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5 ÍNDICE Nota Prévia.............................................. 9 COMUNICAÇÕES A personagem de ficção na literatura eletrónica: extensões e imersões em Inanimate Alice .............................. 13 ANA MARIA MACHADO Protagonistas ou figurantes? As figuras da ficção de Carlos de Oliveira...................................... 31 ANTÓNIO APOLINÁRIO LOURENÇO A Dama Pé de Cabra: sobrevida de uma personagem medieval portuguesa ...................................... 43 AZZURRA RINALDI El melancólico: autor y personaje en el romanticismo español ...... 57 BORJA RODRÍGUEZ GUTIÉRREZ Personagens e suas mortes em Os Olhos De Ana Marta de Alice Vieira 75 CAROLINE FERNANDES Autorias inventadas: índices de ação e outros registros como procedimentos para a criação de personagens ficcionais........... 89 DAIANA SCHRÖPEL Para além do Muro: os mundos possíveis de Aventuras de João Sem Medo ........................................ 105 DANIELA CÔRTES MADURO
6 Personagem e loucura em tradução intersemiótica: O coração delator de Edgar Allan Poe e de Charles, F. Klei ....................... 121 ELIANE FITTIPALDI Figura e metalepse na comédia de Aristófanes .................. 147 ELISANA DE CARLI Personagem e género: o caso do conto literário moderno .......... 155 ERIK VAN ACHTER Personagens no jornalismo: a cobertura da morte de Mário Soares no Diário de Notícias e no Observador........................ 171 INÊS FONSECA MARQUES A Vegetariana: A mudez narrada ou a presença filmada ........... 193 JOANA VIDEIRA Carlos Fradique Mendes: uma sobrevida autobiográfica ........... 209 JOSÉ VIEIRA A construção de personagens na obra de Nelson Rodrigues: caricatura e metalepse..................................... 227 MARIA CRISTINA BATALHA Camões, personagem de ficção .............................. 243 MARIA DO CÉU FRAGA Vozes em travelling: figurações da personagem em A Costa dos Murmúrios ................................. 267 MARTA TEIXEIRA ANACLETO Sobrevidas da personagem – Jesus e Caim no trabalho de Saramago 287 MIRIAM RINGEL Metalepse e sobrevida da personagem Augusto Pérez em Niebla de Miguel de Unamuno............................ 297 PAULO BRANCO LIMA
7 El personaje del solitario en el álbum ilustrado posmoderno ....... 307 RAQUEL GUTIÉRREZ SEBASTIÁN Tremblez, tremblez, les sorcières sont de retour … en littérature de jeunesse contemporaine!................................. 319 RÉGINE ATZENHOFFER Alencar ou o testamento do romantismo: a propósito de Os Maias, de Eça de Queirós ............................. 341 RICARDO NOBRE Isto não é uma personagem: a figuração de Fernando Pessoa em O ano da morte de Ricardo Reis, de José Saramago ........... 355 SARA GRÜNHAGEN Josefine, or Living in Discourse.............................. 373 STEFANO BALLERIO Personagens: entre luz e sombras, uma poética de corpos caligráficos 387 VERA BASTAZIN As reconfigurações de personagens e as revisões do patriarcalismo na ficção e nas memórias de José Lins do Rego ................. 405 VICTOR HUGO ADLER PEREIRA
