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Sobre o estético em Kierkegaard

Sousa, Elisabete M. de

Abstract

O artigo descreve o estado da arte da questão do estético na obra e no pensamento de Søren Kierkegaard. Não pretende ser uma análise exaustiva da recepção do estético. Em vez disso, é concebido em ordem a mostrar as principais incompreensões que atribuíram à ideia do estético papéis secundários em face do ético e do religioso. Apresenta ainda um exemplo actualizado das mais recentes obras que tomaram já o estético como categoria-chave e toma em atencão ao que ainda há que fazer, nomeadamente estudar as fontes teoréticas e fi losófi cas que inspiraram Kierkegaard a defi nir o papel fi losófi co do estético e, em particular, o seu papel nuclear na fi losofi a existencial de Kierkegaard.

Full text

S    K Elisabete M. de Sousa (Centro de Filosofi a da Universidade de Lisboa) Pensar o estético em Kierkegaard passa inevitavelmente pela aceitação da dimensão poiética da sua obra e pela problematização do que é comummente tido por estádio estético da existência. Apesar de a última década ter assistido a um signifi cativo aumento no número de estudos que tomam o estético como uma das questões fulcrais, pode afi rmar-se que ainda hoje só é consensual e unânime entre todos os sectores da crítica kierkegaardiana reconhecer que a sua condição de poeta confere à obra uma incontornável dimensão estética. Tomar o estético como uma categoria de importância idêntica ao ético e ao religioso na formação do indivíduo singular continua a surgir aos olhos de muitos como vexata quaestio. E contudo, nem sempre foi assim. São por vezes factores relacionados com o contexto histórico europeu ou o da própria história da fi losofi a a explicar como, por um lado, se ergueram linhas de tensão entre o reconhecimento de uma validade estética na obra de Kierkegaard e o imperativo de retirar uma verdade normativa dos seus escritos, e, por outro lado, se criaram soluções que só na aparência resolvem a confl itualidade hermenêutica que persiste quando a matéria em estudo é a circunscrição da categoria do estético. O presente artigo não é obviamente um comentário exaustivo do estado da arte desta questão. Incide em particular sobre duas perspectivas unilaterais da questão do estético que têm impedido que seja encarado com a relevância que lhe é devida: a sua assunção como estádio a superar na formação do indivíduo singular, e a sua consideração enquanto mero atributo para qualifi car a natureza particular da obra do autor. Os caminhos percorridos Philosophica, 45, Lisboa, 2015, pp. 107-124. 108 pelo estético ao longo da recepção de Kierkegaard que aqui apresentamos, maioritariamente retirados da crítica anglo-saxónica, escandinava e alemã, são os que julgamos necessários para ilustrar os confl itos e tensões que acabámos de expor e para fundamentar a pertinência de encarar o estético como uma categoria compósita, mas una. Não é de estranhar que a categoria do estético em Kierkegaard apresente ainda tanto por explorar. Afi nal, o fi lósofo dinamarquês permanece desconhecido por muitos e parcialmente conhecido por outros tantos. Se em parte é este o destino de muitos fi lósofos, cuja produção no seu conjunto, seja qual for a extensão, é muitas vezes relegada a favor de uma ou de outra obra mais marcante para a história da fi losofi a, no caso de Kierkegaard, verifi ca-se com uma frequência assinalável, mesmo entre aqueles que por vezes quase exclusivamente se dedicam ao estudo do pensador dinamarquês, que a questão do estético é ignorada ou submetida a um tratamento que a deixa na dependência total de outras categorias consideradas maiores. Se bem que seja compreensível que a combinação da diversidade de matérias com as diferentes focalizações a que são sujeitas pelos diversos autores, em obras de géneros igualmente diversifi cados, conduza a uma especialização ou a uma concentração de esforços num determinado campo, já não é tão compreensível que, por exemplo, em livros de apresentação genérica do autor, chegue a ser ignorada a questão do estético, mesmo até nos aspectos atrás