Dois joões e o carro de bois: intervenção arquitetônica na paisagem cultural do Sertão Brasileiro
Abstract
O artigo é uma breve apresentação do projeto arquitetônico da Casa da Cultura do Sertão, uma intervenção em patrimônio histórico que partiu de uma pesquisa sobre cultura imaterial do sertão brasileiro, na região do Alto do Rio São Francisco, no Estado de Minas Gerais. Tomando o carro-de-bois como de objeto de estudos e engenho emblemático e representativo da cultura local, desenvolveu-se um método de abordagem da realidade do lugar tendo a literatura como guia, precisamente, a obra do escritor brasileiro João Guimarães Rosa.
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ID_ PESQUISAS 127 DOIS JOÕES E O CARRO DE BOIS: INTERVENÇÃO ARQUITETÔNICA NA PAISAGEM CULTURAL DO SERTÃO BRASILEIRO Luís Antônio Jorge Arquiteto e urbanista. Professor Doutor, Departamento de Projeto. Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. Universidade de São Paulo RESUMO O artigo é uma breve apresentação do projeto arquitetônico da Casa da Cultura do Sertão, uma intervenção em patrimônio histórico que partiu de uma pesquisa sobre cultura imaterial do sertão brasileiro, na região do Alto do Rio São Francisco, no Estado de Minas Gerais. Tomando o carro-de-bois como de objeto de estudos e engenho emblemático e representativo da cultura local, desenvolveu-se um método de abordagem da realidade do lugar tendo a literatura como guia, precisamente, a obra do escritor brasileiro João Guimarães Rosa. Palavras chave: patrimônio, projeto arquitetônico, cultura imaterial, Minas Gerais Vista geral da Casa da Cultura do Sertão: casa restaurada com a construção do anexo protegido por muro de contenção feito com a pedra tapiocanga, típica da região. Foto de Luís Antônio Jorge
ID_ PESQUISAS 128 RESUMEN El artículo es una presentación del diseño arquitectónico de la Casa da Cultura do Sertão, una intervención en el patrimonio histórico que resulta de la investigación sobre la cultura inmaterial del interior de Brasil, en la región de Alto do Rio São Francisco, en el estado de Minas Gerais. Tomando el carro-de-bois como objeto de estudio y artefacto emblemático y representativo de la cultura local, hemos desarrollado un método de acercamiento a la realidad del lugar a través de la literatura, concretamente la de la obra del escritor brasileño João Guimarães Rosa. Palabras clave: patrimonio, projecto arquitectónico, cultura immaterial, Minas Gerais ABSTRACT The article is a presentation of the architectural design of the Casa da Cultura do Sertão, an intervention in historic heritage that results of research about immaterial culture of the Brazilian hinterland, in the region at São Francisco River, in the state of Minas Gerais. Taking the carro-de-bois as object of studies and emblematic and representative artifact of local culture, we developed a method of approach the reality of the place having the literature as a guide, precisely, the Brazilian writer João Guimarães Rosa’s work. Keywords: heritage, architectural design , immaterial culture, Minas Gerais
ID_ PESQUISAS 129 vaueiro edro ranciano u aco ue ele ueria era ficar sabendo o tudo e o miúdo vaueiro adeu o gente, mina gente ue no era otudoeomiúdo O vaqueiro Pedro Franciano: Pois então? O vaqueiro Tadeu: ...Queria era que se achasse para ele o quem das coisas! Guimarães Rosa (Cara-de-Bronze) 1. INTRODUÇÃO O poeta João Cabral de Melo Neto conta que seu tio-avô um dia lhe disse que, em Pernambuco, os carros de boi são puxados por duas juntas (ou pares) de bois e no Rio de Janeiro, são puxados por três juntas. Isso o levou a pensar em distinguir as personalidades dos bois de carro, caracterizando os comportamentos dos que vão à frente e dos que vão atrás, buscando motivação para um poema que abordaria os tipos de personalidades artísticas nos homens. Os bois de cambão são os que puxam o carro, os de coice são os que o freiam, quando ele está descendo uma ladeira... Manuel Bandeira é um boi de cambão, o Schmidt é um legítimo boi de coice. Sartre é um boi de cambão, o Camus é um boi de coice. Não há superioridade de um sobre o outro... Não é uma questão de valor, mas de approach da realidade1. O escritor João Guimarães Rosa, no seu conto “Conversa de Bois”2, penetra neste universo temperamental dos bois de carro, dando voz e distinguibilidade aos bois: Nós somos bois... ois de carro s outros, ue vm em manadas, para ficarem um tempodasguas pastando na invernada, sem trabalhar... Eles não sabem que são bois... Orgulhosos e cientes da sua importância, conviventes com o homem no seu trabalho, os bois vão sendo apresentados, um a um, de acordo com a função que desempenham na condução de um carro. 1 Cadernos de literatura brasileira: João Cabral de Melo Neto. São Paulo, Instituto Moreira Salles. 1996. p. 23. 2 ROSA, João Guimarães. Sagarana. Rio de Janeiro. Livraria José Olympio Editora. 1968. 10a. ed.
