scieee AI-readable full text Open interactive document viewer

O primeiro manual do português como língua estrangeira? Breves considerações sobre A portuguez grammar (Londres 1662) de La Mollière

Rogelio Ponce de León Romeo

Full text

L imite Revista de Estudios Portugueses y de la Lusofonía Número 6 / 2012 Florilégio historiográfico: dez estudos de Historiografia do Português 2012 Limite. Revista de Estudios Portugueses y de la Lusofonía Revista científica de carácter anual sobre estudios portugueses y lusófonos, promovida por el Área de Filologías Gallega y Portuguesa (UEx) en colaboración con la SEEPLU. http://www.revistalimite.es CONSEJO DE REDACCIÓN Director - Juan M. Carrasco González - [email protected] Secretaría – Maria Luísa Leal - [email protected] Vocales Carmen Mª Comino Fernández de Cañete (Universidad de Extremadura) Christine Zurbach (Universidade de Évora) Iolanda Ogando (Universidad de Extremadura) Luisa Trias Folch (Universidad de Granada) Mª da Conceição Vaz Serra Pontes Cabrita (Universidad de Extremadura) Mª Jesús Fernández García (Universidad de Extremadura) Teresa Araújo (Universidade de Lisboa) Teresa Nascimento (Universidade da Madeira) COMITÉ CIENTÍFICO António Apolinário Lourenço (Universidade de Coimbra) Carlos Cunha (Universidade do Minho) Cristina Almeida Ribeiro (Universidade de Lisboa) Dieter Messner (Universität Salzburg) Gerardo Augusto Lorenzino (Temple University, Philadelphia) Gilberto Mendonça Teles (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro) Hélio Alves (Universidade de Évora) Isabel Leiria (Universidade de Lisboa) Ivo Castro (Universidade de Lisboa) José Augusto Cardoso Bernardes (Universidade de Coimbra) José Camões (Universidade de Lisboa) Maria Carlota Amaral Paixão Rosa (Universidade Federal do Rio de Janeiro) Mª da Graça Sardinha (Universidade da Beira Interior) Mª Filomena Candeias Gonçalves (Universidade de Évora) Nicolás Extremera Tapia (Universidad de Granada) Nuno Júdice (Universidade Nova de Lisboa) Olívia Figueiredo (Universidade do Porto) Otília Costa e Sousa (Instituto Politécnico de Lisboa) Xosé Henrique Costas González (Universidade de Vigo) Xosé Manuel Dasilva (Universidade de Vigo) Edición, suscripción e intercambio Servicio de Publicaciones. Universidad de Extremadura Plz. Caldereros, 2. C.P. 10071 – Cáceres. Tfno. 927 257 041 / Fax: 927 257 046 http://www.unex.es/publicaciones – e-mail: [email protected] © Universidad de Extremadura y los autores. Todos los derechos reservados. © Ilustración de la portada: Miguel Alba. Todos los derechos reservados. Depósito legal: CC-973-09 I.S.S.N.: 1888-4067 Imprime: Gráficas Biblos S.A. Tfno. 927 225 728 ISSN 1888-4067 L imite Revista de Estudios Portugueses y de la Lusofonía Número 6 – Año 2012 Florilégio historiográfico: dez estudos de Historiografia do Português Coordinación Maria Filomena Gonçalves Bases de datos y sistemas de categorización donde está incluida la revista: ISOC y DICE (Consejo Superior de Investigaciones Científicas), Dialnet, Latindex, CIRC (Clasificación Integrada de Revistas Científicas). Esta publicación ha contado con una ayuda de la Junta de Extremadura y los fondos FEDER. UNIÓN EUROPEA Fondo Europeo de Desarrollo Regional “Una manera de hacer Europa” L imite Revista de Estudios Portugueses y de la Lusofonía Número 6 – 2012 Florilégio historiográfico: dez estudos de Historiografia do Português SUMARIO Maria Filomena Gonçalves – Florilégio historiográfico: dez estudos de Historiografia do Português 7-10 Cristina Altman – As partes da oração na tradição gramatical do Tupinambá / Nheengatura 11-51 Rogelio Ponce de León – O primeiro manual do português como língua estrangeira: breves considerações sobre A portuguez grammar (Londres 1662) de La Mollière 53-74 Rolf Kemmler – Caetano Maldonado da Gama, D. Jerónimo Contador de Argote e as duas edições das Regras da lingua portuguesa, espelho da lingua latina (1721, 1725) 75-101 Ana Paula Banza – Freire e Vieira: a questão da autorictas nas Reflexões sobre a Lingua Portugueza, de Francisco José Freire 103-123 Barbara Schäfer-Prieß – A descrição da pronúncia portuguesa nas primeiras gramáticas para alemães 125-137 Maria Helena Pessoa Santos – Algumas nótulas sobre a Grammatica das grammaticas da língua portugueza (1850) 139-171 João Paulo Silvestre – A inovação lexical nos dicionários francês-português: interferências