mencionados1. A posteridade de Kierkegaard está tão marcada por clivagens na sua recepção que, ao seguirmos determinadas linhas dos percursos que emanaram do seu pensamento desde a sua morte em 1855, somos levados 1 Fazem disso prova os comentários a Ou-Ou. Um Fragmento de Vida em quatro obras introdutórias ao pensamento de Kierkegaard, já que a primeira parte desta obra é tida justamente como o marco inaugural do mapeamento do estético na produção kierkegaardiana. Em Kierkegaard. Past Masters, Oxford: Oxford U.P., 1988, no capítulo «Modes of existence», em especial, pp. 41-61, Patrick Gardiner, resume em traços gerais a visão oferecida na primeira e na segunda partes, confrontando os pontos de vista dos autores A e B, acompanhados apenas de sugestões de comentário fi losófi co. Quase vinte anos depois, M. Jamie Ferreira, em Kierkegaard. Blackwell Great Minds 8, Chichester: Blackwell, 2009, p. 18-30, dedica cerca de duas páginas e meia ao prefácio de Ou-Ou, menos de uma página à primeira parte, e as restantes à segunda parte, concluindo com uma análise ainda extensa de «Ultimatum», e uma conclusão fi nal sobre a obra. Por seu turno, C. Stephen Evans, Kierkegaard. An Introduction, Cambridge: Cambridge U.P., pp. 68-8, seguindo uma orientação em que se mantém a distinção entre três estádios de existência, já diferencia «formas de vida estética» e «tipos de esteta» (imediato e refl exivo). Em Kierkegaard. Grundwissen Philosophie, Stuttgart: Reclam, 2014, Richard Purkarthofer opta por uma abordagem transversal do estético, destacando um conjunto de aspectos a partir de uma selecção de obras de Kierkegaard que o colocam como fi lósofo da modernidade, reservando o seu próprio comentário sobre o estético para a introdução e para as secções fi nais. Elisabete M. de Sousa 109 a crer que estamos diante de dois ou de três autores diferentes e não de um único, circunstância que causa ao leitor actual mais problemas do que qualquer uma das leituras retrospectivas que se encontram nos escritos de Kierkegaard sobre a sua própria produção2. Ora, é exactamente a leitura atenta destes mesmos textos que me leva a concluir que, subjacente a toda a obra de Kierkegaard, está de facto a ideia de que a expressão com que se auto-designa em O Ponto de Vista da Minha Obra como Autor é para ser lida num movimento de acção recíproca entre duas qualidades: ser-se poeta e ser-se religioso. Tratando-se de uma obra confessional e de auto-análise, guardada para publicação póstuma, e sabia-o Kierkegaard certamente, para acesa discussão futura, achamos pertinente entendê-la na reciprocidade dos dois termos. Ao utilizar a expressão ‘poeta religioso’3 Kierkegaard não está meramente a afi rmar-se como poeta que professa uma religião. Se não o tivesse deixado escrito, continuaríamos a constatar a indelével presença de Deus na operacionalidade do seu pensamento e no próprio teor dos seus escritos. Perto dessa confi ssão, Kierkegaard reitera que tudo o que escreveu até à publicação de Postscriptum Conclusivo Não-Científi co às Migalhas Filosófi cas, incluindo portanto dezoito discursos edifi cantes, é constituído por escritos estéticos4. Pensemos esta declaração em paralelo com o conteúdo semântico da expressão ‘poeta religioso’, relembrando que Digter (como Dichter em alemão) designava à época o poeta e o escritor. Designar-se como poeta religioso, dentro dos sentidos que a expressão transporta, partilhados aliás em muitas línguas, é ter-se como poeta crente em Deus, como um seguidor de uma religião, mas também, quando a ênfase é colocada no recipiente do atributo e não no atributo em si, é ter-se por alguém que se auto-qualifi ca como cultivador da sua arte como se de uma religião se tratasse, alguém que impõe a si próprio um dever religioso enquanto obreiro da escrita, alguém que cumpre 2 Designadamente: da obra de Johannes Climacus, em Postscriptum Conclusivo NãoCientífi co à Migalhas Filosófi cas: «Henblik til en samtidig Stræben i dansk Litteratur», in Afsluttende uvidenskabelig Efterskrift. Søren Kierkegaards Skrifter, vol. 7, ed. Niels Jørgen Cappelørn, Joakim Garff, Jette Knudsen, Johnny Kondrup e Alastair McKinnon, Copenhaga: Gads Forlag, 2002, pp. 228-273; «Forstaaelsen med Læseren», ibidem, pp. 560-566; «En første og sidste Forklaring», ibidem, pp. 569-573. E O Ponto de Vista da Minha Obra como Autor, Synspunktet for min Forfatter-Virksomhed, Søren Kierkegaards Skrifter, vol. 16, ed. Niels Jørgen Cappelørn, Joakim Garff, Johnny Kondrup, Tonny Aagaard Olesen e Steen Tullberg, Copenhaga: Gads Forlag, 2012, pp. 5-106. Doravante Søren Kierkegaards Skrifter é abreviado como SKS, com indicação do número de volume em algarismos árabes, seguido de página. 