Sentimento de insegurança, personalidade e emoções disposicionais: que relações?
Abstract
Sentimento de insegurança; medo do crime; risco percebido; adoção de comportamentos; personalidade; neuroticismo; psicoticismo; desejabilidade social; emoções disposicionais; medo disposicional
Full text
i Universidade do Porto Faculdade de Direito Inês Maria Ermida de Sousa Guedes SENTIMENTO DE INSEGURANÇA, PERSONALIDADE E EMOÇÕES DISPOSICIONAIS: QUE RELAÇÕES? Mestrado em Criminologia Trabalho realizado sob a orientação de Professora Doutora Carla Sofia de Freitas Lino Pinto Cardoso 2012
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? i RESUMO A presente dissertação pretendeu, através de uma análise quantitativa, perceber a importância da personalidade e das emoções disposicionais nas dimensões do sentimento de insegurança (medo do crime, risco percebido e adoção de comportamentos de evitamento, proteção e autodefesa). Para alcançar este objetivo, foi construído e aplicado um inquérito a uma amostra de 205 indivíduos da cidade do Porto, medindo-se variáveis sociodemográficas, a vitimação, as componentes do sentimento de insegurança, a personalidade (operacionalizada com a versão revista e reduzida do Eysenck Personality Questionnaire) e as emoções disposicionais através da versão IV do Diferential Emotions Scale. Constatamos que as mulheres têm níveis mais elevados de medo do crime em relação aos homens e adotam mais comportamentos de segurança, não havendo diferenças no risco percebido para o sexo. Além disso, a idade não é uma variável preditora do medo do crime, todavia os indivíduos mais velhos percebem um maior risco de vitimação e adotam mais comportamentos de segurança. Por sua vez, os sujeitos da amostra com menos anos de escolaridade reportam níveis mais elevados em todas as componentes do sentimento de insegurança. Relativamente à vitimação, constatou-se que esta é independente do medo do crime, porém, a interação entre a vitimação nos últimos 12 meses e o medo disposicional amplifica os níveis de medo do crime. Quanto à importância da personalidade no sentimento de insegurança, constatamos que o neuroticismo correlaciona-se positivamente com o medo do crime mas não com as outras componentes daquele. Por sua vez, os homens com médias mais elevadas de psicoticismo apresentam níveis mais baixos de risco percebido e adotam menos comportamentos de segurança. Verificou-se também que os indivíduos que reportam um nível superior de desejabilidade social (liescale) apresentam níveis mais elevados nas três componentes do sentimento de insegurança. Observou-se ainda que o medo disposicional se correlaciona positivamente com o medo do crime apenas no sexo feminino. No final, discutir-se-ão os resultados obtidos, tentando-se avançar com sugestões para a explicação dos mesmos, assim como se irá apresentar algumas críticas ou aspetos que deveriam ser melhorados. Por outro lado, iremos propor um modelo final do sentimento de insegurança, apresentando também as implicações do estudo e pistas de investigação futuras focando-nos, especialmente, no medo do crime. Palavras-chave: Sentimento de insegurança; medo do crime; risco percebido; adoção de comportamentos; personalidade; neuroticismo; psicoticismo; desejabilidade social; emoções disposicionais; medo disposicional.
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? ii ABSTRACT This quantitative work aimed at understanding the importance of personality and trait emotions in the components of feelings of insecurity namely the fear of crime, perceptions of victimization risk and behavioral reactions to crime (avoidance, protection and self-defence). For this purpose, we applied a survey to a sample of 205 subjects from the city of Porto, measuring sociodemographic and victimization variables, the dimensions of the feelings of insecurity, personality (through the revised and short version of Eysenck Personality Questionnaire) and trait emotions using the IV version of the Differential Emotions Scale. Women reported higher levels of fear of crime in relation to men and adopt more behavior for security reasons. We did not find sex differences on risk perception. Although age is not predictor of fear of crime, older individuals report higher levels of risk of victimization and adopt more behaviors for security reasons. On the other hand, individuals with less years of education report higher levels in all the dimensions of feelings of insecurity. Regarding victimization, we found that this variable is independent of fear of crime. However, the interaction between victimization in the last twelve months and trait emotion seems to enhance the levels of fear of crime. Regarding the importance of personality in the feelings of insecurity, neuroticism correlates positively only with fear of crime. Also men with higher levels of psychoticism report lower levels of perception of risk victimization and behaviors for security reasons. Additionally, we found that there is a positive correlation between social desirability (liescale) and the components of feelings of insecurity and a positive correlation between fear of crime and trait emotion, but only for women. Finally, we will discuss the results and try to suggest explanations for them. Also, we will present some critics or aspects which we believe that could be improved. On the other hand, we will propose a final model of the feelings of insecurity, advancing with some implications of this study and some recommendations for research into domain of feelings of insecurity, focusing specially on fear of crime. Key-words: Feelings of insecurity; fear of crime; risk perception; adoption of behaviors for security reasons; personality; neuroticism; psychoticism; social desirability; trait emotions; trait emotion fear.
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? iii AGRADECIMENTOS Em primeiro lugar, gostaria de agradecer à minha Orientadora, Professora Doutora Carla Cardoso, por quem tenho a maior admiração e respeito. Agradeço, de forma sincera, não só pelos conhecimentos que ao longo dos tempos me tem transmitido, mas pela forma motivadora, curiosa e paciente através da qual me tem ensinado a produzir conhecimento científico. Obrigada pelo apoio, pela confiança transmitida, pelo entusiasmo e pelas críticas construtivas que têm contribuído para um desenvolvimento profissional e pessoal. Queria, em segundo lugar, agradecer a todas as pessoas que, de alguma forma, me ajudaram a concretizar este projeto, com esclarecimento de dúvidas e sugestões, especialmente ao Professor Doutor Pedro Sousa, à Mestre Josefina Castro, ao Mestre Ernesto Fonseca e ao Pedro Almeida. Pretendo também agradecer aos meus Professores da Escola de Criminologia da Faculdade de Direito da Universidade do Porto por todos os conhecimentos que na Licenciatura e no Mestrado foram transmitindo, especialmente ao Senhor Professor Doutor Cândido Agra, pois, já o disse em tempos, me incutiu, de forma sábia e humilde, um novo espírito científico. Depois, queria agradecer aos meus amigos e colegas de trabalho pelos bons momentos, pela ajuda mútua e cumplicidade, especialmente ao Óscar Ramos e à Teresa Sousa pela partilha constante de conhecimento e apoio no projecto. Agradeço também a todos os estudantes e restantes pessoas que, anonimamente, responderam aos questionários aplicados, contribuindo para a realização do projeto. Por último, agradeço às duas pessoas mais importantes da minha vida: os meus Pais.
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? iv ÍNDICE GERAL Resumo…………………………………………………………………………………………i Abstract……………………………………………….………………………………………..ii Agradecimentos……………………………………………………………………………….iii Índice de figuras e anexos….…………………………………………………………………vii Índice de tabelas..……………………………………………………………………...…….viii Introdução……………………………………………………………………………………...1 Capítulo I – Enquadramento teórico………………………………………………………..3 1. Definição do objeto de estudo: o sentimento de insegurança…………………….....…3 2. Aprofundamento das componentes do sentimento de insegurança……………………5 2.1.Medo do crime……………………………………………………………………..5 2.2. Perceção do risco de vitimação…………………………………………………....7 2.3. Adoção de comportamentos……………………………………………………....7 3. A operacionalização do sentimento de insegurança…………………………………...8 4. Explicação do sentimento de insegurança……………………………………………12 4.1. Explicação individual e sócio-demográfica……………………………………...13 4.2.Explicação ecológica ou contextual………………………………………………25 4.3.Explicação social…………………………………………………………………35 5. Definição de personalidade…………………………………………………………..37 5.1. Extroversão………………………………………………………………………38 5.2.Neuroticismo……………………………………………………………………..39 5.3. Psicoticismo………………………………………………………………...........39 5.4.Avaliação da personalidade a partir do Eysenck Personality Questionnaire (EPQ)…………………………………………………………………………..…39 5.5. A desejabilidade social…………………………………………………………..41 5.6. Personalidade e variáveis sociodemográficas……………………………………41 6. Definição de emoção…………………………………………………………………43 6.1.Medição de emoções……………………………………………………………..46 6.2.Differential Emotions Scale – IV…………………………………………………47 7. Relação entre emoções e personalidade………………………………………………47 Capítulo II – Estudo empírico (Metodologia)…………………………………..…………51 1. Objetivos e hipóteses…………………………………………………………….…...51 2. Material e métodos……………………………………………………………………52 2.1.Caracterização do estudo…………………………………………………………52 2.2. Forma de constituição da amostra………………………………………………..53
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? v 2.3. Instrumentos e variáveis do estudo………………………………………………53 2.4.Procedimentos………………………………………………………………….…57 2.5. Procedimentos de análise estatística………………………………………….….58 Capítulo III – Estudo empírico (Resultados)………………………………………………60 1. Caracterização da amostra segundo os dados sociodemográficos e vitimação………………………………………………………………………...........60 1.1.Caracterização da amostra segundo o sexo, idade e anos de escolaridade………………………………………………………………….……60 1.2.Caracterização da amostra segundo a vitimação……………………………….…61 2. Caracterização da amostra segundo o sentimento de insegurança……………………62 2.1.Consistência interna………………………………………………………………62 2.2.Sentimento de insegurança, variáveis sociodemográficas e vitimação…………...62 3. Caracterização da amostra segundo a Personalidade…………………………………68 3.1.Consistência interna………………………………………………………………68 3.2. Personalidade e variáveis sociodemográficas……………………………………69 3.3. Personalidade e vitimação…………………………………………………….….70 4. Caracterização da amostra segundo as emoções disposicionais……………………...71 4.1.Consistência interna………………………………………………………………71 4.2.Emoções disposicionais, sexo, idade e anos de escolaridade…………………….71 4.3. Emoções disposicionais e vitimação……………………………………………..73 5. Relações entre variáveis………………………………………………………………74 5.1. Relação entre sentimento de insegurança e variáveis sociodemográficas……….74 5.2.Relação entre a personalidade e as variáveis sociodemográficas…………….......77 5.3. Personalidade e sentimento de insegurança……………………………………...78 5.4.Relação entre emoções disposicionais e variáveis sociodemográficas…………...80 5.5. Relação entre o sentimento de insegurança e emoções disposicionais…………..81 5.6. Relação entre emoções disposicionais e personalidade………………………….84 6. Medo do crime, medo disposicional e vitimação nos últimos 12 meses…...................87 7. Variáveis preditoras do sentimento de insegurança…………………………………...88 7.1. Variáveis preditoras do medo do crime…………………………………….….…89 7.2. Variáveis preditoras da perceção do risco de vitimação………………….……...92 7.3. Variáveis preditoras da adoção de comportamentos por razões de segurança.......94 Discussão dos resultados……………………………………………………………………...98 Bibliografia………………………………………………………………………………….110 Anexos……………………………………………………………………………………....121
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? vi ÍNDICE DE FIGURAS Figura 1: Taxonomia realizada por Ferraro & LaGrange (1981) na qual se faz a distinção entre medo do crime e perceção do risco…………………………………………………………………………..6 Figura 2: Inquéritos internacionais, nacionais e europeus que medem a insegurança objetiva e subjetiva (Guedes, Cardoso & Agra, 2012)…………………………………………..………………10 Figura 3: Relação entre subsistemas do organismo, funções e componentes da emoção (Scherer, 2005). Nota: CNS = sistema nervoso central; NES = sistema neuro-endócrino; ANS = sistema nervoso autonómico; SNS = sistema nervoso somático……………………………………………..………….44 Figura 4: Gráfico demonstrativo do efeito do medo disposicional no medo do crime tendo em conta os indivíduos que foram vítimas e os que não foram vítimas de crime nos últimos 12 meses……….…..88 Figura 5: Esquema exemplificativo do modelo final proposto de explicação das variáveis constituintes do sentimento de insegurança. Os valores das setas referem-se às correlações entre as variáveis…..105 ÍNDICE DE ANEXOS Anexo I: Resultados do teste de normalidade (KS) para as variáveis do estudo……………………..121 Anexo II: Itens de cada emoção disposicional do Differential Emotions Scale (IV) e o valor dos alfas de Cronbach que se referem à consistência interna………………………..………………………...122 Anexo III: Correlações entre as variáveis constituintes do sentimento de insegurança e a idade, sexo e anos de escolaridade para a amostra total…………………………………………………………….123 Anexo IV: Correlações entre as variáveis medo do crime, perceção do risco de vitimação e comportamento e as dimensões da personalidade……………………………………………………124 Anexo V: Questionário construído e aplicado no presente estudo…………………………………...126
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? vii ÍNDICE DE TABELAS Tabela 1: Características sociodemográficas dos participantes (n=205; sexo feminino: 53%; sexo masculino: 47%)…………………………………………………………………….............................61 Tabela 2: Prevalência cumulativa (alguma vez) e corrente (últimos 12 meses) de vitimação em função do sexo feminino, masculino e amostra total…………………………………………………………..61 Tabela 3:Médias e desvios padrões das variáveis constituintes do sentimento de insegurança (medo do crime e risco de vitimação) em função do sexo, idade e escolaridade………………………………..62 Tabela 4: Proporção de indivíduos que reportam adotar os comportamentos aqui referidos por questões de segurança. O valor do p-value é resultante do X2………………………………………..64 Tabela 5: Proporção de indivíduos que reportam adotar os comportamentos aqui referidos por questões de segurança em função da idade e dos anos de escolaridade. O valor do p-value é resultante do X2………………………………………………………………………………………………......65 Tabela 6: Medo do crime, perceção do risco de vitimação e adoção de comportamentos em função da vitimação nos últimos 12 meses para amostra total e os dois sexos………………………………..66 Tabela 7: Proporção de indivíduos que adotaram comportamentos por razões de segurança em função da vitimação nos últimos 12 meses para o sexo feminino, masculino e amostra total………………..67 Tabela 8: Médias e desvios padrões das variáveis da personalidade em função do sexo, idade e anos de escolaridade……………………………………………………………………………………………69 Tabela 9: Médias e desvios-padrões do neuroticismo, extroversão, psicoticismo e desejabilidade social em função da vitimação nos últimos 12 meses………………………………………………………..70 Tabela 10: Médias e desvios padrões das emoções disposicionais em função do sexo, amostra total, idade e escolaridade. As médias das emoções variam entre 1 e 5……………………………………..71 Tabela 11: Médias e desvios padrões das emoções disposicionais em função da vitimação nos últimos meses para a amostra total, sexo feminino e sexo masculino………………………………………….73 Tabela 12: Correlações entre as variáveis constituintes do sentimento de insegurança e as variáveis sociodemográficas para o sexo feminino…………………………………………………………….75 Tabela 13: Correlações entre as variáveis constituintes do sentimento de insegurança e as variáveis sociodemográficas para o sexo masculino……………………………………………………………76 Tabela 14: Correlações entre as variáveis constituintes do sentimento de insegurança e as variáveis sociodemográficas controlando para a desejabilidade social no sexo feminino………………………76 Tabela 15: Correlações entre as variáveis constituintes do sentimento de insegurança e as variáveis sociodemográficas controlando para a desejabilidade social no sexo masculino…………………….77 Tabela 16: Correlações entre as dimensões da personalidade, a desejabilidade social e as variáveis demográficas (sexo, idade e anos de escolaridade)…………………………………...........................78
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? viii Tabela 17: Correlação entre sentimento de insegurança, dimensões da personalidade e desejabilidade social para o sexo feminino……………………………………………………………………………79 Tabela 18: Correlação entre sentimento de insegurança, dimensões da personalidade e desejabilidade social para o sexo masculino………………………………………………………………………….79 Tabela 19: Correlações entre as emoções disposicionais e as variáveis sociodemográficas…………80 Tabela 20: Correlação entre o medo do crime, a perceção do risco de vitimação e os comportamentos e as emoções disposicionais medidas através do instrumento DES-IV……………………………….81 Tabela 21: Correlações entre as dimensões do sentimento de insegurança e as emoções disposicionais controlando para a desejabilidade social………………………………………………………………82 Tabela 22: Correlações entre emoções disposicionais e medo do crime antes e depois de se ter controlado para a desejabilidade social no sexo feminino…………………………………………….84 Tabela 23: Correlações entre emoções disposicionais e medo do crime antes e depois de se ter controlado para a desejabilidade social no sexo masculino……………………………………………85 Tabela 24: Correlações entre as emoções disposicionais do DES-IV, as dimensões da personalidade e desejabilidade social…………………………………………………………………………………...86 Tabela 25: Predição do medo do crime a partir das variáveis sociodemográficas e vitimação (variáveis independentes)…………………………………………………………………………………………89 Tabela 26: Predição do medo do crime a partir das dimensões da personalidade – neuroticismo, extroversão, psicoticismo – e desejabilidade social (variáveis independentes)……………………….90 Tabela 27: Predição do medo do crime a partir das emoções disposicionais (variáveis independentes)…………………………………………………………………………………………90 Tabela 28: Predição do medo do crime a partir das variáveis que nos modelos anteriores tiveram significado estatístico, nomeadamente o sexo, os anos de escolaridade, o neuroticismo, a desejabilidade social, o interesse, a culpa e o medo…………………………………………………..91 Tabela 29: Predição da perceção do risco de vitimação a partir das variáveis sociodemográficas e vitimação nos últimos 12 meses……………………………………………………………………….92 Tabela 30: Predição da perceção do risco de vitimação a partir das dimensões da personalidade – neuroticismo, extroversão e psicoticismo – e desejabilidade social (variáveis independentes)…………………………………………………………………………………............93 Tabela 31: Análise de regressão linear para as variáveis independentes emoções disposicionais preditoras da perceção do risco de vitimação ……………………………………………………….93 Tabela 32: Predição da perceção do risco de vitimação a partir das variáveis que nos modelos anteriores tiveram significado estatístico, nomeadamente o sexo, a vitimação nos últimos 12 meses e a desejabilidade social…………………………………………………………………………………..94 Tabela 33: Predição da adoção de comportamentos a partir das variáveis sociodemográficas e vitimação nos últimos 12 meses……………………………………………………………………….95
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 6 não obstante o medo poder resultar de um processamento cognitivo ou uma avaliação da informação percetual, o medo não é, per se, uma crença, uma atitude ou uma avaliação. Após esta clarificação, Warr (2000) descreve a sua definição de medo do crime: “(…) o medo é uma emoção, um sentimento de alarme ou pavor, causado pela consciência ou expectativa de perigo” (…) “Este estado afetivo é ordinariamente (apesar de não invariavelmente) associado a certas mudanças fisiológicas, incluindo o aumento de ritmo cardíaco, respiração rápida, transpiração, diminuição de salivação e aumento da resposta galvânica da pele” (Thomson, 1979; Mayes, 1979 cit. Warr, 2000, pp. 453-454). Assim, o medo do crime, na literatura designado como fear of crime (em sentido estrito), não é uma cognição mas sim uma emoção. Não obstante o sentimento de insegurança compreender uma dimensão avaliação cognitiva do ambiente, esta dimensão cognitiva não se confunde com o medo do crime enquanto emoção. Com o objetivo de distinguir medo do crime e perceção do risco de vitimação, Ferraro & LaGrange (1987) realizaram a taxonomia que se segue (fig.1). TIPO DE PERCEÇÃO: COGNITIVA E AFETIVA Nível de referência Julgamentos Valores Emoções Geral A) Riscos dos outros: avaliações do crime ou da segurança B) Preocupação com o crime de outros C) Medo pelas vitimações dos outros Pessoal D) Risco do próprio: segurança do eu E) Preocupação com o crime para o eu: intolerância pessoal F) Medo pela vitimação pessoal Figura 1 Taxonomia realizada por Ferraro & LaGrange (1987) na qual se faz a distinção entre medo do crime e perceção do risco. Segundo os autores, o eixo vertical diz respeito ao nível de referência das reações. Estas variam entre pessoais ou auto-orientadas até gerais ou orientadas para a comunidade. Por sua vez, o eixo horizontal remete para o tipo de reações que vão de cognitivas a afetivas. A parte cognitiva do continuum inclui julgamentos de risco e segurança, enquanto que a parte afetiva inclui reações de medo (idem). Os autores explicam ainda que as perceções de crime identificadas nas células C e F referem-se a várias reações emocionais geradas pelo crime. Já a célula B representa uma preocupação que os indivíduos têm com o crime pelos outros, enquanto a E refere-se a uma preocupação consigo próprio. Os julgamentos são estimativas da taxa de vitimação para um grupo social (A) ou perceção de risco de vitimação para a pessoa
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 7 que faz o julgamento (D). Para Ferraro & LaGrange (1987), a vantagem desta taxonomia é que diferencia julgamentos de valores e de emoções, tanto ao nível individual como comunitário. Assim, o conceito de medo do crime está limitado à reação emocional que advém do crime, ou símbolos que uma pessoa associa a ele. Sequencialmente, este medo pode ser um medo pelos outros (C) ou por si próprio (F). 2.2. Perceção do risco de vitimação2 Tal como já foi referido anteriormente, a perceção do risco de vitimação (ou risco percebido) difere do medo do crime porque, ao contrário deste, não é uma emoção, mas sim uma avaliação cognitiva da realidade. Mais concretamente, o risco percebido é uma avaliação cognitiva da segurança ou do perigo de uma vitimação criminal (Mesch, 2000). De acordo com Ferraro (1995), o risco percebido é o reconhecimento de certas situações ou locais como possuindo perigo potencial ou vitimação criminal. Por outro lado, o medo do crime também se difere do risco de vitimação no sentido em que a evidência empírica suporta o argumento de que estas duas variáveis são afetadas de forma diferente por características sociais e demográficas dos respondentes (Mesch, 2000). Outros autores (Chiricos, Hogan & Gertz, 1997 cit. Mesch, 2000), chegaram à conclusão de que os efeitos das características sociais e demográficas no medo do crime são quase mediados pela perceção do risco. 2.3.Adoção de comportamentos por razões de segurança A componente comportamental do sentimento de insegurança reflete-se, precisamente, no que as pessoas fazem face ao medo do crime ou ao risco percebido. De acordo com Liska, Sanchirico & Reed (1988), estes comportamentos manifestam-se em dois padrões: por um lado, evitar determinados sítios e situações associados ao crime, e, por outro, os indivíduos protegerem-se de locais e situações associados ao crime. Quanto ao primeiro, é assumido que as pessoas que têm medo do crime tendem a restringir o seu comportamento para áreas seguras, a evitar áreas inseguras de cidades e restaurantes, shoppings, empregos e residências perto dessas áreas inseguras (idem). Para estes autores, o problema é que quem não é capaz de restringir o seu comportamento a áreas seguras – devido a fatores como a idade ou estatuto económico – acaba por se tornar prisioneiro das suas casas, tendo medo de andar nas ruas dos 2 Neste trabalho utilizar-se-ão as expressões “perceção do risco de vitimação” e “risco de percebido” de forma indiferenciada.