ID_ PESQUISAS 130 Dois dos mais geniais joões do Brasil observaram o comportamento do boi de carro, dialogando com a cultura e as artes populares onde o boi se faz presença constante: na música, na dança, na literatura ou no artesanato. João Guimarães Rosa, segundo estes pitorescos critérios cabralinos, foi um genuíno boi de cambão, ou melhor, boi de guia, nome utilizado para este mesmo boi em Minas Gerais. Em sua obra, Rosa elaborou uma geografia fantástica dos lugares do sertão mineiro: ora apoiando-se na paisagem localizável e reconhecível, à guisa de um cartógrafo, ora revelando lugares de memória, onde sua imaginação redesenhava os contornos do visto e do vivido, com palavras que não se limitaram à descrição das coisas e sim a transcende-las, reapresentando-as como signos de algo que requer e solicita decifração. Identificar esta paisagem cultural na obra de Rosa é aceitar o convite do autor para buscar “o quem das coisas” expressão (im)precisa de quem realizou uma das mais profundas interpretações do Brasil. Opinião corroborada por Willi Bolle3 ao analisar o Grande Sertão: Veredas - o romance e obra-prima de Guimarães Rosa, publicado em 1956 - como um dos livros “formadores” do Brasil pela interpretação seminal da nossa realidade sóciocultural nele contida. Bolle exalta a necessidade de descobrirmos a ualidade específica do conecimento proporcionado pela fico, em comparao com o dos estudos istórico sociológicos. Esta provocação é especialmente estimulante para fundamentarmos o diálogo visado neste trabalho, entre os campos do conhecimento da arquitetura e da literatura: o conhecimento ficcional, a invenção e a criação sobre a realidade dada, palpável, de se pegar4, são comuns em ambos, pois fazem coexistir a realidade observada (e portanto, processada, interpretada) e a realidade imaginada (escrita, desenhada, projetada). Para as analogias aqui permitidas, partimos do reconhecimento de que a obra de Guimarães Rosa revelaria um método de abordagem da realidade brasileira, onde a função poética desta literatura assume a tarefa de aprofundar a dimensão interpretativa e significativa da realidade complexa e de difícil decifração. 3 grandesertão.br. O romance de formação do Brasil. São Paulo. Livraria Duas Cidades. Editora 34. 2004. 4 Trecho do poema-homenagem “Um Chamado João”, de Carlos Drummond de Andrade, publicado no jornal Correio da Manhã, em 22 de novembro de 1967, logo após a morte do escritor. Ficamos sem saber o que era João, e se João existiu, de se pegar.