3 SKS, vol. 16, p. 16. 4 Ibid., pp. 15; p. 17. Sobre o estético em Kierkegaard 110 religiosamente a sua tarefa de escritor. Admitir que assim é não retira de todo a relevância do conteúdo religioso dos escritos de Kierkegaard, antes pelo contrário, visto que resolve, em parte, a sua afi rmação de que de toda a sua produção é estética, desde Ou-Ou. Um Fragmento de Vida até ao Postscriptum Conclusivo Não-Científi co às Migalhas Filosófi cas, obra que, curiosamente, em O Ponto de Vista é classifi cada como nem sendo poética, nem sendo religiosa, e é, talvez, por isso, escolhida como charneira entre as duas divisões impostas pelo autor neste seu mesmo escrito. Estudos recentes5 fazem, aliás, sobressair a estreita relação entre o poético e o religioso ao longo de toda a produção do autor, incluindo obras nas quais o religioso parece ocupar um lugar subalterno, e corroboram a ideia que defendemos, designadamente, a de ser o estético a força dinâmica da produção do autor. A confl itualidade de determinadas leituras críticas da obra de Kierkegaard tem raízes evidentes em pontos de vista que estão presos à concepção do pensador arauto de uma religião, acrescida de uma ancilar fi delidade à condenação platónica da poesia. Ora, no caso do pensador dinamarquês, é conveniente ser rigoroso, já que, na verdade, estamos diante do grande denunciador do que o Cristianismo não deve ser para que não se veja coarctada a possibilidade de o indivíduo se tornar cristão. E é esta situação de um fi lósofo-poeta, que continuada e diversifi cadamente aponta o dedo à religião estabelecida, a deixá-lo duas vezes mais vulnerável a ser expulso das cidades que o podem reclamar como cidadão – a teologia, a fi losofi a, a literatura. De facto, ainda hoje é posta em questão, não a validade do seu contributo como teólogo do Cristianismo, mas a pertinência qualitativa das suas propostas, o que por si só ilustra o impacto da sua intervenção quer no seio da Igreja Luterana, quer no da Igreja Católica, fazendo obviamente oscilar a sua própria defi nição enquanto pensador. No seio da Igreja Católica, esse impacto foi mais tardio, podendo datar-se do período em que o pensador dinamarquês surgiu como fi gura maior nos primórdios do movimento existencialista em França. E neste seu papel, como é sabido, imperam as questões da liberdade, do absurdo, do desespero, abordadas na perspectiva da situação existencial do ser humano, e já não de todo a ênfase na necessidade de o indivíduo singular cultivar uma busca dinâmica de Deus na sua existência, traduzível num auto-conhecimento de si enquanto criatura divina, que, no amor a si próprio e ao próximo, se encontra com o amor desse seu deus criador. Mais do que uma superação, trata-se neste caso de ir para além de si mesmo, de ser capaz de concretizar o amor divino nas obras do amor que a si 5 Vd. adiante nota 21. Elisabete M. de Sousa 111 mesmo e ao próximo deve, em suma, saltar um abismo que no movimento existencialista é tido por insuperável. Acontece que a contraposição de duas visões do indivíduo enquanto ser que procura o amor divino, ou que deixou em absoluto de o encontrar dentro ou fora do abismo, acabou por conduzir a um exacerbamento de Kierkegaard como autor cristão, em detrimento do relevo que poderia ter sido dado ao escritor que se cumpre religiosamente, numa dualidade activa e actuante, da qual o salto sobre o abismo também pode constituir metáfora. Em torno do movimento existencialista, prolongando-se mesmo pela década de sessenta do século vinte, sucederam-se, assim, leituras, por