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 8 seus próprios bairros. Por sua vez, os comportamentos de proteção têm a ver com as pessoas adotarem alguns comportamentos como comprarem armas, fechaduras de segurança, luz exterior, cães de guarda, alarmes de segurança, assim como também aprenderem a defenderse (DeFronzo 1979, Gordon & Riger, 1979 cit. Liska et al., 1988). O medo pode então restringir o comportamento social e levar à adoção de comportamentos de proteção, porém, estes comportamentos podem, por sua vez, reduzir o medo (Rader, May & Goodrum, 2007). Também Ferraro (1995) agrupa os comportamentos que as pessoas realizam face ao medo do crime em duas categorias, nomeadamente os comportamentos defensivos (e.g., instalação de sistemas de segurança, comprar um cão de guarda, comprar armas) e em comportamentos de evitamento (limitar a atividade, evitar determinadas áreas à noite). Mais ainda, este autor sugere que tanto o medo da vitimação criminal como as perceções de risco têm um impacto importante nestas decisões (Rader et al., 2007). Já Fustenberg (1971 cit. Skogan, 1999) havia distinguido duas categorias de comportamentos: de evitamento e de mobilização. Na mesma linha do que já foi referido, os comportamentos de evitamento pretendem diminuir o risco pessoal de crime e os comportamentos de mobilização incluem a extensão em que as pessoas fortificam as suas casas contra o crime através da utilização de medidas como a colocação de fechaduras de segurança. Na presente dissertação, dividimos a adoção de comportamentos em três tipos: a) comportamentos de evitamento, b) comportamentos de proteção (como colocar fechaduras de segurança e alarmes em casa) e c) comportamentos de autodefesa (como ter armas de defesa pessoal e praticar desportos de defesa pessoal). 3. A operacionalização do sentimento de insegurança Nesta secção o enfoque será dado à forma como, na literatura científica, as variáveis constituintes do sentimento de insegurança – medo do crime, risco percebido e adoção de comportamentos – têm sido operacionalizadas. Mais concretamente, as questões às quais se irão responder são: como têm sido medidos estes conceitos? E que problemas têm sido apontados à forma de operacionalização dos mesmos? Não obstante a multiplicidade de definições e dimensões do sentimento de insegurança parece existir uma consistência no modo como este tem sido medido (Ferraro, 1995). Desde os anos 60, um número elevado de inquéritos de vitimação tem tentado medir o nível e extensão do sentimento de insegurança (Barker & Crawford, 2006). Porém, de acordo com Hale (1996), há uma confusão ao nível teórico no que concerne ao significado e medição deste constructo. Um dos grandes
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 9 problemas apontado por este autor é o facto de se utilizarem medidas que não distinguem a avaliação do risco e o medo do crime (idem). Concretamente, o medo do crime tem sido medido através de uma medida “global”- no sentido em que não se faz referência a um tipo de crime concreto, nomeadamente: “Quão seguro se sente quando está sozinho no seu bairro depois de escurecer?” ou, então “Quão seguro se sentiria se estivesse sozinho no seu bairro depois de escurecer?” (Baumer, 1985, Kennedy & Krahn, 1984, Maxifield, 1984 cit. Jackson, 2004). Por sua vez, a perceção do risco de vitimação tem sido medida pedindo aos respondentes para classificarem as suas possibilidades de serem vitimados. Por exemplo, os indivíduos podem ser questionados para classificar o “quão provável” será a sua casa ser assaltada, numa escala que pode estar entre “nada provável” a “muito provável” (Skogan, 1999). Relativamente à adoção de comportamentos, o que é perguntado aos respondentes é o que fazem face à insegurança que sentem. Assim, o enfoque desta definição operacional não é cognitiva, mas sim atitudinal. Deste modo, o medo é avaliado pela frequência de adoção de comportamentos tais como evitar sair à noite, fortificar as suas casas, evitar contactos com estranhos, entre outros (idem). Os inquéritos são os instrumentos mais utilizados para a medição das componentes do sentimento de insegurança (insegurança subjetiva) e permitem obter dados como o volume (percentagem de indivíduos que se sentem inseguros) e a estrutura (as características das populações que se sentem inseguras). Apesar de muitos inquéritos utilizados pelas investigações não pretenderem apenas medir o sentimento de insegurança, este, normalmente, é um dos aspetos medidos nesses inquéritos (figura 2). Existem questionários nacionais (e.g., British Crime Survey, General Social Survey), internacionais (e.g. International Crime Victims Survey) e inquéritos europeus, como é o caso do European Crime and Safety Survey. Em Portugal já foram aplicados inquéritos com o objetivo de se medir a insegurança objetiva e a insegurança subjetiva. Com efeito, Portugal foi um dos países que participou no International Crime Victims Survey (ICVS) em 2000 e 2005 e no European Crime and Safety Survey (EU ICS) em 2005.
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 10 INSTRUMENTOS ÂMBITO DE APLICAÇÃO APLICAÇÕES EFETUADAS British Crime Survey (BCS) Nacional Inglaterra e País de Gales Total de 17 aplicações (iniciou em 1982) Bienal até 2001 Anual a partir de 2001 International Crime Victims Survey (ICVS) Internacional (75 países) Total de 5 aplicações (iniciou em 1989) De 4 em 4 anos Portugal participou em 2000 e 2005 Aplicação local em 1997 e em 1999 European Crime and Safety Survey (EU ICS) Europeu (18 países da UE incluindo Portugal) Aplicado uma vez em 2005 Portugal participou General Social Survey (GSS) Nacional EUA Aplicado 28 vezes desde 1972 Figura 2 Inquéritos internacionais, nacionais e europeus que medem a insegurança objetiva e subjetiva (Guedes, Cardoso & Agra, 2012) A operacionalização das componentes do sentimento de insegurança – medo do crime, risco percebido e adoção de comportamentos – tem sido discutida e criticada por diversos autores (e.g. Bernard, 1992, Bowling, 1993 cit. Jackson, 2004; Farral, Bannister, Ditton & Gilchrist, 1997; Hale, 1996; Ferraro & Lagrange, 1987). Efetivamente, tem-se criticado, principalmente, o grau em que as questões dos inquéritos supra indicados refletem o conceito de sentimento de segurança (e as suas dimensões). Vejamos, assim, as críticas que têm sido realizadas. Uma das críticas que mais surge na literatura é o facto de o sentimento de insegurança ser medido de forma unitária com a questão “quão seguro se sentiria se andasse sozinho no seu bairro à noite” (Farrall et al., 1997; Gray, Jackson & Farrall, 2008). Esta medida abstrata, por um lado, não cobre tipos específicos de crime, algo que, segundo alguns autores, é fundamental para a medição do sentimento de insegurança (Ferraro & Lagrange, 1987 cit. Williams, McShane & Akers, 2000; Jackson, 2004; Franklin, Franklin & Fearn, 2008). Por outro lado, esta operacionalização não tem em conta a complexidade do sentimento de insegurança – que abrange várias componentes – e, de acordo com Gray e colaboradores (2008) sobrestima os níveis de medo. Além disso, de acordo com Jackson (2004), a forma de operacionalização do sentimento de insegurança que tem sido usada pela comunidade científica não permite analisar a frequência e intensidade deste fenómeno. Ainda segundo os autores, as formas tradicionais de medição deste fenómeno não questionam diretamente sobre o crime quando medem o sentimento de insegurança, apenas perguntando quão seguros se sentem ao andarem sozinhos na sua área à noite (Gray et al., 2008; Sessar, 2008; Farrall et al., 1997; Franklin et al., 2008) nem utilizam os termos “medo” ou “ter medo”, referindo-se apenas à escuridão. (Hale, 1996).
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 11 Outra crítica importante que tem sido realizada é o facto de aquele tipo de questões unitárias medirem não o medo (dimensão emocional) mas sim o risco percebido (dimensão cognitiva) (Jackson, 2004; Franklin et al., 2008). Além das críticas enumeradas, os investigadores também chamam a atenção para o facto de determinados questionários misturarem avaliações atuais com avaliações hipotéticas ou condicionais (Hale, 1996; Gray et al., 2008). Por último, Farrall e colaboradores (1997) indicam que os questionários ignoram o significado dos eventos para os respondentes, negligenciando que o sentimento de insegurança pode ser um fenómeno multifacetado. A partir das críticas que foram enunciadas, alguns autores têm desenvolvido novas medidas para operacionalizar o sentimento de insegurança, por forma a aumentarem a validade (e.g., Jackson, 2004; Farrall & Gadd, 2004; Williams et al., 2000; Gray et al., 2008). Todavia, a constatação dos problemas de medição do sentimento de insegurança e suas componentes já havia sido reconhecido em 1987 por Ferraro & LaGrange (1987), autores que efetuaram algumas recomendações no sentido de se reverem as medidas utilizadas nos questionários. Com efeito, na perspetiva dos autores, os questionários deveriam 1) incluir a avaliação do risco, a preocupação com o crime e as questões comportamentais; 2) ter medidas do sentimento de insegurança que fizessem uma referência explícita ao crime e 3) evitar questões hipotéticas ou condicionais. Mais recentemente, alguns autores procuraram melhorar a medição do sentimento de insegurança através do projeto “Experience and Expression in the Fear of Crime” (Farrall, 2007). Este projeto pretendia, assim, aumentar a validade na medição do medo do crime, propondo um conjunto de estratégias e utilizando metodologias qualitativas e quantitativas. Mais concretamente, os autores procuraram explorar a componente emocional do medo do crime, fazer uma referência explícita aos tipos de crimes específicos, proporcionar um período de tempo concreto, evitar perguntas hipotéticas e empregar uma questão filtro que evitasse a palavra “como” (Farrall, 2007). Por exemplo, uma das questões que se sugeriu empregar foi “No último ano, sentiu-se realmente preocupado com ser assaltado?” Apenas se as pessoas responderem que sim, é que se coloca uma questão relacionada com a frequência (“Quão frequentemente se sentiu assim no ano passado?”) e, além disso, uma questão acerca da intensidade (“Na última ocasião, quanto medo sentiu?”) (Barker & Crawford, 2006). Para operacionalizarem estas novas estratégias, os autores incluíram estas medidas no British Crime Survey em 2003/2004. Segundo os autores, produziu-se uma estimativa mais precisa do nível de medo do crime com o crime de roubo, assalto a habitação e crimes
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 12 relacionados com veículos. Outro aspeto importante foi o facto de se ter descoberto que a preocupação com o crime é relativamente infrequente, ou seja, apenas uma pequena proporção dos respondentes admitiu sentir-se preocupado com o crime uma ou mais vezes por semana ou mais para os três tipos de crimes. Posto isto, os investigadores sugerem que as medidas antigas amplificam a experiência diária do medo. Em relação à intensidade, a maioria dos episódios recentes de preocupação foi “não muito” ou “pouco intenso” (ibidem). De acordo com Jackson (2005) nos últimos tempos houve outras mudanças importantes na comunidade científica no que diz respeito à medição do sentimento de insegurança e as suas componentes. Uma das mudanças mais relevantes foi a distinção entre risco percebido e medo do crime, aumentando assim a validade que outrora era escassa (Jackson, 2005). Este autor procurou ainda medir o sentimento de insegurança a partir de vários itens, por forma a ser operacionalizado multidimensionalmente. Em suma, o sentimento de insegurança é um conceito multidimensional e complexo, que se manifesta de diferentes formas: emocionalmente (medo do crime), cognitivamente (risco percebido) e comportamentalmente (comportamentos de evitamento, proteção e autodefesa). Assim sendo, é necessário distinguir estas componentes aquando da sua operacionalização, por forma a garantir a validade. Atualmente, têm sido avançadas novas formas de operacionalização das componentes do sentimento de insegurança, ultrapassandose a medida unitária que, durante muitos anos, foi utilizada nos inquéritos. 4. Explicação das componentes do sentimento de insegurança Têm sido diversas as variáveis avançadas pela comunidade científica que pretendem explicar o sentimento de insegurança e as suas componentes. Estas variáveis integram-se em modelos explicativos que dão ênfase a diferentes níveis, desde o individual ao social. Os modelos sociodemográficos têm dominado a investigação do sentimento de insegurança, examinando as características dos indivíduos que estão relacionadas com aquele, como o género, a idade, a escolaridade e a vitimação (Hale, 1996; Rader et al., 2007). Contudo, a comunidade científica tem-se focado menos em variáveis individuais que podem ser importantes na explicação do sentimento de insegurança tais como as emoções disposicionais e as dimensões da personalidade. Atentemos, assim, aos resultados dos estudos que se têm debruçado sobre a explicação do sentimento de insegurança e das suas dimensões.
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 13 4.1. Explicação individual e sociodemográfica 4.1.1. Género Segundo Hale (1996), o género é a variável preditora do sentimento de insegurança mais empiricamente comprovada na literatura. Consistentemente, os estudos desta área têm demonstrado que as mulheres têm mais medo do crime (Reid & Konrad, 2004; Rader et al., 2007; Covington & Taylorm 1991, Garofalo, 1981 cit. Schafer, Huebner & Bynum, 2006; Machado & Agra, 2002), antecipam um maior risco de vitimação (e.g., LaGrange & Ferraro) e adotam mais comportamentos de evitamento, proteção e defesa do que os homens (e.g., Stanko, 1990 cit. Madriz, 1997). Todavia, parece existir uma discrepância no sentido em que as mulheres têm um risco objetivo de vitimação inferior em relação aos homens. Ora, este desfasamento tem sido estudado de forma aprofundada pelos investigadores, tendo sido designado por “paradoxo medo-vitimação” (Warr, 1984; Thompson & Norris, 1982 cit. Machado & Agra, 2002). Isto é, quando se analisam as taxas de criminalidade e os inquéritos de vitimação, as mulheres têm menos probabilidade de serem vitimadas, porém, expressam níveis mais elevados de medo do crime. Consequentemente, têm surgido algumas explicações para esta constatação, tais como a maior vulnerabilidade física das mulheres, o medo de crimes sexuais e, por último, que o menor medo que os homens reportam faz parte do processo de socialização do género (Rader et al., 2007). Em primeiro lugar, uma das explicações é que as mulheres têm uma vulnerabilidade percebida superior à vulnerabilidade real. Com efeito, esta vulnerabilidade percebida verificase não só na sua probabilidade de vitimação mas também na sua capacidade de lidar com as perdas físicas, psicológicas e económicas resultantes de uma potencial vitimação (e.g., Keane, 1995, Parker & Ray, 1990, Skogan & Maxfield, 1981 cit. Reid & Konrad, 2004; Wyant, 2008). Outra explicação tem a ver com o facto de existir uma ameaça omnipresente de que qualquer crime possa escalar para a violação (Ferraro, 1996, Gordon & Riger, 1989, Warr, 1984 cit. Reid & Konrad, 2004). Isto está relacionado com o facto de, segundo os autores, existir uma lacuna nas estatísticas oficiais, já que não são capazes de capturar a natureza total do fenómeno de vitimação dos indivíduos do sexo feminino (Hale, 1996). Deste modo, tendo em conta crimes específicos, suscetíveis de ocorrerem em meios privados, a inconsistência do paradoxo referido diminui. Outro crime importante é a violência doméstica, que, ocorrendo num espaço privado tem maior suscetibilidade de elevar o medo do crime das mulheres (Grabosky, 1995). Assim, percebe-se que o medo que estas sentem em relação à sua
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 14 probabilidade de vitimação não deve ser concebido como irracional, mas, tal como Lupton e Tulloch (1999) defendem, deve ser considerado como uma resposta racional a um conjunto de situações experienciadas ou que, no seu quotidiano, as amedrontam. Repare-se, porém, que estas duas explicações apenas têm em conta o sexo feminino da equação (Reid & Conrad, 2004), falhando em reconhecer que a complexidade deste assunto também deve ser resolvida dando um enfoque ao lado masculino (idem). As teorias feministas defendem que as imagens idealizadas das vítimas e criminosos criam visões não realistas do crime que servem para exercer um nível de controlo maior sobre as vidas das mulheres (Stanko, 1995 cit. Reid & Conrad, 2004). Com efeito, o medo do crime reforça um sentido socialmente construído da fraqueza, vulnerabilidade e passividade das mulheres (Madriz, 1997). Por sua vez, há um “código” de conduta que é distinto nos homens e nas mulheres e que, assim sendo, vai legitimar as diferenças de género no comportamento seguro e apropriado, sob o pretexto de se proteger as mulheres da vitimação criminal (Stanko, 1997 cit. Reid & Conrad, 2004). Um importante estudo de Reid & Conrad (2004), a partir destas constatações, pretendeu verificar o efeito do sexo no medo do crime para diferentes tipos de vitimações. Concretamente, a questão de investigação era se o efeito do género no medo era diferente para crimes específicos. Em termos de resultados, os autores constataram que os homens e as mulheres apresentaram níveis semelhantes de medo do crime para o crime de assalto a habitação e que, para níveis de risco de vitimação elevados, os homens reportaram mais medo do crime de roubo do que as mulheres. Um estudo de Sutton & Farrall (2005) procurou estudar as relações entre sexo, medo do crime e resposta desejavelmente social. Os autores sugeriam que, em parte, a diferença entre homens e mulheres nas medidas do medo do crime ocorre porque os homens têm menos vontade de reportar os seus medos. Para estudar esta questão, recorreram a um questionário que permitia obter dados empíricos para estimar o impacto da desejabilidade social nas respostas dos indivíduos. Os autores obtiveram correlações que demonstraram que os homens que estão mais preocupados em distorcer as suas respostas por questões de autoapresentação são aqueles que reportam menos medo do crime. Por sua vez, este resultado não foi encontrado nas mulheres, sugerindo-se, assim, que as identidades masculinas são, em parte, incompatíveis com a vontade de se admitir o medo do crime. Pode concluir-se que, de acordo com os resultados que se têm obtido, as mulheres apresentam níveis mais elevados de medo do crime em relação aos homens, apesar de terem
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 15 um risco objetivo de vitimação inferior. Porém, este paradoxo tem sido explicado pela literatura, tendo-se em conta não só a parte feminina, mas, também, a supressão de medo por parte dos homens. 4.1.2. Idade Relativamente à idade, os estudos têm sido mais ou menos consistentes na ideia de que os indivíduos mais idosos têm mais medo do crime em relação aos mais novos (e.g., Skogan, 1987, Stafford & Gale, 1984 cit. Hale, 1996; Clarke & Lewis, 1982, Cliemente & Kleinamn, 1977 cit. Reid & Conrad, 2004; Baker et al., 1983, Weinrath & Gartrell, 1996 cit. Ziegler & Mitchell, 2003). Todavia, outros estudos não encontraram diferenças entre grupos de idades (e.g., Ortega & Myles, 1987, Pain, 1995 cit Hale, 1996) e, ainda, mais recentemente, outros autores demonstraram existir um menor medo do crime nos mais idosos em relação aos mais jovens (e.g., Chadee & Ditton, 2003). Na mesma linha do que se verificou anteriormente em relação ao sexo, também parece existir um paradoxo, já que os mais novos têm uma probabilidade de vitimação superior em relação aos idosos. Igualmente neste caso o paradoxo tem sido explicado pela tese da vulnerabilidade. Isto é, os indivíduos mais idosos têm fragilidade física mais elevada, uma baixa capacidade de resistência e, além disso, também apresentam maior vulnerabilidade percebida que se manifesta, por exemplo, no isolamento que sentem. Por outro lado, os investigadores referem que esse medo pode não estar relacionado com uma distorção da avaliação do risco, mas sim com uma antecipação das consequências de ser vítima de crime (Skogan, 1999). De acordo com LaGrange e Ferraro (1989), o medo do crime na população dos mais idosos tem sido sobrestimado. O seu estudo tinha como hipótese os resultados serem diferentes de acordo com a utilização de medidas alternativas. Assim, através do uso da questão “Como se sente ou como se sentiria quando sai à noite sozinha no seu bairro”, verificou-se que as mulheres mais velhas reportaram mais medo do que as mulheres mais novas; Além disso, não houve diferenças na idade para a amostra dos homens através daquela medida do medo do crime. Porém, quando se questionou sobre o medo para diferentes tipos de crimes, os resultados foram distintos. Com efeito, na análise dos 11 crimes, os jovens adultos (18 a 29 anos) relataram níveis elevados de medo do crime, enquanto que os adultos de meia idade (46 a 64 anos) reportara menos medo. No caso do medo do crime de assalto a habitação, verificou-se que os indivíduos com idades superiores a 65 anos tinham níveis mais
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 22 classificações de medo do crime. O neuroticismo foi operacionalizado através do instrumento Neo-Five-Fator Inventory-Revised (NEO-FFI-R; McCrae & Costa, 2004), enquanto o medo do crime foi operacionalizado através da adaptação da medida usada por Ferraro & LaGrange, 1992 cit. Klama & Egan, 2011), diferenciando-o do risco de crime. A correlação entre estas variáveis (neuroticismo e medo do crime) foi de .29, sendo estatisticamente significativa. Por sua vez, também houve uma correlação positiva entre o neuroticismo e o risco de vitimação (r= .23), igualmente com significado estatístico. Face a estes resultados, os autores realizaram a seguinte afirmação: “(…) by comparing the personalities of participants who fear crime with the personalities of victimized individuals it becomes apparent, as hypothesized, that one personality construct in particular yields similar loadings for both fear of crime and victimization: high neuroticism.” (p. 4). Ou seja, os autores constataram que os indivíduos que tinham sido vítimas de crime e que tinham elevados níveis de neuroticismo apresentavam classificações mais elevadas de medo do crime. Outra investigação relevante para o presente tema foi levada a cabo por Solomon e colaboradores (2007) onde se pretendia estudar a relação entre as dimensões da personalidade e o medo das práticas de corrupção numa amostra de estudantes. Os autores concluíram que as características de personalidade de extroversão, neuroticismo, agradabilidade, abertura à experiência e conscienciosidade, em conjunto, predisseram o medo das práticas de corrupção. Porém, apenas os traços de extroversão e de abertura à experiência tiveram uma influência independente no medo da corrupção. Apesar deste resultado obtido – que a personalidade tem influência no medo da corrupção – é necessário ter prudência na generalização dos resultados, já que geralmente este tipo de crime não é estudado enquanto desencadeador de medo. De acordo com Osinowo (1998 cit. Klama & Egan, 2010) os indivíduos com elevados níveis de neuroticismo reportaram mais medo crime do que indivíduos com baixo neuroticismo. Sentimento de insegurança e medo disposicional ou ansiedade Passando agora para a relação entre o sentimento de insegurança e o medo disposicional, importa, em primeiro lugar, destacar um conjunto de ideias avançadas por Gabriel & Greeve (2003) acerca de uma perspetiva psicológica do sentimento de insegurança.
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 23 Mais concretamente, os autores aplicam a distinção de emoção traço/estado ao sentimento de insegurança6. Os autores começam por referir que embora o medo seja uma emoção bastante estudada, poucos têm sido os esforços para analisar a o sentimento de insegurança numa perspetiva multidimensional, ou seja, tendo em conta as suas manifestações como um traço ou como um estado (entre os autores que estudaram esta questão estão Cattel & Scheier, 1961; Spiellberger, 1966 e 1972, ambos citados por Gabriel & Greve, 2003). O sentimento de insegurança como um estado transitório acontece, por exemplo, quando uma pessoa sente medo de ser vítima de crime em situações específicas ou porque o ambiente físico possui elementos que têm capacidade de desencadear emoções de medo e ansiedade. Aqui, o medo do crime é algo que acontece e termina de forma rápida, na medida em que é situacional e contextualizado. Todavia, a longo-termo, tais ocorrências emocionais podem contribuir para uma disposição geral de ter medo de se tornar vítima de crime. Conversamente, o medo do crime como uma disposição (traço) descreve uma tendência para experienciar o medo em certas situações, sendo comparativamente estável nos sujeitos, mas variando entre eles (Gabriel & Greve). Assim, as pessoas com tal disposição têm mais probabilidade de experienciarem o estado de “ter medo” (Spielberger, 1972 cit. Gabriel & Greeve, 2003). O medo do crime disposicional é o resultado de um processo desenvolvimental a longo termo (ontogénico) que é influenciado pelas condições e atributos pessoais, tais como a ansiedade, tendências percetivas e recursos para lidar com as circunstâncias. Mas, além disso, ainda é influenciado pelas experiências individuais de situações de medo relevantes para os sujeitos e pela interação entre estes dois fatores. Assim, e continuam os autores, o medo do crime disposicional é conceptualizado como a tendência individual para reagir “com medo” e, por isso, à medida que esta aumenta, é possível que aumente a probabilidade de certas situações que evoquem medo do crime (como estado). Por este motivo, num conjunto de situações, um indivíduo com elevado medo do crime disposicional irá experienciar o medo do crime como estado mais frequentemente (Gabriel & Greeve, 2003). Um importante estudo empírico de Chadee, Virgil & Ditton (2008) pretendeu analisar a relação entre ansiedade enquanto traço e estado e os níveis de medo do crime. Mais concretamente, e segundo os autores, o que se pretendia saber era “how much reported fear of crime has more to do with anxiety than it has to do with crime” (p. 168). De acordo com os 6 Apesar de os autores utilizarem a expressão “fear of crime” que, em português é traduzido para “medo do crime”, a verdade é que a expressão “fear of crime” deve ser entendida em sentido amplo no seu estudo, ou seja, a designação correta para português será sentimento de insegurança. Com efeito, os autores referem que este constructo é constituído por uma dimensão emocional (o medo), uma dimensão cognitiva (perceção do risco) e uma dimensão comportamental.
