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O final da Idade do Ferro, romanização e romanidade da foz do Guadiana

Sousa, Elisa de,Arruda, Ana Margarida,Pereira, Carlos

Abstract

Este trabalho centra-se na análise do percurso histórico da foz do Guadiana entre a II Idade do Ferro e a fase romana imperial. Com base nos dados arqueológicos, numismáticos e também em algumas referências obtidas das fontes clássicas, apresenta-se uma leitura da evolução histórica das dinâmicas económicas, comerciais e políticas da região, relacionando-as com as diferentes conjunturas associadas às várias etapas cronológicas.

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o Catarina Gaspar Helena Gimeno Pascual Noelia Vicent Ramírez (coord.) Catarina Gaspar Helena Gimeno Pascual Noelia Vicent Ramírez (coord.) Catarina Gaspar – Helena Gimeno Pascual – Noelia Vicent Ramírez (coord.) AMBIENTES EPIGRÁFICOS Y TERRITORIO: EL GUADIANA ENTRE BÉTICA Y LUSITANIA Centro de Estudos Clássicos (FLUL) Fundación General de la Universidad de Alcalá (UAH) 2020 Ficha Técnica: Título: Ambientes epigráficos y territorio: el Guadiana entre Bética y Lusitania Coordinadoras: Catarina Gaspar, Helena Gimeno Pascual, Noelia Vicent Ramírez Edición: Centro de Estudos Clássicos (FLUL) – Fundación General de la Universidad de Alcalá (UAH) Ilustraciones de la portada: Inscripción funeraria de Vale de Vargo, Serpa (autor R. de Balbín-Bueno) y Mapa general de España Antigua (Juan López, 1786), publicado en Manso, C. (2012). “Geografía y cartografía histórica de Hispania”, De Pompeyo al nuevo mundo. La corona española y la arqueología en el siglo XVIII, Madrid: Real Academia de la Historia. Maquetación: Noelia Vicent Ramírez Depósito legal / ISBN: 978-84-88754-56-1 978-972-9376-55-9 Año: 2020 Como citar: Ambientes epigráficos y territorio: el Guadiana entre Bética y Lusitania, C. Gaspar, H. Gimeno Pascual y N. Vicent Ramírez (coord.), Lisboa, Centro de Estudos Clássicos – Fundación General Universidad de Alcalá, 2020. Esta publicação é financiada por Fundos Nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P., no âmbito do projecto UID/ELT/00019/2020. This material has been published in Ambientes epigráficos y territorio: el Guadiana entre Bética y Lusitania (Ministerio de Economía y Competitividad del Gobierno Español, Proyecto FFI2016-77528-P), by C. Gaspar, H. Gimeno Pascual and N. Vicent Ramírez (coord.). This version is free to view and download for private research and study only. Not for re-distribution or re-use. ÍNDICE Prefácio ........................................................................................................... O final da Idade do Ferro, romanização e romanidade da foz do Guadiana ... Elisa de Sousa, Ana Margarida Arruda y Carlos Pereira La conquista e implantación romana en la cuenca del Ardila ......................... Pablo Paniego Díaz ¿Frontera acuática o frontera líquida? El bajo Guadiana en la Antigüedad ..... Pedro Albuquerque, Francisco José García Fernández, Maria de Fátima Palma y Alexandra Gradim El ager occidental de Arucci: Moura, los testimonios epigráficos .................... José Luis Ramírez Sádaba ¿Metalla Aruccitana? Reflexiones sobre la inscripción HEp 3, 1993, 198 (CILA I, 3) ................................................................................................. Juan Aurelio Pérez Macías Epigrafía del territorio bético en Portugal: Serpa ............................................ Catarina Gaspar y Helena Gimeno Pascual André de Resende, Fabia Prisca, Asinia Priscila ............................................. Manuela Alves-Dias Inscripciones funerarias emeritenses: novedades y perspectivas .................... Luis Ángel Hidalgo Martín Tras el desuso, uso: inscripciones romanas reutilizadas de los concelhos de Serpa y Moura ........................................................................................... Ricardo de Balbín-Bueno 9 31 63 99 115 147 179 193 213 5 C. Gaspar, H. Gimeno Pascual y N. Vicent Ramírez (coord.) Ambientes epigráficos y territorio: el Guadiana entre Bética y Lusitania, Lisboa-Alcalá de Henares, 2020 [978-84-88754-56-1/978-972-9376-55-9] O FINAL DA IDADE DO FERRO, ROMANIZAÇÃO E ROMANIDADE DA FOZ DO GUADIANA Elisa de Sousa Universidade de Lisboa / Faculdade de Letras Uniarq – Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa [email protected] Ana Margarida Arruda Universidade de Lisboa / Faculdade de Letras Uniarq – Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa [email protected] Carlos Pereira Universidade de Lisboa / Faculdade de Letras Uniarq – Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa [email protected] Resumo Este trabalho centra-se na análise do percurso histórico da foz do Guadiana entre a II Idade do Ferro e a fase romana imperial. Com base nos dados arqueológicos, numismáticos e também em algumas referências obtidas das fontes clássicas, apresenta-se uma leitura da evolução histórica das dinâmicas económicas, comerciais e políticas da região, relacionando-as com as diferentes conjunturas associadas às várias etapas cronológicas. Palavras-chave: Guadiana, Castro Marim, Mértola, Idade do Ferro, período romano. Ambientes epigráficos y territorio: el Guadiana entre Bética y Lusitania 10 Abstract This paper focuses on the analysis of the Guadiana estuary historical trajectory between the II Iron Age and the Roman Empire. Based on archaeological data, numismatic and also in some references from classical documents, we present a framework of the historical evolution of the region, specifically in its economic, commercial and political dynamics, attempting to relate them to the specific conjunctures that are associated with the different chronological stages. Keywords: Guadiana, Castro Marim, Mértola, Iron Age, Roman period. 1. Introdução O processo de transição entre a Idade do Ferro e o período romano no Algarve caracteriza-se por alguma diversidade no que diz respeito às estratégias de ocupação do território e à cronologia (Sousa 2017). No caso concreto da foz do Guadiana, os dados arqueológicos disponíveis até ao momento indicam uma relativa alteração no quadro das dinâmicas de povoamento de ambos os períodos, ainda que os dois principais polos de referência tenham permanecido, ao longo das várias centúrias, em Castro Marim e, na área mais interior, em Mértola. Os dados transcritos nos textos clássicos não são, infelizmente, de grande utilidade para compreender o percurso histórico desta região entre o final da Idade do Ferro e o período romano imperial. Com efeito, as referências que chegaram até aos nossos dias restringem-se, no essencial, a descrições de natureza geográfica e à indicação de alguns núcleos de carácter urbano existentes na área. Dos elementos disponíveis, merece destaque, em primeiro lugar, a obra de Estrabão, que, para além de descrever sumariamente a região da foz do Guadiana, integrou este território na esfera “turdetana”, um termo ambíguo no que diz respeito à sua definição (Ferrer Albelda, García Fernández O Final da Idade do Ferro, romanizaçao e romanidade da Foz do Guadiana Elisa de Sousa, Ana Margarida Arruda, Carlos Pereira 11 2002; García Fernández 2003; Cruz Andreotti 2007), mas que, ainda assim, reflecte os intensos contactos que ligaram o Sul de Portugal e a área meridional da Andaluzia durante o final do 1º milénio a.C. Outro documento incontornável é o Itinerário de Antonino, que coloca o sítio de Esuri, nas proximidades da foz do Guadiana, como ponto de partida de uma via que seguia em direcção a Pax Iulia (a actual cidade de Beja). Ainda que a localização de Esuri tenha sido bastante controversa (Resende 1593; Hübner 1871; Arruda 1997; Guerra 1998), a publicação de numismas com a legenda Baesuri, um dos quais recolhido durante as campanhas de escavações arqueológicas em Castro Marim (Arruda 1997), gerou um certo consenso na aceitação da equivalência entre este local e a Esuri do Itinerário de Antonino (Faria 1997). Deve ainda referir-se que um destes numismas exibe a legenda M.AN.ANT. ET / CON, indicando a existência de um magistrado (Mowat 1900; Faria 1997; Amela Valverde 2004), o que permitiu a A. Faria propor a inclusão do local «(...) entre os nove oppida stipendiaria da Lusitânia cujos nomes Plínio não menciona.» (Faria 2006, 241). No entanto são, sem dúvida, os dados arqueológicos que permitem uma caracterização mais detalhada da evolução da ocupação da foz do Guadiana no final do 1º milénio a.C. ainda que se tenha de ter sempre em atenção o carácter relativamente efémero destes elementos, uma vez que dependem sempre das áreas intervencionadas, da publicação dos dados recuperados, e do próprio estado de conservação do potencial arqueológico de cada sítio. Ainda assim, temos