RICARDO NOBRE1 Centro de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa ORCID: 0000-0002-0059-5775 ALENCAR OU O TESTAMENTO DO ROMANTISMO: A PROPÓSITO DE OS MAIAS, DE EÇA DE QUEIRÓS ALENCAR OR THE WILL OF THE PORTUGUESE ROMANTICISM: ON EÇA DE QUEIRÓS’ OS MAIAS RESUMO: Se Os Maias são o “testamento do romantismo” português (J.-A. França), Alencar é o seu representante mais fiel. Assim, apesar de se tratar de uma personagem- -tipo, ele beneficia de uma evolução ao longo do romance, concentrando as características e mutações da própria estética romântica (coincidindo, grosso modo, com as três “fases” delimitadas nas histórias da literatura), mantendo embora traços físicos e comportamentos característicos (como a generosidade ou o gosto pela bebida). Este artigo estuda a figura de Alencar como personagem d’Os Maias que, no enredo, ajuda a desencadear a tragédia (Pedro vê por acaso Maria Monforte, mas Alencar dá-lhe as primeiras informações sobre ela); na focalização, problematiza a perspectiva (e objectividade) do narrador (se “é Carlos da Maia quem observa em Alencar as marcas de uma feição sombriamente romântica” (C. Reis), na discussão sobre literatura durante o jantar no Hotel Central o narrador é claramente crítico do romantismo); na organização do discurso, modula a economia da narrativa. Palavras-chave: Romantismo português, Personagem de ficção, Eça de Queirós, Tomás de Alencar, Os Maias. ABSTRACT: If Os Maias are seen in Portugal as a “testamento do romantismo” (J.-A. França), Alencar has to be the most faithful character from Portuguese Romanticism. Albeit being a type-character, he suffers an evident evolution throughout the novel, in which Alencar encompasses characteristics and mutations of Romantic aesthetics (matching, grosso modo, to the three stages of Romanticism, traditionally defined in 1 Estudo elaborado no âmbito da Bolsa de Pós-Doutoramento com a referência SFRH/ BPD/115195/2016, financiada pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia. https://doi.org/10.14195/978-989-26-1940-8_21
342 literary history), although keeping physical attributes and typical behaviour (such as his generosity or his love for drinking).This article studies Alencar as a character of Os Maias who, in the novel’s plot, acts as a catalyst for tragedy (Pedro sees Maria Monforte by chance, but it is Alencar who gives him first insights on her); on focalization, creates problems for the narrator’s perspective (and objectivity) – assuming that “é Carlos da Maia quem observa em Alencar as marcas de uma feição sombriamente romântica” (C. Reis), it is clear that, during the argument on literature over dinner at Hotel Central, the narrator is a critic of Romanticism; in discourse organization, Alencar modulates the narrative’s economy. Keywords: Portuguese Romanticism, Fiction Character, Eça de Queirós, Tomás de Alencar, Os Maias. Num conhecido estudo “Sobre a Teoria da Prosa”, datado de 1925, Boris Eichenbaum (2001: 203) salienta no romance oitocentista uma tendência para “un large emploi des descriptions, des portraits psychologiques et des dialogues”; podendo os últimos assumir “une forme masquée de narration”, é de realçar o efeito provocado pela fala de uma personagem, quando relata um acontecimento contado (antes ou depois) pelo narrador. Emitida por outra entidade narrativa, esse discurso, pela categoria temporal da frequência, diz-se repetido, e, do ponto de vista enunciativo, apresenta-se modalmente transformado, no que respeita à qualidade e a quantidade de informação exposta. Exemplo desse processo são, no romance Os Maias, de Eça de Queirós, as duas referências à atribuição do nome ao protagonista pela mãe. A primeira, feita pelo narrador em focalização interna, ocorre num relato simultâneo à acção (c. 1848): Maria Monforte “[a]ndava lendo uma novela de que era herói o último Stuart, o romanesco príncipe Carlos Eduardo; e, namorada dele, das suas aventuras e desgraças, queria dar esse nome a seu filho… Carlos Eduardo da Maia! Um tal nome parecialhe conter todo um destino de amores e façanhas” (Queirós, 2017: 90-91). A segunda referência à decisão surge vinte e sete anos depois, num relato bastante posterior à acção (1875), partindo de Tomás de Alencar, em conversa com o próprio Carlos no início do jantar no Hotel Central (pp. 203): [T]ua mãe (…) teimou em que havias de ser Carlos (…) por causa de um romance que eu lhe emprestara; nesses tempos podiam-se emprestar romances a senhoras, ainda não havia a pústula e o pus… Era um romance sobre
343 o último Stuart, aquele belo tipo do príncipe Carlos Eduardo (…). Tua mãe, devo dizê-lo, tinha literatura e da melhor. Consultou-me, consultava-me sempre, nesse tempo eu era alguém, e lembro-me de lhe ter respondido… (…). Enfim, (…) disse-lhe (…): “Ponha-lhe o nome de Carlos Eduardo, (…) que é o verdadeiro nome para o frontispício dum poema, para a fama dum heroísmo ou para o lábio duma mulher!” Entre as duas versões, existem efectivamente diferenças resultantes da mudança da focalização e do tempo do discurso; se o primeiro narrador omite o papel de Alencar na decisão de chamar Carlos à criança, o poeta exagera com entusiasmo a sua importância: era dele o livro lido por Maria e a ele se deviam os argumentos decisivos (nome digno de poema, herói e amante). Alencar arroga-se, portanto, testemunha de um passado que mitifica (mas que é estranho a Carlos), sendo, aliás, a única personagem da obra que assoma ao longo de todo o tempo do discurso2: torna-se a viva síntese do século (e do enredo), assistindo a transformações culturais, de que não está ausente, como se particularizará, a actualização do gosto literário (nomeadamente o crescente interesse pelo Realismo e pelo Naturalismo, em desprimor do Romantismo). De forma algo sumária, recorde-se que a figura de Tomás de Alencar3 está presente nos “tempos de Arroios”, que decorrem sensivelmente até 1848, e que, pode dizer-se, têm início anos antes, no instante em que Pedro da Maia vê pela primeira Maria Monforte4. No café Marrare, Alencar 2 Incluindo, portanto, os serões de Arroios (até 1848), 1875-76 (data da história principal) e 1887 (regresso de Carlos a Lisboa, dez anos depois da morte do avô). 3 Até à publicação do verbete de Carlos Reis (2016) sobre Tomás de Alencar no Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa, a caracterização desta figura d’Os Maias, de Eça de Queirós, centrava-se eminentemente na aproximação que dela se fez (desde a publicação do romance) a um poeta e memorialista famoso, António Raimundo de Bulhão Pato. No verbete “Alencar, Tomás de” do Dicionário de Eça de Queirós, mais de metade do artigo de Campos Matos (2015) dedica-se a discutir a caricatura de Alencar, elevada a “polémica” (posição que a bibliografia reforça, com referências a Poetas do Romantismo, de Prado Coelho, 1962, e, desse ano, o artigo de Fernando Castelo Branco “Será o Alencar dos ‘Maias’ um retrato de Bulhão Pato?”). Cf. ainda Reis (2015). 4 Sendo notável o arrebatamento de modelo romântico: “um dia, excessos e crises findaram. Pedro da Maia amava!” (Queirós, 2017: 76); cf. Amor de Perdição: “No espaço de três meses fez-se maravilhosa mudança nos costumes de Simão. (…)/Simão Botelho amava” (Castelo Branco, 2007: 169).
