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Senescência eritrocitária : interacções lipo-proteicas da membrana globular

Saldanha, Carlota,Martins e Silva, João

Abstract

As causas do envelhecimento têm desde sempre preocupado o homem em geral e os cientistas em particular. E, embora tenham sido registados nos últimos decénios progressos espectaculares na redução da mortalidade infantil e aumento da perspectiva de vida humana, esses benefícios pouco ou nada têm a ver com a modulação dos mecanismos de envelhecimento, o aumento da vida média humana tem sido conseguido quase exclusivamente através da minimização de vários flagelos, tais como as infecções, parasitoses e, em data mais recente, pela redução de alguns factores de risco cardiovascular.

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ACTA MÉDICA PORTUGUESA 1986:7: 131-134 FICHA BIOQUÍMICA APLICADA SENESCÊNCIA ERITROCITÁRIA: INTERACÇÕES LIPO-PROTEICAS DA MEMBRANA GLOBULAR CARLOTA SALDANHA, J. MARTINS E SILVA Ins i u o de Bioquímica, Fac. Medicina de Lisboa. 1600 Lisboa Po ugal. — PREÂMBULO As causas do en elhecimen o êm desde semp e p eocu pado o homem em ge al e os cien is as em pa icula . E, embo a enham sido egis ados nos úl imos decénios p og es sos espec acula es na edução da mo alidade in an il e aumen o da pe spec i a de ida humana, esses bene ícios pouco ou nada êm a e com a modulação dos mecanismos de en elhecimen o, O aumen o da ida média humana em sido conseguido quase exclusi amen e a a és da minimização de á ios lagelos, ais como as in ecções, pa asi oses e, em da a mais ecen e, pela edução de alguns ac o es de isco ca dio ascula . Toda ia, as causas de pe da de memó ia e limi ação de ou as capacidades psíquicas, da incapacidade em execu a unções i ais e ou as ca ac e ís icas de en elhecimen o que culminam, em pe íodo mais ou menos a dio, na md e, con i nuam po escla ece . Os mecanismos subjacen es a esse p o cesso na u al como que es ão exace bados em de e minadas si uações pa ológicas, como na doença de Alzheime , em que se assis e a en elhecimen o celula p ema u o. Em con as e, uma das doenças que ac ualmen e mais con ibui pa a a mo alidade da espécie humana o canc o ca ac e iza-se pela p oli e ação explosi a e incon olá el de células que não en elhecem. Face a es e pa adoxo, não são de es anha múl iplas in es idas da ciência, em que se des acam es udos bioquímicos, isando escla ece o en elhecimen o celula e causas da mo e humana. O glóbulo e melho apesa de desp o ido do núcleo, mi o cond ias e ou os o gani os (p óp ios de odas as células huma nas) pe manece ac i o e uncional em ci culação du an e ce ca de 120 dias. Nesse in e alo assegu a a oxigenação a ocas gasosas eciduais, con ibui pa a o con olo do pH co po al e, apa en emen e, es á en ol ido no anspo e de di e sos mediado es ho monais pa a células-al o. Ao im daquele p azo, os glóbulos são eliminados da ci culação, dando luga a glóbulos jo ens po es imulação pe manen e e con olada da e i opoiese medula . O mecanismo que de e mina a ida média globula é desco nhecido. Toda ia, e em comum com os es an es ipos de células co po ais, o e i óci o ap esen a um e es imen o es u u almen e mui o semelhan e. Tendo como base hipó e ses que a ibuem à memb ana ci oplásmica pa icipação de e minan e no en elhecimen o, pa ece legí imo u iliza o glóbulo e melho — acilmen e acessí el e sem ou as es u u as in e nas — pa a escla ecimen o das causas de en elhecimen o celu la , numa p imei a ase do es udo daquele p oblema. II CARACTERÍSTICAS DA MEMBRANA ERITROCITÁRIA Desde que o en elhecimen o e i oci á io começou a se es udado sis ema icamen e, á ias hipó eses êm sido o mula das pa a explica aquele enómeno. Na gene alidade, essas hipó eses epo am-se a al e ações mo ológicas e ou me abó licas que p og idem com a idade globula e que acabam po a ec a a capacidade de de o mação e i oci á ia à acção cons igen e da mic oci culação. Po sua ez, as p op iedades ísico-químicas do luxo san guíneo, assim como a emoção e subsequen e des uição de glóbulos ano mais ou senescen es da ci culação, dependem de á ios ac o es, com des aque pa a a ag egação e, sob e