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 24 autores, a exploração da relação entre a ansiedade e o medo do crime é um aspeto importante no sentido em que pode fornecer aprofundamentos das motivações, reações e comportamentos dos indivíduos. Assim, é relevante para os investigadores explorar os efeitos da ansiedade nas experiências dos indivíduos. Na investigação levada a cabo pelos autores, foi aplicado um inquérito a 636 indivíduos, sendo que foi utilizada a escala de medo do crime de Ferraro (1995) e o teste State-trait Anxiety Inventory (Spielberg, 1983 cit. Chadee et al., 2008). Como conclusões relevantes, percebeu-se, em primeiro lugar, que nas áreas com níveis baixos de crime, os respondentes reportaram níveis baixos de medo do crime, independentemente do nível de ansiedade (ansiedade-estado, ansiedade-traço). Porém, os sujeitos que viviam em áreas com níveis elevados de crime, reportaram classificações elevadas de medo do crime quando a ansiedade-traço era alta. O mesmo foi verificado para indivíduos com ansiedade-estado elevada. Porém, os autores chamam a atenção para o facto de a relação entre a ansiedade e o medo do crime ser relativamente fraca. Com efeito, a correlação entre a ansiedade-estado e medo do crime foi de .19 e a correlação entre ansiedadetraço e medo do crime foi de .20. Relativamente a crimes específicos, verificou-se que nos crimes contra pessoas, aqueles indivíduos que tinham níveis baixos de ansiedade enquanto estado e traço apresentaram níveis baixos de medo do crime. Porém, os sujeitos que reportaram classificações elevadas no traço de ansiedade tinham uma probabilidade superior em experienciar níveis mais elevados de medo do crime do que pessoas com baixo traço de ansiedade, independentemente da ansiedade em termos de estado. Já no que toca ao crime contra a propriedade, os indivíduos com níveis elevados de ansiedade (traço e estado) reportaram níveis mais elevados de medo do crime contra a propriedade. Estes resultados vão de encontro aos já encontrados por Calvo & Eysenck (2000 cit. Chadee e colaboradores, 2008), que afirmaram a existência de uma relação entre o traço de ansiedade e uma vigilância continuada do processamento do perigo. Chadee et al., (2008) concluem pela necessidade de se realizar mais estudos nesta área que praticamente não foi abordada pela literatura. Em suma, pode concluir-se que, efetivamente, as dimensões da personalidade e a disposição emocional dos indivíduos pode ser relevante para o estudo do medo do crime. E, por esse motivo, importa explorar essas relações.
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 25 4.2. Explicação ecológica ou contextual Um segundo modelo de explicação do sentimento de insegurança é o ecológico ou contextual, focando-se nas variáveis espácio-temporais que podem influenciar as perceções de segurança dos indivíduos. Neste modelo incluem-se teorias ambientais que se focam nas pistas do ambiente externo que podem desencadear sentimento de insegurança, procurando identificar fatores contextuais que podem ser alterados para diminuir a insegurança subjetiva dos indivíduos. De acordo com Doran & Burgess (2012) são fundamentalmente três as teorias ambientais que podemos incluir no modelo ecológico: 1) a hipótese das incivilidades/desordens, 2) a perspetiva Signal Crimes e 3) as teorias dos ambientes seguros e ameaçadores. Antes de se proceder à explicação de cada teoria, importa, em primeiro lugar, atentar a um conjunto de postulados e definições gerais acerca deste modelo. 4.2.1. Background do modelo ecológico ou contextual O estudo da relação entre o espaço e o cometimento de crimes integra-se num racional mais largo da Criminologia, a Criminologia Ambiental. Esta tem como uma das principais influências o conjunto de estudos efetuados pelos investigadores da Escola de Chicago (Brantingham & Brantinham, 1981). Esta escola surgiu no início do século XX com o objetivo de examinar o impacto das condições sociais e das características das comunidades nos indivíduos e na explicação do comportamento delinquente (Weisburd, Bruinsma & Bernasco, 2009). Entre os autores mais relevantes estão Park, Burgess, Shaw e McKay que desenvolveram teorias fundamentais (e.g. Modelo das zonas concêntricas de Burgess, que pretendia descrever a distribuição de problemas sociais pela cidade). Assim, a Escola de Chicago focava-se na abordagem do comportamento humano através de uma perspetiva ecológica, onde a conduta humana era moldada pela organização ou design do espaço onde aquela ocorria (Watts, Bessant & Hill, 2008). Na mesma linha, o enfoque da Criminologia Ambiental é no contexto ambiental e não tanto nos indivíduos, onde se procura estudar os elementos detalhados do ambiente que podem contribuir para um maior entendimento da incidência do crime (ibidem). Esta corrente enfatiza os papéis do espaço e do local na determinação do tempo, da localização e caráter dos crimes, advogando que os eventos criminais devem ser entendidos como confluências dos ofensores, vítimas ou alvos criminais, assim como leis em settings específicos de tempos e lugares. A análise do crime tem quatro dimensões: uma dimensão legal, uma dimensão do ofensor, uma dimensão do alvo ou vítima
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 26 e uma dimensão espácio-temporal. Além disso, estas dimensões devem ser entendidas e interpretadas em relação a um background complexo histórico e situacional de características sociais, económicas, politicas, biológicas e físicas que definem o contexto em que as dimensões do crime estão contidas. De acordo com Brantingham e Brantingham (1981), a Criminologia Ambiental não é uma abordagem isolada na exploração dos padrões criminais. Os campos de estudo em torno das atividades de rotina, prevenção situacional e escolha racional produzem resultados complementares. Para os autores, o crime não ocorre num vácuo, sendo influenciado pelo design do local, pela situação ou setting social, pelo movimento de rotina das vítimas, ofensores e vigilantes e parece refletir padrões de decisões consistentes. Um dos dados mais consistentes na literatura no que diz respeito à relação entre o crime e o espaço é que este fenómeno tem uma distribuição desigual e temporal (Fisher & Nasar, 1995; Nasar & Fisher, 1993; Nasar & Jones, 1997). Com efeito, alguns países e cidades têm mais crimes do que outras, certos bairros têm mais crimes do que outros (Skogan, 1999) e tipos de locais específicos têm mais crimes do que outros (Roncek & Maier, 1991 cit. Fisher & Nasar, 1995). Os locais que exibem uma média de incidentes criminais mais elevadas do que o normal têm sido designados como “hot spots” de crime pelos investigadores. De acordo com Sherman (1989), os “hot spots” de crime são pequenos locais nos quais a ocorrência de crime é tão frequente que é altamente previsível, pelo menos durante o período de um ano (p. 2). A par desta distribuição desigual do crime, a investigação científica também sugere que o mesmo ocorre para o medo da vitimação (Fisher & Nasar, 1995; Nasar & Fisher, 1993; Nasar & Jones, 1997). Ou seja, os indivíduos têm, também, níveis de medo mais elevados em certas cidades, em certos bairros, em certas interações pessoais e em locais específicos. Os padrões temporais de medo sugerem igualmente que há diferenças entre o dia e a noite. Portanto, podemos falar, segundo os autores, de “hot spots” de medo do crime como aqueles locais ou áreas em que os indivíduos sentem medo de serem vitimados mas onde os crimes podem não ser frequentes (Fisher & Nasar, 1995). Com efeito, como refere Nelson, Bromley & Thomas (2001), os “hot spots” de crime podem não coincidir necessariamente com os “hot spots” de medo ou vitimação pessoal. A ameaça potencial da vitimação do crime violento molda as perceções das pessoas acerca do risco e o comportamento mais do que qualquer outra forma potencial de vitimação. Os incidentes de violência numa cidade,
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 27 independentemente do tempo ou espaço, irão afetar as perceções de insegurança, à medida que o conceito de risco se torna mais anexado à localidade (Nelson et al., 2001). 4.2.2. A hipótese das incivilidades/desordens A hipótese das incivilidades ou desordens postula que existe uma relação positiva entre o medo do crime e as perceções das pessoas sobre as características sociais e físicas do ambiente (Millie & Herrington, 2005, Tulloch, 2000 cit. Doran & Burgess, 2012). Diversos autores têm estudado estas características do meio ambiente e social (Hunter, 1978, Lewis & Maxfield, 1980 cit. Robinson et al., 2003; Lewis and Salem, 1986 cit. Taylor, 1999; Borooah & Carcach, 1997; Armstrong & Katz, 2010), que Taylor (1999) define como: “(…) Condições físicas e sociais de áreas residenciais vistas como potencialmente ameaçadoras e causadoras de distúrbios pelos seus residentes e utilizadores desses espaços públicos” (Taylor, 1999, p.65). Dentro do conceito geral de incivilidades, os autores têm distinguido aquelas que são físicas – vandalismo, edifícios abandonados, lixo, graffiti, carros abandonados, entre outros – e ambientais sociais que envolvem estranhos e são considerados potencialmente ameaçadores – pessoas a beber em público, pessoas a discutirem nas ruas, insultos, gangs, prostituição, tráfico de droga, etc. (Sampson, 2009; Robinson et al., 2003; Perkins & Taylor, 1996; Doran & Lees, 2005; Wilson & Kelling, 1982; Skogan, 1999). A relação entre desordem física e social, crime e medo do crime tem sido uma área de interesse para muitos autores (e.g. Wilson & Kelling, 1982; Skogan, 1990; Kelling & Coles, 1998; Perkins & Taylor, 1996). De uma perspetiva social, as incivilidades sociais conotam desordem e possível vitimação (Nasar & Fisher, 1993). Com efeito, a desordem social denota a violação social das normas ou das leis oficias pelas pessoas, ou significa a ação de forma imprevisível e ameaçadora (Perkins & Taylor, 1996; Skogan, 1999). Já numa perspetiva física, as incivilidades transmitem mensagens acerca das condições sociais e, por esse motivo, aumentam o medo do crime (Nasar & Fisher, 1993). Com efeito, elas indicam uma quebra nas normas sociais do comportamento e sublinham a incapacidade dos membros da comunidade mobilizarem recursos e lidarem com os problemas como o crime (Taylor, 1996 cit. Doran & Burgess, 2012). Por outro lado, também refletem a incapacidade ou negligência do Estado e das agências externas para lidar com o crime (Perkins & Taylor, 1996).
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 28 Desde há algumas décadas, e principalmente a partir dos anos 70, vários estudos foram realizados, sendo que as teorizações acerca da desordem tiveram influência dos sociologistas da Escola de Chicago. Um dos autores mais relevantes é Wirth (1938 cit. Sampson, 2009), que enfatizou os efeitos “desorganizadores” da desordem e da diversidade que emergiram a partir do aumento da urbanização na América no início do século XX. O interesse do impacto da desordem no crime e no medo do crime tem levado a diversas conceptualizações por diferentes autores (Taylor, 1999). Em 1978, Hunter em “Symbols of Incivility: Social Disorder and Fear of Crime in Urban Neighboorhoods” afirma que o medo de vitimação nas áreas urbanas é superior à própria vitimação, levando-o a questionar de que é que as pessoas têm medo. Na resposta a esta questão, o autor refere que a abordagem deve ser direcionada para a análise de fatores situacionais, isto é, fenómenos externos do ambiente experiencial dos indivíduos que são geradores de medo. Afirma ainda que as incivilidades têm um impacto muito maior no medo do que o próprio crime. Com efeito, o ambiente físico, quando composto pela existência de edifícios abandonados, lixo espalhado pelas ruas, entre outros sinais, leva a que as pessoas façam inferências sobre esse ambiente e, mais especificamente, sobre o tipo de pessoas que lá habitam ou que usam aquele local. Mesmo sem encontros pessoais, estes sinais comunicam, de forma adequada, uma imagem de “desordem” e, especificamente, a perda de uma sociedade civil. (Hunter, 1978). Além disso, estes elementos físicos são experienciados mais frequentemente do que o crime e, por esse motivo, têm mais capacidade de gerar medo e insegurança entre os residentes de locais urbanos: “these physical incivilities, like their interpersonal counterparts, are more frequently experienced, more ubiquitous in daily routines than crime, and therefore are more experientially significant in generating fear and insecurity among urban residents” (Hunter, 1978, p. 7). Na sua tese, o autor dá um relevo especial, por um lado, ao modo como os indivíduos interpretam os sinais de incivilidade e, por outro, ao significado que estes sinais têm para os indivíduos. Outra versão sobre o estudo da desordem é aquela que é considerada uma das teorias mais influentes, nomeadamente a Teoria de Broken Windows de Wilson e Kelling (1982). Os autores adotam uma perspetiva temporal e sequencial, descrevendo um processo por etapas onde as incivilidades sociais e físicas levam a níveis de crimes mais elevados numa
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 29 comunidade. A sequência, de um modo geral, é a seguinte: se uma janela num edifício se parte e não é concertada num curto espaço de tempo, os residentes irão inferir que o controlo social informal nas ruas é baixo e que outros residentes não se importam com o que está a acontecer no seu bairro. Consequentemente, a perceção de que ninguém se interessa vai ativar um conjunto de respostas ligadas que resultam na atração de crime predatório sério (Barker & Crawford, 2006). O medo do crime vai desencadear uma série de processos, incluindo o movimento para outros bairros daqueles que têm capacidades económicas, o evitamento de espaços públicos e menos envolvimento no quotidiano do bairro. Consequentemente, os níveis de vigilância natural e os controlos informais comunitários enfraquecem, permitindo o cometimento de mais desordem e de crime. Eventualmente, este processo irá levar a um ponto em que os níveis de desordem e de medo serão elevados e os vigilantes informais daquela área serão reduzidos, resultando em crimes mais sérios (ibidem). Assim, para os delinquentes locais as incivilidades físicas simbolizam oportunidades para a delinquência (Cloward & Ohlin, 1960, Taylor & Covington, 1993 cit. Taylor, 1999). Deste modo, esta teoria assume que a desordem é criminógena (Barker & Crawford, 2006), já que causa níveis elevados de crime. Enquanto a relação causal entre desordem e medo do crime sugerida por esta teoria foi apresentada como um facto empírico (Doran & Lees, 2005), a relação entre desordem e crime severo tem sido apontada como uma hipótese que necessita de ser mais testada (Kelling & Coles, 1997). Outros autores fundamentais no estudo da desordem, crime e medo do crime são Sampson e colegas. A investigação de Sampson e Raudenbush (1999) sobre a eficácia coletiva7 oferece um avanço muito significativo no entendimento dos constrangimentos estruturais e processos sociais coletivos no crime. Estes autores não defendem a hipótese Broken Windows e pretendem testar a ligação desordem-crime e, além disso, se as diferenças nas taxas de crime resultam da eficácia coletiva. A partir de uma observação social sistemática efetuada em 196 bairros de Chicago, apenas encontraram apoio para a conexão causal entre desordem e roubo. A conclusão fundamental do estudo foi que tanto a desordem como o crime são sintomas da mesma causa: a concentração da desigualdade e baixa eficácia coletiva. No que respeita ao impacto do crime, os autores referem que as perceções são importantes porque os informantes podem inferir, de forma razoável, baixa eficácia coletiva 7 Definida pelos autores como the linkage of cohesion and mutual trust with shared expectations for intervening in support of neighbourhood social control (Samspon & Raudenbush, 1990, p. 612).
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 30 das suas perceções de desordem no bairro, e, consequentemente, agir de acordo com isso (Sampson & Raudenbush, 1999). Sampson (2009) defende que não é a desordem per si que tem a maior importância, mas sim a perceção que as pessoas têm da seriedade dessa desordem. Por sua vez, esta depende do contexto social de bairro em que a desordem ocorre. Algumas características de desordem e comportamentos desordeiros são vistos como mais problemáticos em alguns contextos que noutros, sendo que a diferença reside na composição sociodemográfica da população da comunidade (Sampson & Raudenbush, 2004). Além disso, o aumento da diversidade e heterogeneidade pode reduzir a desordem e o crime. Assim, a ligação entre as pistas de desordem e a perceção é socialmente mediada (Sampson, 2009). Uma questão importante que o autor coloca é: porque é que a desordem, em certos locais, é vista como ameaçadora e problemática e, noutros locais pode não ser? Na resposta a esta questão, Sampson (2009) defende que uma coisa é percecionar, de modo mais ou menos preciso, e outra é atribuir-lhe um valor, significado e classificar a sua seriedade. Consequentemente, é possível separar os elementos objetivos do ambiente, a forma como estes são percecionados pelos indivíduos e, por último, o valor que este faz dos elementos percecionados (ibidem). 4.2.3. Teoria Signal Crimes Enquanto a teoria Broken Windows procura explicar a ligação desordem-crime (e o papel do medo do crime nesta), existem perspetivas que estão preocupadas em estudar o modo como a desordem e o crime, conjuntamente, explicam as perceções de insegurança e de medo (ligação crime-desordem-medo), tal como a tese Signal Crimes de Innes (2004). Innes e Fielding (2002) efetuam uma mudança conceptual importante em relação à teoria Broken Windows, no sentido em que distinguem impactos diferenciais de desordem (e crime) nas perceções de insegurança. Em vez de a desordem ter um impacto genérico no medo e assumindo que diferentes desordens (e.g. graffiti e incivilidades sociais) são igualmente importantes em moldar as perceções de insegurança, o seu pressuposto central é que alguns incidentes de crime e desordem importam mais do que outros aos indivíduos quando se trata de moldar as suas perceções de risco. Eles designam estes incidentes de signal crimes e signal disorders, devido às suas propriedades comunicativas ou sociais. Innes (2004) e colegas constituíram esta perspetiva a partir de um estudo conduzido na Inglaterra, com uma metodologia qualitativa onde efetuaram 30 entrevistas semiestruturadas. Concluíram que as pessoas tendem a construir os seus entendimentos de crime e desordem, e assim as suas
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 31 perceções de risco criminógeno, em torno de certos sinais. Deste modo, nem todos os crimes e desordens têm valor igual no modo como as perceções de risco coletivas são produzidas. Com efeito, alguns tipos de crimes (e.g. assaltos a habitação e roubos) importam mais do que outros, dependendo da visibilidade social que o incidente assume na vida dos indivíduos (idem). Por sua vez, os crimes e as desordens têm efeitos na vida dos sujeitos, alterando o modo como estes pensam, sentem ou se comportam. Outro aspeto importante desta perspetiva é que advoga que a exposição a múltiplos “sinais fracos” pode funcionar como um “sinal forte” servindo para amplificar o significado percebido de outros incidentes anteriores ou subsequentes (Innes, 2004). Innes e Fielding (2002) e Innes (2004) não defendem que toda a gente interpreta os sinais do mesmo modo, sugerindo que há fatores sociodemográficos e outras variáveis (e.g. vitimações anteriores, estilo de vida e atenção às historias dos media) que moldam o modo os sinais são interpretados. O contexto situado em que o significador é colocado, juntamente com as características dos membros, molda a construção do significado. Adicionalmente, os autores suprarreferidos advogam que o medo é apenas uma das respostas e reações possíveis ao crime e à desordem. Outras reações incluem a raiva, a preocupação, os sentimentos de vulnerabilidade, evitamento de determinados locais e de certas pessoas (Innes, 2004). Ora, esta descoberta vai de encontro à encontrada por Phillips e Smith (2004). Os autores questionam-se: “how do people feel and how do they react when confronted with an uncivil action by a stranger in a commonplace situation?” (p.379). Partindo de vários modelos, que diferiam nos efeitos que atribuíam à desordem (medo, ira, repulsa e indiferença) e utilizando a metodologia de Focus Group, os resultados apontaram, claramente, para a reação de ira como a mais frequente, seguida da indiferença. Já o medo como emoção e o evitamento como comportamento foi uma das reações menos frequentes. 4.2.4. Teorias dos ambientes seguros e ameaçadores Estas teorias têm semelhanças com as referidas anteriormente no sentido em que ligam o sentimento de insegurança a certas pistas do meio ambiente, porém, ao contrário das anteriores, não refletem uma quebra do controlo social (Doran & Burgess, 2012). Efetivamente, as presentes teorias fornecem um rótulo mais abrangente para esses objetos que geram o medo do crime, porém, não se restringem apenas à desordem (idem). Os ambientes físicos ameaçadores são uma manifestação do planeamento urbano ou da falta dele, tendo características que não permitem a vigilância natural.
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 38 demonstra um padrão único de traços. Deste modo, defende que o estudo da personalidade deveria desenvolver métodos que abordassem a unicidade de uma pessoa (a abordagem ideográfica), assim como descobrir os princípios gerais aplicáveis a muitas pessoas (a abordagem nomotética). Assim, o autor acredita que o indivíduo é único em virtude de uma configuração específica dos traços de personalidade (Singer, 1984; Hansenne, 2004). Após ter realizado uma revisão geral sobre os autores que se debruçam sobre a personalidade, Eysenck (1998a, p. 25) define-a do seguinte modo: “soma total de padrões de comportamentos potenciais ou reais do organismo, determinados pela hereditariedade e pelo ambiente; origina-se e desenvolve-se através de uma interação funcional de quatro principais setores em que estes padrões de comportamento estão organizados: o setor cognitivo (inteligência), o setor conativo (caráter), o setor afetivo (temperamento) e o setor somático (constituição)”. A teoria de Eysenck (1990, Eysenck & Eysenck, 1985 cit. Eysenck & Eysenck, 1997) considera algumas dimensões como elementos básicos da estrutura de personalidade. Estas variáveis são, essencialmente, fatores disposicionais que determinam a conduta regular e em muitos tipos de situações diferentes. Os traços de personalidade representam padrões amplos de tendências de conduta que dão consistência à estabilidade das ações, às reações emocionais e aos estilos cognitivos das pessoas (idem). Deste modo, a personalidade pode ser vista como uma taxonomia hierárquica, onde no nível básico estão as ações, seguidas das reações emocionais, respostas específicas, habituais e os traços (tendências de conduta). No topo da hierarquia há superfatores, nomeadamente a Extroversão, o Neuroticismo e o Psicoticismo (Eysenck & Eysenck 1998b) que têm uma base biológica. Vejamos, de forma separada, estas dimensões da personalidade de acordo com este autor. 5.1. Extroversão A extroversão está ligada à ativação do arousal no sistema de nervoso central (Eysenck, 2006 cit. Weiner & Craighead, 2010). Especificamente, enquanto os introvertidos são caracterizados por terem níveis altos de arousal, os extrovertidos são caracterizados por terem baixos níveis de arousal, sendo que esta constatação explica o facto de os extrovertidos serem caracterizados por frequentemente procurarem estimulação. De acordo com Eysenck (1990 cit. Eysenck & Eysenck, 1997; Connelly & Ones, 2008) as características que formam a extroversão são a sociabilidade, a despreocupação, a
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 39 dominância, a aventura, a assertividade, a atividade, a busca de sensações e a alegria. Estes indivíduos procuram também emoções positivas. Já os indivíduos introvertidos são caracterizados como passivos, pacifistas, calmos e fiáveis (Hansenne, 2004). 5.2. Neuroticismo O neuroticismo, segundo Eysenck & Eysenck (1998a), pode residir na labilidade do sistema límbico e na elevada ativação do sistema autonómico. Assim, os neuróticos demonstram uma reatividade psicológica elevada face ao stress. A dimensão do neuroticismo está associada a traços como a ansiedade, a depressão, o sentimento de culpa, a baixa autoestima, a tensão, irracionalidade, timidez, tristeza e emocionalidade (Eysenck, 1992 cit. Eysenck & Eysenck, 1998b; Connelly & Ones, 2008). Os sujeitos com altas pontuações de neuroticismo são mais vulneráveis a transtornos denominados tradicionalmente neuróticos (Eysenck & Eysenck, 1998b). 5.3. Psicoticismo Relativamente ao psicoticismo, constata-se que não tem havido muita investigação acerca da base biológica deste, porém, Eysenck acreditava que, tal como as dimensões anteriores, o psicoticismo também tinha uma base biológica. O psicoticismo foi a dimensão que mais tarde se incorporou na teoria de Eysenck e em pontuações extremas predispõe tanto a transtornos psicóticos, como ao transtorno bipolar ou esquizofrenia, ou conduta antisocial e psicopática (Eysenck, 1992 cit. Eysenck & Eysenck, 1998b). Os psicóticos são indivíduos agressivos, frios, egocêntricos, impulsivos, impessoais, antissociais, sem empatia, criativos e rígidos (idem). 5.4. Avaliação da personalidade através do Eysenck Personality Questionnaire (EPQ) Não obstante o reconhecimento de que existem diversas formas de medição e avaliação da personalidade, no presente trabalho iremos focar o instrumento que irá ser utilizado no estudo empírico, nomeadamente o Eysenck Personality Questionnaire (tendo como versão atual o EPQ-R; Eysenck & Eysenck, 1998b). Este instrumento compreende as três dimensões da teoria de Eysenck, nomeadamente a Extroversão, o Neuroticismo e o Psicoticismo, tendo também a medida da Desejabilidade Social (“lie scale”, no original). O EPQ foi precedido por um conjunto de questionários como o Maudsley Medical Questionnaire (MMQ; Eysenck, 1952 cit. Aluja, García & García, 2003), o Maudsley Personality Inventory (MPQ; Eysenck,
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 40 1959 cit. Aluja et al., 2003) e o Eysenck Personality Inventory (EPI; Eysenck & Eysenck, 1964 cit. Aluja et al., 2003). Assim, o EPQ foi o resultado final de anos de investigação, tendo sido posteriormente alterado e melhorado, passando-se a designar por EPQ-R. A inovação do instrumento EPQ em relação aos anteriores teve a ver com a inserção do psicoticismo que, no entanto, é uma escala que recebe algumas críticas pelas suas propriedades psicométricas serem inferiores às escalas do neuroticismo e extroversão (Aluja et al., 2003; Ferrando, 2008). O instrumento EPQ-R, baseado na teoria de Eysenck (Eysenck, 1990, Eysenck & Eysenck, 1985 cit. Eysenck & Eysenck, 1997) sobre a personalidade, tem caráter de autorrelato e compreende 100 itens 10 (24 para a dimensão de neuroticismo, 23 para extroversão, 32 para a dimensão de psicoticismo e 21 para escala de desejabilidade social) (Eysenck & Eysenck, 1985 cit. Weiner & Craighead, 2010). Os itens das escalas são dicotómicos, ou seja, os indivíduos indicam “sim” ou “não” na resposta a cada item. Também foi desenvolvida uma versão revista e reduzida do EPQ, nomeadamente o EPQ-RS (Eysenck & Eysenck, 1998b), de modo a que pudesse ser usada quando o tempo de aplicação fosse limitado e quando, além desse instrumento, também se utilizasse outras escalas na mesma investigação. Foram selecionados 12 itens para cada escala, dando lugar à versão de 48 itens (idem). A fiabilidade do EPQ-RS tem sido analisada em múltiplos estudos, sendo que, geralmente, as escalas do neuroticismo e da extroversão demonstram uma consistência interna bastante elevada (0.80-0.90) e uma boa consistência ao longo do tempo (0.85-0.94). De acordo com Eysenck (1985 cit. Aluja et al., 2003), encontrou-se uma consistência interna de 0.84 e 0.80 para a escala do neuroticismo, 0.88 e 0.84 para a extroversão, 0.77 e 0.73 para a desejabilidade social e, por último, 0.62 e 0.61 para o psicoticismo para homens e mulheres respetivamente (idem). Assim, verifica-se que a escala de psicoticismo possui uma baixa consistência interna comparando com as dimensões anteriores (Weiner & Craighead, 2010). 10 Anteriormente, o EPQ era constituído por 90 itens, tendo sido acrescentado 10 itens por Eysenck, Eysenck e Barret (1985 cit. Aluja et al., 2003). Com efeito, apesar de a escala da desejabilidade social não ter sofrido alterações, foi acrescentado um item ao neuroticismo e à extroversão. A escala do psicoticismo também foi modificada, tendo-se acrescentado 13 novos itens e eliminado 6. De acordo com alguns autores e.g., Corulla, 1987 cit. Aluja et al., 2003), a consistência interna do psicoticismo ficou mais elevada.