das fontes castelhanas e italianas 173-197 Olga Coelho – O Português do Brasil em Macedo Soares (1838-1905) 199-215 Ricardo Cavaliere – A Gramaticografia no Brasil: tradição e inovação 217-236 Neusa Bastos – Classes gramaticais: um tratamento historiográfico – século XX 237-258 Reseñas / Recensões 259-288 Normas de publicación / Normas de publicação 289-294 L imite Revista de Estudios Portugueses y de la Lusofonía Vol. 6 – 2012 A Historiographic Anthology: Ten Studies on the Portuguese Language Historiography SUMMARY Maria Filomena Gonçalves – A Historiographic Anthology: Ten Studies on the Portuguese Language Historiography 7-10 Cristina Altman –The eight parts of speech in the Tupinamba/ Nheengatu grammatical tradition 11-51 Rogelio Ponce de León – The first handbook of Portuguese as a foreign language: Brief considerations about A portuguez grammar (Londres 1662) by La Mollière 53-74 Rolf Kemmler – Caetano Maldonado da Gama, D. Jerónimo Contador de Argote and the two editions of Regras da língua portugueza, espelho da língua latina (1721, 1725) 75-101 Ana Paula Banza – Freire and Vieira: The issue auctoritas in Reflexões sobre a Lingua Portugueza , by Francisco José Freire 103-123 Barbara Schäfer-Prieß – The description of Portuguese pronunciation in the first grammars for German speakers 125-137 Maria Helena Pessoa Santos – Some notes on Grammatica das grammaticas da lingua portugueza (1850) 139-171 João Paulo Silvestre – Lexical innovation in French-Portuguese dictionaries: Spanish and Italian sources interference 173-197 Olga Coelho – Brazilian Portuguese in Macedo Soares (18381905) 199-215 Ricardo Cavaliere – Grammaticography in Brazil: Tradition and innovation 217-236 Neusa Bastos – Grammatical word classes: a historiographical perspective - 20th century 237-258 Books Reviews 259-288 Standards of publication 291-294 Limite . ISSN: 1888-4067 nº 6, 2012, pp. 53-74 O primeiro manual do português como língua estrangeira? Breves considerações sobre A portuguez grammar (Londres 1662) de La Mollière* Rogelio Ponce de León Universidade do Porto Centro de Lingüística da Universidade do Porto [email protected] Data de receção do artigo: 02-07-2012 Data de aceitação do artigo: 16-07-2012 Resumo No presente artigo são analisados diversos aspetos sobre A portuguez grammar (Londres 1662) de Monsieur de La Mollière, militar francês ao serviço de D. João IV. É apresentado, primeiro, o contexto sociocultural e pedagógico britânico em que o manual é publicado; depois, são estudadas a estrutura e as diversas componentes linguísticas da obra: questões de ortoépia, de morfologia – nominal e verbal – e lexicais. No fim, tentamos estudar a metodologia subjacente à obra para a aprendizagem da língua portuguesa. Palavras chave – Historiografia Linguística Portuguesa, séc. XVII – Didática do Português, séc. XVII – Manuais para o Ensino do Português, séc. XVII. Abstract This paper studies from several angles the work A portuguez grammar (London 1662) of Monsieur de La Mollière, French soldier at D. João IV’s service. First, the British sociocultural and pedagogical context in which it was edited. Secondly, its structure and the different linguistic items of the work: aspects of pronunciation, morphology –nominal and verbal – and lexicology. And last, the underlying methodology for the Portuguese language learning. * O presente trabalho foi realizado no âmbito do projecto de investigação “Centro de Linguística da Universidade do Porto – Unidade de I&D – Ano 2010” financiado pela Fundação para Ciência e a Tecnologia. Agradecemos à Profª Sónia Duarte a revisão formal do texto original português, bem como os comentários e as sugestões que fez sobre aspetos do conteúdo do nosso estudo. ROGELIO PONCE DE LEÓN O PRIMEIRO MANUAL DE PORTUGUÊS… Limite , nº 6, 53-74 54 Keywords – Historiography of Portuguese Linguistics, XVIIth Century – Didactics of Portuguese, XVIIth Century – Handbooks for the Portuguese Teaching, XVIIth Century. 