udo, pa a a de o mabilidade e i oci á ia ( e~’isão em 1 e 2 ). A de o mabilidade e i oci á ia é in luenciada pela elação á ea olume, p op iedades iscoelás icas da memb ana e is cosidade in e na3. As duas p imei as a iá eis são a ec adas pela na u eza química e es u u al da memb ana e in e acções molecula es implíci as. Assim, e i ica-se que a composição lipídica e elação coles e ol os olípidos in luenciam a luidez da memb ana (e po conseguin e a de o mabilidade e i oci á ia4, enquan o a dis ibuição assimé ica dos os olípidos na memb ana en o ci á ia con ibui pa a a manu enção do po encial da mem b ana, assegu a a in e~ idade celula e in luência a ac i idade de algumas enzimas5~ . A assime ia lipídica é a ec ada pelo coles e ol1 e p o eínas do ci oesquele o55. Es as p o eínas (ex ínsecas) da ace in e na da memb ana e i oci á ia, es a belecem in e acções com os os olípidos8 e com as p o eínas in ínsecas9 e ci oplásmicas’°. A in eg idade química e es u u al do ci oesquele o a igu a-se undamen al pa a a manu enção da de o mabili dade e i oci á ia. Na cons i uição do ci oesquele o pa icipam a espec ina, ac ina e p o eína 4.1. A espec ina é o mada po 2 cadeias (a e /3), e e enciadas como as bandas 1 e 2 da nomencla u a de Fai banks~; ao associa em-se en e si, opo a opo, o mam díme os e e âme os em equilíb io ela i o; in i o p edominam os he e o e âme os’2 A espec ina, ao liga -se à ac ina (banda 5) e p o eína 4.1 cons i ui um monóme o que, po epe ição, o ma a malha ou ede que e es e a ace in e na da memb ana e j ocj á 9,1~,14 ia. A p o eína 2.1 (designada po anqui ina) es abelece a liga ção en e a espec ina e a p o eína in ínseca banda 3 (canal aniónico)9. A es a glicop o eína ligam-se as seguin es p o eí nas: hemoglobina, aldolase, os oglice a ocináse, glice aldeído- os a o-desid ogenase e os o u ocinase’5. Tam bém associadas à banda 3 pa ecem es a as enzimas Na~, Recebido pa a publicaçâo: 6 de Maio 1986 131 C. SALDANHA, J. M. E SILVA AS5IMETR~ LIPÍD(CA Subcomodc in~e nc CITOESQUELETO FLUiDEZ LIPÍDICA BANDA 3-PROTEÍNAS CITO SÓ L IC AS Figu a 1: A memb ana e i oci á ia ap esen a assime ia lipídica com p edomínio de os a idilcolina (PC) e es ingomielina (SM) na subcamada ex e na. A os a idilse ina (PS) e os a idile anolamina (PE) exis em em maio quan idades na subcamada in e na. A luidez lipídica é in luenciada pelo comp imen o, g au de insa u ação dos ácidos go dos e azão de concen ações coles e ol/ os olípidos ([C]/[PD. À glicop o eína banda 3 ligam-se: (i) p o eínas ci osólicas, ais como hemoglobina (Hb), aldolase (a). os o u ocinase (PFIC). os oglice a o cinase (PGK) e glice aideido 3- os a o-desid ogenase (G3PD); (ii) p o eína ex ínseca anqui ina (A), que es abelece a pon e com o ci oesquele o. Es e políme o é cons i uído po espec ina (cadeias a e i), acima (acT) e p o eína 4.1. K1-ATPase e a ace ilcolines e ase.’6’ ~ Enquan o pa a a p i mei a, a unção es á pe ei amen e escla ecida, (hid ólise do ATP associada, ao’ anspo e ac i o de sódio e po ássio), a da segunda con inua desconhecida. A ac i idade de ambas as enzimas é o emen e in luenciada pelos lípidos.’8’ 19 As in e acções lipop o eicas podem se ag upadas em hid oióbicas ou elec os á icas, e o seu conhecimen o se abo dado pelo es udo do compo amen o alos é ico da ace ilcoli nes e ase. A luidez lipídica é um egulado isioló,~ico do ca ác e alos é ico das enximas ligadas à memb ana.2 Assim, o es udo da. in luência das al e ações da memb ana no compo amen o coope a i o das enzimas in eg ais é um p ocesso que conduz à con i mação das in e acções lipop o eicas. A composição química, es u u a, me abolismo, p op ie dades e unções do e i óci o es ão pe ei amen e in e ligadas, in e dependen es e eguladas. Se á de espe a que em si uações pa ológicas e ou pelo en elhecimen o oco am dis unções em qualque ou odos os pa âme os. III — ENVELHECIMENTO DO ERITRÓCITO O en elhecimen o e i oci á io começou a se es udado em 1938, po S ephens2’ e desde en ão á ias hipó eses êm sido ap esen adas pa a o explica . O es udo de Rouss22 demons ou que dos e i óci os no mais in i o são emo idas po ções da memb ana, po ag men ação mecânica, sem pe