Contributos portugueses do período expansionista e da época colonial para as ciências médicas
Abstract
In this short text we have aimed at stressing the Portuguese's pioneering in the fields of exotic pathology and of the snake poisoning. The accurate accounts and elaborate observations carried out by these builders of our cultural modernity anticipated, sometimes in decades, the descriptions or reports written by foreign authors. However, it is to these ones that the history of sciences recognizes, unduly and unfairly, priorities concerning the scientific discoveries. In this short account, in which some of the features of the scientific reality identified with the Portuguese Discoveries are systematized, the author pays homage to those who, either recognized or not, were the great doers of the contemporary culture and medical sciences.
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Acta Pediatr. Port., 1996; N. 4; Vol. 27: 721-4 NOTAS HISTÓRICAS Contributos Portugueses do Período Expansionista e da Época Colonial para as Ciências Médicas JOÃO FRADA Faculdade Medicina de Lisboa Resumo Nesta reflexão o autor põe, sobretudo, em destaque o pioneirismo dos portugueses nos domínios da patologia exótica e do ofidismo. As rigorosas exposições e observações elaboradas por estes construtores da nossa modernidade cultural anteciparam, por vezes em décadas, as descrições ou alusões realizadas por autores estrangeiros, mas é a estes a quem a História da Ciência reconhece, indevida e injustamente, prioridades de descoberta científica. NUM breve apontamento, onde se pretende sistematizar alguns dos aspectos da realidade científica identificada com os Descobrimentos portugueses, o autor presta justa homenagem àqueles que, reconhecidos ou não, foram grandes obreiros da cultura e das ciências médicas contemporâneas. Palavras-chave: cólera asiático, béribéri, escorbuto, febre amarela, filaríase, framboesia, pulga penetrante, veneno ofídico, xeringosa. Abstract In Chis short text we have aimed at stressing the Portuguese's pioneering in the fields of exotic pathology and of the snake poisoning. The accurate accounts and elaborate observations carried out by these builders of our cultural modernity anticipated, sometimes in decades, the descriptions or reports written by foreign authors. However, it is to these ones that the history of sciences recognizes, unduly and unfairly, priorities concerning the scientific discoveries. In this short account, in which some of the features of the scientific reality identified with the Portuguese Discoveries are systematized, the author pays homage to those who, either recognized or not, were the great doers of the contemporary culture and medicai sciences. Key-words: Asian cholera, beriberi, filariasis, framboesia, piercing flea, scurvy, snake poisoning, yellow fever, xeringosa. Na História Moderna da cultura e da ciência fomos pioneiros em múltiplos campos e realizações. Contudo, por ironias do destino, esses triunfos só muito raramente foram reconhecidos como feitos portugueses. Como diria Carlos França: «Sempre me surpreendeu a ausência de nomes portugueses na História das Ciências Naturais; conhecendo a orientação científica dos nossos descobrimentos repugnava-me, inteiramente, admitir que só a estrangeiros se devesse o que veio a saber-se sobre a História Natural das terras que fomos os primeiros a pisar e a colonizar» (Pina, 1945:5). A época dos Descobrimentos foi prolífica de descobertas revolucionárias nos domínios da Botânica, da Toxicologia e da Patologia, englobando este último grande número de enfermidades exóticas, estudadas actualmente pela Medicina Tropical. Sobre o Escorbuto, designação que parece provir de shorbeet (vocáb. dinamarquês), shorbeck (vocáb. holandês) ou scharbock (vocáb. saxónio), significando laceração, úlcera da boca, conhecem-se referências muito antigas. Entregue para publicação em 94/10/03. Aceite para publicação em 94/11/17. Plínio chamava-lhe stomacaee, Hawkins, peste do mar, Young, scorbutus nauticus, Good, porphyra nautica (Pina, 1945:36). No século XIII, Joinville (integrado no exército de S. Luís, no Egipto), traça pormenorizadamente esta doença. De um modo idêntico ao de Joinville, João de Barros, nas suas Décadas da Ásia (Déc. I, cap. III) refere-se ao escorbuto que, em mares tropicais, flagelou impiedosamente os marinheiros portugueses. Ao mesmo tempo, Barros, certamente conhecedor das peripécias da viagem de Gama, repetindo, de resto, o que tão bem fora documentado por Álvaro Velho no seu Roteiro, refere que todos os doentes [de escorbuto] se tinham posto sãos junto de Mombaça na viagem de ida, cidade de muito bons ares cujo rei havia mandado ao Capitão-Mor «um carneiro e muitas laranjas e cidrões» (Velho: 31). Quanto ao autor do Roteiro, aparentemente, não parece ter-se apercebido da acção curativa dos citrinos. Todavia, a descrição da paragem em Melinde, na viagem de regresso, em 07.01.1499, contrariamente à opinião dos vários historiadores que nela não perscruta(ra)m qualquer significado, afigura-se-nos a nós com uma mensagem diferente. Repare-se que o autor nos afirma, claramente, ser o estado de gravidade do escorbuto tão adiantado que nem mesmo as laranjas «aproveitavam aos doentes, que a terra os apalpou em tal maneira, que aqui se (...) finavam muitos» (Machado:223).