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 41 5.5. A desejabilidade social De acordo com Paulhus (1984) a desejabilidade social possui dois componentes que necessitam de ser distinguidos: positividade autoenganadora (self-deceptive positivity, no original) e gestão da impressão (impression management). A primeira componente é conceptualizada como uma visão honesta de si próprio excessivamente positiva e pode ser considerada mais como um constructo de personalidade significativo do que um viés de resposta (idem). Por sua vez, a segunda componente está mais relacionada com a visão tradicional da desejabilidade social e significa que o respondente deliberadamente adapta as suas respostas de forma a criar uma imagem social mais positiva. Para o mesmo autor, a escala da desejabilidade social do questionário EPQ tende a orientar-se primariamente para a componente de gestão da impressão. Tipicamente, os itens da desejabilidade social são afirmações sobre atitudes e práticas que são socialmente indesejáveis, mas comuns, tais como pequenas desonestidades, maus pensamentos, fraqueza de caracter, etc. (Ferrando, 2008). Alguns estudos têm procurado associar a desejabilidade social às restantes escalas, verificando se esta existe e qual a sua magnitude. No que toca à correlação entre a desejabilidade social e a extroversão, os estudos têm demonstrado que esta é geralmente fraca e em muitos estudos não significativas (Ferrando, Chico & Lorenzo, 1997; Ferrando, 2008). Porém, quando as correlações são significativas, usualmente são positivas (e.g., Helmes, 1980 cit. Ferrando, 2008). No que toca à relação entre desejabilidade social e neuroticismo, importa referir que, normalmente, os itens do neuroticismo tendem a ser percebidos como socialmente indesejáveis (Francis, 1993 cit. Ferrando, 2008) e a maior parte dos estudos encontram correlações negativas entre o neuroticismo e desejabilidade social (Helmes, 1980 cit. Ferrando, 2008). A par da correlação negativa que se tem verificado entre o neuroticismo e a desejabilidade social, o mesmo se tem encontrado para a correlação entre as medidas de desejabilidade social e psicoticismo (e.g., Corulla, 1987 cit. Ferrando, 2008). Este resultado é esperado pela teoria, já que os comportamentos descritos pelos itens do psicoticismo são percebidos como socialmente indesejáveis. 5.6. Personalidade e variáveis sociodemográficas Vários são os estudos que procuram averiguar a relação entre as dimensões da personalidade e algumas variáveis demográficas como o género e a idade. Atentemos, assim, a alguns resultados no que diz respeito a este tema. Relativamente às diferenças de género, na maior parte dos estudos analisados as mulheres reportam níveis mais elevados de
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 42 neuroticismo (Lynn & Martin, 1997; Martin & Kirkcaldy, 1998; Costa, Terracciano & McCrae, 2001; Oliveira, 2002) e ansiedade (Feingold, 1994) em relação aos homens. Com efeito, este resultado - as mulheres apresentaram níveis mais elevados de neuroticismo – ocorre não só em estudos empíricos de uma amostra isolada mas, também, em estudos que comparam um conjunto de países. É o caso do estudo de Lynn & Martin (1997) que pretendeu analisar as diferenças de género na extroversão, neuroticismo e psicoticismo comparando os dados de 37 países com a aplicação do EPQ. Verificou, assim, que nos 37 países, as mulheres reportaram níveis mais elevados de neuroticismo, e, por sua vez, que os homens tiveram classificações mais altas para o psicoticismo e a extroversão. Também no estudo de Martin & Kirkcaldy (1998), os homens reportaram níveis mais elevados de psicoticismo, porém, não houve diferenças para a dimensão da extroversão. Por sua vez, no estudo de Feingold (1994) apesar de as mulheres terem tido níveis mais elevados de ansiedade, apresentaram níveis mais altos, em relação aos homens, de extroversão. Outra variável demográfica que tem sido utilizada para verificar diferenças nas dimensões da personalidade é a idade. No estudo de Oliveira (2002) pretendia-se verificar se existiam diferenças na dimensão do neuroticismo quanto à idade, sexo, interculturalidade e religião. O autor descobriu que, naquela amostra, os jovens tinham classificações de neuroticismo mais elevadas do que os adultos e que, apesar de haver um decréscimo do neuroticismo na idade adulta, esta dimensão da personalidade voltava a aumentar nos idosos. Outro estudo de Goldberg, Sweeney, Merenda & Hughes (1998) procurou examinar a relação entre variáveis demográficas (sexo, idade, educação e etnia) e a personalidade. Os autores apuraram a inexistência de diferenças para o estatuto étnico nas dimensões estudadas, porém, encontraram diferenças na assertividade e estabilidade emocional. Com efeito, encontraram-se níveis superiores destas duas características para o sexo masculino. Relativamente à idade, os autores verificaram que os indivíduos mais velhos são mais conscienciosos do que os mais novos (idem). Por último, um estudo de McCrae et al., (1999) pretendeu estudar diferenças de idade na personalidade ao longo da vida adulta, constatando que as mulheres e os homens mais velhos tinham níveis mais baixos de extroversão e abertura, porém, mais elevados em conscienciosidade e agradabilidade. Finalmente, verificaram que existia uma tendência para os mais novos terem classificações mais elevadas de neuroticismo (idem). Em suma, após uma revisão da literatura acerca do conceito da personalidade, constatou-se a inexistência de uma definição consensual. Este problema manifesta o facto de a personalidade ser um constructo complexo e que envolve um conjunto de padrões de
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 43 comportamentos que, segundo Eysenck, se originam pela hereditariedade e pelo ambiente. De acordo com este autor, podemos conceptualizar a personalidade como uma taxonomia hierárquica em que no seu topo estão os superfatores supra descritos: o neuroticismo, a extroversão e o psicoticismo, com características específicas e diferenciadas. O instrumento de avaliação da personalidade que irá ser utilizado no nosso estudo é o EPQ-RS que contém escalas de medição daqueles superfatores, assim como da desejabilidade social. Se o nosso objetivo é perceber a eventual relação entre o sentimento de insegurança e a personalidade, e, por outro lado, a relação entre a as emoções e as componentes do sentimento de insegurança, importa agora atendermos à conceptualização de emoções e a sua avaliação a partir do Differential Emotions Scale. Terminaremos este capítulo com a relação entre a personalidade e as emoções. 6. Definição de emoção De acordo com Gray & Watson (2007), o afeto é um constructo mais largo do que a emoção. Efetivamente, o primeiro refere-se a um conjunto de estados mentais que envolvem sentimentos avaliados, isto é, estados subjetivos em que os sujeitos se sentem bem ou mal ou face ao que está a acontecer. Já Singer (1984), havia distinguido emoção e afeto. De acordo com o autor, a emoção refere-se à experiência de sentimento tendo como base uma resposta orgânica básica. Ou seja, as emoções, segundo o mesmo, seriam reações pessoais à complexidade da nova informação que necessita de ser processada. Estas reações seriam manifestadas ao longo de três dimensões, nomeadamente a expressão facial e linguagem corporal, a reação fisiológica (e.g., ritmo cardíaco, pressão sanguínea, temperatura corporal, atividade cerebral) e, por último, a consciência pessoal, que poderia ocorrer tanto nos pensamentos privados como em comunicação com os outros. Por sua vez, o afeto é já usado para se referir à componente de expressão facial da emoção (idem). É também possível distinguir estados de humor e emoções, tendo em conta alguns parâmetros como a duração, a frequência, a intensidade e o padrão de ativação. Senão vejamos. No que concerne à duração, é referido que os estados de humor são experienciados com uma duração relativamente superior em relação às emoções (Davidson, 1994 cit. Gray & Watson, 2007). Enquanto um episódio emocional pode durar segundos ou minutos, o humor é passível de durar horas ou mesmo dias. E, por tal, a emoção é intensa e breve. Por sua vez, os estados de humor são experienciados mais frequentemente e de forma mais consistente em relação às emoções (Watson & Gray, 2007). Quanto aos padrões de ativação, pode dizer-se que enquanto as
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 44 emoções estão ligadas a momentos específicos que provocam uma resposta, os estados de humor são um sumário do nosso estado afetivo global. Se as emoções impelem o organismo a uma ação ou decisão – sendo desencadeados por um estímulo particular que as define para o movimento – os estados de humor não são direcionados para qualquer evento ou objeto concreto. Ocorrem, portanto, sem referência a algo específico. Analisadas as diferenças entre emoção, afeto e estados de humor, importa agora questionar, per se, o que significa “emoção”. Tal como não existe uma definição consensual de personalidade, o mesmo se pode constatar para a definição de emoção. Com efeito, a emoção não é um conceito unânime nem a sua definição é consensual (Queirós, 1997). Na verdade, tal como enfatiza Solomon (2008), quando parece ter-se encontrado uma definição adequada para a emoção, surge uma nova teoria que desafia o nosso entendimento. As tentativas de definição e explicação da experiência emocional não são recentes. Com efeito, é possível encontrar teorizações de filósofos que se debruçaram sobre o conceito de emoção, como por exemplo, Descartes (citado por Solomon, 2008). Segundo este autor, a emoção é um tipo de “paixão”, sendo que as paixões são as perceções, os sentimentos ou emoções da alma que se relacionam especificamente com elas, e que são causadas, mantidas e fortificadas por algum movimento dos espíritos. Ainda para o mesmo autor, as emoções são, essencialmente, distúrbios de paixões e podem ser influenciadas pela razão. Com efeito, o aspeto fisiológico dá lugar ao cognitivo, e as emoções deixam de ser apenas corporais para se tornarem um ingrediente essencial no conhecimento. De acordo com Descartes, as seis paixões primitivas são a dúvida, o amor, o ódio, o desejo, a alegria, e a tristeza (idem). De um modo geral, a emoção pode ser definida como uma manifestação fisiológica, comportamental e cognitiva relativamente automática, face a estímulos particulares (Hansenne, 2004). Para Fraisse e Piaget (1975 cit. Queirós, 1997), a emoção seria constituída pelos afetos ou sentimentos, pelas manifestações neurovegetativas e pelas manifestações expressivas da face ou do corpo. Segundo Reuchlin (1981 cit. Queirós, 1997), no episódio emocional importa a vivência emocional, a expressão facial e as alterações no funcionamento do corpo. Por sua vez, Scherer (1987, 2001 cit. Scherer, 2005, p. 697) define emoção como um “episódio de mudanças inter-relacionadas e sincronizadas nos estados de todos ou de quase todos os subsistemas do organismo, em resposta a uma avaliação de um estímulo interno ou externo relevante para o organismo”. De acordo com o mesmo autor, as componentes do episódio emocional são os respetivos estados dos cinco subsistemas (fig. 3) e os processos consistem nas mudanças coordenadas ao longo do tempo.
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 45 Segundo Strongman (1987 cit. Queirós, 1997) a emoção é um estado corporal que envolve estruturas físicas, um comportamento específico ou geral, e ocorre em situações concretas. Por sua vez, Kleinginna e Kleinginna (1981 cit. Queirós, 1997) categorizaram as centenas de definições existentes, concluindo que a emoção é um conjunto complexo de interações entre fatores objetivos e subjetivos, mediados por sistemas neuronais e hormonais, e que podem provocar: 1) experiências afetivas, como sentimentos de excitação, de prazer ou desprazer; 2) processos cognitivos, como a perceção de efeitos emocionalmente relevantes, avaliações e processos de categorização; 3) ativação de processos gerais de ajustamento fisiológico às condições excitadoras; 4) comportamentos, que são geralmente adaptativos e dirigidos a um objetivo. Izard (2009) procura discutir a origem da emoção, sendo que para isso recorre à perspetiva de alguns autores. Segundo Russell (2003 cit. Izard, 2009), o núcleo das emoções é contínuo no cérebro e fornece informação acerca do valor do estímulo em relação ao arousal e ao prazer/desprazer. Por sua vez, Izard postula que as emoções discretas ou interações entre as mesmas estão sempre presentes no cérebro consciente. Já Barrett (2006 cit. Izard, 2009) sugere que as emoções discretas surgem como resultado de um ato conceptual no núcleo do afeto, ou como função da estrutura conceptual que é proporcionada pela linguagem. Contrariamente, Izard defende que as emoções discretas não podem ser criadas, ensinadas ou aprendidas através de processos cognitivos. Assim, os processos conceptuais e percetuais são mais efeitos das emoções do que fontes da sua origem. Na mesma linha, as emoções podem ser ativadas e influenciadas por processos cognitivos, percetuais, avaliativos, conceptuais e não cognitivos (Izard, 2009), mas não podem ser criados por eles. De acordo com Izard (2009) as emoções básicas são aquelas que se referem aos processos afetivos gerados pelos sistemas cerebrais sobre a deteção de um estímulo ecologicamente válido. Segundo o mesmo autor, as emoções básicas podem ser positivas ou FUNÇÃO EMOCIONAL SUBSISTEMA DO ORGANISMO COMPONENTE EMOCIONAL Avaliação dos objetos e eventos Processamento de informação (CNS) Componente cognitivo Regulação do sistema Apoio (CNS, NES, ANS) Componente neurofisiológico Preparação e direção para ação Executivo (CNS) Componente motivacional Comunicação da reação e intenção comportamental Ação (SNS) Componente de expressão motora Monitorização do estado interno e organismo – interação ambiental Monitor (CNS) Componente de sentimento subjetivo Figura 3 Relação entre subsistemas do organismo, funções e componentes da emoção (Scherer, 2005). Nota: CNS = sistema nervoso central; NES = sistema neuro-endócrino; ANS = sistema nervoso autonómico; SNS = sistema nervoso somático.
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 46 negativas. As primeiras são o interesse e a alegria, enquanto as segundas são a tristeza, ira, repulsa e medo. Scherer (1994 cit. Scherer, 2005) prefere designar as emoções básicas como emoções “modais”, dado o pouco consenso no significado e ausência de critérios na forma como “básico” é definido. As emoções secundárias são construídas a partir de outras emoções (Eckman, 1992 cit.Keltner & Lerner, in press). Finalmente, importa distinguir as emoções enquanto estado e enquanto traço. As emoções traço são tendências duradouras (disposições) para experienciar emoções particulares. Referem-se a estilos gerais de respostas emocionais que persistem ao longo dos contextos e do tempo (Larsen & Katelaar, 1989). As emoções como estados são experiências momentâneas de uma emoção (Lerner & Keltner, 2001). A literatura científica da área tem demonstrado que as emoções traço predispõem os indivíduos a experienciar os estados emocionais correspondentes com uma intensidade e frequência mais elevada (e.g., Gross et al., 1998; Larsen & Ketelaar, 1989). Através de um estudo Lerner & Keltner (2001) constataram que os indivíduos disposicionalmente medrosos realizaram, de forma consistente, julgamentos e escolhas mais pessimistas. 6.1. Medição de emoções Os instrumentos de avaliação refletem, invariavelmente, um modelo estrutural implícito ou explícito. Por outras palavras, os investigadores tentam criar medidas que capturem os seus constructos básicos (Gray & Watson, 2007). No estudo da estrutura do afeto, foram surgindo teorias que privilegiam os modelos dimensionais e outras que destacam as emoções discretas. Enquanto as teorias dimensionais defendem que o afeto é composto por um grupo mais pequeno de dimensões gerais, os segundos focam-se em emoções discretas tais como medo, ira, tristeza e alegria (idem). Ao longo do desenvolvimento da medição do afeto e das emoções foram surgindo instrumentos importantes (Gray & Watson, 2007). Para a análise que será feita de seguida, destacar-se-á o Differential Emotions Scale (DES, que, na sua versão mais atual, se designa por DES-IV; Izard, Libero, Putnam & Haynes, 1993), dado que será o instrumento utilizado na investigação empírica a descrever posteriormente (Capítulo II).
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 47 6.2. Differential Emotions Scale (IV) A Differential Emotions Scale, construída com base na Teoria Diferencial de Emoções foi originalmente desenvolvida por Izard e colegas (1993) para medir dez emoções básicas: interesse, alegria, surpresa, tristeza, ira, nojo, felicidade, medo, vergonha/timidez e culpa. Ao longo dos últimos anos, o DES foi sofrendo algumas alterações no que toca à sua configuração, sendo que a versão atual é o DES-IV. O procedimento é o seguinte: o participante recebe instruções para classificar cada emoção numa escala de cinco pontos (1: raramente ou nunca; 5: muito frequentemente). Dependendo das instruções particulares que são usadas, os respondentes classificam os seus sentimentos correntes, os seus sentimentos na semana passada ou seu traço de afetividade de longo-termo. Por exemplo, se se pretender medir esta última dimensão, cada escala de emoção corresponderá a três itens respondidos sob a forma de “Quão frequentemente, no seu dia-a-dia…”. A diferença em relação às versões anteriores reside no facto de, por um lado, o DES-IV medir a vergonha e timidez separadamente, o que antes não acontecia e, por outro, porque se adicionou uma nova escala que mede a auto-hostilidade (Izard et al., 1993). O DES-IV inclui 12 escalas, sendo que ao todo é constituída por 36 itens. As escalas do DES mostram intercorrelações moderadas ou altas, todavia, alguns autores apontam que algumas escalas possuem moderada consistência interna (e.g. Gray & Watson, 2007), afirmando que estes problemas são devidos, em certa parte, ao pequeno número de itens (tipicamente três) que compõem cada escala. Outros autores encontraram informação válida e fiável neste instrumento (e.g. Blumberg & Izard, 1985; Carey, Finch & Carey, 1991). Além disso, as escalas são estáveis ao longo do tempo e estão significativamente correlacionadas com as variáveis da personalidade (Izard et al., 1993). O instrumento supracitado, ao longo do desenvolvimento das suas várias versões, foi utilizado em variados estudos (e.g. Izard et al., 2003; Abe, 2004; Fuenzalida, 1981; Youngstrom & Green, 2003). 7. Relação entre emoções e personalidade Nos últimos anos, a relação entre a personalidade e as emoções tem sido alvo de estudo por vários autores (Weiteing, 2009; Izard et al., 1993, Rusting e Larsen, 1997). Estes têm demonstrado uma relação evidente entre traços de personalidade e categorias específicas e gerais das emoções, tanto e tipos de estudo correlacionais, experimentais e longitudinais (Weiting, 2009). Assim, a evidência empírica revela que o Neuroticismo (N) tende a correlacionar-se com emoções negativas, mas não se correlaciona com as emoções positivas,
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 54 2.3.1. Grupo I: Questões sociodemográficas12 O grupo I é constituído por questões sociodemográficas, nomeadamente o sexo, a profissão, a situação profissional, as habilitações literárias e a idade. Adicionalmente, este grupo também tem questões relacionadas com a zona onde os indivíduos residem a maior parte do tempo e a forma como se deslocam para o seu emprego ou escola. Neste grupo do questionário, destacam-se algumas variáveis independentes do estudo, ou seja, aquelas que poderão provocar um efeito nas variáveis dependentes. Mais concretamente, estas são o sexo, a idade e os anos de escolaridade. No que diz respeito à última variável independente referida (anos de escolaridade), é de notar que esta foi criada a partir da soma entre as habilitações literárias e a existência ou frequência de curso superior. Para as habilitações literárias, pediu-se aos indivíduos para assinalarem as suas habilitações, de 0 a 12. Numa pergunta seguinte, questionou-se aos indivíduos se tinham curso superior (sim ou não) ou se estavam a frequentar, pedindo-se para colocar o ano que frequentavam. Às pessoas que respondiam ter já um curso superior, somou-se 4 anos às habilitações literárias (12). E aos que frequentavam um curso superior, somou-se o ano de frequência aos anos de habilitações literárias. Desse modo, criou-se um índice de anos de escolaridade. 2.3.2. Grupo II: Questões gerais de insegurança e vitimação13 Este grupo contende com questões gerais sobre vitimação e as variáveis que constituem o sentimento de insegurança, mais concretamente o medo do crime, o risco percebido e adoção de comportamentos de segurança. Relativamente às questões de vitimação (pergunta 1), o que se procura é verificar se os indivíduos da amostra já foram vítimas de crimes. Esta vitimação tem duas vertentes: por um lado, a prevalência cumulativa, isto é, se alguma vez (ao longo da vida) foi vitima de um dos crimes indicados; e, por outro lado, a frequência no último ano, ou seja, o número total de vezes que essa vitimação ocorreu no último ano. Os crimes apresentados são os que usualmente surgem nos inquéritos internacionais de vitimação e em outros estudos da Escola de Criminologia. Questiona-se, então, se já foi vítima de roubo de algum objeto do interior do seu veículo, de roubo do seu veículo, se alguém tentativa de assalto à habitação, assalto à habitação, se já foi vítima de outro tipo de furto por parte do assaltante, de outro tipo de roubo, se já foi vítima de ameaças de agressão e de agressão (efetiva). O objetivo de se ter colocado a vitimação no questionário tem a ver com a eventual 12 No questionário em anexo, o grupo que aqui designamos por I encontra-se descrito como Grupo II. 13 No questionário em anexo, o grupo que aqui designamos por II encontra-se descrito como Grupo III.
