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FIGURAS TRANSGRESSIVAS DA UNIÃO DOS CONTRÁRIOS NA OBRA DE GEORG SIMMEL Teresa Sousa Fernandes (ISCTE – IUL) 1. Simmel parece ocupar nas ciências humanas um lugar homólogo ao do “estrangeiro”, evocado num texto de 1908. Não me refiro, para justificar esta aproximação, nem à ascendência judaica de Simmel que, segundo alguns, lhe teria vedado a plena integração académica, nem às formas de exclusão que condicionaram, no passado recente, a exegese da sua obra à constatação de traços desvalorizantes – o ensaísmo, o diletantismo, a ausência de “espírito de sistema”. Não me refiro tampouco à re- -socialização do autor e à apropriação dos seus textos com o objectivo de os inserir num determinado cânone disciplinar, epistemológico ou teórico. A figura a que é consagrado o texto de 1908 é um símbolo de simultânea interioridade e exterioridade: o “estrangeiro” a que alude Simmel é aquele que não abdicou da “liberdade de partir e regressar”. Adivinha-se já nesta fórmula a duplicidade que lhe é atribuída, síntese de movimento e de fixidez: Se a errância é libertação de um ponto definido no espaço e, por consequência, o oposto conceptual da fixação nesse ponto, a forma sociológica do ‘estrangeiro’ apresenta, por assim dizer, a unificação dessas duas características1. A sua imagem confronta-nos com atributos incomuns e convida-nos a reinventarmo-nos a nós próprios. Uma combinação singular de proximidade e de distância transforma, assim, os elementos dissociativos da sua presença em factores determinantes de associação. 1 Georg Simmel, “The Stranger”, in Kurt H. Wolff (ed. & trans.), The Sociology of Georg Simmel, New York: The Free Press, 1964, p. 402. Philosophica, 42, Lisboa, 2013, pp. 37-44.
38 Teresa Sousa Fernandes É esta a posição liminar de Simmel no espaço das ciências humanas. Ele trouxe, para o seu interior, a memória de qualidades rejeitadas desde os séculos XVII e XVIII e, entretanto, largamente esquecidas. Simmel é herdeiro de poetas-cientistas como Goethe cuja obra leu e aprofundou até ao fim da vida, procurando conjugá-la com o racionalismo crítico de Kant. Reconhecendo as dificuldades do pensamento dicotómico dominante, participou criativamente no que considerou ser “a enorme tarefa cultural de restaurar, a um nível superior, a unidade perdida entre natureza e espírito, mecanismo e sentido interior, objectividade científica e percepção subjectiva da significação da vida e dos objectos”2. A sua obra circunscreve, assim, a problemática da dualidade e da sua transcendência. Neste contexto, o “estrangeiro” é certamente um exemplo da unidade dos contrários. Mas é apenas um, entre muitos outros. Presente em todos os seus textos, a ideia da unidade dos contrários é abordada de várias perspectivas e percorre uma reflexão diversificada sobre questões relacionadas com a teoria da arte, a filosofia, a história e a sociologia. 2. A aparente banalidade dos objectos que povoam o universo simmeliano – a ponte, a porta, o bule, designadamente – contrasta com o propósito que os torna exemplares e lhes confere uma dignidade própria. Simmel chamou a atenção com insistência para a ambiguidade que preside à apreensão corrente do mundo. A realidade aparece à consciência comum como uma sucessão de descontinuidades, uma cadeia de elementos inscritos no espaço enquanto entidades específicas, distintas, separadas. Tudo existe porém em constante transformação, convergindo numa unidade essencial. É o que Simmel procura mostrar num texto de 1909 – “Ponte e porta”. Nos termos da experiência quotidiana, a ponte – o primeiro dos exemplos a que se refere – é o elemento que aproxima as margens distantes. Mas ela é muito mais do que a simples união dos elementos que a percepção comum separou: ela nega a divisão aparente. Do mesmo modo, não basta dizer que a porta evoca a separação, quando fechada, e a comunicação, quando aberta. A porta é a linha de fronteira permanentemente violada. E, neste sentido, ela simboliza a própria experiência humana: é indispensável que a humanidade se imponha uma fronteira, mas que proceda “com liberdade, isto é, de modo a poder de novo eliminá-la, a poder colocar-se fora dela”3. 2 Georg Simmel, “Kant and Goethe: On the History of the Modern Weltanschauung”, Theory, Culture & Society, 24-6 (2007), p. 160. 3 Georg Simmel, “Bridge and Door”, in David Frisby & Mike Featherstone (eds.), Simmel on Culture, London: Sage, 1997, p. 172.
