L'Histoire d'Adèle H.: apontamentos para uma cartografia da efabulação
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L’Histoire d’Adèle H. Apontamentos para uma cartografia da efabulação Amândio Reis Écrire n’a rien à voir avec signifier, mais avec arpenter, cartographier, même des contrées à venir. Deleuze e Guattari, Mille Plateaux 1. Mapeamento e desnorte A longa-metragem que François Truffaut assinou em 1975 abre com um aviso ao espectador: «A história de Adèle H. é verídica [authentique]. Ela põe em cena acontecimentos que tiveram lugar e personagens que existiram.» A ambiguidade desta declaração dificilmente a consagra como aquilo que ela parece ser: uma atestação de veracidade. Como T. Jefferson Kline faz notar quando o compara com o adjectivo «true», do inglês, o termo francês «authentique» está semanticamente mais relacionado com a colagem a um ponto de vista íntimo do que com um critério de rigor histórico (Kline 2010: 110), e não deve, portanto, ser tomado por reivindicação de verdade em sentido objectivo. Há ainda que ter em conta o uso de indefinidos («des événements», «des personnages») que apenas reclamam a veridicidade de algumas das personagens e de alguns dos acontecimentos retratados no filme, deixando assim a falsidade de outras e outros totalmente em aberto. Ou seja, esta mensagem pode ser lida como uma atestação geral de veracidade, mas ela contém já o implícito de uma dimensão ficcional que permanece indeterminada. De facto, a ênfase na transposição para a cena de «acontecimentos que tiveram lugar» e de «personagens que existiram» também sublinha — muito mais do que a fidelidade histórica — o distanciamento representacional subentendido na transmutação em filme. Portanto, lida como uma reivindicação de factualidade, a declaração inicial é con191 L’HISTOIRE D’ADÈLE H.— apontamentos para uma cartografia da efabulação L’Histoire d’Adèle H. (1976), François Truffaut VERSÃO PRÉ-PUBLICAÇÃO
a cidade real (que, por sua vez, espelha a transição entre o anúncio de uma história verdadeira e o filme ficcional que está a começar) não acontece na passagem de um regime de representação à realidade propriamente dita, mas na passagem de uma representação a outra representação. Em suma, Truffaut recorre a uma sequência de autenticações irónicas na abertura de Adèle H. que, afinal, reitera de diferentes maneiras a falsidade do que estamos a ver. Além disso, este jogo estava já anunciado no título do filme, no qual o nome de família da protagonista é reduzido a um «H» que é também o da palavra «Histoire», termo ambíguo que tanto serve à historiografia quanto à ficção. Truffaut conserva um vestígio de historicidade, a primeira letra de um patronímico, ao mesmo tempo que o elide, vinculando o nome de Adèle a uma inicial que é a mesma do nome dado à efabulação, sua origem alternativa. 2. Verdade e mitomania Tal como a carta, o mapa corresponde à presentificação de uma ausência e insere-se num sistema de substituição das coisas pelas suas representações. Ele traz a cidade de Halifax, assim como as cartas que Adèle recebe trazem a voz de Victor Hugo (em over), as money orders são trocadas por dinheiro, e uma das cartas de Adèle leva o seu anúncio de casamento, materializado e tornado público no destino, mas falsificado na origem. A moldura cartográfica dos primeiros instantes do filme parece inclusivamente confluir com a sinalização taxonómica, sistemática, dos lugares da cena: «ROOM AND BOARD», «BOOK SHOP», «PUBLIC NOTARY», «BRITISH BANK OF NORTH AMERICA», etc. Esta híper-sinalização dos espaços artificializa a própria cidade de Halifax, tornando-a o cenário no qual vemos Adèle representar a sua busca e a sua farsa, ou seja, evidenciando a qualidade cenográfica de um espaço que é, em tudo o resto, apresentado realisticamente. A série de verdades em diferido que encontramos nos primeiros minutos do filme prolonga-se até à visita da jovem protagonista ao notário, onde ela finge ser esposa de um médico, deslocada a Halifax como favor a uma sobrinha «un peu trop romanesque» que estivera mais ou menos comprometida em casamento 193 L’HISTOIRE D’ADÈLE H.