1. Considerações iniciais É bem conhecida a escassez, nos séculos XVI e XVII, de textos metagramaticais que descrevem a língua portuguesa, diferentemente da produção gramaticográfica – no mesmo período cronológico – de outras línguas, como é o caso do castelhano; situação esta que se torna ainda mais precária se atentarmos na elaboração de materiais gramaticais orientados para destinatários cuja língua materna não era o português. Com efeito, se excetuarmos um dos propósitos subjacentes ao prólogo à Grammatica da linguagem portuguesa (Lisboa 1536) de Fernão de Oliveira1 – segundo o qual esta, em nossa opinião, poderia interpretar-se como uma obra dirigida aos habitantes das terras que estavam a ser descobertas pelos portugueses (Ponce de León 2009: 138) –, os investigadores na historiografia linguística portuguesa consideram que a primeira gramática do português para estrangeiros foi dada ao prelo em 1672; referimo-nos à Ars grammaticae pro lingua lusitana addiscenda (Lyon 1672) de Bento Pereira (Verdelho 1984; Schäfer-Priess 1993; Ponce de León 2006; Fernandes 2009; Ponce de León 2010). Contudo, no atinente à elaboração de tratados que promoviam o ensino do português como língua estrangeira, parece ter havido materiais gramaticais anteriores à obra acima referida de Bento 1 A ela, com efeito, refere-se o humanista de Aveiro como “a notação em alghũas cousas do falar. Portugues: na qual: ou nas quaes eu não presumo ensinar aos q mays sabem: mas notarey o seu bo costume para q outros muitos aprendão τ saybão quanto prima e a natureza dos nossos homẽs porq ella por sua võtade busca τ tem de seu a perfeyção da arte q outras nações aquirem com muyto trabalho” (Oliveira 2000[1536]: 243). Já a Grammatica da lingua portuguesa (Lisboa 1540) de João de Barros parece ter sido composta com o objectivo – ou pelo menos um deles – de ensinar o português como língua materna – o que pode ser deduzido das primeiras linhas do Dialogo em louuor da nossa linguagem : “Senhor, sábe iá esta nóva? (Páy) Quál? (Filho) Que o principe nósso senhor começou ontem daprender a ler. (P) Equęm ô ensina? (F) O pregador delrey frey Ioam Soáres. E logo perguntey per que o principiáua: por causa do trabalho que levou em a composiçám da grãmatica da nossa linguagem que lhe tem derigida. (P) Que importa omeu trabalho ao principe nósso senhor começár daprender, pois tem preceitor de uida e leteras que lhe ordenará os princípios, confórmes á sua idáde e magestáde do seu sangue. Nem por eu ter dirigido a sualteza o trabálho que dizes, deuo esperár, mais que por me fazer merçe ô mandár examinár: e sendo táes que póssam aproueitár aos mininos, mandará que se leam em as eschólas” (Barros 1540: f. 50v.) –. O PRIMEIRO MANUAL DE PORTUGUÊS… ROGELIO PONCE DE LEÓN Limite , nº 6, 53-74 55 Pereira2; entre eles, pode salientar-se A portuguez grammar or, rules shewing the true and perfect way to learn the said language (Londres 1662) do militar francês La Mollière. Para além de se saber – como informa o próprio gramático3 – que esteve ao serviço de D. João IV durante oito anos, acerca da sua vida proporciona-nos alguns – poucos – dados António Gonçalves Rodrigues4: Enviado a Portugal pelo rei de França, obteve o cargo de capitão de uma das companhias de infantaria do terço de que era coronel Eustachio de Viole, cargo que por decreto de 26 de Setembro de 1641 lhe renderia 16.000 rs. de soldo por mês, gozando de todos os privilégios, liberdades, isenções e franquezas que de direito lhe pertencessem. Estes privilégios, liberdades, isenções e franquezas deviam ter sido amplas e foram com certeza respeitadas à letra: de outro modo, a gratidão de Mr. La Mollière não iria ao extremo de se desentranhar em forma gramatical. (1951: 56) No presente trabalho, deter-nos-emos no tratado de La Mollière, pouco estudado – parece-nos – pelos investigadores na historiografia linguística do português, pese embora a abordagem mais ou menos extensa que desta obra se faz em certos trabalhos no âmbito dos estudos ingleses (Rodrigues 1951: 53-63; Torre 1998: 216-221; Sánchez Escribano 2006: 110), nos quais parece haver, regra geral, uma apreciação bastante negativa sobre o tratado gramatical em estudo. Com efeito, António Gonçalves Rodrigues considera as observações de La Mollière como “desprovidas de valor histórico [...], 2 Exemplo de material gramatical é, com efeito, a conjugação de formas verbais portuguesas registadas no fim dos Colloquia, et dictionariolum octo linguarum, Latinae, Gallicae, Belgicae, Teutonicae, Hispanicae, Italicae, Anglicae, et Portugallicae , impressa pela primeira vez – com a língua portuguesa – em 1598 (Messner 2008: 291). Os Colloquia, et dictionariolum foram sumariamente apresentados por Manuel Gomes da Torre (1998: 214-215). 