vezes de contornos antagónicos, de categorias-chave desenvolvidas por Kierkegaard na esfera do religioso, nas quais se detectam pontos de contacto com os protocolos de tradução que presidiram às primeiras traduções sistemáticas da obra de Kierkegaard em italiano, inglês e francês. Estas, por seu turno, estão marcadas pela identidade religiosa dos estudiosos que inicialmente as concretizaram, designadamente Cornelio Fabro, S.J., em Itália e David F. Swenson, luterano, nos Estados Unidos, sendo o caso francês ainda mais complexo, não só porque as primeiras traduções nasceram já durante o confronto de posições fi losofi camente consolidadas sobre o pensamento de Kierkegaard, designadamente as de Jean Wahl6 e de Lev Shestov7, como por terem tido essas mesmas traduções um papel fundamental na recepção de Kierkegaard durante o existencialismo. Sensivelmente durante este período, o estético viu-se relegado para um patamar inferior, dentro duma noção de estádios (estético-ético-religioso) entendidos em sucessão dialéctica, pressupondo-se assim que o culminar da existência do homem é a sua existência como cristão, atingida por superação de estádios anteriores8. Foi como se, na voragem da ascensão do nazismo e da hecatombe da Segunda Guerra Mundial, o que tivesse fi cado retido da obra de Theodor Adorno de 1933, A Construção do Estético, em relação ao tópico dos estádios, tivesse apenas sido a equivalência que Adorno introduziu entre estados e esferas, e a observação de que os estádios (quer os do erótico-musical quer os estádios estético, ético e religioso) só 6 Jean Wahl, Études Kierkegaardiennes, Paris: Aubier, 1938; Paris: Librairie J. Vrin, 1967. 7 Refi ro-me em particular às lições na Sorbonne em 1925, e também a Kierkegaard et la philosophie existentielle («Vox clamantis in deserto») [Kirkegard i èkzistencial’naâ fi losofi â (Glas vopiûĉego v pustyne)], na tradução de T. Rageot e Boris de Schloezer, Paris: Éditions Vrin, 1939 e 1948; re-editado em 1998. 8 Vd. Jean Wahl, 1967, pp. 48-143. Repare-se no título da tradução de Stadier paa Livets Vei em francês: Étapes sur le Chemin de la Vie (1948). Sobre o estético em Kierkegaard 112 podem ser lidos à luz de Hegel9. É sabido como a obra de Adorno está marcada pelo contexto histórico em que foi escrita e publicada, o contexto político da própria Alemanha, e o da recepção de Kierkegaard por M. Heidegger e por E. Hirsch. E é hoje reconhecido que a Habilitationschrift, mais do que um texto sobre o estético em Kierkegaard, é um libelo contra a recepção de Kierkegaard contemporânea de Adorno, e simultaneamente um manifesto que contém em si o gérmen do pensamento posterior do próprio Adorno10. Mas é habitual fi car esquecido que, aquando da génese e publicação de A Construção do Estético, a dimensão estética e poética de Kierkegaard estava solidamente consolidada na Escandinávia e na própria Alemanha, graças à magnitude do contributo de poetas, dramaturgos e romancistas maiores das primeiras décadas do século vinte, entre outros, Kafka, Thomas Mann, Rilke, H. Ibsen e A. Strindberg, e que isso pode ter pesado sobre o modo como Adorno analisa o estético em Kierkegaard, designadamente na ênfase que também coloca na articulação entre o poético e o religioso. De facto, logo a partir da divulgação levada a cabo por Georg Brandes11, ainda na década de setenta do século dezanove, Kierkegaard vira consagrada a validade estética e poética a par do conteúdo fi losófi co e teológico das suas obras. É aliás da Dinamarca que partirá em 1954 o novo fôlego para acalentar a percepção de que a dimensão poiética é a massa aglutinadora de toda a obra, com a publicação de Kierkegaards Romaner de Aage Henriksen12, o primeiro grande estudo que analisa «Diário do Sedutor», A Repetição e «Culpado-Não-culpado?» enquanto narrativas romanescas, e a escrita de Kierkegaard como fi cção. Contudo, parece não ter tido eco imediato, pois, contrariamente ao que seria expectável, tendo em conta o impacto do 9 Theodor Adorno, Kierkegaard. Konstruktion des Ästhetischen, in Gesammelte Schriften, vol. 2, ed. Rolf Tiedemann, Frankfurt a. M.: Suhrkamp, 1997. Edição consultada: The Construction of the Aesthetic, Minneapolis: University of Minnesota Press, 1989, p. 88. 