— apontamentos para uma cartografia da efabulação traditória justamente por focar o meio de representação e de artifício próprio do cinema, a mise en scène1. A primeira linha dos créditos finais retoma e ilumina a ideia que aqui se vem desenvolvendo: «Esta foi a história de Adèle H.» [C’était l’histoire d’Adèle H.]. Esta constatação, ao que parece redundante e indubitavelmente desnecessária, joga com a duplicidade fundamental derivada do facto de o filme de Truffaut se intitular também L’Histoire d’Adèle H. Assim, a declaração final despe a primeira das referências a uma realidade suposta, para a tornar absolutamente particular (Kline). Simultaneamente, ela é a chave para três possibilidades de leitura retrospectiva: este foi o filme de François Truffaut, que acabou (uma estranha perífrase para substituir a palavra Fim); aquela foi a história que Adèle Hugo viveu (o que recupera a sugestão de veracidade, de alguma coisa que «aconteceu»); aquela foi a história que Adèle Hugo contou, e, por implicação, ela é também o seu filme. Esta última é uma hipótese que se afigura problemática, e que retomarei adiante. A entrada na narrativa, através de um plano sobre um mapa-mundo e de um zoom sobre Halifax, na península da Nova Escócia, articula-se com um signo cartográfico que é um prolongamento da declaração inaugural, uma vez que, tratando-se o mapa da cidade de um documento histórico, que cumpre perante o espectador a função de localizar geograficamente a diegese, ele não atesta mais do que uma relação referencial com a verdade. O mapa não é Halifax, mas uma representação gráfica de Halifax que, em termos fílmicos, funcionará como ponto de transição, levando-nos à verdadeira cidade ou trazendo-a até diante dos nossos olhos. Porém, o raccord entre o mapa e a live action do desembarque de Adèle faz-se ainda através de um plano fixo da pintura de uma embarcação sobre as águas, atrás da qual vão surgindo as luzes de barcos reais e o porto de Halifax. Este elo figurativo entre as duas sequências sugere que a mudança do mapa para 192 amândio reis ————— 1 Paola Malanga, entre outros, denuncia um desvio basilar de L’Histoire d’Adéle H. em relação à realidade que nos obriga a reconsiderar a declaração de «autenticidade» inicial: «Adèle não escrevia ao pai mas sim ao irmão, e Truffaut escreveu ele mesmo algumas páginas, como aquelas em que a jovem se define como “nascida de pai incógnito” ou apela às suas “irmãs” do século XX» (Malanga 1996: 396).
tes, invocada como terceiro elemento necessário à conformação do que vem a ser, na verdade, um triângulo amoroso. Adèle precisa da reminiscência de Léopoldine e da sua tragédia para projectar em Pinson a imagem do marido ideal, e, inversamente, precisa de Pinson para concretizar no plano material a sua fantasia de uma história de amor que possa igualar a de Léopoldine (e, por conseguinte, igualá-la à irmã). A Mr e Mrs Saunders, os seus anfitriões em Halifax, Adèle vai oferecer ainda uma outra história da sua relação com Pinson, num processo aleatório de ficcionalização da vida que parece acompanhar pari passu a vivência e a experiência. Apropriando-me das palavras de Lúcia Nagib em relação a L’Homme qui Aimait les Femmes (O Homem que Gostava das Mulheres, 1977), podia dizer que, também aqui, «a autobiografia […] não é pois outra coisa senão autoficção» (Nagib 2013: 543). 3. Ideal e imanência Num comentário novamente irónico, sem conhecer as implicações do que está a dizer, Mrs Saunders dá continuidade à ficção que Adèle havia iniciado com o livreiro. Ao deparar com uma fotografia da protagonista num álbum da família Hugo, e após elogiar efusivamente o «artista» e irmão de Adèle, Charles Hugo, a quem atribui todo o mimetismo conseguido — em vez de nele reconhecer uma simples qualidade tecnológica da fotografia — a hospedeira atenta no retrato de Adèle e comenta: «dir-se-ia que está viva». Uma vez mais, a frase tem um duplo sentido. Aplicada à fotografia, ela dá apenas conta da semelhança vivificante daquela imagem com a realidade. Dirigida a Adèle e modalizada no condicional, ela abre a possibilidade de a protagonista não estar inteiramente viva, ou não ser exactamente a sua pessoa de carne e osso, tratando-se antes, tal como a fotografia, de uma «representação» [ressemblance]. Esta segunda interpretação ganha fundamento imediatamente a seguir, quando Mrs Saunders segura nas mãos um retrato a desenho de Léopoldine Hugo e o toma por uma representação de Adèle, cometendo um erro que é rápida e afectadamente corrigido por esta última. É importante notar que, ao con195 L’HISTOIRE D’ADÈLE H.