3 Assim é afirmado pelo autor no prefácio dedicado ao Rei Carlos II de Inglaterra no âmbito dos louvores à Rainha D. Catarina de Bragança: “[...] e posso afirmar a Vossa Majestade [o Rei Carlos II]. E me posso gloriar, que no tempo que servi a seu Paii o Senhor Rey Dom Joaõ o 4º. que Deos tem da felicissima memoria, em postos muitos honrados por espaço de 8. annos, de que me alabo muito, muito; nasceo à Serenissima Rainha Dona Catherina ” (La Mollière 1662: f. A3). Agradecemos ao Prof. Manuel Gomes da Torre o facto de nos ter facultado fotocópia do exemplar da Portuguez grammar localizado na British Library (cota 629.a.15), da qual também consultámos uma digitalização do exemplar da Bibliothèque Nationale de France (cota X-14828). 4 Este autor toma como fonte a História orgânica e política do Exército Português. Provas , vol. II (Lisboa 1904) de Cristôvão Aires Magalhães de Sepulva; obra esta que não nos foi possível consultar. ROGELIO PONCE DE LEÓN O PRIMEIRO MANUAL DE PORTUGUÊS… Limite , nº 6, 53-74 62 a) articulação dos fonemas palatais nasal e lateral /ɲ/ e /λ/: A letra ( h ) no meyo de huma palaura, sona, e se pronunsia como a letra ( gh ) Franceza. Exemple. Minha Cunhada Minha Sobrinha. O caminho. A memham pella memham. A lettre ( lh ) alguma ves sona e se pronunsia como se fosse escrito lio , lia , lier : Exemple. Filho. Olho. Filha. Molher (La Mollière 1662: 7). b) diversas realizações fonéticas de <x>: A lettra ( x ) alguma ves sona e se prononsia como hum ( ch ) Frances, quando ella se acha no meyo de huma sillaba. Exemplo, hum Embaixaddor. huma Caixa. huma alcaixofra. Porem em outras palauras elle ha sua natural pronunsasiaõ. Exemplo, hum Exercito, Exelentia, Experiença, Exercisio. Tambem naõ se pode dar rasaõ disto, a pratica a ensinara a UM. (La Mollière 1662: 8-9) c) Realização fonética de <ç> e <s>: Hum ( c ) no meyo de huma palaura, sona e se prononsa alguma ves como hum ( s ) avendo huma virgula de baxo. Exemplo. huma Moça, a Cabeça, o Braço, Lourenço. E alguma ves, hum ( s ) no meyo de huma palaura, se pronunsia como hum ( z .) Exemplo. huma Tisoura. hum Mosico. (La Mollière 1662: 9-10) Na exposição dos contextos fonéticos referidos, La Mollière não parece ter seguido as explicações dos gramáticos e ortógrafos do O PRIMEIRO MANUAL DE PORTUGUÊS… ROGELIO PONCE DE LEÓN Limite , nº 6, 53-74 63 português; como foi acima indicado, os critérios por que se pauta a descrição dos sons selecionados consistem na referência contrastiva com o francês e na identificação do som em causa com contextos grafemáticos concretos. Interessa, a este respeito, tal como já notou Naro (1971: 625), pôr em relevo que A portuguez grammar parece ser o primeiro tratado metagramatical do português a relacionar – embora sem explicar o facto – a articulação de /e/ e /ε/ com a sua posição na palavra. ii) No que se refere à matéria morfológica, La Mollière procede de novo à seleção dos elementos considerados mais relevantes para a aprendizagem do português; no caso concreto da morfologia, o militar francês centra-se na nominal e na verbal, limitando-se a apresentar as declinações do nome e as conjugações dos verbos sem proceder à caraterização destes. Quanto ao nome, Manuel Gomes da Torre (1998: 219) salientou que em A Portuguez grammar , na esteira da gramática latina – mas também da maior parte das gramáticas e dos tratados quinhentistas e seiscentistas que descrevem as línguas vulgares –, são distinguidos três acidentes nominais: género, número e caso – este último realizado, como era habitual nos tratados metagramaticais da altura – através da anteposição de artigo – determinado ou indeterminado – e, eventualmente, de preposição ou da interjeição ‘o’ – no caso do vocativo –: [...] alembrase UM que os nomes saõ de dos Generos, o Masculino, e o Femenino. Examplo. hum Mosso, he Masculino. huma Moça, he Femenino. o Banco, he Masculino. a Ginella, he Femenino. Comessamos entaó a declinar os nomes Nome Masculino. Nominativo, hum Mosso. Genetivo, d’hum Mosso. Dativo, a hum Mosso. Accusativo, hum Mosso. Vocativo, o Mosso. Ablat. com hum Mosso, ou, por hum Mosso. Plurar. Nominativo, os Mossos. Genetivo, dos Mossos. ROGELIO PONCE DE LEÓN O PRIMEIRO MANUAL DE PORTUGUÊS… Limite , nº 6, 53-74 64 Dativo, aos Mossos. Accusativo, os Mossos. Vocativo, o Mossos, ou, por os Mossos [...]