ID_ PESQUISAS 131 A realização artística é uma forma de sondagem da dimensão indizível da realidade: a escrita poética ou, mais precisamente neste caso, a escritura roseana revela uma metarealidade, calculadamente distante do real, ao retratar aspectos escandidos de um real lido, reapresentado como reconhecimento e descoberta. Tendo o conto roseano “Conversa de Bois” como cartografia, traçamos a travessia em busca do “quem das coisas”, com especial interesse pela cultura material, pelos artefatos ou coisas construídas para servir o homem na lida da vida. Deste imaginado diálogo sobre o carro de bois entre o poeta João Cabral e o escritor João Guimarães Rosa e, sobretudo, do nosso interesse em documentar ofícios e engenhos do Brasil, formulamos a hipótese de que um carro de bois é um artefato que fala dos temperamentos dos bois e das madeiras. Cabe ainda citar que este interesse pela documentação dos ofícios tradicionais responde à uma conhecida convocação da arquiteta Lina Bo Bardi para que se realizasse, no Brasil, uma ampla pesquisa sobre o artesanato popular ou, nas palavras da arquiteta, sobre a “mão do povo brasileiro”5. Certa vez, Lina, comentando, admirada, o trabalho têxtil dos pescadores na beira do Rio São Francisco, em Propriá, na divisa dos Estados de Alagoas e Sergipe, ela nos convocou: isso não é artesanato nem coisa nostálgica, é coisa do povo, é um convite a um grande levantamento nacional para se pesquisar as nossas verdadeiras necessidades6. Estabelecer relações entre Guimarães Rosa e Lina Bo Bardi, dois dos maiores autores da cultura brasileira da segunda metade do século XX, foi uma forma de orientar uma experiência que buscou o confronto entre obra e lugar ou, o diálogo entre literatura e realidade e cultura material, tendo o ofício da construção de um carro-de-bois como objeto de estudo. O carro de bois é um engenho emblemático da paisagem material deste lugar - o sertão retratado por Rosa – onde realizamos um projeto de intervenção em um imóvel tombado como patrimônio cultural pelo Município de Morro da Garça (MG), lugar onde vive o mestre Manuel Alexandre, conhecido construtor de carro de bois, naquela ocasião com 80 anos7. 5 A Mão do Povo Brasileiro – título de uma exposição realizada em 1969, no Museu de Arte de São Paulo, por ela concebida e projetada. 6 Depoimento no livro Lina Bo Bardi, S. Paulo, Instituto Lina Bo e P. M. Bardi, 1993, p.203. 7 2005
ID_ PESQUISAS 132 2. A LEITURA DO CONTO CONVERSA DE BOIS: OS BOIS, AS MADEIRAS E O CARRO 2.1. Os bois Em consulta aos arquivos do IEB8 pudemos constatar que Guimarães Rosa fez uma seleção entre os muitos nomes de bois e de árvores recolhidos no projeto deste conto, demonstrando seu intenso trabalho de pesquisa e elaboração literária. Ao conto: o desenho abaixo serve para acompanhar as falas de cada um dos bois, reconhecendo a sua função na condução do carro. A junta da guia é formada por Namorado e Buscapé, a do coice, por Canindé e Realejo. Estes são os dois pólos antagônicos que definem os temperamentos dos bois, o céu e a terra, a condução e o freio: boi que nasce para guia, jamais será coice. As juntas intermediárias se definem por proximidade a estes dois temperamentos. Habilidades em gestação. Manuel Alexandre, mestre carreiro e construtor, diz que o boi acostuma: o boi velho ensina o novo, para ser guia ou ser de coice. Vamos, então, aos bois personagens, suas funções e os sinais dos seus respectivos temperamentos, na prosa-poesia de Rosa: 8 No Instituto de Estudos Brasileiros, da Universidade de São Paulo (USP), está o Acervo João Guimarães Rosa que, entre outras preciosidades, guarda suas cadernetas de anotações e originais datiloscritos de seus livros. Desenho de Luís Antônio Jorge sobre os personagens do conto “Conversa de Bois” de Guimarães Rosa
ID_ PESQUISAS 133 2.2. Buscapé e Namorado, bois da guia: a dois palmos da sua cabea, avanavam os belos babosos dos bois da guia uscap, bi-amarelo, desdescendo entre mãos a grossa barbela plissada, e Namorado, caracu sapiranga, castanho vinagre tocado a vermelho – que, a cada momento, armavam modo de querer chifrar e pisar. Que santos de grandes, e cheirando forte a bondade, bois companheiros, que não fazem mal a ningum criao certa de eus, olando com os olos uietos de pessoa amiga da gente!... E Tiãozinho corre os dedos pelo cenho de Buscapé, e passa também mão de mimo no pescoo de amorado imóveis, os dois 2.3. Capitão e Brabagato, pé-da-guia: Segue seguindo, a ativa junta do pé-da-guia: Capitão, salmilhado, mais em branco que em amarelo, dando a direita a Brabagato, mirim-malhado de branco e de preto: meio chitado, meio chumbado, assim cardim. Ambos maiores do que os da junta da guia. 2.4. Dançador e Brilhante, pé-do-coice: asso após, a junta, mestra, do pdocoice anador, todo branco, ebuno cambraia, aendo o cavaleiro e, servindole de dama, rilante, de pelagem braúna, retinto, liso concolor. Ainda maiores do que os seus dianteiros da contra-guia. 2.5. Realejo e Canindé, bois do coice: , atrs ladeando o cabealo conormes, enormes, to tamanes o uanto bois podem ser, os sisudos sócios da junta do coice: Realejo, laranjo-botineiro, com polainas lã de brancas, e Canindé, bochechudo, de chifres semilunares, e, na cor, jaguanês. Vão descer uma rampa de grande declive, e os bufalões destamanhos da junta do coice aguentam o peso do carro, fazendo freio e firmando no chão os cascos, fendidos como enormes grãos de café.