10 Vd. Marcia Morgan, «Kierkegaard, Philosophical Fragments, and Critical Theory», in Kierkegaard in Lisbon, Lisboa: Centro de Filosofi a da Universidade de Lisboa, pp. 158-162. 11 Georg Brandes, «Søren Kierkegaard», in Samlede Skrifter, Copenhagen: Gyldendalske Boghandels Forlag (F. Hegel & Son), 1899, pp. 249-418. Em alemão: Die Hauptströmungen der Literatur des neunzehnten Jahrhunderts (tradução de Hovedstrømniger i det nittende aarhundredes Litteratur), Vorlesungen, gehalten an der Kopenhagener Universität, Berlin: Duncker, 1872-1876. 12 Aage Henriksen, Kierkegaards Romaner, Copenhaga: Gyldendal, 1954. Curiosamente, data do mesmo ano, o primeiro grande estudo sobre o pensamento antropológico: Johannes Sløk, Die Anthropologie Kierkegaards, Copenhaga: Rosenkilde und Bagger Verlag, 1954. Elisabete M. de Sousa 113 movimento existencialista nas artes, em especial no teatro e no romance, continuam até hoje escassos os estudos sobre a presença do pensamento kierkegaardiano no teatro sartreano13, embora o género narrativo tenha sido mais bem sucedido, registando-se um número assinalável de estudos, por exemplo, sobre Albert Camus14. Data sensivelmente do mesmo período o aparecimento de estudos e ensaios que tomam conjuntamente Kierkegaard e Nietzsche propondo leituras que os colocam em trilhos diferentes no alvor do modernismo, apesar de partilharem características na escrita e no labor fi losófi co, designadamente a diversidade estilística e uma acentuada vertente polémica. Embora a associação entre Kierkegaard e Nietzsche permaneça um fi lão inesgotável, vendo-se assim frequentemente reunidos, em antologias e estudos conjuntos, e não só relativos a outros autores-chave para o existencialismo, tais como Heidegger, Sartre, Jaspers, ou Marcel, há uma notória ausência de estudos comparativos sobre o seu pensamento estético15, como aliás constatei no pequeno artigo que lhes dediquei, no qual, partindo da ligação entre a visão apaixonada de ambos sobre a música, exploro os pontos de contacto presentes na estruturação da respectiva crítica musical16. A virulência anti-hegeliana que os escritos de Kierkegaard por vezes atingem constituiu durante bastante tempo um obstáculo a que se defi nisse os contornos da continuidade ou da descontinuidade em relação a Hegel. Todavia, graças a estudos de largo espectro e igual profundidade como os de Merold Westphal e de Jon Stewart em relação a Hegel, e os de 13 Sobre Samuel Beckett, vd. Anurag Sharma, «Waiting for Godot: a Beckettian counterfoil to Kierkegaardian existentialism», in Samuel Beckett Today/Aujourd’hui, vol. 2, Beckett in the 1990s, Amsterdam, Atlanta, GA.: Rodopi, 1993, pp. 275-280. 14 Matustík aproxima as «máscaras dramáticas» de Kierkegaard do jogo dramático no teatro do absurdo. Vd. Martin J. Beck Matustík, «Kierkegaard’s existential philosophy and praxis as the revolt against systems», in The Edinburgh Encyclopedia of Continental Philosophy, ed. Simon Glendinning, Edinburgo: Edinburgh U.P., 1999, pp. 115-127; pp. 117-118. 15 Kai Hammermeister, «Kierkegaard and Nietzsche», in The German Aesthetic Tradition, Cambridge, U.K., New York: Cambridge U.P., 2002, pp. 128-147. Mais do que um estudo comparativo, trata-se de um artigo em duas secções diferenciadas, nas quais Hammermeister analisa separadamente o modo como Nietzsche e Kierkegaard desafi am os paradigmas estéticos precedentes, designadamente os que ele próprio destacou na primeira parte da obra: Baumgarten, Kant, Schiller, Schelling e Hegel. 