendência maior para a pré-obesidade e obesidade no sexo masculino, 26,6% e 5,1%, respetivamente. Para a categoria de baixo peso, 5% eram do sexo feminino e 3% do sexo masculino. Não se verificaram, diferenças estatisticamente significativas entre sexos nas categorias de classificação do IMC (χ2 (1) = 8,731, p=0,392). Estes resultados vão de encontro aos resultados apresentados por Miranda A. C. e colaboradores (2010 b) que também não encontraram diferenças estatisticamente significativas entre sexos e idade. Figura 11 – Distribuição das categorias de IMC por sexo Os resultados observados no presente estudo, para as prevalências de préobesidade e de obesidade, são ligeiramente superiores aos obtidos num recente estudo epidemiológico realizado em Portugal, em jovens dos dez aos dezoito anos, por Sardinha, L. e colaboradores (2010), que na região do Algarve, obteve os seguintes resultados: 78,9% dos jovens estavam na categoria de normoponderais, 16,7% na categoria de pré-obesidade e 4,3% na categoria de obesidade. Tendência semelhante foi observada num estudo realizado na Região Autónoma da Madeira, que incluía crianças e jovens, entre os sete e os dezoito anos, e que concluiu que os adolescentes a partir dos quinze anos apresentavam prevalências mais baixas de pré-obesidade e de obesidade (Gouveia, E., Freitas, D., Maia, J., Beunen, G., Claessens, A. Marques, A. et al., 2009). 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% Baixo peso Pré-obesidade Obesidade Normoponderal ou baixo peso feminino masculino
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 57 2012 O excesso de peso e o perímetro abdominal elevado parecem ser dos principais fatores de risco para o desenvolvimento de hipertensão arterial em crianças e adolescentes, os hábitos alimentares também parecem contribuir, sobretudo a introdução precoce de sal na alimentação e o consumo elevado de gorduras e colesterol (Chiolero, A. et al., 2007; Fernandes, R. A., Chritofaro, D. G. D., Codogno, J. S., Buonani, C., Bueno, D. R., de Oliveira, A. R. et al., 2009). No presente estudo observaram-se diferenças estatisticamente significativas (U=4648,5, z=-3,58; p<0,0001) no perímetro cintura entre inquiridos normotensos (72,07 ± 9,96 cm) e hipertensos (77,61 ± 11,60 cm). Estes resultados vão de encontro ao preconizado por alguns investigadores que estão a tentar estabelecer valores de PC como pontes de corte associados a risco aumentado de hipertensão arterial em crianças e adolescentes (Fernandes, R. A. et al., 2009). Para a prevenção deste problema e/ou tratamento, recomenda-se uma intervenção que englobe um aumento da atividade física diária, a redução da ingestão de alimentos de elevada densidade energética, ao nível das famílias, das escolas e da sociedade em geral, através da criação de estratégias promotoras de saúde, como a avaliação regular da pressão arterial em crianças e adolescentes e a promoção de hábitos alimentares saudáveis (Lurbe, E. et al., 2009; McNaughton, S. A. Ball, K. Mishra, G. D. & Crawford, D. A., 2008; Tsioufis, . et al., 2009). 4.5. Hábitos alimentares 4.5.1.Refeições realizadas pelos estudantes Das refeições diárias realizadas pelos 253 jovens que responderam a esta questão, as mais referidas foram o pequeno-almoço e o jantar, quer durante a semana quer ao fim de semana, embora a sua frequência fosse mais elevada durante o fim-de-semana, como se pode observar no quadro 21. De salientar, que o meio da manhã e o almoço apresentaram uma frequência baixa, durante a semana. Situação contrastante com o fim-de-semana que apresentava um
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 58 2012 padrão de refeições diário mais regular. Quadro 21 – Refeições diárias realizadas pelos estudantes Refeições 2ª f 3ª f 4ª f 5ª f 6ª f Sab. Dom. Peq. Almoço (%) 64,5 63,8 63,8 63,8 63,8 81,0 84,4 Meio manhã (%) 2,6 2,0 2,6 2,3 2,9 37,1 38,4 Almoço (%) 30,6 29,0 34,5 30,0 32,7 92,5 94,4 Lanche (%) 19,9 20,2 21,2 22,1 21,2 68,7 71,2 Jantar (%) 96,4 96,4 96,4 96,7 97,1 95,4 97,7 Ceia (%) 21,5 21,8 21,8 22,1 22,5 26,8 28,1 Em relação às refeições diárias realizadas pelos estudantes verificou-se que 63,8% a 64,5% tomavam o pequeno-almoço durante a semana, e que essa frequência aumentava durante o fim-de-semana, para 81% ao sábado e 84,4% ao domingo. Quanto aos locais onde os inquiridos faziam as refeições, pode observar-se no quadro 22, que as refeições eram sobretudo feitas em casa e, durante a semana, a escola também foi referida por 3,6% dos inquiridos. O outro local correspondia maioritariamente à casa dos avós ou de outros familiares. Quadro 22 – Locais onde os estudantes faziam as refeições Local Peq. Almoço Meio manhã Almoço Lanche Jantar Ceia Semana Casa (%) 96,4 4,9 25,8 69,1 99,6 39,5 Escola (%) 3,6 93,6 71,5 24,5 ------- ------- Café/restaurante (%) ------- 1,5 2,7 4,7 0,4 ------- Outro (%) ------- ------- ------- 1,7 ------- ------- Fim-desemana Casa (%) 97,4 94,0 93,8 96,0 97,3 99,1 Café/restaurante (%) 1,7 3,6 3,1 2,7 2,4 0,9 Outro (%) 0,9 2,4 3,1 1,3 0,4 ------- O pequeno-almoço era feito sobretudo em casa (96,4%), hábito este que está de acordo com as tradições mediterrânicas (Bellisle, F., 2009). No entanto, cerca de 30% dos estudantes omitiam esta refeição, facto que associado às baixas frequências reportadas para o meio da manhã e para almoço, parece indicar que estes jovens passam muitas horas sem se alimentar. Vários estudos têm demonstrado que o pequeno-almoço, sobretudo se este for de boa qualidade, composto por lacticínios, cereais e/ou fruta, representa uma fonte importante de energia e nutrimentos em crianças e adolescentes
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 59 2012 (Aranceta, J., Serra-Majem, L., Ribas, L. & Pérez-Rodrigo, C., 2001; Boom, A., Serra-Majem, L., Ribas, L., Ngo, J., Pérez-Rodrigo, C., Aranceta, J. et al., 2006; Kosti,, R. I. et al., 2007; Matthys, C., de Henauw, S., Bellemans, M., de Maeyer, M. & de Backer, G., 2007), e que estes tendem a mostrar maior concentração e melhor rendimento escolar (Fernández Morales, I., Aguilar Vilas, M. V., Mateos Vega, C. J. & Martínez Para, M. C., 2008). O consumo regular do pequenoalmoço parece estar associado a um maior consumo de leite, fruta, cereais de pequeno-almoço e pão, e a sua omissão foi associada a um consumo diário elevado de chocolates, guloseimas e refrigerantes e a prevalências mais elevadas de pré-obesidade e obesidade (Aranceta, J. et al., 2001; Boom, A., et al., 2006; Kosti, R. I. et al., 2007). Embora, durante a semana se tenha verificado um padrão diário de refeições irregular, com muitos estudantes a omitir o almoço, o meio da manhã e o lanche da tarde, o mesmo não se verificou durante o fim-de-semana. Quando questionados pelos inquiridores sobre esse facto, muitos dos jovens inquiridos referiram não sentir fome quando estão na escola, e alguns referiram não ter dinheiro no cartão da escola para comprar as refeições. Este padrão irregular de refeições semanal pode colocar em causa a ingestão diária adequada de nutrimentos, como referem Serra-Majem, L. e colaboradores, num artigo publicado em 2002, onde afirmam que fazer quatro ou mais refeições diárias, desde que uma dessas refeições seja um pequenoalmoço de boa qualidade, reduz o risco de inequação nutricional em 40%. Um número reduzido de refeições diárias também parece estar associado a risco aumentado de desenvolvimento de excesso de peso e obesidade, num estudo sueco realizado em 2010, em jovens dos nove aos dezanove anos, encontraram-se diferenças estatisticamente significativas, entre os jovens que faziam só duas a três refeições diárias comparativamente com os seus pares que faziam quatro ou mais refeições, em que os primeiros apresentaram prevalências mais elevadas de pré-obesidade e obesidade. Neste estudo observou-se também que a omissão do pequeno-almoço e do almoço, e jantar tarde, estavam positivamente correlacionados com o desenvolvimento de
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 60 2012 obesidade (Vik, F. N., Overby, N. C., Lien, N. & Bere, E., 2010). Kosti, R. I. e colaboradores (2207), no Viyronas study, desenvolvido na Grécia, obtiveram resultados semelhantes aos observados por Vik, F. N. e colaboradores (2010). 4.6. Fonte de conhecimentos alimentares dos estudantes Quanto às principais fontes de informação de conhecimentos alimentares dos 267 jovens inquiridos que responderam a esta questão, os pais foram considerados a principal fonte de informação, referidos por 74,5% dos inquiridos. Os professores apresentaram um valor de 3,0% e os profissionais de saúde como os nutricionistas/dietistas e os médicos foram considerados como fontes de informação importantes para 5,1% e 4,1% dos jovens, respetivamente. A internet e a televisão ficaram-se pelos 3,4% e 2,6%, respetivamente. 4.7. Questionário de frequência alimentar 4.7.1. Leite e derivados A frequência de consumo do leite e seus derivados foi analisada para 275 dos estudantes inquiridos, de um total de 276, pelo que as respostas obtidas dizem respeito a 99,6% da amostra. O tipo de leite mais consumido foi o leite meiogordo, apenas 17,8% dos estudantes referiam consumi-lo nunca ou menos de uma vez por mês. Do total de respostas obtidas, 28,7% dos inquiridos referiu consumir leite meio-gordo, pelo menos uma vez por dia, 18,5%, duas a três por dia e 5,8%, seis ou mais vezes por dia, como se encontra ilustrado na figura 14. Figura 14 – Frequência de consumo de leite meio-gordo
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 61 2012 Quanto ao leite gordo, 82,5% dos estudantes referiam consumi-lo nunca ou menos de uma vez por mês, 4% apenas uma a três vezes por mês e, apenas 3,6% dos inquiridos referem o consumo de leite gordo uma vez por dia. O leite magro, embora tenha apresentado uma frequência de consumo superior ao leite gordo, 69,1% dos estudantes nunca o consumiam ou, em caso afirmativo, menos de uma vez por mês. No entanto, 3,6% dos jovens inquiridos referiram um consumo diário, de uma vez por dia, e 5,8% de duas ou mais vezes por dia. Quanto ao consumo de iogurtes, apenas 9,1% responderam como nunca consumindo ou menos de uma vez por mês. Como se observa na figura 15, as frequências de consumo mais referidas para os iogurtes, foram duas a quatro vezes por semana, uma vez por dia e duas a três vezes por dia, com 18,5%, 21,8% e 15,6%, respetivamente. Figura 15 – Frequência de consumo de iogurte O grupo dos queijos apresentou uma frequência de consumo relativamente distribuída, sendo que 18,5% dos estudantes referiram nunca consumir ou menos de uma vez por mês; 19,6% referiram consumos, de duas a quatro vezes por semana; 16,7% dos estudantes reportaram consumos de uma vez por dia, e 7,6% apresentaram consumos de duas a três por dia (Figura 16). Figura 16 – Frequência de consumo de queijo
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 62 2012 As sobremesas lácteas não demonstraram ser muito populares com 26,9% dos inquiridos a responder que nunca as consumiam ou consumiam-nas menos de uma vez por mês, 40,0% referiram o seu consumo, apenas uma a três vezes por mês, embora 3,3% dos inquiridos tenha reportado um consumo de uma vez por dia. Quanto aos gelados parecem ser mais do agrado dos jovens inquiridos, ainda assim, 28,7% referiu o seu consumo apenas, uma a três vezes por mês; para a frequência de uma vez por semana, e de duas a quatro vezes por semana obtiveram-se os valores de 26,2% e 22,2%, respetivamente. O consumo diário foi referido por 7,6% dos inquiridos para a frequência, de uma vez por dia, e 3,6% referiram consumos de duas a três vezes por dia, regra geral, os consumos diários eram assinalados pelos inquiridos como sazonais, mais praticados no Verão. O consumo diário de lacticínios meio-gordos ou magros, em quantidades moderadas, é importante nesta faixa etária pelos nutrimentos que contêm, nomeadamente proteína de alto valor biológico e cálcio, fundamentais para a saúde óssea e para um crescimento adequado (Bach-Faig, A., Berry, E. M., Reguant, J., Trichopoulou, A., Dernini, S. et al., 2011; Macedo-Ojeda, G., Bernal-Orozco, M. F., López-Uriarte, P., Hunot, C., Vizmanos, B. & RovilléSausse, F., 2008). Os iogurtes e o queijo apresentaram frequências de consumo diárias inferiores às do leite meio-gordo, no entanto o seu consumo nas variedades meio-gordo e magro, podem constituir boas opções como substitutos do leite (Bach-Faig, A., et al., 2011). 4.7.2. Ovos, Carnes e Peixes No grupo dos ovos e das carnes, obtiveram-se respostas para o total dos jovens inquiridos (276).
