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Como pensam os chineses sem alfabeto? 1.ª parte – A diferença das escritas

Belo, Fernando

Abstract

O inédito império chinês Comparar duas escritas, alfabética e de caracteres-palavras O porquê social das línguas A convencionalidade das escritas O monossilabismo das línguas e escrita chinesas As invenções das escritas Entre matemática e língua

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Philosophica, 46, Lisboa, 2015, pp. 119-133. C     ? 1.ª  - A    Fernando Belo1 (Universidade de Lisboa) O inédito império chinês Comparar duas escritas, alfabética e de caracteres-palavras O porquê social das línguas A convencionalidade das escritas O monossilabismo das línguas e escrita chinesas As invenções das escritas Entre matemática e língua O Grande comentário2 “esclarece-nos de forma global sobre a lógica do devir e seu fundamento; por aí, ele forneceu as suas concepções de base à representação chinesa da realidade. Páginas capitais, portanto, em que o esforço de síntese, o espírito de sistema são conduzidos ao seu acabamento, em que o pensamento que rege o livro chegou ao seu pleno desabrochar, e cujas formulações, constantemente retomadas, serão julgadas defi nitivas; a seguir, e durante mais de dois milénios, o pensamento letrado poderá propor inumeráveis variações a partir destes temas mas não dirá nada de radicalmente novo” (F. Jullien, 1993: 187) 1 Professor Associado jubilado, Departamento de Filosofi a, Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa. [email protected] 2 Atribuído tradicionalmente a Confúcio, devido a confucianos da antiguidade chinesa. 120 1. Comecemos por situar a questão. Durante mais de 20 séculos de história, as sociedades têm uma economia essencialmente agrícola com algumas vilas ou cidades com produção artesanal, uma classe guerreira dominante e um rei e uma casta de eruditos de escrita com funções religiosas e/ou de administração (jurídica). O inédito império chinês 2. Dois impérios se criaram então com destinos bem diferentes. Trinta anos antes do início da nossa era, o de Roma dominou toda a zona mediterrânica, desde o que veio a ser Portugal até ao Irão (ou Pérsia), assim como o da China, uns dois séculos antes, unifi cou os vários reinos que então se combatiam no Meio da Ásia. Mas enquanto o primeiro soçobrou na sua parte ocidental, propriamente romana, no século V e dez séculos mais tarde na sua parte oriental sob um novo império turco islâmico3, o império chinês, apesar de alguns curtos períodos de divisão política entre Norte e Sul e de invasões estrangeiras triunfantes mas que se tornaram chinesas ao tomarem o poder imperial, esse império chegou ao alvor do século XX (poder-se-ia dizer que ainda hoje subsiste no tipo de estrutura burocrática da sua administração): esta duração de mais de dois milénios é sem paralelo na história da habitação humana. 3. Ela foi possível graças a uma estrutura administrativa centralizada em torno do imperador e da sua corte e cobrindo a extensão de todo o território, dotada duma capacidade de articulação às diversas regiões; esta estrutura era formada por funcionários imperiais letrados, os chamados mandarins, recrutados mediante concursos e não por herança paterna, mudando de lugar todos os três anos para evitar o caciquismo. Esses concursos ou exames eram feitos sobre uma tradição textual de sabedoria ancestral a que se acedia por longa instrução junto dum mestre (por ‘vocação’, como na escola e no clero cristão). É certo que a Grécia, apesar da sua história acidentada sob dominação romana e mais tarde turca, conservou até hoje a sua língua e a sua escrita alfabética e esteve na origem da cristandade ortodoxa eslava, mas pouco se compara aos textos sapienciais chineses que, incessantemente comentados sem rupturas, duraram até há um século numa 3 Os Muçulmanos com o seu Corão (alfabético) também foram império, desde Maomé até ao Otomano, do século VII ao XX, ganhando