Editorial
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Philosophica, 46, Lisboa, 2015, pp. 3-5. E O número 46 da revista Philosophica reúne os textos das intervenções apresentadas no Seminário Internacional A Tragédia da Cultura: Nietzsche – Simmel – Benjamin, que decorreu a 9 de Fevereiro de 2015 na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, por iniciativa do Centro de Filosofi a desta Universidade. O tema do Seminário pode, em termos muito amplos, inserir-se na longa tradição do pensamento do trágico, que desde os Gregos atravessa a história da fi losofi a identifi cando um dos traços mais radicais da condição humana. Mas o que verdadeiramente ocupou os intervenientes não foi tanto a revisitação de um tópico antigo quanto a sua reelaboração e reinterpretação em pensadores da actualidade. A formulação “a tragédia da cultura” torna explícita a inspiração no ensaio “O conceito e a tragédia da cultura”, publicado por Georg Simmel em 1911. Simmel descreve aqui, com particular dramatismo, a tensão inerente ao processo da cultura, a saber, o desfasamento entre a vida subjectiva – uma energia espiritual criadora e contínua – e os seus produtos – formas acabadas, que se desligam do fi o que as ligava à fonte geradora e acabam por ganhar o estatuto de entidades dotadas de vida própria. Se a cultura é, globalmente considerada, o caminho que realiza a unidade fechada da vida psíquica no contínuo desdobrar das suas expressões, na Modernidade, este trânsito entre a corrente unitária e fl uente da vida e as formas que dela provêm ver-se-á cada vez mais interrompido pela descontinuidade e multiplicação dessas mesmas formas, segmentadas, congeladas e petrifi cadas como intemporais e imutáveis. Tal contradição gerou o estranhamento do homem moderno, doravante perdido na imensa esfera de um produzido que é produção sua, mas na qual já difi cilmente se reconhece, como ressalta deste excerto: “O grande empreendimento do espírito de suplantar o objecto enquanto tal a fi m de se criar a si mesmo como objecto, para voltar de novo a si mesmo através desta criação é
4 inúmeras vezes bem sucedido; mas ele tem de pagar este completamento de si com o risco trágico de ver engendrar-se na legalidade própria do mundo por si criado uma lógica e uma dinâmica, desviando, com uma rapidez sempre acelerada e uma distância cada vez maior, os conteúdos da cultura dos fi ns da cultura.” (“Der Begriff und die Tragödie der Kultur” (GSG 14, 415-416). Simmel surge assim como vértice de um triângulo que tem de um lado a interpretação nietzscheana do trágico grego e, do outro, a meditação de Walter Benjamin, seu ouvinte e leitor. Daí que a sequência dos contributos não obedeça a uma estrita cronologia, mas ilustre múltiplos modos de explicitar esta mesma triangulação. A secção Artigos abre com três interpretações abrangentes. Teresa M.L.R. Cadete compara as análises de Nietzsche, Simmel e Benjamin sobre a tragédia da cultura, mostrando em que medida elas permitem uma estimulante leitura dos tempos actuais (“A Perda do Fio Narrativo. Sobre a Insustentabilidade do Trágico na Contemporaneidade”). Dirk Michael Hennrich defende que discurso sobre a ‘Stimmung’ e a ‘Aura’, presente em Simmel, Benjamin e em outros fi lósofos da época, é representativo da atmosfera apocalíptica que se instaura no Ocidente na viragem para o século XX (“Tragische Dispositionen der Moderne. Stimmung und Aura im Wandel des Landschaftsbegriff s”). Em “A Luz Branca da Neve: Nietzsche e Thomas Mann”, Carlos João Correia analisa a forma como Thomas Mann reinterpreta, na Montanha Mágica (Der Zauberberg, de 1924), a fi losofi a do jovem Nietzsche em O Nascimento da Tragédia segundo o Espírito da Música, de 1872. Especifi camente dedicados à obra de Georg Simmel são os contributos de Francisco Felizol Marques e de Vera Serra Lopes. O primeiro articula o entendimento do trágico já esboçado em Philosophie des Geldes (1900) com os conceitos de tragédia da cultura e tragédia da liberdade nos ensaios simmelianos posteriores (“A Tragédia da Liberdade, Ante-Tragédia da Cultura na Filosofi a do Dinheiro”). O segundo centra-se no conjunto de textos dedicados ao amor, mostrando como o amor moderno, ao contrário do eros grego, é essencialmente individual e, simultaneamente, não pode aceitar o carácter insuperável dessa mesma individualidade (“O Trágico na Filosofi a do Amor de Georg Simmel”). Seguem-se os estudos especialmente centrados na obra de Walter Benjamin. Em torno do motivo do “silêncio trágico” Ernani Chaves expõe a singularidade da recepção por parte de Benjamin da Estrela da Redenção e do Nascimento da Tragédia (“O ‘silêncio trágico’: Walter Benjamin entre Franz Rosenzweig e Friedrich Nietzsche”). Por seu turno, em “A Teia Editorial
5 de Penélope e o Anel da Tradição: Cultura e Rememoração na Obra de Walter Benjamin”, Maria João Cantinho aborda um dos temas nucleares do pensamento benjaminiano, a saber, a questão da tradição e a da perda da experiência. Seguem-se algumas das habituais Secções. Em Ensaios publicam-se dois trabalhos: “‘Scale Relative Ontology’ and Scientism: Must Every Thing Go?”, de Noel Boulting; e “Como Pensam os Chineses sem Alfabeto? – 1.ª Parte: A diferença das escritas”, de Fernando Belo. A 2.ª Parte deste ensaio, intitulada “A diferença dos pensamentos” será oportunamente publicada num próximo número da revista. Promovido anualmente pela Philosophica, o Prémio Prof. Doutor Joaquim Cerqueira Gonçalves para Alunos do 1.º Ciclo/ Cursos de Licenciatura, teve como vencedor, na edição de 2015, o estudante Hugo Luzio, cujo trabalho “Sonicismo Tímbrico e Instrumentalismo: Uma Disputa Ontológica” aqui nos congratulamos em publicar. Na secção Leitura, João Duarte apresenta o livro de Maria Filomena Molder, As Nuvens e o Vaso Sagrado. Kant e Goethe. O número 46 fi naliza com os Índices da Philosophica n.os 31-45. Philosophica orgulha-se de contar a partir deste número com um corpo de prestigiados Consultores Externos, cujo elevado currículo académico e científi co é sobejamente conhecido de todos: Adrian Switzer (Missouri Kansas City), Gregorio Piaia (Padova), Jesús de Garay (Sevilla), Maria Filomena Molder (Lisboa), Markus Gabriel (Bonn), Maximiliano Hernández Marcos (Salamanca), Nelson Gomes (Brasília) e Ubirajara Rancan de Azevedo Marques (Marília). Editorial