. (La Mollière 1662: 11-12) No passo reproduzido, La Mollière apresenta exemplos dos nomes que têm variação da marca de género (‘mosso’/‘moça’) e aqueles outros que não dispõem dela (‘banco’/ ‘ginella’ [i. e. ‘janela’]). Relativamente a estes últimos, o autor gaulês tem consciência da dificuldade que teria um aprendiz em determinar o género destes – com repercussões sintáticas; por exemplo na concordância. Para tratar de remediar este problema, La Mollière apresenta a variação do artigo, no plano sintagmático, como indicador, nestes casos, do género do nome com que se combina: [...] VM observara, que todas as palauras que se terminaõ em (a) saõ do Genero Femenino, como a Caza, a Meza, a Porta. E quando se finem em os , dos , aõs , he o plurar Masculino. Exemplo. Os Olhos. Dos Hombros. Aos Dedos. E quando se finem em as , das , nas , he o plurar Femenino. Exemplo. as Cazas. das Mezas. nas Portas (La Mollière 1662: 15-16). É possível que neste ponto o autor francês se tenha inspirado no parágrafo que conclui o capítulo sobre o género nominal da Grammatica da lingua portuguesa de João de Barros9. Quanto à conjugação dos verbos, na verdade, é apresentada apenas uma seleção (ou talvez fosse melhor falar de redução) de modos e tempos daqueles verbos que La Mollière considera mais usados10: ‘falar’, ‘ir’, ‘amar’, ‘ser’/‘estar’, ‘ter’/‘haver’, ‘querer’/‘amar’ (de 9 “Todo nome q se nã cõheçe per significação e nã entra ẽ algũa destas regras: per este artigo, o, será masculino, e per este, á, será feminino, assy como: o cęo ę habitação dos anios, e a tęrra moráda dos hómẽes”. (Barros 1540: 10) 10 “Agora eu quero ensinar a UM o modo de conjugar os Verbos porque importa muito saber a Grammatica, se UM quer a prender a falar correntemente; e por naõ emfadar a O PRIMEIRO MANUAL DE PORTUGUÊS… ROGELIO PONCE DE LEÓN Limite , nº 6, 53-74 65 novo). Pode concluir-se que, aparentemente, o uso condiciona fortemente a apresentação da conjugação, porquanto o autor francês, em rigor, não fornece paradigmas das conjugações, mas apenas as formas daqueles verbos que, como acabamos de referir, lhe parecem mais frequentes em português. Um outro critério que poderá estar ainda condicionado pelo uso – e provavelmente também pela língua dos destinatários do manual – é a redução, na conjugação, de modos e tempos. No seguinte quadro é apresentada a proposta de La Mollière: Indicativo Imperativo Infinitivo Presente: Eu falo Fala tu [Simples] Falar Pretérito imperfeito: Eu falava [Composto] Aver falado, ou ter falado Pretérito perfeito simples: fui Pretérito perfeito composto: Eu hei falado, ou eu tinho falado [Futuro] Quem falara Pretérito mais-que-perfeito: Eu avia falado, ou eu tinha falado [Gerúndio] Falando Futuro: Eu falarei [Particípio] Falei , amei , ide , sido , estado Quadro 1 Do quadro pode deduzir-se que o autor exclui o modo conjuntivo e o optativo, talvez para aproximar o sistema modal português do inglês. No que se refere aos tempos do indicativo, La Mollière procede de novo a uma redução destes, à qual parece subjazer o seguinte esquema: Tempos simples Tempos compostos Presente [Pretérito perfeito] Pretérito imperfeito Pretérito mais-que-perfeito [Pretérito mais-que-perfeito] [Pretérito perfeito] Futuro Quadro 2 UM sendo demasiado proluxo, lhe porei somente seis ou sette, deste que saõ usados a cada passo”. (La Mollière 1662: 16) ROGELIO PONCE DE LEÓN O PRIMEIRO MANUAL DE PORTUGUÊS… Limite , nº 6, 53-74 66 O sistema de tempos proposto por La Mollière parece-nos instável e assistemático, porquanto não é oferecido um critério uniforme na conjugação verbal; por exemplo, nos verbos ‘falar’ e ‘ir’, inclui apenas o pretérito perfeito composto; pelo contrário, no paradigma de ‘ser’ e ‘estar’, o autor francês reproduz apenas o pretérito perfeito simples; relativamente ao verbo ‘amar’, agrupa no mesmo tempo ( preteirito [sic] perfeito ) as formas simples e compostas; já nos verbos ‘ter’ e ‘haver’, separa as formas em dois tempos ( premeiro [sic] perfeito [“Eu tive, ou ouve”] e secundo [sic] perfeito [“Eu hei tido, ou eu hei avido”]). Semelhante ausência de critério pode detetar-se ainda no pretérito mais-que-perfeito – designado pelo militar francês como preteirito [sic] plu perfeito : em certos casos, são excluídas as formas simples (como em ‘falar’, ‘ir’ e na conjugação dupla ‘querer’/‘amar’); noutros verbos, são excluídas as formas compostas (assim acontece na conjugação dupla de ‘ser’/‘estar’); são, enfim, utilizadas, em certos verbos, ambas as formas (por exemplo, em ‘amar’ e na conjugação dupla ‘ter’/‘haver’ [“Eu tivera, ou avia avido”]). Por outro lado, chama a atenção, como se pode ver no Quadro 1, a utilização, em certos paradigmas, da primeira pessoa do pretérito perfeito simples como forma de particípio; tal é sintomático, em nosso entender, da deficiente formação metalinguística de La Mollière, que parece identificar – de forma ocasional, é verdade – formas como ‘amei’ ou ‘falei’ com o particípio francês (‘aymé’, ‘parlé’). Ainda na exposição sobre os verbos, interessa-nos focar aquele que é um dos poucos comentários, por assim dizer, metalinguísticos do militar francês, a propósito da utilização em português de ‘ter’ e de ‘haver’ como verbos auxiliares dos tempos compostos: VM observara, que o Verbo que os Latims chamaõ Habere , em lengoa Portugueza se chama Ter , ou Auer : porem se usa mais de Verbo Ter , que do Verbo Auer , bem que este significa a mesma couza. Exemplo. Naõ se usa dizer Eu hei comido, mas de pressa se diz Eu tinho comido: naõ se costuma dizer Eu hei preguntado, mais Eu tinho preguntado. Porem se pode dizer, Nos heimos preguntado, ou Nos heimos comido, no Plurar; toda via milhor se fala quando se diz, Nos temos comido, ou Nos temos preguntado. Sera necessário que nos conjugamos os dos Verbos juntos, porque se usa alguma ves do Verbo Aver . (La Mollière 1662: 28) O PRIMEIRO MANUAL DE PORTUGUÊS… ROGELIO PONCE DE LEÓN Limite , nº 6, 53-74 67 O uso mais ou menos indiscriminado do verbo auxiliar ‘haver’ nos tempos compostos do português é explicado por António Gonçalves Rodrigues como o resultado da interferência com o castelhano – que La Mollière devia, com efeito, conhecer –: “[n]o verbo ir [...], omite o pretérito simples mas indica o composto ( eu hei ido ), o que deve ser influência do castelhano” (Rodrigues 1951: 61). A tal devemos acrescentar, como foi enunciado acima e como, de resto, também refere António Gonçalves Rodrigues11, os reduzidos conhecimentos metalinguísticos do autor do manual em análise. Parece-nos, seja como for, necessário enquadrar a explicação e o critério gramatical subjacentes ao contexto gramaticográfico da língua portuguesa e no âmbito socio-educativo português. Com efeito, em nosso entender, aqueles devem, por um lado, integrar-se no conjunto de manuais seiscentistas – infelizmente, muito escassos – que contêm – regra geral, de forma deficiente – questões gramaticais do português. No início do presente trabalho fizemos referência aos paradigmas de conjugação dos verbos portugueses registados nos Colloquia, et dictionariolum octo linguarum , manual em que, nos tempos compostos, é utilizado de forma – aqui, sim – sistemática o auxiliar ‘haver’12. Por outro lado, precisamente a problemática gramatização do verbo ‘haver’ como auxiliar dos tempos compostos julgamos que constitui uma questão fulcral na gramaticografia latino-portuguesa do século XVI e XVII, porquanto boa parte dos manuais para o ensino do latim verte os tempos compostos para português através de ‘haver’ mais o particípio do verbo correspondente, o que foi considerado por certos gramáticos lusos como uma interferência com o castelhano. (Ponce de León 2007: 2976-2978; Ponce de León 2010: 194-196) 2.4. A componente lexical Como já foi referido anteriormente, a partir da página 37, sob o título geral “Falamos agora de muitas couzas em modo de vocabulario”, La Mollière oferece-nos uma extensa lista de expressões lexicais, distribuídas por áreas, que os especialistas no manual do militar francês analisaram com mais ou menos pormenor. Com efeito, 11 Sobre La Mollière, a respeito das questões gramaticais do manual que estão a ser analisadas, este investigador afirma o seguinte: “aqui vê-se bem que os seus conhecimentos são mais de oitiva que de estudo reflectido”. (Rodrigues 1951: 61) 12 Por exemplo, no pretérito perfeito composto do verbo ‘ser’: “Eu hey sido / tu has sido / aquelle ha sido. / Nos auemos sido / vos aueys sido / aquellos haom sido”. ROGELIO PONCE DE LEÓN O PRIMEIRO MANUAL DE PORTUGUÊS… Limite , nº 6, 53-74 68 António Gonçalves Rodrigues refere-se a esta parte de A portuguez grammar como: [...] uma secção de vocabulário, dividida em capítulos: os dias do preceito; dias da semana; os meses; as estações; os elementos; sentidos e virtudes teológicas; dignidades