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 63 2012 Figura 17 – Frequência de consumo de ovos A maioria reportou um consumo diário de ovos, sendo que 40,2% estudantes consumiam ovos, uma vez por semana, e 21,7%, duas a três vezes por semana, no total das restantes frequências de consumo diário foi observada uma percentagem de 11,1%, e desta 4,3% correspondia a uma frequência de cinco a seis vezes por semana. Embora 21,0% dos estudantes, tenha referido o consumo de ovos apenas uma a três vezes por mês, com se ilustra na figura 17. Figura 18 – Frequência de consumo de frango Como se pode observar na figura 18, o consumo de carne frango apresentou predominantemente frequências de consumo semanais, sendo que 38,2% dos estudantes consumia frango, uma vez por semana, e 26,9%, duas a quatro vezes por semana, no total constituíam 65,1% das frequências de consumo.
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 64 2012 Figura 19 – Frequência de consumo de peru e coelho As carnes de peru e coelho apresentaram frequências de consumo modestas, como se observa na figura 19, 38,8% dos estudantes referiram um consumo de apenas, uma a três vezes por mês, e 21,4%, nunca consumiam ou menos de uma vez por mês. Quanto às frequências de consumo semanal, a mais elevada foi a frequência, de uma vez por semana, com 21,0%, seguida da frequência, de duas a quatro vezes por semana, com 13,4%. Quanto à frequência de consumo de carnes de vaca, porco e cabrito, verificaram-se frequências semelhantes ao consumo da carne de frango, no que diz respeito às frequências, de uma vez por semana e de duas a quatro vezes por semana, ambas com 26,4%, como se apresenta na figura 20. Figura 20 – Frequência de consumo de vaca, porco e cabrito Relativamente à frequência de consumo de cinco a seis vezes por semana, as carnes de vaca, porco e cabrito apresentaram uma percentagem de 11,6%,
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 65 2012 superior ao observado para as outras carnes e ovo. Apenas 8% dos estudantes referiram nunca consumir carnes deste grupo. Outros produtos cárneos como o fígado, a língua e mão de vaca, entre outras, apresentaram frequências de consumo baixas, o fígado apresentou para as opções de nunca ou menos de uma vez por mês, e uma a três vezes por mês, as percentagens de 62,3% e 17,4%, respetivamente. Oitenta por cento dos estudantes referiram nunca consumir ou menos de uma vez por mês, língua, mão de vaca e vísceras. O fiambre e outros produtos cárneos afins apresentaram consumos distribuídos por todas as opções de frequência de consumo analisadas, como se observa na figura 21. Figura 21 – Frequência de consumo de fiambre, chouriço, presunto Destacam-se os consumos, de duas a quatro vezes por semana, referidos por 23,6% dos estudantes, e a frequência de cinco a seis vezes por semana, com uma percentagem de 12,0% e a de uma vez por dia, com 13,1%. As restantes frequências de consumo semanal totalizaram 10,2%. Estes resultados parecem indicar que o fiambre, o chouriço e o presunto fazem parte das preferências dos jovens inquiridos. Para o grupo das salsichas, do toucinho e do bacon só obtivemos respostas de 275 estudantes. Estes produtos alimentares apresentaram frequências de consumo modestas, com exceção das salsichas. Para a opção, de nunca ou menos de uma vez por mês apresentaram as seguintes percentagens 11,6% para as salsichas e 47,5% para o toucinho e bacon; para a frequência de uma a três vezes por mês, as salsichas foram reportadas por 35,6% dos estudantes
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 66 2012 e o toucinho e bacon obtiveram o valor 30,1%, para a frequência de consumo de uma vez por semana, obtiveram-se os valores de 33,1% para as salsichas e 12,7% para o toucinho e bacon. É importante promover o consumo de carnes com teor mais de lipídos, como o frango, o peru e o coelho, que apresentam aportes igualmente ricos de ferro, de vitamina B12 e de ácidos gordos polinsaturados, entre outros. O consumo de carnes vermelhas e de outros produtos cárneos como fiambre, enchidos, presunto e salsichas que apresentam teores elevados de ácidos gordos saturados, não deve, no seu conjunto, ultrapassar um consumo de uma a duas vezes por semana (Bach-Faig, A., et al., 2011; Macedo-Ojeda, G., et al., 2008). Os ovos apresentam teores elevados em proteína de alto valor biológico e vitaminas e são alimentos de custo relativamente baixo, pelo que o seu consumo moderado, entre dois a quatro ovos por semana, tendo em conta os que se incorporam nas refeições ou em sobremesas pouco doces, é recomendável (Bach-Faig, A. et al., 2011; Macedo-Ojeda, G. et al., 2008). Para o grupo do pescado os resultados foram analisados para um total de 275 estudantes. Para os peixes gordos 10,9% dos inquiridos referiram que nunca os consumiam ou consumiam menos de uma vez por mês (Figura 22). Para os peixes magros, esta opção foi reportada por 16,4% dos jovens inquiridos (Figura 23). Figura 22 – Frequência de consumo de peixe gordo
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 73 2012 alimentos/snacks fritos, em contraste com a baixa frequência de consumo diário de sopa (Rodrigues, S. S. P. et al, 2007 b). Esta alteração dos hábitos alimentares contribui para um maior aporte de gorduras, sobretudo à custa de gorduras ricas em ácidos gordos saturados, bem como de açúcares e de sal, tornando a dieta destes jovens desequilibrada a nível energético e nutricional, o que pode contribuir para aumentar o risco de desenvolvimento de obesidade e de outras complicações metabólicas (Cruz, A. J. A., 2000; French, S. A., Story, M., Neumark-Sztainer, D., Fulkerson, J. A. & Hannan, P., 2001). 4.7.5. Hortícolas No quadro 29, podem observar-se as frequências de consumo dos produtos hortícolas. De salientar, as baixas frequências observadas, de consumo diário dos hortícolas verdes e das leguminosas, sobretudo das leguminosas frescas. Quadro 29 - Frequência de consumo de hortícolas Frequência relativa (%) Nunca ou <1x/mês Uma vez por semana Uma vez por dia Couve 36,7 21,1 1,5 Brócolos 36 21,5 1,5 Grelos/nabiças/espinafres 38,2 19,6 1,8 Alface/agrião 10,2 28,7 12,7 Cenoura 7,6 25,8 11,6 Tomate 18,5 26,9 9,1 Leguminosas secas 18,5 28 5,1 Leguminosas frescas 30,9 20 4,4 Total (n) 275 Ao baixo consumo observado de produtos hortícolas acrescenta-se o baixo consumo de sopa, já referido anteriormente. 4.7.6. Frutos Quanto à frequência de consumo de frutos, a maçã, a pera, o melão e a melancia (embora estes últimos sejam frutos sazonais), são os que apresentaram maiores frequências, na opção de uma vez por semana. Os frutos que foram referidos pelos estudantes como sendo consumidos menos de
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 74 2012 uma vez por mês ou nunca, foram os figos frescos, os damascos, as nêsperas, os frutos secos oleaginosos e a azeitona (Quadro 30). Quadro 30 - Frequência de consumo de fruta Frequência relativa (%) Nunca ou <1x/mês Uma vez por semana Uma vez por dia Maçã/pera 2,6 18,6 17,2 Citrinos 5,1 18,2 15,7 Banana 6,9 20,4 15,0 Morango 8,8 23,4 8,4 Cereja 20,1 20,1 6,6 Pêssego/ameixa 16,4 23,4 5,1 Melão/melancia 12 20,8 10,9 Figo fresco/nêspera/damasco 37,6 16,4 4 Uva fresca 12,4 21,9 5,8 Frutos secos oleaginosos 37,2 17,2 2,2 Azeitona 43,8 15,3 2,2 Total (n) 274 O baixo consumo de hortícolas verdes, de leguminosas, de fruta e de sopa, observado no presente estudo, pode conduzir a carências nutricionais vitamínicas e minerais nesta faixa etária, que apresenta um crescimento rápido e necessidades nutricionais acrescidas (Macedo-Ojeda, G. et al., 2008). Os produtos hortícolas e a fruta devem ser consumidos diariamente, de preferência a todas as refeições, nas suas diferentes variedades de cor e textura, de modo a garantir um aporte diário adequado de substâncias antioxidantes, vitaminas, minerais e fibra (Bach-Faig, A. et al., 2011). 4.7.7. Bebidas A maior parte dos estudantes referiu que nunca consumia vinho ou que consumia menos de uma vez por mês, mas 2,2% referiram uma frequência de consumo diário, como se observa no quadro 31. Quanto ao consumo de cerveja e de bebidas brancas, para a opção de uma vez por semana, o consumo de cerveja foi referido por 2,6% dos estudantes, e de bebidas brancas por 3,6%. Para a opção, de uma vez por dia, o consumo de cerveja e de bebidas brancas foi referido por 1,5% e 1,8% dos inquiridos, respetivamente.
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 75 2012 Quadro 31 - Frequência de consumo de bebidas Frequência relativa (%) Nunca ou <1x/mês Uma vez por semana Uma vez por dia Vinho 94,2 ---------- 2,2 Cerveja 85,4 2,6 1,5 Bebidas brancas 91,6 3,6 1,8 Colas 21,2 22,3 6,9 Ice-Tea 21,2 18,6 12 Sumos de fruta ou néctares 9,9 22,3 12,4 Café 54,7 8,4 5,5 Chá preto/verde 67,8 7,3 1,1 Total (n) 274 Quanto às bebidas não alcoólicas destacaram-se a frequência semanal de consumo de refrigerantes, café e chá preto/verde. Nos refrigerantes destacouse o ice-tea, com uma frequência de consumo diário de 12,0%. Figura 25 – Frequência de consumo de água Na figura 25, ilustra-se o consumo de água, que regra geral, apresenta frequências elevadas nas diferentes opções de consumo diário. O consumo de bebidas açucaradas pode desencorajar o consumo de lacticínios, nomeadamente de leite, o que pode contribuir para uma baixa ingestão de cálcio, sobretudo se associada a um baixo consumo de outros alimentos ricos em cálcio como outros derivados proteicos dos lacticínios e produtos hortícolas de folha verde, o que pode colocar em causa a saúde óssea na vida adulta (French, S. A. et al., 2001).