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 55 importância desta variável nas variáveis dependentes que constituem o sentimento de insegurança. Assim sendo, a vitimação é uma variável independente, ou seja, que pode influenciar as componentes do sentimento de insegurança. No que toca às questões de insegurança, estas foram divididas, no questionário, de acordo com a divisão que tem sido feita das dimensões do sentimento de insegurança (o medo do crime, a perceção do risco de vitimação e a adoção de comportamentos por razões de segurança). Estas, por sua vez, constituem as variáveis dependentes do estudo, isto é, as que podem sofrer a influência das variáveis independentes. O modo como estas dimensões foram operacionalizadas neste questionário foi semelhante ao que tem sido feito nos inquéritos internacionais e nacionais que sobre isto se debruçam. Assim sendo, a pergunta 2 diz respeito à componente emocional do sentimento de insegurança, o medo do crime, medido através de um conjunto de seis itens seguintes: Como se sente quando caminha sozinho na sua zona de residência durante o dia? Como se sente quando caminha sozinho na sua zona de residência durante a noite? Como se sente quando caminha sozinho na cidade do Porto durante o dia? Como se sente quando caminha sozinho na cidade do Porto durante a noite? Como se sente quando está sozinho na sua casa durante o dia? Como se sente quando está sozinho na sua casa durante a noite? As respostas podiam ir de 1 (muito inseguro) a 5 (muito seguro). Por sua vez, a pergunta 3 é relativa à perceção do risco de vitimação, que é a componente cognitiva do sentimento de insegurança. Esta variável é operacionalizada por três itens, nomeadamente: Pensa que poderá ser vítima de roubo sem violência durante o próximo ano? Pensa que poderá ser vítima de roubo com violência durante o próximo ano? Pensa que a sua casa poderá ser assaltada durante o próximo ano? Por último, este grupo é ainda constituído por um conjunto de questões que pretendem operacionalizar a componente comportamental do sentimento de insegurança (pergunta 4). Esta componente comportamental divide-se em três tipos de comportamentos: evitamento, proteção e autodefesa. A questão que se coloca é “Por razões de segurança (…)”
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 56 Comportamentos de evitamento: Evita contactos com determinadas pessoas? Evita determinadas ruas ou sítios? Evita sair à noite? Comportamentos de proteção: Tem fechaduras de segurança ou alarmes na habitação? Quando se ausenta de casa por 2 ou mais dias pede aos vizinhos para a vigiarem? Costuma deixar a luz acesa quando sai à noite? Comportamentos de autodefesa: Tem armas de defesa pessoal? Pratica desportos de defesa pessoal? As variáveis constituintes do sentimento de insegurança são as que vão ser explicadas no nosso estudo, isto é, as que vão sofrer alteração pelas variáveis independentes. Por este motivo, são fundamentais na investigação. 2.3.3. Grupo III: Medição da Personalidade a partir do EPQ-RS14 Este grupo é constituído pelo conjunto de itens do Eysenck Personality QuestionnaireRevised short form (EPQ-RS; Eysenck & Eysenck, 1998), que é a versão reduzida e revista do Eysenck Personality Questionnaire (EPQ). Mais concretamente, o EPQ-RS possui 48 itens, sendo que são 12 itens para cada escala: neuroticismo, psicoticismo, extroversão e desejabilidade social. A cada item, os respondentes assinalam “sim” ou “não”. Este questionário já tinha sido aplicado em outros estudos da Escola de Criminologia, designadamente no estudo do comportamento de condução dos portugueses. As questões de personalidade são fundamentais para o presente estudo, já que se procura perceber se esta se relaciona com as variáveis constituintes do sentimento de insegurança. Neste caso, as dimensões da personalidade são, então, as variáveis independentes que poderão provocar um efeito nas variáveis dependentes (medo do crime, perceção do risco de vitimação e adoção de comportamentos por razões de segurança. 14 No questionário em anexo, o grupo que aqui designamos por III encontra-se descrito como Grupo IV.
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 57 2.3.4. Grupo IV: Medição das emoções disposicionais a partir do DES-IV15 O presente grupo foi incluído após ter sido efetuada uma vasta revisão da literatura com o objetivo de se encontrar um instrumento de medição de emoções adequado para esta investigação. Com efeito, pretendia-se perceber se as emoções disposicionais (isto é, como os indivíduos geralmente se sentem) poderiam influenciar, por exemplo, a experiência de medo do crime dos sujeitos. O instrumento Differential Emotions Scale (DES-IV) pareceu o que mais validamente poderia ir de encontro aos objetivos, por permitir medir as emoções disposicionais e por ser um instrumento largamente utilizado na literatura. Após se ter encontrado e analisado o DES-IV, foi necessário proceder à tradução para a língua portuguesa de todos os itens, sendo que tal foi realizado a partir de reuniões entre investigadores da Escola de Criminologia16 , procurando-se aumentar a fiabilidade do instrumento. Foram seguidas as instruções dos investigadores que construíram este instrumento, mais concretamente no que toca à ordenação dos itens. 2.4. Procedimentos Este estudo foi concretizado através da aplicação de questionários a uma amostra de 205 indivíduos. Os questionários foram administrados de forma direta, isto é, através do autopreenchimento. Numa primeira fase, os questionários foram aplicados na Faculdade de Direito da Universidade do Porto a uma amostra de 99 indivíduos, maioritariamente estudantes. Os indivíduos foram recrutados através de anúncios que se realizaram nas salas de aula após autorização dos docentes correspondentes que foram contactados por correio eletrónico. Todos os questionários foram entregues dentro de um envelope e, após o preenchimento do mesmo, era pedido aos próprios sujeitos que o selassem por forma a garantir a confidencialidade. Numa segunda fase, em que se pretendeu diversificar a amostra em termos de idades, escolaridade e profissão, procurou-se aplicar os questionários em outros locais que não as Universidades. Uma amostra de 106 voluntários preencheu os questionários após estarem devidamente informados sobre os objetivos da investigação e o anonimato e a confidencialidade. Para garantir este a confidencialidade, os questionários foram entregues dentro de um envelope que, no fim, era selado com o questionário lá dentro. 15 No questionário em anexo, o grupo que aqui designamos por IV encontra-se descrito como Grupo V. 16 Mestre Josefina Castro e Professora Doutora Carla Cardoso.
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 58 A todos os sujeitos da amostra foi solicitado para não colocarem o seu nome no questionário, procurando-se, assim, garantir o anonimato das respostas. 2.5. Procedimentos de Análise estatística Nesta secção iremos dar conta do conjunto de procedimentos estatísticos que foram realizados para a posterior análise dos dados. Para tal, dividiremos esta parte em duas secções: 1) Análise estatística descritiva e 2) Análise estatística inferencial. Note-se que os dados foram tratados a partir do software IBM SPSS Statistics 20. 2.5.1. Procedimentos de análise estatística descritiva Para a análise da estatística descritiva, foram empregadas algumas medidas de tendência central e medidas de dispersão. No caso das variáveis quantitativas como a idade, os anos de escolaridade, o medo do crime, o risco de vitimação, entre outras – utilizaram-se medidas como a média amostral ( X ) e desvio padrão (S.D) para verificar a dispersão face ao valor médio. Para além disso em determinados casos, também se usaram percentagens para contabilizar o número de pessoas, por exemplo, que realizaram um determinado comportamento ou que foram vitimadas. No caso das variáveis qualitativas como o sexo e a vitimação ao longo da vida e nos últimos 12 meses, usaram-se, principalmente, percentagens. Com efeito, a sua natureza não permitia a realização de médias e, por isso, as percentagens foram a melhor forma de descrever estas variáveis. Foi também realizada a comparação de médias e/ou percentagens entre os indivíduos do sexo feminino, masculino e amostra total. Para verificar se havia diferenças entre os sexos nas variáveis a analisar, utilizaram-se testes paramétricos ou não paramétricos de acordo com a violação ou não dos pressupostos da normalidade das distribuições. Os testes paramétricos exigem que a forma da distribuição amostral seja conhecida, sendo que a Distribuição Normal é a mais utilizada. Por outro lado, os testes não paramétricos não exigem, à partida, o conhecimento da distribuição amostral (Marôco, 2011). Nos casos em que não foi possível validar as condições de aplicação dos testes paramétricos, utilizam-se testes não paramétricos. Para testar a Normalidade, usou-se o teste de Kolmogorov-Smirnov. Quando se compararam distribuições, utilizou-se o teste de Mann-Whitney, dada a violação dos pressupostos da normalidade.
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 59 Para a análise de algumas variáveis (e.g., medo do crime, perceção do risco de vitimação, adoção de comportamentos de segurança) em função de outras sociodemográficas como a idade ou a escolaridade, utilizou-se o teste de Mann-Whitney. Para tal, foi necessário, em primeiro lugar, dicotomizar os anos de escolaridade e a idade, sendo que o critério utilizado foi a média amostral. Por sua vez, no caso das variáveis categóricas, para testar se dois ou mais grupos independentes diferem relativamente a uma determinada característica, isto é, se a frequência com que os elementos da amostra se repartem pelas classes de uma variável qualitativa é ou não aleatória, utilizou-se o teste do Qui-quadrado ( X2 ). Para tal, foi necessário, primeiramente, efetuar as respetivas tabelas de contingências. Para medir a consistência interna do conjunto de itens que dão origem aos índices (por exemplo, índice do medo do crime), utilizou-se a medida do alfa (α) de Cronbach. 2.5.2. Procedimentos de análise estatística inferencial Para analisar a correlação entre variáveis, foram utilizadas medidas de associação (também designadas de coeficientes de correlação), que têm como objetivo quantificar a intensidade e direção da associação entre variáveis. Dependendo da normalidade ou não das distribuições, foram utilizados: o coeficiente de correlação de Pearson – que mede a intensidade e a direção da associação de tipo linear entre duas variáveis quantitativas – e o coeficiente de Spearman. O coeficiente de Spearman é utilizado quando não existe relação linear entre as variáveis, sendo, portanto, um coeficiente de correlação não paramétrico. Foram realizadas correlações entre as variáveis para a amostra total e em função dos sexos. Seguidamente, também se realizaram correlações parciais controlando para a variável desejabilidade social. Pelo facto de as correlações parciais existentes no software SPSS dizerem respeito às correlações com o coeficiente de Pearson, foi necessário criar uma Syntax para a realização das correlações parciais onde o coeficiente de correlação fosse Spearman, nos casos em que não fosse possível utilizar o coeficiente de correlação de Pearson. No caso das correlações entre variáveis dicotómicas (e.g., sexo) e variáveis quantitativas, a medida utilizada foi, em termos teóricos, o coeficiente Point Bi-Serial. Como o SPSS, na sua versão atual, ainda não contém uma forma de calcular este coeficiente, utilizou-se o coeficiente equivalente a este (Pearson nos casos referidos). Estas medidas de associação variam entre -1 < R< 1. Embora não exista uma regra para especificar a intensidade da associação entre as variáveis, aceitou-se o contributo de Cohen.
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 60 Assim sendo, as correlações que tiverem um valor entre -1 e –0.5 e entre 0.5 e 1 foram consideradas elevadas. As correlações entre -0.5 e -0.3 e entre 0.3 e 0.5 foram consideradas moderadas. E, por último, as correlações que tiverem um valor entre -0.3 e 0 e entre 0 e 0.3 foram consideradas fracas. Para verificar se a correlação existente entre as duas variáveis era significativa, atendeu-se ao valor do p-value resultante. Aceitou-se que a correlação era significativa quando o p-value fosse inferior a 0.05. Por último considerou-se importante a realização de regressões lineares com o objetivo de perceber que variáveis independentes explicam melhor as variáveis dependentes (medo do crime, perceção do risco de vitimação e adoção de comportamentos). Esta análise seguiu os seguintes passos. Em primeiro lugar, fez-se um primeiro modelo com as variáveis sociodemográficas e a vitimação. Depois, um modelo com as variáveis constituintes da personalidade e a desejabilidade social. Seguidamente, um terceiro modelo com as emoções disposicionais. Num último modelo, selecionou-se as variáveis que tiveram significância estatística na predição de cada uma das variáveis dependentes. Na análise dos modelos, atendeu-se a dois parâmetros principais: os valores do r (r, r2, r2 ajustado) e o valor do β. CAPÍTULO III – ESTUDO EMPÍRICO (RESULTADOS) Através do teste estatístico Kolmogorov-Smirnov foi constatado que nenhuma das variáveis do estudo segue uma Distribuição Normal (ver tabela no anexo I). Por este motivo, encontra-se violado o principal pressuposto da utilização dos testes paramétricos. Assim sendo, os testes que vão ser realizados serão os testes não paramétricos já referidos na secção “Procedimentos de análise estatística” (ponto 2.5). 1. Caracterização da amostra segundo os dados sociodemográficos e vitimação 1.1. Caracterização da amostra segundo o sexo, idade e anos de escolaridade A tabela seguinte (1) refere-se às características sociodemográficas dos participantes do estudo, mais concretamente no que concerne às médias e desvios padrões da idade e dos anos de escolaridade dos indivíduos. A nossa amostra é constituída por 205 indivíduos, sendo que 53% são do sexo feminino e 47% são do sexo masculino.
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 61 Tabela 1 Características sociodemográficas (sexo, idade e anos de escolaridade) dos participantes da amostra (n=205; sexo feminino: 53%; sexo masculino: 47%). A média de idades dos indivíduos é 31.58 anos, com um desvio padrão de 15.49. Como é possível verificar na tabela 1, a média de idades dos indivíduos do sexo masculino (X=34.26 anos) é superior à média de idades dos indivíduos do sexo feminino (X=28.82), sendo esta diferença estatisticamente significativa, dado pelo valor de p-value (0.002). A média de anos de escolaridade da amostra total é 13 anos, sendo que tanto para o sexo feminino como masculino esta média é aproximadamente igual. Com efeito, nas mulheres a média é 13.08 anos e, nos homens, é de 12.88 anos. Esta diferença não é estatisticamente significativa (p-value=0.78). 1.2. Caracterização da amostra segundo a vitimação A tabela 2 diz respeito aos resultados obtidos quanto à vitimação da amostra do estudo. A análise da vitimação é feita a partir de dois parâmetros: a prevalência cumulativa (vitimação ao longo da vida) e prevalência corrente (vitimação nos últimos 12 meses). As percentagens que se encontram na tabela 2 referem-se ao conjunto de pessoas que já foi vitimado, tanto ao nível da prevalência cumulativa como da prevalência corrente. Tabela 2 Prevalência cumulativa (alguma vez) e corrente (últimos 12 meses) de vitimação em função do sexo feminino, masculino e amostra total. Vitimação n Amostra Total n Sexo feminino n Sexo masculino p Prevalência cumulativa (%) 200 58.5% 104 52.9% 92 64.1% .111 Prevalência corrente (%) 174 35.6% 93 33.3% 78 37.2% .600 Assim, no que diz respeito à prevalência cumulativa (se alguma vez foi vítima de crime) verifica-se que 52.9% dos sujeitos do sexo feminino já foi vítima de pelo menos um dos crimes listados. Por sua vez, os indivíduos do sexo masculino apresentam uma percentagem mais alta (64.1%) em relação às mulheres. Todavia, esta diferença não é estatisticamente significativa, dado o p-value resultante do teste X2 ser de 0.111. Por sua vez, a prevalência corrente, isto é, a percentagem de indivíduos que foram vítimas de crimes nos últimos 12 meses também não é significativamente diferente nos dois sexos. Com efeito, no Amostra total Sexo feminino Sexo masculino N X SD n X SD n X SD P Idade 201 31.58 15.49 107 28.82 13.88 92 34.26 16.19 .002 Anos de Escolaridade 202 13.00 3.13 106 13.08 2.96 94 12.88 3.34 .780
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 62 sexo feminino a percentagem é de 33.3% e, no sexo masculino, a percentagem é de 37.2%. O p-value resultante do teste X2 é superior a 0.05, como está patente na tabela 2. 2. Caracterização da amostra segundo o sentimento de insegurança 2.1. Consistência interna Antes de procedermos à análise propriamente dita, importa referir que foram realizados testes de consistência interna para os índices de medo do crime e de perceção do risco de vitimação, utilizando-se a medida de α de Cronbach. Assim sendo, para o índice do medo do crime, foi encontrado um α de 0.86, que se considera elevado. Por sua vez, para o índice de perceção de risco de vitimação o α encontrado foi de 0.77, também elevado. 2.2. Sentimento de insegurança, variáveis demográficas e vitimação17 2.2.1. Sentimento de insegurança em função do sexo, idade e escolaridade Na próxima tabela encontram-se os resultados que concernem à caracterização da amostra relativamente às variáveis que constituem o sentimento de insegurança. Estes dados serão analisados em função do sexo, da idade e anos de escolaridade. Para a referida análise, foi necessário proceder à dicotomização da idade e dos anos de escolaridade. O critério utilizado foi a média amostral. Como vimos anteriormente (ponto 1.1) a média de idades da amostra foi de 31.58 anos e, portanto, arredondou-se o valor para 32 anos. Na variável anos de escolaridade a média da amostra era de 13 anos. Tabela 3 Médias e desvios padrões das variáveis constituintes do sentimento de insegurança (medo do crime perceção do risco de vitimação e adoção de comportamentos) em função do sexo, idade e escolaridade. Variáveis Amostra Total1 Sexo feminino Sexo masculino Idade (anos)2 Anos de escolaridade X±SD X± SD X±SD <32 ≥32 <13 ≥13 Medo do crime 2.35±.70 2.56±.72 2.11±.59 2.27±.63 2.47±.80 2.52±.81 2.24±.59 Perceção do risco 2.55±.73 2.59±.71 2.47±.75 2.42±.70 2.74±.73 2.71±.76 2.44±.69 Comportamento 3.24±1.37 3.46±1.32 3.01±1.42 2.99±1.37 3.70±1.27 3.43±1.45 3.12±1.31 1 Os índices do medo do crime e do risco de vitimação variam entre 1 e 5. A adoção de comportamentos varia entre 0 e 8. 2 Tanto para a idade e para os anos de escolaridade, o critério de dicotomização foi a média. 17 Para efeitos de formatação, a variável adoção de comportamentos por razões de segurança será designada, nas tabelas, como “Comportamento” e, por sua vez, a variável perceção do risco de vitimação como “Perceção do risco”.
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 63 Comecemos pela variável medo do crime. Através dos valores médios manifestos pela tabela 3, percebe-se, desde logo, que as mulheres têm um nível mais elevado de medo do crime (X=2.56) em relação aos homens (X=2.11). Dado que o p-value resultante do teste de Mann-Whitney é <.001, é possível concluir que a função de distribuição da variável medo do crime nos dois grupos de indivíduos (feminino e masculino) é diferente. Para além de se comparar o medo do crime em relação ao sexo, procedeu-se também à análise da variável em função de dois grupos de idades. Como já foi referido, a variável foi dicotomizada a partir da média amostral (32 anos), possibilitando a existência de dois grupos: indivíduos com idades inferiores a 32 anos e indivíduos com idades superiores a 32 anos. Constata-se que a média do medo do crime é superior nos indivíduos com idades mais elevadas (maior que 32 anos) do que nos indivíduos mais jovens, no entanto, apesar desta tendência, o valor de p não atinge o significado estatístico (p=0.08). Relativamente ao medo do crime em função da variável anos de escolaridade, é importante notar que os indivíduos com anos totais de escolaridade inferiores a 13 (valor correspondente à média amostral desta variável) têm níveis mais altos de medo do crime (X=2.52) em comparação com os indivíduos com mais anos de escolaridade (X=2.24), sendo esta diferença estatisticamente significativa (p=0.04). No que concerne à perceção do risco de vitimação verifica-se que o valor médio desta variável é superior nas mulheres (X=2.59) em relação aos homens (X=2.47). Todavia, o pvalue resultante do teste estatístico Mann-Whitney (p-value=0.20) indica-nos que a distribuição da variável risco de vitimação não difere nos dois sexos. Por sua vez, o valor médio desta variável é mais elevado nos indivíduos com idade superior a 32 anos (X=2.74) em relação aos sujeitos com idade inferior a 32 anos (X=2.42), atingindo esta diferença significado estatístico (p-value= 0.02). Tendo em conta a perceção do risco de vitimação em função da escolaridade, percebe-se, através dos resultados apresentados na tabela, que nos indivíduos com menor escolaridade (inferior a 13 anos) o valor médio de perceção do risco de vitimação é mais elevado (X=2.71) em relação aos indivíduos com escolaridade superior a 13 anos (X=2.44), sendo esta diferença estatisticamente significativa (p-value=0.01). Por último, relativamente à variável comportamental do sentimento de insegurança, conclui-se a partir da tabela que o valor médio da adoção de comportamentos (de evitamento, proteção e autodefesa) é significativamente superior nas mulheres (X=3.46) em relação aos homens (X=3.01), dado o valor de p-value (0.01). No que concerne à comparação da variável comportamento nos dois grupos de idades, verifica-se que o valor médio de adoção de comportamentos é superior nos indivíduos com idade superior a 32 anos (X=3.70) em relação
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 70 de .054, o que significa que está praticamente na zona de rejeição da hipótese de que a distribuição de desejabilidade social é igual em função dos dois sexos. No que diz respeito aos valores médios de desejabilidade social em função da idade, é visível que os indivíduos com idades superiores a 32 anos têm um valor médio bastante superior (X=8.12) em relação aos indivíduos com idades inferiores (X=5.61), sendo esta diferença estatisticamente significativa (p-value=.000). Por último, no que concerne aos anos de escolaridade, constata-se que a média da desejabilidade social em indivíduos com escolaridade inferior a 13 anos é superior (X=8.21) em relação aos indivíduos com escolaridade superior a 12 anos (X=5.61), atingindo esta diferença significado estatístico (p-value=.000). 3.3. Personalidade e vitimação Na próxima tabela (9) apresentam-se as médias das dimensões da personalidade e da desejabilidade social em função da vitimação. Os valores do p-value são resultantes do teste de Mann-Whitney. Tabela 9 Médias e desvios-padrões do neuroticismo, extroversão, psicoticismo e desejabilidade social em função da vitimação nos últimos 12 meses. Amostra total (X±S.D) Sexo feminino (X±S.D) Sexo masculino (X±S.D) NV V p NV1 V p NV V p Neuroticismo 5.14±2.96 4.97±2.99 .649 6.37±2.75 5.83±3.33 .385 3.67±2.51 4.22±2.33 .260 Extroversão 8.87±3.03 9.03±2.62 .889 8.15±2.96 9.23±2.54 .107 9.76±2.93 8.75±2.80 .030 Psicoticismo 2.64±1.44 2.46±1.49 .392 2.45±1.41 2.63±1.24 .607 2.90±1.46 2.26±1.77 .089 Desejabilidade Social 6.29±2.63 6.45±2.83 .555 6.48±2.51 6.90±2.49 .303 6.04±2.80 5.72±3.00 .642 Constata-se que, na amostra total, não existem diferenças estatisticamente significativas nas médias das dimensões para os indivíduos vitimados e não vitimados, dado o valor de pvalue ser superior a 0.05 para todas as variáveis. Depois, nos sujeitos do sexo feminino, também não se observam diferenças que atinjam o significado estatístico. Todavia, nos sujeitos de sexo masculino, os indivíduos que não foram vítimas têm uma média mais elevada no psicoticismo (X=2.26) em relação aos que não foram vitimados (X=2.90). Apesar de esta diferença não atingir o significado estatístico, o valor de p-value encontra-se perto da zona de não rejeição (p-value=0.089). Observa-se, ainda, uma diferença com significado estatístico (pvalue= 0.030) para a dimensão da personalidade extroversão onde, os indivíduos que não foram vítimas têm uma média de extroversão superior (X=9.76) em relação aos que foram vítimas nos últimos 12 meses (X=8.75).