16 «Musical controversies in Nietzsche and Kierkegaard», in Nietzsche and German Idealism and its Critics, ed. Katya Hay e L. R. dos Santos, Berlin, New York: Walter De Gruyter, 2015. Sobre o estético em Kierkegaard 114 Ronald Greene, em relação a Kant17, é hoje possível discernir a crítica aos hegelianos dinamarqueses e à prática fi losófi ca contemporânea de Kierkegaard enquanto formação, enquanto Dannelse (correspondente a Bildung), e, por outro lado, distinguir o que é crítica à fi losofi a (e à teologia) sistemática do que é crítica à institucionalização da fi losofi a e da teologia que Kierkegaard testemunhou, e, na base desses dados, construir uma nova visão sobre o legado de Kant e de Hegel. Porém, mais uma vez, a contra-proposta de Kierkegaard à hierarquia das artes hegeliana, que não é apenas indirecta através de uma hipotética resposta à sistematização dos géneros teatrais por J. L. Heiberg, o introdutor de Hegel na Dinamarca, ou a resposta de Kierkegaard ao sublime de Kant através da exploração do conceito de patético inspirado em Schiller, tendem a ser questões abordadas em análises centradas em obras particulares do autor18. A partir dos anos sessenta do século passado, surgiram com maior frequência estudos centrados no papel que a dimensão estética traz para o entendimento fi losófi co e teológico da obra de Kierkegaard. Trabalhos seminais como o de Louis Mackey, com a defesa aberta da poiese kierkegaardiana, e cerca de vinte anos mais tarde, o de Roger Poole19 sobre a problemática da comunicação indirecta, abriram caminho a que progressivamente se aprofundasse a análise da(s) escrita(s) kierkegaardiana(s) como um factor hermenêutico determinante20. 17 Apenas a título de exemplo, vd. Merold Westphal, Hegel, Freedom, and Modernity, Albany. New York: SUNY Press, 1992; Jon Stewart, Kierkegaard’s Relations to Hegel Reconsidered, Cambridge, Cambridge U.P., 2003; Ronald Green, Kierkegaard and Kant – The Hidden Debt, New York, State University of New York Press, 1992, e mais recentemente, Kant and Kierkegaard on Time and Eternity, Macon: Mercer U.P., 2011. Vd. tb. Roe Fremstedal, Kierkegaard and Kant on Radical Evil and the Highest Good: Virtue, Happiness, and the Kingdom of God, London, New York: Palgrave, 2014. 18 Um exemplo possível encontra-se em «O salto para a eternidade», a minha introdução à tradução portuguesa de Temor e Tremor, Lisboa: Relógio d’Água, pp. 9-38. Vd. tb. Bo Kampmann Walther, «Web of Shudders: Sublimity in Søren Kierkegaard’s Fear and Trembling», MLN (Modern Language Notes), vol. 112, n.º 5, 1997, pp. 753-758. 19 Louis Mackey, A Kind of Poet, University of Pennsylvania Press, 1971; Roger Poole, Kierkegaard: The Indirect Communication, University of Virginia Press, 1993. 20 A simples consulta da bibliografi a reunida por Julia Watkin em Historical Dictionary of Kierkegaard’s Philosophy (Landham, Maryland, and London: The Scarecrow Press, Inc., 2001), permite compreender como sob a designação de ‘estético’ se incluía ainda nesta data tudo quanto diz respeito à questão do autor e à sua produção, a par de estudos especifi camente centrados sobre a sua relação com a arte. Vd. «Kierkegaard and Aesthetics», ibidem, pp. 296-300. Por seu turno, em Kierkegaard. Critical Assessments of Leading Philosophers, vols. I-IV, ed. Daniel W. Conway, London: Routledge, 2002, a dimensão estética e a estético-ética surge em dois volumes distintos: o primeiro, Authorship and Authenticity: Kierkegaard and his Pseudonyms, e o quarto, Social and Political Elisabete M. de Sousa 115 Progressivamente, a identifi cação da complexidade retórica patente em toda a produção de Kierkegaard obrigou a que se tomasse em consideração na hermenêutica kierkegaardiana os diferentes elementos constituintes e o modo como interagem, designadamente, os pseudónimos, as modalidades de comunicação, a individualização do leitor, a multiplicidade de géneros literários, a especifi cidade da estrutura de cada obra mesmo que possa ser classifi cada como próxima de outra. A aceitação de que a especifi cidade dessa interacção está íntima e inexoravelmente ligada ao que em cada uma dessas obras é dito, está no cerne de críticos prolíferos que mantêm sempre no seu horizonte a dimensão poética da produção do fi lósofo dinamarquês, se bem que seja habitualmente tratada segundo o respectivo grau de instrumentalidade em relação à análise do religioso21. Contudo, a meu ver, é novamente da Dinamarca que provém o impulso para que o estético pudesse fi nalmente libertar-se dos limites do poético e, por essa via, ser perspectivado para além da ligação com o religioso. Em 1972, Kresten Nordentoft publicou