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 76 2012 O consumo de bebidas alcoólicas na adolescência é particularmente preocupante, uma vez que a longo prazo pode trazer problemas de dependência, associado ao facto do organismo ainda não estar fisiologicamente apto para metabolizar o etanol contido nas bebidas (Cruz, A. J. A., 2000; Macedo-Ojeda, G. et al., 2008). Atualmente, assiste-se a nível europeu, a uma tendência cada vez maior, dos adolescentes para iniciar o consumo de bebidas alcoólicas em idades cada vez mais jovens (Lambert, J., Agostoni, C., Elmadfa, I., Hulshof, K., Krause, E., Livingstone, B. et al., 2004). O consumo de água é necessário para garantir uma hidratação adequada e manter o equilíbrio hidroeletrolítico do organismo (Bach-Faig, A. et al., 2011). O consumo de água por parte dos inquiridos apresentou frequências elevadas nas diferentes opções de consumo diário. 4.8. Aporte energético e nutricional De modo a identificar os estudantes que subestimaram ou sobrestimaram o consumo alimentar, aplicou-se o método proposto por Goldberg, G. e colaboradores (1998), baseado na relação entre a atividade física (PAL) e o rácio entre o aporte energético e o metabolismo basal. Este último foi calculado para todos os inquiridos através das equações de Schofield W. N. (1995) para crianças, tendo em conta o sexo, estatura e peso. Para a determinação dos limites de confiança da equação de Goldberg, que determinam os pontos de corte para os valores plausíveis de aporte energético, foram utilizados os coeficientes de variação descritos por Black, A. E. (2000), baseados na análise agrupada de estudos de dispêndio energético pelo método da água duplamente marcada. Considerou-se também um coeficiente de PAL para todos os inquiridos de 1,65, de acordo com evidências registadas numa amostra populacional de 4800 crianças entre os dois e os dezasseis anos (http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3257671/#B17-nutrients03-00186). Após o cálculo final, considerou-se que os inquiridos com valor energético
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 77 2012 reportado no QFA abaixo do limite inferior de confiança subestimaram o aporte, e que os inquiridos com valor energético acima do limite superior de confiança sobrestimaram o aporte energético. Foram considerados registos plausíveis apenas os dos inquiridos, entre os dois limites de confiança, o que totalizou 171 inquiridos. No quadro 32, apresentam-se o consumo médios diários de energia, proteína, hidratos de carbono e lípidos, entre outros nutrimentos, após a correção energética dos valores reportados pelos estudantes. O consumo energético médio diário foi de 2642,4 ± 861,62 Kcal. Os consumos médios diários de proteína e hidratos de carbono totais foram, respetivamente de 118,2 ± 45,63g e 339,4 ± 128,95g. O consumo médio diário de açúcares foi de 183,3 ± 88,65g, muito superior ao consumo médio diário de hidratos de carbono complexos (93,7 ± 45,48g), o que parece confirmar a tendência encontrada na análise das frequências alimentares, em que os estudantes mostraram preferência por alimentos mais refinados e com maior teor de açúcar. O consumo médio diário de lípidos totais foi de 95,9g ± 36,84. Destes destacam-se o consumo de ácidos gordos saturados com 32,3g ± 13,16 e os ácidos gordos monoinsaturados com 38,9g ± 15,73. O que mais uma vez parece estar de acordo com os resultados observados na análise das frequências alimentares, que indicavam a preferência dos estudantes pelo consumo de carnes vermelhas e derivados como salsichas e fiambre, alimentos com teor elevado em ácidos gordos saturados, e ao consumo habitual de azeite, em casa, rico em ácido oleico.
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 78 2012 Quadro 32 – Ingestão energética e nutricional dos estudantes Energia e nutrimentos Média (ẋ) Mediana Desvio padrão Mínimo Máximo Energia (Kcal/dia) 2642,4 2497,76 861,62 1252,38 5109,63 Proteína (g/dia) 118,2 109,68 45,63 41,11 346,61 Hidratos de carbono (g/dia) 339,4 323,63 128,95 111,65 744,40 Lípidos totais (g/dia) 95,9 88,69 36,84 37,27 231,54 Ác. gordos saturados (g/dia) 32,3 29,13 13,16 12,19 86,16 Ác. Gordos monoinsaturados (g/dia) 38,9 35,56 15,73 14,40 97,57 Ác. gordos polinsaturados (g/dia) 16,8 14,86 8,25 5,27 54,77 Colesterol (mg/dia) 403,39 355,23 199,77 114,79 1314,85 Fibra alimentar (g/dia) 27,9 24,59 15,45 7,42 122,88 Hidratos de carbono complexos (g/dia) 93,7 79,43 45,48 21,99 282,03 Açucares (g/dia) 183,3 162,84 88,65 49,00 590,51 Sódio (mg/dia) 2642,7 2387,87 1144,22 1096,03 8899,89 Ác. gordos trans (g/dia) 1,38 1,24 0,58 0,45 3,72 Ác. gordos Ω3 (g/dia) 1,76 1,55 0,87 0,51 6,37 Ác. gordos Ω6 (g/dia) 12,72 10,89 7,19 3,38 46,57 Vitamina D (µg/dia) 5,89 4,87 4,09 1,18 35,51 Cálcio (mg/dia) 1355,07 1157,75 726,18 249,60 4525,21 Ferro (mg/dia) 19,68 17,70 8,27 6,31 58,41 4.8.1. Aporte energético e nutricional por sexo e idade Da análise da ingestão energética e nutricional pelo sexo dos estudantes, pode verificar-se no quadro 33 que os inquiridos do sexo masculino apresentaram consumos mais elevados para todos os nutrimentos, comparativamente com os estudantes do sexo feminino. Para o aporte energético e de alguns nutrimentos, essas diferenças foram estatisticamente significativas (Quadro 33): energia (p=0,006), proteína (p=0,014), hidratos de carbono (p=0,030), lípidos totais (p=0,048), ácidos gordos polinsaturados (p=0,028), colesterol (p=0,021), açúcares (p=0,033), sódio (p=0,015), ácidos gordos Ω6 (p=0,033) e ferro (p=0,020).
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 79 2012 Quadro 33 - Ingestão energética e nutricional dos estudantes por sexos Energia e nutrimentos Sexo do inquirido Valor de p (MannWhitney) Feminino masculino Média (ẋ) Desvio padrão Média (ẋ) Desvio padrão Energia (Kcal) 2501,99 887,20 2794,78 811,05 0,006 Proteína (g) 111,83 45,35 125,09 45,20 0,014 Hidratos de carbono (g) 318,96 123,90 361,54 131,40 0,030 Lípidos totais (g) 92,04 37,12 99,98 36,31 0,048 Ác. gordos saturados (g) 30,93 12,52 33,73 13,75 0,087 Ác. Gordos monoinsaturados (g) 37,56 16,31 40,29 15,05 0,068 Ác. Gordos polinsaturados (g) 16,04 8,79 17,56 7,58 0,028 Colesterol (mg) 364,93 156,19 445,13 232,08 0,021 Fibra alimentar (g) 27,48 16,99 28,42 13,68 0,395 Hidratos de carbono complexos (g) 87,92 37,74 100,03 52,13 0,226 Açucares (g) 169,74 76,58 198,00 98,50 0,033 Sódio (mg) 2464,05 1057,70 2836,52 1208,01 0,015 Ác. gordos trans (g) 1,37 0,64 1,39 0,52 0,332 Ác. gordos Ω3 (g) 1,70 0,92 1,82 0,81 0,107 Ác. gordos Ω6 (g) 12,20 7,75 13,28 6,53 0,033 Vitamina D (µg/dia) 5,54 4,14 6,27 4,03 0,065 Cálcio (mg/dia) 1354,30 791,46 1355,89 652,84 0,278 Ferro (mg/dia) 18,21 7,06 21,29 9,18 0,020 Da análise da ingestão energética e nutricional pelas idades dos estudantes, obtiveram-se correlações estatisticamente significativas para os açúcares (r = 0,172; p= 0,024) e para o sódio (r = 0,175; p= 0,022), cujo consumo aumentava com a idade dos inquiridos, como se pode verificar no quadro 34. Quadro 34 – Correlação entre a ingestão energética e nutricional por idades Açucares Coeficiente de correlação de Spearman 0,172* Valor de p 0,024 Sódio Coeficiente de correlação de Spearman 0,175* Valor de p 0,022 Este resultado difere do descrito Lambert, J. e colaboradores (2004) que concluíram num artigo de revisão a nível europeu sobre o consumo alimentar e
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 80 2012 o estado nutricional em crianças e adolescentes, que nos países do sul da Europa, o consumo de açucares tende a diminuir com a idade. De modo a compreender melhor a adequação nutricional dos consumos médios diários dos estudantes dos nutrimentos analisados, apresentam-se no quadro 35, os valores de referência das DRI´S para esses nutrimentos, os valores apresentados correspondem a valores das Recommended Dietary Allowances (RDA) e Adequate Intakes (AI), uma vez que não estão disponíveis valores de Estimated Average Requirement (EAR) para todos os nutrimentos analisados. Quadro 35 – Comparação entre as recomendações das DRI´S e a ingestão média diária dos nutrimentos analisados Nutrimentos Consumos médios nutrimentos DRI´S Média (ẋ) Desvio padrão Sexo/Idade (anos) Sexo/Idade (anos) feminino Masculino 9-13 14-18 9-13 14-18 Proteína (g/dia) 118,2 45,63 34 46 34 52 Hidratos de carbono (g/dia) 339,4 128,95 130 130 Lípidos totais (g) 95,9 36,84 20% a 35% da ingestão energética diária Açucares (g/dia) 183,3 88.65 Máximo de 25% da ingestão energética total Ác. gordos saturados (g/dia) 32,3 13,16 Para estes nutrimentos recomenda-se o consumo da menor quantidade possível Colesterol (mg/dia) 403,39 199,77 Ác. gordos trans (g/dia) 1,38 0,58 Ác. gordos Ω3 (g/dia) 1,76 0,87 1,0 1,1 1,2 1,6 Ác. gordos Ω6 (g/dia) 12,72 7,19 10 11 12 16 Fibra alimentar (g/dia) 27,9 15,45 26 31 38 Sódio (mg/dia) 2642,7 1144,22 1500 1500 Vitamina D (µg/dia) 5,89 4,09 10 10 Cálcio (mg/dia) 1355,07 726,18 1100 1100 Ferro (mg/dia) 19,68 8,27 5,7 7,9 5,9 7,7 Relativamente aos valores das Dietary Reference Intake (DRI´S) (2002/2005) (http://fnic.nal.usda.gov/dietary-guidance/dietary-reference-intakes/dri-tables), a ingestão média diária observada para a proteína é elevada, para ambos os sexos. Fazendo uma análise mais aprofundada da ingestão proteica dos estudantes, esta representa cerca de 17,9% da ingestão energética média diária, valor que está dentro dos limites recomendados pelas DRI´s (10% a 30%), mas se tivermos em conta as recomendações da FAO/WHO de 2002,