— apontamentos para uma cartografia da efabulação com um Tenente Pinson. A história apresentada ao notário parece corresponder à verdade em todos os pontos, excepto na substituição da protagonista por uma suposta sobrinha. A sofisticação da mentira permite-lhe até julgar reprovadoramente essa sobrinha como «um pouco romanesca demais», o que assenta muito bem a si mesma e, por conseguinte, constitui um primeiro momento importante de distanciamento e auto-análise da sua personagem. A ironia da situação agudiza-se quando a surdez do notário obriga Adèle a repetir com veemência o exacto contrário do que sente: «O Tenente Pinson é-me perfeitamente indiferente… O Tenente Pinson é-me perfeitamente indiferente». No entanto, e noutra demonstração da complexa antinomia entre falsidade e autenticidade que percorre o filme, percebemos no final que esta declaração era premonitória da indiferença real que ela virá a nutrir por Pinson, ou se tratava, para enfatizar outra das suas dimensões, de uma verdade em devir. A relação entre o momento do ensaio da indiferença e o momento da sua concretização suscita, por seu turno, uma reflexão acerca dos diversos níveis de representação em L’Histoire d’Adèle H., e alerta-nos para o que será um filme dentro do filme, entre o desempenhar de Adèle da sua própria história e a auto-reflexividade do filme de Truffaut em que essa história está incluída. Naquele episódio assistimos à primeira de várias mentiras de Adèle relacionadas com a sua própria identidade ou com a de Pinson. Depois de encontrar o Tenente pela primeira vez na livraria («romanesca», de facto), ela explica ao livreiro: «[Pinson] é o cunhado da minha irmã». Esta afirmação marca o princípio de um processo de emulação de Léopoldine, a sua irmã mais velha, vítima precoce de um acidente mortal, e é outro exemplo da recombinação de figuras à qual Adèle recorre frequentemente, assumindo a posição de uma meneuse de jeu. O seu delírio deixará claro que o casal que ela forma com Pinson se confunde com o casal formado por Léopoldine e pelo jovem marido sacrificado por amor a ela. Assim, percebemos estar na livraria diante de uma mentira que é também uma verdade em diferido, e que participa complexamente nos processos de efabulação de Adèle e na sua fantasia erótica. Num jogo de faz-de- -conta algo mórbido, a protagonista estabelece um parentesco póstumo entre o seu marido hipotético e a sua irmã falecida, assim interposta entre os dois aman194 amândio reis
ralização da carta, o corpo da prostituta é ele mesmo um outro referente para o corpo de Adèle, é um prolongamento da missiva, investido, portanto, de um carácter simbólico e de uma função dêictica. Talvez este corpo tornado congénere das palavras seja a manifestação menos óbvia do efeito literário que a Adèle que Truffaut nos apresenta tem sobre a realidade circundante, captada para o ponto centrípeto do diário que ela escreve em permanente tensão com a vida. Podemos dizer, assim, que a escrita de Adèle ultrapassa não só os limites da materialidade, entre as páginas do diário e os espaços e corpos ao seu dispor em Halifax, como também os limites da ficção, entre o diário ou livro de memórias de que é autora e o filme de Truffaut no qual é personagem. A distinção e a confluência a que me refiro dão-se ambas, portanto, entre a pertença da protagonista à história e ao seu próprio «historizar». Em todo o caso, o que Adèle percepciona e por sua vez nos revela a nós enquanto espectadores de cinema é uma espécie de imanência literária do real, e aí reside a sua natureza verdadeiramente «romanesca». O retrato de Léopoldine e a fotografia de Pinson que ela conserva num altar — como boa praticante da «religião do amor», ou «religião dos mortos» (James 1996: 452), para recuperar a expressão que Henry James utiliza no conto adaptado por Truffaut em La Chambre Verte (O Quarto Verde, 1978) — participam de um conjunto central de imagens idealizadas no cinema de Truffaut, com uma ligação especial à figura de Muriel em Les Deux Anglaises et le Continent (As Duas Inglesas e o Continente, 1971)2. Tal como Muriel, Adèle escreve pela primeira vez aos pais, e lê-nos essa carta em voz alta, enquadrada por um espelho, isto é, dirigindo-se, em primeira instância, a uma imagem de si mesma. Pode destacar-se a proximidade entre L’Histoire d’Adèle H. e Les Deux Anglaises et le Continent ainda noutros termos. Alguns críticos apontam para a particularidade de ambos os filmes conterem figuras de pais ausentes, ou mortos, e para o facto de Mrs Brown oferecer às duas filhas um exemplar de Os Miseráveis (o único livro que vai aparecer também em L’Histoire d’Adèle H.) como leitura 197 L’HISTOIRE D’ADÈLE H.