ao de Roma tudo o que este herdou das civilizações anteriores, falhando-lhe – feliz mente – o que, na parte ocidental, foi obra de Roma e se tornou Cristandade e Europa. Aqui não os considero, como também não a Índia e os seus textos alfabéticos, menos alheios ao Ocidente do que os da China. Fernando Belo 121 mesma escrita não alfabética, com a particularidade surpreendente de ser compreendida por leitores de línguas diferentes – chinesas, vietnamitas, japonesas, coreanas – estrangeiras entre si, fenómeno igualmente sem paralelo em línguas humanas. É este fenómeno de inscrições historicamente inédito que será aqui estudado. Comparar duas escritas, alfabética e de caracteres-palavras 4. Ninguém conseguirá imaginar que o império romano do Ocidente tivesse durado até hoje4, mas não deixa de ser curioso que Constantino e Teodósio, na época de crise que foi todo o século IV, tenham procurado na nóvel Igreja cristã e na sua Bíblia um suplemento religioso capaz de fazer subsistir o império, que esta Igreja tenha também optado por um clero de vocação que garantiu uma ‘cristandade’ no que virá a ser a Europa5 quando a reforma protestante cindiu essa unidade civilizacional, cisão essa que deixou emergir, com a fi losofi a, os laboratórios científi cos, enquanto o catolicismo do sul europeu persistirá teimosamente, multiplicando os dogmas em textualidade rígida que desde Constantino repelia as heresias das interpretações. Ora, na China a continuidade da busca sapiencial, compatível com diversas escolas de pensamento (sobretudo vivas nos três séculos entre Confúcio, o seu primeiro grande escritor, e o início do império), é bem o contrário desta constante de guerras doutrinais que é, não apenas a história do cristianismo, mas também a história da fi losofi a. 5. Serve esta digressão para sublinhar que as histórias políticas e económicas das sociedades humanas não podem ser lidas e comparadas entre si, como comummente ainda se faz hoje6, sem considerar o jogo nelas das estruturas de inscrição e respectivos suportes, escolas, igrejas e mandarinato chinês. A este chegamos: quais são as correlações entre estas três durações históricas inéditas, dum império, da sua estrutura administrativa e dos textos que esta lê e escreve? Como compreender a sua unidade, se alguma compreensão for possível? Como posso eu pretender tratar da questão sem saber chinês? perguntará obviamente o leitor. Não posso seguramente pretender dar-lhe uma solução, mas talvez elaborá-la dum ponto de vista fenomenológico, digamos, de maneira a que possa ser retomada por quem 4 Aldo Schiavone (2003) compara-o com a Europa, perguntando porque não conseguiu ele o que esta conseguiu. 5 Mas, além da Bíblia conservada dez séculos em latim, também a ‘alma imortal’ de Platão contribuiu fortemente para o segredo dessa longevidade. 6 Jones (2002) e K. Pomeranz (2009) são exemplos de historiadores que questionam a modernidade da revolução industrial em termos estritamente económicos. Como Pensam os Chineses sem Alfabeto - 1.ª Parte 122 conheça. O trabalho em que me apoio, do fi lósofo francês François Jullien, com duas dezenas de livros publicados, tem a originalidade de não comparar culturas nem conteúdos de pensamento (não há ‘conceitos’ chineses que o permitam) mas sim as maneiras de pensar chinesa e greco-europeia; mas como parece não ter dado importância a este ponto de vista, o da comparação entre a escrita chinesa em caracteres e a nossa alfabética, deixa em aberto a possibilidade de esta diferença de inscrições esclarecer em certa medida a diferença entre as maneiras de pensar, de buscar a sabedoria. O porquê social das línguas 6. Para poder abordar a questão da diferença entre escritas, terei que colocar brevemente a razão de ser das línguas que, a par de técnicas variadas de habitação, todas as sociedades humanas inventaram no passo de se constituírem, para perceber em seguida como algumas foram levadas a instituir técnicas de escrita. Línguas