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 81 2012 este valor é excessivo, uma vez que estas recomendam um intervalo entre os 10% a 15%, que coincide também com o estabelecido para a Dieta Mediterrânica (Serra-Majem, L., Ngo, J., 2002). Situação semelhante verifica-se com a ingestão média diária de lípidos, que representam aproximadamente 31,3% da ingestão energética média diária, as DRI´s recomendam um máximo de 35%, mas as recomendações da FAO/WHO de 2002, recomendam um valor máximo de 30%, à semelhança da Dieta Mediterrânica que preconiza para a ingestão de lípidos entre os 25% e os 30% (Serra-Majem, L., Ngo, J., 2002). Relativamente aos hidratos de carbono, o valor mínimo diário recomendado é de 130g por dia, mas a percentagem relativamente à ingestão energética total pode variar entre os 45% e os 65%, de acordo com as DRI´S, ou entre os 55 e os 60%, preconizados pela Dieta Mediterrânica (Serra-Majem, L., Ngo, J., 2002). A ingestão média de hidratos de carbono encontrada no presente estudo, corresponde aproximadamente a 51,4% da ingestão energética média diária, o que está dentro de ambos os limites referidos, no entanto a percentagem de açúcares corresponde a cerca de 27,7% da ingestão energética média diária, o que representa um valor manifestamente elevado, indicando que a ingestão total de hidratos de carbono complexos é baixa, o que corrobora os resultados encontrados na análise das frequências alimentares dos estudantes, que apresentavam consumos modestos de alimentos, como as leguminosas e o pão de mistura, cujas frequências de consumo foram baixas. Positivamente destacaram-se a ingestão de ácidos gordos ómega 3, de cálcio e de ferro, que estão acima dos valores recomendados para o sexo e idades dos estudantes. Negativamente destacam-se a ingestão de ácidos gordos ómega 6, de ácidos gordos trans, de colesterol e de sódio, com valores acima dos recomendados para o sexo e idades dos estudantes, e de vitamina D com valores abaixo dos recomendados (http://fnic.nal.usda.gov/dietaryguidance/dietary-reference-intakes/dri-tables). 4.8.2. Aporte energético/nutricional e pressão arterial
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 82 2012 Entre os fatores nutricionais que parecem contribuir mais para o desenvolvimento de hipertensão arterial nos adolescentes, salientam-se o consumo elevado de ácidos gordos saturados, colesterol e sal (World Health Organization, 2003), assim procedeu-se à análise das diferenças no aporte nutricional entre os estudantes com pressão arterial normal e os estudantes hipertensos, dentro dos 171 estudantes considerados como plausíveis após a correção da ingestão energética. No quadro 36, verifica-se que não se encontraram diferenças estatisticamente significativas nas categorias de pressão arterial para o consumo dos diferentes nutrimentos, com valores de p superiores a 0,05. Quadro 36 - Nutrimentos e categorias de classificação da pressão arterial dos estudantes Energia e Nutrimentos PA_Grupo_DICOT Valor de p (Mann-Whitney) Normal Hipertensos Média (ẋ) Desvio padrão Média (ẋ) Desvio padrão Energia (Kcal) 2632,75 839,50 2678,54 951,82 0,943 Proteína (g) 117,96 46,05 119,05 44,65 0,973 Hidratos de carbono (g) 338,48 123,96 342,76 148,05 0,739 Lípidos (g) 95,39 36,87 97,56 37,23 0,820 Ác. gordos saturados (g) 32,06 12,95 33,09 14,11 0,886 Ác. gordos monoinsaturados (g) 38,81 16,11 39,11 14,42 0,727 Ác. gordos polinsaturados (g) 16,64 8,25 17,24 8,35 0,733 Colesterol 395,92 202,50 431,39 189,27 0,211 Sódio 2653,27 1197,53 2602,85 930,94 0,897 Ác. gordos trans (g) 1,35 0,57 1,47 0,64 0,375 Ác. gordos Ω3 (g) 1,77 0,93 1,71 0,57 0,655 Ác. gordos Ω6 (g) 12,57 7,08 13,28 7,67 0,580 No entanto, ao analisar-se a correlação entre os nutrimentos e os valores individuais de pressão arterial sistólica e diastólica dos 171 estudantes considerados, verificaram-se associações estatisticamente significativas, entre os valores de pressão arterial sistólica e os ácidos gordos saturados, trans, monoinsaturados e polinsaturados; o colesterol e o sódio, como se pode observar no quadro 37, em que a correlação para todos os nutrimentos referidos e os valores de pressão arterial sistólica, apresentaram um valor de p inferior a 0,05.
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 89 2012 Frequência alimentar KIDMED KIDMEDCAT Alface, agrião Coeficiente correlação Spearman 0,271 0,239** Valor de p 0,000 0,002 N 171 171 Cenoura Coeficiente correlação Spearman 0,205 0,153 Valor de p 0,007 0,046 N 171 171 Tomate fresco Coeficiente correlação Spearman 0,181 0,136 Valor de p 0,018 0,075 N 171 171 Leguminosas: feijão, grão-de-bico Coeficiente correlação Spearman 0,210 0,148 Valor de p 0,006 0,053 N 171 171 Maçã, pera Coeficiente correlação Spearman 0,176 0,150 Valor de p 0,022 0,051 N 170 170 Laranjas, tangerinas Coeficiente correlação Spearman 0,178 0,127 Valor de p 0,020 0,098 N 170 170 Cerejas Coeficiente correlação Spearman 0,158 0,134 Valor de p 0,040 0,082 N 169 169 Pêssego, ameixa Coeficiente correlação Spearman 0,165 0,142 Valor de p 0,031 0,066 N 170 170 Uvas frescas Coeficiente correlação Spearman 0,164 0,178 Valor de p 0,033 0,020 N 170 170 Bebidas brancas: whisky, aguardente, brandy, etc Coeficiente correlação Spearman -0,186 -0,161 Valor de p 0,015 0,036 N 171 171 Café (incluindo o adicionado a outras bebidas) Coeficiente correlação Spearman -0,162 -0,123 Valor de p 0,034 0,108 N 171 171 Pizza Coeficiente correlação Spearman -0,224 -0,137 Valor de p 0,003 0,074 N 171 171 Hambúrguer Coeficiente correlação Spearman -0,197 -0,131 Valor de p 0,010 0,087 N 171 171 Sopa de legumes Coeficiente correlação Spearman 0,190 0,131 Valor de p 0,013 0,087 N 171 171 Sumo de fruta natural Coeficiente correlação Spearman 0,274 0,217 Valor de p 0,000 0,004 N 171 171 Relativamente ao consumo de peixes gordos, polvo, couve branca, couve lombarda, brócolos, grelos, nabiças, espinafres, feijão-verde, alface, agrião, cenouras, uvas frescas e sumo de fruta natural, verificaram-se correlações estatisticamente significativas positivas, quer para o KIDMED quer para a variável KIDMEDCAT. Para o pão branco ou tostas, os snacks de chocolate e para as bebidas brancas também se encontraram correlações estatisticamente significativas negativas, simultaneamente para o KIDMED e para a variável
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 90 2012 KIDMEDCAT, indicando que estes produtos não se enquadram nos critérios de adesão ao PAM (Bach-Faig, A. et al., 2011; Serra Majem, L. et al., 2004). Relativamente ao consumo de bacalhau, marisco, couves penca e tronchuda, tomate fresco, leguminosas, fruta com exceção das uvas e sopa de legumes só se verificaram correlações positivas estatisticamente significativas apenas para o KIDMED. Para o consumo de café, chocolate, pizza e hambúrguer encontraram-se correlações estatisticamente significativas negativas, também apenas para o KIDMED. O KIDMED, embora seja um índice muito usado para a avaliar a adesão ao PAM parece ser uma ferramenta pouco sensível para a análise da adequação energética e nutricional dos hábitos alimentares dos jovens, sendo esta muitas vezes realizada com recurso a QFA e a questionários às 24 horas anteriores (Kontogianni, M. P. et al., 2008; Serra-Majem, L. et al., 2003 b; SerraMajem, L., Ribas-Barba, L., Pérez-Rodrigo, C. & Bartrina, J. A.,2006 c), no presente estudo recorreu-se aos dados obtidos através da aplicação do QFA e conversão dos alimentos em nutrimentos e valor energético. 4.9.2. KIDMED e variáveis sociodemográficas 4.9.2.1. Idade e sexo Procedeu-se à análise da distribuição dos resultados de adesão obtidos através do KIDMED pela variável idade dos inquiridos, como se pode verificar no quadro 42, as idades dos doze, treze e catorze anos foram as que apresentaram melhores resultados para o nível “alta adesão” com 21,5%, 25,7%, respetivamente. De salientar, que também foi a idade dos doze anos que apresentou a percentagem mais elevada no nível “baixa adesão”, com 33,3%.
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 91 2012 Quadro 42 – Níveis de adesão ao KIDMED por idades Idade KIDMEDCAT (%) Alta adesão Adesão intermédia Baixa adesão 11 9 6,9 20 12 21,5 20,7 33,3 13 25,7 19,8 26,7 14 25,7 27,6 0 15 15,3 19 20 16 2,8 6 0 Total (n) 276 No entanto, verificou-se que a relação entre a variável idade e os resultados obtidos com o KIDMED não foi estatisticamente significativa, χ2 (2) = 11,658; p=0,306. Procedeu-se à mesma análise para a variável sexo, e verificou-se que com exceção do nível de adesão intermédia, os estudantes do sexo masculino apresentavam melhores níveis de adesão (Quadro 43). Quadro 43 – Níveis de adesão ao KIDMED por sexo Sexo KIDMEDCAT (%) Alta adesão Adesão intermédia Baixa adesão feminino 46,2 53,4 53,3 masculino 53,8 46,6 46,7 Total(n) 276 O índice médio de adesão ao KIDMED para os estudantes do sexo feminino foi de 7,26 ± 2,362, e para os estudantes do sexo masculino foi de 7,38 ± 2,336. Há semelhança da variável idade, também se verificou que a relação entre a variável sexo e a adesão ao KIDMED não era estatisticamente significativa, χ 2 (2) = 1,433; p=0,487. Estes resultados diferem dos obtidos num estudo grego desenvolvido por Kontogianni, M. P. e colaboradores (2008), onde os adolescentes do sexo feminino apresentavam maior adesão ao KIDMED. Num estudo realizado no Chipre, os resultados obtidos para a variável sexo e adesão ao KIDMED são semelhantes aos do presente estudo, com o sexo masculino a mostrar níveis
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 92 2012 de adesão mais altos, embora as diferenças encontradas também se tenham revelado estatisticamente não significativas (Lazarou, C. et al., 2009 a). Num estudo espanhol realizado em Granada, foi reportado também que o sexo masculino apresentava maior adesão ao KIDMED, e que os inquiridos do sexo feminino se situavam maioritariamente no nível de adesão intermédio, embora também não tenham sido encontradas associações estatisticamente significativas (Mariscal-Arcas, M. et al., 2009). 4.9.2.2. Nível de escolaridade dos pais A relação entre o nível de escolaridade dos pais dos estudantes e os níveis de adesão obtidos através do KIDMED, não se revelou estatisticamente significativa. A relação entre escolaridade da mãe e do pai e a variável KIDMEDCAT apresentou os seguintes valores de significância, χ 2 (8) = 8,974, p=0,345 e χ 2 (8) = 9,470, p=0,304, respetivamente. A mesma tendência não foi encontrada noutros estudos semelhantes, desenvolvidos em Espanha (Martínez, E. et al., 2010), e na Turquia (Emre, E. et al., 2010; Sahingoz, S. A. et al., 2011), que observaram diferenças estatisticamente significativas entre o nível de escolaridade da mãe e a adesão ao KIDMED, quanto mais alto era o nível de escolaridade da mãe, maior era o nível de adesão ao KIDMED dos inquiridos. O mesmo não se verificou relativamente ao nível de escolaridade do pai, o que está de acordo com os resultados do presente estudo (Emre, E. et al., 2010; Martínez, E. et al., 2010). 4.9.2.3. Estado civil e profissão dos pais A relação entre o estado civil dos pais dos estudantes e os níveis de adesão obtidos através do KIDMED, não se revelou estatisticamente significativa: χ 2(5) = 11,393, p=0,328. Quanto à profissão dos pais, também não se encontraram associações estatisticamente significativas com valores de p superiores a 0,05 (valores de p=0,965 e 0,951 para a profissão da mãe e do pai, respetivamente).