— apontamentos para uma cartografia da efabulação fundir Adèle com a figura da irmã morta, Mrs Saunders está por um lado a corroborar a fantasia da jovem, e por outro lado a reconhecer o seu estatuto fantasmático, já declarado na anterior observação dúplice («dir-se-ia que está viva»), aplicável quer à sua fotografia, quer ao seu corpo. Um terceiro efeito do mal-entendido de Mrs Saunders será ainda, certamente, o de anunciar a destinação de Adèle para a morte. Assim, podemos dizer que, tal como o retrato de Léopoldine, o corpo de Adèle é um objecto referencial e aspira a uma outra vida. A semelhança com a irmã, tão grande que se torna quase inverosímil e também inquietante — unheimliche —, não é mais do que o reflexo da obsessão de Adèle em ocupar o lugar da primeira, e o comentário de Mrs Saunders é uma prova, ainda que oblíqua, de que Truffaut está a condicionar o filme segundo o ponto de vista de Adèle sobre o mundo, num plano alucinatório (digamos, subjetivo, ou não-confiável) da representação, que emerge nos dois momentos em que ela sonha que se está afogar, tal como acontecera a Léopoldine. Patrice Bougon defende que a retórica fílmica de Truffaut produz, sob uma capa de pretenso realismo, uma «visibilidade encriptada» (Bougon 2014: 180). O estudioso lembra ainda que a fantasmagoria de Adèle depende fortemente do regime epistolar que ela instaura no seio do filme, e que tem como um dos seus momentos mais representativos o episódio em que envia a Pinson uma prostituta juntamente com uma carta na qual revela oferecer aquela mulher ao Tenente. Parece-me pertinente a ideia de que, além de fazer coincidir a mensagem com a mensageira, ou o conteúdo da carta com o corpo que a transporta, Adèle se está a presentificar com este gesto, diante de Pinson, no corpo de uma outra que leva a sua voz — já que a carta é ditada por si mesma em voz over —, através de uma dupla «identificação fantasmática» (189). Em Baisers Volés (Beijos Roubados, 1968), Fabienne Tabard também responde a uma carta de Antoine Doinel com o seu próprio corpo. Porém, se encontramos nestes dois casos exemplos importantes da exploração do nexo entre corpo e correspondência no cinema de François Truffaut, o gesto de Adèle mantém o segundo filme num regime cerrado de epistolaridade no qual se destaca a sua relação com o Tenente Pinson. Sendo apenas parcialmente uma forma de corpo196 amândio reis ————— 2 Junji Hori fez uma leitura muito proveitosa neste particular das dinâmicas entre o cinema, a imagem fotográfica (ou «imóvel») e a «possessão por imagens» em boa parte da obra de Truffaut, estabelecendo uma analogia entre o altar de Adèle a Pinson e o altar de Antoine Doinel a Balzac em Les 400 Coups (Os 400 Golpes, 1959) (Hori 2013: 142-5).
plano, e é assim um falso alvo que no final, em Barbados, passa completamente despercebido pelo campo de visão daquela que tem em diversas instâncias, paradoxalmente, o olhar da câmara, mas cujo deambular pela rua remete para a alucinação e para a produção de imagens no interior de «um labirinto da memória» da sua personagem (Bruno 1981: 107). O dispositivo de cinema em que consiste o olhar de Adèle — considerada por Junji Hori uma «iconófila em estado puro» (Hori 2013: 145) — acabará por ficar cego à imagem do verdadeiro Pinson, ou seja, o «referente» real da fotografia que ela venera (Hori 2013: 145), conservando apenas na memória a sua figura alucinada, numa inversão violenta do episódio de voyeurismo a que antes assistimos. Em suma, o amor maior de Adèle é o que ela tem pela sua ideia, e é isso que a leva à construção da sua própria história e possibilita uma correspondência amorosa