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Gaspar Martins Pereira, O Douro e o Vinho do Porto. De Pombal a João Franco

Sequeira, Carla

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TST. Transportes, Servicios y Telecomunicaciones: 48 (2022): 152-154 ISSN 1578-5777 / ISSN online 2951-7176 Gaspar Martins Pereira, O Douro e o Vinho do Porto. De Pombal a João Franco, Porto, Edições Afrontamento, 1991, 173 páginas. Esta reseña está sujeta a una licencia “Creative Commons Reconocimiento-No Comercial” (CC-BY-NC). DOI: https://doi.org/10.24197/tst.48.2022.152-154 Na obra O Douro e o Vinho do Porto. De Pombal a João Franco, Gaspar Martins Pereira, professor catedrático aposentado da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e reconhecido, nacional e internacionalmente, especialista da história do Alto Douro, expõe, ao longo de 173 páginas, a história da Região Duriense “num período conturbado de mudanças políticas, económicas e sociais”, marcada por “crises trágicas de produção e de mercado e profundas transformações” (p. 7). O livro, publicado em 1991, constitui o corolário do trabalho de investigação desenvolvido pelo autor no âmbito do Programa de pesquisas plurianuais do Centro de Estudos Norte de Portugal – Aquitânia – Étude des vignobles portugais et de leurs rapports avec l’Aquitaine. A edição contou com o apoio de diversas instituições e empresas exportadoras do sector do vinho do Porto, através da cedência de fotografias e ilustrações. O livro foi ainda enriquecido com imagens do espólio de Emílio Biel e Domingos Alvão. Alicerçada em sólidas fontes primárias e secundárias, bem como em bibliografia especializada, viria a assumir-se como uma obra importante no contexto da produção científica sobre a história vitivinícola duriense. Conforme o autor refere, integra-se num contexto de publicação de obras de relevo sobre esta temática, o que, segundo o autor, justificaria o carácter sintético do livro, com particular ênfase na abordagem sobre a intervenção do Estado e os mercados. A obra está dividida em cinco capítulos, além da “Introdução”. Organizados de forma temática, todos os capítulos percorrem a mesma cronologia (1777-1908). Ao longo de todo o livro aborda-se a evolução do espaço regional duriense, as principais mudanças nas explorações vinhateiras, nas práticas de cultivo do vinho e nos processos de vinificação, as flutuações do comércio do vinho do Porto e as modalidades de intervenção do Estado no sector. Na “Introdução”, Gaspar Martins Pereira justifica a escolha do período de 1777 a 1908 com a seguinte afirmação: “De Pombal a João Franco é a história da reinvenção do Douro” (p. 7). De facto, embora tratando-se Debate de clásico / Debate de obra clássica 153 TST. Transportes, Servicios y Telecomunicaciones: 48 (2022): 152-154 ISSN 1578-5777 / ISSN online 2951-7176 de uma obra “necessariamente sintética”, debruça-se sobre um período fulcral da história duriense, realçando os aspetos considerados fundamentais para o conhecimento da região demarcada do Douro e do vinho do Porto entre 1777 e 1908. Assim, são percorridas as diversas conjunturas políticas e económicas que marcaram a região e o sector do vinho do Porto entre as primeiras demarcações, na segunda metade do século XVIII, e o regresso à demarcação e regulamentação do sector, em 1907-1908, após mais de quarenta anos de políticas livre-cambistas. O primeiro capítulo foca-se no território, isto é, na evolução do espaço regional, desde a valorização do Cima Corgo no período pré-pombalino à expansão do vinhedo para o Douro Superior, culminando com o Douro pósfiloxérico. Aborda ainda a temática das pragas da videira: o oídio, a filoxera e a consequente transformação do território duriense, com a transferência de propriedade a caracterizar este período da história do Alto Douro. Segue-se um capítulo dedicado às explorações vitícolas, no qual o autor se debruça sobre a mudança nas estruturas agrárias (do Antigo