Figuras Transgressivas da União dos Contrários na Obra de Georg Simmel 39 Bergson sublinhara que as relações lógicas estabelecidas no plano conceptual tendem a reproduzir as relações entre objectos sólidos no espaço físico. Simmel partilhou esta perspectiva crítica, acentuando o carácter unilateral e redutor de uma visão do mundo que faz tábua rasa da ambiguidade constitutiva do acto cognitivo e nega, em consequência, a tensão imanente entre unir e separar. Esta tensão exprime-se num número indefinido de formas e inclui os mais diversos matizes. Tomemos como novo exemplo o texto de 1905, dedicado ao bule – ou melhor, à relação particular entre o bule e a asa. Simmel constata a dupla valência do bule enquanto instrumento de utilização quotidiana e enquanto objecto estético, singularizado pelas suas características formais. Os fins práticos do bule-instrumento projectam-no num espaço exterior de relações. Diferente é a natureza do bule como objecto de contemplação estética, subordinado a princípios de harmonia e equilíbrio que o autonomizam do mundo das relações e o isolam num espaço auto- -contido. O bule existe, assim, em dois mundos distintos que Simmel fará no entanto convergir. Procede, para esse efeito, a um exercício que desloca a atenção do todo para a parte e da parte para o todo, preparando os leitores para o momento da síntese. As características fundamentais que Simmel começara por atribuir ao bule como um todo – a sua dupla valência e a sua pertença a mundos aparentemente separados – deixam reconhecer-se também na asa do bule, sobre a qual a discussão passará a concentrar-se. A asa constitui, por vezes, um objecto estético dotado de uma surpreendente independência, como se proviesse de um outro universo de significação. Na configuração teriomórfica que a arte oriental lhe impõe frequentemente, uma serpente, um lagarto ou um dragão parecem apropriar- -se inopinadamente do recipiente, incorporando-se nele como um suplemento de sentido. Noutros casos, contudo, a asa surge moldada em perfeita sintonia com a forma e o material do recipiente, não sendo mais do que a sua extensão. Entre estas opções contrárias, situa-se uma terceira – a do perfeito equilíbrio entre interior e exterior, indispensável à síntese dos dois mundos. Podemos, então, imaginar uma beleza de ordem superior, uma unidade que já não é passível de descrição. Mas a transição do todo para a parte – do bule para a asa – desempenha, no texto, uma outra função estratégica. O recipiente como um todo parece esfumar-se para que a atenção se fixe apenas na ligação subtil entre os mundos assegurada pela asa. Este elemento discreto que simboliza o todo é, na verdade, uma metáfora da alma, ou do movimento através do qual ela se estende para o mundo e o absorve em si mesma, ou se deixa cativar por ele. As mesmas preocupações motivam a reflexão de Simmel sobre a experiência individual. Um texto de 1911 – “A aventura” – é, a este res-
40 Teresa Sousa Fernandes peito, particularmente significativo. Manifestando-se no espaço e no tempo a partir de um centro interior, toda a existência humana é também estruturada pela cadeia de conexões de continuidade e de contiguidade que compõem uma história de vida. Cada um dos seus fragmentos é, pois, duplamente determinado: “gravita em torno do seu próprio centro” e forma “um segmento do curso da vida”4. Esta dupla determinação adquire particular intensidade na experiência excepcional da “aventura”. Ao contrário das situações comuns, articuladas entre elas numa mesma trama, a “aventura” simmeliana é uma ilha no fluxo da vida. Indiferente ao passado e ao futuro, ela inscreve-se no momento presente; desligada do nexo de inteligibilidade que aproxima entre si acontecimentos muito diversos, forma-se a partir de uma significação interior; descentrada do “eu” consciente, como se um “outro” de nós mesmos a experimentasse, adquire na memória as qualidades do sonho. E, no entanto, como a asa em relação ao bule, a “aventura” é o fragmento que encerra o sentido profundo da totalidade da vida. Uma vez mais, à imagem da asa do bule, a síntese aqui realizada transporta-nos para um outro plano: Simmel evoca a transmigração da alma para postular a possibilidade de concebermos a totalidade da existência terrestre como “aventura”, fragmento de uma “super-vida”, de uma “ordem transcendente”. Encontramos assim constantemente reiterada uma concepção singular da relação entre o todo e as partes: “A singularidade da vida reside no facto de se ocultar, una e inteira, em cada um dos [seus] elementos…”5. 3. As reflexões que precedem conduzem-nos ao livro que Simmel elegeu como seu “testamento” – Visão da Vida. Quatro Ensaios Metafísicos. Publicado em 1918, e integralmente editado em língua inglesa apenas em 2010, este texto constitui, do meu ponto de vista, a quintessência da reflexão simmeliana sobre a unidade dos contrários, aqui apresentada nos termos da relação entre vida e formas. Nas formas em que se manifesta, a vida – irrepresentável em si própria – só pode conceber-se como negação de si mesma. Deste ponto de vista, poder-se-ia argumentar que uma filosofia da vida é um contrassenso: “Negaríamos a essência da vida se tentássemos formar uma definição 4 Georg Simmel, “The Adventure”, in Kurt H. Wolff (ed.), Essays on Sociology, Philosophy & Aesthetics, New York: Harper Torchbooks, 1965, p. 243. 5 Georg Simmel, “Notes from Simmel’s ‘Metaphysics’ File”, in The View of Life. Four Metaphysical Essays with Journal Aphorisms, Chicago: The University of Chicago Press, 2010, p. 192.