344 – “rapaz alto, macilento, de bigodes negros, vestido de negro”, de “pose de tédio”, “voz grossa e lenta”, “dedos magros” e com “anéis” na “cabeleira” (Queirós, 2017: 77) – observa o efeito que a visão tem em Pedro e oferece-se para dar informações ao amigo sobre aquela mulher, usando um estilo floreado que incomoda o interlocutor5, e que será a principal característica da personagem, identificada ao longo de todo o romance como poeta, autor das Vozes de Aurora, de Elvira e de Flor de Martírio, esta dedicada a Maria Monforte6. Quando Pedro e Maria vão viver para Arroios, começam os serões, onde são presença frequente D. João da Cunha e Tomás de Alencar7, que por lá “soltava as suas frases ressoantes” e “arrastava as suas poses de melancolia”; a Maria Monforte o poeta “proclamava-se com alarido ‘seu cavaleiro e seu poeta’” (Queirós, 2017: 89). Alencar participa ainda na caçada na quinta da Tojeira, durante a qual Tancredo é ferido (p. 91). Durante a sua convalescença, Pedro, Alencar e D. João da Cunha fazem companhia ao napolitano (p. 92), que, quando recupera, agradece com um ramo e um soneto o tratamento que recebeu em Arroios: “Isto afigurou-se a todos de uma rara distinção, e, como disse o Alencar, um rasgo à Byron” (p. 83). Mesmo quando a animação social de Arroios se transfigura, o poeta continua íntimo da casa, recitando “traduções de Klopstock” (p. 94). 5 Queirós (2017: 77-79). O estilo de Alencar seria criticado por Afonso, mas admirado por Vilaça (p. 129), que se referira ao poeta enquanto “rapaz que escreve, e que era muito de Arroios” (p. 78). 6 Queirós (2017: 89). Insiste-se muitas outras vezes no título das obras de Alencar (e.g., pp. 77, 128, 205, 215, 275, 598); na p. 272 a obra Flor de Martírio é erradamente denominada Flores e Martírio. 7 No capítulo X, afirma-se que “D. Maria [da Cunha] fora uma das suas [sc. de Alencar] lindas contemporâneas. Tinham dançado muita ardente mazurca nos salões de Arroios. Ela tratava-o por tu. Ele dizia sempre boa amiga, e querida Maria” (Queirós, 2017: 343). No capítulo XVII, discute-se a idade de Alencar: Carlos pensa que ele “deve ter bons cinquenta anos” (p. 636); “Ega jurou pelo menos sessenta” porque “em 1836 o Alencar publicava coisas delirantes, e chamava pela morte, no remorso de tantas virgens que seduzira”; Afonso recorda que ouve falar dele “[h]á que anos”; D. Diogo comenta que “Alencar tem a idade que havia de ter teu [sc. de Carlos] pai… Eram íntimos, dessa roda distinguée de então”, recordando que ele “ia muito a Arroios com o pobre D. João da Cunha, que Deus haja, e com os outros. Era tudo uma fina flor, e regulavam pela mesma idade” (p. 636).
345 Se Byron e Klopstock são referências literárias de natureza romântica, Alencar falaria ainda de Espronceda (Queirós, 2017: 345) e elogiara o “nosso delicioso Rodrigues Lobo, esse verdadeiro poeta da natureza, esse rouxinol tão português” (p. 202). Depois da elipse de dez anos, em 1887, o poeta romântico cita o exemplo de Horácio e da história de Roma: “A gente queixa-se sempre do seu país, é hábito humano. Já Horácio se queixava. E vocês, inteligências superiores, sabeis [sic] bem, filhos, que no tempo de Augusto… Sem falar, é claro, na queda da república, naquele desabamento das velhas instituições… Enfim, deixemos lá os Romanos!” (p. 675). Coincidindo com o período de apogeu do Romantismo, os tempos de Arroios são, portanto, o período em que Alencar “era alguém”, ideia que percorre o romance noutros momentos; por exemplo, durante o jantar no Hotel Central8 ou, findo este, quando acompanha Carlos ao Ramalhete: “Alencar foi falando desses ‘grandes tempos’ da sua mocidade (…); e, através das suas frases de lírico, Carlos sentia vir como um aroma antiquado desse mundo defunto9… Era quando os rapazes ainda tinham um resto de calor das guerras civis, e o calmavam indo em bando varrer botequins ou rebentando pilecas de seges em galopadas para Sintra”10. 