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 93 2012 4.9.2.4. Nacionalidade dos pais À semelhança do nível de escolaridade, a relação entre a nacionalidade da mãe ou do pai e a variável KIDMEDCAT também não foi estatisticamente significativa, apresentando os seguintes valores de significância: χ 2(6) = 2,607; p=0,871 e χ 2(6) = 8,883; p=0,166, respetivamente. 4.9.2.5. Tempo de residência no Algarve dos pais Não se verificou uma associação estatisticamente significativa entre o tempo de residência no Algarve para os pais naturais de outras regiões do país ou do estrangeiro e a variável KIDMEDCAT, que apresentou os seguintes valores de significância, KW (2) = 2,596; p = 0,273. 4.9.3. KIDMED, dados antropométricos e pressão arterial 4.9.3.1. Índice de massa corporal A relação entre a variável IMC_cole e a variável KIDMEDCAT também não se revelou estatisticamente significativa, χ 2(3) = 8,795, p=0,181 (Quadro 44). Quadro 44 – Níveis de adesão ao KIDMED pelas categorias de IMC_Cole IMC_Cole KIDMEDCAT (%) Alta adesão Adesão intermédia Baixa adesão Pré-obesidade 3 35,8 61,2 Obesidade 14,3 42,9 42,9 Normoponderal 4,9 44,0 51,1 Baixo peso 18,2 45,5 36,4 Total (n) 276 No entanto, pode verificar-se que os estudantes com excesso de peso, obesidade e normoponderais são os que apresentam valores mais elevados no nível “baixa adesão”. Os estudantes com baixo peso são os que se encontram maioritariamente no nível de adesão intermédia. Farajian, P. e colaboradores (2011) num estudo grego publicado em 2011, também não encontraram uma associação estatisticamente significativa entre a adesão ao KIDMED e o IMC. Os mesmos resultados foram reportados noutro estudo grego (Tsartsali, P. K.
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 94 2012 et al., 2009) que também não encontrou diferenças estatísticas entre o IMC e os níveis de adesão ao KIDMED. No entanto, para uma população entre os treze e os dezoito anos de idade, num estudo realizado também na Grécia, foi encontrada uma associação negativa entre a adesão ao KIDMED e o IMC, com significado estatístico (Kontogianni, M. D. et al., 2010). A mesma tendência foi descrita num estudo desenvolvido na Turquia, cuja população tinha uma faixa etária entre os dez e os catorze anos, tendo sido encontradas diferenças estatisticamente significativas entre o IMC e os níveis de adesão ao KIDMED, com os inquiridos obesos a apresentarem níveis de adesão mais baixos (Emre, E. et al., 2010). Apesar de a evidência encontrada entre o IMC e a adesão ao PAM, se revelar um pouco inconsistente, o PAM não está a associado a risco de desenvolvimento de excesso de peso e de obesidade (Buckland, G., BachFaig, A. & Serrra-Majem, L., 2008). 4.9.3.2.Perímetro da cintura e pressão arterial A relação entre os percentis do perímetro da cintura e os níveis de adesão ao KIDMED foi analisada para 273 estudantes, e não apresentou relações estatisticamente significativas, χ 2(16) = 21,470, p=0,159. A relação entre a variável WHtR e os níveis de adesão ao KIDMED também não apresentou relações estatisticamente significativas (KW(2)=1,054; p=0590). Os resultados obtidos no presente estudo são diferentes dos obtidos num estudo espanhol, publicado em 2010, que encontrou uma associação negativa entre a adesão ao KIDMED e o perímetro da cintura, o que levou os autores a concluir que prática dos princípios da dieta mediterrânica podia contribuir para diminuir o perímetro da cintura (Schroder, H., Mendez, M. A., Ribas-Barba, L., Covas, M. I. & Serrra-Majem, L., 2010). A mesma tendência foi observada para a pressão arterial que apresentou os
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 95 2012 seguintes valores de significância, χ 2(6) = 6,436, p=0,359. 4.9.4. KIDMED nas escolas estudadas No quadro 45, pode observar-se a adesão ao KIDMED nas escolas selecionadas para o presente estudo, no qual se pode verificar que as escolas com nível de adesão mais elevado, foram as E B 2,3 Dr. Joaquim Magalhães, em Faro, com 67,9%, seguida da escola E B 2,3 Dr. Neves Júnior, em Faro, seguidas da escola secundária de Vila Real de Santo António. Quadro 45 – Níveis de adesão ao KIDMED por escola Escolas KIDMEDCAT (%) Baixa adesão Adesão intermédia Alta adesão Boliqueime 10,2% 42,4% 47,5% Joaquim Magalhães 3,8% 28,3% 67,9% Moncarapacho 2,8% 52,8% 44,4% Neves Júnior 0,0% 37,5% 62,5% V R S A 0,0% 47,5% 52,5% Total (n) 276 Todas as escolas com proporções mais elevadas de “alta adesão” se situavam em meio urbano, pelo que resolveu analisar-se também a adesão ao KIDMED, pela localização sociodemográfica das escolas. Quadro 46 - Níveis de adesão ao KIDMED pela localização sociodemográfica das escolas KIDMEDCAT (%) Baixa adesão Adesão intermédia Alta adesão Escolas Meio urbano 1,6% 38,5% 59,8% Meio rural 8,4% 44,8% 46,8% Total (n) 276 Quanto à relação entre o nível de adesão ao KIDMED e a localização sociodemográfica das escolas, pode verificar-se no quadro 46 que as escolas localizadas em meio rural apresentavam uma proporção significativamente mais baixa do que o esperado de estudantes com “alta adesão” (46,8%) e as escolas localizadas em meio urbano apresentaram uma proporção mais
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 96 2012 elevada de “alta adesão” maior do que o esperado (59,8%). A relação entre os níveis de adesão e a localização das escolas revelou-se estatisticamente significativa, χ 2(2) = 8,652; p=0,013. Em função deste resultado, resolveu também analisar-se a relação entre a escolaridade dos pais e a localização demográfica das escolas,tendo-se verificado diferenças estatisticamente significativas entre os inquiridos de escolas do meio urbano e do meio rural, relativamente ao nível de escolaridade da mãe (χ 2(4) =22,535, p<0,0001) e do pai (χ 2(4)=9,493, p=0,04). Registou-se uma maior prevalência de estudantes em escolas de meio urbano com pais com o ensino superior completo. 4.10. Atividade Física Os hábitos de prática de atividade física dos estudantes também foram analisados, para os 272 estudantes que responderam a esta questão, o modo de deslocação mais utilizado na “deslocação casa/escola”, como se verifica no quadro 47, foi o carro, para todos os dias da semana. No entanto, em média, cerca de 32% dos estudantes deslocava-se a pé para a escola. Quanto à variável “outro modo de deslocação” os estudantes referiam maioritariamente a utilização de bicicleta. Quadro 47 – Modo de deslocação casa/escola Frequência relativa (%) Dia da semana 2 feira 3 feira 4 feira 5 feira 6 feira Modo deslocação A pé 32,6 30,0 33,3 30,7 33,0 De autocarro 15,2 16,3 15,5 16,3 15,9 De carro 47,4 47,8 47,0 48,3 46,3 De comboio 0,4 0,4 0,4 0,4 0,4 Outro 6,5 7,3 6,5 6,5 7,3 A maioria dos estudantes (40,9%) morava a menos de um quilómetro da escola, 27,5% entre um a três quilómetros e 31,6% morava a mais de três quilómetros da escola. No que diz respeito à prática de atividade desportiva reportada pelos
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 97 2012 estudantes que responderam às questões relacionadas com essa prática, pode observar-se no quadro 48, que 97,4% dos estudantes frequentava as aulas de educação física na escola, e 31,9% participava nas atividades de desporto escolar disponibilizadas pelas escolas. Quadro 48 - Frequência da prática de desporto Sim Não Frequência semanal Duração da prática (minutos) Prática desportiva (n) Frequência relativa (%) Média (ẋ) Frequenta as aulas de educação física na escola 276 97,4 2,6 2 90 Pratica desporto escolar 270 31,9 68,1 1,71 ± 1,12 87,17 ± 47,91 Pratica atividades desportivas fora da escola 269 52,4 47,6 3,02 ± 1,61 98,38 ± 67,32 Pratica atividades desportivas de lazer 269 84 16 3,39 ± 2,17 74,86 ± 52,662 Quanto à prática de atividades desportivas fora da escola, em clubes ou ginásios (futebol, basquetebol, artes marciais, natação, ténis, padel, dança, entre outras) foi reportada por 52,4% dos estudantes. As atividades desportivas de lazer (andar, correr, andar de bicicleta, jogar à bola, entre outras) foram reportadas por 84% dos estudantes. A frequência semanal destas práticas variava entre duas a três vezes, por semana, com uma duração média de 74,86 ± 52,662 minutos a 98,38 ± 67,32 minutos. Estes resultados vão de encontro aos apresentados no relatório nacional de 2010 do HBSC, que refere que cerca de metade dos adolescentes portugueses pratica atividade física três vezes ou mais por semana (HBSC/OMS, 2010). As recomendações atuais da OMS para a prática de atividade física, em crianças e adolescentes, como forma de prevenir/reduzir a prevalência de obesidade nestas idades, referem uma prática diária de atividade física aeróbica, moderada a intensa, com uma duração de pelo menos, sessenta minutos; que esta prática deve ser reforçada com atividades de lazer com uma duração de sessenta minutos ou mais; e, que pelo menos três vezes por semana, essa prática deve ser de natureza intensa a vigorosa e incluir
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 98 2012 exercícios de carga (World Health Organization, 2010). No quadro 49, podemos observar o tempo médio, em minutos, por semana e durante o fim-de-semana, que os inquiridos disponibilizavam para outras atividades mais sedentárias, como ver televisão, estar na internet, jogar consolas ou estudar. Quadro 49 – Outras atividades realizadas durante a semana e ao fim de semana Atividades (n) Mínimo Máximo Média (ẋ) Desvio Padrão Durante a semana, quanto tempo por dia (em média) o inquirido passa a ver televisão (min) 256 20 300 118,22 80,794 Durante a semana, quanto tempo por dia (em média) o inquirido passa na internet ou a jogar jogos de computador/consolas/playstation (min) 236 22 300 115,64 76,092 Durante a semana, quanto tempo por dia (em média) o inquirido passa a estudar/fazer trabalhos de casa/ler (min) 249 30 300 95,04 66,374 Durante o fim de semana, quanto tempo por dia (em média) o inquirido passa a ver televisão (min) 257 25 480 173,59 112,939 Durante o fim de semana, quanto tempo por dia (em média) o inquirido passa na internet ou a jogar jogos de computador/consolas/playstation (min) 240 20 420 173,90 110,600 Durante o fim de semana, quanto tempo por dia (em média) o inquirido passa a estudar/fazer trabalhos de casa/ler (min) 236 24 720 106,80 89,326 Durante a semana as atividades mais sedentárias totalizavam um máximo de cinco horas semanais. Ao fim de semana, essas atividades apresentavam um número de horas máximo, que variava entre as oito e as a doze horas, sendo que este último valor foi atribuído a tempo de estudo. 4.10.1. Atividade física e KIDMED O índice médio de adesão ao KIDMED para os estudantes que praticavam atividade física regular fora da escola foi de 8 ± 2, e para os estudantes que não praticavam atividade física regular fora da escola foi de 7 ± 3. Quadro 50 – Prática de atividade física fora da escola e valor médio do KIDMED KIDMED Valor de p (Mann-Whitney) Média (ẋ) Mediana Desvio Padrão Prática de desporto fora da escola Não 7 7 3 0,020 Sim 8 8 2