Figuras Transgressivas da União dos Contrários na Obra de Georg Simmel 41 conceptual exaustiva … pois a conceptualização implica inevitavelmente o reino das formas”, escreveu Simmel, sublinhando no entanto que o problema “não diminui o seu momentum enquanto ideia”6. Como proceder, então, à definição das formas? “Definir” (de-finire) é estabelecer um limite. Ora, para Simmel, “a verdadeira essência da vida reside na capacidade de se transcender, de estabelecer os seus limites, projectando-se para o exterior, isto é, para além de si mesma”7. Nesta perspectiva, o significado da palavra “definição” sofre uma completa metamorfose: traçar os contornos de uma forma, defini-la, é sugerir a transcendência imanente à própria vida. Limitar e transgredir são, no essencial, a mesma coisa: o traçado de uma fronteira pressupõe a sua transgressão, e a transgressão, ela própria, engendra novas fronteiras. A unidade da vida e da forma só pode apreender-se em termos dinâmicos como movimento de transcendência da dualidade. E este movimento inclui, em primeiro lugar, a própria ideia da morte: ao fixar um limite virtual da vida, a ideia da morte é um princípio formador, o seu verdadeiro Gestalter. E, no entanto, a civilização ocidental – a tradição cristã, em particular – transformou-a num acontecimento acidental e exterior, trivializando-a. Simmel convida-nos a resgatá-la para a relacionarmos, sob novas formas, com o centro da existência. Os “quatro ensaios metafísicos” mostram-nos que só existe contradição entre vida e morte – ou entre vida e forma, ser e dever ser, ser e devir… – quando deixamos de considerar estes termos como aspectos dinâmicos de uma unidade essencial, para os transformarmos em “concepções opostas, mutuamente exclusivas”8. É ainda a recusa do pensamento dicotómico que está subjacente à ideia de “tragédia da cultura”. Se a vida é transcendência de si mesma – “mais-vida” e “mais-do-que-a-vida”, nas expressões de Simmel –, ela comporta um princípio imanente de auto-destruição. Há, pois, uma oposição insuperável entre “o ritmo febril” do fluxo vital e a “fixidez” das formas culturais que adquirem, com o tempo, crescente autonomia. Expressão radical deste jogo dos contrários, a cultura moderna revela um profundo desequilíbrio entre a proliferação das formas e a sua apropriação subjectiva. 6 Georg Simmel, “The Conflict in Modern Culture”, in Donald N. Levine (ed.), On Individuality and Social Forms, Chicago: The University of Chicago Press, 1971, p. 392 (n.1). 7 Georg Simmel, The View of Life. Four Metaphysical Essays with Journal Aphorisms, Chicago: The University of Chicago Press, 2010, p. 10. 8 Ibid., p. 6.
42 Teresa Sousa Fernandes Definindo a cultura como objectivação e subjectivação – “o caminho da alma em direcção a si mesma” –, Simmel postula a unidade do sujeito e do objecto. Quando dizemos que o “eu”, sujeito, se conhece a “si mesmo”, enquanto objecto, pressupomos necessariamente uma terceira entidade que permanece, una e inteira. No entanto, “eu-conhecedor” e “eu- -conhecido”, embora essencialmente indistintos, nunca serão mutuamente transparentes, nem se reconhecerão numa mera relação de espelho. Neste contexto, a epistemologia subjacente à teoria social de Simmel torna-se particularmente reveladora. Abordada num texto de 1908 – “Como é possível a sociedade?” –, ela sintetiza-se numa afirmação frequentemente escamoteada: “O a priori da vida social empírica consiste no facto de a vida não ser inteiramente social”. Os indivíduos situam-se pois, simultaneamente, no “interior” e no “exterior” da estrutura da sociedade.9 Ao fixar assim, de modo transgressivo, a fronteira disciplinar da sociologia, Simmel convida-nos a reflectir sobre as consequências sociais das dimensões não-sociais do indivíduo. Deste ponto de vista, a comunicação interdisciplinar é necessária à própria delimitação das problemáticas de cada uma das disciplinas. A transgressão possibilita, aqui, uma forma superior de conhecimento. Dentro e fora das fronteiras da ciência, habitamos uma pluralidade de “mundos”. Cada um deles organiza de modos distintos os mesmos conteúdos da existência, constituindo-se como espaço delimitado e auto- -suficiente, estruturado em torno do seu próprio centro. A nossa existência aparece-nos, assim, fragmentada numa enorme variedade de esferas descontínuas de realidade. E, no entanto, essa descontinuidade é ilusória, como constatamos ao contemplar a diversidade dos “mundos”, existentes ou prováveis, a partir da unidade essencial da vida enquanto movimento de transcendência de si mesma. O “testamento” de Simmel esboça um novo horizonte, onde os aparentes fragmentos da existência se reúnem no processo dinâmico da vida “como as ondas numa corrente; é, em cada caso, uma vida que as produz como a sua pulsação e, porque são inseparáveis dela, não podemos finalmente distingui-las umas das outras”10. Simmel, o “errante potencial” – como designou também o “estrangeiro” –, convida-nos a reconhecer em cada fronteira um desafio à transgressão e em cada transgressão o esboço de uma nova fronteira. 9 Georg Simmel, “How Is Society Possible?”, in Kurt H. Wolff (ed.), Essays on Sociology, Philosophy & Aesthetics, New York: Harper Torchbooks, 1965, p. 347. 10 Georg Simmel, The View of Life. Four Metaphysical Essays with Journal Aphorisms, p. 25.