e técnicas surgiram sem dúvida a par e passo uma da outra, se for certo que a ambas todas as sociedades deram a primazia da respectiva aprendizagem pelas novas gerações, as palavras que se foram inventando devendo dizer funções sociais, por exemplo frases permitindo dizer receitas de tal ou tal técnica que se quer ensinar, tal ou tal relação social, frases porventura antes de se distinguirem nelas palavras7. A linguagem é inventada com a necessidade da organização social da tribo, para haver entendimento entre os seus membros no que lembrar e no como fazer, no contar o que sucedeu e aprender a prevenir, nos mitos de antepassados, e por aí fora: para enfrentar o caos ecológico da selva, organizar o social e a comunicação, estruturar os comportamentos individuais. Lévi-Strauss8, através da indagação do funcionamento lógico dos mitos ameríndios, comparando os da América do Sul primeiro, mais primitivos, e depois os do Norte, mais elaborados e por vezes explicitando as deduções anteriormente feitas, numa espécie de confi rmação laboratorial da cientifi cidade da análise mitológica, ilustrou de maneira admirável o que ele chamou “lógica das qualidades sensíveis”, que tanto é a dos códigos desses mitos como a de usos tribais, nomeadamente culinários, com que 7 Como testemunhariam, se a invenção da linguagem fosse paralela da do pensamento escrito, que os Gregos tenham escrito frases inteiras sem separarem as palavras e que, a fazer fé nos textos que nos chegaram, é claro, só nos fi nais da obra de Platão (Sofi sta) apareça pela primeira vez a distinção entre nome e verbo, já havendo quase toda a grande fi losofi a da escola socrática quando o cap. 20 da Poética de Aristóteles propõe uma primeira lista gramatical, que termina com a mesma palavra, logos, para dizer frase e texto. 8 Belo (2007: §§ 34-48). Fernando Belo 123 têm a ver uma boa parte desses mitos. “Os mi tos e os ritos oferecem como valor principal o de preser varem até à nossa época, de forma residual, modos de obser vação e de refl exão que foram (e permanecem sem dúvida) exactamente adaptados às descobertas dum certo tipo: as que autorizava a natureza, a partir da organização e da exploração especulativa do mundo sensível em termos de sensível”9. 7. Estas línguas, tão diferentes entre si que os estrangeiros não se entendem, são todas duplamente articuladas: algumas dezenas de fonemas (reproduzidos como sons) que as gargantas e bocas conseguem dizer de maneira distinta mas que não signifi cam nada (são imotivados, como as nossas letras) permitem formar milhares de palavras que os cérebros humanos facilmente memorizam e com as quais se fazem frases indefi nidamente diferentes umas das outras. Duas economias de leis fi siológicas (fonação e cerebral) permitem dois excessos na ordem do pensar e do comunicar. Cada indivíduo é instituído enquanto membro da sua sociedade (tribo, aldeia) pela maneira como aprende os seus usos e respectiva língua e cultura. 8. É assim que cada língua, com o seu efeito de denominação das coisas e gentes da respectiva sociedade, dá a esta uma estabilidade relativa face à anarquia inicial do mundo caótico e aleatório em que somos paridos: assim como o que se chama natureza está em constante mudança, também as gentes e os seus usos e os acontecimentos resultantes dos amores e das rivalidades, e por aí fora, aquilo tudo de que se fala e discute, são movidos sem cessar ao longo do tempo, com muitos erros, ilusões, fi cções e mentiras, isto é, como já dizia Heraclito panta rei (tudo fl ui). Como as línguas orais acompanhavam esse fl uxo, ele moveu, na China como na Grécia, escribas pensadores a encontrarem uma forma de se poderem defender destas ilusões ligadas às disputas de interesses, encontrarem uma forma de estabilidade permitindo pensar fora ou acima do fl uxo que as línguas orais acompanham. A convencionalidade das escritas 9. As línguas não são convencionais, como se disse desde Aristóteles, mas imotivadas, como Saussure percebeu (falando primeiro de ‘arbitrário’), isto é, não foram ‘decididas’ numa convenção de humanos, que implicaria gente que já falasse. Sem motivo fora dela – nem na natureza nem nos usos e costumes nem no génio de algum antepassado –, é a linguagem que nos motiva a nós, nos torna falantes e pensantes, a par dos usos que 9 Lévi-Strauss, 1962: 25 Como Pensam os Chineses sem Alfabeto - 1.