ID_ PESQUISAS 134 Em qualquer descida mais pior, era só eu mostrar a vara p’ra os dois, e eles, que são boismestres de coice, iam sentando, e a canga jogando a junta p’ra riba! Por mesmo que as outras relaassem, estava tudo firme em casa A metáfora cabralina ficava cada vez mais clara: as palavras de Rosa tornam vívidos os temperamentos dos bois aludidos por João Cabral na sua tipologia das personalidades poéticas no âmbito da literatura. Em chave poética, foi possível aprender a observar as sutis diferenças que expressam as maneiras cerimoniosas que o mestre Manoel Alexandre realiza ao conduzir os seus bois aos seus respectivos postos na formação do seu carro de bois. Aos olhos de um observador que não está afeito a este universo, os trabalhos são lentos, ou melhor, aparentemente lentos. Na prática, aprenderíamos que a economia dos gestos é o segredo da rapidez dos resultados. 3. AS MADEIRAS Todas as árvores, em Conversa de Bois, são citadas pelos seus nomes populares. Identificálas nos manuais de plantas arbóreas brasileiras é tarefa quase impossível, pois, no Brasil, são muitas as espécies com as mesmas alcunhas. As características geográficas da região orientaram a primeira seleção que se mostrou insuficiente. Da linguagem científica para exposição literária de Rosa, os nomes das árvores incorporam marcas definitivas, jeitos, portes e formatos que avançam sobre os próprios significados do lugar. Da mesma forma como faz com os bois, a poesia aprofunda a predicação, guiando a nossa viagem de reconhecimento. Assim, pudemos identificá-las, uma a uma, na ordem em que comparecem no conto: 1 timbaúbas de copas noturnas 2 braadas braúnas 3 jequitibás esmoitados... 4 colher-de-vaqueiro em pirâmides verdes... 5 lano gigante de um angicoverdadeiro
ID_ PESQUISAS 141 Ao recuperar a tradição das fábulas infantis onde geralmente os bichos falam, Guimarães Rosa, em Conversa de Bois, apresenta um tema recorrente na sua obra: a comparação entre a linguagem pura, despojada, espontânea, desavisada, “iletrada” – a dos bois – e a linguagem “armada”, eivada de intenções retóricas, que caracteriza o mundo dos homens - tudo, pensado, é pior... O mundo dos bois de carro não está imune ao mundo dos homens, pois são realidades conviventes, mas distintos como Rosa aprecia frisar. O mundo dos homens é o mundo do pensamento que se distancia da natureza das coisas. O mundo dos bois é o mundo espontâneo onde a linguagem e as coisas que ele designa ainda são coincidentes. Esta é uma das lições morais desta fábula, à La Fontaine, que Rosa narra quando retrata o acontecido com o boi Rodapião, um boi dado ao pensamento, demasiadamente humano para um boi: (...) Só falava artes compridas, idéia de homem, coisas que boi nunca conversou. (...) nto, boi odapio ainda ficou mais engraado detodo alava ocs no aem como eu, só porque são bois bobos, que vivem no escuro e nunca sabem porque é que esto aendo coisa e coisa preciso pensar cada pedao de cada coisa, antes de cada comeo de cada dia E nós não respondíamos nada, porque não sabemos falar desse jeito, e mesmo porque, cada horinha, as coisas pensam p’r’a gente... Lição moral de uma história que pode ser interpretada como a evidência das limitações do pensamento contido na linguagem diante dos sortilégios da sorte e do destino. O conto narrado aponta para a falibilidade que caracteriza a condição humana, ao mesmo tempo em que observa a sabedoria existencial (de boi) de reconhecer, nas coisas, as suas lições. Engolfados no viver de cada dia, em cada momento encontramos os nossos rumos. Assim, a fala do boi não se basta em si mesma e é sempre menor que a vida. Vida que, no entanto, é susceptível de leitura. Argumento análogo foi apresentado pelo filósofo Bento Prado Jr. na sua brilhante análise sobre a obra de Rosa, onde conclui que... o mundo é um livro e nele está depositada, anterior a toda escrita, uma Escritura primordial que é preciso dizer novamente. Tarefa insuperada da literatura de Rosa. Seriam estas as lições de sua poiesis?