722 Contributos Portugueses do Périodo Expansionista e da Época Colonial para as Ciências Médicas Mas em 1507, um piloto anónimo, referindo-se no seu diário à viagem de Pedro Álvares Cabral à Índia indica-nos, sem margem para dúvida, que os «refrescos» oferecidos pelo rei de Melinde aos portugueses eram o remédio eficaz contra esta grave carência vitamínica. BÉRI-BÉRI Autor (tratadista) Data J. de Bondton (Bontins ou Bontius) 1642 Diogo de Couto 1616 M. Godinho Eredia 1613 Gabriel Rebelo 1569 ESCORBUTO (Primeiras descrições e alusões etiológicas, terapêuticas e profilácticas) Autor Fonte, Obra ou Contributo Científico Considerações e Referências Data Balduíno Ronsseus 1. 2 tratadista do Escorbuto (reconhecido) na História da Ciência. 1564 João de Barros Décadas da Ásia (Dec. I, cap. III). »Adoeceu muita gente de herisipolas e de lhe crescer tanta carne nas gengivas que quase não cabia na boca dos homens e assim como crescia apodrecia e cortavam nela como em carne morta (...) a qual doença vieram a conhecer que procedia das carnes, pescado salgado e biscoito corrompido de tanto tempo.» 1552 Álvaro Velho Roteiro da viagem de Vasco da Gama à índia (1497-1499). »E o capitão mandou (...) um homem a terra (Melinde) para o outro dia trazer laranjas que muito desejavam os doentes que trazíamos (...).» 1497-99 Fernão Lopes de Castanheda História do descobrimento e conquista da índia pelos Portugueses. Descrição e considerações etiológicas. 1551 Piloto Anónimo Diário com notas relativas à viagem de »(...) carneiros, galinhas, patos, limões e laranjas, as 1507 (português) Pedro Álvares Cabral à índia. melhores que há no mundo, e com elas sararam de escorbuto alguns doentes que tínhamos connosco.» «(...) carneiros, galinhas, patos, limões e laranjas, as melhores que há no mundo, e com elas sararão de escorbuto alguns doentes que tinhamos connosco» (Pina, 1940:41-2). Não é exagero afirmar que este «autor anónimo» se adiantou a João de Barros, em relação ao conhecimento da eficácia dos citrinos na cura do escorbuto. Incompreensivelmente, na história da ciência, Balduíno Ronsseus (1564) é considerado o mais antigo tratadista de escorbuto. Sobre o Béri-béri, muito antes de J. de Bondton ou Bontins (1642), investigador holandês a quem se atribui a prioridade do seu estudo, as descrições dos portugueses fazem série: Gabriel Rebelo (1569), M. Godinho Eredia (1613) e Diogo de Couto (1616). Segundo Silva Carvalho, o próprio Prof. Jeanselme, autoridade neste assunto, reconhece os portugueses como os primeiros a identificar esta entidade nosológica, uma vez que a sua presença nas colónias foi, indiscutivelmente, anterior à dos holandeses. Cientificamente, porém, não nos é reconhecida tal prioridade e só por direito moral a poderemos invocar. O Cólera asiático, designado também por morxi, mal gangético, colerica passio, mordexi, hacaiza, sarna castelhana, etc., doença epidémica na Índia, em 1543, é observado e bem descrito por Gaspar Correia e Garcia de Orta. Este último autor, de formação médica, retrata-nos a doença de um modo mais correcto e científico. A descrição da Filaríase e do respectivo tratamento, observada na Relação do Reino do Congo (1578-1587), garante ao seu autor, Duarte Lopes, a primazia científica. Muito antes de Guilherme de Pison ou Pisão (considerado um dos fundadores da Medicina Tropical), António Gaivão (1563) e Gabriel Soares de Sousa (1587), dentre outros escritores peninsulares (Gomara, Oviedo, etc.), deixaram-nos minu-