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 71 4. Caracterização da amostra segundo as emoções disposicionais 4.1. Consistência interna A tabela com as emoções, itens que lhes deram origem e a consistência interna de cada escala encontra-se no anexo II. A escala da timidez (α=.811) e da auto-hostilidade (α=.807) têm os alfas mais elevados, seguidos da tristeza (α=.783), medo (α=.761), alegria (α=.688), interesse (α=.655) desprezo (α=.661), surpresa (α=.622), repulsa (α=.612) e a ira (α=.606). Por último, as escalas da vergonha (α=.559) e da culpa (α=.500) têm os alfas mais baixos. 4.2. Emoções disposicionais, sexo, idade e anos de escolaridade Passemos agora para a análise das médias e desvios padrões das emoções em função das variáveis demográficas sexo, idade e anos de escolaridade (tabela 10) Tabela 10 Médias e desvios padrões das emoções disposicionais em função do sexo, amostra total, idade e escolaridade. As médias das emoções variam entre 1 e 5. Amostra Total Sexo feminino Sexo masculino p1 Idade p Anos de escolaridade p X±SD X± SD X±SD - <32 ≥32 - <13 ≥13 - Interesse 3.23±.75 3.20±.80 3.27±.70 .36 3.38±.72 2.99±.76 .00 2.95±.67 3.39±.73 .00 Alegria 3.29±.67 3.26±.71 3.33±.64 .48 3.41±.64 3.11±.67 .00 3.08±.65 3.41±.65 .00 Surpresa 2.34±.69 2.43±.61 2.23±.75 .02 2.44±.65 2.18±.69 .00 2.15±.63 2.45±.69 .00 Tristeza 1.95±.77 2.18±.82 1.69±.61 .00 2.00±.77 1.88±.77 .12 1.90±.75 1.99±.78 .43 Ira 1.78±.60 1.84±.62 1.70±.56 .12 1.83±.64 1.68±.52 .23 1.71±.54 1.81±.63 .38 Repulsa 1.69±.64 1.75±.72 1.63±.53 .56 1.68±.69 1.72±.69 .91 1.70±.67 1.68±.61 .91 Desprezo 1.57±.66 1.54±.61 1.62±.72 .59 1.64±.73 1.47±.51 .38 1.47±.52 1.64±.72 .22 Medo 1.79±.73 1.99±.79 1.56±.57 .00 1.90±.73 1.62±.70 .00 1.64±.69 1.88±.74 .01 Vergonha 1.92±.68 2.02±.71 1.82±.63 .06 2.05±.71 1.71±.58 .00 1.68±.55 2.05±.71 .00 Timidez 1.82±.79 2.00±.89 1.65±.62 .01 1.98±.84 1.58±.62 .00 1.65±.64 1.93±.85 .03 Culpa 1.84±.60 1.85±.62 1.85±.58 .70 1.88±.60 1.78±.59 .50 1.81±.60 1.86±.60 .60 Autohostilidade 1.60±.72 1.73±.84 1.45±.53 .02 1.67±.76 1.48±.66 .06 1.47±.55 1.64±.74 .11 1 Os p-values apresentados na tabela são resultantes do teste de diferença de distribuições (Mann-Whitney). Consideram-se significativos abaixo de 0.05.
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 72 Em primeiro lugar, para a variável sexo, encontramos diferenças estatisticamente significativas nas médias das emoções surpresa, tristeza, medo, timidez e auto-hostilidade. Com efeito, em todas estas emoções referidas, o p-value é inferior a 0.05. No que diz respeito à emoção positiva surpresa, observa-se que a média desta é superior nas mulheres em relação aos homens. Na emoção negativa tristeza, a média é superior nas mulheres (X=2.18) em relação aos indivíduos do sexo masculino (X=1.69). Na emoção disposicional medo, também as mulheres têm médias mais elevadas (X=1.99) em relação aos homens (X=1.56). Seguidamente, na emoção timidez, novamente os sujeitos do sexo feminino têm uma média mais elevada (X=2.00) em relação aos homens (X=1.65). Por último, observa-se a mesma tendência para a emoção negativa de auto-hostilidade, onde as mulheres têm níveis mais elevados desta emoção em relação aos homens, sendo esta diferença, como já foi supra referido, estatisticamente significativa. Analisando agora as emoções em função da idade, constata-se que existem diferenças estatisticamente significativas para as emoções interesse, alegria, surpresa, medo, vergonha e timidez. Em relação às emoções positivas (interesse, alegria e surpresa), interessantemente verifica-se que os valores médios destas são superiores nos indivíduos com idades inferiores a 32 anos em relação aos indivíduos com mais de 32 anos, tal como se constata pela tabela. Todavia, o mesmo acontece nas emoções disposicionais negativas referidas. Senão vejamos. Para a variável medo, o valor médio nos indivíduos mais novos é de X=1.90, enquanto que nos indivíduos mais velhos é de X=1.62. Seguidamente, na emoção vergonha, o valor médio é superior nos indivíduos com menos de 32 anos (X=2.05) em relação aos indivíduos com mais de 32 anos (X=1.71). Na emoção timidez, também os indivíduos mais novos têm um valor médio mais elevado (X=1.98) em relação aos indivíduos mais velhos (X=1.58). Relativamente à análise das emoções em função dos anos de escolaridade, também se verificam diferenças estatisticamente significativas para as emoções interesse, alegria, surpresa, tristeza, desprezo, medo e timidez. Nas emoções positivas (interesse, alegria e surpresa), há uma tendência interessante, isto é, nos indivíduos com mais anos de escolaridade (superior a 13 anos) há um valor médio superior nestas emoções. Além disso, o mesmo acontece para as emoções negativas, isto é, a média de emoções negativas é superior nos indivíduos com mais anos de escolaridade em relação aos sujeitos com menos anos de escolaridade.
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 73 4.3. Emoções disposicionais e vitimação Com o objetivo de se completar a descrição da amostra segundo as emoções, importa observar a seguinte tabela onde se analisa as emoções de acordo com a vitimação (tabela 11). Ou seja, as médias e desvios-padrões das emoções para os indivíduos vitimados e não vitimados. Tabela 11 Médias e desvios padrões das emoções disposicionais em função da vitimação nos últimos meses para a amostra total, sexo feminino e sexo masculino. Emoções Amostra total (X±S.D) Sexo feminino (X±S.D) Sexo masculino (X±S.D) NV V p NV1 V p NV V p Interesse 3.27±.74 3.26±.75 .94 3.20±.79 3.35±.84 .33 3.36±.69 3.18±.66 .25 Alegria 3.36±.67 3.29±.67 .57 3.30±.69 3.30±.77 .82 3.44±.63 3.29±.57 .22 Surpresa 2.33±.70 2.38±.64 .44 2.38±.63 2.58±.58 .07 2.24±.78 2.18±.59 .90 Tristeza 1.97±.73 1.97±.84 .75 2.19±.71 2.26±.98 .83 1.68±.65 1.70±.55 .63 Ira 1.78±.60 1.81±.63 .86 1.87±.58 1.85±.72 .57 1.64±.58 1.77±.56 .26 Repulsa 1.66±.58 1.77±.74 .57 1.70±.64 1.90±.88 .50 1.62±.51 1.67±.56 .76 Desprezo 1.60±.69 1.58±.64 .92 1.56±.59 1.58±.70 .82 1.65±.58 1.58±.61 .88 Medo 1.78±.66 1.88±.86 .66 1.97±.69 2.13±.98 .66 1.51±.52 1.69±.66 .31 Vergonha 1.94±.71 1.97±.65 .64 2.11±.74 2.01±.66 .98 1.73±.60 1.94±.64 .33 Timidez 1.84±.83 1.88±.74 .51 2.05±.95 2.05±.82 .84 1.59±.57 1.75±.63 .15 Culpa 1.84±.59 1.89±.62 .64 1.87±.60 1.89±.68 .98 1.82±.59 1.93±.54 .27 Autohostilidade 1.57±.60 1.72±.97 .94 1.68±.63 1.98±1.21 .94 1.45±.56 1.48±.55 .69 A constatação que se pode realizar é a inexistência de diferenças estatisticamente significativas nos valores médios das emoções de acordo com os indivíduos que foram e que não foram vitimados. Com efeito, tal se verifica não só para a amostra total, mas também nos dois sexos. Na realidade, a única emoção em que o p-value se encontra próximo da zona de rejeição (p-value=.07) é na emoção surpresa e no sexo feminino. Mais concretamente, os indivíduos que foram vitimados têm um nível mais elevado de surpresa do que os que não foram vitimados. Porém, esta diferença não atinge o significado estatístico.
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 74 5. Relações entre variáveis Após termos caracterizado a amostra, importa agora percebermos as relações existentes entre as variáveis do estudo. Na apresentação dos resultados, destacaremos as correlações significativas. 5.1. Relação entre sentimento de insegurança e variáveis sociodemográficas A tabela em que se apresentam os dados das correlações entre as variáveis para a amostra total encontra-se no anexo III. Da mesma tabela, importa enunciar as correlações significativas encontradas. Assim, destaca-se a correlação positiva entre o medo do crime e a perceção do risco de vitimação (r=.49), entre o medo do crime e a adoção dos comportamentos de segurança (r=.35) e entre a perceção do risco de vitimação e a adoção de comportamentos de segurança (r=.22). Seguidamente, verifica-se também que o medo do crime correlaciona-se negativamente com os anos de escolaridade (r= -.23) mas não se correlaciona com a idade (r=.01). A perceção do risco de vitimação correlaciona-se positivamente com a idade (r=.17) mas negativamente com os anos de escolaridade (r= -.17). O mesmo se verifica com a adoção de comportamentos que se correlaciona positivamente com a idade (r=.17) mas negativamente com os anos de escolaridade (r= -.17). Por sua vez, o sexo correlaciona-se negativamente com o medo do crime (r= -.33) e com a adoção de comportamentos (r= -.16). Já o risco percebido não se correlaciona com o sexo19. Analisemos agora as correlações diferenciando o sexo feminino e masculino. Na tabela 12 encontram-se as correlações entre as dimensões de insegurança e as variáveis sociodemográficas para o sexo feminino. Observa-se que o medo do crime se correlaciona positivamente com a perceção do risco de vitimação (r=.41), com a adoção de comportamentos (r=.33) e, negativamente, com os anos de escolaridade (r= -.32). Ou seja, os indivíduos do sexo feminino mais medrosos são os que têm menos anos de escolaridade. Por sua vez, constata-se que a perceção do risco de vitimação não se correlaciona de forma estatisticamente significativa com a adoção de comportamentos no sexo feminino (r=.12), mas também não existe correlação entre a perceção do risco de vitimação e as variáveis sociodemográficas em análise (idade e anos de escolaridade). 19 Para realizarmos a correlação entre o sexo (variável dicotómica) e as dimensões do sentimento de insegurança utilizamos o coeficiente de correlação de Pearson que é equivalente ao coeficiente Point Bi-Serial rpb. Dado que o sexo feminino está categorizado como “1” e o sexo masculino como “2”, uma correlação negativa entre, por exemplo, o sexo e o medo do crime significa que os indivíduos do sexo masculino experienciam níveis mais baixos de medo do crime.
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 75 Tabela 12 Correlações entre as variáveis constituintes do sentimento de insegurança (medo do crime, perceção do risco de vitimação e comportamento) e as variáveis sociodemográficas para o sexo feminino. 1 2 3 4 5 1.Medo do crime - .41** .33** .14 -.32** 2.Perceção do risco - - .15 .12 -.11 3.Comportamento - - - .21* -.21* 4.Idade - - - - -.23* 5. Anos de escolaridade - - - - - *A correlação é significativa ao nível 0.05 (2-tailed) ** A correlação é significativa ao nível 0.01 (2-tailed) No que diz respeito aos comportamentos adotados pelos indivíduos do sexo feminino, verifica-se que existe uma correlação positiva entre estes e a idade (r=.21) mas negativa com os anos de escolaridade (r=-.21). Atentemos agora à seguinte tabela (13) onde se encontram as correlações que dizem respeito ao sexo masculino. Observa-se que a correlação entre o medo do crime e a perceção do risco de vitimação é positiva (r=.58), assim como a correlação entre o primeiro e a adoção de comportamentos por razões de segurança (r=.31). O medo do crime no sexo masculino correlaciona-se ainda de forma negativa com os anos de escolaridade (r= -.26) mas, tal como se verificou no sexo feminino, não existe correlação entre medo do crime e idade (r=.07). Ao contrário do que se verificou para o sexo feminino (inexistência de correlação entre perceção do risco de vitimação e adoção de comportamentos), essa correlação para o sexo masculino existe e é positiva (r=.26). Para além disso, a perceção do risco de vitimação correlaciona-se de forma positiva com a idade (r=.32), ou seja, os indivíduos mais velhos percecionam mais risco de vitimação, mas negativamente com os anos de escolaridade (r= -.27). Por sua vez, a adoção de comportamentos também se correlaciona de forma positiva com a idade (r=.24) e, portanto, os indivíduos do sexo masculino mais velhos adotam mais comportamentos, porém, não se encontra uma correlação entre adoção de comportamentos e os anos de escolaridade. Note-se que no sexo feminino existia uma correlação entre esta variável e os anos de escolaridade, que era negativa.
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 76 Tabela 13 Correlações entre as variáveis constituintes do sentimento de insegurança (medo do crime, perceção do risco de vitimação e comportamento) e as variáveis sociodemográficas para o sexo masculino. 1 2 3 4 5 1.Medo do crime - .58** .31** .07 -.26* 2.Perceção do risco - - .26* .32** -.27** 3.Comportamentos - - - .24** -.13 4.Idade - - - - -.39** 5. Anos de escolaridade - - - - - *A correlação é significativa ao nível 0.05 (2-tailed) ** A correlação é significativa ao nível 0.01 (2-tailed) 5.1.1. Relação entre sentimento de insegurança e variáveis sociodemográficas controlando para a desejabilidade social Dado que a desejabilidade social pode ser um fator que influencie a correlação entre as variáveis, importa agora atentar às seguintes tabelas nas quais se operaram as correlações parciais entre as variáveis anteriores (sentimento de insegurança e sociodemográficas) controlando para a desejabilidade social. Tabela 14 Correlações entre as variáveis constituintes do sentimento de insegurança (medo do crime, perceção do risco de vitimação e comportamento) e as variáveis sociodemográficas controlando para a desejabilidade social no sexo feminino. 1 2 3 4 5 1.Medo do crime - .37** .23* .02 -.22* 2.Perceção do risco - - .04 .01 -.00 3.Comportamento - - - .03 -.02 4.Idade - - - - -.05 5. Anos de escolaridade - - - - - *A correlação é significativa ao nível 0.05 (2-tailed) ** A correlação é significativa ao nível 0.01 (2-tailed) Atentando-se à tabela 14, verifica-se que quando se controlam as correlações entre as referidas variáveis para a desejabilidade social no sexo feminino, a correlação entre o medo do crime e a perceção do risco de vitimação mantém-se positiva (r=.37), assim como a correlação entre o medo do crime e a adoção de comportamentos (r=.23). A correlação entre o medo do crime e os anos de escolaridade mantém-se negativa (r=-.22). Por sua vez, a perceção do risco de vitimação não se correlaciona nem com a adoção de comportamentos nem com nenhuma das variáveis sociodemográficas, tal como já anteriormente acontecia. No entanto, se existia uma correlação positiva entre a adoção de comportamentos e a idade e uma
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 77 correlação negativa entre a adoção de comportamentos e os anos de escolaridade para o sexo feminino, estas deixam de existir após se controlar para a desejabilidade social. Tabela 15 Correlações entre as variáveis constituintes do sentimento de insegurança (medo do crime, risco de vitimação e comportamento) e as variáveis sociodemográficas controlando para a desejabilidade social no sexo masculino. 1 2 3 4 5 1.Medo do crime - .55** .29** -.06 -.14 2.Perceção do risco - - .25* .24* -.17 3.Comportamento - - - .22* -.09 4.Idade - - - - -.22* 5. Anos de escolaridade - - - - - *A correlação é significativa ao nível 0.05 (2-tailed) ** A correlação é significativa ao nível 0.01 (2-tailed) Por sua vez, atentando-se à tabela 15, constata-se que quando se controlam as correlações entre o sentimento de insegurança e as variáveis sociodemográficas para a desejabilidade social no sexo masculino, observam-se algumas alterações. Senão vejamos. Enquanto que a correlação positiva entre o medo do crime e o risco percebido e entre o primeiro e a adoção de comportamentos se mantém quase constante, a correlação que existia entre o medo do crime e os anos de escolaridade deixa de ter significado estatístico. Por sua vez, a corelação negativa entre a perceção do risco de vitimação e os anos de escolaridade deixa de ter significado estatístico. 5.2.Relação entre a personalidade e as variáveis sociodemográficas Atentemos à tabela 16 onde se encontram as correlações entre as dimensões da personalidade e as variáveis sociodemográficas. Vejamos as correlações significativas. Em primeiro lugar, através da tabela 16 observa-se que o neuroticismo se correlaciona de negativamente com a extroversão (r= -.29) com a idade (r= -.18) e, igualmente, de forma negativa com o sexo (r= -.36). A dimensão da personalidade “psicoticismo” não se correlaciona nem com as outras dimensões da personalidade nem com nenhuma das variáveis sociodemográficas. Por sua vez, verifica-se que a desejabilidade social se correlaciona com a idade (r=.39), o que significa que são os indivíduos mais velhos que respondem mais desejavelmente, e correlaciona-se negativamente com os anos de escolaridade, ou seja, os indivíduos com menos anos de escolaridade reportam mais desejabilidade social. Em último lugar, constata-se uma correlação negativa entre a desejabilidade social e o sexo, significando que os homens apresentam níveis mais baixos de desejabilidade social.
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 78 Tabela 16 Correlações entre as dimensões da personalidade, a desejabilidade social e as variáveis demográficas (idade e anos de escolaridade). 1 2 3 4 5 6 7 1.Neuroticismo - -.29** -.00 -.92 -.18* -.06 -.36** 2.Extroversão - - -.04 -.10 -.08 .12 .12 3.Psicoticismo - - - -.10 -.03 .02 .11 4.Desejabilidade Social - - - - .39** -.48** -.15* 5. Idade - - - - - - - 6. Anos de escolaridade - - - - - - - 7.Sexo - - - - - - - *A correlação é significativa ao nível 0.05 (2-tailed) ** A correlação é significativa ao nível 0.01 (2-tailed) 5.3.Personalidade e sentimento de insegurança Analisemos agora as relações existentes entre as dimensões da personalidade, a desejabilidade social e o sentimento de insegurança. A tabela com as correlações para a amostra geral encontra-se no anexo IV. Nesta tabela, verifica-se que o medo do crime se correlaciona positivamente o neuroticismo (r=.23) e com a desejabilidade social (r=.29). Por sua vez, a perceção do risco de vitimação correlaciona-se negativamente com o psicoticismo (r= -.15) e com a desejabilidade social (r=.27) Por último, a adoção de comportamentos correlaciona-se negativamente com o psicoticismo (r= -.28) e positivamente com a desejabilidade social (r=.30) Dado que uma das questões importantes do estudo é a relação entre a personalidade e o medo do crime e tendo-se averiguado uma correlação positiva entre o medo do crime e a personalidade, importa verificar que esta correlação é moderada para a desejabilidade social. Após ter-se realizado a correlação parcial entre neuroticismo e medo do crime controlando para a desejabilidade social, verificou-se que esta se manteve positiva e se tornou mais elevada (r= .25). 5.3.1. Relação entre personalidade e sentimento de insegurança para os dois sexos Relativamente aos indivíduos do sexo feminino (tabela 17), verifica-se a existência de uma correlação entre o medo do crime e a desejabilidade social (r=.29) mas a correlação que se encontrava entre o medo do crime e neuroticismo na amostra total aqui já não se observa. Por outro lado, a correlação positiva entre a desejabilidade social e a perceção do risco de
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 79 vitimação é positiva (r=.25), assim como a correlação entre a desejabilidade social e a adoção de comportamentos (r=.44). Tabela 17 Correlação entre sentimento de insegurança, dimensões da personalidade e desejabilidade social para o sexo feminino. Neuroticismo Extroversão Psicoticismo Desejabilidade Social Medo do crime .16 -.08 .12 .29** Perceção do risco .07 -.19 .03 .25* Comportamento -.15 .03 -.19 .44** *A correlação é significativa ao nível 0.05 (2-tailed) **A correlação é significativa ao nível 0.01 (2-tailed) Realizando agora a mesma análise para o sexo masculino, observam-se alguns dados relevantes (tabela 18). Com efeito, enquanto que no sexo feminino não existia uma correlação entre risco de vitimação e psicoticismo, no sexo masculino a correlação existente é negativa (r= -.29), tal significando que os indivíduos que têm níveis mais elevados de psicoticismo percecionam menos risco de vitimação no próximo ano. Tabela 18 Correlação entre sentimento de insegurança, dimensões da personalidade e desejabilidade social para o sexo masculino. Neuroticismo Extroversão Psicoticismo Desejabilidade Social Medo do crime .17 -.03 -.17 .28** Perceção do risco .06 -.07 -.29** .25** Comportamento .09 -.03 -.32** .11 *A correlação é significativa ao nível 0.05 (2-tailed) **A correlação é significativa ao nível 0.01 (2-tailed) Outro dado interessante que se observa é que também existe uma correlação negativa entre a adoção de comportamentos e o psicoticismo (r=-.32), ou seja, os indivíduos do sexo masculino que têm níveis mais elevados de psicoticismo são os que referem adotar menos comportamentos por razões de segurança. Mas será que estas correlações encontradas no sexo masculino se alteram quando se controla para a desejabilidade social? Após a realização das correlações parciais controlando para esta variável, percebe-se que a correlação entre a perceção do risco de vitimação e o psicoticismo se mantém quase constante (r= -.27) com significado estatístico (p-value=.012), assim como a correlação entre a adoção de comportamentos e o psicoticismo (r= -.31) igualmente com significado estatístico (p-value=.004).