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 105 2012 Quadro 57 – Frequência de compra de alimentos do agregado familiar Alimentos Frequência de compra dos alimentos (%) Inquiridos (n) Nunca 1 vez por mês 2 em 2 semanas 1 vez por semana Mais de 1 vez por semana Arroz/massas 0 26,6 30,5 28,9 14,1 305 Cereais peq. Almoço 6,6 18 32,5 29,2 13,8 Batata 10,2 18 28,9 29,8 13,1 Feijão/Grão 7,9 37,7 29,2 21,3 3,9 Favas/Ervilhas 22,3 34,1 24,3 15,1 4,3 Pão 2,3 1 2,3 11,2 83,2 304 Bolachas e produtos de pastelaria 4,9 28,2 28,2 25,9 12,8 305 Leite 0,7 9,8 18,4 32,8 38,4 Iogurtes 0,7 6,6 14,1 41,3 37,4 Queijo/Fiambre 0,3 2,6 10,9 36,2 50 304 Carne 1,6 4,9 19,7 32,9 40,8 304 Pescado 0,7 8,5 14,1 40,3 36,4 305 Ovos 12,5 12,1 23 38 14,4 Produtos hortícolas 8,5 3 7,5 29,2 51,8 Fruta 2,3 2,6 8,5 30,5 56,1 Azeite 13,4 36,4 28,9 11,5 9,8 Óleos 9,8 45,6 28,2 11,5 4,9 Manteiga/Margarina 1,6 27,3 40,5 18,8 11,8 304 Água 12,1 11,1 18,4 24,6 33,8 305 Vinho 38,2 31,2 16,1 11,2 3,3 304 Sumos/Refrigerantes 5,2 32,1 26,2 24,6 11,8 305 No mercado tradicional encontram-se produtores locais a vender os seus produtos, fator que ainda parece ser importante para muitos dos inquiridos, a avaliar pela pontuação atribuída (quadro 55) à influência que os “alimentos locais” e os “alimentos tradicionais da região” têm na escolha/compra dos alimentos que obtiveram uma pontuação de 4,78 e 4,66, respetivamente. A presença deste tipo de mercados nas cidades algarvias, não pode deixar de ser associada à influência mediterrânica que sempre tem existido nesta região, são locais que promovem a convivência, a sociabilização e a continuidade de rituais e escolhas/hábitos alimentares que passam de geração em geração. Em todas as cidades do Mediterrâneo podemos encontrar este tipo de mercados, que oferecem à vista de quem os visita uma profusão de cores e odores
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 106 2012 provenientes dos alimentos expostos, mas também um espaço de intercâmbio de experiências com um mecanismo de comunicação muito próprio. Na realidade, são estes mercados que ainda permitem a sustentabilidade do PAM nos espaços urbanos (Turmo, I. G. & Verdú, J. M., 2008). Quadro 58 – Frequência do local compra dos alimentos do agregado familiar Alimentos Frequência do local de compra dos alimentos (%) Inquiridos (n) Hipermercado Supermercado Mercearia Mercado Tradicional Talho Padaria Produção própria Arroz/ massas 4,5 94,8 0,7 0 0 0 0 287 Cereais pequeno almoço 4,9 94,4 0,7 0 0 0 0 286 Batata 2,8 65,5 6 14,4 0 0 11,3 284 Feijão/ Grão 4 77,3 2,9 10,8 0 0 5 278 Favas/ Ervilhas 3,1 64,5 3,8 12,6 0 0 16 262 Pão 1 41,6 19,6 4,5 0 28,7 4,5 286 Bolachas e produtos de pastelaria 4,7 83,3 5,5 0,7 0 4,4 1,5 275 Leite 3,5 92,3 3,8 0 0 0 0,3 286 Iogurtes 3,1 93 2,8 0 0 0 1 286 Queijo/ Fiambre 3,5 85,7 7 1 2,4 0 0,3 286 Carne 2,1 52,3 0,7 1,8 41,8 0 1,4 285 Pescado 2,8 52,4 0,3 43,7 0 0 0,7 286 Ovos 3,2 71,5 2,8 8,8 0 0,7 13 284 Produtos hortícolas 3,1 52,8 10,5 23,8 0 0 9,8 286 Fruta 2,8 61,1 11,2 22,4 0 0 2,5 286 Azeite 2,9 81,7 1,1 3,3 0 0 11 273 Óleos 4,3 93,4 2,3 0 0 0 0 258 Manteiga/ Margarina 4,9 93,3 1,8 0 0 0 0 283 Água 2,8 94,4 2,8 0 0 0 0 251 Vinho 3,3 92,3 1,1 1,1 0 0 2,2 183 Sumos/ Refrigerantes 4,4 94,5 1,1 0 0 0 0 273 Relativamente ao vinho, embora neste quadro não seja percetível, muitos dos adultos inquiridos anotaram nas suas respostas que adquiriam o vinho a pequenos produtores ou em cooperativas.
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 107 2012 A presença deste tipo de mercados nas cidades algarvias, não pode deixar de ser associada à influência mediterrânica que sempre tem existido nesta região, são locais que promovem a convivência, a sociabilização e a continuidade de rituais e escolhas/hábitos alimentares que passam de geração em geração. Em todas as cidades do Mediterrâneo podemos encontrar este tipo de mercados, que oferecem à vista de quem os visita uma profusão de cores e odores provenientes dos alimentos expostos, mas também um espaço de intercâmbio de experiências com um mecanismo de comunicação muito próprio. Na realidade, são estes mercados que ainda permitem a sustentabilidade do PAM nos espaços urbanos (Turmo, I. G. et al., 2008). 4.11.2. Hábitos alimentares No quadro 59 pode observar-se que, durante a semana, as refeições diárias que os inquiridos normalmente faziam em família, com mais frequência eram o pequeno-almoço e o jantar. Ao fim de semana, a frequência de todas as refeições diárias na companhia da família aumentava, o que pode indicar que a falta de tempo durante a semana poderia contribuir para que o meio da manhã, o almoço e o lanche não fossem realizados em família, embora estas duas últimas refeições apresentem frequências mais elevadas. Quadro 59 – Refeições diárias realizadas em família Refeições 2ª f 3ª f 4ª f 5ª f 6ª f Sab. Dom Inquiridos (n) Peq. Almoço (%) 64,5 63,8 63,8 63,8 63,8 81 84,4 307 Meio manhã (%) 2,6 2 2,6 2,3 2,9 37,1 38,4 Almoço (%) 30,6 29 34,5 30 32,7 92,5 94,4 Lanche (%) 19,9 20,2 21,2 22,2 21,2 68,7 77,2 Jantar (%) 96,4 96,4 96,4 96,7 97,1 95,4 97,7 Ceia (%) 21,5 21,8 21,8 22,1 22,5 26,8 28,1 O meio da manhã, foi a refeição que apresentou uma frequência mais baixa de realização em família, o que não é de estranhar, pois regra geral, os pais estarão a trabalhar e os jovens na escola. A ceia apresentou uma frequência baixa para todos os dias da semana, o que poderá indicar que esta refeição era realizada apenas por uma minoria dos inquiridos.
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 108 2012 Quanto aos locais onde as refeições eram realizadas, a casa foi o local mais referido, quer durante a semana quer ao fim de semana, 98,5% dos adultos inquiridos referiram que faziam o pequeno-almoço em casa, e 99% jantavam em casa. O meio da manhã, em família, quando realizado, era sempre feito em casa. O almoço, o lanche e a ceia, embora para 90% dos inquiridos fossem feitos em casa, a opção “outro local” foi referida por cerca de 3% e 1,5% dos adultos inquiridos para o almoço e para a ceia, respetivamente, e por 5% para o lanche. O outro local era identificado como sendo a casa dos avós ou de outros familiares. De salientar, que o pequeno-almoço, ao fim de semana, embora feito em família com mais frequência que durante a semana, variava mais o local onde era feito, tendo sido referidos outros locais como o café ou os espaços de cafetaria dos híper/supermercados. 4.11.3. Relação entre a ingestão energética e nutricional dos estudantes e produção própria de alimentos Considerando-se os 171 estudantes que reportaram no QFA um valor energético plausível, após a determinação dos limites de confiança segundo a equação de Goldberg, G. (1998), avaliou-se a relação entre a ingestão energética e nutricional destes entre aqueles cujos agregados familiares tinham produção própria de alimentos e aqueles que não tinham (Quadro 60). No entanto, não se encontraram diferenças estatisticamente significativas entre os dois grupos, de acordo com os de p obtidos através da aplicação do teste de Mann-Whitney.
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 109 2012 Quadro 60 – Produção própria e ingestão energética/nutricional Energia e nutrimentos Produção própria Valor de p (MannWhitney) Não Sim Média (ẋ) Mediana Desvio Padrão Média (ẋ) Mediana Desvio Padrão Energia 2729,95 2529,39 894,43 2590,11 2424,39 852,01 0,322 Proteína 125,57 114,92 54,96 112,52 107,45 37,76 0,209 Hidratos Carbono 354,39 329,81 137,88 331,72 310,10 125,02 0,282 Lípidos totais 95,78 87,56 36,98 95,95 90,35 37,64 0,973 Ác. gordos saturados 31,99 29,09 13,69 32,37 28,87 13,13 0,770 Ác. gordos monoinsaturados 38,58 35,16 16,02 39,14 36,39 15,77 0,783 Ác. gordos poliinsaturados 17,09 15,61 8,16 16,63 14,40 8,56 0,950 Colesterol 413,22 361,17 232,96 387,96 349,57 172,61 0,844 Fibra alimentar 30,11 25,49 18,56 26,84 23,95 13,11 0,304 Hidratos Carbono complexos 96,97 89,73 42,57 93,05 74,85 48,89 0,175 Açúcares 192,48 174,47 93,71 177,17 156,49 87,56 0,234 Álcool 0,52 0,00 2,10 0,49 0,00 2,19 0,587 Cafeína 55,16 37,69 69,77 44,16 34,22 44,15 0,649 Vitaminas totais 2696,29 2056,12 1841,99 2887,21 2264,06 2029,27 0,374 Vitamina B12 14,24 11,83 10,30 14,97 10,86 11,14 0,938 Ácido fólico 517,26 440,95 311,36 465,79 420,06 216,02 0,502 Vitamina D 5,98 5,09 4,33 5,78 4,81 3,96 0,662 Vitamina K 26,38 19,92 24,04 23,16 20,78 15,68 0,955 Cálcio 1404,42 1173,89 808,85 1292,35 1124,25 634,69 0,765 Ferro 20,79 18,28 8,79 19,09 17,36 8,04 0,186 Magnésio 437,97 389,01 188,86 400,91 379,29 142,22 0,242 Fósforo 1964,92 1734,48 836,31 1796,33 1727,36 612,77 0,453 Potássio 4791,35 4245,28 2142,53 4356,22 4148,95 1634,28 0,328 Sódio 2756,83 2427,18 1274,54 2561,32 2345,34 1062,58 0,244 Cloreto de sódio 4140,22 3699,82 1835,11 3840,53 3571,63 1368,89 0,368 Água 1601,84 1371,40 851,68 1425,02 1286,19 579,39 0253 Fibra insolúvel 18,08 14,50 12,54 15,57 13,85 8,22 0,270 Fibra solúvel 7,37 5,68 5,95 6,39 5,06 3,78 0,423 Ác. gordos trans 1,34 1,21 0,59 1,39 1,26 0,59 0,460 Ác. gordos Ω3 1,83 1,52 1,01 1,71 1,57 0,76 0,768 Ác. gordos Ω6 12,87 11,21 7,20 12,69 10,52 7,43 0,655 4.11.3.1 Relação entre as variáveis KIDMEDCAT, IMC_Cole, PC e WHtR e produção própria de alimentos O índice médio de adesão ao KIDMED dos adolescentes cujos agregados familiares tinham produção própria de alimentos foi de 7 ± 2, e para os adolescentes cujos agregados familiares não tinham produção própria de foi de 7 ± 3. Avaliou-se através do teste de Mann-Whitney se estas diferenças seriam estatisticamente significativas, o que não se verificou (U=3183,5; p=0,966).