ID_ PESQUISAS 142 O mundo redescoberto pela poesia está fartamente disseminado neste conto. Guimarães Rosa oferece pistas, mas nunca explicações definitivas. Vejamos algumas declarações suas sobre a língua e a linguagem, para repórteres de revistas não especializadas: idioma a única porta para o infinito, mas inelimente est oculto sob montanas de cinza ... screvendo, descubro sempre um novo pedao de infinito ivo no infinito o momento no conta10. ... No Brasil a linguagem ainda não se libertou. Está virgem. Há um campo imenso para eplorar, novas ormas, maior eibilidade, maior epressividade m suma preciso cultivar a expressividade da língua. Eu não crio palavras. Elas todas estão nos clássicos, estão nos livros arcaicos portugueses. o epresses de muito valor ue eu pretendo salvar m erto veredas palavras ue nem em Portugal se falam mais. Mas existem. Para determinadas passagens, entretanto, não existem palavras. Então é preciso criá-las, ou redescobri-las através de sons que a correspondam11. Em Conversa de Bois, este exercício de libertação pela poesia já está anunciado com grandeza, riqueza e profundidade. O quem das coisas. Uma poética que domina a palavra em todas as suas dimensões sensitivas – antes de virar significado, a palavra ocupa o espaço sonoro, convidando o leitor a lê-la em voz alta para apreender melhor a paisagem sonora do sertão: O rechinar, arranhento e fanhoso, enchia agora a estrada, estridente. Mas o caminho vai. E alongam-se para diante, na paisagem luminosa, as sombras songas dos bois. Os bois tafulham as munhecas, com cloques sonoros; quando desatolam, para outra passada, a água suja escorre, chorrilhando, para encher os moldes dos cascos, e, no mais mole, as bainhas – as fundas cisternas cavadas pelos mocotós. 10 “Viagens imaginárias – O sertão e as veredas de G. Rosa” - Revista “Manchete”, 20.07.1991 11 “Guimarães Rosa fala aos jovens” - Revista “O Cruzeiro”, 23.12.1967
ID_ PESQUISAS 143 Tranco... tranco... Bate o carro, em traquetreio e solavanco. Mas, no caminho escabroso, com brocotós e buracos por todos os lados, Tiãozinho não cai nem escorrega, porque não est detodo adormecido nem detodo vigilante ormir com eu orono, escancado beato, logo atrás do pigarro. Ao final do conto, desenha-se o espaço do possível diálogo entre boi e o menino, entre a conversa dos bois e o sonho do menino, pois a linguagem dos sonhos é mais livre, espontânea e natural do que a linguagem pensada. O diálogo entre a fala/pensamento dos bois e o sonho/pensamento do menino-guia expressa a metafísica poética de Rosa, nas palavras de boi: O bezerro-de-homem sabe mais, às vezes... Ele vive muito perto de nós, e ainda é bezerro... em oras em ue ele fica ainda mais perto de nós uando est meio dormindo, pensa quase como nós bois... Ele está lá adiante, e de repente vem até aqui... Se encosta em nós, no escuro... No mato-escuro-de-todos-os-bois... Tenho medo de que ele entenda a nossa conversa... Croqui do conjunto arquitetônico. Luís Antônio Jorge
ID_ PESQUISAS 144 A derradeira lição do conto para o efeito deste trabalho é entender a conversa do mestre carreiro Manuel Alexandre na sua atividade: escolha das madeiras, o fabrico dos componentes do carro, os encaixes próprios dos materiais empregados, as ferramentas, o labor e o tempo de cada etapa, o aprendizado experimental do ofício e das suas técnicas. No mato-escuro de um conhecimento, cabe indagar se este saber não poderá ser empregado em outros objetos ou tecnologias, restabelecendo o elo entre tradição e invenção, vital para o reconhecimento de uma cultura afirmativa, como vislumbrava a arquiteta Lina Bo Bardi. Este trabalho de pesquisa, documentação e reflexão orientou a elaboração do projeto de arquitetura para a Casa da Cultura do Sertão, construído em 2008 que, sumariamente, apresentaremos a seguir. 6. A CASA DA CULTURA DO SERTÃO EM MORRO DA GARÇA (MG) A Casa da Cultura do Sertão ocupa um casarão tombado pelo município e reabilitado como área de exposição. O edifício fica na área central deste povoado, no caminho de acesso ao Morro que dá nome ao município (Morro da Garça), principal referência na paisagem Casa da Cultura do Sertão, com o imóvel tombado à frente e o Morro da Garça ao fundo A estrutura de madeira que sustenta a varanda foi inspirada nos componentes do carro-de-bois, para enquadrar a silhueta do Morro que aparece ao longe, no horizonte. Foto: Luís Antônio Jorge