8 Queirós (2017: 203); depois do jantar, lembra: “esses homens que por aí figuram embebedavam-se comigo, emprestei-lhes muito pinto, dei-lhes muita ceia… E agora são ministros, são embaixadores, são personagens, são o diabo. (…) Isto é duro, Carlos, isto é muito duro, meu Carlos. (…) [E]sta ingratidão tem-me feito cabelos brancos” (pp. 220-221). Note-se, ainda, que a oferta de um charuto a Carlos “fazia-o (…) voltar aos tempos em que nesse Marrare ele estendia em redor a charuteira cheia” (p. 221). 9 Pouco à frente, o narrador afirma que os ombros de Alencar vergavam sob o peso da “saudade desse mundo perdido” (Queirós, 2017: 218). Depois do primeiro encontro com Alencar, Carlos “ficou pensando nesse estranho passado que lhe evocara o velho lírico”, que “ao falar de Pedro, de Arroios, dos amigos e dos amores de então”, “evitara pronunciar sequer o nome de Maria Monforte!” (p. 221); recorde-se que, na verdade, Alencar falara de Maria a propósito da escolha do nome de Carlos. Alencar diz que Guimarães “foi muito de teu pai, fizemos muita troça juntos” (p. 460; cf. p. 585); “Carlos foi pensando em seu pai e nesse passado, assim rememorado e estranhamente ressurgido pela presença daquele patriarca, antigo alquilador, que fizera com ele tantas troças!” (p. 460). 10 Queirós (2017: 218). Alencar continua a evocar e a louvar melancolicamente o passado em Sintra, quando, no capítulo VIII, Cruges e Carlos o encontram “caminhando pensativamente, de mãos atrás das costas, um homem alto, todo de preto, com um grande chapéu panamá sobre os olhos” (Queirós, 2017: 267): “Toda a manhã [Alencar] andara ali [em Seteais], vagamente, pendurando sonhos dos ramos das árvores” (p. 268). Para Alencar, Sintra não tem um “cantinho que não seja um poema… Olha, ali tens tu, por exemplo, aquela linda
352 Tendo iniciado, no princípio de 1876, uma viagem por vários países estrangeiros, no Natal de 1886, Carlos “escreveu para Lisboa ao Ega anunciando que – depois de um exílio de quási dez anos, resolvera vir ao velho Portugal”. Assim, “numa luminosa e macia manhã de Janeiro de 1887, os dois amigos (…) almoçavam num salão do Hotel Bragança” (Queirós, 2017: 673), onde comparece Tomás de Alencar29, de quem se apresenta nova descrição: em 1887, continua com um “brado cavo” (p. 674), “longos bigodes românticos, que a idade embranquecera e o cigarro amarelara”, mas tem “os dentes mais estragados”; a Carlos, o amigo “parecia-lhe mais bonito, mais poético, com a sua grenha inspirada e toda branca30, e aquelas rugas fundas na face morena, cavadas como sulcos de carros pela tumultuosa passagem das emoções” (p. 675). Na mesma ocasião, o protagonista quer saber se Alencar teria abandonado “a língua divina” (p. 676). Respondendo que já ninguém a entendia (“O novo Portugal só compreendia a língua da libra, da ‘massa’. Agora, filho, tudo eram sindicatos!”), o poeta declarou que “ainda às vezes me passa uma cousa cá por dentro”. E recitou, “num tom de lamento”, um poema dedicado a Ega (pp. 676-677). Neste terceiro tempo da narrativa, Carlos percebe uma melhoria no trato de Ega com Alencar, e pergunta o que havia acontecido para o amigo estar agora “íntimo do Alencar”31: Em primeiro lugar, no meio desta Lisboa toda postiça, Alencar permanecia o único português genuíno. Depois, através da contagiosa intrujice, conservava uma honestidade resistente. Além disso, havia nele lealdade, bondade, generosidade. (…) Tinha mais cortesia, melhores maneiras que os novos. Um bocado de piteirice não lhe ia mal ao seu feitio lírico. E por fim, no estado a que descambara a literatura, a versalhada do Alencar tomava relevo pela 29 “O poeta, no entanto, abismado na contemplação de Carlos, agarrara-o pelas mãos com um sorriso largo, que lhe descobria os dentes mais estragados” (Queirós, 2017: 675). 30 Na mesma página, refere-se a “juba branca”. 31 Queirós (2017: 689-690). Já antes o mesmo Ega havia afirmado: “Não há outro [como Alencar], é único! O bom Deus fê-lo num dia de grande verve, e depois quebrou a forma” (Queirós, 2017: 675).