Kierkegaards Psikologi22, que representa um salto qualitativo na análise da produção do fi lósofo dinamarquês, quanto ao ponto de vista metodológico, e quanto aos resultados alcançados, já que propõe um redireccionamento à abordagem do indivíduo singular. Partindo da análise de toda a obra em plano sincrónico, Nordentoft não só elenca de maneira sistemática diversos modelos de descrição psicológica, como, nas secções fi nais, à luz do que acabara de expor sobre o conteúdo psicológico do pensamento de Kierkegaard, revisita questões como o autor-poeta, as modalidades de comunicação, e o confronto entre a vertente antropológica e a vertente psicológica. Por seu turno, em 1978, Merete Jørgensen publicou o primeiro grande estudo em que a vida e a obra de Kierkegaard são analisadas através da relação entre os dois tipos de crítica nela contida, a crítica estética e a crítica ética, com base numa selecção de textos de crítica literária do autor, extraídos de várias obras23. Mesmo que se conteste Philosophy: Kierkegaard and the ‘Present Age’. 21 Sylvia Walsh e George Pattison são dois excelentes exemplos de críticos que cabem nesta descrição, com Pattison a desempenhar um papel mais activo no destaque à ligação de Kierkegaard com a cultura do seu tempo, em obras como Kierkegaard and the Quest for the Unambiguous Life: Between Romanticism and Modernism - Selected Essays, Oxford: Oxford U.P., 2013, ou Kierkegaard, Religion and the Nineteenth-Century Crisis of Culture, Cambridge: Cambridge U.P., 2002. 22 Kresten Nordentoft, Kierkegaards Psikologi, Copenhaga: G.E.C. Gad, 1972; tradução inglesa de Bruce H. Kirrmse, Kierkegaard’s Psychology, Pittsburgh, Pennsylvania: Dusquene U.P., 1978; reimpressão, Eugene, Orgeon: Wippf and Stock, 2009. 23 Merete Jørgensen, Kierkegaard som kritiker. En undersøgelse af forholdet mellem det æstetiske og det etiske i Kierkegaards litterære kritik, Copenhaga: Gyldendal, 1978. Vd. Sobre o estético em Kierkegaard 122 Pattison, George, Kierkegaard, Religion and the Nineteenth-Century Crisis of Culture, Cambridge: Cambridge University Press, 2002. Perkins, Robert, ed., International Kierkegaard Commentary, 24 vols., Macon, Georgia: Mercer University Press, ed. Robert Perkins, 1984-2010. Poole, Roger, Kierkegaard: The Indirect Communication, University of Virginia Press, 1993. Purkarthofer, Richard, Kierkegaard. Grundwissen Philosophie, Stuttgart: Reclam, 2014 Søren Kierkegaards Skrifter, Copenhaga: Gads Forlag, 1997-2013. Rivista di Filosofi a Neo-Scolastica, n.º3-4, Jul-Dez. 2013, ed. Ingrid Basso. Schillers Werke. Nationalausgabe, Historisch-kritische Ausgabe, hrsg. i.A. d. Stiftung Weimarer Klassik u. d. Schiller-Nationalmuseums v. Norbert Oellers. Vols. 20 e 21: Philosophische Schriften. 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Apresenta ainda um exemplo actualizado das mais recentes obras que tomaram já o estético como categoria-chave e toma em atencão ao que ainda há que fazer, nomeadamente estudar as fontes teoréticas e fi losófi cas que inspiraram Kierkegaard a defi nir o papel fi losófi co do estético e, em particular, o seu papel nuclear na fi losofi a existencial de Kierkegaard. Palavras-chave: Kierkegaard – estética – recepção Sobre o estético em Kierkegaard 124 ABSTRACT This article describes the state of the art of the issue of the aesthetic in the work and thought of Søren Kierkegaard. It does not aim at being an exhaustive analysis of the reception of the aesthetic. Instead, it is conceived in order to show the main misunderstandings that have sentenced the idea of the aesthetic to secondary roles in face of the ethical and the religious. In addition, it presents an update of a sample of the most recent works which already take the aesthetic as a key category, and it draws attention to what still lies ahead to be done, namely to study the philosophical and theoretical sources that inspired Kierkegaard in order to be able to defi ne the philosophical role of the aesthetic, in particular its pivotal role in the Kierkegaard’s existential philosophy. Keywords: Kierkegaard – aesthetics – reception Elisabete M. de Sousa