Editorial
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EDITORIAL O número 42 da revista Philosophica reúne as intervenções apresentadas no Colóquio Vida, Metafísica e Sociedade. I. Jornada Portuguesa sobre Georg Simmel, que decorreu a 31 de Maio de 2013 na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Esta iniciativa do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa teve a colaboração do Instituto de Ciências Sociais e contou com a participação de especialistas portugueses com estudos publicados sobre a multifacetada produção de um dos mais originais e influentes pensadores do século XX. Recorde-se o enunciado do texto programático: A filosofia da Vida, unidade espacial e continuidade temporal do acontecer, situa o pensamento de Georg Simmel (1858-1918) na tradição neoplatónica do Uno primordial, enquanto a orientação da filosofia da História, marcada pelo diagnóstico da tragédia da cultura da Modernidade, impõe uma visão necessariamente perspectivista e parcelar da totalidade. Esta tensão entre unidade e fragmentação – entre Vida e Formas – impregna as descrições de fenómenos tão diversificados, como a Paisagem, a Ruína ou o Rosto, e move a busca de novos princípios para uma estética e uma ética do movimento vital, num fascinante quanto inesperado tratamento de temas oscilando entre as altas esferas do Espírito e as mais banais expressões do quotidiano. Uma mesma visão do mundo permitiu ainda a Georg Simmel captar a analogia subterrânea da Metafísica e da Sociologia – ambas descrições da totalidade que se diferencia na pluralidade e peculiaridade das suas formações singulares. O número inicia com um momento de sentida homenagem a dois investigadores simmelianos já desaparecidos. Maria João Costa Pereira, que foi tradutora (com Michael Knoch) e prefaciou Fidelidade e Gratidão e Outros Textos e Fragmentos sobre o Amor, é recordada por Francisco Vale. João Paulo da Cruz Mendes, doutorando no Departamento de Filosofia, autor de “Indivíduo e Realidade: de Simmel a Kracauer”, publicado na Philosophica n.º 27 (2006), é recordado por Carlos João Correia; a esta homenagem também se associou, no dia da Jornada, Maria Filomena Molder. Philosophica, 42, Lisboa, 2013, pp. 3-5.
4 Adriana Veríssimo Serrão A secção Artigos é introduzida pela Notícia de Joana Macedo Luís, um comentário pessoal aos temas debatidos. Segue-se o estudo dedicado à via estética da metafísica da Vida: “A Experiência Estético-Metafísica de ‘Os Alpes’. Sobre a Génese da Stimmung em Simmel”, de Teresa Dugos; incidindo sobre a vivência da natureza enquanto paisagem, contesta a ideia muito difundida de que a matriz da esteticidade seria, para Simmel, exclusivamente artística. A complexidade de uma mundividência tantas vezes apontada de modo esquemático a partir da contraposição rígida entre Vida e Forma(s) é dilucidada por Teresa Sousa Fernandes, que em “Figuras Transgressivas da União dos Contrários na obra de Georg Simmel” mostra a constante imbricação de reunião e dissociação de formas em que a Vida se revela como profundidade e como transcendência. Adriana Veríssimo Serrão retoma, por sua vez, a tensão entre uma visão aparentemente constante da condição humana e a lei individual que rege cada indivíduo no movimento em que se procura afirmar como individualidade peculiar. Tendo em conta que o próprio filósofo, um dos fundadores da Sociologia, sempre aproximou Metafísica e Sociologia enquanto perspectivas análogas no propósito de descobrir articulações entre unidade e diferenciação, a abordagem da vida social é revisitada no artigo que Rafael Marques dedica à figura do Pobre (“Por uma Leitura Corsária de Os ‘Pobres’ de Georg Simmel”) e por Francisco Felizol Marques, que defende ser o tema do Dinheiro um método privilegiado de captar o constante fluir do acontecer (“O Método Dinheiro na Economia da Filosofia do Dinheiro”). Para além de metafísico e sociólogo, Simmel inscreveu grande parte da sua reflexão no âmbito da Filosofia da Cultura e da História, particularmente atento que foi à diversidade das expressões culturais da Modernidade, uma época marcada por intensas alterações na consciência colectiva, tais o advento da categoria de indivíduo como ser independente e a instauração do modo urbano da existência. A expressão da individualidade na sua auto-apresentação pelo Rosto é abordada no estudo de José Artur Ramos (“O Auto-Retrato como Consciência da nossa Vida”). Carlos Fortuna retoma a fenomenologia da Grande Cidade à luz do desenvolvimento da realidade metropolitana actual (“Georg Simmel: As Cidades, A Ruína e as novíssimas Metrópoles”). O desconhecimento da obra de Simmel na cultura portuguesa do século XX, votado a um quase total silêncio cujos motivos ainda estão cabalmente por compreender, é interpretado por José Luís Garcia, que através da reconstituição do tema do feminino em Natália Correia oferece novos elementos para a compreensão da recepção de Simmel entre nós (“Afinidades Electivas entre Georg Simmel e Natália Correia. Para o Estudo da Recepção de Simmel em Portugal”).
Editorial 5 Termina esta secção uma Bibliografia Portuguesa sobre Georg Simmel organizada por Teresa Dugos e Francisco Felizol. Uma palavra de agradecimento é devida ao Prof. José Luís Garcia (Instituto de Ciências Sociais), membro da Comissão Científica, a Teresa Dugos e Francisco Felizol Marques, da Comissão Organizadora, e a Lavínia Pereira e José Luís Pérez, moderadores da Jornada. Na secção Ensaios publicam-se os estudos de Ubirajara Rancan de Azevedo Marques (“Consideraciones filológicas a propósito del “Genio” en Kant”) e de Tiago Mesquita Carvalho (“A Paisagem no Diário de Miguel Torga”). Promovido pela revista Philosophica para estudantes do 1.º ciclo da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, o Prémio Prof. Doutor Joaquim Cerqueira Gonçalves, na primeira edição de 2013, foi atribuído ex æquo aos dois trabalhos que aqui se publicam: “A Ética dos Deveres prima facie, de David Ross, será uma forma credível de Deontologia?”, por Miguel Rebelo, e “Um Corpo em presença. Uma aproximação a Marina Abramović”, por Tomás N. Castro. Completam o presente número a secção de Recensões e outras Informações. Adriana Veríssimo Serrão