ª Parte 124 vamos aprendendo: em termos fi losófi cos, é a linguagem com os outros usos tribais que institui o bebé como sujeito, em sua consciência falante e pensante, ao contrário do que Husserl pensou. Entre usos e linguagem é mais difícil de decidir, as crianças aprendem a andar antes de falarem mas aprender usos menos ‘instintivos’, digamos, já pede linguagem antes, embora também a observação dos outros jogue um papel importante. Já em relação às escritas, não são permitidas dúvidas: as escritas são convenções10 estabelecidas por gente que fala, um caso típico sendo o da escrita matemática, com os algarismos, as convenções cartesianas da álgebra, e por aí fora. Ora, foi a convenção da escrita que distinguiu a chinesa da indo-europeia. Enquanto que os chineses inscreveram um pequeno desenho para cada palavra (carácter ou wen) das suas línguas monossilábicas, desenhos que a partir dum só traço (para o número 1) os vão multiplicando e complexifi cando até ao ponto de obterem mais de dez mil caracteres diferentes, o alfabeto, que os Gregos receberam dos Fenícios (actual Líbano) acrescentando-lhe as vogais, inscreve um pequeno desenho para cada fonema (letra), de tal forma que bastam umas poucas dezenas de letras bastante simples (duplicadas com as maiúsculas) para se inscreverem alguns milhares de palavras da língua. 10. Este pequeno ensaio tem a pretensão de encontrar nesta diferença estrutural uma parte da razão das diferenças dos pensamentos tão alheios um ao outro como são o da China e o da antiga Grécia e da Europa moderna, sujeitando-se, como é óbvio, à discussão crítica dos que sabem ler esses caracteres mas presumindo que esse conhecimento não é necessário à argumentação proposta, com alguma inspiração na gramatologia de Jacques Derrida, inclusive na sua interpretação da fi losofi a grega e europeia (que em F. Jullien parece ter um pendor platónico, que não deixa aliás de ser adequado ao carácter sapiencial do pensamento chinês). O monossilabismo das línguas e escrita chinesas 11. Sem que se possa falar de causalidade, há em todo o caso uma estreita relação entre a escrita de caracteres e a estranha qualidade das línguas 10 Esta anterioridade temporal do oral sobre a escrita justifi cará que a fi losofi a ocidental tenha dado o primado à primeira, ao logos, à sua voz mais perto da alma pensante, sobre a escrita (Fedro de Platão), ao logocentrismo; o paradoxo da gramatologia de Derrida foi ter invertido as coisas, mostrando que, aprendida de outros, a linguagem oral é ela própria uma inscrição (no cérebro: os grafos de Changeux) que torna possível o logos, a fala, tanto voz quanto discurso. Fernando Belo 125 chinesas11 e de algumas suas vizinhas (vietnamita, tai, kmer) de serem estritamente monossilábicas – uma consoante seguida de uma ou duas vogais e eventualmente uma nasal fi nal – ou, dizendo paradoxalmente de outra maneira, de não terem ‘sílabas’ no sentido ocidental, já que cada uma dessas ‘sílabas’ é uma palavra (‘signifi cante’, segundo Aristóteles12). Quando se consulta um dicionário português-chinês, verifi ca-se que à maioria das palavras portuguesas corresponde o que parece ser ‘uma’ palavra chinesa composta de vários caracteres ou sílabas (em pinyin, alfabeto chinês ofi cial), mas que de facto é uma sequência de palavras, cada uma delas tendo a sua entrada no dicionário chinês (se não for uma palavra arcaica fora de uso), o que parece ser acentuado nos textos chineses antigos pelo facto de não haver nenhuma diferença entre as distâncias entre caracteres numa dada frase13. Isto parece colocar um problema tremendo em termos de gramática chinesa e de tradução14: como a gramática ocidental, de raiz aristotélica, é usada pelos linguistas ocidentais na análise de línguas não ocidentais (africanas, ameríndias, asiáticas), será sempre difícil de decidir se se analisa a frase chinesa ou a sua tradução (§ 25). É como se todas as palavras inglesas fossem como ‘foot’, ‘chair’, ‘ball’, ‘arm’, ou ‘football’, ‘armchair’ (não encontrei exemplo português). 