que trabalhar com os dados que estão disponíveis, que, com todas as suas limitações, permitem definir, cada vez com maior Ambientes epigráficos y territorio: el Guadiana entre Bética y Lusitania 18 que poderia indicar uma efectiva presença romana no local talvez desde o início da segunda metade do século II a.C., cenário que só tem paralelo, no território português, com a área urbana de Lisboa (Pimenta 2005). As cunhagens da cidade são também um reflexo da sua importância durante o período Romano-Republicano, sendo um dos poucos núcleos do território hoje português com capacidade ou necessidade de produzir as suas próprias emissões monetárias durante este momento. Apesar de alguma controvérsia associada à cronologia das moedas de Murtili (Crawford 1985; Faria 1995a; Amela Valverde 2004), a recente descoberta de uma destas emissões num contexto conservado de Monte Molião (Arruda, Pereira 2010; Muccioli 2014b), datável de final do século II/ início do I a.C., comprova a circulação destas emissões numa fase relativamente precoce da ocupação romana no Ocidente. A importância dos vestígios arqueológicos romano-republicanos de Mértola, aos quais também se devem associar alguns dos tesouros monetários encontrados na região (Luís 2003a), pode estar directamente relacionada com uma eventual presença militar romana no território, sendo importante recordar que a existência de um acampamento em Mata-Filhos, nas proximidade da actual vila, foi já proposta por alguns investigadores (Luís 2003b), embora outros prefiram evitar tal classificação, ainda que insistindo na função eminentemente militar (Fabião 2006: 119-120). De encontro ao que foi dito antes, Carlos Fabião defende inclusivamente que esta região terá sido uma das primeiras a entrar na esfera de Roma (ibidem). 4. A fase imperial Terá sido durante o período alto-imperial que se consumaram as maiores alterações políticas na foz do Guadiana. A reorganização das províncias romanas e a introdução dos modelos urbanos na Lusitânia, desde o final do século I a.C., condicionaram a organização e o estatuto político dos anteriores oppida. Em todo o Algarve, as duas únicas cidades romanas, no O Final da Idade do Ferro, romanizaçao e romanidade da Foz do Guadiana Elisa de Sousa, Ana Margarida Arruda, Carlos Pereira 19 verdadeiro sentido do termo, foram Balsa e Ossonoba. Os restantes sítios ocupados não terão adquirido esse carácter institucional, ainda que tenham mantido relevância comercial e económica, considerando a continuidade da ocupação e também as abundantes quantidades de materiais importados. Esta situação já foi interpretada por alguns investigadores como represálias a eventuais posições nas guerras civis romanas, sobretudo nas que enfrentaram César e Pompeu (Mantas 1997, 286-287), ainda que esta posição não seja consensual entre a comunidade científica (Faria 1999, 35-36). O núcleo localizado sob o actual Castelo de Castro Marim mantém, efectivamente, uma forte dinâmica económica e comercial durante o Alto-Império. Apesar dos contextos e estruturas associadas serem escassas, os materiais recuperados mostram que o local manteve relações privilegiadas com o restante Sul peninsular (sobretudo ao nível da importação de produtos alimentares) e com o Mediterrâneo, como se verifica pelas expressivas quantidades de terra sigillata de produção itálica e sudgálica (Viegas 2011, 437). O sítio parece, contudo, ser abandonado ainda durante o final do século I ou mesmo no início da centúria seguinte, sendo os vestígios de ocupações posteriores claramente insignificantes, ainda que a ocupação no território envolvente, caracterizada por sítios de pequena dimensão, tenha permanecido (Viegas 2011, 518-523, Pereira 2018). Já no interior, em Mértola, a situação é distinta, uma vez que o local se integra entre os oppida veteris Latii referidos por Plínio, existindo apenas alguma discussão sobre a cronologia exacta da elevação ao estatuto de município (Encarnação 1984; Alarcão 1988; Faria 1995b). Os vestígios da cidade romana, sobretudo os de natureza arquitectónica, são já significativos, destacando-se a muralha, o criptopórtico, a basílica, a domus e as termas (Torres, Oliveira 1987; Macías 1996), para além das extraordinárias descobertas dos últimos anos, apresentadas neste mesmo colóquio por V. Ambientes epigráficos y territorio: el Guadiana entre Bética y Lusitania 20 Lopes. Resta apenas concluir que a antiga cidade não parece perder a sua importância nos séculos sucessivos. 