unilateral, dirigida a uma imagem sem referente. Adèle não precisa da resposta de Pinson para viver a sua fantasia, que se agudizará em termos abstractos, no final, como uma câmara subjectiva absoluta, inacessível, que corresponderia em termos fenoménicos à opacidade da sua loucura e à encriptação do seu diário escrito em código. Já houvera um indício de que é Adèle quem dita as regras do jogo epistolar que atravessa o filme — ou seja, de que ela escreve sobretudo de si para si —, aquando do envio da primeira carta a Pinson, por intermédio de Mr Saunders. O mensageiro regressa sem uma carta de resposta do Tenente, que, ficaremos a saber, não chegou a ler a dela. Adèle parece destroçada, mas perceberemos depois que a ausência de resposta acaba por ser um acidente essencial ao seu monólogo amoroso, ou, segundo Collet, à sua «história de amor com apenas uma personagem» (Collet 2004: 72). Quando os dois jovens se encontram finalmente na casa de Mrs Saunders, é a própria Adèle que começa por tapar a boca de Pinson com a mão, cortando- -lhe a réplica. Pinson parte da hospedaria um pouco depois e ela escreve-lhe imediatamente uma carta, que não tem qualquer intenção de enviar, na qual revela ter um grau de esperança no sucesso da relação e fala de uma versão edulcorada da história que são incompatíveis com o que acabáramos de ver. Esta situação não é muito distante da que encontramos em Letter from an Unknown Woman 199 L’HISTOIRE D’ADÈLE H.— apontamentos para uma cartografia da efabulação de preparação para a chegada de Claude (Colvile 1994: 291). Martin Lefebvre destaca as falas que se repetem entre uma obra e a outra (Lefebvre 2013: 52-53), no âmbito de uma «uma rede de referências internas através da qual cada filme está ligado a outro, ou espelha outro» (Lefebvre 2013: 44). No entanto, será porventura mais importante no estabelecimento deste elo a dinâmica entre a figura materna — Mrs Brown e Mrs Saunders, interpretada nos dois filmes pela mesma actriz, Sylvia Marriott —, e as duas irmãs, uma representante da vida e do mundo físico (Ann ou Adèle), e a outra ligada a um plano da transcendência, enquanto figura que se furta à visibilidade ao mesmo tempo que se apresenta, na própria trama do filme, como imagem (Muriel ou Léopoldine). Depois de um delírio durante o qual Adèle se revolta contra a «impostura do estado civil» e contra a «confusão de identidades», definindo-se, em termos quase «cavellianos», como uma mulher desconhecida («nasci de pai incógnito»), ela sofre um surto de ciúmes da irmã morta ao fim do qual lhe ardem os olhos. Tal como acontece com Muriel, a vista de Adèle deteriora-se pela escrita e pela leitura, mas o momento da queima dos olhos é, em ambos os casos, o sinal da chegada ao auge da obsessão, e ela decorre, de igual modo para as duas personagens, da alucinação de uma figura ausente. Se na miragem de Muriel, que precede a sua cegueira, ela vislumbra o rosto de Claude contra a luz do sol, vendo-o ao mesmo tempo que não o pode ver, Adèle alucina com o caixão dos amantes, e, em particular, com o vestido da irmã, «o vestido da jovem noiva». A aproximação com Deux Anglaises ilumina a ambiguidade desta pulsão e o movimento antitético em que ela assenta: febril e delirante, Adèle considera necessário destruir ou doar as roupas da irmã, símbolos místicos da devoção familiar e do amor ideal, que são, na verdade, o que ela ambiciona para si mesma, enquanto no primeiro filme Muriel alucina o seu objecto de desejo (Claude), ao mesmo tempo que o renega, ou que ele lhe é negado por força de diversas circunstâncias. A auto-referência de Truffaut evidencia que o objecto de desejo de Adèle não é necessariamente o Tenente Pinson, mas talvez a ideia fixa de uma criança preterida: o vestido de casamento da sua irmã, o amor idealizado de Léopoldine e a sua condição de filha amada e respeitada. Pinson está subalternizado a este 198 amândio reis