Contributos Portugueses do Périodo Expansionista e da Época Colonial para as Ciências Médicas 723 ciosas descrições sobre a Pulga penetrante (Pulex penetrans), vulgarmente conhecida em Portugal por «matacanha». Soares de Sousa, sem formação médica ou científica, munido apenas de um espírito autodidáctico e arguto, descreve de uma forma eloquente animais e plantas brasileiros e as suas exposições nada ficam a dever às dos naturalistas e zoólogos setecentistas, como Buffon, Lineu, Abeville e outros. Aqueles dois autores portugueses quinhentistas informar- -nos-iam ainda sobre uma enfermidade conhecida por mal-do- -bicho ou xeringosa, anorrectite gangrenosa que Aleixo de Abreu viria a descrever pormenorizada e cientificamente no seu Tratado de las siete enfermedades, publicado em 1623. G. Soares de Sousa (tal como Bernardino António Gomes, em 1815), adiantar-se-ia a Castellani (1907), quando nos refere a Framboesia e o seu contágio pelas moscas, transmissoras do Treponema pertenue, agente da doença. Contudo, essa prioridade descritiva nunca lhe foi reconhecida pela ciência clássica. João Ferreira Rosa, no seu Tratado único da Constituçam pestillencial de Pernambuco, deixa-nos a primeira descrição que se conhece sobre Febre amarela, epidemia que grassa em Pernambuco no ano de 1691, e a que ele próprio assiste (Mira:178). No domínio do Ofidismo, Fernão Cardim, Gabriel S. de Sousa e José de Anchieta registariam também inúmeras informações, algumas delas, importantes contributos para o estudo da Imunidade e da Toxicologia. Antecipando-se a Redi, quase cem anos, apontam claramente a sede do veneno nos ofídios, localizada num pequeno dente, dentro da boca desses animais. PATOLOGIA TROPICAL (EXÓTICA) E OFIDISMO PRIORIDADES DE ESTUDO, OBSERVAÇÃO E DESCRIÇÃO Assunto Autor Cólera Asiática Filaríase Pulga penetrante (Pulex penetrans) ou «Matacanha» Framboesia (Treponema pertenue) Febre amarela Ofidismo Gaspar Correia 1543 Garcia de Orta 1563 («Colóquios») Duarte Lopes 1578 - 1587 (Relação do Reino do Congo) António Gaivão 1563 Gabriel Soares de Sousa 1587 1587 3. 2 Quartel do séc. XVI Guilherme de Pison 1648 (De Medicina Brasilensis) Bernardino A. Gomes 1815 Castellani 1907 João Ferreira Rosa 1691 (Tratado Único da Constituição Pestilencial de Pernambuco Fernão Cardim 3. 2 Quartel do séc. XVI José de Anchieta 3Y Quartel do séc. XVI Redi 3Y Quartel do séc. XVII Anchieta alude mesmo, de uma forma inequívoca, à imunidade conferida por uma primeira mordedura de cobra venenosa. Na medicina, como em outros campos, a acção dos portugueses dos Descobrimentos foi um rosário incontável de notáveis feitos, inovações e contributos. Não obstante a inércia histórico-cultural, a indiferença, a ignorância, o esquecimento ou a maldade dos homens, todo esse labor secular, mental e físico foi uma realidade insofismável. A História guardará e defenderá essa verdade. E esta é a melhor homenagem que nos prestam. O edifício imponente da ciência e da cultura ocidentais é obra de «arquitectos» de todos os tempos e de todas as nações. Mas o engenho e arte dos portugueses da Época Moderna ficaram nela gravados para sempre. Na gesta sublime e afortunada dos Descobrimentos situámo- -nos entre as maiores potências da história marítima e colonial e firmámos, legitimamente, o nosso lugar entre as demais nações da Europa e do Mundo, em nossos dias.
724 Contributos Portugueses do Périodo Expansionista e da Época Colonial para as Ciências Médicas BIBLIOGRAFIA Carvalho .1 B, Portugal e as Origens do Pensamento Moderno. Lisboa: Livros Horizonte, 1981. Dicionário de História de Portugal. Dirig. por Joel Serrão, Porto: Ediç.. Livraria Figueirinhas, 1985. Machado J P, Campos V, Vasco da Gama e a sua Viagem de Descobrimento. Lisboa: Edição da Câmara Municipal de Lisboa, 1969. Pina L., As Ciências na História do Império Colonial Português (séculos XV a XIX). Porto: Imprensa Portuguesa, 1945. Pina L., Na Rota do Império — A Medicina embarcada nos séculos XVI e XVII. Lisboa: Imprensa Libânio da Silva, 1940. Velho A, Roteiro da Primeira Viagem de Vasco da Gama (1497-1499). Prefácio, notas e anexos por A F Costa. 3.' Edição. Lisboa: Agência-Geral do Ultramar, 1969. Correspondência: João Frada Faculdade Medicina de Lisboa Av. Prof. Egas Moniz 1600 Lisboa