eclesiásticas e civis e respectivos modos de tratamento; peças de vestuário, masculino e feminino [...]; pedras preciosas e metais; o pessoal duma grande casa; mobiliário; “as cousas necessárias para apareilhar hum cavallo”; “Diversidade de animais, ... de passaros”; “Hervas que saõ boas da comer”; Frutas com suas arvores”; “Arvores que naõ daõ fruta”; “As flores que cheiraõ bem”; especiarias, perfumes, cores, instrumentos de música; o Exército, graduações e armamento; a Marinha, graduações e unidades; a justiça e seu pessoal; artes liberais; artistas manuais; “os nomes dos parentes”; “para aprender a contar”; nomes de baptismo e nomes femininos (Rodrigues 1951: 62-63). Relativamente aos critérios lexicais de distribuição, Manuel Gomes da Torre tece um parecer bastante negativo: [...] a partir da p. 39 o autor apresenta-nos listas de palavras e frases, com tradução para inglês, sem que se adivinhe o critério a que De La Molliere obedeceu: não há unidade temática, não há ordem alfabética, não há homogeneidade morfológica: há, enfim, uma grande confusão, que só a partir de certa altura começa a receber alguma ordem. De facto, mais adiante, aparecem os dias santos, os dias da semana, os doze meses do ano, os cinco sentidos, etc. (Torres 1998: 220) Parece-nos que a crítica de Manuel Gomes da Torre se centra sobretudo na primeira lista que La Mollière apresenta (1662: 37-41). É verdade que, nestas páginas iniciais de vocabulário, não parece haver uniformidade temática, a não ser que queiramos ver certa homogeneidade pelo facto de serem questões gramaticais... Nesta primeira parte, com efeito, o autor não faz senão introduzir expressões gramaticais que complementam a matéria apresentada anteriormente. Neste sentido, podem deduzir-se os seguintes aspetos gramaticais: pronomes pessoais em função de sujeito, possessivos, pronomes clíticos, artigos – com as correspondentes formas contractas –, demonstrativos, partículas de confirmação e de negação, interrogativos, advérbios de tempo, preposições, conjunções... Em certos casos, as formas são exemplificadas através de sintagmas isolados; é o caso dos possessivos: O PRIMEIRO MANUAL DE PORTUGUÊS… ROGELIO PONCE DE LEÓN Limite , nº 6, 53-74 69 Meo, meos; minha, minhas. Feminino. Meo vesinho. Meos parentes. Minha camiza, Minhas lovas, Feminino Tu, teo, teos; tua, tuas, Feminino. Tu veras. Teu pai. Teos irmaõs. Tua patria, Tuas cazas, Feminino (La Mollière 1662: 37) Noutros, pelo contrário, o autor opta por enunciar apenas as formas, como é o caso das partículas confirmativas e de negação: “He, he muito bem. / Si, não, certo, em verdade (La Mollière 1662: 40). Estamos, por consequência, perante um conjunto de expressões lexicais cuja homogeneidade, por assim dizer, temática advém do facto de serem formas gramaticais. Interessa, por outro lado, sublinhar a referência que faz o militar francês às formas de tratamento em português, apresentadas de forma hierárquica: Ao Emperador se diz, Vossa Sacra Magestade. A el Rey se diz, Vossa Real Magestade: a Rinha o mesmo. Ao primeiro Filho del Rey se diz, Vossa Real Alteza. Ao Filho secundo se diz, Vossa Alteza. A Hum Principe, ou a hum Duque, ou a hum General de hum Exercito se diz, Vossa Excelencia: e a suas molheres, o mesmo. A hum Marques, Conde, Bisconde, ou Baram, se diz, Vossa Senhoria: e a suas molheres o mesmo. A hum Fidalgo, e a hum Mercador, ou Cidadam, se diz, Vossas Merçes: e a suas molheres, o mesmo. Aos Artificias se diz, Voce. Aos villaõs e a toda gente baixa se diz, Vos; e a suas molheres o mesmo. (La Mollière 1662: 52-54)13 A exposição pormenorizada do tratamento parece-nos coerente com os objetivos da obra: servir de guia e referência para os estrangeiros – anglófonos, mas também francófonos – que quisessem 13 Linhas antes, La Mollière enuncia o tratamento dirigido aos dignatários da Igreja: “Ao Papa se diz, Vossa Santidade. / A hum Cardeal se diz, Vossa Eminencia. / A hum Arcebispo ou Bispo, se diz, Vossa Illustrissima Senhoria. / A hum Abbade ou Prior se diz Vossa Reverencia. / Aos outros de menor grão se diz, Vossas merçes”. (1662: 49-52) ROGELIO PONCE DE LEÓN O PRIMEIRO MANUAL DE PORTUGUÊS… Limite , nº 6, 53-74 70 interagir com falantes de português. Seja como for, a exposição que realiza La Mollière sobre as formas de tratamento na altura parece-nos ser a mais exaustiva realizada até à data no âmbito das gramáticas e de outros materiais sobre a língua portuguesa. 