353 correcção, pela simplicidade, por um resto de sincera emoção. Em resumo, um bardo infinitamente estimável. – (…) Não há nada, com efeito, que caracterize melhor a pavorosa decadência de Portugal, nos últimos trinta anos, do que este simples facto: (…) o nosso velho Tomás (…) aparece com as proporções de um Génio e de um Justo. Embora caricatural, o retrato que assim exibe o poeta romântico n’Os Maias – obra de 1888 que “constitui o mais pungente testemunho sobre os efeitos sentimentais do Romantismo nacional”, onde se recupera “o nome do herói garrettiano cuja experiência sentimental aqui se termina”, o “primeiro testamento romanesco” da geração de Oliveira Martins32 – revela alguns aspectos que importa sublinhar como conclusão: o prolongamento cronológico do Romantismo português até às últimas décadas do século XIX, o que permite a distinção de etapas – a temática amorosa de meados do século a ser gradualmente substituída por uma certa moralidade (como primeira forma de resistência ao Realismo), e depois por interesses e preocupações sociais e políticas; a teatralidade e largueza de gestos que Alencar somatiza espraiando-se pelos versos, em geral de qualidade duvidosa; a reacção ao Realismo e ao Naturalismo (mutuamente confundidos) com ironia ou sarcasmo, que identificam a nova estética com o “excremento”; as “concessões ao Realismo” em aspectos pontuais, como a descrição realística da paisagem, sem “obscenidade”; as referências literárias do Romantismo europeu (Klopstock, Byron, Espronceda) e da Antiguidade (Horácio). Algum do artificialismo que se percebe das atitudes de Alencar não significa, todavia, que o Romantismo em Portugal não tenha sido original ou, pelo menos, fruto de um trabalho do génio nacional, como havia de reconhecer João da Ega no fim do romance. Importa sublinhar que este gesto de acolhimento ou contemporização de escolas aparentemente rivais mostra ser semelhante a outras dinâmicas entre períodos, pois o que está em causa é invariavelmente o novo em confronto com o velho e a inovação em face da tradição. De facto, mesmo que o proclame, este 32 Expressões de José-Augusto França (1999), pp. 551, 552 e 585, respectivamente.
354 Romantismo que se enoja da estética realista e naturalista saberia conciliar estéticas concorrentes, na poesia e na prosa, de que Os Maias são um grandioso exemplo. Referências CASTELO BRANCO, Camilo (2007). Amor de Perdição, ed. genética e crítica Ivo Castro. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda. EICHENBAUM, Boris (2001). “Théorie de la prose”. Théorie de la littératue: Textes des formalistes russes. Org., apresent. e trad. Tzvetan Todorov. Paris: Éditions du Seuil, 200-214. FRANÇA, José-Augusto (1999). O Romantismo em Portugal: Estudo de Factos Socioculturais. Trad. Francisco Bronze. 3.ª ed., Lisboa: Horizonte. MATOS, A. Campos (2015). Alencar, Tomás de. In Dicionário de Eça de Queiroz 3.ª ed., (74-76). Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda. PEREIRA, José Carlos Seabra (1995). História Crítica da Literatura Portuguesa: Do Fim-de-Século ao Modernismo vol. VII. Lisboa: Verbo. QUEIRÓS, Eça de (2017). Os Maias: Episódios da Vida Romântica. Ed. Carlos Reis e Maria do Rosário Cunha. Lisboa: Imprensa Nacional. REIS, Carlos (2015). “Figurações da Personagem Realista: Os Bigodes e os Rasgos de Tomás de Alencar”. Pessoas de Livro. Estudos sobre a Personagem. Coimbra: Imprensa da Universidade, 73-96. REIS, Carlos (2016). “Tomás de Alencar”. Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa. Disponível em http://dp.uc.pt/conteudos/entradas-do-dicionario/ item/531-tomas-de-alencar (acedido a 27 de Julho de 2018).