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 110 2012 Quadro 61 - Produção própria e KIDMEDCAT Produção Própria Total Não Sim KIDMEDCAT Baixa adesão n 8 5 13 Produção Própria 7,1% 3,5% 5,1% Adesão intermédia n 43 60 103 Produção Própria 38,1% 42,6% 40,6% Alta adesão n 62 76 138 Produção Própria 54,9% 55,5% 54,3% Total n 113 141 254 Compararam-se então, as diferenças entre os níveis de adesão ao KIDMED dos estudantes cujos agregados familiares tinham produção própria de alimentos e aqueles que não tinham, os resultados obtidos podem observar-se no quadro 61, também não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas χ 2(2) =1,854, p=0,396, embora os estudantes pertencentes a agregados com produção própria de alimentos tenham apresentado um nível de “adesão alta” ligeiramente superior (55,5%) relativamente aos que não tinham (54,9%), e nos estudantes pertencentes a agregados sem produção própria se tenha observado uma percentagem superior (7,1%) no nível de “baixa adesão”. A relação entre pertencer a agregados familiares com ou sem a produção própria de alimentos e as categorias de IMC dos estudantes também foi analisada. No quadro 62, pode observar-se que, com exceção da categoria de peso normal, a maioria dos estudantes apresentava percentagens de distribuição nas restantes categorias de IMC mais elevadas nos agregados familiares que não tinham produção própria de alimentos. Esta relação revelouse, contudo, estatisticamente não significativa (χ 2(3) =2,974, p=0,396).
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 111 2012 Quadro 62 - Produção própria e IMC_Cole Produção Própria Total Não Sim IMC_Cole Pré-obesidade n 31 32 63 Produção Própria 27,4% 22,7% 24,8% Obesidade n 5 6 11 Produção Própria 4,4% 4,3% 4,3% Normoponderal n 71 100 171 Produção Própria 62,8% 70,9% 67,3% Baixo peso n 6 3 9 Produção Própria 5,3 2,1% 3,5% Total n 113 141 254 Procedeu-se a análise semelhante para os percentis do PC e para a variável WHtR e os resultados obtidos também não foram estatisticamente significativos. Para o PC o resultado foi χ 2(8)= 2,352, p=0,968 e para a variável WHtR o resultado foi χ 2(1)=0,639, p=0,424. 4.11.4. Características das refeições praticadas O tipo de refeições praticadas (confecionadas em casa ou compradas fora) em casa e a frequência com que o agregado familiar fazia refeições fora de casa, também foram analisados. Dos 305 adultos inquiridos que responderam a estas questões, pode observar-se na figura 26, que a maioria cozinhava todos os dias em casa (86,2%), a frequência de mais de uma vez por semana, foi reportada por 12,1% dos adultos inquiridos. Figura 26 – Frequência de refeições cozinhadas em casa Quanto à qualidade das refeições realizadas em casa analisou-se a frequência de compra de refeições prontas a servir, normalmente conhecidas como refeições “take away” e de refeições pré-cozinhadas.
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 112 2012 Figura 27 – Frequência de compra de refeições prontas a servir ou de “take away” Para as refeições prontas a servir, 31,8% dos adultos inquiridos referiu que nunca comprava este tipo de refeições, e 40% apenas o fazia uma vez por mês (Figura 27). Treze por cento dos inquiridos comprava estas refeições uma vez por semana, e 3,3% fazia-o mais de uma vez por semana ou todos os dias. Figura 28 – Frequência de compra de refeições pré-cozinhadas Relativamente às refeições pré-cozinhadas, 33,1% dos adultos inquiridos nunca compravam, ou quando o faziam, só o faziam uma vez por mês. A frequência de compra mais referida foi a opção de duas em duas semanas, por 18,5% dos inquiridos, e 10,1% faziam-no uma vez por semana (Figura 28).
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 113 2012 Figura 29 – Frequência de refeições realizadas fora de casa Quanto à frequência com que os adultos inquiridos referiram realizar refeições fora de casa, a maioria nunca o fazia ou só o fazia uma vez por mês (66,6%). As frequências de “duas em duas semanas” e de “uma vez por semana”, foram reportadas por 13,3% e 8,8% dos adultos inquiridos, respetivamente. As frequências de mais de uma vez uma vez por semana e todos os dias, totalizaram uma percentagem de 6,5% (Figura 29). Para estas duas últimas opções, muitos dos adultos inquiridos que as escolheram, acrescentaram a informação que essas refeições eram feitas no local de trabalho, uma vez que trabalhavam na área da restauração. Na cultura mediterrânica, as refeições representam um momento importante da vida social, representam momentos de convivência e partilha, especialmente as refeições em família. As refeições eram preparadas a partir de alimentos frescos, de acordo com as práticas culinárias transmitidas de geração em geração, a horários regulares e com uma composição específica (Bellisle, F., 2009). No presente estudo, muito embora se tenham encontrado resultados que indicam que a maioria dos inquiridos ainda cozinhava em casa e que a grande maioria durante a semana tentava fazer o pequeno-almoço e o jantar em família, uma percentagem importante dos adultos inquiridos, referiu a compra de refeições prontas a servir, normalmente conhecidas como refeições “take away” e de refeições pré-cozinhadas, para a frequência de pelo menos uma
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 114 2012 vez por semana. A prática da culinária tradicional algarvia também foi analisada, perguntando aos adultos inquiridos se habitualmente cozinhavam pratos tradicionais do Algarve. No quadro 63, podemos verificar que só 44,8% dos adultos inquiridos referiu fazê-lo. Quadro 63 – Adultos Inquiridos que cozinhavam pratos tradicionais algarvios Frequência (n) Frequência relativa (%) Não 170 54,8 Sim 140 45,2 Total (n 310 100,0 Analisando as repostas dos adultos inquiridos para os quais foi possível obter informação sobre o tipo de contexto sociodemográfico (urbano ou rural) onde se situava a escola dos respetivos educandos (n=254), verificou-se que não existiam diferenças estatisticamente significativas (χ2(1)=1,929, p=0,165) entre zonas urbanas ou rurais e a frequência de confeção de pratos tradicionais algarvios (Quadro 64). Quadro 64 – Adultos inquiridos que cozinhavam pratos tradicionais, em meio urbano e meio rural Confeção de pratos típicos Meio urbano n (%) Meio rural n (%) Total n (%) Habitualmente não cozinha pratos típicos do Algarve 56 (40,9%) 81 (59,1%) 137 (100,0%) Habitualmente cozinha pratos típicos do Algarve 58 (49,6%) 59 (50,4%) 117 (100,0%) Os adultos inquiridos naturais do Algarve foram os que mais reportaram confecionar pratos tradicionais (Quadro 65), sendo que a associação entre ser algarvio e confecionar pratos tradicionais demonstrou ser estatisticamente significativa (χ2 (2)= 32,554, p<0,0001).
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 121 2012 Quadro 74 – Motivos que limitam o número de vezes que se cozinha em casa Motivos (n) Média (ẋ) Desvio Padrão Horário de trabalho 310 3,45 2,38 Confiança na capacidade para cozinhar 310 2,05 1,93 Condições limitadas da casa para cozinhar 310 1,48 1,34 Estilo de vida atarefado 310 3,35 2,21 Cozinhar demora muito tempo 310 2,26 1,65 Facilidade em comprar refeições pré-cozinhadas 310 1,83 1,46 Conhecimentos limitados de culinária 310 1,91 1,59 Cozinhar dá muito trabalho 310 1,94 1,50 Não ter companhia às refeições 310 1,61 1,26 Preço dos alimentos 310 2,3 1,86 A relação entre a produção própria de alimentos e os motivos que podiam limitar a prática de cozinhar em casa também foi analisada, como se pode observar no quadro 75. Quadro 75 – Produção própria e motivos que limitam o número de vezes que se cozinha em casa Motivos Produção própria Valor de p (MannWthitney) Não Sim Média (ẋ) Mediana Desvio Padrão Média (ẋ) Mediana Desvio Padrão Horário de trabalho 3,71 4,00 2,42 3,24 3,00 2,33 0,111 Confiança na capacidade para cozinhar 2,16 1,00 2,00 1,96 1,00 1,88 0,202 Condições limitadas da casa para cozinhar 1,71 1,00 1,61 1,29 1,00 1,02 0,007 Estilo de vida atarefado 3,63 4,00 2,26 3,11 3,00 2,15 0,039 Cozinhar demora muito tempo 2,39 1,00 1,70 2,15 1,00 1,61 0,197 Facilidade em comprar refeições pré-cozinhadas 1,97 1,00 1,59 1,71 1,00 1,32 0,243 Conhecimentos limitados de culinária 2,10 1,00 1,74 1,75 1,00 1,43 0,081 Cozinhar dá muito trabalho 2,13 1,00 1,57 1,77 1,00 1,43 0,016 Não ter companhia às refeições 1,71 1,00 1,35 1,53 1,00 1,17 0,187 Preço dos alimentos 2,48 1,00 1,92 2,16 1,00 1,79 0,110 Total (n) 310 Desta análise obtiveram-se resultados estatisticamente significativos para as “condições limitadas da casa para cozinhar” (p= 0,007); o “estilo de vida muito atarefado” (p=0,039) e “cozinhar dá muito trabalho” (p=0,016), revelando que
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 122 2012 estes motivos eram mais importantes para os adultos inquiridos que não tinham produção própria de alimentos. Quando questionados sobre com quem tinham aprendido a cozinhar, a maioria dos adultos inquiridos (41%) respondeu que tinha sido com a mãe, para 13,1% foi com a avó ou o avô, a família (tios, irmãos, marido/mulher) foi referida por 18,9% dos adultos e 17% disseram ter aprendido sozinhos, através de livros ou revistas de culinária. Outras fontes apontadas foram a televisão, a internet, os amigos e o local de trabalho. 4.12. Limitações do presente estudo Como principais limitações deste estudo, salientam-se o facto de a amostragem ter incluido apenas jovens que frequentavam escolas do ensino público, o que poderá ser um fator limitante sobre a representatividade dos resultados, uma vez que não foi incluída nenhuma escola de ensino privado. O preenchimento dos questionários ter sido realizado pelos próprios inquiridos (jovens e adultos), embora no caso dos jovens, estes tenham estado sempre acompanhados pela equipa de inquiridores que ia supervisionando as respostas e esclarecendo dúvidas; a extensão do questionário aplicado aos jovens, também poderá ter sido um factor limitante. No questionário enviado para casa dos jovens, a falta de acompanhamento durante o preenchimento dos mesmos, também poderá ter tido contribuído para que as perguntas mais extensas apresentassem uma taxa de resposta menor. O tempo previsto para a realização das entrevistas foi programado, de modo a interferir o menos possível com as actividades letivas dos jovens, o que em termos práticos se traduziu apenas numa medição dos valores de pressão arterial, uma vez que esta era realizada no final, idealmente deveriam ter sido realizadas três medições. 4.13. Pontos fortes do presente estudo Ter sido o primeiro estudo transversal na região do Algarve a avaliar a adesão
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 123 2012 ao Padrão Alimentar Mediterrânico, dirigido a uma população de adolescentes, o que poderá permitir, no futuro, dar continuidade a este tipo de estudos e a obter dados que podem ser comparados com os obtidos no presente estudo, e delinear estratégias promotoras das nossas tradições alimentares mediterrânicas, junto das populações mais jovens. Ter permitido estabelecer relações mais próximas com as escolas selecionadas, o que poderá permitir dar continuidade não só a estudos complementares, como a promover ações concretas junto dos jovens com o objetivo de incentivá-los a integrarem o Padrão alimentar Mediterrânico nos seus hábitos alimentares. Ter recorrido a estudantes finalistas do Curso de Dietética e Nutrição da Universidade do Algarve, para integrarem a equipa de inquiridores, com o objetivo de fomentar o interesse pela investigação, no geral e, pelo Padrão Alimentar Mediterrânico, em particular. O estabelecimento de relações pessoais e institucionais, entre a Universidade do Algarve e a Fundación de la Dieta Mediterránea, em Barcelona