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 86 (r=.49), a repulsa (r=.33), o medo (r=.47), a vergonha (r=.40), a timidez (r=.48), a culpa (r=.41) e a auto-hostilidade (r=.50). Tabela 24 Correlações entre as emoções disposicionais do DES-IV, as dimensões da personalidade e desejabilidade social. Correlação Neuroticismo Extroversão Psicoticismo Desejabilidade Social Interesse -.16* .22** .06 -.32** Alegria -.30** .36** .07 -.15* Surpresa .24** -.01 .18* -.19** Tristeza .65** -.24** .07 .06 Ira .49** -.16* .02 -.17* Repulsa .33** -.13 .02 .01 Desprezo .13 .01 .11 -.21** Medo .47** -.13 -.01 -.05 Vergonha .40** -.08 .00 -.15* Timidez .48** -.12 .02 -.03 Culpa .41** -.22** -.02 -.12 Autohostilidade .50* -.20** .08 .11 *A correlação é significativa ao nível 0.05 (2-tailed) **A correlação é significativa ao nível 0.01 (2-tailed) Extroversão e emoções disposicionais Em primeiro lugar, verifica-se que a extroversão está positivamente correlacionada com as emoções positivas, nomeadamente com o interesse (r=.22) e a alegria (r=.36). A extroversão correlaciona-se negativamente com a tristeza (r= -.24), a ira (r= -.16), a culpa (r= -.22) e a auto-hostilidade (r= -.20). Psicoticismo e emoções disposicionais Passando agora para a dimensão da personalidade psicoticismo, constatamos que há apenas uma emoção-traço com a qual esta dimensão se correlaciona: a surpresa. Esta correlação é positiva (r=.18), o que significa que os indivíduos com classificações mais elevadas no psicoticismo têm, também, níveis mais elevados de surpresa. Desejabilidade social e emoções disposicionais Por último, importa verificar as correlações existentes entre a desejabilidade social e as emoções disposicionais que constituem o DES-IV. Como é possível constatar, a desejabilidade social correlaciona-se negativamente com o interesse (r= -.32), com a alegria (r= -.15), com a surpresa (r= -.19), com a ira (r= -.17), com o desprezo (r= -.21) e com a vergonha (r= -.15). Dado que nos encontramos perante correlações negativas, tal significa que
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 87 a desejabilidade social e estas emoções disposicionais variam em sentido contrário. Interessantemente, a desejabilidade social e a emoção-traço medo não se correlacionam, enquanto que, como vimos anteriormente, a desejabilidade social e o medo do crime correlacionam-se positivamente. 6. Medo do crime, medo disposicional e vitimação nos últimos 12 meses Tendo-se verificado uma correlação positiva entre o medo do crime e o medo disposicional, importa agora verificar se existe uma interação entre o medo disposicional e a vitimação nos últimos 12 meses que possa, de alguma forma, alterar os níveis de medo do crime. Para testar esta hipótese, em primeiro lugar efetuou-se uma análise regressional tendo o medo do crime como variável dependente e o medo disposicional como variável independente em função da vitimação, isto é, separando os indivíduos que foram vítimas e os que não foram vítimas. Atentemos, aos resultados desta análise regressional. Para os indivíduos que nos últimos 12 meses não foram vítimas de crime, o r do modelo de regressão é de .21, enquanto que o r2 é de .07 e o r2 ajustado tem o valor de .07, que é bastante baixo. Quando temos em atenção os indivíduos que foram vítimas de crime nos últimos 12 meses, os resultados alteram-se significativamente. Assim, o r de explicação do modelo é de .46, enquanto que o r2 é de .21. Por sua vez, o r2 ajustado tem o valor de .20, e assim, bastante superior em relação ao anterior. Após se ter observado este resultado, isto é, nos indivíduos que foram vítimas a relação entre medo do crime e medo disposicional é amplificada em relação aos que não foram vítimas, importa agora verificar se existe uma interação entre o medo disposicional e a vitimação nos últimos 12 meses. Tendo-se efetuado uma análise univariada de variância, constatou-se que a interação entre a vitimação e a emoção medo não é estatisticamente significativa, porém, encontra-se perto da zona de rejeição (p-value=.088). Apesar deste resultado, a análise regressional foi demonstrou que existia uma amplificação do medo do crime quando os indivíduos foram vitimados nos últimos 12 meses. Para expressar estas diferenças, foi realizado um gráfico representativo das diferenças observadas (figura 4):
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 88 Figura 4 Gráfico demonstrativo do efeito do medo disposicional no medo do crime tendo em conta os indivíduos que foram vítimas e os que não foram vítimas de crime nos últimos 12 meses. Neste gráfico, a linha negra representa os indivíduos que foram vítimas de crime, enquanto que a linha azul representa os indivíduos que não foram vítimas. Através desta representação sugere-se que a reta que representa os indivíduos que foram vítimas tem uma inclinação positiva superior em relação aos que não foram vítimas (linha azul). Como já foi referido anteriormente, o r2 do modelo que tem a variável medo do crime como dependente nos indivíduos que foram vítimas é superior em relação r2 do modelo em que não foram vítimas. Em suma, este importante resultado indica que quando os indivíduos são vítimas de crime recentemente (nos últimos 12 meses), a relação entre o medo do crime e a emoção medo aumenta. 7. Variáveis preditoras do sentimento de insegurança Pretende-se agora perceber que variáveis independentes melhor predizem as variáveis dependentes. As variáveis dependentes são o medo do crime, a perceção do risco de vitimação e os comportamentos de evitamento, proteção e autodefesa, ou seja, aquelas que constituem o sentimento de insegurança. Assim, irá testar-se o poder preditivo de quatro modelos para cada variável dependente: 1) variáveis sociodemográficas e vitimação, 2) as dimensões da personalidade – neuroticismo, extroversão, psicoticismo – e a desejabilidade social 3) as
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 89 emoções disposicionais e 4) o modelo final, que resultará das variáveis cujo significado estatístico é significativo. 7.1.Variáveis preditoras do medo do crime Variáveis sociodemográficas e medo do crime Observa-se a partir da tabela 25 que 21% da variância total no medo do crime é explicada pelas variáveis independentes presentes no modelo de regressão linear. A par disto, constata-se que este modelo é significativo, dado que p é igual a .000. Tendo em conta o valor de p para cada variável, para um nível de significância de α=.05, conclui-se que apenas o sexo (p=.000) e os anos de escolaridade (p=.001) afetam significativamente a variável medo do crime. A vitimação encontra-se perto da zona de rejeição, porém, não atinge o significado estatístico na predição do medo do crime. Tabela 25 Predição do medo do crime a partir das variáveis sociodemográficas e vitimação (variáveis independentes). Variável B SE B β T p Sexo -.509 .098 -.375 -5.218 .000 Idade .001 .004 .024 .272 .786 Anos de escolaridade -.070 .020 -.296 -3.512 .001 Vitimação (12 meses) .176 .098 .124 1.791 .075 Nota.r= .478; r2=.229; r2ajustado=.210 (p=.000); Neste modelo, verifica-se que o sexo e os anos de escolaridade são as variáveis que apresentam uma maior contribuição relativa para a explicação do medo do crime no âmbito das variáveis sociodemográficas. Com efeito, o valor de β no sexo é de -.375, isto é, o sexo entra negativamente para a explicação do medo do crime, como aliás, já tinha sido concluído anteriormente. Por sua vez, o valor de β nos anos de escolaridade é de -.296, entrando, tal como o sexo, negativamente para a explicação do medo do crime. Dimensões da personalidade e medo do crime Através da tabela 26 constata-se que 11.3% da variância total do medo do crime é explicada pelas variáveis independentes e que este modelo tem significado estatístico (p=.000). Seguidamente, observa-se que há duas variáveis independentes que tiveram um efeito significativo na predição do medo do crime: o neuroticismo e a desejabilidade social.
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 90 Efetivamente, ambas, para um α=.05, tiveram um p=.000, ou seja, com significado estatístico. Por sua vez, o mesmo não aconteceu com o psicoticismo e a extroversão. Tabela 26 Predição do medo do crime a partir das dimensões da personalidade – neuroticismo, extroversão, psicoticismo – e desejabilidade social (variáveis independentes). Variável B SE B β T p Neuroticismo .052 .017 .226 3.086 .000 Extroversão -.002 .017 -.007 -.101 .920 Psicoticismo .000 .032 -.001 -.008 .993 Desejabilidade Social .075 .018 .298 4.192 .000 Nota.r= 365; r2=.133; r2 ajustado=.113, (p=.000) Neste modelo as variáveis que mais contribuíram para a explicação do medo do crime foram, em primeiro lugar, a desejabilidade social, que entre de forma positiva na explicação daquela variável (β= .298) e, seguidamente, o neuroticismo (β=.226) que também entre de forma positiva. Estes resultados já tinham sido averiguados aquando da realização das correlações que foram ambas positivas com o medo do crime. Emoções disposicionais e medo do crime Neste terceiro modelo (tabela 27) procura-se ver quanto da variância total do medo do crime é explicada pelas emoções disposicionais. Através do valor do r2 ajustado constata-se que as variáveis independentes explicam 19.8% da variância total. Tabela 27 Predição do medo do crime a partir das emoções disposicionais (variáveis independentes). Variável B SE B β T p Interesse -.212 .074 -.229 -2.845 .005 Alegria -.109 .085 -.104 -1.265 .207 Surpresa -.035 .083 -.035 -.425 .672 Tristeza .008 .099 .009 .085 .933 Ira -.001 .111 -.001 -.013 .990 Desprezo -.086 .076 -.081 -1.125 .262 Medo .384 .100 .404 3.835 .000 Culpa -.233 .100 -.201 -2.315 .022 Vergonha .095 .089 .094 1.072 .285 Timidez -.147 .079 -.167 -1.854 .065 Auto-Hostilidade .068 .081 .070 .834 .405 Repulsa .062 .086 .057 .718 .474 Nota.r= .495; r2= 245; r2 ajustado=.198, (p=.000) Este modelo tem significado estatístico (p=.000). Por sua vez, verifica-se que nem todas as emoções têm um efeito significativo no medo do crime, mas apenas algumas. Assim sendo,
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 91 para um α=.05, as variáveis com significado estatístico e que ajudam a explicar a variância são: o interesse (p=.005), o medo (p=.000) e a culpa (p=.022). Observa-se que neste modelo as variáveis que mais contribuem para a explicação do medo do crime são o medo disposicional (β=.404), que, como vimos anteriormente, se correlaciona positivamente com o medo do crime, o interesse, que entra negativamente para a explicação do medo do crime (β=-.229) e a culpa (β= -.201). Modelo de explicação final do medo do crime Vejamos agora o modelo final (tabela 28) constituído pelas variáveis independentes que tiveram um significado estatístico na predição do medo do crime. Nesta seguinte tabela, iremos então incluir como variáveis independentes o sexo, os anos de escolaridade, o neuroticismo e a desejabilidade social, o interesse, o medo e, por último, a culpa. Tabela 28 Predição do medo do crime a partir das variáveis que nos modelos anteriores tiveram significado estatístico, nomeadamente o sexo, os anos de escolaridade, o neuroticismo, a desejabilidade social, o interesse, a culpa e o medo. Variável B SE B β T p Sexo -.231 .093 -.177 -2.376 .014 Anos de escolaridade -.046 .016 -.216 -2.878 .004 Neuroticismo .016 .018 .075 .929 .354 Desejabilidade Social .018 .019 .073 .950 .343 Interesse -.166 .060 -.188 -2.775 .006 Medo .317 .072 .355 4.384 .000 Culpa -.254 .087 -.233 -2.923 .004 Nota. r=.553; r2= .306; r2 ajustado=.279 (p=.000) As variáveis independentes introduzidas neste modelo final explicam 27.9% da variância total do medo do crime, sendo que o modelo é estatisticamente significativo (p=.000). Verifica-se, além disso, que há um conjunto de variáveis que não tem significado estatístico para a predição do medo do crime, pois, tendo como α=.05, o p-value que apresentam é superior a .05, nomeadamente o neuroticismo (p=.354) e a desejabilidade social (p=.342). De resto, todas as variáveis têm significado estatístico na predição do medo do crime: o sexo (p=.014), os anos de escolaridade (p=.004), a emoção-traço interesse (p=.006), a emoção-traço medo (p=.000) e a emoção-traço culpa (p=.004). Ou seja, quando todas as variáveis independentes que, em modelos anteriores, tiveram significado estatístico na predição da variável dependente são colocadas num modelo final, o neuroticismo e a desejabilidade social deixam de ter poder preditivo. Para além disso, interessa notar que o medo disposicional é a variável que mais contribui para a explicação do medo do crime
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 92 (β=.355), seguido da culpa (β=-.233), anos de escolaridade (β=-.216), interesse (β=-.188) e o sexo (β=-.177). 7.2.Variáveis preditoras da perceção do risco de vitimação Importa agora percebermos que variáveis independentes são preditoras da perceção do risco de vitimação. Para tal, iremos realizar os mesmos procedimentos já efetuados para a variável medo do crime. Isto é, apresentaremos quatro modelos de regressão com quatro conjuntos de variáveis. Comecemos pelo primeiro, em que as variáveis independentes são as sociodemográficas e a vitimação. Variáveis sociodemográficas e perceção do risco de vitimação Através da tabela 29 podemos verificar que 7,9% da variância total da perceção do risco de vitimação é explicada pelas variáveis sociodemográficas e vitimação, sendo que este modelo é estatisticamente significativo (p=.002). Porém, nem todas as variáveis independentes têm um significado estatístico na predição do risco de vitimação. Com efeito, para um α=.05, apenas o sexo (p=.045) e a vitimação (.011) predizem a variável dependente. Tabela 29 Predição da perceção do risco de vitimação a partir das variáveis sociodemográficas e vitimação nos últimos 12 meses. Variável B SE B β T p Sexo -.222 .111 -.156 -2.00 .047 Idade .009 .005 .175 1.86 .065 Anos de escolaridade -.030 .022 -.123 -1.354 .178 Vitimação (12 meses) .286 .111 .192 2.571 .011 Nota. r=.318; r2= .101; r2 ajustado=.079 (p=.002) Para além disso, verifica-se que as variáveis que mais contribuem para a explicação do medo do crime são, em primeiro lugar, a vitimação nos últimos 12 meses (β=.192), a idade (β=.175) e, por último, o sexo (β=-.156). Dimensões da personalidade e perceção do risco de vitimação Passemos agora para os resultados da regressão linear em que se irá ter em conta as dimensões da personalidade enquanto variáveis independentes de predição do risco de vitimação (tabela 30).
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 93 Tabela 30 Predição da perceção do risco de vitimação a partir das dimensões da personalidade – neuroticismo, extroversão e psicoticismo – e desejabilidade social (variáveis independentes). Variáveis B SE B β T p Neuroticismo .021 .018 .086 1.142 .255 Extroversão -.016 .019 -.062 -.821 .413 Psicoticismo -.058 .035 -.120 -1.65 .101 Desejabilidade Social .064 .020 .236 3.244 .001 Nota. r= .297; r2= .088; r2 ajustado=.067 (p=.003) Verificamos que 6.7% da variância da perceção do risco de vitimação é explicada pelas variáveis independentes aqui apresentadas – as dimensões da personalidade (extroversão, psicoticismo e neuroticismo) e a desejabilidade social. De acordo com o valor do p-value (.003), este modelo tem significado estatístico. Todavia, nem todas as variáveis dependentes têm um poder preditivo, já que nem todas têm significado estatístico como é possível verificar. Com efeito, apenas a desejabilidade social, para um α=.05 tem significado estatístico (p=.001). É, por sua vez, também a desejabilidade social que tem uma maior contribuição para a explicação da perceção do risco de vitimação (β=.236) que entra positivamente, seguida do psicoticismo (β= -.120) que entra para o modelo de forma negativa na explicação daquela variável. Emoções disposicionais e perceção do risco de vitimação Constata-se, a partir dos resultados apresentados na tabela 31, que apenas 3% da variância total do risco de vitimação é explicada por este conjunto de variáveis independentes (emoções). Tabela 31 Análise de regressão linear para as variáveis independentes emoções disposicionais preditoras da perceção do risco de vitimação. Variável B SE B β T p Interesse -.171 .086 -.176 -1.985 .049 Alegria -.092 .098 -.085 -.941 .348 Surpresa .078 .096 .074 .816 .416 Tristeza .008 .114 .008 .068 .946 Ira .171 .128 .140 1.331 .185 Desprezo -1.60 .088 -.145 -1.827 .069 Medo .022 .115 .022 .189 .850 Culpa -.025 .116 -.021 -.218 .828 Vergonha -.026 .103 -.025 -.257 .798 Timidez .047 .092 .050 .508 .612 Auto-Hostilidade -.075 .094 -.074 -.797 .426 Repulsa .068 .100 .059 .679 .498 Nota. r=.296; r2=.088; r2 ajustado=.030 (p=.117)
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 94 Por outro lado, também se verifica, através do valor do p-value (p=.117), que é superior a .05, que este modelo não tem significado estatístico. A par disto, tendo em conta os valores de p-value registados na tabela para cada emoção, verifica-se que, excluindo o interesse (p=.049), nenhuma outra variável independente tem significado estatístico na predição do risco de vitimação. Repara-se que mesmo o interesse encontra-se na linha da não rejeição, já que, arredondando o valor, ficaríamos com um p-value de .05. Por o nosso modelo não ter significado estatístico, não iremos incluir esta variável no modelo final. Modelo final de explicação da perceção do risco de vitimação Neste modelo final incluímos as variáveis que tiveram significado estatístico na predição do risco percebido nos modelos anteriores (tabela 32). Tabela 32 Predição da perceção do risco de vitimação a partir das variáveis que nos modelos anteriores tiveram significado estatístico, nomeadamente o sexo, a vitimação nos últimos 12 meses e a desejabilidade social. Variável B SE B β T P Sexo -.131 .106 -.094 -1.232 .220 Vitimação (12 meses) .276 .109 .191 2.527 .012 Desejabilidade Social .051 .020 .195 2.556 .012 Nota. r=.295; r2=.087; r2 ajustado=.07 (p=.002) Neste modelo final podemos verificar que 7% da variância total da perceção do risco de vitimação é explicada pelas variáveis independentes introduzidas neste modelo – o sexo, a vitimação nos últimos 12 meses e a desejabilidade social. Neste modelo, que tem significado estatístico (p=.002), o sexo deixa de ter em efeito significativo no risco de vitimação, restando como preditoras a vitimação (p=.012) e a desejabilidade social (p=.012). Ou seja, são estas variáveis que têm um significado estatístico na predição da perceção risco de vitimação. Além disso, tendo em conta os valores de β, são as variáveis que têm mais importância na explicação desta variável – vitimação nos últimos 12 meses têm um β igual a .191, enquanto que a desejabilidade social tem um β igual a .195. 7.3.Variáveis preditoras da adoção de comportamentos por razões de segurança Variáveis sociodemográficas e adoção de comportamentos Tal como anteriormente foi realizado, comecemos pelo modelo onde se introduzem as variáveis sociodemográficas e a vitimação, passando depois para os seguintes modelos (tabela
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 95 33). Através da tabela constatamos que 8.6% da variância total da variável comportamentos é explicada pelas variáveis independentes (sociodemográficas e vitimação nos últimos 12 meses). Tabela 33 Predição da adpção de comportamentos a partir das variáveis sociodemográficas e vitimação nos últimos 12 meses. Variável B SE B β T p Sexo -.638 .206 -.240 -3.097 .002 Idade .027 .009 .274 2.922 .004 Anos de escolaridade -.005 .042 -.011 -.123 .902 Vitimação (12 meses) .361 .207 .130 1.742 .083 Nota. r=.329; r2= .108; r2 ajustado=.086 (p=.001) Além disso, sendo o valor de p=.001, podemos afirmar que este modelo tem significado estatístico. Por sua vez, as variáveis independentes sexo (p=.002) e a idade (.004) são as que contribuem para a predição dos comportamentos, para um α=.05. Verifica-se que também são estas as variáveis que mais contribuem para a explicação da adoção de comportamentos, dado o valor de β. Com efeito, a idade é a variável que mais contribui para a explicação da adoção de comportamentos (β =.274), entrando de forma positiva. Por sua vez, o sexo também explica a adoção de comportamentos, entrando de forma negativa para a explicação daquela variável (β= -.240). Apesar de não ter atingido o significado estatístico, a variável vitimação nos últimos 12 meses também parece relevante na explicação da adoção de comportamentos, entrando positivamente para a adoção de comportamentos (β= .130). Dimensões da personalidade e adoção de comportamentos As variáveis independentes introduzidas neste modelo explicam 10.2% da variância da adoção de comportamentos, sendo que este modelo atingiu o significado estatístico (.000). Tabela 34 Predição da adoção de comportamentos a partir das dimensões da personalidade – neuroticismo, extroversão, psicoticismo – e desejabilidade social. Variável B SE B β T p Neuroticismo .027 .034 .058 .782 .435 Extroversão .005 .035 .011 .150 .881 Psicoticismo -.192 .065 -.209 -2.932 .004 Desejabilidade Social .129 .036 .254 3.551 .000 Nota. r=.349; r2=.122; ; r2 ajustado=.102, (p=.000)
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 102 por exemplo, o medo disposicional, o que não acontece no nosso estudo. Apesar de não negarmos a possibilidade da primeira sugestão, a nossa visão para o resultado sucedido (correlação positiva entre desejabilidade social e as componentes do sentimento de insegurança) direciona-se para uma segunda explicação. Efetivamente, consideramos estas correlações como uma hipótese de que, na nossa amostra, face ao atual contexto de inseguranças mais gerais e problemáticas (a crise, o desemprego, a falta de perspetivas futuras, a instabilidade), os indivíduos utilizarem o crime (e o medo dele) como um bode expiatório para realizarem uma chamada de atenção para aquelas inseguranças mais gerais e atualmente sentidas. Com efeito, os indivíduos podem não necessariamente sentirem-se muito medrosos, anteciparem um risco elevado e adotarem comportamentos face ao crime mas sim à insegurança advinda de problemas transversais ao contexto português. Esta ideia não é nova. De facto, a hipótese de que o medo do crime não é, muitas vezes, medo do crime mas de inseguranças mais gerais, já foi avançada por outros autores que se incluem nas teorias da Sociedade do risco. Nestas teorias, o medo do crime é conceptualizado como uma expressão de um conjunto mais largo de sentimentos de insegurança ou de incerteza(s) sobre a vida (Doran & Burgess, 2012; Holloway & Jefferson, 1997; Lupton & Tulloch, 1999). Os autores destas teorias propõem que o medo do crime fornece uma saída para expressar sentimentos gerais de ansiedade que predominam no dia-a-dia. O crime torna-se um bode expiatório adequado para as inseguranças e ansiedades mais gerais (Hollway & Jefferson, 1997; Lupton & Tulloch, 1999). Numa sociedade de risco (Beck, 1992), existe um conjunto de riscos imprevisíveis e incontroláveis que afetam todos os indivíduos independentemente da posição social ou classe social. Pelo contrário, os riscos focados no discurso do medo do crime tendem a ter vítimas identificadas e ofensores identificados. Isto faz com que sejam conhecidos. É por isso que, segundo a literatura, os indivíduos não têm medo de crimes onde não haja uma vítima identificada nem um criminoso identificado (e.g., crimes de corrupção) (Hollway & Jefferson, 1997). Outros autores (Dammert & Malone, 2003) defendem que o medo do crime deve ser relacionado com outras inseguranças, dado que não abrange apenas o medo de atos criminais per se, mas é antes uma manifestação de inseguranças diárias mais largas, incluindo económicas, políticas e sociais. Partilhando nós também esta perspetiva, defendemos que, apesar do medo do crime ser indubitavelmente uma emoção (negativa) e ter uma dimensão eminentemente individual, também não deixa de ter uma componente social. Portanto, não depende apenas das nossas características individuais, mas da forma como o social é apreendido (e o que é apreendido). Com efeito, o medo do crime é uma reação
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 103 emocional que ocorre face à possibilidade de vitimação ou símbolos associados a esta. Estes símbolos são, por exemplo, dimensões contextuais do espaço, como as incivilidades, a falta de luminosidade, locais não familiares, mas também a simples presença de um estranho em locais isolados. Ou seja, o medo do crime, apesar de ser uma resposta individual, é uma resposta a um contexto social e cultural mais largo. Outro dado fundamental resultante da nossa investigação foi a relação encontrada entre o medo do crime e o medo enquanto emoção disposicional, medido através do Differential Emotions Scale (IV). Esta correlação positiva observou-se não só para a amostra total (r=. 25) mas também para o sexo feminino (r=.33) mas já não para o sexo masculino (r= .02). Assim, estes dados sugerem que os indivíduos do sexo feminino com tendência para experienciarem, geralmente, níveis mais elevados de medo (enquanto emoção disposicional) são também os que reportam níveis mais elevados de medo do crime. Este resultado manteve-se após se ter controlado a correlação para a desejabilidade social. Portanto, o nosso estudo vai de encontro ao de Chadee et al (2008) que encontrou uma relação entre a ansiedade e o medo do crime e também, parcialmente, com a teoria de Gabriel e Greeve (2008) que referiram a existência de uma relação entre o medo do crime situacional e o medo do crime disposicional. Para além desta correlação positiva entre o medo do crime e a emoção disposicional medo verificou-se que quando os indivíduos foram vitimados recentemente (no presente estudo, últimos 12 meses) a relação entre o medo do crime e o medo disposicional é amplificada em relação aos indivíduos que não foram vítimas. Apesar de não se ter encontrado uma interação entre medo disposicional e experiências de vitimação que atingisse o significado estatístico, as análises regressionais demonstraram a existência de diferenças. Com efeito, para os indivíduos que nos últimos 12 meses não foram vítimas de crime, o r2 ajustado do modelo de regressão foi de .07. Quanto nos focamos nos sujeitos que foram vítimas de crime nos últimos 12 meses, o r2 ajustado do modelo passa para .20, sendo significativo. Qual a razão para esta amplificação dos níveis de medo do crime no nosso estudo? Uma sugestão que podemos avançar para este resultado obtido é que o facto de os indivíduos não terem sido vítimas de crime recentemente, faz com que o medo da vitimação em específico não esteja relacionado com as características disposicionais, justamente por estes indivíduos não terem tido essa experiência de vitimação. Todavia, será de esperar que os indivíduos que já foram vítimas e, principalmente, se essa vitimação foi recente, o medo do crime que sentem irá correlacionar-se com o medo disposicional. Assim, a relação entre o que somos disposicionalmente e o medo do crime não é imutável e invariante: pode depender das nossas experiências, entre elas as de vitimação.