ID_ PESQUISAS 145 daquela região de Minas Gerais. A pequenina Morro da Garça tem suas origens no século XVII, como parada no caminho boiadeiro que ligava a Bahia até a Vila de Sabará. O conto O Recado do Morro, publicado pela primeira vez no livro O corpo de baile (1956) de João Guimarães Rosa, faz referência direta a este Morro e a paisagem do lugar: estava o orro da ara solitrio, escaleno e escuro, eito uma pirmide (...) E assim seguiam de um ponto a um ponto, por brancas estradas calcáreas, como por uma linha vã, uma linha geodésica. Mais ou menos como a gente vive. Lugares (...) Queriam subir, e ver. O mundo disforme, de posse das nuvens, seus grandes vazios. (...) m cada momento espiava de revs, para o orro da ara, posto l, a nordeste, testemunho. Belo como uma palavra. Pavilhão técnico, implantado na cota mais baixa do terreno. Foto: Luís Antônio Jorge Interior da casa restaurada, com a exposição sobre brinquedos e bonecas tradicionais no sertão. Foto: Luís Antônio Jorge
ID_ PESQUISAS 146 A idealização da Casa de Cultura do Sertão se justifica, em grande parte, por se situar neste Morro, personagem de um dos contos mais celebrados de Guimarães Rosa, fato que tem levado, já há muito tempo, a realização de eventos regulares dedicados ao autor. O projeto responde a estas demandas e serve para expor acervos relativos à cultura local, reunir pesquisadores e promover ações educativas e de difusão cultural sobre o universo do escritor Guimarães Rosa. E cada vez mais, recebe, também, turistas atraídos pelo programa oficial do Estado de Minas Gerais que instituiu o Circuito Turístico Guimarães Rosa. O projeto elaborou o restauro do casarão, eliminando interferências posteriores que feriam as características originais, mas também propôs novo arranjo espacial interno, conectando espaços segregados. Da mesma forma, realizou ampliações e um anexo. O quintal da antiga casa tornou-se um largo que orienta o acesso principal ao conjunto, feito por um espaço avarandado, onde foi construída uma cozinha caipira. Ele funciona como átrio e elemento de conexão entre o casarão e o novo pavilhão técnico. Foi a partir do conhecimento do processo de construção de um carro de bois que idealizamos a estrutura de madeira – sobretudo, as tesouras - que sustenta essa varanda. A estrutura faz referência às chedas da mesa do carro de bois e forma uma moldura para a silhueta do Morro, uma espécie de homenagem àquele que funciona como um farol, orientando as travessias dos viajantes do sertão. O pavilhão técnico, de linguagem contemporânea, fica em cota inferior do terreno. O muro de contenção que o protege foi construído com tapiocanga, uma pedra local. O volume possui cobertura ajardinada pelo capim que nasce entre as pedras do calçamento da cidade. O projeto também definiu novo acesso pela rua lateral, a partir da loja que vende produtos artesanais da comunidade. A cobertura da loja é uma extensão do ateliê do casarão, no nível do peitoril das janelas, projetado como um lugar também integrado ao único espaço expositivo ou de encontros e convívio. Internamente as paredes são caiadas e pelo lado de fora foram pintadas com pigmentos terrosos da região, retomando antiga técnica de pintura a cal. Toda a construção valeu-se da mão de obra e dos materiais locais, sendo alguns, reciclados. A Casa da Cultura do Sertão foi inaugurada com uma exposição denominada Brinquedos para meninos quietos, cujos trabalhos foram fruto de um conjunto de oficinas educativas e artístico-culturais realizadas em várias comunidades da região. Os participantes, na maioria, idosos e crianças produziram brinquedos tradicionais ou inventaram novos brinquedos com os materiais mais singelos disponíveis nos lugares: tudo aquilo que à fantasia é dado ver.
ID_ PESQUISAS 147 Créditos: Pesquisa e Projeto Arquitetônico: Luís Antônio Jorge Arquitetos colaboradores: Flávia Zelenovsky, Cássio Castro e Pedro Britto Casa Cultura Sertão, planta e corte do Projeto Arquitetônico