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 124 2012 5. CONCLUSÕES
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 125 2012 5.1. Estado nutricional O IMC médio da amostra foi de 21,02 ± 3,81 Kg/m2. No conjunto dos resultados, a prevalência de pré-obesidade e de obesidade, nos jovens algarvios, apresentou um valor de 29,4%, superior ao da média nacional que é de 27,8%. Para o perímetro da cintura observou-se uma distribuição para os percentis acima de 95, de 13,0% para o sexo masculino e 14,1% para o sexo feminino. Para a variável WHtR, o sexo feminino apresentou uma média ligeiramente mais elevada (0,47 ± 0,062) relativamente ao sexo masculino, com 0,45 ± 0,61. 5.1.1. Pressão arterial No total, 15,4% dos jovens apresentaram valores característicos de um diagnóstico de hipertensão, no seu grau mais elevado. Registaram-se diferenças estatisticamente significativas (U=4648,5, z=-3,58; p<0,0001) no perímetro cintura entre inquiridos normotensos (72,07 ± 9,96 cm) e hipertensos (77,61 ± 11,60 cm). Verificaram-se associações estatisticamente significativas, entre os valores de pressão sistólica e a ingestão de ácidos gordos saturados, trans, monoinsaturados e polinsaturados; de colesterol e de sódio. 5.2. Hábitos alimentares dos inquiridos e adequação nutricional Verificou-se que 63,8% a 64,5% dos jovens tomavam o pequeno-almoço durante a semana, e que essa frequência aumentava durante o fim de semana, para 81% ao sábado e 84,4% ao domingo. Durante a semana verificou-se um padrão diário de refeições irregular, com muitos jovens a omitir o almoço, o meio da manhã e o lanche da tarde, ao fim de semana, essa situação melhorava com a maioria dos jovens inquiridos a fazer, pelo menos, quatro refeições (pequeno-almoço, almoço, lanche e jantar). A ingestão energética e nutricional dos jovens inquiridos revelou estar em
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 126 2012 desequilíbrio, sobretudo no que dizia respeito à elevada ingestão de proteínas, sobretudo de proteínas de origem animal; de lípidos, em particular lípidos com teor elevado em ácidos gordos saturados e de açúcares. Da análise da ingestão energética e nutricional pelas idades dos jovens, obtiveram-se correlações estatisticamente significativas para os açúcares e para o sódio cujo consumo aumentava com a idade dos inquiridos. A ingestão de ácidos gordos ómega 6, de ácidos gordos trans, de colesterol e de sódio, estava acima dos valores recomendados para o sexo e idades dos jovens inquiridos, a ingestão de vitamina D estava abaixo dos valores recomendados. O sexo masculino apresentou uma ingestão energética e nutricional mais elevada para todos os nutrimentos comparativamente com o sexo feminino, tendo-se encontrado, para alguns deles, diferenças estatisticamente significativas: energia (p=0,006), proteína (p=0,014), hidratos de carbono (p=0,030), lípidos totais (p=0,048), ácidos gordos polinsaturados (p=0,028), colesterol (p=0,021), açúcares (p=0,033), sódio (p=0,015), ácidos gordos Ω6 (p=0,033) e ferro (p=0,020). Lacticínios: O tipo de leite mais consumido foi o leite meio-gordo. As frequências de consumo mais referidas para os iogurtes, foram duas a quatro vezes por semana, uma vez por dia e duas a três vezes por dia, com 18,5%, 21,8% e 15,6%, respetivamente. Carnes: O consumo de carne frango apresentou predominantemente frequências de consumo semanais, sendo que 38,2% dos jovens consumia frango, uma vez por semana, e 26,9%, duas a quatro vezes por semana, no total constituíam 65,1% das frequências de consumo. As carnes de vaca, porco e cabrito apresentaram frequências semelhantes ao consumo da carne de frango, no que diz respeito às frequências de uma vez por semana e de duas a quatro
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 127 2012 vezes por semana, ambas com 26,4%. Pão/Cereais/Arroz e massas: O pão branco apresentou frequências de consumo superiores ao pão de mistura. O consumo de arroz e massas era frequente na opção de duas a quatro vezes por semana, o consumo de arroz foi referido por 39,8% dos jovens, já para a massa esta opção foi referida por 36,5% dos jovens. Quanto ao consumo de cereais de pequeno-almoço, 28,1% dos jovens inquiridos referiram que os consumiam com uma frequência de uma vez por dia, e 9,1% reportaram consumos de duas a três vezes por dia. Sopa: O consumo diário de sopa de legumes apresentou uma percentagem de 11,2%, para a frequência, de uma vez por dia, e de 6,2% para a frequência de duas a três vezes por dia. Outros produtos alimentares: O consumo semanal de snacks de chocolate, pizza e hambúrguer foi reportado no total por 69,7% dos adolescentes. Bebidas: O consumo de cerveja e de bebidas brancas foi reportado, para a opção de uma vez por semana, por 2,6% e 3,6% dos inquiridos, respetivamente. 5.3. Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico A adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico dos jovens algarvios, de acordo com os níveis de adesão estabelecidos pelo Mediterranean Diet Quality Index for children and adolescents (KIDMED), foi de 52,5% para o nível “alta adesão”, 42% para “adesão intermédia” e 5,5% para “baixa adesão”.
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 128 2012 A relação entre as categorias de IMC, os percentis do perímetro da cintura e os níveis de adesão ao KIDMED, não apresentou relações estatisticamente significativas. A relação entre as variáveis sexo e idade e a adesão ao KIDMED não foi estatisticamente significativa, com os seguintes valores de significância: χ2 (2) = 1,433, p=0,487; χ2 (2) = 11,658, p=0,306, respetivamente. Da análise entre a relação dos níveis de adesão ao KIDMED e as variáveis sociodemográficas, como o nível de escolaridade, o estado civil, a profissão e a nacionalidade dos pais dos jovens inquiridos, não se observaram associações estatisticamente significativas, quer para a mãe quer para o pai. Os mesmos resultados foram observados para a relação entre níveis de adesão ao KIDMED e o tempo de permanência no Algarve, dos pais dos jovens inquiridos oriundos de outras regiões do país ou do estrangeiro. Quanto ao nível de adesão ao KIDMED e a localização sociodemográfica das escolas (meio rural e meio urbano), verificou-se que a relação entre os níveis de adesão e a localização das escolas era estatisticamente significativa, χ2 (2) = 8,652; p=0,013, com as escolas localizadas em meio urbano a apresentarem uma proporção mais elevada de “alta adesão” maior do que a esperada. A escolaridade dos pais, em função da localização das escolas também evidenciou diferenças estatisticamente significativas entre os estudantes de escolas do meio urbano e do meio rural relativamente ao nível de escolaridade da mãe (χ2 (4) =22,535, p<0,0001) e do pai (χ2 (4)=9,493, p=0,04). Estes resultados mostram que poderá haver uma relação entre o nível de escolaridade dos pais e adesão ao KIDMED. Os jovens com um nível de adesão mais baixo ao KIDMED apresentaram consumos mais elevados para muitos dos nutrimentos analisados, e para alguns deles com diferenças estatisticamente significativas quando
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 129 2012 comparados com os inquiridos que se situaram nos níveis de adesão “intermédio” e “alto”: fibra alimentar (p=0,042), fibra insolúvel (p=0,012), fibra solúvel (p=0,003), vitaminas totais (p=0,032), magnésio (p=0,037), potássio (p=0,006) e água (p=0,002). O KIDMED, embora seja um índice muito usado para a avaliar a adesão ao PAM, parece ser uma ferramenta pouco sensível para a análise da adequação energética e nutricional dos hábitos alimentares dos jovens. 5.4. Atividade física Quanto à prática de atividades desportivas fora da escola, em clubes ou ginásios, foi reportada por 52,4% dos jovens. As atividades desportivas de lazer (andar, correr, andar de bicicleta, jogar à bola, entre outras) foram reportadas por 84% dos jovens. A frequência semanal destas práticas variava, entre duas a três vezes, por semana, com uma duração média de 74,86 ± 52,662 minutos a 98,38 ± 67,32 minutos 5.5. Hábitos de consumo alimentar do agregado familiar Este questionário era dirigido ao responsável do agregado familiar pela compra e/ou preparação dos alimentos, as respostas foram maioritariamente do sexo feminino (87,7%), o que demonstra que estas atividades ainda são desempenhadas maioritariamente pelas mulheres. A produção própria de alimentos como resultado do cultivo de horta própria ou de familiares, assim como a prática de pesca artesanal, foi referida por 54% dos adultos inquiridos. Os alimentos mais produzidos eram os produtos hortícolas, as ervas aromáticas condimentares, os frutos frescos e frutos oleaginosos (azeitona). Apenas 44,8% dos adultos inquiridos cozinhavam em casa pratos tradicionais do Algarve. Os adultos inquiridos naturais do Algarve foram os que mais reportaram confecionar pratos tradicionais, sendo que a associação entre ser algarvio e
Adesão ao Padrão Alimentar Mediterrânico em jovens no Algarve 130 2012 confecionar pratos tradicionais demonstrou ser estatisticamente significativa (χ2 (2)= 32,554, p<0,0001). A maioria dos inquiridos adultos (54,4%) classificou os pratos algarvios como bons para a saúde, verificando-se a existência de uma correlação positiva com a idade com significado estatístico (r=0,175; p=0,011). Os locais preferidos pelos adultos inquiridos para fazerem as suas compras eram o supermercado e o mercado tradicional. Os motivos que mais influenciavam a escolha/compra dos alimentos no dia-a-dia foram a “frescura dos alimentos”, os” alimentos preferidos da família” e o “preço dos alimentos”. Embora, a maioria dos adultos inquiridos referisse que cozinhava em casa todos os dias, quando questionados sobre os motivos que pudessem limitar essa prática, destacaram “o horário de trabalho” e o “estilo de vida atarefado”, como os principais motivos para não o fazer. Os pais foram considerados por 74,5% dos jovens, como a principal fonte de informação dos seus conhecimentos alimentares. Os resultados obtidos demonstram a necessidade de alargar e aprofundar as pesquisas sobre os hábitos alimentares, o estilo de vida tradicionais e a influência da organização socioeconómica atual no quotidiano dos algarvios e a sua relação com a saúde da população. 5.5. Trabalhos futuros Desenvolver estudos de caracter qualitativo que permitam perceber a relação que possa existir entre as escolhas/hábitos alimentares dos agregados familiares e as condições profissionais, económicas e sociais da atual sociedade algarvia. Analisar, recorrendo a equipas multidisciplinares e aliando técnicas e modelos das ciências sociais, a dinâmica familiar atual e sua relação com as preferências alimentares e os conhecimentos culinários dos jovens algarvios.