da de hemoglobina. Es e p ocesso induz, com o empo, aumen o da igidez celula que comp o me e a sob e i ência a ní el da mic oci culação. Um segundo mecanismo ambém baseado no dec éscimo da de o mabilidade ao longo do empo baseia-se nas in e ac ções en e o cálcio e a memb ana moduladas pelo ATP.23 A concen ação do ATP diminui com a idade celula ,24 com consequen e aumen o da in e acção en e o cálcio e as p o eí nas da memb ana. Concomi an emen e esul a meno lexibi lidade e de o mabilidade das células senescen es. Es es dois mecanismos o am simulados e con i mados in i o.25 Du an e o en elhecimen o do e i óci o, as dimensões25 a agilidade osmó ica2 e a lexibilidade mecânica27 dec escem em conjun o com o declínio das ac i idades de algumas enzi mas.28 A pi u a o-cinase do e i óci o ap esen a duas o mas molecula es (R’ e R2~ cuja acção R2 R’ aumen a com o en e lhecimen o globula . 6 A ans o mação de R’ em R2 é acom panhada po ac éscimo da capacidade de os o ilação e dimi nuição da a inidade pa a o os oenolpi u a o.3° A ac i idade enzimá ica da ace ilcolines e ase da memb ana e i oci á ia diminui com a idade globula .3’ Es udos ciné icos e ela am que o alo da cons an e de a inidade da enzima pa a o subs a o (km) não é a ec ado pela idade, embo a a elocidade máxima diminua com a senescência.32 Subcomadc exi~e nc c~ø II 132 SENESCËNCIA ERITROCITÁRIA: INTERACÇÕES LIPO-PROTEICAS DA MEMBRANA GLOBULAR O econhecimen o imunológico é al e ado no en elheci men o po exposição de ecep o es an i~énicos na supe ície globula 33 e aumen o de ligação da I~ G. Os glóbulos en elhecidos são mais ecep í eis à acção do pe óxido de hid ogénio, iii i o, com consequen e ag egação das p o eínas de al o peso molecula .35 A oco ência des es ag egados p o eicos pode ambém esul a de uma simulação de en elhecimen o e i oci á io po deplecção me abólica (diminuição da concen ação de p ecu so es de ATP e GSH).36 Os complexos p o eicos são de dois ipos, de aco do com o peso molecula .35 A concen ação dos ag egados de ele ado peso molecula aumen a com o empo de incubação, ao con á io do obse ado com os complexos de baixo peso molecu la .37 In i o, es e compo amen o é con i mado pelo es udo de Synde e colabo ado es, onde se e idencia que as acções mais densas de e i óci os (glóbulos mais en elhecidos~ con êm ag egados de espec ina e hemoglobina (cadeias a). 8 O con eúdo em ácido slálico dos e i óci os diminui com a idade globula .39 Expe iências em a os demons a am que a edução de ca ga supe icial induzida pela acção de neu amini dase é acompanhada de ápida emoção dos glóbulos em ci culação.4° No en an o, mui as p op iedades bioquímicas e bio ísicas man êm-se inal e adas: de o mabilidade,42 agili dade osmó ica,’6 concen ação de ~ ní el de lac a o,4’ ac i idade enzimá icas (pi u a o-cinase,4° glicose 6- os a o — desid ogenase)4’ e índices celula es)6 A acção das p o eases de memb ana, o p ocesso de esicu lação ou diminuição do pH podem conduzi ao mesmo es ado de ici á io de ca ga.43’ ~ ~ Incubações de e i óci os em meio con endo cálcio e magnésio mas desp o ido de glicose condu zem ao en elhecimen o e i oci á io, demons ado po deple ção em ATP, ans o mação de discóci os em equinóci os e libe ação de esiculas.45 Es as ans o mações o iginam diminuição do con eúdo em ácido siálico na o ma ligada a glicopép idos e ou esícu las.45 O cálcio e o ça a saída de sialoglicopép idos, induzida po diminuição de pH ou depleção me abólica.45 O Mg2’ e o ATP egulam a o ma do e i óci o, po es imu lação de uma cinase independen e do AMPc, que os o ila a espec ina (cadeia 3),46 O Ca2~ inibe a cinase e po conseguin e diminui a os o ilação da espec ina.47 Além des as, são conhecidas á ias al e ações bioquímicas e bio ísicas do e i óci o, induzidas pela depleção em ATP ou aumen o da concen ação in acelula em Ca.2~ Toda ia, em conjun o, não há uma espos a conclusi a sob e as causas de en elhecimen o globula e, mui o menos, se es e enómeno a ec a a e olução clínica de algumas si uações pa ológicas banais, que di ec amen e que po e lec i uma si uação comum a ou as células co po ais. 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