4. Nome e anonimato Em L’Histoire d’Adèle H. é Mr Whistler, o livreiro, que oferece a Adèle Les Misérables, despertando-lhe a indignação pelo que ela interpreta como uma afronta e conduzindo-a ao movimento de elisão do nome do pai, quando fecha o livro sobre um grande plano do nome do autor na página de rosto. Este gesto terá um equivalente nos camarins do teatro, onde Adèle tenta convencer o hipnotizador a fazer Pinson casar-se com ela, persuadindo-o com o nome do pai, que escreve no espelho com um dedo, sobre o seu próprio reflexo turvado pelo pó, e apaga em seguida. Assim, o nome de Victor Hugo surge continuamente preso a uma dialéctica entre apagamento e afirmação. Ele é usado, por exemplo, como factor de legitimação da pessoa de Adèle e de exerção de influência perante o Juiz Johnstone, que ela consegue convencer da má índole de Pinson, desfazendo assim os planos de casamento entre o Tenente e Miss Johnstone. Antes, no banco, víramos Adèle dizer a uma criança que se chamava Léopoldine. Em seguida, recebe do pai a autorização de casamento, volta atrás e confessa em inglês: «my real name is Adèle». Com a autorização de casamento, Adèle pode ser ela mesma porque acredita que a sua fantasia está à beira da concretização. Confrontada depois com o fracasso desse objectivo, a protagonista parece encetar um jogo em que, de uma maneira ou de outra, tem de sair vencedora, e passa a asseverar perante Mrs Saunders a importância do seu nome e do seu trabalho. É então que afirma opor-se por natureza ao casamento: «por nada no mundo renunciarei a chamar-me Mme. Hugo». Numa cena emblemática de disfarce, na qual se infiltra travestida numa festa, Adèle surpreende Pinson e tenta convencê-lo a casar, revelando a autorização de Victor Hugo para o efeito. Perante a inflexibilidade de Pinson, ela recorda as cartas do passado em que era ele mesmo quem falava de casamento. Adèle parece pois nutrir uma ideia de permanência da escrita, incompatível com a mutabilidade do mundo e com a passagem do tempo. Pinson, por seu lado, oferece a perspectiva oposta. Em casa de Mrs Saunders ele diz-lhe: «eu amei-te» [je t’ai aimé]; e fora da festa, no cemitério, trocando a familiaridade do tu pela formalidade do vós, continua: «conheci mulheres antes de si, conheci-as depois de si, e conhecê-las-ei ainda». A violenta divergência de senti201 L’HISTOIRE D’ADÈLE H.— apontamentos para uma cartografia da efabulação (Carta de uma Desconhecida, 1948), de Max Ophüls, desde que recebamos a história de Lisa com algum cepticismo, e consideremos o filme que nos é apresentado como nada mais do que a versão dela mesma da sua história, dada a ler a Stefan Brand quando já fora ultrapassado um limite temporal que permitisse a resposta e a contra-argumentação. Tendo apenas em conta os elementos disponíveis, não se pode descurar completamente a hipótese de que Lisa e Adèle sejam afinal storytellers com um plano semelhante de imposição da sua própria versão da trama amorosa. A reminiscência da obra de Ophüls manifesta-se ainda no episódio em que, coincidindo o seu olhar com o ponto de vista da câmara, uma Adèle sorridente espia o Tenente Pinson durante uma cena de sexo com outra mulher. Além de oferecer uma prova do carácter masoquista de Adèle, a situação remete para Rear Window (Janela Indiscreta, 1954), de Alfred Hitchcock, e para o tópico do voyeurismo enquanto condição natural do cinema, certamente assimilado por Truffaut3. Nesta e numa outra cena, na qual observa Pinson e a amante através de binóculos durante um espectáculo de hipnotismo — e tal como acontece com Lisa em Letter from an Unknown Woman —, Adèle adopta o ângulo da câmara e o olhar do espectador e do realizador durante o tempo da «traição». Disto se infere que ambos os filmes propõem representar o ponto de vista indiscreto da mulher apaixonada e obsessiva, que coincide com o ponto de vista da câmara, que está por sua vez a gravar a história que ela conta, ou seja, que está inequivocamente ao seu serviço e é um reflexo da sua visão. No fundo, podia defender-se que os dois se inserem numa linha de filmes focalizados em mulheres apaixonadas, heroínas trágicas, inaugurada por Max Ophüls em La Signora di Tutti (1934), no qual a correspondência entre alucinação e filme, assim como a origem da trama no interior da cabeça, é cenicamente literalizada. 200 amândio reis ————— 3 Na sua entrevista a Hitchcock, o realizador francês faz notar: «Somos todos voyeurs, quanto mais não seja quando vemos um filme intimista. Aliás, James Stewart, à sua janela, encontra-se na mesma situação do espectador a assistir a um filme» (Truffaut 1987: 162).