Regime à filoxera), a par da transformação social ocorrida em simultâneo no Alto Douro. Discorre sobre a evolução das práticas vitícolas no período pré-fi- loxérico, bem como sobre a alteração das práticas culturais nos vinhos durienses que esta praga acarretou. O capítulo inclui ainda informação sobre as formas de seleção das castas usadas na produção dos vinhos durienses. O terceiro capítulo desenvolve-se em torno dos processos de vinificação. Centrando-se na questão histórica entre vinhos secos e vinhos doces, que dividiu opiniões e deu origem a acesos debates na imprensa nos séculos XVIII e XIX, põe em relevo a defesa dos vinhos secos, empreendida pelo Barão de Forrester e, por fim, a vitória dos novos tipos de vinho do Porto. O capítulo seguinte é dedicado às políticas do Estado para o sector do vinho do Porto. O autor começa por refletir sobre o período de “desagregação do modelo pombalino”, entre 1777 e 1834, durante o qual se assistiu a inúmeras alterações legislativas. Analisa, de seguida, o período de 1834 a 1865, que ficou marcado pelas hesitações do Estado liberal, alternando entre modelos de regulação protecionistas e livre-cambistas. Por fim, o autor apresenta o período entre 1865 e 1907, marcado pelas políticas livrecambistas e de desregulação do sector, a que se seguiria o “regresso ao protecionismo”, com João Franco. O último capítulo é dedicado à “comercialização e mercados do vinho do Porto”. Adotando as mesmas balizas cronológicas dos restantes capítulos, caracteriza-se a evolução das transações comerciais e a influência que 154 Debate de clásico / Debate de obra clássica TST. Transportes, Servicios y Telecomunicaciones: 48 (2022): 152-154 ISSN 1578-5777 / ISSN online 2951-7176 os fatores endógenos exerceram sobre os mercados. Assim, o capítulo divide-se entre várias conjunturas: a prosperidade comercial, entre 1777 e 1807; as flutuações dos mercados do vinho do Porto, que acompanharam as hesitações do Estado liberal quanto ao modelo de regulação (1807- 1865); a crise de produção motivada pela filoxera e respetivas consequências nos mercados; a expansão comercial que se seguiu à liberalização do sector (1865-1885); e a crise comercial que se desenvolveria a partir das últimas décadas do século XIX. A publicação do livro O Douro e o Vinho do Porto. De Pombal a João Franco constituiu um marco importante na produção bibliográfica sobre o vinho do Porto e a Região Duriense. Não obstante o seu carácter conciso, pode ser considerado como uma obra completa e abrangente, visto coligir informação dispersa por várias fontes e, de uma forma inovadora, não se centrar somente nos aspetos históricos ou económicos, mas incluir igualmente informação sobre os aspetos sociais e as práticas vitivinícolas da região duriense. Sucedendo a outras publicações do autor dentro do mesmo âmbito, (por exemplo o livro em coautoria com Fernando de Sousa, O Alto Douro, ou artigos em revistas científicas, como a Revista de História da Faculdade de Letras do Porto), acabaria por contribuir para o desenvolvimento e afirmação de uma linha de investigação que faria Escola na Universidade do Porto (através do GEHVID – Grupo de Estudos de História da Viticultura Duriense e do Vinho do Porto, e em inúmeros investigadores e alunos de pós-graduação que se têm dedicado ao Alto Douro, não apenas no âmbito da História mas também em outras áreas científicas como a Geografia ou a Museologia, entre outras). O livro continua a ser de enorme interesse na atualidade, quer pelos conteúdos quer pelo tipo de abordagem. Numa linguagem compreensível e acessível a um público não especializado, sem perder cientificidade, o seu carácter simultaneamente sintético e amplo facilita um primeiro contacto com as temáticas relacionadas com a região duriense num período importante da história regional. CARLA SEQUEIRA CITCEM – Centro Interdisciplinar Cultura, Espaço e Memória da Faculdade de Letras da Universidade do Porto [email protected]