5. Conclusão A leitura possível da evolução histórica da foz do Guadiana ao longo da fase final da Idade do Ferro e do período romano baseia-se, quase exclusivamente, no registo arqueológico disponível. Por outro lado, deve reconhecer-se que tal leitura pode variar dependendo da função que o rio desempenhou ao longo do tempo (Albuquerque et al. 2018, 190-192). Como já referimos na introdução, estamos conscientes que os dados processados têm uma natureza de certo modo efémera, sendo passíveis de alterações resultantes de novas escavações realizadas quer em sítios já conhecidos, quer nas suas áreas envolventes, e podem permitir ampliar a cronologia das fases de ocupação estabelecidas. Estes elementos, apesar de incompletos, são, contudo, os únicos que nos permitem vislumbrar as dinâmicas da ocupação humana da Antiguidade e reconstituir, na medida do possível, a sua história. Ao longo de todo o período que se estende entre a segunda metade do 1º milénio e o Alto-Império, a foz do Guadiana esteve claramente inserida nos circuitos comerciais e culturais que se estabeleciam quer com a Andaluzia e, directa ou indirectamente, com o Mediterrâneo, quer com as redes que conduziam ao interior, cuja importância se relacionava seguramente com os importantes recursos metalíferos dessa região. Durante a Idade do Ferro, especificamente a partir do último quartel do século IV a.C., as ligações privilegiadas com a esfera gaditana são claramente perceptíveis na cultural material do Castelo de Castro Marim, o que poderia implicar que uma parte significativa das estratégias económicas aí desenvolvidas, com especial incidência na exploração dos recursos marinhos, se articulava, de alguma forma, com essa rede de comunicação (Arruda 2007; Sousa 2009; Sousa, Arruda 2010). Contudo, a presença ex- O Final da Idade do Ferro, romanizaçao e romanidade da Foz do Guadiana Elisa de Sousa, Ana Margarida Arruda, Carlos Pereira 21 pressiva de materiais oriundos da esfera gaditana na zona mais interior, em Mértola, indica que a obtenção dos recursos metalíferos do interior alentejano desempenhava também um papel central nestes intercâmbios. Os dados arqueológicos disponíveis não são ainda suficientes para compreender se o fenómeno, que já apelidámos de “gaditanização do Algarve” (Sousa, Arruda 2010), se estendeu também para essa zona mais interior, uma vez que só com a descoberta e publicação de contextos preservados do final da Idade do Ferro, e com o estudo e quantificação integral dos materiais recuperados, se poderia esclarecer essa situação. De qualquer forma, a presença de materiais da área gaditana e também do Baixo Guadalquivir em Mértola é inquestionável (Rego et al. 1996; Barros 2010; García Fernández 2019), denunciando a função de “plataforma comercial” deste núcleo no interior oriental alentejano. Este eixo, que liga a foz do Guadiana ao interior, terá sido, assim, de principal importância nas estratégias de ocupação do território ao longo da Idade do Ferro e ter-se-á mantido, muito provavelmente, durante o período Romano-Republicano, ainda que este possa não ter sido um processo linear. Com efeito, a partir da segunda metade do século II a.C., e com a entrada em cena de novos protagonistas, especificamente o exército romano, a situação parece sofrer algumas alterações. O processo de conquista do Ocidente Peninsular não foi, de acordo com os dados arqueológicos, um avanço contínuo e sistemático. No caso da foz do Guadiana, a presença romana em Mértola parece anteceder em algumas décadas a que foi detectada na foz, concretamente no Forte de São Sebastião, cuja cronologia se centra entre o final do século II e o início do I a.C. (Arruda, Pereira 2008). As informações disponíveis sobre os contextos arqueológicos de Mértola parecem indicar a predominância das ânforas de produção itálica, assim como uma relativa antiguidade do conjunto de cerâmica campaniense (Soria 2018), situação que não se verifica nos sítios Ambientes epigráficos y territorio: el Guadiana entre Bética y Lusitania 22 do litoral Sul, e que permite talvez uma aproximação à realidade verificada na área urbana de Lisboa (Pimenta 2005), onde esta ocupação foi balizada no terceiro quartel do século II a.C. Se se comprovar esta contemporaneidade, poderia assumir-se que