12. Consequência deste monossilabismo, há uma ausência praticamente total de morfologia. Verbal, para começar: a palavra ‘aì’ corresponde ao verbo português ‘amar’15, mas não há ‘amo’, ‘amam’, ‘amava’, ‘amei’, ‘amarei’, nem sequer tem sentido dizer que é um infi nitivo como o nosso ‘amar’, já que o infi nitivo faz parte da nossa morfologia. Mas porquê ‘verbal’? a mesma palavra diz ‘amor’, o que chamamos ‘nome’ ou ‘substantivo’, será portanto ou nome ou verbo consoante o seu lugar sintáctico de posição, a frase chinesa dizendo sempre primeiro o nome antes do verbo, os nomes também não tendo morfologia, nem número (singular ou plural) nem género16. Seja um exemplo: o português ‘porteiro’ é feito de 11 O chinês comum arcaico, falado alguns séculos antes da nossa era, repartiu-se em grupos importantes falados hoje (“Sino-tibétaines (langues)”, Encyclopædia Universalis, 14: 1055c). 12 O cap. 20 da Poética defi ne sílaba como “voz não signifi cante [isto é, sem referente] composta de consoante e vogal”, nome e verbo como “voz composta signifi cante de que nenhuma parte [sílaba] é por ela mesma signifi cante”. 13 Nem mesmo entre frases, apenas um pequena esfera assinalando a diferença entre estas no texto dado em Zhong Yong, La Régulation à usage ordinaire, Imprimerie Nationale éditions, texto introduzido, traduzido e comentado por F. Jullien (1993): 152-94. 14 Exemplo adiante com as 3 traduções dos lemas de Confúcio (cf. § 24). 15 Segundo um dicionário escolar actual de tipo prático, mas que não serve de nada, por assim dizer, quando se procura verifi car palavras clássicas citadas por Jullien. 16 Como também se passa na língua inglesa. Como Pensam os Chineses sem Alfabeto - 1.ª Parte 126 ‘port-’ e de ‘-eiro’, sendo que este sufi xo não tem signifi cado isoladamente, não é uma palavra portuguesa; o que lhe corresponde no chinês é composto de três palavras, uma que diz ‘guardar a entrada’, outra ‘porta’ e a outra ‘humano’. Serão três palavras ou uma só? pergunta o leigo. Pode ser que a sintaxe da frase permita decidir que seja uma, que designa uma pessoa concreta a que mais duas acrescentam a ‘função’; mas a intervenção da designação (duma pessoa) cria dúvidas nomenclaturistas, como diria Saussure; para estabelecer o seu célebre motivo “na língua não há senão diferenças, sem termos positivos”, ele teve que reduzir justamente esta dimensão de nomenclatura inerente às línguas. A hipótese a colocar seria então a de que a ausência de morfologia faça destas línguas monossilábicas uma espécie de nomenclaturas colocadas em frases sintacticamente muito pobres17. Ora, os caracteres chineses não só se adequam muito bem a esse nomenclaturismo, como poderão inclusivamente tê-lo reforçado historicamente. As invenções das escritas 13. Voltemos à necessidade em que se encontraram escribas pensadores de inventarem formas escritas susceptíveis de pensar que resistissem à fl uidez dos vivos e dos interesses humanos e ao arrastamento consequente das falas nas inevitáveis disputas: se as línguas, faladas com as mesmas regras por todos, permitem a organização das coisas sociais, elas não têm delas mesmas distância, transcendência dir-se-á em fi losofi a ocidental, capaz de arbitrar disputas, de constituir um ponto de consenso. A divergência das soluções encontradas assinala-se no facto de na Grécia, ao contrário da China que enveredou logo pelos caracteres desenhados, na Grécia ter havido duas fases, uma vez que a invenção do alfabeto não conseguiu imediatamente