2.5. Diretrizes metodológicas subjacentes para a aprendizagem do português A estrutura bipartida de A portuguez grammar que até agora foi analisada (gramática + vocabulário) pode dar-nos um indício (talvez errado) da forma como, no manual de La Mollière, se pretende (de forma consciente ou inconsciente) que os leitores aprendam a língua portuguesa, os quais, com efeito, estudariam as expressões (gramaticais e lexicais) para depois as porem em prática num contexto natural; ou, por outras palavras, os estudantes procederiam a uma aprendizagem dedutiva dos dados linguísticos. Nesta perspetiva, poderia considerarse a obra em análise como linguisticamente incompleta – na medida em que faltam questões gramaticais como, por exemplo, o modo conjuntivo. Todavia, julgamos que esta apreciação negativa pode minimizar-se se for considerada, para a interiorização da língua portuguesa, a produção linguística integrada que emana do diálogo entre o professor e o aluno e que estrutura a primeira parte do manual. Segundo a nossa hipótese, desta forma, o leitor poderia interiorizar de forma mais ou menos intuitiva estruturas gramaticais e lexicais que não aparecem de forma explícita; assim poderá acontecer no seguinte passo de A portuguez grammar , no qual o estudante é relembrado do casamento de Dona Catarina de Bragança com o Rei de Inglaterra e da chegada daquela a este país: S. Que novas Senhor meu? M. Que novas? he possível que VM seia taõ poco pratico das novas desta Corte? naõ tem VM ouvido dizer que a Infanta de Portugal se caza com el Rey de Inglaterra? S. He verdade, Deos a traga cedo peraca pera bem deste Reino. M. Prouvera a Deos que ella fosse já dezambarcado, eu estimo que ella trará muita fazenda com ella. S. Sem diuvida nénhuma, porque ouy sempre dizer que el Rey de Portugal tem infinitas riquezas. M. Dexamos isto sera quando Deus fuer servido (La Mollière 1662: 33-34). A partir da leitura de excertos como o reproduzido, o estudante poderia induzir, num contexto mais ou menos natural – como aquele O PRIMEIRO MANUAL DE PORTUGUÊS… ROGELIO PONCE DE LEÓN Limite , nº 6, 53-74 71 que deixa transparecer o diálogo –, certas estruturas gramaticais não registadas de forma explícita – em quadros ou listas; neste caso concreto, são introduzidas em contexto conversacional formas do presente e do imperfeito do conjuntivo em estruturas desiderativas (“Deos a traga cedo peraca”, “prouvera a Deos que ella fosse já dezambarcado”), bem como do futuro do conjuntivo (“sera quando Deus fuer servido”). Estaríamos, com efeito, perante a aprendizagem indutiva de certos dados linguísticos. 3. Considerações finais A portuguez grammar tem sido, na literatura especializada, alvo de não poucas críticas, centradas quer na impureza gramatical e ortográfica do discurso do autor, quer nos critérios de seleção da matéria gramatical e lexical. Ao longo das páginas anteriores, tivemos ocasião de confirmar estas observações negativas, mas também de levar a cabo uma análise o mais objetiva possível dos preceitos, comentários e paradigmas apresentados por La Mollière, a qual revela a reduzida formação metagramatical do militar francês, bem como a sua deficiente competência escrita, confirmando em parte as observações negativas dos especialistas sobre o manual em estudo. Seja como for, julgamos que não se deve menosprezar o papel de A portuguez gramar como manual para o ensino da língua portuguesa a estrangeiros – e, talvez, para o ensino do inglês ou do francês a lusófonos – num contexto gramaticográfico e didaticográfico em que o panorama para a língua portuguesa pode ser designado de desalentador. Por tudo o dito anteriormente, julgamos que A portuguez grammar é, na verdade, um importante documento para a história do ensino do português como língua estrangeira e para a história da gramática do português. Bibliografia Barros (1540): João de Barros, Grammatica da lingua portuguesa , Lisboa, Luís Rodrigues. Duarte (2006): Sónia Duarte, “Un tópico de la descripción pronominal en la Gramática Española de James Howell y sus modelos: la ambigüedad artículo/pronombre”, em Antonio Roldán, Ricardo Escavy, Eulalia Hernández, José Miguel Hernández e Mª Isabel López (eds.), Caminos actuales de la historiografía lingüística. Actas del V Congreso Internacional de la Sociedad Española de