a romanização do território português teve os seus focos iniciais na área do Tejo e no interior alentejano, como, aliás, foi já proposto para o caso de Mértola (Fabião 2006, 119-120), áreas que permitem o acesso a jazidas metalíferas importantes do Ocidente Peninsular, podendo evidenciar a prioridade do Senado Romano no controlo destes recursos. Na margem direita da foz do Guadiana, assim como, aliás, no restante território algarvio, os dados arqueológicos apontam para a sua plena integração nos circuitos comerciais do período Romano-Republicano a partir do último quartel do século II a.C., não parecendo ter implicado uma “conquista” no verdadeiro sentido do termo, mas antes uma ocupação gradual de um território “disponível” (Sousa 2017). Nesse momento, a área ocupada ter-se-ia limitado à colina do Forte de São Sebastião, ainda que se possa admitir que também a do Castelo possa ter sido frequentada. Trata-se de uma aparente descontinuidade na malha de povoamento, que poderá ser explicada pelo abandono do povoado indígena a partir dos meados do século III a.C. (Sousa 2009), tendo os primeiros grupos romanos escolhido outro local para se instalarem, local que, reunindo as mesmas condições estratégicas, não estaria previamente ocupado. Esta não é uma situação inédita no Algarve, estando plasmada também na área de Tavira, onde o habitat pré-romano não tem continuidade na fase sucessiva, estando as evidências de uma ocupação romano-republicana limitadas ao Serro do Cavaco, localizado também nas proximidades do antigo núcleo de povoamento pré-romano (Arruda, Almeida 1999; Fabião 2003; Sousa 2017). O Final da Idade do Ferro, romanizaçao e romanidade da Foz do Guadiana Elisa de Sousa, Ana Margarida Arruda, Carlos Pereira 23 Nos momentos iniciais do século I a.C., a ocupação da colina onde se implantou o Forte de São Sebastião parece ter cessado (Arruda, Pereira 2008) e, a partir pelo menos de meados dessa centúria, a do Castelo de Castro Marim retomou a sua importância, estando esta atestada pela presença de um magistrado em Baesuri, perpetuada na legenda de uma das suas emissões monetárias (Faria 1997), o que permite enquadrar este núcleo como um possível oppida estipendiarium, cuja importância se terá mantido até ao final do século I ou início do século II d.C. Neste âmbito, cabe destacar um dos objectos metálicos recolhidos no sítio (Pereira 2008): uma caixa de selos datável do século I d.C., que indica a utilização de correspondência oficial no local, podendo esta estar ainda relacionada com um carácter militar, ainda que secundário. Este elemento poderá relacionar-se com a intensa ocupação detectada ao longo das margens do Baixo Guadiana durante o final da República e início do Império, interpretada, ainda que não consensualmente, como uma rede de controlo do escoamento dos recursos metalíferos do interior alentejano. Durante estes momentos, as relações com a Andaluzia e, directa ou indirectamente, com o espaço mediterrâneo, são ainda intensas de acordo com a cultura material (Viegas 2011). A importância de Castro Marim nesta fase está atestada não só pela numismática, mas também pela sua referência no Itinerário de Antonino, obra que provavelmente recolheu várias informações compiladas durante a época de César e de Augusto, como ponto de partida da via que conduzia a Pax Iulia. O seu abandono entre o final do século I / início do século II d.C. já foi relacionado com a plena “(...) consolidação da ocupação do território por parte das populações romanas (...)” (Viegas 2011, 521), que agora se apropriam directamente dos recursos disponíveis, muito em especial dos de natureza metalífera do interior alentejano, deixando de ser necessários os respectivos entrepostos de controlo e escoamento. De facto, em época im- Ambientes epigráficos y territorio: el Guadiana entre Bética y Lusitania 24 perial, Baesuris não assume o carácter de uma verdadeira cidade romana, sendo este papel desempenhado, no litoral, por Balsa e por Ossonoba e, no interior, por Mértola. Ainda assim, e mesmo após o abandono do núcleo do Castelo, a área permanece ocupada, tendo o povoamento centralizado dos séculos anteriores sido diluído em sítios de habitat mais reduzidos, de tipo villa. Referências bibliográficas Abade, Pedro (2017). A cerâmica de paredes finas do Castelo de Castro Marim. 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