o efeito desejado e foi preciso num segundo tempo inventar a defi nição. Pela boa razão de que, ao contrário dos caracteres, lá iremos, a escrita alfabética funcionar também em dupla articulação, já que as letras correspondem aos fonemas, não têm sentido delas mesmas, são imotivadas como condição da formação económica de palavras e portanto de frases (economia de desenhos a escrever e reter facilmente na memória, em contraste claro com a difi culdade pedagógica de aprender de cor milhares de caracteres). E porquê este paralelo entre a dupla articulação da oralidade e a da escrita impedir o efeito desejado de permitir ‘transcender’ a fl uidez das coisas? Digamos que um texto escrito em língua alfabética tem a 17 Ver em Belo (1994: § L 50) uma longa citação do sinólogo Démieville sobre a não existência em chinês de “partes do discurso” (substantivo, adjectivo, verbo, artigo, preposição, etc.) do ponto de vista semântico e morfológico, apenas funcional. Fernando Belo 127 enorme vantagem de poder ser lido em voz alta, como sucedia com mitos, narrativas homéricas e outros textos poéticos face a assembleias analfabetas. É essa vantagem que é simultaneamente uma desvantagem, esses textos fl uem também e levam o seu leitor com ele. A escrita chinesa “não poderia ser falada, lida em voz alta ela permanece ininteligível ao auditor se este não tem ao mesmo tempo diante dos seus olhos o texto escrito em caracteres ideográfi cos, ou se o texto não lhe é conhecido de antemão”18. Em termos da linguística saussuriana, a escrita chinesa, ignorando as letras para compor palavras, só tem uma articulação linear, a que há entre palavras e frases, ambas ditas igualmente wen (como aliás os textos curtos). O sinólogo Vandermeersch compara o ideograma, o wen, com o alfabeto: “enquanto que a palavra alfabeticamente escrita é percebida como um substituto (relais) do pensamento refl ectido entre a palavra e o real, o wen dá o sentimento de tornar directamente e-vidente o sentido das coisas” (2003: 127), afi rmando no fi nal que “a letra que transcreve o verbo leva à ideia de criação [referência à palavra criadora do mundo na primeira página da Bíblia hebraica]; pelo contrário, o wen é cortado do verbo” (idem: 138), isto é, não supõe uma palavra oral que seja ‘ditada’ em escrita. A pedagogia escolar ocidental do ‘ditado’ não seria possível em chinês? Ora foi a esta predominância fi losófi ca da voz / logos sobre a escrita, do que vem ‘de dentro’, da proximidade da alma, sobre o que é inscrito e fi ca ‘de fora’, que Derrida chamou logocentrismo (esquecimento de que a fala, tanto voz como logos ou discurso, também veio de fora, por aprendizagem que inscreveu a língua, suas regras e cultura nas crianças, que nascem in-fantes, sem fala). 14. “Gramatura” e não literatura, escreve ainda Vandermeersch (2003: 125), foi construído “um sistema [“fortemente racional”] de derivação dos ideogramas uns dos outros, cada um deles sendo recomposto de [...] sub- -grafi as tiradas dum stock reduzido a um pequeno número de elementos” (idem: 126), isto é, os novos wen são inventados acrescentando um traço a outro wen já existente, sem correlação com as palavras monossilábicas correspondentes (que variam aliás com as diversas línguas a que eles oferecem escrita). Donde que se tenha “produzido, ipso facto, uma completa reestruturação do léxico e da sintaxe das grafi as em relação às correlações das palavras entre elas na língua natural” (ibidem). Ao contrário do que sucede nas nossas escritas alfabéticas em que rapidamente aprendemos a ler ‘mentalmente’ nas correspondentes palavras orais, incluindo as letras mudas (como sentimos instintivamente a sua falta nos textos do novo acordo ortográfi co): que possamos ler em voz alta signifi ca justamente que a oralidade reside na escrita alfabética, faz parte aliás da essência mesma 18 “Chine – Littérature”, Encyclopædia Universalis, 1974, vol. 4: 310. Como Pensam os Chineses sem Alfabeto - 1.ª Parte