5. Livro e filme O encontro (ou o embate) de Adèle com François Truffaut vestido como um dos 16.os Hussardos vem confirmar a importância da figuração do rosto na filmografia do realizador. Quase todos os críticos notam o carácter «hitchcockiano» deste cameo5, ou, numa leitura complementar da mesma situação, reiteram a obsessão maníaca de Adèle com Pinson, no lugar do qual aparece naquele momento o realizador, num jogo entre identificação e distanciamento6. No entanto, não me parece facilmente defensável que Adèle confunda com Pinson aquele homem de cabelo grisalho, por quem, aliás, tinha acabado de passar de frente. Tendo em conta a presença de um regimento inteiro em Halifax, apenas seria plausível que ela se deixasse confundir por um jovem no mínimo parecido com Pinson. Talvez o susto evidente no gesto de Adèle — no que parece ser uma constatação causadora de espanto que acompanha a revelação da cara de Truffaut ao espectador — derive do facto de ela o confundir por instantes com uma figura paterna, não necessariamente a de Victor Hugo, mas, num entendimento mais lato, a imagem arquetípica do pai ausente que assombra o filme e que pende sobre a protagonista, perturbando-a, segundo John Orr, na sua «intimidade» (Orr 2013: 161). Trata-se, claro, de uma intimidade afectiva e sexual, mas também — como se poderia depreender do confronto com La Sirène du Mississippi (A Sereia do Mississippi, 1969) e com a personagem dupla, in disguise, de Julie Roussel/Marion Vergano — intimidade (ou integridade) identitária. Talvez aquele susto tenha, na verdade, um sentido mais literal, tão simples como, no interior da sua história, Adèle deparar com um outro criador, com o qual se vai confundir no final, sendo essa a misteriosa «identificação» a que alude 203 L’HISTOIRE D’ADÈLE H.— apontamentos para uma cartografia da efabulação mentos entre os dois recupera, portanto, o tópico da falta de sincronia na correspondência entre os amantes que marca centralmente Jules et Jim (Jules e Jim, 1962). Adèle escreve aos pais, mentindo. Afirma que se casou com Pinson e que a partir de então quer todas as cartas dirigidas a si endereçadas a «Madame Pinson», com a palavra «Madame» bem visível. A leitura desta carta acontece numa sobreimpressão do rosto de Adèle no oceano, simulando o trânsito da missiva através do mar. O rosto da jovem é depois substituído por um mapa no qual se traceja a travessia desde Halifax até Guernsey. Por um lado, a sobreimpressão da face da emissária numa paisagem onde se imagina o percurso da carta sinaliza um momento fracturante da correspondência, e é uma técnica utilizada já com esse sentido em Jules et Jim ou Deux Anglaises. Por outro lado, ela sinaliza um marco no percurso da protagonista, registando a sua entrega a uma fantasia cada vez mais aguda, conduzida por si mesma numa tentativa penosa de agir contrariamente à realidade. O nexo entre mapa cartográfico e rosto humano — isto é, entre o mapa da cidade e o rosto de Adèle —, quando pensado em articulação com a cena em que os rostos de Adèle e de Truffaut se encontram «vis à vis» (Malanga 1996: 397) no porto de Halifax, poderá decorrer então do que Tom Conley apresenta como o «cinema autobiográfico» de Truffaut, no âmbito do qual a própria vida é «concebida como um itinerário»4. Além disso, a sequência de reenvios da carta, estruturada em sobreimpressão, retoma a série inaugural de raccords e, como tal, enfatiza tanto o cariz materializador da carta/mapa, que traz consigo ora um espaço, ora um rosto, quanto, uma vez mais, dá conta da trajectória referencial que aqui está em causa, entre palavras, ou representações, e coisas. 202 amândio reis ————— 4 «Para Truffaut, o cinema autobiográfico devia relacionar-se com a vida concebida como um itinerário, ou, em suma, como trama, mapeamento e aprendizagem afectivos da vida» (Conley 2007: 107). ————— 5 «Truffaut aparece em cinco dos seus outros filmes […], e depois mostra-se à maneira de Hitchcock em L’Histoire d’Adèle H. (1975) e em L’Argent de Poche (1976)» (Colvile 1994: 286); ou «Em L’Histoire d’Adèle H., a brusca, breve e silenciosa aparição de Truffaut talvez seja uma piscadela de olho às famosas aparições de Hitchcock nos seus filmes» (Rodrigues 2005: 34). 6 «[O] realizador coloca-se no filme, numa aparição à Hitchcock, no papel de um oficial confundido por Adèle pelo amado e inatingível Pinson […], eis toda a dolorosa participação de Truffaut na história que está a contar, a sua identificação, mas também o seu distanciamento» (Malanga 1996: 397).