Figuras Transgressivas da União dos Contrários na Obra de Georg Simmel 43 Referências bibliográficas Simmel, Georg (1964), “The Stranger”, in Kurt H. Wolff (ed. & trans.), The Sociology of Georg Simmel, New York: The Free Press, pp. 402-408. ———, (1965), “The Adventure”, in Kurt H. Wolff (ed.), Essays on Sociology, Philosophy & Aesthetics, New York: Harper Torchbooks, pp. 243-258. ———, (1965), “The Handle”, in Kurt H. Wolff (ed.), Essays on Sociology, Philosophy & Aesthetics, New York: Harper Torchbooks, pp. 267-275. ———, (1965), “How Is Society Possible?”, in Kurt H. Wolff (ed.), Essays on Sociology, Philosophy & Aesthetics, New York: Harper Torchbooks, pp. 337-356. ———, (1971), “The Conflict in Modern Culture”, in Donald N. Levine (ed.), On Individuality and Social Forms, Chicago: The University of Chicago Press, pp. 375-393. ———, (1997), “Bridge and Door”, in David Frisby & Mike Featherstone (eds.), Simmel on Culture, London: Sage, pp. 170-174. ———, (2007), “Kant and Goethe: On the History of the Modern Weltanschauung”, Theory, Culture & Society, London: Sage, Vol. 24(6), pp. 159-191. ———, (2010), The View of Life. Four Metaphysical Essays with Journal Aphorisms, Chicago: The University of Chicago Press. ———, (2010), “Notes from Simmel’s ‘Metaphysics’ File”, in The View of Life. Four Metaphysical Essays with Journal Aphorisms, Chicago: The University of Chicago Press, pp. 189-192. RESUMO “O homem é um ser limitado que não tem limites”. Este paradoxo simmeliano ilustra a singularidade de uma reflexão que tem por centro a unidade dos contrários. A errância de Simmel por uma enorme variedade de objectos, por vezes aparentemente desconexos – “a ponte e a porta”, “a ruína”, “a asa do bule”, “a aventura”, “o pobre”, “o estrangeiro”… –, permitiu-lhe interrogar secretas afinidades, transgredir limites e diluir fronteiras para reconhecer, enfim, a unidade da vida na multiplicidade das formas em que se manifesta. Os ensaios metafísicos que compõem o seu “testamento” – Visão da Vida (Lebensanschauung) – são a expressão mais decantada desta problemática. Ao explicitar a trama essencial que subjaz à diversidade dos temas, objectos ou disciplinas a que se dedicou, Simmel oferece- -nos neste último livro o fragmento que melhor espelha a totalidade da sua obra. Palavras-chave: cultura, forma, oposição, transgressão, vida.
44 Teresa Sousa Fernandes ABSTRACT “Man is the limited being that has no limit”. Simmel’s paradox illustrates the singularity of a way of thinking centered on the unity of contraries. Wandering through a large variety of seemingly disconnected objects – “bridge and door”, “the ruin”, “the handle”, “the adventure”, “the poor”, “the stranger”... –, Simmel has questioned secret affinities, transgressed limits and dissolved borders in order to recognize, at last, the unity of life manifesting in a multiplicity of forms. The most decanted expression of this subject is found in the metaphysical essays published as his “testament” – Vision of Life (Lebensanschauung). Elucidating the common threads that weave together the diverse themes, objects and disciplines to which Simmel dedicated himself, this last book is the fragment where the totality of his work is best reflected. Keywords: culture, form, life, opposition, transgression.