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 104 Além de termos estudado o medo do crime, a perceção do risco de vitimação e a adoção de comportamentos de segurança enquanto variáveis que se correlacionavam com outras (sociodemográficas, personalidade e emoções disposicionais), operamos um conjunto de procedimentos estatísticos que permitiram ver que variáveis melhor prediziam as componentes do sentimento de insegurança. Os resultados obtidos foram, em parte, de encontro ao que já era esperado e ao que se tem encontrado na literatura. Com efeito, pudemos constatar que as variáveis independentes que melhor predisseram o medo do crime foram o sexo, os anos de escolaridade e as emoções disposicionais como o interesse, o medo e a culpa. Neste modelo, que procurou conjugar as diferentes variáveis independentes em estudo, verificamos que a personalidade não foi uma variável que explicou o medo do crime de forma estatisticamente significativa. Todavia, consistentemente, o sexo e os anos de escolaridade tiveram um poder explicativo do medo do crime, a par do medo disposicional. O que nos surpreendeu foi o facto de as emoções interesse e culpa entrarem no modelo de forma negativa enquanto preditoras da componente emocional do sentimento de insegurança. Quanto à variável interesse, torna-se difícil encontrar uma explicação consistente para o facto de os indivíduos com disposição para experienciar menos interesse serem os que reportam mais medo do crime. No entanto, uma explicação possível poderia ser a de o facto dos indivíduos que revelam maior interesse serem indivíduos que têm prazer em explorar novos ambientes e, logo, são menos adversos ao risco. Sendo menos adversos ao risco, poderão, então, ter níveis menos elevados de medo do crime. Na nossa amostra, encontramos uma correlação negativa entre a emoção disposicional interesse e a perceção do risco (r= -.20). Tal significa que os indivíduos que experienciam, geralmente, mais interesse, são indivíduos que percecionam menos risco de vitimação. Para além disso, apesar de o risco ser uma componente cognitiva e o medo do crime ser uma componente emocional, a verdade é que estas dimensões se correlacionam positivamente na amostra (r= .49). Todavia, esta explicação para a correlação negativa entre interesse disposicional e medo do crime é apenas sugestiva e necessita de ser testada empiricamente. Por sua vez, a culpa também entrou negativamente para a explicação do medo do crime. Uma explicação que poderá ser sugerida tem a ver com o facto de, apesar de a culpa ser uma emoção negativa (assim como o medo), são emoções de ordem diferente. Isto é, enquanto que a culpa é uma emoção que nos responsabiliza face ao que nos acontece, o medo do crime é uma emoção “orientada para o outro/exterior”. Isto é, os indivíduos têm medo do crime, medo do “outro” que não está sob o seu controlo. Por esse motivo, quanto mais os indivíduos tendem a culpar-se a si pelo o que acontece, isto é, quanto
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 105 mais se responsabilizam a eles próprios e sentem que a situação está por eles controlada, menos medo do crime (do que não podem controlar) poderão sentir. Porém, novamente, esta explicação é meramente sugestiva, necessitando de ser testada empiricamente. Por sua vez, as variáveis que tiveram poder preditivo na perceção do risco de vitimação foram as seguintes: vitimação nos últimos 12 meses e a desejabilidade social. Assim, constatou-se que o facto de se ter sido vitimado nos últimos 12 meses explica os níveis mais elevados de perceção do risco de vitimação. Todavia, a par disto, o risco percebido também é explicado pela desejabilidade social. Por último, as variáveis independentes que tiveram um importante poder preditivo na adoção de comportamentos foram o psicoticismo e a desejabilidade social. A partir dos dados obtidos no presente estudo propõe-se um modelo de explicação que sumarie o sentimento de insegurança. Atentemos ao seguinte esquema (figura 5). Como se verifica no modelo proposto, diferentes variáveis independentes explicam cada uma das variáveis dependentes do nosso estudo. Além das conclusões referidas anteriormente, destaca-se uma muito importante: apesar de estas três variáveis fazerem parte de um constructo mais largo e de se correlacionarem entre si, elas não se confundem, pelo facto de Vitimação corrente Emoção disposicional: Medo Emoção disposional: Culpa Emoção disposicional: Interesse Psicoticismo Comportamentos de segurança Risco percebido Medo do crime Anos de escolaridade Desejabilidade social Sexo -.28 r=.373; r2=.120 -.33 -.23 .30 .27 .17 -.28 -.02 .25 r=.295; r2=.012 r=.553; r2=.279 Sentimento de insegurança Figura 5 Esquema exemplificativo do modelo final proposto de explicação das variáveis constituintes do sentimento de insegurança. Os valores das setas referem-se às correlações entre as variáveis.
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 106 haver diferentes variáveis a explicar cada uma destas componentes. Por este motivo, importa sempre, para efeitos de investigação científica, separar e definir cada um destes três componentes, mesmo fazendo parte de um constructo mais largo. Mas, apesar de estes resultados que consideramos relevantes, a presente investigação não está isenta de críticas. Há, na comunidade científica, um amplo debate sobre a forma de operacionalização das componentes do sentimento de insegurança, principalmente no que diz respeito à componente emocional (Ferraro & LaGrange, 1987; Farrall et al., 1997; Gray et al., 2008; Farrall & Gadd, 2004; Jackson, 2005). A principal crítica que tem sido realizada à medição do medo do crime é o facto de muitos estudos utilizarem apenas um item em que se questiona “como se sente ou sentiria a caminha sozinho no seu bairro à noite?”. Recentemente, a operacionalização desta dimensão tem vindo a ser melhorada, utilizando-se um número maior de itens para ter em conta a sua complexidade. Todavia, os autores referidos também chamam a atenção para o facto de aquele tipo de questões não referir, sequer, o termo “medo” e, portanto, coloca-se a dúvida de estar a medir, efetivamente, uma componente emocional. A verdade é que tem sido a forma de medir esta componente e é forma de operacionalização utilizada pelos inquéritos internacionais de vitimação como o International Crime Victims Survey (ICVS). Na nossa investigação optamos por utilizar um conjunto de seis itens baseados nos inquéritos internacionais de vitimação, em que se questionou como é que os indivíduos se sentem quando caminham sozinhos de noite e dia na sua zona de residência, de noite e de dia na cidade do Porto e nos mesmos espaços temporais mas dentro das suas habitações. A consistência interna do índice do medo do crime foi elevada (α=.86). Em investigações futuras, poderá optar-se pela utilização de novas medidas do medo do crime em que seja possível, tal como referem autores como Gray et al., (2008) ter em conta a frequência e a intensidade dos episódios emocionais de medo do crime. Outro aspeto que sugerimos em termos de metodologia é relativamente ao tamanho da amostra. Assim, consideramos necessária a replicação e extensão do estudo a amostras mais elevadas e diversificadas. Na nossa investigação, foi feito um esforço para a diversificação da amostra. Com efeito, tal como foi explicado ao longo da dissertação, numa primeira fase a amostra era constituída apenas por estudantes de várias Faculdades da Universidade do Porto. Seguidamente, o mesmo inquérito foi aplicado a indivíduos com ouras idades e profissões, no sentido de diversificarmos a amostra, o que foi uma mais-valia para o presente estudo. O principal objetivo foi garantir que os resultados obtidos não fossem devido às características da amostra, mas sim à verdadeira relação entre as variáveis dependentes e independentes, o
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 107 que nos remete para a validade interna. Mesmo assim, consideramos que num próximo estudo é importante aumentar o tamanho da amostra e diversificá-la o mais possível. Em termos de validade das conclusões estatísticas, foram realizadas opções metodológicas com vista a garanti-la. Por exemplo, procedeu-se à verificação da potencial violação dos pressupostos de normalidade para cada variável, por forma a perceber se era possível utilizar testes paramétricos. Como as variáveis não seguiram uma distribuição normal usaram-se testes não paramétricos. Todavia, as regressões lineares são métodos estatísticos em que se pressupõe a normalidade das distribuições, o que no nosso estudo não aconteceu, como já foi referido. No entanto, de acordo com o Teorema do Limite Central, para uma amostra superior a 30 indivíduos, a distribuição das médias amostrais pode ser aproximada por uma distribuição normal. Assim, considerou-se relevante utilizar esse método, com o objetivo de verificar que variáveis independentes melhor prediziam as variáveis dependentes (medo do crime, risco percebido e adoção de comportamentos de segurança). Este procedimento foi fundamental para consolidar a análise que pretendíamos realizar. Por último, é importante ainda criticar o facto de algumas variáveis terem uma consistência interna aquém do necessário para podermos garantir completamente a validade das conclusões estatísticas. Mais concretamente, como foi verificado ao longo do trabalho, algumas emoções disposicionais medidas com o DES-IV tiveram baixos alfas de Cronbach (e.g., a culpa e a vergonha), assim como a escala de psicoticismo medida através do EPQ-RS (α=.37). No que respeita ao psicoticismo, a verdade é que a generalidade dos estudos que utiliza esta dimensão tem obtido baixa consistência interna para aquela escala. Por exemplo, um estudo de Francis, Brown & Philipchalk (1992) encontrou baixos coeficientes alfa de Cronbach tanto para os homens (α= .33) como para as mulheres (α= .52). Outro estudo de Tiwari, Singh e Singh (2009) encontrou um nível alfa igualmente baixo (α= .24) para o psicoticismo. Relativamente às emoções disposicionais referidas, enquanto que nosso estudo o alfa de Cronbach para a emoção culpa foi de .55, no estudo de Izard e colaboradores (1993) foi de .73. Por sua vez, o alfa de Cronbach para a emoção vergonha na nossa investigação foi de .56, relativamente mais baixa do que a encontrada por Izard e colaboradores (1993) no estudo referido (α=.60). Pretende-se agora fornecer algumas pistas de investigação para o futuro. Em primeiro lugar, consideramos relevante aprofundar a componente emocional do sentimento de insegurança, ou seja, o medo do crime. Para estudar esta componente, consideramos importante ir além dos instrumentos que vulgarmente são utilizados na sua medição
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 108 (designadamente os inquéritos), utilizando outro tipo de metodologias que não têm sido aplicadas a esta área, como os instrumentos da neuropsicofisiologia. Neste contexto de laboratório, apesar de ser uma situação mais artificial, é possível tomar controlo sobre as variáveis e, portanto, aumentar a validade interna. É também exequível induzir emoções através de diferentes estímulos previamente preparados e passíveis de serem manipulados. Numa investigação futura pretendemos construir uma base de dados de fotografias de contexto urbano de diferentes condições: baixa luminosidade, elevada luminosidade, diferentes níveis de incivilidades físicas, entre outros aspetos contextuais. Esta base de dados segue a ideia e procedimentos de Lang (1980) e Lang et al., (2005) que construiu o International Affective Picture System (IAPS), uma base de dados de fotografias de diferentes níveis de valência, dominância e intensidade. Nesse futuro estudo, mediante um conjunto de contextos urbanos representados, será possível medir as reações neuropsicofisiológicas através de diferentes índices tais como a atividade eletrodérmica da pele, o ritmo cardíaco e os potenciais evocados. Poderá então estudar-se que tipos de características ou pistas ambientais desencadeiam níveis mais elevados de medo e, inclusivamente, se este medo é mediado por outras variáveis individuais como a personalidade e as emoções disposicionais. Por exemplo, será que os indivíduos com níveis mais elevados de emoção disposicional medo têm reações emocionais mais elevadas a um determinado contexto em relação a indivíduos com níveis mais baixos de emoção disposicional medo? Seria uma importante questão para tentar responder. Por outro lado, consideramos também importante o uso de metodologias mistas que complementassem as metodologias quantitativas do presente estudo, designadamente metodologias qualitativas para estudar dimensões individuais e contextuais de onde emergem sentimentos, emoções, perceções, ideias e significados. Com efeito, através de uma abordagem qualitativa, as emoções são situadas nos detalhes das circunstâncias no decorrer da vida dos indivíduos, percebendo-se o significado e a importância que estas situações têm para a experiência do medo do crime. Através das metodologias qualitativas, seria importante perceber o significado que os indivíduos atribuem às experiências de vitimação diretas e indiretas e o impacto que estas têm no sentimento de insegurança. Podia também explorar-se se o medo do crime é uma reação frequente e intensa na vida dos sujeitos e a importância que aquele tem no quotidiano dos indivíduos. Por outro lado, também seria relevante explorar a questão já lançada previamente acerca do medo do crime enquanto um elemento que poderá representar, face ao contexto atual, um conjunto de inseguranças mais gerais e preocupantes
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 109 nas vidas dos sujeitos. Vários investigadores têm utilizado métodos qualitativos para estudar o o sentimento de insegurança (Stanko, 1990, Taylor, 1996 cit. Pain, Williams & Hudson, 2000; Koskela & Pain, 2000; Hollander, 2001). Por último, importa referir que a presente dissertação pretendeu fornecer novas contribuições para a área do sentimento de insegurança, estudando objetos que, apesar de largamente explorados na literatura (personalidade e emoções) não têm sido associados às dimensões do sentimento de insegurança. No entanto, mais do que a importância de termos constatado os resultados já discutidos, é a relevância de novas questões terem surgido e que são suscetíveis de serem estudadas. Por exemplo, porque é que apenas existe uma correlação entre psicoticismo e risco percebido/psicoticismo e adoção de comportamentos nos indivíduos do sexo masculino? E porque é que apenas nas mulheres se verifica a correlação entre o medo disposicional e o medo do crime? Como é que podemos explicar a correlação consistentemente observada entre o sentimento de insegurança e a desejabilidade social? O medo do crime é efetivamente uma emoção com manifestações psicofisiológicas face a determinados contextos ou é uma emoção racionalizada pelos sujeitos no momento de responderem aos inquéritos? Muitas questões ficam por responder. Mas, como diria Claude Bernard, as hipóteses lançadas são férteis. E estas, por sua vez, são o motor da investigação científica que, aliado a um espírito crítico, humilde e curioso, sem a pretensão da explicação definitiva das coisas, poderá contribuir para a complexificação e compreensão do objeto de estudo em causa, tendo sido esse, indubitavelmente, o nosso desígnio na presente investigação.
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Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 121 ANEXOS Anexo I: Resultados do teste de normalidade (KS) para as variáveis do estudo Kolmogorov-Smirnov Variáveis Statistic Df p-value Idade .237 175 .000 Anos de escolaridade .197 175 .000 Medo do crime .099 175 .000 Risco de vitimação .119 175 .000 Comportamentos .153 175 .000 Neuroticismo .153 175 .000 Extroversão .166 175 .000 Psicoticismo .137 175 .000 Desejabilidade Social .098 175 .000 Interesse-traço .104 175 .000 Alegria-traço .154 175 .000 Surpresa-traço .127 175 .000 Tristeza-traço .134 175 .000 Ira-traço .135 175 .000 Desprezo-traço .195 175 .000 Medo-traço .147 175 .000 Culpa-traço .125 175 .000 Vergonha-traço .125 175 .000 Auto-hostilidade traço .224 175 .000 Repulsa-traço .181 175 .000
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 122 Anexo II: Itens de cada emoção disposicional do Differential Emotions Scale (IV) e o valor dos alfas de Cronbach que se referem à consistência interna. Fator Α Conteúdo dos itens: com que frequência sente que Interesse .655 Com que frequência sente que o que está a fazer ou ver é interessante Com que frequência se sente alerta, curioso, excitado com algo Com que frequência sente que está tão interessado no que está a fazer que fica absorvido nisso Alegria .688 Com que frequência se sente alegre como se tudo estivesse a correr à sua maneira e tudo é "cor de rosa" Com que frequência se sente feliz Com que frequência se sente satisfeito com alguma coisa Surpresa .622 Com que frequência se sente surpreendido quando algo acontece de repente que não estava à espera Com que frequência se sente espantado como se não pudesse acreditar no que está a acontecer por ser pouco habitual Com que frequência sente que algo de inesperado ocorre Tristeza .783 Com que frequência se sente triste e sombrio com vontade de chorar Com que frequência se sente triste, em baixo, desanimado Com que frequência se sente desencorajado como se não conseguisse fazer algo, como se nada estivesse a correr bem Ira .606 Com que frequência sente como se estivesse a gritar com alguém ou bater em alguma coisa Com que frequência se sente chateado com alguém Com que frequência se sente zangado, irritado, aborrecido Repulsa .612 Com que frequência sente que algo está tão estragado que poderia fazê-lo sentir-se mal disposto Com que frequência se sente enojado como se algo o esteja a repugnar Com que frequência sente como se algo lhe cheirasse mal e tivesse um sabor desagradável Desprezo .661 Com que frequência sente que alguém é inferior, que não merece que perca o seu tempo Com que frequência sente que alguém não serve para nada Com que frequência sente que é superior a alguém Medo .761 Com que frequência se sente assustado, desconfortável, como se alguma coisa o fosse prejudicar Com que frequência se sente com medo, muito tenso, como se estivesse em perigo Com que frequência se sente receoso, inseguro e inquieto Culpa .550 Com que frequência se sente como se devesse ser censurado por algo Com que frequência se sente como se tivesse feito algo de errado Com que frequência de sente arrependido de algo que tenha feito Vergonha .559 Com que frequência se sente embaraçado se alguém o vê a cometer um erro Com que frequência se sente que os outros se estão a rir de si Com que frequência sente que os outros olham sempre para si quando algo corre mal Timidez .811 Com que frequência se sente envergonhado, embaraçado Com que frequência se sente tímido como se quisesse esconder Com que frequência se sente acanhado como se não quisesse ser visto AutoHostilidade .807 Com que frequência se sente farto de si próprio Com que frequência se sente chateado consigo próprio Com que frequência sente que já não consegue tolerar-se a si próprio
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 123 Anexo III: Correlações entre as variáveis constituintes do sentimento de insegurança e a idade, sexo e anos de escolaridade para a amostra total. 1 2 3 4 5 6. 1.Medo do crime - .49** .35** .01 -.23** -.33** 2.Risco de vitimação - - .22** .17* -.17* -.08 3.Comportamento - - - .17* -.17* -.16* 4.Idade - - - - -.32** - 5. Anos de escolaridade - - - - - - 6.Sexo - - - - - - *A correlação é significativa ao nível 0.05 (2-tailed) ** A correlação é significativa ao nível 0.01 (2-tailed) Anexo IV: Correlações entre as variáveis medo do crime, perceção do risco de vitimação e comportamento e as dimensões da personalidade. 4 5 6 7 1.Medo do crime .23** -.10 -.06 .29** 2.Risco de vitimação .03 -.13 -.15* .27** 3.Comportamento .03 -.03 -.28** .30** 4.Neuroticismo - -.29** .00 -.02 5.Extroversão - - -.04 -.10 6.Psicoticismo - - - -.10 7.Desejabilidade Social - - - - *A correlação é significativa ao nível 0.05 (2-tailed) **A correlação é significativa ao nível 0.01 (2-tailed)
Sentimento de Insegurança, Personalidade e Emoções Disposicionais: que relações? 124 Anexo VI: Questionário
Caracterização Pessoal 3. Situação Profissional Empregado por conta própria Empregado por conta de outrem Desempregado Reformado/Pensionista Estudante Outra. Qual? Sim Não A Frequentar: Ano 5. Curso Superior 4. Habilitações Literárias: anos de escolaridade concluídos 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 6. Idade: A preencher pelos serviços Nunca Raramente Por Vezes Quase todos os dias Todos os dias 8. Se vive fora da Cidade do Porto, com que frequência costuma ir à Cidade do Porto, durante o dia? Nunca Raramente Por Vezes Quase todos os dias Todos os dias 9. Se vive fora da Cidade do Porto, com que frequência costuma ir à Cidade do Porto, durante a noite? 7. Onde é que reside a maior parte do tempo? Cidade do Porto Outra Cidade que não a do Porto. Não reside em nenhuma cidade. A preencher pelos serviços A preencher pelos serviços Grupo II Para fins de tratamento estatístico, gostaria que me dissesse: 1. Sexo F M A preencher pelos serviços 2. Profissão: 10. Como é que se desloca para fazer o trajecto entre a sua casa e o seu emprego/escola? Motorizada/Mota/Bicicleta Carro como condutor Carro como passageiro Transportes públicos "A pé" Nunca Raramente Por Vezes Quase Todos os Dias Todos os Dias Nunca Raramente Por vezes Quase todos os diasTodos os dias Nunca Raramente Por vezes Quase todos os diasTodos os dias Nunca Raramente Por vezes Quase todos os diasTodos os dias Nunca Raramente Por vezes Quase todos os diasTodos os dias Nunca Raramente Por vezes Quase todos os diasTodos os dias Concelho: Concelho: Draft
1. Já foi vítima de algum dos seguintes crimes? Indique a altura do dia em que o último crime aconteceu Crime Se sim, nº total de vezes no último ano Sim Não Roubo de algum objecto do interior do seu veículo Roubo do seu veículo Alguém tentou roubar alguma coisa da sua casa Alguém roubou alguma coisa da sua casa Outro tipo de roubo sem ter havido violência da parte do assaltante Outro tipo de roubo com violência da parte do assaltante Ameaças de agressão Agressão Dia Noite Não sabe Dia Noite Não sabe Dia Noite Não sabe Dia Noite Não sabe Dia Noite Não sabe Dia Noite Não sabe Dia Noite Não sabe Dia Noite Não sabe Sim Não Sim Não Sim Não Sim Não Sim Não Sim Não Sim Não Sim Não Grupo III 3. Agora, numa escala de 1 (Nada Provável) a 5 (Muito Provável): Como é que se sente quando caminha sozinho(a) na sua zona de residência, durante o dia Como é que se sente quando caminha sozinho(a) na sua zona de residência, depois de escurecer Como é que se sente quando caminha sozinho(a) na cidade do Porto, durante o dia Como é que se sente quando caminha sozinho(a) na cidade do Porto, depois de escurecer Como é que se sente quando está sozinho(a) na sua casa, durante o dia Como é que se sente quando está sozinho(a) na sua casa, depois do escurecer 2. Indique, numa escala de 1 (Muito Inseguro) a 5 (Muito Seguro): Muito inseguroInseguro Nem inseguro/nem seguroSeguro Muito seguro Inseguro Seguro Muito Inseguro Nem inseguro, nem seguro Muito Seguro Muito inseguroInseguro Nem inseguro/nem seguroSeguro Muito seguro Muito inseguroInseguro Nem inseguro/nem seguroSeguro Muito seguro Muito inseguroInseguro Nem inseguro/nem seguroSeguro Muito seguro Muito inseguroInseguro Nem inseguro/nem seguroSeguro Muito seguro Muito inseguroInseguro Nem inseguro/nem seguroSeguro Muito seguro Pensa que poderá ser vítima de roubo sem violência, durante o próximo ano Pensa que poderá ser vítima de roubo com violência, durante o próximo ano Pensa que a sua casa poderá ser assaltada, durante o próximo ano Nada provávelPouco provávelAlgo provávelProvável Muito provável Nada Provável Pouco provável Algo Provável Provável Muito Provável Nada provávelPouco provávelAlgo provávelProvável Muito provável Nada provávelPouco provávelAlgo provávelProvável Muito provável Draft
Adaptado e traduzido de EPQ-RSS Eysenck Personality Questionnaire - Revised Short Scale (Eysenck & Eysenck, 1996) Grupo IV 1. Responda a cada questão assinalando a resposta "Sim" ou "Não". 4. Por razões de segurança... Costuma deixar uma luz acesa de sua casa quando sai à noite? Tem armas de defesa pessoal Quando se ausenta de sua casa, por 2 ou mais dias, pede aos vizinhos para a vigiarem? Tem Fechaduras de Segurança ou Alarmes na Habitação Evita contactos com determinadas pessoas Evita determinadas ruas ou sítios Pratica desportos de defesa pessoal (Karaté, Judo...) Evita sair à noite Sim Não Sim Não Sim Não Sim Não Sim Não Sim Não Sim Não Sim Não Sim Não 5. Já alguma vez se sentiu "desgraçado ou infeliz" sem ter motivos para isso 7. É uma pessoa bastante animada 1. O seu humor ou disposição têm frequentemente altos e baixos 3. É uma pessoa faladora 4. Se afirma que fará uma determinada coisa, mantém a promessa, mesmo que isso venha a ser inconveniente 2. Dá muita importância ao que as outras pessoas pensam Sim Não Sim Não Sim Não Sim Não Sim Não Sim Não Sim Não Sim Não Sim Não Sim Não Sim Não Sim Não Sim Não Sim Não Sim Não Sim Não Sim Não Sim Não 6. Preocupa-se com a possibilidade de estar em dívida 13. Sente-se ofendido facilmente 12. Já alguma vez atribuiu as culpas a alguém, mesmo sabendo que a culpa era sua 11. Gosta de conhecer novas pessoas 10. Tomaria drogas que pudessem ter um efeito estranho ou perigoso 9. É uma pessoa irritável 8. Já alguma vez foi ganancioso de modo a ficar com mais do que aquilo que lhe pertencia 17. Sente-se frequentemente "saturado ou farto" 16. Todos os seus hábitos são bons ou desejáveis 15. Consegue habitualmente descontrair e divertir-se numa festa animada 14. Prefere as coisas à sua maneira em vez de se deixar guiar pelas regras Draft