crítica e criativa é da inteira responsabilidade de Truffaut, que, por meio dele, não só rebaptiza Adèle Hugo, reformulando a sua identidade enquanto personagem e via de aproximação à História, como encontra para si mesmo um pseudónimo. Referências Andrew, Dudley & Anne Gillain. 2013. A Companion to François Truffaut. West Sussex: Wiley- -Blackwell. Anzalone, John. 1998. «Heroes and Villains, or Truffaut and the Literary Pre/Text», in The French Review, vol. 72, n.º 1 (Out., 1998). Pp. 48-57. Bougon, Patrice. 2014. «Les lettres de crédit dans L’Histoire d’Adèle H. de François Truffaut (1975)», in Hamaide-Jager et al. (eds), La Lettre au Cinéma. Arras Cedex: Artois Presses Universitaires. Pp. 177-191. Bruno, Edoardo. 1981. «Il senso della morte», in Mario Simondi, org. (1981), François Truffaut: L’Intrigo, Il Turbamento, l’Amore Nell’Opera di un Homme-Cinéma. Firenze: La casa Usher. Pp. 103-108. Collet, Jean. 2014. François Truffaut. Rome: Gremese. Colvile, Georgiana M.M. 1994. «Pères perdus, pères retrouvés dans l’oeuvre de François Truffaut», in The French Review, vol. 68, n.º 2 (Dez., 1994). Pp. 283-293. Conley, Tom. 2007. «Juvenile Geographies: Les Mistons», Cartographic Cinema. Minneapolis/London: University of Minnesota Press. Pp. 106-124. Hori, Junji. 2013. «Truffaut and the Photographic: Cinema, Fetishism, Death», in Andrew & Gillain (2013: 137-152). James, Henry. 1996. «The Altar of the Dead», Complete Stories 1892-1898. New York: Library of America. Pp. 450-485. Kline, Jefferson T. 2010. «Cinema and/as Dream: Truffaut’s “Royal Road” to Adèle H.», in Unraveling French Cinema from L’Atalante to Caché. Oxford: Wiley-Blackwell. Pp. 109-130. Lefebvre, Martin. 2013. «Truffaut and His “Doubles”», in Andrew & Gillain (2013: 23-70). Malanga, Paola. 1996. Tutto il cinema di Truffaut. Milano: Baldini & Castoldi. Nagib, Lúcia. 2013. «Film as Literature: or the Truffauldian Malaise (L’Homme qui Aimait les Femmes)», in Andrew & Gillain (2013: 530-545). Orr, John (2013), «The Impasse of Intimacy: Romance and Tragedy in Truffaut’s Cinema», in Andrew & Gillain (2013: 153-172). Rodrigues, Antonio (org.). 2005. François Truffaut — A Vida era o Écran. Lisboa: Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema. Truffaut, François. 1987. Hitchcock — diálogo com Truffaut. Lisboa: Dom Quixote. 205 L’HISTOIRE D’ADÈLE H.— apontamentos para uma cartografia da efabulação Paola Malanga. Seguindo esta hipótese, portanto, pode dizer-se que naquele momento Adèle se encontra consigo mesma, mas também com um duplo seu, que, ao contrário de toda a gente em Halifax, sabe quem ela é realmente, até porque, tal como nós reconhecemos nele o autor do filme, ele a pode reconhecer como personagem sua. Se pensarmos na economia de L’Histoire d’Adèle H., este seria mais um exemplo de um espelho deformado que diz a verdade ao dizer/mostrar uma coisa diametralmente diversa. Esta leitura ganha sentido se tivermos em linha de conta que ao encontro se segue a primeira cena de escrita do diário, como se, a partir daquele momento, Adèle se sentisse autorizada ou talvez até incitada a praticar uma forma de criação concorrente com a do filme, e, por implicação, uma obra de arte que poderá ser convergente ou divergente. Escreva então a protagonista com o realizador ou contra ele, o paralelismo entre Truffaut e o seu filme e Adèle e o seu diário é reforçado pela noção de obra que vai revestir este último. Durante a noite, a escritora defenderá ferozmente o seu manuscrito de uma mão furtiva nas camaratas dos sem-abrigo, exclamando: «não toque nisso. É o meu livro». A identificação enfática que Adèle faz do manuscrito como «livro», e não como diário, evidencia sobretudo a competição com o pai e entre os únicos dois livros deste filme, o seu e o romance Les Misérables, mas reivindica também o seu estatuto autoral no seio do filme de Truffaut, a história de Adèle H., ou seja, a sua história.Assistíramos já a um movimento semelhante de emersão da protagonista no texto fílmico na cena em que o seu reflexo se sobrepõe ao nome apagado do pai, ou, em termos mais rigorosos, quando a sua imagem se revela nítida por via do apagamento do nome do pai no espelho do hipnotizador charlatão, não por acaso, a figura personificada da falsificação, da retórica e do faz-de-conta. John Anzalone descreve a relação de Truffaut com as fontes literárias que adapta como um nexo intermedial em que o cinema é «uma forma de crítica literária» (Anzalone 1998: 52). Parece-me defensável a afirmação de que, à luz desta ideia, Truffaut assina o seu próprio filme em nome da protagonista — «Esta foi a história de Adèle H.», diz-nos a última legenda —, reconhecendo- -lhe ao mesmo tempo a autoridade e a autonomia que não teve antes, através da truncagem do patronímico, reduzido a um «H». Este gesto de intervenção 204 amândio reis